Haverá de fato uma escravi dão li bertadora e uma li berdade escravi zante?

A análi se de um versí culo da Epí stola de São Paulo aos Gálatas
proporciona os elementos para uma adequada resposta.
Liberdade e escravidão são palavras que soam taxativamente antagônicas, sobretudo para os ouvidos da nossa
civilização contemporânea. Mas elas encontram nas palavras de São Paulo aos fiéis da Galácia uma harmonia admirável:
"Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo
contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade" (Gal 5, 13). Como explicar esse paradoxo?
O Apóstolo das Gentes ensina neste versículo de sua carta aos gálatas que a verdadeira liberdade trazida por
Nosso Senhor Jesus Cristo não pode ser vivida de modo autêntico senão no serviço aos demais. Nessa perspectiva, ele
nos põe ante um dilema: ou se é servo do outro por amor a Cristo, ou se é escravo da carne por amor a si mesmo.
O choque produzido por essa nova doutrina entre pagãos e judaizantes foi de tal magnitude que mudou a vida e a
forma de analisar as relações humanas em toda a Bacia do Mediterrâneo. Nasceu com ela o conceito da verdadeira liberdade dos filhos de
Deus redimidos pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Haverá de fato uma escravidão libertadora e uma liberdade escravizante? A análise do versículo acima transcrito, no qual o Apóstolo
denomina liberdade aquilo que hoje se considera escravidão e qualifica de escravidão o que hoje se vê como liberdade, proporciona os
elementos para uma adequada resposta a esta pergunta.
Concei to de l i berdade ao longo da Hi stóri a
Pode-se, de algum modo, dizer que a História da humanidade é a história da liberdade.1 Uma liberdade que permite ao homem
tomar suas decisões, escolher seu papel, e, portanto, governar seu próprio destino.
O desejo de ser livre foi e é um dos maiores anelos do ser humano. Essa sua constante preocupação deu lugar a tantas definições de
liberdade quantas épocas, culturas, civilizações, correntes filosóficas e, quase se poderia dizer, pessoas existiram ao longo da História.
Para quem percorre au vol d'oiseau o período compreendido entre o final da Idade Média e a atualidade, salta à vista que, com o
passar do tempo, a ideia de liberdade foi aos poucos se divorciando de suas relações e compromissos com outros valores como a
responsabilidade, o sacrifício, a renúncia, a dignidade, a Fé e, em suma, com o próprio Deus... Valores esses que, em outras épocas,
impunham à liberdade um equilibrado contraponto.
Com efeito, a partir do Renascimento, em sua ansiosa busca da liberdade,
o homem foi-se desprendendo do amor à austeridade e ao sacrifício, bem como
dos anelos de santidade e de vida eterna, procurando uma ordem
fundamentalmente diversa daquela que chegou a seu apogeu nos séculos XII e
XIII.2
Começou, assim, a desenvolver-se na época do Renascimento, com base
em modelos da Antiguidade Clássica pagã, um processo de secularização, isto é,
um desvanecer dos princípios ditados pela Fé, marcado por uma notável atitude
antiescolástica e anticlerical, que se acentuaria ao longo dos anos e chegaria,
em algumas de suas manifestações, a querer sobrepujar o Cristianismo,
propondo aos homens padrões de comportamento de caráter estoico-epicurista,
como foi o libertinismo renascentista.3
A emanci pação da razão
É preciso notar que essa crise de fé e secularização ocasionou o desvio do
senso religioso do homem para elementos terrenos que passaram a ser
absolutizados.4 Do teocentrismo se passou ao antropocentrismo. Temos hoje um
mundo desmitificado, racionalizado, desencantado.
A emancipação da razão foi se desenvolvendo paralelamente a esse
movimento de secularização. Confiando cada vez mais na própria razão, o
homem criou para si um método de análise que submeteu toda investigação e
todo estudo à mera experiência. Porém, essa exaltação da razão permaneceu
somente na apreciação científico-racionalista das leis naturais? Não, ela
submeteu a seu crivo também os âmbitos artístico e econômico; mais ainda,
A escravidão que liberta
À proposta de liberdade feita por Jesus, os fariseus respondem
com soberba e mostram que o pecado, além de
escravizar, cega
"J esus discutindo com os fariseus" - Biblioteca do Mosteiro
de San Millán de la Cogolla (Espanha)
dele não excluiu sequer a religião.
