FRANK MARCON

VISIBILIDADE E RESISTÊNCIA NEGRA EM LAGES

www.com. Acervo família Malinverni.Copyright © 2010. Preparação de originais Fábio Brüggemann Conselho editorial Daniel Mayer Fábio Brüggemann Péricles Prade ISBN 978-85-7662-52-9 Todos os direitos reservados à LETRAS CONTEMPORÂNEAS OFICINA EDITORIAL LTDA. de Marino Malinverni.br . projeto gráfico e editoração eletrônica Estúdio Letras Contemporâneas Ilustração da capa Cacimba da Santa Cruz.letrascontemporaneas. primeiros anos do século XX. by Frank Marcon Capa.

dona Marieta (Mulata) e seu Sebastião Ataide.Para dona Basilícia. .

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e logo das com os clichês muito negros. o Haiti não é aqui [.. nos deslumbra e estimula/ Não importa nada: nem o traço do sobrado/ Nem a lente do Fantástico. é a aristocracia. a mais estúpida e lorpa.. quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/ De ladrões mulatos e outros quase brancos/ Tratados como pretos/ Só pra mostrar aos outros quase pretos/ (Que são quase todos pretos)/ Como é que pretos.“A mais estúpida mania dos brasileiros... Abre aí um jornaleco desses bonecos. Caetano Veloso e Gilberto Gil . quase pretos de tão pobres são tratados/ E não importa se os olhos do mundo inteiro/ Possam estar por um momento voltados para o largo/ Onde os escravos eram castigados/ E hoje um batuque.” Carlo Ginzburg “Quando você for convidado pra subir no adro/Da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados.” Lima Barreto “O fato de uma fonte não ser ‘objetiva’ – mas nem mesmo um inventário é ‘objetivo’ – não significa que seja inutilizável. e se você não for/ Pense no Haiti..] )”. reze pelo Haiti/ O Haiti é aqui.. pobres e mulatos/ E quase brancos. nem o disco de Paul Simon/ Ninguém é cidadão/ Se você for ver a festa no Pelô. Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!. um batuque/ Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada/ E a grandeza épica de um povo em formação/ Nos atrai.

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......................................................................................................................................................................................................................... 57 Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages ......... visibilidade histórica ................................. 15 Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade.................................................................................................................................................................................................11 Introdução ...............................................Sumário Prólogo .................................................................................................................................................................................. 123 Notas ......................... 25 Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas contra a “cor” inexistente ........................................................................................ 117 Anexos .................................................................................. 139 9 ................................................................................... 91 Considerações Finais .....127 Bibliografia ....

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A maior parte foi feita nos arquivos judiciários de Lages e de Florianópolis. bem como a inspiração indiciária da “micro-história italiana” e a influência da semiótica na 11 . Joana Maria Pedro e Maria Bernardete Ramos Flores. recorrendo ainda a entrevistas com alguns descendentes de africanos octogenários na cidade de Lages. em forma de dissertação de mestrado. Ilka Boaventura Leite. O principal argumento do trabalho surgiu a partir do contato com algumas publicações realizadas nos anos noventa. que enfrentavam o desafio de questionar os discursos historiográficos e sociológicos estabelecidos. encontrando novas possibilidades de análise e novos sujeitos de pesquisa. a partir de pesquisa realizada entre os anos de 1997 e 1999. Tais referências. científica e documental sobre o estado de Santa Catarina. A contribuição mais interessante daquele momento foi a desconstrução dos discursos sobre a invisibilidade de alguns grupos sociais e o estímulo às releituras críticas da produção ensaística.Prólogo E ste livro foi escrito originalmente no ano 2000. no acervo de jornais da Biblioteca do Estado de Santa Catarina. por pesquisadores como Élio Cantalício Serpa.

