O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR-REDE?

ALEXANDRA CLEOPATRE TSALLIS
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social (Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

ARTHUR ARRUDA LEAL FERREIRA
Doutor em Psicologia Clínica (PUC/SP); Professor Adjunto do Instituto de Psicologia (UFRJ); Pesquisador financiado (FAPERJ e FUJB).

MARCIA OLIVEIRA MORAES
Doutora em Psicologia Clínica (PUC/SP); Professora do Programa de Pós-graduação (Mestrado) em Estudos da Subjetividade do Departamento de Psicologia (Universidade Federal Fluminense).

RONALD JACQUES ARENDT
Professor Titular de Psicologia Social doPrograma de Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia (Universidade do Estado do Rio de Janeiro); Doutor em Psicologia (Fundação Getulio Vargas/ISOP/RJ); Pós-doutor (Universidade Paris 8); Bolsista do Programa Prociência (UERJ/FAPERJ).

Resumo: O objetivo deste deste artigo é traçar um conjunto de relações possíveis

entre a Teoria Ator-Rede, proposta por Bruno Latour e a psicologia. Inicialmente expomos de forma breve alguns conceitos-chave do trabalho de Latour, seguido por suas considerações críticas sobre a psicologia. Na seqüência, inspirados nos conceitos expostos na primeira parte, iremos delinear uma análise das características do saber psicológico em sua singularidade, concluindo na reformulação de alguns conceitos básicos deste saber.
Palavras-chave: Psicologia, redes, Latour, sinfgularidade e construção do

conhecimento.

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O

QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR - REDE ?

WHAT SHOULD PSYCHOLOGISTS LEARN FROM ACTOR NETWORK THEORY?
Abstract: The aim of this paper is to map the field of possible links between psychology and actor network theory proposed by Bruno Latour. In the beginning some key concepts discussed by Bruno Latour are presented as well as his critical analysis of psychology. In order to develop the point previously mentioned, some ideas about psychology as a singular science are introduced and the conclusions are made regarding the ideas that were discussed. Keywords: Psychology, networks and knowledge.

1) Introdução Este artigo tem como intuito colocar em debate uma série de estudos que temos feito a partir dos trabalhos publicados sobre a teoria ator-rede, em particular, utilizamos o foco teórico-prático de Bruno Latour1. Professor no Centro de Sociologia da Inovação na École de Mines de Paris, Latour é um pesquisador peculiar das ciências. Sociólogo, ele desenvolve estratégias para descrever e acompanhar o trabalho dos cientistas no cotidiano dos seus laboratórios, buscando romper com uma tradição que sublinha a ciência como uma atividade purificada e independente das vicissitudes do dia a dia; antropólogo, ele desenvolve uma antropologia na qual a ciência deixa de ser pensada como uma produção diferenciada das demais, ainda que possua a sua singularidade; filósofo, ele se colocou como tarefa discutir o estilo moderno de partilhar os seres entre naturais e humanos, fatuais e produzidos, objetivos e subjetivos, propondo uma nova ontologia delineada por coletivos compostos de articulações entre atores humanos e não humanos organizados em rede.

Neste programa de pesquisa, os pesquisadores se unem em torno do que Latour (1994) chama genericamente de “Estudos Científicos”, seja em instituições universitárias na Europa, América do Norte ou América Latina, ou centros de pesquisa, como, por exemplo, o Centre de Sociologie de L´Innovation, a European Association for the Study of Science and Technology ou a 4S – Society for Social Studies of Science.
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A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS ; A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA; M ARCIA O LIVEIRA M ORAES ; R ONALD J ACQUES A RENDT

Nestes espaços se investigam temas como ecologia, política, economia, mídia, técnica, religião, epistemologia, linguagem, etc. Embora em seu trabalho Latour não estabeleça uma reflexão sistematizada acerca da Psicologia, encontramos em alguns de seus trabalhos menções, sempre bastante críticas, à psicologia (Conferir a este respeito Latour 1994, 2002-b). Acreditamos que sua forma peculiar de pensar os Estudos Científicos permite refletir a psicologia sobre novos prismas. É nesta linha que propomos este artigo: inicialmente expor de forma breve alguns conceitos-chave do trabalho de Latour, seguido por suas considerações críticas sobre a psicologia. Na seqüência, inspirados nos conceitos expostos na primeira parte, iremos delinear uma análise das características do saber psicológico em sua singularidade, concluindo na reformulação de alguns conceitos básicos a este saber.
2) Uma breve rede conceitual Embora já exista no Brasil uma literatura bastante razoável para que o leitor possa se introduzir nesta nova linha de pensamento (Latour, 1994, 2001, 2000-a,2002-b), apresentar todos os meandros da teoria atorrede e seus deslocamentos conceituais não são metas deste artigo. No entanto, como esta abordagem não é de uso comum, ao menos entre psicólogos, é necessária a apresentação de alguns conceitos-chave que irão habilitar este dialogo com a psicologia. Este é o objetivo desta seção. 2.a) A noção de vínculo (ATTACHEMENT) O conceito de attachement2 está ilustrado na tira em quadrinhos de Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino e trabalhada por Bruno Latour (2000-b).

Quino, le Club de Mafalda, n° 10, 1986, p.22, Editions Glénat Reproduzido a partir do site: http://www.ensmp.fr/~latour/articles/article/076.html

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na droga. simplesmente. Por um lado há o discurso positivo de verificação da ciência. no comércio. Não se trata de destruir o ídolo. mas não se preocupe”.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Vínculo. o pai fumando um cigarro. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . por que?” “Por nada. por exemplo. faitiche = fait + fetiche) Ora. observar o que elas fazem fazer e como aprendemos a ser afetados por elas. na consciência. No processo que “faz fazer” não cabe estabelecer causalidade. articulado. responde Mafalda. por outro a denúncia. O homem criou os cigarros e ao mesmo tempo eles ganham autonomia e ameaçam nossa saúde. fabricante – fabricado. XII • n . de avaliar as redes. não há o “fazer-agir” causal. designa o que comove e coloca em 60 INTERAÇÕES • V OL . para Latour (2000-b). do controle (da maîtrise). Vivemos em um sistema de relações. uma mistura de algo que é ao mesmo tempo feito e um fetiche (em francês. Ocorre que ninguém domina. agente – agido). O maço de cigarros do pai de Mafalda é um fe(i)tiche. a questão não é tanto se estamos vinculados (attachés) ou livres. o fetiche. o fetiche que faz dele um escravo. na imprensa. que permitem distinguir entre o que está bem ou mal vinculado. Não se deve dirigir mais a questão ao sujeito ou ao objeto. O que está em questão nesta anedota é o tema do domínio. cortando com uma tesoura em pedaços todos os cigarros restantes de seu maço. mas às coisas que proporcionam vínculos. Em seguida. quando se estabelecem de antemão pares como sujeito –objeto. ninguém age. nem é dominado pelo cigarro. O que está em discussão. papai?” O pai responde tranqüilamente: “fumo um cigarro.REDE ? Vemos na tira acima. o pai de Mafalda engana-se: nem ele domina o cigarro.o 22 • p. mas tive a impressão que era o cigarro que estava te fumando. na religião. a filha pergunta inocente: “o que você está fazendo. ou ao mundo de forças alienantes. não é a causalidade de instâncias já existentes (como. Na teoria ator-rede trata-se de descrever a rede de relações. mas se estamos bem ou mal vinculados. no gosto. E o pai quebra no último quadro o ídolo. No último quadro vemos o pai extremamente aflito. no primeiro quadro. afirma Latour (2000-b). Temos sempre que optar entre liberdade e sociedade? Entre indivíduo e sociedade? Entre liberdade progressista e alienação reacionária? No cigarro. nas finanças. no aborto.

