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Direito das Obrigações

2004/2005

O direito das obrigações é o conjunto das normas jurídicas reguladoras das relações de
crédito, sendo estas as relações jurídicas em que ao direito subjectivo atribuído a um dos
sujeitos corresponde um dever de prestar especificadamente um imposto a determinada
pessoa.

Capitulo I
Introdução

Acepções do termo obrigação

1) Dever jurídico
Direito subjectivo “strictu sensu”- é o poder de pretender ou exigir de outrem um o
comportamento positivo (acção) ou negativo (abstenção ou omissão). A este contrapõe-
se-lhe o dever jurídico, que é a necessidade imposta pelo direito objectivo a uma
pessoa de observar determinado comportamento. Ao dever jurídico que corresponde o
direito de exigir chama-se obrigação civil e o detentor desse direito pode obter junto
dos tribunais ou autoridades subordinadas a estes, providências coercivas aptas a
satisfazer o seu interesse. O dever jurídico que respeita a um direito de pretender diz-se
obrigação natural; não sendo esta exigível no tribunal, pode contudo o credor
conservar a prestação devida a título de pagamento, isto é o credor possui a “soluti
retentio”, não podendo pois o devedor que tenha cumprido voluntariamente a prestação
gozar da “conditio indebiti” isto é não tem a possibilidade de repetir o indevido.
Consultar 402º (obrigações naturais), 403º (não repetição do indevido), 304º (divida
prescrita) e 1245º (jogos e apostas) e 476º e 817º

Os direitos subjectivos propriamente ditos ou “ strictu sensu” podem ainda ser:

a) Direitos absolutos – Direitos os quais actuam sobre todas as pessoas, tendo


efeitos “erga omnes”, independentemente da existência de uma relação jurídica
em particular. Isto é são oponíveis contra todos e a estes corresponde uma
obrigação passiva universal. Em caso de violação de um direito absoluto, o
lesante fica obrigado nos termos da responsabilidade extracontratual
(exeptuando nos direitos pessoais). Como exemplos de direitos absolutos
encontramos os direitos de personalidade, os direitos reais, os direitos de família
(excepto quando não sejam poderes-dever).
b) Direitos relativos – Direitos que apenas actuam contra pessoas certas e
determinadas, tendo como tal efeitos “inter partes”. Isto é os direitos relativos
são apenas oponíveis a um circulo delimitado de pessoas (p. ex. num contrato
bilateral aos dois contraentes). Estes são direitos obrigacionais e em casa de
violação de um direito relativo, o lesante constitui-se em responsabilidade
contratual. Como exemplos temos os direitos de crédito.

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2) Estado de sujeição
Direitos potestativos - São poderes jurídicos de, por um acto de livre vontade, só de per
si ou integrado por uma decisão judicial, produzir efeitos que se impõem
inelutavelmente à contraparte. Corresponde-lhes o estado de sujeição, a situação de
necessidade em que se encontra o adversário de ver produzir forçosamente uma
consequência na sua esfera jurídica por mero efeito do exercício do direito pelo seu
titular. Em certas situações afecta-se, assim, a esfera de outrem sem o consentimento
deste, consentimento que normalmente seria exigido.

Os direitos potestativos, consoante o efeito jurídico que tendem a produzir, podem ser:

c) Constitutivos – Produzem a constituição de uma relação jurídica, por um acto


unilateral do seu titular. Exemplos: a constituição da servidão de passagem em
beneficio do prédio encravado 1550º
d) Modificativos – Tendem a produzir uma simples modificação numa relação
jurídica existente e que continuará a existir, embora modificada. Exemplos:
Mudança da servidão para outro sitio 1568º, separação judicial de pessoas e bens
1794º
e) Extintivos – Tendem a produzir a extinção de uma relação jurídica existente.
Exemplos a resolução do arrendamento pelo senhorio 1047º, revogação do
mandato 1170º.

3) Ónus jurídico
Necessidade de observância de certo comportamento, não por imposição da lei, mas
como meio de obtenção ou de manutenção do uma vantagem para o próprio onerado.
O ónus jurídico não é assim imposto como um dever, sendo que à sua inobservância não
corresponde uma sanção, nem visa satisfazer o interesse de outrem sendo estabelecido,
pelo contrário, no interesse exclusivo do próprio onerado. O ónus é sim um meio de
alcançar uma vantagem ou, pelo menos, de se evitar uma desvantagem.

4) Direitos-deveres (poderes funcionais)


São direitos conferidos no interesse, não do titular ou não apenas do titular, mas também
de outra ou outras pessoas e que só são legitimamente exercidos quando se mantenham
fieis à função a que se encontram adstritos. È o caso típico dos deveres recíprocos dos
cônjuges, do poder paternal, da tutela, da curatela e de outros institutos análogos.

5) Obrigação em sentido técnico


Diz-se obrigação a relação jurídica por virtude da qual uma ou mais pessoas podem
exigir de outra (ou outras) a realização de uma prestação. O termo obrigação abrange
não apenas o lado passivo, o dever de prestar, bem como o poder de exigir a prestação
conferido à outra parte. Sendo que quando se quer distinguir entre os dois lados da
relação, que são duas faces da mesma realidade, chama-se crédito (direito de credito) ao
seu lado activo e débito (divida) ao lado oposto. À pessoa que tem o poder de exigir a
prestação dá-se o nome genérico de credor; à outra, sobre a qual incide o correlativo
dever de prestar, chama-se devedor.

Os 3 elementos constitutivos da relação obrigacional:

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1) Os sujeitos
2) O objecto
3) O vinculo jurídico

1) Os sujeitos são os titulares, activo e passivo, ou simultaneamente activo e passivo


quando se trata por exemplo de obrigações nascidas de um contrato bilateral, da
relação. O credor de um lado e o devedor do outro. O credor é a pessoa a quem se
proporciona a vantagem resultante da prestação, o titular do interesse (patrimonial,
espiritual ou moral) que o dever visa satisfazer, ou numa palavra o titular do direito
à prestação, o sujeito activo da relação de credito. O devedor é, por seu turno, a
pessoa sobre a qual recai o dever (especifico) de efectuar a prestação (o comprador
quanto à entrega do preço, a entidade patronal quanto ao salário). È, como sujeito
passivo da relação, quem esta adstrito ao cumprimento da obrigação.

“Só o credor tem direito à prestação, e esta só do devedor pode ser exigida.”
A obrigação tem, assim, carácter relativo, porque vincula apenas determinadas
pessoas, ao passo que os direitos reais e os direitos de personalidade, como direitos
absolutos que são, valem em relação a círculo indeterminado de pessoas. No entanto
a pessoa do credor pode não ser determinada, mas somente determinável) no
momento em que a obrigação se constitui (art. 511º), como se sucede nas
promessas publicas (arts. 459º e segs.), nos contratos para pessoa a nomear
(arts. 452º segs.), nos títulos ao portador, e em certo sentido na herança a deixar a
nascituro

Nota: A obrigação persiste ou permanece a mesma, não obstante a alteração dos


sujeitos, falando-se nestes casos em transmissão (cessão de créditos, sub-rogação e
assunção de divida) regulado pelos artigos 577º e seguintes, ou sucessão de
obrigações ( no caso da substituição de sujeitos, determinada pela morte de um
deles)

2) O objecto: a prestação debitória


O objecto da obrigação é a prestação devida ao credor. È o meio que satisfaz o
interesse do credor, que lhe proporciona a vantagem a que ele tem direito. A
prestação consiste, em regra numa actividade ou numa acção do devedor (entregar a
coisa, realizar um obra, transmitir um credito, patrocinar alguém numa causa),
podendo no entanto consistir numa abstenção, permissão ou omissão (obrigação de
não abrir estabelecimentos de certo ramo de comercio na mesma rua ou na mesma
localidade; obrigação de não usar uma coisa recebida em deposito)

a) O objecto imediato da obrigação consiste na actividade devida (a entrega da


coisa, na cedência dela, na sua restituição, etc.).
b) O objecto mediato da obrigação é a própria coisa, em si mesma considerada, ou
seja, o objecto da prestação, por exemplo o carro, as jóias etc.

Principais modalidades da prestação:

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1. Prestações de facto ou de coisa

a) A prestação de coisa pode revestir três modalidades: a) obrigação de dar


(quando a prestação visa constituir ou transferir um direito real definitivo sobre
a coisa); b) a obrigação de entregar, quando visa apenas a transferir a posse ou
detenção dela, para permitir o seu uso, guarda ou fruição; c) obrigação de
restituir, quando através dela o credor recupera a posse ou detenção da coisa ou
o domínio sobre a coisa equivalente, do mesmo género ou qualidade. A
prestação pode ter por objecto coisa futura sempre que a lei não o proíba tal
resulta do artigo 399º.

b) A prestação de facto pode ser positiva (obrigação do transportador, obrigação do


banco restituir as somas depositadas, obrigação assumida pelo promitente-
vendedor em contrato-promessa de compra e venda de bem alheio), ou negativa
(de “non facere” no caso de por exemplo no contrato de fornecimento em
exclusivo de não fornecer produto aos concorrentes do comprador ou noutros
casos de consentir ou tolerar que o credor pratique actos a que de contrario não
teria direito). São ainda admitidas no nosso direito as promessas de facto de
terceiro, no entanto estas não vinculam o terceiro a quem se refere.

2. Prestações instantâneas, prestações duradouras, prestações fraccionadas

a) Prestações instantâneas, são as prestações em que o comportamento exigível ao


devedor se esgota num só momento ou num período de tempo de duração
praticamente irrelevante; entrega de certa coisa; pagamento do preço numa so
prestação; etc.

b) Prestações duradouras, são as prestações do senhorio e do arrendatário, do


depositário, do segurador, do sócio, da entidade patronal e do trabalhador, do
fornecedor de agua, gás ou de electricidade e do respectivo consumidor. Nestas
relações, a prestação protela-se no tempo, tendo a duração temporal da relação
creditória influência decisiva na conformação global da prestação. As prestações
duradouras podem ainda ser; 1) prestações de execução continuada, são
aquelas cujo cumprimento se prolonga ininterruptamente no tempo (ex. a
do locador, do fornecedor de agua, gás, electricidade, ou dados informáticos); ou
2) prestações reiteradas, periódicas, periódicas ou com trato sucessivo, são
aquelas que se renovam, em prestações singulares sucessivas, por via de
regra ao fim de períodos consecutivos (ex. a do locatário (pagamento da renda
ou aluguer), do devedor de renda perpetua ou vitalícia, do consumidor de agua,
gás ou electricidade).

c) Prestações fraccionadas ou repartidas, são aquelas cujo cumprimento se protela


no tempo, através de sucessivas prestações instantâneas, mas em que o objecto
da prestação esta previamente fixado, sem dependência da duração da relação
contratual (preço pago a prestações, fornecimento de certa quantidade de
mercadoria a efectuar em varias partidas). Nas prestações duradouras a prestação
devida depende do factor tempo, que tem influência decisiva na fixação do seu
objecto; nas fraccionadas, o tempo não influi na determinação do seu objecto,
apenas se relacionando o modo da sua execução.

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Diferenças de regime:
Nos contratos de execução continuada ou periódica, a resolução do contrato,
embora gozando de eficácia retroactiva, não abrange, em principio, as prestações
já efectuadas (art. 434º nº2 e 277º) ela opera somente quanto as futuras prestações
ou quanto à duração futura da prestação em curso, não porque seja materialmente
impossível dar-lhe eficácia retroactiva, mas porque as prestações continuadas ou
periódicas se encontram idealmente adstritas as diversas fracções de tempo em que é
possível dividir a sua duração, gozando assim as prestações já efectuadas e as que
devem ser realizas do futuro de certa independência entre si. Tratando-se de uma
prestação fraccionada a resolução atinge, em principio, todas as parcelas da
prestação, incluído as já efectuadas. A falta de cumprimento de uma das
prestações fraccionadas provoca, em regra, o vencimento imediato das restantes
(781º e 934º), o que não se verifica nas obrigações duradouras, deste modo a falta
do pagamento das rendas do mês de Janeiro pode dar ao senhorio o direito a uma
indemnização nos termos do artigo 1041º no entanto não da direito de exigir o
pagamento imediato das rendas correspondentes aos meses futuros.

Nota:
1)Ver artigo 434º acerca dos efeitos da retroactividade da resolução do contrato.
2)O contrato de empreitada apesar de ser um contrato de execução prolongada, a
prestação não é duradoura, não se aplicado pois o disposto no artigo 434º nº2.

3. Prestações fungíveis e não fungíveis (207º e 767º)

a) Prestação fungível é aquela que pode ser realizada por pessoa diferente do
devedor, sem prejuízo do interesse do credor (caiar um muro, pintar uma casa,
pagar uma quantia, lavrar um terreno). Na prestação de coisa, quer seja fungível
ou não, a prestação é em princípio fungível na medida em que o interesse do
credor não será lesado pela substituição do devedor.
b) Prestação não fungível é aquela em que o devedor não pode ser substituído no
cumprimento por terceiro (realizar uma operação cirúrgica, reger um curso
especializado, pintar um quadro a óleo, fazer o projecto de um grande obra). São
obrigações em que ao credor não interessa apenas o objecto da obrigação mas
também a habilidade, o saber, a destreza, a força, o bom nome ou outras
qualidades pessoas do devedor.

Diferenças de regime:
Tendo a prestação por objecto um facto fungível, o credor pode requerer, no
processo de execução, que o facto seja prestado por outrem à custa do devedor (art.
828), nesse caso a execução seguira os termos prescritos nos artigos 933º e seguintes
do CPC. Sendo o facto não fungível o credor apenas pode exigir o cumprimento do
devedor (817º) e na hipótese do incumprimento terá de contentar-se com a
indemnização resultante do não cumprimento (restituição por equivalente) e a
garantia de eventual sanção pecuniária compulsória (que apenas se aplica as
prestações de facto não fungíveis, na medida em que como o devedor não pode ser
substituído, sem prejuízo para o credor, na realização das prestações dessa natureza
por terceiro, a lei não encontra outra solução senão impor ao obrigado uma espécie
de multa civil por cada dia que ele tarde a comprimir ou por cada vez que ele falte
ao cumprimento).

