Psicologia: Reflexão e Crítica, 2003, 16(3), pp.

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A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super
Marcos Alencar Abaide Balbinotti 1
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Resumo Donald Super engajou-se a sistematizar uma teoria geral da escolha e do desenvolvimento vocacional estruturada no modelo tradicional, no de fatores sócioeconômicos e ambientais, no de abordagens desenvolvimentistas, e no fenomenológico. O presente trabalho objetiva apresentar o conceito de maturidade vocacional e sua generalização no plano transcultural. Com este propósito, explorou-se, mais especificamente, o terceiro modelo teórico, aquele do cumprimento, por parte do indivíduo, de etapas ordenadas e previsíveis durante toda sua vida, visto que a noção de maturidade vocacional se revela através da passagem de um processo de desenvolvimento. Através de dados colhidos por diversos inventários de maturidade, apresentou-se os dados relativos a sua generalização. Concluiu-se que o modelo teórico explicativo da maturidade vocacional parece ser aplicável a diversas populações que possuem elementos culturais comparáveis aos americanos. Algumas exceções ou cuidados na interpretação de dados se aplicam. Novos estudos devem ser realizados a fim de melhorar as qualidades psicométricas das medidas de maturidade vocacional em alguns outros países e, também, as adaptações de tais instrumentos levando-se em conta a diferenças sócio-econômicas e culturais. Palavras-chave: Desenvolvimento vocacional; maturidade vocacional; Teoria de Donald Super; transcultural. The Transcultural Aspect of Vocational Maturity in Donald Super Theory Abstract Donald Super conceptualized a general theory of developmental vocational and career choice based on four models: 1) the traditional, 2) the developmental, 3) the economic, social and environmental, and 4) the phenomenological. Considering that vocational maturity can be revealed by the constant process of interaction between individuals and their environment, this present work aims to explore the concept of vocational maturity within the transcultural field (the third model). Data were collected through several maturity inventories and results show that Super’s theoretical model of vocational maturity can be generalized to several cultures, in particular to the ones that can be comparable to the American society, although some careful data examination is always needed. Finally, we suggest the need of new studies aiming to improve the psychometric properties of vocational measures in some countries, trying to pinpoint cultural and social differences when they appear. Keywords: Vocational development; vocational maturity; Donald Super’s Theory; transcultural.

Para se poder entender, adequadamente, a noção de maturidade vocacional de Donald Super, é conveniente situá-la dentro do contexto geral de sua teoria da escolha e do desenvolvimento vocacional, permitindo uma melhor precisão no sentido que Super dá a este conceito. Em seguida, apoiando-se em algumas pesquisas empíricas importantes, poder-se-á apreciar em que sentido esta noção é generalizável a diferentes culturas. A Noção de Maturidade Vocacional no Contexto da Teoria de Donald E. Super Partindo do histórico estudo de Buehler (1933) sobre o ciclo vital como um aspecto psicológico, a noção de maturidade vocacional, remete, necessariamente, a um processo de desenvolvimento (Balbinotti & Tétreau, 2002), como todos os outros aspectos da personalidade humana (social, emocional, sexual, intelectual, etc.) com
2 Endereço para correspondência: Av. Unisinos, 950, Núcleo de Orientação Vocacional, 93022 000, São Leopoldo, RS. Fone: (51) 5908127. E-mail: balbinotti@bios.unisinos.br

os quais se associa o termo maturidade. Em 1942, em um volume intitulado The Dinamics of Vocational Adjustment, Super apresentou uma síntese do que se conhecia naquela época sobre a escolha de uma carreira. Naquela ocasião, ele propôs uma concepção de escolha profissional que orientou, conseqüentemente, todos os passos teóricos e empíricos de sua carreira (Super, 1951, 1953, 1955, 1957, 1972, 1980, 1981, 1985a, 1985b, 1990; Super & Kidd, 1979; D. Super, Savickas & C. Super, 1996; D. Super, Sverko & C. Super, 1995). Com efeito, considerando a escolha vocacional como resultado de uma série de decisões pré-vocacionais e vocacionais que podem (ou tendem) durar toda a vida, sua concepção contrastava radicalmente com aquela que havia prevalecido até aquele momento e que se associava com a teoria dos traços e fatores de Parsons (1909). Naquela época (Parsons, 1909), concebia-se a escolha profissional como sendo um comportamento de acontecimento único e estático na vida de um indivíduo, emparelhando as características pessoais e de personalidade de um sujeito às de uma profissão. As concepções teóricas de caráter desenvolvimentista de Super (1942) foram

