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Profª Mônica M.

Perny

MÓDULO 4

O BRINCAR COMO PROCESSO PSICANALÍTICO

4.1 - SIGMUND FREUD

4.2 - CONTOS: REPETIR PARA ELABORAR

4.3 - CONTOS DE FADAS, SONHOS E FANTASIAS

4.4 - MELANIE KLEIN

4.5 - DONALD WOODS WINNICOTT

4.6 - FRANÇOISE DOLTO

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS 6 – REFERÊNCIAS

ou melhor. Nunca lhe ocorrera á puxá-lo pelo chão atrás de si. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. descrita em sua obra “Além do princípio do prazer”. ao brincar. por exemplo.1 . ansiedades e entre outros. de 18 meses de idade. a criança é capaz de expressar seus medos. a sexualidade infantil e o complexo de Édipo. Freud começou a se interessar pela questão do brincar a partir da observação de uma brincadeira do próprio neto. 4.O BRINCAR COMO PROCESSO PSICANALÍTICO O brincar possui uma longa história na Psicanálise. toda criança se comporta como um escritor criativo. Ernstl. Freud (1908) no texto “Escritores criativos e devaneios” já discutia a relação entre as fantasias da criação poética e o brincar da criança. Acaso não poderíamos dizer que. de 1920. se faz necessário discorrer a respeito do jogo do Fort-Da. desejos. tornando-se um caminho favorável para estabelecer a comunicação com as crianças. reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Ao pensar em brincar à luz da psicanálise. com suas teorias sobre a dinâmica do inconsciente.SIGMUND FREUD Sigmund Freud revolucionou o pensamento a respeito da criança em vigor na época. o que teria dificuldades de expressar com palavras. . Através dos jogos e brincadeiras. pois cria um mundo próprio.

Nesse jogo de atirar e trazer de volta o carretel. que envolvem o sujeito. portanto. faz referência ao jogo do fort-da e retoma a questão da repetição em Freud. produz um gozo para-além do princípio do prazer. Desta forma. seus vizinhos. no Seminário 11. mas no seu ser” (apud JERUSALINSKY. O jogo possibilitou o bebê transformar uma situação na qual estava passivo para outra na qual passa a ser ativo. 1920). são tudo aquilo que o constituiu. somos estruturado estruturados a partir da fala e da linguagem. ao mesmo tempo que o menino preferia seu expressivo ‘ó-o-ó’. o jogo do fortda instaura a entrada da criança na linguagem pela utilização de um . a compulsão a repetição vista no jogo. repetir situações satisfatórias e elaborar o que lhe foi sentido como traumático. Puxava então o carretel para fora da cama novamente. é: ”o como linguagem”. toda a estrutura da comunidade. Freud faz referência a renuncia pulsional o fato da criança ter a capacidade mental de lidar com a ausência da mãe e assim lidar com a frustração que serve de estimulo para brincar. de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas. e saudava o seu reaparecimento com um alegre ‘da’ (FREUD. seus pais. que o constituiu não somente como símbolo. Inconsciente é O principal axioma de Lacan (1964). Jacques Lacan. Para o psicanalista “as palavras fundadoras. Para Freud (1920) a criança não se mostrou indiferente a partida da mãe. repetidas vezes. Para Lacan. era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada. Assim a repetição desse jogo. por meio do cordão. a criança busca transformar uma situação passiva em ativa. 1984).e brincar com o carretel como se fosse um carro. tem relação com a partida e o retorno de sua mãe. O que ele fazia.