a estrutura dos documentos. A existência e a disponibilidade desta documentação no Fórum de Lages e no Tribunal de Justiça de Santa Catarina foram fundamentais para que a pesquisa ganhasse corpus cronológico e temático adequados. a linguagem jurídica utilizada e. vítimas ou testemunhas nos processos. Os processos judiciais se mostraram com inúmeras possibilidades de análise e de prioridades interpretativas. no século XIX. e a metodologia utilizada para tal fim. e. aqueles que eram mencionados ou identificados de alguma forma como negros. a partir daí.“antropologia interpretativista norte-americana”. cruzamentos indiciários e análises densas dos textos narrativos dos depoimentos e testemunhos integrantes dos processos. que nortearam boa parte desta pesquisa. Diferente do recorte de Chalhoub. tivemos outros desafios. Visões da Liberdade. priorizamos o período pós-escravidão. a leitura detalhada dos documentos. A pesquisa com os processos judiciais exigiu certa familiarização sobre os tramites processuais. para tal caso. libertos e livres no Rio de Janeiro. A utilização dos processos judiciais. teve influências muito peculiares a partir da leitura do livro de Sidney Chalhoub. que cobriu as décadas finais do século XIX e as décadas iniciais do século XX. as análises que realizamos. inspiraram. sobre escravos. corrente entre alguns historiadores e cientistas sociais brasileiros. 12 . como encontrar entre os atores dos processos judiciais. mas algumas pareceram mais interessantes aos propósitos iniciais de demonstrar a presença negra na região. naquele momento. fossem eles réus. associadas a técnicas de tabulação de dados.

o leitor já deve imaginar que está diante de um livro com a característica peculiar das influências de um momento relevante de renovação do “olhar” sobre o tema da escravidão e da história das populações negras na Região Sul. Publicar este livro depois de dez anos é gratificante pelo desafio de ampliar à difusão de seu acesso entre pesquisadores. das vítimas. estava em voga na época. Contradições de valores. A categoria “resistência”. dos técnicos do judiciário e das testemunhas que participavam dos processos. bem como sobre o uso 13 . as preocupações e o contexto de uma dada época em que o texto foi originalmente escrito. de comportamentos e de convicções sociais. o que foi imprescindível para análise das tensões sociais que surgiam dos depoimentos dos réus. possibilitaram a análise sobre as conexões de uma ampla teia de relações e tensões sociais próprias da região. Também poderá se deparar com algumas categorias de análise e um vocabulário que expressam em muito as orientações teóricas.As características dos processos crimes e dos inquéritos policiais exigiram ainda a utilização de teorias analíticas que dessem conta de uma peculiaridade importante destes documentos: os conflitos sociais recorrentes entre os envolvidos. orientadora da pesquisa. professores e outros interessados. sugerida por Heloísa Jochmins Reichel. num contexto de teorias que revisavam o marxismo a partir da “história social”. imaginando que ele ainda tenha algo a contribuir sobre o tema das populações negras no Sul do Brasil. muitas vezes permeados pela emergência de referências à “raça” ou à “cor” dos envolvidos. Diante de tais considerações.

entre outros. dos debates em torno da questão quilombola. no caso mais específico da pesquisa com processos judiciais. de inspiração por possibilidades de pesquisas interdisciplinares e. neste caso. num contexto de amplo debate sobre políticas de ações afirmativas. com as quais este livro pode contribuir direta ou indiretamente.de algumas fontes e metodologias de pesquisa. principalmente. outono de 2010 14 . Frank Marcon Aracaju. Além disto. encontramo-nos em um momento importante de discussões teóricas sobre identidades. da necessidade ou não de cotas raciais nas universidades e. principalmente aquelas sobre inclusão do conteúdo de História da África e Cultura AfroBrasileira nas escolas.

literária ou histórica sobre os descendentes de africanos. (p. no artigo “Escravidão e preconceito em Santa Catarina: história e historiografia”1. a antropóloga Ilka Boaventura Leite (1996) e a historiadora Patrícia Freitas (1997) abordaram a “invisibilidade”2 e “insignificância”3 negra na historiografia.Introdução lguns trabalhos recentes de autores ligados à História e à Antropologia Social em Santa Catarina têm tratado da “invisibilidade negra” no Estado. ao observarem elementos específicos da narrativa sociológica. um pedaço da Europa no Sul do Brasil. denun15 . e. mesmo que involuntariamente. os meios de comunicação de massa vêm construindo uma imagem de loira catarina. mais uma forma de discriminação: a negação da existência e da memória. acaba-se acrescentando. Entre eles. literários e dos meios de comunicação que projetaram e projetam a imagem de um Estado catarinense branco e europeizado. desta forma. portanto. Além da historiografia. afirmam que: A invisibilidade tem sido. pelo viés da desconstrução dos discursos históricos. Joana Maria Pedro e outros (1996). As autoras. 233) A Além de Joana Maria Pedro (1996). mais um dos atributos pagos por populações de origem africana em Santa Catarina.

