Psicologia: Reflexão e Crítica, 2003, 16(3), pp.

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A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super
Marcos Alencar Abaide Balbinotti 1
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Resumo Donald Super engajou-se a sistematizar uma teoria geral da escolha e do desenvolvimento vocacional estruturada no modelo tradicional, no de fatores sócioeconômicos e ambientais, no de abordagens desenvolvimentistas, e no fenomenológico. O presente trabalho objetiva apresentar o conceito de maturidade vocacional e sua generalização no plano transcultural. Com este propósito, explorou-se, mais especificamente, o terceiro modelo teórico, aquele do cumprimento, por parte do indivíduo, de etapas ordenadas e previsíveis durante toda sua vida, visto que a noção de maturidade vocacional se revela através da passagem de um processo de desenvolvimento. Através de dados colhidos por diversos inventários de maturidade, apresentou-se os dados relativos a sua generalização. Concluiu-se que o modelo teórico explicativo da maturidade vocacional parece ser aplicável a diversas populações que possuem elementos culturais comparáveis aos americanos. Algumas exceções ou cuidados na interpretação de dados se aplicam. Novos estudos devem ser realizados a fim de melhorar as qualidades psicométricas das medidas de maturidade vocacional em alguns outros países e, também, as adaptações de tais instrumentos levando-se em conta a diferenças sócio-econômicas e culturais. Palavras-chave: Desenvolvimento vocacional; maturidade vocacional; Teoria de Donald Super; transcultural. The Transcultural Aspect of Vocational Maturity in Donald Super Theory Abstract Donald Super conceptualized a general theory of developmental vocational and career choice based on four models: 1) the traditional, 2) the developmental, 3) the economic, social and environmental, and 4) the phenomenological. Considering that vocational maturity can be revealed by the constant process of interaction between individuals and their environment, this present work aims to explore the concept of vocational maturity within the transcultural field (the third model). Data were collected through several maturity inventories and results show that Super’s theoretical model of vocational maturity can be generalized to several cultures, in particular to the ones that can be comparable to the American society, although some careful data examination is always needed. Finally, we suggest the need of new studies aiming to improve the psychometric properties of vocational measures in some countries, trying to pinpoint cultural and social differences when they appear. Keywords: Vocational development; vocational maturity; Donald Super’s Theory; transcultural.

Para se poder entender, adequadamente, a noção de maturidade vocacional de Donald Super, é conveniente situá-la dentro do contexto geral de sua teoria da escolha e do desenvolvimento vocacional, permitindo uma melhor precisão no sentido que Super dá a este conceito. Em seguida, apoiando-se em algumas pesquisas empíricas importantes, poder-se-á apreciar em que sentido esta noção é generalizável a diferentes culturas. A Noção de Maturidade Vocacional no Contexto da Teoria de Donald E. Super Partindo do histórico estudo de Buehler (1933) sobre o ciclo vital como um aspecto psicológico, a noção de maturidade vocacional, remete, necessariamente, a um processo de desenvolvimento (Balbinotti & Tétreau, 2002), como todos os outros aspectos da personalidade humana (social, emocional, sexual, intelectual, etc.) com
2 Endereço para correspondência: Av. Unisinos, 950, Núcleo de Orientação Vocacional, 93022 000, São Leopoldo, RS. Fone: (51) 5908127. E-mail: balbinotti@bios.unisinos.br

os quais se associa o termo maturidade. Em 1942, em um volume intitulado The Dinamics of Vocational Adjustment, Super apresentou uma síntese do que se conhecia naquela época sobre a escolha de uma carreira. Naquela ocasião, ele propôs uma concepção de escolha profissional que orientou, conseqüentemente, todos os passos teóricos e empíricos de sua carreira (Super, 1951, 1953, 1955, 1957, 1972, 1980, 1981, 1985a, 1985b, 1990; Super & Kidd, 1979; D. Super, Savickas & C. Super, 1996; D. Super, Sverko & C. Super, 1995). Com efeito, considerando a escolha vocacional como resultado de uma série de decisões pré-vocacionais e vocacionais que podem (ou tendem) durar toda a vida, sua concepção contrastava radicalmente com aquela que havia prevalecido até aquele momento e que se associava com a teoria dos traços e fatores de Parsons (1909). Naquela época (Parsons, 1909), concebia-se a escolha profissional como sendo um comportamento de acontecimento único e estático na vida de um indivíduo, emparelhando as características pessoais e de personalidade de um sujeito às de uma profissão. As concepções teóricas de caráter desenvolvimentista de Super (1942) foram

