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Anais do 5º Encontro do Celsul, Curitiba-PR, 2003 (1359-1367)

REFERÊNCIAS DE TEMPO E ASPECTO DOS TEMPOS VERBAIS E DOS ADJUNTOS ADVERBIAIS DE TEMPO

Solange Mendes OLIVEIRA (Universidade Federal de Santa Catarina)

ABSTRACT: The scope of this article is the analysis of the references of time and aspect of the verb tenses and of the adverbs of time. The duration of the sentences will be represented through diagrams, using the notions of intermittence and the Reichenbach’s rule of interpretation. The concepts proposed by Vendler and Travaglia (1994) will be utilized to classify the aspect.

KEYWORDS: time; aspect; verb tenses; adverbs of time.

0. Introdução

Este artigo tem por objetivo analisar, em sentenças isoladas da língua corrente, as referências de tempo e aspecto dos tempos verbais, utilizando os conceitos de tempo de fala, tempo de evento e tempo de referência, propostos por Reichenbach (apud ILARI, 1997), que localizam o evento no tempo, e

elaborar através de diagramas a representação temporal das sentenças, utilizando o conceito de intervalo

de tempo, que permite calcular o tempo de duração do evento. Serão analisadas, ainda, as referências de

tempo e aspecto dos adjuntos adverbiais e sua contribuição semântica para o significado da sentença. Para classificar o valor aspectual dos morfemas verbais e dos advérbios de tempo, serão utilizados os conceitos propostos por Vendler (apud GODOI, 1997) e TRAVAGLIA (1994). Embora se trate de categorias gramaticais diferentes, o tempo e o aspecto serão associados na análise, já que em português, e em muitas outras línguas, uma mesma forma verbal exprime, através de seus morfemas flexionais, valores referenciais de tempo e aspecto.

1. Tempo e aspecto

A referência ao tempo conta em português com duas categorias lingüísticas para a sua expressão - o tempo e o aspecto – que são, ambas, categorias temporais no sentido de que têm por base referencial o

tempo físico. Distinguem-se, entretanto, do ponto de vista semântico, basicamente a partir da concepção

do chamado tempo interno (o aspecto), diferente do tempo externo (o tempo).

As noções semânticas do âmbito do tempo dizem respeito à localização do fato enunciado em relação ao momento da enunciação: em linhas gerais, são as noções de presente, passado e futuro e suas subdivisões. Já as noções semânticas do âmbito do aspecto dizem respeito à duração do processo verbal. Ao aspecto interessa a noção de início, curso, instantaneidade e fim. São, portanto, noções que referem a maneira como é tratado o tempo decorrido dentro dos limites do acontecimento ou da situação, ou seja,

dizem respeito à forma como o acontecimento é estruturado lingüisticamente e não à sua localização cronológica. O aspecto tem, portanto, como características: a não-referência à localização temporal; a constituição temporal interna; a vinculação da categoria a situações, processos e estados; a representação espacial. Nos estudos sobre a categoria gramatical ‘aspecto’ utiliza-se, freqüentemente, a noção de Aktionsart (os modos de ação) para designar a natureza aspectual do predicado ou a sua duração interna.

A tradição dos estudos dessa categoria gramatical tem como base conceitual a classificação dos verbos

em termos de categorias lexicais de Aristóteles-Vendler. A classificação aspectual proposta por Vendler, que aplicou sua análise aos verbos do inglês, estabelece quatro classes de verbos: achievements (eventos instantâneos), accomplishments (eventos prolongados), activities (atividades) e states (estados). Entretanto, para a classificação do esquema temporal subjacente dos verbos, deve-se levar em conta não só o verbo, mas a totalidade do sintagma verbal para poder definir a natureza ou classe aspectual da relação predicativa. Por exemplo, os verbos

‘escrever’ e ‘correr’ exprimem uma atividade, mas os sintagmas verbais ‘escrever um livro’ e ‘correr dez quadras’ exprimem um evento prolongado. Assim, se o SV for constituído por V e pelo seu argumento interno, esse argumento pode condicionar a natureza ou classe aspectual do SV. A classificação de Vendler, inicialmente proposta para verbos, deve ser alargada, portanto, a sintagmas verbais em virtude

da pertinência da quantificação do argumento interno do verbo. Na construção do valor aspectual de

um enunciado interagem, portanto, a natureza da relação predicativa, o tempo gramatical e o advérbio aspectual, eventualmente presente na sentença, para especificar a localização temporal e/ou a duração do tempo do acontecimento.