Podemos agora recolocar a questão dos bons ou maus vínculos: os vínculos serão bons quando o marionetista se entender com a marionete. Entretanto. O exemplo da marionete (Latour.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Temos que fugir à “escolha combinatória” entre ou acreditar na realidade ou no que é construído. Existe uma longa experiência do operador de marionetes e uma relação com um objeto fabricado que “supera” o seu projeto de fabricação. quando o cientista avançar no domínio nunca completo de seu objeto. Porém. obrigações.). 2000-b) é esclarecedor: a marionete “resiste” ao titereteiro. fora da antiga tentativa de definir a ação a partir do dilema da determinação versus liberdade. Não existe o sujeito e o objeto. a linguagem. deveres. O construtivismo é uma opção. tradições. leis. que não deixam de exercer sua função de atores. não antes (como pontos de chegada e não de partida. isto é. o ácido lático. R ONALD J ACQUES A RENDT movimento. ativos e presentes nestes objetos fabricados. XII • n . A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. ela nos faz fazer. sendo o ato de fumar um recurso do coletivo e o cigarro um objeto arriscado. a falta de domínio não significa falta de governo. etc. embora remontando no tempo e no espaço. um aprende com o outro é o mesmo na relação de um músico com seu instrumento ou do pesquisador – digamos Pasteur. Segundo esta abordagem. Ambos. O melhor governo é o que abre mão do domínio mantendo o que nos faz ser. Indivíduos e sociedades estão no final do processo. entretanto. estão. responde ele. os objetos nunca são objetivos ou neutros – eles trazem consigo o trabalho no tempo de todos os ausentes que participaram na produção daquele objeto. muito citado por Latour (1992) e sua relação enquanto químico com seu material de laboratório. limites.o 22 • p. como estabilizações da rede. diariamente encontramos inúmeros objetos cujos fabricantes ausentes. As coisas. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . construção não é construção social: a sociedade não constitui as instâncias da 61 INTERAÇÕES • V OL . Bruno Latour (2002-a) faz sistematicamente a pergunta: “A realidade é real ou construída? Ambos”. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . humano e não humano se modificam na relação. Por exemplo. o fermento. quando o pai de Mafalda entender que ele simplesmente fuma. sistema complexo de leis e determinações não nos domina. A realidade existe e existe o que é construído. uma defesa frente aos fundamentalismos que negam as entidades construídas e mediadas.

contrária ao fundamentalismo da “natureza” (fatos que emergem misteriosamente do nada). As ciências são entendidas como um processo nunca definitivo3. fragilidade. Passemos ao seu exame. efetuar constantemente denúncias críticas.o 22 • p. heterogeneidade. XII • n . mas agora que existe. Desde que esteja na rede de relações. geólogos. Fatos têm que ser compostos. Latour (2000-b) pondera que o objeto fabricado poderia ter falhado em vir a existir. etc. com o material que “resiste” ao homem e interfere (e tem uma história) nesta construção. heterogênea. A estabilidade da sociedade é explicada pela ciência e tecnologia e não o contrário.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . determinar aquilo de que são feitas as coisas. Não há uma construção apenas humana. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . não existiu sempre “por aí”. nesta criação. sua origem freqüentemente é humilde. partindo de um sujeito construtor. assunção de riscos. O construtivismo erige andaimes onde entram humanos e não humanos (o que deixa claro que não há domínio do não humano). segundo esta abordagem. multiplicidade. do poder. a noção de Rede. Os fatos científicos têm historicidade. proporciona ocasiões não previstas. Há a relação com o não humano. devendo ser mantido e protegido para continuar a existir. incerteza.b) Sobre a noção de rede Em sua crítica à modernidade das ciências sociais. as ciências sociais seriam as ciências que estudariam tais associações heterogêneas. Deste ponto de vista. maior ou menor solidez. que é um processo. de ingredientes relativamente sólidos e estáveis. Latour (2002-a) assume postura contrária à sociologia crítica. construído é parte de um processo. físicos. tem uma história. 2. Não é uma boa estratégia. nunca esteve ou estará sob o domínio do seu criador. como ontologia de geometria variável que passa ao largo dos dualismos que marcaram a modernidade. A noção de vínculo nos traz uma outra noção capital à Teoria. Latour (1994) sublinha a importância da noção de rede. Relações sociais não são mais sólidas do que aquelas construídas por cientistas “naturais” – químicos. mas sim efetuar a descrição das associações de muitas fontes diferentes. 62 INTERAÇÕES • V OL . ao ponto de servir para o seu batismo.REDE ? lei. Um objeto fabricado.

rede de televisão. da articulação entre elementos híbridos. 1999-a. Mas seria esta afirmação suficiente para alcançarmos o sentido da noção de rede tal como proposta por este autor? Teria Latour introduzido alguma idéia original no que diz respeito à noção de rede? No livro Jamais Fomos Modernos Latour (1994) apresenta a noção de rede para expor suas teses acerca da não modernidade de nossas práticas. presente nos trabalhos de Latour (1994. A noção de rede foi então apresentada por Latour (1994) como uma tese ontológica. duas questões devem ser discutidas: a primeira. não entendendo a palavra antropologia na sua referência ao antropos-homem. Latour (1994) afirma um enfoque antropológico das ciências e das técnicas. XII • n . antes mesmo deste avanço da Internet já falávamos em rede: redes ferroviárias. Jamais fomos modernos porque jamais nos encaixamos nas dicotomias que marcaram a modernidade. de vínculo. R ONALD J ACQUES A RENDT Neste ponto. No entanto. Mas é aquilo que nos faz passar ao largo destas dicotomias. qual é o sentido da noção de rede. Expressões que não são novas. Em todas estas expressões faz-se notar a noção de ligação. nos quais não conseguimos mais fazer operar as modernas práticas de purificação responsáveis por estabelecer as distinções entre o natural e o social. redes sociais. nem desconhecidas. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . 57-86 • JUL -DEZ 2006 . qual é a sua importância para a psicologia? Com o avanço da Internet a noção de rede ganhou enorme destaque e tem sido habitualmente relacionada a este contexto. oposta à dicotomia moderna. Vivemos num mundo povoado por objetos híbridos. Serres (s/d) e de Deleuze e Guattari (1995)4. tal como proposta na atualidade por Bruno Latour? E a segunda. híbridos sócio-técnicos. rede de esgoto.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . A noção de rede não é.o 22 • p. mas no estranhamento que comportam as pesquisas antropológicas 63 INTERAÇÕES • V OL . o objeto e o sujeito. Nem natural nem social. Ao tratar das ciências. somos como a soja transgênica. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. A noção de rede encontra ressonâncias filosóficas com o trabalho de M. A noção de rede. uma vez que delimitemos esta noção de rede. para Latour (1999). 2000-b) guarda algo desta idéia: a importância da conexão.

se inventam. Entretanto. o autor afirma que existem quatro pontos que não funcionam bem na teoria ator-rede: a palavra teoria. psicólogos. As reflexões que se seguem a esta autocrítica do autor são as mais interessantes para nós. de sua inventividade e engenhosidade. é imanente. Isto é. Esta idéia é oposta àquela 64 INTERAÇÕES • V OL . o seu alcance.o 22 • p. Em alguns textos posteriores ao Jamais Fomos Modernos. É o caso aqui de nos tornarmos outros. 1999-a). Retorno da potência do empírico. Se na perspectiva epistemológica o empírico não tinha o poder de questionar uma distinção conceitual. A metáfora digital popularizou este termo num sentido que para Latour (1999-a) é desastroso. a noção de rede. As ciências e as técnicas são investigadas no seu modo de construção. Curiosamente é no limite da noção de rede que podemos entrever todo o seu sentido e alcance. Porque no sentido presente. XII • n . ela é o plano onde serão construídas as distinções entre práticas científicas e práticas não-científicas. Latour (1999-a. É preciso acompanharmos concretamente o modo como elas se constroem. se produzem. 2002-c) sublinha uma profunda insatisfação com a noção de rede e é nesta autocrítica que podemos notar o sentido da noção de rede. a palavra ator. esta noção não é nova. por exemplo. tais distinções não são justificadas a partir de um método racional. concreto de suas investigações. mas a posteriori. Num destes trabalhos. Empírico não é sinônimo de indiferenciação. É justamente este sentido que Latour (1999-a) considera desastroso. a palavra rede e o hífen que liga o ator à rede (Latour. com a palavra antropologia é importante frisar o sentido empírico.REDE ? das outras civilizações. aqui o domínio racional é efeito de uma prática. a sua novidade. híbridos de natureza e cultura.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . algo que circula sem nenhuma transformação. tal como popularizada pela Internet implica uma idéia de circulação da informação sem transformação. Qual o problema com a palavra rede? Como dissemos acima. 2000-b. Neste sentido. A rede comporta diferenciações. a noção de rede está em consonância com a possibilidade de comunicação imediata e de acesso direto a qualquer informação. Além disso. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . na Internet. intrínseco ao plano no qual ele se constrói. na rede de sua prática. parece ser possível falar em informação. Elas não são a priori.