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4. Determinada e indeterminada
a) Prestação determinada é por exemplo aquela em que a A vende o seu automóvel
a B.
b) Prestação determinada é por exemplo aquela em que A, livreiro, vende a B um
exemplar da última edição de um romance.

5. Divisível e Indivisível
c) Prestação divisível é por exemplo aquela em que a obriga-se a entregar a B 100
exemplares de uma certa edição do código civil.
a) Prestação indivisível é por exemplo aquela em que A vende a B um exemplar da
cavalo.

A patrimonial idade do objecto (da prestação)

Para que a obrigação se constitua validamente, a prestação necessita de obedecer a


determinados requisitos (possibilidade, licitude, determinabilidade) no entanto tem
havido uma querela doutrinária quanto a se saber se a patrimonialidade é um
requisito de validade da obrigação. A doutrina mais qualificada afasta a
patrimonialidade enquanto requisito de validade da obrigação, baseando-se na
protecção que merecem alguns deveres de conteúdo não patrimonial, sendo que o
actual código civil segue essa doutrina nomeadamente no seu artigo 398º nº2 “a
prestação não necessita de ter um valor pecuniário, mas deve corresponder a um
interesse (real) do credor, digno de protecção legal”. Sendo que o requisito de
que a prestação corresponda a um interesse real do credor digno de protecção legal,
visa afastar; a) as prestações que correspondam a um mero capricho ou a uma
simples mania do credor (ex. não usar cabelos compridos ou saias acima do joelho,
trajar o devedor de certa forma , não usar uma jóia que o inimigo do credor lhe
doou, obrigar-se um actor teatral a não trabalhar em certa idade para não ofuscar o
prestigio de um outro); b) as prestações que, podendo ser dignas embora da
consideração de outros complexos normativos, como por exemplo a religião, a
moral, a cortesia, os usos sociais, todavia não merecem a tutela especifica do
direito (rezar todas as noites, participar num procissão etc., todavia não merecem a
protecção especifica do direito.

3) O vínculo jurídico

O vínculo jurídico (obrigação) é constituído por três elementos:


a) Direito à prestação
b) Dever de prestar
c) A garantia

a) O direito (do credor) à prestação é o poder juridicamente tutelado que o credor


tem de exigir a prestação do devedor. O credor, e só ele (sem prejuízo do 606º),
pode exigir o cumprimento; e é de acordo com a sua vontade que funciona o
mecanismo da execução, quando o devedor não cumpra, mesmo depois de
condenado.
O direito de exigir a prestação pode ser exercido extra-judicialmente (mediante
interpelação do devedor) ou judicialmente (através de citação para a acção de
cumprimento ou a execução, ou por meio de notificação judicial avulsa (805º). A

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jurisdicidade do poder conferido ao credor manifesta-se principalmente e com
maior aparato no direito de agressão do património do devedor, mas esta verifica-
se igualmente nas seguintes soluções cominadas pela lei; a) A mora transfere para o
devedor o risco de perecimento ou deterioração da coisa, mesmo que estes factos lhe
não sejam imputáveis (art. 807º 1); b) A obrigação pecuniária passa a vencer juros,
a contar do dia da constituição em mora, ainda que anteriormente os não vence-se
(806º); c) O devedor em mora passa a responder por todos os danos que a falta de
cumprimento cause ao credor (804º); d) Ao devedor em mora recusa a lei o direito
de obter a resolução ou modificação do contrato por alteração das circunstâncias
vigentes à data da conclusão (438º). Alem disso se o credor estiver por seu turno
obrigado para com o devedor, ele pode, sob determinados pressupostos dos artigos
847º e seguintes, compensar o seu credito com a divida contraria, obtendo assim,
pelo simples exercício da vontade própria, mediante a libertação do vinculo que
onerava o seu património, a realização pratica do direito que tem à prestação. Se as
duas obrigações recíprocas tiver nascido do mesmo contrato bilateral e forem o
correspectivo uma da outra, qualquer um dos credor pode compelir o outro
contraente a cumprir, recusando a entrega da sua prestação enquanto este não
o fizer (excepção de não cumprimento do 428º). E poderá eventualmente em
certos termos ameaça-lo com a perda definitiva do crédito que compete a esse
contraente, mediante a resolução do contrato (808º,1; 801º,2 e 432º e seguintes).

b) O dever de prestar é a necessidade imposta pelo direito ao devedor de realizar a


prestação, sob cominação das sanções aplicáveis ao incumprimento. Trata-se de
um dever e não de um ónus, visto que a prestação não é o meio de obter uma
vantagem, cuja realização se deixe ao arbítrio do devedor, é o instrumento de
satisfação de um interesse alheio, a que o devedor fica adstrito por força da lei,
sob pena de incorrer em determinadas sanções. A falta de cumprimento é pois
ilícita cominando a lei diversas sanções aquando da sua verificação: Este dever
jurídico de prestar não é um simples dever ditado pelos usos sociais, como
aqueles que estão na base dos chamados donativos usuais (940 nº2) e das
doações remuneratórias (941º) visto que nestas não há um dever exigível no
plano do direito, a prestação efectuada é considerada como uma liberalidade,
enquanto nas obrigações a prestação é tratada como uma divida. Tão pouco se
trata de um puro dever moral ou social, como aquele resultante das
obrigações naturais (402º a 404º), precisamente porque estas não nascem
sob o signo do direito e apenas são por ele reconhecidas, não sendo
judicialmente exigíveis. O dever de prestar também não se identifica com os
simples deveres provenientes das relações de cortesia ou de obsequiosidade
(convite de um amigo para jantar ou de um conhecido para uma festa, promessa
do passageiro de comboio de acordar um companheiro acidental de viagem de o
acordar na estação de Pampilhosa, etc.). Trata-se de relações que as partes não
têm ânimo de submeter ao império do Direito e que por isso não geral deveres
legalmente tutelados pelas obrigações jurídicas.

c) A garantia. A lei não se limita a impor um dever de prestar ao obrigado e a


atribuir ao credor o correlativo direito à prestação. Procura também assegurar a
realização coactiva da prestação, sem prejuízo do direito, que, em certos casos,
cabe ao credor de resolver o contrato ou de recusar legitimamente o
cumprimento da obrigação que recaia sobre ele próprio, ate que o devedor
decida a cumprir. E como o credor não pode recorrer à actuação directa por força

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da proibição legal da auto-defesa do artigo 1º do Código de Processo Civil, abre-
se ao lesado o recurso à acção dos tribunais. O elemento que mais carácter de
jurisdicidade imprime ao vínculo entre o credor e devedor é precisamente o da
acção creditória, através da qual se exercita a pretensão do credor. A acção
creditória é o poder de exigir judicialmente o cumprimento da obrigação,
quando o devedor não cumpra voluntariamente, e de executar o património deste
(817º). O fim da execução consiste em proporcionar ao credor a realização do
interesse que a prestação visava facultar-lhe ou uma satisfação tão próxima
quanto possível desse interesse (indemnização do prejuízo que lhe causa o não
cumprimento).

Mas como se processa essa execução?


No caso de o credor já estar munido de um titulo executivo (documento que
constitua um mínimo de prova sobre a existência, titularidade, o objecto da
obrigação e o não cumprimento do devedor) poderá imediatamente pedir a
instauração de uma execução forçada, se não tiver titulo executivo terá ainda que
obter um sentença de condenação que é o titulo executivo por excelência. A
instauração de execução forçada, pode revestir diversas formas consonante a
natureza da prestação em divida: a execução para pagamento de quantia certa, para
entrega de coisa certa ou para prestação de facto. Tratando-se de uma prestação de
coisa certa (entrega de um automóvel ou jóia), o tribunal procurara apreende-la,
usando a força se necessário, para a entregar ao credor; tratando-se de prestação de
facto fungível, o tribunal, pode a requerimento do credor, mandar realiza-la por
outrem à custa do devedor; tratando-se de prestação que tem por objecto um facto
não fungível, certa quantia em dinheiro, se não se encontrar a soma devida no
património do devedor, ou mesmo se houver necessidade de pagar a realização de
facto fungível por terceiro, a execução tem que ser de outra forma atravessando três
momentos capitais: a penhora dos bens do devedor, a venda judicial dos bens do
devedor, e o pagamento a credores.
A penhora consiste na apreensão pelo tribunal dos bens considerados necessários
para cobrir através do seu valor, a indemnização devida, retirando esses bens da
disponibilidade do devedor afectando-os aos fins próprios da execução. A apreensão
goza em principio de eficácia absoluta visto que e um direito real de garantia (819º).
Através da venda judicial, o Estado (representado pelos tribunais) prescinde da
vontade do proprietário ara alienar os bens penhorados e, à custa da alienação
forçada, obter o dinheiro necessário aos fins da execução. Esse dinheiro será depois
distribuído pelos credores, ate ao limite dos seus créditos e observando-se as
preferências que a lei civil estabeleça entre eles quanto ao pagamento.

Diferenças entre direitos reais e as obrigações (direitos de credito)

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1. Os direitos reais são absolutos, isto é valem “erga omnes”, enquanto os
direitos de crédito são relativos (inter partes) apenas vinculam pessoas
certas e determinadas (ou determináveis) que são os sujeitos da relação;
valem pois em principio apenas a favor do credor contra o devedor. No entanto a
relatividade do direito de crédito não obsta a que: a) a lei considere
excepcionalmente oponíveis a terceiros algumas situações que, na sua
essência, são autênticas relações obrigacionais; b) a relação de crédito, na
sua titularidade, constitua um valor absoluto, como tal oponível a terceiros.
Tal se sucede com a relação locatícia, que embora sendo de natureza
intrinsecamente obrigacional ou creditória, não deixa se ser oponível pelo
locatário ao terceiro adquirente do direito (normalmente de propriedade) com
base no qual o contrato foi celebrando. Deste modo se A, dono de certo imóvel,
o arrendar a B e, em seguida, o vender a C, o locatário B, poderá opor o seu
direito relativo a C apesar de com ele não ter contratado.
2. Os direitos reais gozam do direito de preferência (ou prevalência), que
consiste no facto de o direito real sacrificar toda a situação jurídica
posteriormente constituída sobre a mesma coisa, sem concurso de vontade do
título daquele, na medida em que uma e outra sejam incompatíveis entre si.
3. Os direitos reais gozam de sequela, que se traduz na faculdade conferida ao
titular de fazer valer o seu direito sobre a coisa onde quer que ela se
encontre, de resto esta resulta da inerência isto é “ ligação íntima entre o direito
e a coisa”.
4. O direito real é um poder directo e imediato sobre a coisa, prescindido da
colaboração de outrem para obter as utilidades que esta visa proporcionar-lhe
(não obstante de por vezes o exercício do direito tornar necessário o recurso aos
tribunais, como sucede em regra nos direitos reais de garantia. A obrigação, pelo
contrario, consiste num direito à prestação, só realizável através do
intermediário, que é o devedor.
5. O direito real encontra-se subordinado ao princípio da tipicidade ou numerus
clausus, isto é a lei só admite os direitos reais criados por via legal com o
conteúdo que esta lhes imprime, não sendo como tal possível atribuir eficácia
real ao contrato-promessa ou ao pacto de preferência que versem sobre coisa
móvel não sujeita a registo. Por outro lado para as obrigações vigora a regra da
atipicidade ou numerus apertus, sendo que deste de que a prestação estipulada
corresponda a um interesse do credor digno de protecção legal (398º nº2),
nenhuma restrição se cria, em principio, à constituição de qualquer obrigação,
podendo como tal as partes fixar livremente o conteúdo positivo ou negativo da
prestação.

Efeitos da obrigação em relação a terceiros

A obrigação é essencialmente o poder de exigir uma prestação, que apenas recai


sobre o devedor e, por isso, se considera um direito relativo. Mas a relatividade
essencial do direito não obsta:
a) A que a lei considere excepcionalmente oponíveis a terceiros algumas
relações que, na sua essência, são autenticas relações obrigacionais.
b) A que a relação de credito, na sua titularidade, constitua um valor absoluto,
como tal oponível a terceiros.

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1. Obrigações oponíveis a terceiros (locação). A lei pode, efectivamente, para
satisfazer determinados interesses relevantes, impor ou permitir a oponibilidade
a terceiros de relações que são, na sua estrutura, de carácter obrigacional, por
assentarem fundamentalmente num dever de prestar e num correlativo direito à
prestação.
a) Assim se sucede com a relação locatícia que, sendo embora uma relação
de natureza intrinsecamente obrigacional ou creditória (1031º, 1032º e
1034º), não deixa de ser oponível (elo locatário) ao terceiro adquirente
do direito (normalmente de propriedade) com base no qual o contrato foi
celebrado (1057º). Se A, dono de certo imóvel, o arrendar a B e, em
seguida, o vender a C, o locatário B poderá opor o seu direito (relativo) a
C, apesar de com ele não ter contratado.
b) Fenómeno similar ocorre com a promessa de onerarão de bem móvel
ou imóvel que goze de eficácia real. A promete, por hipóteses, vender
certo prédio a B, atribuindo os contraentes eficácia real à promessa, nos
termos do artigo 413º. E imaginemos, que apesar disso, A vende ou doa
mais tarde o mesmo imóvel a C ou hipoteca a favor do credor D. B
continuará, nesse caso, a poder exigir de A a realização do contrato
prometido, logo que tenha realizado ou que se mostre em condições de
efectuar a sua contra-prestação. E, conquanto o seu direito de B, contra A
seja, na sua raiz ou estrutura, de carácter obrigacional, ele é oponível a C
e a D (ou quaisquer outros posteriores adquirentes da coisa), porque os
efeitos da aquisição da coisa pelo credor (mesmo que ela resulte da
execução especifica prevista e regulada no art. 830º) retroagem à data do
registo da promessa.

