GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em História.

Área de concentração: História Social

Linha de Pesquisa: Cultura, relações sociais e gênero.

Orientador(a): Prof. Dr. Ildenilson Meireles Barbosa.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

Ao meu pai (in memorian)

que novas e importantes vias me abriram a entendimento da questão proposta. Drª Cláudia Maia e ao Dr. sobre todos. Marcos Nali. por vezes. À primeira. sou grato por todas as questões levantadas a propósito de sua defesa.Nada pode o esforço da razão sem o amor que impulsiona mesmo aquilo que desconhece. agradeço aos demais professores do programa e aos colegas historiadores que souberam receber um estrangeiro em sua pátria. Ildenilson. cujas faltas se devem unicamente ao ouvido. sem as quais certamente minha pesquisa não teria encontrados os parcos resultados que aqui apresento. E em seu nome. À confiança dele tributo o que há de bom nesta empresa. agradeço a todos os amigos na Academia e fora dele cujo convívio respeitoso na diversidade de opiniões tem me permitido construir uma melhor perspectiva dos problemas humanos. . meu orientador neste trabalho. mais do que a gratidão do discípulo para com o mestre senão uma amizade profunda e admiração sincera pelo caminhar tranquilo do sábio em que busquei me espelhar por vezes sem suficientes forças. com a minha mãe cujo esforço e incansável incentivo trouxe-me até aqui. Por fim. cujos cursos tive a oportunidade de assistir. Por isso. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Montes Claros. Aos examinadores. minha gratidão está. Deste trabalho e dos muitos anos de paciente auxilio resta ao Dr. sou grato ainda por todas as pertinentes colocações por ocasião da qualificação. presto o devido agradecimento pelo entendimento acerca das difíceis questões da Ciência Histórica que pude obter a partir das discussões e perspectivas a que tive acesso nos dois últimos anos. pouco dado aos seus conselhos.

se por um lado. Genealogia . nomeadamente a chamada Escola dos Annales. No momento em que se assiste um novo e renovado interesse pelo trabalho de Foucault no Brasil e no exterior. Annales. ainda menos. História Serial. é útil ponderar o quanto esse trabalho esteve de fato próximo do trabalho efetivo dos historiadores. assinala-se as ligações que o próprio Foucault confessa com a Escola dos Annales. teórico ou metodológico. Trata-se somente de assinalar a dispersão que a caracteriza e os principais pontos de contato com a historiografia na esperança de contribuir para um debate mais frutífero entre historiadores e filósofos.RESUMO A presente dissertação resulta de uma investigação sobre as relações entre o filósofo Michel Foucault e a comunidade historiográfica francesa. ao seu ofício. de outro pontuamos a diferença de projetos intelectuais que ocasionaram uma ruptura de parte a outra. De modo que. Arqueologia. PALAVRAS-CHAVE: Historiografia. tenta-se traduzir essa obra num conjunto de recomendações práticas. Trata-se de um conjunto de convergências e divergências que se podem fazer sentir ainda hoje naqueles historiadores que de algum modo se apropriam de aspectos do trabalho do filósofo francês em apoio. Não se realiza uma exegese de uma obra filosófica e.

Annales. to his office. Is not it an exegesis of a philosophical work. it is noted that the links Foucault himself confesses to the Annale’s School. on the one hand. . Now. KEY-WORDS: Historiography. genealogy. theoretical or methodological. Archeology. Serial History. it is useful to consider how this work was in fact close to the actual work of historians.ABSTRACT This dissertation is the result of an investigation about the relationship between the philosopher Michel Foucault and historiographical French community. So. we point to another difference in intellectual projects that caused a rupture of the other. and even fewer attempts to translate this work into a set of practical recommendations. particularly the socalled Annale’s School. we are witnessing a new and renewed interest in the work of Foucault in Brazil and abroad. It is a set of convergences and divergences that can be f elt even today those historians who somehow appropriating aspects of the work of the French philosopher in support. It is only to point out that characterizes the dispersion and the main points of contact with the historiography in the hope of contributing to a more fruitful debate among historians and philosophers.

......................2 A arqueologia como método de análise histórica .....54 2...........................................................1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia....................11 1........................................................2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 .................73 2.................................. A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA ..........................91 ...........................................................11 1.............................1 A genealogia como método de análise histórica....................3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão ............................................................................3 Um programa historiográfico: a história geral ...................54 2...............................................07 CAPÍTULO 1 – FOUCAULT............................................30 1....................89 REFERÊNCIAS ....................................................................49 CAPÍTULO 2 – FOUCAULT.................................................82 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................ A GENEALOGIA E A HISTÓRIA ......................SUMÁRIO INTRODUÇÃO.....

os diversos consensos sobre os significados do termo “história” e da prática a que dá lugar. usem diferentes métodos e tenham diferentes perspectivas sobre as categorias com as quais lida. ou melhor. à exceção. talvez. Em fins do século XIX e início do século XX tem-se aparentemente uma clareza consolidada da disciplina enquanto ciência: a história é “ciência que estuda certa categoria de fatos. p. 2). de crítica ou verificação). les documents et les faits . utilizando-se. para cada época. quer fazer valer uma pretensão de conhecimento sobre esse domínio e exercer uma função social determinada. 1). p. rendre la vie au passe ». da história literária. 1909. os documentos e os fatos. 226). 1 O próprio Sthephens (1905. 3 Livre tradução de : « L'histoire se propose trois objets principaux : critiquer les traditions. de modo que. esclarecer a filosofia das ações humanas. o Syllabus de Stephens (1905) ainda proclama e define a História como “narrativa do passado”. e. p. Mas o que é novo e. a partir de Gibbon.7 INTRODUÇÃO Nenhuma outra categoria de intelectuais. o significado e a função de seu ofício. mas o problema da construção. uma resposta diferente é concebida. desde o século XVII. p. mas aí o sentido é completamente outro: a História moderna não se faz sem uma perturbação interior acerca de sua própria natureza 1 : não se coloca mais a questão dos gêneros literários e da estilística. p. os fatos históricos” (SEIGNOUBOS. se debruçou tanto sobre o significado do próprio ofício quando o historiador. dando-se um domínio restrito de objetos de estudo. a história cruzou seu limiar de epistemologização2. “Que é isso – a história?” – interrogam-se sem cessar os historiadores. 2 Segundo Foucault (1972. de certo modo. 1909. Desde o século XIX. o que é novo não é que diferentes historiadores trabalhem de modo distinto. dégager la philosophie des actions humaines en découvrant les lois scientifiques qui les régissent. As funções são também perfeitamente demarcáveis: “A história se propõe três objetos principais: criticar as tradições. não mais estritamente a questão da escrita da história. “a ciência dos fatos humanos do passado” (SEIGNOUBOS. ou pretendendo utilizar-se de métodos rigorosos. alcance e validade do conhecimento histórico. dos filósofos. desde a partir da década de 1970. . univocamente. mas dos princípios e métodos. 16) reconhece a cisão que separa a história moderna. bastante aflitivo é que. mas que não concebam mais. portanto. devolver a vida ao passado”3 (MONOD. 1895. foram substituídos por uma variedade de concepções distintas. descobrindo as leis científicas que as regem. É verdade que no princípio do século XX. uma formação discursiva cruza seu limiar de epistemologização quando “pretende fazer valer (mesmo sem consegui -lo) normas de verificação e de coerência e que exerce face ao saber uma função dominante (de modelo. 7).

Do mesmo modo. p. 12). afinal. p.14). Essa concepção representará. igualmente. Paul Veyne (1995. os positivistas já o tinham feito. Resta que só haveria uma maneira de se delimitar o campo de atuação do historiador. A partir daí. de direito. pelo menos. e partidário da história serial conceberá. acontecimento humano que é ação ou que é algo que escapa completamente à percepção e à consciência de seus contemporâneos) devia ter um lugar. não um boa análise histórica. passa a conceber o fato histórico todo e qualquer fato humano. 71) . para uma sociedade. p. certamente um grande avanço.” François Furet. pois que são construídos pelo trabalho sobre as fontes. Michel Foucault dirá: “a história é. por aquilo através do qual um objeto pode ser referido. mas seu caráter “social”: são as sociedades. mais do que as ações individuais dos homens. na mesma linha: “por essência. arraigará junto aos seguidores de Bloch e Febvre.8 Rompendo com essa concepção. que os fatos não individuam a história. só se poderia. que. ou. em qualquer sentido que se queira emprestar à palavra “fato”. de modo que “o historiador já não pode escapar à consciência de que construiu os seus ‘factos’ e de que a objectividade da investigação depende [.. independente de ser constituído por ações: “História é a ciência dos homens – ou melhor. escreverá. 1986. a história é conhecimento mediante documentos. também. o objeto de estudo histórico. Uma nova ruptura dá-se na década de 1950. membro da Escola dos Annales. já que qualquer coisa que tenha acontecido (acontecimento natural ou humano. 1972. se poderá pensar a história para além de seu caráter de ciência humana. E. ” (FOUCAULT. O Mediterrâneo de Fernand Braudel abriu a possibilidade para que a paisagem geográfica e os eventos da natureza fossem integrados na análise histórica.. se bem que não necessariamente de fato. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa. no domínio de objetos da história. onde não se remete o acontecimento à sua dimensão social não se faz análise histórica. Marc Bloch (2001.] do uso de processos correctos na elaboração e no tratamento destes ‘factos’” (FURET. dizer o que é história.55). é desde o interior desta constatação. em 1971. seguindo por essa via. Le Roy Ladurie (1976) concebeu a possibilidade de uma “história do clima”. Não só os fatos sociais. escrevendo o tratado teórico sobre sua Arqueologia do Saber em 1969. isto é. mas. o documento. p. então. mas também os fatos naturais poderiam ser objeto de análise histórica. que não visava a fatos humanos. das sociedades humanas no tempo” A inovação aqui não está em conceber o caráter antropológico da história. um pressuposto difícil de ser abandonado: o de que.

Num segundo momento. Desde então e mesmo depois de sua morte em 1984. um abismo ainda se abria entre o filósofo e os historiadores. imediatamente se instala uma polêmica que deixará claro que. alguns desenvolvimentos internos na Escola dos Annales e as pesquisas e constatações epistemológicas de historiadores que não integravam essa escola como Paul Veyne e Michel de Certeau. buscamos traçar as linhas de convergência entre a historiografia francesa e o trabalho arqueológico de Michel Foucault. Entretanto. mas também um interesse filosófico pela historiografia. orientando-nos pela hipótese de que este tenha herdado certos aspectos metodológicos da Escola dos Annales. o levaram mais longe. dividimos a exposição em dois momentos. É um momento de convergência que permite vislumbrar não só um interesse dos historiadores por áreas antes negligenciadas. portanto. viabilizando um novo sistema de pensamento. a nosso ver. do poder ou da sexualidade. analisamos as reorientações da pesquisa foucaultiana ao longo da década de 1970 e as divergências que vieram à tona por ocasião do . No primeiro momento. porém. A vocação interdisciplinar dos annales – herança do projeto de síntese histórica de Henri Berr – a perspicácia filosófica de um Veyne ou um De Certeau e o projeto de história dos sistemas de pensamento de Foucault convergiam para o que este último chamou de “história geral”. seguimos a perspectiva do próprio Foucault que por diversas vezes evocou os historiadores dos Annales como partidários de uma “nova história” capaz de romper com os privilégios da consciência e os temas antropológicos. ao capítulo 1. Ele nos permite realizar uma série de tarefas de interesse comum a filósofos e historiadores: ponderar o quanto de fato a história do pensamento pode ser integrada à história dos historiadores. precursor do paradigma pós-moderno e do irracionalismo ou projetista de uma nova história da civilização ocidental. teórico do discurso. filósofo da história ou do ofício do historiador. Foucault foi chamado a ocupar certos papeis junto à comunidade historiográfica tanto entre seus simpatizantes quanto entre seus detratores: historiador revolucionário ou historiador reformista. enfim. permite. avaliar os limites e possibilidades do diálogo histórico-filosófico por aqueles autores que. sob a aparência de interesses comuns. Nesse sentido.9 No fim da década de 1960 e início da década de 1970. Daí que o debate entre Foucault e os historiadores em 1978 tenha ainda seu valor e interesse para a história da historiografia e para a teoria da história. quanto Foucault publica a primeira síntese de suas pesquisas no College de France no livro Vigiar e Punir em 1975. encontramos um ponto de contato entre o trabalho de Michel Foucault. Em grande parte. analisar as possibilidades que ainda hoje se abrem para filósofos e historiadores a partir do trabalho de Michel Foucault.

principalmente naquela que é a grande referência para quase todos os exegetas – a leitura Dreyfus & Rabinow (1995) –. buscamos apenas os meios de responder à série de questões que se podem propor acerca da relação desses procedimentos com a disciplina histórica. . Pelo contrário. Apresentando a arqueologia e a genealogia como procedimentos metodológicos. Maiores que sejam as deficiências que possamos encontrar nas grandes sínteses da filosofia foucaultina. e mostrar o quanto as divergências e convergências entre Foucault e os historiadores pertencem intrinsecamente ao projeto de uma filosofia histórica e de uma história teórica. Procuramos. Todas essas questões podem ser resumidas naquela proposição de Paul Veyne (1995) sob a forma da pergunta: “Foucault revolucionou a história?”. determinar a raiz dessas divergências a partir do esclarecimento das diferenças entre o interesse real dos historiadores e aquela perspectiva revolucionária que Foucault nutria deles. Não que pretendamos responde-la assertivamente quando o próprio Veyne (2011) teve que constatar a dificuldade de recepção do trabalho de Foucault junto aos historiadores. dessa dificuldade mesma.10 debate com os historiadores. Por fim. então. a leitura que fazemos do trabalho de Foucault – em grande parte guiados pelas leituras de Paul Veyne e Gilles Deleuze – permanece muito aquém de uma exegese completa e exaustiva. isto é. uma história capaz de responder aos problemas do presente. não pretendemos substituí-la por uma melhor. Gostaríamos de partir dessa segunda realidade. devemos esclarecer que este trabalho não pretende ser uma exegese da obra de Foucault.

de modo que aplicaremos. pois. sua modalidade enunciativa. assim. entre a tentativa de neutralidade em que se arrisca perder justamente os elementos que nos permitiriam esclarecer essa relação e uma circularidade interna no qual a suposição de um método histórico específico em Foucault figuraria tanto como objeto quanto como arcabouço teórico da pesquisa. 2001). do pressuposto de que a arqueologia se aplica ao campo da história intelectual e que a história da historiografia pertence a esse campo. já. permanecer o mais próximo possível de nosso objeto. mas que. por outro lado. optamos pelo segundo: decidimos. partir da própria visão de Foucault. A escolha se faria. também. tomar das próprias pesquisas de Foucault os elementos que permitiriam iluminar a relação delas com a historiografia profissional. de modo que aplicaremos no presente capítulo os elementos básicos da analítica dos discursos sérios desenvolvida por Foucault principalmente no tratado sobre A Arqueologia do Saber. diante do seguinte dilema: partir de uma das correntes majoritárias da historiografia. segunda a qual um discurso sério é analisável tendo em conta seu domínio de objetos. as transformações de um discurso e os diversos limiares que transpõe através do tempo se processam através de transformações desses elementos. tentar encontrar na própria obra de Foucault os elementos de uma história do discurso historiográfico para analisar as convergências e divergências que asseguraram um lugar privilegiado desse discurso no empreendimento foucaultiano. A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA 1. 1995) ora idiossincrática (HUNT. sob o risco evidente de uma visão fechada em si mesma e auto-referencial desse método. Dentre os dois riscos.1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia Uma vez engajados na tentativa de compreender a relação entre os trabalhos de Michel Foucault e a historiografia profissional que lhe era contemporânea. de sua perspectiva sobre a história e a historiografia para traçar a relação entre suas pesquisas e a dos historiadores profissionais. diferentemente.11 CAPÍTULO 1 FOUCAULT. Para evitar uma circularidade viciosa deixaremos de lado essa questão. mantém esse empreendimento numa posição ora revolucionária (VEYNE. Não tentaremos mostrar que Foucault foi um historiador. de certo modo. De modo que. . encontramo-nos. qualquer que seja sua real importância. Partiremos. nem julgar se fazia boa ou má história. realizando como que uma “leitura externa” do fenômeno. ou. como não pertinente. se campo conceitual e as escolhas teóricas a que dá lugar.

todas essas funções do discurso histórico desaparecem e dão lugar a uma única função: discriminar o passado. a história é bem mais recente: remonta ao século XIX. elle a exercé dans la culture occidentale un certain nombre de fonctions majeures : mémoire. é que veremos aparecer todos esses problemas que constituem o campo da “teoria da história”: questões de método ou de objeto. Sabemos que a história convencional das origens da historiografia remonta o discurso historiográfico à Grécia Clássica. tão recente quanto elas. a teoria da história. o discurso historiográfico. contudo. 1966. déchiffrement du destin de l’humanité. de sua aptidão para a verdade e de sua relação com o mundo que lhe é contemporâneo. decifração do destino da humanidade. (FOUCAULT. depuis le fond de l’âge grec. o discurso histórico existe como discurso específico desde a Grécia Clássica: É verdade que a história existe bem antes da constituição das ciências humanas. contudo. encontra sua origem em Heródoto assim como o discurso filosófico em Tales ou o discurso médico em Hipócrates. primeiramente. a história é. véhicule de la tradition. toda uma inquietação sobre o estatuto desse saber.12 Consideremos. consciência crítica do presente. prática regulada e especializada com pretensões de cientificidade. desqualificar e requalificar eventos e personagens em vistas do presente. 378) A partir do século XIX. anticipation sur le futur ou promesse d’un retour. » 4 . desde o fundo da idade grega. Ciência humana. Prova disso é que. mythe. conscience critique du présent. transmissão da Palavra e do Exemplo. É durante a primeira metade do século XIX que os trabalhos de Augustin Thierry e Jules Michelet desenham os contornos de um saber autônomo e positivado. mito. Mais antiga que todas as ciências humanas. A história. transmission de la Parole et de l’Exemple. “ciência dos homens no tempo”. veículo da tradição. somente nesse século. às Histórias de Heródoto. ela exerceu na cultura ocidental um certo número de funções maiores: memória. ela emerge como uma vontade de saber a partir de uma vontade de poder. por um lado. que elemento permitiu à história cruzar o limiar de positividade em meados do século XIX. p. antecipação sobre o futuro ou promessa de um retorno4. deixar os séculos de tateamento empírico e intersecções com a filosofia para constituir-se como discurso sério. Com Heródoto vemos o nascimento de um novo tipo de discurso muito diverso da poesia de Hesíodo ou da filosofia. e é somente em 1842 que aparece o Cours d’estudes historiques de Pierre Daunou em que vemos constituída essa disciplina paralela. Isso porque. pois a pretensão de exercer um poder qualificador sobre o presente dependerá da presunção de deter um saber sobre o passado: Livre tradução de: « Il est vrai que l’Histoire a existé bien avant la constitution des sciences humaines . mas ainda muito distante da história contemporânea.

Quando Edgar Quinet faz a história do terceiro estado e quando Michelet faz a história do povo. se se pode sem muito embaraço reescrever a história da historiografia como uma disputa a cada vez renovada entre “paradigmas” (positivismo contra historicismo. requalificar outros. pelo menos teoricamente. a guerra onde se localizava a concórdia. É. parece-me que o discriminante político do passado e da atualidade foi menos a análise jurídico-política dos regimes e dos Estados do que a própria história. 130) Essa função política do discurso histórico. um campo de batalha em que as escolhas teóricas excludentes travam uma luta perpétua em torno do homem e de sua história. o caráter “polêmico” de um discurso que mostra sempre a disparidade onde a crônica narrava a harmonia. tornar politicamente desejáveis ou historicamente inválidos certo número de acontecimentos. a forma geral da vontade de saber da história. por que a comunidade historiográfica desde Thierry e seus adversários jamais foi um mar tranquilo de desinteresse científico. segundo Foucault.13 Depois da Revolução francesa do fim do século XVIII. muito pelo contrário. no Antigo Regime. de personagens. à pergunta: que parte da Revolução devemos salvar? Ou ainda: o que. Isto é. de processos e. ao contrário. Mas isso não explica ainda como essa vontade de saber pode desenvolver-se na figura positiva da ciência história que já vemos plenamente constituída na segunda metade do século XIX. define as modalidades de enunciação aceitáveis e as escolhas teóricas possíveis. (FOUCAULT. explica. não explica que elementos desse discurso foram reorganizados ou construídos para que a história adquirisse a forma pela qual a conhecemos e. quais deles são determinantes nas transformações do discurso histórico ao longo do século XX. a título de elemento discriminante foi a história. muito menos. eles tentam encontrar. mais ainda. marxismo contra os Annales) é porque desde o século XIX a história é “polêmica”: implica sempre. uma espécie de fio condutor que permita decifrar tanto o passado quanto o presente. esse poder específico que os historiadores detêm e não deixam de exercer ainda hoje. em todo caso. através da história do terceiro estado ou do povo. 2010. mas. p. o que devemos validar e o que. ao contrário. em grande parte. teremos que admitir que a positivação do discurso histórico no século XIX foi produto de uma descoberta da historicidade do homem? Não se seguirmos a análise . poderia ser requalificado? Ou ainda: como reconhecer. o que foi proposto. a irrupção de uma dominação sempre renovada. ali onde a vontade de saber organiza um domínio de objetos e de conceitos. uma qualificação/requalificação do presente. pois. desde a desqualificação/requalificação do passado. fio condutor que permita desqualificar. ao front interno do discurso. Primeiro. no que acontece. Voltemos. que dá. Se hoje se fala de “paradigmas rivais” para opor uma história moderna e racion alista a uma história pós-moderna e supostamente irracionalista. devemos repelir? Para responder a todas essas perguntas. repelir.

Primeiro porque os conceitos mais próprios do discurso historiográfico aparecem bastante tardiamente. A historicidade do próprio homem é uma “descoberta” tardia: o homem que aparece ao século XIX “não é. lui fixe un sol et comme une patrie : elle détermine la plage culturelle – l’épisode chronologique.14 de Foucault (1966). mais elle les cerne d’une frontière qui les limite. A cada ciência do homem ela dá um pano de fundo que a estabiliza. 381). É somente no final do século XIX que a tentativa mais contundente da Escola Metódica por um lado e do historicismo por outro para constituir a história como ciência é que os conceitos de fato histórico e tempo histórico adquirem relevância. Como já ressaltamos. Do mesmo modo. não ao menos primariamente. (FOUCAULT. Mas mesmo considerando tudo o que a história herdou das ciências humanas. de l’histoire des choses. 1966. p. lhe fixa um sol e como uma pátria: ela determina o intervalo cultural – o episódio cronológico. da história das coisas. 382)6 Esse papel da história em relação às ciências humanas é realmente importante e o será cada vez mais ao longo do século XX. et ruine d’entrée de jeu leur prétention à valoir dans l’élément de l’universalité. para ele. e arruína de entrada sua pretensão a valer no elemento da universalidade. mas ela lhes cerca de uma fronteira que as limitam. da história das palavras”5 (FOUCAULT. ele mesmo. Por outro lado. a inserção geográfica – onde se pode reconhecer a esse saber sua validade. De modo que em vão procuraríamos numa reorganização do domínio de objetos do discurso histórico. uma das características marcantes da história que se constitui no século XIX é a relação que ela entretém com as ciências humanas: A História forma então para as ciências humanas um lugar de acolhimento às vezes privilegiado e perigoso. o domínio das escolhas teóricas parece ter sido relevante desde o princípio da constituição do saber histórico moderno. Foucault localizava nesse papel da história como discriminante político o motor fundamental da construção do conhecimento histórico. A chaque science de l’homme elle donne un arrière-fond qui l’établit. essa relação não é ainda suficiente para explicar a positivação Livre tradução de: « l’homme n’est pas lui-même historique (…) il ne se constitue comme sujet d’Histoire que par la superposition de l’histoire des êtres. pelo conjunto de conceitos dos quais lança mão. de l’histoire des mots » 6 Livre tradução de : L’Histoire forme donc pour les sciences humaines un milieu d’accueil à la fois privilégié et dangereux. Mas rapidamente observamos que a história não pode ser caracterizada. o lugar primeiro da formação da história como saber positivado. 1966. Uma segunda hipótese: a história se constituiria como uma formação discursiva a partir do momento em que pudesse dispor de uma rede própria de conceitos. l’insertion géographique – où on peut reconnaître à ce savoir sa validité . » 5 . p. histórico” e “ele só se constitui como sujeito da história por uma sobreposição da história dos seres.

37). “ o que chamamos de fonte ou documento é. da “distinção entre fontes e realidade”.. até nós... (. 14) fazia do discurso histórico: “A história é. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa”. é somente no século XIX que o documento se destaca da realidade e que vemos surgir um saber cuja função é. será preciso evidentemente utilizar os textos sobre a linguagem. Assim. dirá Paul Veyne (1984. contudo. um acontecimento. antes de tudo. já permitem entrever a concepção que Foucault (1972. Traçar a arqueologia da história é. em grande parte. seguiremos por essa outra via. apesar da onipresença da história em nossa cultura há vários séculos. se engendraram e foram acumuladas. se influenciaram.15 da história no século XIX e suas transformações posteriores. pois enquanto a história é chamada para responder em parte pelo estatuto das ciências humanas. pelo menos há vários séculos. para uma sociedade. 2008. Enquanto a maior parte da pesquisas em história da historiografia privilegia as transformações no domínio de objetos da história. e será necessário correlaciona-los com as técnicas de exegese. os discursos se encadeiam sob a forma de história: recebemos as coisas que foram ditas como vindas de um passado no qual elas se sucederam. seu próprio estatuto permanece indeterminado. Há certamente uma lacuna em As palavras e as coisas. se substituíram. 66) “Quando se fizer. apenas indicados.” – daí que isso não tenha sido feito. todo discurso aparece sobre um fundo de desaparecimento de qualquer acontecimento”. o que é o documento para a história? Ainda segundo Veyne. 1995. se opuseram. . tentando mostrar que essas transformações só se tornam possíveis a partir de modificações na relação da pesquisa histórica com sua básica documental. 124). p. p. portanto. O próprio Foucault o dirá em uma entrevista de 1967: Quando se fizer. então. p. a arqueologia do saber histórico.. por exemplo. grande ou pequeno: o documento pode ser definido como todo acontecimento que deixou. acompanhar a emergência e transformações da função documental no discurso histórico. Concepção bastante similiar encontramos quando Foucault (2008. 75) explica o privilégio que a história detém em suas pesquisas: Em nossa cultura. os documentos. com todo o saber relativo à sagrada escritura e à tradição histórica” (FOUCAULT. Mas. da crítica das fontes.) em uma cultura como a nossa. ou não tivesse sido feito ainda. a partir da formação da concepção moderna do documento. uma marca material” (VEYNE. analisando esses objetos. Esses elementos. elaborar um discurso sobre os acontecimentos a partir dos quais se constituíram. A história se constitui. p. p.

o documento escrito está no centro da investigação histórica. implicou a liberação do que Veyne (1995. como bem observa Le Goff (1990. cuja força probatória parece maior que qualquer testemunho. como a dilatação da função documental correspondeu à emergência dos novos objetos da História. mas. sobretudo. Na medida.16 Le Goff (1990) analisou detalhadamente a questão num ensaio de História e Memória. embora se pudesse admitir o uso de documentos não escritos. A relação entre o fato histórico e o documento para a escola positivista é bastante conhecida: o documento é prova.) desenvolve-se na constatação de que “tudo é histórico”. a própria história desvanecia. se transformou ao longo dos séculos. Assim. ainda que resulte da escolha. para usar um termo genérico. será o fundamento do fato histórico. onde faltasse ou escasseasse. Os critérios para determina-los foram estabelecidos conforme exigências pragmáticas e teóricas subjacentes a presente investigação: a) que sejam facilmente identificáveis em cada trabalho histórico. duração curta. c) que não sejam. 536) o que implica uma concepção judiciária do ofício dos historiadores que explica ao mesmo tempo a prevalência do documento escrito. eventos políticos. d) que sejam derivados do modelo de investigação arqueológica de Michel Foucault. etc. de uma decisão do historiador. que temos a necessidade de observar práticas historiográficas distintas e as transformações de uma prática ao longo do tempo. b) que sejam variáveis reais inquestionáveis da prática historiográfica. sua grade conceitual . daí decorrente. para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX. parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. As transformações na historiografia podem de fato se acompanhadas através desses quatro elementos: objetos. Aplicando-se o último critério. 1990. grandes homens. p. muito numerosos. p. sob a indicação que Foucault fez na introdução de A Arqueologia do Saber acerca da relação entre a prática dos historiadores da época (especialmente da história serial) e a função do documento enquanto monumento. fontes. porém. reconhecemos três elementos primários a partir dos quais um discurso qualquer pode ser analisado: seu domínio de objetos. sua modalidade enunciativa. conceitos e paradigmas. como a alteração no conceito de documento. 536). 19) chamou de “domínio virtual” da história Desde então. voltamo-nos para o modelo de investigação arqueológica.” (LE GOFF. p. “O documento que. por razões de economia lógica. O historiador francês mostra como a relação entre os historiadores e suas “fontes”. o empreendimento dos primeiros Annales que contestaram o privilégio de certos objetos (grandes acontecimentos. é necessário que estabeleçamos certos parâmetros muito elementares que possam figurar como índices comparativos e fatores de transformação.