de outro lado. o autor afirma: não há in-formação. Se são bons eles serão capazes de mobilizar mais aliados e de se tornarem estáveis. Para Latour (1994). mas pelos efeitos do que ele faz. O que é um ator? Muitas vezes esta noção foi confundida com os tradicionais atores da sociologia. Se de um lado a noção de rede é interessante porque traz a idéia de movimento. A rede. ela é insuficiente porque não dá conta dos processos de fabricação. eles não mobilizarão outros aliados. Nos seus 65 INTERAÇÕES • V OL . 2002-c). Mas sim o que estes vínculos produzem. dos objetos. Isso porque. o par ator-rede foi muitas vezes tomado como o par indivíduo-sociedade. Então na noção de rede o que importa para Latour (2002-c) não é só a idéia de vínculo. Isso significa dizer que um ator não se define pelo que ele faz. A noção de rede não deve ser tomada como um contexto que se acrescenta a um indivíduo. no trabalho de fabricação e transformação presente nas redes. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. díspar. só trans-formação (Latour. Mas neste ponto chegamos a outro problema: a noção de ator. com o indivíduo como fonte e origem de uma ação. Em última instância. híbrido. E mais. que efeitos decorrem de tais alianças. Então o acento recai na ação. dos sujeitos. de circulação. Mas não é disso que se trata. O par ator-rede. dos processos de fabricação do mundo. Fabricação que se faz em rede. 2002-c). É importante sublinhar que o que está sendo frisado é a noção de ação. Se são maus. através de alianças entre atores humanos e não-humanos.o 22 • p. interessa investigar se estes vínculos são bons ou maus. Talvez pudéssemos tomar como caminho a sugestão do próprio autor e ao invés de falarmos em networks deveríamos falar em worknets (Latour. é marcada pela transformação. Isso significa afirmar que interessa ao pesquisador seguir o trabalho de fabricação dos fatos. isto é. de aliança. Em outro texto. é para Latour (1999-a) insuficiente para dar conta da ação que se distribui em rede. um ator é tudo o que tem agência. como um rizoma. 57-86 • JUL -DEZ 2006 .A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . XII • n . o ator não se confunde com o individuo. incluindo o hífen. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . ação de fabricação. das ações que se estabelecem entre atores heterogêneos. ele é heterogêneo. ele se define pelos efeitos de suas ações. R ONALD J ACQUES A RENDT que a teoria ator-rede pretendia frisar com a noção de rede.

57-86 • J UL-DEZ 2006 .REDE ? últimos textos Latour (2002-a. Não basta apontar com o dedo indicador as alianças. Fabricação interessante. 2002-b. 1994).o 22 • p.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Não há um agente primordial. O próprio Latour (1992) apresentou algumas vezes trabalhos que seguiam a produção dos fatos científicos. e um aluno envolvido com a redação de sua tese de doutorado. Neste aspecto é importante 66 INTERAÇÕES • V OL . os efeitos. um caminho para seguir a construção e fabricação dos fatos. Não basta dizer: veja ali. acompanhavam as muitas conexões que acabavam por estabelecer distinções entre fatos validados e fatos descartados. XII • n . os muitos deslocamentos que ela produz. Os conceitos de rede. bem ali. Será então que devemos considerar a teoria ator-rede como um quadro de referência. como uma teoria que podemos aplicar a muitos domínios. Seus trabalhos sobre Pasteur (1992). há alianças! Então estamos falando de rede! De modo nenhum. em outras palavras. O que eu faço com a teoria ator-rede? A teoria ator-rede não é uma teoria cujos princípios estejam dados de antemão. inclusive à psicologia? Recentemente Latour (2002-c) publicou um texto escrito na forma de um diálogo entre um professor. aliança e vínculos são conceitos talhados como ferramentas especiais para pensar a ciência. que é ele mesmo. sobre a fabricação do hormônio do crescimento são a este respeito instrutivos (2000-a). O que está em questão não é a aplicação de um quadro de referência no qual podemos inserir os fatos e suas conexões. Trata-se antes de um método. de ação. algumas pistas. Então há uma ação recíproca e o que importa é acompanhar os efeitos desta ação. O que importa é seguir a produção de diferenças. das crenças. os rastros deixados pelos atores. a rede é sinônimo de fabricação. central do qual emana a fabricação do mundo. sobre a polêmica entre Boyle e Hobbes (Latour. O aluno pergunta: então para que serve a teoria ator-rede? Eu tenho que escrever uma tese e o meu orientador quer que eu apresente um quadro de referência para o meu objeto de investigação. porque deve ser considerada como um processo distribuído entre todos os atores. dos mitos.2002-c) chama a atenção para este aspecto: o que interessa ao pesquisador é acompanhar a construção dos fatos. há conexões. São instigantes as inquietações do aluno e o professor vai sugerindo alguns caminhos.

Sem a circulação e mobilização de todos estes circuitos não é possível entender a perseveração de um trabalho científico. mas por todo o seu conjunto. vai acabar concebendo o conhecimento científico. ou recrutamento do interesse de grupos não científicos. como um conjunto de conceitos (internalismo). como militares. na 67 INTERAÇÕES • V OL . e 5) Os Vínculos e Nós. capazes de serem convencidos ou entrarem em controvérsia. sustentada pelos historiadores da ciência no debate entre internalismo X externalismo. antes de destacar a singularidade da própria psicologia. o seu vasto e denso sistema de redes e capilaridades. que dizem respeito ao coração conceitual. E por que o trabalho científico é comparado ao Sistema Circulatório? É porque não faz o menor sentido se perguntar apenas pelo “coração da ciência”. sem entender a especificidade das ciências (externalismo). Tentando superar os limites entre os internalistas e externalistas (e entre ciência e sociedade) é que Latour (2001) irá propor o Sistema Circulatório. 3) Alianças. ora como produzido a par de sua rede social. ou conjunto de mediações aptas a fazer circular os não-humanos através do discurso (instrumentos. ora como fenômeno coletivo. O fluxo sangüíneo da ciência: um exemplo da inteligência científica de Joliot5. como: 1) Mobilização do mundo. ou a delimitação de um campo de especialistas em torno de uma disciplina. nas ciências não devemos nos bastar apenas na sua rede conceitual ou no contexto social. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . Da mesma maneira que em nosso sistema circulatório não faz sentido nos perguntarmos se em essência ele é coração ou veias e artérias. 4) Representação Pública. presente na coletânea A Esperança de Pandora (2001). R ONALD J ACQUES A RENDT que destaquemos a singularidade das redes científicas. composto por uma série de circuitos. condensado em um modelo isomórfico ao Sistema Circulatório. 2.o 22 • p. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . como de Frédéric Joliot. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Esta antiga querela. Latour apresenta uma visão sintética do fazer científico. que amarra todos os demais circuitos. ou o conjunto de efeitos produzidos em torno do cotidiano dos indivíduos. 2) Autonomização.c) As redes científicas e a modernidade Em um texto. XII • n . questionários e expedições). levantamentos. governamentais e industriais.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS .

Apesar de Boyle ter produzido escritos políticos. passam a possuir primazia ontológica. XII • n . o que ressalta no trabalho de Latour (1994) não é apenas a descrição desta irrealizável constituição moderna. a parceria de especialistas. além da opinião pública. Mas. sendo representados nos laboratórios. Apesar da discussão de Hobbes sobre o vácuo. e o interesse do governo. Contudo. em que todos os cidadãos estariam representados pelo rei. Se a ciência opera através destes sistemas circulatórios múltiplos condizentes ao modelo de rede. Estes não são 68 INTERAÇÕES • V OL . 57-86 • J UL-DEZ 2006 . mas a constituição de laboratórios. Hobbes por outro lado. os experimentos laboratoriais. tentou negar a existência do vácuo apelando para uma teoria dedutiva geral que servisse para unificar o reino inglês esfacelado em guerras civis. Para a montagem desta bomba é necessária não apenas uma rede de conceitos científicos. Segundo Latour (1994). sua principal herança foi a sua filosofia política sobre o Estado. mas a revaloração do que escapava a esta segregação clara e distinta: começa-se a descortinar todo um império do centro.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Os entes humanos tornaram-se a partir de então assunto da política. O primeiro sustentou a existência do vácuo apelando para uma nova forma de testemunho. mais poderoso que o de cidadãos dignos. a modernidade produziria como efeito colateral desta tentativa de divisão e purificação a proliferação dos híbridos. enquanto que os seres naturais passaram a ser tema das ciências. povoado de híbridos. seres com marcas ao mesmo tempo humanas e naturais. de acidentais na sua indefinição. a partir da tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. perseverou entre nós apenas a sua contribuição científica e a invenção dos laboratórios como os nichos da verdade dos entes naturais. seres mestiços.REDE ? tentativa de montagem de uma bomba de nêutrons. tendo a sua representação nos parlamentos.o 22 • p. da indústria e dos militares. o marco histórico desta clivagem pode ser encontrado na discussão sobre o vácuo que opôs Boyle e Hobbes. qual é o problema que se configura na nossa modernidade? A tese de Latour (1994) é que a modernidade se marca na constituição de uma “ontologia impossível” produzida no século XVII. que. cujas verdades calariam as vozes dissonantes.

“O moderno culto dos deuses fe(i)tiches” (2002-b). se no plano objetivo.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . XII • n . o trabalho de dar conta do que a epistemologia excluiu criticamente dos nossos seres objetivos. transcendentes para permanecer vinculado ao mundo em sua imanência. R ONALD J ACQUES A RENDT mais compreendidos como o produto da indevida mistura de entes puros e bem compartimentados desde o princípio. a psicologia tem papel de coadjuvante. mas “produzem-no artificialmente” (Latour. um problema inicial se impõe: no conjunto de trabalhos assinados por Latour. o misticismo) não realizam a revelação de um eu oculto. Este esforço estaria calçado na suposição de que a psicologia. domínio da psicologia. que se efetivariam por debaixo de nossas dicotomias e buscas de purificação modernas. a ser purificado. cabe uma abordagem crítica. Este seria o resultado das nossas práticas. 3) Despsicologização: a teoria ator-rede contra a psicologia. o trabalho reflexivo ganha uma faceta bastante pragmática. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Sendo assim. estas passam a ser delegadas a um plano subjetivo de interioridade. Perante esta forma da psicologia atuar. as noções de rede e de vínculo são essenciais. Como resultado se tem a renuncia às dimensões “meta”. É nesse sentido que recorrer as práticas representa uma alternativa ao acordo moderno. bem como outras agências milenares (a religião.o 22 • p. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . dos fe(i)tiches no plano subjetivo. que alternativa poderia ser concebida com relação a esta ferramenta moderna? O antídoto poderia ser buscado em um esforço de despsicologização cujo trabalho do etnopsiquiatra Thobie Nathan seria o melhor exemplo (Latour. A psicologia nada mais faria do que o “serviço sujo”. sendo não muitas as suas referências6. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Posto que. 1998-a). 2002b). operando como uma bomba de sucção dos seres híbridos. no qual Latour sustenta que a psicologia operaria de modo simétrico ao da epistemologia. Um bom exemplo pode ser encontrado no texto. Neste diálogo que desejamos estabelecer entre a Teoria Ator-Rede e a psicologia. Em todas elas. como se a psicologia fosse um mero produto da clivagem moderna. mas a linha mestra de uma rede ontológica de onde se purificam os entes extremos e secundários. a epistemologia busca os fatos objetivos a par das nossas crenças. pois é recorrendo 69 INTERAÇÕES • V OL . Nesta ontologia.

57-86 • J UL-DEZ 2006 . é que elas constroem a verdade. [2] além de ser um campo de pesquisa. [6] toda terapia é ação da matéria sobre o ser. que tem como corolários a necessidade imperativa de considerar tudo e por conseguinte interditar uma leitura etnocêntrica. ele é o elemento do mundo sensível. abrir mão do processo moderno de purificação e acolher os “atachements” operados pelos entes humanos na sua produção de possíveis eus. Disso derivam dois corolários: o dispositivo terapêutico é o lugar de produção e reprodução do pensamento filosófico abstrato e os atos e procedimentos do terapeuta são a forma de colocar em cena a teoria encarnada. pois. [8]. portanto a principal função do objeto é demonstrar o pensamento teórico dos terapeutas. XII • n . em sua malha de relações. Passemos às proposições. escrito em 2001. não linearidade. 2001. T. [5]: A psicoterapia é um caso particular de um conjunto de práticas destinadas a modificar as pessoas através de um procedimento técnico. A primeira proposição [1] é conceber a psicoterapia como manejo técnico da influência. “As psicoterapias se definem. na busca da “revelação de um sujeito recalcitrante”. Portanto. Cabe ressaltar a definição de objeto dada por Tobie Nathan. Despsicologizar é. 121). [7] a psicoterapia constrói a verdade em referência aos objetos.REDE ? incessantemente às práticas que se torna possível acompanhar as trajetórias dos actantes. Sinteticamente poderia ser dito que ele discute a relação entre a coisa e o objeto e como são estes os elementos em jogo no processo terapêutico. Assim.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Para entender como o trabalho etnopsiquiátrico de Thobie Nathan opera esta intervenção despsicologizante é necessário destacar uma série de proposições presentes no seu livro Nous ne sommes pas seules au monde. p.” (Nathan. Enquanto a coisa é aquele ser que 70 INTERAÇÕES • V OL . pelos objetos que elas não utilizam e pela referência à esses mesmos objetos ausentes.o 22 • p. [4] a técnica terapêutica é um campo de experimentação natural. Sendo assim.. feito de matéria e cuja existência não deve nada à percepção ou à imaginação de qualquer sujeito. Isso significa conceber a prática terapêutica em sua complexidade. [3] Como motor principal dessa influência está o pensamento do terapeuta. por consequência.

a possibilidade de fabricação. Não podemos esquecer que o contexto no qual ele trabalha é o do universo de imigrantes da cidade de Paris.” (Nathan. Para Tobie Nathan (2001) a eficácia da psicologia não está em revelar os mecanismos da subjetividade. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. [12] o objeto oferece uma dupla garantia: ele obriga o terapeuta a apostar na inteligência do paciente. desse vínculo. considerando tanto suas perdas quanto seus ganhos. seguem os relatos de duas consultas etnopsiquiátricas que a psicóloga Alexandra Cleopatre Tsallis teve a oportunidade de acompanhar no Centre George Devereux em Paris 8 7. T. dirigidas por uma equipe bastante multidisciplinar..12). Dessa forma. [11] nos dispositivos terapêuticos os objetos têm a principal função de permitir que a teoria especulativa se desenvolva. o autor conclui “As coisas têm uma alma ou ao menos uma intencionalidade. Finalmente. os objetos funcionam como os intermediários possíveis no estabelecimento dessa relação. 147). ao que Tobie Nathan acrescenta o “Parlamento dos Deuses” (p. portanto [10] o trabalho de terapia consiste em se aprofundar no conhecimento da coisa em sua relação com os objetos.o 22 • p. a diversidade de versões trazidas pelos pacientes e a possibilidade de acolhida por parte de uma instituição francesa significam grande parte da relação terapêutica.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . A proposição [9] se refere a mudança no processo terapêutico e como ela opera ao longo da linha de um devir. XII • n . M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . assim como ele permite ao paciente situar com precisão a teoria de seu terapeuta. 2001. O termo intermediário se refere a passagem. p. Como exemplo destas proposiçoes. Sendo assim. 71 INTERAÇÕES • V OL . [14] e que a consulta etnopsiquiátrica precisa instituir o “Parlamento das coisas”. Assim sendo. Como últimas proposições estão que [13] a cada momento o terapeuta “joga” a totalidade do devir metamorfoseado que ele propõe. mas em fabricá-los a cada instante. Afinal. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . R ONALD J ACQUES A RENDT captura quem se aproxima dos produtos de uma fabricação. É a partir desse contexto que emergem essas proposições e a própria discussão sobre a importância dos objetos. Trata-se de um sistema extremamente fluido onde a idéia de criador e criatura se misturam circulando da construção à vivacidade ininterruptamente.

