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Vias públicas Saúde Segurança Educação Trabalho

Bairro convive com Unidade de saúde é Moradores sofrem Creches da Catadores de lixo
vias públicas mal interditada e com a falta de comunidade não também sofrem com a
estruturadas, buracos substituída por segurança e abuso de atendem à demanda e crise financeira e
e falta de iluminação. casa em situação autoridade por parte mães não podem vendem os materiais
Pág 3 precária. Pág 4 da PM. Pág 7 trabalhar. Pág 5 mais barato. Pág 6

extra Jornal-laboratório do Curso de


Comunicação Social da Unisul

Tubarão | Ano 15 | Número 2 | Junho de 2009

JARDIM FLORESTA
Retrato de uma comunidade
Foto: Samira Pereira
extra
Junho de 2009 OPINIÃO 2

Preocupação de todos Saneamento básico: mais um


Gislaine Fernandes
problema do Jardim Floresta
Chênia Cenci enfatiza Silva.
Todos sabemos da fundamental e ensinando as crianças desde Editado por Sandra Neckel
Segundo a moradora Helena
importância que os cuidados com o pequenas a cuidar da “mãe Batista, no início do ano, com as fortes
saneamento básico representa em natureza”, jogando o lixo nos locais Um problema que cada vez mais chuvas, o nível de água em alguns
nosso dia adia. Vivemos em dias apropriados e plantar árvores. indigna brasileiros, incomoda também pontos da comunidade chegava na
surpreendentes. Sentindo o planeta Não podemos esquecer da parte da população da comunidade cintura. “Tínhamos que nos arriscar e
terra esquentando intensamente a importância em economizar a água, Jardim Floresta. Cerca de 60% das passar pelo meio da água. É uma
casas já tem saneamento correto, mas situação delicada e precisamos de
cada dia. Mas sabemos que as pois presenciamos a escassez da
os outros 40% ainda sofrem com o solução o mais rápido possível”.
causas das agressões do meio mesma, diariamente. Devemos fazer
problema. Conforme a vigilância sanitária,
ambiente são de ordem política, mobilizações, incentivando, a A falta de rede de saneamento pode diversos pedidos já foram encami-
cultural e econômica. população e os empresários, a por ser vista nas casas, onde o esgoto corre nhados à prefeitura para que o
Estamos cientes que temos uma em prática ideias com ações de a céu aberto, causando mal cheiro e problema seja resolvido.
parcela de culpa nesses fenômenos projetos ambientais, como, por deixando os moradores, Em contato com a prefeitura, a
que vêm ocorrendo, por não exemplo, o reflorestamento. principalmente as crianças, sujeitas às funcionária Amanda Roberta Torres
contribuirmos tanto quanto o doenças como cólera, amebíase e afirma que o problema será resolvido
necessário na preservação da Bem comum hepatite. o mais rápido possível, sabendo que
natureza. São lixos e esgotos Segundo o morador Luiz Augusto existem outras áreas da cidade que
O meio ambiente vem sendo da Silva, em dias de chuva as bocas-
jogados a céu aberto, que a gente também estão na mesma situação.
considerado, desde a década de de-lobo entopem, gerando um grande “Sabemos que tudo isso é muito
vê em alguns locais de nossa
1970, um “bem comum da transtorno para os moradores. grave, que vidas podem estar em
cidade.
humanidade”, evoluindo no sentido “Precisamos que a comunidade tenha perigo, mas não podemos atender
Para minimizar o problema do
em que se refere ao nosso “interesse rede de esgoto correta em todas as todas as pessoas de uma só vez, temos
aquecimento global, precisamos nos casas. Já procuramos a prefeitura
comum”. Principalmente neste que impor prioridades e fazer as coisas
reeducar, aprender a valorizar o diversas vezes e sempre prometem bem feitas e com calma”, afirma a
momento contemporâneo, industrial,
nosso planeta, esse tão precioso lar. ajudar, mas até agora nada foi feito”, funcionária.
capitalista, globalizado e muito
Não devemos ficar apenas culpando
consumista. Foto: Denise Medeiros
as autoridades e órgãos públicos,
Precisamos, em nossos lares e
deixando a responsabilidade de
através de palestras para alunos e
preservação ambiental e social só
funcionários nas escolas, enfatizar a
com os mesmos.
importância de reciclar os lixos,
separando os orgânicos dos tóxicos,
Contribuição isso será uma grande contribuição
Logicamente, não podemos para minimizar a degradação
esquecer de ir atrás das autoridades, ambiental.
cobrar das mesmas uma solução Sabemos que cuidando do
para a falta de saneamento planeta terra hoje, contribuiremos
adequado. Estamos cientes que para um saudável mundo do
devemos fazer nossa parte, amanhã, onde nossos filhos e netos,
contribuindo de forma positiva, assim como nós, poderão viver vidas
abraçando essa causa, que é mais saudáveis e prolongadas. Um
compromisso de todos nós. país tão lindo e rico por natureza,
Precisamos acordar enquanto que é o nosso Brasil, deve ser
ainda há tempo, nos conscientizando conservado e valorizado. BOCAS-DE-LOBO entupidas geram alagamentos em várias ruas do loteamento

