1

TEXTO 2 4 - DA PESQUISA À DINÂMICA DE GRUPOS Somente por etapas Kurt Lewin chegará a definir para si mesmo o que são cientificamente a dinâmica e a gênese dos grupos. Como acabamos de constatar, seus trabalhos sobre a psicologia das minorias lhe permitiram questionar as teorias e as metodologias tradicionais da Psicologia Social. Ele transporá uma nova etapa ao elaborar, à luz de suas próprias experiências na exploração das realidades sociais, uma concepção pessoal da pesquisa e da experimentação em psicologia dos grupos. PESQUISA EM LABORATÓRIO E PESQUISA DE CAMPO Ao término de seus trabalhos sobre as minorias psicológicas, Kurt Lewin chegou a duas conclusões metodológicas. A primeira consiste na seguinte descoberta: para ser válida, toda exploração científica de problemas relativos ao campo da psicologia das relações intergrupais deve operar-se em constante referência à sociedade global na qual estes fenômenos de grupo se inserem e se manifestam. Assim os reflexos e as atitudes dos grupos minoritários não se tornariam inteligíveis senão em referência ao contexto sócio-cultural em que se inscrevem, isto é, em referência às interações e às interdependências que toda minoria estabelece forçosamente com a maioria pela qual é discriminada. Além disso, Kurt Lewin chegou a sua segunda conclusão: para abordar e interpretar cientificamente fenômenos desta magnitude e desta complexidade, somente uma aproximação complementar de todas as ciências do social ofereceria alguma possibilidade de identificar corretamente as constantes e as variáveis em causa. Estas duas conclusões se impuseram a Lewin a partir do momento em que tornou consciência de que as realidades sociais eram multidimensionais (103), (104). Esta última constatação o levou a opor em psicologia social, a pesquisa de laboratório à pesquisa de campo. A primeira lhe parecia mais artificial e inadequada. Para ele só a segunda poderia oferecer condições válidas de experimentação. Segundo ele mesmo declarou, foi influenciado tanto pelo pragmatismo americano que acabava de descobrir, como pela concepção hegeliana do devir à qual aderia desde o tempo de seus trabalhos em Berlim sobre o desenvolvimento da personalidade. 1. Para Lewin as hipóteses que a ciência formula, as leis que destaca e as teorias que elabora não têm valor para a psicologia de grupo, senão na medida em que são aplicáveis, isto é, na medida em que permitem efetuar, sob sua luz, de modo eficaz e durável, modificações dos fenômenos sociais que elas querem explicar. Lewin reencontra aqui uma das teses fundamentais do "operacionismo". Ora, no momento em que Lewin estabelece seus primeiros contatos com os meios universitários americanos, o "operacionismo" constitui em psicologia a influência dominante que obriga teóricos e pesquisadores do tempo a enfocar a metodologia da pesquisa sob uma perspectiva essencialmente pragmática. Seu axioma de base é o seguinte: a validade de uma hipótese, a verdade de uma teoria são proporcionais à exatidão das previsões que elas permitem. Deste modo, Lewin chega a fixar dois objetivos para toda pesquisa sobre os fenômenos sociais. Estes dois objetivos se confundem e se completam. Podem ser visados de modo simultâneo ou sucessivo. Segundo eles, estes objetivos procuram, seja fornecer um diagnóstico sobre uma situação social dada, seja descobrir ou formular a dinâmica própria da vida de um grupo. Tanto uma como outra destas duas tarefas não podem ser realizadas, de fato, sem que o pesquisador se veja forçado, para completar uma, a empreender a outra. Elas são complementares e indissociáveis no plano metodológico. Não há diagnóstico de uma situação social concreta que possa ser formulado sem a exploração da dinâmica própria do grupo implicado por esta situação. Do mesmo modo, a dinâmica própria de um grupo não se revelará realmente, senão ao pesquisador que tenha conseguido

2

assimilar todos os dados concretos da vida deste grupo. A pesquisa em psicologia social, conclui Lewin, deve originar-se a partir de uma situação social concreta a modificar. E deve inspirar-se constantemente nas transformações e nos componentes novos que surgem durante e sob a influência da pesquisa. Enfim, a pesquisa deve prolongar-se até que seus objetivos imediatos sejam alcançados. 2. Por outro lado, Kurt Lewin, de acordo com a concepção hegeliana do devir social tal qual é exposta pelo filósofo Karl Jaspers (67), propõe como hipótese que os fenômenos sociais não podem ser observados do exterior, do mesmo modo que não podem ser observados em laboratório, de modo estático. Eles não se tornam inteligíveis senão ao pesquisador que os alcança consentindo em participar de seu devir. Para Lewin, os fenômenos de grupo não revelam as leis internas de sua dinâmica senão aos pesquisadores dispostos a se engajar pessoalmente a fundo, neste dinamismo em marcha, a respeitar-lhe os processos de evolução nos sentidos definidos que a História lhe imprime e, assim, a favorecer-lhe, ao máximo, que se ultrapasse. Finalmente o pesquisador deve implicar-se pessoalmente no futuro das realidades sociais que tenta explicar sem deixar de objetivarse a seu respeito. Ser-lhe-á necessário, pois, prosseguir suas pesquisas no próprio campo em que se manifestam os fenômenos que estuda e só tentar modificar sua dinâmica com o consentimento explícito dos membros do grupo que serve à sua experimentação. Decorre para ele a necessidade de, durante suas pesquisas, assumir constantemente os dois papéis complementares de participante e de observador. OPÇÕES METODOLÓGICAS Para compreender a obra de Lewin é essencial ter sempre presente que ele foi um dos primeiros e um dos principais teóricos do guestaltismo1. E tanto sua psicologia social, tendo como centro o estudo do desenvolvimento da personalidade, como sua psicologia social — centrada sobre os pequenos grupos — se elaboram, se articulam e se edificam a partir de postulados guestaltistas. Temos aqui a chave de suas opções metodológicas. 1. No plano dos objetos, já sabemos que Lewin opta muito cedo por uma exploração sistemática e exclusiva dos micro-fenômenos de grupos. O que nos é necessário precisar agora é o postulado guestaltista subjacente a esta opção. Para Lewin, os pequenos grupos constituem as únicas totalidades dinâmicas acessíveis à observação e conseqüentemente à experimentação científica. Eis as razões. É necessário de início precisar que se trata de pequenos grupos concretos, formados sobre a base das interações que ligam os indivíduos em contato direto. Ora, para Lewin, as atitudes sociais de um indivíduo ou as atitudes coletivas de um grupo não podem ser compreendidas senão a partir dos diferentes conjuntos sociais de que fazem parte. E, reciprocamente; estes conjuntos sociais não podem ser compreendidos senão a partir dos indivíduos e dos pequenos grupos concretos que eles englobam. Expliquemos como isto se dá. De uma parte, a forma das situações concretas (tratase neste caso de situações sociais) depende das formas das realidades globais que as envolvem, e estas, por sua vez, dependem das situações concretas que possuem sua dinâmica própria. Ora, as situações concretas são função das interações dos indivíduos. Por isto, conclui Lewin, somente no pequeno grupo concreto de dimensões reduzidas, isto é, a célula social bruta, estas relações de reciprocidade tornam-se acessíveis à observação. 2. No plano dos métodos, a influência das teorias guestaltistas não é menos evidente. Kurt Lewin denuncia como inválidas e estéreis as aproximações atomísticas que então prevaleciam nos meios de pesquisa em psicologia social. Para ele um fenômeno de grupo só se torna inteligível,
1

Guestaltismo, do alemão "gestalt", significando estrutura, forma, Esta escola psicológica propõe apreender os fenômenos em sua totalidade sem querer dissociar os elementos do conjunto em que eles se integram e fora do qual nada significam. De início, aplicada à percepção, esta teoria estendeu-se à toda a psicologia.

Mas. radicalmente. antes e depois de Lewin. aquilo que Lewin chamará de átomos sociais radioativos. Moreno. que o pesquisador pode conhecer sua dinâmica essencial. Assim podem observar de dentro os processos e os mecanismos em jogo neste desenvolvimento. o problema fundamental que a Psicologia devia esclarecer. Por sua presença no interior do fenômeno de grupo a ser estudado. Seus trabalhos. Com Lewin e a partir dele. preocupou-se constantemente com o problema da socialização do ser humano. Alguns. de prospecções verticais. cedendo a motivações muito mais ligadas ao seu sistema de valores que às exigências da ciência chegaram mesmo a definir o meio educacional mais apto a formar o cidadão americano perfeito (113). Assinalamos anteriormente que. constituem em seguida. em relação à psicologia da personalidade (51). Sempre aderindo a seus postulados guestaltistas. ainda há algo a acrescentar. o interesse dos pesquisadores desloca e dirige-se para as atitudes coletivas. antes. aplicou-se não somente em teorizar. e paralelamente. Moreno. e encontram-se sob uma perspectiva ideal para descobrir sua significação essencial. ATITUDES COLETIVAS Até Kurt Lewin quase todos os psicólogos sociais americanos haviam centrado suas pesquisas no problema da socialização do ser humano (30). o jogo do papel. é a abordagem e a metodologia que se tornam dinâmicas e guestálticas a partir de Lewin. indivíduos que. em escala reduzida. Moreno edificará assim sua obra em continuidade com preocupações que foram dominantes na psicologia social até Lewin. durante toda a sua atividade científica. Por outro lado. os esquemas . Lewin denuncia. tanto instrumentos pedagógicos como terapêuticos. O que muda. para ele. não de fora. tentando atingi-lo em sua totalidade concreta. será constantemente influenciado pelas teorias sobre a psicologia da aprendizagem (118). Será. Para definir cientificamente os comportamentos em grupo e as atitudes sociais os pesquisadores referem-se ao que são e devem ser os comportamentos de grupo e as atitudes coletivas. Embora se defenda e negue tal fato. Deste modo. de modo explícito. Veremos agora. suas pesquisas e suas descobertas estiveram sempre polarizadas por aquilo que lhe parecia e sempre lhe pareceu. Com esta finalidade é que Lewin introduz o que ele chama de pequenos grupos-testemunhas. Para Kurt Lewin estas opções metodológicas não se apresentam como hipóteses provisórias mas como postulados. no meio social. existencial. como estas opções metodológicas inspiram e orientam o sentido que tomam suas pesquisas sobre os comportamentos de grupo e as atitudes coletivas. conforme sejam utilizados para socializar ou re-socializar o ser humano. o sociodrama constituem. quer tornando mais precisa esta arte que chamará sociatria. A maioria estava de acordo em conceber o processo de socialização como o aprendizado de atitudes sociais. como o havia feito em 1931. não é decompondo o fenômeno estudado em elementos e em segmentos para reconstituí-lo em laboratório. ou seja. mas do interior. mas igualmente em inventar técnicas e instrumentos que favorecessem e facilitassem o aprendizado ou o re-aprendizado das atitudes sociais. Em outras palavras. O psicodrama. tal como procurava edificar-se na América. nesta época. Uma longa prática da pesquisa científica demonstrou-lhe a aquisição definitiva da validade das aproximações guestaltistas para o estudo dos comportamentos humanos. os psicólogos sociais orientavam suas pesquisas quase exclusivamente no sentido de determinar o contexto mais propício ao aprendizado das atitudes sociais democráticas.3 quando se consegue praticar neste fenômeno o que ele chama de cortês analíticos sociais e concretos. eles se tornam os elementos indicados para provocarem modificações completas de estrutura de uma situação social e atitudes coletivas que lhe correspondem. Mas quer seja constituindo esta ciência nova que chamará sociometria. tocamos aqui naquilo que constitui a diferença fundamental entre a obra de Moreno e a de Lewin. recebendo uma formação especial. Os comportamentos em grupo e as atitudes sociais também constituem um objeto de exploração e de experimentação em psicologia social.

