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ISSN 1984-2279

O UNIVERSITÁRIO COM NECESSIDADES ESPECIAIS:

conquistas, dificuldades e desafios

Camila Rocha Viana; Nathalia Rocha do Nascimento; 1 Sílvia Ester Orrú 2

Universidade de Brasília, Faculdade de Educação.

Agência de fomento: Universidade de Brasília, Programa de Bolsas REUNI

Eixo temático: 1 - Alunos com necessidades especiais no ensino superior

Resumo

O presente artigo é resultado de pesquisa realizada no período de abril de 2011 a marco de 2012 e trata sobre as conquistas, dificuldades e desafios vivenciados pelos universitários com necessidades especiais da Universidade de Brasília. Como referenciais teóricos foram utilizados documentos nacionais que sobre inclusão e os pressupostos da abordagem histórico-cultural para o entendimento do universitário com necessidades especiais como um sujeito com possibilidades de aprendizagem. A pesquisa é de característica qualitativa com o intuito de esboçarmos a perspectiva dos sujeitos através dos fatos sociais que envolvem toda a comunidade acadêmica além do universitário com necessidades especiais, e que contornam a prática pedagógica. Os participantes foram 13 estudantes com necessidades especiais. O instrumento para a coleta de dados foi um questionário semi-aberto, composta por 23 questões sobre: a conceituação do universitário com necessidades especiais; as dificuldades enfrentadas para acesso e permanência no espaço acadêmico, fatores dificultadores e contributivos para a formação acadêmica. Os resultados mostram que apesar das dificuldades encontradas pelos universitários, a motivação para persistirem é maior. Também identificam a necessidade de profundas reflexões que tragam a conscientização da comunidade acadêmica que os universitário com necessidades especiais é um sujeito com possibilidades de aprendizagem.

Palavras-chave: universitário; necessidades especiais; inclusão.

1 Estudantes do curso de Pedagogia. Bolsistas do Programa de REUNI da Universidade de Brasília para a realização de pesquisa junto aos cursos de graduação do Campus Darcy Ribeiro.

2 Professora da Universidade de Brasília.

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Introdução

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O presente artigo discute quais são as conquistas, dificuldades e desafios que o universitário com necessidades especiais vivencia nos cursos de graduação oferecidos pela Universidade de Brasília – UnB. Segundo a LDBEN 9394/96 a educação inclusiva deve acontecer em todos os espaços da educação formal, ou seja, da educação básica até o ensino superior de maneira que tenha não apenas o acesso à educação, mas a garantia de sua permanência nos espaços onde a educação formal ocorre. Entretanto, para que isso aconteça é preciso que os cursos sejam repensados de modo a desconstruírem certas práticas já consolidadas para construírem práticas pedagógicas inovadores que alcancem a todos os estudantes quer tenham ou não alguma necessidade especial.

Conquistas, dificuldades e desafios de uma educação inclusiva.

A educação é direito de todos e dever do Estado, assim define a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho. A Constituição diz ainda, que o ensino será ministrado com base no princípio de igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, entre outros. A educação inclusiva tem como objetivo promover os direitos fundamentais previstos na Constituição Brasileira. Ela promove e favorece a inserção de estudantes como necessidades educacionais especiais na universidade. Todavia, muitas vezes, essas pessoas passam como despercebidas no meio acadêmico, sendo ignoradas no sentido de que precisam de um atendimento especializado levando em conta a sua necessidade especial. Desde a educação básica os estudantes com necessidades especiais encontram diversas barreiras a serem superadas, porém, ainda são

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encontrados apoios multidisciplinares nas áreas da psicopedagogia, terapia

ocupacional, psicologia, professores especializados, fonoaudiólogos, em

trabalho conjunto para um melhor desenvolvimento desse indivíduo. Contudo,

quando este aluno encerra a educação básica e segue para a educação

superior, as dificuldades se tornam ainda mais visíveis, desde o vestibular até a

permanência e conclusão do curso, nem sempre obtendo auxilio e adaptação

necessária que favoreça sua formação com vistas à realização profissional.

