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JORGE ALEXANDRE ALVES

ESPECIAL ESPECIAL

BUSCANDO UMA SAÍDA

Panorama do serviço de bombeiros no país sinaliza para a necessidade de se discutir uma política nacional de combate a incêndio, enquanto isto, a categoria cria estratégias para um atendimento completo

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Emergência

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D esde os primórdios da história da humanidade, os corpos de bombeiros, sejam civis, milita-

res, profissionais ou voluntários, têm co-

mo missão a prevenção e combate a in- cêndios, a busca e o salvamento de pes- soas. Estas são as funções primordiais e os motivos pelos quais a sociedade bus- cou organizar corporações de bombei- ros. Na era atual, porém, a organização da sociedade tornou-se bem mais com- plexa e, conseqüentemente, os corpos de bombeiros também. Hoje, corpora- ções civis e militares disputam um espa- ço que não teria motivos para conflitos, já que cerca de 4.000 municípios brasi- leiros não dispõem de serviços de bom- beiros. O assessor da Senasp (Secreta- ria Nacional de Segurança Pública) do Ministério da Justiça e coronel do Cor- po de Bombeiros Militar do Distrito Fe- deral, Carlos Rocha, fala que o número de municípios cobertos, atualmente, com serviços de bombeiros no país é de 12%. Segundo uma pesquisa feita junto à Secretaria Estadual da Fazenda do Rio Grande do Sul, o custo de um bombei- ro militar é de 28 reais para cada habi- tante do Estado. Isso para apenas 70 municípios, entre os 496 atendidos por quartéis da Brigada Militar naquele Esta- do. No res- tante do país, a

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situação não é diferente. De acordo com um perfil das organizações de se-

gurança pública elaborado pela Senasp,

a distribuição de gastos dos corpos de

bombeiros militares entre os Estados se mostra bastante desigual. Enquanto o Paraná, que mais teve gastos, utilizou mais de R$ 480 milhões, Tocantins, que apresentou o menor gasto, ficou com cerca de R$ 2 milhões. Na média naci- onal, o maior gasto apresentado foi com folha de pagamento, representando 65,2% do total de R$ 1,7 bilhão investi- dos em 2004. A distribuição do efetivo existente e do necessário, por sua vez, também é bastante discrepante. No en-

tanto, em alguns Estados como Tocan- tins, que possui o menor efetivo do país

- 196 profissionais -, é onde os núme-

ros do efetivo necessário e existente são mais próximos. A pesquisa constatou a existência de 60.652 profissionais no total de efetivo dos corpos de bombei- ros. Baseado neste número, verifica-se que o efetivo existente no Brasil é cer- ca de 70% do total necessário. Para o coronel da reserva e ex-oficial do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Marco Antônio Secco, o serviço públi- co é incapaz de suprir as necessidades dos serviços de emergência. “O Estado precisa assumir suas reais obrigações, dotando o aparelho público de recur- sos humanos competentes e equipa- mentos eficientes”, diz. Ele reconhece que isto implica em grandes gastos, porém lembra que o dinheiro existe, só precisa ser bem aplicado. “A utilização adequada das taxas cobradas da popu- lação e não em desvios, por exemplo, proveria os serviços públicos de meios necessários para o devido atendimento das suas necessidades”, esclarece.

OBSOLETO Outro item do estudo da Senasp, os equipamentos de transporte, demons-

trou que grande parte constitui viaturas pequenas de transporte de pessoal, vi- aturas para combate a incêndio urbano

e para Atendimento Pré-Hospitalar. As

viaturas de socorro, que têm valor ele- vado, têm prioridade secundária na hora da compra, como viaturas para comba- te a incêndio florestal e aeronaves, por exemplo. O engenheiro mecânico e

Reportagem de Lia Nara Bau

coordenador da Comissão de Viaturas de Combate a Incêndio do CB-24 da ABNT, Cesar Corazza Nieto, destaca que questões políticas podem interferir

na estrutura das corporações. “Em ge- ral, as corporações estão defasadas em relação a países de primeiro mundo, por razões políticas. A lei de licitações, em- bora intencionalmente boa, engessa a administração pública. Com certeza os bombeiros gostariam e mereciam ter os melhores equipamentos, mas a ingerên- cia política, muitas vezes, não permite que isso ocorra”, revela. De acordo com Nieto, que comercia- liza equipamentos para diversas corpo- rações do país, há excelentes profissio- nais do fogo na maioria dos Estados, sen- do que a carência está nos recursos e na forma como são administrados. “Em recente visita ao Nordeste, presenciei a carência de recursos local. No entanto, debaixo de uma lona reluzia uma viatu- ra importada, cuja plataforma aérea não podia ser usada, pois não tinha bomba própria e a rede de hidrante local não tinha pressão. Foram alguns milhares de dólares gastos onde o bombeiro não possui nem EPI de qualidade”, critica. A presença de Corpos de Bombeiros nas regiões do país é bastante crítica. O Nordeste é uma delas. No Rio Grande do Norte, entre 166 municípios, o ser- viço de bombeiros existe em apenas três cidades. O comandante geral do Cor- po de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte, Cláudio Christian Bezerril da Silva, salienta, porém, que o planejamen- to estratégico da corporação prevê mais 20 unidades de socorro, com projetos desenvolvidos pelo Corpo de Bombei- ros Militar, de baixo custo de constru- ção, operação e manutenção. A maior dificuldade, segundo o comandante, é quanto ao número do efetivo. “O efeti- vo da corporação nunca acompanhará

o crescimento populacional das cidades

a que busca servir. Contudo, aproveita-

mos o pequeno número de bombeiros para qualificá-los e melhorar a qualida- de do serviço”, pondera. Para ele, a defa- sagem deve ser contornada com a quali- ficação dos profissionais existentes, pois

