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1.

0 CONCEITOS E MEDIDAS DE CONSTRUÇÃO


SUSTENTÁVEL - MENOS QUANTIFICÁVEIS
1.1 CONCEITOS E MEDIDAS
DE VALORIZAÇÃO AMBIENTAL
Antes de desenvolvermos os conceitos e medidas da construção sustentável mais quantificáveis, são expostos neste capítulo,
com a profundidade possível, os conceitos e medidas da Construção Sustentável menos quantificáveis. Esta terminologia
é utilizada pelo Prof Klas Tham, urbanista e arquitecto sueco, responsável pelo plano de urbanização da área de exposição
permanente BO01 em Malmö, na Suécia, que dedicou a sua vida profissional à investigação sobre a relação entre as pessoas
e o meio edificado.

Existe um conjunto de características do meio edificado ao qual as pessoas reagem de forma mais ou menos previsível,
mas certamente compreensível, características que incluem os conceitos e medidas de valorização social, ambiental e
espacial, desenvolvidos neste capítulo.
Assim, são descritos os conceitos e medidas que, nesta óptica, contribuem para aumentar a qualidade de vida das pessoas,
enquanto cidadãos que utilizam os espaços públicos que a cidade coloca ao seu dispor e enquanto utilizadores do meio
edificado.

Os conceitos e as medidas descritos não são, de forma alguma, exaustivos, existindo muitos mais por explorar em publicações
futuras.

Para além da postura institucional de protecção da natureza (o que normalmente apenas significa travar a transformação
do território), nos últimos 50 anos, a dimensão ambiental não tem tido uma expressão visível nem palpável no desenvolvimento
das nossas cidades, também porque, como uma área de conhecimento complexa, apenas recentemente a comunidade
científica reuniu suficientes consensos para permitir o desenvolvimento de politicas e de planos de acção.
Entretanto, aquando da intervenção nas nossas cidades, com os profundos conhecimentos que adquirimos sobre a dimensão
ambiental do desempenho do meio edificado, cabe-nos considerar e integrar esta dimensão de uma forma abrangente e
preventiva.

A dimensão ambiental é abordada sob duas perspectivas distintas:


> A primeira descreve os conceitos e as medidas da construção sustentável que são menos quantificáveis porque é difícil,
com os meios presentemente ao nosso dispor, medirmos os benefícios resultantes, apesar de sabermos que existem e que
são extremamente relevantes;

> A segunda descreve aqueles conceitos e medidas em que o desempenho energético-ambiental é mais facilmente
quantificável.

Contudo, os conceitos e as medidas aqui abordados partilham a característica de serem influenciáveis ou mesmo determinados
pelo nosso procedimento quando escolhemos para onde vamos viver e quando contribuímos para a criação dos espaços
onde outros vão viver. Os conceitos e as medidas são apresentados e desenvolvidos para que se possam integrar no acto
de projectar de forma intencional e para que possam ser expressos como desejos, procurados pelos utilizadores finais.
Para valorizarmos a dimensão ambiental de todos os espaços que habitamos, utilizamos ou visitamos, neste capítulo são
apresentados os conceitos e as medidas que, inquestionavelmente, influenciam a nossa sensibilidade para com o espaço
e promovem o nosso bem-estar.

Seguidamente são indicados alguns dos valores que tornam relevantes os conceitos e as medidas descritos. Partem do
propósito de satisfação das necessidades da sociedade de uma forma sustentável: a saúde, o conforto, a liberdade quotidiana
de interagirmos de forma livre com as outras pessoas em segurança e conforto, ...

Em suma, procuramos o contexto em que a comunidade se possa desenvolver rumo à sustentabilidade.

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SE PRETENDE AFERIR A IMPLEMENTAÇÃO DAS MEDIDAS DE VALORIZAÇÃO AMBIENTAL, QUANDO FOR VISITAR A
HABITAÇÃO QUE TENCIONA ARRENDAR OU COMPRAR, DEVE SELECCIONAR AS PERGUNTAS COM AS QUAIS MAIS SE
IDENTIFICA E COLOCÁ-LAS AO INTERLOCUTOR MAIS RESPONSÁVEL QUE ENCONTRAR: SIM | NÃ0

1: EXISTE UMA CERTIFICAÇÃO ENERGÉTICA OU AMBIENTAL DA HABITAÇÃO?

2: A HABITAÇÃO TEM INSTALADO UM SISTEMA DE AQUECIMENTO CENTRAL EFICIENTE?

3: ESTÁ GARANTIDA A AUSÊNCIA DE SISTEMAS DE AR CONDICIONADO?

4: SE AS CASAS DE BANHO NÃO TÊM VENTILAÇÃO NATURAL, EXISTE UMA ADEQUADA VENTILAÇÃO MECÂNICA?

5: SE EXISTE UMA CALDEIRA OU ESQUENTADOR NA HABITAÇÃO, É DO TIPO ESTANQUE?

6: EXISTEM CERTIFICADOS PARA OS MATERIAIS QUE ESTÃO EM CONTACTO COM O AR INTERIOR?

7: O VOLUME DE AR DA SALA É SUPERIOR A 10 METROS CÚBICOS POR UTILIZADOR PERMANENTE?

8: É POSSÍVEL VENTILAR A HABITAÇÃO DE FORMA NATURAL (IDEALMENTE VENTILAÇÃO CRUZADA)?

9: AS TINTAS UTILIZADAS EM PAREDES E TECTOS SÃO PERMEÁVEIS AO VAPOR?

SE RESPONDEU SIM A TODAS AS PERGUNTAS OU NA SUA MAIORIA, TERÁ ENCONTRADO UMA HABITAÇÃO EM QUE OS ESPAÇOS
CONTRIBUEM PARA AUMENTAR A SUA QUALIDADE DE VIDA.

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Anabela Trindade

1.1.1 SAÚDE E CONFORTO AMBIENTAL

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Para além da informação transportada de geração em geração tornamos tolerantes a uma maior amplitude de temperatura
pelos nossos genes e por aquilo que comemos, o ar que e humidade relativa. Existem inúmeros estudos que investigam
respiramos tem também um forte impacto sobre a nossa a percepção de conforto.
saúde e bem-estar.
Existem várias medidas que visam aumentar a qualidade do
Muitas novas doenças e alergias que afectam, sobretudo, o ar interior de uma forma passiva, reduzindo também as
foro respiratório têm origem num facto recente: as pessoas necessidades energéticas, durante a vida do edifício.
passam mais de 90% do tempo em espaços interiores
(principalmente edifícios), que, para garantirem a salubridade Uma destas medidas passivas é a ventilação natural.
do ar interior, se tornaram cada vez mais estanques, mais Através de uma boa ventilação natural, que pode ser regulada
compactos e dependentes de sistemas de ventilação mecânica pelo utilizador do espaço, é possível melhorar a qualidade do
ou de ar condicionado. Em muitos dos casos estudados, os ar interior e regular igualmente o conforto térmico nesse
próprios sistemas de ventilação artificial são o mais importante espaço. No nosso contexto climático, a temperatura do ar
factor de contaminação do ar interior, entre outros. A poluição exterior permite que a ventilação natural continue a ser a
proveniente das emissões dos materiais que revestem paredes, forma mais prática de diluir as toxinas que se acumulam no
tectos e pavimentos que estão em contacto com o ar interior, ar interior, em consequência das actividades humanas. As
manifesta-se também um factor de contaminação significativo. pessoas que habitam em países com climas menos amenos
têm o hábito de dormir (no Verão e no Inverno) com a janela
Os sistemas de ventilação e de ar condicionado são nocivos aberta e este hábito, quando o ruído proveniente do exterior
para a qualidade do ar sobretudo porque acumulam toxinas o permite, só pode ser benéfico, dado a qualidade do ar exterior
e, em espaços inacessíveis à manutenção, criam condições ser, em média, 2 a 100 vezes melhor do que a qualidade do
em que o grau de humidade e temperatura são propícios ao ar interior.
desenvolvimento de bactérias, de fungos e de outros
microrganismos que se forem inspirados contribuem Durante o Inverno abrir duas janelas em orientações solares
negativamente para a nossa saúde. diferentes durante um curto espaço de tempo torna-se uma
das formas mais eficazes de ventilar, provocando uma corrente
Relacionamo-nos com o espaço que nos rodeia através dos de ar que contribui para uma grande mudança de ar interior.
nossos sentidos e estes alertam-nos para o que não está Mesmo que esta acção faça baixar drasticamente a
bem. O conforto ambiental, que é largamente abordado, é um temperatura do ar interior, a inércia térmica fará com que em
importante contributo para a saúde e para o bem-estar. poucos minutos se tenha novamente alcançado a temperatura
do ar que se encontrava no espaço antes do acto de ventilação.
A abordagem bioclimática tornou-se a mais eficaz no combate
às tendências contemporâneas da deterioração da qualidade Durante o Verão, as janelas poderão estar permanentemente
do ar interior. Os novos métodos de aferição do conforto em posição basculante durante a noite, tendo a sua função,
ambiental, sobretudo no que diz respeito ao conforto térmico, de renovar o ar e, sobretudo, arrefecer a inércia térmica que
têm em conta a capacidade e a vontade de adaptação das durante o dia acumulou os excessos de calor. Para que as
pessoas às condições que as rodeiam. A adaptação voluntária pessoas se sintam bem, é também muito importante terem
(consciente e não consciente) às condições de conforto e de a noção de que, se o desejarem, podem simplesmente abrir
desconforto que nos rodeiam é hoje, um facto baseado no ou fechar uma janela. Em todos os edifícios, que aqui ilustram
consenso científico. Sempre que o espaço em que nos as medidas da construção sustentável, a ventilação natural
encontramos permita a intervenção directa na alteração dessas é possível, continuando a ser a forma principal de ventilação
condições, isto é, se está ao nosso alcance abrir ou fechar nos edifícios de habitação.
uma porta ou uma janela, descer ou subir um estore, colocar
mais lenha na lareira ou ligar um aquecimento, a nossa O volume de ar por utilizador é um factor que resulta da
margem de tolerância à temperatura aumenta . definição das dimensões do espaço e é importante garantir
um mínimo de 10 m3 de volume de ar por pessoa, especial-
Existe ainda, para além do aumento da nossa capacidade de mente nos espaços de permanência. Sempre que se consiga
adaptação quando podemos controlar as condições de conforto, aumentar este volume de ar por pessoa, reduz-se a
outra componente que influencia a nossa tolerância na necessidade de renovar o ar nesse espaço.
percepção do conforto: a estabilidade da temperatura e
humidade relativa no espaço em que nos encontramos. Por A minimização do grau de toxicidade dos materiais de
exemplo, se o espaço em que nos encontramos tem elevada revestimento (controlo na fonte) que estão em contacto com
inércia térmica, as temperaturas irão manter-se muito estáveis o ar interior torna-se um importante contributo para salva-
e esta estabilidade inspira-nos confiança, pelo que nos guardar a saúde dos respectivos utilizadores. Os cuidados a
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ter quando se especificam vernizes, tintas e revestimentos de cozinha eléctricas. No caso de se tratar de um edifício a
pavimento (qualquer superfície com uma presença superior reabilitar, em que não existem as condições necessárias para
a 30% no espaço em causa) determinam uma parte relevante centralizar no edifício o sistema de aquecimento de águas
da qualidade do ar interior, porque são potenciais fontes de quentes sanitárias e assim torná-lo exterior à habitação, e
contaminação - tanto pelas suas componentes químicas em que a caldeira tenha de se encontrar no interior da
voláteis (que, em contacto com o ar, são libertadas conforme habitação, é muito importante que se opte por uma caldeira
eventualmente reconhecemos pelo cheiro) como pela sua a gás estanque. As caldeiras estanques têm a vantagem de
textura superficial, possível captadora de poeiras e bactérias. não permitir qualquer contacto entre a zona da combustão e
É igualmente de extrema importância prevenir todo o contacto o ar interior na habitação.
do ar no interior da habitação com qualquer fonte de gás
doméstico. A medida é de fácil implementação em projectos Quando se torna necessário complementar a ventilação natural
novos através da centralização, no edifício, dos sistemas de com sistemas de ventilação artificiais, para garantir as
aquecimento central e de aquecimento de águas quentes renovações de ar necessárias, é importante que o seu
domésticas, colocando o local de combustão no exterior das dimensionamento seja correcto e que a sua manutenção seja
habitações. A utilização de formas de cozinhar, que não adequada. Na fase de projecto ou de execução qualquer falha
necessitem de recorrer ao gás (natural ou propano), permite pode significar um acréscimo desnecessário dos custos de
a redução de uma fonte de poluição do ar nas habitações. operação durante toda a vida do edifício. Quando os sistemas
A solução, de fácil implementação em todos os tipos de não funcionam adequadamente e não são submetidos a
habitação, consiste na simples troca dos aparelhos de queima manutenção regular podem tornar-se os principais focos de
de gás por aparelhos de energia eléctrica, como as placas de contaminação do ar interior.