O conceito de pessoas com necessidades especiais abrange aquelas

com superdotação, deficiências físicas, sensoriais e intelectuais diferenciadas,

aqueles com dificuldades de aprendizagem, que apresentam condutas típicas

e, inclusive, as pessoas desfavorecidas e marginalizadas (ONU, 1994).

Aos estudantes com necessidades especiais são asseguradas algumas

leis, e dentre elas existe a Política Nacional de Educação Especial na

Perspectiva da Educação Inclusiva cujo objetivo é:

Assegurar a inclusão escolar de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, orientando os sistemas de ensino para garantir: acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis mais elevados do ensino; transversalidade da modalidade de educação especial desde a educação infantil até a educação superior; oferta do atendimento educacional especializado; formação de professores para os atendimentos educacionais especializados e demais profissionais da educação para a inclusão; participação da família e da comunidade; acessibilidade arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e informação; e articulação intersetorial na implementação das políticas públicas. (MEC/SEESP, 2007)

Este é um marco na educação especial, no sentido de se entender que a

educação é para todos, que todos os alunos devem estar na escola e

universidades sem qualquer discriminação, sem terem restrições e limitações

em função das suas deficiências ou limitações, das características

estigmatizantes que possam servir pra marcar determinadas identidades.

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O avanço na implementação de tais políticas tem sido lento e repleto de dificuldades, mas também tem caminhado no sentido de ser mais compreendido e, por isso, a escola tem se esmerado no almejo de oferecer uma educação de qualidade para todos. Não obstante, percebemos que as políticas não são totalmente suficientes para garantir uma educação inclusiva com sentido e significado presentes no cotidiano acadêmico do universitário com necessidades especiais. Há necessidade de que seja transformado o ambiente institucional como um todo, desde professores, funcionários até estudantes, compreenderem que a universidade deve promover um ensino diferenciado, mas isso não implica em restringir os espaços do estudante com necessidades especiais. A universidade deve oferecer um ensino de qualidade para todos os seus estudantes, compreendendo que aqueles com necessidades especiais, apesar de suas limitações, também são sujeitos com possibilidades de aprendizagem (GONZÁLEZ REY, 2011). Por conseguinte, para haver tais transformações é necessário haver reflexões e discussões profundas sobre a questão da educação na perspectiva inclusiva. Essas reflexões devem nos levar a revisão de conceitos sobre quem é o estudante com necessidades especiais e também avaliarmos os nossos próprios comportamentos no meio acadêmico, desde o professor, funcionário até os estudantes, pois muitas de nossas atitudes são impregnadas de barreiras atitudinais, muitas delas, até inconscientes, pois a sociedade a qual pertencemos entende essa pessoa como limitada, deficiente, doente, incapaz, sem condições de aprender e até mesmo, improdutiva. Ocorre que esse pensamento é resultante da supervalorização dos diagnósticos clínicos que reduzem as pessoas ao fator biológico. Para a construção de mudanças significativas na universidade é preciso maior dedicação e disposição para se conhecer melhor o “outro” sem pré- julgamentos. Deste modo, a comunidade acadêmica perceberá que o estudante com necessidades especiais se constitui pessoa não apenas pelos fatores biológicos, mas, principalmente, pelos fatores históricos, culturais, sociais, pelas experiências adquiridas desde seu nascimento, e notará

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também, que as necessidades especiais apresentadas são algo a mais em sua constituição como sujeito ativo e com potencialidades e habilidades a serem desenvolvidas e descobertas (GONZÁLEZ REY, 2011). A partir do momento em que essa transformação de “dentro” para “fora”

