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O ESOTERISMO NA ARTE PORTUGUESA

As palavras "esoterismo" e "exoterismo", que por vezes confundem os leitores


menos prevenidos, designam uma oposição relativa entre o que, de uma forma
geral, é entendido por toda a gente e aquilo que, de algum modo, exige uma
"iniciação" por se tratar de assuntos especializados ou por
existir uma vontade de ocultação de que podem ser exemplos
os viáriosalões (nos "profissionais" que querem guardar os segredos
da profissão) ou, num outro extremo do "espectro" de ocultação, no
meio dos ladrões "profissionais" e outros fora-da-lei. Mas, no
sentido mais usual, o termo esoterismo é usado para designar temas
relacionados com religiões, movimentos místicos ou filosóficos, doutrinas,
disciplinas ou obediências secretas menos divulgados, exigindo uma informação e
uma formação prévias.

Nesta perspectiva, um retábulo de igreja é uma obra exotérica porque


pretende dirigir-se a toda a gente e ser entendida por toda a gente que conheça
minimamente a temática religiosa; torna-se esotérica a partir do momento em que
os visitantes da igreja ignorem as significações religiosas e simbólicas do retábulo
ou estas sejam de algum modo ocultadas. Quanto ao espectador familiarizado
com as doutrinas da religião em questão e com os respectivos símbolos, não terá
dificuldades de maior em apreender a significação do mesmo retábulo.

Certamente isto é óbvio para muitas pessoas; mas é também uma fácil
desculpa para muitos "turistas" da arte não fazerem o mínimo esforço de
compreensão e ocultarem a sua ignorância, acusando a arte de não possuir nem
procurar qualquer significação para lá do mero divertimento (?) ou de um jogo
gratuito desprovido de objecto, de regras, de qualquer substância
significante.

Os esoterismos e os respectivos códigos simbólicos (ou de


cariz intencionalmente oculto aos não iniciados) são por natureza
desconhecidos do grande público. No nosso pais, onde a história da
arte e a investigação dos movimentos do pensamento artístico (nos
próprios aspectos de inventariação, mesmo antes de se chegar aos seus aspectos
temáticos, programáticos, religiosos, filosóficos, estilísticos e aos seus
entrosamentos locais e globais) ainda são pobres e muito recentes, afigura-se
difícil arriscar vistas panorâmicas e conclusões generalizadas. A questão torna-se
ainda mais delicada no caso de buscarmos justamente aquilo que se quer menos
perceptível para a generalidades das pessoas. Assim, é prudentemente que
devemos avançar na avaliação das "pistas" suspeitas ou das revelações
recentes. Mas essa prudência não exclui o interesse vivíssimo e as descobertas
que excitam a inteligência e o sentimento daqueles que se interessam ou se
apaixonam por matéria tão excitante – ou tão importante para os homens
sequiosos de uma perspectiva ou de uma visão mais completa e mais profunda da
arte e da alma humana.

Profetismo e esoterismo

É também preciso saber que as artes não imitam simplesmente o que é visível,
mas elevam-se rapidamente até aos princípios formadores donde provém a
natureza.

Plotino, Enneada, V, B, 1

É digno de nota, por ser único e inesperado, que quase três séculos
e meio depois da vaga inaugural dos escritos rosa-crucianos – os
manifestos Fama Fraternitatis, Confessio Fraternitatis e, sobretudo,
o romance As Bodas químicas de Christian Rosenkreutz, atribuído
a Valentin Andrex, e toda a literatura que daí decorre –, é digno de
nota, que Fernando Pessoa, um dos maiores poetas portugueses e
europeus do século XX, tenha escrito três sonetos intitulados "No
túmulo de Christian Rosenkreutz e que o tema do corps beau et
glorieux do Mestre simultaneamente corbeau, corvo, e "corpo de
gloria" e do Livro ocluso que segura contra o peito – contendo um tesouro
precioso – tenha voltado à tona da literatura do nosso tempo. Num estilo
perfeitamente moderno, no melhor sentido da palavra, o tema célebre reaparece
aos nossos olhos não como uma evocação ou a celebração de uma efeméride
literária, mas como uma forma de meditação poético-filosófica inédita, a um tempo
bela na sua linguagem contida, rigorosa, quase matemática, e simultaneamente
densíssima e enigmática no mistério mais profundo das suas significações:
meditação actual, em três andamentos, sobre a morte como um acordar do sonho
da vida, sobre o que a alma pode conhecer da Verdade e sobre Deus enquanto
Homem de um outro Deus maior. No nº 8/9 (1978) da revista Exil, André Coyné
publicou um longo estudo intitulado "Fernando Pessoa e o sentido da poesia",
texto de rara inteligência sobre a obra poética do autor da Mensagem.

"Pessoa desejava que «o pensamento se transcenda a si próprio» para


poder estabelecer-se no seu «outro lado»; desejava não avançar ainda mais,
corno parece desejar a maior parte dos escritores «modernos», no «sentido da
História» – mas sim transcender todo o devir (atravessar o racionalísmo em vez de
o afastar na via da razão metafísica, intima, profunda, abissal» das coisas).

A imagem primeira do cadáver do Mestre segurando um livro misterioso é,


como todos os motivos arquetípicos, rico de conteúdos paradoxais e de
tautologias "em espelho". Começa-se por descobrir a imagem fundadora do morto
que sabe, opondo-se ao morto saber do vivo. Por um lado, o Livro enquanto
cristalização de uma voz que definitivamente se calou. cuja mensagem se tornou
transcendente mercê desse silêncio irreversível, porque nos
fala do outro lado da morte. Por outro lado, essa palavra
silenciosa que nos chega do não-dito transporta no seu ventre
no seu túmulo – a consciência, enquanto experiência vivida,
de um passado revoluto transformado num saber sempre
futuro. O livro contem um saber absoluto nessa Palavra para sempre não-dita,
(isto é, que só será dita no Absoluto, no fim dos tempos), do mesmo modo que o
peito do Mestre morto contém um coração incorrompido que simboliza, que é, o
próprio sopro, o spir da Palavra.

Os antigos egípcios sabiam-no: transformavam os sarcófagos


em verdadeiros livros os, cobertos de uma escrita impronunciável:
"livros" que manifestavam a vida do morto, a sua imago, a tecitura
da sua "escrita", a sua gramática, a força seminal da formalização, a
estrutura individual de um afloramento do Ser, numa palavra, a sua
mensagem; continham um cadáver – o conteúdo dessa mensagem.

Mas esse corpo sem vida, mumificado, era por seu turno o
sarcófago de outro corpo, ou o livro de um outro texto interior, que o
mistério da ressurreição esclarecerá, transformando-o em corpo de luz. Esta Luz,
ao surgir, apagará o livro, pronunciará enfim a Palavra impronunciável, o Sentido
para além do sentido:

Calmo na falsa morte a nos exposto,

0 Livro ocluso contra o peito posto,

Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.

Já Bernard Gorceix, no prefácio que escreveu para o livro La Bible des Rose-Croix
(P .U. F., 1970), chamara a atenção para o facto de o tema do
túmulo misterioso, contendo um corpo morto e um tesouro precioso,
ser relativamente frequente na literatura da Idade Média e na
literatura alquímica: cita o exemplo da Tabula Chemica, de Ibn
Umail, uma obra bem conhecida do século XVIII, em que se conta a
visita a uma casa subterrânea cujas paredes estão cobertas de
frescos e onde um ancião defunto aperta nas mãos um livro
ilustrado. Gorceix cita ainda a lenda que circulava no tempo de
Valenlin Andrex, segundo a qual ter-se-iam descoberto, debaixo do
grande altar de uma igreja de Erfurt, as obras de Basílio Valentin.
Uma das lendas – ou factos históricos – que estariam por detrás do
romance de Valentin Andrex foi contada a Wittemans por um certo Roesgen von
Floss, respeitável junker batávio; nas sequelas trágicas do assassínio, em 1208,
do legado pontifical Pierre Castelnau, desencadeou-se uma perseguição feroz –
sob o pretexto de exterminar os Albigenses – movida por Inocêncio III à família
Roesgen Germelshausen, que foi massacrada barbaramente e cujo
castelo foi destruído e saqueado. Christian, o filho mais novo dos
Germelshausen, teria sido o único que escapou com vida, fugindo
para o Oriente, onde foi iniciado nos antigos segredos dos Rosa-
Cruz. De regresso à Europa, Christian renunciou ao nome de família
e tomou o de Rosenkreutz.

O rosicrucianismo, mau grado os antecedentes remotos que


alguns lhe atribuem, entrou na história com os chamados
Manifestos Rosa-Cruz, publicados anonimamente em Cassel nos anos de 1614 e
1615: a Fama Fraternitatis e a Confessio. Estes manifestos evocavam um
herói mítico, o "Pai" CRC, ou Christian Rosenkreutz (Cristão Cruz Rósea),
presumido fundador de uma ordem ou fraternidade que assim se afirmava
reactivada. CRC teria vivido 106 anos. Segundo a Fama Fraternitatis, o
túmulo, cujo paradeiro estava esquecido) foi descoberto 120 anos depois da
sua morte por um dos seus sucessores que era arquitecto; encontrava-se
numa cripta de planta heptagonal em cujo centro, numa espécie de altar, se exibia
urna placa de cobre amarelo com os seguintes dizeres:

A.C.R.C. HOC UNIVERSI COMPENDIUM VIVUS MIHI SEPULCRUM FECI.

Aos dois manifestos de Cassel, que despertaram grande excitação


na época, veio acrescentar-se em 1616 um estranho romance
alquímico, As Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz, cujo herói
parece ligado a uma ordem que tinha por emblema uma cruz
vermelha e rosas da mesma cor. O romance foi escrito por Johann-
Valentin Andrex, que veio ao mundo em 1586, em Wurttenberg, neto de um
distinto teólogo conhecido por: o Lutero de Wiirttenber.

Valentin Andrex estudou na Universidade de Tubingen. As


Bodas teriam sido escritas a partir da sua autobiografia, por volta de
1602 – 1603, isto é, quando o precoce autor contava 16 ou 17 anos.

Ao que parece, antes de 1614, e, segundo alguns, até


mesmo entre 1602 e 1603, já circulavam manuscritos da Fama; uma
das hipóteses é que o pai de Johann-Valentin, Jacob Andrea: já
falecido em 1601), tenha sido o autor das Bodas, talvez com a colaboração do seu
circulo de amigos. Em 1603, com 17 anos, o jovem Johann-Valentin compôs duas
peças de teatro de estilo isabelino.
Fernando Pessoa conheceu perfeitamente o nome de John Valentine
Andrea e as Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz, como o demonstram dois
fragmentos do espólio publicados por Yvette Genteno no seu livro Fernando
Pessoa e a Filosopa Hermetica (Ed. Presença, Lisboa, 1985). São eles o
fragmento 54A – 58, onde lemos: dblquote Há registos de que John Valentine
Andrea escreveu, por gracejo, com apenas 16 ou 17 anos, as Bodas Químicas de
Christian Rosenkreutz. Será difícil contestar que ele tenha escrito
este livro.

Contudo, o livro, escrito nessa idade e (se acreditarmos nas


suas palavras, não há razão para duvidar delas) como gracejo, é
uma grande história simbólica, válida em si. No fragmento 54A – 59,
Fernando Pessoa aborda o mesmo problema dos cerca de 17 anos
de idade de Johann-Valentin Andrex e comenta que "a obra é de um
género que tornaria isto normalmente impossivel".

O teatro isabelino exerceu grande influência sobre Andrex, que visitou


Wurttenberg por ocasião da investidura do duque Frederico I – anglófilo muito
interessado em alquimia e ocultismo – na Ordem de Cavalaria da Jarreteira (Order
of fhe Garter), cerimónia que teve lugar em Estugarda em 1603; a embaixada
enviada pelo rei inglês Jaime I incluía músicos, comediantes e actores, que
seguidamente representaram noutros lugares do ducado, incluindo a
Universidade de Tubingen, onde estudava então o jovem Andrex. As
suas Bodas Químicas reflectem o brilhantismo dessas festas e
cerimónias, bem como o fascínio das representações teatrais que
então tiveram lugar.

Nesse mesmo ano, foi dedicada ao duque Frederico uma obra intitulada
Naometria, da autoria de Simão Studion (manuscrito nunca publicado, guardado
na Landesbibliothek de Estugarda): trata-se de um texto extensíssimo, profético-
apocalíptico, que usa a numerologia baseada nas descrições bíblicas das medidas
do Templo de Salomão e que, a partir da simbologia das datas bíblicas e da
história europeia, traça profecias acerca de acontecimentos futuros, tais como o
fim do reino do Anticristo, a queda do papa e da religião de Maomé e o começo do
Millenium, (que, na sua interpretação, ocorreria por volta de 1623). Andrex
conheceu a obra de Simão Studion e refere as suas profecias num livro publicado
em 1619, Turris Babel, no qual as relaciona (de modo obscuro, para usar as
palavras de Frances Yates, grande especialista do rosicrucianismo) com os
escritos de Joaquim de Flora, Santa Brígida, Lichtenberg, Paracelso, Guillaume
Postel e outros illuminati.

O tema do livro fechado que o cadáver incorrupto de um homem virtuoso,


ou mesmo santificado, aperta nas mãos – livro e cadáver em cuja oclusão, que a
morte selou, está contido um saber esotérico ou profético que só será conhecido
pelos homens quando Deus o quiser – reaparece, sob outra forma, no políptico
conhecido por Tábuas de S. Vicente de Fora, do Museu de Arte Antiga de Lisboa,
obra-prima da pintura portuguesa do século XV atribuída a Nuno Gonçalves; com
a única diferença de que, nessas tábuas, não se trata do "belo
corpo" de um santo falecido, mas de um ressuscitado – talvez S.
Vicente – pintado duas vezes: uma vez no painel central do lado
esquerdo do observador, apresentando ao rei um livro aberto
(saber esotérico), e no painel central, do lado direito do
observador, tocando, com a mão direita, o peito de um cavaleiro
ajoelhado a seus pés; neste painel, o santo tem o livrou fechado
debaixo do braço (revelação esotérica). Este Livro ocluso, para utilizar as palavras
de Fernando Pessoa, evoca o "Livro T", que Christian Rosenkreutz aperta contra o
peito e de que fala a Fama Fraternitatis.

Terá o Mártir Vicente vindo do mundo além-morte para nos comunicar uma
mensagem Ou tratar-se-á de um outro enviado, quiçá Melquisedeque, ou o
lendário Preste João, ou talvez ainda a hipostase divina que há-de vir em breve e
a que chamam Paracleto, o Consolador (ou Paraclito, no dizer do povo)? Trata-se,
em qualquer caso, de uma figura divina, de um mensageiro ou de um anjo vindo
do Além que mostra ao rei ajoelhado o livro aberto, ou a palavra dita, visto de
perto, pode ler-se nas páginas um fragmento do Evangelho de João; à direita,
simetricamente, a mesma figura misteriosa mantém o livro fechado sob o braço e
toca, com a mão direita, o peito do cavaleiro, também ajoelhado.

