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Mediação Penal: Uma justiça alternativa

2009-07-09

Ministério da Justiça
Mediação Penal
Uma justiça alternativa para as pessoas
1. O projecto de Mediação Penal lançado pelo Ministério da Justiça
Em 23 de Janeiro de 2008 entrou em funcionamento em Portugal o Sistema de Mediação Penal (SMP), um projecto
experimental de mediação em matéria penal criado com base nas experiências positivas da mediação noutras áreas.
O SMP começou a funcionar nas seguintes comarcas:
 Aveiro;
 Oliveira do Bairro;
 Porto;
 Seixal.
Esta medida resulta do cumprimento do Programa do Governo e da política europeia, operada através da Decisão-
Quadro 2001/220/JAI, do Conselho, relativa ao estatuto da vítima em Processo Penal, e de uma recomendação do
Conselho da Europa.
A introdução da mediação penal em Portugal resultou de uma Proposta de Lei apresentada pelo Governo à Assembleia
da República, que deu origem à Lei n.º 21/2007, de 12 de Junho.
A partir de 9 de Julho de 2009 o SMP passa a abranger novas comarcas.
Por um lado, o SMP é alargado às comarcas experimentais do chamado Novo Mapa Judiciário [Note-se que as
comarcas de Oliveira do Bairro e Aveiro, com a reforma introduzida pelo Novo Mapa Judiciário, passam a integrar a
comarca de Baixo Vouga]:
 Baixo Vouga;
 Alentejo Litoral;
 Grande Lisboa Noroeste.
Por outro lado, alarga-se o SMP às seguintes comarcas:
 Barreiro;
 Braga;
 Cascais;
 Coimbra;
 Loures;
 Moita;
 Montijo;
 Santa Maria da Feira;
 Setúbal; e
 Vila Nova de Gaia.
Com este alargamento o SMP vai passar a beneficiar mais portugueses, que passam a dispor de um relevante
instrumento para, em matéria penal, ajudar a apaziguar conflitos, através do trabalho dos mediadores e da obtenção de
acordos.
Já existem serviços públicos de mediação familiar, laboral e serviços de mediação nos julgados de paz e nos centros
de arbitragem dos conflitos de consumo.
2. O que é a mediação?
A mediação é um processo informal e flexível, de carácter voluntário e confidencial, conduzido por um terceiro imparcial
- o mediador -, que promove a aproximação entre o arguido e o ofendido e os apoia na tentativa de encontrar um
acordo que permita a reparação dos danos causados pelo facto ilícito e contribua para a restauração da paz social.
O mediador não impõe a obtenção de um acordo ou o seu conteúdo. Apenas aproxima as partes, facilitando a
obtenção desse acordo.
A mediação penal, desde a entrada em funcionamento, já começou a produzir resultados, apesar de estar ainda numa
fase experimental. Até 31 de Maio de 2009 tinham entrado 163 pedidos formais de mediação penal. Dos processos que
avançaram para a fase da mediação (depois de obtido o consentimento das partes para a realização de sessões de
mediação) a percentagem de acordos foi de 54%.
3. Que crimes podem ser sujeitos a mediação?
Podem ser remetidos para mediação penal os crimes relacionados com a pequena e média criminalidade.
Estão assim abrangidos pela mediação penal todos os crimes particulares e certos crimes semi-públicos – os crimes
semi-públicos contra as pessoas e contra o património. Os crimes particulares/semi-públicos dependem da
apresentação de uma queixa para que haja processo-crime, podendo a vítima desistir da mesma.
Por outro lado, a mediação penal é aplicável aos crimes com pena de prisão não superior a cinco anos ou com sanção
diferente da prisão.
Estão sempre excluídos da mediação penal os crimes contra a liberdade ou autodeterminação sexual, os crimes de
corrupção, peculato e tráfico de influência e aqueles que envolvam uma vítima de idade inferior a 16 anos.
Exemplos de crimes sujeitos a mediação penal:
 Injúria;
 Furto;
 Dano;
 Ofensa à integridade física simples.
4. Como se chega à mediação?
O processo de mediação pode ser resumido nos 5 seguintes passos:
1.º passo – Durante o inquérito, o Ministério Público remete o processo a um mediador quando o arguido e o ofendido
o solicitarem ou se houver recolhido indícios suficientes e se considerar que, dessa forma, se responde
adequadamente às necessidades de prevenção que se façam sentir;
2.º passo – O mediador contacta o ofendido e o arguido, esclarecendo-os sobre o que é a mediação penal;
3.º passo – Para que a mediação penal se realize, tanto o arguido, como o ofendido, têm de a aceitar expressamente.
Se não for aceite, não se realiza e o processo prossegue pela via judicial;
4.º passo – Se o arguido e o ofendido aceitarem a mediação penal, têm início as sessões para a obtenção de um
acordo;
5.º passo – Se for alcançado um acordo, esse acordo é comunicado ao Ministério Público e equivale a uma desistência
da queixa. Se não for alcançado acordo, o processo prossegue pela via judicial.