um médico. foi a pessoa que o indicou ao centro etnopsiquiátrico de Paris 8. era fácil perceber como ia se estabelecendo a confiabilidade entre os dois. Entre os 10 “terapeutas” estavam um coordenador (psicólogo). A partir daí. estavam todos sentados em uma ampla sala. indígena. enquanto o coordenador fazia comentários jocosos sobre cada um se dirigindo ao paciente.REDE ? 3. Uma delas é amiga do paciente e tem testemunhado todo seu processo e a outra.a) Consulta etnopsiquiátrica Iniciaremos esta descrição pela conclusão do primeiro encontro entre a equipe do Centre George Devereux e o paciente: no encontro seguinte o coordenador explicaria ao cliente como fazer para “vigiar a mão de seu pai e o pé de sua mãe. uma psicóloga italiana e uma psicóloga brasileira. ou algo parecido. poderia dizer que eram dez “terapeutas” e três “clientes”. O coordenador e um outro psicólogo bebiam uísque. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . a segunda é mais difícil. A primeira parte é fácil. sempre com vários cigarros acesos. decorada com vários objetos de origem africana.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . 72 INTERAÇÕES • V OL . o paciente começou a contar o motivo de estar vindo ao centro. uma etnóloga e alguns psicólogos. XII • n . em especial uma psicóloga turca – que muitas vezes se dirigia em turco ao paciente – além de uma psicóloga judia. O paciente contou sua vida e uma série de acontecimentos estranhos: acidentes de carro sempre nos momentos em que se sentia apaixonado. uma psicóloga especialista em mortes. A consulta se iniciou com a apresentação de cada um ao paciente. uma psiquiatra. O clima de um modo geral era descontraído. acompanhado de duas mulheres. Assim. o paciente estava sentado ao seu lado. um turco vítima de bruxaria (modo pelo qual foi apresentado à equipe pela psicóloga que o entrevistou pelo telefone). o coordenador o interrompeu algumas vezes com comentários que demonstravam seu conhecimento sobre a cultura e práticas turcas.o 22 • p. No total. No centro do círculo estava uma pequena mesa onde eram servidos cafezinhos e permaneciam os cinzeiros. à medida que foi passando o tempo. embora praticamente não o conhecesse.” Na consulta estava presente o paciente. enquanto os outros pareciam estar dispostos sem nenhuma lógica explícita.

Foi interessante perceber como as próprias perguntas revelavam o acordo modernista (Latour. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . Em especial sua irmã lhe contou que seus pais. quando ele foi embora de casa para viver com sua primeira esposa. Neste momento em especial. O coordenador convocou todos os presentes a falarem algo. sobre objetos estranhos que encontrou em sua casa.” A consulta encerrou-se quando o coordenador disse ao paciente. esse foi um outro momento em que o coordenador revelou entender do que se tratava essa atitude. contudo naquele momento sua vida tanto profissional quanto amorosa estava bastante confusa o que lhe fazia pensar sobre algum tipo de bruxaria relacionada aos objetos estranhos que encontrou em sua casa. em um clima instigante. a busca pela realidade dos fatos para finalmente perguntar sobre a possibilidade de uma mistura. uma psicóloga perguntou ao paciente o que ele procurava lá. o coordenador se antecipou em descrever o objeto que ele teria encontrado. que talvez nessa noite ele tivesse um sonho.o 22 • p. R ONALD J ACQUES A RENDT falou sobre seus três casamentos e consecutivos divórcios. seguida da conclusão de vigiar a mão do pai e o pé da mãe. no qual era possível que ele próprio aparecesse. enquanto segurava seu braço em um gesto de intimidade. XII • n . falou sobre diversos encontros com pessoas que estavam realmente surpresas por ele estar vivo. alguns se manifestaram. O paciente é um músico de bastante talento e reconhecido como pianista e compositor clássico. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Ele terminou seu relato lançando três perguntas: Estou louco e tudo isso é psicológico? Ou se trata de bruxaria e é verdade? Ou um misto dos dois: as coisas existem e eu estou mal com isso? Um grande silêncio imperou na sala. o que muito surpreendeu o paciente. Finalmente. Além disso. mas o que nos saltou aos olhos foi a frase dele “Je suis pas un intelectuel. fizeram uma bruxaria para ele. Eles teriam amarrado duas colheres de ponta-cabeça. Logo antes dessas colocações acima.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . 1991): a verdade por um lado. disse ao 73 INTERAÇÕES • V OL . inclusive. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. je suis un practicien”. ao que ele respondeu dizendo: “procuro ser escutado e suponho que ao ser escutado estarei sendo compreendido e descobrirei o que fazer. o psicológico por outro.

além daquela seqüência nterminável de intervenções com a finalidade de impressionar o paciente. finalmente estavamos embaraçados nesse emaranhado supondo que a saída seria desfazer os nós. Acreditamos ser nesse sentido que Bruno Latour (2002-b) propõe que o binômio faz-fazer seja simétrico.REDE ? paciente que era importante que ele guardasse o sonho com atenção para o próximo encontro. com um sentimento ambíguo que nos fazia perguntar qual era o sentido de tudo aquilo. ao invés de seguir por eles. desvencilhar os elementos da rede. mas imaginávamos que talvez estivéssemos olhando para o lugar errado. Não percebíamos autenticidade no trabalho. XII • n . No livro Ces émotions que nous fabriquent a autora destaca que a autenticidade é aquilo que remete à fabricação das emoções e não o que vem des-cobrir emoções que lá estavam. onde os humanos projetariam e/ou representariam aquilo que está em sua mente. que lhe daria não só a possibilidade de habitar o mundo como de produzir efeitos. Saimos dessa consulta extremamente mal impressionados. Não conseguíamos naquele momento vislumbrar o que tanto impressionava Bruno Latour naquela prática (Latour. Contudo. esperando para serem reveladas. Resumidamente poder-se-ia dizer que a meta da denúncia crítica é tentar reduzir os objetos ao domínio da passividade. Em outras palavras. tentavamos purificar o ambiente. Assim sendo. os nãohumanos possuem recalcitrância. Portanto. a crença. Do mesmo modo. vale ressaltar uma valiosa contribuição de Vincienne Despret (1999) para sair desse emaranhado. ele seria pensado como um fe(i)tiche. singularidade. entendida como mera denúncia da fragilidade da fabricação dos fetiches. perde de vista a possibilidade que esses têm de habitação no mundo. tentávamos avaliar criticamente aquelas intervenções segundo o modo como entendíamos uma prática terapêutica. valha tanto para humanos quanto para não-humanos. capítulo 8). 74 INTERAÇÕES • V OL . 2002b. mais que um fetiche ser reduzido a categoria de objeto. para o quê era importante olhar. essa mistura de fato e construção.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . 57-86 • J UL-DEZ 2006 . isto é.o 22 • p.