do processo social estudado. o ambiente social contribui para a formação e transformação das atitudes coletivas favorecendo. Esta cadeia pode ser decomposta em vários tempos: primeiro. Lewin não procura a explicação dos fenômenos de grupos na natureza de cada um dos seus elementos ou de seus componentes. inibindo as tendências sociais já adquiridas. constituem barreiras mais ou menos impermeáveis que dificultam a expressão de si (76). Para ele os vetores de comportamento são as direções. determinada região no espaço situacional considerado. Enfim. As percepções respectivas dos membros de um grupo. Os comportamentos dos indivíduos enquanto seres sociais são função de uma dinâmica independente das vontades individuais. trocas. ou. segundo Lewin. isto é. Segundo Lewin. de suas necessidades. suas atitudes coletivas. ao nível do comportamento. as atitudes coletivas encontram-se no início e no fim do encadeamento dos fenômenos dinâmicos que produzem os comportamentos de grupo. conflitos. Quanto à cultura ambiente. Fiel a esta perspectiva. Em outras palavras. Eis o porquê. comunicações ou ainda pressões e coerções. ela tende a favorecer. as atitudes de um indivíduo. as atitudes coletivas só se tornarão inteligíveis àquele que as observa. segundo Lewin. os esquemas coletivos e as atitudes pessoais estão presentes no campo dinâmico.4 aristotélicos de interpretação. Por outro lado. Lewin sugere que toda situação social pode ser percebida e concebida como constituindo uma cadeia de fenômenos cuja resultante seria os comportamentos de grupo. sobre a situação social. No início e no final desta cadeia encontrar-se-iam as atitudes coletivas. ao nível da percepção. tal comportamento de grupo se produz de preferência a um outro? 2. A razão deste fato. de suas aspirações. Estas interações poderão ser tensões. repulsas. mas nas múltiplas interações que se produzem entre os elementos da situação social onde se situam. Por que. vetores de comportamento. Lewin preconiza então que se apele para esquemas galileanos de interpretação em psicologia social. em uma dada situação espontânea. é a seguinte: tendo as situações sociais sua própria dinâmica. neste momento preciso. as orientações dadas a um comportamento. ou. Esta inclinação. Os fenômenos de grupo são irredutíveis e não podem ser explicados à luz da psicologia individual. em um dado momento. de suas expectativas. ou cria uma atração por certos aspectos da situação ou uma repulsa em direção a outros aspectos ou regiões desta situação. se ele conseguir responder a duas questões: 1. nos casos opostos. enfim de suas atitudes. por sua vez. ao contrário. as fases e as etapas pelas quais cada um dos seus elementos foi levado a ocupar. o observador deve poder refazer. situar de onde vem a dinâmica que afeta cada um destes elementos (69). segundo Lewin. como aliás nenhum comportamento humano poderia se explicar unicamente em termos de causalidade histórica. a situação observada possui tal estrutura contrariamente a uma outra? Em outras palavras. e em segundo lugar. Ora. são condicionadas por suas atitudes coletivas. enquanto constituem uma inclinação para certos tipos de comportamento de grupo. Por que. em seguida ao nível do comportamento. É a relação de reciprocidade entre as atitudes do indivíduo e o conteúdo mental do meio que cria a situação da qual o comportamento é função (91). seus esquemas mentais e seus esquemas afetivos de adaptação à situação social determinam a perspectiva geral na qual os membros do grupo percebem o conjunto de uma situação. atrações. Mais tarde ele retomará esta explicação para reformulá-la de modo diferente: a estrutura de meio tal qual é percebida por um indivíduo depende de seus desejos. A resultante das forças que interessam tal indivíduo em suas relações com um aspecto do . as atitudes comuns a um grupo. no próprio momento em que são observados e interpretados. como ele conseguira fazer em sociologia individual. precisamente naquele momento. Ao nível da percepção. Toda dinâmica de grupo é a resultante do conjunto das interações no interior de um espaço psico-social. enquanto o conteúdo ideativo do ambiente coloca o indivíduo em um determinado estado de espírito. são função de sua relação dinâmica com os diferentes aspectos da situação social que ele assume — de boa ou má vontade (69). Nenhum comportamento de grupo.

por exemplo. O eu (a que ele prefere chamar "self" em vez de "ego") revela-se em relação às realidades sociais como um sistema de círculos concêntricos. Quer significar com isto que é preciso conceber a personalidade como um sistema que tende a reencontrar-se idêntico a si-mesmo em todas as situações. as instituições. introduzida pelos behavioristas. estreitar-se ou dilatar-se. Será uma noção fundamental em dinâmica dos grupos. É geralmente também neste nível que muitos indivíduos integram-se em situações de trabalho em que somente a periferia de seu ser é engajada. a personalidade é uma totalidade dinâmica na medida em que pode ser considerada como um complexo de sistemas. Elas são segmentos de uma situação social na qual se fundem em uma mesma realidade dinâmica elementos objetivos e elementos conscientes. são dobradas sobre si mesmas e não parecem preocupadas senão em defender-se e em fechar-se ao outro. aquela que está engajada nos contatos humanos ou nas tarefas em que apenas os automatismos são suficientes ou são exigidos. encontra-se um núcleo constituído pelo que Lewin chama o "eu íntimo": este núcleo é dinâmico e formado por valores para ele fundamentais. a dicotomia entre pessoa e meio. tendo uma estrutura que ele chama "quase-estacionária". Ao centro. Por exemplo. Por razões diferentes o eu social é quase inexistente nos extrovertidos em quem o eu público ocupa todo o espaço vital. Segundo as situações sociais. os grupos e os acontecimentos sociais são elementos das situações sociais. permitem a Lewin extrapolar as implicações deste teorema sobre a gênese e a dinâmica dos grupos. a personalidade revela-se como uma configuração de regiões. é a atitude momentânea deste indivíduo em uma determinada situação. segundo os graus de distância social. percebido como um todo irredutível a seus constituintes individuais. é arbitrária e gratuita. aqueles valores aos quais o indivíduo consagra a maior importância. as totalidades dinâmicas estão longe de serem exclusivamente grupos.5 campo dinâmico de que faz parte. Nosso eu social pode. de formas e de processos psíquicos. os valores profissionais. Para Lewin a razão profunda desta concepção galileana em termos de interação das relações entre os diversos elementos de um fenômeno de grupo. Para Lewin. 2. É neste nível que se implicam aqueles que participam de fenômenos de massa. mesmo no plano do eu íntimo. Nem um nem outro são estáticos. os objetos. é a seguinte: dentro de uma perspectiva guestaltista não pode haver fronteiras imutáveis entre consciências individuais e um determinado meio. Outras. mesmo no plano do eu público. os valores de classe. Lewin pretende que certas personalidades são abertas ao outro a ponto de não serem senão estruturas de acolhimento. Se os grupos são sempre totalidades dinâmicas. O mais importante destes conceitos é o do campo social. Do mesmo modo que o eu íntimo é um eu fechado. Para Lewin todo conjunto de elementos interdependentes constitui uma totalidade dinâmica. nosso eu público ou nosso eu social reveste-se de dimensões diferentes. Para ele. Lewin foi o primeiro a utilizar este termo. Três conceitos básicos. aliás. 1. Como já afirmamos. Estes elementos entretém entre eles relações dinâmicas cujo conjunto somente determina a estrutura do campo social. este outro é um eu aberto. o eu social atenua-se e a personalidade toda é absorvida pelo eu íntimo. Excepcionalmente nos introvertidos. Esta atitude momentânea se traduzirá por um comportamento de grupo. CAMPO SOCIAL As atitudes coletivas como. O segundo conceito invocado por Lewin é o do "eu social". Na periferia da personalidade encontra-se situado o "eu público". As pessoas. as regiões intermediárias que Lewin chama o "eu social": o eu social engloba os sistemas de valores que são partilhados com certos grupos. tomados de empréstimo à sua psicologia topológica. O primeiro conceito-chave a que Lewin apela é o de "totalidade dinâmica". nem como atos subjetivos das consciências. as atitudes pessoais não aparecem em Lewin nem como o resultado de mecanismos exteriores às consciências. O eu público é a região mais superficial de uma personalidade. Em torno deste núcleo central. . ao contrário.

Finalmente. nominalmente ou artificialmente. Nenhum membro dela escapa totalmente.6 3. 1. segundo Lewin. sem referência à mudança social. sub-grupos. Seus valores. o grupo é para o indivíduo um dos elementos ou dos determinantes de seu espaço vital. isto é. RESISTÊNCIAS EMOTIVAS À MUDANÇA SOCIAL A adaptação social não pode definir-se operacionalmente. frágil. 3. Deste modo. isto é. as valências e os vetores que explicam as interações no interior de um mesmo campo social (67). são em número de quatro. o observador procura descobrir e destacar os pólos. segundo Lewin. suas expectativas aí encontram gratificações ou frustrações. O terceiro conceito é o de "campo social". não necessariamente integradas entre elas. Sempre que uma pessoa não consegue definir claramente sua participação social ou não está integrada em seu grupo. constituída por entidades sociais coexistentes. em atingir seus objetivos pessoais. As propriedades dos sub-grupos ou a personalidade de seus membros não poderiam então nos revelar a dinâmica dos laços que os constituem em um mesmo campo social. suas aspirações. ele se ressente necessariamente dos contragolpes. A dinâmica de um grupo tem sempre um impacto social sobre os indivíduos que o constituem. A primeira hipótese é que o grupo constitue o terreno sobre o qual o indivíduo se mantém. são as posições relativas que nele ocupam os diferentes elementos que o constituem. Tais hipóteses. de dentro. . cada vez que o grupo ou os grupos do qual um indivíduo faz parte. é uma "gestalt". mesmo aqueles que se sentem ignorados. seja por processos de crescimento. um todo irredutível aos sub-grupos que nele coexistem e aos indivíduos que ele engloba. sofre modificações em suas estruturas ou em sua dinâmica. isolados ou rejeitados. Pois é preciso constantemente dissociar e distinguir grupo e indivíduos. o terreno pode ser firme. consistiria. A este respeito Lewin adverte o pesquisador contra todo a priori antropocêntrico. Vejamos o detalhe de sua busca intelectual que o leva. em concluir esta superação. sem nunca forçar nem romper os laços funcionais com a realidade coletiva ou o campo social em que o indivíduo se insere e que constitui o fundamento de sua existência. a enunciar esta hipótese (82). indivíduos separados por barreiras sociais ou ligados por redes de comunicações. em atualizar suas aspirações e suas atitudes. de integração. o grupo é uma realidade da qual o indivíduo faz parte. de diferenciação. O que caracteriza antes de tudo um campo social. grupos. 4. Em terceiro lugar. suas necessidades. A partir deste conceito de campo social Kurt Lewin elabora suas primeiras hipóteses sobre a dinâmica dos pequenos grupos (77). para Lewin. Assim podem coexistir no interior de um mesmo campo social. A adaptação social. Em segundo lugar. fluido ou elástico. É no interior de um espaço vital. por etapas. seu espaço vital ou sua liberdade de movimento no interior do grupo serão caracterizados pela instabilidade e pela ambigüidade. Estas posições são determinadas tanto pela estrutura do grupo como por sua gênese e sua dinâmica. E o grupo é um setor deste espaço. desta parte do universo social que lhe é livremente acessível que se desenvolve ou evolue a existência de um indivíduo. 2. neste estágio de seu pensamento. Para Lewin o campo social é essencialmente uma totalidade dinâmica. Isto significa que o indivíduo mais ou menos conscientemente utiliza o grupo e as relações sociais que mantém em seu grupo como instrumentos para satisfazer suas necessidades psíquicas ou suas aspirações sociais. em conclusão. de regressão ou de desintegração. Segundo os casos. de separação. Ele já havia formulado esta hipótese tentando preconizar o que deveria ser a pedagogia do jovem minoritário (73). móvel. O campo social. quando. o grupo é para o indivíduo um instrumento.