um “efetivo suficiente para atender a de- manda operacional é utópico”, desaba- fa. Já no Estado de Rondônia, no Norte,

o Corpo de Bombeiros Militar cobre cer- ca de 19% do território, estando pre-

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PENINHA MACHADO

ESPECIAL

CORPORAÇÕES DEFASADAS Inserção de civis e estagiários em algumas atividades nas corporações são alternativas
CORPORAÇÕES
DEFASADAS
Inserção de civis e estagiários em algumas
atividades nas corporações são alternativas
encontradas pelos órgãos para superar defasagem

sente em dez dos 52 municípios. O co- ordenador de Operações, Ensino e Ins- trução do Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia tenente coronel Lioberto Caetano, acredita que seria interessan- te haver um plano de um período não superior a cinco anos para cada corpora- ção ter um efetivo adequado. O ex-comandante do Corpo de Bom- beiros de São Paulo e instrutor de pri- meiros socorros e resgate, Luiz Roberto Carchedi, revela que existe a Lei nº 8.239, de 04/10/1991, que regulamen- ta o serviço militar alternativo, promul- gada há mais de cinco anos, que permi- te o emprego do pessoal alistado, mas não aproveitado pelas forças armadas, nos serviços públicos de emergências, como os bombeiros, por exemplo. “Mas ela não é utilizada como deveria. E por quê? Por causa da inércia do modelo militar, atualmente, adotado e pela falta de cultura profissional e iniciativa inova- dora daqueles que têm a responsabili- dade de gerenciar os corpos de bom- beiros”, critica.

em atividades meio por funcionários ci- vis e estagiários, potencializando as ati- vidades de bombeiro para as quais são contratados”. O major da Assessoria de Comunicação Social do CBMERJ (Cor- po de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro), Alexandre da Silva Ro- cha, relata a alternativa encontrada no Rio de Janeiro. “A solução encontrada aqui foi a negociação com os municípi- os, que fornecem seus cadastros de IPTU, que servem como base para a co- brança da taxa de incêndio e, em con- trapartida, a corporação instala um des- tacamento na cidade”, explica.

O historiador e professor universitá-

rio Carlos Eduardo Riberi Lobo, do Cen- tro Universitário Assunção, de São Pau-

lo/SP, está realizando doutorado com o tema Bombeiros e Defesa Civil em São Paulo, 1964-2000. Internacionalização, Americanização e Técnicas Nacionais nas suas Atividades. O estudo compara o serviço de bombeiros de São Paulo com outros países, em especial, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai, além dos Es- tados Unidos e França. Para Lobo, a al-

ALTERNATIVAS Enquanto o Estado não pode arcar com despesas de aumento de efetivos

ternativa viável seria a atuação em con- junto das três esferas administrativas, fe- deral, estadual e municipal. “O Estado

e

corporações, entidades militares, civis

poderia atuar com planos de reequipa-

e

voluntárias sugerem alternativas para

mento e manutenção dos bombeiros em

contornar a situação. O diretor secretá-

todo o país”, afirma.

rio da Fecabom (Federação Catarinense de Bombeiros Comunitários) e coman- dante do 5º Batalhão de Bombeiros de Lages/SC, Altair Lacowicz, cita uma al- ternativa: “A substituição de bombeiros

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O assessor da Senasp, Carlos Rocha,

coordenou o trabalho de planejamento estratégico dos corpos de bombeiros mi- litares do Brasil. “No diagnóstico da se- gurança pública realizado pela Senasp

já se identifica a necessidade do fortale-

cimento de uma política que privilegie os municípios”, destaca. Para ele, contor- nar os obstáculos de recursos para am-

pliação do serviço de bombeiros é uma questão de visão e atitude do governo

e da sociedade. Segundo Rocha, este

primeiro trabalho de planejamento estra- tégico autoriza a Secretaria a avançar em um plano de contingência nacional. “Por meio desse planejamento estraté- gico é possível identificar os pontos fra- cos, estabelecendo um esforço para su-

perar as dificuldades, bem como os pon- tos fortes, reforçando-os e utilizando-os como modelos a serem seguidos”, ava- lia. Além destas melhorias, a Senasp visa

o estabelecimento de ações para padro- nização de procedimentos com a meta de definir uma legislação nacional de segurança contra incêndio e pânico. Desta forma, desde 2003, os corpos de bombeiros militares passaram a fazer parte do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e, com a regulamenta- ção da Lei 10.746/03 entraram também para o rol das contemplações do Fundo Nacional de Segurança Pública. “Essa inclusão traz ao Brasil um novo prog- nóstico para o desenvolvimento da pre- venção e da segurança”, frisa Rocha. Para o comandante Silva, do Rio Gran- de do Norte, a alternativa é investimen- to. “Hoje os corpos de bombeiros têm um potencial enorme de prestação de serviços, principalmente, nas lacunas deixadas pelo Estado no apoio social. Assim, qualquer governante um pouco mais atento investiria nos Corpos de Bombeiros Militares e, conseqüente- mente, esse investimento seria transfor- mado em ações às comunidades”, ava- lia. Já para Carchedi, o importante é ter uma política pública que contemple o problema. “O Brasil não tem uma Agên- cia Nacional de Bombeiros como, por exemplo, existe no Chile. Uma agência que fomentasse a criação de corpos de bombeiros voluntários, com aporte de recursos, tecnologia, treinamento e su- porte administrativo, seria o caminho”, aponta. Ele relata que em recente via- gem à Argentina e Chile viu cidades com 517 habitantes com rede de hidrantes

e guarnição de bombeiros, enquanto

São Paulo tem cidades com mais de 350 mil habitantes sem serviço de bombei- ros.