começamos a vislumbrar um uso mais potente do arsenal teórico-prático da teoria ator-rede em sua ligação com a psicologia – a possibilidade não apenas de propor uma psicologia distinta desta que tem se submetido ao decálogo moderno. convocou cada um dos presentes para tecer aqueles sonhos. o coordenador não começou a dar antídotos para a bruxaria. O que sustenta esta dispersão psicológica sob um mesmo nome? Deve-se ressaltar que não se tratam 75 INTERAÇÕES • V OL . Aqui. pequenas teorias e práticas dispersas do que do mapa geopolítico de uma nação-continente unificada por um projeto comum. o paciente. da sua produção de efeitos na rede. mas muito pelo contrário. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Muito pelo contrário. destacamos que a possibilidade de vislumbrar essa prática “despsicológica” anuncia qual seria um possível caminho para acompanhar os actantes sem precisar renunciar à singularidade. XII • n . escolas. de uma confederação sem centro de sistemas. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. visualizaremos na próxima seção algumas características do saber psicológico atual e suas condições de possibilidade modernas.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Era ele que escolhia que fios trançar. ampliar aquela história de modo que a cada instante o rumo e o destino pudessem ser alterados respeitando aquele que verdadeiramente coordenava. de seus pontos de vista. ou seja.o 22 • p. mas também alçar o próprio entendimento dos efeitos que a submissão a este decálogo proporcionou em nossa psicologia moderna. Ao contrário de nossas expectativas. Estamos mais próximos da cartografia de um arquipélago. ela se desvelaria em suas inusitadas facetas enquanto permanecemos inscritos no coletivo. que nós desamarrar. como conduzir todas aquelas pessoas debruçadas sobre sua vida revelando os limites de seus olhares. Esse coletivo habitado por humanos e não-humanos que delimita suas fronteiras através dos bons e maus vínculos. R ONALD J ACQUES A RENDT No segundo encontro o paciente trouxe três sonhos para serem trabalhados. Para tal. 4) A psicologia como saber mestiço: o cruzamento múltiplo entre práticas sociais e conceitos científicos O que pode instigar um possível encontro do trabalho de Bruno Latour com a psicologia é a curiosa configuração topológica deste saber. Por fim.

da coabitação nesta de projetos antagônicos. e em franca tensão com os demais. centrada na discussão sobre a cientificidade da psicologia. e 2) a determinação das “condições de possibilidade” deste conhecimento. mas da própria definição do que é psicologia. o lugar e o caráter paradoxal das psicologias.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Pode-se compreender a partir deste duplo esquema o surgimento. O problema é que no campo psicológico. ou entes subjetivos e objetivos (Latour. cada estado pudesse se dar a sua própria representação de uma nação. Alianças. as técnicas de mobilização forjadas não circulam de forma livre em sua extensão. XII • n . elas 76 INTERAÇÕES • V OL . ao juntarem o que a modernidade separou.REDE ? aqui de divergências teóricas e metodológicas pontuais no interior de um mesmo projeto (como a discussão física sobre a natureza da luz. utilizamos a perspectiva da teoria ator-rede não apenas para demarcar a especificidade do saber psicológico em contraste com os demais. bem como as suas condições de possibilidade históricas. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . Mesmo quando se verifica que estas técnicas de inscrição são em geral capturadas de outras ciências como física.o 22 • p. Representações Públicas e Vínculos? Quanto à Mobilização do Mundo deve-se dizer que as técnicas de inscrição deste saber produziriam (ou extorquiriam) testemunhos não mais de objetos. O que conduz a psicologia a esta curiosa configuração no campo dos saberes? Recusando uma abordagem epistemológica. 1994). Autonomização. mas de sujeitos. notadamente no seu projeto de cisão entre dois entes purificados: Ser Humano e Natureza. é como se numa federação. especificado em seu modelo circulatório (Latour 2001). química ou biologia8. O que justificaria a presença deste enfoque teórico-prático na compreensão da diversidade das psicologias? Justamente por tratar de dois temas relevantes para a resposta das questões propostas inicialmente: 1) a definição das condições necessárias ao conhecimento científico. desconsiderando qualquer controle político central. e fazendo o conhecimento circular por vias muito diferentes das demais ciências. Como as psicologias circulariam nos Sistemas Circulatórios Científicos compostos de Mobilização do Mundo. Retomando uma metáfora geopolítica. contidas no projeto de uma modernidade impossível. se esta é onda ou partícula).

1989). a psicologia é só 77 INTERAÇÕES • V OL . No que tange a Autonomização. Quanto às alianças. XII • n . estas tem sido ambíguas. governamental e mesmo militar. Mas estas alianças operadas ignoram a complexidade e pluralidade do nosso campo. mesmo guardadas algumas desconfianças. hoje ele preenche outras funções. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . R ONALD J ACQUES A RENDT trafegam apenas no campo de uma determinada orientação onde ela pode ser forjada. nós temos entre os psicólogos algo que Canguilhem (1973) designa como um consenso mais pacífico do que lógico. podemos dizer também que nossas fronteiras são bastante porosas. Nossas relações.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Neste ponto é que podemos dizer que as psicologias produzem imóveis (pois só circulam no interior de certas orientações) mutáveis (transformando e fabricando a experiência dos sujeitos). Não seriam o que Latour designa como móveis imutáveis (1985). como veremos mais adiante graças a sua relação com o público. mais do que produzir testemunhos isentos de sujeitos. Se a ciência para Latour (2002-a) é construtivista e realista. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . pedagogia. mas imóveis imutáveis. Para se ter isto em conta. às vezes são mais sólidas com o espaço externo do que interno. como o campo da saúde. mantendo alguma fé em nosso suposto saber sobre a natureza humana. criando vários espaços indiferenciados ou zonas neutras.o 22 • p. abrindo-se nas mais diversas direções: psiquiatria. Se inicialmente este interesse se centrava no campo da seleção para uma determinada aptidão ou perícia. elas extorquem testemunhos (Stengers. administração e neurociências. pois se é registrável um interesse cada vez maior do setor privado. basta se tomar certas orientações psicológicas com maior poder de difusão como a Psicanálise. É aqui que podemos reconhecer a grande força das psicologias. não conseguimos nos relacionar conosco ou com os demais sem categorias como as de Inconsciente ou Complexo de Édipo. Além da nossa geopolítica fragmentada. mais fabricam do que revelam nossos eus. pois. ou imóveis mutáveis. dado o conjunto de orientações e projetos presentes em nosso campo. Fé que é muito mais ampla no campo das Representações Públicas. este interesse não é comparável ao depositado nos demais setores científicos.

A hipótese aqui adotada é que a psicologia é produto da “impossível modernidade” constituída no século XVII na tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. do que é posto entre parênteses no ato científico: a ação.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Como a psicologia se configura neste projeto moderno? Como visto.REDE ? construtiva. podemos dizer que a Psicologia é composta por vários sistemas circulatórios. graças ao seu poder de enunciar as nossas mais íntimas verdades. O problema. Mesmo com o surgimento de novas escolas. a tarefa da psicologia seria a de fornecer uma desculpa do espírito perante a razão. O que produz esta curiosa configuração? Aqui entramos no terreno da História da Psicologia para buscar as fontes desta pluralidade. buscando a verdade de nossos erros. a tarefa inicial da psicologia no século XIX seria a de se tornar uma ciência objetiva dos erros da nossa subjetividade. a psicologia mantém o seu afã hibridizante. com novas questões. Tudo isto proporciona que a Psicologia seja composta de uma série de nós e vínculos conceituais parciais sem um nó maior que a amarre. p. os desejos humanos (a sua interioridade). tal como descrita em Jamais fomos Modernos (1994). 57-86 • J UL-DEZ 2006 . Latour (2002-b) sustenta que a psicologia operaria como uma bomba de sucção dos seres híbridos no plano subjetivo. Portanto. das nossas subjetividades. é que a psicologia deseja fazer ciência daquilo que escapa à própria ciência. relegando a meras crenças tudo aquilo que viria a escapar a uma existência objetiva. Promove-se uma nova mistura do que havia sido bem 78 INTERAÇÕES • V OL . Nas palavras de Canguilhem (1973. somente com o tecido da rede social e a rede das demais práticas científicas. no caso. Este nó é frouxo até mesmo na definição do que vem a ser a psicologia (ciência das condutas? dos fenômenos mentais? da experiência? do inconsciente?). fornecendo assim um sentido para as nossas vidas. bem colocado por Gréco (1970). De fato. 119). Mesmo em nome de uma verdade triunfante. XII • n . nada mais híbrido. bordando e moldando a nossa subjetividade de acordo com algumas orientações. mas que não se comunicam entre si.o 22 • p. as representações.