A abertura de janelas na posição basculante, em fachadas opostas, permite uma ventilação natural eficaz promovendo a renovação do ar consumido
e quente, que se acumula junto do tecto.
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A permeabilidade das superfícies em contacto com o ar
interior pode igualmente contribuir para uma melhor
qualidade. Sob este aspecto é importante permitir que o
edifício “respire” do interior para o exterior; nomeadamente
a passagem de vapor tem de ser facilitada pelas componentes
da envolvente construída. Mas, para além da permeabilidade
das paredes, no que diz respeito ao vapor, é também importante
garantir que a maior área possível de paredes e tectos tenha
a capacidade de interagir (absorvendo-a e restituindo-a) com
a humidade do ar, nos momentos em que, dentro do edifício,
se está a produzir humidade (pela respiração humana, pelas
actividades em presença de água, pelo processo de cozinhar
ou de tomar duche ou banho nos edifícios residenciais).

O conforto ambiental e a qualidade do ar interior são os


factores mais relevantes para salvaguardar a saúde e o bem-
estar das pessoas. A ausência de conforto é extremamente
perturbadora e uma reduzida qualidade do ar pode implicar
a manifestação de doenças, muitas das quais são
extremamente difíceis de curar. Os edifícios, que são os
contextos em que as pessoas passam a maior parte do seu
tempo, devem assim, acima de tudo, salvaguardar o direito à
saúde e o direito ao conforto.

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Abílio Leitão | Parque Expo

1.1.2 RECURSOS NATURAIS E ECOSSISTEMAS

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“O SISTEMA TERRESTRE É FINITO, MATERIALMENTE
FECHADO E NÃO CRESCE...”
Herman Daly

Estas afirmações reflectem o consenso científico que hoje


rege a comunidade científica que se dedica a entender e a
definir o que tem de mudar para orientar o desenvolvimento
sistemático da sociedade no sentido da sustentabilidade. As
conclusões do Relatório de Brundtland, em 1987, introduziram
a consciência social, económica e ambiental, de que devemos
deixar às gerações vindouras um planeta com, pelo menos,
a qualidade que herdámos dos nossos antepassados. Se a
nossa sociedade tivesse interiorizado este posicionamento na
satisfação das suas necessidades, deveria estar apenas a
explorar os “juros” (aqueles que a natureza consegue
regenerar) e não o “capital” do nosso planeta.

Mas não é isso que está ser feito!


Devemos mudar as nossas práticas em todos os sectores da
sociedade, sendo determinante o poder que nos cabe como
cidadãos, não só pelos actos que nós próprios decidimos, mas
também pelo que podemos e devemos exigir a quem por nós
eleito.

Representa uma prioridade que todo o sector da construção


entenda e siga os princípios, que aqueles mais sábios entre
nós compreenderam, sobre o desenvolvimento sustentável:

> No contexto da natureza orgânica, que nos fornece muitos


dos produtos que precisamos para sobreviver, temos de
aprender a gerir a sua exploração, sabendo que não podemos
explorar recursos para além dos limites de capacidade de
regeneração do planeta.

> Em relação à natureza anorgânica (que, hoje em dia,


abrange ainda a grande maioria dos materiais de construção)
o desenvolvimento sustentável não impõe que, por exemplo,
não sejam extraídos minerais da crosta da terra para a
construção de edifícios e infra-estruturas. Impõe, no entanto,
que tudo o que é extraído tenha o máximo valor acrescentado
(e seja muito bem aproveitado), sem jamais colocar em risco
o equilíbrio dos ecossistemas. E porque não aceitar o desafio
da utilização de materiais orgânicos na construção?

> Cada metro quadrado da natureza que ocupamos com


construções inertes para albergar as actividades humanas
reduz a capacidade da terra de se regenerar e de produzir o
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“DEVEMOS APENAS EXPLORAR RECURSOS NATURAIS
PROVENIENTES DE ECOSSISTEMAS BEM GERIDOS, UTILIZANDO-OS
DA FORMA MAIS EFICIENTE E PRODUTIVA, EXERCENDO CAUTELA
EM TODAS AS MODIFICAÇÕES QUE FAZEMOS À NATUREZA.”
Professor Karl-Henrik Robert

que precisamos para nos alimentar e para os demais produtos


consumíveis que ela nos fornece. Assim, é um desafio
importantíssimo que as superfícies, que já conquistámos à
terra, se tornem tão eficientes quanto possível, no sentido de
satisfazerem o que faz falta às pessoas, evitando, a todo o
custo, que se ocupem mais superfícies. Este é mais um motivo
pelo qual a reabilitação e a requalificação dos meios edificados
existentes é uma prioridade.

A distância que os materiais percorrem para chegar ao local


onde são utilizados, por exemplo, na construção de um edifício,
tem também um impacto na medida em que o respectivo
transporte utiliza energia. Devemos sempre que possível
contemplar, em primeiro lugar, a possibilidade de especificar
materiais que são explorados num raio de 100 quilómetros
de distância do local da obra5.

Para além da necessidade de utilizar os recursos naturais de


forma eficiente, justa e responsável, quando é referido que a
exploração excessiva de recursos não deve causar alterações
na natureza, queremos, por um lado, indicar que é importante
garantirmos que, em consequência dos recursos explorados,
não se produzam na natureza concentrações nefastas de
materiais ou gases e, por outro lado, indicar que a produção
de substâncias e materiais pela sociedade devem respeitar
o ritmo de absorção ou integração nos sistemas naturais.

A ocupação de solo que, do ponto de vista ambiental, significa


uma infracção do planeta, torna-se tanto mais importante
quando sabemos que existe uma população actual de 6 mil
milhões e dentro de 30 anos de 9 mil milhões de pessoas3.
Como 50% desta população já habita em cidades, é fácil
imaginar a sua maior densidade populacional e, com cidadãos
cada vez mais informados e mais exigentes, estas terão que
oferecer uma maior qualidade de vida1.

Se considerarmos estes desafios como nossos e os aplicarmos


a cada decisão que tomamos, iremos deixar às gerações
vindouras as mesmas possibilidades que herdámos, no sentido
de poderem vir a satisfazer os seus sonhos.

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1.2 CONCEITOS E MEDIDAS
DE VALORIZAÇÃO SOCIAL
Os espaços públicos são os locais onde as pessoas podem interagir livremente. A hospitalidade e o conforto urbano dos
espaços públicos (exteriores e interiores) determinam a forma como as pessoas interagem entre si e são o resultado das
preocupações de quem os concebeu.

Por vezes criados de forma planeada e, por vezes, o resultado de uma transformação evolutiva e espontânea, os espaços
públicos da cidade exprimem o seu primeiro nível de identidade. Os espaços exteriores, em cuja concepção e construção
foi contemplado o conforto ambiental (térmico, visual, acústico…), oferecem às pessoas que os utilizam condições de estar
dignas e acolhedoras, resultando em oportunidades positivas de interacção social. Os conceitos e medidas que seguidamente
se apresentam são apenas alguns dos que os especialistas, que se dedicam à valorização social do espaço urbano, têm
comunicado ao longo dos anos, mas que nos parecem ser de extrema relevância e, de certa forma, contrários a algumas
tendências actuais.