extra Jornal-laboratório do Curso de Comunicação Social – Jornalismo – da Unisul, Campus Tubarão

Fale com a gente! Textos e fotos: alunos do 6º semestre/Prof. Cláudio Toldo | Edição: alunos do 7º semestre/Prof. Ildo Silva | Opinião: alunos do 7º
ESPAÇO DO LEITOR semestre/Profª. Darlete Cardoso | Diagramação: alunos do 7º semestre/Jornalismo | Capa: Bruna Borges e Kelley Alves, foto de
O Extra precisa da sua opinião Samira Pereira, 6º semestre/Jornalismo | Contracapa: Danielle Zabotti, aluna do 4º semestre de PP/Profª. Valéria Braga
agcom@unisul.br Coordenadora do Curso de Comunicação Social: Profª. Darlete Cardoso
(48)3621-3303 Coordenador do Jornal-laboratório: Prof. Cláudio Toldo | Impressão: Gráfica Soller

Reitor: Ailton Nazareno Soares | Vice-Reitor: Sebastião Salésio Herdt | Pró-Reitor Acadê-
mico: Mauri Luiz Heerdt | Chefe de Gabinete: Willian Corrêa Máximo | Secretário-Geral da Curso de Comunicação
Reitoria: Albertina Felisbino | Pró-Reitor de Administração e Assessor de Desenvolvimento Social
Humano e Profissional: Fabian Martins de Castro
extra
Junho de 2009 VIAS PÚBLICAS 3

Situação das ruas preocupa cidadãos


Ruas esburacadas, falta de pontos de ônibus e postes sem luz atrapalham o bem-estar da comunidade

Mariana Alcântara Fotos: Samira Pereira


Editado por Caroline Bitencourt e
Fabiana Pangrácio

A última obra feita nas vias


públicas da comunidade Jardim
Floresta foi em 2003, desde
então não arrumaram mais nada.
Algumas ruas do local são
asfaltadas, mas parecem inaca-
badas, muitas são estradas de 3
terra esburacadas. Existem
muitas bocas coletoras, conheci-
das também como “bocas de
lobo”, são estruturas hidráulicas
para captação das águas superfi-
ciais transportadas pelas sarjetas.
São buracos no chão que ficam
cheios de lixo impedindo a
absorção da água da chuva.
Os moradores locais estão
preocupados, já que quando
acontecem chuvas fortes tudo fica
alagado, e a água entra para os
quintais, chegando a invadir
algumas casas. Além do estrago
aos móveis, existe a preocupação
com a leptospirose que é uma
doença infecciosa transmitida
pela urina de rato. Essa doença
é perigosa e pode matar. “As
crianças brincam na rua alagada,
se divertem com isso e podem REIVINDICAÇÃO: moradores sugerem que lajotas retiradas de outras vias sirvam para pavimentar ruas do loteamento Jardim Floresta
acabar ficando doentes”, Manoel é a pavimentação das para colocar asfalto, deveriam Em alguns locais as lâmpadas entrou em contato com aqueles
preocupa-se seu Manoel ruas, já que a prefeitura asfaltou dar para nós essa lajota usada, dos postes eram quebradas que quebravam as lâmpadas e
membro da Associação de várias, tirando as lajotas antigas. seria muito bem vinda”, diz. com pedras para que o tráfico pediu para que parassem,
Moradores do loteamento “Tem rede de esgoto em tudo, Os ônibus passam regular- de drogas e a prostituição porque prejudicava os próprios
Jardim Floresta. mas falta terminar a pavimen- mente, faltam abrigos na ficassem camuflados. Mas a moradores e a situação foi
Outra reivindicação de tação. Eles tiram lajotas boas maioria das paradas de ônibus. Associação de Moradores resolvida.