Aos poucos, sobretudo a partir do Iluminismo, as obrigações que deviam
acompanhar a liberdade se desprenderam de seu fundamento religioso.5 Surgiu
uma moral civil, secularizada, na qual os deveres para com Deus se transferem
para a esfera profana e se metamorfoseiam em compromissos laicos consigo
mesmo ou com a coletividade. Com isso, relativizou-se a moralidade das ações
humanas, já que o homem erigira para si um pedestal, constituindo-se juiz de
seus próprios atos.
Passo a passo foi sendo olvidado o senso do dever, tão característico da cultura judeu-cristã, na qual a ideia de serviço estava
profundamente arraigada. A felicidade já não era fruto do reconhecimento e do serviço à verdade, mas sim da liberdade absoluta,
alcançada graças ao progresso da ciência.
Satisfação i li mi tada dos capri chos
A evidência dos fatos torna inegável que a luta pela liberdade e pelo domínio da natureza acarretou enormes benefícios em quase
todos os campos de atuação do ser humano. Porém, como foi acima assinalado, tais progressos se desenvolveram à margem de uma moral
capaz de delimitar com clareza as fronteiras entre o bem e o mal, em busca de uma liberdade da qual o senso de responsabilidade está
quase ausente.
Hoje, sobretudo na sociedade ocidental, a técnica e a ciência proporcionaram tanto conforto material e tantos prazeres, que a
ideia de abnegação vai perdendo o seu valor, passando os homens a estimular de modo exclusivo aquilo que satisfaz os desejos imediatos e
o próprio ego6, com vistas à liberação dos instintos desregrados.
A autorrealização serviu de pretexto para alimentar todo tipo de luta
utópica com o objetivo de possibilitar que as paixões humanas campeiem sem
nenhum controle da inteligência e da vontade, permitindo à fantasia e às
"vivências" predominarem no espírito, em detrimento da análise sériae metódica
da realidade.7
Como se não bastasse, acrescente-se a isso a ampla difusão das teorias de
Sigmund Freud e de outras escolas de psicologia, cujo conceito de liberdade
abriu campo para incontáveis concessões ao egoísmo humano, criando e
difundindo uma cultura na qual prima a satisfação ilimitada dos caprichos
egocêntricos, 8 buscando "implantar sobre o túmulo do dever o reinado da
vontade arbitrária".9
Novas formas de escravi dão
À vista disso, ter-se-ia a impressão de que o homem quer assemelhar- se
cada vez mais ao animal, almejando o poder de gozar da estepontaneidade
deste. Entretanto, há algo que diferencia profundamente o ser humano do
animal irracional: por causa do pecado original ficou a natureza humana
desordenada, necessitando do auxílio da graça para bem obrar estavelmente.
Enquanto os animais possuem os instintos ordenados segundo a sua natureza.
Grande equívoco seria, então, querer identificar liberdade com
espontaneidade. Pelo contrário: a liberdade é, de alguma forma, a negação da
espontaneidade. A todo momento deve o homem julgar e agir frente a fatores
novos que vão surgindo, e o acerto de suas decisões depende, em grande
medida, do concurso da razão e da vontade.
O egoísmo leva o homem a não ver que a liberdade é condicionada por
fatores morais, psicológicos, sociológicos, etc., e que, no fundo, não se é livre
de, mas sim para tomar sua própria postura frente a todos esses fatores.10
Não obstante, esse egoísmo não deixou de cobrar seu tributo e,
paradoxalmente, o mesmo homem que se afanava em obter a felicidade por
meio de uma liberdade irresponsável, viu-se às voltas com novas ameaças e,
mais grave ainda, com novas formas de escravidão, a pior das quais é o próprio
ego - o qual Paulo denominaria o:pÇ, carne - que submete e engana o indivíduo.