A Função da obrigação: o relevo do interesse do credor e alusão ao


“favor debictoris”

Certa doutrina considera ambíguo o princípio “favor debictoris”, ao entender que os


devedores não são necessariamente sujeitos individuais e que a sua defesa sugere
uma cerca imagem dickensiana da sociedade. No entanto no Código Civil há nítidas
manifestações legais do principio “favor debictoris”, como o direito de escolha nas
obrigações genéricas e alternativas (539º e 543º,2), e a presunção de favorecimento
do prazo em proveito do devedor (779º), considerando ainda Pessoa Jorge que o
pagamento por terceiro, a compensação legal, a consignação em deposito, o
pagamento das maiores despesas derivadas da mora do credor e a prescrição
extintiva como outros sinais do principio.

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CAPITULO II
Os Princípios fundamentais do Direito das Obrigações

1. Autonomia Privada
2. Boa fé
3. Tutela do sujeito mais débil
4. Proporcionalidade
5. Responsabilidade Patrimonial
6. Heteroresponsabilidade
7. Auto-Responsabilidade

1. Principio da Autonomia Privada


O principio da autonomia consiste na faculdade reconhecida aos particulares de
fixarem livremente, segundo o seu critério, a disciplina vinculativa dos seus
interesses, nas relações com as demais criaturas. Este compreende: a liberdade
contratual (poder reconhecido às pessoas de estabelecerem, de comum acordo, as
clausulas reguladoras (no plano do direito) dos seus interesses contrapostos, que
mais convenham à sua vontade comum); a liberdade de associação (para a
constituição de pessoas colectivas); a liberdade de tomar liberações nos órgãos
colegiais; a liberdade de testar; a liberdade de celebrar acordos que não são
contratos (como os que abundam na vida da sociedade conjugal) e a liberdade
para praticar os numerosos actos unilaterais (passar procuração, perfilhar, anular,
revogar, resolver ou denunciar negócios jurídicos etc.) que concitam a tutela do
Direito.

O principio da liberdade contratual

O principio da liberdade contratual é o corolário da autonomia privada. Esta


consiste: 1) na faculdade que as partes têm, de dentro dos limites da lei (405º),
de acordo com a sua vontade celebrarem ou não contratos (principio da
liberdade de contratar); 2) a faculdade de fixação o conteúdo dos contratos que
realizarem, celebrarem contratos diferentes dos prescritos no código ou incluir
nestes as clausulas que lhes aprouver (principio da livre fixação do conteúdo dos
contratos); 3) a faculdade de eleger livremente a pessoa com quem pretende
fechar o contrato (principio da liberdade de escolha do outro contraente).

11
I.
A liberdade de contratar e seus limites

Como já se viu anteriormente o princípio da liberdade contratual consiste antes de


tudo consiste na faculdade de se decidir livremente a contratar (a fazer o seguro de
vida, a comprar o automóvel ou a vender a jóia que herdou).

Limites à liberdade de contratar

1. Dever de contratar
Há diversos casos em que as pessoas singulares ou colectivas, têm o dever jurídico
de contratar, logo que se verifiquem determinados pressupostos, sendo que se a
pessoa que se recusa a contratar pratica um acto ilícito, que pode constituí-la em
responsabilidade perante a que deseja realizar o contrato. Havendo inclusive casos
em que a esta pessoa se permite obter a execução coerciva do contrato.

A. Por vezes a obrigação ou dever de contratar resulta de convenções


celebradas entre as partes. Assim se sucede, desde logo, quando uma das
partes ou ambas elas hajam assumido um contrato-promessa (410ºss) a
obrigação de celebrar determinado contrato. Quando exista uma convenção desta
natureza, contrato promessa, o promitente já não é livre de contratar, tem o dever
de fazê-lo, sob pena de a contraparte poder exigir judicialmente o cumprimento
da promessa, ou a indemnização pelo dano proveniente da violação desta.

B. Outras vezes a obrigação ou dever de contratar resulta directamente da lei:

1. È o caso do seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel; e dos


contratos de arrendamento impostos ao dono do imóvel nalguns países
estrangeiro logo após o termo da guerra ou durante e o caso previsto no
artigo 1793º.
2. Dever de contratar relativo a serviços públicos. São também obrigadas a
contratar, em certos termos, as empresas concessionárias de serviços
públicos (transportes, comunicações, abastecimento de agua, fornecimento
de electricidade, gás e etc.), sempre que o acto constitutivo da concessão ou
regulamentos aplicáveis lhes não permitam recusar a celebração do contrato,
sem especial causa justificativa. O facto de estas actividades respeitarem a
bens essenciais à vida dos cidadãos e se exercerem em regime exclusivo,
como e vulgar no sistema económico dos próprios Estados capitalistas,
justifica que a entidade concessionaria (quer se trate de empresa publica,
quer empresa mista ou privada) não possa recusar a celebração do contrato
com qualquer utente que preencha os requisitos de utilização do serviço
fixados nos respectivos regulamentos.
3. Profissões de exercício condicionado. Restrição semelhante incida ainda
por força de lei expressa , sobre pessoas que desempenham profissões
liberais cujo exercício esteja condicionado à posse de certo titulo de
habitação ou à inscrição em determinados organismos. Assim se sucede
expressamente com os médicos, que não podem salvo caso de força maior,
recusar a prestação de assistência quanto ao socorro “de extrema urgência a

12
um doente ou sinistrado em perigo imediato”, e que são igualmente
obrigados a prestar os serviços da sua especialidade, sempre que não haja
outro medico a quem o doente possa facilmente recorrer. Imposição
semelhante, embora de aplicação menos intensiva, recai sobre os advogados
e solicitadores.
4. Venda de bens essenciais à vida das pessoas? Coloca-se por vezes a
questão de saber se por exemplo quanto aos estabelecimentos fornecedores
de bens destinados a satisfazer necessidades vitais do cliente se não haverá
uma obrigação de contratar. E quanto a uma empresa proprietária da única
sala de espectáculos ou o único restaurante existente na localidade; terá ela
liberdade de recusar a entrada a qualquer pessoa, cuja presença lhe não
agrade? O problema tem sido bastante discutido na doutrina, havendo quem
imponha restrições com diversos fundamentos. No entanto tais limitações,
funcionando como excepções ao princípio da liberdade de contratar
consagrado no artigo 405º, só deviam ter-se como validas quando a lei
explícita ou implicitamente as estabelece-se, sem a violação dos princípios
constitucionais. No entanto o artigo 13º da CRP parece condenar elo seu
espírito toda a recusa de contratar que envolva carácter discriminatório, em
termos que ofendam o preceito constitucional. E à sobretudo na Lei da
defesa da concorrência (DL nº 422/83, de 3/12), varias disposições que não
só proíbem como punem certas praticas restritivas da livre concorrência,
entre as quais o legislador expressamente inclui “a recusa de venda de bens
ou de prestação de serviços”, ainda “que se trate de bens ou de serviços não
essenciais” (art. 3 e 11 do DL nº 422/83, de 3/12), abrangendo assim por
maioria de razão os bens e serviços essenciais.

2. Proibição de contratar com determinadas pessoas

Restrições à liberdade contratual, mas de sinal contrário às discriminadas no grupo


anterior, são (alem das que se estendem a certas categorias de pessoas: proibição de
acesso dos menores a certos espectáculos públicos) as provenientes das normas que
proíbem a realização de alguns contratos com determinadas pessoas: 579º e 876º,
quanto à cessão e à venda de direitos ou coisas litigiosas; o artigo 877º,
relativamente à venda feita por pais a filhos ou por avos a netos, sem o
consentimento de outros filhos ou netos; o artigo 953º, quanto à doação a favor das
pessoas abrangidas pelas indisponibilidades relativas constantes dos artigos 2192º a
2198º.

3. Obrigação de renovação ou transmissão do contrato imposta a um dos


contraentes

Há ainda casos em que, sem prejuízo da liberdade inicial dos contraentes, a lei
impõe a um deles a renovação do contrato ou a transmissão para terceiro da posição
contratual da outra parte. Tal se sucede no contrato de locação, em cujo regime os
artigos 68º, nº2 e 69º nº1 do R.A.U. sujeitam o senhorio à renovação do
arrendamento, desde que o arrendatário o não denuncie, pendendo faze-lo, e o artigo
1057º, impõem ao adquirente da coisa locada, ao abrigo do principio emptio non
tollit locatum a manutenção do contrato de locação, se essa for a vontade do
locatário. A transmissão da posição do arrendatário pode realizar-se,
independentemente do consentimento do senhorio, nos seguintes casos: a) quando,

13
no caso de divórcio ou de separação judicial de pessoas e bens, os cônjuges acordem
transferir o arrendamento destinado a habitação para o cônjuge do arrendatário, ou o
tribunal decida, na falta de acordo (84º RAU); b) quando, por morte do arrendatário,
o arrendamento para habitação se transfira para o cônjuge dele ou ara qualquer dos
seus parentes ou afins, nos termos do artigo 85º do RAU; c) quando o arrendamento
comercial ou industrial se transmita por morte do arrendatário ou por trespasse do
estabelecimento 112º e 115º do RAU; d) quando o arrendamento para o exercício de
profissão liberal se transmita por morte do arrendatário ou por cessão da posição
deste (121 e 122º RAU).

4. Necessidade de consentimento, assentimento ou aprovação de outrem

Figuram ainda entre as limitações à liberdade contratual os casos em que, para


contratar, certas pessoas necessitam do consentimento ou do assentimento de
outrem, e aqueles em que a validade do contrato livremente celebrado entre as partes
depende da aprovação de certa entidade. È o caso dos cônjuges que necessitam do
consentimento um do outro, para alienarem os bens compreendidos no nº3, al. a),
do artigo 1682º e nos 1 e 2 do artigo 1682ºA e o do inabilitado que necessita da
autorização do curador para os actos de disposição entre vivos e todos os demais
que constem da sentença de inabilitação (153º nº1). E ainda nos casos dos
representantes legais de certos incapazes que necessitam de autorização do
tribunal (1889º, 1938º, 139º e 140º) para a realização de certos actos jurídicos.

II.
A liberdade de escolha do outro contraente e seus limites

Depois de se decidir livremente a contratar (a fazer o seguro de vida, a comprar o


automóvel ou a vender a jóia que herdou), a pessoa goza ainda da faculdade de escolher
livremente a pessoa com quem vai realizar o contrato.

Limites à liberdade de escolha do outro contraente

1. Auto-limitações resultantes da vontade das partes (e por isso em bom rigor não
constituem restrições à liberdade contratar) que são essencialmente constituídas
pelos chamados pactos de preferência, mediante os quais um dos contraentes (o
obrigado à preferência) se compromete a escolher outro (em condições de
igualdade) como sua contraparte, na hipótese de se ter decidido a realizar
determinado contrato. Estes têm apenas eficácia relativa ou obrigacional.
2. Limitações provenientes directamente da lei. Destas destacam-se as resultantes
dos chamados direitos legais de preferência e as impostas pelas normas que
reservam para certas categorias profissionais (os advogados, os correctores de
bolsa, etc.) a realização de determinados tipos de prestação de serviços.
Os direitos legais de preferência, em que o nosso sistema jurídico é
relativamente pródigo, têm uma eficácia limitativa da liberdade contratual ainda
mais forte do que o resultante dos pactos de preferência, enquanto os primeiros
têm apenas eficácia relativa ou obrigacional, os direitos legais de preferência
gozam sistematicamente de eficácia real, como melhor convém à natureza dos
fins que determinam a sua instituição.

14
III.
A livre fixação do conteúdo dos contratos e seus limites

Alem da liberdade de contratar e da liberdade de escolha do outro contraente,


reconhece-se aos contraentes a faculdade de fixarem livremente o conteúdo do contrato.
Tomando como ponto de referência os contratos em especial regulados, na lei, a
liberdade de modelação dos conteúdos dos contratos desdobra-se sucessivamente:
a) Na possibilidade de celebrar qualquer cada um dos contratos típicos ou
nominados previstos na lei (comprando, doando, arrendando);
b) Na faculdade de aditar qualquer um desses contratos as clausulas que melhor
convierem aos interesses prosseguidos pelas partes (sujeitando por exemplo a
eficácia da compra à verificação de certo evento futuro e incerto; modificando os
termos em que os defeitos da coisa vendida dão ao devedor, nos termos do 914º,
a faculdade de exigir reparação ou substituição da coisa: fixando um prazo para
a produção dos efeitos do contrato ou de alguns deles).
c) Na possibilidade de se realizar contratos distintos dos que a lei prevê e regula
(contratos atípicos) .

Limites à livre fixação do conteúdo


No entanto tal como na liberdade de contratar e na liberdade de escolha do outro
contraente a livre fixação do conteúdo do contrato esta sujeita a limitações. Estes limites
tem como principais fins: 1)assegurar a lisura e correcção com que as partes devem
agir na preparação e execução dos contratos; 2)garantir quanto possível a justiça
real, comutativa; 3) proteger a parte económica ou socialmente mais fraca e 4)
preservar a integridade de certos valores essenciais como a moral pública, os bons
costumes, a segurança do comércio jurídico e a certeza do direito.