Resta. desde que tenham sido elaborados ou. De modo que. epistemológico. uma pesquisa histórica se faz a partir de certos parâmetros. ainda. social). Constatação aparentemente trivial. primeiramente.17 e as opções teóricas a que dá lugar. e talvez mais ainda. Diante dessa diversidade. Subsequentemente. mas focar a análise no interior de uma dada escolha teórica. pois é questionável que hajam conceitos universalmente acionados por toda e qualquer investigação histórica. analisar a historiografia dos Annales comparativamente ao trabalho de Foucault com base unicamente nos respectivos domínios de objeto e modalidades enunciativas. um discurso paralelo autoreferente. Que essas sejam variáveis reais da prática historiográfica é-nos facilmente evidenciado por uma peculiaridade do discurso histórico: uma dobra que produz no interior mesmo dessa prática discursiva. o universo dos historiadores se expandiu a uma velocidade vertiginosa” – constata Peter Burke (1992. que ela institui como seus “fatos”. o discurso da teoria da história. para a história da própria disciplina histórica. Tal é verdadeiro para a histórias de objetos convencionais (história política. “Mais ou menos na última geração. 7). portanto. . que relações serão procuradas. a pluralidade das possibilidades historiográficas sobre um mesmo fenômeno é hoje um pressuposto basilar da Teoria da História. metodológico e técnico. que determinam em grande parte que elementos serão levados em consideração. não está claro ainda que tipos de conceitos são requisitados pela prática historiográfica e qual a sua origem –. da filosofia e da ciência). quanto para a história intelectual (das ideias. aquela da Escola dos Annales. dos pensamentos. recebidos e assimilados no interior da prática historiográfica na forma de manuais práticos ou tratados de método. por fragmentação. quanto. se elaborados alhures. nem inequivocamente ao critério “b”. eliminamos as variáveis que não são pertinentes na presente investigação: a grade conceitual e as opções teóricas. que tipo de explicação se dará ao fim para este ou aquele fenômeno. admitiremos que uma investigação história se refere a um domínio específico de objeto. das atividades intelectuais. cumpre ao historiador escolher um método e segui-lo de acordo com os objetivos que atribui à pesquisa histórica. econômica. A segunda também é aqui tida por impertinente uma vez que não se trata de fazer a arqueologia do discurso histórico. p. daqueles antigos campos. A primeira porque não atende ao critério “a” – embora seja hoje comum falar de conceitos em história. certas escolhas teóricas. de tal modo que os antigos domínios de investigação do historiador agora convivem com novos campos inteiramente novos ou derivados. Por “teoria da história” entendemos aqui o conjunto bastante diversificado de pronunciamentos de caráter metafísico.

Menos interessado em uma . Como não pretendemos recorrer à categoria de “influência”. resolvemos partir de uma hipótese muito simples que encontramos em Peter Burke (1997. se fazemos referência aos “interesses” de Foucault. De modo que. pensando nos primeiros Annales. segundo. De modo que. como Georges Canguilhem (através de quem tomou conhecimento da noção de descontinuidade intelectual). 2003. Foucault se interessava tanto pela primeira quanto pela segunda geração dos Annales. quais são os trabalhos historiográficos em relação aos quais se tentará a aproximação com Foucault. é preciso distinguir entre duas categorias diferentes de historiadores: aqueles que romperam com a história tradicional e dos quais Foucault é um herdeiro e aqueles que eram contemporâneos ao filósofo. Dito isso é preciso deixar claro dois pontos: primeiro. para entender a relação entre Foucault e a historiografia francesa. assim. os parâmetros da arqueologia do discurso fornecidos pelo tratado de método de Foucault e. já antecipamo-la na introdução: utilizaremos. faremos a comparação entre suas pesquisas empíricas e as pesquisas dos historiadores com base no domínio de objetos que elas delimitam e nas decisões metodológicas a partir das quais se constituem. p. Quanto à segunda questão. mas é mais substancial do que ele próprio jamais admitiu. Quanto à primeira questão. mas que emergem da comparação entre o trabalho dos historiadores e o trabalho do filósofo. mas de maneiras distintas. os parâmetros da comparação entre o trabalho de Foucault e o dos historiadores. a visão de Foucault acerca da “Escola dos Annales” é ligeiramente diferente da visão convencional que a divide em três gerações. o próprio Le Goff –. quanto ainda pelos Annales que lhe eram contemporâneos – entre eles. assim também deixamos de lado a questão de se Foucault reconheceu ou não sua dívida com os Annales. que representávamos uma nova geração” (LE GOFF. em seguida Leroy Ladurie e eu. mas em um corte que passava por Braudel: “ele não colocava os Annales como um todo. tanto quanto possível. ou aos historiadores da ciência.18 Então. 202). Segundo um testemunho de Jacques Le Goff (2003). p. em seguida Braudel. Estamos mais interessados nas relações que se pode estabelecer entre as pesquisas do filósofo e a historiografia dos Annales – relações estas que não dependem de um reconhecimento de parte a parte. só o fazemos na medida em que esses interesses de fato se traduzem em relações que podem ser observadas na comparação entre sua metodologia e a metodologia dos historiadores. 118): O débito de Foucault em relação aos Annales pode ter sido menor do que deve a Nietzsche.

Assim. Nesta exposição feita de lembranças e releituras. no qual do domínio de objetos da história adquire um caráter geral. por Le Goff e Le Roy Ladurie. a revolução operada pelos Annales na historiografia se divide em dois momentos: um primeiro. Sem que a palavra existisse em Marc Bloch. a uma outra noção. o livro inacabado de Marc Bloch. O que o interessava no período dos primeiros Annales? Ele encontrou explicitamente aí duas noções. uma perversão intelectual. representado por Marc Bloch. Arlette Farge excelentemente nos lembrou o quanto essa busca das origens parecia a ele um erro epistemológico. pois a genealogia parte do presente. enquanto os historiadores criticavam o ídolo da origem venerado pela historiografia tradicional. Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien. mas nisso que foi o seu complemento. 203) Foucault se definia como nietzschiano e já muito antes de empregar o termo “genealogia” para descrever suas pesquisas. é a genealogia. não nos Annales propriamente ditos. O que é interessante. representado pela historia serial. p. mas a ideia ali estava. Ele nos trouxe uma justificativa suplementar ao que nós havíamos apreendido de uma lição dos Annales e em particular de Marc Bloch: partir do presente para nossa reflexão. por meio dessa crítica da origem. Lucien Febvre. segundo Foucault. A genealogia. Ele contém o vivo ataque de Marc Bloch contra o mito das origens. 2003. desce. e um segundo. publicado nessa época já há uma boa dezena de anos.19 distribuição com base em quem dirige a revista do grupo e mais em transformações epistemológicas. Mas dando à ideia da origem uma extensão e uma fecundidade ainda maiores. que suscitava mesmo seus sarcasmos. Nietzsche criticava a falta de sentido histórico dos filósofos. (LE GOFF. . ao incorporar “novos objetos”. principalmente. no qual as concepções de fato histórico e documento são profundamente alteradas. mas sobe de novo. confessava nelas a tentativa de dar continuidade ao empreendimento do autor da Genealogia da Moral. é a convergência entre um princípio da genealogia de Nietzsche e um dos mais evidentes princípios da metodologia dos primeiros Annales: o abandono do ídolo da origem. Com a diferença que. Este é um procedimento histórico fundamental. neste texto de Le Goff. Foucault havia chegado. Foucault analisa um limiar aquém do qual ocorre a ruptura com a história tradicional – uma revolução em torno do domínio de objetos e da relação com os documentos – e além do qual se situam os “novos” historiadores. primeiramente. herdeiros e continuadores dessa revolução. Ontem. e essa concepção está ligada à questão e à crítica das origens. mas ainda por Braudel. Pois o pensamento e a obra de Foucault foram para nós de enorme importância. reencontro aqui uma das noções que foi muito esclarecedora para nós historiadores – essencialmente o grupo da sexta sessão e dos Annales.

os historiadores das colônias. A referência. p. Eis aí alguma coisa à qual ele ainda estava muito sensível. era uma batalha. A tarefa do historiador era a de trazer à luz essas estruturas. Contra esse tipo de história. Ladurie.e. uma vitória. 146) especifica a quais historiadores se referia: Marc Bloch. aquela praticada pelos Annales. seria esse o único interesse de Foucault na primeira geração dos Annales? A resposta será não se aceitarmos a interpretação que Le Goff fazia da introdução d’A Arqueologia do Saber. justamente. em favor de uma concepção mais ampla que integrava estruturas de longa duração: O que os historiadores chamavam de acontecimento. 2012. Foucault (2008. 10) não deixa dúvida de que ele se refere também a Fernand Braudel.20 Mas. pensar melhor as descontinuidades. para voltar-se a concepção do tempo histórico em Marc Bloch: A noção de ‘longa duração’ o interessava – ele disse – mas essencialmente porque ela permitia. à “civilização material”. é partir dessa clivagem que Foucault se afasta da concepção de Braudel. 250) De certo modo. p. para usar a expressão de Le Goff. pouco posterior. p. Foucault sabia que a história que ele “admirava”. i. É um objetivo que encontramos. integrando-o num mesmo movimento com os primeiros Annales. as rupturas. seguindo ainda o testemunho de Le Goff (2003. com Braudel figurando como uma ponte entre a primeira e a segunda geração dos Annales – clivagem esta que. a morte de um rei. p. Falando do tratado ainda no de sua publicação. no trabalho de Lucien Febvre. que marca a historiografia do século XIX. Eu me lembro. 202) uma clivagem entre Boch e Febvre de um lado e ele próprio. (FOUCAULT. das sociedades mostraram que a história era feita de um grande número de estruturas permanentes. Lucien Febvre. e é a ele que devo por ter voltado a atenção a esse texto. Chaunu. então. Fernand Braudel. o folhear das diversas durações temporais. defenderemos. que parecia julgar insatisfatória. 1972. que ele havia feito uma certa crítica da noção braudeliana de ‘longa duração’. Foucault creditava à Bloch e Febvre o abandono de uma concepção restrita dos acontecimentos. a história estrutural de Braudel pertence ainda. sobretudo. remontando a um texto de Marc Bloch em Apologie pour l’histoire. ou qualquer coisa dessa ordem. na França. por outro. e às “histórias quase imóveis ao olhar” (FOUCAULT. para longos períodos” (FOUCAULT. se a história tout court de que Foucault fala ali é. no século XIX. segundo Foucault. de Marc Bloch e de outros. Entretanto. ao mesmo solo epistemológico que a história das mentalidades de Febvre ou a história rural de Bloch.. p. “Há dezenas de anos que a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). 1972. em que este dizia que a multiplici dade e . 9). fora construída a partir dessa história estrutural: havia para Foucault. separa a história estrutural da história serial. E embora não se identificasse com esse tipo de história.

Embora nesse momento (trata-se de uma entrevista de 1967). inicialmente. já em 1969 e a propósito do recém lançado A arqueologia do saber.] Marc Bloch insistia. p. 146) volta à questão: “De fato. a confusão entre limites de períodos históricos e limites cronológicos arbitrários contados em séculos. 153) A importância desse texto está em que. a ênfase dada por Braudel na “longa duração”. quando é evidente que “nenhuma lei da história impõe qu e os anos cujos milésimos se determinam pelo algarismo 1 coincidam com os pontos críticos da evolução humana” (BLOCH. permanecerá sempre rebelde tanto à implacável uniformidade como ao acontecimento rígido do tempo do relógio. Lucien Febvre. [. não poderia ser para Foucault “a” solução do problema. p. de Le Roy Ladurie” como “trabalhos que asseguram uma aventura nova no saber”. 7 Em outra entrevista. Fernand Braudel – tentam ampliar as periodizações que os historiadores praticam habitualmente. como limites. escandida pelas revoluções políticas.” . 2003.. 2001. “Em suma”. Bloch crítica. não é ao mesmo período que nos referiríamos caso se tratasse do “século XVIII filosófico” ou do político. a melhor forma possível de recorte” 7 . “parece que distribuímos. afirma Bloch. Para Foucault (2008.” (BLOCH. segundo um rigoroso ritmo pendular.. (BLOCH. aceitem frequentemente. 205-206) O texto a que se refere Le Goff é o que se segue: O tempo humano. em resumo. p. porque a realidade assim o quer. de Furet e de Denis Richt. Foucault (2008. múltipla. portanto. p. os historiadores – e penso certamente na escola dos Annales. 62) se refira aos trabalhos “de Braudel. e mesmo a distribuição em três durações. hoje em dia. embora aponte na direção correta. este é “difícil problema da periodização”. 2001. como observou Le Goff. De modo que não é o mesmo século XVIII.21 a heterogeneidade dos tempos da história não se limitava a esses três grandes ritmos que definida Braudel. ele conclui uma reflexão que coloca de modo absolutamente definitivo o problema das periodizações em história – questão que Foucault insistentemente evocará até meados da década de 1970. 63) Cada periodização recorta na história um certo nível de acontecimentos e. conhecer apenas zonas marginais. Faltam-lhe medidas adequadas à variabilidade de seu ritmo e que. É apenas ao preço dessa plasticidade que a história pode esperar adaptar. 150) Segundo Foucault (2008. segundo as palavras de Bergson. suas classificações às “próprias linhas do real”: o que é propriamente a finalidade última de toda ciência. sobre o fato de que era alguma coisa muito mais complexa. arbitrariamente escolhido. cada estrato de acontecimentos exige sua própria periodização. 2003. uma vez que “percebeu-se que a periodização manifesta. p. p. Foucault (2008. metodologicamente. realidades às quais essa regularidade é completamente estranha. p. (LE GOFF. p. 62). 149). opostamente. Marc Bloch. não era sempre.

tous les milliers d’étages. Todos os estágios.”8 (BRAUDEL. 734) Escolha metodológica válida. assim. se dégage – consciente ou non. tous les milliers d’éclatements du temps de l’histoire se comprennent à partir de cette profondeur. mas já como uma aquisição da historiografia da qual as ciências sociais poderiam tirar proveito: “Das experiências e tentativas recentes da história. Acede-se. a historiografia braudeliana. est sans doute assemblage.22 Trata-se de um conjunto de problemas delicados. não apresenta de fato essa abertura para a multiplicidade de durações. mas também algo de programático. e. todos os milhares de estágios. tout gravite autour d’elle. será preciso delimitar periodizações diferentes. conforme a periodização que se dê. de acordo com o nível escolhido. 1958. de fato. De modo que. mais plus encore une réalité qu e le temps use mal et véhicule très longuement. sobre a relação entre a história e as ciências sociais. sem dúvida. architecture. pragmaticamente a distribuição se encaminha para a partição entre estrutura. à multiplicidade ternária das escolhas realmente feitas pelos historiadores até o momento: a escolha tradicional pelo “tempo curto”. Tous les étages. 727) Ora. aceita ou não – uma noção mais e mais precisa da multiplicidade do tempo longo. 727). p. historiens. » (BRAUDEL. todas as milhares de rajadas do tempo da história se comprendem a partir dessa profundidade. acceptée ou non – une notion de plus en plus précise de la multiplicité du temps et de la valeur exceptionnelle du temps long. na qual a estrutura9 é o mais relevante. atingir-se-ão níveis diferentes. 731) 10 Livre tradução de: « En tout cas. tudo gravita em torno dela. nem Livre tradução de : “Des expériences et tentatives récentes de l’histoire. se teoricamente ele supõe uma multiplicidade aberta de tempos. de cette semi -immobilité . à metodologia complexa das descontinuidades. conjuntura e evento. 1958. Braudel reduz a multiplicidade das periodizações que dependem unicamente de uma escolha metodológica do historiador. Escrevendo em 1958. mas que não resolve a priori o problema proposto por Marc Bloch. 1958. mas uma extensão limitada da duração tradicional através do tempo conjuntural e da longa duração. o problema vai estar justamente nessa “precisão”. é por relação a esses tipos de história lenta que se pode pensar a totalidade da história como a partir de uma infraestrutura. p. Segundo Foucault. não pode ser resolvido por uma teoria que estabeleça um número finito de “ritmos” possíveis. De modo que na caracterização que Foucault então faz do trabalho dos historiadores há algo descritivo. dessa semiimobilidade. A historiografia prevalente à época. mesmo de muito longa duração” (BRAUDEL. p.10 (BRAUDEL. » 8 . a escolha da história econômica pelo tempo cíclico e a preferência dos Annales pela “história de longa. se lança. » 9 “Pour nous. Braudel propõe a questão não mais como um problema.consciente ou não. p. uma vez que permite retomar a noção de totalização: Em todo caso. já que. c’est par rapport à ces nappes d’histoire lente que la totalité de l’histoire peut se repenser comme à partir d’une infrastructure. pois. 1958. o problema das periodizações.

Mas. 152). mas de fenômenos que delimitam eles próprios uma época a partir de “ritmos” aproximados. ao contrário. Foucault. p. pretendeu estudar sucessivamente certos problemas. etc) para as quais a expressão “período clássico” não tem a mesma delimitação. quer de oposição só podem surgir sob a condição de “não terem sido postuladas previamente” (BLOCH. 2001. 2001. da economia. introduz-se uma outra noção de precisão: A verdadeira exatidão consiste em se adequar. Para Foucault não importa a tentativa de compreensão total de um período. a cada vez. fenômenos de tipos diferentes tem uma evolução diferente. à natureza do fenômeno considerado. Uma certa imprecisão. Foucault permanece mais próximo da visão de Marc Bloch de uma história que propõe ao mesmo tempo os problemas e os termos para resolvê-los do que daquela história de Braudel no qual a compreensão de um período ou fenômeno sempre se daria por remissão às estruturas sociais de longa duração. embora tenha dado certa ênfase ao período clássico. como em seu Mediterrâneo. de se dobrar a uma cronometragem muito rígida. ou melhor. para cada “nível” de acontecimentos. das ciência humanas e do indivíduo moderno. Foucault via de fato na ênfase braudeliana na “longa duração” um elemento importante de ampliação das periodizações em história. por assim dizer. Do mesmo modo. sem um desagradável artifício. (BLOCH. certamente. das crenças. 150) Assim. pretende estudar uma época. Pois cada tipo tem sua densidade de medida particular e. do espírito ou da mentalidade de uma época. do comportamento mental não seriam capazes. se introduz forçosamente nesse tipo de história. só há oposição entre Foucault e Braudel na medida em que supomos que eles respondem ao mesmo problema – o que não é rigorosamente correto: Braudel estabelece o privilégio da “longa duração” na medida em que. a história era uma ciência de pura observação. Para Foucault o importante era considerar . O fato é que.23 uma hierarquia entre eles. As transformações da estrutura social. para Bloch. ele permaneceria em aberto para cada pesquisa. afirma Bloch. que só podem ser estabelecidos a posteriori. seu mérito é indicar o caminho da multiplicação das periodizações possíveis e não fixar de vez quais as periodizações corretas ou a hierarquia entre elas. pelo contrário. em que não cabiam teorias antecipatórias da experiência empírica. 2001. portanto. p. portanto. as relações entre os fenômenos. quer de coincidência. seu decimal específico. certas histórias (da psiquiatria e da loucura. 151). abarcadas naquela categoria de “devaneio pitagórico” todas as tentativas de estabelecer periodicidades fixas que permitiram agrupar fenômenos diversos sob um mesmo tempo: “Só a observação permite apreender os pontos em que a curva muda de orientação” (BLOCH. Podem ser.

novas camada. isola sempre novos conjuntos onde eles são. alarga sem cessar o campo dos mesmos. por levar o poder de resolução da análise histórica até as mercuriais. Mas o importante é que a história não considera um elemento sem definir a série da qual ele faz parte. já há algumas décadas. Foucault (2005a) deixa ainda mais clara sua visão do desenvolvimento da historiografia desde a ruptura com os privilégios dos eventos políticos e diplomáticos até o momento em que os desenvolvimentos autônomos na história tout court e na história intelectual podem convergir: Atribui-se muitas vezes à história contemporânea ter suspendido os privilégios concedidos outrora ao acontecimento singular e ter feito aparecer as estruturas de longa duração. que foi por estreitar ao extremo o acontecimento. às atas notariais. inalterados. as . p. Mas. Ou melhor. Certamente a história há muito tempo não procura mais compreender os acontecimentos por um jogo de causas e efeitos na unidade informe de um grande devir. Parece. implica num retorno ao acontecimento. sem querer determinar as condições das quais dependem. divergentes muitas vezes. Esse trabalho. raros e decisivos: das variações cotidianas de preço chega-se às inflações seculares. 290) Na aula inaugural no College de France. contudo. de que o trabalho dos historiadores tenha siso realizado precisamente nessa direção. numerosos. estranhas. sem procurar conhecer a regularidade dos fenômenos e os limites de probabilidade de sua emergência. que vai de certo modo em sentido oposto ao de Braudel. aos arquivos portuários seguidos ano a ano. que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento. dos decretos. fenômenos maciços de alcance secular e plurissecular. Não estou certo.24 cada fenômeno em sua duração própria para a seguir correlaciona-los. neles descobre. começou-se a praticar uma história dita “serial”. É verdade. não se desvia dos acontecimentos. não penso que haja como que uma razão inversa entre a contextualização do acontecimento e a análise lógica da longa duração. densos e intercambiáveis. como praticada hoje. Foucault o encontrava na história serial. A história. É para estabelecer as séries diversas. que se viu desenhar para além das batalhas. vagamente homogêneo ou rigidamente hierarquizado. semana a semana. cuja significação. mas superficiais ou mais profundas. aos registros paroquiais. 2008. sem interrogar-se sobre as variações. Foucault é bastante claro quanto a essa clivagem: Há o hábito de dizer que a história contemporânea se interessa cada vez menos pelos acontecimentos e cada vez mais por certos fenômenos amplos e gerais que atravessariam de qualquer forma o tempo e se manteriam. na qual acontecimentos e conjuntos de acontecimentos constituem o tema central. às vezes. é ampliada pela noção de “série”. Para Foucault. porém. ao contrário. sem especificar o modo de análise da qual ela depende. através dele. dois movimentos marcam a historiografia desde o século XIX: o primeiro conduz do primado do acontecimento (entendido como evento político ou diplomático) às estruturas subjacentes à sociedade. sem cessar. (FOUCAULT. mas não é para reencontrar estruturas anteriores. o segundo. ao contrário. mas não autônomas. entrecruzadas. Na conferência “Retornar à História” de 1972. às vezes. das dinastias ou das assembleias. hostis ao acontecimento. as inflexões e a configuração da curva.

p. Foucault vê seu trabalho se alinhar à prática efetiva dos historiadores: O fato de eu considerar o discurso como uma série de acontecimentos nos situa automaticamente na dimensão da história. (. regularidade. dependência. 2005a. Trata-se de um movimento que conduz primeiro da história eventual à história estrutural e desta. Le Goff (2003. casualidade. 10) Assim.25 margens de sua contingência. da liberdade e da causalidade). dizia Foucault (1972. para longos períodos”. descontinuidade. mas não somente”. 54-56). as condições de sua aparição (FOUCAULT. É provavelmente nisso que ele pensa. determinação unívoca. “a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). causalidade circular) pode-se descrever de uma a outra? Quais séries de séries pode-se estabelecer? E em que quadro. Esse texto data de 1969. mas com o trabalho efetivo dos historiadores. 1972. desde 1929.. p. São as do acontecimento e da série. Foucault se refere aos primeiros Annales: “Dezenas de anos? Os primeiros Annales. é por esse conjunto que essa análise dos discursos sobre a qual estou pensando se articula. (FOUCAULT. os historiadores retornam aos acontecimentos e buscam ver de que maneira a evolução econômica ou a evolução demográfica podem ser tratadas como acontecimentos.) Hoje. transformação. dominância. de cronologia ampla. sem dúvida. p. de modo geral. 2005a. Pode-se dizer que. 9) n’Arqueologia do Saber. pode-se determinar seqüências distintas de acontecimentos? (FOUCAULT.. p. (. aquilo fazia dezenas de anos. finalmente à história serial: As noções fundamentais que se impõem agora não são mais as da consciência e da continuidade (com os problemas que lhes são correlatos. p..) . 205) não tem dúvidas. escalonamento.. 56-57) “Há dezenas de anos”. pois ainda envolve Braudel e. não certamente com a temática tradicional que os filósofos de ontem tomam ainda como a história “viva”. não são também as do signo e da estrutura. com o jogo de noções que lhes são ligadas. Mas o que importa a Foucault é o resultado dessa ênfase: a transformação do conjunto de problemas da análise história que se realiza plenamente na história serial: As velhas questões da análise tradicional (que ligação estabelecer entre acontecimentos dispares? Como estabelecer entre eles uma sequência necessária? Qual a continuidade que os atravessa ou a significação de conjunto que acabam por formar? Pode-se definir uma totalidade ou é preciso se limitar a reconstituir encadeamentos?) são substituídas agora em diante por interrogações de outro tipo: quais estratos é preciso isolar uns dos outros? Quais tipos de série instaurar? Quais critérios de periodização adotar para cada uma delas? Qual sistema de relações (hierarquia. a ênfase na “longa duração” é ainda predominante na escola dos Annales.

então. se detém em séries de acontecimentos. As noções matemáticas de “série”. Essa distinção. p. em sua tentativa de aproximação com os historiadores. dois parâmetros para analisar o desenvolvimento do discurso historiográfico: aquele que se refere ao domínio de objetos desse discurso – o que os historiadores da escola metódica chamavam de “fato material” – e aquele que se refere à atividade do historiador. Há sempre um momento. 250-251) Há de se notar que: primeiro. no fim da década de 1970 e durante a década de 1980. segundo Foucault. mas nesse momento. 31) Mas. mas os historiadores e eu temos um comum interesse pelo acontecimento. Tratava-se. à primeira vista.26 Não sou historiador no sentido estrito do termo. resta claro que Foucault tem a Escola dos Annales. a referência à noção de série e correlatas manifesta a ênfase que Foucault atribuía à história serial. entre a década de 1960 e 1970 sua presença era constante: era o apogeu da análise estrutural. tal coisa – um método serial? Parece-nos. de aplicar ao campo da história intelectual conceitos que. então. ao nível de outros pontos. dominada pela relação entre o historiador e o documento – o “fato formal” da escola metódica. segundo. da história serial e quantitativa e do trabalho de Foucault. Foucault. Apenas um método serial. em que as séries começam a divergir e se distribuem em um novo espaço: é por onde passa o corte. de fato. Assim. pois. desde a História da Loucura. a referência à longa duração não deixa dúvida de que Foucault se refere ao trabalho de Braudel e seus seguidores. 2012. 2005. embora não tenha nomeado nenhum historiador ou escola na introdução d’A arqueologia do saber. a modalidade enunciativa da história. saber a qual .” (DELEUZE. e a busca de outras séries que a prolonguem. p. enquanto a história serial trabalha com séries de documentos. como o utilizado atualmente pelos historiadores. É preciso. dominavam então a história tout court. em certo momento. Método serial fundado sobre as singularidades e as curvas. principalmente sua “segunda geração” como parâmetro para falar do desenvolvimento autóctone na historiografia. ao supor que os historiadores e Foucault compartilhariam de um mesmo método. permite a construção de uma série na proximidade de um ponto singular. parece negligenciada tanto por Foucault. são insistentemente evocadas no tratado sobre A arqueologia do saber. essas noções oriundas da estatística descritiva perderão importância tanto no trabalho de Foucault quanto na comunidade historiográfica. É verdade que. principalmente. que. Temos. ou locais. essencial. “função” e “dispersão”. quanto por Deleuze. em outras direções. há. (FOUCAULT.