de maneira que esta esteja a mercê do seu desejo. o que está em jogo é a repetição da saída da mãe. Assim ele aponta que a criança brinca não somente para viver situações satisfatórias. O ato de tornar presente o “ausente” marca a entrada do sujeito no simbólico.primeiro par significante. elaborando-a. Mas para Lacan. Sem dúvida. Segundo Lacan (2008) o que o jogo visa é o que não está lá enquanto representado. Apesar da criança repetir inúmeras vezes a primeira ação. Logo. Assim a criança através da sua brincadeira simboliza a ausência da mãe. Simbolizar é. foi a segunda. O texto mostra a importância e a função da simbolização na constituição da criança. a criança pode integrar de maneira positiva em sua realidade psíquica uma experiência desagradável. mas também para elaborar as que lhe foram dolorosas e traumáticas. É olhar e substituir o objeto perdido por outro. considerada como fonte de prazer. sentir a perda. Este é o olhar do psicanalista que observa uma criança brincando espontaneamente. pois o jogo é essencialmente o Repräsentanz da Vorstellung. e ainda que a compreensão do brinquedo só é possível a partir da noção do inconsciente. ao brincar (simbolizar) a partida e o retorno da mãe. 4. gerando a cisão do sujeito. portanto. o que precisa ser assimilado pelo sujeito é o que se .CONTOS: REPETIR PARA ELABORAR A repetição significante é a simbolização de uma presençaausência que articulada a palavra faz com que a relação mãe-bebê passe a ser mediada pela linguagem. que chamou a atenção de Freud. pode-se afirma que Freud estabeleceu os marcos referenciais básicos para entender a natureza e a função da atividade lúdica na criança.2 .

que é o da escolha entre três mulheres. que versa sobre uma escolha do destino. o encantamento que sentimos não vêm do significado psicológico de um conto (embora isto contribua para tal). Freud utiliza peças dramáticas como “Édipo-Rei”. de Sófocles e “Hamlet”. para articular questões pertinentes ao sujeito e à cultura. 1980). Freud (1919) utiliza “O Homem da Areia”. Em “O Estranho”. achar que possui e saber que o outro possui ou não. Freud. no texto “O tema dos três escrínios” (1913) faz uma interpretação de um tema muito comum nos contos de fadas. .repete. do significado que desliza sob a cadeia significante. conto traduzido por Baudelaire (Lacan. do saber possuir. mas de suas qualidades literárias – o próprio conto como uma obra de arte. porém nunca da mesma maneira. m as tão familiar do sujeito. das posições em que se colocam os sujeitos a partir da posse ou não da carta. como um duplo. "a repetição demanda o novo" (Lacan. por mais desagradáveis que sejam as experiências vividas pelas crianças. O prazer que experimentamos quando nos permitimos ser suscetíveis a um conto de fadas. Para o psicanalista Bruno Bettelheim. no percurso sob o significante que é a carta. O psicanalista Jacques Lacan também usou referências da literatura para explicar algumas questões que ele coloca. 1998) ele discorre a sua teorização acerca do significante. e que lhe aparece como estranho. O conto de fadas não poderia ter seu impacto psicológico sobre a criança se não fosse antes de tudo uma obra de arte (BETTELHEIM. para falar do sentimento estranho. elas irão aparecer como tema das suas brincadeiras. de Hoffmann. No seminário sobre “A carta roubada”. em sua releitura de Freud. 1998). de Shakespeare. Na obra freudiana encontram-se muitos exemplos da interconexão entre Psicanálise e a Arte. mais especificamente a Literatura. Por isto.

Disso decorre que estamos sujeitos ao efeito do inconsciente. uma vez inseridos no mundo da linguagem. a fálica). De acordo com Freud. o que preserva a relação entre o brincar infantil e a criação poética é a linguagem. O principal axioma de Lacan (1985) é: “o Inconsciente é estruturado como linguagem”. depois com gestos e palavras e. Assim. lidamos todo o . A criança. ou seja. Desde os primeiros dias ela aprende que para satisfazer suas necessidades necessita comunicar-se: primeiro com choro e gritos. por fim. Desde o nascimento a criança passa por momentos de perdas importantes: as castrações (umbilical. se comporta como um escritor criativo. a criação literária. do desmame. para Freud seria semelhante ao brincar infantil por sua tentativa de reajustar o mundo. somos estruturados a partir da fala e da linguagem.Não há duvidas quanto às relações que a Psicanálise estabelece com a Arte e em especial com a Literatura. enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. pois cria um mundo de fantasia que é levado a sério. A capacidade de simbolizar nasce com o ser humano e estruturase a partir de dois movimentos: conhecer o objeto e perder o objeto. Estes processos vivenciados até os cinco anos são importantes para a formação semiótica e permitem a criança simbolizar o mundo. tomando como base as seguintes questões: Qual o valor terapêutico dos contos para a criança em análise? Qual a função dos contos para o desenvolvimento psíquico do sujeito? Quando uma criança nasce inicia o seu ciclo de aprendizagem. Neste ponto.” (1908). “no qual investe uma grande quantidade de emoção. torna-se importante refletir sobre os aspectos da teoria psicanalítica acerca da Literatura infantil. com ações muitas vezes inconscientes. em seu brincar.