fornecendo à criança. 1997. então. Farmer. As conclusões de Young e Chen (1999). Riverin-Simard. a comunidade. a tradição.. Levinson & McKee. apóiam a afirmação desses autores. Uma descrição mais detalhada e objetiva destes modelos será apresentada abaixo. os encorajamentos que uma pessoa recebe e as experiências de trabalho que ela conhece. também.) que indicam um processo de desenvolvimento (Buehler. assim como dinâmico no sentido de que ele resulta da interação entre as características do indivíduo e as demandas da cultura. 2 2) O segundo modelo diz respeito à influência dos fatores socioeconômicos. por Tiedeman (Tiedeman & O´Hara. 1995. os hábitos e aspirações que constituem o contexto sócio-psicológico do desenvolvimento de carreira. os ciclos econômicos. Estas. É o modelo tradicional que Holland (1959. geralmente. Super (1969. a sociedade. 1985. o modelo fenomenológico. 1985. relacionado com as concepções teóricas de Parsons (1909). O desenvolvimento é. esta concepção propõe que o desenvolvimento vocacional é um processo contínuo desde a infância até a velhice. e. este comportamento. 1993. McDonald & Richer. Schultz & Henderson. Levinson. 1993. 1998. 1986). São eles: o modelo de perspectiva diferencial. mas a de Super ocupa um lugar de destaque. segundo ele próprio e seus colaboradores (Super. Fukunaga. A natureza precisa destas tarefas e a maneira Psicologia: Reflexão e Crítica.462 Marcos Alencar Abaide Balbinotti resgatadas por Ginzberg. Osipow e Fitzgerald (1996) concluem que a influência da classe social (média ou elevada) é quase sempre positiva sobre o desenvolvimento vocacional. No decorrer deste processo. Tais concepções tornaram-se as principais idéias ou tendências. 1973. 1996. Watkins & Subich. o que torna claro também o fato de tratar-se de um processo psicossocial. Breton. finalmente. Segundo estes autores. 1977. Miller & Weeks. 1984. 1996. 1) O primeiro modelo. 1976. 1998. 1972. Hotchkiss & Borow. 1984. quatro modelos que. pp. entre outras. 1992. compondo as orientações teóricocontemporâneas básicas e de prática em psicologia da escolha e do desenvolvimento profissional. Umemoto & Wicker. Miller & Form. 1985. 1996b. 1978. 1957. 1976. 1963. 1984. Seriam. 1951. a economia. Fouad. Lapointe. 1997. 1990) propôs uma concepção de escolha profissional com base em conceitos (maturidade. e. 1994. 1996a. a automatização. o custo dos estudos. teriam a árdua tarefa de desvendar. 1984. finalmente. Ginsburg. O autor apresenta também. 1997). o grupo de pares. Por exemplo. a possibilidade de adquirir informações e desenvolver habilidades que poderão ter uma importante influência no momento da tomada de decisão profissional por parte dos jovens. Este contexto compreende. Ocupação é um anglicismo freqüentemente utilizado para falar da profissão ou do trabalho. a classe social não influencia somente a disponibilidade dos recursos em relação à escolha e à adaptação profissionais. 1997) representa em sua forma contemporânea e segundo o qual busca-se assegurar o homem certo no lugar certo a partir de uma análise das características do indivíduo e da profissão considerada. 1996). mais recentemente. segundo Super (1957). Brooks. apóia-se numa psicologia diferencial dos indivíduos e das ocupações2. etc. Darrow. estruturadas e aplicadas por diversos autores (Blau. o mercado de trabalho. contrastava com a simples teoria dos traços e fatores (Parsons. Brown. no desenvolvimento das necessidades e dos valores. Herr & Lear. a família contribui. Sverko & Super. 1957). os sindicatos e as organizações profissionais. 1981. não menos importantes (embora ainda pouco divulgadas). o da psicologia das carreiras (Super. valores. concernentes à influência da classe social sobre o desenvolvimento de carreira. Knefelkamp & Slepitza. 1964. 1990. quanto ao número constante e atual de publicações em revistas especializadas. as políticas sociais e as experiências profissionais) sobre o desenvolvimento de carreira (Bergeron. Tiedeman & Miller-Tiedeman. 1990). Lerner & Schulenberg. 2003. o modelo desenvolvimentista. Klein. Roe & Lunneborg. o indivíduo deve cumprir um certo número de tarefas de desenvolvimento. ordenado e previsível. e ainda incluiu outros modelos que. 1933) e que. tecnológicos e ambientais (tais como a família. ao menos em parte. 1984). 1952. juntos. 1995). portanto. Bingham. 1972. um efeito sobre as atitudes. por exemplo. 3) O terceiro modelo. interesses. Axelrad e Herma (1951) – que finalmente limitaram sua descrição do desenvolvimento vocacional do nascimento a adolescência (ou até o início da idade adulta) –. ao menos. Como refere Bujold (1989) e Bujold e Gingras (2001) compilando as informações de Super (1984). a tecnologia e. ao todo. é aquele das abordagens de desenvolvimento. ao qual o nome de Super é mais popularmente associado. 1998. por Vondracek e colaboradores (Vondracek. É claro que diversas outras teorias. 461-473 . a escola. 1996. 1956. tanto no início do exercício de uma ocupação. ainda. 1996c. Roe. Super & cols. uma discussão dos fatores econômicos ligados ao desenvolvimento profissional: a lei da oferta e da procura. Recentemente. o modelo socioeconômico e ambiental. ou ao adolescente. explicariam melhor a complexidade do comportamento vocacional de um indivíduo. quanto nas mudanças e adaptações que poderão se impor no decurso dos anos. têm sido elaboradas. 16(3). pareadas àquela de Holland (1959. são as variáveis que intervêm influenciando a carreira dos indivíduos. mas ela tem. 1909). Havighurst.