2 2) O segundo modelo diz respeito à influência dos fatores socioeconômicos. Farmer. Tais concepções tornaram-se as principais idéias ou tendências. No decorrer deste processo. entre outras. 1984. Levinson & McKee. Riverin-Simard. Uma descrição mais detalhada e objetiva destes modelos será apresentada abaixo. Axelrad e Herma (1951) – que finalmente limitaram sua descrição do desenvolvimento vocacional do nascimento a adolescência (ou até o início da idade adulta) –. a economia. Hotchkiss & Borow.462 Marcos Alencar Abaide Balbinotti resgatadas por Ginzberg. pareadas àquela de Holland (1959. esta concepção propõe que o desenvolvimento vocacional é um processo contínuo desde a infância até a velhice. 1998. ao menos em parte. portanto. a tradição. é aquele das abordagens de desenvolvimento. 1976. Brooks. Sverko & Super. Herr & Lear. por exemplo. e ainda incluiu outros modelos que. Lerner & Schulenberg. o grupo de pares. o mercado de trabalho. finalmente. quanto ao número constante e atual de publicações em revistas especializadas. uma discussão dos fatores econômicos ligados ao desenvolvimento profissional: a lei da oferta e da procura. teriam a árdua tarefa de desvendar. 1981. 1993. ainda. a escola. as políticas sociais e as experiências profissionais) sobre o desenvolvimento de carreira (Bergeron. Por exemplo. 1957. a automatização. Schultz & Henderson. por Tiedeman (Tiedeman & O´Hara. os sindicatos e as organizações profissionais. Ocupação é um anglicismo freqüentemente utilizado para falar da profissão ou do trabalho. 1996. 1964. relacionado com as concepções teóricas de Parsons (1909). os ciclos econômicos. Super (1969. McDonald & Richer. tanto no início do exercício de uma ocupação. o modelo socioeconômico e ambiental.. O desenvolvimento é. ordenado e previsível. também. 1997) representa em sua forma contemporânea e segundo o qual busca-se assegurar o homem certo no lugar certo a partir de uma análise das características do indivíduo e da profissão considerada. quatro modelos que. Super & cols. 1995. a comunidade. A natureza precisa destas tarefas e a maneira Psicologia: Reflexão e Crítica. Estas. 1996b. no desenvolvimento das necessidades e dos valores. Tiedeman & Miller-Tiedeman. a possibilidade de adquirir informações e desenvolver habilidades que poderão ter uma importante influência no momento da tomada de decisão profissional por parte dos jovens. Klein. o custo dos estudos. assim como dinâmico no sentido de que ele resulta da interação entre as características do indivíduo e as demandas da cultura. Umemoto & Wicker. o indivíduo deve cumprir um certo número de tarefas de desenvolvimento. finalmente.) que indicam um processo de desenvolvimento (Buehler. Bingham. São eles: o modelo de perspectiva diferencial. Fouad. o modelo desenvolvimentista. 1996c. ao menos. contrastava com a simples teoria dos traços e fatores (Parsons. 1990. Osipow e Fitzgerald (1996) concluem que a influência da classe social (média ou elevada) é quase sempre positiva sobre o desenvolvimento vocacional. 1985. 16(3). 1984. Recentemente. 1990) propôs uma concepção de escolha profissional com base em conceitos (maturidade. e. 1997. Knefelkamp & Slepitza. Breton. mas ela tem. 1996). têm sido elaboradas. 1909). por Vondracek e colaboradores (Vondracek. O autor apresenta também. os hábitos e aspirações que constituem o contexto sócio-psicológico do desenvolvimento de carreira. 1976. 3) O terceiro modelo. valores. Darrow. 1978. 1972. 1977. estruturadas e aplicadas por diversos autores (Blau. compondo as orientações teóricocontemporâneas básicas e de prática em psicologia da escolha e do desenvolvimento profissional. pp. Segundo estes autores. 1972. então. 1997. 1984. segundo ele próprio e seus colaboradores (Super. 1963. a tecnologia e. a família contribui. Brown. 1957). Roe & Lunneborg. os encorajamentos que uma pessoa recebe e as experiências de trabalho que ela conhece. 1985. As conclusões de Young e Chen (1999). juntos. 1984. Lapointe. É claro que diversas outras teorias. ou ao adolescente. Miller & Weeks. Ginsburg. a sociedade. Miller & Form. concernentes à influência da classe social sobre o desenvolvimento de carreira. o modelo fenomenológico. 1973. etc. interesses. 1952. Roe. 1956. Como refere Bujold (1989) e Bujold e Gingras (2001) compilando as informações de Super (1984). ao todo. Fukunaga. o da psicologia das carreiras (Super. mas a de Super ocupa um lugar de destaque. Este contexto compreende. são as variáveis que intervêm influenciando a carreira dos indivíduos. 1) O primeiro modelo. Havighurst. 1996. 1996a. explicariam melhor a complexidade do comportamento vocacional de um indivíduo. É o modelo tradicional que Holland (1959. apóia-se numa psicologia diferencial dos indivíduos e das ocupações2. 1998. 1951. 1994. 1995). 1992. a classe social não influencia somente a disponibilidade dos recursos em relação à escolha e à adaptação profissionais. 1986). tecnológicos e ambientais (tais como a família. ao qual o nome de Super é mais popularmente associado. 1985. não menos importantes (embora ainda pouco divulgadas). um efeito sobre as atitudes. 2003. quanto nas mudanças e adaptações que poderão se impor no decurso dos anos. 1933) e que. e. Levinson. apóiam a afirmação desses autores. 1990). 1984). 1993. o que torna claro também o fato de tratar-se de um processo psicossocial. 461-473 . fornecendo à criança. mais recentemente. 1998. Seriam. segundo Super (1957). 1997). este comportamento. Watkins & Subich. geralmente. 1996.