Apesar de. de seus superiores e. com imagens e com símbolos que se articulam continuamente. da Guerra Turca. Ele termina o ensaio com o seguinte parágrafo: E aqui temos a aplicação prática que foi prometida. causadores do sintoma do paciente. “fora primeiro autor em cujos escritos penetrara profundamente” (FREUD. A técnica da livre associação tem como objetivo trazer para a mente inconsciente às memórias ou os pensamentos reprimidos. Ludwig Börne chamou a atenção de Freud. Portanto. tornando-se um conceito de grande importância para a Psicanálise. Freud já havia lido a respeito do processo. o termo compulsão ter sido documentado numa carta ao . Antes de utilizar a associação livre como técnica psicanalítica. Escreva o que pensa de si mesmo. do julgamento de Fonk. Esta é a arte de tornar-se um escritor original em três dias (BORNE. tudo o que lhe vier a cabeça. Segundo Freud. quando os três dias houverem passados. 1923 apud FREUD. de Goethe. ficará espantadíssimo pelos novos e inauditos pensamentos que teve. Ludwig Börne em 1823 escreveu “A Arte de Tornar-se um Escritor Original em Três Dias”. com o qual Freud veio a ter contato muitos anos depois. O autor. quando este ainda era adolescente. sem falsidade ou hipocrisia. 1920). 1920). a ideia de uma tendência à repetição sofre modificações teóricas no seu percurso. É um breve ensaio de apenas quatro páginas e meia. o sujeito da psicanálise é o sujeito do inconsciente enquanto manifestação única e singular. do Juízo Final. Börne. Pegue algumas folhas de papel e por três dias a fio anote. Sigmund Freud introduziu a técnica da associação livre na clinica psicanalítica em substituição ao método catártico. Na leitura das obras de Freud observar-se que.tempo com palavras. de sua mulher.

2003). repetir e elaborar escrita em 1914 (ROUDINESCO & PLON.médico alemão Wilheim Fliess em 1894. Nesse sentido. uma criança é capaz de aproveitar integralmente o que a estória tem a lhe oferecer com respeito à compreensão de si mesma e de sua experiência de mundo. 11 a considera como um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise. De acordo com Bettelheim. O psicanalista francês Jacques Lacan (1963-1964) em O seminário. livro. se o inconsciente é recalcado e nega-lhe passagem à consciência. mas algo que se refere a nós mesmos. Só escutando repetidamente um conto de fadas e sendo dado tempo e oportunidade para demorar-se nele. Desde os primeiros textos de Freud a ideia de uma tendência à repetição (Widerholung) liga-se à de compulsão (Zwang). Os contos de fadas apresentam “uma variação sobre o mesmo tema: o ser humano se buscando e buscando o sentido de sua vida” (BONAVENTURE. o conto de fadas permite que a criança entre em contato com estes conteúdos que nem sempre são tocados por outras atividades. Os contos de fadas escondem as questões inconscientes. que tentarão a todo custo se tornar conscientes. Só então as associações livres da criança com a estória fornecem-lhe o significado mais pessoal . 1998). Portanto os contos não relatam apenas histórias imaginárias. A repetição funde-se ao funcionamento psíquico inconsciente. Assim. a criança é capaz de reconhecer qual história é significativa para sua necessidade momentânea e também é capaz de perceber onde a história lhe fornece uma forma de poder enfrentar e resolver um conflito interno. Tanto na criança como no adulto. a mente consciente do sujeito sofrerá intervenções de derivados desses elementos inconscientes. o conceito de compulsão à repetição aparece pela primeira vez na obra freudiana em Recordar.