A integração social é influenciada e, em alguns casos, até determinada pelo contexto urbano. Por exemplo, o facto de
isolarmos usos na cidade, criando guetos mono-funcionais, origina uma multiplicidade de problemas que os utilizadores
sentem até à esfera íntima. Por exemplo, quando se cria um centro de negócios numa cidade, a primeira consequência é
a impossibilidade de habitar perto do local de trabalho, característica que por si só, obriga a deslocações pendulares e a
fluxos de trânsito intensos. Se também se pretende optimizar o desempenho social nos contextos urbanos que criamos ou
que reabilitamos, é importante ter em consideração um conjunto de medidas que permitam melhorar o grau de identificação
das pessoas com o contexto urbano que utilizam.

A intensidade com a qual os utilizadores se identificam nos espaços que habitam e utilizam, determina a atitude que tomam
para com esses espaços e a forma como se comportam perante as outras pessoas.

É igualmente verdade que a educação que os pais e as famílias oferecem, bem como os media, influencia o comportamento
das pessoas, mas a capacidade de interagir com o espaço que os rodeia é compulsiva e, por isso, domina todas as outras
influências. O Professor Klas Tham, urbanista sueco, ensina-nos que, na cidade, também a diversidade é uma característica
determinante para nos mantermos estimulados e positivamente interactivos com o meio que nos rodeia.
Os conceitos, de seguida abordados e menos fáceis de quantificar, contribuem para uma maior identificação das pessoas
com o espaço que utilizam, aumentando, por isso, também a sua integração social, a qualidade de vida, bem como a forma
como agem entre si.

Nesta área é abordado um conjunto de desafios, principalmente à escala do planeamento urbano, que promove a criação
de contextos urbanos atractivos e comunidades que se desenvolvem rumo à sustentabilidade.

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Ken Nunes

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SE PRETENDE AFERIR A IMPLEMENTAÇÃO DAS MEDIDAS DE VALORIZAÇÃO SOCIAL, QUANDO FOR VISITAR A HABITAÇÃO
QUE TENCIONA ARRENDAR OU COMPRAR, DEVE SELECCIONAR AS PERGUNTAS COM AS QUAIS MAIS SE IDENTIFICA E
COLOCÁ-LAS AO INTERLOCUTOR MAIS RESPONSÁVEL QUE ENCONTRAR: SIM | NÃ0

1: O CONTEXTO EM QUE SE INSERE A HABITAÇÃO É COMPACTO E MULTIFUNCIONAL ?

2: TEM ACESSO AO QUE PRECISA NO DIA A DIA, NUM RAIO DE APROXIMADAMENTE 10 MINUTOS A PÉ DO LOCAL
DA HABITAÇÃO, INCLUINDO EQUIPAMENTOS CULTURAIS, DESPORTIVOS E DE LAZER ?

3: EXISTEM ESPAÇOS VERDES DE LAZER PÚBLICOS, SEMI-PÚBLICOS OU SEMI-PRIVADOS PERTO DO LOCAL ?

4: EXISTE DIVERSIDADE NO MEIO EDIFICADO - DE CORES, TEXTURAS E FORMAS - NAS PROXIMIDADES ?

5: É ENTREGUE UM MANUAL DE UTILIZAÇÃO NA COMPRA OU ARRENDAMENTO DA HABITAÇÃO ?

6: A ACESSIBILIDADE A TODOS OS ESPAÇOS COMUNS DO EDIFÍCIO PODE SER EFECTUADA FACILMENTE SEM A EXISTÊNCIA
DE BARREIRAS ?

SE RESPONDEU SIM A TODAS AS PERGUNTAS OU NA SUA MAIORIA, TERÁ ENCONTRADO UMA HABITAÇÃO EM QUE OS ESPAÇOS
CONTRIBUEM PARA AUMENTAR A SUA QUALIDADE DE VIDA.

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Homem à Máquina|Parque Expo

1.2.1 CIDADES COMPACTAS E MULTIFUNCIONAIS

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A Estratégia Temática sobre o Ambiente Urbano, desenvolvida sistemas de isolamento de base (apoios anti-vibráticos), como
pela Comissão Europeia no âmbito do programa 6th medida minimizadora da transmissão de vibrações e de ruído
Environment Action Programme refere que, quando são estrutural para o interior dos edifícios.
compactas e multifuncionais, as cidades têm melhores
condições para se desenvolverem rumo à sustentabilidade. A cidade compacta e multifuncional é também uma cidade
que oferece melhores condições às pessoas, no sentido de
Uma cidade compacta e multifuncional é muito mais capaz satisfazerem as suas necessidades, sem impedir que as
de responder a todos os desafios que hoje lhe colocamos do gerações vindouras também o façam.
que uma cidade monofuncional. Quando desenhamos a malha
que define uma cidade, se segregarmos os usos e as classes Seguidamente são apresentados alguns dos direitos dos
sociais, estamos a criar guetos que concentram funções. A cidadãos que devemos proteger e potenciar, no âmbito da
alienação que resulta de uma segregação social e o cidade compacta e multifuncional (entre outros direitos que,
descontentamento que domina o relacionamento entre as mais adiante neste capítulo, serão abordados como conceitos):
pessoas dificultam a criação e preservação do equilíbrio e
harmonia social. Ao concentrar funções em áreas distintas > O direito de nos sentirmos seguros quando utilizamos
da cidade (por exemplo, grandes áreas apenas com o uso espaços públicos, o que implica uma sociedade equilibrada
residencial, outras apenas com o uso comercial, outras apenas e solidária;
com o uso de serviços...) estamos também a criar uma
necessidade de mobilidade entre esses pólos que concentram > O direito à saúde, o que implica uma elevada qualidade de
funções, que levam a que as pessoas não possam satisfazer ar interior, conforto térmico e níveis de ruído aceitáveis;
as suas necessidades diárias sem a utilização de meios de
transporte, estimulando, assim, movimentos pendulares que > O direito à privacidade, o que implica uma nítida
determinam a qualidade de vida das pessoas, diminuindo- disponibilidade e diferenciação entre espaços públicos e
lhes diariamente, de uma forma considerável, o seu precioso espaços privados;
tempo e contribuindo também para o aumento do consumo
de energia e de emissões de gases com Efeito de Estufa. A > O direito ao sol, o que implica que exista incidência de raios
qualidade de vida dos cidadãos numa cidade exprime-se solares na casa que habitamos;
sobretudo através do grau de acessibilidade que têm a tudo
o que precisam e não através do grau de mobilidade de que > O direito de acedermos, em 10 minutos a pé, a tudo o que
dispõem. nos faz falta no dia a dia, o que implica um contexto urbano,
compacto e multifuncional, em que podemos aceder a todas
Uma comunidade socialmente inclusiva tem melhores as infra-estruturas básicas, espaços verdes e equipamentos
condições para oferecer segurança aos seus cidadãos do que de lazer (de diversas dimensões), que nos permitam o estilo
uma comunidade segregada ou constituída por guetos. Quando de vida que escolhemos.
todos os cidadãos sentem que são parte integrante da
comunidade em que habitam e que a sua opinião é ouvida e Para conceber espaços interiores e exteriores dotados das
as suas necessidades são contempladas, é mais provável que características que garantam que os cidadãos possam usufruir
respeitem as regras de funcionamento dessa comunidade, dos direitos anteriormente referidos, é necessário entender
mesmo que nem todas sejam a seu favor. as implicações de cada direito. Alguns destes direitos estão
salvaguardados na nossa constituição e na nossa legislação,
As infra-estruturas são o maior investimento na criação de mas carecemos de um maior grau de exigência face aos
cidades e não existe qualquer dúvida que a cidade compacta valores ambientais que caracterizam os nossos tempos.
e multifuncional permite a sua utilização mais eficiente.
Quando uma infra-estrutura bem dimensionada é plenamente O direito de nos sentirmos em segurança quando nos
utilizada, está a desempenhar o seu papel de forma completa encontramos em espaços públicos é muito mais fácil de
e, em muitos casos, é inferior a manutenção que carece. satisfazer quando nesses espaços se realizam actividades ao
Também os sistemas de transportes beneficiam de contextos longo de muitas horas, todos os dias, estando a cidade
urbanos compactos, porque com um maior número de compacta melhor posicionada para oferecer um maior número
utilizadores por área que servem, pode ser maior a sua de actividades num mesmo espaço geográfico e temporal.
frequência e consequentemente melhor o serviço que prestam, A multifuncionalidade da cidade contribui para que não fiquem
enquanto aumentam as condições de segurança das pessoas. abandonadas vastas zonas da cidade durante horários
A densa malha urbana aliada à expansão das linhas ferroviárias extensos, por exemplo, quando os bairros têm uma diversidade
e de metro, justifica um cuidado especial na localização dos de usos, também as suas actividades se estendem ao longo
edifícios, sendo necessário em certas situações a adopção de de todo o dia e parte da noite.
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O direito à saúde, que implica garantir uma elevada qualidade
do ar interior, um conforto térmico estável e níveis de ruído
aceitáveis, é um direito hoje considerado adquirido (mas pouco
entendido) e uma das causas do crescente consumo de energia
no meio edificado. Salvaguardar, num contexto urbano de
elevada densidade, as características que garantem este
direito sem depender de sistemas energívoros é, sem dúvida,
um dos grandes desafios abordados nesta publicação.