formulando uma preferência vocacional. um miniciclo. Super (Super & cols. é no terceiro modelo desta grande e integradora teoria que se agrega à noção de maturidade vocacional. que ele é maduro na medida em que ele está pronto para tomar as decisões e para assumir os comportamentos característicos de seu estado de desenvolvimento vital (Super. Como se pode constatar. nível socioeconômico e autoconceito vocacional). os estados têm uma tendência a se mesclar e não são. Ele queria. isto é. seus interesses. 1963a. seus valores e suas aptidões – tem um papel organizacional maior como guia do comportamento do indivíduo através dos estados e sub-estados do desenvolvimento vocacional. esclarece-se que o significado é o mesmo. claramente definidos por limites de idade. estavam estabilizados em um padrão de carreira. sem dúvida. Para melhor definir a natureza das relações. realizar atividades que ele sempre quis fazer (estabelecimento). troca-se apenas os títulos dos conceitos. 1994). Super & cols. escolhendo uma profissão. Esta distinção na conceitualização deve ser feita pela boa razão que. p. 1996). até o momento em que a maior parte dos sujeitos (70% deles. e mais precisamente o autoconceito profissional – que analisa os conjuntos de traços da pessoa diretamente ligados ao seu desenvolvimento profissional. A Tabela 1 apresenta. já tentaram colocar à prova sua teoria de diversas maneiras. Mais tarde (Super. 2003. o autoconceito. rendimento escolar. ele tentou definir esta noção de uma maneira operacional escrevendo de forma ainda mais detalhada as tarefas de desenvolvimento. Segundo Super (1990). respondendo a questão sobre maturidade vocacional centrando-se principalmente no desenvolvimento profissional dos adolescentes e de jovens adultos. mas sim de adaptabilidade profissional . quando se fala de maturidade vocacional no modelo desenvolvimentista de Super. 1990. ele atualiza seu autoconceito. Em seus trabalhos mais recentes (Super. ele escreveu: “ . Este estudo permitiu estabelecer as relações entre a maneira pela qual os sujeitos passavam pelas tarefas de desenvolvimento profissional correspondentes ao estágio de exploração na adolescência (cristalização. o desenvolvimento vocacional não está em relação linear com a idade cronológica (Balbinotti & Tétreau. que esta noção se aplica propriamente ao desenvolvimento profissional do adolescente e do início da idade adulta.. continuar a fazer as atividades que ele sempre amou fazer (manutenção) e reduzir suas horas de trabalho (desengajamento). 1996) não fala exatamente de maturidade vocacional. 2002).. progredindo numa carreira. a tarefa da cristalização e o status do indivíduo na etapa do . Super (1955) inicialmente focalizou esta noção quando escreveu. dentro do quadro dos megaciclos (crescimento. 4). sobre as dimensões e medidas da maturidade vocacional. 2001a. assim como as tarefas do desenvolvimento com as quais eles estavam confrontados e seu nível de preparação para resolvê-las. e mesmo diversos outros pesquisadores. 4) O quarto modelo é denominado fenomenológico. tal qual o desenvolvimento intelectual (Balbinotti. e também de autoconceito – precisamente. a maturidade vocacional é definida como a capacidade do indivíduo para enfrentar as tarefas de desenvolvimento com as quais ele é confrontado como conseqüência de seu desenvolvimento social e biológico. procurar um lugar apropriado onde se retirar (exploração). É conveniente precisar. a mais conhecida é. Estudos de Verificação Empírica Super e colaboradores. estabelecimento. Trata-se de um estudo longitudinal iniciado em 1951 com jovens de 9º ano escolar (entre 14 e 15 anos) e que durou os 25 anos seguintes. pp. pela primeira vez. então. exploração. 14-18 anos) e o status de seus comportamentos vocacionais no estágio de estabelecimento (estabilização. de outra parte. como é o caso para outros aspectos da personalidade. isto é.. quando necessário. mas. Por exemplo. 16(3). 1996). 1990. e das necessidades da sociedade em relação às outras pessoas que alcançam este estado de desenvolvimento. ele se atualiza” (Super. Com efeito. 461-473 adolescência e da vida adulta. por comparação com as predições deste mesmo status a partir das medidas convencionais das características dos sujeitos (inteligência. para. portanto. escolher uma carreira. Desta forma. não somente as idades de transição são muito flexíveis. a lista das tarefas de desenvolvimento. sistemas de autoconceitos. Além disso. no Teachers College da Universidade de Columbia. precisamente). de uma parte. como pode-se encontrar na Tabela 1. manutenção e desengajamento). 2001b. Continua-se. sendo esses. de 1985. no estado megacíclico de desengajamento. tocar-se-á na noção de adaptabilidade profissional. mas cada transição comporta uma reciclagem através de um ou mais estados. Dentro desta ótica. 1963b). Como explica Super (1990). aquela que representa seu estudo de padrões de carreira (Career Pattern Study – CPS). assim.. o indivíduo exprime uma idéia do tipo de pessoa que pensa ser.. no caso dos adultos. finalmente. estados e sub-estados correspondentes. Super & cols. assim como os atributos e comportamentos característicos da Psicologia: Reflexão e Crítica. o indivíduo deve pensar em desenvolver novos papéis não ocupacionais (crescimento). Portanto. pode-se dizer de um indivíduo. estabelecer os critérios para descrever e avaliar os estados e os sub-estados do desenvolvimento da carreira de estudantes com diferentes idades e níveis de estudos.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 463 pela qual ele as cumpre revela sua maturidade vocacional. 21-30 anos e 30-45 anos em uma profissão).

