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1.

4 CONCEITOS E MEDIDAS
DE VALORIZAÇÃO ESPACIAL
A valorização da dimensão espacial é mais uma contribuição trazida pela Equipa Projectista ao projecto de um edifício,
partindo do pressuposto que a qualidade do espaço habitado é uma condição essencial para o bem-estar das pessoas,
afectando também os seus comportamentos perante os outros, com os quais partilham esses espaços.

As qualidades do espaço que habitamos são o conteúdo da área “Conceitos e Medidas de Valorização Espacial”, cujo objectivo
é questionar e, se possível, romper com práticas menos adequadas e abrir caminho para composições espaciais que
permitam um melhor desempenho funcional, aumentando simultaneamente o conforto e bem-estar.

Vão ser apresentados alguns conceitos de valorização espacial que respondem às necessidades intrínsecas do estilo de
vida contemporâneo e que não se integram necessariamente na arquitectura tradicional, nascida num contexto em que o
estilo de vida e as práticas comuns não se assemelhavam à realidade que hoje vivemos.

Os espaços que habitamos devem enriquecer a nossa vida, ampliar o alcance dos nossos pensamentos enquanto contribuem
para facilitar as relações entre os habitantes da mesma casa e até com a comunidade. Devem ainda permitir que exerçamos
as nossas funções de uma forma eficiente e em liberdade, sem infringirmos a liberdade do próximo.

Neste livro, a dimensão espacial é abordada, sobretudo, na perspectiva menos quantificável, sem, por isto, minorar a
importância do modo como o espaço potencia o bem-estar das pessoas, contribuindo, desta maneira, para o desenvolvimento
das comunidades rumo à sustentabilidade. Para transmitirem como estas medidas contribuem para a sua qualidade de
vida, foram convidados alguns habitantes de casas e apartamentos que convivem quotidianamente com as medidas descritas.

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NORTE

APARTAMENTOS
DUPLEX

BAYWINDOWS

ESPAÇOS DE TRANSIÇÃO
E DE CIRCULAÇÃO

ELIMINAÇÃO DE HALLS
DE ENTRADA

SALAS AMPLAS

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SUL

ESPAÇOS COM DUPLO PÉ DIREITO

SMALL OFFICE HOME OFFICE

ABERTURAS INTERIORES AMPLAS

VARANDAS FLEXÍVEIS

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SE PRETENDE AFERIR A IMPLEMENTAÇÃO DAS MEDIDAS DE VALORIZAÇÃO ESPACIAL, QUANDO FOR VISITAR A HABITAÇÃO
QUE TENCIONA ARRENDAR OU COMPRAR, DEVE SELECCIONAR AS PERGUNTAS COM AS QUAIS MAIS SE IDENTIFICA E
COLOCÁ-LAS AO INTERLOCUTOR MAIS RESPONSÁVEL QUE ENCONTRAR: SIM | NÃ0

1: A DIMENSÃO DOS ESPAÇOS COMUNS DA CASA PERMITE O DESENVOLVIMENTO DE DUAS OU TRÊS ACTIVIDADES
QUOTIDIANAS PARALELAS SEM GERAR CONFLITO ?

2: A RELAÇÃO ENTRE OS ESPAÇOS É ABERTA E PROMOVE A COMUNICAÇÃO FAMILIAR, GARANTINDO, SE ASSIM O


DESEJAREM, A FUNCIONALIDADE E A PRIVACIDADE ?

3: A RELAÇÃO ENTRE A COZINHA E A SALA DE ESTAR / JANTAR É ABERTA, PERMITINDO UM CONVÍVIO FAMILIAR ?

4: ABRINDO UM VÃO, É POSSÍVEL AMPLIAR A SALA PARA UM QUARTO, PARA O ESCRITÓRIO, PARA A VARANDA?

5: AS ÁREAS DE ESTAR ESTENDEM-SE ATÉ À PORTA DE ENTRADA (TENDO SIDO ELIMINADO O HALL) ?

6: EXISTE UM ESPAÇO PRÓPRIO PARA CONTEMPLAÇÃO, CONCENTRAÇÃO E TRABALHO EM CASA, PREFERIVELMENTE


COMO EXTENSÃO DOS ESPAÇOS COMUNS, COM ACESSO ÀS REDES DE COMUNICAÇÃO ?

7: EXISTE UMA SEPARAÇÃO HIERÁRQUICA ENTRE AS ÁREAS PRIVADAS E AS ÁREAS COMUNS DA HABITAÇÃO?