Há ainda um outro exemplo português, que pouquíssimos conhecem, do


mesmo tema arquetípico, do maior interesse no nosso contexto por ser próximo do
modelo criado por Johann-Valentin Andrex: trata-se do Beato Amadeu, ou
Amadeus, do século XV, cuja lenda é semelhante e precede a de Chrislian
Rosenkreutz, escrita dois séculos depois. Lenda que se mistura à verdade
histórica, porque o Beato Amadeu existiu deveras.

Um santo esquecido

Quinto filho de uma família nobre, o seu nome era João de Meneses da Silva e
teria nascido em 1431 em Ceuta, então possessão portuguesa; ou, segundo
Frei Luís de Sousa, na História de S. Domingos; citado por Lúcio de Azevedo,
História de António Vieira, tomo II, Lisboa, 1992, 3ª edição), em Campo Maior,
Elvas.

Parece ter frequentado na adolescência o palácio do rei D.


Duarte, apaixonando-se loucamente pela princesa Leonor. Mandou
gravar numa medalha o desenho de um altar com a legenda Ignoto Deo (a um
deus desconhecido), declarando assim, e simultaneamente ocultando, a sua
paixão pela princesa, que partiria em breve para Itália, onde o papa Nicolau V
celebrou o seu casamento com o imperador da Alemanha Frederico III. A lenda
acrescenta que o jovem apaixonado viajou clandestino numa das naves da
armada que levou a infanta a Roma, como indica Jorge Campos Tavares no
Dicionário de Santos (Porto, 1990). A seguir a esta irrevogável separação, que
marcava o termo de um amor impossível, João de Meneses da Silva mudou o
nome para Amadeu e ingressou no Convento de Nossa Senhora de Guadalupe,
na Ordem de S. Jerónimo, daí passando para o Convento de Cremona, onde
permaneceu uma dezena de anos. As penitências e a austeridade da sua vida
cedo criaram em torno dele uma aureola de santidade. Teve então uma visão da
Rainha dos Anjos, acompanhada de S. Francisco e de Santo António, ordenando-
lhe que deixasse a vida de eremita e partisse para Assis, onde em 1454 tomou o
hábito dos Irmãos Menores.

As suas virtudes, a sua humildade, a sua palavra, atraíram de


tal modo as multidões, ávidas de ouvi-lo – e também os doentes e
os que sofriam, na expectativa de um milagre –, que Amadeu pediu
aos seus superiores que fosse enviado para outro sítio. Em breve,
foi recebido num convento de ), Milão, onde o duque Francesco
Sforza e a sua mulher, a duquesa Branca, conceberam por ele uma
verdadeira veneração e cobriram-no de honrarias. Graças às preces
de Amadeu, a duquesa finalmente deu à luz um herdeiro há muito
desejado. Como prova de gratidão e com a benção do papa, o duque concedeu
todo o apoio ao projecto de Amadeu de fundar um convento em Milão, o Convento
da Paz, o primeiro da Congregação dos Amadeus; em breve, a congregação,
confirmada pelo papa Paulo II em 1469, contaria 28 casas na Lombardia, que
foram dirigidas pelo fundador até à sua morte.

Enviado a Roma pela duquesa de Milão, Amadeu foi confessor do papa


Sistro IV, que o instalou na Igreja de S. Pedro de Montorio (santificada pelo
sangue do Apóstolo); aí, com a protecção e os donativos generosos de Luís XI, rei
de França, e dos reis católicos Fernando e Isabel de Espanha, o Beato Amadeu
fundou um mosteiro. Faleceu no Convento da Paz a 10 de Agosto de 1482.

Uma multidão de milaneses correu para os restos mortais de Amadeu para


tocar nas suas vestes; muitos doentes, conta a lenda, ficaram curados. O corpo foi
inumado sob as lajes do altar-mor da igreja do convento fundado pelo santo
homem. A sua imagem esculpida foi objecto de grande veneração.

Existiu um retracto pintado de Amadeu na Igreja de S. Pedro


de Montorio.

Hoje quase esquecido, foi, não obstante, objecto de uma bibliografia


abundante. No primeiro volume da Bibliotheca Lusitana, Diogo
Barbosa Machado (l741 – l 759) cita um grande número de obras
onde Amadeu é mencionado, quer por autores franciscanos, quer por autores que
abordam temas franciscanos; sobre a sua vida, os seus trabalhos e as suas
virtudes escreveram D. Jeronymo de Mascarenhas, bispo de Segóvia, Frei
Horácio Sala, Frei Marcos de Lisboa (Chronica da Ordem Serafica) e muitos
outros. Rodulph Tossiniarens descreve um retracto do Beato Amadeu com um livro
fechado debaixo do braço direito, tendo em baixo, ao lado, a legenda Apertei In
Sempre, que é uma alusão às suas Revelações.

Mereceu que lhe fossem reveladas muitas coisas que trouxeram


docemente à Religião dos Francisco.

Michoviens escreveu dele que foi ilustre, pela santidade, os milagres e as


profecias, e Johan Soar. de Brito, no Theatr. Litter., descreve Amadeu como tendo
sido celebérrimo pelo humanismo, mas um humanismo resplandecente de virtude
e iluminado por maravilhosas revelações de Deus.

Amadeu compôs um livro de profecias sobre o futuro da


Igreja com este longo titulo: Jesus filho de Maria Salvador do
homem revelou um novo sentido do Apocalipse e o que estava
dentro foi trazido para fora. Isto significa que as coisas que eram
ocultas foram assim manifestadas.

É significativo que contra esta obra (provavelmente adulterada por


vários erros, escreve Barbosa Machado) o cardeal Bellarmino tenha
escrito 57 censuras, cujo manuscrito estava arquivado na biblioteca
de Frei Jacinto L. arcebispo Avinhão e antigo mestre do Sacro Palácio; o
arcebispo comunicou o manuscrito a D. Julio Bartolocci. dblquote F. pois preciso
ler o livro do Beato Amadeu com grande precaução, como recomendam os mais
ilustres cronistas da Ordem Seráfica, devendo ser julgado não tanto como uma
produção do espírito iluminado do Beato Amadeu, mas como o aborto de uma
qualquer fantasia fecunda em ficções, escreveu Cornelio Alapide. Como se vê, as
profecias do nosso precursor de Christian Rosenkreutz provocaram, nos tempos
que se seguiram à sua morte, sérios remoinhos no seio da Igreja e suscitaram
críticas severas e uma condenação declarada, mesmo que esta condenação
pretendesse visar mais as "profecias falsas", das quais Amadeu estaria inocente.

Dois séculos mais tarde, os conflitos da Reforma e da Contra-Reforma


originaram movimentos passionais, "reformadores" ou "anti-heréticos", proféticos e
anunciadores quer de catástrofes terríveis, quer de uma renascença moral e
religiosa que iria conduzir a uma próxima concórdia universal.

Os manifestos rosicrucianos e as Bodas Químicas são um


eco dos conflitos dessa época; como escreveu Antoine Faivre no
volume I da sua obra Accès de l` ésotérisme occidental (Gallimard,
1996, nova edição revista) "atacam o dogmatismo dos príncipes e
das Igrejas, o «césaro-papismo luterano e calvinista», anunciam
uma reforma geral, uma subversão e uma salutar restauração que
se fazem sentir de modo angustiante".

É nesse clima de efervescência espiritual que se situa a lenda dinâmica de


Christian Rosenkreutz, com a sua peregrinação ao Oriente e o seu regresso às
origens cristãs reencontradas. Infelizmente, a Guerra dos Trinta Anos iria dissipar
as promessas de um momento de exaltação criadora.

Nesse mesmo século agitado, barroco e dramático, Portugal libertava-se de


uma ocupação espanhola de 40 anos e batia-se na sua própria guerra de trinta
anos ao longo das suas fronteiras europeias e, simultaneamente, nas colónias do
Brasil, de África e do Oriente.

Um grande movimento dos espíritos acompanhava essas batalhas, essas


tragédias e essas esperanças: velhos profetismos de origem joaquimita e
templária, alimentados pelas correntes franciscanas e pelo milenarismo
paraclético – refiro-me ao culto do Espirito Santo, que ganhou um vigor sem
paralelo na pátria portuguesa – que conduziriam a fenómenos extraordinários.
Citaremos as profecias do sapateiro Bandarra e a força imensa e magnética do
verbo de António Vieira, da Companhia de Jesus – o "imperador da língua
portuguesa", como o cognominou Fernando Pessoa –, autor genial de sermões
prodigiosos e das páginas sem paralelo da incompleta História do Futuro e da
Clavis Prophetarum; lembraremos também a atmosfera febril de escritos
anónimos, de milagres e prodígios, de visões e profecias que reinou nessa
época. A aparição de cometas anunciava catástrofes, as estrelas prometiam a
outros – aos homens de coração e de fé – muitos favores divinos; e velhos mitos
semiesquecidos voltavam à superfície das memórias. Viu-se assim emergir quase
ao mesmo tempo, como que surdindo de uma mesma nascente, o mito de
Christian Rosenkreutz na Alemanha e em Portugal a memória
da lenda velha de dois séculos do Beato Amadeu, segurando,
no seu túmulo, o livro contendo uma "história do futuro"
palpitante de mistérios, que seriam "brevemente" revelados
segundo a vontade de Deus.

lado esquerdo e o lado direito do saber

Voltando mais uma vez aos Manifiestos, às Bodas Químicas e às suas


relações seminais e literárias com a lenda, a história e a literatura portuguesas.
Além dos três sonetos já referidos –No túmulo de Christian Rosenkreutz, Pessoa
deixou, entre os numerosos escritos que não foram publicados em sua vida, várias
notas, ainda mal conhecidas, relativas à personagem de Christian Rosenkreutz.
Vale a pena citar uma delas, escrita em francês. Eis a tradução portuguesa:

"Da Lei da Natureza, representada por Hirão, passa-se à Lei humana,


representada por Christian Rosenkreutz, e, em seguida, a Lei de Deus,
representada por Jesus.

O erguer ritual do candidato marca a primeira passagem, sendo o instinto a


palavra que ele perdeu. A abertura do túmulo de Christian Rosenkreutz marca a
segunda passagem: ao ver o Livro T, que o Segundo Mestre aperta contra o peito,
encontra-se finalmente a intuição, ou seja, a palavra no seu estado humano,
porque a intuição e o instinto da inteligência, o casamento destes dois nas "bodas
químicas" de que se descreveram noutro lado, em linguagem simbólica, os graus,
ou degraus, mágicos. A descoberta, sem busca nem dificuldade, do túmulo de
Jesus, aberto e vazio, marca a passagem final, o casamento divino, o da intuição
com a profundeza mesma da alma, a união com Cristo.

No primeiro grau desta verdadeira iniciação, o candidato tem como tarefa


matar (em si) os três assassinos do Mestre, os três elementos que se opõem
(nele) à Lei da Natureza – o desejo do supérfluo, a fé na ciência e o impulso de
dominar (a vontade de poder, de Nietzsche); ou, numa linguagem mais simples, a
ambição, o orgulho e a vaidade. Isso, de resto, já lhe é obscuramente indicado, no
próprio começo da sua vida iniciática, ao ser despojado de metais. É despojado,
tecnicamente, do ferro (armas), da prata (o dinheiro que compra) e do ouro (o
dinheiro que seduz) – metais regidos, respectivamente, por Marte, pela Lua e pelo
Sol, que significam a ambição, a vaidade e o orgulho. Quando os três assassinos
são mortos na alma do aspirante, ele está pronto para progredir.

No segundo grau desta ascensão para Deus, a missão do


candidato consiste em reencontrar a palavra. Para isso e preciso
que faça três coisas: descobrir onde está situada a cripta
mortuária de Christian Rosenkreutz, abrir essa cripta, abrir o
túmulo e ver lá o Mestre Perfeito, que conserva a Palavra junto ao
coração – esse Livro T (Templi) que ao mesmo tempo completa e
se opõe ao Livro M (Mundi). Em primeiro lugar, é preciso que
saiba que existe nele uma abobada onde habita a sua alma superior morta neste
mundo. Precisa, seguidamente, de a descobrir. Depois, e preciso que saiba abrir
essa cripta. Precisa ainda de saber olhar bem para o que lá vê. É preciso,
finalmente, que saiba abrir o túmulo do Mestre e vê-lo na majestade da sua morte
viva. incorruptível. São estes os cinco pontos perfeitos do grande mestrado [as
cinco pontas da estrela mágica, as cinco pétalas da rosa crucificada]. Através
deles ele é erguido desta vida, que não e mais que uma morte figurativa.

O homem não estava destinado a ser o que é: foi pela Queda que se tornou tal.
Reencontrar a Palavra é reencontrar a verdadeira Lei Humana, o Adão primitivo e
andrógino, feito assim à imagem de Elohim. Fazer dentro de si mesmo a união dos
dois princípios – eis a Lei Humana reencontrada, a verdadeira criação da pedra
filosofal.

Hirão é o Homem que deveria ser e a sua Palavra era esse destino que se
perdeu. Poderernos reencontrar a Palavra, não reencontrar Hirão. Ele está
verdadeiramente morto, e nisso consiste o pecado original; só nos podemos
desfazer deste regenerando-nos, isto é, nascendo de novo. Tal é o sentido do
termo «neófito».
(Texto publicado por Teresa Rita Lopes no volume II de Pessoa por
Conhecer – Textos para um Novo Mapa, fragmento 76. Editorial Estampa, Lisboa,
1990.), Bernard Gorceix, no texto já citado, diz que o ponto central dos Manifestos
e das Bodas Químicas é a alquimia, não só porque ilustra perfeitamente os
mistérios da fé, mas porque, simultaneamente, constitui "já a ciência central, a
filosofia nova que deverá conciliar o conhecimento e a fé, a razão e o espirito; por
outras palavras, nas Bodas Químicas, Andrex elabora o tema da urgência de uma
ciência total.

Um outro autor eminente e especialista dos Rosa-Cruz, o Prof. Roland


Edighoffer, escreveu, na óptica das Bodas Químicas, que os cavaleiros da Pedra
de Ouro conheceram e comprovaram, pela, graça divina, a alquimia regenerativa.
Transformados em amigos de Deus , podem e devem estudar o admirável
mecanismo do Universo. Não sofrem da cegueira pretensiosa daqueles que se
glorificam e orgulham do poder absoluto do homem; e Deus, ao regenera-los, que
lhes abre os olhos à contemplação das maravilhas da Natureza. A Mónada
Hieroglífica de John Dee é usada como símbolo da perfeita unidade, como o alfa
e o ómega, passagem da Trindade à quaternidade, englobando a criação no
sacrifício regenerador da cruz, como hierogamia do Criador com a sua criação,
para usar as palavras do Prof. Roland Edighoffer. Que Pessoa, em algumas das
suas orientações mais importantes, tenha partilhado (e "actualizado") nos anos 30
do nosso século o mesmo pensamento essencial dos Rosa-Cruz do século XVII
torna-se evidente ao ler certos textos e fragmentos que ficaram inéditos longos
anos, como este:

O que acaba de dizer-se da Maçonaria, com mais forte razão


se pode dizer dos Rosicrúcios, que, misturados com ela na
antecâmara da sua vida emblemática, bem pode ser que a
houvessem fundado, ou contribuído para a sua fundação, como sistema
especulativo.