e. Sociétés et Civilisations. para a pesquisa sobre a documentação da história econômica é mantido nos quatro primeiros números da mesma. a esmagadora maioria (entre 80 e 85) versam sobre história econômica.. ao início do século XX. Ao inaugurá-lo Febvre e Bloch (1929. um desenvolvimento interno da Escola dos Annales. Histoire. a ambição e os trabalhos de certos historiadores economistas”. 1997. Isso se deve. [Em primeiro lugar] diz respeito aos processos de tratamento dos dados históricos quantitativos.. em boa parte. O termo ‘história quantitativa’ designa igualmente.. para medir a real proximidade entre o projeto foucaultiano e a historiografia. a questão da aplicação da estatística às pesquisas históricas. é chamada Annales. Sciences Sociales. Économies. p. Labrousse já trabalha com a noção de série de preços. 59-60) Importante assinalar que a atualização de métodos quantitativos em história remonta. para Mélanges d’histoire sociale em 1942. em grande. ao qual os Annales darão grande atenção nos anos subsequentes. Ora. emerge o problema histórico dos preços.) 2. Assim definidas. eram chamados “história quantitativa”: 1. parte à necessidade de tratar de fenômenos de longa duração. em 1940. volta a se chamar Annales d’histoire sociale durante o ano de 1945. de 1929. p. devido. em França. Escrevendo já à Annales d’histoire sociale11. assim. Finalmente. entre outras. (FURET. em grande parte.. pelo menos em França.27 desses domínios se refere a noção de série em Foucault e nos historiadores. p. Segundo François Furet (1986) havia três conjuntos de procedimentos que. De fato.) 3. geralmente anuais. A revista dos Annales foi renomeada cinco vezes ao longo de sua existência: fundada como Annales d’histoire économique et sociale em 1929 foi renomeada pela primeira vez para Annales d’histoire sociale em 1940. quando já é discutido nas primeiras edições da revista Annales. 11 . a história quantitativa e a história serial aparecem ao mesmo tempo ligadas e diferentes. a ambição ao mesmo tempo mais geral e mais elementar da história quantitativa é de construir o facto histórico e séries temporais de unidades homogéneas e comparáveis. de todas as contribuições à revista no ano de sua fundação. Esse espaço. 59) já evocam. 34). A história serial e quantitativa é. ao domínio da história econômica durante o período em que Bloch foi seu diretor (BURKE. (. desde 1994. 1986. (. é renomeada em 1946 para Annales. é preciso fazer uma distinção entre história serial e história quantitativa. Não somente isso: já no primeiro número da revista um espaço específico é reservado para o problema da documentação econômica. no ano seguinte. poder medir-lhes a evolução em determinados intervalos de tempo. De início.

portanto integrável em uma série homogênea. uma história. 12) Apesar disso. 1978. bien sûr. 304) Esse caráter estatístico garantiria uma “utilidade” à história em relação as demais ciências humanas uma história que a cada uma das ciências humanas. É nesse ponto que as pesquisas de Foucault poderão entrar em contato com as pesquisas dos historiadores profissionais. por excelência. p. est le signe d’une promotion. par excellence. doit être considérée comme recherche fondamentale. p. suscetível sobretudo de ser ligada às séries que utilizam correntemente as outras ciências do homem. ela deve ser considerada como pesquisa fundamental.” (MAURO. escrevendo aos Cadernos Vilfredo Pareto. ou seja. qui. » 12 . pour nous. des sciences et techniques sociales » 14 Livre tradução de : « Une histoire que serait à même de répondre totalement à cette demande de la réflexion économique mériterait pleinement le titre de science auxiliaire de l’économique. bem entendido. tal como pensava Chaunu se adequava melhor. mas igualmente cultural ou econômico) que pelo elemento repetido.”13(CHAUNU. partant intégrable dans une série homogène. É o que se depreende da definição que Pierre Chaunu manteve praticamente intacta durante vários anos: Uma história que se interessa menos pelo fato individual (fato político. p. enfim. et même come la recherche fondamentale. estritamente falando. 22) Finalmente. 11-12) Assim. surtout d’être recordée aux séries qu’utilisent couramment les autres sciences de l’homme » 13 Livre tradução de : «utile. forneceria uma básica sólida construída de índices quantitativos. é à economia fundamentalmente que a história serial. das ciências e técnicas sociais. com aplicação a todos os domínios e não somente ao da história econômica. 1978. o historiador « confessa » esse propósito de « servir » à economia: « uma história que responderia totalmente a essa demanda da reflexão econômica merecendo plenamente o título de ciência auxiliar da economia.12 (CHAUNU.28 Quanto à história serial. 1978. que. mais to ut aussi bien culturel ou économique) qu’à l’élément répété. é o sinal de uma promoção »14 (CHAUNU. e mesmo como al pesquisa fundamental. Não por Livre tradução de : « Une histoire qui s’intéresse moins au fait individuel (fait politique. suscetível de em seguida usar os processos matemáticos clássicos de análise de séries. como um prolongamento da demografia teremos o que Chaunu chama de “quantitativo ao terceiro nível”. de fato o que ficará conhecido como história serial é uma história estatística. ela é um desenvolvimento ulterior do princípio básico da escola dos Annales segundo o qual era preciso procurar fatos que ultrapassassem a dimensão individual. de modo que “a história seriada é a generalização e sistematização da história estatística. “útil”: “útil porque serial. 1972. para nós. susceptible de porter ensuite les procédés mathématiques classiques d’analyse des séries. a aplicação dos métodos de análise estatística a problemas de psicologia coletiva. p. parce que sérielle. susceptible. Quatro anos mais tarde.

.quand il vivait » 15 . 161) E. E contudo problema da relação entre a história dos sistemas de pensamento e a história social e econômica não era novo. vitimas da eterna barbárie. e a história intelectual praticada fora da comunidade historiográfica. por onde o mundo das ideias possa tomar em nossos espíritos o contato que ele teve natutalmente com o mundo das realidades – em que ele viveu. 1946. etc. para où le monde des idées puisse reprendre dans nos esprits le co ntact qu’il avait tout naturellement avec le monde des réalités.29 coincidência. Ele havia sido proposto já por Lucien Febvre a respeito do trabalho de Etienne Gilson: Eu certamente não peço ao historiador das doutrinas se fazer. a solução então sugerida por Febvre fundará. para usar a expressão ainda mais imprecisa de Febvre então.15 (FEBVRE. as esferas de Ypres. É preciso verificar o quanto. É provável que Foucault esperasse que seus trabalhos se integrassem perfeitamente nessa zona de transição entre a história praticada por Aries ou Ladurie e a história intelectual. entre esse “terceiro nível” de que fala Chaunu. a história das ideias. toujours. Trata-se de mostrar que uma catedral gótica. e integração. Eu o peço que mantenha aberta. Ainda menos de submetê-lo à ação dos interesses. sempre. e uma dessas grandes catedrais de ideias como aquelas que Etienne Gilson nos descreve em seu Livre tradução de: Je ne demande certes pas à l’historien des doctrines de se faire. da ciência. Je lui demande de tenir ouverte. p. uma porta de comunicação. Surge então o problema da relação. se improvisar historiador das sociedades políticas e econômicas. a despeito das pontuações do historiador. Veyne. no grupo de historiadores que se dedicavam à história serial de terceiro nível se encontram praticamente todos os historiadores com que Foucault conviveu ou cujo trabalho admirava até meados da década de 1970: o próprio Chaunu. Entretanto. da filosofia. a noção de “série” podia servir de ponte entre os trabalh os de Foucault e a linha encabeçada por Chaunu. de fato. essa proximidade no domínio de objetos que aliás também se verificava com historiadores que não aderiram à história quantitativa – Le Goff. o dogma segundo o qual a historia intelectual deve ser reduzida à história social: Não se trata de subestimar o papel das ideias na história. contudo. François Furet. no mesmo “clima”. num mesma mentalidade ou. Philipe Aries. sob a aparente simplicidade dessa exigência se encontrava o problema realmente difícil de integrar uma produção intelectual singular no mesmo espaço espiritual de um época. une porte de communication. Jacques Le Goff – exceção feita à Paul Veyne. de s’improviser historien des sociétés politiques et économiques. Georges Duby e Jacques Revel. De certo modo. Duby – não é suficiente para falarmos de uma interação em termos metodológicos.

2005a). a ambiguidade da posição de Foucault junto aos historiadores ainda hoje a uma má-compreensão dos propósitos de um filósofo. As obras empíricas de referência são: A História da Loucura na Idade Clássica (FOUCAULT. et une de ces grandes cathédrales d’idées comme celles qu’Etienne Gilson nous décrit dans son livre – ce sont les filles d’une même temps. Não ligamos. 161) Podemos dizer. les balles d’Ypres. Les filles des mêmes hommes. filósofo e “filósofo do ofício do historiador”. ligado à escola de epistemologia histórica de Canguilhem tentará avançar esse projeto na direção dos procedimentos então utilizados pelos historiadores a partir de sua própria visão da evolução da historiografia francesa de sua época.30 livro – são filhas de um mesmo tempo. é neste ensaio de 1968. é rechaçado como uma filósofo a entremeter-se nos assuntos da historiografia. para usar a expressão precisa de Le Goff.2 A arqueologia como método de análise histórica Tendo essas conclusões em vista. A maior parte dos textos e pronunciamentos adicionais relevantes consta no segundo volume da tradução brasileira dos Ditos e Escritos (FOUCAULT. 1972) e na aula inaugural de Foucault no College de France. p. mas a uma bivalência no próprio empreendimento foucaultiano. em torno de uma nova abordagem da prática historiográfica. que a atenção dos historiadores há de voltar-se. Foucault é reconhecido como um inovador. publicada sob o título A ordem do discurso (FOUCAULT. portanto. que as relações entre Foucault e os historiadores se deram em duras frentes bem diversas: uma que se dá em torno dos “novos objetos” e outra. p. mesmo por seus adversários. Encore moins de le subordonner à l’action des intérêts. pois. Foucault (2008. Il s’agit de montrer qu’une cathédrale gothique. 2008). Foucault. podemos passar à descrição do modelo de pesquisa arqueológico. Em sua Resposta ao círculo de epistemologia17. 1. 1999). Na primeira. Filhas dos mesmos 16 homens (FEBVRE. 17 Doravante “Resposta”. exposto teoricamente na Resposta ao círculo de epistemologia (FOUCAULT. 112) define a arqueologia como “análise das formações discursivas e de seus sistemas de positividade em relação ao elemento saber”. que deixou-se ver como historiador. 1966). tal como pensa Noiriel (1994). E à medida em que os “novos” objetos já deixavam de ser “novos” é a este segundo Foucault. em que Foucault pretende responder a uma série de questões do “Círculo de Epistemologia de Paris” a respeito de As Livre tradução de: “ Il ne s’agit pas de sous-estimer le rôle des idées dans l’Histoire. victimes de l’éternelle Barbarie. O Nascimento da Clínica (1977b) e As Palavras e as Coisas (FOUCAULT. 1946. 16 . na segunda. no tratado sobre A Arqueologia do Saber (FOUCAULT. Portanto. 2008).

p. p. 20 Aparece como sinônimo de “genealogia” no curso de 1975 ( FOUCAULT. Dominique Lecourt. grosso modo. pois. De modo que seria bastante incorreto localizar em A ordem do discurso. Seus principais representantes foram: Georges Canguilhem. descontinuidade e ruptura eram bem familiares. 3. pp. guiado pelo princípio de inversão. Já em A arqueologia do saber. 2010. apesar do termo. Isso não significa que o procedimento por ele nomeado tenha sido abandonado. suscitando. Correspondem. mas como procedimento específico complementar à “genealogia”. é ainda da arqueologia que se trata (FOUCAULT. 1979. à liberação do discurso das unidades formadas por todos esses procedimentos. “é a descrição sistemática de um discurso-objeto”. ela ocorrerá ao longo das pesquisas feitas no âmbito do College de France. 2005a. uma clivagem nas pesquisas de Foucault e. que em grande parte elabora as noções já presentes na Resposta. coloca em questão as formas de exclusão. A partir da aula inaugural de Foucault no College de France. O “círculo”. para abarcar as demais regiões do Arquivo: à região da política e da sexualidade21. p. estendida. é estranho a ela”. pois. evidentemente. 19 Em geral a crítica contundente de Jean Piaget (1979. . o termo “arqueologia” não é mais prevalente 20 . se de fato uma reorientação metodológica ocorre. 51) e uma única vez no curso de 1976 (FOUCAULT. Michel Serres. porém. “A instância do sujeito criador. 60). 66-69) ao livro As palavras e as coisas parte da pressuposição de que Foucault tentou desenvolver um tipo de epistemologia estruturalistas e que as epistemes são estruturas epistemológicas – pressuposto este que será enfaticamente negada por Foucault no tratado sobre A arqueologia do saber. p. François Dagonet. 1999. O método descrito aí comporta um conjunto crítico e um conjunto genealógico. era formado por membros da escola de epistemologia histórica francesa18 para os quais as noções de limiar. Foucault (1972. na qualidade de monumento”. de limitação e de apropriação do discurso. p. 18 A escola de epistemologia histórica francesa se formou a partir da herança de Gaston Bachelard. 171-173) enumera quatro características que distinguem a arqueologia da história das ideias: 1. 2. “é uma análise diferencial das modalidades de discurso”.31 palavras e as coisas. Martial Guéroult. 16). O conjunto genealógico corresponde à própria descrição arqueológica. mas. uma ocasião para que Foucault fizesse sua primeira investida contra os que fizeram do livro um assassínio do homem e da história ou dos que viam nele um “estruturalismo sem estruturas” (PIAGET. 21 Tal possibilidade de extensão já se encontrava prevista no tratado de 1969 sobre A arqueologia do saber. 4.69)19. O conjunto crítico. “dirige-se ao discurso em seu volume próprio. que os dois principais operadores da arqueologia (formações discursivas e sistemas de positividade) aparecerão pela primeira vez. enquanto razão de ser de uma obra e princípio de sua unidade.

ou do pensamento. 100). sempre. p. usando termos um pouco arcaicos. Assim.. 1984) e História da Sexualidade III (FOUCAULT. relacioná-los a um único e mesmo princípio organizador. na analítica do discurso.]. que domina três quartos do tratado. de rutura. de série. p. 1972.. segundo o autor. resta em aberto a questão de que modificações seriam necessárias no mesmo para dar conta dos discursos “não -sérios”. religião. as noções de ‘mentalidade’ ou de ‘espírito’ que permitem estabelecer entre os fenômenos simultâneos ou sucessivos de uma época dada uma comunidade de sentido. ao menos em parte. A aplicação da categoria da descontinuidade à história intelectual supõe. “palavra”) é o conjunto de formulações que se individuam de modo mais ou menos arbitrário. Elas são. 2009). 31) para nelas aplicar os “conceitos de descontinuidade. “é preciso se inquietar também diante de c ertos recortes ou grupamentos com que nos familiarizamos. ou das ciências. se dá ao nível da linguagem. de transformação” (FOUCAULT. O modelo é desenvolvido com vistas a história que se pode chamar “intelectual” (dos discursos sérios).. submetê-los ao poder exemplar da vida [. o tema da continuidade” (FOUCAULT. Logo. aqueles nos quais não há uma pretensão de racionalidade científica e que constituem na maior parte das vezes o acervo documental das pesquisas históricas. ele significa “[. não deve nos enganar: trata-se. que constituem uma pragmática do método. diríamos que o primeiro e o terceiro sentido são formais e o segundo é material. em número de quadro: tradição. podem ser verificadas em cada uma das obras posteriores do autor: Vigiar e Punir (FOUCAULT. É este modelo que passaremos a descrever agora. O segundo termo é um conceito específico de Foucault. ou dos conhecimentos” (FOUCAULT.. no sentido formal de prática regulamentada o termo “discurso” é equivalente ao termo “formação discursiva”. 31) levanta questões de procedimento. O tema do “discurso” 24. . que se possa romper “com as noções que diversificam. Se é bem certo que o modelo tal como será exposto é aplicável somente aos discu rsos “sérios”. [. do desenvolvimento de um modelo teórico de análise histórica.. esta analítica do discurso possa se aplicada a problemas da história dos historiadores. História da Sexualidade I (FOUCAULT... 1972. Tais regras. história. 31-32) Em segundo lugar. 31). p. Foucault desenvolve em toda sua extensão um modelo teórico22 de análise histórica voltado especificamente 23 para as disciplinas “que se chamam história das ideias. que em cada pesquisa empírica deve ser complementado por regras pragmáticas de pesquisa..]. literatura. 1972. p.] permite repensara dispersão da história na forma do mesmo [.. 1972. mentalidade/espírito: A noção de tradição [. (FOUCAULT. 24 N’A arqueologia há dois termos que se traduzem igualmente por “discurso”: parole e discours. parole (literalmente.32 Em A arqueologia do Saber. Digamos para simplificar que o que se desenvolve em A arqueologia do saber é o modelo teórico. 1972. como esclarece Foucault (1972. 1985) 23 Foucault não pretende que o modelo aí desenvolvido se aplique a pesquisas da história tout court. 1988). o que não impede que. ora grupo individualizável de enunciados. filosofia. 22 A aplicação do modelo. em primeiro lugar. desenvolvimento/evolução. p. cada uma à sua maneira. as considerações do tratado não estão em mesmo nível que as considerações “teóricas” presentes nos trabalhos empíricos.] ora domínio geral de todos os enunciados. a noção de influência que fornece um suporte – demasiado mágico para poder ser bem analisado – aos fatos de transmissão e de comunicação [. que são colocadas sempre por ocasião da pesquisa empírica. mas que. História da sexualidade II (FOUCAULT. de todo modo. p. ora prática regulamentada dando conta de certo número de enunciados” (FOUCAULT.. 31).]. de limiar.. influência.] ciência. O primeiro não é objeto específico da arqueologia. as noções de desenvolvimento e de evolução: elas permitem reagrupar uma sucessão de acontecimentos dispersos.. De modo que.

a história e a filosófica. pertenciam a um povo de camponeses. como bem explicitou Paul Veyne (1995. Considere-se o enunciado “tudo está muito bem. mas devemos cuidar do nosso jardim” (VOLTAIRE. 1982. Mas.33 ficção. nos equivocaríamos se deduzíssemos que tudo o que um historiador faz é história ou que tudo que um médico faz é medicina. a história e a política. 38). 33). certamente. Um livro como A sociedade Feudal. não o podem fazer sob o mesmo estatuto. segundo o autor. a filosofia e a religião. Ou seja. Dito de modo mais simples: um livro de história ou as obras completas de um historiador. 1972. Consideremos a questão do seguinte modo: a medicina é o que os médicos fazem dela. 256).. 26 Caracterizando os normandos. contêm uma variedade de enunciados que não podem todos pertencer ao discurso histórico ou médico. 1972.. etc. que os campos de pilhagem do Ocidente atraíam. 117) 28 “Na verdade. respectivamente. logo à primeira vista.. 1983. de escultores em madeira e de comerciantes. p. como os indivíduos estão envolvidos em diversas práticas. deixar em suspenso por um instante esses grandes rótulos? Ao menos para a arqueologia do discurso. cujos limites e aplicabilidade são. p. a história o que os historiadores fazem dela. devemos considerá-la como parte da filosofia de Voltaire ou um experiente literário?25 Será que de fato estamos certos sobre as fronteiras que separam a filosofia e a literatura. tal como de guerreiros. 236): prescrição irônica contra Leibniz. estas agendas não são os únicos trabalhos históricos legados por uma época muito preocupada com o passado. contém tanto enunciados históricos 26 quanto enunciados metodológicos27 e teóricos28. de Marc Bloch. o que se faz (a prática) define o que é feito (a obra) e só se pode explicar o que é feito pelo que se faz. p. é preciso liberar o enunciado dessas classificações. enquanto que o domínio de O enunciado “cuidemos de nosso jardim” aparece ao fim do romance Cândido de Voltaire como um último remate do personagem Cândido contra o otimismo de seu antigo professor Panglos que representa a filosofia de Leibniz. para analisar o que se diz de fato.” (FOUCAULT. por possuírem um domínio de objetos completamente diferente: referem-se a acontecimentos numa época específica (período medieval).)” (BLOCH. 1982. p. Ainda aqui. da filosofia e da ciência. mesmo os que podem. bastante precários. “as unidades que é preciso por em suspenso são as que se impõe da maneira mais imediata: as do livro e da obra” (FOUCAULT. todas essas unidades (algumas das quais disciplinarizadas) não podem valer como delimitações legítimas de um parentesco. 33). etc? Não seria preciso. mas. p. 45) 25 .” (BLOCH. E. afirma Bloch: “Estes Vikings. 1982. 27 “À falta de outros testemunhos (. de ferreiros. p. já que é no livro e na obra que os historiadores do pensamento. um tratado médico ou as obras completas de um Pinel ou Esquirol. Em terceiro lugar.” (BLOCH. das ideias. acreditam ter de buscar a coerência de um projeto de racionalidade. trata-se de unidades que são colocadas em jogo principalmente pela história intelectual. e os primeiros se distinguem dos segundos. p.

essa irredutível – e muito frequentemente minúscula – emergência” (FOUCAULT. 1972. 39). Isso não significa que todas essas unidades que a arqueologia põe em suspenso sejam por ela tomadas como ficções ou ilusões. 36) Foucault insurge-se contra o tema da origem e a ele já opõe. p. 38). supõe que “[. Neste primeiro momento. portanto. portanto. domínio este que “é constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham sido falados ou escritos). o segundo. o conceito genealógico da emergência: “o que se tenta observar é essa incisão que ele constitui. Não é um trabalho linguístico. 1972. e. não opera ao nível das formulações29 e do texto ou dito (parole). o primeiro “destina a análise histórica do discurso a ser busca e repetição de uma origem que escapa a toda determinação histórica. De modo que. Sua Importante distinguir a “formulação” ou “enunciação” do enunciado: uma formulação é “o ato individual (ou.] todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito”. 32).] é a população de acontecimentos no espaço do discurso em geral (FOUCAULT.. desde aqui. O primeiro. 1972. quer a um domínio de objetos fictícios (possibilidades não desenvolvidas ainda). quer a acontecimentos do presente do autor (a prática de se voltar a testemunhos involuntários. p. p. em sua dispersão de acontecimentos e na instância que é própria a cada um” [. o grupo de signos: 29 . realizada essa primeira tarefa. p. quer a um domínio de objetos ideais (a concepção da história que o historiador compartilha). como “uma descrição pura dos acontecimentos discursivos” (FOUCAULT. A arqueologia se define. 93). “quer que jamais seja possível assinalar. por exemplo). p. Trata-se de uma decisão metodológica que “permite. a rigor. coletivo) que faz surgir. mas ao nível do enunciado e do discurso. Finalmente.34 objetos dos enunciados da teoria da história refere-se. de início restituir ao enunc iado sua singularidade de acontecimento” (FOUCAULT. p. o trabalho do historiador-arqueólogo consiste em liberar o domínio em que irá trabalhar.. por tentar fazer aparecer a emergência de um fenômeno a partir de um sistema de regularidades. 1972. em consequência. a irrupção de um acontecimento verdadeiro”.. o outro a destina a ser interpretação ou escuta de um já-dito que seria ao mesmo tempo um não-dito” (FOUCAULT. a arqueologia se caracteriza. 38).. com os quais é preciso aceitar trabalhar. Enquanto procedimento analítico. 2008. 1972. na ordem do discurso. é preciso romper com dois temas ligados ao postulado de continuidade que domina a historia intelectual tradicional: o tema da origem e o tema das significações ocultas. o pesquisador estará diante de “uma população de acontecimentos dispersos” (FOUCAULT. e justamente. em um material qualquer e segundo uma forma determinada.

porém. social. nosso propósito formalista requer que estabeleçamos uma ordem entre uma e outra análise. 2005a. de determinar suas condições de existência. 1972. p. p. p. (FOUCAULT. Achamos por bem. 146) concebia a tarefa da descrição dos enunciados e a tarefa da descrição das relações entre agrupamentos de enunciados (formações discursivas) como correlativas. E. 1972. de estabelecer suas correlações com outros enunciados a que pode estar ligado. Por mais importante que seja o sentido ou a produção de sentido. 1972. 40). Uma tarefa.. de mostrar que formas de enunciação excluiu (FOUCAULT. justamente porque. parece ter de se colocar previamente30: a da descrição do enunciado. p. em nossa sociedade ao menos. as formações discursivas que os permitem individuar. a formulação é um acontecimento que. e não outro em seu lugar?” (FOUCAULT. E o domínio do enunciado deve ser liberado.35 questão fundamental é: “como apareceu um determinado enunciado. a partir dos discursos tomados para análise e que foram decompostos num primeiro momento. a formação na qual e a partir da qual podem emergir. que a arqueologia deve poder fazer aparecer. nesta fase. reconstituir os discursos que se haviam esfacelado. de fixar seus limites da forma mais justa. é sempre demarcável segundo coordenadas espácio-temporais” (FOUCAULT. a partir do sistema de relações discursivas que efetivamente os delimitam e os tornam possíveis: trata-se de desenhar.. são. 41) que não estão ligados a “operadores de sínteses que sejam puramente psicológicos” (FOUCUALT. por . quer-se. entretanto. p. e de “controle”. Foucault (1972. p. 41) De modo que o modelo arqueológico determina que as relações entre os enunciados sejam analisadas a fim de fazer aparecer as condições que tornam esses enunciados possíveis. 134). 1972. “que têm por função conjurar seus poderes e perigos” (FOUCAULT. o discurso é atravessado por um certo número de “princípios de exclusão”. econômica. que visam “dominar seu acontecimento aleatório. 1972. pelo menos de direito. 9). p.. portanto.]. a arqueologia não conduz sua análise nessa dimensão em que as significações emergem. 39 Liberado o campo dos acontecimentos discursivos. outros tipos de relações” (FOUCAULT. contudo.]. p. 9). 1972. 30 Na verdade. de três ordens distintas: [1ª] Relações dos enunciados entre si [. [2ª] relações entre grupos de enunciados assim estabelecidos [. 39). sua tarefa é compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de seu acontecimento. 2005a. política). a tarefa da arqueologia é “apreender outras formas de regularidade. Tais operações.. esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT. p. [3º] relações entre enunciados ou grupos de enunciados e acontecimentos de uma ordem inteiramente diferente (técnica.

o enunciado deve ser definido como uma “[.36 É preciso buscar. que se transcreve como exemplo de uma sequência aleatória de signos. fazer a descrição intrínseca do enunciado preceder a descrição das formações discursivas. O enunciado não pertence à ordem das coisas.. [. o ato de fala). enunciados: enunciado de uma sequência aleatória de signos. se ‘fazem sentido’ ou não. 1972. um apanhado de caracteres tipográficos ou as teclas de uma máquina de escrever. 108). Num primeiro momento supõe-se que o enunciado seja uma unidade ao lado destas outras que nos são familiares. segundo que regra se sucedem ou se justapõem..] um átomo do discurso” (FOUCAULT. a propósito de uma série de signos. 106).. pela análise ou pela intuição. p.. p. em particular. enunciado da ordem de disposição das letras do alfabeto em um teclado segundo a convenção adotada.. em seguida. senão a sequência de caracteres da máquina de escrever seria um enunciado tanto quanto a transcrição que a reduplica.] é uma função de existência que pertence. 109) razões que se tornarão claras ao fim deste tópico. fundamentalmente. 1972.. de que são signo... [. e a partir da qual pode-se decidir. para usar os exemplos do autor. nem sempre poderá constituir um enunciado. Mas é aí que começam as dificuldades: pois um conjunto de signos.] qualquer série de signos. Mas o enunciado também não pertence à ordem da linguagem: não está ao lado das unidades familiares da frase ou da proposição. de grafismos ou de traços – qualquer que seja sua organização ou probabilidade – basta para constituir um enunciado” (FOUCAULT. não são de modo algum enunciados. certamente. 1972. da existência dessa entidade e de sua diferenciação em relação a outras unidades de análise mais ou menos familiares (a frase. Mais ainda: [. a proposição.] função que se exerce verticalmente em relação às diversas unidades e que permite dizer.. Ele então apareceria como “[. 1972. de figuras.. em sua incontornável existência material. aos signos. Nesse caso.. se elas estão aí presentes ou não” (FOUCAULT.] um ponto sem superfície mas que pode ser demarcado em planos de repartição em formas específicas de grupamentos. Por outro lado. primeiro. “[. e que espécie de ato se encontra efetivado por sua formulação (oral ou escrita) (FOUCAULT.] um grão que aparece na superfície de um tecido de que é o elemento constituinte. a transcrição desses signos aleatoriamente num papel ou na ordem em que aparecem em um teclado serão. 100). .. o que Foucault entende por “enunciado”. p. Com relação às unidades de que a análise da língua e a análise lógica fazem aparecer. pois que a especificidade do modelo da arqueologia depende.

o sentido ou não de uma frase. ou de ‘seres’. p. Foucault forneceu as variáveis para a expressão que a define. 111) Importante não confundir esta “outra coisa” com a qual o enunciado mantém relação.. é a partir da função enunciativa que se pode reconhecer a existência da frase. da proposição ou do ato de fala. que a lógica. O referencial do enunciado forma o lugar. esclarece Foucault (1972. 1972. de ‘fatos’. com o sentido de uma frase ou o referente de uma proposição. O referencial de uma função enunciativa (que podemos denotar pela letra “r”) forma. a partir e apesar dele. de regras de existência para os objetos que aí se encontram nomeados. a análise da língua e do ato de fala.] um conjunto de domínios em que tais objetos podem aparecer e em que tais relações podem ser assinaladas” (FOUCAULT. Foucault afirma que o enunciado é uma função. primeiramente: Uma série de signos se tornará um enunciado com a condição de que tenha com ‘outra coisa’ (que pode ser-lhe estranhamente semelhante. a verdade ou falsidade de uma proposição. Daí a tarefa do historiador-arqueólogo: voltar-se para essa função específica que define uma modalidade de existência histórica de uma sequência de signos. dos estados de coisas e das relações postas em jogo pelo próprio enunciado. o referente de uma proposição e o sentido de uma frase. Ao descrever a função enunciativa. p. Sabe-se que uma função é uma relação de dependência entre duas variáveis. a emissão ou não de um ato de fala. Mas é justamente. contorná-lo. De modo que é essa relação que se deve procurar para individuar uma função. p. este correlato.e não à sua causa nem a seus elementos. a relação não é nem de semelhança nem de paralelismo. Pois bem. tendem a elidir o espaço próprio do enunciado. a condição. o campo de emergência. De modo que. 114): Está antes ligado a um ‘referencial’ que não é constituído de ‘coisas’. É o referencial que permite decidir se uma proposição tem ou não um referente. No caso da função enunciativa..37 Dito em outras palavras. . e por isso mesmo. Entre o referencial de um enunciado. 1972. designados ou descritos. 114). a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos. O enunciado. ele próprio. mas de leis de possibilidade. as regularidades que permitem individuá-lo e discerni-lo de qualquer outro enunciado. sem deixar por isso de ser uma . de ‘realidades’. para as relações que aí se encontraram afirmadas ou negadas. e quase idêntica como no exemplo escolhido) uma relação específica que é concernente a ela mesma. uma função que define “[. ao menos para encontrar. sua expressão conterá as condições de existência do enunciado. (FOUCAULT.

