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OS DESAFIOS DA EJA NA CONCEPÇÃO DE PAULO FREIRE.

1

INTRODUÇÃO

CARMEN DE ALMEIDA MARTINS CRISTIANE APARECIDA ROCHA MÁRCIA APARECIDA RODRIGUES SILVA

A educação de jovens e adultos (EJA) é a modalidade de ensino nas etapas dos ensinos fundamental e médio da rede escolar pública brasileira e adotada por algumas redes particulares que recebe os jovens e adultos que não completaram os anos da educação básica em idade apropriada por qualquer motivo (entre os quais é frequente a menção da necessidade de trabalho e participação na renda familiar desde a infância). No início dos anos 90, o segmento da EJA passou a incluir também as classes de alfabetização inicial (Portal do MEC). Paulo Reglus Neves Freire foi um educador e filósofo brasileiro, patrono da Educação Brasileira considerado um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento da pedagogia crítica. A sua prática didática fundamentava-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática dialética com a realidade, em contraposição à por ele denominada educação bancária, tecnicista e alienante: o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes, o educando seguiria e criaria o rumo do seu aprendizado. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política. Falar em Paulo Freire nas décadas de 70 e 80, junto a grupos de Educação de Adultos, era sinônimo de estar engajado em um trabalho de jovens e adultos não escolarizados visando à transformação da realidade daqueles que socialmente se encontravam marginalizados de uma sociedade letrada e, na maioria dos casos, vivendo um processo de exclusão social. Apesar do golpe militar de 1964 e de seu exílio, Paulo Freire continuou sua luta por uma educação libertadora nas suas andanças pelo mundo e, no Brasil, nas décadas de 1960 a 1980, os movimentos populares e inúmeros militantes continuam seus trabalhos de alfabetização de adultos na clandestinidade. Momentos extremamente duros, mas que foram muito alimentados pelo ideário e pelas experiências do grande educador, que mesmo longe não deixava de contribuir para a resistência de um trabalho político-social-educativo em um mundo que precisava ser transformado e humanizado.

Em Educação de Jovens e Adultos, a figura do professor Paulo Freire representava para muitos, e principalmente para aqueles que se constituíram em grupos de resistência às práticas educativas calcadas no ideário do Mobral, a possibilidade da definição de uma política que incorporasse a importância da educação de jovens e adultos na transformação social da cidade e não somente uma educação visando o processo produtivo da Nação. Falar em Educação de Jovens e Adultos no Brasil é falar sobre algo muito pouco conhecido; ao se falar, o debate se concentra na situação de miséria social, das precárias condições de vida da maioria da população e nos resultados do sistema público regular de ensino, não existindo uma discussão consistente sobre qual educação é necessária a esse segmento excluído do sistema escolar. Via de regra, qualquer educação oferecida a eles já é considerada um dado significativo, usando-se a lógica que, aos pobres, qualquer “educação” basta, principalmente dirigindo-se a adultos que “pouca possibilidade de aprendizado apresentam”. Este trabalho foi elaborado no âmbito da disciplina EDU 263 Fundamentos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) por alunas, autoras deste artigo, do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), visando ampliar os conhecimentos a respeito dessa modalidade de ensino no que tange as concepções do educador Paulo Freire. Além de atender as finalidades da disciplina objetivamos neste texto abordar as principais ideias e concepções de Paulo Freire sobre a Educação de Jovens e Adultos e suas implicações no trabalho dessa modalidade de ensino.

2 METODOLOGIA

A abordagem deste trabalho é de natureza qualitativa, pautando-se na revisão bibliográfica de obras de Paulo Freire e de outros autores, como Carlos Brandão e Vera Barreto, que discorrem sobre as concepções de Paulo Freire e suas implicações na EJA. Reunimos e apresentamos as principais ideias e concepções abordadas pelo autor de forma a mostrar sua influência significativa no ensino e na aprendizagem de jovens e adultos.

3 RESULTADOS

As seguintes discussões foram baseadas e retiradas da obra de Barreto (2004). O pensamento de Paulo nasce de uma visão de ser humano e de mundo. Para ele a pessoa deve ser vista como: um ser de relação, no qual ninguém está só no mundo. Cada um de nós é um ser no mundo e com o mundo; um ser em busca de sua "completude", no qual a ação dos seres humanos sobre o mundo não só muda o mundo, muda também os sujeitos desta ação. Ao construir o mundo, homens e mulheres se completam se humanizam; um ser capaz de transcender. Na visão de Freire, o ser humano é também um ser religioso, no sentido de que se liga a seu Criador numa relação libertadora; e, por fim, o sujeito da sua história, em que "o homem existe no tempo. Está dentro. Está fora. Herda. Incorpora. Modifica. Porque não está preso a um tempo reduzido a um hoje permanente."

Humanização e desumanização

A vocação de ser mais humano, comum a todos homens e mulheres, se realiza pela Educação. Nessas relações, os poderosos viam os outros como objetos necessários para a satisfação de seus interesses. Tomaram-se opressores da maioria impondo-lhe sacrifícios e restrições para aumentar seus próprios privilégios Esta estrutura social de dominação desumanizou os oprimidos, pois os transformou em objetos, negando-lhes a condição de sujeitos que lhes é própria. Todavia, só os oprimidos poderão romper esta estrutura que desumaniza opressores e oprimidos. Só eles poderão acabar com esta ordem injusta buscando romper a opressão e reconquistando a sua liberdade de ser mais

O sentido da educação

Para Paulo Freire a Educação decorre do fato de as pessoas serem incompletas e estarem em relação com o mundo e com as outras pessoas. São incompletas desde que nascem, quando é mais fácil perceber isto. Os seres humanos não ficarão totalmente completos na infância, juventude, maturidade ou velhice, passam a vida toda modificando-se na busca de completar- se como pessoas, realizando, como diz Paulo Freire, a sua vocação de "ser mais" humano. É na relação que mantêm entre si e com o mundo que os seres humanos, sem deixar de ser sujeitos, vão se completando e ajudando os outros a se completarem. É célebre a frase de Paulo que afirma: "Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa sozinho".

A educação é um ato de conhecimento

Para Paulo Freire a educação nada mais é do que uma Teoria do Conhecimento posta em prática. Na visão de Paulo Freire, o Conhecimento é produto das relações dos seres humanos entre si e com o mundo. Nestas relações, homens e mulheres são desafiados a encontrar soluções para situações para as quais é preciso dar respostas adequadas. O Conhecimento nasce da ação. É agindo que homens e mulheres se confrontam com

a necessidade de aprender e constroem Conhecimento. Portanto, sendo próprio dos seres humanos agir no mundo, todas as pessoas têm Conhecimentos, ninguém é vazio dele.

A educação é sempre política

De acordo com Paulo Freire, numa sociedade em que convivem segmentos da população com interesses opostos e contr aditórios, é impossível a existência de uma única educação que sirva, da mesma maneira, a todos estes grupos sociais. Ela estará sempre a favor de alguém e, por consequência, contra alguém. Numa sociedade de classes não é possível um tipo de educação que seja a favor de todos. Mas, ao afirmar que toda educação é política, Paulo Freire fazia absoluta questão de dizer que ela não é partidária. Partidos políticos são organizações transitórias com propostas

particulares para solução de problemas específicos. Reduzir a educação aos limites partidários seria empobrecê-la, não atendendo ao objetivo de "ser mais" que os seres humanos buscam ao se educarem. A educação ou será conservadora ou transformadora, dessa forma podemos ver no quadro a seguir uma comparação entre os métodos de alfabetização tradicional (Conservadora)

e de Paulo Freire (Transformadora).

Educação

Conservadora

Transformadora

Quem

Educandos vistos como pessoas isoladas e como "recipientes a serem enchidos".

Educandos ativos construtores de seu objeto de conhecimento.

educar?

Pra que

Adaptar o indivíduo ao sistema vigente: a Pessoa se submete a História.

Desenvolver a pessoa crítica em relação ao sistema vigente, a pessoa faz a História.

educar?

O que

Sistema de conhecimentos já organizado: "pacotes prontos"

Sistema de conhecimentos por construir e organizar: "sob medida"

ensinar?

Como

Por uma transferência de conhecimentos. Recursos: repetição e memorização.

Pela descoberta dos conhecimentos e de suas funções, Recursos: observação, análise, síntese.

ensinar?

Fonte: BARRETO, 2004.

A educação se faz através do diálogo

Paulo percebia o quanto o modelo autoritário dificultava a produção do conhecimento, sendo, portanto, um empecilho para o processo educativo. "A educação autêntica não se faz de A para B sobre A, mas de A com B, mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele." Na visao de Paulo, o diálogo mais que um instrumento de educador é uma exigência da natureza humana. Assim sendo, "o papel do educador não é propriamente falar ao educando, sobre sua visão de mundo ou lhe impor esta visão, mas dialogar com ele sobre a sua visão e a dele. Sua tarefa não é problematizar a realidade concreta do educando, problematizarao-se ao mesmo tempo".

3.2 Saberes Necessários à Prática Educativa

Em seu livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire (2011a) coloca alguns conceitos necessários à prática de um educador. Ele afirma, por exemplo, que “não há docência sem deiscência”, ou seja, quem forma se forma e re-forma ao formar, e quem é formado forma-se. Outros conceitos também necessários ao educador na prática da educação de adultos podem ser listados como:

“Ensinar exige respeito aos saberes educando”, o professor deve aproveitar a realidade de alguns alunos e discutir isto nas escolas, desenvolver uma solução e orienta-los. “Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática”, o educando desenvolve o pensar certo em comunhão com o educador, tomando de consciência sobre os fatos que envolvem a prática. “Ensinar não é transmitir conhecimento”, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.

“Ensinar exige apreensão da realidade”, aprender é uma aventura criadora, muito mais rica do que meramente repetir a lição dada. Toda prática educativa requer a existência do sujeito. Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível”, nós tornamos capazes de intervir na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela. Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo”, a educação não é, não pode e jamais será neutra. Somos determinados por condicionamentos, genéticos, culturais, sociais e históricos de classes que nos marcam. “Ensinar exige disponibilidade para o diálogodialogar é antes de qualquer coisa, permitir ao outro ser, se expressar e acontecer, a abertura deve ser vivida, tornando-se assim possibilidade de diálogo. Outro saber necessário à pratica educativa, e que se funda no inacabado, e que fala do respeito devido à autonomia do ser do educado: jovem, criança, adulto é a prática de que Ensinar exige respeito a autonomia do ser do educando”. O inacabado de que nos tornamos conscientes nos fez éticos, diz Freire. A afetividade como respeito à autonomia e à dignidade emerge de uma exigência radical construída no relacionamento com o aluno, no encontro com o educando.

3.3 O Método Paulo Freire As botinas para o caminhar

“Caminhante, não há caminho,

Antônio Machado Poesia: Caminhante

Se faz o caminho ao andar

O Método Paulo Freire, é diferenciado do método de alfabetização tradicional, pois além de mediar a ação do educador no processo de ensino aprendizagem, auxilia o educando na construção crítica do seu caminhar. Neste artigo não temos a intenção de explicar detalhadamente o Método Paulo Freire e sim trazer as principais proposições ideológicas a respeito de seu método e de como fazer uma educação de adultos crítica-reflexiva trazendo a tona a conscientização do analfabeto adulto. Freire, segundo Mayo (2004), coloca em seus trabalhos uma visão de sociedade baseada nas relações de poder e dominação sendo que os dominantes (opressores) possuem meios ideológicos que os permitem exercer o seu controle sobre aqueles a quem dominam, os oprimidos. Um desses meios é a educação tradicional dominante, caracterizada por Freire como

“educação bancária” que constitui um modo não reflexivo de aprendizagem sendo o professor

o transmissor exclusivo do conhecimento e o aluno seu receptáculo. Dessa forma o ensino

passa a ser um processo de alienação cultural que torna o aluno vulnerável à imposição das ideias da cultura dominante e da cultura exterior, como forma de disseminar o processo do

imperialismo cultural. Para Freire a atividade dos homens consiste em ação e reflexão (práxis)

e esta ação é transformadora do mundo. Todo esse processo é denominado para Freire como

conscientização. A luta contra o poder dominante mostra o comprometimento do educador com a educação. Esse compromisso é uma convicção para Freire que de que a transformação social é possível, tornando seu trabalho estabelecedor de bases para uma teoria da educação de adultos

diferenciada (MAYO, 2004) afinal, Paulo Freire disse: Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo. Freire considera a educação de adultos como uma fonte importante de protagonismo e compreende que os educadores devem ser educadores democráticos que promovem a

aprendizagem através do diálogo o que torna os aprendizes participantes ativos no processo de aprendizagem, tornando-os sujeitos da aprendizagem e para isso a cultura do aprendiz torna-se

a base do processo de aprendizagem. Isso possibilita o educando ver o mundo sob uma luz diferente e mais crítica.

Fase preparatória

A práxis, segundo Freire (2011b, p.53) é a reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo, sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimidos. Dessa forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela. Para a realização deste método de alfabetização inicialmente é preciso realizar um trabalho de preparação que compreendido em 5 etapas:

1º. Levantamento do universo vocabular dos grupos com que se ia trabalhar. Advindo de sua realidade, obtendo as palavras mais significativas.

2º. Seleção das palavras geradoras do universo vocabular pesquisado. Uma palavra é geradora quando possibilita um processo de conhecimento, quando constitui um estímulo intelectual e afetivo. Usadas no Círculo de Cultura, deveriam ser fonte de motivação porque lembravam situações existenciais da realidade e da própria vida dos alfabetizandos. Para esta seleção havia três critérios:

riqueza fonéticaas palavras deveriam conter todos os fonemas da língua portuguesa;

dificuldades fonéticasas palavras escolhidas deveriam responder às dificuldades fonéticas da língua, colocadas numa sequência gradativa;

aspecto pragmático da palavraas palavras deveriam possuir forte entrosamento com a realidade social, política e cultural.

3º. Criação de situações existenciais do grupo, que abrem possibilidade de análise das questões pessoais, regionais, nacionais. Essas são “situações-problemas codificadas que guardam em si informações que serão descodificadas pelo grupo com a colaboração do educador.”

4º. Elaboração de fichas- roteiros. É importante elaborar “roteiros” para ajudar o educador. Neles havia indicações de possíveis subtemas ligados às palavras geradoras e sugestões de encaminhamentos para a análise dos temas selecionados.

5º. Confecção das fichas com as famílias silábicas das palavras geradoras.

1-

a palavra sozinha:

2-

a palavra separada em sílabas:

3-

as famílias fonéticas, uma a uma:

4-

quadro com o conjunto das famílias trabalhadas: a ficha da descoberta

Fonte: Adaptado de BARRETO, 2004.

Fichas de Cultura

Com intuito de desmistificar a ideia de que só os letrados produzem e são portadores de cultura, Paulo Freire criou as Fichas de Cultura que representam em imagens o conceito de Cultura. Tais Fichas eram o elemento detonador do processo de análise da realidade, durante o qual o educador questionava e estimulava o diálogo a partir da própria experiência dos educandos (BARRETO, 2004). Elas eram elaboradas seguindo os seguintes temas:

1ª ficha Os Seres Humanos no Mundo e com o Mundo. Natureza e Cultura 2ª ficha A Transformação da Natureza pelas Mulheres e Homens 3ª, 4ª e 5ª fichas A Historicidade da Cultura 6ª ficha O Trabalho como Elemento da Transformação da Natureza 7ª ficha A Arte e a Beleza como Elementos Culturais 8ª ficha A Literatura como Elemento Cultural 9ª Os Padrões de Comportamento como Produção Cultural 10ª ficha O Círculo de Cultura: um Momento de Produção Cultural

Após o preparo dos materiais a alfabetização seguia os seguintes passos, compondo o

Círculo de Cultura:

1º. Apresentação e discussão das fichas de cultura

2º. Apresentação da situação relativa a palavra geradora

3º. Apresentação da palavra na situação temática

4º. Apresentação a palavra divida em silabas

5º. Apresentação das famílias silábicas que compõem a palavra geradora

6º. Apresentação da “ficha da descoberta”

4 CONCLUSÕES

Apos o levantamento bibliográfico realizado concluímos que Paulo Freire trouxe para a

Educação de Adultos um novo método de ensino e aprendizagem baseado na prática dialógica.

Tal prática leva o educando a refletir sua realidade compreendendo-a trazendo-lhe assim uma

conscientização de sua relação com o mundo.

5 REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO

BARRETO, V. Paulo Freire para educadores. São Paulo: Arte e Ciência, 1998.

BRANDÃO, C. R. O que é o Método Paulo Freire. São Paulo: Brasiliense, 2004.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011a.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011b.

MAYO, P. Paulo Freire e a educação de adultos. In.: MAYO, Peter. Gramsci, Freire e a

educação de adultos: possibilidades para uma ação transformadora. Porto Alegre: Artmed,

2004.

Site Consultado: http://portal.mec.gov.br/