Todas estas restrições se podem considerar englobadas genericamente nas palavras


introdutórias do artigo 405º “dentro dos limites da lei”.

a) Estes limites englobam desde já; os requisitos formulados no 280º e seguintes


(quanto ao objecto do negocio) entre os quais se destaca a sanção aplicável aos
negócios contrários à ordem publica ou ofensivos dos bons costumes, bem
como aos negócios usurários, cuja noção e dada em termos particularmente
amplos pelo 282º; e no artigo 398º2 relativamente ao objecto da prestação
incluída na relação obrigacional que não necessita de ter valor pecuniário,
mas há-de corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal;
e compreendem ainda as numerosas disposições dispersas por toda a legislação,
que proíbem, no geral sob pena de nulidade, a celebração de contratos com certo
conteúdo. Assumem também especial relevo, a proibição de exclusão ou
limitação convencional da responsabilidade, qualquer seja o grau de culpa do
devedor (809º e 800º,2); a proibição de doação de coisas futuras (942º), bem
como dos pactos sucessórios (946º, 1; 2028º,2), e ainda a proibição da
subordinação do casamento ou da perfilhação a termo ou condição (1618º,2
e 1852º)

15
b) Em segundo lugar, cumpre mencionar os contratos-normativos e os contratos-
colectivos, cujo conteúdo fixado em termos genéricos, se impõe, em
determinadas circunstâncias, como um padrão a que os contraentes são
obrigados a observar nos seus contratos individuais de natureza
correspondente. Constituem exemplos típicos desta figura de standartização
negocial as convenções colectivas de trabalho (os acordos colectivos de
trabalho e os contratos colectivos de trabalho). Trata-se de uma espécie de
contratos preliminares ou preparatórios, dentro do qual se podem distinguir duas
variantes.
 Se o contrato-modelo ou padrão se destina a servir de paradigma dos
contratos individuais que os outorgantes venham, de futuro, a celebrar
entre si, chama-se-lhe usualmente contrato-tipo.
 Se pelo contrario, o clausulado genérico do contrato, firmado em regra
por entidades representativas de certas categorias económicas ou grupos
sindicalizados, se destina a servidor de modelo (obrigatório) a contratos
individuais realizados entre pessoas que não participaram na elaboração
do modelo, chama-se-lhe preferentemente contrato-normativo.

c) Cabe, por último, referir as normas imperativas que se reflectem no conteúdo


dos contratos:
a. Umas são aplicáveis à generalidade dos contratos ou certas categorias de
contratos, entre estas, e abstraindo das regras relativas aos negócios formais
(220º, 875º,947º,1029º), que respeitam à formação e não aos efeitos do
contrato, e das que estão compreendidas no regime geral do negocio jurídica,
avulta o principio da boa fé, pelo qual se deve pautar a conduta das partes,
tanto no cumprimento da obrigação como no exercício do direito
correspondente (762º).
b. Outras, privativas de certos contratos em especial, e que são vulgares nos
sistemas de economia fortemente dirigida, encontramos os exemplos das
normas que fixam a duração máxima ou duração mínima de certos contratos
(1025º, 1240º) ou do prazo para a resolução no caso de venda a retro (929º);
as que limitam as causas de resolução do contrato (64º RAU), as que
determinam a responsabilidade dos contraentes por certos vícios contratuais
(898º, 908º e 912º 1) e as que limitam as taxas de juro no caso do mutuo
1146º.

IV.
Outras limitações ao principio da liberdade contratual

Figuram ainda entre as limitações à liberdade contratual: as limitações resultantes de


legislação que visa a defesa do consumidor, a limitação de exploração de jogos de sorte
e azar, do sexo e drogas pela sua vertente de exploração de certos vícios da espécie
humana, podendo no entanto estas incluírem-se na previsão do artigo 280º.

V.
Contratos de adesão, como limitação de facto à liberdade contratual

16
Na sua formação teórica tradicional, o contrato é normalmente precedido de uma livre
discussão entre os pactuantes sobre o teor de cada cláusula. Pressuposto do debate
prévio entre os contraentes é a igualdade jurídica das partes, uma das premissas em que
o liberalismo individualista assentava a força soberana do contrato. Porem nos
contratos de adesão, isto é aqueles em que um dos contraentes, não tem a menor
participação na preparação e redacção das respectivas clausulas, se limita a aceitar
o texto que o outro contraente oferece, em massa, ao publico interessado, estes na
pratica apenas são livres de aderir ao modelo, padrão ou clausula que lhes é oferecida,
ou de a rejeitar, mas não de discutirem ou alterarem o conteúdo da proposta. Não
havendo pois aqui, a livre discussão entre as duas partes, que salutarmente costumava
preceder a fixação do conteúdo do contrato.
Note-se, porem que a limitação à liberdade contratual existe apenas no domínio dos
factos, visto que no plano da lei, nada há que impeça os particulares e as empresas
seguradoras ou de fornecimento de agua, energia ou em certas operações
bancárias, de fixarem livremente as clausulas do contrato ou de se afastarem dos
modelos de negociação usualmente seguidos.

2. A Boa Fé (a responsabilidade pré-contratual (culpa em


contrahendo) e a responsabilidade pós-contratual e o abuso do
direito.

A. Na sua acepção subjectiva a boa fé traduz um estado de espírito (desculpável) de


alguém que, em certo momento, estava convencido da conformidade ao direito de
certo acto ou posição jurídica (por ex., da existência ou inexistência de um direito,
de um facto ou da validade do negocio), sendo essa convicção desconforme à
realidade (por exemplo A comprador de um automóvel desconhece a existência de
essa limitação que é a reserva da propriedade).
B. Enquanto principio normativo, objectivo, norma de conduta ou de
comportamento, e, como tal, distinto da diligencia no cumprimento e da atitude
psicológica, intelectual do estar de boa fé (espécie de honradez subjectiva) diz
respeito aos sujeitos de qualquer relação obrigacional (contratual ou legal), abarca
os quadrantes principais da lealdade/fidelidade e da cooperação, prevalece, como
critério de controlo, sobe o clausulado contratual.

I.
A responsabilidade civil pré-contratual como manifestação do
principio da Boa Fé

Esta encontra-se prevista sobretudo no artigo 227º que decreta “quem negoceia com
outrem para a conclusão de um contrato deve, tanto nos preliminares como na formação
dele, proceder segundo as regras da boa fé, sob pena de responder pelos danos que
culposamente causar à outra parte” resultando pois a ideia de que o simples início das
negociações cria entre as partes deveres de lealdade, de informação e de esclarecimento,
dignos da tutela do direito bem como:
 A consagração em Portugal da tese da responsabilidade pré-contratual pelos
danos causados culposamente à contra parte tanto no período das negociações
como no momento decisivo da conclusão do contrato.

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 À responsabilidade pré-contratual (culpa em contrahendo) deve aplicar-se o
regime do artigo 799º quanto à presunção da culpa
 Responsabilidade essa no entanto que não se circunscreve, como se sucedia na
tradicional teoria da “culpa in contrahendo”, à cobertura dos danos
culposamente causados à contra parte pela invalidade do negócio. A
responsabilidade pré-contratual, com a amplitude que lhe dá a redacção do
artigo 227º, abrange os danos provenientes da violação de todos os deveres
(secundários) de informação, de esclarecimento e de lealdade em que se
desdobra o amplo espectro negocial da boa fé.
 Alem de indicar o critério pelo qual se deve pautar a conduta de ambas as
partes (a boa fe) , a lei portuguesa aponta concretamente a sanção aplicável
à parte que sob qualquer forma, se afasta da conduta exigível: a reparação
dos danos causados à contraparte.
 A lei não se limita a proteger a parte contra o malogro da expectativa de
conclusão de negocio, cobrindo-a de igual modo contra outros danos que ela
sofra.

Quanto à execução especifica:


A mera frustração da conclusão do contrato, ainda que com violação das
legítimas expectativas criadas no espírito da outra parte (uma das vertentes da boa-fé) e
por mais censurável que seja a ruptura das negociações na eminência da celebração do
contrato, não da direito à execução especifica, contrariamente ao que se sucede nos
casos de contrato promessa mas somente a uma indemnização nos termos do 227º

Quanto à indemnização:

Tese de Antunes Varela


Com base no artigo 227º, quando tenha havido ruptura injustificada do
contrato, há lugar a indemnização que deve ser calculada pelo chamado interesse
contratual negativo; a perda patrimonial que não teria tido se não tivesse confiado
na celebração do contrato frustrado ou a vantagem que não alcançou por causa da
mesma expectativa gorada (ex. teria vendido a terceiro por melhor preço ou teria
comprado por melhor preço a terceiro). No entanto o interesse contratual positivo
(ou seja, do beneficio que a conclusão do contrato traria à parte prejudicada nas
suas expectativas) deve ser o limite máximo da indemnização, pelo que se o
interesse contratual negativo exceder o interesse contratual positivo, deve-se
aplicar o valor resultante deste último.

Tese de Menezes Cordeiro e Brandão Proença


O credor poderá optar pelo interesse contratual positivo ou negativo consoante
lhe seja mais favorável.

II.
O Abuso do direito enquanto manifestação do principio da
Boa Fé

18
O Abuso de direito regulado pelo artigo 334º e 762º nº2 é uma das maiores
manifestações do princípio da boa fé, sobretudo nas suas formas de “venire contra
factum próprium”. O abuso do direito consiste sobretudo em 6 (seis) modalidades:
O abuso do direito consiste sobretudo nas seguintes modalidades:
1. A falta de um interesse protegido que justifique o exercício do direito (ex.
exercício do direito de preferência, previsto no art. 1380º, nº1, por parte de um
proprietário de um terreno confinante, apto para cultura mas em estado de
abandono, em que claramente é contrariada a função económica e social do
direito potestativo, destinada a melhorar a estrutura agrária (tanto mais quando a
lei prevê medidas contra os proprietários de meios de produção em abandono).
2. O “venire contra factum próprium”, consiste na proibição de um
comportamento num sentido diferente da confiança suscitada na parte
envolvida, sob pena de afectar as expectativas legítimas da outra parte (ex. é
o caso de um inquilino que paga a nova renda sem que o aumento tivesse sido
feito na forma legalmente prevista). Aqui pode chegar-se a um situação de
confiança, em que a outra parte, faz fé, que impede o titular, devido à
estabilidade conduta durante certo prazo, de se fazer valer do seu direito.
3. A perda do direito (neutralização do direito), consiste na situação em que o
titular do direito não invoca o mesmo durante bastante tempo, sem que se tenha
preenchido o prazo para a prescrição, e observa simultaneamente um
comportamento através do qual o dever podia legitimamente concluir que o
direito já não seria exercido.
4. Exigência injustificada. Esta situação da-se quando um titular invoca o direito
a uma prestação apesar de uma obrigação sua de devolver imediatamente esta
mesma prestação (ex. do 764º).
5. Um comportamento desleal que resulta do aproveitamento de uma posição
jurídica, ela própria adquirida por dolo ou abuso do direito, de dai provir
um prejuízo que de outra maneira não se teria verificado. Pode servir de
exemplo a invocação da prescrição, por parte de quem tiver obstado, com a sua
conduta anterior e enganadora, a que o titular do direito intentasse a tempo a
acção indicada, para evitar o decurso do prazo.
6. A inobservância dos princípios gerais do cumprimento das obrigações
(762º,2).

3. Tutela do Sujeito mais Débil

A sua projecção maior verifica-se nos contratos de consumo, mas também ao regime de
contratos de financiamento e de outros contratos mais sensíveis (mutuo, trabalho,
arrendamento).

4. Porporcionalidade ou da justiça comutativa (ou da equivalência das


prestações)

A proporcionalidade encontra-se latente em varias disposições importantes do nosso


direito constituído, entre as quais podem salientar-se as seguintes:
a) A anulação ou modificação dos negócios usurários (282º e ss);
b) A possibilidade de redução oficiosa da clausula penal excessiva (812º)

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c) A redução ou aumento do preço de coisas sujeitas a contagem, pesagem ou
medição, no caso de divergência, alem de certo limite, entre a realidade e a
declaração das partes 888º2
d) Direito à redução do peço no caso da venda de coisas defeituosas (913º) ou da
venda de bens onerados, nas circunstancias previstas no artigo 911º.
e) As regras supletivas de repartição de lucros e perdas no contrato de sociedade
(992º a 994º)
f) A possibilidade de redução da renda ou aluguer estipulados, nos casos em que o
locatário sofra privação ou diminuição do gozo da coisa locada (1040º)
g) A actualização de rendas, nos arrendamentos urbanos.
h) O direito ao aumento do preço, por parte do empreiteiro no caso de alteração ao
plano convencionado exigido pelo dono da obra (1216º).
i) O direito de resolução ou modificação do contrato por alteração normal das
circunstâncias em que as partes fundaram a decisão do contratar (437º).

5. Responsabilidade patrimonial

O património do devedor como garantia do cumprimento das obrigações em que está


constituído (817º). A prioridade da tutela por execução especifica (real) e a
residualidade da tutela por equivalente indemnização.

6. Heteroresponsabilidade

A responsabilidade perante os outros ou a imputação danosa por facto livre


responsabilizante. O critério geral da responsabilidade civil subjectiva, a progressiva
extensão do circulo da responsabilidade sem culpa e a residualidade da responsabilidade
por factos lícitos. O lesante pode pois responder por uma acção ou omissão ilícitas e
culposas, por uma actuação lícita geradora de riscos específicos e não controláveis por
actos danosos justificados legalmente pela melhor tutela conferida a certos sujeitos
individuais ou colectivos.

7. Auto-Responsabilidade

A “ responsabilidade” perante si mesmo na sua articulação com a culpa do lesado, a


assunção de risco, as condutas voluntárias com risco de dano e as predisposições para o
dano (ou o maior dano).

20
CAPITULO III
Factos constitutivos de obrigações

OS CONTRATOS

Noção de contrato: A primeira fonte de obrigações sendo que diz-se “contrato o acordo
vinculativo, assente sobre duas ou mais declarações de vontade (oferta ou proposta
de um lado; aceitação, do outro), contrapostas mas perfeitamente harmonizáveis
entre si, que visam estabelecer uma composição unitária de interesses”.