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Assim, para tratar as referências aspectuais dos enunciados de uma forma mais abrangente, serão acrescentados à classificação aspectual proposta por Vendler, alguns dos valores aspectuais propostos, entre outros, por TRAVAGLIA (1994): perfectivo (apresenta o acontecimento visto em sua totalidade), imperfectivo (apresenta o acontecimento como incompleto, sem o todo da situação), durativo (apresenta o acontecimento como tendo duração contínua limitada); iterativo (apresenta o acontecimento como tendo duração descontínua limitada), habitual (apresenta o acontecimento como tendo duração descontínua ilimitada), pontual (apresenta o acontecimento como não tendo duração), não-acabado (apresenta o acontecimento após o seu início e antes do seu término), acabado (apresenta o acontecimento como terminado), cursivo (apresenta o acontecimento em pleno desenvolvimento ) e terminativo (apresenta o acontecimento em seu término). Para estabelecer a posição que os fatos referidos ocupam no tempo, recorre-se ao roteiro de interpretação proposto por Hans Reichenbach que, na tentativa de formalizar a relação entre o tempo físico e os tempos gramaticais, desenvolve um sistema temporal que se aplica ao inglês, mas, em princípio, é entendido como modelo universal. Seu roteiro de interpretação dos tempos verbais estabelece que, além de existir uma relação temporal imediata entre o momento de fala e o momento de evento, é necessário um terceiro momento: o ponto de referência. O sistema temporal fica construído sobre três momentos, cuja representação gráfica seria: MF = momento de fala; ME = momento de evento; MR = momento de referência. O tempo é ordenado da esquerda para a direita, do passado para o presente (anterior a; posterior a), separando os momentos temporais com travessões e usando vírgulas para representar simultaneidade. Os três tempos estruturais seriam assim representados: Presente: MF, MR, ME; Passado: MR, ME- MF; Futuro: MF- MR, ME. As idéias correntes na tradição gramatical a respeito dos verbos do português nos tempos presente, perfeito, imperfeito e futuro do indicativo correspondem, intuitivamente, às seguintes fórmulas de Reichenbach, em que o sinal (=) representa simultâneo a e < representa anterior a:

Presente: MF= MR= ME (ex: Ivo estuda em São Paulo); Perfeito: MR= ME < MF (ex: Lara gostou do filme O Sexto Sentido); Imperfeito: MR= ME < MF (ex: Rui Barbosa era bahiano); Futuro: MF< MR= ME (ex: As eleições para presidente serão em outubro). Como vemos, o roteiro de interpretação proposto pelo filósofo e lógico alemão não retrata a diferença de duração do evento existente entre os tempos pretérito perfeito e imperfeito do indicativo e nem mostra como deve ser tratado o momento de referência, apesar de localizar o tempo do evento em relação ao momento de fala. Assim, para tratar a interpretação temporal das sentenças de uma forma abrangente, há a necessidade de recorrer-se ao conceito de intervalo ou lapsos de tempo para calcular o tempo de duração do evento, utilizando os sinais gráficos: ([ ]), para representar o acontecimento completo ou acabado, com o intervalo fechado e (] [), para representar o acontecimento em curso, com o intervalo aberto.