de extrapolar sua . Para ele. as situações de grupo. O clima cultural no qual ele vive. Kurt Lewin retoma este tema para precisá-lo e explicitá-lo. por seu passado objetivo. ou mesmo condicionados. para ele (e é aqui que seu pensamento se torna explícito) o campo de forças que se destaca da interação dos fatos e dos valores depende de três coisas: 1. Em outros momentos. enquanto a dinâmica dos fatos n o s é dada pela situação social. são condicionadas por sua sensibilidade geral. É fácil agora compreender o porquê. As relações entre as realidades sociais e os comportamentos do indivíduo não são. assinala Lewin. por seu passado subjetivo isto é. consistindo no encadeamento dos fatos e dos processos sociais e. A única maneira de experimentar sobre mudança social.7 Acabamos de revelar o que são. Abordando o problema da mudança social. pela dinâmica dos valores que percebe em cada situação. seus comportamentos em grupo e suas atitudes sociais. as interações constantes entre as atitudes coletivas e o campo social em que se exprimem. Um terceiro determinante é a própria situação social concebida como o conjunto dos fragmentos do universo social com os quais ele está em estado de interdependência. o clima social. Acrescentam-se a estas tendências do eu as tendências do super-ego que representam os imperativos da sociedade. ele pode escapar a certas pressões. Mudança social e controle social são para Lewin conceitos indissociáveis. pelas representações coletivas que os indivíduos se fazem dos antecedentes desta situação assim como da gênese de seu próprio grupo. Donde a necessidade. nem mais nem menos constrangedoras que aquelas que ele mantém com o universo psíquico. a situação geográfica e a configuração do espaço físico em torno do indivíduo. Primeiro. a dinâmica dos valores. de outra. 2. depende das tendências do eu concebidas como a maneira única pela qual cada indivíduo percebe cada instante presente em função de seu passado pessoal. Kurt Lewin deduz então que a conduta de todo indivíduo em grupo é determinada. nas condições sociais existentes que constituem o espaço vital de um determinado indivíduo. As atitudes coletivas que ele já definiu de várias maneiras. por outro. nem escapar a certos condicionamentos. Em consequência. são realidades tão objetivas quanto o clima psíquico. adotar tal tipo de comportamento ou conformar-se com tal atitude para responder às expectativas do grupo. Em conseqüência. a dinâmica da situação social na qual se encontra implicado. assim como as antecipações ou as apreensões que eles alimentam com respeito à situação social em que vivem. 3. as orientações fortuitas de seu ser. ou as estruturas formais do momento social observado. toda situação social pode ser definida como um momento da história do mundo. recusar-se a certas obrigações mas por outro lado não pode subtrair-se. o futuro da situação social vivida o é muito mais para a maior parte dos indivíduos. Suas percepções neste plano. a estrutura do momento histórico do qual participa com as pessoas que o rodeiam. suas capacidades de atenção afetadas ou estimuladas por seus estados nervosos e suas preocupações materiais e morais. para Lewin. explicando-se assim de uma parte. como um movimento provocado em um grupo de indivíduos por forças objetivas que resultam de uma situação social dada. segundo Lewin. Lewin precisa: não somente o futuro objetivo da situação ou os determinismos e a mecânica dos fatos sociais. aparecem-lhe. de outra. Ser-lhe-á preciso. de tornar claro a gênese e a dinâmica dos grupos à luz de um conceito fundamental em sociologia e em antropologia cultural: o conceito de mudança social. atitudes e comportamentos lhe serão impostos pelo grupo. No interior desta totalidade dinâmica encontram-se orientados. Mas se o passado é determinante por um lado no condicionamento dos comportamentos de grupo e das atitudes coletivas. pela dinâmica dos fatos e. em certos momentos. tais quais foram interiorizados pelo indivíduo. Ora. A liberdade de movimento e a escolha dependem do clima social que prevalece no grupo. de uma parte. mas também o futuro subjetivo da situação ou as representações que os indivíduos implicados nesta situação se fazem de sua evolução e de seu progresso. constituem uma realidade objetiva: a totalidade dinâmica da qual depende neste momento preciso de seu crescimento. desta vez. segundo Lewin. As tendências do eu e do super-ego constituem.

. Ou ainda. a mudança social é iniciada e desejada pelos elementos não-conformistas do grupo. No caso precedente o grupo seria majoritário ou totalmente conformista. Para diagnosticar estes casos Lewin recorre ao termo constância social. Os elementos conformistas freiam então ou tentam contrariar as tentativas de mudança. o observador-participante. 1. No caso presente. Elas favorecem entre eles relações interpessoais. Atualmente os psicólogos sociais empregariam de preferência os termos de esclerose social ou mesmo de necrose social para caracterizar o que não constitui mais uma dinâmica de grupo. Ora. as percepções e as atitudes dos não-conformistas não são suficientes para transformá-los em agentes de transformação social pelo fato de não possuírem as técnicas de comunicação que lhes permitiriam operar as mudanças de clima e de atitudes no meio que desejam ver evoluir. segundo as próprias palavras de Lewin. A mudança social implica em uma modificação do campo dinâmico no qual o grupo se encontra. Nestes grupos. Daí a necessidade de se poder contar. Conforme se realize ou não esta modificação. No caso precedente a mudança social tem pouca ou nenhuma possibilidade de se operar de tal modo o statu quo é valorizado. mas uma estática de grupo. Como excelente guestaltista Lewin conclui que a mudança social para se operar exige que sejam modificadas as relações dialéticas que unem os três elementos seguintes: 1. as percepções de grupo. que é o experimentador preconizado por Lewin. as estruturas das consciências que vivem nesta situação social.8 dinâmica essencial. é conseguindo derrubar as resistências à mudança social que se pode melhor chegar à compreensão de seus processos e de seus mecanismos. nota Lewin. 2. no momento em que uma mudança social se torna desejável. Mas estes últimos encontram resistências da parte dos membros do grupo que têm interesses investidos no statu quo. a mudar. duas atitudes típicas podem ser observadas em relação a toda mudança social. para Lewin. Reencontramos aqui os propósitos que Lewin defendia sobre a pesquisa de campo em oposição à pesquisa em laboratório. de tal modo as estruturas formais absorveram ou anularam em uma estratificação cristalizada as dimensões funcionais destes grupos. de modo a não comprometer seus privilégios adquiridos. em razão de suas resistências à mudança. de átomos sociais radioativos. os acontecimentos que surgem nesta mesma situação social. Lewin menciona enfim o caso dos grupos não-conformistas no interior dos quais a totalidade ou a maioria dos membros experimenta e sente uma inclinação para a mudança. pode identificar três tipos de fenômenos distintos em relação à mudança social. planificá-la e controlá-la. A atitude não conformista. Nestes grupos as estruturas formais são flexíveis e funcionais. como vimos anteriormente. laços de interdependência e interações cada vez mais dinâmicos. os comportamentos de grupo são polarizados por uma aspiração dos membros em crescer e em superar a sim mesmos como grupo. 3. é tentar do interior. as estruturas da situação social. 2. de dentro. com grupos-testemunhos compostos. A atitude conformista condicionada pelas percepções sociais cristalizadas que percebem toda mudança do statu quo como catastrófica. nenhuma aspiração a evoluir. Nenhuma mudança social se opera então. É o caso de todos os grupos conformistas que se comprazem nas percepções estereotipadas da situação social e cujas atitudes coletivas e comportamentos de grupo são determinados e condicionados por preconceitos. 3. Suas manobras são geralmente clandestinas e tendem a criar climas de grupo que tornam as transformações sociais provisoriamente impossíveis. ao contrário. No caso presente os elementos conformistas estão em minoria. Geralmente. as mudanças sociais não se operam senão lentamente e na superfície. é inspirada pelas percepções sociais que antecipam toda mudança do statu quo como desejável e esperada. que possuam ou dominem as técnicas de grupo tornando-os aptos a vencer as resistências emotivas à mudança social a ser introduzida no meio observado. Ou os grupos não sentem nem experimentam nenhum desejo. neste último caso. as atitudes coletivas.

o clima de um grupo. objetivar-se à seu respeito. será sempre o clima de grupo dominante. B. segundo Lewin. em introduzir um novo estilo de autoridade ou uma nova concepção do poder no interior da situação social que se quer fazer evoluir. Sem ruptura. de prever ou de derivar destas análises. Suas percepções de grupo e. Não é senão a partir deste momento que sub-grupos e grupos aceitarão corretivos e complementos às suas percepções de grupo. Daí porque. 2. Este artigo contém as últimas formulações do pensamento de Lewin sobre o que deveria ser a experimentação e a pesquisa em psicologia social. melhor que em outras partes de sua obra. uma terceira etapa terá como objetivo descobrir e prever os novos modos de comportamentos de grupo que estarão em harmonia com a reestruturação das percepções de grupo. em seguida. trata-se de deduzir. inicialmente. . de modo mais funcional. EXPERIMENTAÇÃO E AÇÃO SOCIAL Na noite que precedeu sua morte Kurt Lewin havia terminado a redação de um artigo sobre a "pesquisa-ação" que deveria aparecer em uma revista científica americana: "The Journal of Social Psychology". mas primeiro por sincronização. modificar as atitudes coletivas ou produzir uma mudança social consiste. 1. Lewin preconiza que. Em uma segunda etapa. através deste diagnóstico e deste domínio do grupo chegar-se-á a um controle mais funcional das atitudes do grupo. conjeturas sobre a possível evolução destas percepções de grupo. para descobrir sua dinâmica essencial. Ela deve ser realizada por pequenos grupos-testemunhas. é sempre determinado pelo tipo de autoridade que nele se exerce. deve empreender de dentro a tarefa de reestruturá-los de modo a favorecer e acelerar a sua transformação. depois. o experimentador deve tentar. A. Duas condições parecem essenciais a Lewin para assegurar a validade de uma tal experimentação: A. conseguir percebê-los como gestalts. descobre então Lewin (71). as condições de validade e as etapas da "pesquisa-ação". a experimentação em psicologia social deve realizar-se em três etapas essenciais. sem negação. Ela deve operar-se em pequenos grupos engajados em problemas sociais reais e preocupados em se reestruturar para. não do exterior. enuncia Lewin. O objetivo estratégico a atingir. Aliás. passam do subjetivo ao objetivo. Será nesta medida que ela terá possibilidade de escapar às miragens dos esquemas pseudo-clássicos da experimentação. os sub-grupos e o grupo. é tornar grupos e sub-grupos conscientes e lúcidos da dinâmica inerente à situação social em evolução. aí se encontram enunciados e explicitados os objetivos. inicialmente. Todas três procuram operar uma mudança social através de um controle social mais funcional das atitudes coletivas e dos comportamentos de grupo. Para conhecer os fenômenos de grupo do interior. e depois por sintonização. A primeira etapa consiste em um levantamento ou análise das percepções de grupo que caracterizam os indivíduos.9 Mas o fator determinante que tornará possível a mudança social. Finalmente. Para Lewin a pesquisa em psicologia social deve ser uma ação social. C. B. na quase totalidade dos casos. suas atitudes coletivas assim como seus comportamentos de grupo. Os editores do livro póstumo "Resolving social conflicts" incluíram este artigo entre aqueles que reuniram sobre este tema (108). Ora. Enfim. A autenticidade de suas motivações lhes permitirá serem aceitos pelos grupos nos quais realizam as experiências e procederem à sua experimentação a título de membro-participante integrado totalmente na dinâmica do grupo observado. se inserirem na situação social onde procuram atingir seus objetivos. compostos de experimentadores que estejam engajados e motivados em relação a mudanças sociais que querem introduzir. 3. do pessoal ao situacional.