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CORPO DE BOMBEIROS DE JOINVILLE/SC

Instituição em suspenso

Falta de recursos e efetivo coloca o modelo militar em xeque

Militares, civis, voluntários, comunitá- rios, municipais. Para a sociedade, não importa a origem do profissional que vi- rá em seu socorro, desde que ele esteja capacitado para tal. Atualmente, estas corporações mesclam-se pelo país, aten- dendo a demandas de diferentes comu- nidades. A mais antiga delas e o mode- lo oficial de bombeiros, presente no Bra- sil há 150 anos, é a corporação militar. No entanto, esta instituição parece so- frer com problemas políticos e financei- ros. “O número total de bombeiros no país, aproximadamente 60 mil, é insufi- ciente para uma população de 180 mi- lhões. O ideal seria a existência de um bombeiro para cada mil habitantes, ou seja, deveria existir no país cerca de 180 mil bombeiros, o triplo dos efetivos atu- ais”, lamenta o historiador e professor Carlos Lobo. Para isto, ele aponta a atu- ação conjunta como uma saída. “Nesse sentido, também o Governo Federal po- deria fazer mais, tanto com a compra de equipamentos e o desenvolvimento da indústria nacional na área de Defesa Civil, como na Criação de um Corpo de Bombeiros Nacional que supervisio- naria a ação dos Corpos de Bombeiros Militares, voluntários, municipais e priva- dos e coordenaria a ação no caso de u- ma tragédia de grande porte”, destaca. Com base em sua tese, Lobo afirma

que a situação do Corpo de Bombeiros

de São Paulo é boa, tanto em relação a

equipamentos, treinamentos quanto ca-

pital humano. De acordo com o tenente Miguel Jo- das, do Departamento de Comunicação

Social do Corpo de Bombeiros do Esta-

do de São Paulo, o efetivo atual da cor-

poração é de 10.008 profissionais. Se- gundo ele, a capacitação é a base da qualidade do atendimento. “O treina- mento e os diversos cursos realizados nos permite prestar um serviço cada dia mais profissional e com qualidade”, aponta.

VÍNCULO Para o coordenador da Comissão de Viaturas de Combate a Incêndio do CB- 24, da ABNT, César Nieto, o trabalho

de todas as pessoas engajadas nos bom-

beiros é de uma dedicação exemplar, sejam civis, militares ou voluntários, mas a forma de organização é o grande em- pecilho. “Por que essa formação militar?

O inimigo do bombeiro se combate

com conhecimento técnico e não com armas”, sentencia. Carchedi lembra que no Brasil sempre se procura seguir os modelos norte-americanos ou europeus, mas, no caso dos bombeiros, parece que

se caminha na direção contrária. “O nos-

so modelo, militar e estadual, é único

“

no mundo e começo a crer que não são os outros que estão errados. A persis- tência na manutenção da atual estrutu-

ra só fará aumentar a nossa distância dos

modelos reconhecidamente eficientes na prestação de serviços de emergên- cia”, avalia. Jorge Alexandre Alves, paramédico, Fire Chief Officer NYSFA e diretor técnico da Fire & Rescue College

Brasil, lembra que, no Brasil, o bombei-

ro militar entra primeiro para uma corpo- ração a partir de um concurso público

e depois será formado, porém, não é

reconhecido legalmente como profissi- onal bombeiro, mas sim como militar. “Como conseqüência disto, temos o au- mento dos custos para o Estado e a fal-

militar. “Como conseqüência disto, temos o au- mento dos custos para o Estado e a fal-

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CBMERJ

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ta de profissionais para o mercado pri- vado e mesmo público em outras esfe- ras de governo”, destaca. Para ele, exis- te uma carência de instituições civis, públicas e privadas de ensino técnico e superior com cursos de formação e capacitação de profissionais das áreas de proteção contra Incêndio e emergên- cias. O Coronel da reserva e ex-oficial do Corpo de Bombeiros de SP, Marco Secco, compara que os corpos de bom- beiros públicos estão investindo muito na formação e no aprimoramento téc- nico, mas estão engessados pelo poder público, principalmente, no que tange à falta de recursos financeiros e ao per- fil militar imposto para uma atividade que em todo o resto do mundo é civil. Em quatro Estados brasileiros, os Cor- pos de Bombeiros são vinculados à Po- lícia Militar: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Bahia. Lobo explica que, desde a Constituição de 1988, foi pos- sível a separação dos bombeiros das Polícias Militares, pois, anteriormente, os bombeiros militares eram somente se- parados no Rio de Janeiro – primeiro bombeiro do país, fundado em 1856 - e no Distrito Federal. “Portanto, o mode- lo de bombeiros vinculado à Polícia Militar parece ser cada vez mais uma exceção. Nos Estados onde os bombei- ros são vinculados à PM o número de bombeiros é insuficiente, pois a PM tem como função principal a segurança pú- blica, e não a Defesa Civil, portanto, as

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Emergência

necessidades dos bombeiros são aten- didas em segundo plano, quando são atendidas, e a defasagem em equipa- mentos e pessoal é enorme”, salienta. Como exemplo, ele cita o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, que possui, aproximadamente, 15 mil bombeiros, o do Distrito Fede- ral, com 6.500 e o de São Paulo com dez mil, quando necessitaria de pelo me- nos o triplo. Os dois primeiros são bom- beiros autônomos em relação à PM. “A separação dos bombeiros seria até be- néfica para as Polícias Militares, que poderiam preencher o efetivo dos bom- beiros com mais policiais nas funções de policiamento”, avalia.