“um lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes. se uma frase tem ou não sentido. para que haja enunciado. podendo ser ocupada por indivíduos. O sujeito de um enunciado é. 1972. o sujeito aparecerá como uma função que define um espaço vazio. Em segundo lugar. Em terceiro lugar. 1972.. por convenção. deve-se admitir que “é no interior de uma relação enunciativa determinada e bem estabilizada que a relação de uma frase com seu sentido pode ser assinalada” (FOUCAULT. mas esse lugar. 1972.. a ser ocupado por indivíduos. na concepção do autor. para a análise do enunciado. é preciso que se possa reconhecer um domínio vazio. Não é. diferentes posições. [c] É constituído. Por um lado. até certo ponto. mas o espaço que esse indivíduo deve poder ocupar para ser capaz de emitir um enunciado específico. que permanecem frase e proposição. p. p. certamente. Assim. sem deixar por isso de ser uma frase. para poder dizer se uma proposição tem ou não um referente” (FOUCAULT. pela letra “a”. em lugar de ser definido de uma vez por todas e de se manter uniforme ao longo de um texto. varia” (FOUCAULT. 122).]. em uma série de enunciados. p. ainda. 112). 1972. indiferentes.] o sujeito do enunciado é [a] uma função determinada. e assumir o papel de diferentes sujeitos” (FOUCULT. mesmo isoladas do texto ou do conjunto teórico de que fazem parte. O campo “[.. quando chegam a formular o enunciado.38 proposição. 120)... pelo conjunto . de posições subjetivas possíveis.]. de um livro ou de uma obra. 119). p. qual é seu espaço de correlações. espaço determinado ou completamente indiferenciado. [b] é uma função vazia. “é preciso saber a que se refere o enunciado.. p. p.. um enunciado se define pela “existência de um domínio associado” (FOUCAULT. 1972. o enunciado não existe senão em função de um campo enunciativo a ele associado. [b] É constituído também pelo conjunto das formulações a que o enunciado se refere (implicitamente ou não) [. por outro.] é constituído de início [a] pela série das outras formulações no interior das quais o enunciado se inscreve e forma um elemento [. 117) Nesse caso. 113). 1972. mas que não é forçosamente a mesma de um enunciado a outro. “um enunciado tem sempre margens povoadas de outros enunciados” (FOUCAULT. determinado ou indiferenciado. o qual denotaremos. o indivíduo que pronuncia uma formulação.. na medida ainda que [c] um único e mesmo indivíduo pode ocupar alternadamente. definível ele próprio por uma função. De modo que o sujeito de um enunciado é a função que define tal espaço: “[. Ao contrário da frase e da proposição.

” (FOUCAULT. 129). ainda. uma formação discursiva é um sistema de dispersão.” (FOUCAULT. ao invés de tentar estabelecer a unidade discursiva de um grupo de enunciados na identidade e . [c] as constelações em que podem desempenhar um papel.] tentar-se-ia analisar o jogo de seus aparecimentos e de sua dispersão” (FOUCAULT. [d] É constituído. 129). comportando. 123) Por último. seria equivocado buscar a unidade de um discurso no “sistema dos conceitos permanentes e coerentes que aí se encontram postos em jogo?” (FOUCAULT. para cada discurso..]. mas. Por fim. 1972. de seu afas tamento. 1972. para os enunciados. comporta a subfunção que define um campo de estabilização. eventualmente. suas virtualidades estratégicas constituem. do mesmo modo. 1972. 47). por sua vez. e não pela permanência e singularidade de um objeto” (FOUCAULT. 1972. a descrição das formações discursivas. da distância que os separa e.39 das formulações cujo enunciado propicia a possibilidade ulterior [. Secundariamente. na forma específica que seus enunciados assumem.. etc. precisa preencher uma quarta condição: deve ter existência material” (FOUCAULT. “possibilidades de reinscrição e de transcrição (mas também limiares e limites)” (FOUCAULT. 131). pelo estilo da enunciação (descrição. [b] as regras de emprego. 125). mas “conjunto de regras que tornaram possíveis” (FOUCAULT..). p. a unidade de um discurso não está. À descrição do enunciado se segue a descrição das relações entre enunciados e. a qual se constitui pela “constância do enunciado. [. e para que “uma sequência de elementos linguísticos possa ser considerada e analisada como um enunciado. repetição. p. Novamente. 1972. primariamente. todo enunciado possui uma existência material. finalmente. a função que define a materialidade de um enunciado será complexa. 1972. pelo conjunto das formulações de que o enunciado em questão divide o estatuto. é preciso analisar no âmbito da arqueologia. no mesmo sentido. 48). Ora.. seria preciso procurá-la “junto à sua emergência simultânea e sucessiva. seus desdobramentos através da identidade das formas” (FOUCAULT. 1972. p. p. De modo que é preciso agora determinar como uma formação discursiva deve ser estabelecida e analisada. comentário. mas no “espaço onde diversos objetos se perfilam e continuamente se transformam. se decompõe em “[a] esquemas de utilização. a manutenção de sua identidade através dos acontecimentos singulares das enunciações. p. cuja unidade não está na referência a um mesmo objeto. a qual. a materialidade de um enunciado está ligada à função que define u m “campo de utilização”. finalmente. Foucault é aqui perfeitamente didático e nos oferece um quadro bastante nítido das variáveis que. 45). 1972. de sua incompatibilidade. p. particularmente. 47) a forma e o tipo de encadeamento das formulações. 1972. para os domínios analisados por Foucault até então. p. p. antes. p.

as escolhas temáticas. p. p. modalidades. como no caso da descrição do enunciado. temas) são bastante variadas. de degenerescência. pois. de manutenção. no caso em que entre os objetos. p. os códigos conceituais e os tipos de teoria. o campo de emergência de objetos que constituirão o domínio da psicopatologia do século XIX: antes de ser apropriada pela psiquiatria. que.40 persistência dos mesmos temas e teorias. 2010. 51-52). p. posições e funcionamentos. chamar-se-á “formação discursiva”: No caso em que se pudesse descrever. de neurose ou de psicose. 1972. 183. 1972. e que. FOUCAULT. que se trata de uma formação discursiva. os tipos de enunciação. transformações). Em segundo lugar. A tarefa do arqueólogo é. desde si mesmas. 56). a convulsão surge na instituição religiosa31. 2010. embora neles presentes: é a Igreja que se desgarra da 31 32 Cf. conceitos. a tarefa se torna aqui consideravelmente complexa. a título de exemplo. 1972. de demência. 51) Essa descrição deve ser feita pelo estabelecimento das regras de formação. 56). descrever os sistemas de dispersão que dão conta da unidade de um discurso. por isso mesmo. é preciso se dirigir às instância que operam. De modo que. segundo os graus de racionalização. pois as regras de formação de cada domínio (objetos. etc. modalidades de enunciação. é preciso interrogar todas “essas diferenças individuais que. p.” (FOUCAULT. [. Consideremos. 201. de modificação e de desaparecimento) em uma repartição discursiva dada” (FOUCAULT. 1972. 50). vão receber o estatuto de doença. 55). conceitos. p. instâncias de delimitação” (FOUCAULT. para descrever o discurso psicopatológico do século XIX. o instinto33. semelhante sistema de dispersão. portanto. correlações. (FOUCAULT. Quanto aos objetos. FOUCAULT. de anomalia. seria preciso analisar a “dispersão dos pontos de escolha que deixa livres” (FOUCAULT. assim unificado. 2010. além disso. Se se quer. dir-se-á. entre um certo número de enunciados. da prática judiciária. . “A) Seria preciso inicialmente demarcar as superfícies primeiras de emergência” (FOUCAULT. 1972. no âmbito da família32. p. 33 Cf. 112. “B) Seria necessário descrever. 1972. “C) Analisar finalmente as grades de especificação” (FOUCAULT. p. escolhas temáticas).. recorrem ao saber psiquiátrico e a ele entregam o que lhes parece estranho ou exterior. entendidas como “condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos. FOUCAULT. de alienação. 1972. se poderia definir uma regularidade (uma ordem. analisar o objeto da psicopatologia do século XIX. por convenção.. 55).] condições de existência (mas também de coexistência. os conceitos. p. p. Cf. a sexualidade. uma delimitação do patológico.

O problema é fazer aparecer a especificidade dessas últimas e seu jogo com as duas outras”. mas o corpo inteiramente doente. Contudo.41 possessão. portanto. (FOUCAULT. se relacionam. o comportamento do indivíduo durante toda sua história que atesta a presença da anomalia. “a psiquiatria vê finalmente se abrir diante de si.. o que tem por consequência que. a vida e a história dos indivíduos 35 [. . podem se especificar: “a alma [. 56). de tal forma que: não são os objetos que permanecem constantes.. as instâncias em que as diversas formas de loucura. A este nível. Finalment e. em que podem-se analisar e especificar”. respectivamente. 193-194. 2010. nem também o ponto de emergência deles ou seu modo de caracterização.. mantendo-nos no exemplo do discurso psicopatológico. 137. como as instâncias em que os objetos emergem. mas o relacionamento das superfícies em que podem aparecer. 187-192 e p. FOUCAULT.]. p. que.. o domínio inteiro de todas as condutas dos indivíduos”. correlacionálas a relações de outras ordens: relações reais ou primárias.]. O que está em questão para a psicopatologia não é mais a doença que se infiltra no corpo. portanto “separa o místico do patológico. relações reflexivas ou secundárias: assim se abre todo um espaço articulado de descrições possíveis: sistema das relações primárias ou reais. 56). considerada a especificidade das relações discursivas descritas. p. 1972. p. já que não é uma medicina em sentido próprio. o sobrenatural do anormal” (FOUCAULT. Estabelecidas essas regras. 1972. através de uma “disciplina articulatória que é a neurologia”. nenhuma dessas instâncias é capaz de formar um objeto para a psicopatologia. de delimitação e de especificação” (FOUCAULT. É essa relação.] (FOUCAULT. Mas isso não encerra a tarefa do arqueólogo no domínio dos objetos do discurso analisado.. nem o domínio que formam. 1972. e sistema das relações que se pode chamar propriamente discursivas.. trata-se de descrever. 2010. 1972. p. que ao fim. que torna possível a constituição de um domínio de objetos. p. sistema das relações secundárias ou reflexivas. o corpo [.. FOUCAULT. aquelas em que são delimitados e aquelas em que são especificados. 137.. os jogos de correlações neuro-psicológicas 36 [. 36 A psicopatologia do anormal só pode se constituir e se ligar à medicina. 2010. pois uma “formação é assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre instâncias de emergência. em que podem se delimitar. p. É possível ainda. 1972. 60) 34 35 Cf. mas reivindica a “aparição”34. tampouco o simples estabelecimento deste conjunto de regras não seria suficiente para dar conta da constituição dos objetos em um discurso como o da psicopatologia. 62) É o modo. o espiritual do corporal. p. é preciso estabelecer a relação entre elas. (FOUCAULT. como domínio de sua ingerência possível. nenhuma das regras que se pode encontrar para o discurso que se queira analisar constitui por si mesma o objeto desse discurso. 59).]. FOUCAULT. p. como domínio de suas valorizações sintomatológicas.

por exemplo. não é somente uma qualificação (hoje atestada por um documento.] [as quais são definidas por:] [a] situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos. Ou. como o da medicina clínica. e mesmo os esmagam (FOUCAULT. (FOUCAULT. quando esta evocou os temas da epidemia e das constituições. em todo caso. Mais do que descrever os tipos de enunciação possíveis em um dado discurso e os efeitos que a escolha de um estilo possam ter sobre um discurso. O estatuto médico. 133): “quando não se vê o que não se vê. O estatuto médico permite e supõe uma atuação social específica. dependem dessa relação específica.. em que alguns tipos de enunciação são possíveis e outros impossíveis. ser designados. específico. é preciso dar as condições que permitem os únicos tipos de enunciação possíveis. em sua capacidade de percepção e em suas possibilidades práticas por condições que os dominam. em sua função.. mas o lugar. 2008. [b] posições que o sujeito pode ocupar na rede de informações. e cujas regras de formação são as seguintes: A) Primeira questão: quem fala? [estatuto do sujeito]” [. mas tudo o que está aquém e além dessa condição jurídica. A modalidade enunciativa não é simplesmente um estilo de enunciação. o qual possui seus privilégios legais). portanto.42 Que se passe ao domínio das modalidades enunciativas. o diploma. como explica o autor no prefácio à edição inglesa de Les mots et les choses. Assim. é preciso um certo olhar. sofrer intervenções. 1972. tratava-se de saber “se os sujeitos responsáveis pelo discurso científico não são determinados em sua posição. mas também de uma intervenção. o campo multidimensional. que caracterizam o modo pelo qual o sujeito-que-sabe se relaciona como domínio de objetos de seus saber. que uma certa relação com os objetos possa ser estabelecida. para ficar no exemplo do autor. 187). p. analisados. a visibilidade própria que um domínio de objetos possui numa relação discursiva. para que esses objetos possam aparecer.] “B) É preciso também descrever os lugares institucionais” [.. p.. o estatuto . em primeiro lugar.. em primeiro lugar. um conjunto complexo de funções como os demais domínios. pp. Quando apareceu a medicina clínica. como bem disse Veyne (1984. o domínio das modalidades será determinado pela qualificação do sujeito-que-fala. que. é a luz sob a qual um objeto aparece e as condições sob as quais pode ser um objeto determinado de um discurso. Não basta ter coisas diante de si. 66-68) De modo que. A modalidade enunciativa é. não se vê nem mesmo que não se vê”..] “C) “As posições do sujeito [. O domínio de formação das modalidades enunciativas é.

pronunciada no Instituto de Medicinal Social do Rio de Janeiro em 1978. o trabalho. em todos os momentos do tempo. 41 FOUCAULT. Cf... o laboratório [. normas pedagógicas. 37 .. Essa variável do discurso médico será ainda analisada por Foucault na conferência Incorporação do Hospital à tecnologia moderna . E cada prático deverá acrescentar à sua atividade de vigilante uma atividade de ensino. 105ss. 2010. 123). 2010. a religião. 40 “O domínio hospitalar é aquele em que o fato patológico aparece em sua singularidade de acontecimento e na série que o cerca. 67). Cf. o estatuto médico da psiquiatria se modificará de tal modo.]. p. a prática privada41 [. 1977.. FOUCAULT. FOUCAULT. p. Utilizemos um exemplo simples: o estatuto dos alienistas.. Sobre o momento em que o estatuto jurídico. 27.]. FOUCAULT. Para o discurso médico. pede-se que a consciência de cada indivíduo esteja medicalmente alerta. um sistema de diferenciação e de relações [. pronunciada na mesma situação que a anterior. 2010.. Variável. 39 Cf.]. p..” (FOUCAULT. é “o hospital40 [.]” (FOUCAULT. p..]. requisitava que o médico fosse chamado ao tribunal somente para dizer se o acusado estava ou não delirando no momento em que cometeu o crime39. será preciso que cada cidadão esteja informado do que é necessário e possível saber em medicina. p. 27. p. 65). a terceira dimensão do domínio das modalidades enunciativas: “as posições que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos” (FOUCAULT. p. Ou seja. guiado pelo artigo 64 do Código Penal francês e a psiquiatria da alienação entram em “curto-circuito”. a justiça.. 1993. segundo Foucault. diferenciada”. o que o indivíduo.85-105: trata-se da conferência História da medicalização. então.. tal como se encontra na psiquiatria clássica (de Esquirol e Pinel). 1972. 2010.43 médico pôde incorporar toda uma função de vigilância37 e de pedagogia38. p. etc. 1993. Comporta também um certo número de traços que definem seu funcionamento em relação ao conjunto da sociedade (FOUCAULT. investido como sujeito de um discurso como o da medicina. “poder médico sobre o não patológico” (FOUCAULT. da possibilidade de intervenção da psiquiatria – praticamente cobrirá todo o corpo social: é o poder psiquiátrico tal como o vemos atuar sobre a legislação. Em suma. 34.] com outros indivíduos ou outros grupos de indivíduos que têm eles próprios seus estatutos [. FOUCAULT. onde se formam suas modalidades enunciativas. pois a melhor maneira de evitar que a doença se propague ainda é difundir a medicina. uma vigilância constante. p. 38 “E como se não bastasse a implantação dos médicos. instituições. Mas o campo de visibilidade de um discurso.. FOUCAULT. Seja. ”. móvel.]. A partir de 1850. é capaz e obrigado a fazer para sustentar-se como tal? São os “Começa-se a conceber uma presença generalizada dos médicos. do qual Esquirol foi perito. 107-120. conforme se forme o discurso médico.. sistemas. 66). tal estatuto supõe em nossa sociedade: critérios de competência e de saber. por exemplo. portanto. 1977. finalmente. 1972. 1977. é formado também por todos os espaços onde o sujeito (a posição subjetiva) do discurso pode retirar seus instrumentos e receber sua legitimidade. a família. que o campo de visibilidade da psicopatologia – e. o caso Henriett Cornier. cujos olhares cruzados formam uma rede e exercem em todos os lugares do espaço.. 271). o que se pode chamar ‘biblioteca’ ou o campo documentário [.. [.

] [a] técnicas de reescritura [.] B) A configuração do campo enunciativo comporta também formas de coexistência [.. adicionalmente. [c] esquemas retóricos. formas de sucessão. 1977. O domínio de formação dos conceitos de um discurso é regrado pelas seguintes variáveis: A) Essa organização comporta inicialmente.] C) Pode-se. p. definir os procedimentos de intervenção.44 modos de percepção autorizados e requeridos por um discurso específico 42 que se devem descrever e. p. 68). 23).. [e] maneira pela qual se delimita novamente – por extensão ou restrição – o domínio de validade dos enunciados [.. agora. 1977. uma instância de registro e de julgamento de toda atividade médica ”. 67)43..]..].. 29... torna -se.. o domínio em que se formam os conceitos de um discurso.. FOUCAULT. [g] os métodos de sistematização de proposições que já existem [. donde “se estabelece um duplo controle: das in stâncias políticas sobre o exercício da medicina.. que se define seu campo de estabilização e de utilização. [. 1972. 1972.99ss... . [b] campo de concomitância [.]. ela própria.. Para a arqueologia. 1977.]. [a] as diversas ordens das séries enunciativas [. 30). o conceito é o elemento que carrega a materialidade do enunciado. enfim..].. Cf.].. “elemento de construção.” [.. Ou seja. pouco a pouco. é preciso estabelecer a relação entre essas diferentes variáveis.]. mas que passa rapidamente a exercer funções de controle sobre o saber médico e o sobre o corpo social: “órgão de controle das epidemias. mas que são recompostos em um novo conjunto sistemático. [. “o conhecimento mínimo do qual ele é objeto deve naturalmente explicitar-se numa proposição”. epistemologicamente. Daí que a terceira variável é. diz o filósofo.. um local de centralização do saber.] [a] campo de presença[.. 1972.. diz Bachelard (2004. p.. não basta estabelecer as regras que dão conta do estatuto do sujeito.. cujo objetivo primeiro era o controle de epidemias. p.. “as posições que o sujeito pode ocupar numa rede das informações” (FOUCAULT. (FOUCAULT.]. E...]. só tem sentido pleno numa construção”. [c] domínio de memória. Do mesmo modo que no caso do domínio dos objetos trata-se de descrever o “relacionamento entre elementos diferentes” (FOUCAULT. [h] os métodos de redistribuição dos enunciados já ligados uns aos outros. (FOUCAULT. pp. FOUCAULT. [b] tipos de dependência [. [c] modos de tradução. entre elas. [f] a maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um campo de aplicação a outro [. Por exemplo. p.. Considere-se..]. do lugar institucional de onde ele pronuncia seu discurso e das posições que assume. [b] métodos de transição [. [d] meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados [. “O conceito”. p. e de um corpo médico privilegiado sobre um conjunto de práticos”. uma função complexa. é a partir dele que se dão as possibilidade de reinscrição e transcrição dos enunciados. a integração do discurso médico a uma instituição como a Sociedade Real de Medicina. 71-74) 42 43 Para o discurso da medicina clínica.

.].. p... de apropriação.] [b] regime e processos de apropriação do discurso [. Como ocorreu nos casos anteriores. p. Finalmente. “sua demarcação permaneceu sumária e a análise de sua formação não foi demorada” (FOUCAULT. mas em um sentido oposto: uns se perguntam em que condições – e a que custo – um bem pode tornar-se um valor em um sistema de trocas. Com respeito a ele. 85). 1966.] 2. 1. [c] posições possíveis do desejo em relação ao discurso. [. p. A determinação das escolhas teóricas realmente efetuadas depende também de uma outra instância. em que condições um juízo de apreciação pode se transformar em preço no mesmo sistema de trocas” (FOUCAULT. [.] [a] economia da constelação discursiva [. de práticas. a oposição estratégica entre a Fisiocracia e o Utilitarismo: Os Fisiocratas e seus adversários percorrem de fato o mesmo segmento teórico.]. (FOUCAULT.. [b] pontos de equivalência. mas. 74).] 3. primeiramente. que lhe são específicos. é preciso correlacioná-las. 82). mais dans un sens oppose: les uns se demandent à quelle condition – et à quel coût – um bien peut devenir une valeur dans uns système d’échanges. o mesmo princípio correlativo se aplica. Essa instância se caracteriza.. 1972. 209) 44 . seja o domínio da formação das escolhas teóricas ou estratégias. estabelecidas tais regularidades..45 Novamente.. diz o próprio autor.. p. outros discursos que lhe são exteriores e todo um campo. os outros.]. 82-84) De modo que “uma formação discursiva será individualizada se se pode definir o sistema de formação das diferentes estratégias que nela se desenrolam” (FOUCAULT. por exemplo. a análise arqueológica precisa. de início. Tal análise ocorre em As palavras e as coisas. o domínio de formação das estratégias permaneceu bastante subdesenvolvido em relação aos demais domínios.] instâncias específicas de decisão [. p. oposição ou complementariedade [. [c] relações de delimitação recíproca.] [a] pontos de incompatibilidade. [c] ponto de junção de uma sistematização. Consideremos. pela [a] função que deve exercer o discurso estudado em um campo de práticas não discursivas... 1966. [b] relação de analogia.. 1972. Até o momento em que Foucault escreveu A Arqueologia. 1972. 1972.. 209)44 Livre tradução de: “Les Physiocrates et leurs adverrsaires parcourent en fait le meme segment théorique.. de interesses e de desejos” (FOUCAULT. pois o sistema de formação é definido “por uma certa maneira constante de relacionar possibilidades de sistematização interiores a um discurso. é preciso passar à relação entre elas já que “o que pertence propriamente a uma formação discursiva e o que permite delimitar o grupo de conceitos..... apesar de díspares. les autres. pp. [. não discursivo. 1972. à quelle condition um julgement d’appréciation peut se transformer em prix dans ce même système d’échanges” (FOUCAULT. é a maneira pela qual esses diferentes elementos são relacionados uns aos outros” (FOUCAULT. [. 84-85). Determinar os pontos de difração possíveis do discurso [. estabelecidas as regras de formação. pois. p.