O leitor poderá. constatar a que ponto seus trabalhos e seus experimentos em psicologia social marcam uma ruptura com o passado e um progresso decisivo na História das Ciências Sociais. UMA INTUIÇÃO DE GÊNIO As descobertas de Kurt Lewin sobre a comunicação humana ocorreram quase por acaso. assim. Elas correrão o risco de nunca o serem. então. permite aos pesquisadores encontrar no campo. de vigilância e seu acompanhamento dos processos em causa no grupo de trabalho. pouco a pouco. Algumas de suas hipóteses foram explicitadas posteriormente. senão sempre. (92) (94). os progressos realizados a partir de Lewin. Lewin teve o mérito de tornar a psicologia social consciente dos obstáculos que a pesquisa teria de enfrentar caso continuasse a ser realizada em laboratório. Foi preciso o gênio de Lewin. à saber: a comunicação humana. considerados atualmente geniais (65).10 A experimentação em psicologia social. Os três capítulos seguintes tentarão mostrar que as descobertas mais definitivas em psicologia social após a morte de Lewin foram realizadas a partir de esquemas guestaltistas e no interior de projetos de pesquisas-ações sobre os micro-fenômenos de grupo. o exercício da autoridade em grupo de trabalho. tornando-se uma pesquisa-ação. Por outro lado. outras sofreram modificações ou foram reformuladas. boas condições para descobrir as constantes e as variáveis em jogo na transformação de um agrupamento humano. Até aqui o leitor pode seguir a evolução do seu pensamento e das suas pesquisas. se a experimentação continuar a ser realizada em laboratório.COMUNICAÇÃO HUMANA E RELAÇÕES INTERPESSOAIS Os quatro primeiros capítulos foram consagrados exclusivamente a Kurt Lewin. as leis essenciais da dinâmica dos grupos poderão. Destacaremos. desde sua chegada à América. o aprendizado da autenticidade. 5 . mas na maioria dos casos elas foram verificadas. defendendo-se contra as manipulações de que são objeto mais ou menos traumatizados. por ocasião de uma ação social. De início estabeleceremos a colaboração dada por Lewin à compreensão de cada um destes problemas. (99). preocupou-se em definir cientificamente aquilo que ele foi o primeiro a chamar de "dinâmica dos grupos'". Uma vez definidos de modo operacional as exigências de validade e os esquemas de experimentação. em lhe fornecer uma metodologia e perspectivas que levaram a descobertas inesperadas antes dele. novas vias à pesquisa. para identificar com tanta perspicácia e penetração o obstáculo fundamental à integração dois agrupamentos humanos e à sua . à exploração de três problemas-chaves que o levaram a descobertas sobre a gênese e a dinâmica dos agrupamentos humanos. os indivíduos agrupados para fins experimentais não conseguem integrar-se e continuam a funcionar de modo individualista. Os processos e os determinantes da gênese dos grupos. Com esta finalidade questionou e redefiniu as metodologias e as teorias tradicionais em psicologia social. simultaneamente. Pois quem nos assegura que os grupos reconstituídos artificialmente em laboratório constituem verdadeiramente grupos? Na maioria das vezes. ricos em promessas de descobertas. sua capacidade de atenção. depois. (71). O balanço dos dados adquiridos desde Lewin sobre estes três problemas-chaves. Para serem científicas estas definições deverão ser operacionais. serem definidas. Os três próximos capítulos tratarão sucessivamente destes três problemas. Kurt Lewin lançou-se. Seu gênio consistiu em abrir novos caminhos. descobrir como um grande número das hipóteses de Kurt Lewin continuam a inspirar os pesquisadores em psicologia social. (86). estabelecerá concretamente para o leitor a que ponto as intuições de Lewin foram geniais e os caminhos por ele abertos. Situações semelhantes já haviam se apresentado muitas e muitas vezes desde que seres humanos tentam trabalhar em grupo. tomamos conhecimento de como Kurt Lewin.

Um dia. na história da humanidade. comportava de implicações para a psicopedagogia do trabalho em grupo. Os projetos de pesquisas em curso eram numerosos. tal fato pode ocorrer em razão de bloqueios que existiriam entre nós ao nível de nossas comunicações". Mas na época ela foi formulada pela primeira vez. A hipótese e o diagnóstico podem parecer banais em nossos dias. os recursos financeiros abundantes. Como o capítulo seguinte será sobre "o aprendizado da autenticidade torna-se mais funcional então destacar tudo o que esta primeira experiência. as circunstâncias concretas desta descoberta de Lewin. segundo a expressão de Lewin. tinham deplorado por diversas vezes a falta de integração real da equipe. (114). escutara com uma atenção constante a expressão de descontentamento dos colaboradores. refeitas e reconstituídas. Desta hipótese Kurt Lewin quis extrapolar uma implicação imediata. tornando-se mais autênticas. Para que este aprendizado seja válido e favoreça realmente a evolução de nossa equipe de trabalho uma condição me parece essencial: todos devem estar de acordo em participar e com vontade de aprender a comunicar de modo autêntico". preocupados tão somente em nos comunicar de modo autêntico. mas. tal como foram evocadas por seus colaboradores bem próximos. realizado periodicamente. Desde que conseguiram assinalar as fontes de bloqueio e de filtragem em suas comunicações. o ardor e o fervor ao trabalho evidentes. e deu-se a integração entre eles no plano do trabalho. o ritmo lento e artificial do encaminhamento de seus trabalhos. em tom modesto. Vejamos agora. quase se desculpando. aprender modos mais funcionais de comunicar entre nós. um grupo de pessoas. desde que seres humanos se aplicavam a trabalhar em grupo. a partir deste momento. Estas conseguiram. comprometiam as próprias comunicações que chegavam a estabelecer-se entre eles. Todos pareciam altamente motivados e aparentemente sem restrição adeptos das hipóteses de Lewin sobre a gênese e a dinâmica dos grupos que. segundo seu hábito. mantivermos encontros nos quais nos reencontraríamos todos juntos. fora de todo contexto de trabalho. desde que consentiram em dialogar tomaram consciência de que suas relações interpessoais. Não somente existia entre eles e neles fontes insuspeitáveis de bloqueios. se preciso. mas estes bloqueios. Kurt Lewin conseguira desde há algum tempo agrupar em torno dele uma equipe de pesquisadores e organizar com eles seu Centro de Pesquisas em Dinâmica dos Grupos. em conjunto. E isto só será possível. se paralelamente às nossas sessões de trabalho. Todavia.11 criatividade. ritmos crescentes de produtividade e de criatividade. os parcos recursos inventivos e a fraca engenhosidade manifestados na exploração dos problemas estudados. em minha opinião. paralelamente. a título de sugestão. No momento lembraremos que Lewin e seus colaboradores. Estas corriam constantemente o risco de serem filtradas em virtude de não serem preparadas num clima de confiança. "Se minha hipótese é válida. NECESSIDADES INTERPESSOAIS . enunciou a seguinte hipótese: "se a integração entre nós não se realiza e se. Pela primeira vez. testemunhas oculares do acontecimento (14). nossas pesquisas progridem tão pouco. nunca antes tentada. teremos que consentir em questionar nossos modos atuais de comunicação e. tentavam então verificar experimentalmente. criando zonas de silêncio. no momento em que a auto-avaliação parecia uma vez mais encaminhar-se para uma constatação negativa. entretanto. A coesão e a solidariedade resultantes mudaram profundamente a atmosfera de suas sessões de trabalho. havia falado pouco até aquela data e.T. que participava fielmente destes encontros de auto-crítica. sobre os processos de suas trocas. Kurt Lewin. suas relações interpessoais evoluíram.I. nos momentos de auto-avaliação de seu trabalho. implicadas na realização de uma mesma tarefa. no M. aparentemente confiantes e positivas. dirigiam a auto-avaliação de seu trabalho de grupo não sobre o conteúdo de suas discussões e de suas decisões. eram de fato inautênticas pelo fato de não terem como base comunicações abertas entre eles. Kurt Lewin. de sensibilização para as relações humanas.

a necessidade de controle e a necessidade de afeição. para Schutz. Para Schutz. uma satisfação adequada à sua necessidade de inclusão. Mas quem levará mais longe a exploração e a análise da dinâmica dos grupos de trabalho será um psicólogo americano. segundo ele. portanto. Ao longo de demoradas e sistemáticas pesquisas. Schutz. em grupo mais ou menos adultas. O que devemos reter aqui e que marca um progresso notável sobre as teorias esboçadas por Lewin e que repousavam apenas sobre dados forçosamente provisórios naquele momento. Tentará também. Ê o caso dos membros socialmente infantis. integrado. verificar seu grau de aceitação. nota Schutz. são os únicos que encontram em suas relações interpessoais cada vez mais positivas. (42). Schutz consegue identificar como fundamentais três necessidades interpessoais. tentarão fazer novas experiências sobre este fenômeno e destacar as implicações desta descoberta. segundo seu nível de socialização. a necessidade de inclusão condicionará e determinará atitudes. isolado ou rejeitado por aqueles que percebe como os preferidos do grupo. valorizado totalmente por aqueles aos quais se junta. (33). estas necessidades. Segundo o grau de maturidade social de cada indivíduo. para cada membro. segundo modalidades determinadas pela série de variáveis individuais. Por outro lado. mais ou menos evoluídas. Os indivíduos menos socializados procuram integrar-se ao grupo adotando atitudes de dependência. que esta necessidade procura ser satisfeita da maneira mais imperiosa. com seus colaboradores mostrou-se concludente. Mais adiante. em não se sentir em nenhum momento marginalizado pelo grupo.T. Um membro sente-se definitivamente incluído no grupo ao se perceber como um participante integral de cada uma das fases do processo de tomada de decisão. são fundamentais porque todo ser humano. Estas necessidades seriam: a necessidade de inclusão. a necessidade de controle consiste. É sobretudo no momento das tomadas de decisão. em se definir para si mesmo suas próprias responsabilidades no grupo e também as de cada um que com ele forma o . O resultado de seus trabalhos é publicado em 1958 em um livro que inclui ao mesmo tempo uma teoria dos comportamentos interpessoais e um instrumento por ele preparado que permite avaliar a qualidade funcional da teoria (137). Schutz define a necessidade de inclusão como a necessidade que experimenta todo membro novo de um grupo em se perceber e em se sentir aceito. Com este conceito Schutz pretende especificar o seguinte: os membros de um grupo não consentem em integrar-se senão a partir do momento em que certas necessidades fundamentais são satisfeitas pelo grupo. aqueles que não superaram a fase da revolta típica da adolescência tentam impor-se ao grupo através de atitudes de contradependência e forçar assim sua inclusão no grupo. Estas necessidades. são as luzes trazidas por Schutz sobre a interdependência e a estreita correlação que existe em todo grupo de trabalho entre seu grau de integração e seu nível de criatividade.I. W.12 A experiência preparada por Lewin e tentada por ele no M. 2. os indivíduos melhor socializados. Que entende ele por estes três termos? 1. adotando para com os outros membros do grupo atitudes ao mesmo tempo de autonomia e de interdependência. sobretudo em relação àqueles membros que possuem um status privilegiado. a expressão do desejo que experimenta todo membro de um grupo de possuir um status positivo e permanente no interior do grupo. procurando provas de que não é ignorado. mas sobretudo com solidariedade de suas relações interpessoais. Eles descobriram que a produtividade de um grupo e sua eficiência estão estreitamente relacionadas não somente com a competência de seus membros. C. Mas onde Schutz inova realmente é através de sua teoria das "necessidades interpessoais". as experimenta ainda que em graus diversos. Esta necessidade é. segundo Schutz. (31). o próprio Lewin (92) e alguns de seus discípulos (17). Por outro lado. professor em Harvard. são interpessoais no sentido de que somente em grupo e pelo grupo elas podem ser satisfeitas adequadamente. que se reúne em um grupo qualquer. Enfim.