. 16(3). que ele é maduro na medida em que ele está pronto para tomar as decisões e para assumir os comportamentos característicos de seu estado de desenvolvimento vital (Super. 2002). já tentaram colocar à prova sua teoria de diversas maneiras. pode-se dizer de um indivíduo. dentro do quadro dos megaciclos (crescimento. estavam estabilizados em um padrão de carreira. 1990. troca-se apenas os títulos dos conceitos. e também de autoconceito – precisamente. progredindo numa carreira. Super & cols. Trata-se de um estudo longitudinal iniciado em 1951 com jovens de 9º ano escolar (entre 14 e 15 anos) e que durou os 25 anos seguintes.. para. 4) O quarto modelo é denominado fenomenológico. 2003. Ele queria. Além disso. p. ele atualiza seu autoconceito. aquela que representa seu estudo de padrões de carreira (Career Pattern Study – CPS). isto é. Super & cols. esclarece-se que o significado é o mesmo. claramente definidos por limites de idade. escolher uma carreira. finalmente. continuar a fazer as atividades que ele sempre amou fazer (manutenção) e reduzir suas horas de trabalho (desengajamento). de uma parte. Para melhor definir a natureza das relações. de outra parte. a maturidade vocacional é definida como a capacidade do indivíduo para enfrentar as tarefas de desenvolvimento com as quais ele é confrontado como conseqüência de seu desenvolvimento social e biológico. sistemas de autoconceitos. Como se pode constatar. precisamente). Este estudo permitiu estabelecer as relações entre a maneira pela qual os sujeitos passavam pelas tarefas de desenvolvimento profissional correspondentes ao estágio de exploração na adolescência (cristalização. não somente as idades de transição são muito flexíveis. de 1985. seus interesses. a lista das tarefas de desenvolvimento. Continua-se. 1990. ele escreveu: “ . Portanto. exploração. o autoconceito. 2001a.. os estados têm uma tendência a se mesclar e não são. pela primeira vez. estados e sub-estados correspondentes. respondendo a questão sobre maturidade vocacional centrando-se principalmente no desenvolvimento profissional dos adolescentes e de jovens adultos. o indivíduo exprime uma idéia do tipo de pessoa que pensa ser. mas sim de adaptabilidade profissional . tal qual o desenvolvimento intelectual (Balbinotti. 2001b. rendimento escolar. sendo esses. ele tentou definir esta noção de uma maneira operacional escrevendo de forma ainda mais detalhada as tarefas de desenvolvimento. 1996). tocar-se-á na noção de adaptabilidade profissional. que esta noção se aplica propriamente ao desenvolvimento profissional do adolescente e do início da idade adulta. seus valores e suas aptidões – tem um papel organizacional maior como guia do comportamento do indivíduo através dos estados e sub-estados do desenvolvimento vocacional. assim como as tarefas do desenvolvimento com as quais eles estavam confrontados e seu nível de preparação para resolvê-las. escolhendo uma profissão. formulando uma preferência vocacional.. estabelecimento. um miniciclo. a mais conhecida é. procurar um lugar apropriado onde se retirar (exploração). 1994). assim como os atributos e comportamentos característicos da Psicologia: Reflexão e Crítica. realizar atividades que ele sempre quis fazer (estabelecimento). é no terceiro modelo desta grande e integradora teoria que se agrega à noção de maturidade vocacional. Como explica Super (1990). o desenvolvimento vocacional não está em relação linear com a idade cronológica (Balbinotti & Tétreau. sem dúvida. Super (1955) inicialmente focalizou esta noção quando escreveu. quando se fala de maturidade vocacional no modelo desenvolvimentista de Super. como pode-se encontrar na Tabela 1. mas. Dentro desta ótica. como é o caso para outros aspectos da personalidade. Mais tarde (Super. manutenção e desengajamento). e mesmo diversos outros pesquisadores. a tarefa da cristalização e o status do indivíduo na etapa do . 461-473 adolescência e da vida adulta. 1996). isto é. Em seus trabalhos mais recentes (Super. 21-30 anos e 30-45 anos em uma profissão). e mais precisamente o autoconceito profissional – que analisa os conjuntos de traços da pessoa diretamente ligados ao seu desenvolvimento profissional. mas cada transição comporta uma reciclagem através de um ou mais estados. quando necessário. 1996) não fala exatamente de maturidade vocacional. ele se atualiza” (Super. portanto. 1963a. 4). 14-18 anos) e o status de seus comportamentos vocacionais no estágio de estabelecimento (estabilização. Com efeito. Esta distinção na conceitualização deve ser feita pela boa razão que. então. por comparação com as predições deste mesmo status a partir das medidas convencionais das características dos sujeitos (inteligência. Segundo Super (1990). no caso dos adultos. no Teachers College da Universidade de Columbia. no estado megacíclico de desengajamento. estabelecer os critérios para descrever e avaliar os estados e os sub-estados do desenvolvimento da carreira de estudantes com diferentes idades e níveis de estudos. Estudos de Verificação Empírica Super e colaboradores..A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 463 pela qual ele as cumpre revela sua maturidade vocacional. até o momento em que a maior parte dos sujeitos (70% deles. Por exemplo. Desta forma. 1963b). assim. nível socioeconômico e autoconceito vocacional). A Tabela 1 apresenta. É conveniente precisar. e das necessidades da sociedade em relação às outras pessoas que alcançam este estado de desenvolvimento. o indivíduo deve pensar em desenvolver novos papéis não ocupacionais (crescimento). pp. Super (Super & cols. sobre as dimensões e medidas da maturidade vocacional.