é construída, então é possível se pensar em mudanças reais no âmbito universitário. E um dos instrumentos a colaborar para o desenvolvimento de uma educação de qualidade e significativa para todos é o projeto político pedagógico dos cursos de graduação. Neles estão reunidas propostas de ações concretas com objetivos e metas a serem alcançados pelos professores, gestores, estudantes e funcionários. De maneira geral, são os coordenadores que articulam a construção do projeto político pedagógico dos cursos de graduação. Nesse instrumento é essencial haver propostas e metas com vistas à educação numa perspectiva inclusiva, políticas de apoio ao ensino na diversidade. A Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional – Lei Nº 9394/96 assume o compromisso com a educação inclusiva, garantindo a matricula de

todos os alunos na rede publica e privada, com direito a estarem inseridos em todo o espaço da educação formal, que vai da educação básica até o ensino superior, ou seja, é direito deste educando chegar à universidade e contar com

o apoio necessário para seu desenvolvimento acadêmico em todo ambiente

institucional e ser preparado e formado por profissionais qualificados. Mas para que isso de fato ocorra, novas posturas, novas estratégias de apoio, ensino e aprendizagem devem ser elaboradas. Isto, para que não aconteça uma pseudo-inclusão, onde o estudante apenas se encontra presente no espaço físico da instituição. Na educação na perspectiva inclusiva todos, sem distinção, devem ter as mesmas oportunidades e direitos de aprender, levando-se em conta suas necessidades especiais, recebendo um ensino eficaz para o devido desenvolvimento profissional, sendo esse um dos pontos mais importantes do papel do docente universitário diante a educação inclusiva. Ou seja, o professor deve se preparar para receber o estudante com necessidades especiais.

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A educação inclusiva de qualidade, além de demandar boas condições

de infraestrutura física, ela está, em sua maior parte, relacionada ao trabalho

dos professores junto aos estudantes. Isto requer que o mesmo seja respeitado

em suas singularidades, promovendo estratégias pedagógicas satisfatórias

para o processo de ensino e aprendizagem, evitando a segregação e

realizando a inclusão.

Uma política de formação de professores é um dos pilares para a construção da inclusão escolar, pois a mudança requer um potencial instalado, em termos de recursos humanos, em condições de trabalho para que possa ser posta em prática. (MENDES, 2004, p. 227)

Não é incomum professores relatarem em entrevistas para pesquisa que

não se sentem preparados para receber estudantes com necessidades

especiais na sala de aula. Isto ocorre desde a educação básica até o ensino

superior. Muitos desses professores afirmam acreditar nos benefícios da

inclusão, mas não se sentem capacitados para terem esta experiência e,

quando se deparam com um aluno que se diferencia dos demais, costumam se

preocupar. Muitos procuram ajuda com professores da área da educação

especial e buscam, junto com estudante, construir adaptações no processo

educacional. Mas há outros que acreditam que é o próprio estudante quem tem

que se adaptar à realidade presente na sala de aula.

Na pesquisa realizada com os professores da Universidade de Brasília,

os mesmos relataram que para os estudantes com necessidades especiais

terem uma educação de qualidade, são necessárias mudanças pedagógicas,

tais como adequações nas avaliações, flexibilização curricular, implementação

de nova forma de percepção e sentimento em relação a este educando,

mobiliário adequado em sala aula, apoio de interpretes de libras entre varias

outros apontamentos.