8: EXISTE UM DUPLO OU TRIPLO PÉ-DIREITO ?

9: AS ÁREAS DE CIRCULAÇÃO DA CASA TÊM DIMENSÃO PARA, POR EXEMPLO, INCORPORAREM A BIBLIOTECA ?

SE RESPONDEU SIM A TODAS AS PERGUNTAS OU NA SUA MAIORIA, TERÁ ENCONTRADO UMA HABITAÇÃO EM QUE
OS ESPAÇOS CONTRIBUEM PARA AUMENTAR A SUA QUALIDADE DE VIDA.

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1.4.1 ELIMINAÇÃO DE HALLS DE ENTRADA

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Toda a área de qualquer habitação é preciosa e deve ser na nossa habitação, passou a poder ser colectivo encontrando-
tratada como tal, seja do ponto de vista funcional ou do ponto -se à entrada do edifício em que habitamos e servindo todos
de vista da experiência que proporciona. os apartamentos simultaneamente.

Apesar de ser uma medida algo extrema, a eliminação de Também a função de espaço de atenuação climática, que é
halls de entrada é uma medida que contribui para a valorização tradicionalmente dado aos halls de entrada, sobretudo em
dos espaços que habitamos na nossa habitação. climas mais agressivos do que o nosso, perde o sentido no
contexto de uma casa bioclimática, em que o impacto de abrir
Os halls de entrada perderam a sua principal função real a a porta de entrada em pleno inverno é imediatamente
partir do momento em que o sistema de vídeo-porteiro foi compensado pelo contributo da inércia térmica. Em
introduzido na prática comum da construção de edifícios apartamentos, os halls de entrada não fazem qualquer sentido,
habitacionais. Este aparelho permite-nos fazer a triagem de porque quando o próprio espaço exterior ao apartamento
quem deve ou não ter acesso à nossa habitação, muito antes (zona de circulação comum) já é um espaço interior no edifício
de se encontrar à nossa porta. Neste contexto, o tradicional não é necessária a existência de um espaço de atenuação
hall de entrada que ocupava uma área bastante significativa climática.

Os halls de entrada (que em habitações tradicionais terão


entre 4 e 10 m2) devem ser completamente eliminados,
revertendo esta área para a sala de estar. Se, por motivos de
funcionalidade espacial, tiver de existir um espaço de transição
na área em que se acede à habitação, então é importante que
não exista uma porta que separa esse espaço da habitação,
porque a percepção do espaço em si já é um valor acrescentado.

A eliminação de halls de entrada interfere com a nossa cultura


e constitui, por este motivo, uma surpresa para quem, pela
primeira vez, se apercebe da sua ausência. Surpresa representa
também a luminosidade e o espaço que nos acolhe quando
entramos numa habitação que não tem hall de entrada.

É na sala de estar que todos os metros quadrados que


possamos incorporar são importantes e valorizam, todos os
dias e em todos os momentos de convívio, o bem-estar dos
habitantes.

Comentário de: Isabel Durão de Almeida e Henrique Nuno


Destaco da nossa casa, e desde o primeiro momento, aquele em que abrimos a porta, a fantástica sensação de espaço, proporcionada
pela inexistência de um hall de entrada, reforçada ainda pela também não existência de um corredor, pelo menos na sua forma tradicional,
contido entre paredes. Somos de imediato confrontados com a grande luminosidade que a casa possui.

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1.4.2 ESPAÇOS DE TRANSIÇÃO E DE CIRCULAÇÃO

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Todos conhecemos o corredor ou o espaço entre espaços, de momentos significativos e marcantes aumentam. Qualquer
através do qual apenas se passa e não se fica. Se pensarmos espaço que não pode ser usufruído como espaço de estar
no valor do investimento em cada metro quadrado construído, torna-se assim, todos os dias, uma oportunidade perdida.
que hoje é demasiado elevado para ser desperdiçado, devemos
questionar se estes espaços entre espaços trazem ou não um Assim, um corredor, necessário para se aceder aos quartos,
valor acrescentado às nossas vidas. que tenha alguma iluminação natural e largura suficiente
para lá se colocar uma estante com livros e DVDs, pode tornar-
Se chegarmos à conclusão que não nos enriquecem, então se uma extensão dos quartos ou da sala, proporcionando um
temos algumas soluções que nos podem - essas sim - estímulo positivo sempre que se passa por este espaço. Ao
enriquecer. A principal solução passa por eliminar pura e tornar acessíveis a biblioteca e videoteca familiar, o espaço
simplesmente qualquer tipo de corredor ou de espaço de de transição está a facilitar o contacto com a cultura nestes
circulação do desenho da habitação, dotando cada qual com encapsulada.
uma função necessária para o dia a dia. Quando os espaços
designados “de circulação” conseguem alcançar a qualidade Os espaços de transição e de circulação devem permitir um
de um espaço de estar, as oportunidades de se poder usufruir elevado grau de comunicação e de integridade entre os espaços
principais da habitação e devem, sempre que possível integrar
uma função específica, para além de serem um espaço de
passagem. Apenas desta forma poderão contribuir para
aumentar o grau de privacidade que existe no interior de uma
habitação, enquanto consolidam a identidade da mesma.