2. Referências de tempo e aspecto dos tempos verbais

Ao enunciar, o falante organiza o seu discurso sobre uma linha que lhe sirva de orientação, a si e ao seu interlocutor. A linha a ser escolhida depende de o falante estar referindo fatos que se localizam e se deslocam no espaço; ou fatos que se pospõem (valor de posteridade), se antecedem (valor de anterioridade) ou são simultâneos (valor de simultaneidade) no tempo. O enunciado resulta, portanto, de um conjunto de operações de localização abstrata que incide sobre um fato ou acontecimento - o ME - e o localiza em relação a um ponto localizador - o MF - ou em relação a um ponto intermediário de referência - o MR - que tanto o locutor como o interlocutor têm acesso. A necessidade de recorrer à noção de momento de referência deve-se à compreensão de certas determinações temporais que a sentença sofre. Os tempos verbais identificam os momentos e períodos de tempo em que ocorrem as ações e os estados expressos pelo verbo e são relevantes pelo menos três dados gramaticais para se estabelecer a interpretação temporal de uma sentença: o tempo em que se encontra o verbo, expresso pelos morfemas verbais, lexemas, perífrases; a presença possível de auxiliares de tempo; o tipo de adjuntos adverbiais eventualmente presentes na sentença. Serão analisados, nesta seção, os valores referenciais de tempo e aspecto que se aplicam aos morfemas verbais ou às perífrases, presentes em sentenças isoladas da língua corrente, nos três momentos estruturais na descrição dos tempos.

2.1 Presente

O presente do indicativo indica que o acontecimento começa em um passado mais ou menos distante e perdura ainda no momento em que se fala; ou, em um dos seus empregos mais típicos, esse

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tempo verbal significa precisamente que o acontecimento expresso pelo verbo é simultâneo ao momento de fala. Por esse motivo, o presente do indicativo expressa aspecto imperfectivo e não expressa, em si, o aspecto acabado:

(1) a. Ivo mora em São Paulo.

b. João gosta de filmes de terror.

c. Maria está doente.

d. Lia está estudando para a prova.

Os predicados estativos no presente lingüístico ‘mora’, ‘gosta’ e ‘está’, respectivamente em (1a), (1b) e (1c), marcam o valor temporal de simultaneidade em relação a MF e os valores aspectuais de imperfectividade, duratividade, cursividade e de não-acabado, também em relação a MF, que é simultaneamente o localizador temporal e aspectual. Esses mesmos valores temporais-aspectuais são expressos pela forma perifrástica ‘está estudando’- a forma progressiva representada pelo verbo auxiliar ‘estar + gerúndio’ em (1d). Essas relações, tanto em (1a), (1b), (1c) e (1d), seriam descritas por meio do diagrama de intervalos exemplificado em (2), em que os valores aspectuais de cursividade e imperfectividade seriam representados por um intervalo aberto (] [) e as seqüências de instantes correspondendo a ME seriam representadas por meio de seqüências contínuas de pontos, já que os seus predicados representam situações indivisíveis em sua dimensão temporal, portanto, homogêneas no intervalo de tempo ao qual são associados:

(2)

= ] //////////////////////////////////////////////////

=

ME

MR

MF

//////////[
//////////[

Ivo mora em São Paulo João gosta de filmes de terror Maria está doente Lia está estudando para a prova

Os predicados de estado, por serem durativos, podem exprimir duração temporária ou permanente. Os predicados ‘mora’ e ‘gosta’, respectivamente em (1a) e (1b), indicam um estado permanente e ‘está’ e ‘está estudando’ em (1c) e (1d) , indicam um estado temporário.

2.2 Passado: perfeito e imperfeito do indicativo

O pretérito perfeito simples é definido como categoria dêitica, ligada à enunciação, o que faz desse tempo verbal um passado a partir do momento atual. Marca a construção de um acontecimento já de todo passado e perspectivado em sua totalidade, a partir de um ponto localizador que lhe é exterior, o MF. Essa perspectivação corresponde a um valor aspectual perfectivo:

(3) a. Rita leu o livro Raízes do Brasil.

b. Joana conversou com o namorado.

c. Rui pintou muitos quadros.