1980). assim. (1980). ser capaz de renunciar às dependências da infância. fadas. de sonhos. As histórias infantis contadas e recontadas no decorrer dos tempos. para fazer face igualmente ao que se passa em seu inconsciente (BETTELHEIM. Sua origem é incerta. Para regular os problemas psicológicos do crescimento (superar as decepções narcísicas. A criança volta ao mesmo conto para ampliar seu significado ou substitui-lo por novos. Quando a criança passa a querer ouvir outro conto. os dilemas edipianos. princesas e magias. afirmar sua personalidade. . Os contos de fadas são histórias difundidas desde a Antiguidade. a criança tem necessidade de compreender o que se passa em seu ser consciente. mas sempre presente na cultura oral em todos os continentes. através da metáfora são capazes de apresentar os dramas e conflitos principais por meio do simbólico. significa que ela já acomodou a mensagem trazida por ele e que este já cumpriu a sua função de ensinar. Por esta razão a criança pede para ouvir a mesma história diversas vezes. Caso a historia não seja repetida ou não for dado um tempo para a criança poder apreendê-la. tomar consciência de seu próprio valor e de suas obrigações morais). e depois de um tempo não ser tão apreciado. Isto explica porque um conto pode ser favorito em um momento da infância. algo ficará perdido. as rivalidades fraternas.e assim ajudam-na a lidar com problemas que a oprimem. que retrata um mundo fantástico.

Segundo Bettelheim (1980) há diferenças bem significativas entre os sonhos e os contos de fadas. que não encontram alivio. A partir do momento em que alguns desejos não são satisfeitos o sujeito começa a fantasiar e a desejar. Sob a ótica da psicanálise o sonho e a realidade têm uma estrutura idêntica: O ser humano sonha continuamente. Os sonhos resultam de pressões internas. bem como através dos contos de fadas. o sujeito consegue satisfazer seus desejos de maneira disfarçada. sempre movido pela fantasia inconsciente que não apenas representa para ele a sua realidade como lhe fornece meios para se relacionar com seu mundo real (JORGE. embora a censura interna influencie o que podemos sonhar. SONHOS E FANTASIAS Na teoria freudiana o sonho visa realizar um desejo. Os enredos encontrados nos contos. de problemas que bloqueiam o sujeito. da arte.CONTOS DE FADAS. A obra freudiana mostra que os contos de fadas são similares aos sonhos e fantasias com uma linguagem simbólica idêntica. esteja dormindo ou acordado. em grande parte resultam do conteúdo .4. as fantasias revelam-se através dos sonhos. Através dos contos a satisfação dos desejos pode ser expressa abertamente. das brincadeiras. 2010) No universo infantil.3 . este controle ocorre no nível inconsciente e assim. da música. Nos sonhos não é possível o sujeito controlar os eventos oníricos. mas promete uma solução “feliz” para ele. Os Contos de fadas promove no sujeito uma projeção do alívio de todas as pressões internas e não só oferece formas de resolver os problemas. para as quais ele não conhece nenhuma solução.