Eles também estavam mais confiantes. de acordo com a formulação teórica de Super. em 1972. a existência de uma certa progressão em relação àquela que prevalecia no 9º ano escolar. são também mais potentes como preditores de variáveis critérios ao longo de 25 anos (status ocupacional esperado. de exploração e de preparação a tomar as decisões que requerem as necessidades sociais e as circunstâncias). não apresentavam um quadro assim tão claro. Dustin & Miers. em seguida. Os dados subseqüentes sobre a maturidade vocacional destes mesmos meninos. em verdade. etc. por assim dizer. tornar-se consciente das relações entre suas atividades prévocacionais e suas escolhas vocacionais subseqüentes. satisfação ocupacional. rapidamente apareceu a idéia de que seria oportuno para os pesquisadores e os técnicos terem instrumentos válidos de avaliação da maturidade vocacional. respondendo assim a melhores qualidades psicométricas e dando lugar às versões do CDI-A (para jovens adultos) e do Adult Career Concerns Inventory (ACCI) (Super. Este pano de fundo que Super assina. estando agora. Coallier (1992). Com o estudo do CPS. a primeira versão do Career Development Inventory (CDI) (Forrest & Thompson.) e do autoconceito (precisamente duas metadimensões: harmonia e idiossincrasia). em seguida. a utilização combinada de dois tipos de medida melhoram as predições. como a responsabilidade de elaborar planos de ação e utilizar os recursos ambientas disponíveis para exploração. no nível individual. Sendo assim. Ullery & O’Brien. outros autores (Jepsen. 461-473 . durante o ensino secundário. considerar os fatores pessoais e ambientais pertinentes (aptidões. 1960). Entretanto. entre outros importantes resultados. é chamar a atenção dos jovens sobre os processos de decisão que subentendem a escolha da carreira. alguns tinham estagnado e outros tinham perdido terreno. Thompson & Lindeman. no 12º ano de estudos. não somente estar consciente.). podia-se notar uma maior cristalização e uma maior especificação das preferências. se estas modificações tornaram-se mais perceptíveis quanto ao conjunto dos sujeitos. 1979. Mais recentemente ainda. traduzidos ou adaptados com amostras Psicologia: Reflexão e Crítica. Certos meninos tinham feito progressos. permitiram identificar. A Medida da Maturidade Vocacional No entusiasmo dos primeiros resultados do CPS. Ele deverá enfim. no início da adolescência. 1974). certas características e comportamentos têm uma relação com o desenvolvimento de carreira e a atualização de uma preferência profissional 10 anos mais tarde. progresso e satisfação na carreira) do que as medidas convencionais (inteligência. Como não se poderia duvidar. mais especificamente. na validade de seus interesses que tinham se transformado. Ele deveria. mostrar a utilidade das medidas de maturidade vocacional como variáveis independentes para predizer o desenvolvimento vocacional subseqüente. Segundo Super (1963c). no 12º ano escolar. a formulação de uma preferência geral e a constância na sua expressão constituem os principais critérios da cristalização na adolescência. inicialmente. etc. Schenk. Balbinotti (2001) reconfirmou estes resultados.464 Marcos Alencar Abaide Balbinotti estabelecimento profissional. pode faltar constância e uniformidade. status socioeconômico. Concebido para ser utilizado. Teve-se a oportunidade de verificar que estes instrumentos foram. 1973. convém descrever. Estes resultados evidenciaram que no desenvolvimento vocacional. avanço ocupacional. Super (1985b) pode concluir que as medidas de maturidade vocacional. também.. conseqüentemente. notadamente o status ocupacional esperado e o progresso na carreira. já no 9º ano escolar. modificada. 1967). quando estavam mais velhos. notadamente as contingências econômicas podendo influenciar as realizações de seus objetivos vocacionais. mas é conveniente remarcar que. e. 1982. por assim dizer. 1988). e mais simples será sua tarefa de cristalizar sua preferência. este estudo confirmou a hipótese que a expressão de escolhas específicas nesta idade é habitualmente irrealista ou prematura. mas também utilizar os recursos que o permitirão realizar suas atividades de planificação e de exploração de uma carreira. mais comparáveis aos dos adultos. consciente da necessidade de cristalizar uma preferência e de pensar. confirmou esses resultados com uma amostra de adolescentes canadenses. pode se resumir em termos de duas dimensões (planificação e exploração) da maturidade vocacional que os primeiros dados de seu estudo longitudinal. esta primeira versão do CDI foi. Se o estudo do CPS permitiu. isto é. 2003. e que a eminência das escolhas a fazer tinha verdadeiramente influenciado (Perron. no 12º ano escolar (graus de planificação. sucesso escolar. informações dos pais. e que o mais importante. Foi neste furor que se publicou. 1970) sublinharam a pertinência de se servir como variável dependente aos fins de identificar a eficácia de certos métodos de aconselhamento de carreira. dos conselheiros. 16(3). pp. permitiram a Jordaan e Heyde (1979) concluir. mais diferenciado será seu perfil. Seyfarth. com adolescentes. sobre o desenvolvimento dos padrões de carreira com os meninos de 9º ano (Super & Overstreet. os índices de maturidade vocacional. basicamente. recentemente. ao adolescente.. quanto mais preciso for seu conhecimento dos interesses e dos valores. com uma amostra de 5200 adolescentes gaúchos. assim como seu perfil de interesses e de valores. Para chegar lá. o que Super entende como tarefa de cristalização de uma preferência profissional na adolescência. o adolescente deveria verdadeiramente estar.