Comentário de: Sandra Evangelista


Um ponto de extrema importância, a camuflagem de corredores e recantos…
Espaços que se fundem com o resto da casa, tornando-a mais ampla, mais rica… Espaços que têm potencialidade para ter uma outra
vida… por que não uma biblioteca?... Um espaço em que o pensamento voa pela imensidão de conhecimento que está ali mesmo…! O
que leio a seguir?...

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1.4.3 SALAS AMPLAS

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A amplitude dos espaços onde convivemos em família pode amovíveis para se poderem adaptar a todas as necessidades
contribuir para superar algumas das barreiras de comunicação que serão, certamente, diferentes ao longo do tempo.
que a falta de tempo e o stress produzem nos relacionamentos
entre as várias gerações e, também, entre os casais. A O investimento elevado de cada metro quadrado de uma
percepção do espaço e do território que consideramos nosso habitação convida a valorizar toda a área construída. Enquanto
está intimamente ligada à nossa disponibilidade para há áreas que se podem reduzir ao mínimo ou até eliminar,
interagirmos com as pessoas que nos rodeiam. Sempre que sem prejudicar o relacionamento entre os habitantes e sem
nos sentimos agredidos ou a nossa privacidade é violada, minorar a qualidade da vivência no dia a dia (é o caso de halls
fechamo-nos à interacção para nos protegemos. Assim, se de entrada e, muitas vezes, de corredores), há outras áreas
em casa é importante que o diálogo e a interacção humana que devem ser maximizadas por princípio (é o caso das salas
tenham sempre as melhores condições para se desenvolverem, de estar e de jantar). As áreas menos relevantes podem assim
é importante eliminar todas as barreiras à comunicação e reverter a favor da sala de estar, porque se for mais ampla
fazer com que os espaços partilhados pela família estimulem beneficia todos e toda a família. É sobretudo na sala de estar
a interacção. É também importante providenciar a privacidade que a família convive e que pode interagir positivamente.
que é necessária para que cada uma das actividades em curso Quanto mais ampla é a sala de estar melhores são as condições
na sala de estar possa suceder sem pôr outra em causa, mas para os elementos da família poderem passar tempo juntos,
as separações que poderão ser exploradas devem ser mesmo quando não estão a partilhar uma mesma actividade.

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Quando o edifício é construído utilizando as melhores habitacionais em que os espaços comuns da casa, inclusive
tecnologias disponíveis para optimizar o seu desempenho a cozinha, são integrados num espaço único que permite um
energético-ambiental, a amplitude da sala de estar não se diálogo sem barreiras entre os elementos da família.
reflecte num aumento dos custos de operação (aquecimento
no inverno) da habitação, tem associado apenas o respectivo A maior amplitude da sala de estar permite à família coabitar
custo de aquisição ou de construção. Uma sala bioclimática na sala de estar, sem sobrepor as actividades de cada membro,
oferece condições de conforto praticamente durante todo o reduzindo assim a probabilidade de conflitos e aumentando
ano, tornando-se apenas necessário aquecê-la pontualmente as oportunidades de comunicação.
e não sendo de todo necessário arrefecê-la.
A sala de estar é uma extensão da identidade colectiva da
Também quando somos confrontados com o desafio de família e, neste sentido, é um espaço íntimo. Quando são
reabilitar ou de remodelar uma habitação existente é, muitas amplas, as salas proporcionam melhores condições para
vezes, possível ampliar as áreas de estar, criando uma relação receber convidados em casa, experiência que permite partilhar
mais fluida, entre os espaços que tradicionalmente albergavam esta intimidade ao invés dos encontros em espaços públicos.
rituais distintos (o de jantar, o de estar e o de cozinhar) mas Para além da cozinha, é a sala de estar que exerce o papel
que hoje, dado o nosso estilo de vida, podem ser integrados de espaço comum da habitação tornando-se o ponto de
num mesmo espaço. Existem mais e mais tipologias encontro de todos os membros da família. Enquanto actual-