Neste contexto, nota-se que a educação inclusiva diante dos olhos dos

professores é algo importante e que deve ter investimento e cuidado. Porém,

há carências de investimentos por parte do Governo para a melhoria dessas

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condições de trabalho, não sendo muitas vezes possível, a universidade promover com qualidade, o necessário. A falta de preparo, de informações necessárias, acaba trazendo ao professor o sentimento de medo quando recebe um educando com necessidades especiais. As diferenças que trazem consigo acabam por desencadear o sentimento de estranheza nos professores por não saberem como lidar em diversas situações e isto lhes prejudica no desenvolvimento de estratégias pedagógicas no levar em conta as necessidades de cada aluno. No conjunto de habilidades e competências que os docentes devem desenvolver para o trabalho junto aos estudantes com necessidades especiais encontramos: compreender que “todos os alunos podem aprender”; que a aprendizagem é um processo subjetivo (GONZÁLEZ REY, 2011), ocorrendo de maneira ativa em cada um; desenvolver a autoestima como uma das condições de aprendizagem, com o sentimento de pertencimento a um grupo social; avaliação continua de seu processo de aprendizagem; desenvolver o espírito de solidariedade e cooperação entre os colegas; despertar o desejo de aprender e propor tarefas de maneira interessante para o desenvolvimento da capacidade de autoavaliação; e, finalmente, inserir-se no universo cultural dos estudantes (VALLE; GUEDES, 2003, p. 52 -53). Para que haja uma verdadeira Educação Inclusiva no meio acadêmico é necessário que todos os alunos tenham a mesma oportunidade de acesso, permanência e de aproveitamento, mas também que sejam concebidos como sujeitos que apreendem, independente de qualquer característica peculiar que apresentem ou não, tendo o apoio necessário dentro da universidade, assim como acesso físico, equipamentos de locomoção, comunicação (tecnologia assistiva) ou outros tipos de suporte, materiais didáticos adaptados, intérpretes, entre outros. A isso também denominamos acessibilidade. Entender e praticar a inclusão é bem diferente da realidade muitas vezes vivida nas instituições educacionais. No processo de inclusão é o meio que tem que estar preparado para acolher o estudante e estar com ele. Inclusão não se trata apenas de todos frequentarem a mesma universidade, mas sim, oferecer um meio propiciador de uma educação de qualidade, despertando uma

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consciência social de respeito às diferenças, acreditando nas possibilidades de aprendizagem próprias do ser humano, nas qualidades das relações sociais, no respeito às suas singularidades, na liberdade de ser e existir como cidadão. Incluir significa aceitar e promover habilidades, possibilidades, inteligências e não a deficiência como o fator determinante para o fracasso do estudante. Essa é a base para verdadeira inclusão.

Objetivos

Apresentar e discutir questões sobre as conquistas, dificuldades e desafios vivenciados pelos universitários com necessidades especiais da Universidade de Brasília com relação às atividades de estudo, pesquisa, extensão e acessibilidade no Campus.

Metodologia

A metodologia é qualitativa com abordagem interpretativa referenciada na teoria histórico-cultural de Vigotsky para melhor compreender o processo de aprendizagem na perspectiva do universitário com necessidades especiais matriculado em cursos de graduação da Universidade de Brasília. Permite também melhor analisar os discursos dos universitários no que diz respeito as suas conquistas, dificuldades e desafios vivenciados nos diversos espaços acadêmicos da universidade. Esse estudo com base na pesquisa exploratória oferece conhecimentos mais abrangentes sobre o tema pesquisado, ou seja, o processo de inclusão de universitários com necessidades especiais. A pesquisa foi realizada durante o período de abril de 2011 a março de 2012. Os participantes foram 13 universitários com necessidades educacionais matriculados em cursos de graduação da Universidade de Brasília. Foram esclarecidos os objetivos e procedimentos da pesquisa aos participantes. Os mesmos receberam o Termo de Consentimento Livre e

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Esclarecido

que

depois

de

lido

foi

assinado

em

concordância

com

a

participação.

Como instrumento para a coleta de dados, em razão das dificuldades encontradas para um contato direito com os estudantes, foi utilizado um questionário semi-aberto que foi respondido e devolvido à pesquisadora por email.

Resultados

As analises dos questionários foram separadas por categorias, onde cada uma delas abordara pontos importantes da nossa pesquisa de acordo com as perguntas feitas aos coordenadores, professores e alunos da UnB.

Categoria 1: Informações gerais

Com relação ao gênero, 7 dos participantes são do sexo masculino e 6 do feminino. Para estado civil 9 disseram serem solteiros, 3 são casados e 1 é divorciado. Dentre os participantes 5 se dedicam apenas aos estudos e 8 estudam e trabalham. Sobre o cadastro no Programa 3 de Apoio a Pessoa com Necessidades Especiais (PPNE), 10 afirmaram que fizeram o cadastro e 3 disseram não o terem efetuado. Com relação à faixa etária:

3 O Programa existe desde 1999 e busca ajudar o estudante com qualquer deficiência em todos os sentidos. Sua principal preocupação é tornar todos os serviços e atividades do campus acessível a essas pessoas. Fica localizado no Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília.