1980. é conveniente destacar o trabalho de Vondracek. Lewis. à procura de modelos ocupacionais e de autoconceitos. Entre os estudos pioneiros do contexto socioeconômico e cultural com relação à maturidade vocacional. A primeira delas referese às oportunidades de desenvolvimento que eles facilitam ou dificultam. Uma versão brasileira deste último foi assegurada por Lobato (2001). conhecimento do processo de desenvolvimento da carreira. Por outro lado. o Inventário de Desenvolvimento Profissional (IDP). 1983. ela seria generalizável a outras culturas e populações. Savickas e Jones (1996) constataram que o grau de maturidade vocacional é um potente preditor de sucesso. 16(3). Portugal. Super. mesmo Psicologia: Reflexão e Crítica. Em um estudo de sua relação com a percepção de barreiras ao avanço ocupacional com 188 colegiais do Texas. a hipótese já verificada com os adolescentes . exploração (25 itens). No estudo de McCaffrey. Segundo estes autores. a fim de identificar em qual etapa de seu caminho profissional o sujeito se percebe. Kenny (1990) encontrou que a maturidade vocacional tem relação significativa com os valores do trabalho e a estrutura familiar. Perspectiva Transcultural da Noção de Maturidade Vocacional Super (1957. Assim.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 465 de adolescentes e adultos de diversos países (Espanha. Países Baixos. Eles também verificaram que esta variável pode ser mais potente que outras variáveis ligadas ao sucesso escolar. as experiências únicas ou idiossincráticas de suas existências. os itens medem as preocupações com as tarefas de desenvolvimento da carreira segundo os estados e sub-estados que aparecem na Tabela 1. 1990). No que se refere ao estudo de Dykeman (1983). de ambos os sexos. mede claramente as dimensões correlatas ao conceito de maturidade vocacional de Donald Super. Balbinotti e Tétreau (2002) asseguraram as qualidades psicométricas para uso no Brasil. Luzzo (1996) concluiu a ausência de relações significativas (p>0. Mello. Pesquisas Americanas Com o CDI O CDI foi desenvolvido nos Estados Unidos e suas qualidades psicométricas foram verificadas e confirmadas em diversos estudos e com amostras independentes (Dean. 1982. a maturidade vocacional. notadamente a inteligência e o nível socioeconômico. Landro. de ambos os sexos. 1973). Canadá. Lerner e Schulenberg (1986). 461-473 que a teoria de Super tenha sido elaborada a partir de amostras de homens brancos. atitudes em relação à carreira e tomada de decisão (20 itens). Feito este caminho. do qual Dupont e Marceau (1982) demonstraram as qualidades psicométricas através da ajuda de dados colhidos pela aplicação deste em estudantes do ensino médio canadenses. conhecimento do grupo ocupacional preferido. 1978) e ao Questionário de Educação à Carreira (QEC) (Dupont & Gingras. este constatou que três das quatro dimensões do modelo de maturidade vocacional de Super (planificação. Gonzalez (1992) assegurou a tradução e a adaptação na Espanha e. que. com a ajuda de uma amostra de 60 estudantes de nível superior. 1973. Reino Unido e Austrália). foram elaborados para se poder medir certas dimensões da maturidade vocacional. exploração e tomada de decisão) são significativamente correlacionadas a eficiência no trabalho. também foi objeto de estudos e relações com outras variáveis. 1990) sempre considerou que os fatores socioeconômicos e ambientais. que esses fatores podem condicionar este processo de duas formas distintas. Caminho feito. podem influenciar o processo de desenvolvimento de uma carreira. as atividades nas quais as crianças e os jovens adolescentes se engajam. informação sobre o mundo do trabalho (40 itens). 1974. quando inspirados na teoria de Super. e aí se compreende os fatores culturais e de considerações étnico-raciais (precisamente o segundo modelo de sua teoria). África do Sul. da mesma forma que os papéis que eles têm a oportunidade de observar e de se implicar. e escore total de orientação à carreira. 1983. Segundo Fouad e Arbona (1994). Em um estudo longitudinal da relação entre maturidade vocacional e sucesso acadêmico de 111 estudantes de medicina de uma universidade da Califórnia. Ele estima. Refere-se precisamente ao Career Maturity Inventory (CMI) (Crites. tal qual medida pelo CDI. com efeito. 1976. Westbrook & Mastie. Super & Thompson. As pesquisas empíricas repertoriadas neste trabalho sobre as relações da maturidade vocacional com diversas outras variáveis são apresentadas abaixo. França. Miller e Winston (1984). No mais. Estes e outros instrumentos.05). e a segunda. Tilden. exercem uma grande influência sobre os seus desenvolvimentos vocacionais. eles confirmaram. salienta-se que os 110 itens do CDI foram concebidos para avaliar os dois componentes gerais da maturidade vocacional: atitude e cognitivo. pp. por um lado. diversos estudos foram realizados a fim de verificar se a teoria de Super é realmente válida quando se considera tais fatores. A Tabela 2 apresenta um resumo dos coeficientes de consistência interna (Alpha de Cronbach ou Fórmula KR-20) obtidos por diversos instrumentos de medida da maturidade vocacional e da adaptabilidade profissional (nos adultos). 1977. 2003. Áustria. a qualidade das relações interpessoais de seus contextos social e familiar. Super & Zelkowitz. 1979. Kuhlman-Harrison & Neely. nos Estados Unidos. Ele permite calcular oito escores por meio de quatro escalas e da combinação destas: planificação (25 itens). Quanto ao ACCI. por outro lado.