EFICIÊNCIA Tenente coronel da reserva, Paulo Chaves, ressalta, no entanto, que este não é, necessariamente, um indicador de qualidade ou eficiência. “Uma corpo- ração independente, teoricamente, tem muito mais condições de ser mais efi- ciente, mas este não é o principal indi- cativo”, afirma. Para ele, um exemplo disto são as corporações do Rio de Janei- ro e de São Paulo. Em São Paulo, a cor- poração, que pertence à Polícia Militar, possui quatro coronéis e está presente em cerca de 140 municípios. Já no Rio de Janeiro a corporação, que sempre foi independente, possui mais de 40 coro- néis e está presente em cerca de 70 mu- nicípios. O major Alexandre Rocha, do

Forma de organização dos bombeiros é um grande empecilho, segundo alguns profissionais

CBMERJ, também frisa a defasagem do efetivo da corporação. “Ao longo dos últimos anos, foram criadas várias no- vas unidades no Estado. Porém, estamos há quatro anos sem a realização de con- curso para admissão de soldados, o que nos causa um déficit de efetivo para suprir plenamente os quadros dessas unidades”, pondera. A corporação de Rondônia desvincu- lou-se da PM em 1998 e, de acordo com

o tenente coronel Caetano, a desvincula-

ção trouxe benefícios. “Após a desvincu-

lação a corporação passou a estabele- cer convênios com o Detran e Infraero, por exemplo, e também criou o Fundo Especial do Corpo de Bombeiros (Funes- bom), que é hoje uma lei estadual que prevê a cobrança de taxas específicas

pelos serviços não emergenciais presta- dos pela corporação”, explica. Carlos Rocha, do Senasp, vê com bons olhos a desvinculação. “Entendemos que quem se especializa atende melhor em todos os sentidos. Basta fazer uma análise e pesquisa em qualquer corpo de bombeiros do Brasil que se separou

e observar sua evolução. Seja nos as-

pectos de qualidade no atendimento, tempo-resposta, formação e qualifica- ção, aquisição de pessoal e material e

satisfação da tropa, do comandante ao soldado. Quem ganha com isso, eviden- temente, é a sociedade, o cidadão. Cre- mos que em pouco tempo todos os Es- tados estarão desvinculados”, aponta. Para Carchedi, os Estados vinculados são atrasados no que diz respeito

à gestão pública moderna. “Infelizmen-

te, a sociedade nesses estados ainda não atentou para o alto custo do serviço. Para se ter uma idéia, no Estado de São Paulo para ter um tenente bombeiro atuando com proficiência, são necessá- rios cinco anos e meio de formação (pri- meiros quatro anos formando-o como policial, depois um ano e meio, como bombeiro), tudo pago com os impostos da população. Mas Carchedi crê que os Corpos de Bombeiros Militares vivem uma fase de definição. “Precisam deci- dir se querem permanecer com o mo- delo de estrutura organizacional militar que é custoso, burocrático e pouco efi- ciente para a prestação de serviços de emergências, ou migrarem para mode- los mais enxutos e adequados para pres- tarem serviços de qualidade no atendi- mento de emergências”, sentencia.

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Conquistando espaço

Voluntários se aperfeiçoam e se apresentam como alternativa

No Brasil, elas ainda são um fenôme- no sulista. Enquanto a sua expansão é vista com reserva por uns, outros acre- ditam que ela seja a melhor alternativa. Mas o que a maioria concorda é que a criação de corporações voluntárias pode ser uma solução em complemento aos Corpos de Bombeiros Militares. Em San-

ta Catarina, ao todo, são 49 corporações

voluntárias e no Rio Grande do Sul, 37.

Além destes dois Estados, há cinco corporações voluntárias em Minas Ge- rais, duas em São Paulo e duas no Rio de Janeiro.

O tenente coronel da reserva Paulo

Chaves é também consultor de bombei- ros voluntários e, por isto, conhece bem

a realidade das corporações do sul do

país. “O trabalho dos Corpos de Bom- beiros Voluntários é de boa qualidade,

bem administrado, possui boas instala- ções e viaturas e atende em um tempo- resposta muito bom”, frisa.

O presidente da Voluntersul (Associa-

ção dos Bombeiros Voluntários do Esta- do do Rio Grande do Sul), Frederico Zor- zan, incentiva a instalação de voluntári- os em municípios pequenos. “Tanto nós, da Voluntersul, como os membros de entidades de outros estados, temos por consenso estimular a criação de bom- beiros voluntários em cidades com po- pulação entre 2.000 e 50 mil habitan- tes. Os municípios pequenos são maio- ria no país e seu atendimento através da mobilização comunitária daria fôle- go ao Estado para concentrar seus re- cursos nas cidades maiores”, ressalta. Segundo César Nieto, do CB-24, a cria- ção de corporações voluntárias e muni- cipais é a principal alternativa para con- tornar a situação. “Onde o Estado não pode estar, deve abrir espaço para o bombeiro voluntário, já que não pode- rá investir em aumento de efetivos em

curto prazo”, frisa. Primeira instituição do gênero no Bra- sil, a Sociedade Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville/SC completou 114 anos em 2006. Inspirada no mode- lo adotado na Alemanha, a corporação conta hoje com cerca de 2.000 pesso- as, entre voluntários e efetivos. Para o