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mente os rituais dominantes que reúnem a família serão, de
forma generalizada, a refeição (a qualquer hora do dia) e as
actividades à mercê do ecrã da televisão, é importante que
estas não ofusquem outras actividades possíveis, como ler,
ouvir música, jogar um jogo, desenhar, exercer actividades
de bricolage, entre outras.

A sala de estar que está, concebida para permitir - se possível


em simultâneo - todas estas actividades, foi cuidadosamente
projectada e oferece um elevado grau de flexibilidade na sua
utilização. A sua amplitude é certamente uma característica
muito favorável à flexibilidade que oferece aos utilizadores.

Comentário de: Flávio Tirone


Será aborrecido passar horas no mesmo espaço? Normalmente essa ideia poderia surgir...Nesta sala pode passar-se uma vida sem
sentirmos tal sensação, que seria irritante. O pequeno-almoço, com vista do rio, numa sala de jantar espaçosa; depois há que ir para o
escritório, amplo, com vista sobre a Expo; uma pausa na sala de televisão para por em dia as notícias. Tocaram... chegaram a horas. Podem
entrar directamente para a sala de reuniões. Um café? Podemos tomar aqui ao balcão do bar. Almoço. Mas antes podemos descontrair
um pouco com uma guitarra na sala de música a gozar a vista que também inspira... Tejo... Ponte... Mar da Palha. Os filhos chegam da
escola. Há teste amanhã. Vamos rever a matéria na sala de estudos. Para jantar vão chegar amigos; a tertúlia até às tantas no salão de
festas e o som compõe uma atmosfera inolvidável...

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1.4.4 APARTAMENTOS DUPLEX

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É o sonho de muitas pessoas viver numa casa com jardim... economia de recursos e de escala. Situado em pleno contexto
mas este sonho não pode ser concretizado por todas as urbano usufrui de uma acessibilidade optimizada a todos os
pessoas que o sonham, porque o nosso planeta não tem equipamentos e serviços necessários para uma vida
espaço nem capacidade para comportar o crescimento das confortável, tem vistas mais amplas, interessantes e uma
áreas urbanizadas. Para minimizar o nosso impacto sobre o maior luminosidade no seu interior.
planeta, a Estratégia Temática sobre o Ambiente Urbano,
desenvolvida pela Comissão Europeia, promove Apesar de uma tipologia duplex exigir uma área ocupada pelas
sistematicamente a compactação das nossas cidades. escadas de ligação entre os dois ou mais pisos, possui outras
dimensões atractivas, por exemplo, a de proporcionar o acesso
Na cidade, os apartamentos duplex são como casas no ar... entre espaços, quando existe um duplo pé-direito na sala de
e as coberturas ajardinadas são como jardins. Os espaços estar. Em apartamentos duplex, a relação entre espaços pode
que compõem o apartamento duplex estão organizados ser mais rica e diversificada, marcada por elementos
hierarquicamente como acontece numa casa: os espaços arquitectónicos diferenciadores.
mais públicos localizam-se no piso inferior e os mais privados
nos superiores. Esta organização favorece as relações Por todos estes motivos, os apartamentos duplex são uma
familiares porque faz a distinção clara entre espaços mais das tipologias habitacionais que, nos próximos tempos, irá
privados e mais públicos, e, por mais estranho que pareça, certamente, ocupar um lugar preferencial no mercado
quanto mais clara a distinção entre público e privado, mais imobiliário.
confiante se sente a pessoa que utiliza o espaço.

Mas um apartamento duplex é mais do que uma casa, porque,


ao partilhar serviços e infra-estruturas com outros
apartamentos no mesmo edifício, existe uma considerável

Comentário de: Flávio Tirone


Há uma escada interna ampla, aberta, que interliga os pisos e acaba por ser a extensão do espaço comum. Aí colocámos o espelho e
uma iluminação acolhedora. Mas mais importante é o facto de esta nos levar ao céu... um terraço a cinquenta metros de altitude...imagine-
se o cenário...