esperando ser percebidos e aceitos no papel de criança mimada do grupo. Mas neles esta necessidade de afeição encontra plena satisfação nos laços de solidariedade e de fraternidade que se estabelecem entre eles e os outros membros do grupo. seus progressos. consiste. Este termo não é muito feliz. Tem-se prestado. como uma reação de defesa contra as necessidades de afeição que experimentam. Desejam secretamente estabelecer em grupo relações hiper pessoais. é a necessidade que experimenta cada novo membro de se sentir totalmente responsável por aquilo que constitui o grupo: suas estruturas. não apenas pelo que tem. Estes últimos adotam em grupo. é a necessidade de afeição. em querer obter provas de ser totalmente valorizados pelo grupo. em quê e por que? Todo membro novo busca índices e critérios que lhe permitam responder estas questões e. Em conseqüência. cedem a mecanismos que os psicanalistas chamariam de bom grado. não desejando senão receber. Para Schutz. Tenderão a demitir-se de toda responsabilidade e a delegá-la a outros. adotam aquelas atitudes que Schutz qualifica de abdicadoras. suas atividades. atitudes adolescentes de aparente indiferença ou frieza calculada. conforme seu grau de socialização. Em outras palavras. Aqueles que. relações unicamente formais e estritamente funcionais entre os membros. mecanismos de formação reacional. pouco a pouco. do qual participa. a ambigüidades e equívocos. considerada como fundamental por Schutz em toda dinâmica de grupo. a expressão desta necessidade de afeição é fortemente condicionada e determinada pelo grau de maturidade social do indivíduo. Desejam ser aceitos totalmente e afeiçoados ao grupo pelo que são. exclusivas e geralmente possessivas. quando não reclamam. se preciso. Aqueles que se sentem rejeitados e mantidos à margem das responsabilidades no grupo. Ocultam sistematicamente sua necessidade de afeição e mostram-se como hipopessoais. segundo Schutz. àqueles que percebem como dotados de poder carismático. aqueles que há pouco. Todo membro de um grupo deseja e sente a necessidade de que a existência e a dinâmica do grupo não escapem totalmente a seu controle. por vezes opostas. os indivíduos que devem ou querem viver ou trabalhar em grupo. Preconizam. estabelecem suas relações em nível autenticamente interpessoal. Em outras palavras. tentam satisfazer suas necessidades de afeto através de relações privilegiadas. no plano da inclusão. os mais altruístas. seus objetivos. seu crescimento. O grupo ao qual ele adere. se sentem rejeitados ou ignorados pelo grupo. Alguns. Furtam-se assim a toda tentativa de estabelecer a solidariedade interpessoal sobre uma base mais profunda de amizade. os mesmos que há pouco mostravam-se dependentes no plano da inclusão. e abdicadores em relação ao controle. Os menos socializados. A terceira e última necessidade interpessoal. isto é. os possuidores de maior maturidade social. tenderão a cobiçar o poder e a querer. adotarão atitudes infantis ao exprimir sua necessidade de controle. A necessidade de afeição que sentem em graus diversos e segundo modalidades diferentes. os mais socializados. a pensar e a querer o controle do grupo em termos de responsabilidades partilhadas. Também aqui. sentir-se seguro à medida que consegue delinear de modo articulado as estruturas do grupo e as linhas de autoridade. 3. porque tornaram-se capazes de dar e de receber afeição. mas a ser aceito como pessoa humana. Enfim. está sob controle e de quem? Quem tem autoridade sobre quem. mostravam-se dependentes. esta necessidade se expressará e tentará satisfazer-se de modo mais ou menos evoluído. enfim. assumir sozinhos o controle do grupo. ao contrário. não obedecem nem a mecanismos de defesa nem a mecanismos de compensação. atitudes de autocratas. . Alguns chegam mesmo a ambicionar a responsabilidade primeira e absoluta do grupo. Não querem ou não podem dar nem receber. Não somente aquele que se junta a um grupo aspira a ser respeitado ou estimado por sua competência ou por seus recursos.13 grupo. Estes adotam. muitas vezes. mas também pelo que é. cada vez que lhes são confiadas responsabilidades. Os mais socializados. Somente estes. têm tendência a se mostrar democratas. Adotam então atitudes infantis. é o secreto desejo de todo indivíduo em grupo de ser percebido como insubstituível no grupo: cada um procura recolher sinais concludentes ou convergentes de que os outros membros não poderiam imaginar o grupo sem ele.

pelo menos no Ocidente. Mas eis o que lhe escapou e que Lewin havia pressentido antes dele: as relações interpessoais não podem tornar-se mais positivas. entre outros. conseguiu explicar-nos experimentalmente o que Lewin havia percebido de modo intuitivo. (136). se escutem ou mesmo se compreendam. segundo os objetivos em vista. A comunicação varia segundo os instrumentos utilizados para estabelecer o contato com o outro. que elas se realizaram em estreita colaboração com o "Research center for group dynamics". pelo grau de autenticidade das comunicações que se iniciam e se estabelecem entre seus membros. Pouco a pouco tornou-se possível definir o que é. Mesmo os silêncios e as ausências no interior de certos contextos podem tornar-se significativos e carregados de mensagens para o outro e. de controle e de afeição de seus membros. Quanto aos instrumentos empregados. as necessidades interpessoais podem encontrar satisfações adequadas. ora como omissões ou covardias.T. A comunicação humana entre elas existirá quando e todo o tempo em que conseguirem se reencontrar. Comunicação verbal e comunicação não verbal não estão sempre sincronizadas e sintonizadas . enfim. Não é suficiente que as pessoas com desejo de comunicação se falem. a partir desta descoberta. a solidariedade interpessoal de seus membros e a satisfação em grupo e pelo grupo das necessidades de inclusão. segundo as pessoas em processo de comunicação. ela tem tendência a tornar-se o instrumento preferido. diagnosticou com muito acerto e não sem mérito. É preciso mais. As pesquisas assinaladas acima permitiram distinguir entre vários tipos de comunicação humana. de comunicação com o outro. mais socializadas e o grupo integrar-se de modo definitivo. as posturas. quando. a mais habitual. a comunicação humana. senão exclusivo. Lewin teve o grande mérito de. enquanto subsistirem entre os membros fontes de bloqueios e de filtragens em suas comunicações. Os instrumentos. Foi no M.T. Schutz. que há uma equação entre a integração de um grupo. (105). (12). (95). A comunicação verbal é a mais freqüente. a comunicação pode ser verbal se alguém utiliza a linguagem oral ou escrita para iniciar e estabelecer o contato com o outro.14 EXPRESSÃO DE SI E TROCAS COM O OUTRO As teorias de Schutz sobre as necessidades interpessoais marcam um evidente progresso sobre algumas das descobertas de Lewin. orientar suas próprias pesquisas no M. (33). (5). segundo as situações. sobretudo. A gênese de um grupo e sua dinâmica são determinadas. é classificado pelo termo genérico de comunicação não verbal. (90). Pertencem a este tipo de comunicação os gestos. em última análise. Ela só existe realmente. Entre os povos latinos. os dados adquiridos são numerosos. para a comunicação humana (86). 2. (121). Bavelas. Todo recurso a outro instrumento que permita ou favoreça o contato com o outro. (126). Desde então os teóricos e os práticos da dinâmica dos grupos não cessaram de orientar sistematicamente seus trabalhos e suas observações sobre este problema a fim de conhecêlo de modo sempre mais científico (3). a saber: como e porque um grupo que não concluiu sua integração é incapaz de criatividade duradoura. Com a ajuda de instrumentos validados por ele. (17). Eis aqui os dados: 1. A. se estabelece entre duas ou mais pessoas um contato psicológico. essencialmente. ora podem ser percebidos pelo outro como expressões de coragem. Haviam sido iniciados quando Lewin ainda vivia e prosseguiram após sua morte com a ajuda de um dos mais dedicados de seus discípulos: A. (116). Por outro lado Schutz não conseguiu ir além do nível das relações interpessoais. as expressões faciais. Já se aceita como um dado de realidade que somente em um clima de grupo em que as comunicações são abertas e autênticas. Todos têm centrado o estudo sobre a expressão de si na troca com o outro: como comunicar com o outro para que o diálogo se estabeleça. (89). Graças a este esforço combinado e prolongado.I.I. A explicação científica da natureza da comunicação humana data das descobertas da cibernética. (92).

Este tipo de comunicação entre duas pessoas. Ela pode estabelecer que somente uma comunicação que seja verbal e não-verbal ao mesmo tempo tem condições de ser adequada. doces. A integração funcional e orgânica destes dois modos de expressão do eu choca-se. Talleyrand já aconselhava aos diplomatas: "as palavras nos foram dadas para encobrir nossos pensamentos". A comunicação humana que pretende ser exclusivamente verbal corre o risco de intelectualizar-se. Esta comunicação. Mas as comunicações a dois podem ser autênticas mesmo quando provisórias. sente a imperiosa necessidade de comunicar ao outro seu universo pessoal. como o caso do espírito criativo que. que dissimulam mal um estado de irritação interior. B. de autonomia e uma grande liberdade interior. a comunicação consumatória é sempre acompanhada de gratuidade e de espontaneidade. no amor ou na fraternidade. É o caso das comunicações a dois chamadas profissionais. pelo fato de não recorrer a uma simbolização na expressão de si. As comunicações a dois podem ser pessoais. ao contrário. por sua própria natureza. Às vezes o não-verbal está em dissonância com o verbal. cortantes. contra tabus e proibições coletivas ou ainda contra resistências emotivas cuja fonte é geralmente a personalidade profunda do indivíduo em causa. A comunicação instrumental. Quanto às pessoas implicadas é preciso distinguir entre comunicação a dois ou comunicação de grupo. Para permanecer funcional ela exige questionamentos contínuos e uma capacidade jamais atrofiada de aprendizagem. quando constituem contatos e trocas entre dois ou vários grupos. O primeiro deve dar provas de competência e de consciência. Ela pode apresentar-se sob formas prosaicas. Por outro lado. é sempre utilitária e comporta sempre segundas- . trai o eu íntimo que o verbal tenta camuflar. Então. de se tornar cerebrina. Gestos bruscos. Mas sejam quais forem as modalidades pelas quais ela se manifesta. o segundo possui direitos a serviços profissionais adequados. e comunicações inter-grupos. como integrar o verbal e o não-verbal em uma mesma comunicação? Sobre este ponto descobertas recentes mostraram-se decisivas para a compreensão da autenticidade nas comunicações humanas. O profissional consultado e a pessoa consultante estabelecem entre eles comunicações verticais: o profissional dá. sobretudo no plano não verbal. tende a durar e aspira à permanência. Os objetivos. Esta integração não poderá nunca ser considerada definitivamente adquirida. de flexibilidade. neste momento de seu processo de transformação de suas relações com o outro. acompanham muitas vezes palavras melosas. quando se estabelecem entre os membros de um mesmo grupo. se autêntica. o consultante recebe. e adotar modos de expressão não verbal do eu que sejam. podemos distinguir entre comunicação consumatória e comunicação instrumental. em que este relacionamento interpessoal se insere e se atualiza. A comunicação consumatória tem por fim exclusivo a troca com o outro. Quanto aos objetivos. "falar por falar". aceitáveis tanto para ele como para o outro e aceitáveis no contexto cultural. como na amizade. No Ocidente.15 no mesmo indivíduo. quando constituem um encontro entre dois seres que se percebem em relação de reciprocidade ou de complementariedade. habitado por um sonho constante. O capítulo seguinte tentará analisar como cada um deve descobrir por si mesmo. não poderia ser senão temporária e provisória pela boa razão de que tende a fazer evoluir o consultante e a torná-lo autônomo em relação ao profissional consultado. a comunicação que pretendesse dissociar-se de todo recurso à linguagem seria dificilmente inteligível ao outro. As pessoas. a partir de Lewin. ou adotar formas evoluídas. a dinâmica dos grupos tem contribuído muito para revalorizar a comunicação não-verbal e a expressão corporal do indivíduo. As comunicações de grupo podem ser distinguidas entre comunicações intra-grupo. B.