O direito à privacidade torna-se mais pertinente numa cidade


em que as pessoas coabitam em maior proximidade e é
essencial para a saúde mental. Um aspecto desta privacidade
é, certamente, o facto de podermos ter acesso visual ao
espaço, sem nos sentirmos observados por outros, qualidade
que pode ser alcançada através de uma geometria espacial
que, provavelmente, terá que ser tanto mais sofisticada quanto
maior for a densidade populacional. Também o facto de
delimitar nitidamente o espaço público do espaço semi-público
e o espaço semi-privado do espaço privado faz com que as
pessoas sintam uma maior confiança na utilização destes
espaços.

O direito ao sol, por exemplo, significa que uma casa orientada


apenas a Norte e que nunca usufrui da entrada de raios
solares, provavelmente não é adequada para o uso habitacional.
Assim, sempre que exista uma habitação com orientação a
Norte, terá que usufruir também de, pelo menos, outra
orientação solar.

O direito de acesso a todas as infra-estruturas fundamentais


que permitem que conduzamos o estilo de vida escolhido,
idealmente de acedermos em 10 minutos a pé a tudo o que
nos é necessário no dia a dia, implica que o planeamento
urbano defina a distribuição dos usos relevantes e que a gestão
urbana assegure a sua implementação. Não perdendo a
flexibilidade que o mercado livre exige, trata-se aqui de
responder, de forma ordenada, a necessidades básicas
quotidianas dos cidadãos. Especialmente as escolas (pré-
primárias e primárias) podem exercer um poder de atracção
muito grande quando escolhemos o local em que vamos
habitar. São equipamentos importantíssimos e aos quais a
facilidade de acesso tem um forte impacto sobre a qualidade
de vida das famílias. Uma densificação selectiva, que
acompanha os principais eixos dotados de infra-estruturas
de transportes colectivos, é uma solução que contempla os
critérios do desenvolvimento sustentável, na medida em que
aumenta a utilidade dessa infra-estrutura.

O direito de podermos aceder comodamente a espaços verdes


exteriores (de diversas dimensões) faz parte de um equilíbrio,
no âmbito do qual a cidade se apresenta como microcosmo
do planeta e pretende proporcionar ao cidadão, que nele
habita, a natureza, mesmo que apenas sob forma simbólica.
É também óbvio que, por ter optado por viver na cidade,
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o cidadão não pretende deixar de usufruir da natureza. Os
espaços verdes urbanos têm um impacto extremamente
positivo na vida dos cidadãos, especialmente porque aliviam
a intensidade da cidade dinâmica.

O valor económico associado ao património edificado tem sido


quase exclusivamente um resultado do valor da respectiva
localização e da área construída. Com a emergência dos novos
valores sociais, intimamente ligados à qualidade de vida das
pessoas, é natural que o valor económico venha gradualmente
a contemplá-los. Também a certificação energética associada
a cada habitação irá valorizar consideravelmente os aspectos
relacionados com o desempenho energético-ambiental.

O desafio que a cidade compacta e multifuncional lança à


nossa sociedade é a salvaguarda de direitos dos cidadãos que
conduzem a uma maior qualidade de vida. Por enquanto, estes
direitos não são traduzíveis num número mágico que possa
vir a substituir os índices brutos de construção que hoje
imperam no planeamento e no licenciamento urbano. É
possível que nem no futuro venham a existir fórmulas
prescritivas tão simples como no passado, dada a complexidade
e especificidade dos contextos em que se irá intervir. Haverá,
sim, que integrar no processo de planeamento urbano
conceitos e medidas associadas ao bom desempenho da
cidade.

À escala das infra-estruturas urbanas, existem, entre outros,


um conjunto de desafios, que incluem a integração dos novos
paradigmas da produção de energia (a micro-produção que
utiliza fontes de energia renováveis) e de produção de água
secundária (reciclada), bem como das redes inteligentes
necessárias para incorporar a nova dinâmica dos fluxos
energéticos e da água.

O processo que levará ao desenvolvimento de cidades mais


salubres, confortáveis e atractivas passa pela concertação
dos valores a salvaguardar, pela aferição e exploração
sistemática das soluções que conduzem a contextos urbanos
que garantem as qualidades objectivadas e pela cooperação
solidária entre todos os actores envolvidos e afectados para
os implementar. Será mais fácil alcançar consensos sobre
valores e sobre soluções, se estes assentarem em dados
técnicos e científicos com os quais os actores se identifiquem.

Os consensos são de extrema importância porque alavancam


as mudanças necessárias em procedimentos e em
comportamentos, mesmo que estas impliquem grandes
esforços. Da mesma forma, é importante que a mensagem
que chega ao cidadão seja coerente, para lhe facilitar o
processo de adaptação a novos comportamentos e a novas
atitudes, especialmente perante o consumo.

48
1.2.2 CONFORTO, IDENTIDADE E DURABILIDADE
DO CONTEXTO URBANO

49
A identidade dos espaços que habitamos e utilizamos estimula
em nós a sensação de pertença a esse lugar - pertencer
significa que nos sentimos co-responsáveis pelo contexto
urbano em que nos movemos e no qual estamos. Se as pessoas
se identificam com os lugares em que passam o seu tempo,
o comportamento perante estes espaços e perante as outras
pessoas que com elas partilham os espaços é certamente
mais positivo do que nos casos em que não se identificam
com os lugares.

A durabilidade dos espaços também nos estimula uma


sensação de serenidade, de confiança e de continuidade.

Estas emoções de fundo tornam-se ainda mais importantes


para equilibrar os estímulos momentâneos e efémeros que
nos invadem os sentidos e que nos levam a actuar de forma
menos sustentável. Os valores que nos guiam e que se têm
mantido ao longo dos “picos”, mais ou menos extremos da
nossa civilização, estão, muitas vezes, consolidados nos
edifícios e nos espaços que nos acolhem ao longo dos tempos.

A vida de um edifício deveria prolongar-se muito para além


da vida dos seres humanos. Hoje os edifícios devem ser
concebidos para viverem 100, 200 ou mais anos, pelo que
deveremos contemplar muitas necessidades que actualmente
ainda são desconhecidas. Para além de se incorporar essas
necessidades de espaço que hoje desconhecemos, é também
importante que, mesmo no fim de vida, muitos dos materiais
e componentes dos edifícios possam ser reutilizados ou
reciclados - e este desafio e responsabilidade deve, à partida,
ser assumido pelos projectistas.

É extremamente importante contemplar a escala do peão na


cidade, porque, para que as pessoas se possam mover a pé,
é necessário que os contextos o permitam, de forma segura
e confortável. Este é o modo mais fácil e acessível de
movimentação na cidade para quase todas as pessoas. No
entanto, nos tempos de hoje em que o automóvel domina, a
mobilidade pedonal é secundária e tornou-se muito mais
insegura e desconfortável - o ruído, a largura e o estado
degradado dos passeios, os automóveis estacionados sobre
os passeios que criam barreira, a velocidade dos automóveis
em locais onde os peões atravessam as vias... todos estes
factores estimulam a nossa vontade de nos movermos na
mesma cápsula de protecção que oferecem os transportes
individuais. O meio edificado que contempla a escala do peão
está a incentivar a que as pessoas se movam a pé, sem poluir
e com maior acessibilidade a toda a diversidade que a cidade
oferece.

50
1.2.3 DIVERSIDADE DE COR, TEXTURA, FORMA,
USO, PROPRIEDADE, TIPOLOGIA...

51
O Professor Klas Tham refere que a diversidade na cidade é Exemplo:
importante para nos mantermos estimulados e interactivos A Torre Sul, no Parque das Nações (edifício habitacional com
com o meio que nos rodeia. Também porque quanto maior 55 apartamentos e 21 tipologias distintas - ver ficha técnica),
for a interactividade com o meio, mais os nossos sentidos é um exemplo de uma aldeia vertical, em que a diversidade
podem colher informação e transformá-la em estímulos que contribui para o bom funcionamento da comunidade. O
nos fazem aprender, crescer ou mesmo reagir. relacionamento entre os habitantes é, ainda hoje,
excepcionalmente pró-activo e positivo. Nas Assembleias de
Dada a sua importância, a diversidade deve ser motivada à Condomínio da Torre Sul está sempre representada a maioria
escala dos planos e contemplar diversos níveis. das fracções que compõe o prédio e os condóminos participam,
activa e positivamente, na solução das situações por resolver.
Para além de todas as características de volume, forma, cor,
textura e do comportamento físico dos edifícios, a dimensão DIVERSIDADE DE USOS
do desempenho social dos empreendimentos influencia Quando existe diversidade de usos, o contexto urbano apresenta
fortemente o grau de identificação que as pessoas sentem actividade humana ao longo de todo o dia, todos os dias - e
com os espaços privados que habitam e com os espaços a actividade também traz segurança para os utilizadores,
públicos que utilizam. Assim, torna-se também importante a mesmo que, efectivamente, se trate de uma ilusão de
diversidade na tipologia, no uso e na propriedade. segurança.