A relação contratual “alimenta-se” sobretudo dos chamados deveres laterais (ou


acessórios de conduta), deveres funcionalizados em ordem ao perfeito cumprimento do
contrato. Tendo como fontes o acordo das partes, a lei e o princípio da boa fé.
Assim o princípio da boa fé consiste:
1. Nos deveres de aviso/comunicação: o gestor devera avisar o dono do negocio
do inicio da gestão, o cliente deverá avisar o banco do extravio do livro de
cheques, o sinistrado devera avisar a sua Seguradora do sinistro ocorrido, a
mulher do arrendatário devera avisar o senhorio da morte do marido, o
arrendatário comercial devera comunicar ao senhorio o trespasse.
2. Nos deveres de informação/esclarecimentos: informação técnica, jurídica ou
médica a restar é relacionada com a compra de máquinas complexas, produtos
perigosos, prestação de serviços.
3. Nos deveres de cooperação: O dono do bem deve entrega-lo ao transportador, a
agência organizadora da viagem deve prestar assistência no decurso da mesma,
os contraentes devem colaborar na obtenção de documentos necessários.
4. Nos deveres de cuidado: Como a execução do contrato pode comportar riscos
para a integridade pessoal, há que evitar, em locais privados ou públicos, a
criação de condições perigosas (ma iluminação do café ou no cinema, mesas de
bilhar mal colocadas, degraus em estado precário, limpeza deficiente no
hipermercado.
5. Nos deveres de fidelidade/lealdade: deveres de não concorrência, de sigilo, de
discrição do gestor bancário (ver 990º e 1003º a) )

21
Nestes casos como não estamos perante deveres de prestações principais (pagamento do
preço/entrega do bem ou secundários transporte do bem vendido, entrega do vaucher do
alojamento de ferias) parece certo que o contraente terá direito a ser indemnizado,
embora não se possa recorrer em regra à acção de cumprimento. Mas em contrapartida
terá direito à resolução dos “ contratos de que decorre uma relação particularmente
estreita de confiança mutua e de leal colaboração” se houver um “comportamento que
afecte gravemente essa relação”, mesmo que o dever de lealdade e fidelidade não seja
considerado o dever principal. Sendo deveres que não estão condicionados pela
validade do contrato (por exemplo acidente sofrido por comprador de bem alheio na loja
do vendedor), estendendo-se esta desde a fase pré-contratual ate ao período pós-
contratual.

Tipologia dos Contratos

1. Contratos típicos, nominados ou em especial (874ºss): São os contratos que


(como a compra e venda, a doação, a sociedade, o mandato, o deposito, a
empreitada, ou a transacção), além de possuírem um nome próprio, que os
distingue dos demais, constituem objecto de uma regulamentação legal
especifica devido a corresponderem às espécies negociais mais importantes no
negócios jurídico. Com isto o legislador tem três objectivos; 1) por um lado visto
que se tratam de acordos negociais mais vulgarizados na prática, a lei pretende
auxiliar as partes e os tribunais, fixando subsidiariamente a disciplina jurídica
aplicável aos pontos em que as convenções redigidas pelas partes são por vezes
omissas; 2) a lei aproveita ainda o esquema negocial típico do contrato nominado
para fixar as normas imperativas ditadas pelos princípios básicos do sistema ;
3) por fim na disciplina de cada contrato típico figuram ainda as normas
dispositivas que usualmente contem a formula sacramental “salvo vontade em
contrario”, estas constituem de longe o núcleo mais numeroso das disposições
reguladoras desse contrato, e apesar de estar na sua génesis a tentativa da descoberta
da vontade presuntiva das partes, hoje em dia este rege-se não por presuntivamente
corresponder à vontade mais provável face às circunstancias concretas da vida real,
mas sim por ser a mais razoável, a mais justa, a mais equilibrada em face ao
ponto lacunoso ou omisso previsto na lei, sem ressalva, portanto da presunção
concreta de vontade em contrario.

2. Contratos atípicos ou inominados: São aqueles em que as partes, ao abrigo do


princípio da liberdade contratual (art. 405º nº1), criam fora dos modelos
traçados na lei. Contudo como através do principio da liberdade contratual a lei
permite, não só a criação de contratos diferentes dos previstos no Código Civil,
mas também a inclusão, nos contratos previstos, das clausulas que melhor
aprouverem aos interessados, importante saber quando as clausulas aditadas pelas
partes ainda respeita o tipo contratual fixado na lei e quando é que essas clausulas,
pelo contrario, já envolvem o abandono dos tipos negociais legalmente previstos,
com a consequente formação de um contrato atípico. Desta forma para responder a
esta delicada questão torna-se necessário conhecer o esquema essencial de cada

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contrato típico. Todo o contrato nominado possui, efectivamente uma função
económico-social própria, que se reflecte numa estrutura jurídica, privativa, a que a
doutrina italiana da o nome sugestivo de causa. A causa (hoc sensu) da compra e
venda, por exemplo é a transmissão de um direito mediante um preço, tal como a da
locação esta a concessão do gozo temporário de uma coisa mediante retribuição e a
da empreitada reside na realização de certa obra a troco de um preço. Desta forma
sempre que na convenção celebrada entre as partes se instale um dos esquemas ou
modelos previstos na lei e as clausulas acrescentadas não destruam o núcleo
essencial do seu acordo, nem lhe aditem qualquer outro dos esquemas
legalmente autonomizados, o contrato continuara a pertencer ao tipo
correspondente a esse esquema. Quando assim não se suceda a convenção das
partes pertencerá já aos contratos atípicos/inominados ou a contratos mistos.

A. Contratos Mistos: fazem parte da categoria dos contratos atípicos ou


inominados. Diz-se misto o contrato no qual se reúnem os elementos de
dois ou mais negócios, total ou parcialmente regulados na lei. Em lugar de
realizarem um ou mais dos tipos ou modelos de contratual incluídos no
catalogo da lei (contratos típicos ou nominados), as partes, porque os seus
interesses o impõem a cada asso, celebram por vezes contratos com prestações
de natureza diversa ou com uma articulação de prestações diferente da
prevista na lei, mas encontrando-se ambas as prestações ou todas elas
compreendida em espécies típicas directamente reguladas na lei.

Assim como exemplo de contratos mistos encontra-mos:


1. A cede em locação a B mediante uma renda global, um prédio urbano para
habitação e um prédio rústico para exploração agrícola, ou arrenda apenas o
prédio urbano, mas obrigando-se o arrendatário à prestação de determinados
serviços, alem da renda estipulada. Fenómeno semelhante ocorrerá se no
contrato de arrendamento de certa fracção de um imóvel em construção , os
contraentes incluírem ainda um pacto de preferência relativamente à venda
de todo o imóvel. Neste caso misturam-se no contrato celebrado
elementos do arrendamento para habitação (1023º) com elementos do
arrendamento rural (D.L. nº 385/88, de 25.10 pagina 685) ou com
elementos do pacto de preferência (416º).
2. C, tio de D, vende um prédio ao sobrinho; mas, ara o compensar das
liberalidades feitas a outros sobrinhos, irmãos de D, convenciona um preço
muito inferior ao valor real do prédio, no intuito de o beneficiar
gratuitamente com o arranjo negocial entre eles concertado. Neste caso
encontramos elementos do contrato de compra e venda (874º) com
cláusulas da doação (940º).
3. E arrenda um apartamento para os dois meses de praia, obrigando-se o dono
dele não só a ceder (temporariamente) o gozo da coisa, como a fornecer
mobília, louças, roupas e a prestar múltiplos serviços (lavagem e arranjo de
roupas, etc.), a troca da renda (pecuniária) estipulada. Reúnem-se aqui
elementos do arrendamento para habitação (1023º) com cláusulas do
contrato de prestação de serviços (1154º) e de aluguer (1022º).
4. O banco, aluga um cofre ao cliente, para que este nele deposite certos
valores, realizando uma prestação que é simultaneamente de locador (1022º)
e de depositário (1185º).

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5. O turista aluga inscreve-se num cruzeiro pelo Mediterrâneo, obrigando-se a
empresa organizadora a dar-lhe transporte, alojamento em cabine e
alimentação. Neste contrato associam-se os elementos da locação (1022º),
com elementos do contrato de transporte, de compra e venda (874º), de
prestação de serviços (1154º), etc.

Verdadeiro exemplo de contrato misto constituía o contrato de leasing, que numa das
suas modalidades mais frequentes, envolvia uma associação curiosa de prestações do
contrato de locação (1022º) com prestações da compra e venda (874º) ou do
compromisso de compra e venda (410º). Contudo a partir de 1979 (DL nº 135/79, de
18/5; DL nº171/79, de 6/6; DL nº11/84, de 7/1 e DL nº1 103/86 de 19/05) e sobretudo
do DL nº 149º/95 de 24 de Junho o leasing, numa das suas variantes negociais tornou-se
num contrato nominado, sob o nomen iuris de contrato de locação financeira.

Modalidades do contrato misto:


1. Contratos combinados ou geminado: Sucede-se nos casos em que uma das
partes vincula-se a prestações que correspondem a vários contratos típicos
diferentes, enquanto a outra se vincula a uma contraprestação unitária,
dando-se assim numa das partes uma justaposição de elementos pertencentes a
contratos típicos distintos. (Teoria da combinação 1028º)

2. Contratos de tipo duplo híbrido ou acoplado: Sucedem-se nos casos em que


uma das partes vincula-se a um prestação típica de um contrato e a outra
parte a uma prestação típica de outro contrato, havendo assim uma
contraposição de elementos pertencentes a contratos tipicos distintos.
Exemplos: 1) A cede a B uma casa para habitação em troca da prestação de
serviços que integram, por exemplo, o contrato de trabalho; 2) C obriga-se a
realizar uma obra para certa empresa que em contraprestação lhe promete uma
quota na sociedade que vai explorar economicamente a obra.
(Teoria da combinação 1028º)

3. Contratos mistos em sentido estrito ou cumulativo: Sucedem-se nos casos em


há um verdadeiro nexo de subordinação, em que o que as partes quiseram,
fundamentalmente, foi celebrar determinado contrato típico, ao qual juntaram,
como clausula puramente acessória ou secundaria, um ou vários elementos
próprios de uma outra espécie contratual. Exemplos deste tipo de contratos
temos: O contrato de hospedagem ou albergaria ( arrendamento do quarto,
aluguer da mobília, prestação de serviços) do lado do hospede só temos a
obrigação de pagar o preço; ou o contrato de portaria concessão da fruição e
gozo de um apartamento e do outro lado temos um contrato de prestação de
serviços ou de trabalho; ou ainda o contrato de venda com preço de favor em
que temos os elementos da doação e da venda. (Teoria da absorção ou da
prevalência 1028º,3)

Regime jurídico do contrato misto

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Quanto ao regime destas espécies híbridas dos contratos surgiram três concepções
diferentes:

A. Teoria da absorção ou da prevalência: Os autores defensores desta teoria


procuram saber de entre as diversas prestações reunidas no contrato misto,
aquela que prepondera dentro da economia do negócio, para definirem pela
prestação principal, com as necessárias acomodações, o regime geral da espécie
concreta. Esse tipo contratual preponderante absorveria assim os restantes
elementos na qualificação e na disciplina do negócio. Esta tese foi sobretudo
defendida no artigo 1028º, 3 , a propósito da locação com vários fins, prevendo
a hipótese de um destes ser principal e os outros subordinados, manda
prevalecer o regime correspondente ao fim principal.

B. Teoria da combinação: Outros autores, com fundamento de que nem sempre é


possível determinar o elemento principal do contrato e de que não se justifica de
qualquer modo a extensão indiscriminada do regime que corresponde a esse
elemento preponderante a outras partes da relação, tentam harmonizar ou
combinar, na regulamentação do contrato, as normas aplicáveis a cada um dos
elementos típicos que integram todos os seus elementos constitutivos, mas
também nas espécies em que cada um destes elementos se instala, embora só
para fixar o regime próprio desses elementos separados. Deste modo se um
contrato inclui a um tempo elemento do contrato do trabalho e do contrato
de locação, deve o julgador aplicar as regras do primeiro à prestação que
integra a relação laboral e as do segundo à prestação própria da relação
locativa. Se é a empresa transportadora que, alem do transporte, se incumbe do
encargo de cobrar no destinatário, o preço da mercadoria entregue, estará a
primeira prestação submetida ao contrato de transporte, enquanto para a segunda
vale naturalmente o regime do mandato (nomeadamente as regras da sua
revogabilidade).

C. Teoria da aplicação analógica: Outros autores considerando os contratos mistos


como espécies omissas na lei, apelam para o poder de integração de lacunas do
negócio, que o sistema confere ao julgador. È ao juiz, de harmonia com os
princípios validos para o preenchimento das lacunas do contrato
(nomeadamente mediante a recurso à disciplina de contratos análogos), que
compete fixar o regime próprio de cada espécie.

Solução adoptada
1. Antunes Varela não adopta nenhuma das teorias em particular, sendo que
para este o primeiro passo a dar na resolução de qualquer problema de regime
suscitado por um contrato misto, consiste em saber se na lei há qualquer
disposição que especialmente se lhe refira. Deste modo há diversos problemas
de regime resolvidos directamente na lei nomeadamente:
 Quanto ao arrendamento de prédios com parte rústica e parte urbana
manda o artigo 2º, 1 do RAU para só considerar o arrendamento como
urbano se a parte urbana for de maior valor, optando desta forma o RAU pela
“Teoria da absorção ou da prevalência”.

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 Já para a locação com vários fins o artigo 1028º manda, em principio,
aplicar a cada um dos fins (habitação, exercício de certo ramo de comercio
ou da industria), o regime legal que lhe compete, consagrando pois como
regime regra na área da locação com pluralidade de fins a “teoria da
combinação” .
 No entanto no número 3 do 1028º é consagrada uma excepção nos casos em
que haja notaria subordinação de um dos fins a outro da locação deve
pois aplicar-se o regime correspondente ao fim principal, adoptando
assim a teoria da absorção.

