O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR-REDE?

ALEXANDRA CLEOPATRE TSALLIS
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social (Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

ARTHUR ARRUDA LEAL FERREIRA
Doutor em Psicologia Clínica (PUC/SP); Professor Adjunto do Instituto de Psicologia (UFRJ); Pesquisador financiado (FAPERJ e FUJB).

MARCIA OLIVEIRA MORAES
Doutora em Psicologia Clínica (PUC/SP); Professora do Programa de Pós-graduação (Mestrado) em Estudos da Subjetividade do Departamento de Psicologia (Universidade Federal Fluminense).

RONALD JACQUES ARENDT
Professor Titular de Psicologia Social doPrograma de Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia (Universidade do Estado do Rio de Janeiro); Doutor em Psicologia (Fundação Getulio Vargas/ISOP/RJ); Pós-doutor (Universidade Paris 8); Bolsista do Programa Prociência (UERJ/FAPERJ).

Resumo: O objetivo deste deste artigo é traçar um conjunto de relações possíveis

entre a Teoria Ator-Rede, proposta por Bruno Latour e a psicologia. Inicialmente expomos de forma breve alguns conceitos-chave do trabalho de Latour, seguido por suas considerações críticas sobre a psicologia. Na seqüência, inspirados nos conceitos expostos na primeira parte, iremos delinear uma análise das características do saber psicológico em sua singularidade, concluindo na reformulação de alguns conceitos básicos deste saber.
Palavras-chave: Psicologia, redes, Latour, sinfgularidade e construção do

conhecimento.

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O

QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR - REDE ?

WHAT SHOULD PSYCHOLOGISTS LEARN FROM ACTOR NETWORK THEORY?
Abstract: The aim of this paper is to map the field of possible links between psychology and actor network theory proposed by Bruno Latour. In the beginning some key concepts discussed by Bruno Latour are presented as well as his critical analysis of psychology. In order to develop the point previously mentioned, some ideas about psychology as a singular science are introduced and the conclusions are made regarding the ideas that were discussed. Keywords: Psychology, networks and knowledge.

1) Introdução Este artigo tem como intuito colocar em debate uma série de estudos que temos feito a partir dos trabalhos publicados sobre a teoria ator-rede, em particular, utilizamos o foco teórico-prático de Bruno Latour1. Professor no Centro de Sociologia da Inovação na École de Mines de Paris, Latour é um pesquisador peculiar das ciências. Sociólogo, ele desenvolve estratégias para descrever e acompanhar o trabalho dos cientistas no cotidiano dos seus laboratórios, buscando romper com uma tradição que sublinha a ciência como uma atividade purificada e independente das vicissitudes do dia a dia; antropólogo, ele desenvolve uma antropologia na qual a ciência deixa de ser pensada como uma produção diferenciada das demais, ainda que possua a sua singularidade; filósofo, ele se colocou como tarefa discutir o estilo moderno de partilhar os seres entre naturais e humanos, fatuais e produzidos, objetivos e subjetivos, propondo uma nova ontologia delineada por coletivos compostos de articulações entre atores humanos e não humanos organizados em rede.

Neste programa de pesquisa, os pesquisadores se unem em torno do que Latour (1994) chama genericamente de “Estudos Científicos”, seja em instituições universitárias na Europa, América do Norte ou América Latina, ou centros de pesquisa, como, por exemplo, o Centre de Sociologie de L´Innovation, a European Association for the Study of Science and Technology ou a 4S – Society for Social Studies of Science.
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A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS ; A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA; M ARCIA O LIVEIRA M ORAES ; R ONALD J ACQUES A RENDT

Nestes espaços se investigam temas como ecologia, política, economia, mídia, técnica, religião, epistemologia, linguagem, etc. Embora em seu trabalho Latour não estabeleça uma reflexão sistematizada acerca da Psicologia, encontramos em alguns de seus trabalhos menções, sempre bastante críticas, à psicologia (Conferir a este respeito Latour 1994, 2002-b). Acreditamos que sua forma peculiar de pensar os Estudos Científicos permite refletir a psicologia sobre novos prismas. É nesta linha que propomos este artigo: inicialmente expor de forma breve alguns conceitos-chave do trabalho de Latour, seguido por suas considerações críticas sobre a psicologia. Na seqüência, inspirados nos conceitos expostos na primeira parte, iremos delinear uma análise das características do saber psicológico em sua singularidade, concluindo na reformulação de alguns conceitos básicos a este saber.
2) Uma breve rede conceitual Embora já exista no Brasil uma literatura bastante razoável para que o leitor possa se introduzir nesta nova linha de pensamento (Latour, 1994, 2001, 2000-a,2002-b), apresentar todos os meandros da teoria atorrede e seus deslocamentos conceituais não são metas deste artigo. No entanto, como esta abordagem não é de uso comum, ao menos entre psicólogos, é necessária a apresentação de alguns conceitos-chave que irão habilitar este dialogo com a psicologia. Este é o objetivo desta seção. 2.a) A noção de vínculo (ATTACHEMENT) O conceito de attachement2 está ilustrado na tira em quadrinhos de Mafalda, personagem do cartunista argentino Quino e trabalhada por Bruno Latour (2000-b).

Quino, le Club de Mafalda, n° 10, 1986, p.22, Editions Glénat Reproduzido a partir do site: http://www.ensmp.fr/~latour/articles/article/076.html

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cortando com uma tesoura em pedaços todos os cigarros restantes de seu maço. No processo que “faz fazer” não cabe estabelecer causalidade. na imprensa.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . no primeiro quadro. nem é dominado pelo cigarro. O homem criou os cigarros e ao mesmo tempo eles ganham autonomia e ameaçam nossa saúde. mas não se preocupe”. a questão não é tanto se estamos vinculados (attachés) ou livres. O que está em questão nesta anedota é o tema do domínio. observar o que elas fazem fazer e como aprendemos a ser afetados por elas. não é a causalidade de instâncias já existentes (como. Vivemos em um sistema de relações. ou ao mundo de forças alienantes. que permitem distinguir entre o que está bem ou mal vinculado. do controle (da maîtrise). 57-86 • J UL-DEZ 2006 . nas finanças. na droga. Ocorre que ninguém domina. para Latour (2000-b). designa o que comove e coloca em 60 INTERAÇÕES • V OL . mas tive a impressão que era o cigarro que estava te fumando. XII • n . No último quadro vemos o pai extremamente aflito. o fetiche. O que está em discussão.o 22 • p. o fetiche que faz dele um escravo. por exemplo. afirma Latour (2000-b). no comércio. o pai fumando um cigarro. Não se deve dirigir mais a questão ao sujeito ou ao objeto. O maço de cigarros do pai de Mafalda é um fe(i)tiche. mas se estamos bem ou mal vinculados. por outro a denúncia. não há o “fazer-agir” causal. ninguém age. o pai de Mafalda engana-se: nem ele domina o cigarro. no aborto. articulado. Temos sempre que optar entre liberdade e sociedade? Entre indivíduo e sociedade? Entre liberdade progressista e alienação reacionária? No cigarro. faitiche = fait + fetiche) Ora. mas às coisas que proporcionam vínculos. Em seguida. no gosto. na consciência. a filha pergunta inocente: “o que você está fazendo. Vínculo. Não se trata de destruir o ídolo. Na teoria ator-rede trata-se de descrever a rede de relações. uma mistura de algo que é ao mesmo tempo feito e um fetiche (em francês. simplesmente. quando se estabelecem de antemão pares como sujeito –objeto. por que?” “Por nada. fabricante – fabricado. E o pai quebra no último quadro o ídolo. papai?” O pai responde tranqüilamente: “fumo um cigarro. na religião. agente – agido). responde Mafalda. de avaliar as redes.REDE ? Vemos na tira acima. Por um lado há o discurso positivo de verificação da ciência.

As coisas. O exemplo da marionete (Latour. a linguagem. limites. estão. como estabilizações da rede. tradições. Podemos agora recolocar a questão dos bons ou maus vínculos: os vínculos serão bons quando o marionetista se entender com a marionete. sistema complexo de leis e determinações não nos domina. etc. deveres. quando o cientista avançar no domínio nunca completo de seu objeto. ela nos faz fazer. a falta de domínio não significa falta de governo. Entretanto. entretanto. o fermento. responde ele.). os objetos nunca são objetivos ou neutros – eles trazem consigo o trabalho no tempo de todos os ausentes que participaram na produção daquele objeto. construção não é construção social: a sociedade não constitui as instâncias da 61 INTERAÇÕES • V OL . 2000-b) é esclarecedor: a marionete “resiste” ao titereteiro. uma defesa frente aos fundamentalismos que negam as entidades construídas e mediadas. O construtivismo é uma opção. humano e não humano se modificam na relação. O melhor governo é o que abre mão do domínio mantendo o que nos faz ser. Bruno Latour (2002-a) faz sistematicamente a pergunta: “A realidade é real ou construída? Ambos”. XII • n . fora da antiga tentativa de definir a ação a partir do dilema da determinação versus liberdade. obrigações.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Existe uma longa experiência do operador de marionetes e uma relação com um objeto fabricado que “supera” o seu projeto de fabricação. A realidade existe e existe o que é construído. Ambos. leis.o 22 • p. muito citado por Latour (1992) e sua relação enquanto químico com seu material de laboratório. embora remontando no tempo e no espaço. quando o pai de Mafalda entender que ele simplesmente fuma. R ONALD J ACQUES A RENDT movimento. Indivíduos e sociedades estão no final do processo. ativos e presentes nestes objetos fabricados. sendo o ato de fumar um recurso do coletivo e o cigarro um objeto arriscado. Segundo esta abordagem. um aprende com o outro é o mesmo na relação de um músico com seu instrumento ou do pesquisador – digamos Pasteur. Temos que fugir à “escolha combinatória” entre ou acreditar na realidade ou no que é construído. o ácido lático. isto é. que não deixam de exercer sua função de atores. Não existe o sujeito e o objeto. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . diariamente encontramos inúmeros objetos cujos fabricantes ausentes. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Porém. não antes (como pontos de chegada e não de partida. Por exemplo.

O construtivismo erige andaimes onde entram humanos e não humanos (o que deixa claro que não há domínio do não humano). Passemos ao seu exame. as ciências sociais seriam as ciências que estudariam tais associações heterogêneas. devendo ser mantido e protegido para continuar a existir. 2. multiplicidade.o 22 • p. Desde que esteja na rede de relações. contrária ao fundamentalismo da “natureza” (fatos que emergem misteriosamente do nada). fragilidade. Latour (1994) sublinha a importância da noção de rede. não existiu sempre “por aí”. Há a relação com o não humano. tem uma história. construído é parte de um processo. Relações sociais não são mais sólidas do que aquelas construídas por cientistas “naturais” – químicos. geólogos. As ciências são entendidas como um processo nunca definitivo3. do poder. heterogeneidade. sua origem freqüentemente é humilde. heterogênea. incerteza. físicos. que é um processo. etc. Um objeto fabricado. proporciona ocasiões não previstas. efetuar constantemente denúncias críticas. Latour (2002-a) assume postura contrária à sociologia crítica. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . maior ou menor solidez. como ontologia de geometria variável que passa ao largo dos dualismos que marcaram a modernidade. Os fatos científicos têm historicidade.REDE ? lei. Deste ponto de vista. segundo esta abordagem. determinar aquilo de que são feitas as coisas. Não há uma construção apenas humana. mas sim efetuar a descrição das associações de muitas fontes diferentes. a noção de Rede. nesta criação. Latour (2000-b) pondera que o objeto fabricado poderia ter falhado em vir a existir. de ingredientes relativamente sólidos e estáveis. ao ponto de servir para o seu batismo. mas agora que existe. A estabilidade da sociedade é explicada pela ciência e tecnologia e não o contrário. 62 INTERAÇÕES • V OL . assunção de riscos. XII • n . partindo de um sujeito construtor. com o material que “resiste” ao homem e interfere (e tem uma história) nesta construção. Fatos têm que ser compostos.b) Sobre a noção de rede Em sua crítica à modernidade das ciências sociais. A noção de vínculo nos traz uma outra noção capital à Teoria. Não é uma boa estratégia.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . nunca esteve ou estará sob o domínio do seu criador.

Jamais fomos modernos porque jamais nos encaixamos nas dicotomias que marcaram a modernidade. somos como a soja transgênica. nem desconhecidas. XII • n . Ao tratar das ciências. Expressões que não são novas. A noção de rede não é. Mas é aquilo que nos faz passar ao largo destas dicotomias. Nem natural nem social. de vínculo. 1999-a. R ONALD J ACQUES A RENDT Neste ponto. qual é a sua importância para a psicologia? Com o avanço da Internet a noção de rede ganhou enorme destaque e tem sido habitualmente relacionada a este contexto. qual é o sentido da noção de rede. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . para Latour (1999). A noção de rede encontra ressonâncias filosóficas com o trabalho de M.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . híbridos sócio-técnicos. mas no estranhamento que comportam as pesquisas antropológicas 63 INTERAÇÕES • V OL . A noção de rede foi então apresentada por Latour (1994) como uma tese ontológica. Em todas estas expressões faz-se notar a noção de ligação. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . Latour (1994) afirma um enfoque antropológico das ciências e das técnicas. No entanto. uma vez que delimitemos esta noção de rede. presente nos trabalhos de Latour (1994. Vivemos num mundo povoado por objetos híbridos.o 22 • p. Mas seria esta afirmação suficiente para alcançarmos o sentido da noção de rede tal como proposta por este autor? Teria Latour introduzido alguma idéia original no que diz respeito à noção de rede? No livro Jamais Fomos Modernos Latour (1994) apresenta a noção de rede para expor suas teses acerca da não modernidade de nossas práticas. antes mesmo deste avanço da Internet já falávamos em rede: redes ferroviárias. duas questões devem ser discutidas: a primeira. o objeto e o sujeito. não entendendo a palavra antropologia na sua referência ao antropos-homem. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. oposta à dicotomia moderna. tal como proposta na atualidade por Bruno Latour? E a segunda. Serres (s/d) e de Deleuze e Guattari (1995)4. redes sociais. 2000-b) guarda algo desta idéia: a importância da conexão. rede de televisão. nos quais não conseguimos mais fazer operar as modernas práticas de purificação responsáveis por estabelecer as distinções entre o natural e o social. da articulação entre elementos híbridos. rede de esgoto. A noção de rede.

Além disso. Num destes trabalhos. a noção de rede está em consonância com a possibilidade de comunicação imediata e de acesso direto a qualquer informação. a noção de rede. concreto de suas investigações. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . híbridos de natureza e cultura. Latour (1999-a. a palavra rede e o hífen que liga o ator à rede (Latour. Curiosamente é no limite da noção de rede que podemos entrever todo o seu sentido e alcance. por exemplo. A rede comporta diferenciações. intrínseco ao plano no qual ele se constrói. As reflexões que se seguem a esta autocrítica do autor são as mais interessantes para nós. se inventam. tais distinções não são justificadas a partir de um método racional. É preciso acompanharmos concretamente o modo como elas se constroem. Neste sentido. algo que circula sem nenhuma transformação. na Internet. 2002-c) sublinha uma profunda insatisfação com a noção de rede e é nesta autocrítica que podemos notar o sentido da noção de rede. Porque no sentido presente. tal como popularizada pela Internet implica uma idéia de circulação da informação sem transformação. 1999-a). As ciências e as técnicas são investigadas no seu modo de construção. A metáfora digital popularizou este termo num sentido que para Latour (1999-a) é desastroso. na rede de sua prática. psicólogos. XII • n . a sua novidade. Isto é. se produzem. Entretanto. com a palavra antropologia é importante frisar o sentido empírico. aqui o domínio racional é efeito de uma prática. ela é o plano onde serão construídas as distinções entre práticas científicas e práticas não-científicas. o seu alcance.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . é imanente.REDE ? das outras civilizações. Se na perspectiva epistemológica o empírico não tinha o poder de questionar uma distinção conceitual. a palavra ator.o 22 • p. Esta idéia é oposta àquela 64 INTERAÇÕES • V OL . esta noção não é nova. parece ser possível falar em informação. É justamente este sentido que Latour (1999-a) considera desastroso. Qual o problema com a palavra rede? Como dissemos acima. de sua inventividade e engenhosidade. Elas não são a priori. Retorno da potência do empírico. 2000-b. Empírico não é sinônimo de indiferenciação. É o caso aqui de nos tornarmos outros. o autor afirma que existem quatro pontos que não funcionam bem na teoria ator-rede: a palavra teoria. Em alguns textos posteriores ao Jamais Fomos Modernos. mas a posteriori.

O par ator-rede.o 22 • p. Isso significa dizer que um ator não se define pelo que ele faz. Se são bons eles serão capazes de mobilizar mais aliados e de se tornarem estáveis. Isso porque. díspar. Isso significa afirmar que interessa ao pesquisador seguir o trabalho de fabricação dos fatos. é marcada pela transformação. E mais. eles não mobilizarão outros aliados. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Então o acento recai na ação. Em última instância. A noção de rede não deve ser tomada como um contexto que se acrescenta a um indivíduo. A rede. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . mas pelos efeitos do que ele faz. ela é insuficiente porque não dá conta dos processos de fabricação. ele se define pelos efeitos de suas ações. o ator não se confunde com o individuo. O que é um ator? Muitas vezes esta noção foi confundida com os tradicionais atores da sociologia. como um rizoma. um ator é tudo o que tem agência. Se são maus. Para Latour (1994). que efeitos decorrem de tais alianças. híbrido. ação de fabricação. 2002-c). o par ator-rede foi muitas vezes tomado como o par indivíduo-sociedade. R ONALD J ACQUES A RENDT que a teoria ator-rede pretendia frisar com a noção de rede. de circulação. através de alianças entre atores humanos e não-humanos. dos objetos. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . dos sujeitos. Se de um lado a noção de rede é interessante porque traz a idéia de movimento. Mas não é disso que se trata. XII • n . Então na noção de rede o que importa para Latour (2002-c) não é só a idéia de vínculo. no trabalho de fabricação e transformação presente nas redes.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . das ações que se estabelecem entre atores heterogêneos. incluindo o hífen. dos processos de fabricação do mundo. Em outro texto. de outro lado. ele é heterogêneo. isto é. Mas neste ponto chegamos a outro problema: a noção de ator. Mas sim o que estes vínculos produzem. 2002-c). é para Latour (1999-a) insuficiente para dar conta da ação que se distribui em rede. com o indivíduo como fonte e origem de uma ação. o autor afirma: não há in-formação. Nos seus 65 INTERAÇÕES • V OL . de aliança. Talvez pudéssemos tomar como caminho a sugestão do próprio autor e ao invés de falarmos em networks deveríamos falar em worknets (Latour. É importante sublinhar que o que está sendo frisado é a noção de ação. interessa investigar se estes vínculos são bons ou maus. só trans-formação (Latour. Fabricação que se faz em rede.

Então há uma ação recíproca e o que importa é acompanhar os efeitos desta ação. O que eu faço com a teoria ator-rede? A teoria ator-rede não é uma teoria cujos princípios estejam dados de antemão. central do qual emana a fabricação do mundo. 1994). das crenças. O próprio Latour (1992) apresentou algumas vezes trabalhos que seguiam a produção dos fatos científicos. há alianças! Então estamos falando de rede! De modo nenhum. O aluno pergunta: então para que serve a teoria ator-rede? Eu tenho que escrever uma tese e o meu orientador quer que eu apresente um quadro de referência para o meu objeto de investigação. 2002-b. que é ele mesmo. O que está em questão não é a aplicação de um quadro de referência no qual podemos inserir os fatos e suas conexões. de ação. algumas pistas. Os conceitos de rede. Fabricação interessante. Neste aspecto é importante 66 INTERAÇÕES • V OL . Seus trabalhos sobre Pasteur (1992). Não há um agente primordial. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . há conexões. Não basta apontar com o dedo indicador as alianças. e um aluno envolvido com a redação de sua tese de doutorado. XII • n . aliança e vínculos são conceitos talhados como ferramentas especiais para pensar a ciência. São instigantes as inquietações do aluno e o professor vai sugerindo alguns caminhos. Trata-se antes de um método. sobre a polêmica entre Boyle e Hobbes (Latour. um caminho para seguir a construção e fabricação dos fatos. dos mitos. O que importa é seguir a produção de diferenças. bem ali. os efeitos. sobre a fabricação do hormônio do crescimento são a este respeito instrutivos (2000-a). em outras palavras.REDE ? últimos textos Latour (2002-a.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . Não basta dizer: veja ali.o 22 • p. a rede é sinônimo de fabricação.2002-c) chama a atenção para este aspecto: o que interessa ao pesquisador é acompanhar a construção dos fatos. Será então que devemos considerar a teoria ator-rede como um quadro de referência. acompanhavam as muitas conexões que acabavam por estabelecer distinções entre fatos validados e fatos descartados. inclusive à psicologia? Recentemente Latour (2002-c) publicou um texto escrito na forma de um diálogo entre um professor. os rastros deixados pelos atores. como uma teoria que podemos aplicar a muitos domínios. os muitos deslocamentos que ela produz. porque deve ser considerada como um processo distribuído entre todos os atores.

4) Representação Pública. questionários e expedições). mas por todo o seu conjunto. composto por uma série de circuitos. como um conjunto de conceitos (internalismo). sustentada pelos historiadores da ciência no debate entre internalismo X externalismo. presente na coletânea A Esperança de Pandora (2001). como: 1) Mobilização do mundo. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Sem a circulação e mobilização de todos estes circuitos não é possível entender a perseveração de um trabalho científico. ou recrutamento do interesse de grupos não científicos. e 5) Os Vínculos e Nós. 2) Autonomização. O fluxo sangüíneo da ciência: um exemplo da inteligência científica de Joliot5. vai acabar concebendo o conhecimento científico. na 67 INTERAÇÕES • V OL . R ONALD J ACQUES A RENDT que destaquemos a singularidade das redes científicas. Latour apresenta uma visão sintética do fazer científico. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. sem entender a especificidade das ciências (externalismo). Esta antiga querela. que amarra todos os demais circuitos.o 22 • p. ora como produzido a par de sua rede social. E por que o trabalho científico é comparado ao Sistema Circulatório? É porque não faz o menor sentido se perguntar apenas pelo “coração da ciência”. como militares. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . 2. antes de destacar a singularidade da própria psicologia. ou conjunto de mediações aptas a fazer circular os não-humanos através do discurso (instrumentos.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . que dizem respeito ao coração conceitual.c) As redes científicas e a modernidade Em um texto. Tentando superar os limites entre os internalistas e externalistas (e entre ciência e sociedade) é que Latour (2001) irá propor o Sistema Circulatório. como de Frédéric Joliot. governamentais e industriais. Da mesma maneira que em nosso sistema circulatório não faz sentido nos perguntarmos se em essência ele é coração ou veias e artérias. nas ciências não devemos nos bastar apenas na sua rede conceitual ou no contexto social. ou a delimitação de um campo de especialistas em torno de uma disciplina. XII • n . 3) Alianças. capazes de serem convencidos ou entrarem em controvérsia. levantamentos. condensado em um modelo isomórfico ao Sistema Circulatório. o seu vasto e denso sistema de redes e capilaridades. ou o conjunto de efeitos produzidos em torno do cotidiano dos indivíduos. ora como fenômeno coletivo.

Hobbes por outro lado. seres mestiços. mas a constituição de laboratórios. cujas verdades calariam as vozes dissonantes. seres com marcas ao mesmo tempo humanas e naturais. Mas. a modernidade produziria como efeito colateral desta tentativa de divisão e purificação a proliferação dos híbridos. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . a partir da tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. o marco histórico desta clivagem pode ser encontrado na discussão sobre o vácuo que opôs Boyle e Hobbes. sendo representados nos laboratórios. Para a montagem desta bomba é necessária não apenas uma rede de conceitos científicos. Contudo. além da opinião pública. qual é o problema que se configura na nossa modernidade? A tese de Latour (1994) é que a modernidade se marca na constituição de uma “ontologia impossível” produzida no século XVII. que. enquanto que os seres naturais passaram a ser tema das ciências. sua principal herança foi a sua filosofia política sobre o Estado.REDE ? tentativa de montagem de uma bomba de nêutrons. o que ressalta no trabalho de Latour (1994) não é apenas a descrição desta irrealizável constituição moderna. da indústria e dos militares.o 22 • p. passam a possuir primazia ontológica. tendo a sua representação nos parlamentos. Estes não são 68 INTERAÇÕES • V OL . em que todos os cidadãos estariam representados pelo rei. tentou negar a existência do vácuo apelando para uma teoria dedutiva geral que servisse para unificar o reino inglês esfacelado em guerras civis. XII • n . Apesar de Boyle ter produzido escritos políticos. Apesar da discussão de Hobbes sobre o vácuo.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . perseverou entre nós apenas a sua contribuição científica e a invenção dos laboratórios como os nichos da verdade dos entes naturais. Segundo Latour (1994). de acidentais na sua indefinição. Os entes humanos tornaram-se a partir de então assunto da política. mais poderoso que o de cidadãos dignos. os experimentos laboratoriais. Se a ciência opera através destes sistemas circulatórios múltiplos condizentes ao modelo de rede. povoado de híbridos. O primeiro sustentou a existência do vácuo apelando para uma nova forma de testemunho. e o interesse do governo. a parceria de especialistas. mas a revaloração do que escapava a esta segregação clara e distinta: começa-se a descortinar todo um império do centro.

o misticismo) não realizam a revelação de um eu oculto. a epistemologia busca os fatos objetivos a par das nossas crenças. Sendo assim. 3) Despsicologização: a teoria ator-rede contra a psicologia. 2002b). o trabalho reflexivo ganha uma faceta bastante pragmática. se no plano objetivo. R ONALD J ACQUES A RENDT mais compreendidos como o produto da indevida mistura de entes puros e bem compartimentados desde o princípio. cabe uma abordagem crítica. as noções de rede e de vínculo são essenciais. Perante esta forma da psicologia atuar. dos fe(i)tiches no plano subjetivo. A psicologia nada mais faria do que o “serviço sujo”. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . estas passam a ser delegadas a um plano subjetivo de interioridade. Neste diálogo que desejamos estabelecer entre a Teoria Ator-Rede e a psicologia. É nesse sentido que recorrer as práticas representa uma alternativa ao acordo moderno. domínio da psicologia. Um bom exemplo pode ser encontrado no texto. transcendentes para permanecer vinculado ao mundo em sua imanência. Este seria o resultado das nossas práticas. que se efetivariam por debaixo de nossas dicotomias e buscas de purificação modernas. mas a linha mestra de uma rede ontológica de onde se purificam os entes extremos e secundários. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Posto que. mas “produzem-no artificialmente” (Latour. Nesta ontologia. Em todas elas. operando como uma bomba de sucção dos seres híbridos. pois é recorrendo 69 INTERAÇÕES • V OL . A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Como resultado se tem a renuncia às dimensões “meta”. que alternativa poderia ser concebida com relação a esta ferramenta moderna? O antídoto poderia ser buscado em um esforço de despsicologização cujo trabalho do etnopsiquiatra Thobie Nathan seria o melhor exemplo (Latour.o 22 • p. bem como outras agências milenares (a religião. sendo não muitas as suas referências6.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . o trabalho de dar conta do que a epistemologia excluiu criticamente dos nossos seres objetivos. no qual Latour sustenta que a psicologia operaria de modo simétrico ao da epistemologia. a psicologia tem papel de coadjuvante. como se a psicologia fosse um mero produto da clivagem moderna. um problema inicial se impõe: no conjunto de trabalhos assinados por Latour. “O moderno culto dos deuses fe(i)tiches” (2002-b). a ser purificado. XII • n . 1998-a). Este esforço estaria calçado na suposição de que a psicologia.

Isso significa conceber a prática terapêutica em sua complexidade. ele é o elemento do mundo sensível. em sua malha de relações.” (Nathan. [6] toda terapia é ação da matéria sobre o ser. Cabe ressaltar a definição de objeto dada por Tobie Nathan. T. “As psicoterapias se definem. que tem como corolários a necessidade imperativa de considerar tudo e por conseguinte interditar uma leitura etnocêntrica. na busca da “revelação de um sujeito recalcitrante”. Sinteticamente poderia ser dito que ele discute a relação entre a coisa e o objeto e como são estes os elementos em jogo no processo terapêutico. [7] a psicoterapia constrói a verdade em referência aos objetos.REDE ? incessantemente às práticas que se torna possível acompanhar as trajetórias dos actantes. Para entender como o trabalho etnopsiquiátrico de Thobie Nathan opera esta intervenção despsicologizante é necessário destacar uma série de proposições presentes no seu livro Nous ne sommes pas seules au monde. Disso derivam dois corolários: o dispositivo terapêutico é o lugar de produção e reprodução do pensamento filosófico abstrato e os atos e procedimentos do terapeuta são a forma de colocar em cena a teoria encarnada. Despsicologizar é.. feito de matéria e cuja existência não deve nada à percepção ou à imaginação de qualquer sujeito. [4] a técnica terapêutica é um campo de experimentação natural. A primeira proposição [1] é conceber a psicoterapia como manejo técnico da influência. 121). escrito em 2001. [8]. XII • n . por consequência. Passemos às proposições. Sendo assim. pois. Portanto. Assim. abrir mão do processo moderno de purificação e acolher os “atachements” operados pelos entes humanos na sua produção de possíveis eus. portanto a principal função do objeto é demonstrar o pensamento teórico dos terapeutas. pelos objetos que elas não utilizam e pela referência à esses mesmos objetos ausentes. Enquanto a coisa é aquele ser que 70 INTERAÇÕES • V OL . é que elas constroem a verdade. [5]: A psicoterapia é um caso particular de um conjunto de práticas destinadas a modificar as pessoas através de um procedimento técnico. 2001. não linearidade. 57-86 • J UL-DEZ 2006 .o 22 • p. [2] além de ser um campo de pesquisa.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . [3] Como motor principal dessa influência está o pensamento do terapeuta. p.

M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . portanto [10] o trabalho de terapia consiste em se aprofundar no conhecimento da coisa em sua relação com os objetos. Trata-se de um sistema extremamente fluido onde a idéia de criador e criatura se misturam circulando da construção à vivacidade ininterruptamente.o 22 • p. os objetos funcionam como os intermediários possíveis no estabelecimento dessa relação. Afinal. assim como ele permite ao paciente situar com precisão a teoria de seu terapeuta. ao que Tobie Nathan acrescenta o “Parlamento dos Deuses” (p. seguem os relatos de duas consultas etnopsiquiátricas que a psicóloga Alexandra Cleopatre Tsallis teve a oportunidade de acompanhar no Centre George Devereux em Paris 8 7. desse vínculo. o autor conclui “As coisas têm uma alma ou ao menos uma intencionalidade. 2001. É a partir desse contexto que emergem essas proposições e a própria discussão sobre a importância dos objetos. Como exemplo destas proposiçoes. a possibilidade de fabricação. Para Tobie Nathan (2001) a eficácia da psicologia não está em revelar os mecanismos da subjetividade. A proposição [9] se refere a mudança no processo terapêutico e como ela opera ao longo da linha de um devir.. Finalmente. R ONALD J ACQUES A RENDT captura quem se aproxima dos produtos de uma fabricação. 147). 57-86 • JUL -DEZ 2006 . mas em fabricá-los a cada instante. XII • n . Sendo assim. Assim sendo. Dessa forma.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . [11] nos dispositivos terapêuticos os objetos têm a principal função de permitir que a teoria especulativa se desenvolva. p. dirigidas por uma equipe bastante multidisciplinar. T.12). 71 INTERAÇÕES • V OL . O termo intermediário se refere a passagem. [14] e que a consulta etnopsiquiátrica precisa instituir o “Parlamento das coisas”. Não podemos esquecer que o contexto no qual ele trabalha é o do universo de imigrantes da cidade de Paris. [12] o objeto oferece uma dupla garantia: ele obriga o terapeuta a apostar na inteligência do paciente. considerando tanto suas perdas quanto seus ganhos. a diversidade de versões trazidas pelos pacientes e a possibilidade de acolhida por parte de uma instituição francesa significam grande parte da relação terapêutica. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA.” (Nathan. Como últimas proposições estão que [13] a cada momento o terapeuta “joga” a totalidade do devir metamorfoseado que ele propõe.

ou algo parecido. à medida que foi passando o tempo. indígena. uma psicóloga especialista em mortes. a segunda é mais difícil. enquanto os outros pareciam estar dispostos sem nenhuma lógica explícita. 72 INTERAÇÕES • V OL . Uma delas é amiga do paciente e tem testemunhado todo seu processo e a outra. No total.o 22 • p. A consulta se iniciou com a apresentação de cada um ao paciente. XII • n . embora praticamente não o conhecesse. uma etnóloga e alguns psicólogos. era fácil perceber como ia se estabelecendo a confiabilidade entre os dois. O coordenador e um outro psicólogo bebiam uísque. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . decorada com vários objetos de origem africana. enquanto o coordenador fazia comentários jocosos sobre cada um se dirigindo ao paciente. uma psicóloga italiana e uma psicóloga brasileira.REDE ? 3. sempre com vários cigarros acesos. Entre os 10 “terapeutas” estavam um coordenador (psicólogo). um médico. estavam todos sentados em uma ampla sala.” Na consulta estava presente o paciente. o coordenador o interrompeu algumas vezes com comentários que demonstravam seu conhecimento sobre a cultura e práticas turcas.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . o paciente estava sentado ao seu lado. o paciente começou a contar o motivo de estar vindo ao centro. em especial uma psicóloga turca – que muitas vezes se dirigia em turco ao paciente – além de uma psicóloga judia. um turco vítima de bruxaria (modo pelo qual foi apresentado à equipe pela psicóloga que o entrevistou pelo telefone). A partir daí. O paciente contou sua vida e uma série de acontecimentos estranhos: acidentes de carro sempre nos momentos em que se sentia apaixonado. A primeira parte é fácil. acompanhado de duas mulheres. foi a pessoa que o indicou ao centro etnopsiquiátrico de Paris 8. O clima de um modo geral era descontraído. No centro do círculo estava uma pequena mesa onde eram servidos cafezinhos e permaneciam os cinzeiros. uma psiquiatra. Assim.a) Consulta etnopsiquiátrica Iniciaremos esta descrição pela conclusão do primeiro encontro entre a equipe do Centre George Devereux e o paciente: no encontro seguinte o coordenador explicaria ao cliente como fazer para “vigiar a mão de seu pai e o pé de sua mãe. poderia dizer que eram dez “terapeutas” e três “clientes”.

disse ao 73 INTERAÇÕES • V OL . o coordenador se antecipou em descrever o objeto que ele teria encontrado. enquanto segurava seu braço em um gesto de intimidade. alguns se manifestaram. Em especial sua irmã lhe contou que seus pais. seguida da conclusão de vigiar a mão do pai e o pé da mãe. Eles teriam amarrado duas colheres de ponta-cabeça. uma psicóloga perguntou ao paciente o que ele procurava lá. Ele terminou seu relato lançando três perguntas: Estou louco e tudo isso é psicológico? Ou se trata de bruxaria e é verdade? Ou um misto dos dois: as coisas existem e eu estou mal com isso? Um grande silêncio imperou na sala. Neste momento em especial. esse foi um outro momento em que o coordenador revelou entender do que se tratava essa atitude. falou sobre diversos encontros com pessoas que estavam realmente surpresas por ele estar vivo. O coordenador convocou todos os presentes a falarem algo. R ONALD J ACQUES A RENDT falou sobre seus três casamentos e consecutivos divórcios. quando ele foi embora de casa para viver com sua primeira esposa. je suis un practicien”. no qual era possível que ele próprio aparecesse. inclusive. o que muito surpreendeu o paciente.” A consulta encerrou-se quando o coordenador disse ao paciente. Finalmente.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . 57-86 • JUL -DEZ 2006 . M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . 1991): a verdade por um lado. em um clima instigante. que talvez nessa noite ele tivesse um sonho. ao que ele respondeu dizendo: “procuro ser escutado e suponho que ao ser escutado estarei sendo compreendido e descobrirei o que fazer. Além disso. Foi interessante perceber como as próprias perguntas revelavam o acordo modernista (Latour. mas o que nos saltou aos olhos foi a frase dele “Je suis pas un intelectuel. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA.o 22 • p. XII • n . sobre objetos estranhos que encontrou em sua casa. Logo antes dessas colocações acima. O paciente é um músico de bastante talento e reconhecido como pianista e compositor clássico. fizeram uma bruxaria para ele. a busca pela realidade dos fatos para finalmente perguntar sobre a possibilidade de uma mistura. contudo naquele momento sua vida tanto profissional quanto amorosa estava bastante confusa o que lhe fazia pensar sobre algum tipo de bruxaria relacionada aos objetos estranhos que encontrou em sua casa. o psicológico por outro.

o 22 • p. essa mistura de fato e construção. capítulo 8). esperando para serem reveladas. 74 INTERAÇÕES • V OL . Não conseguíamos naquele momento vislumbrar o que tanto impressionava Bruno Latour naquela prática (Latour. os nãohumanos possuem recalcitrância. valha tanto para humanos quanto para não-humanos. que lhe daria não só a possibilidade de habitar o mundo como de produzir efeitos. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . isto é. No livro Ces émotions que nous fabriquent a autora destaca que a autenticidade é aquilo que remete à fabricação das emoções e não o que vem des-cobrir emoções que lá estavam. Portanto. Saimos dessa consulta extremamente mal impressionados. Acreditamos ser nesse sentido que Bruno Latour (2002-b) propõe que o binômio faz-fazer seja simétrico. Resumidamente poder-se-ia dizer que a meta da denúncia crítica é tentar reduzir os objetos ao domínio da passividade. tentavamos purificar o ambiente. mais que um fetiche ser reduzido a categoria de objeto. além daquela seqüência nterminável de intervenções com a finalidade de impressionar o paciente. a crença.REDE ? paciente que era importante que ele guardasse o sonho com atenção para o próximo encontro. finalmente estavamos embaraçados nesse emaranhado supondo que a saída seria desfazer os nós. onde os humanos projetariam e/ou representariam aquilo que está em sua mente. vale ressaltar uma valiosa contribuição de Vincienne Despret (1999) para sair desse emaranhado. tentávamos avaliar criticamente aquelas intervenções segundo o modo como entendíamos uma prática terapêutica. com um sentimento ambíguo que nos fazia perguntar qual era o sentido de tudo aquilo. Não percebíamos autenticidade no trabalho. perde de vista a possibilidade que esses têm de habitação no mundo. ao invés de seguir por eles. Contudo. Em outras palavras. desvencilhar os elementos da rede. singularidade. XII • n . para o quê era importante olhar. 2002b. ele seria pensado como um fe(i)tiche. Assim sendo.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . mas imaginávamos que talvez estivéssemos olhando para o lugar errado. Do mesmo modo. entendida como mera denúncia da fragilidade da fabricação dos fetiches.

ou seja. Por fim. mas também alçar o próprio entendimento dos efeitos que a submissão a este decálogo proporcionou em nossa psicologia moderna. Estamos mais próximos da cartografia de um arquipélago. XII • n . ela se desvelaria em suas inusitadas facetas enquanto permanecemos inscritos no coletivo.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . como conduzir todas aquelas pessoas debruçadas sobre sua vida revelando os limites de seus olhares. o paciente. visualizaremos na próxima seção algumas características do saber psicológico atual e suas condições de possibilidade modernas. O que sustenta esta dispersão psicológica sob um mesmo nome? Deve-se ressaltar que não se tratam 75 INTERAÇÕES • V OL . da sua produção de efeitos na rede. destacamos que a possibilidade de vislumbrar essa prática “despsicológica” anuncia qual seria um possível caminho para acompanhar os actantes sem precisar renunciar à singularidade. convocou cada um dos presentes para tecer aqueles sonhos. Esse coletivo habitado por humanos e não-humanos que delimita suas fronteiras através dos bons e maus vínculos. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . Muito pelo contrário. Aqui. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . 4) A psicologia como saber mestiço: o cruzamento múltiplo entre práticas sociais e conceitos científicos O que pode instigar um possível encontro do trabalho de Bruno Latour com a psicologia é a curiosa configuração topológica deste saber. mas muito pelo contrário. de seus pontos de vista. ampliar aquela história de modo que a cada instante o rumo e o destino pudessem ser alterados respeitando aquele que verdadeiramente coordenava. que nós desamarrar. Ao contrário de nossas expectativas.o 22 • p. Para tal. R ONALD J ACQUES A RENDT No segundo encontro o paciente trouxe três sonhos para serem trabalhados. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Era ele que escolhia que fios trançar. o coordenador não começou a dar antídotos para a bruxaria. de uma confederação sem centro de sistemas. escolas. pequenas teorias e práticas dispersas do que do mapa geopolítico de uma nação-continente unificada por um projeto comum. começamos a vislumbrar um uso mais potente do arsenal teórico-prático da teoria ator-rede em sua ligação com a psicologia – a possibilidade não apenas de propor uma psicologia distinta desta que tem se submetido ao decálogo moderno.

O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . especificado em seu modelo circulatório (Latour 2001). Representações Públicas e Vínculos? Quanto à Mobilização do Mundo deve-se dizer que as técnicas de inscrição deste saber produziriam (ou extorquiriam) testemunhos não mais de objetos. ao juntarem o que a modernidade separou. desconsiderando qualquer controle político central. Pode-se compreender a partir deste duplo esquema o surgimento. mas de sujeitos. as técnicas de mobilização forjadas não circulam de forma livre em sua extensão. Como as psicologias circulariam nos Sistemas Circulatórios Científicos compostos de Mobilização do Mundo. O que conduz a psicologia a esta curiosa configuração no campo dos saberes? Recusando uma abordagem epistemológica. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . mas da própria definição do que é psicologia. e 2) a determinação das “condições de possibilidade” deste conhecimento. contidas no projeto de uma modernidade impossível. notadamente no seu projeto de cisão entre dois entes purificados: Ser Humano e Natureza. ou entes subjetivos e objetivos (Latour. Mesmo quando se verifica que estas técnicas de inscrição são em geral capturadas de outras ciências como física. e fazendo o conhecimento circular por vias muito diferentes das demais ciências. cada estado pudesse se dar a sua própria representação de uma nação. O problema é que no campo psicológico.REDE ? aqui de divergências teóricas e metodológicas pontuais no interior de um mesmo projeto (como a discussão física sobre a natureza da luz. O que justificaria a presença deste enfoque teórico-prático na compreensão da diversidade das psicologias? Justamente por tratar de dois temas relevantes para a resposta das questões propostas inicialmente: 1) a definição das condições necessárias ao conhecimento científico.o 22 • p. Autonomização. utilizamos a perspectiva da teoria ator-rede não apenas para demarcar a especificidade do saber psicológico em contraste com os demais. da coabitação nesta de projetos antagônicos. centrada na discussão sobre a cientificidade da psicologia. Retomando uma metáfora geopolítica. XII • n . 1994). química ou biologia8. é como se numa federação. se esta é onda ou partícula). elas 76 INTERAÇÕES • V OL . bem como as suas condições de possibilidade históricas. Alianças. o lugar e o caráter paradoxal das psicologias. e em franca tensão com os demais.

dado o conjunto de orientações e projetos presentes em nosso campo. como veremos mais adiante graças a sua relação com o público. ou imóveis mutáveis. criando vários espaços indiferenciados ou zonas neutras. elas extorquem testemunhos (Stengers. mantendo alguma fé em nosso suposto saber sobre a natureza humana. 1989). Não seriam o que Latour designa como móveis imutáveis (1985). É aqui que podemos reconhecer a grande força das psicologias.o 22 • p. mesmo guardadas algumas desconfianças. pedagogia. pois. Se a ciência para Latour (2002-a) é construtivista e realista. administração e neurociências. No que tange a Autonomização. nós temos entre os psicólogos algo que Canguilhem (1973) designa como um consenso mais pacífico do que lógico. mais do que produzir testemunhos isentos de sujeitos. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Nossas relações. Neste ponto é que podemos dizer que as psicologias produzem imóveis (pois só circulam no interior de certas orientações) mutáveis (transformando e fabricando a experiência dos sujeitos). estas tem sido ambíguas. hoje ele preenche outras funções. Além da nossa geopolítica fragmentada.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . a psicologia é só 77 INTERAÇÕES • V OL . mas imóveis imutáveis. podemos dizer também que nossas fronteiras são bastante porosas. não conseguimos nos relacionar conosco ou com os demais sem categorias como as de Inconsciente ou Complexo de Édipo. basta se tomar certas orientações psicológicas com maior poder de difusão como a Psicanálise. governamental e mesmo militar. Quanto às alianças. abrindo-se nas mais diversas direções: psiquiatria. Fé que é muito mais ampla no campo das Representações Públicas. como o campo da saúde. Se inicialmente este interesse se centrava no campo da seleção para uma determinada aptidão ou perícia. às vezes são mais sólidas com o espaço externo do que interno. pois se é registrável um interesse cada vez maior do setor privado. mais fabricam do que revelam nossos eus. este interesse não é comparável ao depositado nos demais setores científicos. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Mas estas alianças operadas ignoram a complexidade e pluralidade do nosso campo. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . Para se ter isto em conta. XII • n . R ONALD J ACQUES A RENDT trafegam apenas no campo de uma determinada orientação onde ela pode ser forjada.

De fato. Este nó é frouxo até mesmo na definição do que vem a ser a psicologia (ciência das condutas? dos fenômenos mentais? da experiência? do inconsciente?). tal como descrita em Jamais fomos Modernos (1994). O que produz esta curiosa configuração? Aqui entramos no terreno da História da Psicologia para buscar as fontes desta pluralidade. somente com o tecido da rede social e a rede das demais práticas científicas. bem colocado por Gréco (1970). das nossas subjetividades. p. Portanto. com novas questões.REDE ? construtiva. Mesmo em nome de uma verdade triunfante.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . graças ao seu poder de enunciar as nossas mais íntimas verdades.o 22 • p. do que é posto entre parênteses no ato científico: a ação. Tudo isto proporciona que a Psicologia seja composta de uma série de nós e vínculos conceituais parciais sem um nó maior que a amarre. Nas palavras de Canguilhem (1973. Mesmo com o surgimento de novas escolas. O problema. bordando e moldando a nossa subjetividade de acordo com algumas orientações. 119). A hipótese aqui adotada é que a psicologia é produto da “impossível modernidade” constituída no século XVII na tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. a psicologia mantém o seu afã hibridizante. as representações. a tarefa inicial da psicologia no século XIX seria a de se tornar uma ciência objetiva dos erros da nossa subjetividade. Como a psicologia se configura neste projeto moderno? Como visto. XII • n . buscando a verdade de nossos erros. podemos dizer que a Psicologia é composta por vários sistemas circulatórios. nada mais híbrido. relegando a meras crenças tudo aquilo que viria a escapar a uma existência objetiva. no caso. é que a psicologia deseja fazer ciência daquilo que escapa à própria ciência. mas que não se comunicam entre si. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . fornecendo assim um sentido para as nossas vidas. a tarefa da psicologia seria a de fornecer uma desculpa do espírito perante a razão. os desejos humanos (a sua interioridade). Promove-se uma nova mistura do que havia sido bem 78 INTERAÇÕES • V OL . Latour (2002-b) sustenta que a psicologia operaria como uma bomba de sucção dos seres híbridos no plano subjetivo.

Trocando em miúdos. XII • n . A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. é necessário se excluir a psiqué. as práticas de confissão e o esforço de desvelar as fontes dos nossos desejos e de nossas mais íntimas verdades. é impossível a mediação do logos. A psicologia seria exemplar enquanto efeito colateral inesperado pelos paladinos dos entes puros em expansão: o encontro nesta região central de miscigenação plural. ao mesmo tempo em que a política e a administração passam a buscar substratos científicos na sua disseminação. Mas e a representação laboratorial e natural dos seres humanos operada pela psicologia? No caso da psicologia. ou as nossas representações mentais equivocadas. e se ampliado ao ponto de que cada um dos domínios segregados lance suas redes na direção do seu oposto. onde operadores científicos das ciências naturais se fundem a conceitos antropológicos. a tentativa de disciplina das atividades humanas na educação e no trabalho. 79 INTERAÇÕES • V OL . para que esta nova mistura ocorra é necessário que a busca de purificação moderna tenha se processado. concílios sobre o clima e o meio ambiente. Psicologia se torna uma palavra inconciliável. na psicanálise. nos leva a uma visão do homem como um ser desejante. onde os híbridos se multiplicam ao infinito.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . coroado pela compreensão do homem como um ser naturalmente inteligente e compreensivo do mundo que está a sua volta. esta hibridação nada tem a ver com o monismo mestiço dos pré-modernos. Contudo. a psicologia é um espaço forte de mestiçagem. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . e para se considerar esta. É assim que no gestaltismo o exame da experiência ingênua (visando o controle dos erros) culmina no equilíbrio das formas. trata-se da ampliação do domínio científico na direção daquilo de que ele havia se segregado (as qualidades secundárias.o 22 • p. R ONALD J ACQUES A RENDT segregado na modernidade: objetiva-se (naturaliza-se) o sujeito e subjetiviza-se o objeto científico. conduz à força dos condicionamentos e ao entendimento do homem como um ser maleável na sua relação com o ambiente. no behaviorismo. as crenças e a nossa interioridade). marcado pela impossibilidade de equilíbrio energético dentro do ciclo pulsional. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . reificando certas práticas sociais. em que para haver logos. Latour ao longo de sua obra toma como exemplos privilegiados de hibridação a representação social dos seres naturais nos dias de hoje: partidos verdes.

Críticas que por sua vez instigam novas tentativas de fundações purificadoras. pulsões e operantes. e que se radicaliza a cada nova refundação e tentativa de purificação por parte deste saber. mas na sua seqüência uma subjetividade cindida entre um domínio empírico e outro transcendental. É neste sentido que se pode dizer que na psicologia não se hibridiza apenas homem e natureza. uma função de ligação e mistura digna do deus Hermes. estrangeiros para além das fronteiras dessa região central: para os epistemólogos. 57-86 • J UL-DEZ 2006 .O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . contrária à sua vontade. e uma forma de individualização autonomizante e outra controladora. subjetividades e verdades interiores. constituindo os fundamentos empíricotranscendentais de nossas subjetividades. Gestando sujeitos. Por que não efetivar este efeito colateral concreto em norma. Nestes termos. módulos informacionais. Estes conceitos e operadores naturais forneceriam um transcendental a partir do qual gravitaria a nossa experiência: boas formas. Além de determinar uma norma e uma determinação natural para a nossa liberdade. Daí também decorre o fato da psicologia ser constantemente atacada pelos críticos puristas. nas palavras de Latour: “eus fabricados artificialmente” (1998-b).o 22 • p.REDE ? Deve-se dizer que este efeito hibridizante é contrário às intenções puristas também dos diversos fundadores da psicologia. tomando-se a interdisciplinaridade. recusando a norma ideal de purificação impossível (trata-se de um importante catalizador de hibridações). “fe(i)tiches (faitiches) tecnosubjetivos” (2002-b). Poderíamos ver aqui conforme Latour (2002-b. sensações. XII • n . a 80 INTERAÇÕES • V OL . capítulo III) mais um fetiche produzido pela crítica moderna. para os críticos sociais. ela seria demasiado política e plural. Para que esta representação natural dos seres humanos? Qual seria o papel desses operadores das ciências naturais nesta “intrusão” no domínio humano? Esta mistura com as práticas sociais e conceitos antropológicos serviria. mas possui. e por conseguinte o surgimento de mais e mais híbridos. o da nossa autonomia enquanto atores humanos livres e o da nossa determinação a partir de constrangimentos naturais. indivíduos e interioridades. a psicologia talvez nada produza de novo. antes de tudo na produção de individualidades. invariantes funcionais. má política e por demais naturalista.

57-86 • JUL -DEZ 2006 . não no início. a sugestão é que cada ciência social investigue os vínculos característicos de sua disciplina: “Afirmar que sob as relações legítimas existem forças invisíveis aos atores que não poderiam ser discernidas senão pelos especialistas das ciências sociais. Ele inicia questionando o saber moderno do cientista social. têm um papel muito mais útil que aquele de definir. antropologia. . As ciências sociais. que cobririam com seu manto tais forças invisíveis que não poderíamos ver sem desanimar. tão intensamente vividas quanto mentirosas. compor progressivamente o mundo comum. 6) Conclusão Como a psicologia poderia entrar neste contexto de análise? Na conclusão de um volume dedicado a investigar o que seria na contemporaneidade a ecologia política (Latour. história. para que o leitor acompanhe o argumento de Latour..o 22 • p. geografia. R ONALD J ACQUES A RENDT mestiçagem. os sociólogos menos ainda. o autor sintetiza. economia. numa seqüência primorosa. não já lá. antropofagia e a hibridação como signos fortes para este saber? A psicologia não seria nem moderna. as forças que os manipulam sem o seu conhecimento. guardemo-nos de utilizar a sociedade para explicar o comportamento dos atores. XII • n . M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . Contra a proposta de domínio. Como a natureza. Aqui a necessidade imperativa de uma pragmática forte que dê conta da fabricação de sujeitos híbridos. e pela mesma razão. Os atores não sabem o que eles fazem. a sociedade se encontra no fim da experimentação coletiva. nem pré-moderna. 1999-b). Se é preciso. é preciso rejeitar mais vigorosamente ainda as ciências sociais quando elas a aplicam ao coletivo concebido como sociedade. algumas idéias aqui descritas na seção 2.. no lugar dos atores e freqüentemente contra eles.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . e qualidades segundas.a. Se é necessário rejeitar as ciências naturais quando estas fazem uso desta dicotomia. Colocaremos a citação na íntegra. sociologia. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. proprietário exclusivo de um saber que só ele domina. não toda feita. nem mesmo pós-moderna (que nada mais seria que o sentimento de desencanto e impossibilidade mediante o fracasso moderno). com as ciências naturais. mas nas palavras de Latour: simplesmente a-moderna na sua prática. equivale a utilizar o mesmo mecanismo da Caverna utilizado para a metafísica da natureza: existiriam qualidades primeiras – a sociedade e suas relações de força – que formariam a disposição essencial do mundo social. O que manipula os atores é desconhecido 81 INTERAÇÕES • V OL .

296/7). A última coisa que precisamos. Esta tese nos faz pensar no social não em termos de relações entre homens. mas sim em termos de processo. p. A ecologia política marca a idade de ouro das ciências sociais enfim libertadas do modernismo”.: Nós ignoramos as conseqüências coletivas de nossas ações. Se tipos muito comuns são capazes de tornar-se sábios exatos e meticulosos graças ao equipamento de seus laboratórios. Mas. o mundo a vir. –grafias. –nomias tornam-se então indispensáveis se elas servem para propor constantemente ao coletivo novas versões do que ele poderia ser. redevenir maître de soi.. podemos contar com as ciências sociais (friso nosso) oferecendo aos atores versões múltiplas e rapidamente revisadas que nos permitam compreender a experiência coletiva na qual estamos todos envolvidos.. imaginese o que cidadãos comuns poderiam se tornar se eles se beneficiassem.REDE ? de todos. a cognição. Aqui o termo social não designa a matéria de que é feita alguma coisa. Então uma psicologia social não é aquela que lida com o homem em sociedade..). (Latour. guardado o traço das singularidades. Esta talvez seja uma lição importante para a psicologia: além de seguir os vínculos entre homens. Mas e a psicologia? Afinal de contas.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . de produção. mas aquela que acompanha. aos não humanos? Como nos situamos na rede? O indivíduo é um nó da rede que interfere e sofre sua pressão? Qual a participação da psicologia nos coletivos em construção? São perguntas que deixamos em aberto ao leitor – ou que constituirão temas para outros artigos. Com as ciências sociais o coletivo pode enfim se retomar (se ressaisir.. de ação. é que componham. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . XII • n . para pensar o coletivo.o 22 • p. no original. Todas as –logias. o que tudo isso tem a ver com a psicologia? Há uma tese importante na teoria ator-rede: a idéia da fabricação. em termos psicológicos. trata-se de incluir os vínculos entre humanos e não-humanos e mais do que isso trata-se de perguntar pelos efeitos que tais vínculos produzem. 1999-b. 2º a Enciclopédia Hachette. Estamos intrincados pelas relações arriscadas cuja contextualização provisória deve ser objeto de uma constante re-presentação. do equipamento das ciências sociais. incluídos os pesquisadores em ciências sociais. O que nos vincula? Como nos vinculamos. para investigar sobre o que nos vincula. em nosso lugar. . mas os processos através dos quais são construídos os fatos. tornar-se outra vez mestre de si. 82 INTERAÇÕES • V OL . implicada no limite da noção de rede.

A observação desses atendimentos ocorreu durante o Programa de Doutorado com Estágio no Exterior (Capes) realizado por Alexandra Cleopatre Tsallis em 2002. redefinem a nossa cognição. 2 3 4 5 6 9 7 83 INTERAÇÕES • V OL . Para trabalhar este conceito. modificam nossas ações. Renunciar a psicologia construída até então seria percorrer os caminhos da denúncia crítica. p. por outro é o fato de todos estarmos dedicados às discussões da psicologia contemporânea de uma forma renovada. 1985. produzem efeitos no mundo. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. 1991. pr exemplo. uma vez que condensa uma série de contribuições destes outros trabalhos em um único modelo: o do Sistema Circulatório. Apesar de Latour descrever em vários trabalhos a especificidade do saber científico (conferir Latour.5-6. 1997 e 1998-a). Latour (2001) se insurge contra a pretensão de verdade definitiva da Ciência moderna. 2002-b. Portanto. despsicologizar não seria abandonar de um todo a psicologia tal qual a concebemos e sim pensá-la em suas possibilidades de aliança com os não-humanos.A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Os não-humanos. a ABRAPSO (Porto Alegre. Dessa forma. com “C” maiúsculo. 2000-b. 1998-a. R ONALD J ACQUES A RENDT segue. Se por um lado o que nos une é o interesse pela obra desse autor. Podemos encontrar referências à psicologia nos seguintes textos de Latour: 1985. 1993) indica. o processo de fabricação do homem e dos objetos. bem distinta do quadro das epistemologias tradicionais. ver Latour 2002-a e Latour. 1992. 17 de outubro de 2003). despsicologizar aqui é pensar uma psicologia que faz-fazer uma singularidade que não pertence somente aos humanos. Assim. este texto será abordado em especial. pp. que a noção de rizoma é perfeita para entendermos a noção de rede.têm agência. sem dúvida. Estranha psicologia esta. Notas 1 Este artigo é resultado de uma mesa redonda realizada no Encontro nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. já que falamos de uma psicologia que lida também com os não humanos. Latour (apud Crawford. as dicotomias estariam dando lugar a um tecido inteiriço que produz efeitos. 8. XII • n .o 22 • p. 1989. mas também aos não-humanos. Conferir Stengers. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . faz emergir os actantes em suas trajetórias inusitadas.

M. I.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR . 34. On Recalling ANT. Bauru. Proteo. LATOUR. Acesso em setembro de 2003.) Lógica y conocimiento cientifico. B.pp. In: LAW. LATOUR. J. CRAWFORD. 84 INTERAÇÕES • V OL . (orgs) Actor Network theory and after. Ce qui nous relie.o 22 • p. A Esperança de Pandora. Acesso em setembro de 2003. Separação entre Mente e Matéria domina reflexões acerca do conhecimento. H. Editions de l’Aube. Etnopsychologie de l’authenticité. La Tour d’Aigues. Rio de Janeiro. LATOUR.html. (2001). B. B. Oxford. (2000-b) Factures/fractures.fr/~latour/articles/article/087. (org. V.(2002-a) The promises of constructivism . Disponível na Internet via www. The John Hopkins University Press.(2002-c) A Dialog on ANT. Folha de São Paulo. p. (1973) O que é psicologia? Tempo Brasileiro nº 30/31. Paris. Disponível na Internet via http://www. LATOUR. EDUSC. In: PIAGET. São Paulo. Ed. Comment faire entre les sciences em démocratie. (1999-b) Politiques de la nature. In MICOUD.fr/~latour/articles/article/090. XII • n . 247-268. DESPRET. et PERONI. LATOUR. (2000-a) A ciência em ação: como seguir cientistas e engeheiros sociedade afora. 15. 57-86 • J UL-DEZ 2006 . EDUSC. B. B. Mais!. Capitalismo e esquizofrênia. In: __________ Mil Platôs.REDE ? Referências Bibliográficas CANGUILHEM. Rio de Janeiro. Paris. 189-208. G. P. 4 de janeiro d. Synthelabo. (1970) Epistemologia da Psicologia. & GUATTARI. B. G. B. B. LATOUR. Unesp. J. Blackwell Publishers. (1998-a) Os Filtros da realidade. LATOUR.ensmp. F. Éditions la Découverte. vol. Buenos Aires. & HASSARD. Latour. (2002-b) Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. J. LATOUR. A. GRECO.(1999-a). (1999) Ces émotions que nous fabriquent. (1993) An interview with B. Bauru. De la notion de réseaux à celle d´attachement. B. LATOUR. pp. (1995) Introdução: Rizoma.html.ensmp. DELEUZE.

2 de novembro. STENGERS. LATOUR. p. B. 3. LATOUR. B. Science. B. Culture technique. LATOUR. 13 de setembro. M. A RTHUR A RRUDA LEAL F ERREIRA. Vol. In: KNORR. Folha de São Paulo. (1991) The impact of Science Studies on political philosophy. (2001).A LEXANDRA C LEOPATRE T SALLIS . Rés Editora. Editora 34. (s/d) A comunicação. B. XII • n . nº 1. (1997) As Variedades do científico . Londres. Technology & Human Values. NATHAN.o 22 • p. (1992) Give me a laboratory and I will rise a world. Paris. LATOUR. 14. Sage Publications. 16. Portugal. M. T. Folha de São Paulo. Nous ne sommes pas seuls au monde. Les empêcheurs de penser en rond. (1989) Quem tem medo da ciência? São Paulo. M ARCIA O LIVEIRA M ORAES . vol. (1985) Les “vues” de l’ espirit. p. (1998-b) Universalidade em pedaços. & MULKAY. Mais!. LATOUR. Siciliano. B. (1994) Jamais fomos modernos. 57-86 • JUL -DEZ 2006 . SERRES. 85 INTERAÇÕES • V OL . Une introduction à l’ anthropologie des sciences et des techniques. B.3. I. Mais!. (eds) Science Observed. Rio de Janeiro. K. R ONALD J ACQUES A RENDT LATOUR.

sala 310 São Domingos – 24210350 – Niteroi. 524 – sala 10019/Bloco F Maracanã – 20559900 – Rio de Janeiro.REDE ? ARTHUR ARRUDA LEAL FERREIRA Endereço:Avenida Pasteur 250 – Pavilhão Nílton Campos Praia Vermelha – 22290240 – Rio de Janeiro.O QUE NÓS PSICÓLOGOS PODEMOS APRENDER COM A TEORIA ATOR .br RONALD JACQUES ARENDT Rua São Francisco Xavier. RJ – Brasil Telefone: (21) 5877304 Fax: (21) 5877284 E-mail: mestpsi uerj Br recebido em 25/06/05 versão revisada recebida em 08/11/05 aprovado em 17/06/06 86 INTERAÇÕES • V OL . RJ – Brasil Telefone: (21) 22953208 Ramal: 148 Fax: (21) 22953185 E-mail: arleal superig com.br MARCIA OLIVEIRA MORAES Endereço: Campus do Gragoatá s/nº Bloco O. XII • n . 57-86 • J UL-DEZ 2006 . RJ – Brasil Telefone: (21) 26292855 E-mail: mmoraes vm uff.o 22 • p.

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