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1.4.5 ESPAÇOS COM DUPLO PÉ-DIREITO

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A afirmação “as nossas ideias são tanto maiores quanto mais do espaço ser mais amplo aumenta a percepção do território
amplo for o espaço que habitamos” resulta de, nos dias de que cada um assume como seu e, por outro lado, o facto de
hoje, os espaços onde passamos 90% do nosso tempo serem existir uma diferenciação vertical entre os espaços, que se
reduzidos - veja-se como exemplos o veículo que nos transporta relacionam directamente com o espaço de duplo pé-direito,
e o escritório, que partilhamos com outras pessoas, onde o amplia a percepção da privacidade sentida por quem se
espaço que nos cabe é reduzido. Ter um espaço amplo, ao encontra no nível superior. Introduz-se uma diferenciação
chegarmos a casa, pode constituir um momento de alívio, de clara entre quem está em cima e quem está em baixo - quem
compensação e de desafogo, bens necessários para observa e quem é observado, quem, porventura, deveria estar
reencontrarmos o nosso equilíbrio. a dormir, mas está a partilhar o diálogo de quem se encontra
na sala de estar...
Os espaços com duplo pé direito proporcionam um leque mais
rico de formas de comunicação entre os seus habitantes, Os espaços com duplo pé-direito possuem benefícios também
criando também uma maior facilidade em partilhar o mesmo a nível da convecção natural do ar na casa ou apartamento
espaço com outros membros da família. Por um lado, o facto porque permitem que o ar utilizado e aquecido pelas actividades
humanas suba mais alto, se misture com mais ar, diluindo
as toxinas, e entre num fluxo de movimento contínuo, que
contraria a estagnação do ar.

Os espaços com duplo pé-direito estão normalmente


associados a vãos envidraçados que também rompem com a
monotonia dos alçados em que se inserem. Estes vãos admitem
a iluminação natural até ao interior da casa ou apartamento
de forma generosa e com uma excelente distribuição por todos
os seus espaços.

Para o utilizador final, encontrar-se num espaço com duplo


pé-direito, pode ser um privilégio que sente todos os dias -
representando liberdade espacial e a oportunidade de contactar
em simultâneo com todos os espaços da casa.

Comentário de: Isabel Worm


O volume de duplo pé-direito, com a sua janela que ocupa quase todo o alçado sul, faz-nos sentir o significado do infinito...o nosso espaço
privado funde-se com a atmosfera de toda a cidade. É do sofá, aí posicionado, que miramos o rio e a ponte, lemos o nosso livro e pensamos
no futuro. O sítio, generoso, tem dimensão cerebral, e, mais uma vez, relação ancestral - pais e filhos no mesmo espaço, mesmo que
em pisos diferentes, já que ambos os quartos das crianças se debruçam sobre a sala neste volume generoso, partilhando intimidades,
ou não, conforme a vontade e a idade...

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1.4.6 ABERTURAS INTERIORES AMPLAS

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VÃOS INTERIORES PARA ESPAÇOS DE DUPLO PÉ-DIREITO
Os vãos interiores para espaços com duplo pé-direito, em
casas com dois pisos ou apartamentos duplex, introduzem a
possibilidade de uma comunicação mais diversificada entre
os espaços privados e os espaços comuns. Por exemplo, um
quarto pode ter uma janela interior, sem vidro, apenas com
uma portada, beneficiando de uma ligação directa com o
espaço de duplo pé-direito da sala de estar. Para o quarto, é
possível criar condições de privacidade, sempre que desejadas,
fechando a portada que existe nesses vãos.

Também um SOHO - espaço reservado para trabalho em casa


- pode estar situado no piso superior do duplex e ser
completamente aberto para o espaço de duplo pé-direito da
sala de estar, beneficiando da luminosidade do vão envidraçado
e da comunicação com as pessoas que se encontram no piso
inferior.

Poder comunicar através destes vãos interiores é importante


para toda a família que habita a casa ou apartamento, porque
potencia partilhar informações, sem impor a presença física
dos dialogantes, reduzindo o esforço necessário para haver
comunicação familiar. Por exemplo, se o adolescente está a
ouvir música no quarto, o pai pode comentar essa música ou,
noutro contexto, o filho pode colocar uma dúvida ao pai acerca
dos trabalhos de escola, sem ter de se deslocar para o espaço
onde este se encontra.

O alçado interior, que tem os vãos orientados para o espaço


com duplo pé-direito da sala de estar, confere-lhe uma
dimensão de espaço público - como se nos encontrássemos
numa praça, enquadrada pelos alçados dos edifícios que a
definem.

Também em apartamentos que têm mais do que um quarto


de dormir é possível criar uma abertura ampla entre a sala
e um dos quartos de dormir, sendo esse o quarto que mais
flexibilidade de uso oferece - tornando-se, por exemplo, o
espaço de trabalho ou o quarto para visitas.

Comentário de: Petra de Brito Antunes


Uma abertura interior ampla do quarto de casal, uma autêntica “parede móvel”, quando aberta, prolonga-o através do SoHo até à área
envidraçada com o exterior e o acesso para o piso inferior do duplex faz-se através de uma escada com amplitude e luminosidade
naturais não muito vulgares em apartamentos com estas dimensões.

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VÃOS INTERIORES ENTRE QUARTO E SALA DE ESTAR
Na Europa, durante as últimas décadas, verifica-se uma
tendência de redução no número de pessoas que compõem
o agregado familiar, o que resulta na procura de tipologias
mais pequenas.

Hoje são mais frequentes e socialmente aceites os agregados


familiares compostos por um adulto - as famílias
monoparentais. Esta tendência dá nova importância às
tipologias de apartamentos com menor dimensão, que eram
outrora o lar temporário de pessoas solteiras e de casais em
início de vida e agora tornam-se sinónimos de um novo estilo
de vida, bem mais permanente.

Dado o crescimento da procura é importante maximizar a


percepção do espaço de que dispomos em tipologias de menor
dimensão. Uma forma directa de conseguir esta percepção é
criar uma abertura ampla entre todas as áreas habitáveis do
apartamento. Por exemplo, a relação entre quarto e sala é
definida por um vão com 2m de largura e de altura, enquanto
entre a sala e a cozinha não existe qualquer separação, desta
forma todo o espaço do apartamento é perceptível em
simultâneo pelo habitante. Fechando as portadas que existem
no vão entre o quarto e a sala, sempre que desejado, é possível
criar condições de privacidade no espaço mais íntimo.

Desta forma, os apartamentos com sala e quarto podem


adaptar-se às necessidades dos utilizadores.

Comentário de: Ken Nunes


O espaço que ocupamos com ideias está na nossa mente e é infinito - mas eu acredito que quanto maior a dimensão do espaço
em que passamos o nosso tempo, mais se liberta de condicionantes a nossa imaginação e maiores são também as nossas ideias.

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PASSA PRATOS supervisionar actividades de crianças pequenas, uma vez que
Para além da sua função indicada pela própria designação, a criança pode continuar a brincar na sala enquanto o adulto
o passa pratos cria uma ligação directa entre a cozinha e a prepara a refeição...
sala de jantar ou de estar e abre um leque mais diversificado Qualifica também a experiência dos convidados que, por não
de comunicação nas zonas comuns da casa. terem de violar a intimidade que para eles representaria o
acto de entrarem na cozinha do anfitrião, participam em
É uma medida que recompensa a pessoa que dedica o seu actividades preparatórias da refeição (levando pratos para a
precioso tempo à preparação da refeição para a família e que mesa de jantar) sem sentirem constrangimentos. São
torna mais gratificante a experiência de cozinheiro: permite- melhoradas também as condições de iluminação e de
-lhe participar, simultaneamente, nas actividades de lazer ventilação natural, tanto na cozinha como na sala. No entanto,
dos espaços comuns, partilhar decisões que são tomadas na poderá existir uma portada, um estore ou mesmo uma persiana
cozinha e que apenas podem ser partilhadas quando a que, nos momentos em que não é desejada, não permita a
comunicação não implica abandonar o processo de confecção, visão directa.

Comentário de: Flávio Tirone


Bucatini all'amatriciana, miminhos de porco preto grelhados, salada mista com rúcula e coentros...quantos somos para jantar? Olha, abre
o Duas Quintas e decanta-o, se faz favor... e, já agora, passa-me aí os talheres.
Eis um diálogo apenas viável perante o vão passa pratos amplo que existe entre a cozinha e a sala. Quase podemos sentir a relação ancestral
de partilha entre o preparar e o tomar da refeição. Este contacto social, esta dimensão comunicativa transformam este espaço em algo,
simultaneamente, íntimo e público, individual e familiar. São espaços fluidos, comunicantes e, por isso, dinâmicos e comunitários.