Ullery & O’Brien. Segundo Super (1963c).) e do autoconceito (precisamente duas metadimensões: harmonia e idiossincrasia). com adolescentes. esta primeira versão do CDI foi. respondendo assim a melhores qualidades psicométricas e dando lugar às versões do CDI-A (para jovens adultos) e do Adult Career Concerns Inventory (ACCI) (Super. mas também utilizar os recursos que o permitirão realizar suas atividades de planificação e de exploração de uma carreira. em seguida. Foi neste furor que se publicou. Thompson & Lindeman.. a formulação de uma preferência geral e a constância na sua expressão constituem os principais critérios da cristalização na adolescência. rapidamente apareceu a idéia de que seria oportuno para os pesquisadores e os técnicos terem instrumentos válidos de avaliação da maturidade vocacional. dos conselheiros. entre outros importantes resultados. a primeira versão do Career Development Inventory (CDI) (Forrest & Thompson. em 1972. outros autores (Jepsen. conseqüentemente. podia-se notar uma maior cristalização e uma maior especificação das preferências. mas é conveniente remarcar que. 1988). Eles também estavam mais confiantes. Entretanto. por assim dizer. no início da adolescência. Seyfarth. o que Super entende como tarefa de cristalização de uma preferência profissional na adolescência. 461-473 . pp. pode se resumir em termos de duas dimensões (planificação e exploração) da maturidade vocacional que os primeiros dados de seu estudo longitudinal. mais comparáveis aos dos adultos. Estes resultados evidenciaram que no desenvolvimento vocacional. mostrar a utilidade das medidas de maturidade vocacional como variáveis independentes para predizer o desenvolvimento vocacional subseqüente. alguns tinham estagnado e outros tinham perdido terreno. basicamente. Ele deveria. Certos meninos tinham feito progressos. no 12º ano de estudos. e que a eminência das escolhas a fazer tinha verdadeiramente influenciado (Perron. Schenk. consciente da necessidade de cristalizar uma preferência e de pensar. convém descrever.. notadamente o status ocupacional esperado e o progresso na carreira. sobre o desenvolvimento dos padrões de carreira com os meninos de 9º ano (Super & Overstreet. etc. e. de exploração e de preparação a tomar as decisões que requerem as necessidades sociais e as circunstâncias). na validade de seus interesses que tinham se transformado. de acordo com a formulação teórica de Super. 1982. progresso e satisfação na carreira) do que as medidas convencionais (inteligência. traduzidos ou adaptados com amostras Psicologia: Reflexão e Crítica. a utilização combinada de dois tipos de medida melhoram as predições. Como não se poderia duvidar. Os dados subseqüentes sobre a maturidade vocacional destes mesmos meninos. no nível individual. avanço ocupacional. se estas modificações tornaram-se mais perceptíveis quanto ao conjunto dos sujeitos. Ele deverá enfim. ao adolescente. isto é. Coallier (1992). A Medida da Maturidade Vocacional No entusiasmo dos primeiros resultados do CPS. etc. no 12º ano escolar (graus de planificação. é chamar a atenção dos jovens sobre os processos de decisão que subentendem a escolha da carreira. como a responsabilidade de elaborar planos de ação e utilizar os recursos ambientas disponíveis para exploração. certas características e comportamentos têm uma relação com o desenvolvimento de carreira e a atualização de uma preferência profissional 10 anos mais tarde. estando agora. recentemente. Este pano de fundo que Super assina. quanto mais preciso for seu conhecimento dos interesses e dos valores. Para chegar lá. por assim dizer. Dustin & Miers. no 12º ano escolar. Sendo assim.464 Marcos Alencar Abaide Balbinotti estabelecimento profissional. 1970) sublinharam a pertinência de se servir como variável dependente aos fins de identificar a eficácia de certos métodos de aconselhamento de carreira. notadamente as contingências econômicas podendo influenciar as realizações de seus objetivos vocacionais. 1960). não apresentavam um quadro assim tão claro. Concebido para ser utilizado. e mais simples será sua tarefa de cristalizar sua preferência. tornar-se consciente das relações entre suas atividades prévocacionais e suas escolhas vocacionais subseqüentes. Balbinotti (2001) reconfirmou estes resultados. Mais recentemente ainda. Super (1985b) pode concluir que as medidas de maturidade vocacional. e que o mais importante. 2003. Com o estudo do CPS. também. sucesso escolar. em verdade. Teve-se a oportunidade de verificar que estes instrumentos foram. este estudo confirmou a hipótese que a expressão de escolhas específicas nesta idade é habitualmente irrealista ou prematura. o adolescente deveria verdadeiramente estar. status socioeconômico. 1974). confirmou esses resultados com uma amostra de adolescentes canadenses. pode faltar constância e uniformidade. são também mais potentes como preditores de variáveis critérios ao longo de 25 anos (status ocupacional esperado. considerar os fatores pessoais e ambientais pertinentes (aptidões. a existência de uma certa progressão em relação àquela que prevalecia no 9º ano escolar. inicialmente. 1973. 1979. informações dos pais. satisfação ocupacional. 16(3). assim como seu perfil de interesses e de valores. durante o ensino secundário. em seguida. não somente estar consciente.). com uma amostra de 5200 adolescentes gaúchos. permitiram a Jordaan e Heyde (1979) concluir. Se o estudo do CPS permitiu. quando estavam mais velhos. já no 9º ano escolar. os índices de maturidade vocacional. 1967). modificada. permitiram identificar. mais diferenciado será seu perfil. mais especificamente.