Em (3a) , o enunciado tem o valor temporal de anterioridade em relação a MF, exprime os valores aspectuais de evento prolongado e acabado, e é construído como um todo fechado, pois a seqüência de instantes que constitui o ME é perspectivada globalmente a partir do localizador MF, que lhe é exterior. O acontecimento realiza-se completamente, especificado pelo morfema verbal do pretérito perfeito ‘leu’, que tem, em si, o valor aspectual perfectivo em relação a MF. Esses mesmos valores temporais e aspectuais estão presentes nos enunciados em (3b) e (3c). Essas relações, tanto em (3a), como em (3b) e em (3c), seriam descritas por meio do diagrama de intervalos exemplificado em (4), em que o sinal ([ ]) representa um acontecimento completo, com um intervalo fechado:

(4)

ME = MR < MF [////////////////////////////////////////////////////] Rita leu o livro Raízes do Brasil Joana
ME
=
MR
<
MF
[////////////////////////////////////////////////////]
Rita leu o livro Raízes do Brasil
Joana conversou com o namorado
Rui pintou muitos quadros

Observa-se que o valor de perfectividade exprime um acontecimento completo, mas este valor aspectual nem sempre vem marcado gramaticalmente como um acontecimento acabado, como

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exemplificado em (3a), em que o SV ‘leu o livro Raízes do Brasil marca um acontecimento acabado. Já em (3b) e em (3c), esse valor aspectual não vem explicitado lingüisticamente. Se ao enunciado em (3b) fosse acrescentado, por exemplo, um adjunto adverbial como ‘ontem à noite’, teríamos, então, marcado o valor aspectual de acontecimento acabado; e se ao enunciado em (3c) fosse acrescentado o complemento ‘na infância’, teríamos:

(5) Rui pintou muitos quadros na infância.

Em (5), o acontecimento é construído a partir de um ponto localizador, o MR ‘na infância’, que coincide com alguns dos pontos de ME ‘pintou muitos quadros’, pois este é interior a MR. O localizador MR é intermediário entre o ME e o MF, já que nessa sentença, o ME é localizado em relação a MR que, por sua vez, é localizado em relação a MF. O ME ‘pintou muitos quadros’, tem os valores aspectuais de evento prolongado, durativo, acabado e perfectivo em relação a MR ‘na infância’. Assim, no enunciado em (5), há o valor temporal de simultaneidade entre MR e ME e de anterioridade de ME em relação a MF e o valores aspectuais de cursividade, duratividade e de imperfectividade em relação a MR. Sendo perspectivado do interior do tempo que lhe é associado, o ME em (5) é construído como um todo fechado, já que exprime um acontecimento acabado:

(6)

MR i n f â n c i a

n a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[

MF

a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[ MF ME Rui pintou muitos quadros MR=ME<MF As mesmas
a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[ MF ME Rui pintou muitos quadros MR=ME<MF As mesmas
a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[ MF ME Rui pintou muitos quadros MR=ME<MF As mesmas
a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[ MF ME Rui pintou muitos quadros MR=ME<MF As mesmas
a ]////////////////// [///////////////] ////////////////[ MF ME Rui pintou muitos quadros MR=ME<MF As mesmas

ME Rui pintou muitos quadros

MR=ME<MF

As mesmas relações temporais e aspectuais apresentadas em (5) estão presentes nos enunciados em (7), em que os eventos instantâneos e pontuais ‘quebrou o braço’ , em (7a) e ‘quando seu filho nasceu’ , em (7b), que representam o ME, têm em relação a MR os valores aspectuais de evento acabado e de perfectividade nas seqüências em que co-ocorrem com a forma do pretérito imperfeito simples ‘era’, em (7a), e com a forma perifrástica ‘estava viajando’, em (7b). O ME, por ser pontual, seria representado por um intervalo fechado, sem duração. Essas relações, tanto em (7a), como em (7b) seriam assim representadas:

(7) a . Quando era criança, Caio quebrou o braço. b. Luís estava viajando quando o seu filho nasceu.