2. Mas a lei não resolve definitivamente o problema, visto que não contem
disposições especiais que definam o regime a aplicar a todos os contratos mistos.
Deste modo para as numerosas situações que não haja disposições especiais
quanto ao regime a aplicar Antunes Varela defende a aplicação das diversas
teorias consoante as modalidades do contrato misto, assim:
 Nos contratos combinados ou geminados e nos contratos de tipo duplo,
em que há uma simples justaposição ou contraposição de elementos
pertencentes a contratos distintos, em principio deve aplicar-se a cada um
dos elementos integrantes da espécie, a disciplina que lhe corresponde dentro
do respectivo contrato (típico), isto é adopta a aplicação da “teoria da
combinação”. È este o critério geral enunciado pelo artigo 1028º,
propósito da locação com vários fins, e que deve como regra considerar-
se extensivo aos contratos mistos em geral. Exemplos: Assim, se A se
obriga a prestar a sua actividade, sob a autoridade e direcção de B, e este lhe
cede em troca o gozo temporário de certo imóvel, deve aplicar-se à primeira
prestação o regime do contrato de trabalho (porque nenhuma razão existe ara
subtrair à disciplina jurídica da relação laboral), e à segunda o da locação. Se
o expedidor da mercadoria incumbiu o transportador de cobrar o preço da
mercadoria, no acto da entrega, nada obstara, em principio, a que ele
revogue essa incumbência especial, nos precisos termos em que o mandante
pode revogar unilateralmente o mandato. E a revogação não invalidara a
parte restante do contrato, relativa à prestação do transporte.
 Já nos contratos cumulativos ou mistos em sentido estrito, em que não há
lugar a uma justaposição ou contraposição dos diversos elementos
contratuais, mas sim um verdadeiro nexo de subordinação, em que o que as
partes quiseram, fundamentalmente, foi celebrar determinado contrato típico,
ao qual juntaram, como clausula puramente acessória ou secundaria, um ou
vários elementos próprios de uma outra espécie contratual. A estes deve
aplicar-se a teoria da absorção, tendo como base o nº3 do artigo 1028º, que
também deve ser generalizado ao comum dos negócios mistos. Sendo pois
que o regime aplicável deve ser o do fim . Deste modo: 1) se o vendedor de
um certo artigo se obriga a guarda-lo como depositário, ate ao retorno do
cliente, ou a envia-lo pelos correios, para a sua residência noutra localidade;
2) ou na situação de um arrendamento de um prédio urbano, para por
exemplo nele funcionar um hospital, uma casa de saúde, um colégio, etc.,
engloba, ou pode englobar em si, como fins subordinados, não autónomos, a
habitação dos enfermeiros ou dos professores; 3) ou por fim na situação de
arrendamento de um prédio urbano para uma exploração industrial, com uma
cláusula de que nele podem habitar trabalhadores. Há em todos estes

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exemplos uma nítida prestação principal ao lado de uma prestação
acessória.

Distinção dos contratos mistos da:


A. Junção ou união de contratos: O vínculo que prende os contratos é
puramente exterior ou acidental, como quando por exemplo: provêm do
simples facto de terem sido celebrados no mesmo tempo (entre as mesmas
pessoas); ou de constarem do mesmo título. Exemplos: 1) A compra um
relógio e manda reparar um outro ao mesmo relojoeiro. 2) Certa empresa
encomenda um projecto moroso a determinados arquitectos, ao mesmo tempo
que lhes arrenda as instalações onde eles vão trabalhar. 3) O dono de uma
fábrica contrata um técnico para a realização de uma certa tarefa, compro-lhe ao
mesmo tempo o direito de utilizar certas patentes da sua invenção. 4) José
arrenda um local para Pedro instalar um restaurante e vende-lhe ao mesmo
tempo móveis e louças que tinha noutro restaurante seu. Quando assim seja,
como os contratos são não só distintos, mas autónomos, aplicar-se-á a cada
um deles o regime que lhe compete.
B. Coligação de contratos: Surge uma coligação de contratos quando estes
embora mantendo a sua individualidade, estão ligados entre si, segundo a
intenção dos contraentes, por um nexo funcional que influi na respectiva
disciplina, não se tratando pois de um nexo exterior ou acidental. A relação
dependência (bilateral ou unilateral); assim criada entre os dois ou mais
contratos pode revestir as mais variadas formas, podendo assim um dos
contratos funcionar como condição, contraprestação ou motivo do outro; pode a
opção por um ou outro estar dependente da verificação ou não verificação da
mesma condição; muitas vezes constituirá um deles a base negocial do outro
(art. 252º, 2). Exemplos: 1) A encomenda refeições no restaurante de B, mas só
as quer se B lhe puder reservar aposentos num hotel ou motel próximo. 2)
TITIUS cede um prédio urbano em arrendamento a CAIUS, que em troca
promete que SEMRONIUS venderá um muro divisório do jardim. 3) C
convenciona com D compra-lhe ou arrendar certo prédio, optando pela primeira
ou segunda alternativa, consoante venha a ser colocado na respectiva localidade
a título efectivo ou em regime de simples interinidade. 4) E, beneficiando na
partilha que efectuou com F, arrendou a este um dos prédios integrados na massa
comum de bens, por uma renda excepcionalmente baixa. 5) Exemplo perfeito de
contratos coligados é o do contrato promessa e o contrato a celebrar. Em todos
estes casos de verdadeira coligação de contratos há já uma certa
dependência entre os contratos coligados, criada pelas cláusulas acessórias
ou pela relação de correspectividade ou de motivação que afectam um deles
ou ambos eles. Porem nem as clausulas acessórias nem o nexo de
correspectividade ou de motivação que se rendem com um dos contratos ao
outro, destroem a sua individualidade. No contrato misto, pelo contrário, há
a fusão, num só negócio, de elementos contratuais distintos que, alem de
perderem a sua autonomia no esquema negocial unitário fazem
simultaneamente parte do conteúdo deste, havendo assim uma unidade
contratual no contrato misto.

IMPORTANTE: Problema mais sensível é o da qualificação jurídica e na fixação do


regime destas espécies negociais de múltiplas prestações consiste em saber se nelas

27
existem dois ou mais contratos (típicos ou atípicos), substancialmente
correlacionados entre si, ou se há pelo contrario, um só contrato atípico, de
diversas prestações. A questão pode ter interesse prático na aplicação quer do artigo
292º (que consagra o principio da redução nos casos de nulidade parcial do
negocio), quer do artigo 232º, que só considera o contrato concluído quando houver
acordo das partes sobre todas as cláusulas que o integram. Para que as diversas
prestações a cargo de uma das artes façam parte de um só e mesmo contrato, e não de
dois ou mais contratos, é necessário que elas integrem um processo unitário e autónomo
de composição de interesses. Como critérios auxiliares no entanto não decisivos, para a
resolução do problema avultam naturalmente dois: um, tirado da unidade ou
pluralidade da contraprestação; outro, assente na unidade ou pluralidade do
esquema económico subjacente à contratação. Deste modo se as diversas
prestações a cargo de uma das partes corresponder uma prestação única (una ou
indivisível) da outra parte, será naturalmente de presumir, ate prova em contrário,
que elas quiseram realizar um só contrato (embora possivelmente de carácter
misto). E o mesmo se diga, quando na base das prestações prometidas por uma a
outra das partes haja um esquema ou acerto económico unitário, de tal modo que a
parte obrigada a realizar varias prestações as não queira negociar separada ou
isoladamente, mas apenas em conjunto. È o caso da viagem de cruzeiro (contrato
misto).

O contrato-promessa
(410º)

Noção: O contrato-promessa é um contrato que vincula ambos os contraentes ou


apenas um deles à celebração posterior do contrato individualizado nesse acordo.

A natureza obrigacional do contrato-promessa não é posta em causa na presença de


uma cláusula de tradição da coisa (por ex. entrega do andar que se prometeu a comprar),
configurando-se, por outro lado, o contrato com eficácia real (413º) como promessa
particularmente protegida.
Sob o ponto de vista vinculativo o contrato-promessa diz-se bilateral se ambos os
contraentes (promitentes) assumirem a obrigação de estipular o contrato
prometido e será unilateral se apenas um deles contrair essa obrigação (411º).
Quanto às razoes e finalidades da promessa, o fim típico que conduz as pessoas a
celebração de um contrato-promessa relaciona-se com a ligação entre um desejo sério
de vinculação e um conjunto de obstáculos materiais e jurídicos impeditivos de uma
imediata contratação definitiva. São assim exemplos de obstáculos materiais (o andar,
objecto mediato do contrato, esta a ser construído ou foi apenas projectado, o
promitente comprador não tem o capital necessário); jurídicas (a escritura publica não
pode ser outorgada por ausência de certos documentos).

Requisitos de forma e de substancia:

Quanto à forma e substancia vigora o princípio da equiparação do artigo 410º, que


consiste na aplicação, como regra, aos requisitos e aos efeitos do contrato-promessa as
disposições relativas ao contrato prometido. Valem assim, para a promessa de venda,

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por exemplo, alem das regras comuns aos contratos em geral (capacidade, vícios
(venda de bens alheios, ou redução do preço), resolução, excepção do não
cumprimento), as normas especificas do contrato de compra e venda quanto à
capacidade dos contraentes, quanto as proibições de aquisição, quanto à interpretação e
integração do negocio, quanto à disponibilidade de direitos.
No entanto há duas excepções ao princípio da equiparação:
 A primeira excepção diz respeito à forma do contrato, sendo que a solução
aplicável ao contrato de compra e venda traduz-se nos seguintes preceitos: a)Se,
para o contrato prometido a lei exigir documento (seja ele autentico ou particular),
como se sucede para a venda doação de coisas imóveis, o respectivo contrato-
promessa só é valido se constar de documento escrito, assinado pelos promitentes,
ou pelo promitente obrigado, consoante a promessa seja bilateral ou unilateral
(410º 2); b) Tratando-se de contrato-promessa relativo à celebração de contrato
oneroso de transmissão ou constituição de direito real sobre edifício já construído,
em vias de construção ou que deva vir a ser construído, o documento escrito
necessita de ter reconhecimento presencial das assinaturas dos outorgantes bem
como certificação notarial da existência de licença de utilização ou de construção;
c) Se o contrato prometido estiver subordinado a qualquer outra formalidade, que
não seja a redução a documento, vale para a respectiva promessa a regra geral da
liberdade de forma.
Importante: Quanto à validade de uma promessa bilateral, assinada unicamente por
um dos promitentes, a jurisprudência tem optado pela declaração de nulidade do
negócio, embora admitindo em certos termos a validade como promessa unilateral. No
entanto a posição adoptada parte do artigo 292º e da presunção de que a vontade
hipotética é no sentido da divisibilidade, pertencendo ao promitente não
interessado na validade parcial a alegação e prova de factos ilisivos da presunção
(nos termos do 292º). Quanto à sanção esta é a nulidade atípica, que não pode ser
invocada por terceiros e impedindo que o tribunal conheça oficiosamente das
omissões formais, tese defendida por Brandão Proença, Antunes Varela, Almeida
Costa, Ribeiro Faria e Calvao da Silva.
 A segunda excepção ao princípio da equiparação refere-se especialmente aos
efeitos do contrato promessa. O contrato-promessa, criando para o promitente uma
obrigação de contratar, cujo o objecto é a prestação de facto, goza apenas, em
principio, de eficácia meramente obrigacional, restrita por conseguinte às partes
contraentes, ao invés do contrato prometido, quando se trate de contrato de
alienação ou oneração de coisa determinada, que goza de eficácia real.

Efeitos resultante do Incumprimento da obrigação pelo promitente


 442º e 811º (presunção de que a quantia entregue ao promitente comprador
vale como sinal, mesmo que esse quantitativo seja entregue como antecipação
do cumprimento)
 Execução especifica 830º (não se poderia recorrer a esta se houvesse um sinal)

Pacto de preferência
(414º)
Este distingue-se do contrato-promessa, na medida em que a pessoa não se obriga a
contratar, como sucede no contrato-promessa, mas apenas a escolher em certos termos
um outra como contraente, no caso de se decidir a contratar. Sendo aplicável por força
do 415º o regime do 410º nº2 (relativo à forma dos contratos-promessa unilaterais). As

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consequências da violação do pacto de preferência: indemnização e acção de
preferência.
Violação da preferência (acção de indemnização ou de preferência)
Admitamos, porém que o obrigado à preferência (A), como muitas vezes sucede na
pratica, aliena a coisa a terceiro (C), sem notificar o preferente (B). Nesse caso, o direito
de preferência só através da acção de preferência prevalecerá sobre o negocio já
efectuado (art. 1410º). Mas para tal necessita o direito invocado pelo autor de gozar de
eficácia real; se o direito de preferência tiver mera eficácia obrigacional, terá o titular
(A) de contentar-se com a indemnização, por parte de B, dos danos causados ela
violação do pacto. Acção de preferência deve ser interposta contra A (alienante) e C
(adquirente) isto é hà litisconsorcio necessário passivo.

O pacto de opção
A opção é um acordo mediante o qual as partes estabelecem que uma delas fica
vinculada à sua declaração contratual, tendo a outra a possibilidade de constituir a
relação contratual (por ex. vir a optar na compra).

Venda a retro (927º)


Venda em que se reconhece ao vendedor a faculdade de resolver o contrato. Esta figura
consiste assim numa modalidade em que a transmissão não se apresenta como
definitiva, na medida em que o vendedor se reserva a possibilidade de reaver o direito
alienado, mediante a restituição do preço e as despesas feitas com a venda. Esta figura é
pouco utilizada e o legislador para evitar a sua utilização como fim de garantia proibiu a
atribuição ao comprador de qualquer benefício como contrapartida da resolução,
tornando assim muito difícil que algum comprador aceite celebrar uma aquisição com
uma cláusula a retro. A venda a retro está sujeita à mesma forma do contrato.