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1.4.7 SMALL OFFICE HOME OFFICE - SOHO

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São muitas as pessoas em toda a Europa que trabalham em de 12 metros quadrados, ou seja, mais de 10% da área da
casa, ou sobretudo em casa, dando origem a espaços que na casa. Em alguns casos é, efectivamente, necessário ter um
gíria se designam como Small Office Home Office (SOHO). Os espaço completamente segregado do resto da casa para
SOHO são áreas abertas agregadas a espaços comuns da trabalhar, no entanto esta não é a situação mais comum.
casa: uma extensão da sala, do duplo pé-direito da sala, do
corredor, da zona de entrada e até mesmo da varanda que, A presença de SOHOs nas casas / apartamentos contem-
com uma pequena área estrategicamente localizada, podem porâneos, como espaços flexíveis com aproximadamente 5
proporcionar um espaço de contemplação e de criatividade metros quadrados, nem sempre separáveis do resto da casa,
de extrema relevância para os habitantes. cria as condições necessárias para se trabalhar em casa, sem
dever dedicar a esse uso 10% ou mais da área da casa.
Esta tendência nasce do facto da sociedade ter acompanhado Para além de serem espaços para trabalhar em casa, os
o desenvolvimento tecnológico na área da comunicação, SOHO podem ser úteis para usos diferentes durante a vida de
tornando a descentralização do mercado de trabalho uma uma casa: podem ser o espaço em que as crianças brincam
realidade e um desafio para os arquitectos. e arrumam os brinquedos, em que os adolescentes exercem
actividades de tempos livres...
Há alguns anos, quando não tínhamos acesso às tecnologias
de comunicação presentes, era difícil imaginar esta realidade. Se perguntamos aos utilizadores dos SOHOs o que pretendem
do espaço em que trabalham, alguns respondem que
Entretanto, em consequência da evolução tecnológica pretendem absoluta concentração - não querendo ser
tornaram-se possíveis profundas mudanças no nosso estilo distraídos por uma vista deslumbrante - outros respondem
de vida. Quando estas mudanças contribuem para aumentar que procuram inspiração, desejando a vista mais
a nossa qualidade de vida - porque podermos estar no conforto deslumbrante... por este motivo, os SOHO existem em diversas
da nossa casa a trabalhar é certamente um benefício - é configurações e relações com os espaços comuns da casa.
importante que a arquitectura explore, tanto quanto possível,
o potencial que esta mudança oferece.

Já há muitos anos que o mercado regista, que quem procura


casa, muitas vezes opta por uma tipologia com mais um
quarto, apenas para o poder transformar num escritório, o
que normalmente implica serem dedicados ao escritório cerca

Comentário de: Francisco de Brito Antunes


Na tomada de decisão da compra do nosso apartamento na Torre Sul, para além de outros importantes factores como sejam a sua boa
localização, esplêndida vista e características bioclimáticas do edifício, houve um pormenor que, pela sua originalidade, levou a que não
quiséssemos visitar outros “candidatos” potenciais ao nosso futuro lar, pois este estava definitivamente encontrado - o Small Office Home
office (SoHo). Este espaço, interligando-se na perfeição com o conceito de “open space” deste apartamento duplex, com um espaço de
duplo pé direito iluminado por uma enorme zona envidraçada aberta para o estuário do Rio Tejo, com a sua espectacular Ponte Vasco da
Gama e as zonas desportivas do verdejante Parque do Tejo e Trancão, acaba por ser o “coração” da nossa habitação.

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1.4.8 BAY WINDOWS

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As Bay Windows são nichos de permanência onde os
utilizadores podem escolher se pretendem sentir-se fora ou
dentro de casa - é uma escolha só raras vezes proporcionada.
A experiência de permanência numa Bay Window assemelha-
se à sensação fora do normal de estarmos na proa de um
barco ou no cockpit de um avião e abre a nossa mente a
pensamentos extraordinários.

As Bay Windows são espaços ideais para contemplação - uma


vez que se encontram no limite entre dois mundos - o exterior
e o interior - distanciando-nos de cada um deles.
Colocadas estrategicamente para intensificar a experiência
de momentos íntimos - por exemplo de leitura - as Bay
Windows enquadram vistas e acentuam a dinâmica dos alçados
em que se inserem.

Como extensão em consola de um espaço interior, ampliam-


no e dão-lhe uma qualidade especial por serem pelo menos
três as orientações solares do vão - trazendo para o interior
a iluminação natural durante todo o dia.