DIVERSIDADE DE TEXTURA, COR E FORMA A valorização do património imobiliário dos centros históricos
Ninguém é indiferente à diversidade de texturas, cor e forma das cidades europeias levou a que, em muitos casos, se
das cidades que constituem o património mundial da transformassem em centros de negócios e centros
humanidade. As cidades mais belas e mais visitadas do mundo institucionais. Com preços mais elevados e infra-estruturas
são composições artísticas complexas e sofisticadas onde, menos adequadas às necessidades contemporâneas, em
por vezes, conscientemente e, por vezes, de forma orgânica comparação com as áreas de expansão das mesmas cidades
e espontânea, o crescimento ao longo do tempo levou a que (nomeadamente a falta de estacionamento e de meios
a relação entre os elementos que a compõem é quase tão mecânicos de deslocação vertical), resultou a desertificação
bela como o seu mais belo elemento individual … nocturna destes centros históricos. Uma área monofuncional
é, tendencialmente, menos acolhedora do que uma área
DIVERSIDADE DE TIPOLOGIA multifuncional. As pessoas não se identificam com zonas em
O Professor Klas Tham, responsável pela concepção do Plano que apenas se trabalha, porque acabam por se tornar
de Pormenor da área permanente da Exposição BO01 em impessoais.
Malmö, na Suécia, também explorou profundamente estas
qualidades da diversidade. Na sua opinião, quando A diversidade de uso também tem a vantagem de encontrarmos
conseguimos incorporar uma maior diversidade de tipologias o que precisamos perto de onde estamos.
num edifício ou num contexto urbano específico, estamos a
alargar o leque de escolha de local para viver ou trabalhar DIVERSIDADE DE PROPRIEDADE
dos seus habitantes (presentes e futuros) e a aumentar também Uma família passa por várias fases de desenvolvimento e as
a qualidade do seu relacionamento. suas necessidades variam ao longo do tempo. Quando os
Com um exemplo que explica esta ideia pela negativa filhos se tornam independentes e saem de casa, o passo
entenderemos, certamente, a respectiva força: se habitamos gradual para a independência é menos traumatizante do que
uma zona em que existem apenas tipologias habitacionais T3 a ruptura brusca. Assim, quando é possível arrendar um
e T4, serão seguramente excepção os habitantes que vivem pequeno apartamento na mesma zona em que a família vive,
sozinhos, que são mais idosos ou mais jovens, fazendo com a família pode continuar a ter uma relação regular, sem
que o equilíbrio do mix social seja mais frágil a curto, médio condicionar a consolidação necessária da independência. O
e longo prazo. Quanto maior for a diversidade de tipologias jovem filho pode, facilmente, manter o contacto conveniente
num mesmo edifício ou num mesmo contexto urbano, maior com a família.
é a probabilidade das pessoas interagirem e se comple-
mentarem, sem, necessariamente, se compararem ou É também um aspecto positivo se a rotatividade de pessoas
entrarem em competição. Podemos, talvez, constatar que que vivem em apartamentos para arrendamento não
contextos urbanos com maior diversidade de tipologia desenraíza a comunidade local à qual temporariamente
fomentam a tolerância e, consequentemente, por reflexo, a pertencem, sendo esta compensada por residentes estáveis.
integração social.

52
1.2.4 FLEXIBILIDADE DOS ESPAÇOS QUE HABITAMOS

53
Há menos de 50 anos, em zonas rurais, não havia electricidade, que terá que ser assimilado pelos actores relevantes no sector
as pessoas nem sempre tinham oportunidade de usar sapatos residencial.
e o trabalho árduo acontecia do amanhecer ao anoitecer. Estas
mesmas pessoas, hoje idosas e com uma vida mais estável A flexibilidade que podemos integrar numa tipologia
e informada, mal se lembram do choque cultural provocado habitacional vai muito para além de um aumento de área e
pelo aparecimento da telefonia que lhes alterou a concepção do número de quartos de uma casa. Há actividades que hoje
que tinham do mundo. podemos praticar em casa, dado o desenvolvimento tecnológico
na área da informação e da comunicação, que revolucionou
Se os últimos 50 anos trouxeram mudanças tão profundas a as infra-estruturas que nos apoiam. Mas esta revolução
um ritmo tão veloz às pessoas que vivem no campo, quem tecnológica ainda não foi assimilada pela arquitectura dos
nos pode garantir que os próximos 20 anos não nos trarão espaços que habitamos, provavelmente porque a cultura se
mudanças ainda mais radicais? E quem nos pode dizer hoje, transforma mais lentamente do que as nossas infra-estruturas
até que ponto estas mudanças vão afectar a forma como físicas.
vivemos nos espaços que habitamos e o que deverá ser-nos
garantido pelos mesmos? Se os nossos edifícios são Um dos compartimentos que se revela cada dia mais
concebidos para durar 100 ou mais anos, então quais são as necessário é o espaço flexível para trabalharmos em casa,
conveniências, as necessidades funcionais e os rituais que os aqui designado como Small Office Home Office (SOHO). Com
espaços que hoje realizamos deverão albergar? acesso a todas as infra-estruturas de comunicação, estes
espaços podem ser compactos, extensões de outros espaços
É também importante que, logo aquando da elaboração do na casa e, limitando-se a uma pequena área, acabam por
projecto, se incorpore a flexibilidade necessária para permitir desempenhar uma função extremamente importante nos dias
a adaptação a necessidades que hoje não conhecemos, dando de hoje.
o exemplo de uma família que precisa de mais espaço, porque
nasceu mais um filho ou uma filha, ou até porque os pais do Uma das vantagens do acesso ao trabalho a partir da nossa
casal, idosos, necessitam de ficar mais próximos - e também habitação é que provavelmente não precisaremos de estar no
o exemplo inverso, em que os filhos saem de casa para criar local de trabalho em todo o horário de expediente e, por este
as suas próprias famílias e libertam quartos. Na generalidade, motivo, reduziremos os nossos movimentos pendulares,
qualquer uma destas evoluções naturais obriga a família a especialmente em horário de ponta. A redução do tempo que
mudar de casa, mas ao implementar conceitos que tornam passamos no trânsito assim como a redução das respectivas
a casa mais flexível, é possível permanecer no 'lar' familiar. emissões de CO2 para a atmosfera representa ganhos sociais
O conceito de casa que permite o crescimento evolutivo pode e ambientais muito significativos.
implicar que a sua tipologia permita (sem grandes obras)
ampliar a área, quando a necessidade se materializa, por Quando não podemos exercer as nossas funções profissionais
exemplo, o que é possível se uma casa de dois pisos dispõe em casa, mas a empresa permite que realizemos o trabalho
à partida de uma área coberta que inicialmente não é fechada em local da nossa preferência, surge a necessidade da
- e que pode vir a ser fechada mais tarde, respeitando o existência de espaços comunitários, centros de tele trabalho,
projecto bioclimático e evolutivo, desta forma licenciado. situados perto de onde vivemos, onde, a um custo competitivo,
Inicialmente, este espaço coberto pode servir para actividades possamos trabalhar e interagir com outras pessoas nas
de lazer e de bricolage ou até mesmo de área de mesmas condições.
estacionamento. Quando for integrado na casa é um quarto
com excelente acessibilidade para idosos (por se situar no Espaços que podem albergar mais do que uma função trazem
piso térreo) ou para pessoas com dificuldades motoras. Pode um enorme valor acrescentado às nossas habitações! Quantas
ser um escritório com acesso independente do exterior e pode vezes sentimos que os espaços que temos ao nosso dispor
tornar-se uma oficina para a família. Esta área que se pode não são adequados às actividades que precisamos de exercer?
tornar habitável, à partida, não deve onerar a aquisição da
casa mas deve permitir uma maior valorização ao longo da A flexibilidade tem de se tornar uma prioridade no acto de
sua vida útil. Esta flexibilidade à escala da casa deve ser concepção e de realização das nossas habitações. Em muitos
interiorizada nos processos de licenciamento, com as casos são pequenas medidas que permitem alcançar a
relevantes salvaguardas em relação aos prazos de execução flexibilidade desejada, como, por exemplo, a forma de abertura
das obras de ampliação pré-estabelecidas e à qualidade de do vão que separa a varanda da sala de estar ou de jantar e
execução indicada. a cota do pavimento a que se encontra em relação à sala
determinam a relação entre estes espaços em situações
Num edifício com várias habitações, esta flexibilidade é menos como, entre outras, um jantar em que o número de pessoas
fácil de alcançar, no entanto não é impossível e é um desafio é elevado e a mesa não cabe exclusivamente na varanda.
54
Se o vão é suficientemente amplo e a cota dos pavimentos com espaços que são acessíveis ao público. Tendo em conta
suficientemente similar é possível estender a varanda para esta realidade desejada, é importante que os pés-direitos de
o interior da sala de estar, ou seja, colocar a mesa fazendo todos os pisos térreos nos edifícios permitam uma eventual
a transição entre ambos os espaços. mudança de uso para locais acessíveis ao público, quer para
equipamento, comércio, escritórios, oficinas...
Esta flexibilidade que, no fundo, significa transferir para o
meio edificado a visão que temos das necessidades que o Para que todas as dimensões de flexibilidade anteriormente
futuro nos poderá trazer, aplica-se também à escala urbana. descritas - seja à escala urbana, seja à escala do edificado -
Quando é urbanizada uma nova área (idealmente requalificando possam ser integradas nas práticas comuns da construção
solos urbanos) pode não se justificar dedicar todos os pisos também deve ser garantida a sua integração nos processos
térreos ao uso comercial e dar-lhes acesso público. Mas, de licenciamento. Bastará provavelmente a desburocratização
consolidada esta área, provavelmente fará todo o sentido que do respectivo processo de licenciamento para que seja um
os pisos térreos que ladeiam as ruas possam dar-lhes vida grande incentivo à sua implementação alargada.

SUL

Planta Apartamento T2 Parque Oriente


O projecto PARQUE ORIENTE contempla já, à escala do próprio Plano de Pormenor, a integração de áreas de trabalho a partir de casa. Um exemplo
é esta tipologia T2, que tem uma área associada à sala de estar e que se projecta sobre o espaço de lazer colectivo, dedicada ao trabalho a partir
de casa. Por ter janela própria, é uma área que poderá ser separada da sala no caso da actividade o exigir. No entanto, com apenas poucos metros
quadrados é possível satisfazer uma necessidade que pode em muito contribuir para aumentar a qualidade de vida das pessoas.

55
PISO 0

PISO 1
SUL

Colmeia Sintra
O projecto COLMEIA SINTRA, promovido pela Cooperativa COLMEIA, é constituído por 28 casas com tipologias T2 e T3 na zona de Sintra. Existe
uma tipologia T3 que é flexível, na medida em que permite a ampliação de mais um quarto de dormir ou escritório no piso térreo. Na adesão a
esta tipologia, os cooperadores assumem, à partida, que pretendem um T4, no entanto, a flexibilidade de ampliação de uma casa oferece uma
medida que deve fazer parte dos programas de mais projectos, porque beneficia os utilizadores finais.
A planta do piso térreo define uma área coberta, que não sendo fechada, permite uma posterior ampliação da casa, com mais um quarto ou
escritório. Este espaço, depois de fechado, torna-se extremamente flexível porque se encontra junto à entrada da casa - podendo assim servir
de espaço em que se exercem actividades profissionais ou de quarto para alguém que seja portador de deficiência motora.
O piso superior da casa é ocupado por três quartos de dormir e pelo amplo espaço de duplo pé direito da sala de estar, cobrindo a área que no
piso 0 está destinada ao futuro crescimento da casa.