Tirania do ego que conduz a pessoa a uma situação de desequilíbrio,
fazendo-a oscilar continuamente entre o delírio de sentir-se onipotente e árbitro de tudo, e a depressão autodestrutiva e
autoaniquiladora.11
Assim sendo, nos poucos momentos de tranquilidade que o homem hodierno consegue encontrar, quando passa mentalmente em
revista a "neurótica sarabanda das decepções, das preocupações, das ambições descabeladas e dos cansaços exacerbados", surge em seu
espírito uma pergunta: "Para que viver?".12 Pergunta, sem dúvida, mais própria de um escravo que de um homem livre.
Com efeito, a liberdade dirigida pelo egoísmo conduz sempre à escravidão, porquanto a liberdade não é capaz de libertar por si
mesma. O que pode tornar livre o ser humano é a verdade procurada livremente.13
A li berdade como pretexto para a escravi dão da carne
Face a esse triste paradoxo no qual a busca da liberdade acaba em escravidão, o Apóstolo Paulo propõe um paradoxo ainda maior e
per diametrum oposto ao enfoque do primeiro: a liberdade deve ser alcançada mediante o serviço ao próximo por amor a Deus. Muito bom
conhecedor das sendas humanas, ele traz a esperançosa notícia de que a humanidade está chamada à liberdade em Jesus Cristo, mas, ao
mesmo tempo, não deixa de prevenir quanto ao perigo que o mau uso dessa liberdade pode acarretar.
Recomendando cuidado para a liberdade não se tornar um pretexto para a carne - palavra que signfica não só a sensualidade
humana, mas também tudo quanto há de soberba e orgulho no homem -, São Paulo parece ter presente de alguma forma o fato narrado
pelo Evangelista São João, no qual os fariseus se jactam perante o Senhor de nunca terem sido escravos de ninguém (cf. Jo 8, 33).
À proposta de liberdade feita por Jesus, os fariseus respondem com soberba e mostram que o pecado, além de escravizar, cega e
deixa o ser humano praticamente incapaz de discernir a verdade. Alardeando sua liberdade, olvidam eles que a história do povo hebreu é
uma prova inegável de como os israelitas ficaram submetidos à escravidão dos povos circunvizinhos todas as vezes que voltaram as costas
ao Senhor.
Mas isso não acontece somente ao povo hebreu: quem se entrega ao pecado torna-se escravo do pecado (cf. Jo 8, 34), e seria um
contrassenso que a liberdade anunciada por São Paulo - a qual engloba não só a libertação referente à Lei, mas também, e, sobretudo, ao
pecado - acabasse sendo um pretexto para este último.
A solução proposta por São Paulo: escravi dão de amor
O Apóstolo lhes dá logo em seguida o remédio para que essa liberdade possa
com toda a propriedade ser chamada cristã: fazei-vos servos uns dos outros pela
caridade.
Convém ressaltar que este imperativo "fazei-vos servos" (òouAc:ctc - duléuete)
deveria ser traduzido mais exatamente como "fazei-vos escravos", uma vez que
doulos, em grego, significa escravo. Não é, portanto, um serviço próprio do
assalariado, mas daquele que serve sem direito a nenhuma retribuição.
E sem embargo - eis o paradoxo - São Paulo afirma que a liberdade deve ser
adquirida mediante esse tipo de serviço (escravidão) aos demais. Somente
convertendo-se em servo do próximo por amor a Deus, é que o homem pode alcançar a
tão anelada liberdade. Escravidão de amor: esta é a solução que São Paulo propõe aos
gálatas para se manterem na verdadeira liberdade, a liberdade de Cristo. Mas essa
escravidão de amor não é simplesmente o remédio para não cair na escravidão da
carne. Não é um medicamento, uma vacina cuja utilidade se limita a preservar o
indivíduo das garras do pecado.
Gaudi osa dependênci a do ser humano com relação a Deus
O Apóstolo tem muito claro que o homem, sendo criatura, é um ser limitado e,
como tal, corresponde-lhe uma liberdade restringida e dependente; esta se reduz à
possibilidade de escolher o senhor a quem se quer servir, "seja o pecado para a morte,
seja a obediência para a justiça" (Rm 6, 16).