(8)

(9)

MR quando era criança MF ]/////////////////// [ ] ////////////////////[
MR
quando era criança
MF
]/////////////////// [
] ////////////////////[

ME Caio quebrou o braço

MR Luís estava viajando ]////// ///////////////[ ]///////////////////// [

viajando ]////// ///////////////[ ]///////////////////// [ ME quando o seu filho nasceu MF MR=ME<MF MR=ME<MF O
viajando ]////// ///////////////[ ]///////////////////// [ ME quando o seu filho nasceu MF MR=ME<MF MR=ME<MF O

ME quando o seu filho nasceu

MF

]///////////////////// [ ME quando o seu filho nasceu MF MR=ME<MF MR=ME<MF O pretérito imperfeito ‘era’

MR=ME<MF

MR=ME<MF

O pretérito imperfeito ‘era’ em (7a), e sua forma perifrástica ‘estava viajando’ em (7b), são empregados como referência temporal do fato que será relatado, formando, assim, o pano de fundo dos acontecimentos principais que estão situados no primeiro plano da enunciação. As cláusulas temporais ‘quando era criança’, em (7a) e ‘quando seu filho nasceu’, em (7b), representam a ordem cronológica dos acontecimentos no tempo. Nos enunciados em que os pretéritos perfeito e imperfeito co-ocorrem, como em (7), constata-se que nas sentenças com o pretérito perfeito, o acontecimento é apresentado como preenchendo um período de tempo completo (perfectivo), que ocorre em um momento determinado. Já nas sentenças com o pretérito imperfeito, o acontecimento é apresentado como preenchendo um período de tempo que ainda não é completo (imperfectivo), isto porque esse tempo verbal exprime, fundamentalmente, um fato

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passado não-concluído ou que perdurou muito antes de concluir-se. Opõe-se, portanto, ao pretérito perfeito (passado definido). Assim, o contraste pretérito imperfeito x pretérito perfeito, além de marcar os acontecimentos como passados, relacionando-os com o momento do enunciado, estabelece também uma relação temporal dos fatos entre si: o acontecimento perfectivo como um ponto de intersecção que penetra na constituição interna do acontecimento imperfectivo. As diferenças de valor temporal entre os pretéritos perfeito e imperfeito, portanto, podem ser explicadas pela diferença de ancoragem temporal: no caso do pretérito perfeito é o ME, o qual estabelece relações temporais diretamente com o MF e considera-se a indicação temporal absoluta, interpretável como passado; no caso do pretérito imperfeito, a ancoragem temporal é o tempo de outro acontecimento já enunciado em relação a MF e fala-se da indicação de tempo relativa, traduzida em termos de simultaneidade a outro evento passado.

O pretérito imperfeito marca os aspectos durativo e cursivo, principalmente, quando a situação que

expressa é passada em relação a uma outra situação passada, como em (7). Esse tempo verbal apresenta também uma tendência para marcar a iteratividade ou habitualidade, marcada pelo semantema verbal, como em (10):

(10)

a. Quando morava em Manaus, Edgar viajava de navio. b. Rui pintava muitos quadros na infância.

Em (10a), o acontecimento é construído a partir do localizador MR ‘quando morava em Manaus’, que coincide com todos os pontos de ME ‘viajava de navio’. O enunciado tem o valor temporal de anterioridade e o valor aspectual de imperfectividade em relação a MF e o valor de simultaneidade entre MR e ME. O pretérito imperfeito ‘viajava’ expressa que o acontecimento descrito pelo predicado tem limites abertos, podendo prolongar-se por todo o período de tempo visado pelo localizador MR. O enunciado tem os valores aspectuais de evento prolongado, habitual, em curso, não-acabado e imperfectivo em relação a MR, que é o localizador aspectual. Essas relações, tanto em (10a), como em (10b), seriam assim descritas:

(11)

(12)

MR quando morava em Manaus ]////////////////////////////////////////////[

MF

em Manaus ]////////////////////////////////////////////[ MF ME Edgar viajava de navio MR na infância

ME Edgar viajava de navio

MR na infância ]////////////////////////////////////////////[ ME Rui pintava muitos quadros

MF

ME Rui pintava muitos quadros MF MR=ME<MF MR=ME<MF Observa-se que entre o presente do

MR=ME<MF

MR=ME<MF

Observa-se que entre o presente do indicativo e o pretérito imperfeito há um paralelismo aspectual. Essa semelhança deve-se ao fato de que o imperfeito é um “presente do passado”, pois é o tempo usado quando nos referimos a uma época passada e descrevemos o que então era presente.

2.3 Futuro

O futuro do presente, em si, não marca qualquer aspecto porque esse tempo flexional atribui à

situação uma realização virtual, até certo tempo abstrata (TRAVAGLIA, 1994), como em:

(13) Contarei tudo o que houve.

A interferência de outros recursos é que marcará o aspecto com esse tempo verbal:

(14) Conto/contarei tudo o que houve, quando voltar.

Em (14), o valor temporal é de posteridade em relação a MF e o valor aspectual é perfectivo em relação a MR. O acontecimento expresso nesse enunciado é perspectivado como um todo, a partir do localizador MR ‘quando voltar’, que marca o valor aspectual:

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(15)

MF < ME Conto/contarei tudo o que houve [ //////////////////////////////////////////////// = MR quando voltar
MF
<
ME
Conto/contarei tudo o que houve
[ ////////////////////////////////////////////////
=
MR
quando voltar
//////////////////////// ]

No enunciado em (16a), o valor temporal de posteridade co-ocorre com o valor aspectual de imperfectividade. O acontecimento é construído como posterior a MF, que é o localizador temporal, e como estando em curso em MR ( nas férias), que é o localizador aspectual. O ME ‘vai/ irá para Maceió’ tem, então, os valores aspectuais de imperfectividade, cursividade e de não-acabado em relação a MR. Em (16b), o valor temporal é de posteridade em relação a MF e os valores aspectuais são de imperfectividade, cursividade, duratividade e de não-acabado em relação a MR ‘quando você chegar’. Essas relações, tanto em (16a), quanto em (16b), seriam assim descritas no diagrama de intervalo:

(16) a. Beatriz vai/irá para Maceió nas férias. b. O trabalho estará pronto, quando você chegar.

(17)

MF

<

ME

=

MR

 

]//////////////////////////////////////////

/////////////// [

  ]////////////////////////////////////////// /////////////// [

Beatriz vai/irá para Maceió

nas férias

 

MF <

ME

=

MR

(18)

]/////////////////////////////////////

/////////////////////////////[

(18) ]///////////////////////////////////// /////////////////////////////[

O trabalho estará pronto

quando você chegar

RESUMO: Uma mesma forma verbal exprime valores referenciais de tempo e aspecto através de seus morfemas flexionais, lexemas e perífrases. Na construção do valor aspectual de um enunciado, interagem o tempo gramatical e a natureza da relação predicativa para especificar a localização temporal e/ou a duração do tempo do acontecimento.

PALAVRAS-CHAVE: tempos verbais; aspecto; referência temporal; referência aspectual.

3. Adjuntos adverbiais de tempo

O aparato sintático de que a língua utiliza para indicar tempo e duração incorpora, como já vimos,

a Aktionsart do verbo, os morfemas temporais que a ele se aplicam, a possível ocorrência de auxiliares e, principalmente, a presença de adjuntos adverbiais.

O papel básico dos adjuntos adverbiais, ao relacionarem-se com os verbos da língua, é caracterizar

o processo verbal, exprimindo as circunstâncias em que esse processo se desenvolve. Desempenham, portanto, um papel fundamental na caracterização aspectual, determinando a interpretação da sentença.