Dado que são, em grande parte, compostas por áreas


envidraçadas, as Bay Windows devem ser muito bem isoladas
termicamente para contribuírem de uma forma positiva para
o clima interior da casa.

Comentário de: Luis Calixto


As baywindows funcionam para mim como um espaço de reflexão, de contemplação… uma bolsa para respirar, para ler um livro ao luar,
para escutar o silêncio! Isolam-nos e, simultaneamente, apagam a barreira interior|exterior, aproximando-nos de ambos…

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1.4.9 VARANDAS FLEXÍVEIS

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As varandas são espaços muito flexíveis e essa flexibilidade sombreamento para os vãos inferiores, enquanto o sol está
pode ser potenciada pela forma como são arquitecturalmente mais alto no verão, contribuindo para excluir a incidência dos
integradas na composição do apartamento. raios solares excessivos.

As varandas, especialmente em contexto urbano, assumem Para optimizar a utilização das varandas foi desenvolvido o
extrema importância: não só porque enriquecem o cenário conceito de varanda flexível - que, com o cuidado de manter
da cidade porque acrescentam uma dimensão escultórica às o pavimento no interior do apartamento nivelado com o
fachadas, mas também porque proporcionam aos habitantes pavimento na varanda, permite, quando as portas de vidro
a oportunidade de passarem mais tempo em contacto com o estão abertas, aumentar a área da sala para a varanda ou a
ar exterior (que é mais limpo do que o ar interior), com o sol da varanda para a sala. Desta forma é possível, mesmo quando
e com a natureza (mesmo que urbana), como se estivessem a varanda tem dimensões mínimas, ter-se a percepção de
no jardim de sua casa. Sobretudo as varandas orientadas a estar no exterior quando efectivamente se está no interior.
Sul oferecem condições de habitabilidade durante uma grande Desta forma, as varandas podem ser pequenas mas ter a
parte do ano, permitindo que as pessoas possam usufruir da utilidade que as pessoas desejam.
relação directa com o espaço exterior. Mesmo quando não
estão a ser utilizadas, as varandas são úteis porque, por serem Tomar o pequeno-almoço numa varanda orientada a Nascente,
espaços parcialmente protegidos, se transformam em espaços num dia ameno de Primavera, ou um jantar numa varanda
de atenuação climática - uma bolsa que funciona como pára- orientada a Poente, num dia ameno de Outono, são privilégios
choques entre o clima exterior e o clima no interior da casa. que nos dão ânimo e nos enchem de contentamento. Criar
Quando orientadas a Sul, as varandas servem de pala de uma transição tão suave quanto possível entre o espaço interior

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e o espaço exterior, para permitir esta flexibilidade na utilização
do espaço, deve ser um cuidado a ter no projecto e na execução.
Tanto a cota de pavimento como a dimensão do vão que dá
acesso à varanda terão que permitir a extensão do espaço
sem barreiras.

VARANDAS DUPLO PÉ-DIREITO


O duplo pé-direito acrescenta às varandas as mesmas
qualidades que o duplo pé-direito acrescenta a uma sala:
proporcionam um leque mais rico de formas de comunicação
entre os seus habitantes, criando também uma maior facilidade
em partilhar o mesmo espaço com outros membros da família.
São importantes também pela forma como rompem com a
monotonia dos alçados, ao criarem um ritmo de dois pisos,
momento este que enriquece o cenário urbano.
Sabendo que a cidade se irá desenvolver no sentido de uma
maior multifuncionalidade e compacticidade, podemos
imaginar que a serenata que Romeu cantava a Julieta em
Verona, de futuro, não poderá ter lugar no nível térreo, mas,
quem sabe, numa tal varanda com duplo pé-direito.

Comentário de: Graciete Lemos


Alguém perguntou a alguém onde anda ela? E a resposta foi: embarcada num navio num mar do sul, debruçada sobre um rio.
Chegar a casa e partir!!! Que melhor pode haver que fechar a porta da rua e deixar lá fora o ruído, a fadiga, a confusão?!... A cidade chega-
-me harmonizada pela sintonia da luz com os espaços, filtrada dos ruídos agressivos e envolta no conforto dos materiais simples. É nesta
tela pura que é possível recriar a relação|viagem com a cidade pelos pormenores que se introduzem e inventam e que são permitidos
pelas diversas sugestões que os espaços oferecem. E o melhor de tudo: circular em casa a maior parte do ano em T-shirt!

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