podem influenciar o processo de desenvolvimento de uma carreira. 1983. Lerner e Schulenberg (1986). Mello. de ambos os sexos. tal qual medida pelo CDI. conhecimento do processo de desenvolvimento da carreira. Ele estima. exercem uma grande influência sobre os seus desenvolvimentos vocacionais. 1979. 1983. Segundo estes autores. 461-473 que a teoria de Super tenha sido elaborada a partir de amostras de homens brancos. salienta-se que os 110 itens do CDI foram concebidos para avaliar os dois componentes gerais da maturidade vocacional: atitude e cognitivo. mede claramente as dimensões correlatas ao conceito de maturidade vocacional de Donald Super. exploração (25 itens). mesmo Psicologia: Reflexão e Crítica. Em um estudo longitudinal da relação entre maturidade vocacional e sucesso acadêmico de 111 estudantes de medicina de uma universidade da Califórnia. Assim. As pesquisas empíricas repertoriadas neste trabalho sobre as relações da maturidade vocacional com diversas outras variáveis são apresentadas abaixo. 1976. Estes e outros instrumentos. a qualidade das relações interpessoais de seus contextos social e familiar. é conveniente destacar o trabalho de Vondracek. 1982. Áustria. Westbrook & Mastie. Perspectiva Transcultural da Noção de Maturidade Vocacional Super (1957. Kenny (1990) encontrou que a maturidade vocacional tem relação significativa com os valores do trabalho e a estrutura familiar. Miller e Winston (1984). do qual Dupont e Marceau (1982) demonstraram as qualidades psicométricas através da ajuda de dados colhidos pela aplicação deste em estudantes do ensino médio canadenses. os itens medem as preocupações com as tarefas de desenvolvimento da carreira segundo os estados e sub-estados que aparecem na Tabela 1. A primeira delas referese às oportunidades de desenvolvimento que eles facilitam ou dificultam. 16(3). No estudo de McCaffrey. de ambos os sexos. Super & Zelkowitz. por outro lado. por um lado. notadamente a inteligência e o nível socioeconômico. Portugal. Canadá. Eles também verificaram que esta variável pode ser mais potente que outras variáveis ligadas ao sucesso escolar. pp. com efeito. No mais. e escore total de orientação à carreira. Em um estudo de sua relação com a percepção de barreiras ao avanço ocupacional com 188 colegiais do Texas. 1990). 1978) e ao Questionário de Educação à Carreira (QEC) (Dupont & Gingras. exploração e tomada de decisão) são significativamente correlacionadas a eficiência no trabalho. também foi objeto de estudos e relações com outras variáveis. 1973. Quanto ao ACCI. que esses fatores podem condicionar este processo de duas formas distintas. França. Entre os estudos pioneiros do contexto socioeconômico e cultural com relação à maturidade vocacional. 1973). 2003. África do Sul.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 465 de adolescentes e adultos de diversos países (Espanha. Kuhlman-Harrison & Neely. Tilden. Feito este caminho. atitudes em relação à carreira e tomada de decisão (20 itens). Ele permite calcular oito escores por meio de quatro escalas e da combinação destas: planificação (25 itens). quando inspirados na teoria de Super. No que se refere ao estudo de Dykeman (1983). 1980. com a ajuda de uma amostra de 60 estudantes de nível superior. Segundo Fouad e Arbona (1994). 1977. Refere-se precisamente ao Career Maturity Inventory (CMI) (Crites. Países Baixos. da mesma forma que os papéis que eles têm a oportunidade de observar e de se implicar. conhecimento do grupo ocupacional preferido. e aí se compreende os fatores culturais e de considerações étnico-raciais (precisamente o segundo modelo de sua teoria). Lewis. 1974. Gonzalez (1992) assegurou a tradução e a adaptação na Espanha e. as atividades nas quais as crianças e os jovens adolescentes se engajam. à procura de modelos ocupacionais e de autoconceitos. Por outro lado. A Tabela 2 apresenta um resumo dos coeficientes de consistência interna (Alpha de Cronbach ou Fórmula KR-20) obtidos por diversos instrumentos de medida da maturidade vocacional e da adaptabilidade profissional (nos adultos). diversos estudos foram realizados a fim de verificar se a teoria de Super é realmente válida quando se considera tais fatores. eles confirmaram. este constatou que três das quatro dimensões do modelo de maturidade vocacional de Super (planificação. Landro. a maturidade vocacional. Luzzo (1996) concluiu a ausência de relações significativas (p>0. nos Estados Unidos. o Inventário de Desenvolvimento Profissional (IDP). 1990) sempre considerou que os fatores socioeconômicos e ambientais. foram elaborados para se poder medir certas dimensões da maturidade vocacional. ela seria generalizável a outras culturas e populações. Uma versão brasileira deste último foi assegurada por Lobato (2001). a fim de identificar em qual etapa de seu caminho profissional o sujeito se percebe. Super. Caminho feito. Savickas e Jones (1996) constataram que o grau de maturidade vocacional é um potente preditor de sucesso. Super & Thompson. Balbinotti e Tétreau (2002) asseguraram as qualidades psicométricas para uso no Brasil.05). informação sobre o mundo do trabalho (40 itens). e a segunda. Reino Unido e Austrália). que. Pesquisas Americanas Com o CDI O CDI foi desenvolvido nos Estados Unidos e suas qualidades psicométricas foram verificadas e confirmadas em diversos estudos e com amostras independentes (Dean. as experiências únicas ou idiossincráticas de suas existências. a hipótese já verificada com os adolescentes .