o 22 • p. Psicologia se torna uma palavra inconciliável. Trocando em miúdos. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . na psicanálise. coroado pela compreensão do homem como um ser naturalmente inteligente e compreensivo do mundo que está a sua volta. É assim que no gestaltismo o exame da experiência ingênua (visando o controle dos erros) culmina no equilíbrio das formas. a psicologia é um espaço forte de mestiçagem. marcado pela impossibilidade de equilíbrio energético dentro do ciclo pulsional. em que para haver logos. ou as nossas representações mentais equivocadas. XII • n . e se ampliado ao ponto de que cada um dos domínios segregados lance suas redes na direção do seu oposto. trata-se da ampliação do domínio científico na direção daquilo de que ele havia se segregado (as qualidades secundárias. as práticas de confissão e o esforço de desvelar as fontes dos nossos desejos e de nossas mais íntimas verdades. A psicologia seria exemplar enquanto efeito colateral inesperado pelos paladinos dos entes puros em expansão: o encontro nesta região central de miscigenação plural. reificando certas práticas sociais. as crenças e a nossa interioridade). onde os híbridos se multiplicam ao infinito. 79 INTERAÇÕES • V OL . Contudo. R ONALD J ACQUES A RENDT segregado na modernidade: objetiva-se (naturaliza-se) o sujeito e subjetiviza-se o objeto científico. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. é necessário se excluir a psiqué. e para se considerar esta. Mas e a representação laboratorial e natural dos seres humanos operada pela psicologia? No caso da psicologia. Latour ao longo de sua obra toma como exemplos privilegiados de hibridação a representação social dos seres naturais nos dias de hoje: partidos verdes.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . a tentativa de disciplina das atividades humanas na educação e no trabalho. ao mesmo tempo em que a política e a administração passam a buscar substratos científicos na sua disseminação. nos leva a uma visão do homem como um ser desejante. no behaviorismo. onde operadores científicos das ciências naturais se fundem a conceitos antropológicos. conduz à força dos condicionamentos e ao entendimento do homem como um ser maleável na sua relação com o ambiente. é impossível a mediação do logos. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . esta hibridação nada tem a ver com o monismo mestiço dos pré-modernos. concílios sobre o clima e o meio ambiente. para que esta nova mistura ocorra é necessário que a busca de purificação moderna tenha se processado.

contrária à sua vontade. pulsões e operantes. uma função de ligação e mistura digna do deus Hermes. Por que não efetivar este efeito colateral concreto em norma. e por conseguinte o surgimento de mais e mais híbridos. “fe(i)tiches (faitiches) tecnosubjetivos” (2002-b). mas na sua seqüência uma subjetividade cindida entre um domínio empírico e outro transcendental. Além de determinar uma norma e uma determinação natural para a nossa liberdade.REDE ? Deve-se dizer que este efeito hibridizante é contrário às intenções puristas também dos diversos fundadores da psicologia. a psicologia talvez nada produza de novo. sensações. recusando a norma ideal de purificação impossível (trata-se de um importante catalizador de hibridações). para os críticos sociais. capítulo III) mais um fetiche produzido pela crítica moderna. a 80 INTERAÇÕES • V OL . o da nossa autonomia enquanto atores humanos livres e o da nossa determinação a partir de constrangimentos naturais. Gestando sujeitos. constituindo os fundamentos empíricotranscendentais de nossas subjetividades. subjetividades e verdades interiores. É neste sentido que se pode dizer que na psicologia não se hibridiza apenas homem e natureza. Críticas que por sua vez instigam novas tentativas de fundações purificadoras.o 22 • p. Poderíamos ver aqui conforme Latour (2002-b. Daí também decorre o fato da psicologia ser constantemente atacada pelos críticos puristas. Estes conceitos e operadores naturais forneceriam um transcendental a partir do qual gravitaria a nossa experiência: boas formas. e que se radicaliza a cada nova refundação e tentativa de purificação por parte deste saber. má política e por demais naturalista. indivíduos e interioridades. estrangeiros para além das fronteiras dessa região central: para os epistemólogos. Para que esta representação natural dos seres humanos? Qual seria o papel desses operadores das ciências naturais nesta “intrusão” no domínio humano? Esta mistura com as práticas sociais e conceitos antropológicos serviria. ela seria demasiado política e plural. invariantes funcionais. antes de tudo na produção de individualidades. XII • n . módulos informacionais. Nestes termos. tomando-se a interdisciplinaridade. nas palavras de Latour: “eus fabricados artificialmente” (1998-b). mas possui.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . 57-86 • J UL-DEZ 2006 . e uma forma de individualização autonomizante e outra controladora.

A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . não já lá. não no início. para que o leitor acompanhe o argumento de Latour. nem pré-moderna. Se é necessário rejeitar as ciências naturais quando estas fazem uso desta dicotomia. O que manipula os atores é desconhecido 81 INTERAÇÕES • V OL .. Aqui a necessidade imperativa de uma pragmática forte que dê conta da fabricação de sujeitos híbridos. é preciso rejeitar mais vigorosamente ainda as ciências sociais quando elas a aplicam ao coletivo concebido como sociedade. Ele inicia questionando o saber moderno do cientista social. nem mesmo pós-moderna (que nada mais seria que o sentimento de desencanto e impossibilidade mediante o fracasso moderno). Como a natureza. tão intensamente vividas quanto mentirosas. guardemo-nos de utilizar a sociedade para explicar o comportamento dos atores. os sociólogos menos ainda. antropologia. compor progressivamente o mundo comum. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. numa seqüência primorosa. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . e pela mesma razão. mas nas palavras de Latour: simplesmente a-moderna na sua prática. Colocaremos a citação na íntegra. sociologia. proprietário exclusivo de um saber que só ele domina. têm um papel muito mais útil que aquele de definir. equivale a utilizar o mesmo mecanismo da Caverna utilizado para a metafísica da natureza: existiriam qualidades primeiras – a sociedade e suas relações de força – que formariam a disposição essencial do mundo social. as forças que os manipulam sem o seu conhecimento. XII • n . geografia.a.o 22 • p. antropofagia e a hibridação como signos fortes para este saber? A psicologia não seria nem moderna. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . que cobririam com seu manto tais forças invisíveis que não poderíamos ver sem desanimar. a sugestão é que cada ciência social investigue os vínculos característicos de sua disciplina: “Afirmar que sob as relações legítimas existem forças invisíveis aos atores que não poderiam ser discernidas senão pelos especialistas das ciências sociais. e qualidades segundas.. economia. R ONALD J ACQUES A RENDT mestiçagem. Se é preciso. não toda feita. com as ciências naturais. no lugar dos atores e freqüentemente contra eles. 6) Conclusão Como a psicologia poderia entrar neste contexto de análise? Na conclusão de um volume dedicado a investigar o que seria na contemporaneidade a ecologia política (Latour. As ciências sociais. algumas idéias aqui descritas na seção 2. história. 1999-b). Os atores não sabem o que eles fazem. a sociedade se encontra no fim da experimentação coletiva. o autor sintetiza. . Contra a proposta de domínio.