Colmeia – Cooperativa de Habitação e Construção, CRL.


Avenida D. João II, Lote 4.53.02.D, 1900-100 Lisboa
Tel: +351 218 922 170 | Fax: +351 218 922 179
www.colmeia.com.pt | coopcolmeia@colmeia.com.pt

56
Livia Tirone

1.2.5 CRIAÇÃO DE COMUNIDADES QUE SE


DESENVOLVEM RUMO À SUSTENTABILIDADE

57
As características do contexto em que cresceram novas Com a entrega de cada fracção autónoma a um novo habitante
comunidades ou em que se consolidam comunidades deve-lhe também ser entregue um manual de utilização que
existentes podem conduzir a um desenvolvimento mais ou abrange, entre muitos aspectos, todas as indicações sobre a
menos sustentável. Quando os edifícios implementam, de boa utilização da sua fracção, descrevendo o modo como se
forma expressiva e interactiva, as melhores tecnologias pode tirar o melhor partido de todas as respectivas qualidades.
disponíveis para oferecerem conforto aos utilizadores,
minimizando todos os impactos negativos sobre o ambiente, ACESSIBILIDADE PARA TODOS
é provável que os habitantes dessa comunidade se sintam Acessos confortáveis com as dimensões adequadas e trajectos
motivados para colaborar no mesmo sentido, porque não são criteriosamente concebidos garantem que também os
indiferentes a estas características dos edifícios. Os espaços deficientes motores possam chegar a todos os espaços de
envolvem as pessoas que os utilizam em alguns processos um edifício ou de um contexto urbano.
de decisão, como é o caso, por exemplo, das zonas onde se
procede à separação dos resíduos sólidos. Não é nova a prioridade política de eliminar o favoritismo
pelas maiorias e de fomentar a integração social, também à
Mas também a sensibilização, que faz parte do processo de escala dos edifícios. Neste sentido, permitir que, ao longo da
'vendas' (primeiros contactos com os habitantes de uma sua vida, todas as pessoas (independentemente das suas
comunidade) e a monitorização de consumos e desempenho, diferenças e condicionantes…) possam aceder a todos os
que pode ser comunicada a todos os utilizadores de uma espaços de todos os edifícios passa a ser uma condição
forma didáctica, permitem explorar o potencial dos bons prioritária. É, no entanto, tão certo quanto justo que a tradução
comportamentos para melhorar o desempenho energético- destes princípios para a realidade apenas acontecerá se vencer
ambiental dos edifícios. a perspectiva de quem sente as barreiras existentes.

O respeito pelo ambiente, as acessibilidades, a segurança, a A forma como olhamos para os espaços em que vivemos e
inclusão social e a facilidade de comunicação são algumas nos movemos muda ao longo da nossa vida e, para algumas
das qualidades que promovem o bom desenvolvimento de pessoas, que não dispõem das mesmas capacidades físicas
uma comunidade. A boa gestão da comunidade e a ou mentais, existem algumas funcionalidades que se tornam
consolidação dos serviços relevantes são qualidades para as cruciais e que os arquitectos e planeadores urbanos devem
quais também os próprios utilizadores podem contribuir. garantir, se pretenderem contribuir para a acessibilidade
global e, deste modo, para uma sociedade funcional.
RELAÇÃO COM A POPULAÇÃO LOCAL
Qualquer novo empreendimento que ocupa e renova um espaço
numa área consolidada da cidade deve relacionar-se, positiva
e activamente, com a população local preexistente. Esta relação
pode ser mais ou menos formal, no entanto deve, se possível,
contribuir para aumentar a qualidade de vida dessa população
local e nunca o contrário.

MINIMIZAÇÃO DOS IMPACTOS NEGATIVOS SOBRE A


POPULAÇÃO LOCAL
Através das novas tecnologias de aterro/desaterro, durante
as execuções das obras, há que minimizar os incómodos
temporários de lamas, poeiras, ruídos e a aparência estética
do lugar.

Todas as funções previstas para serem desempenhadas nos


edifícios devem ser contempladas na concepção dos projectos,
de tal forma que a sua utilização favoreça e incentive um
comportamento amigo do ambiente, por parte dos utilizadores
(Manual de Utilização, recolha de resíduos sólidos com
separação dos recicláveis...); a qualidade dos espaços criados
deve contribuir para estimular nos utilizadores a sensação de
fazerem parte do contexto e motivar o seu empenho na
qualificação contínua.

58
Numa casa com dois pisos é importante ter a possibilidade,
mesmo que temporária, de criar um quarto de dormir no piso
de acesso, porque apenas desta forma se poderá acomodar
no contexto familiar da sua casa uma pessoa idosa, ou uma
pessoa que tem dificuldades temporárias de mobilidade.

Também a possibilidade de se aceder em 10 minutos a pé a


todas ou, pelo menos, a muitas das necessidades quotidianas
e de acedermos a um espaço público de referência, no qual
podemos repousar sem quaisquer pressões que nos induzam
a consumir, é uma condição prioritária para uma sociedade
funcional.

Facilitar a comunicação entre utilizadores do mesmo edifício


- Quando um edifício usufrui de espaços comuns que convidam
ao diálogo entre os seus moradores, o leque de sinergias que
pode resultar do relacionamento da comunidade é imensurável.

Para tal basta que o edifício, para além do seu hall de entrada
e dos corredores de acesso comum a elevadores e
apartamentos, tenha alguns espaços em que seja possível
partilhar algum tempo de lazer - um jardim de cobertura, um
deck, até uma sala de condomínio, onde as festas de crianças
permitem uma maior liberdade e interacção enquanto
protegem o próprio apartamento dessa agressão... Estes
espaços, que também podem ser exteriores, constituem uma
importante mais-valia para os utilizadores. É muito mais
provável que se inicie um dialogo para além do cumprimento
formal, numa sala de condomínio, num deck ou num jardim,
do que num corredor ou elevador.

Uma comunidade organizada, que interage de forma fluente


e que partilha a responsabilidade de gestão do edifício que
habita, pode contribuir para aumentar consideravelmente a
qualidade de vida dos habitantes - tanto através dos serviços
que pode prestar como através da implementação de um
espírito de solidariedade.

59
1.3 CONCEITOS E MEDIDAS
DE VALORIZAÇÃO ECONÓMICA
Herman Daly, na obra “Beyond Growth”:
“No novo modelo económico, o progresso não pode ser visto como a expansão quantitativa (crescimento) mas terá que ser
visto como a melhoria qualitativa (desenvolvimento) que assenta no facto do sistema terrestre ser finito, não crescente e
materialmente fechado.”

Peter Walken, na obra “Natural Capitalism”:


“O capitalismo, como é hoje praticado, é financeiramente lucrativo mas é, simultaneamente, insustentável e uma aberração
do desenvolvimento humano. O que poderíamos chamar de 'capitalismo industrial' nem se conforma com os próprios
princípios de contabilização. Liquida o próprio capital, chamando-lhe proveito. Não valoriza o principal capital que utiliza -
os recursos e sistemas naturais, culturais e sociais, que constituem a base do capital humano.”

Al Gore, na obra “Uma Verdade Inconveniente”:


“Se com os nossos actos destruímos o planeta, para que serve a nossa riqueza económica?”

O complexo modelo económico, que rege todas as nossas actividades (indústria, comércio, negócios ,...), demonstra, por
um lado, inaptidão no que diz respeito às disfunções ambientais (Alterações Climáticas) que, presentemente, ameaçam a
subsistência do nosso planeta e, pelo outro, incapacidade de induzir, por si só, o desenvolvimento sustentável.
A principal premissa do modelo económico que rege as nossas actividades é o crescimento, mas nem o planeta nem os
seus recursos crescem.

À escala macro económica, o ambiente não é de todo contemplado, porque se parte do pressuposto que a saúde, os recursos
naturais e os ecossistemas estão sempre disponíveis e que são ilimitados. O capital natural do nosso planeta não é valorizado:
o ar que respiramos, a água que consumimos, os demais recursos naturais que extraímos da natureza... tudo degradamos
com a nossa utilização para devolver à natureza as emissões para a atmosfera, os efluentes e os resíduos. Depois de
inúmeros incidentes, foi encontrada a fórmula para contemplar as condicionantes que o planeta coloca ao crescimento -
a internalização de externalidades, quase sempre, à escala microeconómica, através de mecanismos de excepção. Desta
forma, a poluição é contemplada como um mal inevitável do funcionamento e da ineficiência da nossa sociedade, não
existindo incentivos estratégicos para a sua prevenção. Até os direitos de emissão de CO2 para a atmosfera, agora cotados
na bolsa, se tornaram uma comodidade. Se pretendemos que o desenvolvimento qualitativo seja a principal premissa do
nosso modelo macroeconómico, o ambiente terá que ser valorizado e constituir parte integrante de todas as decisões.
Assim, terá de ser incentivado o bom desempenho e não a ausência do mau desempenho.

Mesmo que apenas à escala microeconómica, é através de excepções que o sistema económico tenta adaptar-se a estes
desafios globais, criando mecanismos abstractos e complexos (como multas, taxas ambientais e a bolsa de créditos de
emissão de CO2), que o tornam menos perceptível e menos transparente. Esta falta de transparência, no entanto, conduz
a uma instabilidade que, se considerarmos que a nossa sociedade tende a aumentar a delegação de poder no cidadão e
que este se torna sempre mais exigente, constitui outra forte ameaça.