No entanto. Concentrando tal problema num espaço mais específico dentro do Estado. o negro em Santa Catarina. Estas relações seriam decorrentes sobretudo do modelo econômico implantado. existiram relações mais democráticas e igualitárias. afirma que o negro teve e tem presença rara. em Santa Catarina. a historiografia sobre Lages – município localizado na área central de Santa Catarina – re- 16 . foram: Heitor Blum4. inexpressiva ou insignificante e atribui a isto a ausência de um grande sistema escravista voltado para exportação. Renato Barbosa5. fundamentada a partir de uma análise do passado colonial. sugere que em algumas áreas e em certos tipos de atividade. os nomes mais expressivos que focalizaram. posteriormente. sempre usando como método de análise e discurso a comparação com outras regiões do Brasil. p. Osvaldo Cabral. (Leite. duas “especificidades” do tratamento historiográfico sobre a temática dos negros em todo o Sul do Brasil contribuíram para “invisibilizar” a sua presença nesta região: A primeira. sugerindo que existiram relaões mais democráticas e igualitárias entre escravos e senhores ou. Walter Piazza6. tradicionalmente. Segundo a antropóloga Ilka Boaventura Leite. eles confirmaram o discurso da insignificância numérica dos negros no Estado. de sua reduzida importância histórica e.ciaram a “negação da existência e a negação da memória” em relação àquelas populações. A segunda. ainda. entre negros e a sociedade catarinense em geral8. como ocorreu em outras regiões do Brasil. 40) Desde as primeiras décadas do século passado até os anos de 1980. 1996. em algumas de suas produções. Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni7.

e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.produziu o mesmo discurso da “invisiblidade” e da “insignificância” negra em sua história. em artigo escrito sobre “A escravidão numa área de pastoreio: os ‘Campos’ de Lages” . Lages não foi um município de grande população escrava”. diz que “[. vindas de historiadores que falam de um lugar como o Instituto Histórico. ambos admitem a existência negra na história da região. As conclusões. mas argumentam pela sua “insignificância” numérica e produtiva. e também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Ao trabalharem com o período escravista. O historiador. Licurgo Costa (1997) . se consolidaram como insofismáveis. pois é necessário reconhecer que houve um significativo número de descendentes de africanos livres ou libertos em 17 . Walter Piazza (1990). como define Patrícia Freitas (1996)9. 181).. “espaços de saber autorizado”. O fato de a historiografia tradicional do Estado ter identificado um número menor de escravos em relação a outras províncias do período imperial. (p... quanto para o senso comum local. não é argumento suficiente para associarmos que tais números correspondessem à toda a população negra da região. de pecuária extensiva”. tanto para os pesquisadores que os seguiram.. (p. ao fazer uso de censos e matrículas de escravos. historiador da região de Lages.] em relação ao restante da Província de Santa Catarina. e considerando sua extensão territorial. conclui que “[. 272).] uma das maiores evidências deste estudo é o pequeno número de escravos em relação à propriedade fundiária.

o evolucionismo e o darwinismo-social10. A necessidade de esquecer o passado escravocrata e. o reconhecimento da existência histórica dos descendentes de africanos não pode ficar restrito aos anos de escravismo. tornando-se os veiculadores das ideias de progresso e civilização que ela absorvia do exterior. Além disto. Ao mesmo tempo. um dos maiores desafios temáticos em relação à visibilidade negra é trabalhar com a história da população negra após a escravidão. 34). Desde os últimos anos do século XIX. o discurso da imprensa e de parte da intelectualidade daquela época orientava pelos interesses de uma elite branca e burguesa. entre elas: o positivismo. a existência da população negra estigmatizada por ele. em 1888. estas teorias eram assimiladas “por parte das elites intelectuais e políticas brasileiras trazendo a sensação de proximidade com o mundo europeu e de confiança na inevitabilidade do progresso e da civilização. como foi predominantemente focalizado por aqueles que estudaram o negro na região. acrescentaram ao determinismo ra18 .Santa Catarina.” (p. apesar da referência à “cor” ter desaparecido dos registros estatísticos. da documentação oficial e da historiografia. Atualmente. era justificada pela reprodução de teorias científicas absorvidas da Europa. porque a população negra não sumiu instantaneamente com a abolição. por consequência. a miscigenação11 da sociedade brasileira12 começou a ser pensada por grande parte da intelectualidade como alternativa possível ao branqueamento da população do país.13 Com base nas teorias “racialistas” europeias. Segundo Lilia Moritz Schwarcz (1995).