Serão analisados, nesta seção, os valores que se aplicam ao morfema verbal associado a adjuntos adverbiais de tempo:

(1)

a. Agora, eu enxergo o navio.

b. Em 1492, Colombo descobre a América.

c. A Camila viaja amanhã.

d. Ontem, fui ao aniversário às 15 horas.

Quando os adjuntos adverbiais são acrescentados às sentenças, estes podem aplicar-se ao MR, como em (1a), (1b) e (1c), como também, ao MR e ao ME, como em (1d). Têm ainda como característica estabelecer a relação cronológica com o MF, que pode ser de simultaneidade, como em (1a), anterioridade, como em (1b) e (1d), ou posteridade, como em (1c), ou seja, o adjunto localiza o evento no presente, no passado ou no futuro. Em (1c), a especificação temporal através do adjunto ‘amanhã’, que vem a ser o localizador MR, é necessária para a construção de um valor de posteridade. Em (1d), o enunciado expresso no presente histórico tem o seu valor de anterioridade em relação a MF expresso pelo adjunto ‘em 1492’. Os adjuntos adverbiais, portanto, não só modificam predicados, mas podem fixar o MR da oração em que estão incluídos, identificando o tempo de referência ao tempo indicado pelo adjunto.

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Quando, porém, a referência temporal é marcada pelo tempo pretérito imperfeito como em (2), ela

é obrigatoriamente complementada por um localizador MR definido situacionalmente, no caso, ‘hoje de

manhã’:

(2)

Joana conversava com o namorado hoje de manhã.

O valor referencial do adjunto adverbial pode ser determinado pelo valor temporal marcado no morfema da flexão verbal:

(3)

a. Em novembro vou / fui a Maceió. b. Esta tarde vamos / fomos à praia.

Os adjuntos adverbiais ‘em novembro’ e ‘esta tarde’ em (3a) e (3b) são interpretados como tendo valor referencial de anterioridade ou de posteridade em relação a MF, conforme co-ocorrem na sentença com o pretérito perfeito ou com o presente, respectivamente. Entretanto, como já vimos, o tempo verbal presente simples marca valor de simultaneidade ou de posteridade em relação a MF, conforme é ou não complementado por determinados adjuntos adverbiais temporais. Nos advérbios que especificam a referência temporal podemos distinguir dois grupos: os adjuntos adverbiais de tempo, ou de localização temporal, que correspondem ao localizador temporal MR e os adjuntos adverbiais aspectuais, ou de localização aspectual, que especificam a estruturação do acontecimento no interior de ME, independentemente de qualquer localização temporal:

(4)

a. Ontem, o Pedro jogou tênis durante toda a manhã.

b. Todos os dias, a Lia corre 40 minutos.

c. No próximo ano, o Caio virá a Curitiba uma vez por mês.

Os adjuntos adverbiais ‘ontem’, ‘todos os dias’ e ‘no próximo ano’ em (4), correspondem ao localizador MR, pois especificam a localização temporal marcada na flexão verbal ; ‘durante toda a manhã’, ‘40 minutos’ e ‘uma vez por mês’, especificam a forma como o tempo é estruturado em ME ,

marcando, portanto, a localização aspectual. Em (4a), as referências aspectuais expressas no enunciado associadas à flexão verbal e aos adjuntos são perfectivo, durativo e acabado em relação a MF; em (4b), as referências aspectuais são imperfectivo, habitual, durativo e não-acabado; em (4c), os aspectos são imperfectivo, habitual e não-acabado. Em (4 a), o MR localiza temporalmente o acontecimento em relação a MF, que se situa na manhã

e o momento da enunciação em um tempo posterior. O adjunto adverbial ‘durante toda a manhã’, é simultaneamente de localização temporal e aspectual, pois esse adjunto estrutura o acontecimento como homogêneo no interior e ao longo de ME, expressando os valores aspectuais perfectivo, durativo e acabado em relação a MF. No enunciado em (5a), o adjunto adverbial ‘às dez horas’, que representa o MR, associado à flexão verbal do pretérito perfeito ‘viajou’, que representa o ME, expressa que a seqüência de instantes é construída por um único instante, já que o acontecimento ali representado tem os valores aspectuais pontual, acabado e perfectivo. Em (5b), o ME no presente progressivo ‘está pintando’, associado ao MR,