o domínio justamente em que o saber intercepta a figura do poder. justamente. Logo. uma De modo um pouco simplista. p. 46 Livre tradução de: “les analyses des Physiocrates et celles des utilitaristes sont souvent si proches. a teoria do valor fisiocrata45 ou a teoria do valor utilitarista pertencem a uma mesma formação discursiva. para completar o modelo arqueológico. 1966. 193) distingue três domínios de fatos comparativos que a arqueologia tem de analisar: a) um discurso em relação a seus limites cronológicos. Ora. p. uma formação discursiva tem o aspecto de uma rede de relações que o trabalho de descrição arqueológica é capaz de estabelecer para os discursos que analisa. para não nos estendermos exageradamente no exemplo. Foucault (1972. Comecemos pela tarefa tão visível e tão criticada em Les mots et les choses: o estabelecimento de relações entre diferentes discursos. como o segundo desses domínios (b) já se encontra previsto no modelo de descrição das formações discursivas. contra a confusão que se seguiu à publicação daquele livro. o operador da difração que separa uns de outros. integrar um terceiro estágio: o do estabelecimento dos fatos comparativos. por que alguns bens são preferíveis a outros. e aquilo que daí se segue. pp. Cf. 209)46. No tratado do método de 1969. tomar a história como do ponto de vista estratégico. Por outro lado. p. 194-195) esclarece que a categoria da episteme não denota uma estrutura. Considere-se a arqueologia do discurso histórico. 1983. justamente por isso – as pesquisas subsequentes ao tratado de 1969 se concentrarão no domínio das estratégias do discurso. Menger. 209) 45 .46 Assim. c) um discurso em relação a outros discursos. De modo que. resta integrar a relação colateral entre vários discursos e a relação de um discurso com respeito a seus limites cronológicos para se complementar a descrição do modelo de pesquisa arqueológico. Para uma visão ampla sobre o problema dos bens e do valor desde o pensamento grego. tal como Foucault a apresentou no curso de 1976: o que interessa então é. na medida em que é um mesmo sistema regular de discursividade em torno do problema da troca. há também pontos de equivalência: “as análises dos Fisiocratas e aquelas dos utilitaristas são frequentemente muito próximas e. uma “teoria do valor” pretende determinar por que certas coisas são apreciáveis como bens e outras não. talvez. Resta. as instâncias de especificação de decisão e as relações exteriores desses discursos não são analisadas. et parfois complementaires” (FOUCAULT. às vezes complementares” (FOUCAULT. conclui-se que a descrição do domínio das estratégias em As palavras e as coisas resume-se à descrição da primeira de suas funções constituintes. e a história das raças do século XVIII como um operador tático. Por outro lado – e. Primeiramente. 1966. b) um discurso em relação aos domínios nãodiscursivos. Nesse sentido. Foucault (1972.

a episteme é implicada. com seus sistemas de formação próprios. 1972. de princípio.. o qual consiste de regras de correlação entre os discursos em questão. uma última função permite “estabelecer correlações arqueológicas”. p. levando em consideração que as regras de formação dos enunciados em uma formação discursiva “não se modificam a cada oportunidade”. Uma segunda permite “definir o modelo arqueológico de cada formação”. uma primeira função descreve o conjunto de “isomorfismos arqueológicos”. não é um dado a partir do qual todo o sistema anterior de relações interdiscursivas pode ser estabelecido. Ela toma. relações de subordinação ou de complementariedade” (FOUCAULT.]. Logo. o produto de uma análise a posteriori da relação entre esses discursos e não uma entidade transcendental. estabelecer “de uma positividade a outra [. A episteme é um fato discursivo construído a partir de um conjunto limitado de discurso. 198). uma forma geral de cientificidade. tão próprio à historiografia contemporânea. 197). a relação em que “elementos discursivos inteiramente diferentes podem ser formados a partir de regras análogas” (FOUCAULT. a análise . De modo que a análise arqueológica parte de um conjunto específico de discursos. p. para o nível dos discursos. ou seja. 1972. ou seja. em relação ao conjunto de relações anteriores. p. ao contrário. Assim. primeiro. A terceira função permite ao arqueólogo “indicar os afastamentos arqueológicos”. Daí um tema conexo. Finalmente.. Primeiramente. dispõem-se ou não conforme o mesmo modelo nos diferentes tipos de discurso” (FOUCAULT. ou seja. 194). conjunto de “relações internas e externas” que caracterizam as formações discursivas que se analisa.47 racionalidade unitária. de modo que essas regras análogas “se encadeiam ou não na mesma ordem. na descrição da episteme. a partir desse conjunto sempre limitado. Daí. é um vetor que precisa ser estabelecido pela análise. só pode ser obtida se a considerarmos uma função complexa. ao problema. 198). 197). da periodização. o espírito. A periodização. incluindo entre esses discursos outros “tipos de discurso”. p. em relação a um conjunto limitado de discursos. a análise arqueológica permite constituir a episteme como uma “configuração interdiscursiva”. por tarefa descrever um “conjunto interdiscursivo” (FOUCAULT. Mas a episteme. 1972. 1972. mesmo que sejam indicados sob “uma única e mesma noção (eventualmente designada por uma única e mesma palavra)” (FOUCAULT. p. mesmo que não tenham o mesmo nível de positivação. 1972. a visão de mundo ou a mentalidade de uma época. a descrição do discurso em relação a seus limites cronológicos e a delimitação de uma época: em outras palavras. numa posição sempre ulterior. que está. a priori. ou construída. que se imporia sobre as formulações dos sujeitos.

para dar-lhe o estatuto analisável da transformação” (FOUCAULT. uma época só se define a posteriori e em relação ao conjunto específico e limitado de discursos que foram analisados. Subindo agora ao nível mais geral em que as diversas formações discursivas são descritas a partir de suas relações mútuas. “se fala dela. 209). Em termos formais. segundo o autor (FOUCAULT. 210). O problema da mudança. reconhecer que algumas dessas regras implicam num vetor de sucessão. 205). Descendo aos níveis elementares. 205-206).48 arqueológica deve operar uma “suspensão das sequências temporais”. p. 1972. quando eles existem. 1972. se converte no problema de se saber que tipo de transformação ela dá lugar. 185-186). não progrediam no mesmo ritmo. é sempre a propósito de práticas discursivas determinadas e como resultado de suas análises” (FOUCAULT. em que se dão as regras de formação de um discurso. suas modalidades enunciativas. e internamente em cada domínio. 1972. uma vez que “há relações. p. pode-se. Pode-se a partir disso. que se pode estabelecer para um período arbitrário. p. 214). e. 206). pode-se. pelo que definimos uma regularidade discursiva: Finalmente. “plano em que se efetua a substituição de uma formação discursiva por outra (ou do aparecimento e do desaparecimento puro e simples de uma positividade)” (FOUCAULT. então. que se operavam no interior do discurso científico diferentes tipos de mudança – mudanças que não intervinham no mesmo nível. p. 1972. evidentemente. 2008. Ao nível dos próprios acontecimentos discursivos (enunciados) ela tenta definir a “embreagem” dos mesmos. a análise arqueológica busca descrever “o sistema das transformações em que consiste a ‘mudança’. derivações que são temporalmente neutras. 1972. p. 1972. “que é específica para cada formação discursiva” (FOUCAULT. há outras que implicam uma direção temporal determinada”. se uma formação discursiva se definia pela forma regular em que forma seus objetos. p. entendendo a análise tentar delimitar um quadro da época é definir . a arqueologia. encarar o problema de constituir uma periodização. mas cujo propósi to é “fazer aparecer relações que caracterizam a temporalidade das formações discursivas e articulam-na em séries cujo entrecruzamento não impede a análise” (FOUCAULT. em que nível e qual a sua extensão: “Pareceu -me de saída. Tomando-se as relações interdiscursivas. a arqueologia se dá por tarefa a demarcação dos “vetores temporais de sucessão” (FOUCAULT. de modo que a relação entre esses domínios. é uma constante. enquanto outras são temporalmente neutras. tenta elaborar esta noção vazia e abstrata. 1972. 204). p. nem obedeciam às mesmas leis” (FOUCAULT. ramificações. seus conceitos e suas escolhas teóricas.

Pode-se fazer um esforço para estender o quanto se queira essa análise. o sentido da expressão “época”. justamente. um enfrentamento que resultaria na rejeição do projeto foucaultiano por grande parte da comunidade historiográfica e críticas violentas do filósofo às convenções acadêmicas dessa comunidade. O curioso é que este enfrentamento se dá.3 Um programa historiográfico: a história geral É verdade que negamos categoricamente que as críticas a uma certa concepção de história presentes no tratado sobre A arqueologia do saber fossem dirigidas à comunidade historiográfica. então. com representantes próximos à Escola dos Annales. entre a modernidade e a idade clássica não são lineares: a periodização não é a mesma. O desenvolvimento metodológico da arqueologia está ligado exclusivamente aos problema suscitados no interior da história intelectual praticada fora dessa comunidade. por exemplo. de outro. Se se pode falar de uma racionalidade clássica ou moderna é no estrito limite das formações discursivas que foram efetivamente analisadas. à qual Foucault. contudo. um diálogo entre o filósofo e os historiadores tornou-se inevitável. mas sempre com respeito aos discursos efetivamente analisados. à medida em que os historiadores retomavam o projeto de psicologia social do início do século a partir de métodos quantitativos e que Foucault avançava seu próprio projeto interceptando o domínio das instituições sociais. Michele Perrot e Michel de Certeau). caso se trate da história ou da biologia. como já observamos. em Foucault. mas como o número de formações discursivas é indeterminado. Por volta da metade da década de 1970. não se refere a uma estrutura ou um espírito que se imporia sobre todo e qualquer discurso de um período.49 a época pela constância de sua racionalidade. se via ligado. 1. uma colaboração sob um projeto comum entre Foucault e alguns historiadores (Paul Veyne. Logo. a partir de certo número de descrições. Arlette Farge. observaremos dois fenômenos diametralmente opostos: de um lado. Entretanto. de certo parentesco entre os regimes de verdade cronologicamente próximos. vermos desenhar-se mais do que uma descrição do desenvolvimento da história dos . E. Se agora retomamos a concepção da história presente n’A arqueologia do saber. também é indeterminado o limite dessa descrição. da psiquiatria ou da economia política. já que a função que define uma época não é mais que o reverso da função da zona interdiscursiva descrita. As fronteiras. Foucault poderá situar certas clivagens na vontade de verdade característica das sociedades ocidentais.

por um princípio global de explicação psicológica. o princípio – material ou espiritual – de uma sociedade. qualquer vantagem na substituição de um princípio global de explicação econômica. Assim. a significação comum a todos os fenômenos de um período. a saber. a social. O problema não está. 17) Foucault não veria. um programa que permitiria a integração de um domínio à outro ou. à tentativa de conhecer o todo de um período. 1972. p. (FOUCAULT. a elisão da fronteira entre história cultural e epistemologia histórica. 17) . 1972. De modo que. assim. – o que se chama metaforicamente o “rosto” de uma época. etc) refletem umas às outras pelo simples fato de coexistirem. para uma “compreensão” geral de um período. devese poder estabelecer um sistema de relações homogêneas: rede de causalidade que permita derivar de cada um deles relações de analogia que mostrem como eles se simbolizam uns aos outros. a artística. que a um realismo compreensivo no qual uma apreensão conjunta e parcialmente intuitiva de um período seria a chave para a explicação de todo e qualquer fenômeno desse período. a científica. mas em derivar deste ou daquela campo legítimo de análise um princípio que sirva. para que o projeto de história global seja viável. (FOUCAULT. para entendermos o projeto de uma história geral é preciso antes compreender o que Foucault chama “história global”. em outras palavras. a priori.50 historiadores em paralelo com a história intelectual. De modo que: O projeto de uma história global é o que procura reconstituir a forma de conjunto de uma civilização. de fato. a lei que explica sua coesão. a partir da oposição entre história global e história geral. A história global. para Foucault (1972). ou como exprimem todos um único e mesmo núcleo central. é preciso antes de toda análise empírica. p. supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área espaço-temporal bem definida. mas às presunções que ele comporta. em fazer história econômica ou psicologia histórica. está menos ligada a um sonho epistemológico de compreensão total que não cessa de ser criticado e combatido por historiadores das mais diversas vertentes. entre todos os fenômenos de que se encontrou o rastro. supor que ordens de fenômenos tão díspares (a econômica. Mas a crítica de Foucault não se dirige à pretensão desse projeto. os pressupostos de ordem metafísica que sub-repticiamente se introduzem na análise história a partir do momento em que nos situamos em tal empreendimento. sua emergência e persistência como projeto historiográfico prevalente.

. valores. e submete-os todos aos mesmo tipo de transformação (FOUCAULT. aparecimento ou desparecimento seja também correlativo. Mas. os hábitos técnicos. p. 1972. Braudel muito pouco tinha a dizer sobre atitudes. p. necessitamos agora comparar essa crítica à história global aos grandes projetos desenvolvidos pela Escola dos annales até a década de 1970: a história estrutural de Fernand Braudel e a história serial de Pierre Chaunu. torna ainda mais importante essa distinção. 1972. com suas categorias de época e episteme. da suposição de homogeneidade entre fenômenos decorre esta outra: . ou mentalidades coletivas. pois. Tanto é verdade que Burke (1997. tenha sido interpretado em termos de totalização e de um projeto de história global. transformação. De modo que não parece correto direcionar à crítica da história global de Foucault a Braudel e a história estrutural que ele praticou: falta-lhe aquela suposição de homogeneidade entre os fenômenos. pois. integrar o . Mas para que o projeto de história global seja coerente. 1997. Assim. o que quer dizer que podemos ter princípios de inteligibilidade diversos sucessivos mas jamais simultâneos. (FOUCAULT. que “apesar de sua aspiração de atingir o que chamava de ‘história total’. mesmo no capítulo dedicado a ‘Civilizações’” (BURKE. supõe-se. teríamos que passar a seguir para campos heterogêneos: alguns fenômenos se conservariam junto ao seu princípio de inteligibilidade enquanto outros desapareceriam e outros ainda apareceriam requisitando um princípio absolutamente diverso. 51).51 De onde decorre um segundo pressuposto: se os fenômenos em um campo histórico são homogêneos entre si. é preciso que a totalidade dos fenômenos de um período receba sua significação de um princípio comum. é preciso que sua evolução. por outro lado. 130) assinala essa pretensão do Mediterrâneo. determinar que grau de afastamento o projeto historiográfico de Foucault estabelece em relação à historiografia que ele recorrentemente cita como revolucionária. 17) O fato de que o livro As palavras e as coisas. observando. as estabilidades sociais. os comportamentos políticos.. p. caso contrário de um campo uniforme e homogêneo. É preciso. 17) Finalmente. por mais que Braudel desejasse “ver as coisas em sua inteireza. a inércia das mentalidades. a partir dos dois postulados anteriores é possível supor “que a própria história pode ser articulada em grandes unidades – ou fases – que detêm em si mesmas seu princípio de coesão”. que uma única e mesma forma de historicidade prevaleça sobre as estruturas econômicas. porém. Parece inegável que o projeto historiográfico de Braudel esteja ligado a uma tentativa de compreensão total. antes de avançarmos na caracterização do projeto de história geral.

forma de conjunto. 1972. à procura de uma história global. 18). cujo caráter relacional permitiria livrar a história dos princípios globais de explicação: O problema que se apresenta então – e que define a tarefa de uma história geral – é de determinar que forma de relação pode ser legitimamente descrita entre essas diferentes séries. o político e o cultural na história ‘total’” não se infere daí que ele postulasse não haver diferenças entre esses domínios. a Foucault não é tanto que se busque estabelecer a posteriori um “sistema de civilização” ou que se tome a resolução de só trabalhar com dados passíveis de serem homogeneizados para a análise estatística. à organização de uma visão de mundo. O que importa. não somente que séries mas que “séries de séries”. significação. Pelo mesmo motivo não poderíamos direcionar essa crítica a pretensão de Chaunu de. em outros termos. conjuntura e estrutura e viabilizar a integração entre domínios de fenômenos com periodizações diferentes. visão de mundo. o jogo das correlações e das dominâncias. 1972. que “quadros” é possível constituir. qual é. de umas para as outras. espírito. 17) segundo a qual a história é um conhecimento acerca de um domínio de fenômenos limitado apenas pelo fato de . o que importa é que o domínio dos objetos da história não seja previamente estruturado por um princípio de unidade que remeteria a função da consciência. no final do século XIX. em resumo. aplicando as técnicas de análise estatística ao domínio cultural. de que efeito podem ser os deslocamentos. o espaço de uma dispersão (FOUCAULT. ao contrário. a pretensão de Chaunu (1978) ainda é a mesma de Braudel e só diverge dela pela aposta nos meios quantitativos para realizar a articulação entre acontecimentos. p. uma história geral desdobraria. ou. Dito de outro modo. como se depreende da seguinte passagem da introdução d’A arqueologia do saber: Contra o descentramento operado por Marx – pela análise histórica das relações de produção. em que conjuntos distintos certos elementos podem figurar simultaneamente. as diversas permanências. p. o social. Uma descrição global cinge todos os fenômenos em torno de um centro único – princípio. p. ao estabelecimento de um sistema de valores. Basicamente. portanto. as temporalidades diferentes. em que todas as diferenças de uma sociedade poderiam ser conduzidas a uma forma única.52 econômico. importa chegar naquela concepção nominalista que Foucault compartilhava com Paul Veyne (1995. das determinações econômicas e da luta de classes – deu lugar. que sistema vertical elas são suscetíveis de formar. 21) É contra essa história que Foucault vê levantar-se a história serial. a um tipo coerente de civilização. produzir uma história dos “sistemas de civilização”. (FOUCAULT. De modo que a crítica de Foucault à história global tinha como alvo a história marxista e seu reducionismo econômico.

53 terem acontecidos e que o trabalho do historiador não consista em transpor. . mas seja justamente uma elaboração metódica do arquivo com a finalidade de resolver certos problemas. traduzir ou compreender a partir do arquivo.

2) quanto ao conjunto documental utilizado pelo autor. 2008). 1988). o domínio se amplia para as práticas em geral. Haveríamos de laborar em erro. não podemos ver senão uma ampliação do domínio de objetos das pesquisas: das práticas discursivas e. uma especial atenção para o poder. Mas. portanto. no primeiro capítulo de Vigiar e Punir (FOUCAULT. nesse domínio tão vasto. portanto. das práticas discursivas no elemento do saber. passagem do problema da emergência para o problema da procedência. contudo. em A ordem do discurso (FOUCAULT. 3) em termos metodológicos. nas relações de poder. políticas. deste ao da convulsão para os alienistas e da convulsão para o instinto da psiquiatria) e. a Genealogia. A leitura-padrão vê aqui uma modificação do objeto de pesquisa de Foucault. Genealogia. fazer uma analítica das práticas em geral supõe que se possa a partir de através de práticas discursivas (documentos) passar-se ao domínio do não-discursivo.54 CAPÍTULO 2 FOUCAULT. 2009b). funcionam. da caça às bruxas ao problema eclesiástico da possessão. mas passa-se também a analisar praticas discursivas não-sérias (a biblioteca azul em Vigiar e Punir. Em . do domínio de objetos da arqueologia/genealogia. no prefácio de História da Sexualidade I (FOUCAULT. determinar se elas constituem uma ruptura na trajetória metodológica do autor. analisando essas pesquisas. Temos. eclesiásticas). a História (FOUCAULT. mais especificamente. A GENEALOGIA E A HISTÓRIA 2. como analítica das práticas não-discursivas.1 A genealogia como método de análise histórica Passemos ao procedimento genealógico. das práticas discursivas ao domínio não-discursivo (dos suplícios ao aprisionamento. teremos que. Essas discrepâncias são de três ordens: 1) uma renovada ênfase sobre relações não discursivas. Supúnhamos ainda agora que em termos de método não se pode reconhecer diferenças profundas entre a arqueologia e a genealogia. 2005a). consultando os livros a partir de Vigiar e Punir e a transcrição dos cursos no College de France. modificação em sua tipologia. as relações de poder e os mecanismos de poder que se formam. Mas. o qual está exposto teoricamente no ensaio Nietzsche. E. Em suma. como foco de análise. em primeiro lugar uma reorganização. se transformam e desaparecem. se negássemos as discrepâncias entre as obras que precedem e que se seguem a entrada do autor no College de France. principalmente. por exemplo). das práticas: continua-se a analisar práticas discursivas sérias (jurisdicionais. médicas. stritu sensu.

oriundos de formações discursivas bem positivadas (são as Lettres de chachet. em História da Loucura e em Nascimento da Clínica. porque é sintoma de uma prática. ele é um dado discursivo. mas que só pôde fazer através e a partir de certo poder. 3) ele é ainda um fato para a história das práticas não discursivas. um campo de visibilidade que constitui por si mesmo um dado de referência e um problema. o documento volta a exercer sua função de memória. uma memória. elidir o momento do referente. mudança na base material da pesquisa: em As Palavras e as Coisas e. de uma relação de poder. Assim.55 segundo lugar. 2) para a história do discurso. 4) para esta história. para termo arcaicos da teoria da história. memórias de casos). a saber. um trabalho bastante específico na ordem da história intelectual. Os problemas que Foucault se coloca a partir da década de 1970. Aqui a crítica do documento é inversa: trata-se de mostrar que todo documento é um “fato que deixou um vestígio material”. ainda. um dado e o próprio fato. nesses caso. pois os problemas. já que essa referência só se torna possível a partir do “encontro com o poder”. o documento) da pesquisa. documentos que não eram. Era possível. então. Mais ainda. A crítica empreendida então contra essa história visava dissociar esses dois elementos. em parte. o documento é. a biblioteca azul. É claro que. os dados e os fatos dessa história eram constituídos inteiramente no domínio discursivo. escaparam a consciência de seus contemporâneos. de uma visibilidade – ele próprio é uma visibilidade. o documento exerce uma série de funções: 1) ele um fato para a história do discurso. ao mesmo tempo. O autor desenvolvia. relatos apócrifos de todos os tipos. é uma memória. trabalhada como monumento. cuja positividade era evidente e bem delineável: elas eram. foi em vistas deles. trata-se de analisar formações discursivas. portanto. como o objeto formal (aquilo a partir de que se fala. o documento é aí uma “fissura no silêncio”. porque. A especificidade desses discursos não pode ser negada: eram discursos com preensões de racionalidade científica e. formações discursivas). já que é em sua própria espessura que a trama das ideias se desenvolve. que é interrogada sobre fenômenos que lhe escapam. na série em que é alocada pelo pesquisador. que Foucault desenvolveu o modelo de análise das formações discursivas que descrevemos anteriormente. que o constituiu. justamente. Para a história intelectual tradicional. exigiram que ele lidasse com um novo tipo de documento. porém. em parte ao menos. chamada a responder pelo que testemunha involuntariamente. tanto o objeto material (aquilo de que se fala). contudo. um conjunto de dados que permitem a individuação dos acontecimentos discursivos (enunciados. um conjunto de dados que permitem individuar uma prática regular e rara . o fato de que tal e tal coisa possa ter sido dita em determinado lugar e momento – fato discursivo. é ainda. e esta é a inovação de Foucault. então. ou melhor. para essa analítica geral.

o fenômeno. jamais como uma “história” já constituída que devesse ser julgada verdadeira ou falsa. por uma peripécia sutil. de modo que não necessitamos retomar esse ponto. a vastíssima documentação do caso. cada um desses documentos é sintoma de uma visibilidade distinta que indica ora um problema para a igreja da época. à exceção da história eclesiástica. contudo. em seus elementos. Quatro funções do documento. a história do referente tal como fora rejeitada pela arqueologia. o fenômeno da possessão demoníaca. conjunto de elementos a partir do qual um fenômeno pode ser reconstruído. algo que se nos torna visível através dos documentos. eles podem ser tomados como dados para a descrição do fenômeno de possessão e para a sua integração numa genealogia que lhe indique a procedência (dos mecanismos de direção da consciência. são tomados por Foucault em seu curso de 1975: por um lado. o documento indica que o fenômeno de possessão se manifestou naquele lugar e naquela época. É muito evidente. não é nem verdadeiro. que estão em questão o fenômeno de possessão em geral (do qual cada caso é uma manifestação singular). por exemplo. Considere-se. elas simplesmente não podem ser colocadas pela história geral. como não há qualquer razão para ser nutrir ceticismo sobre esses detalhes. Os relatos sobre Loudun não são verdadeiros nem falsos. indica a visibilidade que o mesmo adquiriu à sua época e sempre renovadamente. tal como. portanto. por sua vez. ou interpretada para revelar-lhe o verdadeiro sentido. essa história jamais se proporá questões do tipo: Grandier era de fato culpado? As freiras de Loudun foram de fato possuídas pelo demônio? – Qualquer que seja o grau de seriedade e importância que esse tipo de questão possa ter ainda. a duplicidade com que os documentos relativos às possessões demoníacas (principalmente o dossiê preparado e apresentado por De Certeau (2005) sobre a possessão de Loudun). ora a apropriação desse problema pela psiquiatria.56 num momento qualquer. significantes ou insignificantes. ainda que fosse possível. permanecem problemáticas. para o historiador. mas exatamente o que a palavra diz uma “aparição”. As funções (3) e (4). E. constituirão o método de Foucault e seu projeto de história geral. de modo que. como um conjunto de sintomas que permite descrever uma prática. Em segundo lugar. segundo a tese de Foucault) e descendência (o fenômeno da convulsão para a medicina). que correspondem aos quatro vetores de análise que. Assim. Parece-nos que as funções (1) e (2) foram suficientemente analisadas quando do estudo da arqueologia. nem falso. não podem ser colocadas seriamente por nenhuma outra forma de história. . mas marcas materiais complexas de um fenômeno. em tudo que lhe é mais singular. contudo. e esse é o ponto importante. que envolveu certos personagens e acontecimentos – e. Elas parecem reintroduzir. a partir daí. um caso individual é aí sempre tomado.

como analítica das visibilidades históricas. XIX) “a qual do mesmo modo. mas. segundo Chartier. retorno ao vetor da procedência. É porque o alienado de Esquirol provém do mesmo espaço de constituição e diferenciação do doente venéreo. sejam apresentados não para ser refazer o julgamento sobre eles. no decorrer do séc. 47 Eu Pierre Riviere. em favor do corpo. igualmente condenado e que. dissipadores. que Riviere foi. 2) blasfemadores (supostos feiticeiros. à loucura. mas às custas da carne” (FOUCAULT. volta-se “ao mesmo tempo contra a doença e contra a saúde. homossexuais. criminalistas e psiquiatras. “humanamente” arrancada por Esquirol. . aconteceram de fato. de desobrigar o historiador desses juízos de valor que nada acrescentam à sua ciência: a escrita dessa história. é ainda nesse espaço. embora pudesse acrescentar muito ao conhecimento do caso (o que pode ser de interesse dos padres. escapa à história é justamente o que não tem nenhum interesse histórico. etc). a figura polimorfa do doente mental entregue a psiquiatria moderna tem de ser decomposta. não para encenar um tribunal fictício no qual a justiça poderia lhes ser tardiamente concedida: não se necessita ser historiador para se fazer esses julgamentos que não mudam o fato de que Demiens foi supliciado de forma atroz. das sociedades passadas e do conhecimento. logo. Ali. com sua análise e conclusões. Genealogia. sua emergência tem de ser assinalada no espaço do internamento geral da qual será. já parcialmente desenvolvido em História da Loucura. 86 -87). e. à imperfeição das instituições passadas. Daí também a necessidade de se publicar esses documentos47. que. Herculine Barbin. terão sua hereditariedade assinalada. Necessita-se da história para fazer surgir através desses casos. p. Em terceiro lugar. São as familiaridades que o desatinado cria com: 1) devassos (doentes venéreos. pelo contrário. mas que não tem nenhum interesse histórico) – de modo que o que escapa aos documentos. portanto. qualquer que seja nosso julgamento atual sobre eles. Não se necessita da história para realinhar esses fatos ao anacronismo natural da consciência: qualquer um poderá dizer que se devem aos costumes primitivos. em termos metodológicos. por fim. 2009. um retorno dos historiadores ao arquivo. que são singulares. que os caracteres dos doentes mentais e. mágicos. Demiens. parece ter sido o primeiro de uma série de dossiês que se tornaram comuns na década de 70 e 80 e que marcam. se achar necessário. não se pôde condenar Cornier. que se pode ver aí a gênese de “certa terapêutica aplicada. etc). isso nada acrescentaria ao conhecimento do fenômeno. alquimistas. em gradação. portanto. adúlteros.57 “transportar-se para outro presente”. deixa inteiramente ao leitor a responsabilidade de julgar. Daí que os casos singulares (Heriette Cornier. os fenômenos que os constituem e ultrapassam. as práticas duvidosas destinadas ao seu tratamento. Pierre Riviere.