de vez que as teorias racistas passaram a ser interpretadas pelos brasileiros como confirmação das suas idéias de que a raça superior – a branca –. numa seleção natural e social que conduziria a um povo brasileiro branco num futuro não muito remoto. alegando que através da “mestiçagem” é que se construiria um “Brasil branco”.” (Schwarcz. (p. Segundo Lilia Schwarcz (1995). acabaria por prevalecer no processo de amalgamação. assim. 25). por sua vez. 1987. 63) Esse discurso racial determinista à brasileira legitimou. Segundo Thomas Skidmore (1989). vinculando a capacidade intelectual e o posicionamento social dos indivíduos às características raciais do seu grupo. ocorreria uma miscigenação seletiva. a hierarquia social14 existente no país.16 A intelectualidade brasileira concluía. e principalmente. através dele e do estímulo à entrada de imigrantes no país. as previsões deterministas europeias de degeneração racial brasileira pela mistura das raças. onde prevaleceria a vitória da “raça” branca superior. como prioridade para a nação atingir “foros de civilizada”. p.] na desigualdade das raças humanas. a eliminação gradual da barbárie que o negro e o índio representavam. o “mestiço” passou a ser pensado como sendo antídoto ao veneno da degeneração. e um meio para a conquista de uma harmonia racial após a abolição. Para os teóricos da época.15 Promover a invisibilidade negra foi um dos suportes da “ideologia do branqueamento”. Contrariavam. Silvio Romero escrevia. nas páginas da Revista do 19 .. Inserido em tal hierarquia. Durante o período alto do pensamento racial – 1880 a 1920 – a ideologia do ‘branqueamento’ ganhou foros de legitimidade científica.cial a crença “[..

sobre suas conclusões a esse respeito. corroborada pelos intelectuais brasileiros da época. Em Lages. surgimento de sociedades recreativas privadas e a reformulação dos códigos de posturas e leis municipais em geral18. através da higienização. que esteve empenhada em coagir as manifestações populares e em propagar um discurso de igualdade e mestiçagem racial que invisibilizasse e imiscuísse o negro numa massa popular única20. em 1908. 8). 20 . 115) Foi também naquele mesmo período – dos últimos anos de escravidão às primeiras décadas da República – que se enfatizou a necessidade de consolidação de um processo “civilizador”17 e urbanizador da sociedade brasileira. “o horizonte vislumbrado pelas elites locais foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus.” A “ordem” para civilizar passaria pela prioridade de reordenação e disci-plinação do espaço público. p. Diz. Romero.Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Lilia Schwarcz (1995): Tomando como suposto inicial que ao elemento branco cabia um papel fundamental no processo civilizatório. naquela época. Assim. (p. partia para soluções originais: estava na mestiçagem a saída ante a situação deteriorada do país e era sobre o mestiço – enquanto produto local. porém compartilhada por grande maioria de seus pares. em vez de lamentar a “barbárie do indígena e a inépcia do negro”. de novas edificações. segundo Serpa (1995. a característica dos primeiros trinta anos do período pós-escravista foi o prevalecimento de uma orientação ideológica19 e política. melhor adaptado ao meio – que recaíam as esperanças do autor. embelezamento da cidade. resumindo uma ideia polêmica na época.