O sistema económico que criámos está íntima e profundamente interligado com a forma como a nossa sociedade funciona
e com a estrutura em que se apoia a nossa qualidade de vida, incomparavelmente melhor do que a dos nossos antepassados...

A nossa capacidade de produzir bens de consumo, que foi convenientemente acompanhada por uma voracidade de consumo
(artificialmente potenciada pela indústria do marketing e pelo próprio sistema económico), permitiu dar continuidade ao
crescimento económico, que não teve em consideração o equilíbrio da natureza, da sociedade e do planeta. Podemos afirmar
que todos estamos 'dependentes' do consumo e que o principal limite que condiciona esse consumo é a nossa capacidade
financeira de endividamento, a qual nada tem a ver com a capacidade do planeta em suportar os nossos actos. Também
na perspectiva económica temos de ser solidários com o planeta.

60
Ken Nunes

61
SE PRETENDE AFERIR A IMPLEMENTAÇÃO DAS MEDIDAS DE VALORIZAÇÃO ECONÓMICA, QUANDO FOR VISITAR A
HABITAÇÃO QUE TENCIONA ARRENDAR OU COMPRAR, DEVE SELECCIONAR AS PERGUNTAS COM AS QUAIS MAIS SE
IDENTIFICA E COLOCÁ-LAS AO INTERLOCUTOR MAIS RESPONSÁVEL QUE ENCONTRAR: SIM | NÃ0

1: O DESEMPENHO ENERGÉTICO-AMBIENTAL DO EDIFÍCIO FOI OPTIMIZADO ?

2: EXISTEM SISTEMAS QUE TRANSFORMAM ENERGIAS RENOVÁVEIS EM ENERGIA ÚTIL ?

3: EXISTE UM SISTEMA DE MONITORIZAÇÃO CONTÍNUA DOS CONSUMOS NO EDIFÍCIO, CUJOS RESULTADOS SÃO
COMUNICADOS AOS UTILIZADORES EM TEMPO REAL?

4: A FACTURAÇÃO MENSAL INDICA AS TENDÊNCIAS DOS CONSUMOS EM COMPARAÇÃO COM OS ANTERIORES ?

5: EXISTEM CONTADORES BI-HORÁRIOS (INCENTIVANDO O CONSUMO FORA DAS HORAS DE PICO DE CONSUMO) ?

6: OS MATERIAIS UTILIZADOS NA CONSTRUÇÃO DO EDIFÍCIO SÃO PROVENIENTES DE PROCESSOS DE FABRICO


SOCIALMENTE RESPONSÁVEIS ?

SE RESPONDEU SIM A TODAS AS PERGUNTAS OU NA SUA MAIORIA, TERÁ ENCONTRADO UMA HABITAÇÃO EM QUE OS
ESPAÇOS CONTRIBUEM PARA AUMENTAR A SUA QUALIDADE DE VIDA.

62
Letícia do Carmo

1.3.1 INTEGRAÇÃO DO CUSTO REAL


DA DIMENSÃO AMBIENTAL

63
Se, nas decisões que tomamos sobre o meio edificado como nosso planeta, é necessário redefinirmos em profundidade o
projectistas, pretendermos utilizar os critérios do actual nosso modelo económico em função dos valores ambientais
sistema económico, é importante que incorporemos o custo e sociais (substituindo a actual premissa do crescimento pela
real associado às opções que temos e que contemplemos o premissa do desenvolvimento qualitativo), a nossa sociedade
ciclo de vida integral de cada processo que criamos. Este não está preparada para enfrentar, a não ser em condições
aspecto implica que, em conjunto com as decisões, a análise de força maior, um processo de redefinição profunda do
custo-benefício integre, de forma transversal, todos os custos sistema económico a curto prazo. Esta incapacidade assenta
ambientais e sociais, bem como todo o período de utilização no facto da sua estrutura ser extremamente complexa e
do meio edificado. interdependente e de não ser possível prevermos as
consequências da transferência de valores à escala
Nesta abordagem são incluídos muitos mais aspectos em macroeconómica. Apenas porque a ameaça das Alterações
cada análise custo-benefício: por exemplo, aquilo que é Climáticas é, entretanto, considerada real, temos em curso
considerado o “custo” de um edifício não pode integrar apenas um processo de adaptação dos valores do sistema económico
os custos que correspondem à sua construção, mas também vigente, no sentido de incorporarmos a dimensão da
terá que contemplar os custos previsíveis de operação e de responsabilidade ambiental e da responsabilidade social
manutenção, que resultam do desempenho que é esperado perante o nosso planeta - porém, esta adaptação acontece à
do mesmo, bem como tudo o que respeita às responsabilidades escala microeconómica.
ambientais e sociais, resultantes dos processos de construção
e operação. A solução para as disfunções ambientais que causamos está,
certamente, nos actos de cada cidadão, pelo que é essencial
A Comissão Europeia tem investido no desenvolvimento do que as instituições politicas e económicas, que hoje resistem
conceito do ciclo de vida dos materiais e dos edifícios, mas a qualquer transformação do “status quo”, se esforcem para
será somente quando o sistema económico tiver incorporado colaborarem no desenvolvimento de um modelo económico
a valorização económica da dimensão ambiental do planeta, que integre os valores ambientais e sociais, porque apenas
atribuindo valores a todos os recursos do planeta - ar, água, com uma conjuntura coerente, transparente e favorável ao
terra...- que será possível criarmos uma consciência alargada planeta será possível motivar os cidadãos a actuarem de
e, consequentemente, mudarmos as práticas do sector da forma solidária com o planeta.
construção. A prática de não recompensarmos a natureza
quando utilizamos recursos naturais não renováveis - quando É importante que o promotor considere como sua, a
poluímos o planeta com a exploração destes recursos ou com responsabilidade de definir os objectivos de desempenho
a produção de resíduos provenientes dos nossos processos energético-ambiental para o edifício, da mesma forma como
produtivos - tem de mudar, de forma a devolvermos ao planeta define o respectivo programa funcional. É verdade que a equipa
um valor acrescentado. projectista poderá alcançar um excelente desempenho do
futuro edifício sem custos acrescidos, mas também é verdade
Mesmo como excepção, as externalidades que ainda não que o poderá alcançar com custos de construção muito
fazem parte do sistema económico são, por exemplo, as elevados. Uma equipa de projecto com as competências e a
seguintes: experiência relevantes nesta área pode, sem qualquer dúvida,
> O preço do barril de petróleo nem, tão pouco, o preço da criar um projecto que satisfaça todas as exigências. Se um
energia contemplam directamente o custo ambiental; projecto para um edifício apresentar um desempenho
> O preço que pagamos pela água que consumimos em energético-ambiental menos bom ou demasiado dispendioso,
muitos concelhos não chega a reflectir o custo de exploração a equipa de projecto corre o único risco de perder o Cliente
e, muito menos, os custos ambientais; logo que este se aperceba que o serviço que contratou não
> O preço da madeira utilizada na construção, que não é teve a qualidade que merecia. Mas o risco do promotor é muito
proveniente de florestas replantadas, também não contempla mais sério, porque o produto imobiliário que, de seguida, irá
o custo ambiental. colocar no mercado, o edifício, terá que suportar a
desvalorização que resulta da aplicação do mecanismo da
Chegámos, de qualquer forma, a um impasse: o sistema Certificação Energética dos Edifícios. O certificado que será
económico que criámos assenta numa lógica de crescimento emitido para cada fracção autónoma, sem excepção, reflecte,
contínuo do consumo, que, acoplado ao crescimento da de forma clara e inequívoca, o respectivo desempenho
população mundial, atinge vastas proporções impossíveis de energético e constituirá parte integrante do pacote de
suportar pelo único planeta que temos... porque o sistema documentos exigidos em todas as transacções de imóveis.
terrestre é finito, não crescente e materialmente fechado Com a certificação energética, todos os utilizadores finais
(Herman Daly). Apesar de ser para muitos evidente que para terão a opção de ponderar a escolha do produto imobiliário
fazermos face à ameaça que causamos à sobrevivência do com base, também, no seu desempenho energético-ambiental.
64
1.3.2 INVESTIMENTO SOCIALMENTE RESPONSÁVEL

65
Ao participar na realização de edifícios com um excelente O Professor Klas Tham refere que quando um empreendimento
desempenho energético-ambiental, independentemente do consegue superar (mesmo que em pouco) as expectativas
respectivo papel que se desempenha no processo (promotor, que os seus utilizadores têm em termos da sua qualidade
projectista, investidor, empreiteiro geral, utilizador final...), (linha crítica), esse empreendimento será bem tratado pelas
está-se a preencher uma função de responsabilidade social pessoas que o utilizam, porque se identificam com ele. Quando
perante a comunidade. o empreendimento não consegue alcançar o nível de qualidade
(mesmo que por pouco) que os utilizadores esperam, então
A mudança de posicionamento proposta à banca pelo irá sistematicamente degradar-se, porque não se identificando
Engenheiro Carlos Pimenta, já no início dos anos 90, é da sua com o mesmo, os seus utilizadores não se sentirão estimulados
co-responsabilização pelos impactos ambientais dos projectos a mantê-lo. Assim, será necessário ao longo do tempo investir
que financia ainda não se instituiu, apesar das pressões tantas vezes, até se superar o nível de qualidade esperado.
exercidas neste sentido também pelas organizações não
governamentais. Enquanto as seguradoras assumem os custos A razão pela qual nem sempre o custo do ciclo de vida é
relacionados com os desastres ambientais e as respectivas contemplado de forma integrada pelo promotor imobiliário é
causas não são diagnosticadas e integradas no processo de porque os custos de requalificação, manutenção e operação
concessão de crédito numa óptica da prevenção, continuam acontecem depois de terem sido alienadas todas as fracções
a ser concedidos créditos a projectos que não só não autónomas. Se o promotor imobiliário optar por ser solidário
contribuem para aumentar a qualidade de vida das com o ciclo de vida do empreendimento, poderá, sem quase
comunidades como provavelmente a reduzem. agravar os seus custos de construção, criar contextos que se
valorizam e que contribuem para o bom desenvolvimento da
Um investimento socialmente responsável promove a comunidade.
sustentabilidade do planeta.