para pensar o coletivo. em nosso lugar. de produção. 1999-b.REDE ? de todos. de ação.). Então uma psicologia social não é aquela que lida com o homem em sociedade. tornar-se outra vez mestre de si. aos não humanos? Como nos situamos na rede? O indivíduo é um nó da rede que interfere e sofre sua pressão? Qual a participação da psicologia nos coletivos em construção? São perguntas que deixamos em aberto ao leitor – ou que constituirão temas para outros artigos. mas os processos através dos quais são construídos os fatos. para investigar sobre o que nos vincula. Esta tese nos faz pensar no social não em termos de relações entre homens. trata-se de incluir os vínculos entre humanos e não-humanos e mais do que isso trata-se de perguntar pelos efeitos que tais vínculos produzem. Mas. imaginese o que cidadãos comuns poderiam se tornar se eles se beneficiassem. podemos contar com as ciências sociais (friso nosso) oferecendo aos atores versões múltiplas e rapidamente revisadas que nos permitam compreender a experiência coletiva na qual estamos todos envolvidos. guardado o traço das singularidades. –grafias.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR .. A última coisa que precisamos. a cognição. Com as ciências sociais o coletivo pode enfim se retomar (se ressaisir. no original. XII • n . 296/7). Aqui o termo social não designa a matéria de que é feita alguma coisa. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . (Latour. Estamos intrincados pelas relações arriscadas cuja contextualização provisória deve ser objeto de uma constante re-presentação. Mas e a psicologia? Afinal de contas.: Nós ignoramos as conseqüências coletivas de nossas ações. p. o que tudo isso tem a ver com a psicologia? Há uma tese importante na teoria ator-rede: a idéia da fabricação.. implicada no limite da noção de rede. –nomias tornam-se então indispensáveis se elas servem para propor constantemente ao coletivo novas versões do que ele poderia ser. O que nos vincula? Como nos vinculamos. . A ecologia política marca a idade de ouro das ciências sociais enfim libertadas do modernismo”. o mundo a vir. Todas as –logias. 2º a Enciclopédia Hachette. redevenir maître de soi. mas sim em termos de processo. Se tipos muito comuns são capazes de tornar-se sábios exatos e meticulosos graças ao equipamento de seus laboratórios. mas aquela que acompanha. Esta talvez seja uma lição importante para a psicologia: além de seguir os vínculos entre homens. do equipamento das ciências sociais.o 22 • p.. 82 INTERAÇÕES • V OL . incluídos os pesquisadores em ciências sociais. em termos psicológicos. é que componham..

1991. o processo de fabricação do homem e dos objetos. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. 1989. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . 2000-b. 17 de outubro de 2003). com “C” maiúsculo. pr exemplo. XII • n .A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS .têm agência. Dessa forma. ver Latour 2002-a e Latour. redefinem a nossa cognição. A observação desses atendimentos ocorreu durante o Programa de Doutorado com Estágio no Exterior (Capes) realizado por Alexandra Cleopatre Tsallis em 2002. bem distinta do quadro das epistemologias tradicionais. Latour (apud Crawford. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . 1985. Latour (2001) se insurge contra a pretensão de verdade definitiva da Ciência moderna. 1997 e 1998-a). Se por um lado o que nos une é o interesse pela obra desse autor. Estranha psicologia esta. Conferir Stengers. que a noção de rizoma é perfeita para entendermos a noção de rede. este texto será abordado em especial.o 22 • p. Para trabalhar este conceito. sem dúvida. despsicologizar aqui é pensar uma psicologia que faz-fazer uma singularidade que não pertence somente aos humanos. 1993) indica. 1998-a. por outro é o fato de todos estarmos dedicados às discussões da psicologia contemporânea de uma forma renovada. R ONALD J ACQUES A RENDT segue. produzem efeitos no mundo. p. Assim. faz emergir os actantes em suas trajetórias inusitadas. Os não-humanos. 1992. Notas 1 Este artigo é resultado de uma mesa redonda realizada no Encontro nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. 2 3 4 5 6 9 7 83 INTERAÇÕES • V OL . despsicologizar não seria abandonar de um todo a psicologia tal qual a concebemos e sim pensá-la em suas possibilidades de aliança com os não-humanos. uma vez que condensa uma série de contribuições destes outros trabalhos em um único modelo: o do Sistema Circulatório. Renunciar a psicologia construída até então seria percorrer os caminhos da denúncia crítica. modificam nossas ações. pp. as dicotomias estariam dando lugar a um tecido inteiriço que produz efeitos. mas também aos não-humanos. Apesar de Latour descrever em vários trabalhos a especificidade do saber científico (conferir Latour. já que falamos de uma psicologia que lida também com os não humanos. a ABRAPSO (Porto Alegre. 8. 2002-b. Podemos encontrar referências à psicologia nos seguintes textos de Latour: 1985. Portanto.5-6.

LATOUR. V.ensmp. Proteo. LATOUR. Disponível na Internet via http://www. LATOUR. B. 34. Comment faire entre les sciences em démocratie. DESPRET. Separação entre Mente e Matéria domina reflexões acerca do conhecimento. Oxford. (1995) Introdução: Rizoma. LATOUR. (2001). B. & GUATTARI. Ed.REDE ? Referências Bibliográficas CANGUILHEM. Disponível na Internet via www. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . Unesp.html. G. (1973) O que é psicologia? Tempo Brasileiro nº 30/31. Folha de São Paulo. 15. Capitalismo e esquizofrênia. Mais!. CRAWFORD. G. J. La Tour d’Aigues. Rio de Janeiro. 4 de janeiro d. Synthelabo. B. (1999-b) Politiques de la nature. 247-268.(2002-a) The promises of constructivism . Paris. 189-208. & HASSARD. H. São Paulo. et PERONI. (org. Bauru.pp. J. Latour.o 22 • p. (1970) Epistemologia da Psicologia. Blackwell Publishers.) Lógica y conocimiento cientifico. (1999) Ces émotions que nous fabriquent. B. B. Ce qui nous relie. vol.fr/~latour/articles/article/087. (2002-b) Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. M.(1999-a). The John Hopkins University Press. A. A Esperança de Pandora. Acesso em setembro de 2003. B. LATOUR. (2000-a) A ciência em ação: como seguir cientistas e engeheiros sociedade afora. LATOUR.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . On Recalling ANT. (2000-b) Factures/fractures. LATOUR. B.(2002-c) A Dialog on ANT. F. In: LAW. Buenos Aires. (1993) An interview with B. (orgs) Actor Network theory and after.html. Éditions la Découverte.fr/~latour/articles/article/090. pp. XII • n . Etnopsychologie de l’authenticité. In: PIAGET. B. Rio de Janeiro. Paris. EDUSC. P. GRECO. DELEUZE. De la notion de réseaux à celle d´attachement. Bauru. Editions de l’Aube. Acesso em setembro de 2003. LATOUR. p. LATOUR. In: __________ Mil Platôs. EDUSC. B. J. In MICOUD. I. 84 INTERAÇÕES • V OL .ensmp. (1998-a) Os Filtros da realidade.

Une introduction à l’ anthropologie des sciences et des techniques. Les empêcheurs de penser en rond. Mais!. (1985) Les “vues” de l’ espirit. T. nº 1. STENGERS. K. LATOUR. 13 de setembro. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Siciliano. Nous ne sommes pas seuls au monde. M. p.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS .o 22 • p. Editora 34. LATOUR. Folha de São Paulo. (1989) Quem tem medo da ciência? São Paulo. NATHAN. (1994) Jamais fomos modernos. Culture technique. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . 3. 2 de novembro. LATOUR. Mais!.3. (2001). (s/d) A comunicação. I. LATOUR. (1992) Give me a laboratory and I will rise a world. B. & MULKAY. (1991) The impact of Science Studies on political philosophy. LATOUR. Paris. M. Londres. B. Folha de São Paulo. B. 85 INTERAÇÕES • V OL . Vol. 14. (eds) Science Observed. R ONALD J ACQUES A RENDT LATOUR. B. vol. Science. (1997) As Variedades do científico . Rés Editora. XII • n . Rio de Janeiro. In: KNORR. p. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . B. (1998-b) Universalidade em pedaços. B. 16. Sage Publications. Portugal. SERRES. Technology & Human Values.

REDE ? ARTHUR ARRUDA LEAL FERREIRA Endereço:Avenida Pasteur 250 – Pavilhão Nílton Campos Praia Vermelha – 22290240 – Rio de Janeiro.br MARCIA OLIVEIRA MORAES Endereço: Campus do Gragoatá s/nº Bloco O. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . RJ – Brasil Telefone: (21) 5877304 Fax: (21) 5877284 E-mail: mestpsi uerj Br recebido em 25/06/05 versão revisada recebida em 08/11/05 aprovado em 17/06/06 86 INTERAÇÕES • V OL .o 22 • p. RJ – Brasil Telefone: (21) 22953208 Ramal: 148 Fax: (21) 22953185 E-mail: arleal superig com.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . 524 – sala 10019/Bloco F Maracanã – 20559900 – Rio de Janeiro. RJ – Brasil Telefone: (21) 26292855 E-mail: mmoraes vm uff. sala 310 São Domingos – 24210350 – Niteroi. XII • n .br RONALD JACQUES ARENDT Rua São Francisco Xavier.

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