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Entre 17 e 20 anosEntre 21 e 25 anos Entre 26 e 30 anos Entre 31 e 35 anos

Entre 21 e 25 anosEntre 17 e 20 anos Entre 26 e 30 anos Entre 31 e 35 anos Entre

Entre 26 e 30 anosEntre 17 e 20 anos Entre 21 e 25 anos Entre 31 e 35 anos Entre

Entre 31 e 35 anosEntre 17 e 20 anos Entre 21 e 25 anos Entre 26 e 30 anos Entre

Entre 36 e 40 anosEntre 17 e 20 anos Entre 21 e 25 anos Entre 26 e 30 anos Entre

Figura 1 – Faixa etária dos participantes

Categoria 2: Fatores que contribuíram para o acesso e permanecia nos cursos

Ao perguntarmos quais foram os fatores que contribuíram para a chegada no ensino superior, obtivemos as seguintes respostas: a própria dedicação dos estudantes durante sua jornada escolar é mencionada por 7 dos participantes, 5 disseram ser o apoio vindo da família, amigos e companheiros e apenas 1 citou “outros”, mas não explicitou.

Minha dedicação e competência no período escolar 7 Ajuda da família, dos amigos, do(a) companheiro(a)
Minha dedicação e
competência no
período escolar
7
Ajuda da família, dos
amigos, do(a)
companheiro(a)
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Outros
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Figura 2 - Fatores que contribuíram para a chegada ao ensino superior

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Sobre os fatores contributivos para a permanência no Ensino Superior, 5 participantes disseram ser o apoio dos colegas, 5 afirmaram ser o apoio da família, 2 mencionaram as orientações de profissionais da área da saúde e 1 citou os recursos encontrados na Universidade de Brasília.

Ajuda e epoio dos colegas da faculdade 5 Ajuda e apoio da família, do(a) companheiro(a)
Ajuda e epoio dos
colegas da faculdade
5
Ajuda e apoio da
família, do(a)
companheiro(a)
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Orientação dos
profissionais da
2
saúde
Equipamentos e
recursos cedidos pela
UnB
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1
2
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Figura 3 – Fatores contributivos para a permanência na universidade

Perguntamos também quais são os fatores que dificultam a permanência na universidade. Dos sujeitos 6 responderam ser a ausência de recursos específicos na universidade, 5 mencionaram a falta de apoio dos professores e outros 6 não especificaram.

Falta de apoio dos professores 5 Falda de recursos específicos, softwares, programas, intérpretes 2 Outros
Falta de apoio dos professores
5
Falda de recursos específicos, softwares,
programas, intérpretes
2
Outros
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0
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Figura 4 – Fatores que dificultam a permanência na universidade

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Categoria 3 – Os desafios dos universitários

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Questionamos os participantes se eles já pensaram em desistir do curso. Dos sujeitos da pesquisa 6 disseram nunca ter pensado em tal desistência, 3 disseram que por razões que não quiseram explicitar, 2 disseram que por questões financeiras e 1 respondeu que por preconceito dele mesmo. Interessante perceber que nenhum dos participantes mencionou por questões de acessibilidade, falta de apoio da família ou por preconceito dos colegas.

Sim, por outras questões.

Sim, em razão de preconceito por parte de colegas.

Sim, por questões de acessibilidade.

Sim, por falta de apoio da família.

Sim, por questões financeiras.

Sim, em razão de preconceito por minha parte.

NUNCA pensei em desistir.