Osborne. os quais foram favoráveis. assim como Leong (1993. Leong e Brown (1995) e Leong e Hartung (1997) o fazem remarcar comparando a maturidade vocacional de estudantes caucasianos e asiáticos. sujeitos de origem africana geralmente obtêm escores menos elevados de maturidade vocacional que os caucasianos (Fouad & Kelly. 1995). 1985) e na Inglaterra (Ward. se fatores culturais. Mais recentemente Booth (1994) reexaminou a estrutura fatorial do ACCI lançando mão de equações estruturais (confirmatory factor analisis) e chegou a conclusão que se trata de uma medida também aplicável a pessoas deficientes. Bardo e Henry (1992) obtiveram resultados que sugerem que a média das respostas dos afro-americanos de sua amostra era mais baixa que aquela dos caucasianos. notadamente no Canadá (Dupont & Marceau. hispânicos e de tradição indígena. podem diminuir o estabelecimento de seus autoconceitos e. McCloskey. Desta forma. por outro lado. a partir de duas amostras independentes de adolescentes sul-brasileiros com a ajuda do QEC.) verificaram e confirmaram suas qualidades psicométricas e outros (Halpin. Os resultados não apresentaram nenhuma diferença significativa quanto ao fator atitude (planificação e exploração). 1989. similar entre os dois grupos. Entretanto. na Espanha (Moreno. Entretanto. Por outro lado. de maneira geral e não necessariamente linear. 1987. 1982). pp. 1986. Stead & Jager. 1979) que. em Portugal (Ferreira & Caeiro. 1982). Brown & Niles. pode ser interessante notar que Thomason e Winer (1994) corroboraram os resultados de Super (1985a) no sentido que as meninas obtiveram escores de maturidade vocacional mais elevados que aqueles dos meninos. na Áustria (Seifert & Eder. processo evolutivo. 1995b. 1985). 1992. no mínimo. 1990) sublinharam a pertinência de sua utilização no plano prático. Whiston. o nível de maturidade vocacional aumenta em função do de estudos. Savickas. precisamente aquela da sucessão ordenada dos estados e das tarefas de desenvolvimento associadas. os sujeitos de origem caucasiana demonstraram um nível significativamente mais elevado de conhecimento das ocupações preferidas em relação às outras culturas. 1988. Ralph & Halpin. estes mesmos autores observaram uma diferença significativa entre os superdotados (de qualquer origem) e os “normais”. Westbrook & Sanford. 1991).). 1986. Diversos autores (Halpin. Ele Psicologia: Reflexão e Crítica. Super.466 Marcos Alencar Abaide Balbinotti no estudo do CPS (Jordaan e Heyde. os resultados obtidos nestes estudos. Pesquisas em Outros Países Com o CDI Versões adaptadas e normatizadas deste inventário foram utilizadas com sucesso em outros países. Young (1984) examinou a relação entre as aspirações ocupacionais e a maturidade vocacional de uma amostra de 590 adolescentes de seis escolas rurais. A ordem destas progressões permanece. Neste sentido. o ACCI foi elaborado nos EUA. Passen & Jarjoura. 1984) onde os resultados não puderam permitir conclusões positivas quanto a sua utilização na população adolescente. Dados semelhantes a estes foram encontrados no estudo de Balbinotti (2001) e Balbinotti e Tétreau (2002). Mahoney. Ralph (1986) e Ralph (1987) afirmam que este instrumento foi utilizado em alguns estudos em relação a outros instrumentos a fim de se verificar a validade conceitual. aceitável. 1984) e nos Países Baixos (Helbing. Ralph & Halpin. seus resultados sugeriram que os homens que manifestavam pouca adaptabilidade profissional experimentavam um nível mais elevado de stress ocupacional. Dito de outra forma. 1983. Frischknecht. Na medida que o fato de pertencer mais a um gênero (masculino ou feminino) pode ser concebida em termos de diferenças culturais. na Austrália (Punch & Sheridan. Niles e Anderson (1993) buscaram verificar a relação entre o stress e a adaptabilidade profissional utilizando uma amostra de 110 clientes onde 76 eram mulheres. Henry. Com o ACCI Como no caso do CDI. As estruturas fatoriais obtidas através de análises multidimensionais demonstraram a necessidade da retirada de diversos itens para que o instrumento pudesse conservar uma estrutura. Kelly e Cobb (1991) não encontraram diferenças significativas nos graus de maturidade profissional de adolescentes superdotados de origem africana e caucasiana. asiáticos. Walsh. Dupont & Huter. 16(3). 461-473 . Ainda. 1990. contudo. Sem dúvida um achado favorável à compreensão multicultural da noção de maturidade enquanto processo de desenvolvimento. 1977). No mais. No Canadá. Scheeffer & Fernandes. como sublinham Fouad e Arbona (1994). Ralph (1987) o administrou em 109 sujeitos adultos e seus resultados mostraram que a adaptabilidade profissional está em correlação positiva e significativa com a autoconfiança. não parecem ter tido continência no caso do Brasil (Fernandes & Scheeffer. isto é. por um lado. 1995a. 1987). os resultados destes mesmos estudos confirmam a hipótese de Super. como a menor importância acordada pelos asiáticos no que se refere ao valor do individualismo. 1992. na Suíça (Descombes. Smallman e Sowa (1996) examinaram as respostas ao CDI de 125 estudantes (atletas de diversos esportes) de origens culturais diversas: caucasianos. Outros estudos apresentaram resultados similares. A propósito dos estudos transculturais no interior dos Estados Unidos. africanos. podem tornar ainda mais complexas suas progressões através dos diferentes sub-estados de desenvolvimento profissional. na África do Sul (Watson. Super. 2003. 1981).