No desempenho da sua função, o mediador está sempre obrigado a observar os deveres de imparcialidade,
neutralidade, independência, confidencialidade e diligência e fica vinculado ao segredo de justiça.
5. Qual a duração da mediação penal?
Remetido o processo ao mediador para mediação penal, a mediação deve estar concluída num prazo máximo de três
meses, sem prejuízo de o mediador solicitar ao Ministério Público uma prorrogação até ao máximo de dois meses.
Decorrido esse período de tempo sem que tenha sido possível obter um acordo em sede de mediação, o processo
penal segue os seus termos.
6. O que pode constar do acordo de mediação?
O conteúdo do acordo resultante da mediação penal é livremente fixado pelas partes.
Este acordo não pode incluir sanções privativas da liberdade, deveres que ofendam a dignidade do arguido ou deveres
que se prolonguem no tempo por mais de 6 meses.
Exemplos de acordos possíveis:
 O pagamento de quantia em dinheiro (ex: o arguido compromete-se a pagar pelo muro que destruiu);
 Um pedido de desculpas (ex: o arguido pede desculpas por ter ofendido publicamente a vítima);
 Reabilitação do arguido (ex: o arguido que atropelou a vítima compromete-se a frequentar um curso de condução
defensiva);
 A reconstrução/reparação de algo que tenha sido danificado (ex: o arguido compromete-se a reparar o automóvel
destruído).
7. Quem pode ser mediador penal?
Pode ser mediador penal quem conste de uma lista, a partir da qual o Ministério Público designa o mediador para o
processo.
Nessa lista, podem inscrever-se os mediadores que:
 Tenham mais de 25 anos;
 Estejam no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos;
 Possuam licenciatura ou experiência profissional adequadas;
 Estejam habilitados com um curso de formação em mediação penal adequado;
 Sejam pessoas idóneas para o exercício da actividade de mediador penal, designadamente, não terem sido
condenadas por sentença transitada em julgado pela prática de crime doloso;
 Tenham o domínio da língua portuguesa.
Actualmente, existem já 79 mediadores formados e inscritos nas listas de mediadores penais.
8. Onde funciona o Sistema de Mediação Penal?
A mediação penal funcionou, numa primeira fase, a título experimental, nas comarcas de Aveiro, Oliveira do Bairro,
Porto e Seixal.
Com o alargamento, passa a funcionar nas comarcas experimentais do Novo Mapa Judiciário, concretamente Baixo
Vouga, Alentejo Litoral e Grande Lisboa Noroeste e nas comarcas de Barreiro, Braga, Cascais, Coimbra, Loures, Moita,
Montijo, Porto, Santa Maria da Feira, Seixal, Setúbal e Vila Nova de Gaia. As sessões de mediação penal podem ser
realizadas, por exemplo, nas instalações dos julgados de paz, em salas disponibilizadas pelas Câmaras Municipais, em
centros de arbitragem e noutros espaços públicos ou privados que sejam disponibilizados para o efeito, desde que
reúnam as condições necessárias.
Após um período experimental de dois anos, a cobertura passará gradualmente a ser nacional. Durante este período, a
monitorização do sistema está assegurada pela Universidade Nova de Lisboa.
9. Onde existem experiências de mediação penal?
Existem projectos de mediação penal, por exemplo, na Áustria, Bélgica, Catalunha e França.
Em Portugal existiu um programa experimental da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do
Porto, em colaboração com o Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto.
10. Quanto custa a mediação penal?
A mediação penal é gratuita, não envolvendo, por isso, o pagamento de quaisquer custas ou taxas a suportar pelas
partes.
11. Quantos processos podem ser resolvidos pelo Sistema de Mediação Penal?
Estima-se que, quando estiver em funcionamento na totalidade do território nacional, o Sistema de Mediação Penal
possa ser aplicável a mais de 10 000 processos.
12. Quais as vantagens da mediação penal?
A mediação penal apresenta várias vantagens. Permite:
 Realizar uma efectiva compensação da vítima, reconhecendo-a enquanto parte da solução do conflito em matéria
penal. Ex: Quem tenha destruído propositadamente o automóvel da vítima compromete-se a repará-lo ou a adquirir
outro.
 Encontrar soluções mais adequadas do que penas de prisão para a pequena criminalidade. Ex: Quem tenha
injuriado publicamente alguém compromete-se a publicar um anúncio em jornal de grande tiragem com um pedido
de desculpas.
 Ajuda a descongestionar os tribunais: estima-se que, quando aplicada à totalidade do território nacional, a mediação
penal possa abranger mais de 10 000 processos.
 Resolver os conflitos relacionados com a pequena criminalidade de forma mais rápida.