3 0 0 0 2 1 6 0 1 2 3 4 5 6 7
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Figura 5 – Pensar em desisitir do curso

Como desafio para melhora do rendimento acadêmico, 10 participantes enfatizou que sua própria dedicação nos estudos é o mais importante para esse sucesso. Outros 2 participantes mencionaram ser os professores com

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metodologias de ensino mais adequadas ao universitário com necessidades especiais. 1 estudante disse que seriam avaliações mais adequadas ao universitário com necessidades especiais.

Nas questões abertas do questionário os estudantes mencionaram que seus maiores desafios são: a conciliação entre trabalho e estudo; o desânimo quando encontram professores sem a percepção de que eles podem aprender, mas que necessitam de adequações pedagógicas nas áreas do ensino e avaliativas. Também citaram as questões de ordem financeira, pois o custo de vida em Brasília é muito alto. Os universitários, também colocaram que gostariam que fosse oferecido atendimento na área da psicologia para os auxiliarem no processo de inclusão. Também mencionam que os sintomas do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade prejudicam o processo de aprendizagem e que seria desejável haver profissionais que fizessem um acompanhamento e orientações.

Conclusões

Percebemos que embora existam dificuldades no processo de inclusão do universitário com necessidades especiais, eles permanecem firmes com o propósito de seguir em frente em seus estudos. O pensar na “desistência” do curso é algo natural, não apenas para esses estudantes, mas para muitos, pois na atual conjuntura, uma grande parte dos jovens e a maioria dos adultos precisam conciliar estudos, trabalho e família. Apesar da legislação vigente enfatizar a necessidade dos estabelecimentos públicos adequarem sua infraestrutura física para a retirada de barreiras arquitetônicas, dentro da própria universidade os estudantes ainda encontram dificuldades relacionadas à acessibilidade. Todavia, este aspecto não tem sido a causa de desistência ou desânimo dos sujeitos da pesquisa, embora comentem a necessidade de maior investimento para a aquisição de recursos materiais que propiciem melhor acesso ao ensino superior.

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Pelos relatos, fica claro que os professores exercem um papel muito importante no tocante ao processo de ensino e aprendizagem dos universitários com necessidades especiais numa perspectiva inclusiva. Eles esperam que os professores os compreendam como capazes de aprender e desenvolverem habilidades e potencialidades diversas.

Uma das causas de maior desânimo, citada pelos estudantes, é a descrença do professor sobre suas possibilidades de aprendizagem. Neste sentido, o Projeto Político Pedagógico surge como um importante orientador nas ações pedagógicas concretas dos cursos. Contudo, fica evidente a necessidade de profundas reflexões para fundamentar a desconstrução de conceitos pré-existentes acerca desses estudantes rumo à construção de novas concepções que possibilitem, de um modo natural, a transformação nas atitudes da comunidade acadêmica frente aos desafios de uma educação inclusiva de qualidade.

Interessante colocar que os estudantes tem claro que a dedicação aos estudos é um fator primordial para avançarem na formação profissional. Enfatizam que o apoio da família e colegas faz diferença nessa caminhada. O que nos faz lembrar da importância do “outro” nas relações sociais e na construção histórica de cada um (VIGOTSKY, 1989).

Embora esta pesquisa não tenha nenhuma intenção de generalizar seus resultados, é notável que universitários com necessidades especiais encontram diversos obstáculos que já deveriam estar superados dentro do espaço acadêmico, tendo em vista que a LDB 9394/96 já está próxima de cumprir 16 anos de vigência. Entretanto, a falta de investimento para o fortalecimento da universidade pública tem sido um empecilho para o desenvolvimento de práticas inclusivas concretas e eficazes. Este investimento não se diz respeito apenas à aquisição de materiais e reformas em prol de acessibilidade. Mas principalmente, investimento para a capacitação de professores e demais funcionários com a finalidade de se promover as reflexões e discussões

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necessárias na direção de mudanças significativas no pensar e no agir de cada

um.

Finalmente, concluímos que os sujeitos da pesquisa trouxeram

contribuições relevantes para que os próprios pesquisadores reflitam que as

possibilidades de aprendizagem são muito maiores do que as limitações

inerentes à deficiência.

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