Além disso, o conceito de São Paulo sobre o serviço (escravidão) ultrapassa de
muito o significado que se lhe dá nos tempos atuais. Como hebreu, sua ideia de
escravidão adquire um sentido profundamente religioso; escravo é quem se encontra
na dependência total e absoluta de seu senhor, a serviço do qual deve consagrar todas
as suas atividades.
Cabe ressaltar também que no mundo judaico o homem está convencido de que
Deus é o Senhor absoluto de todas as coisas, e sente uma total dependência d'Ele.
Assim, ser eleito por Deus para servi-Lo não é algo humilhante, pois Ele manifesta seu
amor ao povo hebreu por meio da eleição. Ser escravo exprime não só serviço, mas
também a gaudiosa dependência do ser humano com relação a Deus.
Liberto do pecado pelo Batismo, deve o cristão viver na plena e alegre
convicção de que, como pessoa resgatada, tornou-se propriedade de Cristo, seu novo Senhor, a quem deve todo acatamento, já que a
liberdade cristã somente pode ser concebida a partir da "experiência da dependência total com respeito a Deus".14
É o que São Paulo quer transmitir quando exorta a servir a Cristo, partindo de sua própria vivência de dependência absoluta d'Aquele
que o amou e Se entregou por ele (Gal 2, 20), pois essa doação total só pode realizar-se a partir da experiência pessoal do amor a Deus.
Membro separado do seu Senhor
Com efeito, a escravidão surge da plena convicção de que Aquele a quem se faz a entrega supre com sua Virtude Amorosa todas as
carências e debilidades próprias do ser humano, as quais o impedem de praticar o bem que desejaria (cf. Rm 7, 18). Essa convicção,
porém, não é um mero fato racional, é um autêntico ato de fé que une vitalmente com Cristo, o qual demonstrou seu amor
entregando-Se.15
O escravo de Cristo "crê, pois, que sua vida é amada no amor de Cristo",16 convertendo-se essa crença no impulso vital de todas as
suas ações. O próprio Paulo reconhece que o amor de Cristo "foi o princípio determinante de sua Paixão",17 pois, como diz: "me amou e Se
entregou por mim" (Gal 2, 20; cf. Ef 5, 2.25).
Por causa dessa fé, o escravo, como membro separado de seu Senhor (Ef 5, 30),
passa a ter a mesma vida que Ele, podendo dizer com Paulo: "Eu vivo, mas já não sou
eu; é Cristo que vive em mim" (Gal 2, 20).
Cristo vive no escravo não apenas através de um mero estar, mas de forma
operante pela qual ele quer o que Cristo quer, pensa o que Cristo quer que ele pense
faz o que Cristo quer que ele faça. E o escravo, antes impotente para a prática do
bem, consegue, por meio dessa união com Aquele que lhe dá força, fazer tudo (cf. Fl
4, 13).
Dessa forma, a doação total do homem a Deus se transforma em liberdade, pois
"se este Criador nos ama e nossa dependência consiste em estar no espaço de seu
amor, neste caso a dependência é liberdade".18
Semelhante a Cri sto por meio do servi ço aos demai s
A liberdade deve, pois, ser alcançada por meio da escravidão a Cristo Senhor
nosso. Mas como "quem não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a
quem não vê" (I Jo 4, 20), será possível ser escravo de Cristo sem ser escravo dos
demais?
Paulo considera que o cristão, redimido do pecado pelo Batismo, entrou na
esfera do amor de Deus, fazendo-se ele mesmo amante. Entretanto, não só em
relação a Deus, mas também em relação aos demais, porque "quem se reconhece
amado, torna-se ativo no amor".19
Por isso o próximo, "especialmente os irmãos na fé" (Gal 6, 10), passa a ser o
contrário da carne e nele não se deve ver senão um reflexo de Cristo. "Todas as vezes
que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim mesmo que o
fizestes" (Mt 25, 40), afirmou o Divino Mestre.