Regime
Conforme resulta do 927º, o que caracteriza a venda a retro é ser atribuída ao vendedor
uma posição jurídica especifica que lhe permite resolver o contrato e recuperar o bem.
Contudo há limites à estipulação do prazo tal como resulta do artigo 929º, começando
esse prazo a contar do momento da transferência da propriedade. A resolução deve ser
feita por notificação judicial ao comprador dentro dos prazos fixados no 929º e se
respeitar a bens imóveis a resolução será reduzida a escritura publica nos 15 dias
imediatos, com ou sem a intervenção do comprador, sob pena de caducidade do direito”
tal resulta do artigo 930º. Efectuada a resolução a propriedade retorna à esfera do
vendedor, no entanto esta processa-se sem eficácia retroactiva é apenas adquirida ex
nunc.
A cláusula a retro só é oponível a terceiro nos casos bens sujeitos a registo e este tenha
sido realizado 932º.

Venda com reserva de propriedade (409º)


A clausula de reserva de propriedade tem que ser estipulada no âmbito de um contrato
de compra e venda, do qual não pode ser separado, de modo que se a venda já foi
celebrada, não poderá posteriormente ser nela inserida uma clausula de reserva de
propriedade, dado que a propriedade nesse caso já foi transferida para o
comprador.
Em virtude da inserção da cláusula de reserva de propriedade esta terá que
obedecer à forma legalmente exigida para o contrato. Apenas no caso de falência do
comprador se exige a forma escrita da cláusula de reserva de propriedade para

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estabelecer a sua oponibilidade à massa falida. A reserva de propriedade pode ser
celebrada em relação a quaisquer bens móveis ou imóveis, mas estes terão que ser
naturalmente coisas especificas, e não consumíveis.
No caso de bem imóveis ou bens móveis sujeitos a registo, só a cláusula constante
do registo é oponível a terceiros (art. 409º). No caso de se tratar de bens não
sujeitos a registo a reserva poderá ser oposta inclusive contra terceiro de boa fé de
acordo com os princípios da consensualidade e da causalidade. No entanto se o
terceiro adquirir a propriedade a titulo originário (independentemente da existência de
qualquer titulo prévio), como se sucede na usucapião e na acessão, naturalmente que a
reserva de propriedade se extinguirá.
A cláusula de reserva de propriedade implica assim que, por acordo entre o vendedor e
comprador, a transmissão da propriedade fique diferida para o momento do pagamento
integral do preço. A função, porém, desse acordo não é permitir ao vendedor a
continuação do gozo sobre o bem, uma vez que esta é entregue ao comprador
precisamente para o fim de lhe atribuir o seu gozo, mas apenas defender o vendedor
de eventuais consequências do incumprimento do comprado. Efectivamente, a
conservação da propriedade no vendedor ate ao pagamento do preço impede os
credores de executarem o bem, podendo o vendedor reagir contra essa execução
através de embargos de terceiro (351º CPC).No entanto no caso da falência do
comprador, a cláusula de reserva de propriedade só será oponível em relação à massa
falida, se tiver sido estipulada por escrito, ate ao momento da entrega da coisa.
A lei não regula, porém, a questão da oponibilidade da posição jurídica do
comprador na venda com reserva de propriedade aos credores e adquirentes do
vendedor. No caso da falência do vendedor determina o 161º, nº3, CPEREF que “ o
contrato de compra e venda não se extingue se o vendedor for falido e o domínio da
coisa se já tiver transmitido à data da declaração de falência; no caso contrário, cabe ao
liquidatário optar pelo cumprimento do contrato ou pela resolução dele, com direito
para o comprador a reclamar da massa falida a indemnização devida pela falta de
cumprimento”.
No entanto o regime regra parece ser de que o comprador poderá opor eficazmente a
sua expectativa real de aquisição aos credores do vendedor, mediante o processo de
embargos a terceiro, dado que é titular, de um direito incompatível com a penhora
desses bens (351º CPC). Relativamente aos adquirentes do vendedor, e manifesto
que este não pode legitimamente dispor do bem, depois de ter constituído uma
expectiva real de aquisição a favor do comprador. Se o fizer, sendo a reserva oponível
a terceiros, a posição do comprador prevalecera obviamente sobre a segunda
aquisição, devendo aplicar-se a esta o regime de venda de bens alheios do 892º.
No caso de incumprimento por parte do comprador o vendedor continua a poder
resolver o contrato nos termos do artigo 801º nº2, uma vez que a exclusão deste direito
elo art. 886º só se verifica se tiver ocorrido a transmissão da coisa. No entanto, em caso
de venda a prestações, o art. 934º exclui imperativamente a possibilidade de resolução
do contrato se o comprador faltar ao pagamento de uma única prestação e esta não
exceder a oitava do preço.
Quanto ao risco na venda com reserva de propriedade.
Há divergências na doutrina defendendo uns que na venda com reserva de propriedade o
vendedor suporta o risco pela perda ou deterioração da coisa, mesmo após a entrega ao
comprador. No entanto esta solução é claramente inaceitável, uma vez que a partir da
entrega o comprador fica já integralmente investido nos poderes de uso e fruição da
coisa, servindo a manutenção da propriedade no vendedor apenas para assegurar a
recuperação do bem, em caso de não pagamento do preço. Ora devendo o rico correr

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por conta de quem beneficia do direito, parece claro que a partir da entrega é por
conta do comprador que o risco deve correr, não ficando este exonerado do
pagamento do preço em caso de perda ou deterioração fortuita da coisa.
Igualmente se se vier a verificar a deterioração da coisa, em resultado de um dano
culposamente causado por um terceiro, é manifesto que não pode ser o vendedor a
reclamar a totalidade da indemnização, uma vez que, enquanto conservar o credito
do preço, o património do vendedor não sofre qualquer diminuição. No entanto
quanto aos titulares da indemnização a matéria não é pacifica defendendo uns (RHUL)
que o comprador só teria direito à indemnização com o pagamento integral do preço;
outros (RAISER) que o lesante terá que satisfazer a indemnização conjuntamente a
ambos, outros (BIANCA) defendem que o comprador é o principal titular do direito da
indemnização, mas o vendedor também tem direito a uma parte em virtude da frustração
da garantia que possuía sobre o bem.

Natureza jurídica da venda com reserva de propriedade


A venda com reserva de propriedade tem vindo a ser objecto de grande controvérsia
doutrinária, podendo assim apontar-se seis principais posições:
1. Teoria da condição suspensiva: A reserva de propriedade deveria ser qualificada
como uma condição suspensiva, na medida em que a transmissão de
propriedade ficaria subordinada a um facto futuro e incerto, o pagamento do
preço, o que permitiria ver a posição jurídica do comprador como a de adquirente
condicional, o que permitira a aplicação ao comprador do regime dos art. 273º e
274º (condição e termo), dai resultando no entanto, que o risco de perecimento da
coisa, durante esse período correria por conta do vendedor, ainda que já tivesse sido
entregue ao comprador (793º nº3). Deve ser rejeitada: Esta teoria deve ser rejeitada
em primeiro lugar, não é tecnicamente um evento condicional e incerto o
comprimento da obrigação de pagamento do preço, dado que ele constitui um dos
elementos essenciais do negócio. Por outro lado, essa obrigação de pagamento do
preço é constituída logo no momento da celebração do contrato, uma vez que o
vendedor pode proceder à sua cobrança em caso de não cumprimento, o que
demonstra não existir qualquer suspensão dos seus direitos. Finalmente porque a
aquisição da propriedade pelo comprador verifica-se no momento do pagamento do
preço, e não retroage à data da conclusão do negócio, ao contrário do que imporia o
276º.
2. Teoria da condição resolutiva: De acordo com esta teoria a propriedade seria logo
transmitida para o comprador, mas a partir do momento em que se verifica-se o
incumprimento do pagamento do preço, ocorreria a resolução dos efeitos do
negocio, com eficácia retroactiva, sendo assim recuperada a propriedade pelo
vendedor. Deve ser rejeitada: Apesar solução ser adequada em termos de
distribuição do risco, face ao que se dispõe no art. 796º nº3 é no entanto susceptível
de todas as criticas que se apontou à teoria da condição suspensiva quanto à
qualificação da reserva de propriedade como uma condição. A solução contraria
igualmente o art. 409ºnº2 que se refere expressamente que o alienante reserva para
si o direito de propriedade ate ao pagamento do preço, quer com o disposto no artigo
304º nº3, que determina em caso de prescrição do credito do preço, que equivale à
certeza de não verificação da condição, o vendedor continua a poder exigir a
restituição da coisa, quando o preço não seja pago.
3. Teoria da venda obrigacional: De acordo com ela, na venda com reserva de
propriedade não se verificaria automaticamente o efeito translativo com a celebração
do contrato, mas antes se instituiria uma obrigação para com o vendedor de fazer o

32
comprador adquirir a propriedade. Deve ser rejeitada: Uma vez que a aquisição da
propriedade pelo comprador na venda com reserva verifica-se logo que ele cumpre a
obrigação de pagamento do preço, não ficando na dependência de qualquer outra
obrigação por parte do vendedor.
4. Teoria da dupla propriedade: De acordo com esta, após a celebração do contrato
e ate ao pagamento do preço, ambas as partes se devem considerar como
proprietárias do bem, constituindo a venda com reserva de propriedade um exemplo
de surgimento de novos tipos de propriedade especial. O comprador adquiria já um
tipo peculiar de propriedade que, embora lhe permitisse o exercício do gozo da
coisa, teria um conteúdo mais reduzido do que a propriedade tradicional, na media
em que poderia perder o seu direito no caso de falta de pagamento do preço, e o seu
direito sucumbiria em relação os seus credores perante o exercício do direito do
vendedor. A posição do comprador seria assim de proprietário sob reserva do
pagamento do preço, já o vendedor, embora conservasse a propriedade, ver-se-ia
privado das principais faculdades que a integram, apenas mantendo para efeitos de
garantia do preço (propriedade para garantia do pagamento do preço). Deve ser
rejeitada: Porque contraria o artigo 1305º, que qualifica o direito de propriedade
como um direito exclusivo.
5. Teoria da venda com eficácia translativa imediata, associada à atribuição ao
vendedor de uma posição jurídica, que lhe garante, com eficácia real, a
recuperação do bem em caso de não pagamento do preço: De acordo com esta
teoria a venda com reserva de propriedade destina-se apenas a atribuir ao vendedor
uma situação jurídica real que lhe permitia obter a recuperação do bem em caso de
pagamento do preço. Essa situação jurídica não confunde, porém, com a
propriedade aproximando-se mais do penhor, do qual apenas se distingue apenas por
não supor a entrega do bem, devendo por isso ser incluída nos direitos de garantia .
Assim a venda com reserva de propriedade, apesar de onerada com um direito real
de garantia, a verdade é que a propriedade se transferiria imediatamente para o
comprador. Implicando o pagamento do preço não a aquisição da propriedade mas
sim antes a extinção dessa garantia real.
6. TEORIA ADOPTADA: Venda com reserva de propriedade como uma venda em
que o efeito translativo da propriedade é diferido ao momento do pagamento do
preço, obtendo no entanto o comprador logo com a celebração do contrato uma
posição jurídica especifica distinta da propriedade, normalmente qualificada como,
expectativa real de aquisição. Em relação ao vendedor, ele conserva naturalmente
a propriedade sobre o bem, ainda que esta passe a ser onerada pela posição jurídica
do comprador, bem como limitada pela função especifica da reserva de propriedade,
que é essencialmente a função de garantir o pagamento do preço, uma vez que o
negocio translativo já foi celebrado, permitindo ao vendedor em caso de não
cumprimento pelo comprador, resolver o contrato e exigir a restituição da coisa. Em
relação a terceiros, a reserva de propriedade é naturalmente oponível, ainda que,
quando se trate de bens imóveis ou móveis sujeitos a registo, tenha que ser
registada. Já em relação ao comprador, ate ao pagamento do preço, se ele não é
ainda proprietário, uma vez que a clausula de reserva de propriedade determina a
manutenção da propriedade no vendedor, também não se pode dizer que a sua
posição jurídica seja meramente obrigacional, uma vez que esse negocio já confere
ao comprador uma expectativa real jurídica de aquisição do bem, a qual deve ser
considerada oponível a terceiros. Assim, tanto o vendedor como o comprador são
titulares de situações jurídicas reais, havendo que distribuir o risco de acordo com o
proveito que cada um tirava da situação jurídica. Como o vendedor conservava

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apenas a propriedade com a função de garantia, deve apenas suportar o risco da
perda dessa garantia, pelo contrario, como o comprador já se encontrava a tirar todo
o proveito da coisa, é a ele que competira suportar o risco pela sua perda ou
deterioração. Assim se compreende que na reserva de propriedade o risco se
transfere para o comprador logo que a coisa lhe seja entregue.

Contrato a favor de terceiro


(443º)

Noção: O contrato a favor de terceiro é o contrato em que um dos contraentes


(promitente) atribui, por conta e à ordem do outro (promissório), uma vantagem a um
terceiro (beneficiário), estranho à relação contratual. Essencial ao contrato a favor de
terceiro, como figura típica é que os contraentes procedam com a intenção de atribuir
através dele, um direito (de credito ou real) a terceiro ou que dele resulte, pelo menos,
uma atribuição patrimonial imediata para o beneficiário.

Exemplos: E, obrigado a entregar certa mercadoria a F, celebra com uma empresa


especializada um contrato de transporte para colocação da mercadoria no domicilio do
credor, ao qual remete a respectiva guia.
C doa avultados bens a D, mas com o encargo do donatário pagar a E uma pequena
pensão vitalícia.