Diversos autores (Halpin. Com o ACCI Como no caso do CDI.) verificaram e confirmaram suas qualidades psicométricas e outros (Halpin. pp. 1985). 1987. como a menor importância acordada pelos asiáticos no que se refere ao valor do individualismo. isto é. Walsh. 1982). no mínimo. na Espanha (Moreno. A ordem destas progressões permanece. 1990. Stead & Jager. 461-473 . 1979) que. assim como Leong (1993. Ralph & Halpin. na África do Sul (Watson. 1981). processo evolutivo. Neste sentido. podem tornar ainda mais complexas suas progressões através dos diferentes sub-estados de desenvolvimento profissional. 1995b. Kelly e Cobb (1991) não encontraram diferenças significativas nos graus de maturidade profissional de adolescentes superdotados de origem africana e caucasiana. hispânicos e de tradição indígena. 16(3). No Canadá. Leong e Brown (1995) e Leong e Hartung (1997) o fazem remarcar comparando a maturidade vocacional de estudantes caucasianos e asiáticos. 1984) onde os resultados não puderam permitir conclusões positivas quanto a sua utilização na população adolescente. Outros estudos apresentaram resultados similares. 1988. sujeitos de origem africana geralmente obtêm escores menos elevados de maturidade vocacional que os caucasianos (Fouad & Kelly. Por outro lado. a partir de duas amostras independentes de adolescentes sul-brasileiros com a ajuda do QEC. A propósito dos estudos transculturais no interior dos Estados Unidos. Super. Ralph (1986) e Ralph (1987) afirmam que este instrumento foi utilizado em alguns estudos em relação a outros instrumentos a fim de se verificar a validade conceitual. 1995a. Scheeffer & Fernandes. Ele Psicologia: Reflexão e Crítica. seus resultados sugeriram que os homens que manifestavam pouca adaptabilidade profissional experimentavam um nível mais elevado de stress ocupacional. Ralph & Halpin. asiáticos. Savickas. africanos. Smallman e Sowa (1996) examinaram as respostas ao CDI de 125 estudantes (atletas de diversos esportes) de origens culturais diversas: caucasianos. os resultados destes mesmos estudos confirmam a hipótese de Super. Entretanto. Na medida que o fato de pertencer mais a um gênero (masculino ou feminino) pode ser concebida em termos de diferenças culturais. na Austrália (Punch & Sheridan. o nível de maturidade vocacional aumenta em função do de estudos. Dados semelhantes a estes foram encontrados no estudo de Balbinotti (2001) e Balbinotti e Tétreau (2002). se fatores culturais.466 Marcos Alencar Abaide Balbinotti no estudo do CPS (Jordaan e Heyde. 1991). não parecem ter tido continência no caso do Brasil (Fernandes & Scheeffer. contudo. 1982). Super. Young (1984) examinou a relação entre as aspirações ocupacionais e a maturidade vocacional de uma amostra de 590 adolescentes de seis escolas rurais. 1992. Osborne. 1986. Dupont & Huter. Ainda. os quais foram favoráveis. 1990) sublinharam a pertinência de sua utilização no plano prático. similar entre os dois grupos. Passen & Jarjoura. Westbrook & Sanford. Niles e Anderson (1993) buscaram verificar a relação entre o stress e a adaptabilidade profissional utilizando uma amostra de 110 clientes onde 76 eram mulheres.). Dito de outra forma. Ralph (1987) o administrou em 109 sujeitos adultos e seus resultados mostraram que a adaptabilidade profissional está em correlação positiva e significativa com a autoconfiança. o ACCI foi elaborado nos EUA. em Portugal (Ferreira & Caeiro. na Suíça (Descombes. Entretanto. 1985) e na Inglaterra (Ward. Henry. Frischknecht. 1992. os sujeitos de origem caucasiana demonstraram um nível significativamente mais elevado de conhecimento das ocupações preferidas em relação às outras culturas. Mais recentemente Booth (1994) reexaminou a estrutura fatorial do ACCI lançando mão de equações estruturais (confirmatory factor analisis) e chegou a conclusão que se trata de uma medida também aplicável a pessoas deficientes. 1995). No mais. aceitável. os resultados obtidos nestes estudos. 1986. Whiston. As estruturas fatoriais obtidas através de análises multidimensionais demonstraram a necessidade da retirada de diversos itens para que o instrumento pudesse conservar uma estrutura. estes mesmos autores observaram uma diferença significativa entre os superdotados (de qualquer origem) e os “normais”. precisamente aquela da sucessão ordenada dos estados e das tarefas de desenvolvimento associadas. 1984) e nos Países Baixos (Helbing. podem diminuir o estabelecimento de seus autoconceitos e. na Áustria (Seifert & Eder. por um lado. 1987). pode ser interessante notar que Thomason e Winer (1994) corroboraram os resultados de Super (1985a) no sentido que as meninas obtiveram escores de maturidade vocacional mais elevados que aqueles dos meninos. Pesquisas em Outros Países Com o CDI Versões adaptadas e normatizadas deste inventário foram utilizadas com sucesso em outros países. Brown & Niles. Desta forma. Sem dúvida um achado favorável à compreensão multicultural da noção de maturidade enquanto processo de desenvolvimento. 1977). Os resultados não apresentaram nenhuma diferença significativa quanto ao fator atitude (planificação e exploração). 1989. Bardo e Henry (1992) obtiveram resultados que sugerem que a média das respostas dos afro-americanos de sua amostra era mais baixa que aquela dos caucasianos. 1983. McCloskey. Mahoney. notadamente no Canadá (Dupont & Marceau. de maneira geral e não necessariamente linear. 2003. como sublinham Fouad e Arbona (1994). por outro lado.

Antes de qualquer interpretação precipitada. revelando assim uma maior capacidade na execução de compromissos entre a realidade e suas próprias necessidades. 1992b) e na França (n=1414) (Gelpe.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 467 encontrou que. seis anos mais tarde. brancos e pretos. ou ainda com adultos trabalhadores (n=457) na Austrália (Smart & Peterson. Os resultados demonstraram que não existem diferenças significativas entre a maturidade e o gênero. o tempo necessário para atingir o sucesso pode variar segundo a cultura e os inventários de maturidade podem não estar ainda adaptados a estas diferenças. os estudantes israelenses obtiveram escores de maturidade vocacional significativamente menos elevados que aqueles obtidos por estudantes americanos. Bullington e Arbona (1991) corroboram os avanços teóricos de Super observando que estes quatro estudantes estavam implicados nas tarefas exploratórias de planificação e exploração. os adolescentes que aspiravam ter sucesso em ocupações inovadoras manifestavam um grau de maturidade significativamente mais elevado. Os resultados mostraram que os escores elevados de maturidade vocacional estavam significativamente associados às preocupações quanto ao objeto de escolha de carreira e ao sentimento de confiança de poder realizar seu projeto profissional. Seifert (1985) administrou a versão austríaca do CDI em uma amostra de 641 adolescentes de oitavo e nono anos escolares. 1995). verificou que os primeiros tiveram escores mais elevados que os segundos. Gingras (1991) utilizou o QEC. portanto. com uma amostra de 264 estudantes universitários. quando estes jovens eram comparados aos grupos de adolescentes que tinham escolhido ocupações tradicionais. Desta forma. aumentando. de nono e décimo segundo ano de estudo. no México (utilizando entrevistas semiestruturadas em uma pesquisa de caráter qualitativo). com 537 estudantes israelenses dos mesmos níveis. no Canadá (n=1554) (Dupont. 2003. manutenção e desengajamento). a sociedade sul-africana em geral. A autora conclui que as tarefas do desenvolvimento de estudantes em diferentes culturas são similares. estabelecimento. Conforme sua opinião. Os índices obtidos a partir de cálculos de consistência interna são também satisfatórios. 461-473 estruturas social. Contrariamente a este último resultado. final do ensino médio. 1997) confirmaram a presença dos quatro fatores constitutivos de sua estrutura fatorial da versão original (exploração. Em um outro estudo. de acordo com seus estados de vida e. Gonzalez (1992). Entretanto. Ela observou que os estudantes tinham se comprometido muito pouco em suas atividades de planificação e de exploração de uma possível carreira futura. podendo se tirar as mesmas conclusões. Gingras & Tetreau. 1994). Moracco (1976). Fouad (1988) comparou a maturidade vocacional de 875 estudantes americanos de nível médio. Entretanto. Um outro estudo foi realizado com quatro estudantes de escola média. de nono e décimo segundo ano escolar. a versão Espanhola do QEC. na Espanha. Seifert (1991) explorou a relação entre a maturidade vocacional e os comportamentos associados às escolhas vocacionais de 1336 estudantes do 110 e 120 anos de estudos. naquele país. a fim de verificar a relação do gênero e da cultura com a maturidade vocacional. não aproveitando grande parte das fontes de ajuda e informações que estavam propostas neste instrumento. quanto a seus projetos de carreira. em Portugal (n=881) (Duarte. de acordo com a sistematização teórica de Super. esta diferença seria atribuível a fatores culturais. é ainda objeto de muita discriminação tanto na estrutura política quanto nas Psicologia: Reflexão e Crítica. os autores sugerem prudência quanto às possíveis conclusões que podem ser interpretadas a partir destes resultados. obteve resultados similares com a ajuda de uma amostra de 2997 adolescentes emparelhados com o CEC. os estudantes brancos obtiveram escores de maturidade significativamente mais elevados que os estudantes negros. 16(3). o nível desta informação. Neste estudo. os israelenses se mostraram mais decididos. Watson e colaboradores (1995) realizaram um estudo na África do Sul. Considerando a elaboração de uma estratégia de avaliação de necessidade de educação a carreira de 1022 estudantes canadenses franceses de ambos os sexos e todos do último ano do ensino médio no Quebéc. O ACCI é um instrumento ainda relativamente novo de sorte que ele ainda não foi extensivamente utilizado pelos práticos. em última análise. tais variáveis podem constituir um viés importante tanto em termos de medida quanto de interpretação desses resultados. Contudo. os autores sublinham a necessidade de um aprofundamento maior e salientam que os estudantes negros de sua amostra habitavam em um bairro que sofreu muitos problemas de instabilidade política e social. 1992a. pp. Com o ACCI Os resultados das análises fatoriais do ACCI ou de suas traduções adaptadas com adultos desempregados ou em formação profissional. De modo geral. no Líbano. Na Áustria. . Os resultados demonstraram diferenças significativas entre as duas culturas assim como entre o sexo e o nível de estudos (entre os israelenses). Os resultados sugerem que estes adolescentes manifestaram pouca maturidade vocacional e que os conselheiros e psicólogos escolares deveriam facilitar as informações vocacionais destes jovens. Comparando estudantes americanos e árabes. nesta amostra. econômica e escolar. Assim.

no Brasil. com sujeitos que habitam em bairros mais ou menos favorecidos. o conceito de maturidade vocacional e sua relação com outras variáveis tais como o sucesso escolar. em diferentes países e/ou culturas. A noção de maturidade vocacional se revela através da passagem deste processo. Uma questão que se pode levantar é se o modelo é generalizável a uma ou outra amostra em particular. ou ainda se eles pertencem a um ou outro grupo étnico. mais rapidamente. o modelo feno– menológico. de diferenças de nível socioeconômico e de valores associados a elas. por oposição ao caso de um estudante de graduação em psicologia que se pergunta se ele será admitido em estudos de pósgraduação ou se ele deverá remeter em questão sua orientação nesta via e recomeçar a explorar uma outra abordagem diferente da psicologia. Com este propósito. acesso ao mercado de trabalho eles se estabilizarão também mais rapidamente em um padrão de carreira. QEC. Encontrou-se então. Diversos instrumentos. 16(3). de maneira exaustiva. pode-se perguntar. investiram em várias pesquisas empíricas a fim de explorar. no qual a noção de maturidade vocacional tinha um papel organizacional de destaque. sublinhando as tarefas inerentes ao desenvolvimento vocacional. mas conexos: o modelo tradicional. em grande parte. Pois. medido pelo ACCI. diferenças relativamente importantes são observadas segundo as amostras utilizadas. uma teoria geral da escolha e do desenvolvimento vocacional. ainda no século passado. Podese então formular a hipótese de que os indivíduos com um nível socioeconômico alto obterão médias significativamente mais elevadas no estado do Estabelecimento. O presente trabalho objetivou não somente a compreensão e a apresentação do conceito de maturidade vocacional. e planeja fazer carreira nesta profissão na qual ele se estabelecerá relativamente cedo. foram criados (CDI. de acordo com o tipo de trabalho e a carreira a que está associada (estabelece-se muito cedo em uma profissão de atleta profissional. Por exemplo. sabe-se que os indivíduos desfavorecidos no nível socioeconômico podem valorizar mais dificilmente as gratificações diversas (não em dinheiro) de uma forma diferenciada dos indivíduos de nível socioeconômico mais elevado. notadamente. as quatro grandes etapas (os megacíclos) no que concerne o ACCI e os dois fatores (atitude e cognitivo) no que concerne o CDI. com sujeitos pertencentes a uma maioria branca ou uma minoria visível. e relativamente tarde naquela de juiz). isto é. as aspirações e os interesses profissionais. Pode-se pensar. 1985b) conduziu um estudo longitudinal. entre outras. pp. CMI. Esta noção foi recentemente definida (Super & cols. o processo ordenado de desenvolvimento vocacional seria então. Super engajou-se a sistematizar. antes de tudo. Pode-se supor que as médias das amostras vão provavelmente ser diferentes segundo o nível socioeconômico.468 Marcos Alencar Abaide Balbinotti Conclusão Depois do início dos anos 1940. Depois desta pesquisa fundamental e pioneira. Esta teoria é estruturada em quatro modelos distintos. o modelo das abordagens desenvolvimentistas e. se não se trata. Psicologia: Reflexão e Crítica. por exemplo. ACCI). por Japur (1988) e Japur e Jacquemin (1989). e com relação à real possibilidade ou não de trabalhar. 1996) como a capacidade do indivíduo tomar decisões e assumir os comportamentos característicos de seu estado (ver Tabela 1). Observa-se (ver Tabela 2) também que os coeficientes de consistência interna são muito similares (geralmente elevados ou muito elevados) entre um país e outro. do que aqueles de nível socioeconômico mais baixo. o CPS. inspirados a partir da teoria do desenvolvimento vocacional de Super. mais especificamente. Dentro de uma ótica que privilegia a compreensão pormenorizada desta dinâmica de desenvolvimento. No que se refere às pesquisas trans-culturais com o CDI e o ACCI. sistematicamente. A única exceção seriam os dados obtidos com o CMI. tendo tido. se elas são constituídas de homens ou de mulheres. pode-se concluir que a estrutura fatorial destes instrumentos pode ser encontrada. O modelo parece então generalizável a diversas populações que possuem um mínimo de elementos culturais comparáveis aos americanos e. Super (1985a. Parece importante considerar todos estes aspectos no momento de interpretar os resultados originários dos levantamentos de dados sobre maturidade vocacional. Assim. diversos autores. IDP. o modelo dos fatores socioeconômicos e ambientais. os valores do trabalho. mais geralmente. Considerando as diferenças segundo o pertencimento racial ou étnico. ao menos para os países estudados. no caso de um jovem que se torna policial na idade de 18-19 ou 20 anos. de sujeitos com mais ou menos idade. 461-473 . generalizável no plano universal. 2003.. essencialmente. o terceiro modelo que aborda a dinâmica desenvolvimentista do cumprimento de etapas ordenadas e previsíveis durante toda a vida do indivíduo. conforme a importância acordada ao trabalho e ao seu papel na vida do indivíduo. Entretanto. na maioria de suas versões traduzidas e/ou adaptadas em diversos países. finalmente. concluindo. ao mundo ocidental. explorou-se. mas igualmente sua gestão no plano transcultural.

atualizar-se e inovar. pp.32 – – – – – – – – – – – – – 0.Desaceleração.Sub-estado de adaptação a um novo self e ao processo de aposentadoria Tarefas de desenvolvimento .Sub-estado de tentativas (pouco engajamento) Estabelecimento (21-45 anos) .93 0.36 0.Sub-estado fantasista e de curiosidade .76 0.65 0.90 0.67 Psicologia: Reflexão e Crítica.94 0.95 0.Sub-estado do desenvolvimento dos interesses e das aptidões Exploração (14-25 anos) .77 0.Aprendizagem das técnicas gerais de adaptação e de formação de um autoconceito vocacional.71 0.93 0.73 0. 461-473 . 2003.88 0.Sub-estado provisório .61 0.95 0.A Noção Transcultural de Maturidade Vocacional na Teoria de Donald Super 469 Tabela 1 Relação dos Estados e Sub-estados do Ciclo Vital com as Tarefas de Desenvolvimento Estados e sub-estados Crescimento (0-14 anos) .Cristalização de uma preferência.Estabilização em uma profissão.95 0.Manter posição. Considerando os Diversos Países Países Canadá Canadá Canadá Estados Unidos Estados Unidos Estados Unidos Estados Unidos França Espanha Portugal Brasil Brasil Brasil Instrumentos QEC IDP IPC CMI CDI CDI-A ACCI IPP CEC ACCI QEC IDP CMI Alpha 0.64 0. .97 0. .83 0. . 16(3).Sub-estado de avanço Manutenção (40-65 anos) .93 0. . . .Sub-estado de tentativa e estabelecimento .92 0.Sub-estado de adaptação e preservação do autoconceito Desengajamento (65 anos e mais) .Atualização de uma preferência.Consolidação do status e avanço.81 0.91 0. planificação da aposentadoria e da vida de aposentado.66 0. .Especificação de uma preferência.Sub-estado de transição . Tabela 2 Consistência Interna de alguns Instrumentos de Medida da Maturidade Vocacional e da Adaptabilidade Profissional.91 0.

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