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comandante da instituição, Valmor Maliceski, as entidades civis desempe- nham um papel importante onde o Es- tado não está presente. “O que o cida- dão quer é ser atendido, não importa se por um bombeiro militar ou civil”, res- salta. Ele salienta que o sistema voluntá- rio evoluiu muito, reflexo do amadure- cimento das corporações. “Hoje, refu- tamos qualquer instalação de bombei- ros voluntários em municípios novos sem que haja uma avaliação preliminar de viabilidade técnica e operacional, atuando em sintonia com os organismos daquele município”, afirma. Para o historiador e professor Carlos Lobo, os bombeiros voluntários realizam um trabalho fundamental no país. “Se formos avaliar, em outros países, o mo- delo de bombeiros voluntários é predo- minante. Nos EUA e Canadá correspon- dem a cerca de 70% das instituições, o mesmo ocorrendo na França, Alemanha

e em outros países da Europa, como no

Japão também”, ressalta. Para Luiz Roberto Carchedi, as cor- porações de bombeiros voluntários são essenciais em um país que quer ter uma política de Defesa Civil. Ele acredita que existam condições e espaço para os corpos de bombeiros voluntários, sejam comunitários ou municipais, exercerem seu papel na sociedade. Para o tenente coronel Caetano, os bombeiros voluntários realizam um tra- balho louvável no Sul do país, mas de- vem ser observadas as especificidades de cada região. “É importante que se observe o perfil cultural da localidade, pois nem sempre a prestatividade que se verifica no Sul do país, onde os esta- dos são bastante desenvolvidos e com uma identidade cultural muito forte, se aplica a estados novos”, conclui.

DIVERGÊNCIAS Mas nem todos são a favor do mode- lo voluntário como uma entidade civil

autônoma. Alguns profissionais defen- dem o voluntariado, porém, atrelado à força estatal. O diretor secretário da Fe- cabom, Altair Lacowicz, explica que, até

o final de 2006, 5.696 bombeiros comu-

secretário da Fe- cabom, Altair Lacowicz, explica que, até o final de 2006, 5.696 bombeiros comu-

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PENINHA MACHADO

ARQUIVO PESSOAL

ESPECIAL

nitários - nome que o voluntário recebe quando atua nas organizações estadu- ais - foram formados pelo Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina para atuarem no serviço voluntário da Instituição. “Somos totalmente a favor dos bombeiros voluntários, porém, no nosso entendimento, serviço voluntário

é

o serviço prestado sem remuneração,

e

não como ocorre em algumas cida-

des onde o serviço não tem a participa- ção do Estado”, afirma Lacowicz. Rocha, da Senasp, concorda. Ele lembra que a Lei 9.608/98 (Lei do Serviço Voluntário) estabelece que se trata de “atividade não remunerada prestada por pessoa física a entidade pública ou privada de fins não lucrativos”. “Contrariando esse dispositivo, muitos municípios de Santa

Corpo de Bombeiros Municipal - Organiza- ção civil mantida pelos municípios, com a finalidade de
Corpo de Bombeiros Municipal - Organiza-
ção civil mantida pelos municípios, com a
finalidade de auxiliar nos serviços de preven-
ção e combate aos incêndios, no salvamento
de vidas e na proteção dos bens, em caso de
desastres e em outras atividades de Defesa
Civil.
Corpo de Bombeiros Voluntários - Socie-
dade civil sem fins lucrativos, com a finalidade
de auxiliar na prevenção e combate a incên-
dios, no salvamento de vidas e proteção dos
bens, em caso de desastres e em outras ati-
vidades de Defesa Civil.
Corpo de Bombeiros Comunitário ou Misto
- Organização civil que dispõe, além de volun-
tários, de funcionários municipais ou estaduais,
com a finalidade de auxiliar nos serviços de
prevenção e combate a incêndios, no salva-
mento de vidas e proteção dos bens, em caso
de desastres e em outras atividades de Defesa
Civil.
Corpo de Bombeiros Particular ou Privado
- Organização civil, do tipo Brigada de Incêndio,
mantida por empresa ou grupo de empresas,
comvínculo empregatício próprio, que normal-
mente atua na área física de suas instalações,
podendo prestar socorro à comunidade onde
está inserida, em casos de desastres, de forma
sistemática ou quando solicitada.

Fonte: Voluntersul

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Emergência

ou quando solicitada. Fonte: Voluntersul 26 Emergência Voluntários: no Brasil eles ainda são um fenômeno sulista

Voluntários: no Brasil eles ainda são um fenômeno sulista

Catarina e Rio Grande do Sul mantêm entidades privadas, denominadas Cor- pos de Bombeiros Voluntários, cujos fun- cionários são assalariados, sendo mes- clados com voluntários, esses prestan- do serviços em horários de suas folgas. E funcionando à revelia do órgão oficial do Estado. Segundo a Constituição Fe- deral, os serviços de bombeiros são de competência exclusiva do Estado”, sen- tencia. Para Rocha, um modelo a ser seguido são as corporações comunitá- rias existentes em Santa Catarina. “Em Santa Catarina há um trabalho bastante desenvolvido com estas entidades vo- luntárias, denominado bombeiros comu- nitários, onde o Estado participa ativa- mente com bombeiros militares e o município usa a força do voluntariado. É, sem sombra de dúvidas, um grande programa, que conta com o nosso a- poio”, analisa. Silva, comandante do Corpo de Bom- beiros Militar do Rio Grande do Norte, acredita que não estamos culturalmen- te maduros para a realidade do volunta- riado. “Tenho experiências boas de ações conjuntas, porém, também pre- senciei pessoas usando da credibilidade de um serviço para auferir lucro pesso- al”, aponta.

COMUNITÁRIOS Uma alternativa encontrada para con- tornar as divergências, já apontada por Rocha, da Senasp, é a criação de Cor- pos de Bombeiros comunitários ou mis- tos. O modelo comunitário une a força

do voluntariado às forças dos poderes público estadual e municipal. Altair Lacowicz relata que o modelo comuni- tário, atualmente, atende 63,53% da população catarinense. “Nesse mode- lo, o Estado continua sendo o principal executor e também é responsável pe- los serviços, entretanto, tem a partici- pação da prefeitura e da comunidade de cada município”, esclarece. Os Corpos de Bombeiros Comunitá- rios são regulados mediante convênio entre Estado e município, cabendo a cada um dos entes públicos uma parte do custeio. “Os bombeiros comunitári- os (voluntários) prestam serviço junto ao Corpo de Bombeiros do Estado, medi- ante termo de adesão, conforme previs- to pela Portaria da Secretaria de Segu- rança e Defesa do Cidadão e Lei Fede- ral 9.608/98”, explica Lacowicz. “Enten- demos que o modelo que vem sendo adotado em Santa Catarina é uma gran- de solução, principalmente, para os mu- nicípios menores”, salienta. Paulo Chaves cita, porém, alguns obs- táculos enfrentados pelas corporações mistas. “Em dois municípios de São Pau- lo que visitei, constatei alguns conflitos gerados, principalmente, em decorrên- cia de certa incompatibilidade do mili- tar em aceitar os municipais e voluntári- os como parceiros, achando, muitas ve- zes, que são seus subordinados”, lamen- ta. Zorzan, no entanto, acredita não ha- ver problemas na atuação conjunta de militares e civis. “Na hora de uma ocor- rência, bombeiro é bombeiro, trata-se

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de uma irmandade acima da esfera de governo. Não interessa se o vermelho do caminhão que chega é do Estado ou foi pago por uma comunidade. Não me recordo de alguma vez em que voluntá- rios e militares envolvidos em uma mes- ma ocorrência tenham tido problemas de relacionamento ou o trabalho tenha sido prejudicado por causa de suas ori- gens”, aponta.

CIVIS Uma categoria relativamente nova no país, mas que vem crescendo, é a dos bombeiros civis ou privados. O bombei- ro privado possui seu espaço definido, mas ainda não regulamentado em lei. Ele executa um trabalho de primeiros socorros, prevenção e combate a incên- dios e acidentes nas instalações indus- triais, comerciais, casas de espetáculos e grandes condomínios. A formação do bombeiro civil é recomendada pela nor- ma da ABNT, a NBR 14608 (Bombeiro Privado), que foi recentemente revisa- da e se encontra em consulta pública até 11 de maio. O bombeiro privado ainda é um fenômeno concentrado no Sudeste brasileiro, pois a categoria está mais presente em São Paulo, Rio de Ja- neiro e Minas Gerais. “Acredito que tudo tem o seu tempo e, um dia, teremos uma

Federação. Tenho certeza que em bre- ve iremos nos organizar”, avalia o presi- dente da ABCERJ (Associação dos Bom- beiros Civis do Estado do Rio de Janei- ro) Wesley Pinheiro. Já as corporações de bombeiros mu- nicipais são poucas no país. Elas são for- madas por bombeiros civis e, normal- mente, ligadas à prefeitura. “Elas enfren- tam grandes dificuldades por falta de recursos, por falta de treinamento ade- quado e de apoio dos bombeiros mili- tares”, aponta Chaves. Um bom exem- plo é o Corpo de Bombeiros de Itatiba/ SP, estruturado conforme os padrões Norte-Americanos. Jorge Alexandre Alves implantou-o e, desde 1999, ele funciona sem dependência do Estado quanto a recursos materiais e humanos. “O problema do bombeiro municipal é que quando muda o prefeito, nem sem- pre a escolha do comandante segue cri- térios profissionais e técnicos, aí o resto da história todos nós já conhecemos”, revela Chaves. Alves pondera: “Qualquer serviço pú- blico está sujeito à má gestão, mas en- tendo que o bombeiro municipal deve estar contemplado na estrutura adminis- trativa do município, através da legisla- ção com definição de formação de seus servidores”.

FORMANDO VOLUNTÁRIOS

Corporação autônoma requer preparo e capacitação técnica dos membros

Montar uma corporação de bombeiros volun- tários autônoma não é uma brincadeira. Manter esta corporação atendendo a sociedade também exige muito preparo e capacitação técnica. O que acontece, na maioria dos casos, é que a prefeitura entra comviaturas e instalações físicas, ou, então, há a participação de empresas ou entidades locais. Em seguida, deve-se pensar na formação dos profissionais que irão atuar na linha de frente, ou seja, no atendimento à população. Em Santa Catarina, os voluntários são formados na Escola Estadual de Bombeiros, em Jaraguá do Sul. “O currículo e todos os conteúdos pro- gramáticos foram ajustados e homologados e contarão com a certificação do Senac”, destaca Valmor Maliceski. No Rio Grande do Sul, a forma- ção do bombeiro voluntário é realizada em parceria com Universidades, Exército e Academia de Bom- beiros do Distrito Federal e do Chile, entre outras.

LEI A atividade voluntária é assegurada pela Constituição Federal, pela Lei nº 9.608 de 18/02/ 1998 e Lei nº 9.790 de 23/03/1999, além das le- gislações específicas de cada Estado. A Lei Fe- deral 9.608 regulamenta o serviço voluntário no país e fornece amparo legal para as Organizações Não Governamentais de Bombeiros Voluntários e Prefeituras. Já a Lei Federal 9.790 – conhecida como Lei OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) -, tem como principal objetivo restringir as ações do Estado àquelas funções que lhe são próprias, reservando os serviços não ex- clusivos para a iniciativa privada. Ainda assim, o professor e historiador Carlos Lobo crê que uma legislação que regulamentasse a profissão de bombeiro, tanto militar quanto civil ou voluntário, seria muito importante para a cate- goria. “No caso dos bombeiros voluntários, se al- gum bombeiro falecer ou ficar inválido durante uma ocorrência, quem garantirá a aposentadoria dele ou dos seus familiares? Realmente deveria haver uma regulamentação que pudesse dar conta de todos os tipos de bombeiros existentes no país”, complementa.