Mas para que haja contrato a favor de terceiro não basta que o terceiro seja o
destinatário da prestação é necessário que seja titular do direito a ela ou
beneficiário directo da atribuição nascida do contrato.
 Assim deste modo não temos um contrato a favor de terceiro mas sim contratos
com efeitos reflexos sobre terceiros o caso do contrato de locação em que o uso do
imóvel e conferido não apenas ao locatário mas a todo o agregado familiar que
habita com ele) e o contrato de aquisição de equipamento que se destina a ser
usado por pessoas diferentes do comprador.
 Já mais difícil ser de avaliar o caso do filho que contrata a mulher a dias para
prestar serviços em casa dos pais, ou paga à cabeleireira para ir pentear
quinzenalmente a mãe a casa, tanto pode querer conferir aos pais ou à mãe o
direito à prestação, como considera-los puros beneficiários da prestação sem que a
mulher a dias se venha a vincular perante estes.

Não é essencial à figura do contrato a favor de terceiro o carácter gratuito da vantagem


proporcionada ao beneficiário. Basta pensar nos casos em que o seguro da
responsabilidade civil é imposto no interesse de terceiro.

Dupla relação que o contrato integra:

A. Relação entre o promissário e o promitente. O contrato a favor de terceiro, é


no seu aspecto instrumental, o meio de que o promissário se serve para efectuar
uma atribuição patrimonial indirecta, porque obtida através da prestação do
promitente, em benefício de terceiro. A prestação usada para esse fim provem da
relação já existente, ou criada no momento do contrato, entre o promissário e o
promitente, relação que pode ter a mais variada natureza (contrato de seguro,
compra e venda, transporte, arrendamento, doação, etc.). Como é esta a relação

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que alimenta, subsidia ou cobre o direito conferido a terceiro chama-se relação
de cobertura ou provisão. Mas o direito atribuído ao beneficiário integra-se por
seu turno numa outra relação, estabelecida entre o promissario e o terceiro
beneficiário, à qual se dá a designação de relação de valuta. A relação de
cobertura ou provisão tem uma importância fundamental na fixação dos direitos
e deveres recíprocos do promitente e do promissário, bem como na
determinação dos meios de defesa que podem opor um ao outro. Assim se o
vendedor de certa coisa convencionar que o preço seja pago a terceiro, ou o
locador estipular que a renda seja entregue a terceiro, nem por esse facto eles
deixam de ter os direitos próprios da venda ou da locação (Poder denunciar ou
resolver o contrato, exigir indemnização no caso da coisa vendida ser defeituosa,
dever de reparar a coisa ou fazer outras despesas necessárias a conservação
dela).
E tem a mesma influência nas relações entre promitente e terceiro, visto
aquele poder opor a este, nos termos do 449, todos os meios de defesa
derivados do contrato. Assim se o contrato for nulo ou anulável, por
carência de forma, por falta ou vícios da vontade; se caducar por
verificação de condição resolutiva ou por não verificação da condição
suspensiva; se houver fundamento para a excepção de contrato não
cumprido, todos estes meios serão oponíveis não só ao promissario como ao
terceiro. O promitente não pode é invocar os meios de defesa baseados em
qualquer outra relação entre ele e o promissario ou na relação de valuta
(entre promissario e terceiro). O promitente não pode assim considerar
extinta a obrigação, que contraiu em face de terceiro, por compensação de
um credito através de um outro contrato sobre o promissario. Se tiver já
cumprido, e o contrato que serve de cobertura à prestação vier entretanto a ser
declarado invalido ou perder por outra razão a sua eficácia, o promitente não
poderá em principio repetir a prestação já efectuada se a relação de valuta se
mantiver, a prestação só poderá ser repetida nos termos do artigo 478º.

B. Posição do terceiro. Relação de valuta entre promissário e terceiro. Ao contrato a


favor de terceiro não interessa apenas a relação entre o promitente e o
promissário, mas também a posição do terceiro beneficiário e a relação (de
valuta) entre este e o promissario. Direitos do terceiro. O terceiro adquire o
direito à prestação como direito imediato do contrato, independentemente da
aceitação ou ate do conhecimento da celebração do contrato. Da mesma forma
se o contrato revestir alguma das modalidades especialmente previstas no nº2 do
artigo 443º operam-se independentemente da aceitação de terceiro. A aceitação
(adesão) tem, no entanto, um efeito útil, que é o de precludir a revogação da
promessa por parte do promissário. A adesão tem que ser declarada ao
promitente, a quem incumbe realizar a prestação, e ao promissário, para que não
conte com a revogabilidade da promessa. Enquanto a adesão não for
comunicada ao promissário, mesmo que o seja ao promitente, pode aquele
revogar a promessa; enquanto não for comunicada ao promitente, não incorrera
este em mora, nem estará vinculado aos deveres secundários de conduta.
Mesmo depois da adesão o terceiro não se torna contraente mas apenas titular
definitivo do direito que o contrato lhe conferiu. A rejeição do terceiro
beneficiário feita ao promitente, destrói retroactivamente os efeitos da aquisição
imediata do direito, reconstituindo a situação jurídica existente no momento
anterior à celebração do contrato. Sendo que esta rejeição pode ser impugnada

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pelos credores do terceiro beneficiário por meio de uma imugnação pauliana
(610º e ss).O direito de resolução do contrato, por impossibilidade superveniente
da prestação, não cabe ao terceiro, mas ao promissário, visto tratar-se de uma
faculdade que é exclusivamente reservado aos contraentes.

Direitos do promissário. O promissário tem o direito de exigir do promitente o


cumprimento da promessa (salvo estipulação em contrario 444º,2), bem como .
Consistindo a promessa em solver uma divida sua para com terceiro, so ele
(promissário) e não também o terceiro terá, em principio, o direito de exigir o
cumprimento do contrato. Na titularidade do promissário continuam ainda os
vícios da vontade, de declaração, falta de forma, etc. O promissário tem ainda o
direito de revogar a promessa, enquanto ela não for aceite pelo beneficiário, ou
enquanto vivo, for destinada a ser cumprida so após a sua morte. Salvo nos
casos em que há estipulação em contrario e o de a promessa ser feita no interesse
de ambos os outergantes (ex muto oneroso a favor de outrem), pois neste caso
dependerá a revogação também do promitente. Mesmo depois da aquisição
definitiva do direito pelo terceiro, o promissário pode invocar contra ela os
vícios concernentes a relação de valuta (inexistência, nulidade ou anulabilidade
da divida que se pretendia solver, nulidade ou anulação do mutuo ou da renda
vitalícia que a prestação pretendia integrar). Há casos em que a lei pretender
reagir contra o beneficio que terceiro recebeu, porque este se mostrou indigno da
liberalidade (ingratidão do donatário por exemplo), porque o beneficio tem na
sua base uma situação reprovável (nulidade da doação feita pelo cônjuge
adultero à pessoa com quem o adultério foi cometido). Quando assim seja o
valor a ter em conta é o correspondente ao beneficio recebido pelo terceiro.
No entanto por exemplo nas normas que não visam reagir contra a liberalidade,
mas pretendem apenas reintegrar no património da parte liberal os valores de
que ele foi desfalcado, para evitar que terceiros, como os credores, sejam lesados
nas suas legítimas expectativas. Nesses casos apenas se permite a reacção contra
o custo dele no património do promissário.

Distinção de contratos a favor de terceiros para outros tipos de


contratos similares

Contratos com eficácia de protecção para terceiros


Contrariamente ao que se sucede nos contratos a favor de terceiro, não conferem
a “certos terceiros qualquer direito a uma prestação contratual”, mas legitimam
um pedido indemnizatório, se o devedor violar certos deveres laterais de
cuidado. Esses terceiros, são aqueles que “estão envolvidos, por força da sua
situação relativamente ao credor e da sua proximidade da prestação resultante
das circunstancias, no circulo de contrato” (caso do familiar ou do empregado do
arrendatário, do operário da fabrica onde foi recebido o mecanismo defeituoso,
do marido da dona do imóvel que tenha contratado um empreiteiro. A não
verificar-se “o circulo de protecção do contrato” a única via de tutela seria do
mecanismo seria o 483º apesar de os perigos ligadas a certa prestação afectarem
tão fortemente esses terceiros como o credor.

Gestão de Negócios
(464º)

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Noção: Dá-se a gestão de negócios, quando uma pessoa assume a direcção de negócio
alheio no interesse e por conta do respectivo dono, sem para tal estar autorizada.

Interesse pratico: A intervenção do gestor assenta quase sempre numa atitude de


altruísmo moralmente louvável, de benemerência ou de autentica solidariedade humana,
pode ter uma utilidade apreciável na conservação ou na exploração de bens que, de
outro modo, correriam o risco de perder-se, deteriorar-se ou manter-se improdutivos, ou
na realização de actos cuja omissão poderia acarretar danos irreparáveis. Esta constitui
em principio um acto ilícito, visto que constitui a intromissão não autorizada na esfera
jurídica alheia.

Requisitos: Para que haja gestão de negócios são necessários os seguintes requisitos:
a)que alguém (gestor) assuma a direcção de negocio alheio (negocio alheio no sentido
de interesse alheio ou assunto sendo que tem que haver a consciência desse mesmo
carácter alheio (assim o agente manda transportar a criança atropelada para o hospital e
este não é seu filho como ele supunha mas é o filho do vizinho, aqui não há consciência
desse carácter alheio como tal não há gestão visto que este actua na convicção de o
interesse ser próprio ); b) que o gestor actue no interesse e por conta do dono do
negocio; c) que não haja a autorização deste.

Gestão imprópria de negócios, na gestão de negócio alheio, consiste quando o agente


age no seu próprio interesse com a intenção de retirar proveitos da intromissão na esfera
alheia (receber rendas, utilizar veiculo em proveito próprio ou da família), neste caso há
lugar a responsabilidade civil ou ate mesmo criminal.

Gestão representativa, consiste quando o gestor age em nome próprio sem revelar à
contra parte o nome da pessoa por conta de quem actue, sendo que quando não actue em
nome próprio estamos perante uma gestão não-representativa.

Nota: A que é vizinho de B faz obras para evitar a ruína, se A actuar no interesse de
ambos age em gestão de negócios se actuar apenas no seu interesse não temos gestão de
negócios (em caso de duvida deve-se optar pela gestão de negócios).

Contrato a favor para pessoa a nomear


(452º)

O contrato para pessoa a nomear é o contrato em que uma das partes se reserva a
faculdade de designar uma outra pessoa que assuma a sua posição na relação contratual,
como se o contrato tivesse sido celebrado por esta ultima.
Corresponde à situação em que A quer comprar um prédio a B, mas não tem
procuração dele nem facilidade de obtê-la com brevidade requerida, ou não sabe mesmo
se ele estará disposto a aceitar o contrato. Se a A convier, de qualquer modo, ficar com
o prédio para si, no caso de B o não querer, terá todo o interesse em celebrar o contrato
para pessoa a nomear, a fim de evitar, entre outros inconvenientes, a necessidade de
uma dupla transmissão e os correspondentes encargos fiscais.
Regime: Desde que o contraente (in próprio) se reserva perante a outra a faculdade de
nomear um terceiro como titular do contrato, àquele acordo seguir-se-á normalmente a
declaração de nomeação. Feita a nomeação nos termos prescritos, os efeitos processam-

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se como se a pessoa nomeada fosse o contraente originário, adquirido o nomeado, com
eficácia retroactiva, todos os direitos e obrigações emergentes do contrato para o lado da
relação em que fica investido. Na falta de nomeação, os efeitos do negocio consolidam-
se na titularidade do interveniente, salva a possibilidade de as partes haverem acordado
em outra solução (456º).

Principio do enriquecimento sem causa


(473º)

“Aquele que, sem causa justificativa, enriquecer à custa de outra, diz o artigo 473º, é
obrigado a restituir aquilo com que injustamente se locupetou”.

Objecto da obrigação de restituir


O objecto da obrigação de restituir consiste na obrigação de restituição de tudo aquilo
que foi obtido à custa do titular da coisa, mediante o uso, a fruição e o consumo
indevido dela. Sendo no entanto de considerar as seguintes particularidades:
 Alem da coisa ou direito obtido, cabem ainda na obrigação de restituir: a) os
frutos da coisa ou outras vantagens obtidas com ela; b) aquilo que se adquiriu por
virtude do direito obtido; c) o que se tiver adquirido como indemnização ou
compensação pela perda, destruição ou deterioração da coisa.
 Para Pereira Coelho o beneficiado apenas fica obrigado a restituir o valor
económico “reservado” ou “destinado” por lei ao empobrecido, não devendo pois
a obrigação de restituir ir alem do valor de uso, o valor dos bens consumidos ou
alienados. Assim decerto que o sujeito que extraiu e vendeu a areia do prédio
alheio se enriqueceu à custa do proprietário na medida do valor corrente da areia
subtraída, valor que estava justamente destinado ou reservado ao proprietário, mas
já não em quanto exceda esse valor, se a areia foi vendida por preço superior ao
corrente. Também Menezes Leitão é da opinião que o interventor não tem que
restituir todo o ganho que conseguiu (assim se alguém ocupar durante as ferias
uma casa alheia o objecto restituitivo será o valor locativo da casa).
 Já Antunes Varela entende que no cálculo da restituição só deve ser abatido o lucro
obtido pelo beneficiário por força do seu trabalho, experiência, espírito de
iniciativa, na medida em que só a diferença pode ser considerada como alcançada
à custa do titular da coisa. Sendo que a restituição terá por objecto tudo aquilo que
for obtido à custa do titular da coisa, mediante o uso, a fruição ou o consumo
indevido dela.

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Miguel Alves de Sousa (UCP-Porto 2000-01)

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