Quanto mais as comunicações intra-grupo forem abertas.16 intenções. mais as comunicações inter-grupos terão possibilidade. Cedo ou tarde. Na comunicação consumatória o outro é percebido como um sujeito ao encontro de quem se vai e com quem se deseja comunicar. de serem Autênticas e de não servirem de evasão ou de compensação a uma falta de comunicações internas em seu próprio grupo. 2. sobretudo após as descobertas inesperadas da eletrônica. graças aos media de comunicação. presentemente. Outros canais de comunicação são espontâneos. assinalar e identificar as vias de acesso ao outro. aceitá-las e nelas se engajar. a seduzir ou a enganar. manipulações do outro) e mais possibilidades terão de se tornarem alocêntricas e autênticas. sobre o planeta Terra existirem cada vez mais seres humanos em proximidade física uns dos outros. Estes últimos tornaram-se cada vez mais possantes. encontros de sujeito a sujeito). Alguns canais de comunicações são formais. cujas entradas são reguladas por um processo mais ou menos rígido. mais ou menos confessáveis. Constitui um pré-requisito para todos que queiram entrar em comunicação. enquanto subsistirem distâncias psicológicas a transpor entre aqueles que querem entrar em comunicação. menos elas serão instrumentais (isto é. o outro não se torna acessível senão através de caminhos nitidamente definidos. mais a comunicação humana terá possibilidades de ser autêntica. Quanto mais a comunicação se estabelecer de pessoa a pessoa para além dos personagens. das máscaras. em conseqüência. Estão neste caso as mensagens publicitárias ou ainda os slogans da propaganda política. positivas e solidárias. Algumas implicações podem desde logo serem destacadas sob forma de teoremas: 1. Quanto mais as comunicações humanas forem consumatórias (isto é. mas também quando ele pode ser ou tornar-se receptivo às mensagens que lhes são dirigidas. A troca com o outro é procurada. confiantes e que se percebem acessíveis constantemente um ao outro. 4. na comunicação instrumental. dos status e das funções. o outro é percebido como um objeto a explorar. As distâncias físicas entre os seres e entre os agrupamentos humanos foram quase abolidas pela técnica moderna. Nestes casos. durante e após o tempo de Lewin. mais a troca com o outro terá condições de ser autêntica. Sobre este ponto a dinâmica dos grupos. Eles aparecem nos meios organizados onde a autoridade se exerce de modo autocrático. . mais terá possibilidade de ser autêntica. multiplicou suas pesquisas. Mas a comunicação humana não pode se iniciar nem se estabelecer. Quanto maior for a disparidade de status existente entre dois interlocutores. articulados. com o objetivo de assegurar certos ganhos e satisfazer alguns interesses. 3. Entretanto não é suficiente saber como ter acesso ao outro. Perceber objetivamente os momentos psicológicos e as ocasiões de receptividade do outro é uma arte que poucos seres humanos conseguem dominar definitivamente e que supõe capacidades de empatia excepcionais. As vias de acesso ao outro são chamadas canais de comunicação. É o caso de interlocutores entre os quais as comunicações são abertas. 5. VIAS DE ACESSO AO OUTRO. Tornou-se possível em nossos dias entrar em comunicação com o outro a distância. cada vez mais adequados ao ponto de. mais aquele cujo status é inferior deverá preocupar-se em descobrir as vias formais através das quais poderá aproximar-se daquele cujo status é privilegiado. Quanto mais a expressão de si conseguir integrar a comunicação verbal e a não-verbal. oficiais. Quanto mais o contato psicológico se estabelece em profundidade. Os dados adquiridos então permitiram definir operacionalmente os requisitos e os pressupostos de toda comunicação humana. preparada e estabelecida para fins de manipulação. Enfim podem existir canais de comunicações clandestinos. É o caso do protocolo que precisamos respeitar para entrar em contato com os grandes deste mundo ou os personagens-chaves de certos meios organizados.

Segundo o grau de organização ou de estratificação do meio.17 para sobreviver às arbitrariedades do poder. isto é. isto é. a autoridade primeira se exerce de modo absoluto. já citado. Bavelas denomina a primeira destas duas redes horizontais de rede em círculo. todos se tornam acessíveis a todos e a integração dos membros pode realizar-se sobre uma base de complementariedade e não de subordinação. em estar constantemente preocupado em abrir e manter abertas as comunicações entre todos os membros. O líder é passivo. falsas as relações interpessoais e comprometendo a criatividade do grupo. definir cada um deles operacionalmente e. Esta conclusão está na origem dos trabalhos do especialista em dinâmica dos grupos. 1. Canais e media de comunicação constituem uma rede de comunicação cada vez que são estruturados e articulados de modo a tornar aqueles que estão agrupados no interior de um determinado meio. mais a comunicação com ele têm possibilidade de tornar-se adequada e autêntica. em . exercer a autoridade consiste essencialmente em tornar-se ao mesmo tempo um catalizador e um coordenador para o grupo. 2. Não podendo concluir-se a integração do grupo. gozando de um status de perfeita igualdade em relação aos outros membros. assim. Elas têm de específico o seguinte: estes dois tipos de redes não podem aparecer. As relações entre os membros são hierarquizadas na medida em que se traduzem em termos de subordinação e de dominação. tornando. Assim. Duas destas quatro redes são definidas como horizontais. nem se estabelecer. senão em clima de grupo igualitário. as linhas de autoridade definidas de modo piramidal: no alto da pirâmide. de prestígio. acessíveis uns aos outros. unicamente no interior de grupos em que cada indivíduo se percebe como membro participante. esta constitui uma rede perfeita que não pode existir senão em grupo ou estruturas de trabalho e de poder que sejam realmente democráticas. tentam descobrir ou estabelecer com a autoridade absoluta contatos não oficiais a fim de se manterem nas boas graças ou com vida. de previlégios. determinar exatamente em que situações de grupo eles se originam e se articulam. Ela é típica dos grupos "laissez-faire" em que a autoridade se exerce de modo bonachão. interdependentes. Eis as razões. sobre os diversos tipos de redes de comunicação (12). aqueles que devem viver ou trabalhar em contextos semelhantes. nem existir a solidariedade entre os membros. RELAÇÕES IGUALITÁRIAS E RELAÇÕES HIERARQUIZADAS Quanto mais forem expontâneas as vias de acesso ao outro e menos formais os canais de comunicação. media e canais estão ligados entre si. pouco a pouco. Com efeito. Bavelas conseguiu isolar quatro tipos distintos de redes de comunicação. Podem ser observadas nos grupos de trabalho em que as relações interpessoais são hierarquizadas. as comunicações não conseguem tornar-se funcionais e estão sempre acompanhadas de equívocos e ambigüidades. Segundo ele. as comunicações não se estabelecem senão ao nível das afinidades ou das atrações aparentadas entre os membros. para o líder democrático. Fatalmente alguns membros se encontram excluídos ou se tornam marginalizados das interações que ocorrem no grupo. quem tem autoridade sobre quem. As outras duas redes são chamadas por Bavelas de redes verticais. Em uma rede. B. de direitos. A. A. Bavelas. Os status respectivos dos membros estabelecem nitidamente em termos de funções. A segunda rede horizontal é chamada rede em cadeia. recusa-se a assumir seus papéis e suas responsabilidades. aqueles que aí trabalham ou vivem terão uma consciência mais ou menos explícita dos caminhos e das direções que devem seguir para atingir o outro e comunicar-se uns com os outros. por este motivo. De fato estes quatro tipos de redes não podem ser observados senão em grupo e em grupo de trabalho.

Ele deve ser capaz de perceber e de discernir quando. então trata-se de uma mensagem ideacional. A mensagem constitui o conteúdo da comunicação. neste contexto muito preciso. Ela pode enfim comportar elementos tanto intelectuais como afetivos. O emissor é aquele que toma a iniciativa da comunicação. um receptor adequado são. cobiçando para ele o poder absoluto. em seguida. mais o clima de grupo torna-se e se mantém igualitário e. A partir de Kurt Lewin a dinâmica dos grupos define assim as cinco componentes essenciais de toda comunicação humana (25). As leis psicológicas que fazem de um indivíduo. B. Enfim parece definitivamente adquirido que somente em um clima de comunicações abertas pode realizar-se a integração de um grupo de trabalho e seus membros conseguirem ritmos de criatividade duradouros. (106). Enfim. em conseqüência. 1. ela exprime um sentimento ou um ressentimento. O receptor é aquele a quem se dirige a mensagem. quanto mais a autoridade se exerce de modo democrático. se preciso. mas muito cedo tenderá a traduzir-se através de mensagens em sentido único. por outro lado. O que concluir e destacar como implicações? É preciso não esquecer que os dados adquiridos por Bavelas não são válidos senão para os grupos de trabalho. Se. trata-se de uma mensagem afetiva. As comunicações antes abertas e espontâneas. tornam-se fechadas e artificiais com a tomada de consciência de alguns membros de que um dentre eles esforça-se em tomar o controle do grupo. Este tipo de rede caracteriza as comunicações no interior de um grupo aparentemente democrático em vias de tornar-se autocrático. constitui um requisito que ele tenha sabido assinalar e identificar as vias de acesso mais seguras e. 3. A mensagem é neste caso chamada vital. da percepção e da expressão. Assim. haja reduzido ou abolido. as leis da impressão. deverá estar psicologicamente em estado de abertura para outro. COMPONENTES ESSENCIAIS Para quem quer entrar em comunicação com o outro. que a exerce de modo arbitrário e segundo seu bel prazer. Bavelas chama a primeira rede vertical. sua mensagem em termos que sejam inteligíveis para o outro. De outro modo ele poderá entender a mensagem. Esta rede é específica dos grupos autocráticos no interior dos quais a autoridade está concentrada entre as mãos de apenas um. e a comunicação hão se estabelecerá geralmente se não de cima para baixo. Conforme se trate de uma mensagem positiva ou negativa. mas não captá-la ou aceitá-la. compreendê-la. Além disto se ele quiser favorecer a tomada de contato iniciada pelo emissor. Mas a comunicação só se estabelecerá em seguida. parece demonstrado que. as distâncias físicas entre ele e o outro.18 quê e porque. em quê e como o outro lhe é acessível. Ele a captará na medida em que estiver psicologicamente sincronizado e sintonizado com o emissor. as leis da motivação. (136). de uma comunicação. se um emissor e um receptor conseguem transmitir uma mensagem com a ajuda de um código e segundo modalidades adaptadas aos fins em vista. enfim. ele deve poder transmitir. existe uma segunda rede vertical denominada rede em roda. (101). ao longo. Por outro lado. obedecer às leis psicológicas da motivação. as comunicações tornam-se e permanecem mais abertas. a rede em y. de início. ela estará carregada de ternura ou de agressividade. Enfim. da percepção e. para ser funcionais. seus comportamentos e suas atitudes ao longo da comunicação devem. Se ela consiste unicamente numa informação. A comunicação não somente se estabelece de modo vertical entre a autoridade e os membros. . graças aos meios funcionais e adequados. Todas as comunicações entre os membros são controladas por ele. 2. A.