o nível desta informação. 16(3). os estudantes brancos obtiveram escores de maturidade significativamente mais elevados que os estudantes negros. de acordo com a sistematização teórica de Super. verificou que os primeiros tiveram escores mais elevados que os segundos. nesta amostra. Os índices obtidos a partir de cálculos de consistência interna são também satisfatórios. em Portugal (n=881) (Duarte. pp. os adolescentes que aspiravam ter sucesso em ocupações inovadoras manifestavam um grau de maturidade significativamente mais elevado. de acordo com seus estados de vida e. Bullington e Arbona (1991) corroboram os avanços teóricos de Super observando que estes quatro estudantes estavam implicados nas tarefas exploratórias de planificação e exploração. Comparando estudantes americanos e árabes. Com o ACCI Os resultados das análises fatoriais do ACCI ou de suas traduções adaptadas com adultos desempregados ou em formação profissional. 1992b) e na França (n=1414) (Gelpe. não aproveitando grande parte das fontes de ajuda e informações que estavam propostas neste instrumento. Neste estudo. 2003. Antes de qualquer interpretação precipitada. 461-473 estruturas social. portanto. quando estes jovens eram comparados aos grupos de adolescentes que tinham escolhido ocupações tradicionais. seis anos mais tarde. Fouad (1988) comparou a maturidade vocacional de 875 estudantes americanos de nível médio. em última análise. obteve resultados similares com a ajuda de uma amostra de 2997 adolescentes emparelhados com o CEC. Gonzalez (1992). final do ensino médio. estabelecimento. de nono e décimo segundo ano escolar. manutenção e desengajamento). Moracco (1976). quanto a seus projetos de carreira. De modo geral. Seifert (1991) explorou a relação entre a maturidade vocacional e os comportamentos associados às escolhas vocacionais de 1336 estudantes do 110 e 120 anos de estudos. ou ainda com adultos trabalhadores (n=457) na Austrália (Smart & Peterson. a sociedade sul-africana em geral. tais variáveis podem constituir um viés importante tanto em termos de medida quanto de interpretação desses resultados. Na Áustria. os estudantes israelenses obtiveram escores de maturidade vocacional significativamente menos elevados que aqueles obtidos por estudantes americanos. A autora conclui que as tarefas do desenvolvimento de estudantes em diferentes culturas são similares. o tempo necessário para atingir o sucesso pode variar segundo a cultura e os inventários de maturidade podem não estar ainda adaptados a estas diferenças. no Canadá (n=1554) (Dupont. é ainda objeto de muita discriminação tanto na estrutura política quanto nas Psicologia: Reflexão e Crítica. a versão Espanhola do QEC. Ela observou que os estudantes tinham se comprometido muito pouco em suas atividades de planificação e de exploração de uma possível carreira futura. os autores sugerem prudência quanto às possíveis conclusões que podem ser interpretadas a partir destes resultados. Os resultados demonstraram que não existem diferenças significativas entre a maturidade e o gênero. 1992a. revelando assim uma maior capacidade na execução de compromissos entre a realidade e suas próprias necessidades. 1995). Watson e colaboradores (1995) realizaram um estudo na África do Sul. Desta forma. Os resultados demonstraram diferenças significativas entre as duas culturas assim como entre o sexo e o nível de estudos (entre os israelenses). Os resultados sugerem que estes adolescentes manifestaram pouca maturidade vocacional e que os conselheiros e psicólogos escolares deveriam facilitar as informações vocacionais destes jovens. . naquele país. com uma amostra de 264 estudantes universitários.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 467 encontrou que. brancos e pretos. Contrariamente a este último resultado. O ACCI é um instrumento ainda relativamente novo de sorte que ele ainda não foi extensivamente utilizado pelos práticos. Considerando a elaboração de uma estratégia de avaliação de necessidade de educação a carreira de 1022 estudantes canadenses franceses de ambos os sexos e todos do último ano do ensino médio no Quebéc. aumentando. 1997) confirmaram a presença dos quatro fatores constitutivos de sua estrutura fatorial da versão original (exploração. no Líbano. Gingras & Tetreau. a fim de verificar a relação do gênero e da cultura com a maturidade vocacional. Um outro estudo foi realizado com quatro estudantes de escola média. Seifert (1985) administrou a versão austríaca do CDI em uma amostra de 641 adolescentes de oitavo e nono anos escolares. esta diferença seria atribuível a fatores culturais. Os resultados mostraram que os escores elevados de maturidade vocacional estavam significativamente associados às preocupações quanto ao objeto de escolha de carreira e ao sentimento de confiança de poder realizar seu projeto profissional. Entretanto. com 537 estudantes israelenses dos mesmos níveis. os israelenses se mostraram mais decididos. no México (utilizando entrevistas semiestruturadas em uma pesquisa de caráter qualitativo). Em um outro estudo. na Espanha. Entretanto. os autores sublinham a necessidade de um aprofundamento maior e salientam que os estudantes negros de sua amostra habitavam em um bairro que sofreu muitos problemas de instabilidade política e social. Assim. Gingras (1991) utilizou o QEC. Contudo. Conforme sua opinião. econômica e escolar. 1994). podendo se tirar as mesmas conclusões. de nono e décimo segundo ano de estudo.