desejos e fantasias. pois servem como instrumentos mediadores entre o inconsciente e o consciente que favorecem os processos de autoconhecimento e de transformação pessoal. mas do consenso de várias a respeito do que consideram problemas humanos universais. 4.comum consciente e inconsciente tendo sido moldado pela mente consciente. uma vez que eles têm como função expor pela criança as suas fantasias que na maioria das vezes causam insegurança e medo. no congresso de Würzburg apresentou o trabalho intitulado “A técnica da . não de uma pessoa especial.4 . Ouvir / ler contos de fadas pode ser considerada uma atividade simbólica e terapêutica em análise com crianças.MELANIE KLEIN Melanie Klein (1882-1960) foi o principal expoente da segunda geração psicanalítica mundial e contribuiu consideravelmente para o desenvolvimento da escola inglesa de psicanálise. pois: são muito simples. Foi uma das primeiras psicanalistas a trabalhar como crianças. Portanto. não é a sua fala. a utilização dos contos é mais eficiente. contém um conteúdo inconsciente que permanece praticamente não moldado pelo ego e ainda. pode falar abertamente de seus medos. Segundo Bettelheim (1980) não se deve analisar os sonhos das crianças em análise. a literatura infantil é de grande valia na clinica psicanalítica com crianças. mas a dos personagens. e o que aceitam como soluções desejáveis. A criança ao falar dos personagens. porque as funções mentais mais elevadas mal entram na produção de seu sonho. pois não está falando de si. Destarte. Em 1924.

portanto “o ludoterapeuta não está qualificado para interpretar o brincar da criança. 1995). Porém o psiquismo da criança é diferente do adulto. e esta diferença se manifesta no brincar. Segundo Klein “no brincar as crianças representam simbolicamente fantasias. mas porque sua angústia opõe uma resistência às associações verbais (THOMAS. na qual discorria sobre as bases estruturais de sua teoria. desejos e experiências” (apud THOMAS. Para Klein a ludoterapia favorece ao paciente uma abreação. 1995). Para Klein a técnica do brincar não deve ser confundida com a ludoterapia (Play-Terapy). Na criança não existe uma associação verbal.análise de crianças pequenas”. Recebendo o seguinte comentário de Karl Abraham: “O futuro da psicanálise é inseparável da análise pelo brincar” (THOMAS. uma descarga emocional capaz de fazê-lo liberar um afeto desagradável. pois ela não faz associação livre. por estar ligado à lembrança de um acontecimento traumático que ele repetiria inconscientemente. “A psicanálise com crianças”. 1995). pois não tem a menor ideia de como interpretar a transferência negativa” (THOMAS. Pautada nesta observação Klein instaura a técnica do brincar (Play-Technique). . No tratamento analítico o brincar adquire o estatuto dos sonhos. Ela não o faz porque não sabe falar ou porque não seja capaz de traduzir seus pensamentos em palavras. 1995). para o tratamento psicanalítico com crianças. Klein publicou sua primeira obra em 1932. tendo como regra as associações livres. A psicanalise com crianças possui uma especificidade. M. Em psicanálise o método de tratamento é o mesmo para todos os pacientes.

surgirão os encadeamentos.a maneira como brincam. Hermine Von Hug-Hellmuth entendia o brincar como uma satisfação das pulsões. certamente na sequencia do brincar. para que haja uma interpretação efetiva. 1995). permitiria ao analista compreender seu comportamento.os meios que escolhem para suas representações. Klein. num encadeamento subjetivo e transferencial. água. Assim. pois “somente o brincar oferece à criança a possibilidade de chegar impunemente até o fim de suas pulsões” (THOMAS. também se faz necessário privilegiar uma escuta. Klein pontua cinco parâmetros indispensáveis a serem observados: 1º .é preciso estar atento aos mais ínfimos detalhes durante as brincadeiras. . dramatização. pois. Em oposição a M. Mas apenas a observação analítica colocaria o analista numa posição se voyeurista. Quanto à interpretação. Hermine também acreditava que a observação analítica da criança brincando. Klein só o fazia quando a criança exprimia o mesmo material psíquico em versões diferentes (THOMAS. e. M.Mas para que o brincar alcance o estado de formação inconsciente favorecendo a escuta analítica. 1995). 4ª .o material oferecido e escolhido pela criança também deve ser levado em conta: brinquedo. recorte ou desenho. 5º .a razão por que as crianças passam de uma brincadeira a outra. 3º . para psicanálise. 2º .

1992. Em 1958 publicou o livro “Da Pediatria à Psicanálise”. Winnicott compreendeu que as brincadeiras infantis não se encontram nem na realidade psíquica interna nem na realidade externa. foi um dos grandes teóricos sobre o brincar.DONALD WOODS WINNICOTT Donald Woods Winnicott (1896-1971). a que chama de fenômenos transicionais. considera haver uma zona intermediária. pediatra e psicanalista britânico.4. poderá reaparecer mais tarde em momentos de uma depressão (LAPLANCHE e PONTALIS. a psicanálise é uma “forma altamente especializada do brincar. 2010). o qual ela elege. ou mesmo a criança pode apresentar um grau de . notadamente no momento de adormecer e que lhe permite efetuar a transição entre a primeira relação oral com a mãe e uma verdadeira relação de objeto (ROUDINESCO e PLON. Estes comportamento são visto frequentemente em crianças entre os quatro e doze meses de idade.à excessão a mãe.5 . Para Winnicott (1975). Também é possível não haver objeto transicional. 1998). COSTA. no qual apresentou o conjunto de suas posições sobre o tema (ROUDINESCO e PLON. Na busca por um conceito sobre o brincar. na qual ocorrem os fenômenos transicionais. ponta de uma coberta e etc. 1998). um brinquedo. a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros”. O objeto transicional mantem seu estatuto por um longo tempo até perder seu valor progressivamente e. Destarte.) que a criança chupa e aperta contra si. Winnicott inclui no mesmo grupo certos gestos e diversas atividades bucais. Winnicott criou a expressão objeto transicional em 1951 para designar um objeto material (por exemplo.

como por exemplo o seio. Dolto rejeitou as brincadeiras do seu método psicanalítico com crianças. é tão importante quanto o fato de representar o seio (ou a mãe)”. Usava como consigna: Você vai dizer em palavras. Seu método privilegiava a escuta capaz de traduzir a linguagem infantil. religião e outros e. Segundo Winnicott (1975). desde o início serão sempre importantes para o sujeito. Durante as sessões. O objeto transicional é simbólico a algum objeto parcial. 4. fazendo-se presente nas artes. embora real. Dolto disponibilizava para a criança apenas papel. usando a fala. 1998). Portanto o objeto transicional e o fenômeno transicional petencem ao domínio da fantasia. lápis. Para Dolto desde o nascimento. mas na sua realidade. 2010). Junto como J. Destarte.FRANÇOISE DOLTO Françoise Dolto (1908-1988) foi a grande percussora da psicanálise freudiana. o desenho e a modelagem (COSTA. e se extenderão ao longo de sua vida. ou seja. Lacan e outros fundou a Sociedade Francesa de Psicanálise em 1953. podem estar ocultas. “o fato dele não ser o seio (ou a mãe).comprometimento emocional no seu desenvolvimento a ponto de afetar a fruidez do seu estado de transição.6 . nos desenhos ou na modelagem tudo o que pensar ou sentir enquanto . Estes serviriam como mediadores para a criança associar. e ainda. massa de modelar e sua fala. a sequência dos objetos de transição usados é rompida ou ainda. a importância não está no simbólico. o psicanalista deveria usar as mesmas palavras que a criança e comunicar-lhe os seus próprios pensamentos sob seu aspecto real (ROUDINESCO e PLON. o bebê é um ser de fala.

natação. pensar como ela pensa. judô. não deixando espaço para a criança brincar. sem dúvida tem afetado consideravelmente o universo de brincadeiras infantis. Dolto pedia para a criança falar sobre seu desenho ou modelagem. balé. mesmo as coisas que. é preciso se colocar no lugar dela. inglês. com o avanço das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação).estiver aqui. Muitos pais acreditam que seus filhos estarão sempre à frente e. O processo de globalização. 5-CONSIDERAÇÕES FINAIS Através da brincadeira a criança é capaz de aliviar as pressões internas. O método usado por F. escolinha de futebol. Para Dolto. se as crianças dedicarem mais tempo às atividades culturais e . Na brincadeira simbólica a criança é capaz de liberar grande parte de sua agressividade. compreendidos como testemunhos da vivencia histórica e transferencial. que estarão garantindo um futuro melhor para seus filhos. Dolto enfatizava que para o psicanalista poder ouvir a criança. uma vez que a angústia frequentemente se faz presente na brincadeira infantil. 1995). As crianças contemporâneas passam por pressões cada vez mais intensas. você sabe ou acha que não convém dizer (LEDOUX. Ao término da atividade. com outras pessoas. informática entre outras. sem sair da posição de analista (LEDOUX. muitos pais superlotam as agendas de seus filhos com diversas atividades tais como aulas de reforço. o resultado das produções das crianças era equivalente ao sonho e fantasias que surgiam na análise com adultos e. 1995). Atualmente.

a criança deve ser livre para escolher do quer brincar sem a intervenção dos adultos. Muitos pais e educadores demonstram preocupação quando um menino tem interesse em brincar com uma boneca ou quando a menina pede de presente um carrinho. proporciona meios básicos para integrar os mundos interno e externo. Criança necessita de tempo livre para devanear e criar suas próprias brincadeiras e brinquedos. irá entreter a criança e sobrar tempo para o descanso dos pais. Também é comum ouvir de pais que trabalham fora de casa. mas é necessário deixar um tempo livre para a criança possa brincar e devanear.esportivas do que brincando. pode e deve ser usado de inúmeras formas pela criança. A brincadeira na infância torna-se essencial uma vez que. Cabe ainda lembrar que o sexismo existente no mundo adulto não se faz presente nas brincadeiras infantis. A questão da brincadeira de gênero é uma questão cultural. Não raro adultos sentirem-se frustrados ao presentear a criança com brinquedos caríssimos e ela sentir-se mais atraída pela embalagem. Não que isto esteja errado. na crença que suas fantasias . exceto se houver risco para integridade física da criança. o relato a cerca da falta de tempo para brincarem com os filhos. Brinquedo é para ser “brincado”. Portanto. Acreditam que presentear a criança com um brinquedo caro ou que ela deseje muito naquele momento. para expressar sua criatividade sem imposições dos adultos. O brinquedo deve ser entendido como uma ferramenta que a criança utiliza para se desenvolver e se divertir e ele não supre a falta de interação entre pais e filhos tão necessária para o equilíbrio afetivo e emocional da criança. A mídia diariamente divulga histórias de jovens que abraçam ideias extremas e muitas das vezes macabras.

os brinquedos e materiais disponibilizados a criança durante o trabalho psicanalítico servem como mediadores entre o inconsciente e o consciente. Não cabe ao analista interpretar os desenhos de seus pequenos pacientes. Também a maneira como a criança brinca e sua relação com o brinquedo muito terá a dizer. não deve sofrer interferência do observador. Portanto.se necessária uma escuta atenta.podem ser realizadas. uma vez que não se sabe a que propósito serve ou como terminará desde que. É possível que estes sujeitos não tenham tido a oportunidade de aprender com suas brincadeiras na infância a respeitar as limitações que a realidade impõe na realização de suas fantasias. Assim. mas sim os conteúdos do seu discurso. muitas brincadeiras que podem fazer pouco ou nenhum sentido e até as que podem parecer desaconselháveis. Conclui-se que refletir o universo infantil à luz da psicanálise sugere um contínuo aprofundamento teórico. A especificidade da clinica psicanalítica com crianças impõe ao analista que ele tenha seus sentidos aguçados. qualquer palavra. pois. Por isso. frase. . entonação e/ou gesto da criança poderá ser uma rica fonte de informação. não coloque em risco a vida da criança. A leitura das produções da criança ocupa o lugar da associação livre do adulto. independente do método utilizado no trabalho psicanalítico faz.

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