há bloqueio. A dinâmica dos grupos aprendeu a distinguir entre código público e código secreto. entre pessoas ou entre grupos. a dança. a comunicação subsiste mas acompanha-se de filtragem. pensam ou sentem. a orquestração na ópera. resultam alguns fenômenos psíquicos. sua mensagem não se destina senão a uma pessoa ou algumas pessoas. ou não se estabelece. uma proliferação de zonas de conflitos e de tensões. quando não é comunicada senão uma parte do que os interlocutores sabem. ele obriga os interlocutores a questionar suas comunicações e geralmente lhes permite reatá-las e restabelecê-las em um clima mais aberto e uma base mais autêntica. quando não dão lugar. a técnica do grande plano na televisão. Parece que somente uma . Ao contrário. Se. o observador vê aparecer entre os interlocutores muros ou barreiras psicológicas. degradando-se e degenerando pouco a pouco em troca de mensagens cada vez mais ambíguas e equívocas. entretanto. a ordem e a apresentação da mensagem. Mas a música. Os bloqueios provisórios. Assim cabe a ele decidir o modo de apresentação. (33). ao contrário. Eles foram observados e estudados sistematicamente pelos pesquisadores da dinâmica dos grupos. a encenação no teatro. (75). a escultura. a tonalidade afetiva. quando muito. deverá camuflar sua mensagem de modo a torná-la imperceptível e indecifrável para todos aqueles aos quais ela não é destinada. a mímica. são geralmente inconscientes para pessoas ou para os grupos cujas comunicações estão sendo prejudicadas. a televisão são outros tantos códigos que nos permitem transmitir mensagens. Zonas de silêncio se estabelecem entre eles. provavelmente de modo irreversível. As fontes que originam os bloqueios e as filtragens em vias de se cristalizar. porque a comunicação subsiste enquanto a confiança diminui. sua preocupação será a de pôr em destaque a mensagem emitida. Quando os bloqueios e as filtragens tornam-se permanentes. Assim. O emissor recorrerá a um código público quando desejar que sua mensagem seja captada pelo maior número possível de receptores. Assim a comunicação corre o risco de tornar-se artificial. (14). Em caso de filtragem. FILTRAGENS E RUÍDOS Quando a comunicação se estabelece mal. (136). ao contrário. cada interlocutor tendo tomado consciência do que neles e entre eles constitui obstáculo à suas trocas. escrita ou oral. BLOQUEIOS. nebulosidade. A linguagem. zonas de trocas superficiais que recobrem. (90). ou ainda de ruído. Bloqueios ou filtragens podem ser provisórios: certos autores falam então de pane. quanto ao conteúdo da mensagem e quanto ao código utilizado. Se. o teatro. 4. ou. Utilizará um conjunto de símbolos inteligíveis para todos aqueles que ele quer atingir. ele deverá utilizar um código secreto de modo a cifrar sua mensagem em termos inteligíveis somente pelos receptores de posse da chave que lhes permita decifrar o significado da mensagem. Se ele utiliza um código público. 5. é sem dúvida o código mais freqüentemente utilizado. de modo paradoxal à primeira vista. Quando a comunicação é completamente interrompida. parecem comprometer menos a evolução da comunicação que as filtragens provisórias. Destaque ou camuflagem: o quinto componente essencial de toda comunicação humana consiste no conjunto das decisões que o emissor deve tomar. Eis a razão. antes de entrar em comunicação. Desde que surge um bloqueio. Os códigos áudiovisuais são sem dúvida alguma os mais adequados produzidos pela técnica moderna. a pintura. bruma.19 porque quer transmitir uma informação de importância considerada vital pelo receptor. queda de visibilidade entre emissor e receptor. O código é constituído pelo grupo de símbolos utilizados para formular a mensagem de tal modo que ela faça sentido para o receptor. para melhor atingir seus interlocutores e ir ao seu encontro. Vejamos como foram definidos (12). ela tende a acompanha-se de reticências e de restrições mentais. Deste modo não é senão raramente que eles conseguem transpor e restabelecer por eles mesmos o contato psicológico rompido ou inexistente com outro. o cinema. o emissor usa um código secreto. (25).

Seis possíveis fontes de bloqueios e de filtragens. em tom de gracejo. No interior desta zona. Cedo ou tarde. Assim as comunicações entre um genro e sua sogra. por sua conta. PERTURBAÇÕES E DISTORÇÕES PROVISÓRIAS Os mesmos pesquisadores que conseguiram definir operacionalmente em que consistem os fenômenos de bloqueio e de filtragem na comunicação preocuparam-se em identificar suas fontes mais freqüentes. Ei-las: 1. Qualquer que seja sua duração. equívocos ou ressentimentos que aparecem como irredutíveis. abordagens penosas. Esta falta ou ausência de receptividade pode ocorrer por três . enquanto outras são específicas de certos contextos sociais. todo ser humano que se sensibilize em relação ao seu meio pode estabelecer. Se o passado é evocado. em razão dos tabus exteriores. Conseqüentemente. os temas permitidos. de fato. as discussões e as de liberações provocam. habitualmente. Os mal-entendidos surgem pelo fato dos interlocutores em presença suporem gratuitamente que utilizam o mesmo código. mais as relações entre colegas ou com o responsável do grupo arriscam tornarse sistematicamente negativas. Se bloqueios e filtragens aparecem no grupo de trabalho. é de modo impessoal. Cedo descobriram que algumas causas de bloqueios e filtragens podem estar em jogo em toda comunicação humana. Assim. 3. os símbolos utilizados têm para eles conotações subjetivas ou coletivas distintas ou mesmo contrárias. então. entre uma nora e seu sogro. inautênticas. falam de "joking relation-ships".entendidos. tornam falsas as atitudes e os comportamentos interpessoais. desencorajando assim toda exploração deste tema de sua vida como indiscreto.20 experiência de natureza catártica poderia torná-los lúcidos e incitá-los a se liberarem daquilo que neles. Definem assim a zona de relações interpessoais. em conseqüência de mal. variando em cada indivíduo. Lewin. seu espaço vital ou seu espaço de movimento livre (91). No momento não trataremos senão de bloqueios e filtragens que provocam perturbações ou distorções provisórias e temporárias. Esses tabus exteriores. há bloqueios ou filtragens quando ele não capta ou capta mal as mensagens que lhe são endereçadas. expressão mais ou menos explícita de proibições coletivas. pode sentir-se constrangido a permanecer em silêncio ou a não falar senão com reticência e circunspecção em virtude de tabus exteriores. quando não intolerável. 2. Os antropólogos culturais. A mensagem a transmitir evoca nele lembranças penosas. de censuras ou de pressões de grupo. no interior da qual a comunicação se estabelece de um modo irônico ou humorístico. as decisões tomadas em semelhante clima são raramente uma expressão de um acordo de grupo e as realizações que se seguem são fatalmente convencionais e estereotipadas. entre outros os grupos de trabalho estruturados de modo autocrático. o emissor os percebe instintivamente ou os descobre às suas custas. não eliminadas ou não assimiladas. definia as zonas de trocas acessíveis a cada indivíduo. No que se refere ao código. Quanto mais estes bloqueios ou estas filtragens persistem. os bloqueios e as filtragens perturbam as percepções de si e dos outros. agravadas geralmente por conflitos de prestígio. como já notamos e salientamos no capítulo precedente. os bloqueios ou as filtragens podem ocorrer por causa das diferenças culturais. comuns a toda comunicação humana. em virtude de sistemas de valores ou de esquemas de referência diferentes. Do lado do emissor. foram identificadas. 4. de seu lado. Ê o caso entre outros dos indivíduos cujo passado foi traumatizado. os temas tolerados e os temas proibidos. eles se tornam incapazes de se comunicarem com o outro. os impede de comunicar de modo adequado com o outro. ou se o fazem. o inventário do que pode comunicar ao outro. alguns temas nunca são evocados? Os que são tolerados o são em termos velados. quando. Do lado do receptor. os bloqueios ou as filtragens podem ser devidos a inibições interiores. O emissor pode também experimentar bloqueios o filtragens em suas comunicações por razões extrínsecas.

2. de apelos ou de expectativas. os melhores equilibrados. De outro modo o contato psicológico pode não se estabelecer e as mensagens emitidas com a ajuda de um código não verbal escaparem ao receptor ou não lhe parecerem inteligíveis. Nos grupos de tarefa cujas estruturas de trabalho e de poder são autocráticas. hiper-irritável. somente as mensagens positivas são captadas. Elas estão todas contidas no aforisma de Alain: "O poder torna louco. Também estes últimos. Aqueles que se dedicam aos cuidados dos doentes. se tornar perfeitamente receptivos às comunicações não verbais de seus pacientes. até mesmo compreender. ao nível das comunicações com os membros de seu grupo. os mais estabilizados. Estes bloqueios e estas filtragens têm origem em duas causas específicas: a hostilidade autista no autocrata. cada vez que ." O poder parece ser. para a maior parte dos homens. 6. 1. em razão do contexto cultural em que se socializou. de cima para baixo. seja pelo fato de estar absorvido por uma alegria intensa que o cumula. o receptor pode ter uma percepção seletiva. Não apenas não compreende como não escuta mais. ter-se tornado exclusivamente sensibilizado para a comunicação verbal a ponto de não captar ou captar mal as mensagens não verbais que lhe são dirigidas. O autocrata. torna-se. tanto no plano das percepções como no das relações interpessoais. seja por se sentir invadido por uma forte angústia. A transmissão coletiva explica os bloqueios e as filtragens observados nos membros de grupos autocráticos. Nestes momentos de depressão o ser humano pode muito bem entender. devem preocupar-se em. Na realidade ele não retém ou não presta atenção senão às mensagens com as quais já está emotivamente sintonizado. eles se tornam vulneráveis e hipersensibilizados às mensagens negativas. como já vimos. Enfim. Primeiro. razão de existir ou de evoluir senão para sua glória. a transmissão seletiva nos membros. 5. não captando senão as mensagens que possuem para ele. Os pais e os educadores devem aprender a decifrar as mensagens não verbais carregadas de angústia. Eis como este fenômeno tende a manifestam-se. Ninguém escapa totalmente a este fenômeno. Seu egocentrismo degenera cedo ou tarde em autismo ao ponto em que só seu interesse é lei e o grupo não tem. reservando para si toda decisão e assumindo sozinho o controle das estruturas de poder. Assim se apresenta a hostilidade autista. o poder absoluto torna absolutamente louco. no momento em que são emitidas. ele pode. sobretudo dos doentes mentais. Torna-se então incapaz de perceber as mensagens que lhe são dirigidas. mostram-se momentaneamente cíclicos em sua atenção e presença diante do outro. um vinho embriagador que lhe sobe à cabeça e fecha o coração ao outro. Poucos são os contextos humanos em que os bloqueios e as filtragens são mais freqüentes e mais carregadas de perturbações e de distorções. as expressões de rosto dos adolescentes ou das adolescentes que eles procuram ajudar. enquanto que nos momentos de decepção. Em seus momentos de euforia. Para ele tornou-se inadmissível que outros além dele possam ter direitos de existir. tratando-se do receptor. de tal modo está perturbado emotivamente. em certos momentos. ressonâncias afetivas ou implicações pessoais. Excepcionalmente o receptor pode conhecer estados de alienação. As causas deste tipo de regressão foram longamente analisadas por Lewin e seus discípulos (97). prisioneiro de seu autismo.21 razões possíveis. O autocrata de posse de um poder absoluto sobre os membros de seu grupo regride muito cedo em suas relações com o outro a ponto de tornar-se inconsciente da existência dos outros. que contém. as mensagens que lhe são dirigidas. não respondendo senão com hostilidade a toda tentativa de torná-lo consciente da existência do outro. as redes de comunicações humanas entre o responsável e os membros do grupo tendem. em vez de dispor de sua vida para servi-lo e votar-lhe um culto incondicional. desencoraja a liberdade de expressão entre aqueles que trabalham ou vivem com ele. a seus olhos. Mesmo os seres mais altruístas. a se hierarquizar de modo vertical e em sentido único. Também o autocrata.