Os moradores reclamam
Vera Lúcia Batista, auxiliar de cobrança, mora no Jardim Floresta há 17 anos com seus
dois filhos. Ela diz que a última chuva forte que aconteceu alagou as ruas por causa do
entupimento das bocas de lobo. “Encheu o pátio todo, faltou pouco para entrar em casa, só
não entrou porque a casa é alta”, conta. Quando este tipo de situação acontece fica difícil ir
para a escola e trabalhar, porque a água fica na altura da canela. Vera tem medo da “doença
do rato” que pode atingir os seus filhos.“A prefeitura tem que vir arrumar isso logo”, reivindica.

Cíntia Alves, estudante de 19 anos que mora na rua Dalmari Luciano Luiz junto com a
mãe, padrasto e um irmão, conta que a chuva é um transtorno e incomoda muito sua rotina.
“A própria comunidade é que teve que desentupir as bocas de lobo, porque se depender das
autoridades nada acontece” relata. Os vizinhos tiveram que ajudar a levantar os móveis, já
que a casa fica no mesmo nível da rua. “Queria que calçassem a rua e arrumassem os bueiros
para que não tivéssemos mais que passar por isso”, pede Cíntia.
BECOS: além das estradas, moradores criam ruelas mal conservadas
extra 4
Junho de 2009 COTIDIANO
COTIDIANO

Sem área de lazer e diversão


Crianças precisam deixar o loteamento e ir até o bairro vizinho em busca de brincadeiras
Fotos: Denise Medeiros Denise Medeiros particular do bairro vizinho, o Com uma estrutura aqui seria o espaço e eles pediram a troca
Editado por Mariana Alcântara e mais fácil”, completa de um ano do IPTU por um ano
Rafaela Pereira
Andrino.
Sábado de sol, por volta das Dona Jane diz ainda que não de aluguel, mas a prefeitura
Sábado, para quem não nove da manhã, os contem- é só uma praça que falta no negou”, afirma.
estuda ou trabalha, é um dia plados se reúnem no local bairro. “Eu participo do clube de Ao ser questionado sobre a
propício para dormir até tarde, combinado para juntos irem até mães daqui e não temos uma construção de alguma área de
certo? Errado. Ao menos não é o campo. A bola começa a rolar sede da comunidade, as lazer no Jardim Floresta, o
assim que funciona no Jardim já no meio da rua e enquanto a reuniões tem que ser feitas na secretário de serviços públicos
Floresta em Tubarão. Lá, as diretora não chega – é ela quem escola e à noite. Por causa disso de Tubarão, Fabiano Bitten-
crianças acordam logo cedo e, leva a molecada até o destino – o número de vagas é limitado e court, relata que a prefeitura
ou vão brincar nas ruas ou vão eles testam as chuteiras e luvas. temos que fazer um rodízio para está realizando o corte de
jogar futebol. Até aí tudo bem, Gustavo de oito anos veio que mais mulheres possam várias árvores na beira-rio que
a prática de esportes é muito acompanhado da mãe, a dona- freqüentar”. Ela lamenta ter que estão oferecendo risco à
saudável e deve ser incentivada de-casa Jane de Godoi Rosa. sair no próximo ano, já que seu população. “Toda a madeira
sempre. O problema é que o “Foi uma bênção meu filho tempo no clube está se será utilizada em obras
bairro não conta com um lugar participar desse campeonato, esgotando. públicas, queremos construir
apropriado para isso. Lá não antes disso acontecer ele só O presidente da associação praças em diversos bairros,
tem praça nem campinho. ficava dentro de casa brincando de moradores do loteamento, incluindo o loteamento Jardim
Este mês, alguns garotos que sozinho”, diz Jane. O menino Odimar Luiz, diz que a comu- Floresta”. Mas, quando a
frequentam a escola municipal não se relacionava com outras nidade tentou um acordo com a pergunta é sobre prazos, o
da localidade foram sorteados crian-ças da sua idade. “Agora prefeitura. “Aqui no loteamento secretário não sabe responder.
para participar de um ele adora vir jogar com os tem uma associação de Enquanto isso, as crianças da
campeonato de futebol. A coleguinhas. O único problema funcionários de uma fábrica que localidade continuam acordan-
competição acontece nos fins de é que aqui no bairro mesmo não não existe mais. Conver-samos do cedo no sábado para se
A RUA se torna local de lazer semana em uma escolinha temos um campo ou pracinha. com os responsáveis para usar divertirem no bairro vizinho.

Prefeitura interdita unidade de saúde


João Pedro Alves residência adaptada não dispõe ocorre em outros locais. “Pelo Fotos: João Pedro Alves
Editado por Mariana Alcântara e
Suellen Souza
de condições básicas de quadro reduzido da prefeitura,
conforto. “A situação é pre- as profissionais dos serviços
Uma solução que começou cária. A casa não tem espaço e gerais atendem a mais de uma
com um grande problema. O muita gente que fica na fila se unidade, portanto não podem
posto de saúde Passagem II foi molha quando chove”, diz o estar todos os dias da semana
inaugurado no ano 2000, na aposentado Francisco Nazário. lá”, explica. “É questão de
gestão do prefeito Carlos Segundo ele, muitas pessoas política pública. A administra-
Stüpp. De acordo com um chegam de madrugada para ção municipal foca no Programa
agente de saúde desta unidade conseguirem agendar um Saúde da Família (PSF), onde
que prefere não se identificar, horário de consulta. “Às 4h da há mais profissionais contra-
o local apresentava racha- manhã já tem gente lá. Eles tados”, justifica. Dados da
duras. “Na inauguração fizeram esperam na rua até a primeira Secretaria Municipal de Saúde
remendos para não aparecer enfermeira chegar, às 7h, apontam Tubarão como a
para a imprensa”, afirma. A quando ela abre o portão da cidade com a maior cobertura
ação do tempo ampliou as casa”, relata. de PSF entre as 18 maiores de
fendas na estrutura do prédio O quadro reduzido de Santa Catarina.
até ficar impossível a manuten- funcionários dificulta o aten- O aposentado de 62 anos
ção dos serviços com seguran- dimento à população. O agente vive no bairro Jardim Floresta
ça. “No ano passado nós de saúde informa que no posto e conhece as filas da “casa de
interditamos o lugar porque trabalham, além dele e dos saúde”. Para ele, a falta de RACHADURA deixou visível problema de estrutura no Passagem II
tinha risco de cair”, confirma o onze colegas de função, “uma organização resulta nas ma- região onde vivem aproxima- assunto ainda não foi discutido
secretário municipal de Plane- enfermeira, uma auxiliar de drugadas de espera dos damente 4,2 mil pessoas. com o prefeito Manoel Berton-
jamento, Edvan José Nunes. enfermagem, um médico pacientes. “Se fosse marcado “Muita gente vai ao posto cini e com o secretário de
Para manter o atendimento (quando tem), e uma dentista”. por telefone, igual a consultório porque não possui plano de Saúde, Roger Vieira e Silva.
à população, a Prefeitura Conforme o funcionário, a particular, acabava com esse saúde”, salienta. “Não há previsão de projeto.
decidiu fazer a mudança para auxiliar de enfermagem ainda problema”, pensa. Em contra- Os atendimentos devem Recuperar o prédio antigo é
uma casa na frente do posto, acumula a função da limpeza. partida, o agente de saúde permanecer na residência por inviável e o correto é fazer um
em março deste ano. Os O secretário de Saúde de adverte: “por telefone, em duas um longo tempo. Segundo o novo. A diferença entre os dois
moradores atendidos pelo Tubarão, Roger Vieira e Silva, horas marca o mês todo”. O secretário de Planejamento de lados da fundação”, revela
Passagem II reclamam que a diz que situação semelhante Passagem II abrange uma Tubarão, Edvan José Nunes, o Nunes.
extra
Junho de 2009 EDUCAÇÃO 5

Mães pedem vagas em creches


CEI que atende crianças do loteamento recebe pedidos o ano inteiro, mas não tem berçário e pré-escola
Viviane Slussarek “Graças a Deus, meu filho é Foto: Samira Pereira
Editado por Bruna Borges consciente. Ele viu meu
e Kelley Alves
sofrimento com o pai dele que
“Para conseguir vaga na era viciado e morreu de
creche, a mãe já tem que estar overdose. O problema é mãe e
trabalhando. Não adianta ficar pai que usam drogas dentro de
na fila de espera se não tiver casa e não têm condições de
serviço. Mas aí se conseguir o cuidar dos filhos. Essas crianças
emprego depois, não tem onde teriam que ser afastadas do
deixar a criança”. O desabafo convívio da família”, sugere.
é de Viviane Abreu Helena, de A diretora do CEI Estrelinha
30 anos, mãe de quatro filhos. Brilhante, que atende 150
Ela conseguiu emprego para crianças, concorda com a mãe.
fazer serviços gerais no Margareth de Medeiros da
consultório de um dentista em Silva diz que até quem não
Tubarão. Trabalha das 6 horas trabalha precisa ter um local para
da manhã até as 2 da tarde. deixar os filhos. “A família não
Nesse período, os três filhos consegue dar educação,
maiores - de oito, 12 e 15 anos alimentação, condições de
CONSEGUÊNCIA: crianças nas ruas, dificuldade no aprendizado e uso de drogas
– ficam numa escola no Bairro higiene e cuidados de saúde”,
Humaitá. Estudam de manhã e acrescenta. A instituição recebe de ampliação de vagas e, talvez, ordem está garantida. “Temos do município acredita que é
à tarde participam de atividades pedidos de vagas o ano inteiro. a construção de novas unidades vigilante dia e noite para dar possível proporcionar o reforço.
na Combemtu (Comissão Precisaria ter pelo menos mais nos bairros. No caso do segurança aos alunos. O Apenas teria que ser estudada
Municipal de Bem-Estar do duas salas para turmas de atendimento das crianças que ambiente é normal, como de a melhor forma para isso.
Menor de Tubarão). A berçário e de pré-escola. Além chegam doentes, a única saída qualquer outra escola.” Entre os adultos que
preocupação mesmo é com disso, o ideal seria que uma por enquanto é encaminhar aos estudam à noite, a desistência
Crislaine, a filha menor, de equipe médica prestasse postos de saúde. “Tem muita Aulas de reforço e o abandono da sala de aula
quatro anos. Normalmente, ela atendimento na creche durante coisa a ser feita. Precisamos preocupam. O vigilante
fica com a avó. Quando dá determinados dias da semana, adaptar as construções de Os alunos têm dificuldade no Manoel Francisco de Jesus, pai
tempo, Viviane a deixa no porque muitas crianças chegam acordo com o que o Ministério aprendizado. Muitos não fazem de Daniel, um jovem de 20
Centro de Educação Infantil adoentadas e sem tratamento. da Educação exige. O desejo tarefa de casa e nem podem anos, procurou a diretora para
Estrelinha Brilhante antes de ir da prefeitura é que o contar com a ajuda dos pais – saber se o filho poderia voltar
para o trabalho. O problema é Ajuda e doações atendimento melhore, mas na muitos deles são analfabetos. a frequentar o EJA depois de
que a criança não pode ficar o administração pública, as Um dos índices que reflete essa um mês sem aparecer na
dia inteiro na escola. Tem que A administradora escolar da mudanças dependem de realidade é o da Provinha Brasil escola. “Ele frequenta o
almoçar em casa. “O bom seria Fundação Educacional Creche verbas”, complementa. (avaliação adotada pelo equivalente a sétima e oitava
se tivesse onde deixar o dia Joanna De Angelis, Nilce A Escola Municipal de Ministério da Educação para séries do ensino fundamental e
todo, pra não se preocupar com Margotti, também concorda Educação Básica Manuel medir a qualidade do ensino nas não gosta muito dos estudos,
a comida. Na única creche do que é necessário ampliar as Rufino Francisco atende 319 séries iniciais), aplicada nas não. Até fiquei feliz quando ele
bairro, a Joanna De Angelis, não vagas. Ela diz que “hoje é feito alunos do Loteamento Jardim turmas de segunda e terceira veio me dizer que era pra
tem mais vaga”. um estudo entre as famílias para Floresta, Bairro Passagem e séries. Em 2007, foi de 2,9% e perguntar se podia voltar
selecionar as que mais arredores. Durante o dia, em 2008, 4,3% quando a meta agora. Se tiver uma chance,
Crianças na rua necessitam deixar as crianças, oferece ensino fundamental e, à era 6%. Este ano a expectativa tem que aproveitar”, diz o pai,
mas todo dia chegam pedidos”. noite, o EJA (Educação para também não é das melhores. esperançoso.
Viviane assume as dores das A creche presta atendimento Jovens e Adultos) com mais 47 “Nós precisamos de aulas de Entre as atividades extra-
mães que moram no Jardim integral. Oferece até cinco alunos. reforço para esses alunos, curriculares, os alunos
Floresta e estão na mesma refeições por dia, mas precisa A professora Alair Martins principalmente nas disciplinas de participam do Projeto
situação. “Aqui tem bastante da ajuda de doações para Ghisi trabalha na escola há 13 Português e Matemática. Já Construtores da Paz com aulas
mãe que precisa. Tem mãe de manter o funcionamento. O anos e assumiu a direção no temos para a primeira série, de informática, grupos de
cinco filhos que não consegue município paga os salários dos início de 2009. Ela relata que as onde um professor dá aulas dança e rádio-escola. Para
trabalhar porque não tem onde professores. Outras situações encontradas são as duas manhãs por semana para integrar a comunidade ao
deixar as crianças”. Ela diz que necessidades como despesas mais diversas. Desde alunos que ajudar aqueles que têm mais convívio escolar, são
o ideal seria abrir uma nova fixas de manutenção, não têm o que calçar ou vestir, dificuldades”. Segundo a desenvolvidas atividades para
creche no bairro, para atender alimentação e materiais de até aqueles que aparecem com diretora, há salas disponíveis grupos de mães como pintura
as famílias. Uma das higiene são mantidos com a roupas de grife. Nesses casos, para essas aulas de reforço. O e artesanato. Até mulheres que
preocupações é deixar as ajuda da comunidade. não é novidade para ninguém município teria que colocar não têm filhos estudando
crianças pela rua. É grande o A secretária adjunta de que o dinheiro veio do tráfico. apenas um professor, que costumam ter interesse em
risco de envolvimento com Educação do município, Mesmo consciente dessa poderia ser um estagiário. participar dos cursos, que
drogas, já que o tráfico está Rosimeri da Cunha Galvani, realidade, a professora diz que Sobre essa necessidade, a ampliam o conhecimento geral
presente no dia-a-dia do bairro. informou que existe um projeto dentro do pátio da instituição, a secretária adjunta de Educação e ocupam essas pessoas.
extra
Junho de 2009 TRABALHO 6

Comunidade sobrevive de resíduos


Moradores do Jardim Floresta enfrentam dificuldades no mercado de trabalho
Samira Pereira precisava dentro de suas condições. Os Foto: Samira Pereira
Editado por Alexandra Blazius preços começaram a baixar, e
consequentemente os lucros também
“Tem hora que dá um desânimo. diminuíram. “Imagina só, eu vendia o
Vontade de parar com tudo e largar o quilo do ferro por 30 centavos, e hoje
trabalho, mesmo que eu saiba que não a empresa compra por apenas cinco.
vá adiantar nada”. É isso o que diz Luiz Geralmente no fim do ano os valores
Gonzaga, 52 anos, residente no abaixam mesmo, mas voltam ao normal
Loteamento Jardim Floresta. Seus um ou dois meses depois. Mas isto não
olhos tristes denunciam a atual situação aconteceu, os preços continuam muito
financeira. Ele trabalha na coleta de baixos”, ressalta.
material reciclável há quatro anos e Gonzaga vai praticamente toda
garante que nunca passou por tamanha semana para Florianópolis vender o
crise. O telefone está cortado, todas as vidro que arrecada. Coloca o material
contas atrasadas e gasta com remédios. na Kombi e vende cada garrafa por 10
Sem falar do aluguel, alimentação, centavos. O automóvel é usado para
energia, água e combustível. “Está muito trabalhar, e sem ele, garante, a tarefa
difícil de continuar desse jeito, muito seria muito menos lucrativa. “Nunca
difícil mesmo!” passei pela crise que estou passando NOÊMIA e o companheiro saem todos os dias em busca de material para revenda
Gonzaga residia na capital do hoje. Está cada vez pior, não sei mais o
Estado, Florianópolis, e lá trabalhava
como caminhoneiro. Na época que se
que fazer. Vou ser obrigado a vender
minha Kombi, já que não tenho dinheiro
Negócio é pouco rentável
mudou para Tubarão, o segmento de para pagar o financiamento. Os preços Cerca de 20 famílias do vontade de parar com isso, mas não
material reciclável era bastante rentável. ainda estão baixos, mas as contas Loteamento Jardim Floresta vivem da consigo trabalho. Eles dizem que já
Comprou uma Kombi, que ainda hoje continuam no mesmo valor”, relata. coleta de material reciclável. Os estou velha, que não tenho idade para
usa como meio de transporte, e alugou Para piorar a situação, ao manusear objetos arrecadados são revendidos fazer outro tipo de atividade. Será que
um galpão nos fundos da casa. Também uma máquina de desmontar peças o para as empresas especializadas na imaginam que quem tem mais de 40
investiu na compra de equipamentos, ajudante de Gonzaga decepou um dos área. “A gente vende para quem paga anos não come, não bebe, não se
para diminuir a dificuldade em dedos da mão enquanto trabalhava. mais”, afirma um dos moradores. veste? Ou pensam que não precisam
desmanchar algumas peças e contratou “Isto me entristeceu mais ainda. Dá um Geralmente esta atividade resulta da de remédios? Pelo contrário, são
um ajudante para que o trabalho desespero passar por essa crise, falta de oportunidade de trabalhar em essas pessoas as que mais precisam
rendesse mais. Comprava de vizinhos ninguém queira imaginar como estamos outro ramo profissional. O negócio já de dinheiro e de um trabalho fixo para
e amigos o material para que pudesse vivendo”, ressalta ele. O coletor de foi bastante rentável, mas hoje a se manter”, enfatiza Noêmia.
revender. Arrecadava plástico, alumínio, material reciclável tem duas filhas, uma situação é inversa. A baixa naos A mulher sofre com labirintite
cobre, vidro, ferro e papel. Tudo ia de de oito anos e outra de apenas cinco preços assusta os coletores que ficam crônica, e não pode pegar sol. Por
vento em popa até novembro do ano meses. É casado, e a esposa passou por sonhando com o aumento do valor este motivo, além de todas as
passado, quando a crise financeira uma difícil depressão pós-parto. pago pelas empresas. despesas da casa, tem um gasto
passou a assolar também este segmento Recuperam-se juntos, apoiando um ao A crise neste segmento dificultou mensal e fixo na farmácia. “O remédio
comercial. outro nas horas mais difíceis. E assim a vida de muitos moradores da mais barato custa 23 reais. E eu tenho
Até então a situação era estável e seguem suas vidas, acreditando num localidade. E é isto o que ocorreu com que tomar todos os dias, senão capoto
lucrativa. Gonzaga mantinha a família amanhã mais digno, com melhores Noêmia Marcílio Borges, 52 anos. no meio da estrada. Como diz o
com dignidade, dando-lhes o que condições financeiras. Ela e o companheiro saem todos os ditado, ‘tiro dado, burro deitado’,
dias em direção ao centro da cidade esclarece.
Foto: Samira Pereira em busca do material para revenda. Noêmia vive com o companheiro
Têm uma carrocinha, puxada por um em uma casa pequena e simples, e
cavalo, que utilizam como meio de compartilham dos mesmos ideais de
transporte. “Gastamos mais com o vida. Não desejam ter ótimas
animal do que com a gente”, diz condições financeiras, mas sim poder
Noemia. Há 11 anos trabalham neste desfrutar de uma situação em que ao
segmento, e garantem que esta é a menos possam satisfazer suas
pior fase que já passaram. necessidades básicas e pessoais.
“Parece um castigo isto. Eu e meu “Sabe quanto tenho na carteira para
companheiro vamos até a praça passar a semana? Quatro reais, que
central duas vezes por dia, puxando vão ser usados para comprar nosso
tudo o que conseguimos. Para ter uma pão. Que Deus me ouça agora; e ele
ideia, entregamos na semana passada sabe que não estou mentindo. Desta
uma carga com mais de dois mil quilos forma não dá de viver, só pode ser
de papelão. Sabe quanto nos castigo. Não tem outra explicação”,
pagaram? Somente 170 reais. Dá fala Noemia.
GONZAGA deixou Florianópolis, onde era caminhoneiro, para trabalhar com resíduos
extra
Junho de 2009 SEGURANÇA 7