Primeiro. também sua emergência e dinastia próprias. De modo que o primeiro trabalho “genealógico” do autor foi. da constituição de uma dinástica. se conectam e tem a mesma natureza das pesquisas empreendidas por Foucault a partir de 1970. A dinástica não está para a arqueologia como um elemento estranho ou cruzado. implica que esse figura. tanto para o resultado dessas pesquisas. transcrição das aulas de 1975. a pouca inteligibilidade que os livros de Foucault adquirem isoladamente. mas a faz a serviço das análises de procedência. como explanou o autor. p. Trata-se. sua emergência a partir do discurso dos alienistas (de Esquirol e Pinel até por volta de 1850). e encontraremos tanto a análise do discurso psiquiátrico de Charcot e seus sucessores. mas dos quais dos os seus gens provêm: do anormal em sua triplicidade (o mostro humano. não encontraremos nada que se pareça com uma ruptura ou substituição: a continuidade é evidente. Mas essa tripla extensão. quanto para a recepção das mesmas. 3-23). que envolve a análise das emergências. quer os procedimentos que ela aciona. o anormal. ou re-extensão. até certo ponto. como sua procedência a partir do “entrelaçamento e essa batalha entre o poder eclesiástico e o poder médico” (FOUCAULT. não devemos ver senão como retomada desse procedimento amplo. e o discurso competente. certamente. Muitos outros exemplos são encontrados: genealogia (i. e o que a leitura-padrão vê como ruptura. que concedem ao alienado moderno certas características e evoca certos tratamentos comuns (FOUCAULT. p. até as formações de saber-poder em que emergem e se conectam. História da Loucura. torna praticamente impossível individuar as pesquisas para fazê-las caber na forma clássica do livro. 81). 2009. mas como seu necessário prolongamento. o incorrigível e a criança masturbadora). e (3) libertinos (pensamentos extraviantes). de fato. entre tantas outras análises ou conclusões que.58 profanadores. se relacionam. quer consultemos o domínio de objetos das pesquisas que Foucault empreende a partir da década de 1970. Consultemos Os Anormais. etc). quer a base material dessas pesquisas. Genealogia. . poderoso e ridículo sobre o anormal (FOUCAULT. 2009. 83). mas uma continuidade em termos de transformações amplificadoras. portanto como dinástica das práticas e dos discursos. a complexidade do método que consiste analisar as emergências e dar-lhes a procedência. a grande dinástica da anormalidade. Assim. p. certamente. 2010. 194).e. sejam analisados tanto em sua formação atual quanto em períodos em que não se encontram. para cada figura. procedência) do internamento a partir do modelo de exclusão do leproso. e. 2010. já que “pode-se dizer que esse gesto [o gesto de proscrição do louco] foi criador de alienação” (FOUCAULT. Daí. Isso teve várias consequências.

Ajunte-se a isso. Neste caso. Finalmente. a ausência de uma exposição formal por parte do autor das teorias que balizam o procedimento: quando lidávamos com o modelo de descrição arqueológica. da descrição de uma formação histórica e de sua dinástica. mas somente das pesquisas empíricas e de indicações metodológicas presentes nas mesmas. necessitamos precisar o método de formalização que empregamos na pesquisa e cujos resultados são os que se seguem. de certo modo. Primeiro. nem ficará sem resposta – para estender seu projeto para além do seu domínio de formação. são comparados às indicações teóricas propostas nessas pesquisas ou. ou pronunciadas por Foucault depois de 1970. resenhas. no que elas não podem ser assimiladas ao método proposto n’A Arqueologia do Saber. 2ª) complexidade da função documental. como analítica do poder. artigos) e. e raiz donde todas as dificuldades provêm. em pronunciamentos formais. Foucault invade o terreno da história dos historiadores – “barbaridade” que não passará despercebida por muito tempo. como quarta dificuldade. o conjunto de procedimentos assim delimitado e comparado aos procedimentos do modelo de descrição . ao que somente traduzimos para uma linguagem ainda mais formalizada. deixando. história da Revolução Francesa. portanto.59 que integra o procedimento arqueológico no projeto de uma história geral. Genealogia. constantes dos Ditos e Escritos. história do século XVIII etc. justamente pela ausência de um tratado teórico. Em suma.). não dispomos de nenhum tratado teórico. e a forma hiperbólica que as conclusões dessa história geral aparentam quando vistas pelo olhar das histórias particulares (história da França. em contraposição a ênfase dada ao saber em Nascimento da Clínica e As palavras e as coisas. a tranquilidade do domínio da história intelectual. mas extravagantes (ensaios. finalmente. retomamos as pesquisas publicadas. temos então de lidar agora com um modelo teórico que engloba e absorve o modelo da arqueologia do saber. assim individuados. terá consequências interessantes para a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica. os procedimentos novos. Isso implica um certo número de dificuldades para o trabalho de formalização: 1ª) Complexidade da correlação discursivo-não-discursivo. virá se somar um conjunto de imprecisões cronológicas. na falta ou em complemento a estes. À pouca inteligibilidade das obras isoladamente. tínhamos a disposição uma exposição formal do mesmo. principalmente. 3ª) complexidade da análise de emergência e da análise de procedência. em pronunciamentos informais (entrevistas). subsidiariamente. agora. uma terceira característica marcante das pesquisas da década de 1970: a ênfase sobre o elemento do poder. considerada a hipótese de extensão metodológica com a qual trabalhos. jamais reivindicado pela comunidade historiográfica. Isso porque.

Nesse caso. não encontraremos nada de especialmente novo no empreendimento: trata-se de analisar fenômenos com base em casos dos quais se dispõe de relatos. porque. Nesse sentido. tanto quanto for possível é preciso fazer a genealogia espelhar (por continuidade ou transformação) os vetores da arqueologia – uma vez que. um primeiro passo nesse sentido está na caracterização do discurso como uma prática: dizer é fazer alguma coisa. as formações históricas não podem ser antecipadas pela razão. é uma organização singular.48 Com relação às práticas discursivas. e as práticas são fenômenos que se podem reconstruir. o que é característico dessas práticas estudadas por Foucault ao longo da década de 1970 é a correlação entre o saber e o poder: as práticas serão aí sempre tomadas em um sentido político. . como único tratado de método. outra vez. Mas. conserva-se o mesmo modelo de descrição do procedimento arqueológico. De modo que. Ora. uma analítica das práticas. portanto. toda formação histórica. como bem ressaltou Paul Veyne. quando falamos de uma modificação do domínio de objetos das pesquisas de Foucault em meados da década de 1970. essa correlação só poderia ser estabelecida se primeiro as próprias práticas fossem analisadas por si mesmas. todo fato. conforme previsão d’A arqueologia do saber (FOUCAULT. ou. ou seja. Tem-se também proximidade entre As palavras e as imagens: “O discurso e a figura têm.60 arqueológica e. exteriores e acumulativas. o tratado de 1969 previa que a analítica dos discursos devia correlaciona-los a práticas não-discursivas e. um deslocamento de objetos. como repisamos. não é a uma ruptura que nos referimos. seu modo de ser. 2005b. certamente. em primeiro lugar. mas não uma ruptura radical em relação ao projeto metodológico exposto n’A Arqueologia. a partir de casos. regulares. teoricamente. a partir de relatos de casos. à plástica. mas à generalização que leva da análise de uma prática específica (a prática discursiva) às práticas em geral. é ainda ao próprio tratado de 1969 que recorremos para caracterizar a prática: elas são raras. em primeiro lugar. De fato. Há toda uma região em que práticas e discursos dão lugar à figuração. no entanto. um fazer próprio que não atualiza a figura ideal de si mesmo que já estaria disponível à razão. p. A Arqueologia do Saber. Há aqui. É seu funcionamento recíproco que se trata de descrever” (FOUCAULT. de que se poderia fazer a arqueologia e a genealogia. o deslocamento de perspectiva para o domínio do não-discursivo implicará a sobreposição da análise à esfera da história propriamente dita. intervém uma hipótese de simetria. p. aqueles que possuem o mesmo nível de generalidade recebem uma formalização similar. mas eles mantém entre si relações complexas e embaralhadas. 234-235). E. As práticas são raras. A genealogia é. 80). O que interessa a Foucault são as práticas. cada um. pois a razão é naturalmente aistórica: 48 As práticas não recobrem inteiramente o domínio do não discursivo. é que detém a autoridade última sobre esse assunto. metodologicamente falando. Nessa etapa final. escrito por Foucault.

E o que a penitência visa em todo caso (5) é a “remissão dos pecados (. pois o que é poderia ser diferente. 239-240) Considere-se a análise da prática da penitência no cristianismo primitivo: muito diferentemente do que ocorre atualmente na Igreja Latina.. através de um sujeito qualificado. um sacramento e não comportava a ritualística da confissão. a imposição de jejuns rigorosos. não estão instalados na plenitude da razão. Trata-se de conceitualizar o fenômeno e. no cristianismo primitivo. (4) que só pode ser outorgado ou revogado de um determinado modo. a exclusão solene da Igreja. a Igreja pôde prescindir desse uso brutal em favor de um mecanismo de remissão de pecados mais humano e civilizado. 44). etc. há um vazio em torno deles para os outros fatos que o nosso saber nem imagina. estatuto. Mais ainda: “era o bispo. p. atribuído a um (2) indivíduo. a interrupção de toda e relação sexual e a obrigação de sepultar os mortos” (FOUCAULT. p. que Foucault abstrai da obra A History of Auricular Confession and Indulgences in the Latin Church de Henry Charles Lea. Primeiro elemento: “a penitência era um estatuto que as pessoas adotavam de forma deliberada e voluntária” (FOUCAULT. (3) o qual consiste em um conjunto de atos por parte do penitente. mas a reconstrução de um fenômeno raro (fadado a desaparecer por volta do século IX) e regular. p. a não participação nos sacramentos. Finalmente. 2010. não há nada aqui de estritamente diferente do que faz todo historiador: “escr ever história é conceitualizar”. tal estatuto somente poderia ser adquirido em uma cerimônia própria: “numa cerimônia pública. 147). em todo caso na comunhão. o bispo. 146). e somente o bispo. 2010. Quatro características portanto: 1) é um estatuto. não descrevem. p. a quem o podia.61 os fatos humanos são raros. no entanto parecem tão evidentes aos olhos do contemporâneos e mesmo de seus historiadores que nem uns nem outros sequer os percebem.. (VEYNE. 2010. finalmente. 2010. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT. que tinha o direito de conferir. Essa conceitualização não visa mostrar que a verdade da penitência foi perdida sob as reformas da Igreja Latina ou que. no sentido de Mauss. p. p. Esses quatro elementos. pois. uso do silício. que sempre reconhecível nos casos individuais através dessas quatro características. o penitente. 147). nem são a interpretação de nenhum caso particular de penitência primitiva. 147). não são óbvios. 1995. um ato solene de quem o atribuiu. como bem observa Veyne (2011. a penitência não era.) em função da severidade das penas” (FOUCAULT. o estatuto de penitente” (FOUCAULT. pelo contrário. 2010. de hábitos especiais. p. Só o . 147). a interdição dos cuidados de limpeza. Ela consistia em um conjunto de atividades que o penitente tinha que realizar: “o uso do cilício. os fatos humanos são arbitrários.

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que se quer, nesta descrição, é mostrar a diferença desse fenômeno, a penitência no cristianismo primitivo, para os fenômenos que sucessivamente emergirão na Igreja Latina e que recebem o mesmo nome. Por detrás de uma característica supostamente universal dessa parcela do cristianismo, o que se encontra é uma multiplicidade de práticas singulares, cujos elementos e a relação entre seus elementos as isola umas das outras. Voltemos a um caso mais complexo: a investida do demônio em Loudun. Com base no dossiê preparado por Michel de Certeau (2005), Foucault (FOUCAULT, 2010, p. 177) toma Loudun como caso princeps do fenômeno da possessão, que se reconhece também em Saint-Médard e Aix. Como no caso anterior, o fenômeno é reconstruído em seus elementos singulares e diferenciais (em relação aos casos de feitiçaria, que os antecede, e aos casos de aparições que os sucedem): a) “a possuída é a que confessa”, em contraposição à feiticeira “que é denunciada” (FOUCAULT, 2010, p. 176); b) o espaço da possessão é o “foco interno” do catolicismo, enquanto que a feitiçaria “aparece nos limites exteriores” (FOUCAULT, 2010, p. 177) dele; c) a relação na feitiçaria é dual e jurídica, representada pelo pacto que a feiticeira faz com o demônio; já na possessão, tem se uma relação triangular: o diabo, claro; a religiosa possuída, na outra ponta; mas, entre os dois, triangulando a relação, vamos ter o confessor” (FOUCAULT, 2010, p. 177); d) finalmente, a possessão é um fenômeno da carne, não mais “um ato sexual transgressivo”, mas a “penetração do diabo no corpo” (FOUCAULT, 2010, 179). Deve-se a esses quatro elementos, um quinto, que consiste na revivicação, ainda que bastante transitória, da feitiçaria: alguém deve ser o responsável pela possessão e, não se podendo, pelas características do fenômeno fazer recair a culpa sobre a própria possuída, ele deve ser o confessor, Padre Grandier, “sagrado feiticeiro e sacrificado como tal” (FOUCAULT, 2010, p. 186). Vê-se, portanto, que a análise do fenômeno da possessão implica simplesmente na decomposição dos elementos dos relatos do caso recolhidos por De Certeau, desde que possam também ser reconhecidos em outros casos, e na descrição diferencial do mesmo em relação a fenômenos que se encontram no mesmo domínio, o do “sobrenatural” na Igreja Latina. Se agora compararmos a descrição foucaultiana com a apresentação do caso Loudun feita por Michel de Certeau (2005), certamente diferenças marcantes, não tanto quanto à “compreensão” do caso e do fenômeno da possessão, mas quanto à série em que o fenômeno deve ser alocado, quanto ao problema de cuja resposta é elemento. Para De Certeau o quadro no qual o assalto dos diabos de Loudun se inscreve é o que faz cruzar a religiosidade política, marcada pelo enfrentamento entre católicos e huguenotes e o da política religiosa de

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Luis XIII e, principalmente, do Cardeal Richelieu. É na convergência entre o poder político e o poder religioso que a possessão emerge como um novo episódio das guerras religiosas que assolavam a França. Para Foucault, por outro lado, o que interessa são os elementos intrínsecos do caso: o fenômeno da possessão é um fenômeno intrinsecamente religioso e, portanto, é no interior da dinâmica do poder religioso que ele deve ser caracterizado. Essa descrição intrínseca tem, no entanto, por objetivo colocar o fenômeno da possessão no cruzamento entre a série do poder eclesiástico e do poder médico – objeto do curso de Foucault em 1975. De modo que entre a breve, porém audaciosa tese de Foucault sobre a possessão, e a análise meticulosa do caso Loudun por De Certeau, há uma diferença historiográfica marcante que se decompõe em elementos que aproximam e, ao mesmo tempo, isolam dois modos de fazer histórico: De Certeau pretende analisar o caso Loudun e Foucault pretende analisar o fenômeno geral da possessão na Igreja Latina; por isso, o trabalho de De Certeau tende à exaustividade enquanto a tese de Foucault é pontual; por fim, La possession de Loudun de De Certeau é a base da tese de Foucault, o fundo a partir do qual esta adquire sua viabilidade historiográfica; a breve caracterização do fenômeno da possessão em Os Anormais, por outro lado, é complementar em relação ao trabalho de De Certeau: desenvolve-lhe elementos pontuais e permite ulteriores desenvolvimentos, mas não se opõe a ele. Do mesmo modo, o fenômeno da possessão e o caso Loudun poderiam entrar em outras séries, outras histórias; e outros elementos, seriam, então enfatizados. De modo que, os elementos que se enfatiza, com que se reconstrói um fenômeno histórico, dependem, evidentemente, do problema que o historiador se propõe a resolver. A inteligibilidade que um fenômeno adquire num trabalho histórico é uma inteligibilidade relativa, não à pessoa do historiador, mas à problemática escolhida. Grosso modo, porém, a descrição das práticas enfatizará os caracteres elementares: a) quem é qualificado ou competente para a prática? b) qual é a “cena” (lugar, instituição, tradição, período) em que a prática emerge? c) que conjunto de “atos” permite reconhecer a prática? d) que discurso a atravessa? Assim, para o fenômeno da possessão os sujeitos (a) são pessoas religiosas; a modalidade da prática (b) se individua por suas características urbanas e eclesiásticas; a atividade (c) sob a qual se manifesta consiste em tudo que a possuída faz (como age, o que sente, etc) e fala (toda sorte de blasfêmias) que permitem caracterizar o desenrolar da possessão como um “jogo de consentimento” (FOUCAULT, 2010, p. 180), uma batalha na espessura do corpo (FOUCAULT, 2010, p. 182); finalmente, o fenômeno é atravessado por discursos que ora o

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recodificam no antigo sistema da Inquisição, ora o expurgam da competência eclesiástica (FOUCAULT, 2010, p. 183). A regularidade de uma prática, portanto, poderá ser estabelecida por esses quatro elementos: sujeito, modalidade, atividade e discurso. O modelo de análise do discurso já se encontra estabelecido pelo procedimento arqueológico. Já o sujeito da prática, por simetria ao sujeito do enunciado, será uma posição vazia, determinada ou indeterminada: dada uma certa prática, alguns sujeitos estarão qualificados para figurar como um de seus elementos enquanto outros não o poderão. O sujeito não é, assim, aquele que “funda” uma prática, mas um elemento, indispensável certamente, para que uma prática se estabeleça. Considere-se um terceiro exemplo, o do verdugo na arte do suplício. Ele é encarregado de executar a sentença do tribunal, agir sobre o corpo do condenado e destruí-lo. Mas esse ofício simples, carrega, no interior do suplício um conjunto de regras do “fazer” a partir das quais a eficácia do mecanismo de que ele é uma engrenagem está em questão: matar, certamente, mas não de qualquer modo: ele deve ser um artista, em todo caso, um artífice da “arte quantitativa do sofrimento” (FOUCAULT, 2009, p. 36), arte
cruel, certamente, mas não selvagem. Trata-se de uma prática regulamentada, que obedece a um procedimento bem definido, com momentos, duração, instrumentos utilizados, comprimento das cordas, peso dos chumbos, numero de cunhas, intervenções magistrado que interroga, tudo segundo os diferentes hábitos, cuidadosamente codificados (FOUCAULT, 2009, p. 41)

Além de artífice, o carrasco deve ser um ator, um doublé do Rei, pois “na punição [deve haver] pelo menos uma parte, que é do príncipe” (FOUCAULT, 2009, p. 48). E, sendo o suplício “a manifestação excessiva” da força da soberania, a atrocidade que vem anular o atroz (FOUCAULT, 2010, p. 71), “o executor não é simplesmente aquele que aplica a lei, mas o que exibe a força” (FOUCAULT, 2009, p. 51). É aí onde as virtudes, as qualificações, do carrasco devem aparecer: o papel, no sentido teatral, que ele tem de encenar é o do próprio príncipe em uma “justa” cujo desfecho é incerto: “Se o carrasco triunfa, se consegue fazer saltar com um golpe a cabeça que lhe mandaram abater” (FOUCAULT, 2009, p. 51) ele triunfa e com ele o poder do soberano; se, pelo contrário, “ele fracassa, se não consegue matar como devia, é passível de punição. Foi o caso do carrasco de Damiens, que, como não soubesse esquartejá-lo de acordo com as regras, teve que cortá-lo com a faca; confiscaram, em proveito dos pobres, os cavalos dos suplícios que lhe tinham prometido”. (FOUCAULT, 2009, p. 52). Em suma, havia toda uma série de regulamentações, prescrições, costumes e

a molesa [.].. só há fornicação se nenhum dos praticantes é casado e se não estão ligados por voto ou casamento. caso se tratasse de uma afeição entre elas. que não pertence “à prática mesma”. no mais das vezes. na relação. que é simplesmente uma “repressão”.. Uma prática sexual só é subversiva. só há estupro. Vamos a um último exemplo. jurídico. 52). 2010.. técnico. mas meramente por um desejo pelo sexo feminino. só há adultério. Uma regra básica da erótica grega em relação aos “rapazes” é justamente de que a relação se dê entre um cidadão e um efebo e que. ou se tratava do menos grave pecado de descarregar a libido (explenda libido) ou. os estatutos sociais de ambos sejam conservados: o cidadão deve ser. E.. p. para muitas dessas práticas subversivas. p. era sodomia perfeita. “passivo”. 188). o estatuto. o efebo. quase exclusivamente. tinham que responder: “a fornicação [. se eram duas mulheres... ou dos sujeitos. Outro exemplo: as “regras sexuais” às quais o penitente entre os séculos XII e XVI.. o estu pro [.. E a primeira questão da analítica das práticas deve ser então: quem é preciso ser para fazer tal coisa? . O que implica que. se o desejo do homem se dirigia “a um gosto particular pelas partes posteriores. em relação ao estatuto do sujeito.]. na linguagem atual. Pode-se argumentar que o estatuto do sujeito é como que uma qualificação imposta “de fora”. E toda essa distinção dava lugar a reações bastante diferenciadas: o suplício foi aplicado à sodomia perfeita. p. mas “contrário à natureza’” (FOUCAULT.]. então é uma sodomia imperfeita” (FOUCAULT.]. etc. se o sujeito não tem a obrigação de se casa com a virgem que deflorou. moral. ama-se os rapazes.]” (FOUCAULT. O que o autor observa é que a “filtragem das obrigações ou das infrações sexuais concerne quase inteiramente. se era praticado entre um homem e uma mulher. só há incesto se o sujeito é parente do parceiro até o quarto grau de consanguinidade ou afinidade. a qualificação de quem as pratica é essencial: assim. 2009. p. mas. Considere-se o sexo anal na prática da confissão do século XVII: o sexo entre dois homens. para que algumas dessas práticas sexuais possam ser consideradas “pecados”. o adultério [..... O que está em questão em toda prática é o estatuto do praticante: estatuto social. a sodomia [.]. 2010. 159). não se é amado por eles. 2010. só pode ser. o que está em questão na acusação contra Sócrates é justamente a de inverter essa regra: seduzir a juventude. mas não às outras práticas. de certo modo. a bestialidade [. não supõe o amor dos rapazes. intelectual. 159). religioso. “ativo”. ao que podemos chamar de aspecto relacional da sexualidade” (FOUCAULT.. não passava de uma copulatio fornicaria. de sodomia imperfeita.65 proibições cercando “esse “ofício muito necessário’. então: o amor grego. se o sujeito é casado ou consumou o ato sexual com uma pessoa casada.]. envolvidos. A prática do amor pelos rapazes não é transitiva.. o rapto [.

era preciso não só que o bispo. no qual foi enfiado o braço com que desferira o golpe.] sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio” (FOUCAULT. uma vez soltos das cordas dos cavalos. não menos necessários que aqueles. é um conjunto de atos específicos.] Em cumprimento da sentença. O suplício é um grande teatro de atrocidade. tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc... atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita. o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo[. das pernas e dos braços [. enfim. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT.. etc. uma prática é constituída por tudo que ela requer para existir: um lugar. do mínimo ao máximo: primeiro Damiens devia “pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça.] a seguir fizeram o mesmo com os braços [... foram lançados numa fogueira preparada [. de mangas arregadas acima dos cotovelos. p. em seguida os mamilos [.] Depois de duas ou três tentativas. Não bastava. mas também seus espectadores.] mas sem resultado algum [. a prática é um fazer.. tudo foi reduzido a cinzas (FOUCAULT... daí passando às duas partes da barriga do braço direito. Acendeu-se o enxofre. p.. Mas.] os cavalos deram arrancada [. de camisola. tem seus atores. Em seguida. o autoriza-se a isso e presidisse o ritual a partir do qual o fiel adquiria a condição de penitente. um parceiro. mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. 2010.66 Em segundo lugar. Além de um “voluntário”. Compare-se agora ao suplício. depois sobre o patíbulo erguido frente à igreja. ele foi levado à praça onde encontrou um caldeirão de água fervendo. portanto. O suplício não se faz de qualquer modo: vai da infâmia pública (que se reverte na glória da soberania) à dor física. do assassino de Guilherme de Orange: O assassino de Guilherme de Orange foi supliciado durante dezoito dias: “No primeiro dia. muito mais atroz em resposta a maior atrocidade do crime.. e somente o bispo. depois a coxa.. com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos. medindo cerca de um pé e meio de comprimento.. um ritual.] depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha [. 2009. Se agora nos voltarmos ao exemplo do suplício de Damiens... a todos os graus de dor física. um jogo se se preferir.] os quatro membros .. 147). 2009.] o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. que o sujeito resolvesse tornar-se penitente. a penitência no cristinismo primitivo exigia uma “cerimônia pública. um executor. 9). p. carregando uma tocha de cera acesa de duas libras [. sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas. nu. 10-11).. Depois. vê-se facilmente que ali o poder de punir se exerce de modo teatral: o punição é para ser exibida.. No dia .

72) E o que nossa consciência (necessariamente a-histórica) não compreende é a singularidade formada por essa sucessão de atos. matar e executar. que “matar” e “amar” são.67 seguinte o braço foi cortado. etc) quando tudo se podia fazer com seus corpos e nada eles próprios . ele teve de empurrar com o pé. para que sua alma não desesperasse” (FOUCAULT. executar é algo que a justiça penal faz. historicamente. O que se quer dizer. Ela diz: “esses homens foram mortos de forma brutal”. foi atenazado por trás. ao menos pode dar lugar a uma. esse homem foi martirizado no espaço de dezoito dias. É evidente que supliciar é uma prática que se investe e toda uma maquinaria de poder que tem por efeito finalístico a reativação do poder soberano (poder de deixar viver e fazer morrer). cada ato da prática. dá lugar a uma certa tática e. de cima a baixo da escada. E. que não lhe deram. o que a analítica quer fazer aparecer é sua singularidade. 2010. esses objetos naturais ou parcialmente naturais. dominar. mas gostaríamos de analisa-la agora da parte de baixo: o suplício como prática do supliciado. nada tinham em comum. Matar. o qual. consecutivamente. e. ao analisar cada momento. é que a história mostra uma diversidade infindável de práticas que. aos instrumentos. palavras vazias. Ao cabo de seis horas. curar. por fim. e matar de forma brutal é algo que as pessoas fazem. uma variedade de práticas que. no braço e nas nádegas. historiar. p. para seus contemporâneos. Toda prática. solicitou-se ao tenente-penal que pusesse fim a ele. com que a consciência sintetiza um conjunto de práticas muito heterogêneas: práticas presentes com práticas desaparecida. tendo caído a seus pés. ele ainda pedia água. até mesmo. se não constitui por si mesma uma estratégia na guerra perpétua do poder. às vezes. é que não se mata de qualquer jeito como não se ama de qualquer jeito. Enfim. Não é que cada época dê uma configuração diversa a esses fatos gerais da condição humana: amar. No quarto. que camuflam a singularidade da prática do suplício. do assassino de Guilherme. parecerá absurdo falar de uma prática do supliciado (de Damiens. foi atenazado pela frente nos mamilos e na parte dianteira do braço. fazer a guerra. comer e andar. Voltemos ao suplício. No terceiro dia. matar. estrangulando-o. e. mais erudita responde: “sim. A prática é algo complexo. ao que a consciência. punir. ao tempo. aos efeitos sobre o corpo do condenado e sobre a massa de espectadores: é uma prática específica e datada que só existe cercada de uma infinidade de práticas e discursos que lhe são correlatos. Mas são justamente essas palavras. logo. recebem o mesmo nome. no último dos quais foi submetido à roda e ao corpete. mas eles foram executados segundo o que prescrevia a lei penal dessa época bárbara que não é a nossa”. E assim. enfim. Supliciar supõe um conjunto de atos que obedecem a uma regularidade própria quanto ao lugar. entre estas.

escrivão. que Foucault analisa em Vigiar e Punir (FOUCAULT. . Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima. meu Deus! Perdão Senhor”... perdendo o corpo. p. Não é bem assim: Damiens está morto. O supliciado confessa e se redime. que a palavra do supliciado estabelece sua primeira tática. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): “Beijem-me. [. em fazer o poder eclesiástico se voltar contra.] Tendo voltado os confessores. acaba por elevá-lo. e muitas vezes repetia: “Meu Deus. a confissão funciona em dois registros diferentes: da prática penal nos rituais de suplício. da forma como costumamos ver representados os condenados: “Perdão. nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios. A primeira tática consiste. Jesus socorrei-me” [. o supliciado está acabado e o poder soberano triunfa. Mas não é bem assim. aos olhos de Deus..] O senhor Le Bretton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada: disse que não. ou ao menos. a sua maneira. Os carrascos se reuniram. pedindo perdão a Deus e aos homens por seus crimes. com cada tortura.] Ele levantava a cabeça e se olhava. que o deveria lançar na infâmia. o que dá lugar a um conflito entre a autoridade civil e a penitência religiosa : “O condenado se tornava herói pela enormidade de seus crimes” e se “era mostrado arrependido. era visto purificado. Segundo o relato em que Foucault se apoia. e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem. reverendo”. mas não reduzido a nada. estendia os lábios e dizia sempre: “Perdão Senhor”.68 podiam fazer. e a Deus somente. pois não lhes queria mal por isso. 2009. O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem. p. como um santo” (FOUCAULT. mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. 2009) e da prática eclesiástica no mecanismo da penitência. apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis. ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. que cumprissem seu ofício. É no interstício desses dois mecanismos. . Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente.. ganha sua alma: e é sempre a Deus. que ele pede perdão. [. tende piedade de mim. falaram-lhe outra vez. beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam. embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador.. aceitando o veredicto. 2010) e n’A vontade de saber.. entrar em um tipo de oposição com o poder civil.. que Foucault analisar na aula de 1975 (FOUCAULT.. a passividade aparente de Damiens constitui uma prática específica: Afirma-se que. morria. [. na palavra e na ação do condenado. o poder soberano ainda não assegurou seu triunfo. rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa” (FOUCAULT. 64) 49 Assim.] O senhor Le Bretton. Disse que não. seguindo fielmente a regra de confissão49 do suplício. 9-11) Reduzido a cinzas. aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. 2009. nem é preciso dizer que ele gritava. Damiens.

é daí que podem surgir essas “práticas populares que contrariam. naturalmente este é o primeiro postulado que Foucault elabora para a análise das relações de poder: a análise do saber reivindica uma análise do poder. 2009. ou seja. porque “nas cerimônias do suplício. finalmente.]. e. p. que: [a] “o poder produz saber [. falta considerar o terceiro “parceiro” da prática do suplício: o povo. p. na elaboração que lhe é dada em Vigiar e Punir. enfim. também. Território. dos dispositivos de saber” (FOUCAULT. uma “analítica do poder”. o criminoso dos folhetins. cuja presença real e imediata é requerida para sua realização” (FOUCAULT. dos almanaques. implicando na orientação da análise “para o âmbito. 29) caracteriza. ou da revolta e da obstinação. 2009. não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber.. 2009. 1988. o personagem principal é o povo. 5) O segundo postulado. contudo. que constitui a forma geral da vontade de saber no Ocidente (FOUCAULT.. implica em proposições fundamentais: a) o poder não é substancial. segundo a definição dada em História da Sexualidade I. Em Defesa da Sociedade. O postulado aparece. p. 2008. perturbam e desorganizam muitas vezes o ritual dos suplícios” (FOUCAULT. mas daí por diante na “lembrança”: o corpo esmagado pelo poder faz surgir um “herói negro ou criminoso reconciliado. Construída entre 1970. no curso de 1976. [b] nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (FOUCAULT. 45). das novelas. uma “definição do domínio específico formado pelas relações de poder e a determinação dos instrumentos que permitem analisá-lo” (FOUCAULT. não apenas no momento em que é pronunciado. O discurso da confissão e da contrição. 2009. mas relacional. e 1975. Segurança. no Curso de 1975 sobre Os Anormais (FOUCAULT. 2010. 56) E. acaba por voltar-se outra vez contra ele. intrinsecamente. 30). p. Tendo partido da analítica do discurso e do saber na década de 60. “a transformação grega”. p. 65) A genealogia é. o poder como estratégia. 2005a). em segundo lugar. 80). previsto e requerido pelo mecanismo do suplício. p. defensor do verdadeiro direito ou força indomável. População (FOUCAULT. . 58). 40). p. afirma. b) o modelo geral das relações de poder não é a soberania. Foucault (2011) esboça uma análise da correlação dos saberes e dos poderes que lhes são correlatos na Grécia Antiga e da “elisão entre poder e saber”. O primeiro. em que aparece Vigiar e Punir.69 Em segundo lugar. 1999. p. das bibliotecas azuis” (FOUCAULT. de modo que já no primeiro curso no College de France (Lições sobre a vontade de saber). ano em que Foucault ingressa no College de France. no Curso de 1977. com o qual Foucault (2009. a analítica do poder se baseia em dois postulados fundamentais: o postulado da bi-implicação poder-saber e o postulado da estratégia.

centrado no ritual da confissão. que se desvende nele sempre uma rede de relações sempre tensas. A penitência é uma prática de sujeitos. Consideremos novamente o fenômeno da possessão. é o mecanismo do qual é um produto e uma engrenagem. na Igreja Tridentina é um mecanismo. mas a disposições. trata-se de descrever formações históricas que dispõem o espaço no qual certos fenômenos podem emergir: tais formações são. considerar o poder como estratégia significa: [a] que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma ‘apropriação’. (FOUCAULT. mas conjuntos de relações que a pesquisa histórica tem de traçar. a técnicas. um mecanismo que produz efeitos de poder sobre individualidades humanas. de lutas e de inversão pelo menos transitória da relação de forças. a tecnologia na qual está envolvido. pesa contra ela o seguinte trecho de sua resposta a Léonard. via de regra. inversamente. O sacramento da penitência. nos deparamos com um problema de ordem exegética. da tecnologia de governo das almas (Pastoral) que o Concílio de Trento instituiu. por fim. agora. mecanismos de poder. sob o conceito teórico de mecanismo ou dispositivo de poder Embora alguns pronunciamentos de Foucault pareçam endossar essa tese. uma prática sobre sujeitos. é. Foucault reafirma a orientação nominalista de sua analítica do discurso: fenômenos históricos não são objetos naturais pre-disponíveis à descoberta da historiador nem fatos estabelecidos que requerem uma explicação em termos causais.. De modo que. não são unívocas. a táticas. c) o poder constitui uma relação recíproca. dentre outros.. p.. Se.[b] que lhe seja dado como modelo antes a batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. [. 2009. sempre em atividade. definem inúmeros pontos de luta.70 mas a guerra.. O que interessa a Foucault – e é aqui que seu procedimento começará a se especificar – é a formação na qual o fenômeno da possessão poderá tomar seu lugar. contudo. mas é também. focos de instabilidade comportando cada um seus riscos de conflito.] [c] Finalmente.]. 29-30) Ao dizer que o poder é relacional. a manobras. [. a respeito das análises desenvolvidas em Vigiar e Punir: . Aqui. o qual não poderemos contornar: nas análises de Foucault o poder tem sempre um caráter mecânico? Inicialmente acreditávamos que a partir das pesquisas da década de 1970 Foucault teria introduzido um método de análise mecânica das relações de poder. anteriormente. Foucault estava interessado em descrever formações discursivas no interior das quais certos acontecimentos discursivos (enunciados) tornam-se possíveis e nenhuns outros em seu lugar. a funcionamentos.

como se concebeu. e assim poder formalizar o instrumento de análise das práticas não-discursivas. 14). Se consideramos o modo como Foucault se refere ao suplício em Vigiar e Punir. Mutação técnica. o caráter mecânico dos dispositivos em que ele toma corpo não é absolutamente a tese do livro. é claro. então. embora o pronunciamento em A poeira e a nuvem não seja inequívoco nesse sentido. Do mesmo modo. é a vontade incessantemente manifestada. Fala ainda de uma “nova economia e uma nova tecnologia do poder de punir” (FOUCAULT. é a pesquisa teórica e prática de tais mecanismos. Foucault utiliza o termo “arte de punir” (FOUCAULT. 50). 2009. mostrar o papel importante que nele ocupou o tema da máquina. 2009. p. 55) ou diretamente para denotar o suplício como “mecanismo da atrocidade” (FOUCAULT. 241). quando tem de falar da mutação que leva do espetáculo ao mecanismo. p. mas principalmente os termos “espetáculo” (FOUCAULT. o único modo de evitar a confusão entre o conceito empírico e o conceito teórico. mas não como “mecanismo de poder”. não menos científica que ela. Mas é a idéia. Contudo. 333) Assim. p. Assim.” (FOUCAULT. É estudar o desenvolvimento de um tema tecnológico que acho importante na história da grande reavaliação dos mecanismos de poder no século XVIII. não é dizer nem que o poder é uma máquina. importante também no nascimento de estruturas institucionais próprias às sociedades modernas. veremos que em momento algum ele utiliza termos mecânicos para descrevê-lo. 99): “é a passagem de uma arte de punir a outra. mas globalmente ainda. uma nova ‘economia’ das relações de poder. no século XVIII. importante enfim para compreender a gênese ou o crescimento de certas formas de saber. “ritual” (FOUCAULT. das relações entre racionalidade e exercício do poder. Estudar a maneira como se quis racionalizar o poder. que permanece aberta toda uma série de domínios conexos: o que aconteceu com os efeitos dessa tecnologia quando se tentou fazê-las funcionar? (FOUCAULT.71 A automaticidade do poder. da transparência. p. p. Ficando entendido. 2009. no século XVIII. etc. 2012. 2009. p ode-se afirmar que as práticas não-discursivas. 2009. de que um tal poder seria possível e almejável. 2009. p. 86). são organizadas por certas “tecnologias políticas . p.. Nesse sentido. da vigilância. como as ciências humanas. de organizar semelhantes dispositivos que constituem o objeto da análise. na história geral das técnicas de poder e. 2009. “cerimônia” (FOUCAULT. 2009. p. em particular. 56). resta claro que “mecanismos” e “dispositivos” são conceitos empíricos construídos para descrever uma organização específica das “técnicas de poder” a partir do século XVIII. do olhar. é deixar as noções de “mecanismo” e “dispositivo” valerem como conceitos empíricos construídos historiograficamente e fazer o termo “tecnologias” ou “técnicas” denotar o objeto geral da analítica do poder. 55). em alguns momentos Foucault parece utilizar o termo mecanismo no sentido geral (FOUCAULT. p. nem que tal idéia nasceu maquinalmente. no sentido político.

em conclusão a este ponto. 49) Mas não se deve tomar a “dinástica” como sinônimo de “genealogia”. em nossa cultura. Em segundo lugar. a um modo de se exercer. na forma de um prolongamento do questionamento da morfologia histórica da vontade de saber: “em que medida”. a dinástica como um caso particular de genealogia. nos autoriza a tomar. está o jogo de forças que torna possível essa emergência: relações de poder. para todos os fatos discursivos ou não. portanto. um bem valioso. p. A analítica das relações de poder é. ele se articula com o projeto arqueológico. Inversamente. A genealogia estabelece. De fato.72 específicas”: o suplício. o panopticismo. o segundo como mecanismo punitivo. técnica). É o caso de traçar uma dinástica quando e somente quando seu objeto possui uma dignidade específica: o discurso portador de um saber possui uma dinástica porque o saber é. todo poder remete a uma tekné (arte. o primeiro como arte do espetáculo. que não necessariamente segue um modelo mecânico e cuja descrição nem sempre será mecânica. as condições políticas de seu aparecimento e de sua formação. ou seja. “é possível articular essa vontade de saber com os processos reais de luta e dominação que se desenrolam na história das sociedades?”. como a vemos Foucault praticar no fim da década de 70 é um desenvolvimento dessa “dinástica do saber” que visava encontrar a procedência do . 2012. Assim. Por outro lado. o direito das palavras. da emergência de uma prática. a analítica das relações de poder se articula com a dinástica. ou através. a genealogia. um vetor formalmente isolável das pesquisas foucaultinas. Finalmente. se questiona o Foucault (2011. a analítica do poder é uma analítica das práticas sobre o ponto de vista das relações de poder. as condições econômicas. e o sábio. definido como “a relação que existe entre esses grandes tipos de discurso que podem ser observados em uma cultura e as condições históricas. 5). um dignitário. para usar uma expressão cara a Foucault. uma vez que o poder é o elemento a partir do qual a procedência de uma prática pode ser determinada.” (FOUCAULT. em 1972. O que não significa que seja um vetor autônomo. na entrevista Da Arqueologia à dinástica. a analítica das relações de poder decorre da analítica das práticas e. Ainda que a genealogia e a dinástica estejam centradas no elemento procedência. mantém com ela uma relação de dependência na especificidade. O termo aparece pela primeira vez. no âmbito desse elemento. uma dinástica: traça-lhes a árvore genealógica e aponta as familiaridades mesmo as mais improváveis. pp. por trás. em primeiro lugar.

afirma Léonard (1982. O título do texto já indica o fundo sobre o qual trabalha Léonard. ou seja. . 78). historiador especialista em história da medici na. ou melhor. 1982. Seja. a primeira crítica já aponta para uma diferença de natureza. que documenta um enfrentamento no qual. pois. 8). se por pensamento entendermos mais que o discurso sério (incluindo a ética. p.73 discurso típico das ciências humanas e cujo resultado é a tese da relação entre estas e a tecnologia política do exame exposta em Vigiar e Punir. muito distante do trabalho efetivo dos historiadores. A arqueologia é a história dos sistemas de pensamento. e permaneceu. todas as realidades do passado”. Conjuntamente.8). p. apesar da proximidade aparente. mais do que se saber quem tinha razão. desde dentro. Daí que. senão as próprias palavras de Léonard. por delegação. de um período determinado. de um passado. p. a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica continuo promissor até o fim da década de 1970 quando o debate um debate em torno de Vigiar e Punir acabaria por resultar em uma “ruptura”. revelam é a concepção de que a história seja o “conhecimento do passado” (LÉONARD. segundo Léonard (1982. a clivagem ou mesmo a oposição entre filósofos e historiadores. se dá conta de que Foucault não percebe sempre. 2008. é um “conhecimento íntimo e como intuitivo” de um período determinado. a necessidade de ter-se que se colocar em um desses campos.2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 Apesar de divergências pontuais. por alguns sarcasmos mal sufocados. 2. mais do que saber o quanto uma proposição histórica é correta ou equivocada. mas entre filós ofos e historiadores: “Por algumas insinuações. o empreendimento de Foucault ainda estava. não necessariamente entre filosofia e história. 6). o texto que desencadeou o debate: o artigo “O historiador e o Filósofo” de Jacques Léonard. após um breve prólogo elogioso. Signo dessa ruptura é o livro de Michele Perrot. a política e a estética) e se levarmos em conta que não há prática que não seja atravessada pelo pensamento. da qual decorre a impossibilidade de um domínio comum ao pensamento filosófico e ao trabalho dos historiadores. L’impossible prision. p. que o historiador só adquire quando “vive. O que Falta a Foucault. E o que essa crítica. particularmente do século XIX. é preciso encontrar os elementos que mostram como. arqueologia e genealogia perfazem um método único de pesquisa em vista de uma história que sirva como “etnologia interna da nossa cultura” (FOUCAULT. é preciso se perguntar o quanto o historiador compreende do passado que ele evoca. largas horas meditativas no mesmo. primeiramente.

da qual decorre que o problema do método em história consiste em utilizar um parâmetro de explicação determinado. portanto. uma passado reconstruído. finalmente. Aparentemente. 12) Foucault. se devem. p.74 De modo que a “a rapidez fulgurante das análises” (LÉONARD. mas resta ainda a questão do “método” de análise. 10) O trabalho de Foucault é insatisfatório. já que “apenas as últimas setenta páginas se referem a seu período”. aos especialistas em cada século levantá-las. da qual inferimos que o domínio sobre um objeto é essencial para Léonard. do trabalho. 18) não é um mecanismo de planificação. certamente. aponta-las. Leonard desloca o problema para a questão dos objetos e convoca os historiadores da sociedade francesa. nem sobre um objeto. A primeira se detém na falta de erudição de Foucault a respeito do século XIX. 1982. Assim. agora. enquanto os novos historiadores do século XVIII estavam relativamente “lisonjeados” com o livro. fazer história é estudar um período. Um historiador as teria levantado. (LÉONARD. se para Léonard. Mas isso não é tudo. afirma Léonard (1982. 1982. povoado de intenções subjetivas. as três críticas e o que elas nos revelam da concepção historiográfica de Léonard. 8) e todos os erros e omissões dos quais Vigiar e Punir é culpado. a crítica se dirige ao lugar vazio do estrategista das estratégias. Tanto é verdade que. um princípio de razão suficiente que permitiria nos situarmos no livro como em um mundo vivo. Reconsideremos. p. p. aqui. da educação. nas omissões quanto aos objetos estudados. das questões médicas para “levantar a poeira dos fatos concretos contra a tese da normalização massiva” (LÉONARD. não detém domínio sobre um período. segundo Léonard. mas um conjunto de lutas políticas e sociais articuladas”. a terceira evoca a ausência do parâmetro de interpretação social. então. todas as questões que não são colocadas ou resolvidas pelo texto. dos assuntos militares. “os historiadores do século XIX” eram “os mais insatisfeitos”. Assim. justamente ao fato de que não provém de um historiador. 16) De modo que há o século XIX de Foucault e o século XIX dos historiadores: “O século XIX dos historiadores. Depois de evocar os julgamentos que os historiadores do século XVIII ou XIX fizeram sobre o livro. afirma Léonard. a segunda. 1982. sob cuja ausência “nos vemos situados em um mundo kafkiano” (LÉONARD. e a crítica avança para uma segunda caracterização do historiador. porque não se detém em um período. 1982. e cabe. nem um controle maquiavélico. mas isso decorre do fato de que Foucault não detém um período. p. um historiador se . um certo parâmetro de interpretação. Léonar d entende por “método”. do maquinista das maquinas. donde se depreende que para Léonard. contentar-se ou descontentar-se com o tratamento que “seu” período recebeu.

“os pequenos fatos verdadeiros contra as grandes ideias vagas: a poeira desafiando a nuvem. E. 2012.. sua conclusão é a contrária: “o Sr. Talvez. É de se notar que Foucault dispensa sumariamente a avaliação favorável da segunda parte do artigo de Léonard e se detém nas três críticas dos historiadores. os mesmos defeitos em relação aos objetos tratados. paralelamente. “A poeira e a Nuvem”. domina exaustivamente um objeto e explica fenômenos com base nas intenções efetivas dos agentes e em fenômenos sociais como as lutas. essas exigências são legítimas só e somente só se se entende que a pesquisa versava sobre um período ou uma instituição determinada: “Para . a resposta de Foucault veio já como um título sarcástico. uma referência a oposição entre os fatos concretos e as abstrações. 18). 3) Da distinção a ser feita entre a tese e o objeto de uma análise. a falta de “demora” em sua análise. Diante do texto de Léonard.317). o enfrentamento que se seguiu provido de um malentendido. da avaliação positiva que se segue. resta que a fórmula retoma a disjunção do título de uma maneira bastante ambígua. 2011).” (FOUCAULT. que nos interessa escutar” (LÉONARD. a falta de exaustividade em relação a um universo determinado. Foucault é um historiador. que elabora na forma de três questões teóricas: 1) Da diferença de procedimento entre a análise de um problema e o estudo de um período. apesar. diz Foucault. o “nós” se refere aos historiadores. porém. evidentemente.. e um historiador incontestavelmente original. talvez a reação de Foucault e o debate que se seguiu nos possa ajudar a entender a posição incerta que seus trabalhos ainda hoje detêm junto aos historiadores profissionais. 2012. 2) Do uso do princípio de realidade em história. resta. o trabalho de um historiador. (FOUCAULT. Como. Por outro lado. Curiosamente. portanto. o problema permanece: Que os historiadores podem esperar de Foucault? Foucault não pode ser integrado na comunidade historiográfica. embora a avaliação final de Léonard parece francamente favorável à Foucault. Ora.75 qualifica como tal na medida em que compreende um período. a reação deste não deixou de ser “violenta” e suscitar uma “tempestade num copo d’agua” (VEYNE. ele deveria ter concluído que o trabalho de Foucault não é. nem se pode entreter com ele as relações convencionais que entre historiadores e filósofo. buscar contribuições pontuais desse trabalho que não se pôde devidamente qualificar para o trabalho perfeitamente delimitável do historiador. o século XIX. talvez. nem de longe. 1982. p. 317) A primeira crítica de Léonard evocava a falta de equidade entre os períodos tratados. p. Nesse sentido.

mais importante do que os efeitos da lei de 1832 sobre a aplicação da pena de morte. Mas a exigência é impertinente e impossível de ser realizada – Léonard implicitamente concorda quando afirma que um batalha de historiadores seria necessário para analisar o livro – quando se trata de levantar um problema. na visão de Foucault. o problema é que o historiador de Léonard tem uma concepção muito restrita do real: É preciso desmistificar a instância global do real como totalidade a ser restituída. 320). a partir daí. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo. estabelecimento das relações que permitem essa solução. é um problema. A outra que consiste em tratar um problema e em determinar. (FOUCAULT. [. 319). p.” (FOUCAULT. cujos elementos servem de princípio de delimitação de um domínio de objetos em relação ao qual se pode selecionar a documentação pertinente e determinar a periodização dos fenômenos que a ele pertencem. o domínio de objeto que é preciso percorrer para resolvê-lo. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. afirma Foucault. Não há “o” real do qual se iria ao encontro sob a condição de falar . 2012. já haviam com bons resultados adotado essa forma de análise. alguns deles pelo menos. ou ao menos uma instituição durante um dado período. (FOUCAULT. enquanto que para Léonard uma análise histórica se produz a partir de uma determinação prévia do período e do objeto que se quer estudar. para Foucault o que se coloca. 2012. quer tratar de um problema. Para Foucault.. p. Dois tipos. não é porque buscasse prescrever uma novidade aos historiadores. que.76 quem. em contrapartida. Seu objeto de estudo. para o qual a periodização só pode ser estabelecida a posteriori: Quem. e uma extensão segundo relações pertinentes: o desenvolvimento das práticas de adestramento e de vigilância nas escolas do século XVIII me pareceu. A questão do “princípio de realidade em história” é suscitado a partir do problema em torno do “objeto” do livro e do parâmetro de explicação. São os próprios historiadores dos Annales.] O trabalho assim concebido implicava um recorte segundo um recorte segundo pontos determinantes. p. de fato. 320) Assim. é a “racionalidade prática” que é posta em questão na reutilização do internamento como procedimento punitivo. surgido em um dado momento. portanto: “uma que consiste em se dar um objeto e em tentar resolver os problemas que ele pode causar. deste ponto de vista. 2012.. gostaria de estudar um período. diametralmente opostos de análise. primeiramente. duas regras entre outras se imporiam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame. Mas se Foucault considerava essa segunda forma de análise igualmente legítima historiograficamente.

se nos restringíssemos a fazer aparecer outros elementos e outras relações. mas igualmente legítimas. (FOUCAULT. 327) é abandonar as convenções acadêmicas de cada disciplina. um programa. Enquanto Foucault deseja estabelecer o debate sobre decisões metodológicas que perfazem praticas historiográficas diferentes. mas pela disputa metodológica. portanto. uma técnica. é uma forma de colocar em questão o princípio de inteligibilidade em história: que conceitos. que aparato teórico nos permitiria entender um fenômenos histórico. O convite final de Foucault (2012. 2012. desviar o debate da relação entre filósofos e historiadores ou entre filosofia e história para o debate sobre a construção de um método de análise além das determinações disciplinares. através dela a verdadeira questão. e que falharíamos. a da relação entre Filosofia e História. então pouco inclinados a discussões epistemológicas. E. um conjunto de esforços racionais e coordenados. 322) Finalmente. 1978. Um tipo de racionalidade. se anteriormente recusamos a “instância global” do real? Foucault. talvez. com frequência implicitamente admitido. transforma as críticas feitas especificamente ao seu livro em questões gerais de análise histórica.77 de tudo ou de certas coisas mais “reais” que as outras. de que a única realidade a que a história deveria aspirar é a própria sociedade. E a gênese dessa realidade. portanto. crucial para o desenvolvimento de uma ciência. a distinção entre objeto e tese. de retomar a desinteligência entre Foucault e a comunidade historiográfica francesa. 2. pouco se reconheciam. nem “a” socie dade inteira. pode ser levantada e não cansa de sê-lo desde uma data e um lugar muito precisos: França. em benefício de abstrações inconsistentes. objetivos definidos e perseguidos. tudo isso é algo do real. mesmo se isso não pretende ser a própria “realidade”. p. p. querem discutir os resultados de um pesquisa específica em relação às decisões metodológicas consideradas corretas do ponto de vista da história social. instrumentos para alcança-los etc. contudo. Seria preciso. De uma parte a outra o encontro entre historiadores e filósofos foi algo de improvável. os historiadores. do momento em que nela fazemos intervir os elementos pertinentes. uma maneira de pensar. ou seja. por mais que se cruzassem. Foi quando a ruptura entre Foucault e os historiadores liberou o diálogo sem fim entre duas disciplinas que. à primeira vista. a última questão. interrogar também o princípio. mais do que de uma “necessidade”.3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão Foucault: historiador ou filósofo? É uma questão ociosa. não porque se vise à biografia dos nomes próprios nela envolvidos. Gostaríamos. é perfeitamente legítima. .. fruto de muitos acasos. que aí se entrevê.

ao menos aqueles que ele levava em consideração. 295). não apenas reitera sua filiação à historiografia braudeliana50. 1994. tese de doutoramento de Foucault. ignorar o que há de programático na constatação de que “os historiadores desertaram há muito tempo dessa velha fortaleza [da história antropológica] e partiram para trabalhar fora” (FOUCAULT. 548) Esse espaço foi mantido até o fim da década de 70. Foucault e os historiadores . Em A Arqueologia do Saber. até a publicação de História da Loucura. p. publicara um estudo que se pode retrospectivamente reconhecer como de “longa duração” sobre as transformações do conceito de normal. polemizando explicitamente com marxistas e existencialistas. apud DOSSE. p. p. 1972. pareciam falar a mesma língua ou. Não se deve. como observou Ladurie (1969. fazer valer o desenvolvimento dessa como desenvolvimento da própria disciplina história enfim liberada do “sono antropológico”. p. apesar das diferenças em relação a vários procedimentos desta escola. um trabalho de pesquisa histórica que servisse para iluminar e responder a uma problematização colocada pelo historiador. Entretanto. e que desenharia no percurso aberto o próprio objeto da investigação”. ao aderir-se à posição de Foucault que consiste em apreender mais o como do que o porquê. é defendida junto à comunidade representante dessa tradição que já adotara uma perspectiva histórica que a aproximava da Escola dos Annales. 352). 2008. usando do artifício de ignorar a existência de um programa rival (a historiografia marxista). Foucault pretendia não apenas definir e defender um tipo de História.” Mesmo adversários da suposta crítica de Foucault ao conhecimento histórico reconhecem a penetração dos questionamentos do filósofo junto ao grupo dos Annales a partir 50 Margareth Rago (1995. em comparação com a tradição anglo-saxã. defendeu uma história-problema. NOIRIEL. 70) interpreta neste mesmo sentido a referência contida na introdução de A Arqueologia do Saber: “Foucault se filiou aos Annales e. ou seja. (DOSSÉ. p. À abertura oferecida pela comunidade historiográfica. p. da “nova história” da escola de Braudel. 269). . como a toma como única representante legítima da historiografia. pois. esteve sempre mais ligada à história do que à lógica. por exemplo. numa perspectiva sobretudo descritiva do arquivo. diretor da tese de Foucault. 1994. no princípio dos anos 70. e até pouco realista. mas. como conclui Dosse (1994. como ele mesmo observou certa vez (FOUCAULT. a História Serial.288. “prevalece então um certo positivismo. 23). História da Loucura. os Annales se mantiveram indiferentes ao campo da “história das ideias” e das ciências. 1994. patrocinada por Philippe Aries e sob os elogios de Robert Mandrou e mesmo Fernand Braudel. p. Foucault responde com uma defesa intransigente.78 Michel Foucault se formou na tradição da filosofia da ciência e epistemologia francesas que. Canguilhem.