De fato, "sendo levados pelo amor de Cristo na Fé, nos tornamos livres para o
amor, que conduz também ao próximo e, desse modo, cumpre a Lei em tudo quanto
tem de vontade divina",20 pois a prática da caridade satisfaz a todas as exigências
propostas pela lei.
Para o escravo de Cristo já não há mais lei senão a de Cristo (cf. I Cor 9, 21), a qual resume toda a regulamentação da lei antiga e,
baseada no amor, impele o ser humano rumo aos demais para servi-los e fazer- lhes bem, o que, por sua vez, fortifica sua fé em Cristo.21
Proveniente "sentido profundo da vida de Cristo"22, o mandamento do amor é obrigatório. Por isso, sendo o cristão outro Cristo,
deve também fazer-se semelhante a Ele por meio do serviço aos demais.
Nessa perspectiva, o cristão subordina todas as suas regras de conduta ao ideal do amor ao próximo, preocupando- -se pelos demais
e entregando-se totalmente à vida da comunidade. Por isso, sua fidelidade ou infidelidade à lei de Cristo se medirá em função da atitude
que tenha frente às carências e dificuldades do próximo; atitude não pontual nem isolada, mas profundamente responsável e constante.
E quanto mais o homem é generoso em corresponder a esta vocação a qual Cristo o chama, por meio do olvido de si mesmo,
entregando- se a uma tarefa ou a uma pessoa, por amor a uma causa, sem preocupar-se consigo mesmo, tanto mais se realiza como ser
humano,23 tanto mais é ele mesmo e obtém a ventura e a felicidade de ter cumprido o desígnio de Deus.
Dessa maneira, o "fazei-vos servos uns dos outros pela caridade" se transforma em instrumento de liberdade, deixando claro que a
felicidade não consiste em ter tudo sem limite, mas em dar-se por inteiro.
Solução para tantos males hodi ernos
Nesta época em que a sociedade está ébria de liberdade, naturalismo, falso otimismo e conforto egoísta, a mensagem de São Paulo
nos interpela, com a intenção profética de denunciar e, ao mesmo tempo, indicar o caminho.
Como solução a tantos males hodiernos, o Apóstolo propõe sacrifício, abnegação
e entrega, prometendo como prêmio a verdadeira liberdade, esse valor que todos
buscam afanosamente, tantas vezes em vão. Pode ser que, apesar de tudo, em algum
cristão permaneça a dificuldade psicológica de ver harmonizados os vocábulos amor e
escravidão, ou escravidão e liberdade. Como explicar que alguém seja capaz de
submeter-se de livre e espontânea vontade a outrem? Escravidão de amor não é um
contrassenso?
Entretanto, amor é o ato pelo qual a vontade quer livremente algo. Assim,
escravidão e amor podem andar unidos na nobre decisão pela qual uma pessoa se
entrega livremente a um ideal, a uma causa, a serviço dos demais.
É o exemplo que Jesus dá a seus Apóstolos na Última Ceia: depois de lhes ter
lavado os pés - serviço próprio de escravos - e declarar- -Se Mestre e Senhor a quem
eles devem imitar, exorta-os a lavar os pés uns dos outros, a servir uns aos outros como
escravos (cf. Jo 13, 12-15).
Magnífico exemplo se encontra também na livre escolha feita pela Escrava do
Senhor (cf. Lc 1, 38), quando aceitou ser a Mãe de Deus: livre porque responde à
interpelação de Deus como uma pessoa não submetida previamente; livre porque Ela
vive sua liberdade em relação a Deus e aos demais com uma equilibrada consciência de
Si, cuja humildade não A detém, mas, pelo contrário, lança-A, confiante, nos braços de
Deus.24
E com essa mesma confiança Ela lançou-Se também a servir os demais, não
duvidando um instante em - sendo já Mãe de Deus - acorrer em ajuda de sua prima
Isabel e pôr-Se a seu serviço.