Todo o dinheiro que investimos deve trabalhar no sentido de


melhorar as práticas vigentes e de contribuir para o bom
funcionamento da nossa sociedade e para o bom equilíbrio
do nosso planeta.

Quando temos dinheiro disponível para investir (resultado de


esforços e poupanças de muitos anos) no que não precisamos
para a nossa sobrevivência e para as despesas quotidianas
aprendemos que é rentável investi-lo - se o confiarmos ao
nosso gestor de conta no banco ou a outros profissionais da
área financeira.

A consciencialização das pessoas quanto às disfunções


ambientais do planeta, que resultam directamente das
actividades humanas, dá relevância à dimensão da
responsabilidade social associada aos nossos investimentos
(pois a decisão de 'onde' é que o nosso dinheiro é investido
permanece nossa!). Neste sentido, importa, em primeiro lugar,
escolher onde é, efectivamente, relevante investir, porque
existem diversos fundos “verdes”, nos quais o retorno do
nosso investimento nem é inferior a outros, convencionais,
mas através dos quais estaremos a contribuir para melhorar
o desempenho do planeta.

Comentário de: Carlos Pimenta


Um Cliente de uma Instituição de Crédito Imobiliário que habita numa casa que não o faz empobrecer será provavelmente mais cumpridor dos
seus compromissos com a instituição financeira do que aquele que tem problemas de saúde e uma casa com elevados custos de operação
(energia) e de manutenção.

66
1.3.3 INCENTIVOS À CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL

67
Mudar hábitos ou comportamentos aos quais nos habituámos complexas responsabilidades um conjunto de novos desafios,
implica um esforço. Quanto maior a mudança, maior será o nomeadamente o de integrar tanto quanto possível o processo
esforço. Os incentivos aparecem como forma temporária de de concepção e os objectivos globais delineados para o bom
recompensar o esforço necessário para vencer a inércia de desempenho energético-ambiental e o de gerir a obra
abdicar de hábitos actuais, que tanto prejudicam o planeta, aplicando estes objectivos, como o da eliminação de todo o
e de ganhar as competências essenciais para melhorar o lixo de obra, reutilizando e preparando todos os materiais de
desempenho energético-ambiental do meio edificado. obra não utilizados nos edifícios para reutilização e reciclagem.

O meio edificado é a principal causa das disfunções ambientais > As entidades financiadoras, que estabelecem os montantes
que conhecemos e que carece, nesta altura, de urgentes dos créditos que concedem a promotores para a realização
mudanças nas práticas comuns - mudanças estas definidas de empreendimentos ou edifícios e que não integram na sua
nos conceitos e nas medidas da construção sustentável. prática comum a avaliação do desempenho energético-
O esforço para mudar as práticas comuns é grande e terá que ambiental dos mesmos, terão que fazer o esforço de assumir
ser assimilado por todos os actores no sector da construção: e verificar os patamares de exigência, com base nas
> As entidades licenciadoras (à escala governamental, regional metodologias e nos valores de desempenho definidos nos
e local) têm a responsabilidade de zelar pelo bom desempenho novos regulamentos (DL 78/2006, DL 79/2006 e DL 80/2006,
e pela qualidade do meio edificado. É muito importante que de 4 de Abril).
estas entidades criem e exijam padrões e metas de
desempenho energético-ambiental para o território que gerem > Quando escolhe a casa para habitar, o utilizador final, que
e que, definindo os mecanismos adequados, promovam o seu não teve oportunidade de verificar o grau de conforto e de
cumprimento. São parceiros fundamentais no processo de salubridade que esta oferece nem o montante dos seus custos
implementação de boas práticas, para o planeamento e gestão de operação, terá que fazer o esforço de se informar sobre a
de uma cidade. certificação energética e ambiental de edifícios e exercer esses
seus direitos na sua escolha.
> O promotor imobiliário, que assume grande parte dos
riscos - riscos estes que em Portugal são elevados, dada a Os incentivos, que poderão motivar todos estes actores na
pouca transparência e excessiva burocracia que acompanha realização do esforço necessário, passam certamente pela
o processo de licenciamento de empreendimentos - terá que visibilidade e conotação positiva dos resultados deste esforço,
fazer o esforço de incluir no seu programa promocional, a mas podem também passar por um conjunto de medidas que
definição de metas de desempenho energético-ambiental, têm, para cada um dos actores, um benefício económico.
como prática comum. Este esforço torna-se maior com o Às entidades que reúnem os poderes para planear e gerir o
decorrer do processo de assimilação do novo quadro jurídico território deve ser exigido que assumam e que cumpram a
com os novos regulamentos (DL 78/2006, DL 79/2006 e DL sua quota parte da responsabilidade na qualificação desse
80/2006, de 4 de Abril), por parte de todos os intervenientes, território, integrando, de forma transversal, o novo
inclusive das equipas projectistas. Se tiver alguns incentivos posicionamento que, de forma quantificada, abraça a dimensão
simples e claros, poderá canalizar mais dos seus recursos do desempenho energético-ambiental.
para melhorar o desempenho energético-ambiental dos seus
edifícios. À escala regional, é importante integrar, nos sistemas
orgânicos de gestão do território, as metas de desempenho
> A equipa projectista, que temporariamente oferece alguma energético-ambiental e introduzir os mecanismos para a sua
resistência à implementação do novo quadro jurídico, tem de monitorização contínua. A avaliação do desempenho de cada
fazer o esforço de assimilar os conceitos, as medidas e as entidade, considerando o seu âmbito de competências, deve
ferramentas que lhe permitem aferir e melhorar o desempenho ser enquadrada nos objectivos assumidos pelo país. É, no
energético-ambiental dos edifícios que concebem. Estas entanto, à escala local que acontecem a maior parte dos actos
competências são adquiridas apenas uma vez, mas implicam que dão origem às disfunções ambientais e, por este motivo,
uma mudança de métodos de trabalho e de valores, é essencial que as Câmaras Municipais promovam o bom
interferindo, desta forma, profundamente no processo de funcionamento do território que gerem, assumam as metas
concepção, mas nem um pouco no estilo de expressão de desempenho energético-ambiental definidas à escala
arquitectónica. regional, desagregando-as por sector de actividade e exigindo
o seu cumprimento sistemático a cada proponente / requerente.
> O empreiteiro geral, que tem tido um papel isolado na
compatibilização dos projectos de diversas especialidades, Uma mensagem política coerente e bem comunicada tem um
fazendo a ponte com a realidade a jusante do processo de poder enorme porque, quando chega ao mercado, pode, por
concepção, tem de fazer o esforço de incluir nas suas já si só, induzir mudanças nos comportamentos. A realidade
68
actual do sistema de taxas não reflecte, de todo, o À escala do planeamento urbano é importante incentivar, pelo
enquadramento politico e estratégico do novo quadro jurídico menos, a optimização do desempenho energético-ambiental
que abrange o desempenho energético do meio edificado e, do meio edificado, incluindo as infra-estruturas e respectivas
por isso, não promove os comportamentos que se desejam redes, a exploração de energias renováveis e a reciclagem de
do mercado (ver figura em baixo). águas cinzentas e pluviais.

As categorias da taxação do IVA privilegiam os bens de maior À escala dos edifícios é importante incentivar, pelo menos,
necessidade para a população geral. A taxação mínima recai uma elevadíssima eficiência energética, um aproveitamento
sobre os serviços energéticos e de abastecimento de água, das energias renováveis e das águas cinzentas e pluviais e
que deveriam ser consumidos de forma muito eficiente porque uma óptima gestão da relação entre o consumo e as redes
são recursos naturais e, no caso da energia, contribuem de abastecimento.
substancialmente para as emissões de CO2 para a atmosfera.
Todas as medidas devem ser implementadas com os parceiros
Assim, perante a mensagem que é comunicada pelo IVA, de mercado que podem potenciar o seu impacto ao longo do
podemos assumir que o maior interesse nacional é o consumo período de vida do edifício.
energético e não a eficiência dos sistemas nem a adopção de
medidas que permitem a redução das necessidades de Entre outros, os incentivos que uma entidade licenciadora
consumo de energia e água. poderá oferecer aos requerentes, para promover a optimização
do desempenho energético-ambiental da cidade, poderão
Um importante incentivo à alteração de hábitos de consumo incluir a redução de taxas e de impostos, o aumento da área
e de comportamentos passa por uma correcta mensagem bruta de construção na proporção dos isolamentos térmicos
top-down: promover a utilização racional dos recursos. utilizados na envolvente dos edifícios, a agilização dos
É preponderante uma revisão da taxa do IVA que deve privilegiar processos burocráticos de licenciamento e de autorização,
a transacção de produtos e sistemas, cuja função é aumentar sempre que haja uma certificação energética ou ambiental
a eficiência na utilização de recursos. associada ao projecto, que alcança o desempenho com o qual
a cidade se identifica.
Um sistema de impostos e taxas que privilegia as boas práticas
pode funcionar como forte incentivo ao alargamento destas
boas práticas no sector da construção.

O gráfico demonstra as incoerências da mensagem que é passada


através do sistema de taxação do Imposto sobre o Valor Acrescentado
(IVA) aos actores relevantes no sector da construção em Portugal,

Isolamento Térmico
Vidros duplos de Qualidade Térmica
Caixilharia de Qualidade Térmica
Sistemas de Sombreamento Exterior
Iluminação de Muito Baixo Consumo (LED)
Iluminação de Baixo Consumo (fluorescente)
Redutores de Fluxo de Água
Colector Solar (Painéis e Acessórios)
Gás natural
Abastecimento de Água
Electricidade
0% 5% 10% 15% 20% 25%

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