o adjunto adverbial ‘há duas horas’, expressa os valores aspectuais de imperfectividade, duratividade, cursividade e de não-acabado. Assim, o tempo do evento associado a MR pode ser representado como uma seqüência homogênea de instantes:

(5)

a. A Rita viajou às dez horas.

b. Rui está pintando um quadro há duas horas.

No enunciado em (6a), o acontecimento ocorre no interior de MR ‘em junho’, sem que o ME ‘nasceu’, coincida com toda a extensão de MR, ou seja, o ME está incluído em MR. O adjunto adverbial ‘em junho’ tem, portanto, o valor aspectual inclusivo. O enunciado em (6a) tem os valores aspectuais perfectivo, pontual, inclusivo e acabado. Em (6b), o MR ‘em 1990’ expressa a duração do acontecimento que coincide com toda a extensão de ME ‘morou em Belo Horizonte’. O ME expresso pelo verbo estativo no pretérito perfeito ‘morou’, tem os valores aspectuais perfectivo, durativo e acabado em relação a MR. Essas mesmas relações estão presentes em (6c):

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(6)

a. A Maria nasceu em junho.

b. Em 1990, a Lúcia morou em Belo Horizonte.

c. A Rita vive em Campinas desde 1986.

A

quantificação da relação predicativa pode ser marcada pela combinação do presente simples

com os predicados verbais e pela co-ocorrência com determinados tipos de adjuntos adverbiais de tempo:

(7)

a. A Lia está em São Paulo sempre que há um desfile.

b. O João vai ao cinema uma vez por semana.

A quantificação expressa em ‘sempre’ e ‘uma vez por semana’ em (7a) e (7b), respectivamente,

corresponde à construção de uma classe de eventos que se repetem um número não determinado de vezes, ou seja, têm valor aspectual habitual. O MF é um dos instantes da seqüência do ME . Do ponto de vista aspectual, temos os valores referenciais imperfectivo, habitual e não-acabado, tanto em (7a), como em

(7b).

O valor habitual construído num tempo anterior a MF é geralmente marcado pela combinação do

predicado verbal com o tempo pretérito imperfeito:

(8)

a. Naquele tempo, os pescadores pescavam muito peixe todos os dias.

b. Todas as noites, Luísa escovava os cabelos com cuidado.

No enunciado em (9), o adjunto adverbial ‘durante cinco minutos’, especifica a duração do acontecimento, mas não a sua localização temporal, uma vez que não marca qualquer valor de anterioridade, simultaneidade ou posteridade em relação a um localizador. É, portanto, um adjunto adverbial aspectual durativo. Além da duração do evento, esse advérbio especifica que o acontecimento é construído como homogêneo em ME:

(9)

O deputado discursou durante cinco minutos.

Como vimos, os enunciados pressupõem uma dada localização no tempo e no espaço em relação aos interlocutores e aos fatos que veiculam e as mensagens variam em função dos valores aspectuais atribuídos aos acontecimentos. A aplicação adequada desses termos propicia a criação dos universos de referência, nos quais se atua ou acerca dos quais se diz alguma coisa.

RESUMO: A referência temporal-aspectual, além de ser marcada nos morfemas de flexão verbal, pode também ser especificada por outros marcadores lingüísticos, os adjuntos adverbiais, que se aplicam, indiferentemente, ao tempo de evento ou ao tempo de referência. Para o valor referencial de um enunciado concorrem, de forma interdependente, os valores referenciais dos seus diferentes constituintes.

PALAVRAS-CHAVE: tempo; aspecto; advérbios temporais; advérbios aspectuais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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