A distância social. Eles aparecem ao seu meio aureolados de atributos. Segundo o sistema de valores que prevalece no meio. que se pensa.22 captam uma mensagem que exige uma resposta. O outro é mantido à distância. operam uma seleção e não transmitem ao autocrata senão uma parte ou o contrário do que sabem. Por esta razão é mantido à distância e a comunicação com ele é considerada como impossível de ser estabelecida. aquilo que se sabe. ao contrário. é um fenômeno inter-grupo. As distâncias sociais e psicológicas entre interlocutores tendem então a se acentuar e a ser percebidas como irredutíveis. valas que parecem intransponíveis. quando muito. os representantes deste nível ocupacional são percebidos pelo meio de cima para baixo. e desvalorizantes do outro (31). (42). seja de níveis intelectuais. ou se dedicam a estas atividades. uma função social ou uma atividade humana são julgadas desvalorizadas em um contexto cultural. de privilégios ou de carismas. (130). despojado assim de seu mistério pessoal. possuindo determinado status. (16). bloqueios e filtragens permanentes. De fato ele só é percebido em termos estatísticos: não é um indivíduo irredutível. pelo simples fato de pertencer a um grupo diferente. seja de níveis de escolarização. Sua única possibilidade de sobreviver no interior de semelhantes estruturas é geralmente calando o que sabem e não transmitindo senão o que pode alimentar as ilusões falaciosas que o autocrata quer manter sobre seu poder e sua popularidade. (101). de uma camada. Sobre este ponto as intuições de Lewin. de um grupo. por outro mostraram-se em grande parte de uma justeza notável e forneceram à pesquisa experimental suas hipóteses mais fecundas (99). arrogância ou condescendência. Cavam-se. Aqueles que ocupam estas funções. entre eles. quando não o temor reverencioso. DISTÂNCIAS SOCIAIS E BARREIRAS PSICOLÓGICAS Os bloqueios e as filtragens na comunicação humana tornam-se permanentes e tendem a se cristalizar cada vez que as relações inter-pessoais são prejudicadas pelos preconceitos. O outro é percebido como inacessível. recusam-se ou se omitem ou. se por um lado foram superadas. que desencadeiam no meio o êxtase ou o encantamento. Graças a pesquisas astuciosas refizeram por sua conta descobertas recentes da psicologia social sobre a natureza dos preconceitos. isto é. Distâncias sociais. diferenças de classe. Esta última é um fenômeno intra-grupo e pode ser descrito assim: o outro é percebido como incompatível. além de ser o resultado de um processo de despersonalização do outro. Preocuparam-se sobretudo em verificar e em destacar as múltiplas implicações destes dados científicos para a inteligência dos obstáculos fundamentais à autenticidade das comunicações humanas (2). do que pensam ou do que sentem. de afastamentos seja de níveis educacionais. resulta sempre de uma percepção vertical do outro. A distância social. Em que consiste a distância social? Primeiro é preciso distingui-la com nitidez da distância psicológica. segundo os casos. Dos preconceitos nascem os conformismos e a incapacidade de dialogar com o outro. elevam-se barreiras e fronteiras psicológicas que parecem insuperáveis. mas o representante de uma classe. ocupando determinada função. certas funções sociais ou certas atividades humanas são valorizadas. (14). Os membros das outras camadas passam a considerar que seria rebaixar-se consentir em comunicar de modo adequado com eles e é fácil imaginar a parte determinante de esnobismo em suas percepções verticais. O outro é então percebido como estando situado socialmente a uma distância inacessível. a uma distância intransponível. com menosprezo. são percebidos de baixo para cima. Quando. que se sente como incomunicável. de diferenças culturais. . Os teóricos e os práticos da dinâmica dos grupos foram os primeiros a revelar o fato. ao contrário. Pode tratar-se. Já se tornara aceito que os preconceitos consistiam em idéias preconcebidas sobre o outro. (3). comunicação humana prejudicada ou rompida de modo definitivo são outros tantos fenômenos que encontram sua origem em nossos preconceitos.

tendo seu limite de tolerância à frustração social. mais evoluídos sejam tão pouco capazes de trocas autênticas com o outro? É necessário reconhecer de início que os preconceitos existem num grau impressionante e espantoso. em termos sempre excessivos. mas de uma fixação ou de um desvio caracterológico de sua evolução social. afundam-se na depressão ou se refugiam na obsessão ou na simulação histérica? Foi neste ponto específico que as hipóteses de Kurt Lewin. os mais preocupados com a justiça social. levam-no a apelar violentamente para seus preconceitos para fugir à sua angústia. pondo em correlação o grau de abertura das comunicações em um meio com o estilo de autoridade que nele prevalece (71). têm todos uma personalidade de tipo autoritário. A resposta mais satisfatória a estas questões parece ser o que se segue. O adulto social não cede temporariamente aos preconceitos de seu meio senão por privação de liberdade. Não é raro vê-los regredir. a menor troca livre ou espontânea com o outro é fonte de ansiedade e causa de frustração. É um fato aceito atualmente que o preconceito é um sintoma. Sentem também cada vez a necessidade inconsciente de perceber negativamente o outro através de seus preconceitos para melhor defender-se deles e mantê-los à uma distância segura. a certos grupos que os fazem classificar. ou em fase ansiosa. no caso seus preconceitos. contrariamente a outros que. de antemão. em uma situação de frustração social. os preconceitos chegam à enfatuação. os limites de tolerância à frustração social são mais ou menos elevados. O débil social. Seus preconceitos satisfazem neles necessidades tão mórbidas que. Como no caso da frustração individual. ao contrário. provisória. os seres mais adultos. seus sintomas. as predisposições caracterológicas de base que. quando são desfavoráveis. mesmo em seus momentos de lucidez.justificação. Por outro lado. geralmente estranhamente simplistas com relação a certos indivíduos. aqueles diagnosticados acima como débeis sociais. uma vez os preconceitos adquiridos. Como então explicar que mesmo em um clima democrático. os mais dedicados ao respeito pelo outro surpreendem-se ao ceder a preconceitos sob a pressão e a coerção do meio. ela renunciar e recorre à mesma de modo compulsivo. Nestes últimos. para aqueles que pouco ou nada evoluíram socialmente. Os preconceitos não são inatos mas adquiridos. o deslocamento ou a descarga agressiva sobre bodes expiatórios. permanece prisioneiro de seus preconceitos por medo da liberdade. em que a alergia crônica ao outro se distingue das outras nevroses? Quais são. a eles se agarram desesperadamente. fixas. sem provas em apoio. eles são reconhecidos pelos traços . O preconceito proporciona ao medo do outro uma tranqüilidade precária. uma frustração social. Sua personalidade parece estruturada por determinismos tais que estes seres. a racionalização ou a auto. lançando-lhe julgamentos hostis.23 idéias falsas. Os melhores. os mais lúcidos. Externamente. Como em todo nevrótico. Quando são favoráveis. mais vulneráveis que outros ao contágio e à contaminação sociais. o preconceito é uma resposta a uma frustração. a um estágio anterior à sua socialização e voltarem-se injustamente contra o outro. Ao contrário. Quando ela dá origem à ansiedade. assinalados em graus diversos. nesta nevrose. é um fato que certos seres humanos são mais predispostos que outros a adquirir preconceitos. tornam-se incapazes de se liberar dos mesmos. não se trata de uma regressão ocasional a um estágio mais primitivo de sua socialização. Elas mostraram de modo concludente que os seres mais preconceituosos. degeneram em intolerância em relação ou outro. mas adquirida tão penosamente que o indivíduo se torna incapaz de a. os seres mais socializados experimentam uma frustração intolerável. Privados de suas liberdades fundamentais. inspiraram de modo decisivo as pesquisas da psicologia social. permitem ao débil social controlar sua ansiedade ou dela escapar cada vez que lhe é necessário afrontar o outro em zona de livre troca. por razões equivalentes. a frustração social desencadeia em alguns o jogo de três mecanismos de defesa. no caso. a saber: a generalização gratuita. Como toda reação neurótica. então. não de modo situacional. aqueles que o são em estado caracterológico. permanecido muito baixo. em toda expressão de preconceito. Especificamente.

Ele não pode aceitar nem tolerar que os outros sejam diferentes dele. É incapaz de doar-se ao outro porque não tem nada a dar. Ele se recolhe. Contrariamente ao psicopata que é um a-social ou ao revoltado que é um anti-social. ter a autoridade é a maneira mais segura de escapar ao seu medo do outro. isola-se e se recusa a todo contato. constitui um elemento estático. Mas como explicar semelhante deterioração do sentido social? Pesquisas recentes mostraram (130). atingir um status de autoridade Ihes aparece então como o supremo bem. . não tendo nunca conseguido possuir-se. a toda troca. o autoritário conformase com todas as pressões sociais. O autoritário não perderá sua arrogância e não deixará cair suas máscaras senão quando for surpreendido por uma sacudidela coletiva ou quando sofrer um trauma pessoal. a expressão de seu respeito pelo outro. para dela abusar da maneira mais arbitrária. então. É para camuflar sua impotência e sua esterilidade que lhe é necessário parecer agressivo. Bibliografia do texto MAILHIOT. Em grupo. Dinâmica e Gênese dos Grupos. Seu conformismo social trai seu medo do outro. Favorece a cristalização. impõe-se uma conclusão: para chegar ao altruísmo e tornar-se capaz de abertura em suas comunicações humanas. intratável com o outro. O autoritário nunca atingiu o nível do altruísmo. Do conjunto destes dados. estarem em condições de controlar suas relações com o outro e poder manipular os outros à sua maneira. de sexo. de cultura ou de religião o perturba e o inquieta. Passivamente. deve liberar-se desta falsa obsessão de que só aqueles que nos parecem semelhantes nos são próximos e que para serem fraternais conosco. 1991. tudo lhes serve como pretexto para afirmar sua autoridade. Compraz-se com o statu quo mais retrógrado. diferença de idade. Se. que o autoritário é um conformista. ao contrário. arrogante. qualquer que seja seu grau de socialização. a petrificação. Ela não é. O autoritário revela-se à análise como um ser em quem os instintos de simpatia não triunfaram dos instintos de defesa. esperando. Gérald Bernard. a esclerose das estruturas sociais. seu pânico dos mais fortes.24 seguintes: desde que constituídos em autoridade. Toda diferença no outro. São Paulo: Livraria Duas Cidades. Para o autoritário. o ser humano. O autoritário é atingido pela fobia do outro. como no adulto social. 44 a 88. mais reacionário. não possuem nenhuma autoridade sobre quem quer que seja. na medida em que nele se sente integrado e aceito. por causa do vazio de sua vida. p. os outros devem ser idênticos a nós. o que constitui um paradoxo. Seu medo do outro é no fundo um medo de si. Ê o primeiro passo no aprendizado da autenticidade. Ele adota espontaneamente os mitos e os estereótipos desta sociedade. Parecem igualmente dispostos a recorrer a todas as intrigas e a mostrar as mais baixas servidões para satisfazer sua ambição de poder. o autoritário é um gregário cuja socialização não se realizou totalmente. tão grande é seu medo de perder seu domínio sobre aqueles que dirigem.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful