GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em História.

Área de concentração: História Social

Linha de Pesquisa: Cultura, relações sociais e gênero.

Orientador(a): Prof. Dr. Ildenilson Meireles Barbosa.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

Ao meu pai (in memorian)

Aos professores do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Montes Claros. presto o devido agradecimento pelo entendimento acerca das difíceis questões da Ciência Histórica que pude obter a partir das discussões e perspectivas a que tive acesso nos dois últimos anos. agradeço a todos os amigos na Academia e fora dele cujo convívio respeitoso na diversidade de opiniões tem me permitido construir uma melhor perspectiva dos problemas humanos. por vezes. cujas faltas se devem unicamente ao ouvido. Por fim. Drª Cláudia Maia e ao Dr. Aos examinadores. mais do que a gratidão do discípulo para com o mestre senão uma amizade profunda e admiração sincera pelo caminhar tranquilo do sábio em que busquei me espelhar por vezes sem suficientes forças. minha gratidão está. sou grato por todas as questões levantadas a propósito de sua defesa. sem as quais certamente minha pesquisa não teria encontrados os parcos resultados que aqui apresento. Deste trabalho e dos muitos anos de paciente auxilio resta ao Dr.Nada pode o esforço da razão sem o amor que impulsiona mesmo aquilo que desconhece. sobre todos. que novas e importantes vias me abriram a entendimento da questão proposta. meu orientador neste trabalho. À confiança dele tributo o que há de bom nesta empresa. agradeço aos demais professores do programa e aos colegas historiadores que souberam receber um estrangeiro em sua pátria. cujos cursos tive a oportunidade de assistir. E em seu nome. Por isso. sou grato ainda por todas as pertinentes colocações por ocasião da qualificação. À primeira. Marcos Nali. . Ildenilson. pouco dado aos seus conselhos. com a minha mãe cujo esforço e incansável incentivo trouxe-me até aqui.

se por um lado. ainda menos. Trata-se somente de assinalar a dispersão que a caracteriza e os principais pontos de contato com a historiografia na esperança de contribuir para um debate mais frutífero entre historiadores e filósofos. de outro pontuamos a diferença de projetos intelectuais que ocasionaram uma ruptura de parte a outra. Trata-se de um conjunto de convergências e divergências que se podem fazer sentir ainda hoje naqueles historiadores que de algum modo se apropriam de aspectos do trabalho do filósofo francês em apoio. No momento em que se assiste um novo e renovado interesse pelo trabalho de Foucault no Brasil e no exterior. PALAVRAS-CHAVE: Historiografia. é útil ponderar o quanto esse trabalho esteve de fato próximo do trabalho efetivo dos historiadores. Arqueologia. teórico ou metodológico. tenta-se traduzir essa obra num conjunto de recomendações práticas. assinala-se as ligações que o próprio Foucault confessa com a Escola dos Annales. nomeadamente a chamada Escola dos Annales. Annales. História Serial. ao seu ofício.RESUMO A presente dissertação resulta de uma investigação sobre as relações entre o filósofo Michel Foucault e a comunidade historiográfica francesa. Genealogia . De modo que. Não se realiza uma exegese de uma obra filosófica e.

It is only to point out that characterizes the dispersion and the main points of contact with the historiography in the hope of contributing to a more fruitful debate among historians and philosophers. Serial History. and even fewer attempts to translate this work into a set of practical recommendations. particularly the socalled Annale’s School.ABSTRACT This dissertation is the result of an investigation about the relationship between the philosopher Michel Foucault and historiographical French community. we are witnessing a new and renewed interest in the work of Foucault in Brazil and abroad. theoretical or methodological. Now. . it is useful to consider how this work was in fact close to the actual work of historians. Archeology. It is a set of convergences and divergences that can be f elt even today those historians who somehow appropriating aspects of the work of the French philosopher in support. we point to another difference in intellectual projects that caused a rupture of the other. on the one hand. So. genealogy. Annales. to his office. Is not it an exegesis of a philosophical work. KEY-WORDS: Historiography. it is noted that the links Foucault himself confesses to the Annale’s School.

..... A GENEALOGIA E A HISTÓRIA ......................................................................................................................................................................................54 2.........................2 A arqueologia como método de análise histórica ................................................3 Um programa historiográfico: a história geral ...................................................................3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão .............49 CAPÍTULO 2 – FOUCAULT....89 REFERÊNCIAS ..............91 ................. A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA .....................73 2..................................................1 A genealogia como método de análise histórica...07 CAPÍTULO 1 – FOUCAULT.........................................................82 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..........................................................................54 2..11 1........1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia...SUMÁRIO INTRODUÇÃO.....................................................................................2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 ....30 1...............11 1................

alcance e validade do conhecimento histórico. os fatos históricos” (SEIGNOUBOS. desde o século XVII.7 INTRODUÇÃO Nenhuma outra categoria de intelectuais. dando-se um domínio restrito de objetos de estudo. 2). p. . “a ciência dos fatos humanos do passado” (SEIGNOUBOS. se debruçou tanto sobre o significado do próprio ofício quando o historiador. descobrindo as leis científicas que as regem. p. 1895. 16) reconhece a cisão que separa a história moderna. 1 O próprio Sthephens (1905. a história cruzou seu limiar de epistemologização2. 1909. ou pretendendo utilizar-se de métodos rigorosos. mas dos princípios e métodos. desde a partir da década de 1970. uma resposta diferente é concebida. não mais estritamente a questão da escrita da história. o Syllabus de Stephens (1905) ainda proclama e define a História como “narrativa do passado”. p. 226). mas aí o sentido é completamente outro: a História moderna não se faz sem uma perturbação interior acerca de sua própria natureza 1 : não se coloca mais a questão dos gêneros literários e da estilística. univocamente. Desde o século XIX. uma formação discursiva cruza seu limiar de epistemologização quando “pretende fazer valer (mesmo sem consegui -lo) normas de verificação e de coerência e que exerce face ao saber uma função dominante (de modelo. para cada época. 1909. a partir de Gibbon. 3 Livre tradução de : « L'histoire se propose trois objets principaux : critiquer les traditions. esclarecer a filosofia das ações humanas. talvez. o significado e a função de seu ofício. les documents et les faits . dégager la philosophie des actions humaines en découvrant les lois scientifiques qui les régissent. Mas o que é novo e. Em fins do século XIX e início do século XX tem-se aparentemente uma clareza consolidada da disciplina enquanto ciência: a história é “ciência que estuda certa categoria de fatos. p. foram substituídos por uma variedade de concepções distintas. usem diferentes métodos e tenham diferentes perspectivas sobre as categorias com as quais lida. e. “Que é isso – a história?” – interrogam-se sem cessar os historiadores. p. os documentos e os fatos. à exceção. quer fazer valer uma pretensão de conhecimento sobre esse domínio e exercer uma função social determinada. 7). bastante aflitivo é que. de modo que. 1). É verdade que no princípio do século XX. 2 Segundo Foucault (1972. As funções são também perfeitamente demarcáveis: “A história se propõe três objetos principais: criticar as tradições. o que é novo não é que diferentes historiadores trabalhem de modo distinto. devolver a vida ao passado”3 (MONOD. dos filósofos. utilizando-se. de crítica ou verificação). da história literária. mas o problema da construção. os diversos consensos sobre os significados do termo “história” e da prática a que dá lugar. rendre la vie au passe ». mas que não concebam mais. ou melhor. de certo modo. portanto.

um pressuposto difícil de ser abandonado: o de que. Michel Foucault dirá: “a história é. é desde o interior desta constatação. em qualquer sentido que se queira emprestar à palavra “fato”. o objeto de estudo histórico. em 1971. igualmente. 1986. também. para uma sociedade. certamente um grande avanço.55). escrevendo o tratado teórico sobre sua Arqueologia do Saber em 1969. e partidário da história serial conceberá. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa. O Mediterrâneo de Fernand Braudel abriu a possibilidade para que a paisagem geográfica e os eventos da natureza fossem integrados na análise histórica. das sociedades humanas no tempo” A inovação aqui não está em conceber o caráter antropológico da história. p.” François Furet. só se poderia. p. p. Marc Bloch (2001.. no domínio de objetos da história. acontecimento humano que é ação ou que é algo que escapa completamente à percepção e à consciência de seus contemporâneos) devia ter um lugar. passa a conceber o fato histórico todo e qualquer fato humano. na mesma linha: “por essência. Resta que só haveria uma maneira de se delimitar o campo de atuação do historiador. dizer o que é história. afinal. Le Roy Ladurie (1976) concebeu a possibilidade de uma “história do clima”. de direito. pois que são construídos pelo trabalho sobre as fontes.. Uma nova ruptura dá-se na década de 1950. p. 1972. a história é conhecimento mediante documentos. A partir daí. se poderá pensar a história para além de seu caráter de ciência humana. ” (FOUCAULT. E. seguindo por essa via. isto é. então. que não visava a fatos humanos. pelo menos. o documento. não um boa análise histórica. 71) . de modo que “o historiador já não pode escapar à consciência de que construiu os seus ‘factos’ e de que a objectividade da investigação depende [. Não só os fatos sociais. 12). onde não se remete o acontecimento à sua dimensão social não se faz análise histórica. mas também os fatos naturais poderiam ser objeto de análise histórica. ou.] do uso de processos correctos na elaboração e no tratamento destes ‘factos’” (FURET. Do mesmo modo. mais do que as ações individuais dos homens. independente de ser constituído por ações: “História é a ciência dos homens – ou melhor. mas. por aquilo através do qual um objeto pode ser referido.8 Rompendo com essa concepção. já que qualquer coisa que tenha acontecido (acontecimento natural ou humano. Essa concepção representará. mas seu caráter “social”: são as sociedades. arraigará junto aos seguidores de Bloch e Febvre. que. escreverá. se bem que não necessariamente de fato.14). os positivistas já o tinham feito. membro da Escola dos Annales. que os fatos não individuam a história. Paul Veyne (1995.

a nosso ver. encontramos um ponto de contato entre o trabalho de Michel Foucault. Foucault foi chamado a ocupar certos papeis junto à comunidade historiográfica tanto entre seus simpatizantes quanto entre seus detratores: historiador revolucionário ou historiador reformista. ao capítulo 1. viabilizando um novo sistema de pensamento. mas também um interesse filosófico pela historiografia. No primeiro momento. portanto. Desde então e mesmo depois de sua morte em 1984. É um momento de convergência que permite vislumbrar não só um interesse dos historiadores por áreas antes negligenciadas. orientando-nos pela hipótese de que este tenha herdado certos aspectos metodológicos da Escola dos Annales. analisar as possibilidades que ainda hoje se abrem para filósofos e historiadores a partir do trabalho de Michel Foucault. analisamos as reorientações da pesquisa foucaultiana ao longo da década de 1970 e as divergências que vieram à tona por ocasião do . buscamos traçar as linhas de convergência entre a historiografia francesa e o trabalho arqueológico de Michel Foucault. Nesse sentido. avaliar os limites e possibilidades do diálogo histórico-filosófico por aqueles autores que. do poder ou da sexualidade. Entretanto. enfim. quanto Foucault publica a primeira síntese de suas pesquisas no College de France no livro Vigiar e Punir em 1975. A vocação interdisciplinar dos annales – herança do projeto de síntese histórica de Henri Berr – a perspicácia filosófica de um Veyne ou um De Certeau e o projeto de história dos sistemas de pensamento de Foucault convergiam para o que este último chamou de “história geral”. sob a aparência de interesses comuns. Ele nos permite realizar uma série de tarefas de interesse comum a filósofos e historiadores: ponderar o quanto de fato a história do pensamento pode ser integrada à história dos historiadores. seguimos a perspectiva do próprio Foucault que por diversas vezes evocou os historiadores dos Annales como partidários de uma “nova história” capaz de romper com os privilégios da consciência e os temas antropológicos. o levaram mais longe. Daí que o debate entre Foucault e os historiadores em 1978 tenha ainda seu valor e interesse para a história da historiografia e para a teoria da história. Num segundo momento. um abismo ainda se abria entre o filósofo e os historiadores. dividimos a exposição em dois momentos.9 No fim da década de 1960 e início da década de 1970. porém. imediatamente se instala uma polêmica que deixará claro que. filósofo da história ou do ofício do historiador. teórico do discurso. precursor do paradigma pós-moderno e do irracionalismo ou projetista de uma nova história da civilização ocidental. alguns desenvolvimentos internos na Escola dos Annales e as pesquisas e constatações epistemológicas de historiadores que não integravam essa escola como Paul Veyne e Michel de Certeau. permite. Em grande parte.

dessa dificuldade mesma. Todas essas questões podem ser resumidas naquela proposição de Paul Veyne (1995) sob a forma da pergunta: “Foucault revolucionou a história?”.10 debate com os historiadores. Apresentando a arqueologia e a genealogia como procedimentos metodológicos. determinar a raiz dessas divergências a partir do esclarecimento das diferenças entre o interesse real dos historiadores e aquela perspectiva revolucionária que Foucault nutria deles. Procuramos. Maiores que sejam as deficiências que possamos encontrar nas grandes sínteses da filosofia foucaultina. Gostaríamos de partir dessa segunda realidade. Não que pretendamos responde-la assertivamente quando o próprio Veyne (2011) teve que constatar a dificuldade de recepção do trabalho de Foucault junto aos historiadores. uma história capaz de responder aos problemas do presente. Por fim. e mostrar o quanto as divergências e convergências entre Foucault e os historiadores pertencem intrinsecamente ao projeto de uma filosofia histórica e de uma história teórica. a leitura que fazemos do trabalho de Foucault – em grande parte guiados pelas leituras de Paul Veyne e Gilles Deleuze – permanece muito aquém de uma exegese completa e exaustiva. . então. isto é. principalmente naquela que é a grande referência para quase todos os exegetas – a leitura Dreyfus & Rabinow (1995) –. buscamos apenas os meios de responder à série de questões que se podem propor acerca da relação desses procedimentos com a disciplina histórica. devemos esclarecer que este trabalho não pretende ser uma exegese da obra de Foucault. Pelo contrário. não pretendemos substituí-la por uma melhor.

de certo modo. encontramo-nos. do pressuposto de que a arqueologia se aplica ao campo da história intelectual e que a história da historiografia pertence a esse campo. diferentemente. de modo que aplicaremos no presente capítulo os elementos básicos da analítica dos discursos sérios desenvolvida por Foucault principalmente no tratado sobre A Arqueologia do Saber. De modo que. Não tentaremos mostrar que Foucault foi um historiador. . pois. como não pertinente. Dentre os dois riscos. de sua perspectiva sobre a história e a historiografia para traçar a relação entre suas pesquisas e a dos historiadores profissionais. entre a tentativa de neutralidade em que se arrisca perder justamente os elementos que nos permitiriam esclarecer essa relação e uma circularidade interna no qual a suposição de um método histórico específico em Foucault figuraria tanto como objeto quanto como arcabouço teórico da pesquisa. tentar encontrar na própria obra de Foucault os elementos de uma história do discurso historiográfico para analisar as convergências e divergências que asseguraram um lugar privilegiado desse discurso no empreendimento foucaultiano.1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia Uma vez engajados na tentativa de compreender a relação entre os trabalhos de Michel Foucault e a historiografia profissional que lhe era contemporânea. A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA 1. 1995) ora idiossincrática (HUNT. ou. sua modalidade enunciativa. diante do seguinte dilema: partir de uma das correntes majoritárias da historiografia. de modo que aplicaremos. sob o risco evidente de uma visão fechada em si mesma e auto-referencial desse método. realizando como que uma “leitura externa” do fenômeno. partir da própria visão de Foucault. segunda a qual um discurso sério é analisável tendo em conta seu domínio de objetos. A escolha se faria. assim. permanecer o mais próximo possível de nosso objeto.11 CAPÍTULO 1 FOUCAULT. mas que. qualquer que seja sua real importância. se campo conceitual e as escolhas teóricas a que dá lugar. optamos pelo segundo: decidimos. as transformações de um discurso e os diversos limiares que transpõe através do tempo se processam através de transformações desses elementos. já. nem julgar se fazia boa ou má história. Partiremos. também. mantém esse empreendimento numa posição ora revolucionária (VEYNE. por outro lado. Para evitar uma circularidade viciosa deixaremos de lado essa questão. 2001). tomar das próprias pesquisas de Foucault os elementos que permitiriam iluminar a relação delas com a historiografia profissional.

1966. ela exerceu na cultura ocidental um certo número de funções maiores: memória. desqualificar e requalificar eventos e personagens em vistas do presente. somente nesse século. mas ainda muito distante da história contemporânea. mito. depuis le fond de l’âge grec. a história é bem mais recente: remonta ao século XIX. transmissão da Palavra e do Exemplo. transmission de la Parole et de l’Exemple. » 4 . a história é. contudo. Prova disso é que. veículo da tradição. a teoria da história. antecipação sobre o futuro ou promessa de um retorno4. prática regulada e especializada com pretensões de cientificidade. encontra sua origem em Heródoto assim como o discurso filosófico em Tales ou o discurso médico em Hipócrates. decifração do destino da humanidade. elle a exercé dans la culture occidentale un certain nombre de fonctions majeures : mémoire. contudo. que elemento permitiu à história cruzar o limiar de positividade em meados do século XIX. todas essas funções do discurso histórico desaparecem e dão lugar a uma única função: discriminar o passado. Isso porque. Com Heródoto vemos o nascimento de um novo tipo de discurso muito diverso da poesia de Hesíodo ou da filosofia. p. pois a pretensão de exercer um poder qualificador sobre o presente dependerá da presunção de deter um saber sobre o passado: Livre tradução de: « Il est vrai que l’Histoire a existé bien avant la constitution des sciences humaines . conscience critique du présent. véhicule de la tradition. primeiramente. anticipation sur le futur ou promesse d’un retour. (FOUCAULT. “ciência dos homens no tempo”. A história. é que veremos aparecer todos esses problemas que constituem o campo da “teoria da história”: questões de método ou de objeto. às Histórias de Heródoto. o discurso histórico existe como discurso específico desde a Grécia Clássica: É verdade que a história existe bem antes da constituição das ciências humanas.12 Consideremos. Mais antiga que todas as ciências humanas. por um lado. Ciência humana. consciência crítica do presente. É durante a primeira metade do século XIX que os trabalhos de Augustin Thierry e Jules Michelet desenham os contornos de um saber autônomo e positivado. 378) A partir do século XIX. déchiffrement du destin de l’humanité. de sua aptidão para a verdade e de sua relação com o mundo que lhe é contemporâneo. Sabemos que a história convencional das origens da historiografia remonta o discurso historiográfico à Grécia Clássica. deixar os séculos de tateamento empírico e intersecções com a filosofia para constituir-se como discurso sério. ela emerge como uma vontade de saber a partir de uma vontade de poder. toda uma inquietação sobre o estatuto desse saber. mythe. o discurso historiográfico. desde o fundo da idade grega. e é somente em 1842 que aparece o Cours d’estudes historiques de Pierre Daunou em que vemos constituída essa disciplina paralela. tão recente quanto elas.

marxismo contra os Annales) é porque desde o século XIX a história é “polêmica”: implica sempre. esse poder específico que os historiadores detêm e não deixam de exercer ainda hoje. a forma geral da vontade de saber da história. desde a desqualificação/requalificação do passado. em todo caso. fio condutor que permita desqualificar. eles tentam encontrar. pois. quais deles são determinantes nas transformações do discurso histórico ao longo do século XX. o que foi proposto. se se pode sem muito embaraço reescrever a história da historiografia como uma disputa a cada vez renovada entre “paradigmas” (positivismo contra historicismo. não explica que elementos desse discurso foram reorganizados ou construídos para que a história adquirisse a forma pela qual a conhecemos e. parece-me que o discriminante político do passado e da atualidade foi menos a análise jurídico-política dos regimes e dos Estados do que a própria história. poderia ser requalificado? Ou ainda: como reconhecer. o caráter “polêmico” de um discurso que mostra sempre a disparidade onde a crônica narrava a harmonia. requalificar outros. devemos repelir? Para responder a todas essas perguntas. uma espécie de fio condutor que permita decifrar tanto o passado quanto o presente. teremos que admitir que a positivação do discurso histórico no século XIX foi produto de uma descoberta da historicidade do homem? Não se seguirmos a análise . ao contrário. 130) Essa função política do discurso histórico. ali onde a vontade de saber organiza um domínio de objetos e de conceitos. a título de elemento discriminante foi a história. à pergunta: que parte da Revolução devemos salvar? Ou ainda: o que. ao contrário. que dá. Mas isso não explica ainda como essa vontade de saber pode desenvolver-se na figura positiva da ciência história que já vemos plenamente constituída na segunda metade do século XIX. É. uma qualificação/requalificação do presente. o que devemos validar e o que. 2010. de personagens. no que acontece. Se hoje se fala de “paradigmas rivais” para opor uma história moderna e racion alista a uma história pós-moderna e supostamente irracionalista. define as modalidades de enunciação aceitáveis e as escolhas teóricas possíveis. muito menos. mais ainda. tornar politicamente desejáveis ou historicamente inválidos certo número de acontecimentos. em grande parte. a guerra onde se localizava a concórdia. Primeiro. p. repelir. por que a comunidade historiográfica desde Thierry e seus adversários jamais foi um mar tranquilo de desinteresse científico. (FOUCAULT. Isto é. ao front interno do discurso. a irrupção de uma dominação sempre renovada. segundo Foucault. de processos e. explica. mas. no Antigo Regime. Quando Edgar Quinet faz a história do terceiro estado e quando Michelet faz a história do povo. pelo menos teoricamente. muito pelo contrário. um campo de batalha em que as escolhas teóricas excludentes travam uma luta perpétua em torno do homem e de sua história.13 Depois da Revolução francesa do fim do século XVIII. Voltemos. através da história do terceiro estado ou do povo.

Por outro lado. a inserção geográfica – onde se pode reconhecer a esse saber sua validade. 1966. et ruine d’entrée de jeu leur prétention à valoir dans l’élément de l’universalité. p. Mas mesmo considerando tudo o que a história herdou das ciências humanas. essa relação não é ainda suficiente para explicar a positivação Livre tradução de: « l’homme n’est pas lui-même historique (…) il ne se constitue comme sujet d’Histoire que par la superposition de l’histoire des êtres. 381). para ele.14 de Foucault (1966). Como já ressaltamos. não ao menos primariamente. o domínio das escolhas teóricas parece ter sido relevante desde o princípio da constituição do saber histórico moderno. » 5 . lui fixe un sol et comme une patrie : elle détermine la plage culturelle – l’épisode chronologique. da história das coisas. Primeiro porque os conceitos mais próprios do discurso historiográfico aparecem bastante tardiamente. de l’histoire des mots » 6 Livre tradução de : L’Histoire forme donc pour les sciences humaines un milieu d’accueil à la fois privilégié et dangereux. Uma segunda hipótese: a história se constituiria como uma formação discursiva a partir do momento em que pudesse dispor de uma rede própria de conceitos. A chaque science de l’homme elle donne un arrière-fond qui l’établit. Foucault localizava nesse papel da história como discriminante político o motor fundamental da construção do conhecimento histórico. mais elle les cerne d’une frontière qui les limite. 1966. histórico” e “ele só se constitui como sujeito da história por uma sobreposição da história dos seres. Do mesmo modo. da história das palavras”5 (FOUCAULT. A historicidade do próprio homem é uma “descoberta” tardia: o homem que aparece ao século XIX “não é. Mas rapidamente observamos que a história não pode ser caracterizada. o lugar primeiro da formação da história como saber positivado. e arruína de entrada sua pretensão a valer no elemento da universalidade. (FOUCAULT. mas ela lhes cerca de uma fronteira que as limitam. A cada ciência do homem ela dá um pano de fundo que a estabiliza. É somente no final do século XIX que a tentativa mais contundente da Escola Metódica por um lado e do historicismo por outro para constituir a história como ciência é que os conceitos de fato histórico e tempo histórico adquirem relevância. de l’histoire des choses. uma das características marcantes da história que se constitui no século XIX é a relação que ela entretém com as ciências humanas: A História forma então para as ciências humanas um lugar de acolhimento às vezes privilegiado e perigoso. 382)6 Esse papel da história em relação às ciências humanas é realmente importante e o será cada vez mais ao longo do século XX. De modo que em vão procuraríamos numa reorganização do domínio de objetos do discurso histórico. p. ele mesmo. pelo conjunto de conceitos dos quais lança mão. lhe fixa um sol e como uma pátria: ela determina o intervalo cultural – o episódio cronológico. l’insertion géographique – où on peut reconnaître à ce savoir sa validité .

os discursos se encadeiam sob a forma de história: recebemos as coisas que foram ditas como vindas de um passado no qual elas se sucederam.. será preciso evidentemente utilizar os textos sobre a linguagem. Há certamente uma lacuna em As palavras e as coisas. até nós. se engendraram e foram acumuladas. já permitem entrever a concepção que Foucault (1972. da crítica das fontes. com todo o saber relativo à sagrada escritura e à tradição histórica” (FOUCAULT. para uma sociedade. 66) “Quando se fizer.. acompanhar a emergência e transformações da função documental no discurso histórico. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa”. pois enquanto a história é chamada para responder em parte pelo estatuto das ciências humanas. Traçar a arqueologia da história é.” – daí que isso não tenha sido feito. 14) fazia do discurso histórico: “A história é. portanto. seu próprio estatuto permanece indeterminado. se substituíram. se influenciaram. A história se constitui. Enquanto a maior parte da pesquisas em história da historiografia privilegia as transformações no domínio de objetos da história. apesar da onipresença da história em nossa cultura há vários séculos. então. .. “ o que chamamos de fonte ou documento é. os documentos. se opuseram. 37).. da “distinção entre fontes e realidade”. todo discurso aparece sobre um fundo de desaparecimento de qualquer acontecimento”. 124). Esses elementos. 2008. p. por exemplo. em grande parte. antes de tudo. a arqueologia do saber histórico. elaborar um discurso sobre os acontecimentos a partir dos quais se constituíram. ou não tivesse sido feito ainda. é somente no século XIX que o documento se destaca da realidade e que vemos surgir um saber cuja função é. Concepção bastante similiar encontramos quando Foucault (2008.15 da história no século XIX e suas transformações posteriores. 1995. a partir da formação da concepção moderna do documento. p. Assim. p. uma marca material” (VEYNE. 75) explica o privilégio que a história detém em suas pesquisas: Em nossa cultura. e será necessário correlaciona-los com as técnicas de exegese. O próprio Foucault o dirá em uma entrevista de 1967: Quando se fizer. pelo menos há vários séculos.) em uma cultura como a nossa. p. grande ou pequeno: o documento pode ser definido como todo acontecimento que deixou. apenas indicados. analisando esses objetos. seguiremos por essa outra via. tentando mostrar que essas transformações só se tornam possíveis a partir de modificações na relação da pesquisa histórica com sua básica documental. (. um acontecimento. dirá Paul Veyne (1984. p. contudo. Mas. o que é o documento para a história? Ainda segundo Veyne.

mas. Aplicando-se o último critério. a própria história desvanecia. A relação entre o fato histórico e o documento para a escola positivista é bastante conhecida: o documento é prova. daí decorrente. para usar um termo genérico. p. embora se pudesse admitir o uso de documentos não escritos. porém. 536). para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX.16 Le Goff (1990) analisou detalhadamente a questão num ensaio de História e Memória. sua modalidade enunciativa. sua grade conceitual . etc. parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. que temos a necessidade de observar práticas historiográficas distintas e as transformações de uma prática ao longo do tempo. As transformações na historiografia podem de fato se acompanhadas através desses quatro elementos: objetos. o empreendimento dos primeiros Annales que contestaram o privilégio de certos objetos (grandes acontecimentos. b) que sejam variáveis reais inquestionáveis da prática historiográfica. duração curta. sobretudo. Na medida.) desenvolve-se na constatação de que “tudo é histórico”. é necessário que estabeleçamos certos parâmetros muito elementares que possam figurar como índices comparativos e fatores de transformação. sob a indicação que Foucault fez na introdução de A Arqueologia do Saber acerca da relação entre a prática dos historiadores da época (especialmente da história serial) e a função do documento enquanto monumento. será o fundamento do fato histórico.” (LE GOFF. p. p. se transformou ao longo dos séculos. 19) chamou de “domínio virtual” da história Desde então. muito numerosos. fontes. ainda que resulte da escolha. como a dilatação da função documental correspondeu à emergência dos novos objetos da História. d) que sejam derivados do modelo de investigação arqueológica de Michel Foucault. Assim. cuja força probatória parece maior que qualquer testemunho. 1990. grandes homens. conceitos e paradigmas. como bem observa Le Goff (1990. O historiador francês mostra como a relação entre os historiadores e suas “fontes”. de uma decisão do historiador. implicou a liberação do que Veyne (1995. o documento escrito está no centro da investigação histórica. eventos políticos. por razões de economia lógica. “O documento que. onde faltasse ou escasseasse. c) que não sejam. 536) o que implica uma concepção judiciária do ofício dos historiadores que explica ao mesmo tempo a prevalência do documento escrito. Os critérios para determina-los foram estabelecidos conforme exigências pragmáticas e teóricas subjacentes a presente investigação: a) que sejam facilmente identificáveis em cada trabalho histórico. como a alteração no conceito de documento. reconhecemos três elementos primários a partir dos quais um discurso qualquer pode ser analisado: seu domínio de objetos. voltamo-nos para o modelo de investigação arqueológica.

primeiramente. que tipo de explicação se dará ao fim para este ou aquele fenômeno. eliminamos as variáveis que não são pertinentes na presente investigação: a grade conceitual e as opções teóricas. 7). A primeira porque não atende ao critério “a” – embora seja hoje comum falar de conceitos em história. o discurso da teoria da história. admitiremos que uma investigação história se refere a um domínio específico de objeto. econômica. e talvez mais ainda. metodológico e técnico. quanto para a história intelectual (das ideias. daqueles antigos campos. p. Subsequentemente. cumpre ao historiador escolher um método e segui-lo de acordo com os objetivos que atribui à pesquisa histórica. desde que tenham sido elaborados ou. dos pensamentos. De modo que. da filosofia e da ciência). uma pesquisa histórica se faz a partir de certos parâmetros. por fragmentação. Constatação aparentemente trivial. Resta. a pluralidade das possibilidades historiográficas sobre um mesmo fenômeno é hoje um pressuposto basilar da Teoria da História. . que determinam em grande parte que elementos serão levados em consideração. das atividades intelectuais. recebidos e assimilados no interior da prática historiográfica na forma de manuais práticos ou tratados de método. epistemológico. ainda. se elaborados alhures. analisar a historiografia dos Annales comparativamente ao trabalho de Foucault com base unicamente nos respectivos domínios de objeto e modalidades enunciativas. Por “teoria da história” entendemos aqui o conjunto bastante diversificado de pronunciamentos de caráter metafísico. para a história da própria disciplina histórica. quanto. social). de tal modo que os antigos domínios de investigação do historiador agora convivem com novos campos inteiramente novos ou derivados.17 e as opções teóricas a que dá lugar. um discurso paralelo autoreferente. mas focar a análise no interior de uma dada escolha teórica. que ela institui como seus “fatos”. o universo dos historiadores se expandiu a uma velocidade vertiginosa” – constata Peter Burke (1992. “Mais ou menos na última geração. portanto. pois é questionável que hajam conceitos universalmente acionados por toda e qualquer investigação histórica. nem inequivocamente ao critério “b”. aquela da Escola dos Annales. Tal é verdadeiro para a histórias de objetos convencionais (história política. A segunda também é aqui tida por impertinente uma vez que não se trata de fazer a arqueologia do discurso histórico. que relações serão procuradas. não está claro ainda que tipos de conceitos são requisitados pela prática historiográfica e qual a sua origem –. Que essas sejam variáveis reais da prática historiográfica é-nos facilmente evidenciado por uma peculiaridade do discurso histórico: uma dobra que produz no interior mesmo dessa prática discursiva. Diante dessa diversidade. certas escolhas teóricas.

pensando nos primeiros Annales. Dito isso é preciso deixar claro dois pontos: primeiro. ou aos historiadores da ciência. tanto quanto possível. quais são os trabalhos historiográficos em relação aos quais se tentará a aproximação com Foucault. o próprio Le Goff –. p. p. Quanto à segunda questão. a visão de Foucault acerca da “Escola dos Annales” é ligeiramente diferente da visão convencional que a divide em três gerações. segundo. para entender a relação entre Foucault e a historiografia francesa. os parâmetros da arqueologia do discurso fornecidos pelo tratado de método de Foucault e. mas que emergem da comparação entre o trabalho dos historiadores e o trabalho do filósofo. como Georges Canguilhem (através de quem tomou conhecimento da noção de descontinuidade intelectual).18 Então. 202). que representávamos uma nova geração” (LE GOFF. Menos interessado em uma . mas é mais substancial do que ele próprio jamais admitiu. Estamos mais interessados nas relações que se pode estabelecer entre as pesquisas do filósofo e a historiografia dos Annales – relações estas que não dependem de um reconhecimento de parte a parte. em seguida Leroy Ladurie e eu. 118): O débito de Foucault em relação aos Annales pode ter sido menor do que deve a Nietzsche. mas de maneiras distintas. em seguida Braudel. já antecipamo-la na introdução: utilizaremos. Quanto à primeira questão. mas em um corte que passava por Braudel: “ele não colocava os Annales como um todo. é preciso distinguir entre duas categorias diferentes de historiadores: aqueles que romperam com a história tradicional e dos quais Foucault é um herdeiro e aqueles que eram contemporâneos ao filósofo. resolvemos partir de uma hipótese muito simples que encontramos em Peter Burke (1997. quanto ainda pelos Annales que lhe eram contemporâneos – entre eles. só o fazemos na medida em que esses interesses de fato se traduzem em relações que podem ser observadas na comparação entre sua metodologia e a metodologia dos historiadores. se fazemos referência aos “interesses” de Foucault. assim também deixamos de lado a questão de se Foucault reconheceu ou não sua dívida com os Annales. De modo que. assim. De modo que. os parâmetros da comparação entre o trabalho de Foucault e o dos historiadores. Como não pretendemos recorrer à categoria de “influência”. faremos a comparação entre suas pesquisas empíricas e as pesquisas dos historiadores com base no domínio de objetos que elas delimitam e nas decisões metodológicas a partir das quais se constituem. Segundo um testemunho de Jacques Le Goff (2003). 2003. Foucault se interessava tanto pela primeira quanto pela segunda geração dos Annales.

principalmente. confessava nelas a tentativa de dar continuidade ao empreendimento do autor da Genealogia da Moral. 2003. no qual do domínio de objetos da história adquire um caráter geral. . Arlette Farge excelentemente nos lembrou o quanto essa busca das origens parecia a ele um erro epistemológico. Nesta exposição feita de lembranças e releituras. desce. pois a genealogia parte do presente. representado pela historia serial. é a convergência entre um princípio da genealogia de Nietzsche e um dos mais evidentes princípios da metodologia dos primeiros Annales: o abandono do ídolo da origem. Nietzsche criticava a falta de sentido histórico dos filósofos. mas nisso que foi o seu complemento. não nos Annales propriamente ditos. o livro inacabado de Marc Bloch. Assim. que suscitava mesmo seus sarcasmos. segundo Foucault. Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien. herdeiros e continuadores dessa revolução. O que o interessava no período dos primeiros Annales? Ele encontrou explicitamente aí duas noções. p. A genealogia. e um segundo. enquanto os historiadores criticavam o ídolo da origem venerado pela historiografia tradicional. a uma outra noção. Com a diferença que. publicado nessa época já há uma boa dezena de anos. representado por Marc Bloch. Foucault havia chegado. Ele nos trouxe uma justificativa suplementar ao que nós havíamos apreendido de uma lição dos Annales e em particular de Marc Bloch: partir do presente para nossa reflexão. Ontem. ao incorporar “novos objetos”. O que é interessante. é a genealogia. Foucault analisa um limiar aquém do qual ocorre a ruptura com a história tradicional – uma revolução em torno do domínio de objetos e da relação com os documentos – e além do qual se situam os “novos” historiadores.19 distribuição com base em quem dirige a revista do grupo e mais em transformações epistemológicas. por Le Goff e Le Roy Ladurie. no qual as concepções de fato histórico e documento são profundamente alteradas. e essa concepção está ligada à questão e à crítica das origens. mas sobe de novo. Este é um procedimento histórico fundamental. Pois o pensamento e a obra de Foucault foram para nós de enorme importância. (LE GOFF. Mas dando à ideia da origem uma extensão e uma fecundidade ainda maiores. primeiramente. Ele contém o vivo ataque de Marc Bloch contra o mito das origens. uma perversão intelectual. a revolução operada pelos Annales na historiografia se divide em dois momentos: um primeiro. mas a ideia ali estava. reencontro aqui uma das noções que foi muito esclarecedora para nós historiadores – essencialmente o grupo da sexta sessão e dos Annales. mas ainda por Braudel. neste texto de Le Goff. Lucien Febvre. 203) Foucault se definia como nietzschiano e já muito antes de empregar o termo “genealogia” para descrever suas pesquisas. Sem que a palavra existisse em Marc Bloch. por meio dessa crítica da origem.

então. Eu me lembro. Entretanto. por outro.. (FOUCAULT. Chaunu. ou qualquer coisa dessa ordem. A referência. p. que marca a historiografia do século XIX. pensar melhor as descontinuidades. pouco posterior. de Marc Bloch e de outros. e é a ele que devo por ter voltado a atenção a esse texto. era uma batalha. seria esse o único interesse de Foucault na primeira geração dos Annales? A resposta será não se aceitarmos a interpretação que Le Goff fazia da introdução d’A Arqueologia do Saber. Foucault (2008. para usar a expressão de Le Goff. a morte de um rei. para longos períodos” (FOUCAULT. que ele havia feito uma certa crítica da noção braudeliana de ‘longa duração’. E embora não se identificasse com esse tipo de história. a história estrutural de Braudel pertence ainda. defenderemos. em que este dizia que a multiplici dade e . 1972. “Há dezenas de anos que a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). ao mesmo solo epistemológico que a história das mentalidades de Febvre ou a história rural de Bloch. 10) não deixa dúvida de que ele se refere também a Fernand Braudel. segundo Foucault. seguindo ainda o testemunho de Le Goff (2003. o folhear das diversas durações temporais. É um objetivo que encontramos. fora construída a partir dessa história estrutural: havia para Foucault. p. é partir dessa clivagem que Foucault se afasta da concepção de Braudel. Foucault creditava à Bloch e Febvre o abandono de uma concepção restrita dos acontecimentos. com Braudel figurando como uma ponte entre a primeira e a segunda geração dos Annales – clivagem esta que. que parecia julgar insatisfatória. 1972. i. 250) De certo modo. Lucien Febvre. Falando do tratado ainda no de sua publicação. para voltar-se a concepção do tempo histórico em Marc Bloch: A noção de ‘longa duração’ o interessava – ele disse – mas essencialmente porque ela permitia. os historiadores das colônias.20 Mas. Ladurie. 9). A tarefa do historiador era a de trazer à luz essas estruturas. se a história tout court de que Foucault fala ali é. p. no trabalho de Lucien Febvre. na França. p. em favor de uma concepção mais ampla que integrava estruturas de longa duração: O que os historiadores chamavam de acontecimento. uma vitória. 202) uma clivagem entre Boch e Febvre de um lado e ele próprio. e às “histórias quase imóveis ao olhar” (FOUCAULT. justamente. p. integrando-o num mesmo movimento com os primeiros Annales. sobretudo. à “civilização material”. Foucault sabia que a história que ele “admirava”. 2012. Fernand Braudel. aquela praticada pelos Annales. Eis aí alguma coisa à qual ele ainda estava muito sensível. no século XIX. separa a história estrutural da história serial. as rupturas. 146) especifica a quais historiadores se referia: Marc Bloch. Contra esse tipo de história. das sociedades mostraram que a história era feita de um grande número de estruturas permanentes.e. remontando a um texto de Marc Bloch em Apologie pour l’histoire.

inicialmente. realidades às quais essa regularidade é completamente estranha. a ênfase dada por Braudel na “longa duração”. 149). Lucien Febvre. arbitrariamente escolhido. Faltam-lhe medidas adequadas à variabilidade de seu ritmo e que. Foucault (2008. “Em suma”. 63) Cada periodização recorta na história um certo nível de acontecimentos e. É apenas ao preço dessa plasticidade que a história pode esperar adaptar. p. p. múltipla. 150) Segundo Foucault (2008. (LE GOFF. “parece que distribuímos. de Furet e de Denis Richt. metodologicamente. Para Foucault (2008.. opostamente. 146) volta à questão: “De fato. ele conclui uma reflexão que coloca de modo absolutamente definitivo o problema das periodizações em história – questão que Foucault insistentemente evocará até meados da década de 1970. não era sempre. afirma Bloch. e mesmo a distribuição em três durações. [. 2003. (BLOCH. 205-206) O texto a que se refere Le Goff é o que se segue: O tempo humano. 7 Em outra entrevista. segundo as palavras de Bergson. aceitem frequentemente. uma vez que “percebeu-se que a periodização manifesta. de Le Roy Ladurie” como “trabalhos que asseguram uma aventura nova no saber”. este é “difícil problema da periodização”. embora aponte na direção correta. conhecer apenas zonas marginais. já em 1969 e a propósito do recém lançado A arqueologia do saber. 2003. 62). p. não é ao mesmo período que nos referiríamos caso se tratasse do “século XVIII filosófico” ou do político. Bloch crítica. p. não poderia ser para Foucault “a” solução do problema. p. p. Embora nesse momento (trata-se de uma entrevista de 1967). p. em resumo. os historiadores – e penso certamente na escola dos Annales. 2001. segundo um rigoroso ritmo pendular.” (BLOCH. permanecerá sempre rebelde tanto à implacável uniformidade como ao acontecimento rígido do tempo do relógio. portanto. p. como limites. porque a realidade assim o quer. Fernand Braudel – tentam ampliar as periodizações que os historiadores praticam habitualmente.. quando é evidente que “nenhuma lei da história impõe qu e os anos cujos milésimos se determinam pelo algarismo 1 coincidam com os pontos críticos da evolução humana” (BLOCH. a melhor forma possível de recorte” 7 . Foucault (2008. sobre o fato de que era alguma coisa muito mais complexa. 62) se refira aos trabalhos “de Braudel. como observou Le Goff. 153) A importância desse texto está em que. hoje em dia. suas classificações às “próprias linhas do real”: o que é propriamente a finalidade última de toda ciência.] Marc Bloch insistia. De modo que não é o mesmo século XVIII.” . Marc Bloch. escandida pelas revoluções políticas. a confusão entre limites de períodos históricos e limites cronológicos arbitrários contados em séculos. cada estrato de acontecimentos exige sua própria periodização.21 a heterogeneidade dos tempos da história não se limitava a esses três grandes ritmos que definida Braudel. 2001.

De modo que na caracterização que Foucault então faz do trabalho dos historiadores há algo descritivo. de cette semi -immobilité . Acede-se. 1958. é por relação a esses tipos de história lenta que se pode pensar a totalidade da história como a partir de uma infraestrutura.10 (BRAUDEL. mais plus encore une réalité qu e le temps use mal et véhicule très longuement. Tous les étages. à multiplicidade ternária das escolhas realmente feitas pelos historiadores até o momento: a escolha tradicional pelo “tempo curto”. 734) Escolha metodológica válida. » (BRAUDEL. Braudel propõe a questão não mais como um problema. o problema das periodizações. A historiografia prevalente à época. p. 1958. acceptée ou non – une notion de plus en plus précise de la multiplicité du temps et de la valeur exceptionnelle du temps long. na qual a estrutura9 é o mais relevante. Braudel reduz a multiplicidade das periodizações que dependem unicamente de uma escolha metodológica do historiador. atingir-se-ão níveis diferentes. a historiografia braudeliana. mas uma extensão limitada da duração tradicional através do tempo conjuntural e da longa duração. tudo gravita em torno dela. todos os milhares de estágios. a escolha da história econômica pelo tempo cíclico e a preferência dos Annales pela “história de longa.”8 (BRAUDEL. não apresenta de fato essa abertura para a multiplicidade de durações. » 9 “Pour nous.consciente ou não. todas as milhares de rajadas do tempo da história se comprendem a partir dessa profundidade. p. mas também algo de programático. se lança. tous les milliers d’éclatements du temps de l’histoire se comprennent à partir de cette profondeur. já que. não pode ser resolvido por uma teoria que estabeleça um número finito de “ritmos” possíveis. será preciso delimitar periodizações diferentes. aceita ou não – uma noção mais e mais precisa da multiplicidade do tempo longo. mesmo de muito longa duração” (BRAUDEL. o problema vai estar justamente nessa “precisão”. historiens. c’est par rapport à ces nappes d’histoire lente que la totalité de l’histoire peut se repenser comme à partir d’une infrastructure. conjuntura e evento. pois. sobre a relação entre a história e as ciências sociais. p. mas que não resolve a priori o problema proposto por Marc Bloch.22 Trata-se de um conjunto de problemas delicados. nem Livre tradução de : “Des expériences et tentatives récentes de l’histoire. architecture. est sans doute assemblage. conforme a periodização que se dê. Segundo Foucault. Escrevendo em 1958. mas já como uma aquisição da historiografia da qual as ciências sociais poderiam tirar proveito: “Das experiências e tentativas recentes da história. à metodologia complexa das descontinuidades. » 8 . dessa semiimobilidade. de fato. pragmaticamente a distribuição se encaminha para a partição entre estrutura. 727). 727) Ora. Todos os estágios. assim. sem dúvida. uma vez que permite retomar a noção de totalização: Em todo caso. se teoricamente ele supõe uma multiplicidade aberta de tempos. De modo que. tous les milliers d’étages. de acordo com o nível escolhido. 1958. p. se dégage – consciente ou non. 1958. 731) 10 Livre tradução de: « En tout cas. e. tout gravite autour d’elle.

pelo contrário. à natureza do fenômeno considerado. se introduz forçosamente nesse tipo de história. seu mérito é indicar o caminho da multiplicação das periodizações possíveis e não fixar de vez quais as periodizações corretas ou a hierarquia entre elas. do comportamento mental não seriam capazes. do espírito ou da mentalidade de uma época. ele permaneceria em aberto para cada pesquisa. 2001. para Bloch. 2001. Podem ser. em que não cabiam teorias antecipatórias da experiência empírica. (BLOCH. As transformações da estrutura social. Foucault permanece mais próximo da visão de Marc Bloch de uma história que propõe ao mesmo tempo os problemas e os termos para resolvê-los do que daquela história de Braudel no qual a compreensão de um período ou fenômeno sempre se daria por remissão às estruturas sociais de longa duração. sem um desagradável artifício. p. seu decimal específico. certas histórias (da psiquiatria e da loucura. de se dobrar a uma cronometragem muito rígida. 152). etc) para as quais a expressão “período clássico” não tem a mesma delimitação. quer de coincidência. certamente. pretende estudar uma época. da economia. Pois cada tipo tem sua densidade de medida particular e. só há oposição entre Foucault e Braudel na medida em que supomos que eles respondem ao mesmo problema – o que não é rigorosamente correto: Braudel estabelece o privilégio da “longa duração” na medida em que. introduz-se uma outra noção de precisão: A verdadeira exatidão consiste em se adequar. Para Foucault não importa a tentativa de compreensão total de um período. Foucault via de fato na ênfase braudeliana na “longa duração” um elemento importante de ampliação das periodizações em história. afirma Bloch. embora tenha dado certa ênfase ao período clássico. a história era uma ciência de pura observação. p. Do mesmo modo. 151). portanto. abarcadas naquela categoria de “devaneio pitagórico” todas as tentativas de estabelecer periodicidades fixas que permitiram agrupar fenômenos diversos sob um mesmo tempo: “Só a observação permite apreender os pontos em que a curva muda de orientação” (BLOCH. Para Foucault o importante era considerar . fenômenos de tipos diferentes tem uma evolução diferente. das ciência humanas e do indivíduo moderno. pretendeu estudar sucessivamente certos problemas. Uma certa imprecisão. por assim dizer. quer de oposição só podem surgir sob a condição de “não terem sido postuladas previamente” (BLOCH. mas de fenômenos que delimitam eles próprios uma época a partir de “ritmos” aproximados. das crenças. portanto. que só podem ser estabelecidos a posteriori. 150) Assim. Foucault. como em seu Mediterrâneo. O fato é que. Mas. 2001. para cada “nível” de acontecimentos. ao contrário. as relações entre os fenômenos.23 uma hierarquia entre eles. ou melhor. a cada vez.

fenômenos maciços de alcance secular e plurissecular. 290) Na aula inaugural no College de France. Mas o importante é que a história não considera um elemento sem definir a série da qual ele faz parte. É verdade. é ampliada pela noção de “série”. as . densos e intercambiáveis. ao contrário. isola sempre novos conjuntos onde eles são. aos registros paroquiais. às atas notariais. mas superficiais ou mais profundas. raros e decisivos: das variações cotidianas de preço chega-se às inflações seculares. sem querer determinar as condições das quais dependem. ao contrário. aos arquivos portuários seguidos ano a ano. numerosos. novas camada. semana a semana. p. já há algumas décadas. cuja significação. (FOUCAULT. dos decretos. divergentes muitas vezes. inalterados. o segundo. que se viu desenhar para além das batalhas. implica num retorno ao acontecimento. que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento.24 cada fenômeno em sua duração própria para a seguir correlaciona-los. estranhas. Para Foucault. sem procurar conhecer a regularidade dos fenômenos e os limites de probabilidade de sua emergência. por levar o poder de resolução da análise histórica até as mercuriais. porém. neles descobre. contudo. Esse trabalho. de que o trabalho dos historiadores tenha siso realizado precisamente nessa direção. às vezes. às vezes. que vai de certo modo em sentido oposto ao de Braudel. Mas. Ou melhor. na qual acontecimentos e conjuntos de acontecimentos constituem o tema central. mas não é para reencontrar estruturas anteriores. sem especificar o modo de análise da qual ela depende. Foucault o encontrava na história serial. vagamente homogêneo ou rigidamente hierarquizado. sem interrogar-se sobre as variações. as inflexões e a configuração da curva. sem cessar. entrecruzadas. Não estou certo. através dele. mas não autônomas. começou-se a praticar uma história dita “serial”. alarga sem cessar o campo dos mesmos. que foi por estreitar ao extremo o acontecimento. Parece. 2008. não penso que haja como que uma razão inversa entre a contextualização do acontecimento e a análise lógica da longa duração. Certamente a história há muito tempo não procura mais compreender os acontecimentos por um jogo de causas e efeitos na unidade informe de um grande devir. É para estabelecer as séries diversas. não se desvia dos acontecimentos. das dinastias ou das assembleias. como praticada hoje. Foucault é bastante claro quanto a essa clivagem: Há o hábito de dizer que a história contemporânea se interessa cada vez menos pelos acontecimentos e cada vez mais por certos fenômenos amplos e gerais que atravessariam de qualquer forma o tempo e se manteriam. A história. dois movimentos marcam a historiografia desde o século XIX: o primeiro conduz do primado do acontecimento (entendido como evento político ou diplomático) às estruturas subjacentes à sociedade. hostis ao acontecimento. Foucault (2005a) deixa ainda mais clara sua visão do desenvolvimento da historiografia desde a ruptura com os privilégios dos eventos políticos e diplomáticos até o momento em que os desenvolvimentos autônomos na história tout court e na história intelectual podem convergir: Atribui-se muitas vezes à história contemporânea ter suspendido os privilégios concedidos outrora ao acontecimento singular e ter feito aparecer as estruturas de longa duração. Na conferência “Retornar à História” de 1972.

56-57) “Há dezenas de anos”. São as do acontecimento e da série.. “a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). Foucault vê seu trabalho se alinhar à prática efetiva dos historiadores: O fato de eu considerar o discurso como uma série de acontecimentos nos situa automaticamente na dimensão da história.25 margens de sua contingência. (. pode-se determinar seqüências distintas de acontecimentos? (FOUCAULT. mas com o trabalho efetivo dos historiadores. p. p. 54-56). 1972. p.. determinação unívoca. da liberdade e da causalidade). a ênfase na “longa duração” é ainda predominante na escola dos Annales. 2005a. mas não somente”. os historiadores retornam aos acontecimentos e buscam ver de que maneira a evolução econômica ou a evolução demográfica podem ser tratadas como acontecimentos. as condições de sua aparição (FOUCAULT. não são também as do signo e da estrutura. escalonamento. transformação. dominância. Trata-se de um movimento que conduz primeiro da história eventual à história estrutural e desta. sem dúvida. 10) Assim. Pode-se dizer que. Esse texto data de 1969. 2005a. pois ainda envolve Braudel e. com o jogo de noções que lhes são ligadas. finalmente à história serial: As noções fundamentais que se impõem agora não são mais as da consciência e da continuidade (com os problemas que lhes são correlatos. é por esse conjunto que essa análise dos discursos sobre a qual estou pensando se articula. 9) n’Arqueologia do Saber. de cronologia ampla. casualidade. Mas o que importa a Foucault é o resultado dessa ênfase: a transformação do conjunto de problemas da análise história que se realiza plenamente na história serial: As velhas questões da análise tradicional (que ligação estabelecer entre acontecimentos dispares? Como estabelecer entre eles uma sequência necessária? Qual a continuidade que os atravessa ou a significação de conjunto que acabam por formar? Pode-se definir uma totalidade ou é preciso se limitar a reconstituir encadeamentos?) são substituídas agora em diante por interrogações de outro tipo: quais estratos é preciso isolar uns dos outros? Quais tipos de série instaurar? Quais critérios de periodização adotar para cada uma delas? Qual sistema de relações (hierarquia.) Hoje. (.. desde 1929. (FOUCAULT. aquilo fazia dezenas de anos.) . Foucault se refere aos primeiros Annales: “Dezenas de anos? Os primeiros Annales.. É provavelmente nisso que ele pensa. descontinuidade. dependência. não certamente com a temática tradicional que os filósofos de ontem tomam ainda como a história “viva”. regularidade. causalidade circular) pode-se descrever de uma a outra? Quais séries de séries pode-se estabelecer? E em que quadro. dizia Foucault (1972. de modo geral. Le Goff (2003. 205) não tem dúvidas. p. para longos períodos”. p.

em outras direções. ao supor que os historiadores e Foucault compartilhariam de um mesmo método. Método serial fundado sobre as singularidades e as curvas. principalmente. de aplicar ao campo da história intelectual conceitos que. dominavam então a história tout court. então. a referência à longa duração não deixa dúvida de que Foucault se refere ao trabalho de Braudel e seus seguidores. mas os historiadores e eu temos um comum interesse pelo acontecimento. Assim. ao nível de outros pontos. que. como o utilizado atualmente pelos historiadores. Essa distinção. e a busca de outras séries que a prolonguem. Apenas um método serial. saber a qual . parece negligenciada tanto por Foucault. Temos. tal coisa – um método serial? Parece-nos. então. resta claro que Foucault tem a Escola dos Annales. Há sempre um momento. essas noções oriundas da estatística descritiva perderão importância tanto no trabalho de Foucault quanto na comunidade historiográfica. quanto por Deleuze. da história serial e quantitativa e do trabalho de Foucault. pois. As noções matemáticas de “série”. Foucault. dois parâmetros para analisar o desenvolvimento do discurso historiográfico: aquele que se refere ao domínio de objetos desse discurso – o que os historiadores da escola metódica chamavam de “fato material” – e aquele que se refere à atividade do historiador. É preciso. dominada pela relação entre o historiador e o documento – o “fato formal” da escola metódica. de fato. permite a construção de uma série na proximidade de um ponto singular. 2012.26 Não sou historiador no sentido estrito do termo. 31) Mas. (FOUCAULT. embora não tenha nomeado nenhum historiador ou escola na introdução d’A arqueologia do saber. em sua tentativa de aproximação com os historiadores. É verdade que. em certo momento. principalmente sua “segunda geração” como parâmetro para falar do desenvolvimento autóctone na historiografia. p. 2005. são insistentemente evocadas no tratado sobre A arqueologia do saber. a modalidade enunciativa da história. ou locais. se detém em séries de acontecimentos. segundo. no fim da década de 1970 e durante a década de 1980. segundo Foucault. entre a década de 1960 e 1970 sua presença era constante: era o apogeu da análise estrutural.” (DELEUZE. em que as séries começam a divergir e se distribuem em um novo espaço: é por onde passa o corte. Tratava-se. essencial. 250-251) Há de se notar que: primeiro. desde a História da Loucura. “função” e “dispersão”. mas nesse momento. p. há. enquanto a história serial trabalha com séries de documentos. a referência à noção de série e correlatas manifesta a ênfase que Foucault atribuía à história serial. à primeira vista.

Sciences Sociales. no ano seguinte. Segundo François Furet (1986) havia três conjuntos de procedimentos que. entre outras. emerge o problema histórico dos preços. Escrevendo já à Annales d’histoire sociale11. 59-60) Importante assinalar que a atualização de métodos quantitativos em história remonta.) 3. (.) 2. 59) já evocam. O termo ‘história quantitativa’ designa igualmente. é renomeada em 1946 para Annales. quando já é discutido nas primeiras edições da revista Annales. [Em primeiro lugar] diz respeito aos processos de tratamento dos dados históricos quantitativos. Esse espaço. 1986. (. Labrousse já trabalha com a noção de série de preços. ao qual os Annales darão grande atenção nos anos subsequentes. eram chamados “história quantitativa”: 1. A história serial e quantitativa é. Finalmente. e. a história quantitativa e a história serial aparecem ao mesmo tempo ligadas e diferentes. em grande. a ambição ao mesmo tempo mais geral e mais elementar da história quantitativa é de construir o facto histórico e séries temporais de unidades homogéneas e comparáveis. de 1929. Não somente isso: já no primeiro número da revista um espaço específico é reservado para o problema da documentação econômica. a ambição e os trabalhos de certos historiadores economistas”. é chamada Annales. Sociétés et Civilisations. (FURET. em grande parte. Isso se deve. um desenvolvimento interno da Escola dos Annales. Économies. devido. ao domínio da história econômica durante o período em que Bloch foi seu diretor (BURKE. De fato. p.. volta a se chamar Annales d’histoire sociale durante o ano de 1945. em França. 34). assim. 1997. a questão da aplicação da estatística às pesquisas históricas. parte à necessidade de tratar de fenômenos de longa duração. em 1940. em boa parte. p. 11 . Ora. ao início do século XX. é preciso fazer uma distinção entre história serial e história quantitativa. Assim definidas. poder medir-lhes a evolução em determinados intervalos de tempo. para medir a real proximidade entre o projeto foucaultiano e a historiografia.. A revista dos Annales foi renomeada cinco vezes ao longo de sua existência: fundada como Annales d’histoire économique et sociale em 1929 foi renomeada pela primeira vez para Annales d’histoire sociale em 1940. Histoire. Ao inaugurá-lo Febvre e Bloch (1929. de todas as contribuições à revista no ano de sua fundação.27 desses domínios se refere a noção de série em Foucault e nos historiadores. pelo menos em França. desde 1994. p. De início. geralmente anuais.. para Mélanges d’histoire sociale em 1942.. a esmagadora maioria (entre 80 e 85) versam sobre história econômica. para a pesquisa sobre a documentação da história econômica é mantido nos quatro primeiros números da mesma.

enfim. 11-12) Assim. ela deve ser considerada como pesquisa fundamental. est le signe d’une promotion. parce que sérielle. susceptible. surtout d’être recordée aux séries qu’utilisent couramment les autres sciences de l’homme » 13 Livre tradução de : «utile.12 (CHAUNU. mas igualmente cultural ou econômico) que pelo elemento repetido. como um prolongamento da demografia teremos o que Chaunu chama de “quantitativo ao terceiro nível”. par excellence. des sciences et techniques sociales » 14 Livre tradução de : « Une histoire que serait à même de répondre totalement à cette demande de la réflexion économique mériterait pleinement le titre de science auxiliaire de l’économique. para nós. portanto integrável em uma série homogênea. suscetível de em seguida usar os processos matemáticos clássicos de análise de séries. “útil”: “útil porque serial. por excelência. o historiador « confessa » esse propósito de « servir » à economia: « uma história que responderia totalmente a essa demanda da reflexão econômica merecendo plenamente o título de ciência auxiliar da economia. de modo que “a história seriada é a generalização e sistematização da história estatística. é o sinal de uma promoção »14 (CHAUNU. partant intégrable dans une série homogène. ela é um desenvolvimento ulterior do princípio básico da escola dos Annales segundo o qual era preciso procurar fatos que ultrapassassem a dimensão individual. doit être considérée comme recherche fondamentale. uma história. 1978. qui.28 Quanto à história serial. 12) Apesar disso. p. 304) Esse caráter estatístico garantiria uma “utilidade” à história em relação as demais ciências humanas uma história que a cada uma das ciências humanas. de fato o que ficará conhecido como história serial é uma história estatística. É nesse ponto que as pesquisas de Foucault poderão entrar em contato com as pesquisas dos historiadores profissionais. que. com aplicação a todos os domínios e não somente ao da história econômica. suscetível sobretudo de ser ligada às séries que utilizam correntemente as outras ciências do homem. É o que se depreende da definição que Pierre Chaunu manteve praticamente intacta durante vários anos: Uma história que se interessa menos pelo fato individual (fato político. susceptible de porter ensuite les procédés mathématiques classiques d’analyse des séries. mais to ut aussi bien culturel ou économique) qu’à l’élément répété. p. 1978.” (MAURO. Quatro anos mais tarde. p. 1978. bien sûr. p. das ciências e técnicas sociais. é à economia fundamentalmente que a história serial. tal como pensava Chaunu se adequava melhor. Não por Livre tradução de : « Une histoire qui s’intéresse moins au fait individuel (fait politique. ou seja. pour nous. et même come la recherche fondamentale. forneceria uma básica sólida construída de índices quantitativos. escrevendo aos Cadernos Vilfredo Pareto. 1972. a aplicação dos métodos de análise estatística a problemas de psicologia coletiva.”13(CHAUNU. estritamente falando. » 12 . e mesmo como al pesquisa fundamental. bem entendido. 22) Finalmente.

para où le monde des idées puisse reprendre dans nos esprits le co ntact qu’il avait tout naturellement avec le monde des réalités. no grupo de historiadores que se dedicavam à história serial de terceiro nível se encontram praticamente todos os historiadores com que Foucault conviveu ou cujo trabalho admirava até meados da década de 1970: o próprio Chaunu. para usar a expressão ainda mais imprecisa de Febvre então. Ele havia sido proposto já por Lucien Febvre a respeito do trabalho de Etienne Gilson: Eu certamente não peço ao historiador das doutrinas se fazer. toujours. por onde o mundo das ideias possa tomar em nossos espíritos o contato que ele teve natutalmente com o mundo das realidades – em que ele viveu. no mesmo “clima”. contudo.15 (FEBVRE. da ciência. e uma dessas grandes catedrais de ideias como aquelas que Etienne Gilson nos descreve em seu Livre tradução de: Je ne demande certes pas à l’historien des doctrines de se faire. Eu o peço que mantenha aberta. e integração. Duby – não é suficiente para falarmos de uma interação em termos metodológicos. E contudo problema da relação entre a história dos sistemas de pensamento e a história social e econômica não era novo. da filosofia. Surge então o problema da relação. Entretanto. . sempre. Ainda menos de submetê-lo à ação dos interesses. Je lui demande de tenir ouverte. se improvisar historiador das sociedades políticas e econômicas. 1946. etc. une porte de communication. num mesma mentalidade ou. a solução então sugerida por Febvre fundará. Trata-se de mostrar que uma catedral gótica. vitimas da eterna barbárie. uma porta de comunicação. e a história intelectual praticada fora da comunidade historiográfica. de fato. É provável que Foucault esperasse que seus trabalhos se integrassem perfeitamente nessa zona de transição entre a história praticada por Aries ou Ladurie e a história intelectual. as esferas de Ypres. de s’improviser historien des sociétés politiques et économiques. François Furet. a história das ideias. a noção de “série” podia servir de ponte entre os trabalh os de Foucault e a linha encabeçada por Chaunu. essa proximidade no domínio de objetos que aliás também se verificava com historiadores que não aderiram à história quantitativa – Le Goff. É preciso verificar o quanto. entre esse “terceiro nível” de que fala Chaunu. 161) E. Veyne. Georges Duby e Jacques Revel. a despeito das pontuações do historiador. Philipe Aries.quand il vivait » 15 . Jacques Le Goff – exceção feita à Paul Veyne. sob a aparente simplicidade dessa exigência se encontrava o problema realmente difícil de integrar uma produção intelectual singular no mesmo espaço espiritual de um época.29 coincidência. De certo modo. p. o dogma segundo o qual a historia intelectual deve ser reduzida à história social: Não se trata de subestimar o papel das ideias na história.

112) define a arqueologia como “análise das formações discursivas e de seus sistemas de positividade em relação ao elemento saber”. A maior parte dos textos e pronunciamentos adicionais relevantes consta no segundo volume da tradução brasileira dos Ditos e Escritos (FOUCAULT. Portanto. a ambiguidade da posição de Foucault junto aos historiadores ainda hoje a uma má-compreensão dos propósitos de um filósofo. 16 . 17 Doravante “Resposta”. portanto. Encore moins de le subordonner à l’action des intérêts. p. Em sua Resposta ao círculo de epistemologia17. O Nascimento da Clínica (1977b) e As Palavras e as Coisas (FOUCAULT. 2008). Foucault é reconhecido como um inovador. 1. em torno de uma nova abordagem da prática historiográfica. 2005a). é neste ensaio de 1968. 1972) e na aula inaugural de Foucault no College de France. que a atenção dos historiadores há de voltar-se. filósofo e “filósofo do ofício do historiador”. que deixou-se ver como historiador. p. pois. victimes de l’éternelle Barbarie. 2008). tal como pensa Noiriel (1994). 1946. Foucault (2008. mas a uma bivalência no próprio empreendimento foucaultiano. mesmo por seus adversários. Il s’agit de montrer qu’une cathédrale gothique.2 A arqueologia como método de análise histórica Tendo essas conclusões em vista. exposto teoricamente na Resposta ao círculo de epistemologia (FOUCAULT.30 livro – são filhas de um mesmo tempo. les balles d’Ypres. 161) Podemos dizer. E à medida em que os “novos” objetos já deixavam de ser “novos” é a este segundo Foucault. Foucault. Les filles des mêmes hommes. ligado à escola de epistemologia histórica de Canguilhem tentará avançar esse projeto na direção dos procedimentos então utilizados pelos historiadores a partir de sua própria visão da evolução da historiografia francesa de sua época. podemos passar à descrição do modelo de pesquisa arqueológico. publicada sob o título A ordem do discurso (FOUCAULT. Não ligamos. é rechaçado como uma filósofo a entremeter-se nos assuntos da historiografia. Na primeira. 1999). que as relações entre Foucault e os historiadores se deram em duras frentes bem diversas: uma que se dá em torno dos “novos objetos” e outra. et une de ces grandes cathédrales d’idées comme celles qu’Etienne Gilson nous décrit dans son livre – ce sont les filles d’une même temps. Filhas dos mesmos 16 homens (FEBVRE. para usar a expressão precisa de Le Goff. na segunda. 1966). no tratado sobre A Arqueologia do Saber (FOUCAULT. em que Foucault pretende responder a uma série de questões do “Círculo de Epistemologia de Paris” a respeito de As Livre tradução de: “ Il ne s’agit pas de sous-estimer le rôle des idées dans l’Histoire. As obras empíricas de referência são: A História da Loucura na Idade Clássica (FOUCAULT.

19 Em geral a crítica contundente de Jean Piaget (1979. pois. suscitando. “dirige-se ao discurso em seu volume próprio. Já em A arqueologia do saber. 2005a. ela ocorrerá ao longo das pesquisas feitas no âmbito do College de France. uma clivagem nas pesquisas de Foucault e.31 palavras e as coisas. 18 A escola de epistemologia histórica francesa se formou a partir da herança de Gaston Bachelard. evidentemente. grosso modo. é ainda da arqueologia que se trata (FOUCAULT. O conjunto genealógico corresponde à própria descrição arqueológica. 21 Tal possibilidade de extensão já se encontrava prevista no tratado de 1969 sobre A arqueologia do saber. mas como procedimento específico complementar à “genealogia”. O método descrito aí comporta um conjunto crítico e um conjunto genealógico. 1979. pp. 171-173) enumera quatro características que distinguem a arqueologia da história das ideias: 1. que os dois principais operadores da arqueologia (formações discursivas e sistemas de positividade) aparecerão pela primeira vez. para abarcar as demais regiões do Arquivo: à região da política e da sexualidade21. Martial Guéroult. Foucault (1972. 66-69) ao livro As palavras e as coisas parte da pressuposição de que Foucault tentou desenvolver um tipo de epistemologia estruturalistas e que as epistemes são estruturas epistemológicas – pressuposto este que será enfaticamente negada por Foucault no tratado sobre A arqueologia do saber. à liberação do discurso das unidades formadas por todos esses procedimentos. Correspondem. é estranho a ela”. “é uma análise diferencial das modalidades de discurso”. estendida. descontinuidade e ruptura eram bem familiares. “é a descrição sistemática de um discurso-objeto”. De modo que seria bastante incorreto localizar em A ordem do discurso. O “círculo”.69)19. enquanto razão de ser de uma obra e princípio de sua unidade. coloca em questão as formas de exclusão. 51) e uma única vez no curso de 1976 (FOUCAULT. 1999. 16). se de fato uma reorientação metodológica ocorre. François Dagonet. que em grande parte elabora as noções já presentes na Resposta. p. . era formado por membros da escola de epistemologia histórica francesa18 para os quais as noções de limiar. uma ocasião para que Foucault fizesse sua primeira investida contra os que fizeram do livro um assassínio do homem e da história ou dos que viam nele um “estruturalismo sem estruturas” (PIAGET. Michel Serres. 3. pois. O conjunto crítico. o termo “arqueologia” não é mais prevalente 20 . porém. 20 Aparece como sinônimo de “genealogia” no curso de 1975 ( FOUCAULT. apesar do termo. p. p. de limitação e de apropriação do discurso. 2010. Seus principais representantes foram: Georges Canguilhem. A partir da aula inaugural de Foucault no College de France. guiado pelo princípio de inversão. 4. na qualidade de monumento”. p. p. “A instância do sujeito criador. Isso não significa que o procedimento por ele nomeado tenha sido abandonado. mas. 60). Dominique Lecourt. 2.

]. Foucault desenvolve em toda sua extensão um modelo teórico22 de análise histórica voltado especificamente 23 para as disciplinas “que se chamam história das ideias. História da Sexualidade I (FOUCAULT. p. desenvolvimento/evolução. Se é bem certo que o modelo tal como será exposto é aplicável somente aos discu rsos “sérios”. 1972.. segundo o autor. esta analítica do discurso possa se aplicada a problemas da história dos historiadores. Elas são. Digamos para simplificar que o que se desenvolve em A arqueologia do saber é o modelo teórico. De modo que. [. 31).32 Em A arqueologia do Saber. de rutura. em número de quadro: tradição.] ora domínio geral de todos os enunciados. 1972. Logo. ou do pensamento. as considerações do tratado não estão em mesmo nível que as considerações “teóricas” presentes nos trabalhos empíricos. ou das ciências. submetê-los ao poder exemplar da vida [. ora grupo individualizável de enunciados.] ciência. 1972. usando termos um pouco arcaicos. aqueles nos quais não há uma pretensão de racionalidade científica e que constituem na maior parte das vezes o acervo documental das pesquisas históricas. ao menos em parte. as noções de ‘mentalidade’ ou de ‘espírito’ que permitem estabelecer entre os fenômenos simultâneos ou sucessivos de uma época dada uma comunidade de sentido. O tema do “discurso” 24. que se possa romper “com as noções que diversificam.. literatura. “palavra”) é o conjunto de formulações que se individuam de modo mais ou menos arbitrário. p. sempre.. O primeiro não é objeto específico da arqueologia. podem ser verificadas em cada uma das obras posteriores do autor: Vigiar e Punir (FOUCAULT. 31) levanta questões de procedimento.. Assim. . 31). parole (literalmente. p. de limiar. 1972.. o tema da continuidade” (FOUCAULT. se dá ao nível da linguagem. 1972. que constituem uma pragmática do método.] permite repensara dispersão da história na forma do mesmo [. p. de todo modo. como esclarece Foucault (1972. ele significa “[. que domina três quartos do tratado. p.]. “é preciso se inquietar também diante de c ertos recortes ou grupamentos com que nos familiarizamos. mas que. mentalidade/espírito: A noção de tradição [. que são colocadas sempre por ocasião da pesquisa empírica. resta em aberto a questão de que modificações seriam necessárias no mesmo para dar conta dos discursos “não -sérios”..]. do desenvolvimento de um modelo teórico de análise histórica. p. O modelo é desenvolvido com vistas a história que se pode chamar “intelectual” (dos discursos sérios). de série. 1985) 23 Foucault não pretende que o modelo aí desenvolvido se aplique a pesquisas da história tout court.. diríamos que o primeiro e o terceiro sentido são formais e o segundo é material. as noções de desenvolvimento e de evolução: elas permitem reagrupar uma sucessão de acontecimentos dispersos. história. 24 N’A arqueologia há dois termos que se traduzem igualmente por “discurso”: parole e discours. o que não impede que. 31) para nelas aplicar os “conceitos de descontinuidade. A aplicação da categoria da descontinuidade à história intelectual supõe. influência... ou dos conhecimentos” (FOUCAULT. 100). ora prática regulamentada dando conta de certo número de enunciados” (FOUCAULT. História da sexualidade II (FOUCAULT. religião. 31-32) Em segundo lugar.. 1984) e História da Sexualidade III (FOUCAULT. que em cada pesquisa empírica deve ser complementado por regras pragmáticas de pesquisa. (FOUCAULT. relacioná-los a um único e mesmo princípio organizador. em primeiro lugar. 2009). no sentido formal de prática regulamentada o termo “discurso” é equivalente ao termo “formação discursiva”. 22 A aplicação do modelo. É este modelo que passaremos a descrever agora. filosofia. na analítica do discurso.. 1988). a noção de influência que fornece um suporte – demasiado mágico para poder ser bem analisado – aos fatos de transmissão e de comunicação [. cada uma à sua maneira. O segundo termo é um conceito específico de Foucault. não deve nos enganar: trata-se.. Tais regras. de transformação” (FOUCAULT.

que os campos de pilhagem do Ocidente atraíam. nos equivocaríamos se deduzíssemos que tudo o que um historiador faz é história ou que tudo que um médico faz é medicina. de escultores em madeira e de comerciantes. 117) 28 “Na verdade. p. Ainda aqui. como os indivíduos estão envolvidos em diversas práticas. p. estas agendas não são os únicos trabalhos históricos legados por uma época muito preocupada com o passado.)” (BLOCH. Considere-se o enunciado “tudo está muito bem. logo à primeira vista. a história e a filosófica.” (FOUCAULT... e os primeiros se distinguem dos segundos. afirma Bloch: “Estes Vikings. devemos considerá-la como parte da filosofia de Voltaire ou um experiente literário?25 Será que de fato estamos certos sobre as fronteiras que separam a filosofia e a literatura. 1972. por possuírem um domínio de objetos completamente diferente: referem-se a acontecimentos numa época específica (período medieval). Ou seja. tal como de guerreiros. acreditam ter de buscar a coerência de um projeto de racionalidade. mas devemos cuidar do nosso jardim” (VOLTAIRE. etc? Não seria preciso. E. 1982. a filosofia e a religião. p. cujos limites e aplicabilidade são. bastante precários.” (BLOCH. respectivamente. a história e a política. como bem explicitou Paul Veyne (1995. 38). p. certamente. mas. um tratado médico ou as obras completas de um Pinel ou Esquirol. etc. é preciso liberar o enunciado dessas classificações. a história o que os historiadores fazem dela. contêm uma variedade de enunciados que não podem todos pertencer ao discurso histórico ou médico. 236): prescrição irônica contra Leibniz. 33). todas essas unidades (algumas das quais disciplinarizadas) não podem valer como delimitações legítimas de um parentesco. p. Mas. Consideremos a questão do seguinte modo: a medicina é o que os médicos fazem dela. Em terceiro lugar. segundo o autor. 1982. 256). já que é no livro e na obra que os historiadores do pensamento. não o podem fazer sob o mesmo estatuto. “as unidades que é preciso por em suspenso são as que se impõe da maneira mais imediata: as do livro e da obra” (FOUCAULT. p. para analisar o que se diz de fato.” (BLOCH. deixar em suspenso por um instante esses grandes rótulos? Ao menos para a arqueologia do discurso. trata-se de unidades que são colocadas em jogo principalmente pela história intelectual. enquanto que o domínio de O enunciado “cuidemos de nosso jardim” aparece ao fim do romance Cândido de Voltaire como um último remate do personagem Cândido contra o otimismo de seu antigo professor Panglos que representa a filosofia de Leibniz.33 ficção. 33). das ideias. o que se faz (a prática) define o que é feito (a obra) e só se pode explicar o que é feito pelo que se faz. Dito de modo mais simples: um livro de história ou as obras completas de um historiador. Um livro como A sociedade Feudal. 26 Caracterizando os normandos.. 45) 25 . pertenciam a um povo de camponeses. de ferreiros. de Marc Bloch. contém tanto enunciados históricos 26 quanto enunciados metodológicos27 e teóricos28. 1982. 1983. p. da filosofia e da ciência. 1972. 27 “À falta de outros testemunhos (. mesmo os que podem.

p. quer a um domínio de objetos ideais (a concepção da história que o historiador compartilha). Finalmente. p. e. Sua Importante distinguir a “formulação” ou “enunciação” do enunciado: uma formulação é “o ato individual (ou. em sua dispersão de acontecimentos e na instância que é própria a cada um” [.. o pesquisador estará diante de “uma população de acontecimentos dispersos” (FOUCAULT. coletivo) que faz surgir. Enquanto procedimento analítico. Neste primeiro momento. na ordem do discurso. 32). Não é um trabalho linguístico. a irrupção de um acontecimento verdadeiro”. por tentar fazer aparecer a emergência de um fenômeno a partir de um sistema de regularidades. 36) Foucault insurge-se contra o tema da origem e a ele já opõe. 1972. o grupo de signos: 29 . Isso não significa que todas essas unidades que a arqueologia põe em suspenso sejam por ela tomadas como ficções ou ilusões. portanto. 2008. p. é preciso romper com dois temas ligados ao postulado de continuidade que domina a historia intelectual tradicional: o tema da origem e o tema das significações ocultas. a rigor. quer a um domínio de objetos fictícios (possibilidades não desenvolvidas ainda). o trabalho do historiador-arqueólogo consiste em liberar o domínio em que irá trabalhar.. p. portanto. não opera ao nível das formulações29 e do texto ou dito (parole). e justamente. 38). 1972. 1972. O primeiro. A arqueologia se define. em consequência. o primeiro “destina a análise histórica do discurso a ser busca e repetição de uma origem que escapa a toda determinação histórica. supõe que “[. Trata-se de uma decisão metodológica que “permite. por exemplo). com os quais é preciso aceitar trabalhar. De modo que.. 1972. desde aqui. de início restituir ao enunc iado sua singularidade de acontecimento” (FOUCAULT. mas ao nível do enunciado e do discurso. o segundo. p. o outro a destina a ser interpretação ou escuta de um já-dito que seria ao mesmo tempo um não-dito” (FOUCAULT. “quer que jamais seja possível assinalar.] é a população de acontecimentos no espaço do discurso em geral (FOUCAULT. essa irredutível – e muito frequentemente minúscula – emergência” (FOUCAULT. o conceito genealógico da emergência: “o que se tenta observar é essa incisão que ele constitui.] todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito”. como “uma descrição pura dos acontecimentos discursivos” (FOUCAULT. realizada essa primeira tarefa. quer a acontecimentos do presente do autor (a prática de se voltar a testemunhos involuntários. 1972. em um material qualquer e segundo uma forma determinada. 38). 93). domínio este que “é constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham sido falados ou escritos). 39). a arqueologia se caracteriza.34 objetos dos enunciados da teoria da história refere-se.. p.

em nossa sociedade ao menos. nesta fase. parece ter de se colocar previamente30: a da descrição do enunciado. 39). a arqueologia não conduz sua análise nessa dimensão em que as significações emergem. p. o discurso é atravessado por um certo número de “princípios de exclusão”. 1972.35 questão fundamental é: “como apareceu um determinado enunciado. social. que a arqueologia deve poder fazer aparecer. 39 Liberado o campo dos acontecimentos discursivos. de mostrar que formas de enunciação excluiu (FOUCAULT. 9). p. sua tarefa é compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de seu acontecimento. [2ª] relações entre grupos de enunciados assim estabelecidos [. a formação na qual e a partir da qual podem emergir. entretanto. 9). Foucault (1972. 1972.]. “que têm por função conjurar seus poderes e perigos” (FOUCAULT. a tarefa da arqueologia é “apreender outras formas de regularidade. outros tipos de relações” (FOUCAULT. p. esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT. 134)... a partir do sistema de relações discursivas que efetivamente os delimitam e os tornam possíveis: trata-se de desenhar. a formulação é um acontecimento que. Achamos por bem. de determinar suas condições de existência. 30 Na verdade. Por mais importante que seja o sentido ou a produção de sentido. p.. 40). p. portanto. p. 146) concebia a tarefa da descrição dos enunciados e a tarefa da descrição das relações entre agrupamentos de enunciados (formações discursivas) como correlativas. por . que visam “dominar seu acontecimento aleatório. 1972. pelo menos de direito. contudo. é sempre demarcável segundo coordenadas espácio-temporais” (FOUCAULT. e não outro em seu lugar?” (FOUCAULT. E.]. 2005a. p. de fixar seus limites da forma mais justa. 1972. Uma tarefa. e de “controle”. quer-se. 2005a. 41) que não estão ligados a “operadores de sínteses que sejam puramente psicológicos” (FOUCUALT. porém. [3º] relações entre enunciados ou grupos de enunciados e acontecimentos de uma ordem inteiramente diferente (técnica. a partir dos discursos tomados para análise e que foram decompostos num primeiro momento. justamente porque. p. 1972.. de três ordens distintas: [1ª] Relações dos enunciados entre si [. 41) De modo que o modelo arqueológico determina que as relações entre os enunciados sejam analisadas a fim de fazer aparecer as condições que tornam esses enunciados possíveis. nosso propósito formalista requer que estabeleçamos uma ordem entre uma e outra análise. 1972. de estabelecer suas correlações com outros enunciados a que pode estar ligado. (FOUCAULT. política). são. econômica. reconstituir os discursos que se haviam esfacelado. as formações discursivas que os permitem individuar. Tais operações. p. E o domínio do enunciado deve ser liberado.

senão a sequência de caracteres da máquina de escrever seria um enunciado tanto quanto a transcrição que a reduplica. 1972. 1972. 108). Mas o enunciado também não pertence à ordem da linguagem: não está ao lado das unidades familiares da frase ou da proposição.. o que Foucault entende por “enunciado”. de grafismos ou de traços – qualquer que seja sua organização ou probabilidade – basta para constituir um enunciado” (FOUCAULT. p. da existência dessa entidade e de sua diferenciação em relação a outras unidades de análise mais ou menos familiares (a frase. primeiro. [. que se transcreve como exemplo de uma sequência aleatória de signos. para usar os exemplos do autor.. e a partir da qual pode-se decidir. em sua incontornável existência material. não são de modo algum enunciados.] função que se exerce verticalmente em relação às diversas unidades e que permite dizer.. pois que a especificidade do modelo da arqueologia depende. Por outro lado. em particular. fundamentalmente. aos signos. [. 109) razões que se tornarão claras ao fim deste tópico.] é uma função de existência que pertence. O enunciado não pertence à ordem das coisas. o ato de fala). Mas é aí que começam as dificuldades: pois um conjunto de signos. 106). 100). de que são signo. pela análise ou pela intuição. segundo que regra se sucedem ou se justapõem.] um ponto sem superfície mas que pode ser demarcado em planos de repartição em formas específicas de grupamentos.] qualquer série de signos. 1972. um apanhado de caracteres tipográficos ou as teclas de uma máquina de escrever. enunciado da ordem de disposição das letras do alfabeto em um teclado segundo a convenção adotada. de figuras. enunciados: enunciado de uma sequência aleatória de signos. Ele então apareceria como “[.] um átomo do discurso” (FOUCAULT... Com relação às unidades de que a análise da língua e a análise lógica fazem aparecer. a proposição. 1972.. . a transcrição desses signos aleatoriamente num papel ou na ordem em que aparecem em um teclado serão.. nem sempre poderá constituir um enunciado. Num primeiro momento supõe-se que o enunciado seja uma unidade ao lado destas outras que nos são familiares..] um grão que aparece na superfície de um tecido de que é o elemento constituinte.. a propósito de uma série de signos. fazer a descrição intrínseca do enunciado preceder a descrição das formações discursivas. “[. p.. certamente. e que espécie de ato se encontra efetivado por sua formulação (oral ou escrita) (FOUCAULT.36 É preciso buscar. p. o enunciado deve ser definido como uma “[. em seguida. Mais ainda: [... Nesse caso. se ‘fazem sentido’ ou não. se elas estão aí presentes ou não” (FOUCAULT.

as regularidades que permitem individuá-lo e discerni-lo de qualquer outro enunciado. o campo de emergência. sua expressão conterá as condições de existência do enunciado. a relação não é nem de semelhança nem de paralelismo. . de regras de existência para os objetos que aí se encontram nomeados. De modo que é essa relação que se deve procurar para individuar uma função.e não à sua causa nem a seus elementos. para as relações que aí se encontraram afirmadas ou negadas. O enunciado. a partir e apesar dele. esclarece Foucault (1972. e por isso mesmo. 111) Importante não confundir esta “outra coisa” com a qual o enunciado mantém relação. primeiramente: Uma série de signos se tornará um enunciado com a condição de que tenha com ‘outra coisa’ (que pode ser-lhe estranhamente semelhante. este correlato. Ao descrever a função enunciativa. com o sentido de uma frase ou o referente de uma proposição.. tendem a elidir o espaço próprio do enunciado. No caso da função enunciativa. ao menos para encontrar. e quase idêntica como no exemplo escolhido) uma relação específica que é concernente a ela mesma. Foucault forneceu as variáveis para a expressão que a define. 1972. (FOUCAULT. dos estados de coisas e das relações postas em jogo pelo próprio enunciado. a análise da língua e do ato de fala. que a lógica. Mas é justamente. Daí a tarefa do historiador-arqueólogo: voltar-se para essa função específica que define uma modalidade de existência histórica de uma sequência de signos. Sabe-se que uma função é uma relação de dependência entre duas variáveis. é a partir da função enunciativa que se pode reconhecer a existência da frase. contorná-lo. ele próprio. a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos. o sentido ou não de uma frase. Pois bem. designados ou descritos. a emissão ou não de um ato de fala. a condição. o referente de uma proposição e o sentido de uma frase. p. p. mas de leis de possibilidade. p.. de ‘realidades’. Entre o referencial de um enunciado. De modo que. ou de ‘seres’. sem deixar por isso de ser uma . O referencial de uma função enunciativa (que podemos denotar pela letra “r”) forma. É o referencial que permite decidir se uma proposição tem ou não um referente. 114): Está antes ligado a um ‘referencial’ que não é constituído de ‘coisas’. Foucault afirma que o enunciado é uma função. uma função que define “[. da proposição ou do ato de fala. de ‘fatos’.] um conjunto de domínios em que tais objetos podem aparecer e em que tais relações podem ser assinaladas” (FOUCAULT. a verdade ou falsidade de uma proposição. 1972. 114).37 Dito em outras palavras. O referencial do enunciado forma o lugar.

O sujeito de um enunciado é. indiferentes. De modo que o sujeito de um enunciado é a função que define tal espaço: “[.. Não é. 112). o sujeito aparecerá como uma função que define um espaço vazio. 119). e assumir o papel de diferentes sujeitos” (FOUCULT. 1972. 113). espaço determinado ou completamente indiferenciado. mas esse lugar. que permanecem frase e proposição. deve-se admitir que “é no interior de uma relação enunciativa determinada e bem estabilizada que a relação de uma frase com seu sentido pode ser assinalada” (FOUCAULT. para poder dizer se uma proposição tem ou não um referente” (FOUCAULT. para que haja enunciado. determinado ou indiferenciado. 120).. “um enunciado tem sempre margens povoadas de outros enunciados” (FOUCAULT. [b] é uma função vazia. Por um lado.. diferentes posições. de um livro ou de uma obra. mas que não é forçosamente a mesma de um enunciado a outro. 1972. é preciso que se possa reconhecer um domínio vazio. p. podendo ser ocupada por indivíduos. [b] É constituído também pelo conjunto das formulações a que o enunciado se refere (implicitamente ou não) [. 1972.. o qual denotaremos. varia” (FOUCAULT.]. Ao contrário da frase e da proposição. até certo ponto. um enunciado se define pela “existência de um domínio associado” (FOUCAULT. p. definível ele próprio por uma função. [c] É constituído. pelo conjunto . “é preciso saber a que se refere o enunciado. Em terceiro lugar. mesmo isoladas do texto ou do conjunto teórico de que fazem parte. quando chegam a formular o enunciado.] o sujeito do enunciado é [a] uma função determinada. o enunciado não existe senão em função de um campo enunciativo a ele associado. por outro.] é constituído de início [a] pela série das outras formulações no interior das quais o enunciado se inscreve e forma um elemento [. 117) Nesse caso. 122). em lugar de ser definido de uma vez por todas e de se manter uniforme ao longo de um texto. O campo “[. qual é seu espaço de correlações. p. p. na medida ainda que [c] um único e mesmo indivíduo pode ocupar alternadamente. p. Assim. em uma série de enunciados. sem deixar por isso de ser uma frase. 1972. para a análise do enunciado.38 proposição. se uma frase tem ou não sentido. mas o espaço que esse indivíduo deve poder ocupar para ser capaz de emitir um enunciado específico. 1972. pela letra “a”. p. por convenção..].. na concepção do autor.. ainda.. de posições subjetivas possíveis. Em segundo lugar. “um lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes. 1972. certamente. o indivíduo que pronuncia uma formulação. a ser ocupado por indivíduos.

À descrição do enunciado se segue a descrição das relações entre enunciados e.). [. Novamente. 125). mas. “possibilidades de reinscrição e de transcrição (mas também limiares e limites)” (FOUCAULT.. ainda. Secundariamente.. 45). particularmente. 129). finalmente. a unidade de um discurso não está. primariamente. a qual se constitui pela “constância do enunciado. de seu afas tamento. p. 1972. e não pela permanência e singularidade de um objeto” (FOUCAULT. a função que define a materialidade de um enunciado será complexa. p. Ora. a materialidade de um enunciado está ligada à função que define u m “campo de utilização”. 123) Por último. Por fim.” (FOUCAULT. pelo conjunto das formulações de que o enunciado em questão divide o estatuto. [d] É constituído. precisa preencher uma quarta condição: deve ter existência material” (FOUCAULT.].. por sua vez. todo enunciado possui uma existência material. p. [c] as constelações em que podem desempenhar um papel. 1972. 47). etc. uma formação discursiva é um sistema de dispersão. Foucault é aqui perfeitamente didático e nos oferece um quadro bastante nítido das variáveis que. é preciso analisar no âmbito da arqueologia.39 das formulações cujo enunciado propicia a possibilidade ulterior [. 1972. para cada discurso.. 1972. seus desdobramentos através da identidade das formas” (FOUCAULT. na forma específica que seus enunciados assumem. eventualmente. mas no “espaço onde diversos objetos se perfilam e continuamente se transformam. pelo estilo da enunciação (descrição. seria preciso procurá-la “junto à sua emergência simultânea e sucessiva. p. a qual. comentário. p. seria equivocado buscar a unidade de um discurso no “sistema dos conceitos permanentes e coerentes que aí se encontram postos em jogo?” (FOUCAULT. no mesmo sentido. a descrição das formações discursivas. da distância que os separa e. p. antes. 48). 47) a forma e o tipo de encadeamento das formulações. 1972. finalmente.” (FOUCAULT. 131). 129). p. de sua incompatibilidade. se decompõe em “[a] esquemas de utilização. do mesmo modo. 1972. p. 1972. mas “conjunto de regras que tornaram possíveis” (FOUCAULT. para os domínios analisados por Foucault até então. De modo que é preciso agora determinar como uma formação discursiva deve ser estabelecida e analisada. ao invés de tentar estabelecer a unidade discursiva de um grupo de enunciados na identidade e . e para que “uma sequência de elementos linguísticos possa ser considerada e analisada como um enunciado. suas virtualidades estratégicas constituem.] tentar-se-ia analisar o jogo de seus aparecimentos e de sua dispersão” (FOUCAULT. cuja unidade não está na referência a um mesmo objeto. 1972. comporta a subfunção que define um campo de estabilização. repetição. para os enunciados. comportando. a manutenção de sua identidade através dos acontecimentos singulares das enunciações. [b] as regras de emprego. 1972. p.

p. pois. [. para descrever o discurso psicopatológico do século XIX. portanto. semelhante sistema de dispersão. “C) Analisar finalmente as grades de especificação” (FOUCAULT. desde si mesmas. uma delimitação do patológico. no âmbito da família32. 2010. 55). as escolhas temáticas. 1972. 56). p. seria preciso analisar a “dispersão dos pontos de escolha que deixa livres” (FOUCAULT. 2010. temas) são bastante variadas. de alienação. p. 1972. recorrem ao saber psiquiátrico e a ele entregam o que lhes parece estranho ou exterior. de degenerescência. entre um certo número de enunciados. o instinto33. p. A tarefa do arqueólogo é. conceitos. 1972. De modo que. a tarefa se torna aqui consideravelmente complexa. o campo de emergência de objetos que constituirão o domínio da psicopatologia do século XIX: antes de ser apropriada pela psiquiatria. FOUCAULT. 1972. conceitos. como no caso da descrição do enunciado. Em segundo lugar. a título de exemplo.] condições de existência (mas também de coexistência. 50). . por isso mesmo. p. p. de anomalia. etc. 51) Essa descrição deve ser feita pelo estabelecimento das regras de formação. de demência. “B) Seria necessário descrever. Se se quer.. transformações). no caso em que entre os objetos. que se trata de uma formação discursiva. instâncias de delimitação” (FOUCAULT. p. FOUCAULT. 2010. 183. FOUCAULT. da prática judiciária. 1972. a sexualidade. Cf. de neurose ou de psicose.40 persistência dos mesmos temas e teorias. os códigos conceituais e os tipos de teoria. os conceitos. correlações. 1972. (FOUCAULT. segundo os graus de racionalização. p. de manutenção. de modificação e de desaparecimento) em uma repartição discursiva dada” (FOUCAULT. 33 Cf. entendidas como “condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos. a convulsão surge na instituição religiosa31. “A) Seria preciso inicialmente demarcar as superfícies primeiras de emergência” (FOUCAULT. vão receber o estatuto de doença.. dir-se-á. Quanto aos objetos. 112. chamar-se-á “formação discursiva”: No caso em que se pudesse descrever. 1972. 51-52). por convenção. pois as regras de formação de cada domínio (objetos. escolhas temáticas). é preciso interrogar todas “essas diferenças individuais que. além disso. embora neles presentes: é a Igreja que se desgarra da 31 32 Cf. se poderia definir uma regularidade (uma ordem. analisar o objeto da psicopatologia do século XIX. p. é preciso se dirigir às instância que operam. posições e funcionamentos. os tipos de enunciação. modalidades de enunciação. descrever os sistemas de dispersão que dão conta da unidade de um discurso. assim unificado. Consideremos. e que. 55). modalidades.” (FOUCAULT. que. 56). 201. p.

]. podem se especificar: “a alma [. portanto “separa o místico do patológico.. o sobrenatural do anormal” (FOUCAULT. 2010. 1972. FOUCAULT. já que não é uma medicina em sentido próprio. que. 60) 34 35 Cf.] (FOUCAULT. mas reivindica a “aparição”34. o corpo [. relações reflexivas ou secundárias: assim se abre todo um espaço articulado de descrições possíveis: sistema das relações primárias ou reais. 56). portanto. É essa relação. pois uma “formação é assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre instâncias de emergência. p. de delimitação e de especificação” (FOUCAULT. nenhuma das regras que se pode encontrar para o discurso que se queira analisar constitui por si mesma o objeto desse discurso. 2010. 56). trata-se de descrever. as instâncias em que as diversas formas de loucura. de tal forma que: não são os objetos que permanecem constantes. 1972. FOUCAULT. tampouco o simples estabelecimento deste conjunto de regras não seria suficiente para dar conta da constituição dos objetos em um discurso como o da psicopatologia. como domínio de sua ingerência possível. 187-192 e p. o que tem por consequência que. (FOUCAULT.. Mas isso não encerra a tarefa do arqueólogo no domínio dos objetos do discurso analisado. que torna possível a constituição de um domínio de objetos. p. 1972. 137. como as instâncias em que os objetos emergem.. o comportamento do indivíduo durante toda sua história que atesta a presença da anomalia. correlacionálas a relações de outras ordens: relações reais ou primárias. p. a vida e a história dos indivíduos 35 [. o espiritual do corporal. é preciso estabelecer a relação entre elas. através de uma “disciplina articulatória que é a neurologia”. nem também o ponto de emergência deles ou seu modo de caracterização. 2010. É possível ainda.41 possessão. 1972. Estabelecidas essas regras. 137. considerada a especificidade das relações discursivas descritas. Finalment e. .. 1972.]. 36 A psicopatologia do anormal só pode se constituir e se ligar à medicina. p. p.. (FOUCAULT.. O problema é fazer aparecer a especificidade dessas últimas e seu jogo com as duas outras”. p. e sistema das relações que se pode chamar propriamente discursivas. mas o relacionamento das superfícies em que podem aparecer. se relacionam. nenhuma dessas instâncias é capaz de formar um objeto para a psicopatologia. em que podem se delimitar. em que podem-se analisar e especificar”. sistema das relações secundárias ou reflexivas. O que está em questão para a psicopatologia não é mais a doença que se infiltra no corpo. p. respectivamente. “a psiquiatria vê finalmente se abrir diante de si. o domínio inteiro de todas as condutas dos indivíduos”. aquelas em que são delimitados e aquelas em que são especificados. FOUCAULT. 193-194. nem o domínio que formam. os jogos de correlações neuro-psicológicas 36 [. 62) É o modo. que ao fim.]. 59). p. como domínio de suas valorizações sintomatológicas. mas o corpo inteiramente doente.. mantendo-nos no exemplo do discurso psicopatológico. A este nível.. Contudo.

em todo caso. o estatuto . não é somente uma qualificação (hoje atestada por um documento. mas tudo o que está aquém e além dessa condição jurídica. em primeiro lugar. a visibilidade própria que um domínio de objetos possui numa relação discursiva. o domínio das modalidades será determinado pela qualificação do sujeito-que-fala. analisados. como explica o autor no prefácio à edição inglesa de Les mots et les choses. por exemplo. para que esses objetos possam aparecer. 187). quando esta evocou os temas da epidemia e das constituições... para ficar no exemplo do autor. em que alguns tipos de enunciação são possíveis e outros impossíveis.] “B) É preciso também descrever os lugares institucionais” [. pp. o diploma. que caracterizam o modo pelo qual o sujeito-que-sabe se relaciona como domínio de objetos de seus saber. e cujas regras de formação são as seguintes: A) Primeira questão: quem fala? [estatuto do sujeito]” [. o campo multidimensional. um conjunto complexo de funções como os demais domínios.] “C) “As posições do sujeito [.. como o da medicina clínica. que. (FOUCAULT. Mais do que descrever os tipos de enunciação possíveis em um dado discurso e os efeitos que a escolha de um estilo possam ter sobre um discurso. que uma certa relação com os objetos possa ser estabelecida. tratava-se de saber “se os sujeitos responsáveis pelo discurso científico não são determinados em sua posição. ser designados. como bem disse Veyne (1984. 1972. é a luz sob a qual um objeto aparece e as condições sob as quais pode ser um objeto determinado de um discurso. Quando apareceu a medicina clínica. o qual possui seus privilégios legais). Assim. é preciso dar as condições que permitem os únicos tipos de enunciação possíveis. 66-68) De modo que. O domínio de formação das modalidades enunciativas é. portanto. não se vê nem mesmo que não se vê”. O estatuto médico. e mesmo os esmagam (FOUCAULT.. 2008. mas também de uma intervenção. A modalidade enunciativa é. p. A modalidade enunciativa não é simplesmente um estilo de enunciação. p. O estatuto médico permite e supõe uma atuação social específica. é preciso um certo olhar. em primeiro lugar. sofrer intervenções. Ou. 133): “quando não se vê o que não se vê. Não basta ter coisas diante de si.. em sua função. em sua capacidade de percepção e em suas possibilidades práticas por condições que os dominam.42 Que se passe ao domínio das modalidades enunciativas. específico.] [as quais são definidas por:] [a] situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos.. dependem dessa relação específica. [b] posições que o sujeito pode ocupar na rede de informações. mas o lugar.

FOUCAULT. uma vigilância constante. Comporta também um certo número de traços que definem seu funcionamento em relação ao conjunto da sociedade (FOUCAULT. pede-se que a consciência de cada indivíduo esteja medicalmente alerta. a prática privada41 [. Variável. p. 37 ... 41 FOUCAULT. pronunciada no Instituto de Medicinal Social do Rio de Janeiro em 1978. 39 Cf. o caso Henriett Cornier. 1977. pronunciada na mesma situação que a anterior. o que o indivíduo. 2010. 1977.” (FOUCAULT. 1993. p. instituições. A partir de 1850. 1972.]” (FOUCAULT. 67). do qual Esquirol foi perito.].] com outros indivíduos ou outros grupos de indivíduos que têm eles próprios seus estatutos [. onde se formam suas modalidades enunciativas. [.]. guiado pelo artigo 64 do Código Penal francês e a psiquiatria da alienação entram em “curto-circuito”. investido como sujeito de um discurso como o da medicina. diferenciada”.]. sistemas. é “o hospital40 [. por exemplo. normas pedagógicas. a religião. um sistema de diferenciação e de relações [.43 médico pôde incorporar toda uma função de vigilância37 e de pedagogia38. 27.85-105: trata-se da conferência História da medicalização. Seja. que o campo de visibilidade da psicopatologia – e. FOUCAULT. 66). 107-120... a terceira dimensão do domínio das modalidades enunciativas: “as posições que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos” (FOUCAULT.. 1993.. Mas o campo de visibilidade de um discurso. segundo Foucault. 271). 34.].. Em suma. da possibilidade de intervenção da psiquiatria – praticamente cobrirá todo o corpo social: é o poder psiquiátrico tal como o vemos atuar sobre a legislação. 40 “O domínio hospitalar é aquele em que o fato patológico aparece em sua singularidade de acontecimento e na série que o cerca... então. requisitava que o médico fosse chamado ao tribunal somente para dizer se o acusado estava ou não delirando no momento em que cometeu o crime39. 105ss. é capaz e obrigado a fazer para sustentar-se como tal? São os “Começa-se a conceber uma presença generalizada dos médicos. 2010. Ou seja. 123). finalmente. será preciso que cada cidadão esteja informado do que é necessário e possível saber em medicina. p. FOUCAULT. portanto. p.. a justiça. a família. 2010. tal estatuto supõe em nossa sociedade: critérios de competência e de saber. p. o que se pode chamar ‘biblioteca’ ou o campo documentário [. o laboratório [. 38 “E como se não bastasse a implantação dos médicos. Essa variável do discurso médico será ainda analisada por Foucault na conferência Incorporação do Hospital à tecnologia moderna . 65). Cf. cujos olhares cruzados formam uma rede e exercem em todos os lugares do espaço.]. Utilizemos um exemplo simples: o estatuto dos alienistas. E cada prático deverá acrescentar à sua atividade de vigilante uma atividade de ensino. tal como se encontra na psiquiatria clássica (de Esquirol e Pinel). p. conforme se forme o discurso médico. FOUCAULT.. Sobre o momento em que o estatuto jurídico. etc. 1977. o trabalho.. 2010. Cf. o estatuto médico da psiquiatria se modificará de tal modo.. móvel. Para o discurso médico. p. pois a melhor maneira de evitar que a doença se propague ainda é difundir a medicina. 1972. p. FOUCAULT. “poder médico sobre o não patológico” (FOUCAULT. em todos os momentos do tempo. p. ”. 27. é formado também por todos os espaços onde o sujeito (a posição subjetiva) do discurso pode retirar seus instrumentos e receber sua legitimidade..

“elemento de construção. 1972.].].].. “o conhecimento mínimo do qual ele é objeto deve naturalmente explicitar-se numa proposição”. o conceito é o elemento que carrega a materialidade do enunciado. 68).. [g] os métodos de sistematização de proposições que já existem [. [c] modos de tradução. 1977... 67)43. um local de centralização do saber. [b] tipos de dependência [. “as posições que o sujeito pode ocupar numa rede das informações” (FOUCAULT.. formas de sucessão. p. o domínio em que se formam os conceitos de um discurso. donde “se estabelece um duplo controle: das in stâncias políticas sobre o exercício da medicina. pouco a pouco.. p. p. 23).. diz o filósofo. (FOUCAULT.] [a] campo de presença[. p. uma instância de registro e de julgamento de toda atividade médica ”. “O conceito”.” [. enfim. a integração do discurso médico a uma instituição como a Sociedade Real de Medicina. do lugar institucional de onde ele pronuncia seu discurso e das posições que assume. e de um corpo médico privilegiado sobre um conjunto de práticos”. diz Bachelard (2004. cujo objetivo primeiro era o controle de epidemias. Considere-se.].. Cf. 30). entre elas. p... é a partir dele que se dão as possibilidade de reinscrição e transcrição dos enunciados.] [a] técnicas de reescritura [. Do mesmo modo que no caso do domínio dos objetos trata-se de descrever o “relacionamento entre elementos diferentes” (FOUCAULT. ela própria. é preciso estabelecer a relação entre essas diferentes variáveis. 71-74) 42 43 Para o discurso da medicina clínica. [c] esquemas retóricos.]. epistemologicamente. [c] domínio de memória. Por exemplo. agora. Ou seja. não basta estabelecer as regras que dão conta do estatuto do sujeito. mas que são recompostos em um novo conjunto sistemático.. 29..]. [f] a maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um campo de aplicação a outro [. [d] meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados [.. só tem sentido pleno numa construção”.]... [b] métodos de transição [.. 1977. 1977. mas que passa rapidamente a exercer funções de controle sobre o saber médico e o sobre o corpo social: “órgão de controle das epidemias. [a] as diversas ordens das séries enunciativas [. pp. p. [. 1972. Para a arqueologia.] C) Pode-se.. que se define seu campo de estabilização e de utilização. [h] os métodos de redistribuição dos enunciados já ligados uns aos outros....]..]. adicionalmente.99ss. [.. (FOUCAULT. FOUCAULT.... definir os procedimentos de intervenção... uma função complexa.. [b] campo de concomitância [.]. torna -se. [e] maneira pela qual se delimita novamente – por extensão ou restrição – o domínio de validade dos enunciados [.44 modos de percepção autorizados e requeridos por um discurso específico 42 que se devem descrever e.] B) A configuração do campo enunciativo comporta também formas de coexistência [. . FOUCAULT. Daí que a terceira variável é. O domínio de formação dos conceitos de um discurso é regrado pelas seguintes variáveis: A) Essa organização comporta inicialmente. E. 1972.

p.. [. Consideremos. [b] relação de analogia. 74)..... [c] posições possíveis do desejo em relação ao discurso. de apropriação.] 3. 1972.. estabelecidas tais regularidades..].. mais dans un sens oppose: les uns se demandent à quelle condition – et à quel coût – um bien peut devenir une valeur dans uns système d’échanges. [c] relações de delimitação recíproca. 85).]. p. p.. pois. os outros. (FOUCAULT.. mas. Como ocorreu nos casos anteriores. pp. [. é preciso passar à relação entre elas já que “o que pertence propriamente a uma formação discursiva e o que permite delimitar o grupo de conceitos..]. oposição ou complementariedade [. Com respeito a ele. pois o sistema de formação é definido “por uma certa maneira constante de relacionar possibilidades de sistematização interiores a um discurso..45 Novamente. primeiramente. Determinar os pontos de difração possíveis do discurso [. não discursivo. pela [a] função que deve exercer o discurso estudado em um campo de práticas não discursivas. em que condições um juízo de apreciação pode se transformar em preço no mesmo sistema de trocas” (FOUCAULT. 1972. [c] ponto de junção de uma sistematização. p. de práticas. o domínio de formação das estratégias permaneceu bastante subdesenvolvido em relação aos demais domínios.. 84-85).] [b] regime e processos de apropriação do discurso [. [. 1972. 209)44 Livre tradução de: “Les Physiocrates et leurs adverrsaires parcourent en fait le meme segment théorique.] [a] pontos de incompatibilidade.. apesar de díspares..] 2. de início. é a maneira pela qual esses diferentes elementos são relacionados uns aos outros” (FOUCAULT.] [a] economia da constelação discursiva [. de interesses e de desejos” (FOUCAULT. diz o próprio autor. Tal análise ocorre em As palavras e as coisas. a análise arqueológica precisa.. 1. 82). à quelle condition um julgement d’appréciation peut se transformer em prix dans ce même système d’échanges” (FOUCAULT. [b] pontos de equivalência. A determinação das escolhas teóricas realmente efetuadas depende também de uma outra instância. 1972. Finalmente. 1972. 209) 44 . Até o momento em que Foucault escreveu A Arqueologia. 82-84) De modo que “uma formação discursiva será individualizada se se pode definir o sistema de formação das diferentes estratégias que nela se desenrolam” (FOUCAULT. “sua demarcação permaneceu sumária e a análise de sua formação não foi demorada” (FOUCAULT. p. p. é preciso correlacioná-las. les autres. Essa instância se caracteriza. mas em um sentido oposto: uns se perguntam em que condições – e a que custo – um bem pode tornar-se um valor em um sistema de trocas.. outros discursos que lhe são exteriores e todo um campo. estabelecidas as regras de formação. o mesmo princípio correlativo se aplica.. que lhe são específicos.] instâncias específicas de decisão [. a oposição estratégica entre a Fisiocracia e o Utilitarismo: Os Fisiocratas e seus adversários percorrem de fato o mesmo segmento teórico. por exemplo. seja o domínio da formação das escolhas teóricas ou estratégias. 1966. [. 1966.

contra a confusão que se seguiu à publicação daquele livro. integrar um terceiro estágio: o do estabelecimento dos fatos comparativos. e aquilo que daí se segue. 194-195) esclarece que a categoria da episteme não denota uma estrutura. 1983. Logo. 46 Livre tradução de: “les analyses des Physiocrates et celles des utilitaristes sont souvent si proches. No tratado do método de 1969. 193) distingue três domínios de fatos comparativos que a arqueologia tem de analisar: a) um discurso em relação a seus limites cronológicos. et parfois complementaires” (FOUCAULT. 209) 45 . justamente. uma De modo um pouco simplista. há também pontos de equivalência: “as análises dos Fisiocratas e aquelas dos utilitaristas são frequentemente muito próximas e. como o segundo desses domínios (b) já se encontra previsto no modelo de descrição das formações discursivas. Primeiramente. Por outro lado. resta integrar a relação colateral entre vários discursos e a relação de um discurso com respeito a seus limites cronológicos para se complementar a descrição do modelo de pesquisa arqueológico. Menger. Comecemos pela tarefa tão visível e tão criticada em Les mots et les choses: o estabelecimento de relações entre diferentes discursos. c) um discurso em relação a outros discursos. o operador da difração que separa uns de outros. p. Por outro lado – e. Cf. De modo que. Foucault (1972. 209)46. justamente por isso – as pesquisas subsequentes ao tratado de 1969 se concentrarão no domínio das estratégias do discurso. por que alguns bens são preferíveis a outros. Nesse sentido. uma formação discursiva tem o aspecto de uma rede de relações que o trabalho de descrição arqueológica é capaz de estabelecer para os discursos que analisa. para completar o modelo arqueológico. tal como Foucault a apresentou no curso de 1976: o que interessa então é. Ora. b) um discurso em relação aos domínios nãodiscursivos. p. na medida em que é um mesmo sistema regular de discursividade em torno do problema da troca. 1966. Para uma visão ampla sobre o problema dos bens e do valor desde o pensamento grego. talvez. conclui-se que a descrição do domínio das estratégias em As palavras e as coisas resume-se à descrição da primeira de suas funções constituintes. e a história das raças do século XVIII como um operador tático. o domínio justamente em que o saber intercepta a figura do poder. às vezes complementares” (FOUCAULT. Foucault (1972. para não nos estendermos exageradamente no exemplo. as instâncias de especificação de decisão e as relações exteriores desses discursos não são analisadas. uma “teoria do valor” pretende determinar por que certas coisas são apreciáveis como bens e outras não. p. Considere-se a arqueologia do discurso histórico. Resta. pp.46 Assim. 1966. a teoria do valor fisiocrata45 ou a teoria do valor utilitarista pertencem a uma mesma formação discursiva. tomar a história como do ponto de vista estratégico.

Daí um tema conexo. De modo que a análise arqueológica parte de um conjunto específico de discursos. 1972. o qual consiste de regras de correlação entre os discursos em questão. Finalmente. da periodização. 197). 198). p. ou seja. é um vetor que precisa ser estabelecido pela análise. ou seja. a visão de mundo ou a mentalidade de uma época. não é um dado a partir do qual todo o sistema anterior de relações interdiscursivas pode ser estabelecido. mesmo que sejam indicados sob “uma única e mesma noção (eventualmente designada por uma única e mesma palavra)” (FOUCAULT. Daí. numa posição sempre ulterior. relações de subordinação ou de complementariedade” (FOUCAULT. 1972. conjunto de “relações internas e externas” que caracterizam as formações discursivas que se analisa. Mas a episteme. só pode ser obtida se a considerarmos uma função complexa.]. ao problema. a priori. 197). ou seja. p. Primeiramente. que está. Ela toma. p. o espírito. dispõem-se ou não conforme o mesmo modelo nos diferentes tipos de discurso” (FOUCAULT. p. incluindo entre esses discursos outros “tipos de discurso”. para o nível dos discursos. p. A episteme é um fato discursivo construído a partir de um conjunto limitado de discurso. 1972. Logo. Uma segunda permite “definir o modelo arqueológico de cada formação”. uma forma geral de cientificidade. 1972. a análise . 198).47 racionalidade unitária. Assim. primeiro. 1972. a relação em que “elementos discursivos inteiramente diferentes podem ser formados a partir de regras análogas” (FOUCAULT. de modo que essas regras análogas “se encadeiam ou não na mesma ordem. a análise arqueológica permite constituir a episteme como uma “configuração interdiscursiva”. ao contrário. na descrição da episteme. de princípio. em relação a um conjunto limitado de discursos. ou construída. a descrição do discurso em relação a seus limites cronológicos e a delimitação de uma época: em outras palavras. estabelecer “de uma positividade a outra [. em relação ao conjunto de relações anteriores. tão próprio à historiografia contemporânea. uma última função permite “estabelecer correlações arqueológicas”. uma primeira função descreve o conjunto de “isomorfismos arqueológicos”. o produto de uma análise a posteriori da relação entre esses discursos e não uma entidade transcendental.. por tarefa descrever um “conjunto interdiscursivo” (FOUCAULT.. que se imporia sobre as formulações dos sujeitos. 194). A terceira função permite ao arqueólogo “indicar os afastamentos arqueológicos”. levando em consideração que as regras de formação dos enunciados em uma formação discursiva “não se modificam a cada oportunidade”. A periodização. mesmo que não tenham o mesmo nível de positivação. com seus sistemas de formação próprios. a episteme é implicada. a partir desse conjunto sempre limitado.

209). 205). reconhecer que algumas dessas regras implicam num vetor de sucessão. a arqueologia. 2008. quando eles existem. 1972.48 arqueológica deve operar uma “suspensão das sequências temporais”. então. 1972. evidentemente. a análise arqueológica busca descrever “o sistema das transformações em que consiste a ‘mudança’. p. que se pode estabelecer para um período arbitrário. uma vez que “há relações. pode-se. 185-186). Subindo agora ao nível mais geral em que as diversas formações discursivas são descritas a partir de suas relações mútuas. que se operavam no interior do discurso científico diferentes tipos de mudança – mudanças que não intervinham no mesmo nível. 204). Pode-se a partir disso. entendendo a análise tentar delimitar um quadro da época é definir . 1972. 206). se converte no problema de se saber que tipo de transformação ela dá lugar. p. para dar-lhe o estatuto analisável da transformação” (FOUCAULT. Em termos formais. 205-206). de modo que a relação entre esses domínios. suas modalidades enunciativas. encarar o problema de constituir uma periodização. 214). tenta elaborar esta noção vazia e abstrata. não progrediam no mesmo ritmo. a arqueologia se dá por tarefa a demarcação dos “vetores temporais de sucessão” (FOUCAULT. enquanto outras são temporalmente neutras. p. e. há outras que implicam uma direção temporal determinada”. em que se dão as regras de formação de um discurso. se uma formação discursiva se definia pela forma regular em que forma seus objetos. pelo que definimos uma regularidade discursiva: Finalmente. Descendo aos níveis elementares. derivações que são temporalmente neutras. p. seus conceitos e suas escolhas teóricas. é uma constante. pode-se. p. é sempre a propósito de práticas discursivas determinadas e como resultado de suas análises” (FOUCAULT. nem obedeciam às mesmas leis” (FOUCAULT. “plano em que se efetua a substituição de uma formação discursiva por outra (ou do aparecimento e do desaparecimento puro e simples de uma positividade)” (FOUCAULT. “que é específica para cada formação discursiva” (FOUCAULT. e internamente em cada domínio. p. uma época só se define a posteriori e em relação ao conjunto específico e limitado de discursos que foram analisados. 1972. 210). O problema da mudança. Ao nível dos próprios acontecimentos discursivos (enunciados) ela tenta definir a “embreagem” dos mesmos. “se fala dela. em que nível e qual a sua extensão: “Pareceu -me de saída. mas cujo propósi to é “fazer aparecer relações que caracterizam a temporalidade das formações discursivas e articulam-na em séries cujo entrecruzamento não impede a análise” (FOUCAULT. 1972. Tomando-se as relações interdiscursivas. ramificações. 1972. segundo o autor (FOUCAULT. 1972. p.

um diálogo entre o filósofo e os historiadores tornou-se inevitável.49 a época pela constância de sua racionalidade. observaremos dois fenômenos diametralmente opostos: de um lado. da psiquiatria ou da economia política. por exemplo. então. E. O curioso é que este enfrentamento se dá. à medida em que os historiadores retomavam o projeto de psicologia social do início do século a partir de métodos quantitativos e que Foucault avançava seu próprio projeto interceptando o domínio das instituições sociais. mas sempre com respeito aos discursos efetivamente analisados. contudo. um enfrentamento que resultaria na rejeição do projeto foucaultiano por grande parte da comunidade historiográfica e críticas violentas do filósofo às convenções acadêmicas dessa comunidade. também é indeterminado o limite dessa descrição. caso se trate da história ou da biologia. Se agora retomamos a concepção da história presente n’A arqueologia do saber. O desenvolvimento metodológico da arqueologia está ligado exclusivamente aos problema suscitados no interior da história intelectual praticada fora dessa comunidade. de outro. Arlette Farge. 1. como já observamos. de certo parentesco entre os regimes de verdade cronologicamente próximos. As fronteiras. Por volta da metade da década de 1970. já que a função que define uma época não é mais que o reverso da função da zona interdiscursiva descrita. a partir de certo número de descrições. à qual Foucault. Pode-se fazer um esforço para estender o quanto se queira essa análise. justamente. Foucault poderá situar certas clivagens na vontade de verdade característica das sociedades ocidentais. vermos desenhar-se mais do que uma descrição do desenvolvimento da história dos . Logo. Entretanto. Se se pode falar de uma racionalidade clássica ou moderna é no estrito limite das formações discursivas que foram efetivamente analisadas. em Foucault.3 Um programa historiográfico: a história geral É verdade que negamos categoricamente que as críticas a uma certa concepção de história presentes no tratado sobre A arqueologia do saber fossem dirigidas à comunidade historiográfica. se via ligado. com representantes próximos à Escola dos Annales. o sentido da expressão “época”. não se refere a uma estrutura ou um espírito que se imporia sobre todo e qualquer discurso de um período. Michele Perrot e Michel de Certeau). entre a modernidade e a idade clássica não são lineares: a periodização não é a mesma. uma colaboração sob um projeto comum entre Foucault e alguns historiadores (Paul Veyne. mas como o número de formações discursivas é indeterminado.

um programa que permitiria a integração de um domínio à outro ou. A história global. p. que a um realismo compreensivo no qual uma apreensão conjunta e parcialmente intuitiva de um período seria a chave para a explicação de todo e qualquer fenômeno desse período. 1972. está menos ligada a um sonho epistemológico de compreensão total que não cessa de ser criticado e combatido por historiadores das mais diversas vertentes. a lei que explica sua coesão. etc) refletem umas às outras pelo simples fato de coexistirem. a científica. para entendermos o projeto de uma história geral é preciso antes compreender o que Foucault chama “história global”. para que o projeto de história global seja viável. p. para Foucault (1972). (FOUCAULT. a priori. em fazer história econômica ou psicologia histórica. ou como exprimem todos um único e mesmo núcleo central. Mas a crítica de Foucault não se dirige à pretensão desse projeto. De modo que: O projeto de uma história global é o que procura reconstituir a forma de conjunto de uma civilização. a social. qualquer vantagem na substituição de um princípio global de explicação econômica. a significação comum a todos os fenômenos de um período. os pressupostos de ordem metafísica que sub-repticiamente se introduzem na análise história a partir do momento em que nos situamos em tal empreendimento. – o que se chama metaforicamente o “rosto” de uma época. a artística. em outras palavras.50 historiadores em paralelo com a história intelectual. 17) Foucault não veria. 17) . a saber. para uma “compreensão” geral de um período. à tentativa de conhecer o todo de um período. entre todos os fenômenos de que se encontrou o rastro. mas às presunções que ele comporta. devese poder estabelecer um sistema de relações homogêneas: rede de causalidade que permita derivar de cada um deles relações de analogia que mostrem como eles se simbolizam uns aos outros. de fato. é preciso antes de toda análise empírica. Assim. 1972. supor que ordens de fenômenos tão díspares (a econômica. De modo que. a elisão da fronteira entre história cultural e epistemologia histórica. por um princípio global de explicação psicológica. a partir da oposição entre história global e história geral. mas em derivar deste ou daquela campo legítimo de análise um princípio que sirva. assim. sua emergência e persistência como projeto historiográfico prevalente. supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área espaço-temporal bem definida. O problema não está. o princípio – material ou espiritual – de uma sociedade. (FOUCAULT.

mesmo no capítulo dedicado a ‘Civilizações’” (BURKE. supõe-se. por mais que Braudel desejasse “ver as coisas em sua inteireza. e submete-os todos aos mesmo tipo de transformação (FOUCAULT. 1997.. p. transformação. 130) assinala essa pretensão do Mediterrâneo. a inércia das mentalidades. tenha sido interpretado em termos de totalização e de um projeto de história global. Assim. aparecimento ou desparecimento seja também correlativo. é preciso que a totalidade dos fenômenos de um período receba sua significação de um princípio comum. pois. teríamos que passar a seguir para campos heterogêneos: alguns fenômenos se conservariam junto ao seu princípio de inteligibilidade enquanto outros desapareceriam e outros ainda apareceriam requisitando um princípio absolutamente diverso. 17) O fato de que o livro As palavras e as coisas. integrar o . o que quer dizer que podemos ter princípios de inteligibilidade diversos sucessivos mas jamais simultâneos. Mas para que o projeto de história global seja coerente. 17) Finalmente. os comportamentos políticos. Parece inegável que o projeto historiográfico de Braudel esteja ligado a uma tentativa de compreensão total. as estabilidades sociais. Braudel muito pouco tinha a dizer sobre atitudes. os hábitos técnicos. torna ainda mais importante essa distinção. a partir dos dois postulados anteriores é possível supor “que a própria história pode ser articulada em grandes unidades – ou fases – que detêm em si mesmas seu princípio de coesão”.51 De onde decorre um segundo pressuposto: se os fenômenos em um campo histórico são homogêneos entre si. p. porém. caso contrário de um campo uniforme e homogêneo. (FOUCAULT. da suposição de homogeneidade entre fenômenos decorre esta outra: . antes de avançarmos na caracterização do projeto de história geral. que uma única e mesma forma de historicidade prevaleça sobre as estruturas econômicas. que “apesar de sua aspiração de atingir o que chamava de ‘história total’. é preciso que sua evolução. com suas categorias de época e episteme. valores. ou mentalidades coletivas. Tanto é verdade que Burke (1997. 1972. por outro lado. observando. determinar que grau de afastamento o projeto historiográfico de Foucault estabelece em relação à historiografia que ele recorrentemente cita como revolucionária. 1972. É preciso. p. De modo que não parece correto direcionar à crítica da história global de Foucault a Braudel e a história estrutural que ele praticou: falta-lhe aquela suposição de homogeneidade entre os fenômenos. pois. 51). Mas.. necessitamos agora comparar essa crítica à história global aos grandes projetos desenvolvidos pela Escola dos annales até a década de 1970: a história estrutural de Fernand Braudel e a história serial de Pierre Chaunu.

18). espírito. o jogo das correlações e das dominâncias. qual é.52 econômico. o que importa é que o domínio dos objetos da história não seja previamente estruturado por um princípio de unidade que remeteria a função da consciência. uma história geral desdobraria. Basicamente. à procura de uma história global. a um tipo coerente de civilização. produzir uma história dos “sistemas de civilização”. de que efeito podem ser os deslocamentos. ao estabelecimento de um sistema de valores. 1972. o espaço de uma dispersão (FOUCAULT. Dito de outro modo. em que conjuntos distintos certos elementos podem figurar simultaneamente. o social. O que importa. ou. visão de mundo. as diversas permanências. que “quadros” é possível constituir. das determinações econômicas e da luta de classes – deu lugar. importa chegar naquela concepção nominalista que Foucault compartilhava com Paul Veyne (1995. 17) segundo a qual a história é um conhecimento acerca de um domínio de fenômenos limitado apenas pelo fato de . como se depreende da seguinte passagem da introdução d’A arqueologia do saber: Contra o descentramento operado por Marx – pela análise histórica das relações de produção. portanto. não somente que séries mas que “séries de séries”. 1972. o político e o cultural na história ‘total’” não se infere daí que ele postulasse não haver diferenças entre esses domínios. conjuntura e estrutura e viabilizar a integração entre domínios de fenômenos com periodizações diferentes. em resumo. ao contrário. cujo caráter relacional permitiria livrar a história dos princípios globais de explicação: O problema que se apresenta então – e que define a tarefa de uma história geral – é de determinar que forma de relação pode ser legitimamente descrita entre essas diferentes séries. p. Pelo mesmo motivo não poderíamos direcionar essa crítica a pretensão de Chaunu de. 21) É contra essa história que Foucault vê levantar-se a história serial. em que todas as diferenças de uma sociedade poderiam ser conduzidas a uma forma única. à organização de uma visão de mundo. Uma descrição global cinge todos os fenômenos em torno de um centro único – princípio. forma de conjunto. em outros termos. (FOUCAULT. que sistema vertical elas são suscetíveis de formar. a pretensão de Chaunu (1978) ainda é a mesma de Braudel e só diverge dela pela aposta nos meios quantitativos para realizar a articulação entre acontecimentos. p. no final do século XIX. a Foucault não é tanto que se busque estabelecer a posteriori um “sistema de civilização” ou que se tome a resolução de só trabalhar com dados passíveis de serem homogeneizados para a análise estatística. significação. p. aplicando as técnicas de análise estatística ao domínio cultural. De modo que a crítica de Foucault à história global tinha como alvo a história marxista e seu reducionismo econômico. de umas para as outras. as temporalidades diferentes.

53 terem acontecidos e que o trabalho do historiador não consista em transpor. mas seja justamente uma elaboração metódica do arquivo com a finalidade de resolver certos problemas. traduzir ou compreender a partir do arquivo. .

mas passa-se também a analisar praticas discursivas não-sérias (a biblioteca azul em Vigiar e Punir. por exemplo). Mas. no primeiro capítulo de Vigiar e Punir (FOUCAULT. não podemos ver senão uma ampliação do domínio de objetos das pesquisas: das práticas discursivas e. A leitura-padrão vê aqui uma modificação do objeto de pesquisa de Foucault. fazer uma analítica das práticas em geral supõe que se possa a partir de através de práticas discursivas (documentos) passar-se ao domínio do não-discursivo. E. a História (FOUCAULT. o qual está exposto teoricamente no ensaio Nietzsche. do domínio de objetos da arqueologia/genealogia. Genealogia. Supúnhamos ainda agora que em termos de método não se pode reconhecer diferenças profundas entre a arqueologia e a genealogia. deste ao da convulsão para os alienistas e da convulsão para o instinto da psiquiatria) e. das práticas discursivas ao domínio não-discursivo (dos suplícios ao aprisionamento. 2005a). modificação em sua tipologia. em primeiro lugar uma reorganização. teremos que. Mas. uma especial atenção para o poder. mais especificamente. eclesiásticas). como analítica das práticas não-discursivas. 3) em termos metodológicos. determinar se elas constituem uma ruptura na trajetória metodológica do autor. passagem do problema da emergência para o problema da procedência. médicas. analisando essas pesquisas. políticas. no prefácio de História da Sexualidade I (FOUCAULT. se negássemos as discrepâncias entre as obras que precedem e que se seguem a entrada do autor no College de France. 2008). se transformam e desaparecem. consultando os livros a partir de Vigiar e Punir e a transcrição dos cursos no College de France. das práticas: continua-se a analisar práticas discursivas sérias (jurisdicionais. contudo. as relações de poder e os mecanismos de poder que se formam. Essas discrepâncias são de três ordens: 1) uma renovada ênfase sobre relações não discursivas. nesse domínio tão vasto. Haveríamos de laborar em erro.1 A genealogia como método de análise histórica Passemos ao procedimento genealógico.54 CAPÍTULO 2 FOUCAULT. portanto. portanto. principalmente. 2) quanto ao conjunto documental utilizado pelo autor. nas relações de poder. 1988). em A ordem do discurso (FOUCAULT. Em . A GENEALOGIA E A HISTÓRIA 2. funcionam. como foco de análise. Temos. stritu sensu. Em suma. o domínio se amplia para as práticas em geral. a Genealogia. 2009b). das práticas discursivas no elemento do saber. da caça às bruxas ao problema eclesiástico da possessão.

mas que só pôde fazer através e a partir de certo poder. em História da Loucura e em Nascimento da Clínica. contudo. Para a história intelectual tradicional. Era possível. os dados e os fatos dessa história eram constituídos inteiramente no domínio discursivo. ele é um dado discursivo. o documento é. o documento é aí uma “fissura no silêncio”. então. uma memória. um dado e o próprio fato. tanto o objeto material (aquilo de que se fala). na série em que é alocada pelo pesquisador. 4) para esta história. porque é sintoma de uma prática. de uma relação de poder. é ainda. 2) para a história do discurso. um campo de visibilidade que constitui por si mesmo um dado de referência e um problema. que Foucault desenvolveu o modelo de análise das formações discursivas que descrevemos anteriormente. um trabalho bastante específico na ordem da história intelectual. ou melhor. trata-se de analisar formações discursivas. então. Aqui a crítica do documento é inversa: trata-se de mostrar que todo documento é um “fato que deixou um vestígio material”. Mais ainda. A crítica empreendida então contra essa história visava dissociar esses dois elementos. o fato de que tal e tal coisa possa ter sido dita em determinado lugar e momento – fato discursivo. justamente. em parte ao menos. É claro que.55 segundo lugar. memórias de casos). a saber. o documento volta a exercer sua função de memória. e esta é a inovação de Foucault. relatos apócrifos de todos os tipos. porém. foi em vistas deles. já que é em sua própria espessura que a trama das ideias se desenvolve. como o objeto formal (aquilo a partir de que se fala. ainda. o documento exerce uma série de funções: 1) ele um fato para a história do discurso. oriundos de formações discursivas bem positivadas (são as Lettres de chachet. um conjunto de dados que permitem a individuação dos acontecimentos discursivos (enunciados. exigiram que ele lidasse com um novo tipo de documento. mudança na base material da pesquisa: em As Palavras e as Coisas e. Assim. 3) ele é ainda um fato para a história das práticas não discursivas. O autor desenvolvia. pois os problemas. a biblioteca azul. em parte. já que essa referência só se torna possível a partir do “encontro com o poder”. um conjunto de dados que permitem individuar uma prática regular e rara . documentos que não eram. A especificidade desses discursos não pode ser negada: eram discursos com preensões de racionalidade científica e. o documento) da pesquisa. portanto. para essa analítica geral. de uma visibilidade – ele próprio é uma visibilidade. que o constituiu. elidir o momento do referente. que é interrogada sobre fenômenos que lhe escapam. chamada a responder pelo que testemunha involuntariamente. escaparam a consciência de seus contemporâneos. Os problemas que Foucault se coloca a partir da década de 1970. é uma memória. cuja positividade era evidente e bem delineável: elas eram. para termo arcaicos da teoria da história. porque. formações discursivas). nesses caso. ao mesmo tempo. trabalhada como monumento.

tal como. Quatro funções do documento. de modo que não necessitamos retomar esse ponto. que estão em questão o fenômeno de possessão em geral (do qual cada caso é uma manifestação singular). e esse é o ponto importante. ora a apropriação desse problema pela psiquiatria. a partir daí. Assim. nem falso. em tudo que lhe é mais singular. a vastíssima documentação do caso. eles podem ser tomados como dados para a descrição do fenômeno de possessão e para a sua integração numa genealogia que lhe indique a procedência (dos mecanismos de direção da consciência. contudo. conjunto de elementos a partir do qual um fenômeno pode ser reconstruído. elas simplesmente não podem ser colocadas pela história geral. jamais como uma “história” já constituída que devesse ser julgada verdadeira ou falsa. Os relatos sobre Loudun não são verdadeiros nem falsos. contudo. por uma peripécia sutil. não podem ser colocadas seriamente por nenhuma outra forma de história. E. em seus elementos.56 num momento qualquer. Considere-se. ainda que fosse possível. Em segundo lugar. mas marcas materiais complexas de um fenômeno. são tomados por Foucault em seu curso de 1975: por um lado. não é nem verdadeiro. ou interpretada para revelar-lhe o verdadeiro sentido. cada um desses documentos é sintoma de uma visibilidade distinta que indica ora um problema para a igreja da época. a história do referente tal como fora rejeitada pela arqueologia. por sua vez. que correspondem aos quatro vetores de análise que. como um conjunto de sintomas que permite descrever uma prática. constituirão o método de Foucault e seu projeto de história geral. As funções (3) e (4). um caso individual é aí sempre tomado. . essa história jamais se proporá questões do tipo: Grandier era de fato culpado? As freiras de Loudun foram de fato possuídas pelo demônio? – Qualquer que seja o grau de seriedade e importância que esse tipo de questão possa ter ainda. indica a visibilidade que o mesmo adquiriu à sua época e sempre renovadamente. Parece-nos que as funções (1) e (2) foram suficientemente analisadas quando do estudo da arqueologia. de modo que. algo que se nos torna visível através dos documentos. Elas parecem reintroduzir. significantes ou insignificantes. para o historiador. mas exatamente o que a palavra diz uma “aparição”. É muito evidente. o documento indica que o fenômeno de possessão se manifestou naquele lugar e naquela época. o fenômeno. por exemplo. à exceção da história eclesiástica. que envolveu certos personagens e acontecimentos – e. segundo a tese de Foucault) e descendência (o fenômeno da convulsão para a medicina). a duplicidade com que os documentos relativos às possessões demoníacas (principalmente o dossiê preparado e apresentado por De Certeau (2005) sobre a possessão de Loudun). como não há qualquer razão para ser nutrir ceticismo sobre esses detalhes. portanto. permanecem problemáticas. o fenômeno da possessão demoníaca.

criminalistas e psiquiatras. Em terceiro lugar. e. Demiens. Pierre Riviere. . 86 -87). um retorno dos historiadores ao arquivo. em gradação. Necessita-se da história para fazer surgir através desses casos. mas às custas da carne” (FOUCAULT. sejam apresentados não para ser refazer o julgamento sobre eles. portanto. deixa inteiramente ao leitor a responsabilidade de julgar. igualmente condenado e que. alquimistas. que os caracteres dos doentes mentais e. por fim. as práticas duvidosas destinadas ao seu tratamento. terão sua hereditariedade assinalada. É porque o alienado de Esquirol provém do mesmo espaço de constituição e diferenciação do doente venéreo. em favor do corpo. não para encenar um tribunal fictício no qual a justiça poderia lhes ser tardiamente concedida: não se necessita ser historiador para se fazer esses julgamentos que não mudam o fato de que Demiens foi supliciado de forma atroz. se achar necessário. que são singulares. homossexuais. das sociedades passadas e do conhecimento. 47 Eu Pierre Riviere. Genealogia. logo. que Riviere foi. Ali. embora pudesse acrescentar muito ao conhecimento do caso (o que pode ser de interesse dos padres. que. no decorrer do séc. mágicos. Não se necessita da história para realinhar esses fatos ao anacronismo natural da consciência: qualquer um poderá dizer que se devem aos costumes primitivos. à loucura. 2009. dissipadores. “humanamente” arrancada por Esquirol. mas. já parcialmente desenvolvido em História da Loucura. etc). retorno ao vetor da procedência. volta-se “ao mesmo tempo contra a doença e contra a saúde. é ainda nesse espaço. não se pôde condenar Cornier. Daí que os casos singulares (Heriette Cornier. Daí também a necessidade de se publicar esses documentos47. aconteceram de fato. mas que não tem nenhum interesse histórico) – de modo que o que escapa aos documentos. sua emergência tem de ser assinalada no espaço do internamento geral da qual será. adúlteros. portanto. pelo contrário. qualquer que seja nosso julgamento atual sobre eles. a figura polimorfa do doente mental entregue a psiquiatria moderna tem de ser decomposta.57 “transportar-se para outro presente”. escapa à história é justamente o que não tem nenhum interesse histórico. 2) blasfemadores (supostos feiticeiros. Herculine Barbin. etc). p. com sua análise e conclusões. de desobrigar o historiador desses juízos de valor que nada acrescentam à sua ciência: a escrita dessa história. São as familiaridades que o desatinado cria com: 1) devassos (doentes venéreos. os fenômenos que os constituem e ultrapassam. que se pode ver aí a gênese de “certa terapêutica aplicada. em termos metodológicos. XIX) “a qual do mesmo modo. à imperfeição das instituições passadas. como analítica das visibilidades históricas. isso nada acrescentaria ao conhecimento do fenômeno. parece ter sido o primeiro de uma série de dossiês que se tornaram comuns na década de 70 e 80 e que marcam. segundo Chartier.

de fato. até certo ponto. também sua emergência e dinastia próprias. História da Loucura. 81). A dinástica não está para a arqueologia como um elemento estranho ou cruzado. implica que esse figura. certamente. 83). que concedem ao alienado moderno certas características e evoca certos tratamentos comuns (FOUCAULT. da constituição de uma dinástica. sejam analisados tanto em sua formação atual quanto em períodos em que não se encontram. transcrição das aulas de 1975. p. que envolve a análise das emergências. etc). Isso teve várias consequências. 2009. mas como seu necessário prolongamento. quanto para a recepção das mesmas. Consultemos Os Anormais. Daí. Trata-se. como explanou o autor. Genealogia. o incorrigível e a criança masturbadora). Muitos outros exemplos são encontrados: genealogia (i. tanto para o resultado dessas pesquisas. 3-23). mas dos quais dos os seus gens provêm: do anormal em sua triplicidade (o mostro humano. Primeiro. torna praticamente impossível individuar as pesquisas para fazê-las caber na forma clássica do livro. sua emergência a partir do discurso dos alienistas (de Esquirol e Pinel até por volta de 1850). a grande dinástica da anormalidade. mas uma continuidade em termos de transformações amplificadoras. 2009. quer a base material dessas pesquisas. não devemos ver senão como retomada desse procedimento amplo.58 profanadores. se relacionam. a complexidade do método que consiste analisar as emergências e dar-lhes a procedência. . quer os procedimentos que ela aciona. De modo que o primeiro trabalho “genealógico” do autor foi. poderoso e ridículo sobre o anormal (FOUCAULT. mas a faz a serviço das análises de procedência. portanto como dinástica das práticas e dos discursos. se conectam e tem a mesma natureza das pesquisas empreendidas por Foucault a partir de 1970. já que “pode-se dizer que esse gesto [o gesto de proscrição do louco] foi criador de alienação” (FOUCAULT. a pouca inteligibilidade que os livros de Foucault adquirem isoladamente. 194). certamente. quer consultemos o domínio de objetos das pesquisas que Foucault empreende a partir da década de 1970. e (3) libertinos (pensamentos extraviantes). e o discurso competente. 2010. ou re-extensão.e. p. o anormal. até as formações de saber-poder em que emergem e se conectam. Mas essa tripla extensão. 2010. e o que a leitura-padrão vê como ruptura. não encontraremos nada que se pareça com uma ruptura ou substituição: a continuidade é evidente. e. Assim. e encontraremos tanto a análise do discurso psiquiátrico de Charcot e seus sucessores. como sua procedência a partir do “entrelaçamento e essa batalha entre o poder eclesiástico e o poder médico” (FOUCAULT. p. para cada figura. entre tantas outras análises ou conclusões que. procedência) do internamento a partir do modelo de exclusão do leproso.

ao que somente traduzimos para uma linguagem ainda mais formalizada. em pronunciamentos informais (entrevistas). em pronunciamentos formais. nem ficará sem resposta – para estender seu projeto para além do seu domínio de formação. tínhamos a disposição uma exposição formal do mesmo. em contraposição a ênfase dada ao saber em Nascimento da Clínica e As palavras e as coisas. 3ª) complexidade da análise de emergência e da análise de procedência. assim individuados. no que elas não podem ser assimiladas ao método proposto n’A Arqueologia do Saber. são comparados às indicações teóricas propostas nessas pesquisas ou. finalmente. história da Revolução Francesa. Finalmente. não dispomos de nenhum tratado teórico. principalmente. Neste caso. resenhas. retomamos as pesquisas publicadas. 2ª) complexidade da função documental. agora. mas extravagantes (ensaios. de certo modo. Isso porque. e a forma hiperbólica que as conclusões dessa história geral aparentam quando vistas pelo olhar das histórias particulares (história da França. considerada a hipótese de extensão metodológica com a qual trabalhos. Ajunte-se a isso. jamais reivindicado pela comunidade historiográfica. e raiz donde todas as dificuldades provêm. o conjunto de procedimentos assim delimitado e comparado aos procedimentos do modelo de descrição . os procedimentos novos. justamente pela ausência de um tratado teórico. na falta ou em complemento a estes. virá se somar um conjunto de imprecisões cronológicas. a tranquilidade do domínio da história intelectual. constantes dos Ditos e Escritos.). Primeiro. uma terceira característica marcante das pesquisas da década de 1970: a ênfase sobre o elemento do poder. artigos) e. deixando. a ausência de uma exposição formal por parte do autor das teorias que balizam o procedimento: quando lidávamos com o modelo de descrição arqueológica. ou pronunciadas por Foucault depois de 1970. portanto. À pouca inteligibilidade das obras isoladamente. como analítica do poder. Em suma. temos então de lidar agora com um modelo teórico que engloba e absorve o modelo da arqueologia do saber. da descrição de uma formação histórica e de sua dinástica. história do século XVIII etc. Isso implica um certo número de dificuldades para o trabalho de formalização: 1ª) Complexidade da correlação discursivo-não-discursivo. como quarta dificuldade. terá consequências interessantes para a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica. Foucault invade o terreno da história dos historiadores – “barbaridade” que não passará despercebida por muito tempo. necessitamos precisar o método de formalização que empregamos na pesquisa e cujos resultados são os que se seguem. mas somente das pesquisas empíricas e de indicações metodológicas presentes nas mesmas. subsidiariamente. Genealogia.59 que integra o procedimento arqueológico no projeto de uma história geral.

intervém uma hipótese de simetria. e as práticas são fenômenos que se podem reconstruir. De modo que. à plástica. O que interessa a Foucault são as práticas. porque. regulares. mas não uma ruptura radical em relação ao projeto metodológico exposto n’A Arqueologia. 80). conserva-se o mesmo modelo de descrição do procedimento arqueológico. Tem-se também proximidade entre As palavras e as imagens: “O discurso e a figura têm. Nesse sentido. é que detém a autoridade última sobre esse assunto. escrito por Foucault. p. um primeiro passo nesse sentido está na caracterização do discurso como uma prática: dizer é fazer alguma coisa. certamente. uma analítica das práticas. É seu funcionamento recíproco que se trata de descrever” (FOUCAULT. é ainda ao próprio tratado de 1969 que recorremos para caracterizar a prática: elas são raras. o tratado de 1969 previa que a analítica dos discursos devia correlaciona-los a práticas não-discursivas e. teoricamente. Nesse caso. tanto quanto for possível é preciso fazer a genealogia espelhar (por continuidade ou transformação) os vetores da arqueologia – uma vez que. o que é característico dessas práticas estudadas por Foucault ao longo da década de 1970 é a correlação entre o saber e o poder: as práticas serão aí sempre tomadas em um sentido político. no entanto. a partir de relatos de casos. não é a uma ruptura que nos referimos. . E. em primeiro lugar. todo fato. mas à generalização que leva da análise de uma prática específica (a prática discursiva) às práticas em geral. seu modo de ser. cada um. Há toda uma região em que práticas e discursos dão lugar à figuração. Mas. um deslocamento de objetos. toda formação histórica.60 arqueológica e. A genealogia é. Nessa etapa final. ou seja. A Arqueologia do Saber. essa correlação só poderia ser estabelecida se primeiro as próprias práticas fossem analisadas por si mesmas. o deslocamento de perspectiva para o domínio do não-discursivo implicará a sobreposição da análise à esfera da história propriamente dita. p. mas eles mantém entre si relações complexas e embaralhadas. As práticas são raras. exteriores e acumulativas. a partir de casos. outra vez. como único tratado de método. pois a razão é naturalmente aistórica: 48 As práticas não recobrem inteiramente o domínio do não discursivo. um fazer próprio que não atualiza a figura ideal de si mesmo que já estaria disponível à razão. Ora. as formações históricas não podem ser antecipadas pela razão. quando falamos de uma modificação do domínio de objetos das pesquisas de Foucault em meados da década de 1970. De fato. conforme previsão d’A arqueologia do saber (FOUCAULT. 234-235). como bem ressaltou Paul Veyne. é uma organização singular. ou.48 Com relação às práticas discursivas. metodologicamente falando. aqueles que possuem o mesmo nível de generalidade recebem uma formalização similar. 2005b. Há aqui. em primeiro lugar. de que se poderia fazer a arqueologia e a genealogia. não encontraremos nada de especialmente novo no empreendimento: trata-se de analisar fenômenos com base em casos dos quais se dispõe de relatos. portanto. como repisamos.

um sacramento e não comportava a ritualística da confissão. tal estatuto somente poderia ser adquirido em uma cerimônia própria: “numa cerimônia pública. os fatos humanos são arbitrários. em todo caso na comunhão. (VEYNE. 1995. que tinha o direito de conferir. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT. estatuto. Quatro características portanto: 1) é um estatuto. a penitência não era. p.) em função da severidade das penas” (FOUCAULT. 147). o estatuto de penitente” (FOUCAULT. a interdição dos cuidados de limpeza. nem são a interpretação de nenhum caso particular de penitência primitiva. 44). pelo contrário. não estão instalados na plenitude da razão. p. (3) o qual consiste em um conjunto de atos por parte do penitente. 2010. 2010. o penitente. p. 146). p. etc. e somente o bispo. a quem o podia. p. que sempre reconhecível nos casos individuais através dessas quatro características.61 os fatos humanos são raros. no entanto parecem tão evidentes aos olhos do contemporâneos e mesmo de seus historiadores que nem uns nem outros sequer os percebem. no sentido de Mauss. finalmente. não há nada aqui de estritamente diferente do que faz todo historiador: “escr ever história é conceitualizar”. Ela consistia em um conjunto de atividades que o penitente tinha que realizar: “o uso do cilício. Esses quatro elementos. a Igreja pôde prescindir desse uso brutal em favor de um mecanismo de remissão de pecados mais humano e civilizado.. Essa conceitualização não visa mostrar que a verdade da penitência foi perdida sob as reformas da Igreja Latina ou que. a imposição de jejuns rigorosos. uso do silício. p. que Foucault abstrai da obra A History of Auricular Confession and Indulgences in the Latin Church de Henry Charles Lea. (4) que só pode ser outorgado ou revogado de um determinado modo. há um vazio em torno deles para os outros fatos que o nosso saber nem imagina. não são óbvios. através de um sujeito qualificado. mas a reconstrução de um fenômeno raro (fadado a desaparecer por volta do século IX) e regular. p. Trata-se de conceitualizar o fenômeno e. pois o que é poderia ser diferente. Finalmente. 2010. de hábitos especiais. o bispo. Primeiro elemento: “a penitência era um estatuto que as pessoas adotavam de forma deliberada e voluntária” (FOUCAULT. 2010. como bem observa Veyne (2011. pois. 239-240) Considere-se a análise da prática da penitência no cristianismo primitivo: muito diferentemente do que ocorre atualmente na Igreja Latina. a interrupção de toda e relação sexual e a obrigação de sepultar os mortos” (FOUCAULT. não descrevem. 147). 2010.. Mais ainda: “era o bispo. 147). a exclusão solene da Igreja. a não participação nos sacramentos. atribuído a um (2) indivíduo. Só o . um ato solene de quem o atribuiu. E o que a penitência visa em todo caso (5) é a “remissão dos pecados (. 147). no cristianismo primitivo.

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que se quer, nesta descrição, é mostrar a diferença desse fenômeno, a penitência no cristianismo primitivo, para os fenômenos que sucessivamente emergirão na Igreja Latina e que recebem o mesmo nome. Por detrás de uma característica supostamente universal dessa parcela do cristianismo, o que se encontra é uma multiplicidade de práticas singulares, cujos elementos e a relação entre seus elementos as isola umas das outras. Voltemos a um caso mais complexo: a investida do demônio em Loudun. Com base no dossiê preparado por Michel de Certeau (2005), Foucault (FOUCAULT, 2010, p. 177) toma Loudun como caso princeps do fenômeno da possessão, que se reconhece também em Saint-Médard e Aix. Como no caso anterior, o fenômeno é reconstruído em seus elementos singulares e diferenciais (em relação aos casos de feitiçaria, que os antecede, e aos casos de aparições que os sucedem): a) “a possuída é a que confessa”, em contraposição à feiticeira “que é denunciada” (FOUCAULT, 2010, p. 176); b) o espaço da possessão é o “foco interno” do catolicismo, enquanto que a feitiçaria “aparece nos limites exteriores” (FOUCAULT, 2010, p. 177) dele; c) a relação na feitiçaria é dual e jurídica, representada pelo pacto que a feiticeira faz com o demônio; já na possessão, tem se uma relação triangular: o diabo, claro; a religiosa possuída, na outra ponta; mas, entre os dois, triangulando a relação, vamos ter o confessor” (FOUCAULT, 2010, p. 177); d) finalmente, a possessão é um fenômeno da carne, não mais “um ato sexual transgressivo”, mas a “penetração do diabo no corpo” (FOUCAULT, 2010, 179). Deve-se a esses quatro elementos, um quinto, que consiste na revivicação, ainda que bastante transitória, da feitiçaria: alguém deve ser o responsável pela possessão e, não se podendo, pelas características do fenômeno fazer recair a culpa sobre a própria possuída, ele deve ser o confessor, Padre Grandier, “sagrado feiticeiro e sacrificado como tal” (FOUCAULT, 2010, p. 186). Vê-se, portanto, que a análise do fenômeno da possessão implica simplesmente na decomposição dos elementos dos relatos do caso recolhidos por De Certeau, desde que possam também ser reconhecidos em outros casos, e na descrição diferencial do mesmo em relação a fenômenos que se encontram no mesmo domínio, o do “sobrenatural” na Igreja Latina. Se agora compararmos a descrição foucaultiana com a apresentação do caso Loudun feita por Michel de Certeau (2005), certamente diferenças marcantes, não tanto quanto à “compreensão” do caso e do fenômeno da possessão, mas quanto à série em que o fenômeno deve ser alocado, quanto ao problema de cuja resposta é elemento. Para De Certeau o quadro no qual o assalto dos diabos de Loudun se inscreve é o que faz cruzar a religiosidade política, marcada pelo enfrentamento entre católicos e huguenotes e o da política religiosa de

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Luis XIII e, principalmente, do Cardeal Richelieu. É na convergência entre o poder político e o poder religioso que a possessão emerge como um novo episódio das guerras religiosas que assolavam a França. Para Foucault, por outro lado, o que interessa são os elementos intrínsecos do caso: o fenômeno da possessão é um fenômeno intrinsecamente religioso e, portanto, é no interior da dinâmica do poder religioso que ele deve ser caracterizado. Essa descrição intrínseca tem, no entanto, por objetivo colocar o fenômeno da possessão no cruzamento entre a série do poder eclesiástico e do poder médico – objeto do curso de Foucault em 1975. De modo que entre a breve, porém audaciosa tese de Foucault sobre a possessão, e a análise meticulosa do caso Loudun por De Certeau, há uma diferença historiográfica marcante que se decompõe em elementos que aproximam e, ao mesmo tempo, isolam dois modos de fazer histórico: De Certeau pretende analisar o caso Loudun e Foucault pretende analisar o fenômeno geral da possessão na Igreja Latina; por isso, o trabalho de De Certeau tende à exaustividade enquanto a tese de Foucault é pontual; por fim, La possession de Loudun de De Certeau é a base da tese de Foucault, o fundo a partir do qual esta adquire sua viabilidade historiográfica; a breve caracterização do fenômeno da possessão em Os Anormais, por outro lado, é complementar em relação ao trabalho de De Certeau: desenvolve-lhe elementos pontuais e permite ulteriores desenvolvimentos, mas não se opõe a ele. Do mesmo modo, o fenômeno da possessão e o caso Loudun poderiam entrar em outras séries, outras histórias; e outros elementos, seriam, então enfatizados. De modo que, os elementos que se enfatiza, com que se reconstrói um fenômeno histórico, dependem, evidentemente, do problema que o historiador se propõe a resolver. A inteligibilidade que um fenômeno adquire num trabalho histórico é uma inteligibilidade relativa, não à pessoa do historiador, mas à problemática escolhida. Grosso modo, porém, a descrição das práticas enfatizará os caracteres elementares: a) quem é qualificado ou competente para a prática? b) qual é a “cena” (lugar, instituição, tradição, período) em que a prática emerge? c) que conjunto de “atos” permite reconhecer a prática? d) que discurso a atravessa? Assim, para o fenômeno da possessão os sujeitos (a) são pessoas religiosas; a modalidade da prática (b) se individua por suas características urbanas e eclesiásticas; a atividade (c) sob a qual se manifesta consiste em tudo que a possuída faz (como age, o que sente, etc) e fala (toda sorte de blasfêmias) que permitem caracterizar o desenrolar da possessão como um “jogo de consentimento” (FOUCAULT, 2010, p. 180), uma batalha na espessura do corpo (FOUCAULT, 2010, p. 182); finalmente, o fenômeno é atravessado por discursos que ora o

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recodificam no antigo sistema da Inquisição, ora o expurgam da competência eclesiástica (FOUCAULT, 2010, p. 183). A regularidade de uma prática, portanto, poderá ser estabelecida por esses quatro elementos: sujeito, modalidade, atividade e discurso. O modelo de análise do discurso já se encontra estabelecido pelo procedimento arqueológico. Já o sujeito da prática, por simetria ao sujeito do enunciado, será uma posição vazia, determinada ou indeterminada: dada uma certa prática, alguns sujeitos estarão qualificados para figurar como um de seus elementos enquanto outros não o poderão. O sujeito não é, assim, aquele que “funda” uma prática, mas um elemento, indispensável certamente, para que uma prática se estabeleça. Considere-se um terceiro exemplo, o do verdugo na arte do suplício. Ele é encarregado de executar a sentença do tribunal, agir sobre o corpo do condenado e destruí-lo. Mas esse ofício simples, carrega, no interior do suplício um conjunto de regras do “fazer” a partir das quais a eficácia do mecanismo de que ele é uma engrenagem está em questão: matar, certamente, mas não de qualquer modo: ele deve ser um artista, em todo caso, um artífice da “arte quantitativa do sofrimento” (FOUCAULT, 2009, p. 36), arte
cruel, certamente, mas não selvagem. Trata-se de uma prática regulamentada, que obedece a um procedimento bem definido, com momentos, duração, instrumentos utilizados, comprimento das cordas, peso dos chumbos, numero de cunhas, intervenções magistrado que interroga, tudo segundo os diferentes hábitos, cuidadosamente codificados (FOUCAULT, 2009, p. 41)

Além de artífice, o carrasco deve ser um ator, um doublé do Rei, pois “na punição [deve haver] pelo menos uma parte, que é do príncipe” (FOUCAULT, 2009, p. 48). E, sendo o suplício “a manifestação excessiva” da força da soberania, a atrocidade que vem anular o atroz (FOUCAULT, 2010, p. 71), “o executor não é simplesmente aquele que aplica a lei, mas o que exibe a força” (FOUCAULT, 2009, p. 51). É aí onde as virtudes, as qualificações, do carrasco devem aparecer: o papel, no sentido teatral, que ele tem de encenar é o do próprio príncipe em uma “justa” cujo desfecho é incerto: “Se o carrasco triunfa, se consegue fazer saltar com um golpe a cabeça que lhe mandaram abater” (FOUCAULT, 2009, p. 51) ele triunfa e com ele o poder do soberano; se, pelo contrário, “ele fracassa, se não consegue matar como devia, é passível de punição. Foi o caso do carrasco de Damiens, que, como não soubesse esquartejá-lo de acordo com as regras, teve que cortá-lo com a faca; confiscaram, em proveito dos pobres, os cavalos dos suplícios que lhe tinham prometido”. (FOUCAULT, 2009, p. 52). Em suma, havia toda uma série de regulamentações, prescrições, costumes e

. para que algumas dessas práticas sexuais possam ser consideradas “pecados”. E toda essa distinção dava lugar a reações bastante diferenciadas: o suplício foi aplicado à sodomia perfeita. só pode ser. na linguagem atual. religioso. o rapto [. se o sujeito é casado ou consumou o ato sexual com uma pessoa casada. Uma prática sexual só é subversiva.].. que não pertence “à prática mesma”. só há estupro. O que implica que. o adultério [. jurídico.].. só há incesto se o sujeito é parente do parceiro até o quarto grau de consanguinidade ou afinidade. envolvidos. quase exclusivamente. Uma regra básica da erótica grega em relação aos “rapazes” é justamente de que a relação se dê entre um cidadão e um efebo e que. 159). “ativo”. ao que podemos chamar de aspecto relacional da sexualidade” (FOUCAULT. 2010. a qualificação de quem as pratica é essencial: assim.. Considere-se o sexo anal na prática da confissão do século XVII: o sexo entre dois homens.. intelectual. caso se tratasse de uma afeição entre elas.]. 2009. 159). então: o amor grego.. só há adultério. de sodomia imperfeita. para muitas dessas práticas subversivas. não passava de uma copulatio fornicaria. se era praticado entre um homem e uma mulher. tinham que responder: “a fornicação [. A prática do amor pelos rapazes não é transitiva. Outro exemplo: as “regras sexuais” às quais o penitente entre os séculos XII e XVI. mas “contrário à natureza’” (FOUCAULT. só há fornicação se nenhum dos praticantes é casado e se não estão ligados por voto ou casamento. de certo modo.. Vamos a um último exemplo. 2010. em relação ao estatuto do sujeito. ou se tratava do menos grave pecado de descarregar a libido (explenda libido) ou. Pode-se argumentar que o estatuto do sujeito é como que uma qualificação imposta “de fora”. a bestialidade [. na relação. mas. p. era sodomia perfeita. a molesa [. no mais das vezes.65 proibições cercando “esse “ofício muito necessário’.]. se o desejo do homem se dirigia “a um gosto particular pelas partes posteriores. O que o autor observa é que a “filtragem das obrigações ou das infrações sexuais concerne quase inteiramente. E a primeira questão da analítica das práticas deve ser então: quem é preciso ser para fazer tal coisa? . o estu pro [. E. o que está em questão na acusação contra Sócrates é justamente a de inverter essa regra: seduzir a juventude. os estatutos sociais de ambos sejam conservados: o cidadão deve ser. a sodomia [. etc.. 2010. o estatuto. não supõe o amor dos rapazes.. p.. ou dos sujeitos..]. “passivo”.]” (FOUCAULT. p. que é simplesmente uma “repressão”. ama-se os rapazes.]... então é uma sodomia imperfeita” (FOUCAULT. 52). se o sujeito não tem a obrigação de se casa com a virgem que deflorou. se eram duas mulheres. não se é amado por eles. mas não às outras práticas. técnico. o efebo. p. O que está em questão em toda prática é o estatuto do praticante: estatuto social. moral. mas meramente por um desejo pelo sexo feminino.. 188).

.] os quatro membros .66 Em segundo lugar. mas também seus espectadores.] Em cumprimento da sentença.] os cavalos deram arrancada [. do mínimo ao máximo: primeiro Damiens devia “pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça.. a penitência no cristinismo primitivo exigia uma “cerimônia pública.. p. p.. enfim. portanto. medindo cerca de um pé e meio de comprimento.. não menos necessários que aqueles.] depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha [. ele foi levado à praça onde encontrou um caldeirão de água fervendo. nu. com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos. do assassino de Guilherme de Orange: O assassino de Guilherme de Orange foi supliciado durante dezoito dias: “No primeiro dia. a prática é um fazer. mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. foram lançados numa fogueira preparada [.] sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio” (FOUCAULT. 147). é um conjunto de atos específicos. p. e somente o bispo. muito mais atroz em resposta a maior atrocidade do crime. a todos os graus de dor física. tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc. Compare-se agora ao suplício. Acendeu-se o enxofre. em seguida os mamilos [. O suplício não se faz de qualquer modo: vai da infâmia pública (que se reverte na glória da soberania) à dor física. O suplício é um grande teatro de atrocidade. uma prática é constituída por tudo que ela requer para existir: um lugar. um ritual.. das pernas e dos braços [.. Mas.. uma vez soltos das cordas dos cavalos. 2010..] mas sem resultado algum [. que o sujeito resolvesse tornar-se penitente. vê-se facilmente que ali o poder de punir se exerce de modo teatral: o punição é para ser exibida. atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita. um executor.. Depois.. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT. carregando uma tocha de cera acesa de duas libras [.] Depois de duas ou três tentativas. 10-11). de mangas arregadas acima dos cotovelos.. no qual foi enfiado o braço com que desferira o golpe. Além de um “voluntário”. depois sobre o patíbulo erguido frente à igreja.] a seguir fizeram o mesmo com os braços [. 2009.. o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo[.. daí passando às duas partes da barriga do braço direito. Se agora nos voltarmos ao exemplo do suplício de Damiens. tudo foi reduzido a cinzas (FOUCAULT. um jogo se se preferir... um parceiro. de camisola. o autoriza-se a isso e presidisse o ritual a partir do qual o fiel adquiria a condição de penitente. etc. 2009. era preciso não só que o bispo.] o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida. 9). sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas. No dia . depois a coxa. Não bastava.. tem seus atores.

dá lugar a uma certa tática e. estrangulando-o. o qual. do assassino de Guilherme. 2010. para seus contemporâneos. tendo caído a seus pés. e. O que se quer dizer. ele ainda pedia água. às vezes. cada ato da prática. foi atenazado pela frente nos mamilos e na parte dianteira do braço. consecutivamente. foi atenazado por trás. mas eles foram executados segundo o que prescrevia a lei penal dessa época bárbara que não é a nossa”. Voltemos ao suplício. recebem o mesmo nome. mais erudita responde: “sim. palavras vazias. No terceiro dia. No quarto. matar e executar. ao tempo. até mesmo. fazer a guerra. Ela diz: “esses homens foram mortos de forma brutal”. e. Toda prática. comer e andar. esses objetos naturais ou parcialmente naturais. uma variedade de práticas que. punir. nada tinham em comum. ao que a consciência. E assim. se não constitui por si mesma uma estratégia na guerra perpétua do poder. Matar. ele teve de empurrar com o pé.67 seguinte o braço foi cortado. etc) quando tudo se podia fazer com seus corpos e nada eles próprios . Enfim. aos instrumentos. e matar de forma brutal é algo que as pessoas fazem. p. de cima a baixo da escada. é que a história mostra uma diversidade infindável de práticas que. entre estas. ao analisar cada momento. com que a consciência sintetiza um conjunto de práticas muito heterogêneas: práticas presentes com práticas desaparecida. é que não se mata de qualquer jeito como não se ama de qualquer jeito. historiar. É evidente que supliciar é uma prática que se investe e toda uma maquinaria de poder que tem por efeito finalístico a reativação do poder soberano (poder de deixar viver e fazer morrer). para que sua alma não desesperasse” (FOUCAULT. E. por fim. no braço e nas nádegas. no último dos quais foi submetido à roda e ao corpete. Ao cabo de seis horas. dominar. que camuflam a singularidade da prática do suplício. matar. 72) E o que nossa consciência (necessariamente a-histórica) não compreende é a singularidade formada por essa sucessão de atos. A prática é algo complexo. historicamente. Supliciar supõe um conjunto de atos que obedecem a uma regularidade própria quanto ao lugar. Mas são justamente essas palavras. parecerá absurdo falar de uma prática do supliciado (de Damiens. que não lhe deram. ao menos pode dar lugar a uma. o que a analítica quer fazer aparecer é sua singularidade. Não é que cada época dê uma configuração diversa a esses fatos gerais da condição humana: amar. esse homem foi martirizado no espaço de dezoito dias. que “matar” e “amar” são. mas gostaríamos de analisa-la agora da parte de baixo: o suplício como prática do supliciado. enfim. executar é algo que a justiça penal faz. logo. solicitou-se ao tenente-penal que pusesse fim a ele. aos efeitos sobre o corpo do condenado e sobre a massa de espectadores: é uma prática específica e datada que só existe cercada de uma infinidade de práticas e discursos que lhe são correlatos. curar.

reverendo”.] Tendo voltado os confessores. pedindo perdão a Deus e aos homens por seus crimes. acaba por elevá-lo. o que dá lugar a um conflito entre a autoridade civil e a penitência religiosa : “O condenado se tornava herói pela enormidade de seus crimes” e se “era mostrado arrependido. 9-11) Reduzido a cinzas. ou ao menos. que Foucault analisa em Vigiar e Punir (FOUCAULT. como um santo” (FOUCAULT. aceitando o veredicto...] O senhor Le Bretton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada: disse que não. a passividade aparente de Damiens constitui uma prática específica: Afirma-se que. [. na palavra e na ação do condenado. mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. [. ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. Damiens.] Ele levantava a cabeça e se olhava. Segundo o relato em que Foucault se apoia. com cada tortura. Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima. Os carrascos se reuniram. a confissão funciona em dois registros diferentes: da prática penal nos rituais de suplício. A primeira tática consiste. Mas não é bem assim. apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis. . 2009) e da prática eclesiástica no mecanismo da penitência.68 podiam fazer. 2009. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): “Beijem-me. 64) 49 Assim.. É no interstício desses dois mecanismos. [. tende piedade de mim. aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. p. era visto purificado. falaram-lhe outra vez. aos olhos de Deus. 2010) e n’A vontade de saber. O supliciado confessa e se redime. que ele pede perdão. e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem.. e muitas vezes repetia: “Meu Deus. morria. escrivão. mas não reduzido a nada. nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios.. da forma como costumamos ver representados os condenados: “Perdão. 2009. O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem.. entrar em um tipo de oposição com o poder civil.. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente. estendia os lábios e dizia sempre: “Perdão Senhor”. pois não lhes queria mal por isso. beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam. p. rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa” (FOUCAULT.] O senhor Le Bretton. . Disse que não. que cumprissem seu ofício. ganha sua alma: e é sempre a Deus. seguindo fielmente a regra de confissão49 do suplício. Não é bem assim: Damiens está morto. que o deveria lançar na infâmia. em fazer o poder eclesiástico se voltar contra. e a Deus somente.. embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador. nem é preciso dizer que ele gritava. que Foucault analisar na aula de 1975 (FOUCAULT. perdendo o corpo. Jesus socorrei-me” [. o supliciado está acabado e o poder soberano triunfa. que a palavra do supliciado estabelece sua primeira tática. o poder soberano ainda não assegurou seu triunfo. a sua maneira. meu Deus! Perdão Senhor”.

40). cuja presença real e imediata é requerida para sua realização” (FOUCAULT. finalmente.. p. 2010. 2009. O discurso da confissão e da contrição. no Curso de 1977. em segundo lugar.. Território. intrinsecamente. p. e 1975. que: [a] “o poder produz saber [. p. 29) caracteriza. 2005a). falta considerar o terceiro “parceiro” da prática do suplício: o povo. mas daí por diante na “lembrança”: o corpo esmagado pelo poder faz surgir um “herói negro ou criminoso reconciliado. naturalmente este é o primeiro postulado que Foucault elabora para a análise das relações de poder: a análise do saber reivindica uma análise do poder. “a transformação grega”. porque “nas cerimônias do suplício. ou da revolta e da obstinação. é daí que podem surgir essas “práticas populares que contrariam. . O postulado aparece. ou seja. na elaboração que lhe é dada em Vigiar e Punir. 65) A genealogia é. a analítica do poder se baseia em dois postulados fundamentais: o postulado da bi-implicação poder-saber e o postulado da estratégia. p. 30). uma “analítica do poder”. que constitui a forma geral da vontade de saber no Ocidente (FOUCAULT. afirma. das bibliotecas azuis” (FOUCAULT. p. ano em que Foucault ingressa no College de France. p. 5) O segundo postulado. segundo a definição dada em História da Sexualidade I. p. 1999. não apenas no momento em que é pronunciado. b) o modelo geral das relações de poder não é a soberania. o personagem principal é o povo. Tendo partido da analítica do discurso e do saber na década de 60. no Curso de 1975 sobre Os Anormais (FOUCAULT. Construída entre 1970. não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber. mas relacional. com o qual Foucault (2009. e. perturbam e desorganizam muitas vezes o ritual dos suplícios” (FOUCAULT.69 Em segundo lugar. Em Defesa da Sociedade. o criminoso dos folhetins. 45). defensor do verdadeiro direito ou força indomável. Foucault (2011) esboça uma análise da correlação dos saberes e dos poderes que lhes são correlatos na Grécia Antiga e da “elisão entre poder e saber”. 2009. dos almanaques. acaba por voltar-se outra vez contra ele. implica em proposições fundamentais: a) o poder não é substancial. previsto e requerido pelo mecanismo do suplício. 2009. no curso de 1976. uma “definição do domínio específico formado pelas relações de poder e a determinação dos instrumentos que permitem analisá-lo” (FOUCAULT. de modo que já no primeiro curso no College de France (Lições sobre a vontade de saber). o poder como estratégia. dos dispositivos de saber” (FOUCAULT. O primeiro. 56) E. p.]. 2009. 2008. 80). [b] nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (FOUCAULT. das novelas. em que aparece Vigiar e Punir. Segurança. 58). enfim. implicando na orientação da análise “para o âmbito. também. contudo. População (FOUCAULT. 1988.

anteriormente. trata-se de descrever formações históricas que dispõem o espaço no qual certos fenômenos podem emergir: tais formações são. Aqui. a funcionamentos. a respeito das análises desenvolvidas em Vigiar e Punir: . definem inúmeros pontos de luta.]. dentre outros. inversamente. c) o poder constitui uma relação recíproca. é o mecanismo do qual é um produto e uma engrenagem. agora. por fim. [.. a manobras. da tecnologia de governo das almas (Pastoral) que o Concílio de Trento instituiu. considerar o poder como estratégia significa: [a] que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma ‘apropriação’. sempre em atividade. 29-30) Ao dizer que o poder é relacional. nos deparamos com um problema de ordem exegética. Foucault reafirma a orientação nominalista de sua analítica do discurso: fenômenos históricos não são objetos naturais pre-disponíveis à descoberta da historiador nem fatos estabelecidos que requerem uma explicação em termos causais. mas a disposições. via de regra. na Igreja Tridentina é um mecanismo. o qual não poderemos contornar: nas análises de Foucault o poder tem sempre um caráter mecânico? Inicialmente acreditávamos que a partir das pesquisas da década de 1970 Foucault teria introduzido um método de análise mecânica das relações de poder. é. que se desvende nele sempre uma rede de relações sempre tensas.. p.. a técnicas.70 mas a guerra. Se. mas é também. uma prática sobre sujeitos. Foucault estava interessado em descrever formações discursivas no interior das quais certos acontecimentos discursivos (enunciados) tornam-se possíveis e nenhuns outros em seu lugar. 2009.[b] que lhe seja dado como modelo antes a batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. centrado no ritual da confissão. mas conjuntos de relações que a pesquisa histórica tem de traçar. A penitência é uma prática de sujeitos.] [c] Finalmente. (FOUCAULT. a táticas. de lutas e de inversão pelo menos transitória da relação de forças. contudo. pesa contra ela o seguinte trecho de sua resposta a Léonard. O sacramento da penitência. focos de instabilidade comportando cada um seus riscos de conflito. não são unívocas. um mecanismo que produz efeitos de poder sobre individualidades humanas. sob o conceito teórico de mecanismo ou dispositivo de poder Embora alguns pronunciamentos de Foucault pareçam endossar essa tese. Consideremos novamente o fenômeno da possessão. [. De modo que. mecanismos de poder. a tecnologia na qual está envolvido.. O que interessa a Foucault – e é aqui que seu procedimento começará a se especificar – é a formação na qual o fenômeno da possessão poderá tomar seu lugar.

Mas é a idéia. etc. em particular. 2009. importante enfim para compreender a gênese ou o crescimento de certas formas de saber. “cerimônia” (FOUCAULT. Assim. da transparência. quando tem de falar da mutação que leva do espetáculo ao mecanismo. é claro. Mutação técnica. 55) ou diretamente para denotar o suplício como “mecanismo da atrocidade” (FOUCAULT. e assim poder formalizar o instrumento de análise das práticas não-discursivas. É estudar o desenvolvimento de um tema tecnológico que acho importante na história da grande reavaliação dos mecanismos de poder no século XVIII. o único modo de evitar a confusão entre o conceito empírico e o conceito teórico. mas principalmente os termos “espetáculo” (FOUCAULT. 333) Assim. no século XVIII. veremos que em momento algum ele utiliza termos mecânicos para descrevê-lo. 2009. Nesse sentido. são organizadas por certas “tecnologias políticas . 2009. Se consideramos o modo como Foucault se refere ao suplício em Vigiar e Punir. importante também no nascimento de estruturas institucionais próprias às sociedades modernas. não é dizer nem que o poder é uma máquina. nem que tal idéia nasceu maquinalmente. 50). Fala ainda de uma “nova economia e uma nova tecnologia do poder de punir” (FOUCAULT. Ficando entendido. 86). 241). então. uma nova ‘economia’ das relações de poder.” (FOUCAULT. é deixar as noções de “mecanismo” e “dispositivo” valerem como conceitos empíricos construídos historiograficamente e fazer o termo “tecnologias” ou “técnicas” denotar o objeto geral da analítica do poder. da vigilância. que permanece aberta toda uma série de domínios conexos: o que aconteceu com os efeitos dessa tecnologia quando se tentou fazê-las funcionar? (FOUCAULT. 2009. Contudo. p. é a pesquisa teórica e prática de tais mecanismos.. mostrar o papel importante que nele ocupou o tema da máquina. 2009. de organizar semelhantes dispositivos que constituem o objeto da análise. em alguns momentos Foucault parece utilizar o termo mecanismo no sentido geral (FOUCAULT. do olhar. 14). é a vontade incessantemente manifestada. “ritual” (FOUCAULT. 55). na história geral das técnicas de poder e. 2009. 2009. no sentido político.71 A automaticidade do poder. p. Do mesmo modo. p. 2009. como se concebeu. 99): “é a passagem de uma arte de punir a outra. p. mas não como “mecanismo de poder”. de que um tal poder seria possível e almejável. das relações entre racionalidade e exercício do poder. mas globalmente ainda. p. Foucault utiliza o termo “arte de punir” (FOUCAULT. p. p ode-se afirmar que as práticas não-discursivas. 56). p. o caráter mecânico dos dispositivos em que ele toma corpo não é absolutamente a tese do livro. resta claro que “mecanismos” e “dispositivos” são conceitos empíricos construídos para descrever uma organização específica das “técnicas de poder” a partir do século XVIII. como as ciências humanas. p. embora o pronunciamento em A poeira e a nuvem não seja inequívoco nesse sentido. no século XVIII. não menos científica que ela. Estudar a maneira como se quis racionalizar o poder. p. 2012.

na forma de um prolongamento do questionamento da morfologia histórica da vontade de saber: “em que medida”. para usar uma expressão cara a Foucault. 49) Mas não se deve tomar a “dinástica” como sinônimo de “genealogia”. portanto. nos autoriza a tomar. A genealogia estabelece. Assim. Inversamente.72 específicas”: o suplício. se questiona o Foucault (2011. p. um vetor formalmente isolável das pesquisas foucaultinas. da emergência de uma prática. A analítica das relações de poder é. um dignitário. para todos os fatos discursivos ou não. a analítica das relações de poder decorre da analítica das práticas e. definido como “a relação que existe entre esses grandes tipos de discurso que podem ser observados em uma cultura e as condições históricas. a analítica do poder é uma analítica das práticas sobre o ponto de vista das relações de poder. Finalmente. Ainda que a genealogia e a dinástica estejam centradas no elemento procedência. ou através. está o jogo de forças que torna possível essa emergência: relações de poder. 5). as condições econômicas. um bem valioso. em conclusão a este ponto. na entrevista Da Arqueologia à dinástica. no âmbito desse elemento. o primeiro como arte do espetáculo. ou seja. a um modo de se exercer. Em segundo lugar. em primeiro lugar. De fato. a genealogia.” (FOUCAULT. o segundo como mecanismo punitivo. É o caso de traçar uma dinástica quando e somente quando seu objeto possui uma dignidade específica: o discurso portador de um saber possui uma dinástica porque o saber é. a analítica das relações de poder se articula com a dinástica. a dinástica como um caso particular de genealogia. que não necessariamente segue um modelo mecânico e cuja descrição nem sempre será mecânica. 2012. pp. o panopticismo. em 1972. todo poder remete a uma tekné (arte. como a vemos Foucault praticar no fim da década de 70 é um desenvolvimento dessa “dinástica do saber” que visava encontrar a procedência do . O termo aparece pela primeira vez. uma dinástica: traça-lhes a árvore genealógica e aponta as familiaridades mesmo as mais improváveis. O que não significa que seja um vetor autônomo. as condições políticas de seu aparecimento e de sua formação. em nossa cultura. Por outro lado. o direito das palavras. mantém com ela uma relação de dependência na especificidade. por trás. técnica). ele se articula com o projeto arqueológico. “é possível articular essa vontade de saber com os processos reais de luta e dominação que se desenrolam na história das sociedades?”. e o sábio. uma vez que o poder é o elemento a partir do qual a procedência de uma prática pode ser determinada.

primeiramente. 6). Daí que. p. mas entre filós ofos e historiadores: “Por algumas insinuações. por alguns sarcasmos mal sufocados. segundo Léonard (1982. p. 2. O título do texto já indica o fundo sobre o qual trabalha Léonard. de um passado. revelam é a concepção de que a história seja o “conhecimento do passado” (LÉONARD. ou seja. a necessidade de ter-se que se colocar em um desses campos. 2008. todas as realidades do passado”.2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 Apesar de divergências pontuais. mais do que saber o quanto uma proposição histórica é correta ou equivocada. se por pensamento entendermos mais que o discurso sério (incluindo a ética. por delegação. o texto que desencadeou o debate: o artigo “O historiador e o Filósofo” de Jacques Léonard. ou melhor. apesar da proximidade aparente. a clivagem ou mesmo a oposição entre filósofos e historiadores. O que Falta a Foucault. p. A arqueologia é a história dos sistemas de pensamento. Seja. arqueologia e genealogia perfazem um método único de pesquisa em vista de uma história que sirva como “etnologia interna da nossa cultura” (FOUCAULT. o empreendimento de Foucault ainda estava. após um breve prólogo elogioso. se dá conta de que Foucault não percebe sempre. largas horas meditativas no mesmo. pois. 8). p. é um “conhecimento íntimo e como intuitivo” de um período determinado. e permaneceu. a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica continuo promissor até o fim da década de 1970 quando o debate um debate em torno de Vigiar e Punir acabaria por resultar em uma “ruptura”. . E o que essa crítica. Conjuntamente. que o historiador só adquire quando “vive. senão as próprias palavras de Léonard. afirma Léonard (1982. 78). 1982. mais do que se saber quem tinha razão. que documenta um enfrentamento no qual.8). a primeira crítica já aponta para uma diferença de natureza. particularmente do século XIX. desde dentro. não necessariamente entre filosofia e história. de um período determinado. da qual decorre a impossibilidade de um domínio comum ao pensamento filosófico e ao trabalho dos historiadores.73 discurso típico das ciências humanas e cujo resultado é a tese da relação entre estas e a tecnologia política do exame exposta em Vigiar e Punir. é preciso se perguntar o quanto o historiador compreende do passado que ele evoca. Signo dessa ruptura é o livro de Michele Perrot. é preciso encontrar os elementos que mostram como. historiador especialista em história da medici na. a política e a estética) e se levarmos em conta que não há prática que não seja atravessada pelo pensamento. L’impossible prision. muito distante do trabalho efetivo dos historiadores.

se para Léonard. aqui. Um historiador as teria levantado. 1982. das questões médicas para “levantar a poeira dos fatos concretos contra a tese da normalização massiva” (LÉONARD. donde se depreende que para Léonard. 1982. aponta-las. aos especialistas em cada século levantá-las. p. fazer história é estudar um período. da educação. então. 10) O trabalho de Foucault é insatisfatório. nas omissões quanto aos objetos estudados. justamente ao fato de que não provém de um historiador. 12) Foucault. segundo Léonard. Mas isso não é tudo. portanto. Assim. mas resta ainda a questão do “método” de análise. Aparentemente. nem um controle maquiavélico. afirma Léonard (1982. certamente. 1982. Léonar d entende por “método”. as três críticas e o que elas nos revelam da concepção historiográfica de Léonard. 8) e todos os erros e omissões dos quais Vigiar e Punir é culpado. uma passado reconstruído. Leonard desloca o problema para a questão dos objetos e convoca os historiadores da sociedade francesa. do maquinista das maquinas. Reconsideremos. mas um conjunto de lutas políticas e sociais articuladas”. nem sobre um objeto. não detém domínio sobre um período. 16) De modo que há o século XIX de Foucault e o século XIX dos historiadores: “O século XIX dos historiadores. do trabalho. (LÉONARD. mas isso decorre do fato de que Foucault não detém um período. sob cuja ausência “nos vemos situados em um mundo kafkiano” (LÉONARD. p. A primeira se detém na falta de erudição de Foucault a respeito do século XIX. um certo parâmetro de interpretação. se devem. 18) não é um mecanismo de planificação. 1982.74 De modo que a “a rapidez fulgurante das análises” (LÉONARD. povoado de intenções subjetivas. já que “apenas as últimas setenta páginas se referem a seu período”. p. da qual inferimos que o domínio sobre um objeto é essencial para Léonard. finalmente. e cabe. um princípio de razão suficiente que permitiria nos situarmos no livro como em um mundo vivo. todas as questões que não são colocadas ou resolvidas pelo texto. agora. Tanto é verdade que. p. Depois de evocar os julgamentos que os historiadores do século XVIII ou XIX fizeram sobre o livro. a crítica se dirige ao lugar vazio do estrategista das estratégias. a terceira evoca a ausência do parâmetro de interpretação social. a segunda. afirma Léonard. porque não se detém em um período. Assim. e a crítica avança para uma segunda caracterização do historiador. da qual decorre que o problema do método em história consiste em utilizar um parâmetro de explicação determinado. dos assuntos militares. um historiador se . “os historiadores do século XIX” eram “os mais insatisfeitos”. enquanto os novos historiadores do século XVIII estavam relativamente “lisonjeados” com o livro. contentar-se ou descontentar-se com o tratamento que “seu” período recebeu.

os mesmos defeitos em relação aos objetos tratados. 3) Da distinção a ser feita entre a tese e o objeto de uma análise.. evidentemente. da avaliação positiva que se segue. “A poeira e a Nuvem”. talvez a reação de Foucault e o debate que se seguiu nos possa ajudar a entender a posição incerta que seus trabalhos ainda hoje detêm junto aos historiadores profissionais.75 qualifica como tal na medida em que compreende um período. a falta de “demora” em sua análise. diz Foucault. buscar contribuições pontuais desse trabalho que não se pôde devidamente qualificar para o trabalho perfeitamente delimitável do historiador. Curiosamente. o problema permanece: Que os historiadores podem esperar de Foucault? Foucault não pode ser integrado na comunidade historiográfica. paralelamente. embora a avaliação final de Léonard parece francamente favorável à Foucault. 2012. que elabora na forma de três questões teóricas: 1) Da diferença de procedimento entre a análise de um problema e o estudo de um período. 2011). o século XIX. E. nem de longe. o trabalho de um historiador. 1982. p. Nesse sentido. apesar.. portanto. o enfrentamento que se seguiu provido de um malentendido. e um historiador incontestavelmente original. uma referência a oposição entre os fatos concretos e as abstrações. o “nós” se refere aos historiadores. porém. É de se notar que Foucault dispensa sumariamente a avaliação favorável da segunda parte do artigo de Léonard e se detém nas três críticas dos historiadores. talvez.317). Foucault é um historiador. resta que a fórmula retoma a disjunção do título de uma maneira bastante ambígua. essas exigências são legítimas só e somente só se se entende que a pesquisa versava sobre um período ou uma instituição determinada: “Para . Por outro lado. a reação deste não deixou de ser “violenta” e suscitar uma “tempestade num copo d’agua” (VEYNE. 18). a falta de exaustividade em relação a um universo determinado. ele deveria ter concluído que o trabalho de Foucault não é. Talvez. Como. Diante do texto de Léonard. que nos interessa escutar” (LÉONARD. “os pequenos fatos verdadeiros contra as grandes ideias vagas: a poeira desafiando a nuvem. (FOUCAULT. 2) Do uso do princípio de realidade em história. sua conclusão é a contrária: “o Sr. nem se pode entreter com ele as relações convencionais que entre historiadores e filósofo. resta. domina exaustivamente um objeto e explica fenômenos com base nas intenções efetivas dos agentes e em fenômenos sociais como as lutas.” (FOUCAULT. p. 317) A primeira crítica de Léonard evocava a falta de equidade entre os períodos tratados. Ora. a resposta de Foucault veio já como um título sarcástico. 2012.

Seu objeto de estudo. (FOUCAULT. [.. afirma Foucault. o problema é que o historiador de Léonard tem uma concepção muito restrita do real: É preciso desmistificar a instância global do real como totalidade a ser restituída. Mas a exigência é impertinente e impossível de ser realizada – Léonard implicitamente concorda quando afirma que um batalha de historiadores seria necessário para analisar o livro – quando se trata de levantar um problema. 2012. enquanto que para Léonard uma análise histórica se produz a partir de uma determinação prévia do período e do objeto que se quer estudar. cujos elementos servem de princípio de delimitação de um domínio de objetos em relação ao qual se pode selecionar a documentação pertinente e determinar a periodização dos fenômenos que a ele pertencem. surgido em um dado momento. gostaria de estudar um período. quer tratar de um problema. deste ponto de vista. Para Foucault. 319). o domínio de objeto que é preciso percorrer para resolvê-lo. 320) Assim. A questão do “princípio de realidade em história” é suscitado a partir do problema em torno do “objeto” do livro e do parâmetro de explicação. p. não é porque buscasse prescrever uma novidade aos historiadores.” (FOUCAULT. ou ao menos uma instituição durante um dado período. p. alguns deles pelo menos. para Foucault o que se coloca.76 quem. é a “racionalidade prática” que é posta em questão na reutilização do internamento como procedimento punitivo. mais importante do que os efeitos da lei de 1832 sobre a aplicação da pena de morte. na visão de Foucault. para o qual a periodização só pode ser estabelecida a posteriori: Quem.. (FOUCAULT. diametralmente opostos de análise. São os próprios historiadores dos Annales. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo.] O trabalho assim concebido implicava um recorte segundo um recorte segundo pontos determinantes. Mas se Foucault considerava essa segunda forma de análise igualmente legítima historiograficamente. primeiramente. Dois tipos. 2012. e uma extensão segundo relações pertinentes: o desenvolvimento das práticas de adestramento e de vigilância nas escolas do século XVIII me pareceu. 320). já haviam com bons resultados adotado essa forma de análise. estabelecimento das relações que permitem essa solução. é um problema. que. 2012. A outra que consiste em tratar um problema e em determinar. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. p. portanto: “uma que consiste em se dar um objeto e em tentar resolver os problemas que ele pode causar. de fato. a partir daí. duas regras entre outras se imporiam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame. em contrapartida. Não há “o” real do qual se iria ao encontro sob a condição de falar .

contudo. não porque se vise à biografia dos nomes próprios nela envolvidos. E. Um tipo de racionalidade. p. O convite final de Foucault (2012. 2012. pode ser levantada e não cansa de sê-lo desde uma data e um lugar muito precisos: França. talvez. à primeira vista. 327) é abandonar as convenções acadêmicas de cada disciplina. crucial para o desenvolvimento de uma ciência. de retomar a desinteligência entre Foucault e a comunidade historiográfica francesa. Enquanto Foucault deseja estabelecer o debate sobre decisões metodológicas que perfazem praticas historiográficas diferentes. tudo isso é algo do real. instrumentos para alcança-los etc. a distinção entre objeto e tese. a última questão. ou seja. é perfeitamente legítima. uma técnica. 322) Finalmente. do momento em que nela fazemos intervir os elementos pertinentes. desviar o debate da relação entre filósofos e historiadores ou entre filosofia e história para o debate sobre a construção de um método de análise além das determinações disciplinares. portanto. nem “a” socie dade inteira. portanto. então pouco inclinados a discussões epistemológicas. transforma as críticas feitas especificamente ao seu livro em questões gerais de análise histórica.. por mais que se cruzassem. p. . de que a única realidade a que a história deveria aspirar é a própria sociedade. que aí se entrevê. se anteriormente recusamos a “instância global” do real? Foucault. a da relação entre Filosofia e História. querem discutir os resultados de um pesquisa específica em relação às decisões metodológicas consideradas corretas do ponto de vista da história social. com frequência implicitamente admitido. De uma parte a outra o encontro entre historiadores e filósofos foi algo de improvável. se nos restringíssemos a fazer aparecer outros elementos e outras relações. mas igualmente legítimas. os historiadores. 1978. é uma forma de colocar em questão o princípio de inteligibilidade em história: que conceitos. 2. uma maneira de pensar. pouco se reconheciam. através dela a verdadeira questão. Gostaríamos. mesmo se isso não pretende ser a própria “realidade”. Foi quando a ruptura entre Foucault e os historiadores liberou o diálogo sem fim entre duas disciplinas que. objetivos definidos e perseguidos. em benefício de abstrações inconsistentes. que aparato teórico nos permitiria entender um fenômenos histórico. um conjunto de esforços racionais e coordenados. E a gênese dessa realidade. (FOUCAULT. fruto de muitos acasos. e que falharíamos. mas pela disputa metodológica. um programa. mais do que de uma “necessidade”. Seria preciso.77 de tudo ou de certas coisas mais “reais” que as outras. interrogar também o princípio.3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão Foucault: historiador ou filósofo? É uma questão ociosa.

esteve sempre mais ligada à história do que à lógica. Em A Arqueologia do Saber. p. como a toma como única representante legítima da historiografia. diretor da tese de Foucault. 23). e que desenharia no percurso aberto o próprio objeto da investigação”. apesar das diferenças em relação a vários procedimentos desta escola. . 2008. História da Loucura. fazer valer o desenvolvimento dessa como desenvolvimento da própria disciplina história enfim liberada do “sono antropológico”. a História Serial. da “nova história” da escola de Braudel. 352). p. 269). Canguilhem. 1994. Foucault e os historiadores . Foucault responde com uma defesa intransigente. apud DOSSE. por exemplo. em comparação com a tradição anglo-saxã. p. como observou Ladurie (1969. mas. publicara um estudo que se pode retrospectivamente reconhecer como de “longa duração” sobre as transformações do conceito de normal. p. pois. numa perspectiva sobretudo descritiva do arquivo.288.78 Michel Foucault se formou na tradição da filosofia da ciência e epistemologia francesas que. como ele mesmo observou certa vez (FOUCAULT. é defendida junto à comunidade representante dessa tradição que já adotara uma perspectiva histórica que a aproximava da Escola dos Annales. tese de doutoramento de Foucault. p. À abertura oferecida pela comunidade historiográfica. ou seja. um trabalho de pesquisa histórica que servisse para iluminar e responder a uma problematização colocada pelo historiador. 548) Esse espaço foi mantido até o fim da década de 70. “prevalece então um certo positivismo. usando do artifício de ignorar a existência de um programa rival (a historiografia marxista). os Annales se mantiveram indiferentes ao campo da “história das ideias” e das ciências. p. pareciam falar a mesma língua ou. Entretanto. Não se deve. 295). 1994. patrocinada por Philippe Aries e sob os elogios de Robert Mandrou e mesmo Fernand Braudel.” Mesmo adversários da suposta crítica de Foucault ao conhecimento histórico reconhecem a penetração dos questionamentos do filósofo junto ao grupo dos Annales a partir 50 Margareth Rago (1995. ao aderir-se à posição de Foucault que consiste em apreender mais o como do que o porquê. NOIRIEL. no princípio dos anos 70. (DOSSÉ. até a publicação de História da Loucura. polemizando explicitamente com marxistas e existencialistas. Foucault pretendia não apenas definir e defender um tipo de História. 70) interpreta neste mesmo sentido a referência contida na introdução de A Arqueologia do Saber: “Foucault se filiou aos Annales e. ignorar o que há de programático na constatação de que “os historiadores desertaram há muito tempo dessa velha fortaleza [da história antropológica] e partiram para trabalhar fora” (FOUCAULT. defendeu uma história-problema. 1994. ao menos aqueles que ele levava em consideração. p. não apenas reitera sua filiação à historiografia braudeliana50. 1972. como conclui Dosse (1994. e até pouco realista.

a oportunidade de uma real abertura junto aos historiadores que Deleuze (2005. finalmente. Em 1975 Foucault publica Vigiar e Punir. 1997. muitos aspectos da terceira geração desta escola encontram na obra de Foucault precedentes empíricos ou justificações teóricas. Isso não significa que o livro Vigiar e Punir já estivesse planejado. fazendo renascer antigas preocupações de Febvre e de Bloch com os discursos e rituais. e. segundo Dosse. que pode ser caracterizada. como complemento aos trabalhos empíricos anteriores. de 1961. o diálogo Foucault-historiadores deixou a esfera virtual para se efetivar em um debate aberto. As Palavras e as Coisas. requisitava a elaboração de um trabalho sobre os espaços de visibilidade nos quais esse olhar pode se constituir. na dissolução do projeto de uma história global: Poder-se-ia objetar que Foucault custou a ser assimilado pela historiografia francesa. ficou quase despercebida por muito tempo. analisado em O Nascimento da Clínica. já indicava a necessidade de um trabalho dessa natureza 52 . evitar uma decepção mútua: restou claro que faltava uma linguagem comum no qual os mútuos questionamentos pudessem transitar. deixava por elaborar as condições técnicoinstitucionais (complementares ao espaço interdiscursivo das empiricidades) sob as quais essas disciplinas puderam aparecer. da doença. pois. (VANIFAS. com efeito. como o da sexualidade. do mesmo modo. 136). direção que as pesquisas foucaultianas acabaram por não tomar. Certamente. por outro. principalmente). Parece. p. no entretanto. 51 . 283). E. das prisões. por um lado. não foi possível. como desenvolvimento do conceitual e analítico do projeto foucaultiano 51 . Mas o fato é que pouco a pouco sua obra filosófica e “historiográfica” foi penetrando nas pesquisas dos historiadores profissionais. p. citado por Dossé (1994. “ Surveiller et punir é. fundamentalmente. que teria repercutido. quando. 34) acentua esse caráter liminar da obra: “Esse livro pode ser lido como uma sequência dos livros anteriores de Foucault ou como marco de um novo progresso decisivo”. contra todas as expectativas do filósofo e dos historiadores que lhe eram mais próximos (Veyne e Revel. De fato outra nota indica a necessidade de desenvolvimento de uma história do mal. o desenvolvimento do “olhar médico”. 52 Essa observação se deve a Daniel Defert. a compreensão do “Grande Internamento” requisitava a constituição de um capítulo da história da penalidade e uma nota de História da Loucura. inegável que a relação de Foucault com a comunidade historiográfica francesa tenha de ser concebida como de dupla familiaridade: muitos dos aspectos do projeto foucaultiano derivam do empreendimento da primeira e segunda geração dos Annales. p. no fim da década de 70. dos micropoderes.79 do fim da “era Braudel”. etc. lembrando que Histoire de la folie (História da Loucura). Sob o aspecto historiográfico. ao traçar a arqueologia das ciências humanas. e estimulando novos temas.

contrastam com a irritação. Para Noirel (1994). foram os historiadores simpáticos a certos aspectos de seus livros que se enganaram. um populismo negro – mas ainda assim um populismo” (GINZBURG. um dos historiadores que se encontraram com Foucault em 78. com a qual Foucault 53 Em 1977 e 1978 Foucault tentou responder a uma série de objeções que se seguiram à publicação de Vigiar e Punir. e em torno destes textos foi organizado um encontro em maio de 78. o que se tornou claro foi o caráter filosófico do empreendimento foucaultiano que nasceu e se desenvolveu a partir de questões internas à comunidade filosófica francesa e pouco tinha a ver com as preocupações dos historiadores.” (DOSSE. nos levariam a crer que. ao projeto genealógico. essa interpretação conciliadora. Carlo Ginzburg. na medida em que implicava o ultrapassamento da esfera estrita do discurso sério. de fato. sua aplicação a um campo concomitante àquele cultivado pelos historiadores sob outros princípios teve por efeito revelar a disparidade de dois modos muito distintos de encarar a história. a partir de L’Arqueologie Du savoir. que converte o projeto de uma “arqueologia do silêncio em silêncio puro e simples”. Entretanto. 292) E.80 confirma a aproximação efetiva. 1994. como questão fundamental da filosofia. ou parecia vedar. encaminhava Foucault diretamente ao domínio cultivado pelos historiadores – o que não ocorria com a história intelectual a qual a comunidade historiográfica jamais tivera interesse em reivindicar. a passagem do projeto arqueológico. embora os princípios básicos da genealogia não fossem diferentes da arqueologia. Foucault responde com “A poeira e a nuvem”. um pouco menos. dotando-os de um caráter historiográfico que não pretendiam ter. . portanto desde 1969. porque. ao que conclui: “É um populismo às avessas. os textos dessa pequena “querela de métodos” nos ajudam a traçar as linhas de continuidade e divergência entre as pesquisas foucaultianas e o trabalho dos historiadores profissionais. apesar da recepção favorável entre historiadores sociais e historiadores engajados nas lutas anti-institucionais. com a escola dos Annales. certamente. Em Histoire de la Folie já estava implícita a trajetória que levaria Foucault a escrever Les mots et les Choses e L’Arqueologie Du savoir”. Assim. os exclusos. as declarações de Foucault de que seu problema sempre foi o do discurso verdadeiro e falso. manifestada com sarcasmo e ironia. 22-24). expressou bem a insatisfação diante de um a história que vedava. p. esse espaço amistoso dá lugar a uma polêmica 53 em que não faltaram mal-entendidos e decepções mútuas. Foi a oportunidade de Foucault precisar seu programa de pesquisa e. entretanto. Noiriel (1994) preferirá chamar o episódio de “l’impossible dialogue”. na verdade. como o tom conciliador que Foucault adota na resposta a Agulhon. por outro lado. p. malgrado não se possa dizer que o debate tenha chegado a bom termo: Veyne (2011) fala de uma ruptura e se M.1987. Perrot publicará a polêmica sob o título “L’impossible prision”. Ao texto de Jacques Leonard “L’historien et le philosophe”. E. Primeiro. a possibilidade de cognição direta da vivência dos sujeitos históricos: “O que interessa a Foucault são os gestos e critérios de exclusão.

p. a esse passado. herdeira da concepção monumental do documento que emerge com a História Serial.81 enfrentou a ruptura de 78. ele aponta desenvolvimentos análogos nos Annales e em outros grupos de historiadores fora da França.. reafirma a ligação que Foucault sempre acreditou manter com a historiografia de ponta. desde a introdução de A Arqueologia do Saber. nas quais..] constrói o seu objecto de estudo delimitando não só o seu período. portanto. 43) Nesse sentido. nenhum dado tem significação. Desde então. coloca. nenhuma série pode ser construída. ponto de partida inevitável devido ao caráter do método. (FURET. o conjunto dos acontecimentos. o historiador Está consciente de que escolhe.. até mesmo a verdade? Que não existiam invariantes transhistóricos? (VEYNE. [. mas marginal. nenhum fato reconhecido. somente com a História Serial os problemas que o historiador deve se colocar aparecem como princípio de organização da pesquisa. acima de tudo. o problema bem colocado são mais importantes – e são mais raros! – do que a habilidade ou a paciência em trazer à luz do dia um facto desconhecido. E. embora a noção de “história-problema” seja intrínseca à constituição da Escola de Annales. assim fazendo. e que terá de resolver [. a reação de Foucault às críticas vindas dos Annales. 1986. depositava todas as esperanças nela. que se tornaria seu principal interloculor historiador na década de 80. nesse passado. certas características fundamentais da pesquisa histórica puderam finalmente ser reconhecidas.. quando Foucault se volta para o mundo greco-romano. Furet considera que a partir do desenvolvimento dos projetos de história quantitativa. questões seletivas. uma História-Problema. já que a parir daí tudo é histórico. na medida em que coloca seu projeto de uma história dos modos de produção da verdade. às objeções o seu modo de fazer história. Essa prerrogativa dada ao problema. não tem dúvidas quanto às ambições de Foucault e a decepção com que recebeu as objeções dos historiadores: Foucault esperava ver a escola histórica francesa abrir-se às suas ideias. 2011. de um programa de pesquisa histórico de caráter nominalista e problematizante – donde a referência ao tratado de Veyne no debate de 78. da qual decorre a necessidade de . aquilo de que fala e. Veyne. Foucault acreditava que o desenvolvimento da história não-factual deveria conduzir à adoção.] a boa questão. A História Arquegenealógica é.84) Na História Quantitativa. como corolário do percurso destes. não era uma elite de espírito aberto cuja reputação era internacional? Não estavam preparados para admitir que tudo era histórico. passando por várias referências em entrevistas. p. se não se determinou primeiro o problema de que se quer tratar. mas também os problemas colocados por esse período e por esses acontecimentos.

o historiador encenado por Léonard. Foucault. Do mesmo modo. já que não é a que foi seguida pela História Serial. de fato. XVIII. A resposta irônica de Foucault é que.. p. . ao tentar mostrar que uma ordem inversa. a polêmica é plenamente compreensível: os historiadores são incapazes de reconhecer Foucault como um de seus membros plenos porque individuam sua ciência a partir de objetos ou períodos os quais deveriam ser estudados até a saturação. 2008. o “cavaleiro da exatidão” implica numa prática historiográfica específica. mas não a única possível. Ela é certamente justificável e implica em suas exigências próprias: “P ara quem. partindo do problema para a determinação dos objetos e posteriormente dos períodos. por outro lado. Foucault acaba por repetir quase que identicamente o modo como Furet (1986) caracteriza o procedimento da História Serial. A História assim se “especializa” de dois modos: segundo os objetos (especialistas em Revolução Francesa. tanto não o é. portanto. a qual “define seu objeto a partir de um conjunto de documentos dos quais ela dispõe” (FOUCAULT.82 determinação dos conceitos. Para este.326). estabelecimento das relações que permitem essa solução” Apesar da aspereza com que Foucault responde a seus críticos. dessa História serial. distinguir os objetos e resolver os problemas que daí decorrem.. pensa a si mesmo como um continuador da mutação na disciplina histórica de que fala Furet. A ordem metodológica desses elementos para o historiador esteriotípico de Léonard é. uma das características fundamentais da História Serial é justamente deslocar o foco dos eventos para os problemas que os documentos levantam sobre os passado. a saber. 326): “Quem [. período e problema. Léornard e Foucault estabelecem ordens distintas entre esses elementos fundamentais da pesquisa histórica. distinguir. somente aponta que essa ordem não é necessária e. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo. duas regras entre outras importam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame” (FOUCAULT. em mulheres. problemática e conceitual. 2006. gostaria de estudar um período. 290). p. o historiador consegue com muito esforço. de fato. em economia.] quer tratar de um problema. a seguinte: determinar o período. Para Léonard importa estudar um período e os objetos que. Uma das mais importantes questões então levantadas foi a da relação ordenada entre objeto. Foucault não questiona a legitimidade dessa forma de se fazer história. para Foucault (2006. etc) ou segundo períodos (século XVII. paciente e meticulosamente. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. ou ao menos uma instituição durante um período. Antigo Regime. p. em mentalidades. surgido em um dado momento. reaparece na resposta dada por Foucault a Léornard em 1978. Idade Média. etc). E.

das mulheres. tratar-se-ia de uma história centrada em um objeto determinado. retira-la do meio das “ciências humanas”. . O que Foucault responde é que não está fazendo uma “história da prisão”. dos camponeses. por exemplo. a tese de uma normalização maciça concomitante. como ele mesmo as via. está a história que principia por se colocar algum problema. No primeiro caso. portanto. legítima certamente. Enquanto teria sido absurdo objetar a um historiador econometrista a ausência de uma análise sobre o conjunto indeterminado das pessoas supostas numa relação econômica. A segunda categoria inclui a especialização em períodos. a história das mentalidades. na qual se encontra a História Serial e que Foucault pretende também integrar. quer sejam séculos. o que explica sua conturbada relação com a comunidade historiográfica? Falamos de um 54 Essa reserva ao método foucaultiano é compartilhada mesmo pelos historiadores que lhe são mais simpáticos. Entretanto. três modalidades do fazer histórico derivadas da escolha metodológica por uma das seguintes ordens: (objeto-período-problema). Finalmente. Mas este também não é o objetivo alegado de Foucault. poucos conseguiram admitir a extensão de seus princípios básicos para a totalidade da prática histórica. tentar-se-ia reformar o entendimento que se tem do século das Luzes. se Foucault foi o primeiro historiador completamente positivista. A primeira categoria inclui. se suas pesquisas são integralmente empíricas. como quer Veyne. elaborava uma imagem inaceitável do século das luzes. mas que implicaria em exigências metodológicas diferentes.83 Embora todo historiador reconheça a História Serial como uma vertente legítima da historiografia. parecia legítimo objetar a Foucault que sua “história das prisões” não levava em consideração os próprios presos 54 e que. sua escolha por uma história problema parece se balizar na exclusão das demais alternativas através de dois pressupostos: que não há objetos naturalmente dados. Tem-se. períodos da história. II República. Tal desumanização da história. (período-objeto-problema). etc. Ela pode ser diacrônica ou sincrônica (caso em que um período é determinado concomitantemente ao objeto). (problema-objeto-período). contrapondo à filosofia da Aufklärung. nem uma nova história do século XVIII. no segundo caso. de modo geral. está inscrita no próprio projeto de liberar a história do tema antropológico. contudo. dos operários. épocas ou durações delimitadas por eventos específicos (Antigo Regime. A questão que nos propomos agora é a seguinte: tal escolha é arbitrária ou a análise das consequências desses modos de individuação poderia nos levar a determinar a alternativa ótima do ponto de vista metodológico? Embora Foucault não confronte diretamente a comunidade historiográfica nesse ponto. na última categoria. de forma absoluta. etc). na visão de Foucault. que não há nenhuma unidade homogênea que nos permita individuar.

“esquecer Foucault” se tornou cada vez mais difícil. por vezes assimilando-a a outros autores sob a rubrica do pósmodernismo. para usar a expressão de Margareth Rago (1995). como era de sua vontade. trabalhando-a desde o interior e não um crítico do conhecimento histórico56. o fim do diálogo entre o pensamento foucaultiano e a historiografia. fundamentalmente. dos seus escritos) e a comunidade dos historiadores é fundamental para avaliar o que se pode esperar do desenvolvimento atual de um novo paradigma historiográfico. 354). p. Outros. mesmo. 2002). como Ronaldo Vainfas (1997. prepara uma reorientação teórica da histórica como disciplina. É que o projeto focaultiano “modifica a relação da história com o passado. De fato há um número crescente de trabalhos de “inspiração foucaultiana”. depois de sua morte prematura. Farge. O “efeito Foucault” sobre a historiografia. não se poderia ter muita esperança de ver esse programa ser aceito de desenvolvido. Pois é. perigosamente beiram a conversão do foucaultinismo em uma nova filosofia da 55 56 Vão nessa linha explicitamente. hoje perfeitamente natural. contudo. se inicialmente os historiadores gostaria de permanecer eles mesmos. p. Reconsiderar. anti-foucaultianos e herdeiros de Foucault se situam com relação ao seu trabalho. Veyne). Não parece restar dúvida de que Foucault tenha pretendido ser um reformador da disciplina histórica55.84 programa foucaultiano para a História e. nesta e a partir desta relação que foucaultianos. o modo com se deu e evoluiu a relação entre Foucault (e depois de sua morte. portanto. A leitura que vê em Foucault um crítico do conhecimento histórico foi desenvolvida principalmente por Hyden White (2001) em torno da noção de “anti -história” e acompanhada principalmente pelos críticos mais recentes do historiador Foucault. contudo. A ruptura entre Foucault e os historiadores em 78. . as leituras de VEYNE (2011). tal como o desenvolvido por pelos “analistas do discurso” (ORLANDI. 1988. cujas relações efetivas com o pensamento e o trabalho histórico de Foucault são difíceis de demarcar. Passemos por alto as relações que Foucault ainda manteve com os historiadores fora dos Annales (Perrot. a julgar pela relação entre Foucault e os historiadores. entre a História e a Filosofia. 46) aos poucos pode se observar uma reorientação da comunidade historiográfica em direção aos questionamentos por ele propostos no debate com a escola francesa. ao incluir Foucault entre os “pós-modernos”. 2002) e Ciro Flamarion Cardoso (1997). pela produção da relação. Pelo contrário. POSTER (1988) e RAGO (2002). não significou. como afirma Veyne (2011. De modo que. se manifestou. chama a um reexame dos objetos próprios da pesquisa histórica” (POSTER. entre outras. para os quais cabe levar em consideração a filosofia de Foucault. e talvez sobretudo. Alguns projetos são de clara hibridização.

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história a substituir o hegelianismo. E Nisso seguem, basicamente, a leitura de Hyden White (2001, p. 279), para quem Foucault foi um “metafísico”. Há, por outro lado, assimilações mais sutis e diálogos menos unilaterais, principalmente no campo da Nova História Cultural. Roger Chartier, um dos ícones dos atuais annalistes, desde muito tempo, reconheceu certa dívida para com a crítica foucaultiana dos objetos naturais, na elaboração que lhe deu Paul Veyne no ensaio de 78, provavelmente devido à atenção que Le Goff lhe dispensou:

Após Foucault, é bastante claro, com efeito, que não se pode considerar esses ‘objetos intelectuais’ como ‘objetos naturais’, cujas modalidades históricas de existência seriam as únicas a mudar. A loucura, a medicina, o Estado não são categorias pensáveis sobre o modo do universal e cujo conteúdo cada época particularizaria. Por detrás da permanência enganosa de nosso vocabulário, deve-se reconhecer não objetos, mas objetivações que constroem a cada vez uma figura original. (CHARTIER, 2002, p. 58)

Para Peter Burke, a História Cultural da terceira geração dos Annales, principalmente a desenvolvida por Chartier, mostra-se claramente devedora dos

questionamentos levantados por Foucault à época do debate com a comunidade historiográfica:
Apesar da crítica de Foucault à ideia de influência, torna-se difícil não utilizar o termo para descrever os efeitos de seus livros sobre os historiadores do grupo dos Annales. Graças a ele, descobriram a história do corpo e os liames entre essa história e a história do poder. Importante também no desenvolvimento intelectual de muitos historiadores da terceira geração foi sua crítica aos historiadores, em razão de sua “pobre idéia do real”; em outras palavras, a redução do real ao domínio do social, deixando de fora o pensamento. A recente virada em direção à “história cultural da sociedade”, bem exemplificada com Chartier, deve muito à obra de Foucault. (BURKE, 1997, p. 98-99)

Ainda no âmbito da Nova História Cultural, Patricia O’Brien, reconhece certos princípios básicos do procedimento foucaultiano úteis para a história cultural; mais ainda, que “com sua ‘microfísica do poder’, Foucault estava construindo uma história da cultura que explicava como se constituíam os sujeitos, ainda que ele não estivesse absolutamente preocupado com a atuação humana – para ele, tratava-se de uma questão irrelevante” (O’BRIEN, 2001, p. 61). Desse modo, embora não chegue ao extremo de afirmar a existência de um método foucaultiano positivo, tal como Paul Veyne, reconhece a validade da atitude epistemológica de recusar todos os pressupostos e centraliza a caracterização do método de Foucault na genealogia: “O genealogista/historiador busca o começo, não a origem. Para

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Foucault, essa era uma distinção fundamental. As origens implicam causas; os começos implicam diferenças.” (O’BRIEN, 2001, p. 49). De modo que, “Foucault não procurava a evolução ou a recorrência. O método dele consistia, basicamente, em isolar as diferenças e procurar as inversões” (O’BRIEN, 2001, p.49). Considerando o problema de se saber como essa operação se dá na prática, a historiadora chama a atenção para a justaposição que faz aparecer os objetos em caráter diferencial: “Foucault usou reiteradamente o recurso da justaposição para introduzir e sustentar suas histórias. [...] um instrumento para minar os pressupostos progressistas sobre a transformação” (O’BRIEN, 2001, p. 50). E, no entanto, a historiadora não avança a análise ao ponto de reconectar esse procedimento com o método de produção de séries da História Serial, o que obscurece as condições pragmáticas de ativação do mesmo. Desse modo, nas palavras da historiadora americana, “ainda não est á absolutamente claro quanto a obra de Foucault será importante para forjar uma nova prática” (O’BRIEN, 2001, p. 60) ou, que de modo geral, como aponta Lynn Hunt, na introdução da coletânea, “seu programa permanece idiossincrático em termos gerais” (HUNT, 2001, p. 11), O’Brien conclui que “para a escrita da história, talvez a melhor utilização da obra de Foucault esteja não em tentar encontrar uma teoria onde não existe nenhuma, ou impor rígidos limites onde existe plasticidade, mas, antes, em deformar sua obra, fazê-la gemer e protestar.” (O’BRIEN, 2001, p. 61) É claro que, ao lado dessas possibilidades há também toda uma gama de historiadores que se mantém, por razões diversas, hostil a tudo o que se refere ao filósofo francês. Esses historiadores que costumam se auto-denominar “racionalistas” para se opor a um pretenso “irracionalismo” corrente, frequentemente alinhando-se, explicita ou

implicitamente, à posições neo-racionalistas (tal como a de Habermas), já não acusam tanto as deficiências historiográficas dos trabalhos empíricos de Foucault. Geralmente, tomando Foucault inexplicavelmente como alguém que contestou as pretensões de conhecimento da História, engajam-se, sem o querer, no debate epistemológico que Foucault havia proposto em 78 e que fora recusado por Agulhon. Por fim, tem-se um conjunto de trabalhos de historiadores que não fazem uso da terminologia foucaultiana, nem sem preocupam em se dizerem explicitamente foucaultianos, mas, cujos projetos historiográficos podem ser reconhecidos, formalmente, estando dentro do “programa foucaultiano”. Entre eles está, obviamente, o trabalho de Paul Veyne, explícito ao aventar esse direcionamento ao menos desde a pesquisa Acreditavam os deuses em seus mitos?.

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Tendo adotado essa perspectiva no presente trabalho, resta considerar o fato de que o programa foucaultiano implica, no âmbito da epistemologia histórica, a substituição de um regime de verdades parciais por um regime de verdades provisórias. Seu sucesso, paradoxalmente, implicaria no abandono provável das teses substanciais das pesquisas foucaultianas por teses mais corretas, em tentativas de refutação das posições foucaultianas sobre temas empíricos. Nesse sentido, não é improvável que os livros de Foucault contenham grandes equívocos, que a reavaliação dos problemas mostre, afinal, que suas teses empíricas devem ser corrigidas ou mesmo abandonadas. François Dosse (1994, p. 381) encontra para cada pesquisa de Foucault ao menos um historiador que conteste seus resultados: À Histoire de la Folie opõe La pratique de l’espirit humain. L’insttution asilaire et La revolution democratique de M.Gauchet e GI. Swain; à La Volonté de Savoir opõe Le Pénis ou La Démoralisation de l’Occident de Jean-Paul Aron e Roger Kempf. Por outro lado, a respeito das polêmicas levantadas pela História da Sexualidade de Foucault, Engel (1997, p. 303) levanta, muito pertinentemente a questão, de se esta “irritação” provocada por Foucault não seria uma de suas maiores contribuições à historiografia:
Suas ideias – quer sejam aceitas integral ou parcialmente, quer sejam refutadas de forma mais ou menos consistente – têm o mérito indiscutível de abalar e mexer com os pressupostos, concepções, certezas sobre as quais calmamente se assentavam muitas da perspectivas da análise histórica.

A conclusão de Veyne (2011, p. 146) é ainda mais favorável ao falecido amigo:
Quando dizia e repetia que seus livros não passavam de ‘caixas de ferramentas’, não era para convir modestamente que eles não tivessem tesouros; ele entendia por essas palavras que desejava ter alunos (ele teria dito em estilo universitário), e convidava seus leitores de boa vontade a utilizar seus métodos e a continuar seu empreendimento assim como faz o físico com alunos que são seus continuadores (VEYNE, 2011, p. 146)

De modo que a contribuição de Foucault a ciência histórica foi e permanece sendo metodológica. Ao retomar o tema da relação entre Foucault e a comunidade historiográfica, quisemos passar do sintoma à sua causa, da desavença entre intelectuais franceses ao dissenso que separa programas diferentes em uma ciência. Restou claro que a impossibilidade de um acordo entre Foucault e a Escola Francesa se baseava em uma mútua incompreensão: os historiadores não percebia a obra de Foucault como extensão metodológica da História Serial; Foucault, por seu lado, tomava a História Serial como única possibilidade epistemológica para

principalmente de tradição francesa. Ao contrário. . mantendo um interesse também renovado pelas “histórias” de Foucault. Passadas mais de quatro décadas desde essa pequena methodenstreit. a questão do programa (ou “paradigma” como preferem dizer a maioria dos autores que tratam do assunto) a ser adotado pelos historiadores se renova indefinidamente.88 o desenvolvimento das disciplinas históricas. desprezando todo programa que ainda se ligasse aos temas antropológicos. não se pode dizer que o problema tenha se evanescido pela morte do filósofo ou pelos novos rumos tomados pela historiografia.

47). É desta última. É verdade que em nenhum momento pretendemos demonstrá-la positiva ou negativamente. à ambição de Foucault. uma vez que ela representa a tese mais ousada no interior do problema que nos propomos. podemos agora retomá-la a fim de tecer nossas últimas considerações. O próprio Paul Veyne (2011. mas. prefere sonhar com “jovens historiadores que sonhariam escrevê-la [a história] como ele” (VEYNE. porém. mesmo quando assimilam alguns conceitos de Foucault. nem tampouco com o fio da continuidade que nos permitia pensar de uma maneira mais sofisticada em termos de processos históricos e sociais. deveríamos aprender a desamarrar o pacote e mostrar como fora constituído. Outros historiadores como Jacques Le Goff (1990). repentinamente. pois já não contávamos nem com um passado organizado. Thévenot. aliás. no Brasil. esperando para ser “desvelado”. efetuando a “descrição da dispersão”.89 CONSIDERAÇÕES FINAIS Inicialmente tomamos a proposição de Paul Veyne (1995). evocando um ou outro historiador que parece trabalhar nessa linha (Boltanski. julgava que as pesquisas de Foucault promoveriam uma reviravolta na maneira como os historiadores encaravam a realidade histórica. Roger Chartier (2002) ou Margareth Rago (1995). Rosanvallon e Roger-Pol Droit). o chão dos historiadores desabou. nem com objetos prontos. podemos constatar que as relações entre Foucault e os historiadores e a própria dinâmica de assimilação das propostas foucautianas na historiografia conservam aquelas dificuldades próprias do diálogo entre filósofos e historiadores. 73) Comparado. cujas formas poderiam ser reconhecidas ao longo do tempo. De todo modo. a seguinte constatação: Ora. De um . (RAGO. nem com sujeitos determinados. Quando Veyne (1995) acrescentou o ensaio sobre Foucault à segunda edição de seu tratado de epistemologia. E. “Foucault revoluciona a história”. Levando em consideração que a crítica de Foucault ao uso do princípio de realidade em história estava ligada ao projeto de uma história geral ao lado das histórias regionais. ligaram a recepção de Foucault a um ultrapassamento da concepção de realidade então vigente na história social. tal como há uma geografia geral ao lado das geografias regionais. a prática efetiva dos historiadores em geral não parece ter se alterado drasticamente. como um fio condutor para analisar as relações entre os trabalhos do filósofo e a historiografia francesa. ao invés de partirmos em busca da síntese e da totalidade. 2011. 1995. essa contribuição parecerá bastante modesta. 35). p. p.

De todo modo. do período e tratamento exaustivo das fontes pertinentes. incluindo as dificuldades que comporta e os debates acalorados que suscita. à medida em que as incompreensões mútuas que marcaram a relação de Foucault com a comunidade historiográfica são desfeitas graças aos trabalhos de historiadores e filósofos. abstraiu princípios epistemológicos e metodológicos de suas práticas. essa ou aquela documentação considerada indispensável. . continuará a ser uma referência metodológica importante no desenvolvimento da historiografia neste século XXI. inclusive conjuntamente. De modo que suas construções ainda hoje são consideradas deficientes por ignorarem este ou aquele aspecto dos objetos de que trata. Foucault superestimou declarações teóricas dos historiadores. podemos concluir que a obra de Foucault. mas subestimou as convenções disciplinares.90 lado. Sua proposta de história geral ia de encontro a requisitos bem aceitos na comunidade historiográfica acerca de como uma boa pesquisa deve ser realizada: delimitação precisa do objeto.

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