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que pudesse dar conta de todos os tipos de bombeiros existentes no país”, complementa. MARÇO /

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CBMERJ

ESPECIAL

Criando soluções

Educação e parcerias também são alternativas empregadas

Para minimizar as dificuldades enfren- tadas e suprir a carência da sociedade nas emergências, muitas corporações in- vestem no aspecto educacional da co- munidade, através de palestras e disse- minação de informações sobre primei- ros socorros e prevenção de incêndios. Valmor Maliceski, Comandante da Soci- edade Corpo de Bombeiros Vountários de Joinville, acredita que o preparo dos cidadãos permite reduzir as perdas de vidas e de patrimônio. “Por que não e- ducar preventivamente e ensinar o míni- mo de técnicas de atendimento emer- gencial? Há registros de mortes que o- correm pela demora do atendimento, embora, haja pelo menos 20 expecta- dores próximos”, lamenta. A educação da sociedade, para Frederico Zorzan, da Voluntersul, é fundamental. “Em servi- ços de bombeiros, costumamos dizer que a melhor ocorrência é a que não ocorre. E isso se consegue com preven- ção. É uma realidade que faz parte dos voluntários e, tenho certeza, faz parte também do dia-a-dia dos bombeiros mi- litares, dos mistos, privados ou munici- pais”, acredita. Zorzan cita o Decreto Federal 5.376/05, que criou o Sistema Nacional de Defesa Civil. “Tudo o que procuramos fazer está reforçado ali, onde menciona a importância de se pre- parar vários setores da comunidade para ações de defesa comunitária”, salienta.

O historiador e professor Carlos Lobo vê essas medidas como excelentes. “Em São Paulo, o Corpo de Bombeiros, insti- tuição que estudo no meu doutorado, vem realizando essas medidas preventi- vas desde os grandes incêndios da dé- cada de 1970 ocorridos nos edifícios Andraus e Joelma, diminuindo conside- ravelmente o número de incêndios atra- vés do trabalho de prevenção”, relata. Para Wesley Pinheiro, da ABCERJ, no en- tanto, mudar a cultura do país levaria anos. Paulo Chaves concorda: “O trei- namento da população é fundamental, mas, para isso, é necessário existir um corpo de bombeiros no município para fazer o treinamento das pessoas e os atendimentos de emergência”, avalia. Para o Comandante Cláudio Christian Bezerra da Silva, da corporação do Rio Grande do Norte, a prevenção é a prin- cipal arma dos bombeiros no Brasil e pode estar nas escolas. Luiz Roberto Carchedi diz que a educação pública faz parte das missões dos corpos de bombeiros de todo o mundo. “Propagar a prevenção é dever dessas instituições, mas os conteúdos são escolhidos de mo- do não padronizado. Uma Agência Na- cional poderia estipular conteúdos mínimos e nacionais”, analisa. Jorge Alexandre Alves acredita que mesmo com a divulgação maciça em campanhas de âmbito nacional, ainda

PREPARANDO A SOCIEDADE Educação para medidas emergenciais é atividade adotada por todos os Corpos de
PREPARANDO
A SOCIEDADE
Educação para medidas emergenciais é
atividade adotada por todos os Corpos
de Bombeiros

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teremos um período de aprendizagem muito acima de nossa melhor expecta- tiva de resultados. Marco Secco, coro- nel da reserva, admite que os resulta- dos sejam razoáveis, entretanto, crê que ainda é muito pouco. “Acredito que de- veria ser implantado um programa edu- cacional a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, onde professores são treinados para aplicação de um progra- ma escolar”, afirma.

CÓDIGO Muitos Estados possuem o seu Códi- go de Proteção Contra Incêndio, mas a necessidade de criação de um Código Nacional já é sinalizada por muitos pro- fissionais e especialistas. Carlos Lobo crê que a iniciativa seria interessante para o setor de incêndio. “Criaria apenas uma legislação para todo o país, com possí- veis adaptações em cada Estado ou re- gião. Não existem, por exemplo, dois códigos nacionais de trânsito, o que ser- ve de exemplo para essa questão”, fri- sa. A criação de um Código Nacional pa- rece animar os profissionais. “O Códi- go Nacional, com a idéia da unificação da normatização e fiscalização, poderá contribuir na evolução dessa atividade, bem como facilitará a atuação dos pro- fissionais da engenharia e dos bombei- ros, que terão profissionais falando a mesma linguagem em todo o Brasil”, complementa o diretor secretário da Fecabom, Altair Lacowicz. Alguns, no entanto, fazem suas ressal- vas. “Se funcionar como referencial, dei- xando certa autonomia para os municí- pios, a quem cabe legislar sobre o as- sunto, guardando suas especificidades locais, sem dúvida, será um grande avan- ço”, analisa Valmor Maliceski. Para Zor- zan, uma normalização nacional só será boa se for completa. “Entre os Estados, os códigos mais completos são os de São Paulo e do Distrito Federal. Se hou- ver uma lei nacional, que seja nos mol- des desses dois”, assinala. Para Carchedi, entretanto, a criação do Código seria conseqüência de uma estrutura organi- zada. “Um Código Nacional seria um avanço, mas acredito que mais impor- tante seria criar a Agência Nacional de Bombeiros, que teria a incumbência de elaborar o Código e inúmeras outras a- ções necessárias para criar um novo pa- radigma na cultura bombeiril”, afirma.