Moradores reclamam dos policiais


Segundo as mulheres, os PMs abusam da autoridade nas visitas ao loteamento
Foto: Samira Pereira

INFRAESTRUTURA precária e vielas de difícil acesso fazem do loteamento local propício para o comércio ilegal de entorpecentes, gerando insegurança na comunidade

Vivian Sipriano Uma mulher que prefere grupo de alunos de Jornalismo com os jovens da comunidade enfrenta dificuldades como a
Editado por Sandra Neckel não se identificar, seguia na na universidade. Na pauta, os é evidente. “Nem todos falta de urbanização, nível
Na primeira quinzena de direção de casa quando foi problemas do Loteamento podem ser discriminados”, cultural e econômico dos
maio deste ano, a Polícia abordada por dois policiais Jardim Floresta. Não sabiam argumenta o membro da habitantes. “Alguns moradores
Militar de Tubarão ocupou por militares. “Quando eles fazem eles que esse dia era 5 de maio, associação de moradores do agem com a intenção de
dois dias e meio o loteamento revista, sempre tem uma mulher Dia do Líder Comunitário. bairro. proteger amigos ou parentes
Jardim Floresta, no bairro junto, a gente já está Morador da Área Verde A maior necessidade dos que são traficantes de drogas.
Passagem. A operação, acostumada com essas coisas. desde que os filhos eram moradores do Jardim Floresta É comum esconderem
intitulada Fecha Quarteirão, Mas dessa vez, não”. A pedido crianças, ele conta que uma é a segurança. De acordo com narcóticos, inclusive, embaixo
manteve os moradores sob do mais velho, ela se das filhas tinha vergonha de aquelas pessoas, a falta de das roupas”, revela.
vigilância contínua durante 60 aproximou da viatura para ser dizer onde morava. “É difícil segurança não está somente A maior reclamação dos
horas. revistada. “Levanta a blusa”, tirar a imagem de Área em viver perto do comércio de moradores não é dividir o
O patrulhamento constante pediu o outro. “A blusa, não!”, Verde”, lamenta. A mudança drogas, mas também da espaço com comerciantes de
da PM em operações como revidou. de nome, feita há 6 anos, foi iminente violência quando há drogas, mas conviver com os
essa tem o objetivo de inibir a Segundo os moradores da proposital. ocupações da Polícia Militar. abusos da polícia, quando esta
criminalidade em locais como Área Verde, como é conhecida “A cidade tem vários “O GRT (Grupo de Resposta ocupa a comunidade.
o Jardim Floresta, conhecido a comunidade, não são raras outros lugares pesados, não é Tática) faz o trabalho e sai, a A orientação do comando
principalmente pelo tráfico de as vezes em que policiais só aqui”, reclama outra PM não. A PM é suja”, da Polícia Militar é de que o
drogas. A intenção dos PMs é masculinos fazem esse tipo de moradora, mãe de duas filhas, desabafa um morador. cidadão que se sinta lesado
realizar uma espécie de abordagem, principalmente em grata por nunca ter acontecido “O contexto em que vive procure a Corregedoria do
varredura na comunidade, mulheres, sem distinção de nada de mau à família. inserido o policial militar é um Batalhão para oficializar a
recolhendo armas de fogo idade. Manoel Francisco de Jesus dos motivos de, muitas vezes, queixa. “Não podemos adivi-
portadas ilegalmente e Em uma noite de terça- é vigilante aposentado e conta se igualar aos bandidos”, nhar quem comete os abusos,
impedindo qualquer atividade feira, Odimar Antônio Luiz que, pela experiência na conta o tenente coronel mas se isso realmente acontece,
relacionada ao narcotráfico. deixou a comunidade onde profissão, pode ‘reconhecer Eduardo Mendes Vieira. a população precisa denunciar,
Isso na teoria. Na última vive, da qual é o maior bandido de longe’. “Mau Segundo o comandante do mesmo que fique anônimo,
operação, não foi somente representante. Encontro elemento a gente conhece só Batalhão da Polícia Militar de através do 190”, orienta o
isso que aconteceu. marcado com professor e um pelo andar”. A preocupação Tubarão, a vistoria na área comandante Eduardo.