mais especificamente. o conceito de maturidade vocacional e sua relação com outras variáveis tais como o sucesso escolar. ao mundo ocidental.468 Marcos Alencar Abaide Balbinotti Conclusão Depois do início dos anos 1940. medido pelo ACCI. e planeja fazer carreira nesta profissão na qual ele se estabelecerá relativamente cedo. A noção de maturidade vocacional se revela através da passagem deste processo. sabe-se que os indivíduos desfavorecidos no nível socioeconômico podem valorizar mais dificilmente as gratificações diversas (não em dinheiro) de uma forma diferenciada dos indivíduos de nível socioeconômico mais elevado. o modelo dos fatores socioeconômicos e ambientais. sublinhando as tarefas inerentes ao desenvolvimento vocacional. Assim. notadamente. concluindo. Pode-se pensar. Dentro de uma ótica que privilegia a compreensão pormenorizada desta dinâmica de desenvolvimento. Por exemplo. mais rapidamente. pode-se concluir que a estrutura fatorial destes instrumentos pode ser encontrada. de diferenças de nível socioeconômico e de valores associados a elas. do que aqueles de nível socioeconômico mais baixo. explorou-se. as aspirações e os interesses profissionais. os valores do trabalho. ou ainda se eles pertencem a um ou outro grupo étnico. tendo tido. por Japur (1988) e Japur e Jacquemin (1989). uma teoria geral da escolha e do desenvolvimento vocacional. isto é. o processo ordenado de desenvolvimento vocacional seria então. essencialmente. Pois. Depois desta pesquisa fundamental e pioneira. e relativamente tarde naquela de juiz). CMI. e com relação à real possibilidade ou não de trabalhar. de maneira exaustiva. ACCI). Super (1985a. mais geralmente. no qual a noção de maturidade vocacional tinha um papel organizacional de destaque. acesso ao mercado de trabalho eles se estabilizarão também mais rapidamente em um padrão de carreira. Pode-se supor que as médias das amostras vão provavelmente ser diferentes segundo o nível socioeconômico. por exemplo. Observa-se (ver Tabela 2) também que os coeficientes de consistência interna são muito similares (geralmente elevados ou muito elevados) entre um país e outro. inspirados a partir da teoria do desenvolvimento vocacional de Super. com sujeitos que habitam em bairros mais ou menos favorecidos.. diferenças relativamente importantes são observadas segundo as amostras utilizadas. Podese então formular a hipótese de que os indivíduos com um nível socioeconômico alto obterão médias significativamente mais elevadas no estado do Estabelecimento. O modelo parece então generalizável a diversas populações que possuem um mínimo de elementos culturais comparáveis aos americanos e. em grande parte. O presente trabalho objetivou não somente a compreensão e a apresentação do conceito de maturidade vocacional. Psicologia: Reflexão e Crítica. ao menos para os países estudados. Diversos instrumentos. 1985b) conduziu um estudo longitudinal. Super engajou-se a sistematizar. o terceiro modelo que aborda a dinâmica desenvolvimentista do cumprimento de etapas ordenadas e previsíveis durante toda a vida do indivíduo. No que se refere às pesquisas trans-culturais com o CDI e o ACCI. foram criados (CDI. entre outras. Parece importante considerar todos estes aspectos no momento de interpretar os resultados originários dos levantamentos de dados sobre maturidade vocacional. diversos autores. mas igualmente sua gestão no plano transcultural. pode-se perguntar. as quatro grandes etapas (os megacíclos) no que concerne o ACCI e os dois fatores (atitude e cognitivo) no que concerne o CDI. A única exceção seriam os dados obtidos com o CMI. por oposição ao caso de um estudante de graduação em psicologia que se pergunta se ele será admitido em estudos de pósgraduação ou se ele deverá remeter em questão sua orientação nesta via e recomeçar a explorar uma outra abordagem diferente da psicologia. generalizável no plano universal. com sujeitos pertencentes a uma maioria branca ou uma minoria visível. pp. IDP. Considerando as diferenças segundo o pertencimento racial ou étnico. 1996) como a capacidade do indivíduo tomar decisões e assumir os comportamentos característicos de seu estado (ver Tabela 1). na maioria de suas versões traduzidas e/ou adaptadas em diversos países. em diferentes países e/ou culturas. se não se trata. Esta noção foi recentemente definida (Super & cols. Esta teoria é estruturada em quatro modelos distintos. Entretanto. 461-473 . sistematicamente. Encontrou-se então. o modelo feno– menológico. antes de tudo. conforme a importância acordada ao trabalho e ao seu papel na vida do indivíduo. no caso de um jovem que se torna policial na idade de 18-19 ou 20 anos. o CPS. ainda no século passado. QEC. de acordo com o tipo de trabalho e a carreira a que está associada (estabelece-se muito cedo em uma profissão de atleta profissional. se elas são constituídas de homens ou de mulheres. finalmente. Uma questão que se pode levantar é se o modelo é generalizável a uma ou outra amostra em particular. Com este propósito. no Brasil. o modelo das abordagens desenvolvimentistas e. 2003. mas conexos: o modelo tradicional. investiram em várias pesquisas empíricas a fim de explorar. de sujeitos com mais ou menos idade. 16(3).

Especificação de uma preferência. Tabela 2 Consistência Interna de alguns Instrumentos de Medida da Maturidade Vocacional e da Adaptabilidade Profissional. atualizar-se e inovar. .Atualização de uma preferência.Sub-estado de avanço Manutenção (40-65 anos) . 2003.71 0.61 0.Sub-estado de adaptação e preservação do autoconceito Desengajamento (65 anos e mais) .Sub-estado fantasista e de curiosidade .Aprendizagem das técnicas gerais de adaptação e de formação de um autoconceito vocacional.Estabilização em uma profissão.36 0.67 Psicologia: Reflexão e Crítica.93 0.90 0.32 – – – – – – – – – – – – – 0. pp.65 0.88 0.Sub-estado provisório .97 0.76 0.93 0. Considerando os Diversos Países Países Canadá Canadá Canadá Estados Unidos Estados Unidos Estados Unidos Estados Unidos França Espanha Portugal Brasil Brasil Brasil Instrumentos QEC IDP IPC CMI CDI CDI-A ACCI IPP CEC ACCI QEC IDP CMI Alpha 0.95 0.Cristalização de uma preferência.Sub-estado de transição .Sub-estado de tentativas (pouco engajamento) Estabelecimento (21-45 anos) .Manter posição.95 0.83 0. 16(3).91 0. 461-473 .Consolidação do status e avanço.Desaceleração. .94 0.64 0. planificação da aposentadoria e da vida de aposentado.81 0.73 0.95 0.Sub-estado do desenvolvimento dos interesses e das aptidões Exploração (14-25 anos) .66 0.92 0.93 0.77 0. .A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 469 Tabela 1 Relação dos Estados e Sub-estados do Ciclo Vital com as Tarefas de Desenvolvimento Estados e sub-estados Crescimento (0-14 anos) .Sub-estado de tentativa e estabelecimento .91 0. . .Sub-estado de adaptação a um novo self e ao processo de aposentadoria Tarefas de desenvolvimento . . .

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