A grande Fraternidade é cristã no seu nome, cristã nos seus dois Magnos
Símbolos, cristã e católica (embora não-romana) nas suas dedicações. Os
Rosicrúcios eram, é certo, cabalistas, como eram, em dois sentidos, alquimistas;
mas eram cabalistas cristãos, como eram (sobretudo) alquimistas espirituais.
Como vários outros, aproveitaram-se da Cabala e deram-lhe um sentido e um
complemento cristãos; por isso com mais razão se poderiarn queixar os judeus de
que os Irmãos se haviam servido da Cabala para fins antijudaicos do que os
cristãos de que eles tinham introduzido a Cabala na substância do cristismo, onde,
aliás, desde o Quarto Evangelho, já toda a alma dela existia. Acresce, quanto à
Rósea Cruz, que os grandes expositores dela, desde antes do seu aparecimento
até aos nossos dias, tem sido declaradamente místicos cristãos, e, ainda, que o
voto de castidade absoluta, a que (por motivos que nada tem com virtude) , a
Fraternidade obrigava o candidato, é a coisa menos judaica, embora
«cabalística», que se pode conceber". (Obra Poética e em Prosa, de Fernando
Pessoa, p. 469, vol. III, ed. Lello & Irmão, Porto, 1986).
Um outro fragmento de Pessoa toca ainda mais directamente uma das
preocupações maiores dos Rosa-Cruz do século XVII, manifestada através da
alquimia, que Gorceix considerou, a justo título, situar-se – como já se disse – na
vontade de criar uma filosofia nova que deverá conciliar o conhecimento e a fé, a
razão e o espírito. Eis o fragmento em questão: "Temos assim por certo que no
Quinto Império dar-se-á a reunião das duas forças separadas há muito, mas que
de há muito se aproximam: o lado esquerdo do saber – a ciência, o raciocínio, a
especulação intelectual; e o seu lado direito – o conhecimento oculto, a intuição, a
especulação mística e cabalística. A aliança de Sebastião, Imperador do Mundo, e
do Papa Angélico representa essa aliança íntima, essa fusão do material e do
espiritual, talvez sem separaqao".

É preciso lembrar aqui que Pessoa fala do "Quinto Império" como dos novos
tempos anunciados nas profecias de Daniel, que o padre António Vieira, no século
de Johann-Valentin Andrex, anunciou para breve. Essa aliança, essa fusão, tal
como a descreve Pessoa, representa na Terra aquilo que corresponde á
hierogamia do Criador com a sua criação de que fala Edighoffer: "ela responde a
uma das aspirações universais e eternas da humanidade".

Espirito Santo e o Imaginário Lusitano

Valerá a pena intercalar aqui algumas palavras sobre o culto do Espirito Santo no
nosso pais, que constitui um assunto a um tempo complexo, ocultado e fascinante.
Trata-se de um fenómeno que não é exclusivamente português, como é obvio
nestes assuntos, mas que encontrou no nosso pais um clima mental e emocional
de uma intensidade única – e que prevalece nos nossos dias, mau grado a longa
persistência das proibições e dos obstáculos a que, ao longo de séculos, tem sido
sujeito.

Hoje, é sobretudo o povo dos Açores que mantém vivo o


culto, essa arreigada devoção com que continua a preparar a vinda,
para breve Paracleto, na linguagem popular), mormente o povo dos
lugares menos sujeitos à centralização dos poderes – pela distância
ou a dificuldade de acesso, como nos Açores ou nas América, ou
em algum lugarejo de difícil acesso, como a aldeia do Penedo, na
serra de Sintra, onde o autor assistiu há relativamente pouco tempo a uma das
ultimas festas dedicadas ao Espirito Santo antes de serem interditas.

Infelizmente, poucos portugueses sabem, exceptuados os Açoreanos, que


houve em Portugal um culto religioso, que perdura ainda hoje, fundado por um rei.
independentemente da autoridade eclesiástica. O culto é o do Espirito Santo, o rei
foi D. Dinis, cuja decisão contou por certo com a decisiva influência de sua
esposa, a rainha Isabel. D. Rodrigo da Cunha, na sua História Eclesiástica da
Igreja de Lisboa, declara categoricamente que ela e el-rei D. Dinis foram os
autores da festa que se chama do Espirito Santo, cuja solenidade foi tão celebre
por todo o reino e mais nos maiores e mais populosos lugares dele, como ouvimos
contar aos antigos, e o bispo do Porto D. Fernando Correia de Lacerda, na sua
obra História da Vida, Morte, Milagres, Canonização e Trasladação de Santa
Isabel, Sexta Rainha de Portugal, publicada em Lisboa em 1680 – 40 anos depois
da Restauração –, a seguir à descrição da faustosa solenidade do culto e em
particular da procissão da véspera do dia do Espirito Santo, incluindo a cerimonia
das madeixas de cera e dos lumes que se acendiam então para arder por todo o
discurso do ano; o que tudo se ordenou por instrução da Santa Rainha –, tem
estas palavras extraordinárias: ... e considerando o Império e a candea, se he licito
ajuisar as alheas acçoens, principalmente estas que são misteriosas, não
podemos deixar de entender, que aquela candeia põe a Santa Rainha, todos os
anos, ao Espirito Santo, para que Deus havendo hum só Pastor, e um só rebanho,
estabeleça, em cumprimento da sua promessa, na Coroa Portuguesa, o Império
Universal do Mundo.

Eis, de um só traço, ligado o culto do Espirito Santo a ideia profética e


joaquimita do Império Universal e à esperança escatológica, tão cara ao padre
António Vieira, da proximidade do Quinto Império ou Terceira Idade do Mundo, a
Idade do Espírito Santo. E não se pense que esse culto, essa ideia e essa
esperança apenas interessaram alguns nobres intelectuais ou uns quantos
místicos alheios às realidades da vida de todos os dias ou algum raro poeta
sonhando grandezas pátrias. Na verdade, o culto instituído pela Rainha Santa no
primeiro quartel do século XIV e que teve inicio, segundo os cronistas, no
Convento de S. Francisco, da Vila de Alenquer, rapidamente alastrou pelo reino
como um fogo de palha, congregando a devoção popular após ter concitado a da
nobreza, como declara o mesmo D. Fernando Correia de Lacerda: Depois de
(Isabel) haver edificado em Alenquer uma igreja ao Espírito Santo no primeiro ano
em que se fez a solenidade da Coroação do Imperador, e com todo o luzimento,
não só chamou a nobreza para tomar parte neste Império, que ela tão
piedosamente achava de erigir, mas também convocou pessoas de diversas
jerarquias , as quais prometeram que por serviço de Deus e da Sua Alteza
tratariam da conservação daquela casa, e acrescenta o mesmo autor que
estimaram os reis esta piedosa promessa da nobreza e do povo em que o povo
igualou a generosidade da nobreza.

Jaime Cortesão em Os Descobrimentos Portugueses: "O Espírito Santo foi,


durante os séculos XIV e XV e primeira metade do seguinte, não só uma das mais
fervorosas devoções da família real, mas principalmente objecto do culto popular
mais difundido em Portugal. Confor-me os cronistas seiscentistas, D. Rodrigo da
Cunha, Frei Manuel da Esperança e Frei Francisco Brandão, que ainda assistiram
aos últimos esplendores desse culto, celebrado durante a Semana de
Pentecostes, a sua principal cerimonia constava da coroarão do Imperador,
geralmente na pessoa de um homem do povo pertencente a Irmandade do
Espirito Santo, que o elegia. O Imperador empunhava ainda o estoque ou vara,
símbolo do mando.

Aquela irmandade, que em geral administrava um hospital, assumia o encargo de


celebrar todos os anos a festa do Imperador. A cerimónia da investidura chama-
va-se festa do Império, e nos Açores, cujo povoamento começou nos meados do
século XV, as próprias ermidas ou casas populares onde ficava depositada, de
ano para ano, a coroa de prata, encimada pela pomba do Espírito Santo,
designavam-se por impérios.

Jaime Cortesão adianta que foi durante os séculos XIV e XV que o culto do
Espírito Santo, ligado à festa do Império, tomou maior desenvolvimento em
Portugal (celebrando-se a bordo das naus que atravessavam os oceanos) e
espalhando-se pela África Portuguesa, a Índia e, principalmente, os arquipélagos
da Madeira e dos Açores, de onde passou mais tarde, em grande parte por obra
dos Açorianos, ao Brasil e à América do Norte. Por outras palavras: o auge do
culto do Espírito Santo coincide no País com o período mais intenso da expansão
portuguesa no planeta. São ainda do mesmo ilustre historiador, nos capítulos que
dedica aos painéis atribuídos a Nuno Gonçalves, estas palavras então ousadas –
num contexto cultural marcado por um tenaz neopositivismo que
desgraçadamente ainda não desapareceu por completo –, palavras que revelam a
rara percepção que tinha das geodésicas essenciais do imaginário português:
“Não se nos afigura excessivo, por consequência, crer que a cerimónia da
coroação do imperador tenha significado aos olhos de muitos portugueses, e,
quando menos, daqueles, frades ou leigos, iniciados na doutrina hortodoxa dos
espirituais, a investidura simbólica da nação pelo Espírito Santo” – espécie de
Pentecostes nacional – na missão de propagar a Fé a todo o mundo. Por esse
motivo, ao século de Quatrocentos, em Portugal, chamamos nós a época do
Pentecostes. Eis os motivos que nos levaram a dar ao conjunto dos painéis o titulo
de Retábulo da investidura da nação pelo Espírito Santo.

O milenarismo joaquimita

Convirá aqui relembrar que para o abade cisterciense Joaquim de Flora, que viveu
entre 1135, (?) e 1202, eram três as idades em que se dividia a história da
Humanidade, como três são as pessoas de Deus: Idade do Pai, Idade do Filho e
Idade do Espírito Santo. Esta concepção da História, exposta nas suas obras e
comentada e amplificada. pelos seus seguidores, decorria de duas experiências
de iluminação mística, que relata, talvez ainda de uma terceira a que faz alusão,
através das quais lhe foi revelada a estrutura trinitaria da evolução das eras.

A originalidade de Joaquim de Flora, como sublinha Marjorie Reeves na


Engclopedia of Religion (Nova Iorque, 1987), estava em considerar que a terceira
idade ainda não chegara; a Igreja, ao invés, entendia ter começado já o tempo da
Graça, após o tempo que antecedeu a e o tempo que se submeteu à Lei. Joaquim
de Flora previa para breve para o ano de 1260, o fim da segunda idade, que fora
marcada pela expansão da religião de Cristo e pela fortaleza da sua Igreja romana
e católica, a qual, entretanto, dava já sinais evidentes de grave decadência.

O vaticínio joaquimita do fim iminente da Idade do Filho e do advento da


Idade do Espírito Santo, que seria alcançada após a tribulação do maior de todos
os Anticristos (a sétima cabeça do dragão), não podia deixar de provocar a
resistência da Igreja, enquanto instituição, e de inflamar, ao invés, os espíritos
sequiosos de renovação e de liberdade, num arroubo de que sairiam os grandes
movimentos proféticos e milenaristas do fim da Idade Média. Uma imensa vaga, a
um tempo criadora de um novo ardor religioso e transportando um espírito de
subversão das instituições, percorreu a cristandade, entusiasmando não apenas
os grupos "heréticos" – como os fraticelli, os beguinos provençais, e muitos outros
–, mas também muitos dominicanos, agostinhos e, sobretudo, franciscanos. Os
ecos desse clamor repercutiram longamente na Europa, influenciando
directamente as concepções religiosas, sociopolíticas e filosóficas de numerosos
escritores e pensadores até aos séculos XVIII e XIX, como Lessing, Michelet,
Edgar Quinet, Pierre Leroux e Georges Sand, entre outros, e, indirectamente, uma
boa parte do substrato ideológico ocidental da Renascença ao romantismo; certos
estudiosos modernos consideram, inclusive, poder incluir-se o marxismo, com a
sua utópica sociedade sem classes, e o nazismo, com o seu III Reich, ou terceiro
império (que duraria mil anos), no rol das consequências remotas e perversas dos
milenarismos joaquimitas.

A profecia do abade calabrês comportava a revelação próxima do


Evangelho Eterno, que um franciscano proclamou com grande escândalo ser
constituído pelos próprios escritos de Joaquim de Flora, e anunciava a
entronização do Papa Angelico . Os fundamentos escripturários para o profetismo
joaquimita eram encontrados em Isaias e na conhecida profecia de Daniel ao rei
Nabucodonosor (tão grata ao padre António Vieira), na qual se revelava o
desmoronamento sucessivo de quatro impérios, simbolizados pelos metais de que
era feita a imensa estatua sonhada pelo rei, que assistia, no sonho, ao seu
desabamento; metais onde alguns exegetas viam correspondência simbólica com
os impérios assírio, persa, grego, alexandrino e romano; e assim se fazia o
anuncio misterioso de um Quinto Império – que jamais será destruído e cuja
soberania jamais passará para outro povo, pois submeterá e aniquilará todos os
outros e submeterá eternamente (Daniel, II, 44).

Tratava-se do Reinado final de Cristo na Terra, que durara mil anos,


segundo o computo feito pelos exegetas milenaristas do Apocalipse de S. João –
mil anos de paz, de liberdade, de amor fraternal e de espiritualidade suprema,
verdadeira e derradeira Idade de Ouro do ciclo histórico da Humanidade.

No seu extraordinário ensaio Tradition de Age d´Or et créativité portugaise,


lido no Colóquio de Nova Deli de 1987, o eminente antropólogo Gilbert Durand
estuda as origens e o desenvolvimento dos mitos de Saturno, dos quais decorre o
mito da Idade do Ouro, mitos que ganharam entre os Latinos todas as suas
conotações para a civilização ocidental.

Deus do principio dos tempos e da Idade do Ouro inicial, Saturno e também


o deus do fim dos tempos e do regresso ao princípio, cuja festa – as Saturnais –
se situava, como muitas festas de renovação, no solstício de Inverno: eram
folguedos de grande alegria, durante os quais se trocavam prendas, (costume que
subsiste no nosso Natal) e, traço importantíssimo, invertiam-se e subvertiam-se as
hierarquias: os escravos tomavam o lugar dos senhores, as mulheres assumiam
funções reservadas aos homens, etc.

O cristianismo anexou o simbolismo das Saturnais, colocando na sua data


o nascimento de Cristo, transformando os folguedos da inversão renovadora nas
festas de loucos, nas tradicionais cegadas, bem conhecidas do nosso povo, que
tanto inspiraram Gil Vicente – ainda sobrevivem algumas, como as de Santo
Estevão, em Trás-os-Montes –, e também, com transposição do calendário, nas
folias subsequentes a festa do Corpus Christi e nos cortejos de foliões da festa do
Espírito Santo; a coroação pré-cristã dos reis da festa deu lugar

á festa dos Reis (ou Epifania).

Não se pode desenvolver aqui sequer os traços mais salientes da


riquíssima constelação dos mitologemas saturninos, mas pensamos que estas
brevíssimas notas ajudam pelo menos a situar a significação do culto do Espírito
Santo no firmamento mítico do cristianismo e no horizonte do imaginário português
como culto, profundamente marcado por Saturno, da abertura de uma nova e
última era, prometida nas profecias de Isaias e de Daniel e pela exegese
joaquimita do Evangelho e do Apocalipse de João.

O culto do Espírito Santo, entendido como promessa de uma nova Idade ou


Império espiritual, foi revitalizado pelas fraternidades franciscanas, que foram,
como S. Bernardino de Siena o demonstrou com ardor paradigmático, as grandes
propagandistas do joaquimismo (inclusive afrontando Roma); se como culto
gibelino de índole templária fracassou essa esperança de um novo Império
romano - germânico, que a destruição da Ordem do Templo iria tornar definitiva,
os ideais não desapareceram, pelo contrário, perduraram na rica floração literária
do ciclo do Graal – ciclo que conheceu no reino de Portugal um sucesso imenso,
testemunhado pelas versões portuguesas da Demanda, do Livro de José de
Arimateia e do Merlin e pela popularidade dos heróis do ciclo arturiano.

O culto do Espírito Santo ocupou no nosso imaginário o lugar de um astro


central, perceptível em várias das mais altas obras de arte dos séculos XV e XVI,
o século de ouro, que culminou com D. Manuel, e bem visível ainda no século
seguinte, embora dramaticamente metamorfoseado nas Esperanças de Portugal,
quando o culto estava já proibido, esperanças que eram as do Quinto Império,
declaradas no verbo ardente do padre António Vieira, o imperador da língua
portuguesa (como o designou Fernando Pessoa, esse outro astro que cantou no
nosso século a esperança do Quinto Império redentor).

O espírito franciscano

Voltemos um pouco atrás e examinemos, essa outra coordenada essencial do


complexo de onde brotou a vocação espiritana dos Portugueses: o
franciscanismo.

Também em Portugal o franciscanismo veio corroborar o novo espírito do


tempo e dar carne, sangue de martírio e aura devocional à idéia de fim de ciclo e
de entrada numa nova era; chegou a ver-se em S. Francisco o Cristo redivivo,
vindo à Terra para pregar o Evangelho Eterno dos novos tempos; e não
esqueçamos que Santo António de Lisboa foi um vulto eminentíssimo do primeiro
fervor franciscano. A intensidade mística e ascética, a entrega total a uma vida de
pobreza absoluta, a predicação de um amor fraterno entre os humanos e do ideal
renascido de uma pureza luminosa, toda marcada pela graça do Espírito Santo,
tiveram entre nós um eco imenso.

Entre a vida económica, ansiosa de alargamento no planeta, e o espírito


religioso, de estreito confinamento, dominante até ao século XIII – afirma Cortesão
–, existia uma situação nitidamente antitética. A S. Francisco de Assis, ou melhor,
ao franciscanismo, soma das tendências e dos esforços da nova Ordem religiosa,
se deve a conciliação entre os dois conceitos – síntese do espírito que dilatou o
cristianismo a Natureza e libertou os povos do Ocidente do entrave que os
impedia de se alargar a todo o mundo. Assim se compreende que a nova Ordem
dos Franciscanos encontrasse desde o começo tão grande fervor entre a
burguesia e, por forma geral, entre as classes populares, e houvesse de sustentar
tão ásperas lutas com o clero secular e as outras Ordens.

As comunidades religiosas anteriores, recluídas à cela, ao claustro e à


cerca, reflectiam o regime da economia privada em que nasceram.

A Ordem de S. Francisco, Ordem de pregadores,


missionários e viajantes que se propunham viver fora do claustro,
levar o verbo e o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis,
corresponde, pelo contrário, ao novo regime urbano e mercantil, as
ambições expansionistas da burguesia e as reivindicações
igualitárias do povo do pré-Renascimento. Cristo, multiplicado em
milhares de apóstolos, baixava da cruz para percorrer o mundo.
Tornava a misturar-se aos pobres. A Terra transformava-se numa
vasta e luminosa Galileia. E os homens voltavam à experiência
transfiguradora dos discípulos de Emaús.

Já o alemão Thode afirmara que os Franciscanos haviam


criado um novo cristianismo, uma religião verdadeiramente
apropriada ao povo.

Mas os Franciscanos fizeram mais do que isso, pois levaram


o espírito de amor pela Natureza às suas naturais consequências no
âmbito da especulação e da procura cientifica, filosófica e política.
(Ao mesmo tempo que os mendicantes, predicadores e menores
animaram o evangelismo popular), escreve J. G. Bougerol no seu
estudo sobre St. Bonaventure et la sagesse chrétienne, (Paris, 1963),
encabeçaram também a renovação da Universidade. Desde S. Boaventura a
Guilherme de Ockam, nenhuma outra Ordem deu origem a uma plêiade tão
numerosa e original de sábios e filósofos, escreve por seu turno Jaime Cortesão;
enquanto os Dominicanos, cujo representante máximo foi S. Tomás de Aquino, se
conservavam fiéis defensores do princípio da autoridade à custa do espírito de
independência, verdadeiros conservadores dentro da Escola, os Franciscanos
representam o estimulo renovador, a tendência à observação da Natureza e as
aspirações à liberdade individual. Para o historiador português, a mística dos
Descobrimentos é de origem franciscana.

Ora, desde a primeira metade do século XIII propagou-se entre os Franciscanos a


heresia dos irmãos espirituais, que exigiam a estrita observância da regra de S.
Francisco, em particular o voto de pobreza, em breve seguidos pelos fraticelli,
todos eles adeptos fervorosos do joaquimismo e crentes de que estava iminente o
advento da Idade do Espírito Santo; os irmãos espirituais seriam a alma dos
tempos Novos, os apóstolos que alargariam a fé a todo o planeta e a toda a
Humanidade. E Jaime Cortesão acrescenta que o misticismo exasperado dos
espirituais, que se particularizou pela estreita colaboração com os príncipes laicos
e pelo culto do Espírito Santo, inspirador do apostolado cristão em todo o mundo,
foi, ao que se pode dizer [...], a forma própria que o franciscanismo tomou em
Portugal na época que precede, prepara e explica a empresa dos Grandes
Descobrimentos.

É no cruzamento de antemão imprevisível destas coordenadas; profetismo


joaquimita e movimento dos espirituais franciscanos, tendo por pano de fundo a
vocação templária da Lusitânia e por quadro natural a sua posição geográfica
frente ao oceano propicia à meditação do fim de todas as coisas da todas as
coisas da terra e ao anelo de outros mundos e outros céus, que iria florescer o
culto do Espírito Santo; culto que faz prevalecer a iluminação de cada um, em
dialogo intimo com Deus, sobre os rituais apontados à exteriorização colectiva sob
a direcção de uma casta sacerdotal que se arroga o exclusivo da inspiração
divina; culto que simbolicamente coroa Imperador do mundo vindouro, unificado
pelo Espírito Santo, um homem do povo ou uma criança, restituindo ao Poder uma
inocência só possível nessa futura Idade de Ouro final, culto que liberta os
presos, que senta todas as classes a mesma mesa fraternal para o bodo do
mesmo vinho, da mesma carne e do mesmo pão; enfim, culto que prepara a vinda
do Paracleto, o Consolador do Fim da História.

As malhas que o Império tece

Atentemos nas malhas deste Império: por um lado, um reino do extremo


ocidente, penetrado desde as suas origens históricas pelo ideário da Ordem do
Templo – manifestação paradigmática do espírito da cavalaria, a um tempo
guerreira e mística –, guerreira de uma guerra que só pode ser "santa" na sua
culminância interior, mística no propósito jurado de demandar e alcançar o Graal.

Já S. Bernardo pressentira na Lusitânia o bastão ocidental da futura igreja:


de uma religião começada a oriente, culminada em Roma, no meio-dia do seu
apogeu e, pela fatalidade do Sol, destinada a declinar a ocidente – mas a declinar,
e a desaparecer nas águas oceânicas, apenas para ressuscitar na aurora de um
novo ciclo planetário que não poderia deixar de ser o do Espírito Santo. A
demanda do Graal ganhou em Portugal as características navegantes e
esforçadas de uma procura lançada na vastidão dos mares e dos continentes, de
uma Demanda do Preste João conduzida pela Ordem de Cristo, herdeira da
ordem templária. Por outro lado, não só foi D. Dinis o templário que salvou o
templarismo em Portugal, como foi ele quem deu início ao culto espiritano, com a
sua esposa vinda de Aragão, educada por Lúlio e Villanova, profundamente
consciente da visão escatológica de Flora, marcada pelo imaginário alquímico das
transmutações. Ao transformar o pão em rosas, aponta para a transformação do
alimento do corpo em alimento do espírito, ou à espiritualização do corpo, como
indica a lição dos alquimistas; e que essas rosas são ouro mostra-o a lenda do
salário pago por Isabel aos construtores da sua Igreja do Espírito Santo, de
Alenquer: salário pago com rosas que, ao por do Sol, se transformaram em dobras
(moedas daquele tempo, como explica D. Rodrigo da Cunha).

Surgiu assim em Portugal um sentimento, que se enraizou, de investidura,


para usar as palavras de Jaime Cortesão, de investidura numa missão altíssima,
cronologicamente simétrica à de Israel, o povo eleito para converter o Mundo à fé
de Jeová, o único Deus verdadeiro. Reafirmada em profundidade a essência trina
desse Deus único na teologia trinitaria edificada pelo franciscano S. Boaventura e
demonstrada no “triteísmo” de Joaquim de Flora a homologia das eras históricas
com a natureza das Pessoas da Santíssima Trindade – sendo a história, segundo
a idéia central do povo judeu, a teofania diacrónica de um Deus síncrono de todos
os tempos –, é fácil compreender que o imaginário profundo do povo lusitano
tenha aderido ao culto do Espírito Santo com pronto entusiasmo e estremecido no
desvelar das perspectivas de tamanha investidura; unificar o Mundo, unificar as
religiões do Livro, preparar a vinda do Paracleto, abrir os selos do Último Império,
do millenium do Espírito Santo. Corte e povo, afirma Cortesão partilharam com
fervor o mesmo culto. E acrescenta: É precisamente durante o século XV que
toma maior desenvolvimento em todo o reino o culto do Espírito Santo [...]. O
Espírito Santo foi uma das maiores devoções de D. João I e de seus filhos; e
Duarte Pacheco, que deve ter nascido ainda em vida do Infante, escrevendo nos
princípios de Quinhentos, atribuía os descobrimentos henriquinos à inspiração do
Espírito Santo. Os sinais indeléveis desse estremecimento da alma portuguesa
descobrimo-los, hoje ainda, na lenda, nas tradições, na arquitectura, na arte, na
literatura, por outras palavras, no imaginário colectivo da Lusitânia.

Reflecte-o o comportamento do português, amiúde tão franciscano:


devotado no serviço dos seus semelhantes, sobretudo os pobres e os humildes,
cioso da sua liberdade, individualista, irreverente, pronto a embarcar em
improváveis aventuras, inflamando-se nos grandes ideais e deixando-se
esmorecer nas pequenas tarefas rotineiras e sem grandeza que fazem os povos
ricos. Reflecte-o negativamente a longa decadência de Portugal desde que foi
castrada a Ordem de Cristo, reprimido o culto do Espírito Santo, cortada cerce a
idéia imperial simbolizada na esfera armilar manuelina (que a ortografia de então
escrevia "espera"), reprimido como herético ou desviacionista por uma Inquisição
mais ao serviço de reis opressores do que da verdade das idéias e da fé, tudo o
que evocasse, tudo o que prometesse o reviver da esperança escatológica e
messiânica na vinda do novo Enviado de Deus, como lhe chamou Dante – o
misterioso 515, ao já foi dedicado um estudo in- titulado 515 Le lieu du miroir
(Paris, 1993) –, ou do Paracleto, na linguagem mais usada pelos Portugueses.
Refecte-o sobretudo, positivamente, o que há talvez de mais vivo na gesta
portuguesa, o primeiro arranque das Descobertas, decididas por um infante
governador da Ordem de Cristo, alumiado da graça do Espírito Santo e moído por
diuinal mistério (nas belas palavras do Esmeraldo de Situ Orbis); reflete-o a nossa
literatura, de Bandarra a António Vieira, de Camões ao Fernando Pessoa do
Quinto Imperiodblquote e da Mensagem. Reflecte-o, enfim, a pintura, a escultura,
a arquitectura, de que examinaremos a seguir alguns exemplos. Mas antes
procurarei resumir o que fica dito e esboçar em brevíssimas palavras a evolução
do culto do Espírito Santo em Portugal.

Tradição e modernidade

O culto do Espírito Santo evoluiu no nosso país seguindo os declives impostos


pelos acontecimentos históricos e pelas circunstâncias religiosas, políticas e
ideológicas. A sua introdução ficou-se a dever, como já vimos, a conjunção das
idéias exegéticas dos joaquimitas com a crise grave do cristianismo e o
sentimento, emergente no século XIII, de que estava iminente o começo de uma
nova era marcada pelo advento do Espírito Santo.

Terá sido por certo a princesa Isabel de Aragão a principal intermediária na


introdução do culto, formada como fora por grandes mestres espirituais imbuídos
de um pensamento providencialista e da noção da importância, tão marcada pelos
Judeus, dos eventos históricos como sinais hierofanicos e fruto de intervenções
divinas nos assuntos humanos. Graças ao templarismo vigente no reino de
Portugal, do qual o seu esposo foi um dos mais altos expoentes e denodado
defensor, não era só até conveniente e desejável, na perspectiva política gibelina
de D. Dinis, que tal culto se afirmasse no reino e se imprimisse no sentimento
colectivo da nação. O projecto áureo (como lhe chamou António Quadros) do
monarca lusitano brotava da firme, ainda que oculta, crença dos Templários na
conjunção futura das três religiões abraâmicas e na unificação religiosa do Mundo
como preparação para o triunfo na Terra do "Sétimo Dia", verdadeira Idade do
Ouro marcada pela espiritualidade, pela fraternidade, pela santidade.

Ao projecto dionisíaco convinha. um culto análogo, nos pressupostos


escatológicos e na obra de preparação da futura Idade, aos que haviam assumido
os Templários, agora transformados, no reino de Portugal, graqas a D. Dinis, em
cavaleiros de Cristo. A implantação do culto tomou renovado impulso justamente
com a dinastia de Avis, iniciada numa aura providencialista a que foi sensível o
cronista Fernão Lopes, que fala na sua Crónica de D. João das "diferenças dos
tempos", designando por “Sétima Idade” que durará até ao fim dos séculos: Da
septima Hidade Que See Começou no Tempo do Meestre, na quall se lebanton
outro mundo e noua geeraçom de gentes, Idade que durará ataa a fim dos segres
[até ao fim dos séculos] ou quamto Deos quizer que as todas criou” (capitulo LXII).
São também testemunho indirecto as profecias e os sonhos ou visões de santos
homens relacionados com a subida ao trono do mestre de Avis.

De resto, todo o imenso projecto henriquino, logo iniciado, de navegação e


demanda do reino do Preste João, almejando abarcar o Mundo inteiro num
mesmo amplexo de descoberta, de cristianização, de unificação imperial do
Mundo, atesta a continuidade do propósito dionisíaco e a prevalência espiritual da
idéia do advento iminente da Idade do Espírito Santo. Só uma inabalável fé no
destino providencial de um povo, por si só tão pouco apto, pelas dimensões, pela
população e pelos recursos, a dar corpo a um tamanho projecto, poderá explicar a
determinação indomável, a loucura temerária e o heroísmo inaudito das
Descobertas, sobretudo nos seus princípios, em que os mais pusilânimes não
podiam antever senão desastres, perdições de toda a sorte. É que o projecto era
essencialmente espiritual, místico e profético, e mostrava-se por isso carregado de
uma energia só análoga, na sua dimensão colossal, à que animara as Cruzadas.
Era a força invencível da cavalaria espiritual aliada a dádiva sem limites do espírito
franciscano, comungando ambas na esperança da iminente vinda
do Paracleto.

Pensa-se, como escreveu José Luís Conceição Silva no seu


livro Os Painais do Museu das janelas Verdes (Lisboa, 1981), que o
destino trágico do rei D. Afonso marca a fronteira entre dois
universos mentais opostos que no seu tempo se confrontavam com
um rigor impiedoso, o da cavalaria espiritual do fim da Idade Média,
que agonizava, e o da época moderna, que despontava, toda
voltada, cada vez mais abertamente, para a antítese da
espiritualidade quer dos monges-guerreiros – homens da De- manda, da
Fidelidade, da Honra e Cavaleiros da Luz –, quer dos poverelli franciscanos,
casados com a “irmã pobreza”, todos votados ao amor de Cristo e do próximo, a
pregação, ao repudio das riquezas e das ambições do Mundo, ao exemplo
praticante da santidade. A nova era e a era antiga confrontavam-se em França,
onde Luis XI destruía, pela intriga, pela duplicidade, pela traição, pelo assassínio,
o poderoso ducado da Borgonha, ao qual a corte portuguesa estava tão
intimamente ligada por laços familiares e ideológicos.

O encontro de Afonso V com Carlos, o Temerário, mestre da Ordem do


Tosão de Ouro e seu parente, pouco antes do desastre de Nancy, e talvez um dos
momentos mais trágicos e pungentes da história secreta e profunda do Ocidente,
para o qual Conceição Silva chamou as nossas atenções. Jean-Philippe Lccat
define admiravelmente no seu livro Le siècle de la Toison d´Or (O século do Tosão
de Ouro), Paris, 1986, a transição agónica de uma para outra idade:

Um mundo mais vasto e agora percorrido por movimentos mais intensos de


trocas, animado por novas técnicas de domínio do espaço e do tempo, aberto as
cobiças e as ambições de homens mais empreendedores e mais violentos:
financeiros, condottieri, reformadores armados de tipografias e prensas,
conquistadores. Mas fará este mundo sentido ainda? Emile Male anota que: «Os
últimos anos do século XV e os primeiros anos do século XVI indicam um dos
momentos da Historia nos quais o Apocalipse se apoderou mais fortemente da
imaginação dos homens.» 0 sentimento de um aniquilamento
próximo e do terrível Juízo apoderam-se de muitas almas. O século
tornou-se simultaneamente conquistador e pessimista. (...) Os
infernos de Jerónimo Bosch incendeiam o horizonte. 0 anjo na borda
do tumulo parece anunciar o fim de todas as esperanças. Todavia, a
luz de estrelas mortas orienta a proa das brancas caravelas para um
novo Ocidente. Nos seus sulcos lentamente se apazigua o grande
levantamento das águas que foi o século do Tosão de Ouro. Que
desaparece com os seus mercadores aventureiros e os seus
cavaleiros errantes, com os seus duques de ferro e os seus reis loucos, os seus
malditos e os seus santos, os seus demónios de sombra e os seus mestres de luz,
os seus terrores e os seus deslumbramentos. Formou ainda Erasmo e Gerard
David, Copérnico e Duirer. Mas os adolescentes impacientes – que tem a idade de
Lutero, de Rafael, de Magalhães – vão abandoná-lo ao esquecimento.

Já quase não se sente que são os seus filhos. Acrescentemos que é no


reinado de D. Afonso V que se encomenda e executa o politípico de Nuno
Gonçalves, designado por Jaime Cortesão da investidura de Portugal no Espírito
Santo. Os tempos mudavam. A mudança iniciara-se muito antes, como é evidente,
quando os grandes burgos haviam começado a suscitar o aparecimento da
burguesia, saída dos artesãos, dos mesteirais, dos comerciantes, dos agiotas, os
quais, primeiramente ao serviço dos senhores e dos monarcas, em seguida
prestando serviços a troco de pagamento (o salário da liberdade, ganha sobre os
vínculos medievais de servidão e vassalagem), tinham entrado a enriquecer e a
tomar o lugar da nobreza, que alias procurariam imitar.

Os habitantes das cidades tomavam consciência da sua solidariedade face


aos servos da terra, que eram gentes dos senhores. Constituíam cada vez mais,
perante o que restava ainda da feudalidade, um povo livre. É o movimento
comunal, que cresce um pouco por toda a parte na Europa, desde as cidades de
Itália, onde Francisco (de Assis), filho de comerciante, desposa as idéias da sua
classe burguesa antes de se opor ao espírito que a anima, até Paris, onde os
burgueses se tornam os donos da cidade e do Palácio, anota Jean-Philippe Lecat
no livro Le Siecle de la Toison d´Or atrás citado.

A noção de serviço devido transformava-se nação de custo, de preço – em


moeda – do valor do trabalho e do produto do trabalho ou da mercadoria; o
dinheiro tomava uma importância que nunca mais deixou de crescer. O gosto do
luxo, da ostentação, acrescido da vanglória arrogante das grandes fortunas e do
poder prático, económico e político alcançado por meio delas, veio ocupar o lugar
predominante nos espíritos, relegando para planos cada vez mais secundários,
irrelevantes e menosprezados os valores éticos, estéticos e metafísicos ligados a
fé, a espiritualidade, que se interroga quanto ao sentido mais fundo das coisas, da
vida e da morte, do destino do homem na Terra.
Novas filosofias, pragmáticas, agnósticas, fechadas mais e mais a
transcendência, iriam hipertrofiar as funções racionalizadoras e a importância das
aplicações cientificas e técnicas do saber experimental, descurando a meditação
da presença a si da consciência e a fenomenologia da emergência no ser da
consciência que se conhece corno tal, ao mesmo tempo que repeliam durante
longo tempo para as “trevas exteriores” a função transracional daquilo a que os
psicólogos chamam hoje o Inconsciente profundo.

Esta tendência conheceu, obviamente, inúmeros retornos, desvios,


adiamentos e até mesmo refutações, mas foi a que dominou predominantemente
desde então aquilo a que se costuma chamar "o sentido da Historia". A evolução
geral das idéias, solicitada pela ascensão das grandes fortunas, pela centralização
do poder político, pelo desenvolvimento da banca, pela decadência lenta da Igreja
e da religião, pelas guerras de motivação económica, pela hipocrisia crescente
das justificações ideológicas de actos contrários ao bem comum e a moral, pela
subversão das normas tradicionais da ética, da arte de pensar da filosofia e da
estética, deparou em Portugal, por algum tempo, com a resistência das classes
dirigentes (nobreza, intelligentsia, clero, fiéis, ainda no primeiro quartel do século
XVI, a vários dos altos ideais da cavalaria espiritual; e fiéis não apenas por
resistência conservadora às idéias evolucionarias vindas da Europa, mas porque
essa fidelidade servia de modo insubstituível e exemplar os desígnios de
expansão planetária, de evangelização dos povos, de preparação do Império
prometido da Idade Paracletica, que haveria de ser português: Império e nova
Idade não da mera abundância dos bens materiais, mas da superabundância dos
dons do coração e do espírito. Tal, frente à Europa renascentista, o “atraso” de
Portugal.

Uma história do futuro

Um “atraso” que continuaria no século XVII, como o provam os escritos do padre


António Vieira, o ilustre jesuíta que ligou o seu nome ao sebastianismo, à
restauração da monarquia portuguesa e ao anuncio da futura grandeza de
Portugal, cuja missão seria estabelecer o Reino que assegurara universalmente a
vinda do Quinto Império. Como escreve Gilbert Durand numa comunicação ao
Colóquio de Nova Deli, (1987) intitulada “Tradition de l´Age d´Or et creativite
portugaise”, o padre António Vieira, e com ele a Companhia de Jesus, representa
bem no Portugal do fim do século XVII a ressurgência, cristianizada e
nacionalizada, se podemos dize-lo, do “regresso” do rei “encoberto”, chamado
desde Ourique ao Império do Mundo.

É ainda o mito da Idade de Ouro com todos os seus harmónicos mitémicos:


o regresso, o rei escondido, a prosperidade (ligada à independência), as proezas
na luta pela independência, a retomada das conquistas do infante D. Henrique...

O padre António Vieira, através dos escritos que formam o seu "Corpus
Profético" (Esperanças de Portugal, História do Futuro, Clavis Prophetarum), não
fazia mais – como escreve o erudito Hernani Cidade no prefácio ao volume VIII da
História do Futuro (1) das “Obras Escolhidas do Padre António Vieira” (Lisboa,
1952) – “do que emprestar, com o calor do seu temperamento ardente, a nítida
claridade do seu espírito ao vago sonho a que continuava presa a alma da grei”.
Segundo um comentador anónimo do Compendio da Clavis Prophetarum, e para
usar as palavras do eminente investigador, Vieira acreditava na Consumação do
Reino de Cristo na Terra. Para efectivar tal Reinado, espiritual e temporalmente,
Cristo surgirá uma segunda vez, e por mil anos, segundo a conta do Apocalipse,
exercerá na Terra, e em plenitude, o seu poder.

A esta convicção chegara Vieira – lembra o comentador – na sua discussão


com o celebre rabino Manassés ben Israel. Convencera-o Vieira de que o Messias
anunciado pelos Profetas já tinha vindo e iniciado, pela pregação do Evangelho, o
seu Reinado na Terra. Manassés, porém, que não era menos forte em dialéctica,
persuadira por seu turno Vieira de que o Messias tornaria ainda para consumar o
que não estava mais do que incoado. Se o Catolicismo aceitasse esta doutrina,
que tanto favorecia a grande esperança judaica na vinda do seu Prometido, e sua
própria restituição á pátria perdida, seria vencida a contumaz resistência dos filhos
de Israel e era um largo passo no processo da inteira conversão do Mundo. Ainda
que se recuse a aceitar o resultado da discussão de Vieira com o rabino
Manassés ben Israel, nos termos em que a transmite o comentador anónimo,
Hernani Cidade cita o comentário como testemunho da aspiração do grande
jesuíta de reunir os filhos de Israel e os filhos de Cristo, os quais, juntos aos
pagãos do ultramar, em cuja conversão desempenhou parte tão activa no Brasil,
assegurariam a futura unidade político-religiosa do Mundo.

Qual a razão da condenação de António Vieira pelo Tribunal do Santo


Ofício ? Maria Leonor Buescu, num texto intitulado “O Corpus profético de António
Vieira” (1982), resume as dezanove reprovações e demais suposições com que
Vieira e arguido nos seguintes pontos principais: o reconhecimento de Bandarra
como poeta iluminado, a previsão do ressurgimento de «certa pessoa» que
assumiria o Império do Mundo e o advento do Quinto Império, que, sucedendo-se
ao Quarto, o Império Romano (identificado com o Império Austríaco), instauraria
um período de «mil anos ou de muitos mil que o Mundo há-de durar»... Para o
advento desse Império – o Império de Cristo, «sem termo nem limites mais que os
do mesmo Mundo e os do Céu que os cobre. são as promessas, os aplausos e as
vozes de todas as Escrituras» – é necessária a realização da formula que obsidia
o pensamento milenarista unam ovile unus pastor: a conversam universal e a
redução de todas as religiões, heresias e seitas a uma só, passando pela solução
do problema judaico, pelo qual se bate Vieira, durante os anos do reinado de D.
João IV – posição que, aliás, virá agravar o seu processo.

A mesma autora conclui que, no fundo, parece ser o pensamento


milenarista o objecto principal do discurso condenatório da Mesa.

Porque, em plena euforia patriótica da Restauração, exaltada ainda mais


pelas extraordinárias vitórias militares sobre o ex-ocupante, foi condenado
pela Inquisição o verbo incandescente e visionário de António Vieira? Porque
ousava vaticinar que Portugal seria o unificador do Mundo: “Tudo o que abraça o
mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Sol, será sujeito a este
Quinto Império [...]. todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças
obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em um só
diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo”; “Portugal será o assunto,
Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio e fim destas maravilhas; e
os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses.

Os prodígios e as maravilhas não se realizaram no Mundo, mas, insensíveis ao


tempo, repercutiram até hoje no imaginário do povo português.

Outro gigante das letras iria cantar no século XX a promessa exultante do


“Quinto Império”.

O Culto Paraclético na Arte Portuguesa

Não é possível exprimir aqui todos os traços principais da problemática que


defronta o estudioso da iconografia do Espírito Santo e, em particular, na arte
portuguesa. Não só essa iconografia é relativamente pobre, quase sempre
indirecta ou alusiva. como levanta questões teológicas difíceis, ligadas à terceira
hipóstase de Deus e ao lugar que a Terceira Pessoa ocupa na processão da
Trindade divina. Para mais, as disposições que emanaram do Concílio de Trento,
relativas à arte sagrada, condenando e banindo grande número de assuntos, entre
os quais se incluíam as representações trinitárias da divindade, as imagens
tricéfalas de Cristo e, como seria de esperar, as figurações relacionadas com o
culto do Espírito Santo, vieram agravar a situação com que se defronta o
investigador. Foram destruídas ou desapareceram muitas obras de arte em
número que nunca viremos a saber.

É a partir do que existe, e da noticia que haja daquilo que existiu, que
poderemos começar a estabelecer o quadro das representações artísticas do
ternário paraclético. (Remete-se o leitor para as notas que se reúnem sob o título
“A iconografia do Espírito Santo”, lidas na comunicação ao Congresso sobre o
Culto do Espírito Santo, que teve lugar na Biblioteca Nacional em Maio de 1989.)
Aqui a evocam-se apenas alguns pontos de natureza geral e a citar um exemplo
iconográfico que é, para mais, uma das obras-primas essenciais da nossa arte.

O Espírito Santo é quase sempre representado – ou aludido – por


emblemas e sinais, tais como a pomba, as línguas de fogo do Pentecostes, a mão
de Deus emitindo raios, mais rara e secretamente pelo recurso a símbolos como
os batons ecotes da crux decussata, na heráldica do Tosão de Ouro; ou ainda, de
modo talvez mais significativo, representado através dos seus "vigários", enviados
ou embaixadores, como o anjo Gabriel, o arcanjo Rafael do episodio de Tobias, os
três misteriosos visitantes de Abraão, etc.

O facto estranho é que quase não existem, nem na arte portuguesa nem na
européia, representações da face da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade! A
titulo de exemplo, indica-se a Terceira Pessoa que está pintada na Coroação da
Virgem, do mestre I. M, (século XV), no Museu de Basileia. Esta manifesta
escassez é confirmada pelas longas investigações e porfiados estudos que o
eminente especialista Serge Bulgakof dedicou à Teologia do Paracleto.

Bulgakof afirma, no seu livro Ie Paraclet (Paris, 1946), que “nenhuma das
revelações sobre a comunicação do Espírito Santo, tanto no Novo como no Antigo
Testamento, comporta qualquer manifestação da Sua própria hipostáse. O Espírito
Santo revela-se, podemos dizer, de uma maneira não pessoal, por uma certa
acção da Santíssima Trindade inteira, ou então do Pai e do Filho, que enviam a
sua graça.

E onde parece tratar-se aparentemente da operação hipostática do Espírito


Santo, um exame mais atento acaba por nos convencer de que se trata apenas da
graça operante do Espírito Santo e não deste, da sua presença pessoal.

E noutro passo da sua obra o mesmo erudito autor escreve estas profundas
palavras: A Face do Espírito Santo permanece velada de mistério, é incognoscível,
irrevelada em si mesma. Será esse o mistério do século vindouro, uma revelação
ainda não realizada, comparável à ignorância do Antigo Testamento quanto à
revelação pessoal do Filho A aparição da Face do Espírito Santo ultrapassara
aquilo que pode conter o «reino da graça», e só terá lugar no «reino da Glória»?
[...] Como pessoa da Santíssima Trindade, o Paracleto ainda não se manifestou...

A face oculta do Paracleto

Assim parece ser. Mas pode afirmar-se que existe pelo menos uma grande
excepção na arte Europeia, isto é, uma Face do Espírito Santo, ou representação
pessoal do Paracleto – sem que constitua apenas, indistintamente, uma das
Pessoas da Santíssima Trindade –, e ela aparece na obra-prima da nossa pintura
primitiva: é a figura central (e dupla) dos Painéis de Nuno Gonçalves.

Vários foram os estudiosos que apontaram para a relação do tema dos


Painéis com o culto do Espírito Santo, a começar por Jaime Cortesão – que
dedicou aos Painéis longas e atentas páginas da sua obra monumental “Os
Descobrimentos Portugueses” –, mas também Afonso Botelho, Belard da
Fonseca, José Luís Conceição Silva e vários outros.

O facto de a figura central do “Santo” mostrar ao rei ajoelhado uma


passagem do Evangelho de S. João que corresponde a missa votiva do Espírito
Santo basta para afirmar essa relação. Foi talvez Jaime Cortesão aquele que
ousou ir mais longe ao designar os Painéis como o testemunho da "investidura da
nação pelo Espírito Santo".

Infelizmente, o problema da identificação das personagens representadas


no retábulo tem obnubilado a compreensão do sentido ou significação profunda e
imensa da obra; e a resolução do enigma da personagem central, representada
duas vezes em posições quase simétricas, tem sofrido muito desse obcecante
empenho em identificar todas as caras a partir de dados históricos, obsessão em
que se perde amiúde o fio da meada e a inteligência global, mormente nos
importantíssimos aspectos da relação da obra com o imaginário português
prevalecente no século XV. Ao identificar a figura central com o Infante Santo, com
S. Vicente, ou com ambos, ou ainda com várias outras figuras históricas, cede-se
a fraqueza que consiste em deduzir essa identidade a partir mais dos eventos
históricos do que do discurso místico, votivo e ideológico de todo o retábulo.
Conceição Silva, na interessante obra que dedicou aos Painéis, aproxima-se mais
do que ninguém, da solução do enigma: para este autor, a duplicação simétrica do
"Santo" constitui uma feliz concepção artística para indicar ao observador que se
trata de um só indivíduo investido simultaneamente de duas funções distintas.
Uma sacerdotal, outra real. E acrescenta: "Torna-se assim evidente a identificação
do Santo com aquele misterioso sacerdote do altíssimo, várias vezes evocado na
Bíblia mas comum a outras tradições orientais e ocidentais.

Na sua dupla função, ele prepara a humanidade para receber no fim dos
tempos, (advento do Reino dos Céus) o verdadeiro Messias, o sacerdote
perpetuo, o Cristo Rei, por ele anunciado e evocado quando consagra o pão e o
vinho [...]. É portanto o Melki-Tsedek da tradição hebraica, o Preste João da lenda
cristã, o Rei do Mundo na crença asiática, S. João «o discípulo amado que ficará
até que eu volte».

A intuição de Conceição Silva leva-o ao limiar da compreensão total da


misteriosa figura da dalmática, mas importa não confundir Melquisedeque com o
Preste João ou com o Rei do Mundo estudado por Guénon; é certo que o nome de
Melquisedeque provém de uma mesma palavra que apresenta as formas de
Melek, "rei", e Maleak, "anjo" ou enviado; ademais, Mlalaki, o meu enviado (isto é,
o enviado de Deus, ou o anjo no qual está Deus, Maleak ha-Elohim), é o
anagrama de Mikael; porém, tal como surge no Antigo Testamento,
Melquisedeque, na sua riquíssima polissemia, e um símbolo da tradição
primordial; tal a tese, aliás, do estudo de Jean Tourniac sobre Melkitsedeq ou la
Tradition Primordiale (Paris, 1983). O Rei do Mundo, ou o Preste João da lenda
cristã, por seu turno, é aquele que Cristo designou para ficar à sua espera, é
portanto como que o vigário permanente de Cristo na Terra, enquanto Cristo não
regressar no fim dos tempos. Trata-se de noções próximas e que se contaminam
mutuamente na supera-abundância das suas refrações simbólicas. E não faltam
tão-pouco, na arte e no imaginário portugueses, os testemunhos tangíveis da
importância destes dois símbolos maiores.

Todavia, atendendo à importância do culto espiritano em Portugal e às suas


directas implicações joaquimitas, parece mais simples e evidente admitir que a
figura central dos Painéis é a representação da Pessoa do Espírito
Santo, por certo Enviado de Deus como o foi a Segunda Pessoa (e
portanto, Malaki), mas sobretudo como prefiguração da Face oculta
através dos séculos, tal como oculta esteve a Face do Filho antes
da sua vinda ao Mundo. Trata-se da imagem corpórea imaginada da
encarnação da Terceira hipóstase, do Espírito Santo feito Homem, pela
primeira vez simbolicamente representado na obra mais extraordinária da pintura
portuguesa, e a tal título única na cristandade.

O génio de Cortesão bem o sentiu ao escrever, reportando-se a época do


condestável D. Nuno Álvares Pereira, que já então o Espírito Santo, lume e guia
dos Apóstolos nas suas andanças pelo Mundo, se tornara, para os Portugueses, a
encarnação de Deus, que lhes era substancial e própria.

A prova rigorosa de que assim é fornece-a a geometria e a numerologia


secreta dos Painéis, que não se pode desenvolver aqui.

Bastará declarar que os Painéis assumiam a transcendência artística que


todos lhe reconhecem antes de ser clara a sua relação com o culto do Espírito
Santo. A comprovação desse vínculo pela Geometria e pelo Número, a revelação
da sua exacta e consciente intenção simbólica – apontada á invocação e
representação da encarnação do Enviado hipostático de Deus, o Paráclito do culto
lusitano do Divino Espírito Santo, não faz senão acrescentar a transcendência da
obra, confirmar o seu carácter único, no sentido mais profundo da palavra, e a
imensidade do seu alcance universal.

Se os Painéis são o testemunho mais espectacular, mais significativo e


impressionante da importância imensa do culto do Espírito Santo no imaginário da
nação portuguesa, nem por isso são o único na nossa arte (ainda que seja único,
e em toda a cristandade, o facto de neles figurar a representação, destacando-a
da Trindade, da Pessoa do Espírito Santo). Com efeito, e apesar de ainda não ter
sido empreendido um estudo sistemático da nossa arte nessa perspectiva, vários
parecem ser os exemplos, na escultura e na pintura, de obras directa ou
indirectamente inspiradas nesse culto e nos símbolos a ele pertinentes. Estão
neste caso, obviamente, as imagens esculpidas da Trindade e as representações
do milagre de Pentecostes, que inspirou grandes mestres da pintura portuguesa.

Deve ser incluído neste rol a serie das Aparições de Cristo á Virgem, que
conheceram em Portugal, no século XVI e até ao século XVII, uma voga sem
paralelo com os outros países cristãos, onde o assunto é menos frequente; a mais
extraordinária dessas Aparições é a que está hoje atribuída a Jorge Afonso, pintor
de D. Manuel, proveniente do Convento da Madre de Deus, em Xabregas; mas
outras há importantes, atribuídas a mestres como Frei Carlos, Gregório Lopes,
Garcia Fernandes, Simão Rodrigues, etc.

Se atentarmos nos leitmotifs em que pode dividir-se a iconografia e a


simbólica espiritana para lá dos objectos do próprio culto popular que interessam o
etnólogo e o antropólogo, como a coroa e o ceptro do imperador, os Impérios, ou
capelas, onde esses distintivos são guardados, as colchas e as bandeiras, os
barros e as faianças, etc., que se entrelaçam num riquíssimo tesouro de tradições
e de poesia popular, damo-nos conta de que existem três temas fundamentais: o
tema do culto ao Divino propriamente dito, o tema da vinda do Paracleto e o tema
do Quinto Império. No primeiro perfila-se uma teologia da Terceira Pessoa da
Trindade divina, no segundo evidencia-se a inclinação portuguesa de suscitar no
Espírito Santo a encarnação de Deus, que lhe é substancial e própria (como diz
Cortesão, no terceiro toma papel preponderante o milenarismo joaquimita, com as
implicações imperiais de urna política mundial de unificação das religiões e dos
povos.

Nesta perspectiva, melhor compreenderemos que o fervor popular se tenha


concentrado no culto começado em Alenquer e ao qual se manteve fiel até hoje,
sobretudo fora do continente (onde a acção dos inquisidores era mais difícil);
melhor se compreende também que nos círculos próximos da corte e no período
mais fortemente marcado pelo espírito da cavalaria e das ordens militares tenha
sido a idéia da vinda prometida do Paracleto a que terá suscitado o ardor dos
nobres e dos homens cultos mais devotados, de que é testemunho inultrapassado
o políptico de Nuno Gonçalves na sua gravidade toda interior, na sua
concentração silenciosa e intensa, na presença extática do invisível tornado corpo
e Face e investidura sagrada; e também melhor se entenderá que, na deriva e no
declínio do espírito da Idade Média, que ia dando lugar às ideologias modernas e
ao predomínio cada vez mais brutal do poder político e económico sobre todas as
outras instâncias, fosse o tema do Quinto Império aquele que viria a receber o
favor dos novos tempos.

Este tema era o mais próximo das preocupações dominantes e aquele que,
mantendo no seu foro interior o bruxulear de um culto arreigado no coração das
gentes, melhor servia o nacionalismo emergente, a centralização do poder, a
ambição de domínio. Por isso, o Quinto Império foi bandeira de patriotismo
português contra o ocupante espanhol, tal como, antes de l380, inspirou o sonho
manuelino de unificação do Mundo sob o ceptro português; depois de 1640,
inspirou, no tempo de D. João V e ainda no século XVIII, não apenas um ideário
de grandeza nacional, por vontade de Deus, como também algum escrito erudito
de uma alquimia sotereológica e escatológica, como o extraordinário tratado
alquímico Ennoea ou Aplicação Do Entendimento sobre a Pedra Philosophal, de
Anselmo Caetano Munho´s de Avreu Gusmão e Castello Branco (publicado em
edição fac-símile pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1987), onde lemos
estas palavras surpreendentes: “... o Insigníssimo e Excelentíssimo Conde da
Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes chamou em huma ocasião na minha
presença a Pedra Philosophal, Sebastianismo da Philosophia; porque todos os
homens de grande juízo são Chrysopeios, assim como os Heroes de grande
entendimento são Sebastianistas”; e logo a abrir o capítulo seguinte acrescenta:
“Estão discretamente comparados os Sebastianistas, com os Herméticos; porque
tanta duvida tem a existência do Lápis, como a do Senhor Rey D. Sebastião,
porque ambos estão encobertos".

Que melhores testemunhos artísticos podemos encontrar desses fulgores


de fé no reino de Deus na Terra, obrado por portugueses votados ao serviço da
Idade do Espírito Santo, que o Convento dos Jerónimos, no século de D. Manuel,
e o Convento de Mafra, no século de D. João V ?
O Caminho da Serpente

... à minha sensibilidade cada vez mais profunda,

e à minha consciência cada vez maior

da terrível e religiosa missão

que todo o homem de génio recebe de Deus

com o seu génio, tudo quanto é futilidade literária,

mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante.

Fernando Pessoa

É impossível resumir em breves palavras o lado esotérico de Fernando Pessoa.


Infelizmente, também é impossível compreender o pensamento, o mistério da sua
complexa personalidade e a inspiração profunda da obra poética que criou
mormente nos últimos anos da sua vida, se ignorarmos precisamente esse lado
“oculto” de um escritor cuja obra e única e riquíssima e cuja vida exterior, por outro
lado, não apresenta quase nada de verdadeiramente excepcional.

Muitos dos comentários e exegeses da obra pessoana padecem, com


efeito, do desconhecimento ou, pior ainda, da incompreensão do esoterismo
pessoano. E, todavia, paradoxalmente (ou não) esse aspecto esotérico de uma
parte importante da sua poesia e de muitos dos seus escritos em prosa tem sido
um dos estímulos fortes para a vaga de interes- se pela sua obra que se tem
verificado em Portugal e no estrangeiro.

Na verdade, à medida que melhor se conhece o espólio pessoano, creio


cada vez mais legítimo afirmar-se que o paradigma hermético constitui a fonte
secreta e o manancial mais pro- fundo da originalidade e da excepcional
inspiração filosófica (sobretudo no sentido alquímico da palavra) da sua prodigiosa
obra literária. Yvette K. Centeno, a quem se deve a divulgação em primeira mão
de um certo número de textos inéditos de natureza hermética ou hermesiana e
vários estudos importantes sobre o Pessoa esotérico e alquímico, escreveu na
nota introdutória a um dos seus livros: Correndo o ris- co de escandalizar, pode-se
mesmo que mais do que poeta Fernando Pessoa foi um filosofo hermético,
consciente e assumido. A prática da poesia, no seu caso como no dos trovadores
influenciados pelo maniqueísmo, foi uma prática mística e não apenas literária, ao
contrário do que se tem julgado. Só a leitura da documentação em que ele se
debruça sobre as doutrinas iniciáticas nos permite ajuizar do peso que para ele
tem.

Dois pólos magnéticos de importância central parecem


condensar, em algumas das suas linhas mestras, o espolio esotérico publicado,
ainda que deixando de fora uma multiplicidade de outras facetas próximas ou
distintas e numerosas variantes e refrações cuja riqueza se revela crescente à
medida que avança o nosso conhecimento: esses dois pólos são o poema "No
tumulo de Christian Rosenkreutz” e o conjunto The Way of the Serpent. Do
primeiro já se falou no começo deste breve estudo, com o segundo concluí-se.
Não obstante, mais algumas notas complementares ao tema do tumulo de
Christian Rosenkreutz para uma melhor compreensão antes de abordar, a
concluir, "o Caminho da Serpente". Por detrás dos manifestos rosicrucianos sente-
se a viva influencia de John Dee, que visitara Rodolfo II em Praga no ano de 1583.
Dee despertara aí o interesse ardente do imperador, profundamente fascinado
quer pela alquimia e o ocultismo, quer pelo misticismo imperial” e outras matérias
de índole análoga. O mago inglês viajou pela Alemanha no regresso da Boemia
para a Inglaterra, deixando um persistente rasto de celebridade e impressionando
a todos pelo seu profundo saber e pela importância, que se suspeitava ser
imensa, das suas missões. Para Frances Yates, tudo leva a crer que o movimento
Rosa-Cruz alemão foi o resultado, a 20 anos de distância, da missão de Dee à
Boémia, e na sua obra The Rosicrucian Enlightment (l972) comenta que foi um
movimento religioso incentivado por influências secretas européias, que havia
acumulado forças durante muitos anos e apontava para a solução dos problemas
religiosos, segundo linhas místicas sugeridas por influências herméticas e
cabalísticas. A mesma autora relata como o movimento Rosa-Gruz foi
violentamente perseguido quando as forças católicas dos Habsburgos venceram a
coligação protestante, sobretudo após a Batalha da Montanha Branca e a queda
de Praga, que marcou o fim de Frederico, o Eleitor Palatino. E significativo que
Fernando Pessoa, autor dos três sonetos escritos sobre o tema do tumulo de
Christian Rosenkreutz, tenha fustigado a Igreja Católica, ao mesmo tempo que se
confessava cristão na linha da tradição secreta do cristianismo (tal como John
Dee, tal como os manifestos da Fama e da Confissão); e também significativo que
a atmosfera de certos poemas pessoanos, como a Mensagem, o Quinto Império e
outros, refletiam uma certa feição ou um certo pathos rosicruciano presente nos
citados manifestos e na sua atmosfera imperial, profética, escatologia,
impregnada do sentimento apocalíptico de que estaria próximo o fim do reino do
Anticristo e de que não tardaria muito o Advento do Enviado de Deus e o inicio da
missão espiritual do Ocidente. Idéias muito próximas da noção – e da exaltada
emoção – do Quinto Império, tal como, no mesmo século, as exprimiu o nosso
padre António Vieira na Historia do Futuro, mau grado os obstáculos quase
invencíveis postos no seu caminho pela Inquisição.

Calmo na falsa morte a nos exposto

O Livro ocluso contra o peito posto

Nestes versos de um dos sonetos de “No tumulo de Christian Rosenkreutz”


escritos, segundo tudo leva a crer, já perto do fim da vida, afigura-se-nos que
Fernando Pessoa pinta um auto-retrato póstumo, enigmático e oculto. Na falsa
morte – neófito, não há morte! – calmo, posto nessa tranquilidade dos cumes que
o tumulto dos tempos e o próprio vozear das homenagens e louvores, quantas
vezes espúrios) não mais alcança perturbar.

A nós se expõe o poeta da Mensagem segurando o seu Livro ocluso –


emblema de uma obra insondável da qual o leitor adivinha a meticulosa
inteligência poética e onde se vislumbram os clarões remotos dos relâmpagos, a
um tempo dolorosos e friamente lógicos, de uma inspiração, como uma lamina
abrindo feridas no sentir e no pensar que não mais cicatrizam. Dessas feridas
corre vivo o sangue das palavras, simultaneamente reveladoras e ocultas:

O poeta é um fingidor

finge tão completamente

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente.

Mas para lá das fingidas-e-veras dores existenciais que o poeta sofre fingindo
sofrer. lê-se uma segunda dor lancinante, mais funda e irreversível. Porque, sob o
doloroso existir, que não é senão a agitação do ego e da personna, há um outro
nível mais fundo do sofrer onde o indivíduo é despido da sua mísera pele humana,
da sua vã biografia e descobre a dimensão abissal do mistério. "O seu realismo é
transcendental, declara Dalila Pereira da Costa nesse ensaio precursor que se
intitulou O Esoterismo de Fernando Pessoa (publicado há 27 anos pela editora
portuense Lello & Irmão), " nele a feição de conhecer é um esoterismo. E, noutro
passo, acrescenta: O essencial para Pessoa não está no primeiro plano da
realidade [...] porque o Mundo exterior é (só) exemplo da realidade. No exterior, no
visível, não se esgota todo o real. Para além do esotérico há o esotérico, e destes
dois planos de realidade e este último o que cumpre conhecer.

Mau grado uma lenta mas gradual tomada de consciência dos aspectos
esotéricos da obra e do pensamento de Pessoa, que se deve aos estudos
publicados por alguns excepcionais investigadores, continua a conhecer-se mal a
profundidade esotérica – hermética e alquímia, cabalística e profética – da sua
obra; esse "ocluso Livro" que na "falsa morte" Rosenkreutz-Pessoa aperta contra
o peito cada um deverá procura-lo, tentar abri-lo e esforçar-se por entende-lo. Tal
como os Irmãos da Fama Fraternitatis, que procuraram o acesso a cripta
heptagonal, depois o "túmulo" (hoc universo compendium) e por fim descobriram o
belo corpo incorrupto e glorioso do Mestre, apertando ao peito um pequeno livro
em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais
alto tesouro, nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo, como se lê
no manifesto Fama Fraternitatis Rose Crucis, citado em exergo pelo Poeta.
Faltará, por último, abrir esse Livro, se aquele que procura for
concedido chegar tão longe, para lá da própria morte – morte que só
nessa condição se torna "falsa".
Se, a partir de um certo momento, Pessoa se afastou do teosofismo – a atestá-lo
leia-se a nota deixada nos seus papeis: O que são os graus místicos, mágicos e
alquimicos ? O que é o sub-grau de Senhor do Limiar? (a confusão psychica em
Cagliostro, Blavatsky, Crowley, é isso ?) – e recusou o espiritismo, nem por isso,
como observa André Coyné no texto "Fernando Pessoa au regard de la Tradition"
(comunicação ao Encontro Internacional do Centenário de F. Pessoa, organizado
pela Secretaria de Estado da Cultura), deixou de se referir às categorias de uma
Ordem como a Golden Dawn de MacGregor Mathers, onde foi buscar as noções
de Ordem Exterior e de Ordem Interior, as designações dos graus de "Neófito", "
Adepto" e "Mestre" e respectivas subdivisões, bem como o agrupamento desses
graus e subgraus num "Átrio", num "Claustro" e num "Templo" (ver os fragmentos
dados à estampa por Yvette K. Centeno no já citado livro Fernando Pessoa e a
Filosofia Hermética; e também, da mesma autora, Fernando Pessoa: Os
Trezentos e Outros Ensaios, Ed. Presença, Lisboa, 1988.

Como procurou demonstrar o poeta e cabalista Max Holzer num longo


ensaio hermenêutico sobre o mesmo poema – intitulado Essai d´interprétation du
poème de Fernando Pessoa selon la Kabbale, (publicado na revista Exil, n. 8/9,
Paris 1978) –, Pessoa escreveu nele uma complexa epítome da árvore sefirótica
nas suas essências mais subtis, na sua descida – ou voo – mais abissal. É
impossível resumir aqui o conteúdo desse ensaio. Bastará talvez indicar que para
o filosofo e poeta austríaco"o «Livro ocluso» simboliza a «Escritura cumprida»; a
abreviatura T – o título – poderia significar Tiphereth? [...] Os discípulos que
descobrem o Corpo Glorioso do Mestre não sabem Quem são – o mistério
permanece intacto –, mas, abertos ao influxo do alto, e unidos por esse influxo ao
Mestre em si mesmos, podem continuar na via". (o verdadeiro significado do T
parece incerto perante a diversidade das interpretações. Se para Holzer pode ser
a primeira letra de Tiphereth, e se, como vimos, para Pessoa corresponde a
Templi por oposição a Mundi, para Jean-Pierre Bayard, por exemplo, trata-se de
Paracel so, ou Theophrastus Bombastus Paracelsus von Hohenheirn. Bayard
comenta: Assim se confirma o lugar que ocupa o médico suiço (1493 – 1541) nos
tratados.") Entretanto,

Calmo na falsa morte a nós exposto

O Livro ocluso contra o peito posto

Nosso Pai Roseacruz conhece e cala

Afigura-se que a mensagem que Pessoa deixa neste texto e para ele
crucial e constitui o fruto concentrado de uma longuíssima meditação e gestação.
Porque, se os três sonetos em questão são do final da sua vida, a verdade é que
já numa carta datada de 6 de Dezembro de 1915, ao descrever a Mário de Sá
Carneiro o grandíssimo abalo (a um ponto que eu julgaria hoje impossível)
provocado pelo contacto com as doutrinas teosóficas – ocasionalmente
descobertas por ter tido que traduzir livros teosóficos –, acrescenta que cousa
idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os
Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz.

Os três sonetos que constituem o poema destinavam-se, ao que parece, a


ser publicados na revista Sudoeste, a qual, como se sabe, fora criada por Almada
Negreiros; Almada terá tido o manuscrito do triplo soneto em seu poder, mas, por
razões desconhecidas, não chegou a ser inserido nesse n. 3 da revista, que foi,
afinal, o último, publicado em Novembro de 1935. No próprio mês em que, a 30,
Fernando Pessoa se calou para sempre.

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,

Dormimos o que somos, e a verdade

Inda que enfim em sonhos a vejamos,

Vemo-la porque em sonho, em falsidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?

Sem ver, ouvimos para além da sala

De ser, mas como, aqui, a porta aberta ?

Porta aberta do palácio fechado que conduz ao Livro ocluso . Livro que
Pessoa deixou escrito, ainda que ocluso , e onde, conhecendo, cala o que
conhece; porém, sem dizê-lo nos diz como – e o que é – conhecer. Pagina única
na nossa literatura.

Ainda o Caminho da Serpente

Já vimos que nos três sonetos de No túmulo de Ghristian Rosenkreutz


possuímos o testemunho heráldico de uma tradição europeia mal conhecida de
que Pessoa se apropria. De algum modo, as preocupações e as angustias do
poeta do século XX reflectem esse outro momento trágico, lancinante e confuso
do século XVII que produziu a obra de Valentim Andrex. Bernard Gorceix,
especialista do movimento Rosa-Cruz, descreve no livro La Bible des Rose-Croix
(edição P. U. F., Paris,1970) esse “enervamento” dos espíritos na Europa Central
dos tempos de Valentim Andrex, quando receberam a mensagem das Bodas
Químicas, que leram com sofreguidão e esperança porque estavam prontos a
acreditar em tudo, para não mergulhar no desespero.

Tal enervamento traduz, aliás, sob uma forma relativamente antiga, essas
eternas especulações que desde a Idade Média se impregnam do fim dos tempos,
do Juízo Final, mas também da parusia e do Reino de Cristo; no século XVI, os
anabaptistas foram os seus mais fiéis divulgadores. Além disso, os manifestos
confirmam o ardor das oposições religiosas, sobretudo nas terras protestantes, o
antipapismo sempre virulento, mas também, paralelamente, a profundidade de
uma fé que proclama ardentemente a sua fidelidade ao texto sagrado.

E, mais adiante, Gorceix aduz que "entre as confrarias da Idade Média


tardia, muito mal conhecidas – as principais das quais são as guildas e as
compagnonnages, ambas variantes do corporativismo tradicional –, e a franco-
maçonaria, a Fraternidade dos Rosa-Cruz constitui, no inicio do século XVII, o
exemplo mais notável desses «cultos secretos» que constituem uma das formas
da oposição burguesa à aristocracia principesca, mais que imperial, do século XVI
ao século XIX.

Fernando Pessoa apropria-se dessa tradição rosicruciana cristã e esotérica


da Europa predominantemente protestante, onde se distinguem também filiações
templárias, maçónicas, no sentido lato das tradições dos mestres construtores de
catedrais, e ainda ecos da alquimia árabe e da Kabbalah judaica, depois
cristianizada a partir de Pico de Mirândola. Trata-se de um confessado vínculo a
uma catena d´oro antiquíssima cujas origens são provavelmente egípcias e cujos
transplantes são judeus, gregos e árabes, desabrochando finalmente no
cristianismo esotérico.

Por outro lado, que sobre esta plataforma acidentada e profunda cresceu
um pequeno conjunto de escritos correlatos, intitulados pelo Poeta ? The Way of
the Serpent, “O Caminho da serpente”, publicados, pela primeira vez, em 1985 por
Yvette K. Centeno no livro Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética. Trata-se de
um desenvolvimento ainda mais especificamente pessoano que incorpora
inesperadas componentes do pitagorismo e que consiste na exploração do
traçado de uma figura geométrica conhecida tradicionalmente por Vesica Piscis (o
que revela o surpreendente conhecimento de um arcano ou chave geométrica
secreta dos antigos mestres construtores); e consiste, simultaneamente, no
esboço de uma profetologia ligada as raízes, vocação e destino da nação lusitana,
sob a forma daquilo a que podemos chamar uma visão da nossa história como
hierofania de um sebastianismo transcendental.

O primeiro destes grupos temáticos põe em jogo três ramos ascendentes e


três ordens de subida em cada um, mais uma ordem interna; como já vimos, este
esquema parece implicar, como figura de suporte, os dois triângulos equiláteros
unidos por um lado comum a que os antigos construtores davam o nome de
Vesica Piscis. A Ordo Solis, ou Ordo Signi (no manuscrito lêem-se as duas
variantes), e a congregação dos ingressos, sub modo, na O. de C. (que tudo
indica tratar-se da abreviatura de Ordem de Cristo) situam-se no vértice inferior do
losango. Teríamos assim três ordens, que, de facto, são três aspectos de uma só
ordem: um aspecto esquerdo, um aspecto direito e um terceiro, interno-externo,
que corresponde ao eixo vertical da Vesica Piscis; é no nível seguinte deste eixo
(correspondente ao eixo horizontal da mesma figura) que Pessoa situa a Ordo
Seibastica ou Sanctissirrrorum, a qual aparece assim imediatamente conotada
com o destino profético de Portugal. Faltam no manuscrito as referências ou
observações relativas à sétima ordem, que corresponderia ao vértice superior da
Vesica, para onde confluiriam, aí se fundindo, os três ramos ascendentes. Este
sistema de ordens iniciáticas parece homologado seguidamente a um esquema de
localizações situadas na figura-chave da Vesica Piscis e ao percurso ascendente
da Serpente, de ponto para ponto, sobre essa figura geométrica. Se recordarmos
que a Vesica corresponde, na simbólica dos antigos mestres, ao espaço de
manifestação ou encarnação do divino, The Way of the Serpent surge como uma
via sagrada que parte do nível inferior da manifestação para alcançar, através de
sucessivos degraus, o nível supremo da união com Deus (ou com um Além-Deus
que transcende o próprio Deus, como veremos). A Vesica constitui assim como
que um mapa dessa ascensão (e da descida simétrica), sendo as várias linhas e
pontos de que é feita homologados por Pessoa a diferentes qualidades, atributos e
agentes. Num dos fragmentos pessoanos, as linhas da figura geométrica em
questão são homologadas à Inteligência, à Matéria, ou Lua, à Emoção, ou Júpiter,
ao Desejo, ou Vénus, à Imaginação, ou a Saturno. Noutro fragmento, as
localizações recebem distintas atribuições, e vemos aparecer, em sobreposição; o
Caminho da Serpente subindo do Instinto, alcançando a Imaginação e passando
pela Alta Alquimia, antes de atingir o vértice superior da Vesica, que não recebe
aqui qualquer atributo escrito.

O percurso da Serpente, num outro documento semelhante, parte de novo


do Instinto, passa desta vez pelo Desejo, ou Ancia, pelo ponto central que ainda é
o da Imaginação, e através novamente da Alta Alquimia atinge o vértice superior,
aqui homologado ao ponto l1 – Identidade (1+1, 10+I).

Não nos é possível aqui estudar todas estas variantes, bastará talvez
sublinhar que Fernando Pessoa, ao designar num dos fragmentos o triangulo
superior da Vesica por Fogo atribuindo-lhe o símbolo astrológico do leão e
marcando-lhe os lados com os símbolos do Carneiro e do Capricórnio – e o
triângulo inferior por Terra, adjudicando ao seu lado esquerdo o Touro, mostra
conceber o percurso ascensional da Serpente como começando na Terra e
prosseguindo no Fogo; mais exatamente, rompe do Instinto (a verdade), escreve
Pessoa, está só no instinto directo), ponto simétrico da unidade de Deus, porém
ao nível mais baixo do mundo manifestado; ascende o Desejo – que é como uma
indistinta saudade do plano divino – e alcança o pólo central da Imaginação, a
qual não pode ser confundida com a vulgar fantasia e haverá de ser considerada,
de acordo com os ensinamentos da melhor tradição hermética (e
também mística), como o orgão-chave das metamorfoses, a
começar pela que transmuda a simples consciência das coisas em
consciência de si mesma.

A partir desse pólo de transmutação, a consciência sobe


igneamente pela Alta Alquimia, que é a arte do fogo secreto, até à
Identidade suprema, o que diz eloquentemente a que ponto, muito
antes da publicação dos celebres estudos de C. G.Jung e seus
seguidores sobre a psicologia e a alquimia, Pessoa tinha a
percepção agudíssima. dos caminhos da transmutação metálica
como processo psíquico e espiritual; e, por uma espécie de
interdisciplinaridade iniciática do melhor timbre, relacionava esse processo com a
hierogeometria de raiz pitagórica, com a simbólica da serpente (egípcia, grega e
também tântrica) e com a árvore sefirótica da Kabbalah.

Alguns dos fragmentos do espólio comportando esquemas desenhados


pelo poeta atestam uma evidente tentativa de sobrepor o tratado da Vesica e o
esquema da árvore dos sephirot; tentativa. aparentemente abandonada; na
verdade, os dois esquemas articulam planos diversos, o da emanação e o da
manifestação mas a tentativa não é menos interessante por isso, pois revela o
exercício da inteligência de Pessoa na pesquisa das analogias e das sinapses.
Entretanto, quando parecia que ao atingir o vértice superior da Vesica estaria
concluída a ascensão da Serpente, Pessoa escreve estas palavras: A Serpente,
retida pela Vesica ... No vértice nada a retém... A que corresponde esta frase
enigmática?

O poeta conhece, ou adivinha, as incontáveis refrações desse ser


ondulante, frio, repentino, que surge das fendas sombrias e súbito desaparece, de
regresso a uma inquietante invisibilidade: No feitio de S a Serpente evade-se das
duas realidades e desaparece dos Mundos e Universos, escreve o poeta. A
serpente é o arquétipo da hierofania selvagem natural, figura inicial (e iniciadora)
da magia xamânica e das religiões antiquíssimas, símbolo do nagual dos Toltecas,
velha divindade dos Egípcios, arcaica, poderosa, assustadora; para os Gregos,
duplamente enroscada na vara do caduco – emblema tutelar da medicina –
(Pessoa enrola-a na Vesica), a divindade da serpente foi, pouco a pouco,
destronada como Saturno – pelas religiões do espírito. Mas Saturno, não o
esqueçamos, é o astro sombrio e lento dos alquimistas, os quais, como a
Serpente, visitam o interior da Terra; a Serpente bronzínea de Moisés e a verde de
Goethe prometem a cura de todas as doenças (inclusive da morte) e a
transmutação do chumbo em ouro. Na impossibilidade de abordar todos os
aspectos desta fascinante constelação, examinaremos, já a seguir, apenas dois
núcleos principais que envolvem de dois modos o percurso mental e espiritual da
Serpente no pensamento de Pessoa: como Adepto e como Profeta do Quinto
Império.

Segundo os esquemas que o Poeta nos deixou, a ascensão da Serpente


rompe do vértice inferior da Vesica, por onde passa o eixo central, ou axis mundi;
este vértice corresponde, como vimos, ao Instinto. Para o tântrismo, a serpente
Kundalini esta enroscada na base da coluna vertebral, e a serpente Ananda,
guardiã do Nadir, está enroscada na base do eixo cósmico do Mundo; também na
teogonia de Hesíodo, o Oceano, cujos nove anéis se enrolam em torno do Mundo,
tem o décimo anel debaixo da criação, na raiz do cosmo, onde brota o Styx. Esta
evocação de um dos rios do inferno conduz-nos, naturalmente, aos mitos da
travessia subterrânea efectuada todas as noites pelo deus-sol, segundo o Livro
dos Mortos dos Egípcios, engolido pela boca do inferno a ocidente. A divindade
solar, prefiguração do herói que desafia a morte em demanda da ressurreição
celeste, símbolo da luz divina do espírito e da consciência, do Logos, da Razão
superior, sofre a ocultação nas trevas, desce o rio infernal povoado de horrores
(sentido para os Gregos da palavra Styx a bordo da sua barca mágica: e eis que
essa barca se transforma ela própria numa serpente, sulcando um rio que é
também uma serpente. Na sétima hora, o Sol luta com Apophis, senhor dos
infernos, na décima primeira hora a barca e puxada ao longo do intestino de uma
cobra de 1300 côvados de comprimento e, por fim, acaba sendo cuspido pela
boca dessa serpente para uma nova aurora, para uma nova vida de luz. É preciso,
escreve Pessoa, quando se e Serpente, passar em Satã para chegar a Deus.
Porém, esse aparente triunfo de Rá tem todo o aspecto de um parto; o sol é,
afinal, um filho da Terra, cuja luz e celeste.

Escreve Pessoa: Cristo, que na dispensação material cristã é um deus


cristão, e na dispensação mágica um deus, e, na dispensação divina, Deus [...] Na
segunda ordem podem ser-lhe feitas invocações, como a Osíris, que é o mesmo
deus. Ainda nos séculos XII e XIII da era cristã, se representou Cristo,
regenerador da Humanidade, sob a forma de uma serpente de bronze pregada
numa cruz enquanto, por outro lado, para os adeptos de Mani, Ele foi o Anjo que
tomou a forma da serpente para tentar Eva e Adão. Cristo, como Filho, é Osíris,
como Sol Justitiae é Rá. Escreve Pessoa: A Serpente, cujo olho direito é o sol em
sua gloria... e ainda: as lágrimas alquímicas do Cristo (a magoa alquímica do
Cristo). Recordemos, de passagem, que os pontos que constituem o meio de cada
lado dos triângulos da Vesica eram chamados, pelos antigos construtores, os
olhos da Vesica.

Entretanto, a divindade vencedora (pelo menos numa das possíveis


interpretações do mito) da serpente Apophis é ela própria uma criatura da
Serpente primordial, Atum, que cuspiu a criação inteira no princípio dos tempos. E
quando tudo estava criado, reza o Livro dos Mortos, Atum disse: Eu sou o que
permanece ... o mundo regressará ao caos, à indiferenciação, então transformar-
me-ei numa serpente que nenhum homem conhece, que nenhum deus vê.

Ouçamos Pessoa: Ordo Solis, a congregação dos infiéis, a quem só o Sol,


realidade externa, é visível, actual e simbolicamente; e noutro fragmento: A
adoração de Jehovah como culto do manifesto, em vez do culto, através do
manifesto, do não-manifestado; e ainda: O caminho da Serpente está fora das
ordens e das iniciações, está, até, fora das leis (rectilíneas) dos mundos e de
Deus. O aspecto maldito, o aspecto repugnante, da Cobra traz marcada a sua
Oposição ao Universo profundo e obscuro Mistério Magno. Ela é o "Spirito" que
Nega, mas nega mais, e mais profundamente, do que em geral se entende ou
pode entender. Nega o bem no seu baixo nível, em que é só Serpente e tenta Eva;
nega a verdade em segundo nível, em que é... (falta a palavra no manuscrito)
nega o bem e o mal no seu terceiro nível, em que é Satan; nega a verdade e o
erro no seu quarto nível, em que e Lúcifer (ou Vénus); nega-se a si mesma e a
tudo no seu quinto nível, e fuga, em que é SS, a Revelação Suprema – ... e a si
mesma se tenta e se mata. Enfim: Ela não conhece os mistérios mas os envolve,
desvia-se dos caminhos e das iniciações; deixa a ciência por onde passa; nega a
magia, que atravessa; e quando chega a Deus não pára.
Para Pessoa o Caminho da Serpente corresponde, pois, a uma via seca,
heterodoxa, fulgurante, animada de um ímpeto ou ancia que nada estanca e nada
detém, que a torna maldita aos olhos das religiões esotéricas, necessariamente
regulamentadas, conformistas, manchadas de sentimentalismo, feitas para a
maioria das pessoas e, por isso, conservadoras de rituais mais alegóricos do que
operativos. A Serpente, ao invés, simboliza a energia indomável da vida, do
instinto aquém (e além) da racionalidade, que impele o ser para todas as
aventuras – ou tentações transgressoras e que, desse modo, detém finalmente a
chave do próprio espirito nos seus sonhos e nos seus voos mais sublimes. Não
devemos, pois, admirar-nos de ver a repulsiva figura da cobra, sob a forma do
uraeus egípcio, adornar a cabeça de Ísis e constituir suporte do disco lunar; ou
aparecer corno figura emblemática da própria Atena grega, tão divinamente
superior ao mundo instintivo. Negar, no texto pessoano, é sobretudo ultrapassar,
romper os níveis sucessivos, fazer jogar a dialéctica dos opostos que relativiza
todas as certezas , todas as convicções , e, por saltos paradoxais, mortais , de
uma ambiciosa sede de conhecer, atingir o mais alto nível Deus, intensidade
suprema de todos os opostos conjugados na unidade trinitária expressa pelo
caduceu de Mercúrio: dois SS (A Revelação Suprema) que, opondo-se, ondulam e
se entrelaçam em torno de um eixo vertical imóvel, sempiterno e ligando
infinitamente o Abismo de cima ao Abismo de baixo.

Mas porque Deus é o nome que os humanos dão a esse infinito inominável
e a essa dança dos opostos que gera a infinidade dos mundos, a Serpente
quando aí chega não pára, isto é, reconhece de imediato a finitude da palavra e do
conceito – humanização dos Abismos que estão para lá de todo o humano
entendimento –, e ultrapassa esse último limite. Num fragmento, ainda inédito,
encontramos estas linhas reveladoras: The Serpent is the Holy Spirit downwards.
The Holy Spirit is the Serpent upwards.

Como quer que seja, o poeta fez da Vesica uma figura-


chave do seu Caminho da Serpente, e do conjunto de textos
assim baptizados fez o núcleo central da sua Weltanschauung (mundividência)
hermética. Se ainda houvesse duvidas a respeito da importância capital do Way of
the Serpent, como pedra-de-toque da sua metafísica mágico-alquímica
(verdadeira escada de Jacob da sua ascensão gnoseológica e mecanismo
indispensável à operação eficaz do órgão subtil da Imaginação criadora), bastaria
evocar o último aspecto que se discriminou atrás nos motivos emblemáticos do
Caminho da Serpente. É ele o aspecto profético. Porque, finalmente, a via que
vimos subir do Instinto ao Desejo, do Desejo à Imaginação e pela Alta Alquimia
atingir a Identidade a conjunctio oppositorum – não e apenas a da consciência
individual do Adepto-Poeta que prossegue o trajecto inverso da queda dos Anjos e
do primeiro Adão e que, escalando o Céu Hermético pela vertente desse Désir-
Désiré exaltado por Flamel, se aproxima da pedra filosofal; ela é também, pelo
mesmo movimento de metamorfose do Adão caído, e graças à virtude purificadora
e sublimante do Fogo secreto, a transmutação da egrégora de uma nação pela
virtude de uma voz profética, encarnada no Poeta, em cuja alma arde o Fogo do
mito. Pessoa, que na Mensagem dissera: As nações todas são mistérios / Cada
uma é todo o mundo a sós, escreveu no Way of the Serpent: A Serpente, que na
ordem divina é o SS, na ordem espiritual direita... e na esquerda... é na ordem
material direita Portugal.

Declaração incompleta mas surpreendente, que é mister ligar a menção da


Ordo Sebastica já, referida, sucessiva a Ordem de Cristo, e, por outro lado, aos
mitos saturninos do regresso do Rei Oculto. O rei Sebastião, importa sublinhar,
comporta para Pessoa uma estrutura pentagonal com cinco níveis de significação:
o de homem, o de esperança, o de símbolo, o de Mestre e o de Cristo. Melhor se
compreendera, agora o poema O Encoberto:

Que símbolo fecundo

Vem na aurora ansiosa?

Na Cruz morta do Mundo

A Vida, que é a Rosa,

Que símbolo divino

Traz o dia já visto?

Na Cruz, que é o Destino,

A Rosa, que é o Cristo.

Que símbolo final

Mostra o sol já desperto?

Na Cruz morta e fatal

A Rosa do Encoberto.

Muito haveria que dizer acerca deste último nódulo profético do Caminho da
Serpente e também acerca da importância da Serpente nas terras lusitanas,
conhecidas desde a remota antiguidade pelo nome de Ophiussa, ou Terra das
Serpentes. Serpentes que se descobrem esculpidas no subcoro da mais bela
igreja manuelina de Lisboa – os Jerónimos – por sobre os cenotáfios de Luís de
Camões e de Vasco da Gama e perto das mãos de Cristo esculpidas na pedra de
duas colunas, mil vezes beijada pelos mareantes de Quinhentos antes de partirem
para o Oceano (e depois pelos pescadores e homens do mar). Essas nervuras
ofídias são como a confirmação muda do Caminho da Serpente de Fernando
Pessoa: Serpente crística que cura e que, saída da Boca do Inferno do Ocidente
extremo, trepa até ao fecho da abobada petrificada do Céu, por sobre a memória
dos heróis da viagem ao Oriente, as terras do lendário Preste João e a mítica Ilha
dos Amores, de onde se enxerga toda a Maquina do Mundo.

Vale a pena lembrar que Fernando Pessoa afirmou: a futura civilização será
uma civilização lusitana; mas, logo a seguir, desfaz as abusivas interpretações
imperialistas ao acrescentar estas palavras profundamente paracleticas: E a
nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no
espaço, em naus que são construídas «daquilo que os sonhos são feitos». E o seu
verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e
carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente.

Na Serpente teremos assim que ver, depois de tantos


mistérios sagrados, depois de Jesus, o simbólico rei Sebastião e a
própria nação lusa e, no seu caminho, sobretudo o caminho da
Serpente do Quinto Império, do qual Sebastião é o Cristo. E o
heterónimo Álvaro de Campos conclui: O Quinto Império. O futuro
de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem
saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de
Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja
português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma
só nação, de uma só fé ?