Assim, na contemplação da atitude de Maria Santíssima encontraremos a
verdadeira fórmula para seguir os passos de Cristo, Servo Sofredor (cf. Is 52, 14; 53,
12), que por amor à humanidade não duvidou em assumir a condição de escravo e
tornar-Se obediente até a morte, e morte de cruz (cf. Fl 2, 7-8). Revista Arautos do
Evangelho, Jun/2012, n. 126, p. 18 à 25)
Notas:
1 Cf. AYLLÓN VEGA, José Ramón. Filosofía Mínima. Barcelona: Ariel, 2007, p.151.
2 Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. São Paulo: Retornarei, 2002,
p.27-28.
3 Cf. FAZIO FERNÁNDEZ, Mariano. Historia de las ideas contemporáneas. Una lectura del proceso de secularización. 2.ed. Madrid: Rialp, 2007, p.29.
4 A partir do séc. XVIII a situação mudará radicalmente, "sacralizando-se" elementos terrenos e dando lugar a novas divindades: a razão, a ciência, o
progresso... (cf. FAZIO, op. cit., p.23).
5 Cf. LIPOVETSKY, Gilles. El crepúsculo del deber. La ética indolora de los nuevos tiempos democráticos. 5.ed. Barcelona: Anagrama, 2000, p.12.
6 Cf. Idem, ibidem.
7 Cf. Corrêa de Oliveira , op.cit., p.75.
8 Cf. GONZÁLEZ-QUEVEDO, Luis. Vocação. In: APARICIO RODRÍGUEZ, Angel; CANALS CASAS,
Joan (Dir.). Dicionário Teológico da Vida Consagrada. São Paulo: Paulus, 1994, p.1158-1159.
9 AYLLÓN VEGA, José Ramón. Introducción a la ética. Historia y fundamentos. Madrid: Palabra, 2006, p.91.
10 Cf. FRANKL, Viktor Emil. Ante el vacío existencial. Hacia una humanización de la psicoterapia. 9.ed. Barcelona: Herder, 2003, p.123.
11 Cf. MARTINI, SJ, Carlo María. Una libertad que se entrega. En meditación con María. Santander: Sal Terræ, 1996, p.41.
12 CorrÊa de Oliveira , Plinio. A ti caro Ateu. In: Folha de S. Paulo. São Paulo: 31 de ago. 1980, p.3.
13 Cf. SAYÉS BERMEJO, José Antonio. Teología y relativismo. Análisis de una crisis de fe. Madrid: BAC, 2007, p.205.
14 TUÑI, Oriol. La Biblia día a día. Comentario exegético a las lecturas de la Liturgia de las Horas. 2.ed. Madrid: Cristiandad, 1981, p.580.
15 Cf. LEAL, SJ, Juan. Carta a los Gálatas. In: La Sagrada Escritura - Nuevo Testamento. 2.ed. Madrid: BAC, 1965, v.II, p.615.
16 SCHLIER, Heinrich. La Carta a los Gálatas. 2.ed. Salamanca: Sígueme, 1999, p.122.
17 BOVER, SJ, José María; CANTERA BURGOS, Francisco. Sagrada Biblia. Versión crítica sobre los textos hebreo y griego. Madrid: BAC, 1947, t.II, p.410.
18 BENTO XVI. Discurso à Comunidade do Pontifício Seminário Romano Maior, de 20/2/2009.
19 GÜNTER, W.; LINK, H.G. Amor. In: COENEN, Lothar; BEYREUTHER, Erich; BIETENHARD, Hans (Org.). Diccionario Teológico del Nuevo Testamento. 3.ed.
Salamanca: Sígueme, 1990, v.I, p.115.
20 SCHLIER, op. cit., p.284.
21 Cf. FITZMYER, SJ, Joseph Augustine. Teología de San Pablo. Síntesis y perspectivas. Madrid: Cristiandad, 1975, p.161.
22 Cf. BECKER, Jürgen. Apóstolo Paulo, vida, obra e teologia. São Paulo: Academia Cristã, 2007, p.425.
23 Cf. FRANKL, op. cit., p.17.
24 Cf. Martin I, op. cit., p.39-40.

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