principalmente). “ Surveiller et punir é. dos micropoderes. p. e estimulando novos temas.79 do fim da “era Braudel”. ao traçar a arqueologia das ciências humanas. Certamente. das prisões. na dissolução do projeto de uma história global: Poder-se-ia objetar que Foucault custou a ser assimilado pela historiografia francesa. 136). p. etc. requisitava a elaboração de um trabalho sobre os espaços de visibilidade nos quais esse olhar pode se constituir. quando. 51 . finalmente. analisado em O Nascimento da Clínica. evitar uma decepção mútua: restou claro que faltava uma linguagem comum no qual os mútuos questionamentos pudessem transitar. Isso não significa que o livro Vigiar e Punir já estivesse planejado. como o da sexualidade. com efeito. que pode ser caracterizada. p. fundamentalmente. e. citado por Dossé (1994. muitos aspectos da terceira geração desta escola encontram na obra de Foucault precedentes empíricos ou justificações teóricas. As Palavras e as Coisas. direção que as pesquisas foucaultianas acabaram por não tomar. segundo Dosse. no fim da década de 70. que teria repercutido. De fato outra nota indica a necessidade de desenvolvimento de uma história do mal. o diálogo Foucault-historiadores deixou a esfera virtual para se efetivar em um debate aberto. 283). pois. Sob o aspecto historiográfico. o desenvolvimento do “olhar médico”. a compreensão do “Grande Internamento” requisitava a constituição de um capítulo da história da penalidade e uma nota de História da Loucura. 34) acentua esse caráter liminar da obra: “Esse livro pode ser lido como uma sequência dos livros anteriores de Foucault ou como marco de um novo progresso decisivo”. de 1961. não foi possível. a oportunidade de uma real abertura junto aos historiadores que Deleuze (2005. como complemento aos trabalhos empíricos anteriores. inegável que a relação de Foucault com a comunidade historiográfica francesa tenha de ser concebida como de dupla familiaridade: muitos dos aspectos do projeto foucaultiano derivam do empreendimento da primeira e segunda geração dos Annales. 52 Essa observação se deve a Daniel Defert. deixava por elaborar as condições técnicoinstitucionais (complementares ao espaço interdiscursivo das empiricidades) sob as quais essas disciplinas puderam aparecer. no entretanto. por outro. da doença. (VANIFAS. como desenvolvimento do conceitual e analítico do projeto foucaultiano 51 . já indicava a necessidade de um trabalho dessa natureza 52 . por um lado. 1997. ficou quase despercebida por muito tempo. contra todas as expectativas do filósofo e dos historiadores que lhe eram mais próximos (Veyne e Revel. do mesmo modo. Em 1975 Foucault publica Vigiar e Punir. fazendo renascer antigas preocupações de Febvre e de Bloch com os discursos e rituais. Mas o fato é que pouco a pouco sua obra filosófica e “historiográfica” foi penetrando nas pesquisas dos historiadores profissionais. lembrando que Histoire de la folie (História da Loucura). E. Parece.

um populismo negro – mas ainda assim um populismo” (GINZBURG. a possibilidade de cognição direta da vivência dos sujeitos históricos: “O que interessa a Foucault são os gestos e critérios de exclusão. um dos historiadores que se encontraram com Foucault em 78. as declarações de Foucault de que seu problema sempre foi o do discurso verdadeiro e falso. o que se tornou claro foi o caráter filosófico do empreendimento foucaultiano que nasceu e se desenvolveu a partir de questões internas à comunidade filosófica francesa e pouco tinha a ver com as preocupações dos historiadores. apesar da recepção favorável entre historiadores sociais e historiadores engajados nas lutas anti-institucionais. essa interpretação conciliadora. Noiriel (1994) preferirá chamar o episódio de “l’impossible dialogue”. nos levariam a crer que. que converte o projeto de uma “arqueologia do silêncio em silêncio puro e simples”. um pouco menos. sua aplicação a um campo concomitante àquele cultivado pelos historiadores sob outros princípios teve por efeito revelar a disparidade de dois modos muito distintos de encarar a história.” (DOSSE. esse espaço amistoso dá lugar a uma polêmica 53 em que não faltaram mal-entendidos e decepções mútuas. Foucault responde com “A poeira e a nuvem”. com a qual Foucault 53 Em 1977 e 1978 Foucault tentou responder a uma série de objeções que se seguiram à publicação de Vigiar e Punir. Perrot publicará a polêmica sob o título “L’impossible prision”. Foi a oportunidade de Foucault precisar seu programa de pesquisa e. foram os historiadores simpáticos a certos aspectos de seus livros que se enganaram. Para Noirel (1994). Entretanto. ou parecia vedar. embora os princípios básicos da genealogia não fossem diferentes da arqueologia.80 confirma a aproximação efetiva. contrastam com a irritação. porque. Assim. Primeiro. e em torno destes textos foi organizado um encontro em maio de 78. os exclusos. manifestada com sarcasmo e ironia. os textos dessa pequena “querela de métodos” nos ajudam a traçar as linhas de continuidade e divergência entre as pesquisas foucaultianas e o trabalho dos historiadores profissionais. 1994. com a escola dos Annales. portanto desde 1969. a passagem do projeto arqueológico. como o tom conciliador que Foucault adota na resposta a Agulhon.1987. certamente. encaminhava Foucault diretamente ao domínio cultivado pelos historiadores – o que não ocorria com a história intelectual a qual a comunidade historiográfica jamais tivera interesse em reivindicar. de fato. E. entretanto. p. . Carlo Ginzburg. a partir de L’Arqueologie Du savoir. ao que conclui: “É um populismo às avessas. como questão fundamental da filosofia. dotando-os de um caráter historiográfico que não pretendiam ter. na verdade. Em Histoire de la Folie já estava implícita a trajetória que levaria Foucault a escrever Les mots et les Choses e L’Arqueologie Du savoir”. p. expressou bem a insatisfação diante de um a história que vedava. por outro lado. na medida em que implicava o ultrapassamento da esfera estrita do discurso sério. Ao texto de Jacques Leonard “L’historien et le philosophe”. ao projeto genealógico. 292) E. 22-24). malgrado não se possa dizer que o debate tenha chegado a bom termo: Veyne (2011) fala de uma ruptura e se M.

. o conjunto dos acontecimentos. nesse passado.81 enfrentou a ruptura de 78. assim fazendo. se não se determinou primeiro o problema de que se quer tratar. E. coloca. embora a noção de “história-problema” seja intrínseca à constituição da Escola de Annales. questões seletivas. o problema bem colocado são mais importantes – e são mais raros! – do que a habilidade ou a paciência em trazer à luz do dia um facto desconhecido. [. na medida em que coloca seu projeto de uma história dos modos de produção da verdade. a esse passado. nas quais. o historiador Está consciente de que escolhe. da qual decorre a necessidade de . não era uma elite de espírito aberto cuja reputação era internacional? Não estavam preparados para admitir que tudo era histórico. Desde então. somente com a História Serial os problemas que o historiador deve se colocar aparecem como princípio de organização da pesquisa. passando por várias referências em entrevistas. A História Arquegenealógica é. 2011. que se tornaria seu principal interloculor historiador na década de 80.. reafirma a ligação que Foucault sempre acreditou manter com a historiografia de ponta. nenhum dado tem significação. mas também os problemas colocados por esse período e por esses acontecimentos. depositava todas as esperanças nela. nenhum fato reconhecido.84) Na História Quantitativa. mas marginal. 43) Nesse sentido. (FURET. certas características fundamentais da pesquisa histórica puderam finalmente ser reconhecidas. às objeções o seu modo de fazer história. herdeira da concepção monumental do documento que emerge com a História Serial. até mesmo a verdade? Que não existiam invariantes transhistóricos? (VEYNE. nenhuma série pode ser construída. ponto de partida inevitável devido ao caráter do método. Foucault acreditava que o desenvolvimento da história não-factual deveria conduzir à adoção. como corolário do percurso destes. quando Foucault se volta para o mundo greco-romano. de um programa de pesquisa histórico de caráter nominalista e problematizante – donde a referência ao tratado de Veyne no debate de 78. Essa prerrogativa dada ao problema. a reação de Foucault às críticas vindas dos Annales. desde a introdução de A Arqueologia do Saber.. acima de tudo. ele aponta desenvolvimentos análogos nos Annales e em outros grupos de historiadores fora da França.] a boa questão. não tem dúvidas quanto às ambições de Foucault e a decepção com que recebeu as objeções dos historiadores: Foucault esperava ver a escola histórica francesa abrir-se às suas ideias. portanto. p. uma História-Problema. já que a parir daí tudo é histórico. p.. e que terá de resolver [. Furet considera que a partir do desenvolvimento dos projetos de história quantitativa. 1986. aquilo de que fala e. Veyne.] constrói o seu objecto de estudo delimitando não só o seu período.

Para Léonard importa estudar um período e os objetos que. portanto. Foucault não questiona a legitimidade dessa forma de se fazer história. uma das características fundamentais da História Serial é justamente deslocar o foco dos eventos para os problemas que os documentos levantam sobre os passado. Léornard e Foucault estabelecem ordens distintas entre esses elementos fundamentais da pesquisa histórica. p. etc) ou segundo períodos (século XVII. dessa História serial. ou ao menos uma instituição durante um período. p. reaparece na resposta dada por Foucault a Léornard em 1978. somente aponta que essa ordem não é necessária e. A ordem metodológica desses elementos para o historiador esteriotípico de Léonard é. Foucault acaba por repetir quase que identicamente o modo como Furet (1986) caracteriza o procedimento da História Serial. a polêmica é plenamente compreensível: os historiadores são incapazes de reconhecer Foucault como um de seus membros plenos porque individuam sua ciência a partir de objetos ou períodos os quais deveriam ser estudados até a saturação. Uma das mais importantes questões então levantadas foi a da relação ordenada entre objeto. de fato. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo. tanto não o é. 2008.82 determinação dos conceitos. problemática e conceitual. Do mesmo modo. ao tentar mostrar que uma ordem inversa. Foucault. partindo do problema para a determinação dos objetos e posteriormente dos períodos. distinguir. já que não é a que foi seguida pela História Serial. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. a seguinte: determinar o período. E. o “cavaleiro da exatidão” implica numa prática historiográfica específica. duas regras entre outras importam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame” (FOUCAULT.. paciente e meticulosamente. a qual “define seu objeto a partir de um conjunto de documentos dos quais ela dispõe” (FOUCAULT. período e problema.326). 326): “Quem [. etc). por outro lado. em mentalidades. A História assim se “especializa” de dois modos: segundo os objetos (especialistas em Revolução Francesa. mas não a única possível. para Foucault (2006. Antigo Regime. Ela é certamente justificável e implica em suas exigências próprias: “P ara quem. de fato. em economia. A resposta irônica de Foucault é que. pensa a si mesmo como um continuador da mutação na disciplina histórica de que fala Furet. 290). a saber. o historiador encenado por Léonard. em mulheres. surgido em um dado momento. . Idade Média. estabelecimento das relações que permitem essa solução” Apesar da aspereza com que Foucault responde a seus críticos.. 2006. distinguir os objetos e resolver os problemas que daí decorrem. gostaria de estudar um período.] quer tratar de um problema. o historiador consegue com muito esforço. p. XVIII. Para este.

na última categoria. o que explica sua conturbada relação com a comunidade historiográfica? Falamos de um 54 Essa reserva ao método foucaultiano é compartilhada mesmo pelos historiadores que lhe são mais simpáticos. a tese de uma normalização maciça concomitante. está inscrita no próprio projeto de liberar a história do tema antropológico. três modalidades do fazer histórico derivadas da escolha metodológica por uma das seguintes ordens: (objeto-período-problema). na qual se encontra a História Serial e que Foucault pretende também integrar. etc). elaborava uma imagem inaceitável do século das luzes. . poucos conseguiram admitir a extensão de seus princípios básicos para a totalidade da prática histórica. na visão de Foucault. retira-la do meio das “ciências humanas”. dos camponeses. períodos da história. A primeira categoria inclui. Tem-se. No primeiro caso. épocas ou durações delimitadas por eventos específicos (Antigo Regime. por exemplo. no segundo caso. a história das mentalidades. Enquanto teria sido absurdo objetar a um historiador econometrista a ausência de uma análise sobre o conjunto indeterminado das pessoas supostas numa relação econômica. quer sejam séculos. Tal desumanização da história. nem uma nova história do século XVIII. tentar-se-ia reformar o entendimento que se tem do século das Luzes. se suas pesquisas são integralmente empíricas. Mas este também não é o objetivo alegado de Foucault. dos operários. de modo geral.83 Embora todo historiador reconheça a História Serial como uma vertente legítima da historiografia. legítima certamente. contrapondo à filosofia da Aufklärung. A segunda categoria inclui a especialização em períodos. portanto. parecia legítimo objetar a Foucault que sua “história das prisões” não levava em consideração os próprios presos 54 e que. está a história que principia por se colocar algum problema. das mulheres. mas que implicaria em exigências metodológicas diferentes. Entretanto. de forma absoluta. (período-objeto-problema). (problema-objeto-período). como ele mesmo as via. etc. que não há nenhuma unidade homogênea que nos permita individuar. Finalmente. como quer Veyne. tratar-se-ia de uma história centrada em um objeto determinado. O que Foucault responde é que não está fazendo uma “história da prisão”. sua escolha por uma história problema parece se balizar na exclusão das demais alternativas através de dois pressupostos: que não há objetos naturalmente dados. II República. A questão que nos propomos agora é a seguinte: tal escolha é arbitrária ou a análise das consequências desses modos de individuação poderia nos levar a determinar a alternativa ótima do ponto de vista metodológico? Embora Foucault não confronte diretamente a comunidade historiográfica nesse ponto. Ela pode ser diacrônica ou sincrônica (caso em que um período é determinado concomitantemente ao objeto). contudo. se Foucault foi o primeiro historiador completamente positivista.

perigosamente beiram a conversão do foucaultinismo em uma nova filosofia da 55 56 Vão nessa linha explicitamente. A ruptura entre Foucault e os historiadores em 78. depois de sua morte prematura. fundamentalmente. entre outras. Passemos por alto as relações que Foucault ainda manteve com os historiadores fora dos Annales (Perrot. hoje perfeitamente natural. 2002) e Ciro Flamarion Cardoso (1997). Pois é.84 programa foucaultiano para a História e. portanto. 354). contudo. Farge. Veyne). mesmo. para os quais cabe levar em consideração a filosofia de Foucault. É que o projeto focaultiano “modifica a relação da história com o passado. contudo. como afirma Veyne (2011. De fato há um número crescente de trabalhos de “inspiração foucaultiana”. a julgar pela relação entre Foucault e os historiadores. Alguns projetos são de clara hibridização. para usar a expressão de Margareth Rago (1995). p. como era de sua vontade. o fim do diálogo entre o pensamento foucaultiano e a historiografia. . De modo que. como Ronaldo Vainfas (1997. A leitura que vê em Foucault um crítico do conhecimento histórico foi desenvolvida principalmente por Hyden White (2001) em torno da noção de “anti -história” e acompanhada principalmente pelos críticos mais recentes do historiador Foucault. cujas relações efetivas com o pensamento e o trabalho histórico de Foucault são difíceis de demarcar. ao incluir Foucault entre os “pós-modernos”. anti-foucaultianos e herdeiros de Foucault se situam com relação ao seu trabalho. Não parece restar dúvida de que Foucault tenha pretendido ser um reformador da disciplina histórica55. POSTER (1988) e RAGO (2002). dos seus escritos) e a comunidade dos historiadores é fundamental para avaliar o que se pode esperar do desenvolvimento atual de um novo paradigma historiográfico. 2002). Reconsiderar. Outros. 1988. chama a um reexame dos objetos próprios da pesquisa histórica” (POSTER. p. o modo com se deu e evoluiu a relação entre Foucault (e depois de sua morte. 46) aos poucos pode se observar uma reorientação da comunidade historiográfica em direção aos questionamentos por ele propostos no debate com a escola francesa. não se poderia ter muita esperança de ver esse programa ser aceito de desenvolvido. se manifestou. não significou. as leituras de VEYNE (2011). “esquecer Foucault” se tornou cada vez mais difícil. trabalhando-a desde o interior e não um crítico do conhecimento histórico56. entre a História e a Filosofia. prepara uma reorientação teórica da histórica como disciplina. nesta e a partir desta relação que foucaultianos. tal como o desenvolvido por pelos “analistas do discurso” (ORLANDI. se inicialmente os historiadores gostaria de permanecer eles mesmos. pela produção da relação. por vezes assimilando-a a outros autores sob a rubrica do pósmodernismo. O “efeito Foucault” sobre a historiografia. Pelo contrário. e talvez sobretudo.

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história a substituir o hegelianismo. E Nisso seguem, basicamente, a leitura de Hyden White (2001, p. 279), para quem Foucault foi um “metafísico”. Há, por outro lado, assimilações mais sutis e diálogos menos unilaterais, principalmente no campo da Nova História Cultural. Roger Chartier, um dos ícones dos atuais annalistes, desde muito tempo, reconheceu certa dívida para com a crítica foucaultiana dos objetos naturais, na elaboração que lhe deu Paul Veyne no ensaio de 78, provavelmente devido à atenção que Le Goff lhe dispensou:

Após Foucault, é bastante claro, com efeito, que não se pode considerar esses ‘objetos intelectuais’ como ‘objetos naturais’, cujas modalidades históricas de existência seriam as únicas a mudar. A loucura, a medicina, o Estado não são categorias pensáveis sobre o modo do universal e cujo conteúdo cada época particularizaria. Por detrás da permanência enganosa de nosso vocabulário, deve-se reconhecer não objetos, mas objetivações que constroem a cada vez uma figura original. (CHARTIER, 2002, p. 58)

Para Peter Burke, a História Cultural da terceira geração dos Annales, principalmente a desenvolvida por Chartier, mostra-se claramente devedora dos

questionamentos levantados por Foucault à época do debate com a comunidade historiográfica:
Apesar da crítica de Foucault à ideia de influência, torna-se difícil não utilizar o termo para descrever os efeitos de seus livros sobre os historiadores do grupo dos Annales. Graças a ele, descobriram a história do corpo e os liames entre essa história e a história do poder. Importante também no desenvolvimento intelectual de muitos historiadores da terceira geração foi sua crítica aos historiadores, em razão de sua “pobre idéia do real”; em outras palavras, a redução do real ao domínio do social, deixando de fora o pensamento. A recente virada em direção à “história cultural da sociedade”, bem exemplificada com Chartier, deve muito à obra de Foucault. (BURKE, 1997, p. 98-99)

Ainda no âmbito da Nova História Cultural, Patricia O’Brien, reconhece certos princípios básicos do procedimento foucaultiano úteis para a história cultural; mais ainda, que “com sua ‘microfísica do poder’, Foucault estava construindo uma história da cultura que explicava como se constituíam os sujeitos, ainda que ele não estivesse absolutamente preocupado com a atuação humana – para ele, tratava-se de uma questão irrelevante” (O’BRIEN, 2001, p. 61). Desse modo, embora não chegue ao extremo de afirmar a existência de um método foucaultiano positivo, tal como Paul Veyne, reconhece a validade da atitude epistemológica de recusar todos os pressupostos e centraliza a caracterização do método de Foucault na genealogia: “O genealogista/historiador busca o começo, não a origem. Para

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Foucault, essa era uma distinção fundamental. As origens implicam causas; os começos implicam diferenças.” (O’BRIEN, 2001, p. 49). De modo que, “Foucault não procurava a evolução ou a recorrência. O método dele consistia, basicamente, em isolar as diferenças e procurar as inversões” (O’BRIEN, 2001, p.49). Considerando o problema de se saber como essa operação se dá na prática, a historiadora chama a atenção para a justaposição que faz aparecer os objetos em caráter diferencial: “Foucault usou reiteradamente o recurso da justaposição para introduzir e sustentar suas histórias. [...] um instrumento para minar os pressupostos progressistas sobre a transformação” (O’BRIEN, 2001, p. 50). E, no entanto, a historiadora não avança a análise ao ponto de reconectar esse procedimento com o método de produção de séries da História Serial, o que obscurece as condições pragmáticas de ativação do mesmo. Desse modo, nas palavras da historiadora americana, “ainda não est á absolutamente claro quanto a obra de Foucault será importante para forjar uma nova prática” (O’BRIEN, 2001, p. 60) ou, que de modo geral, como aponta Lynn Hunt, na introdução da coletânea, “seu programa permanece idiossincrático em termos gerais” (HUNT, 2001, p. 11), O’Brien conclui que “para a escrita da história, talvez a melhor utilização da obra de Foucault esteja não em tentar encontrar uma teoria onde não existe nenhuma, ou impor rígidos limites onde existe plasticidade, mas, antes, em deformar sua obra, fazê-la gemer e protestar.” (O’BRIEN, 2001, p. 61) É claro que, ao lado dessas possibilidades há também toda uma gama de historiadores que se mantém, por razões diversas, hostil a tudo o que se refere ao filósofo francês. Esses historiadores que costumam se auto-denominar “racionalistas” para se opor a um pretenso “irracionalismo” corrente, frequentemente alinhando-se, explicita ou

implicitamente, à posições neo-racionalistas (tal como a de Habermas), já não acusam tanto as deficiências historiográficas dos trabalhos empíricos de Foucault. Geralmente, tomando Foucault inexplicavelmente como alguém que contestou as pretensões de conhecimento da História, engajam-se, sem o querer, no debate epistemológico que Foucault havia proposto em 78 e que fora recusado por Agulhon. Por fim, tem-se um conjunto de trabalhos de historiadores que não fazem uso da terminologia foucaultiana, nem sem preocupam em se dizerem explicitamente foucaultianos, mas, cujos projetos historiográficos podem ser reconhecidos, formalmente, estando dentro do “programa foucaultiano”. Entre eles está, obviamente, o trabalho de Paul Veyne, explícito ao aventar esse direcionamento ao menos desde a pesquisa Acreditavam os deuses em seus mitos?.

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Tendo adotado essa perspectiva no presente trabalho, resta considerar o fato de que o programa foucaultiano implica, no âmbito da epistemologia histórica, a substituição de um regime de verdades parciais por um regime de verdades provisórias. Seu sucesso, paradoxalmente, implicaria no abandono provável das teses substanciais das pesquisas foucaultianas por teses mais corretas, em tentativas de refutação das posições foucaultianas sobre temas empíricos. Nesse sentido, não é improvável que os livros de Foucault contenham grandes equívocos, que a reavaliação dos problemas mostre, afinal, que suas teses empíricas devem ser corrigidas ou mesmo abandonadas. François Dosse (1994, p. 381) encontra para cada pesquisa de Foucault ao menos um historiador que conteste seus resultados: À Histoire de la Folie opõe La pratique de l’espirit humain. L’insttution asilaire et La revolution democratique de M.Gauchet e GI. Swain; à La Volonté de Savoir opõe Le Pénis ou La Démoralisation de l’Occident de Jean-Paul Aron e Roger Kempf. Por outro lado, a respeito das polêmicas levantadas pela História da Sexualidade de Foucault, Engel (1997, p. 303) levanta, muito pertinentemente a questão, de se esta “irritação” provocada por Foucault não seria uma de suas maiores contribuições à historiografia:
Suas ideias – quer sejam aceitas integral ou parcialmente, quer sejam refutadas de forma mais ou menos consistente – têm o mérito indiscutível de abalar e mexer com os pressupostos, concepções, certezas sobre as quais calmamente se assentavam muitas da perspectivas da análise histórica.

A conclusão de Veyne (2011, p. 146) é ainda mais favorável ao falecido amigo:
Quando dizia e repetia que seus livros não passavam de ‘caixas de ferramentas’, não era para convir modestamente que eles não tivessem tesouros; ele entendia por essas palavras que desejava ter alunos (ele teria dito em estilo universitário), e convidava seus leitores de boa vontade a utilizar seus métodos e a continuar seu empreendimento assim como faz o físico com alunos que são seus continuadores (VEYNE, 2011, p. 146)

De modo que a contribuição de Foucault a ciência histórica foi e permanece sendo metodológica. Ao retomar o tema da relação entre Foucault e a comunidade historiográfica, quisemos passar do sintoma à sua causa, da desavença entre intelectuais franceses ao dissenso que separa programas diferentes em uma ciência. Restou claro que a impossibilidade de um acordo entre Foucault e a Escola Francesa se baseava em uma mútua incompreensão: os historiadores não percebia a obra de Foucault como extensão metodológica da História Serial; Foucault, por seu lado, tomava a História Serial como única possibilidade epistemológica para

não se pode dizer que o problema tenha se evanescido pela morte do filósofo ou pelos novos rumos tomados pela historiografia. principalmente de tradição francesa. Ao contrário.88 o desenvolvimento das disciplinas históricas. desprezando todo programa que ainda se ligasse aos temas antropológicos. . a questão do programa (ou “paradigma” como preferem dizer a maioria dos autores que tratam do assunto) a ser adotado pelos historiadores se renova indefinidamente. Passadas mais de quatro décadas desde essa pequena methodenstreit. mantendo um interesse também renovado pelas “histórias” de Foucault.

73) Comparado. O próprio Paul Veyne (2011. 47). essa contribuição parecerá bastante modesta. Thévenot. julgava que as pesquisas de Foucault promoveriam uma reviravolta na maneira como os historiadores encaravam a realidade histórica. “Foucault revoluciona a história”. ao invés de partirmos em busca da síntese e da totalidade. mas. De todo modo. uma vez que ela representa a tese mais ousada no interior do problema que nos propomos. a seguinte constatação: Ora. esperando para ser “desvelado”. ligaram a recepção de Foucault a um ultrapassamento da concepção de realidade então vigente na história social. E. podemos constatar que as relações entre Foucault e os historiadores e a própria dinâmica de assimilação das propostas foucautianas na historiografia conservam aquelas dificuldades próprias do diálogo entre filósofos e historiadores.89 CONSIDERAÇÕES FINAIS Inicialmente tomamos a proposição de Paul Veyne (1995). aliás. Quando Veyne (1995) acrescentou o ensaio sobre Foucault à segunda edição de seu tratado de epistemologia. p. Outros historiadores como Jacques Le Goff (1990). Levando em consideração que a crítica de Foucault ao uso do princípio de realidade em história estava ligada ao projeto de uma história geral ao lado das histórias regionais. nem com sujeitos determinados. o chão dos historiadores desabou. É verdade que em nenhum momento pretendemos demonstrá-la positiva ou negativamente. à ambição de Foucault. mesmo quando assimilam alguns conceitos de Foucault. cujas formas poderiam ser reconhecidas ao longo do tempo. como um fio condutor para analisar as relações entre os trabalhos do filósofo e a historiografia francesa. a prática efetiva dos historiadores em geral não parece ter se alterado drasticamente. De um . no Brasil. podemos agora retomá-la a fim de tecer nossas últimas considerações. repentinamente. porém. 35). Roger Chartier (2002) ou Margareth Rago (1995). tal como há uma geografia geral ao lado das geografias regionais. deveríamos aprender a desamarrar o pacote e mostrar como fora constituído. evocando um ou outro historiador que parece trabalhar nessa linha (Boltanski. nem com objetos prontos. nem tampouco com o fio da continuidade que nos permitia pensar de uma maneira mais sofisticada em termos de processos históricos e sociais. 2011. prefere sonhar com “jovens historiadores que sonhariam escrevê-la [a história] como ele” (VEYNE. Rosanvallon e Roger-Pol Droit). É desta última. pois já não contávamos nem com um passado organizado. (RAGO. efetuando a “descrição da dispersão”. p. 1995.

à medida em que as incompreensões mútuas que marcaram a relação de Foucault com a comunidade historiográfica são desfeitas graças aos trabalhos de historiadores e filósofos. De modo que suas construções ainda hoje são consideradas deficientes por ignorarem este ou aquele aspecto dos objetos de que trata. Sua proposta de história geral ia de encontro a requisitos bem aceitos na comunidade historiográfica acerca de como uma boa pesquisa deve ser realizada: delimitação precisa do objeto. . continuará a ser uma referência metodológica importante no desenvolvimento da historiografia neste século XXI. essa ou aquela documentação considerada indispensável. Foucault superestimou declarações teóricas dos historiadores. incluindo as dificuldades que comporta e os debates acalorados que suscita. mas subestimou as convenções disciplinares.90 lado. De todo modo. podemos concluir que a obra de Foucault. abstraiu princípios epistemológicos e metodológicos de suas práticas. do período e tratamento exaustivo das fontes pertinentes. inclusive conjuntamente.

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