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ARQUIVO

Cenário internacional

Brasil não segue linha organizacional de outros países

ONU, a proporcionalidade é de um bombeiro para cada mil habitantes de uma cidade. “Não é considerado que uma cidade legalmente existente não possua uma corporação de bombeiros”, ironiza Alves.

O cenário internacional, como ocor- re com a maioria de nossos produtos e serviços, é o precursor de muitas me- lhorias que acabam sendo implantadas com o tempo. Carlos Lobo explica que os modelos europeus e americanos são os que mais influenciaram as instituições no país ao longo do período republica- no. “Em termos de equipa- mento, nos últimos anos vem ocorrendo o predomí- nio de viaturas e EPIs de ori- gem americana, porém a in- fluência européia ainda é significativa, principalmente, com equipamentos oriun- dos da França Alemanha, Suécia e Finlândia”, afirma. Em termos de organiza- ção ocorre uma diferença, esclarece ele, pois nesses países citados, assim como na Argentina, Chile e Paraguai, predomina o vo- luntariado como modelo institucional e o seu vínculo ao poder local. “Em termos de América do Sul, os países dessa região, devido ao voluntariado, possuem mais bombei- ros por habitante que o Brasil, sendo vo- luntário e vinculado ao poder munici- pal como na maioria dos países”, relata. No Chile, só existem bombeiros volun- tários. O efetivo é de 41 mil bombeiros voluntários em 270 corporações, deno- minadas Companhias. Os equipamen- tos e veículos são fornecidos pelo Go- verno Federal e eles têm uma das me- lhores academias de bombeiros do mundo. “Lá, existe uma mentalidade bem mais avançada no quesito seguran- ça comunitária. A população aprendeu desde cedo a participar mais ativamen- te da solução de seus problemas”, ex- plica Frederico Zorzan. “No Chile, o sis- tema funciona muito bem porque há uma representatividade nacional e o re- conhecimento dos bombeiros é cons- tatado nas esferas de governo munici- pal, estadual e federal”, ressalta Mali- ceski, que também destaca: “Se com- pararmos com o Brasil, estamos cente- nas de anos atrasados, pois essa solu-

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ção bombeiros voluntários não anima os nossos governos”. Para Marco Secco, os serviços de bombeiros voluntários não se desenvol- vem no país porque, entre outros moti- vos, não estão regulamentados. “Há que se colocar também que, infelizmente, não possuímos uma mentalidade volta-

PARCERIA Mas aqui no Brasil, a união parece ser o caminho já escolhido por muitos para superar as dificuldades, enquanto não se cria uma política nacional para os bombeiros. Wesley Pinheiro acredita que a parceria entre as instituições é de fato a melhor alternativa. “Se as instituições firmassem par- cerias e convênios, na hora de agirem juntas não haveria pro- blemas nem vaidades”, susten- ta. Para Paulo Chaves, há es- paço no Brasil para todos os tipos de corporações, desde que exista menos corporati- vismo e mais cidadania. “O ideal seria que trabalhassem em conjunto para reformular a legislação federal e es-

tadual, a fim de definir claramente o espaço de cada um, para evitar

conflitos”, assinala. Para Valmor Maliceski, pre- cisamos eliminar a cultura paternalista, onde o Estado tem obrigação de aten- der todos os males sociais. “Precisamos arregaçar as mangas e procurar alterna- tivas que favoreçam os cidadãos com estímulo ao terceiro setor, antes que o quarto setor - a criminalidade - tome con- ta”, destaca, e complementa: “É neces- sário que haja mais engajamento dos governos que, ao invés de estimular, im- põem obstáculos a todo instante para inibir ações que visam unicamente o bem comum”. O presidente da Voluntersul, Frederico Zorzan, acredita que não há uma fórmula pronta, pois cada comuni- dade tem a sua realidade específica. “Como há comunidades onde a melhor resposta é o voluntariado, há outras on- de o serviço vai depender de investimen- to direto da prefeitura, ou ainda de uma parceria com o Estado”, cita. Jorge Ale-

xandre Alves observa que, acima de to- dos os conflitos e atritos, somando todas as corporações ainda estamos muito a- quém do mínimo necessário para a co- bertura e peculiaridades de atendimen-

tos a todas as emergências no Brasil.

de atendimen- tos a todas as emergências no Brasil. da para a comunidade, provavelmente, por estarmos

da para a comunidade, provavelmente, por estarmos em um país onde o nú- mero de catástrofes é diminuto, não ha- vendo o envolvimento da população”, salienta. Lobo comenta que talvez o Corpo de

Bombeiros mais próximo ao modelo bra- sileiro seja o de Paris, vinculado ao Exér- cito Francês. “Porém, mesmo na Fran- ça, os bombeiros voluntários estão pre- sentes em mais de 80% das instituições,

e o modelo militar é exceção”, diz. Nos

Estados Unidos e Canadá, bem como em diversos países europeus, como Itá- lia, Alemanha, França, Portugal e Holan- da, entre outros, as organizações volun- tárias respondem por, aproximadamen- te, 80% dos bombeiros existentes. Jor- ge Alexandre Alves também ressalta que

o modelo de serviços de bombeiros no

Brasil - estatal e militar - é diferente da maioria dos outros países. “Este mode- lo, apesar da indiscutível disciplina, traz também limitações na cobertura de to- dos os municípios e na responsabilida- de da utilização de recursos e custos”, aponta. Conforme recomendação da

Brasil não possui uma mentalidade voltada para segurança comunitária

Conforme recomendação da Brasil não possui uma mentalidade voltada para segurança comunitária Emergência 2 9

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