principalmente a de origem africana. no Brasil. não significou apenas o direito jurídico à liberdade física. a diferença ante uma suposta identidade nacional homogênea. em algumas de suas práticas cotidianas21.” (Ortiz. justamente em uma época em que se fortalecia.] o espírito nacionalista que procura se desvencilhar das teorias raciais e ambientais características do início da República Velha. 21 . Assim. representou um marco histórico. fundou-se o Centro Cívico Cruz e Souza – hoje com noventa anos – como um “clube para negros”. assinada em 1888. outro marco referencial de sua história foi ano de 1918. que o incluía no discurso e o excluía ao exercício prático da cidadania. p. 22). portanto. “[. da reformulação dos objetivos a serem alcançados para sua própria sobrevivência e a possibilidade aberta para a conquista de novos espaços sociais.Para toda a população brasileira. políticos ou econômicos. observando. além da abolição. Para os negros. de renovação de suas manifestações e tradições culturais. as formas de resistência articuladas por eles contra a dominação da elite branca. a Lei Áurea. o Centro Cívico Cruz e Souza tornou-se o espaço específico onde o negro passou a exercer alguns aspectos de sua sociabilidade. manifestada através do discurso e de práticas civilizadoras da sociedade. 1985. mas o momento de sua inserção no mercado de trabalho e de consumo. Para o negro lageano. A proposta deste livro é perceber a visibilidade histórica das populações de origem africana em Lages durante as primeiras décadas da República. Naquele ano. reconhecendo a sua ascendência africana e escrava e...

A padronização das formas de agir e se comportar de um determinado grupo. São estas ações que ajudarão a tirar as populações negras da invisibilidade [. a serviço dos próprios interesses do “popular”. As manifestações cotidianas de um grupo social inserido num contexto de relações com outros grupos sociais se chocam.] (p.. P. É necessário investigarmos os “costumes”. Observar a construção de diferenciadas formas de resistência articuladas nos embates do cotidiano.. que possa distrair-nos a atenção das existentes contradições sociais. Perceber a ressignificação de valores ditos “brancos”. o identificam culturalmente. 22 .Tal objetivo tem por inspiração a seguinte reflexão de Joana Maria Pedro (1996): Historicizar a criação de instituições e espaços de sociabilidade. capaz ainda de transformar-se de acordo com suas relações sociais. um grupo social só adquire existência ao longo do processo de luta que o leva à gradual aquisição de identidade cultural e política. 1992). para encontrarmos respostas aos problemas da visibilidade e da resistência negra em relação ao projeto civilizador. a cultura dos descendentes de africanos – inseridos na heterogênea camada de populares – nos mais diversos contextos do seu cotidiano. Thompson (Apud. 244) Para E. Aqui. apontamos a “cultura popular” como “defesa” contra o exercício de dominação por parte de outros grupos sociais. Dessan. formas manifestas de manutenção ou exercício de tradições e usos habituais que caracterizam as ações de um grupo social como resistência contra a dominação. sempre que os interesses em defesa de seus costumes são confrontados. não de forma fragmentada. mas sim como costume. Entendemos aqui “cultura”.

Élio Serpa (1996) diz o seguinte: Isto não quer dizer que estes tipos de manifestações deixaram de ser cultivadas. Porém. embora sofrendo ingerências de políticas e práticas segregacionistas. (Serpa. 17) Sidney Chalhoub (1990). sobre o combate dessa elite em relação às manifestações culturais tradicionais. antes marcada pela escravidão negra. tradicionais e populares. enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural. renovaram-se as formas de dominação sobre os descendentes africanos. 1996. passaram a ser consideradas como sinônimo da “não civilização” e. além de outras que destoassem do exemplo de “civilização” europeia. 15) Com o processo de abolição e implantação da República. criando novas formas de sociabilidades que denotassem mudanças de hábitos culturais considerados rústicos e obsoletos. Manifestações culturais. p. em A reformulação das condutas e das sociabilidade durante a Primeira República: O horizonte vislumbrado pelas elites foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus. portanto. ( p. elas subsistiram em meio à discriminações e até porque a existência de grande quantidade de descendentes de africanos denunciava que estas expressões culturais ainda estavam presentes na própria permanência destes no convívio social. por exemplo. analisou o “significado de liberdade forjado pelos negros durante a experiência escravista” e concluiu que. através de processos judiciais.Segundo a análise que o historiador Élio Serpa (1996) faz sobre Lages. em seu estudo sobre o fim da instituição escrava no Brasil. através das diversas visões e manifestações de liberdade. combatidas por uma “elite burguesa e branca”22. surgiram processos de luta no interior do 23 .

na tentativa de construção de identidades regionais e nacionais. aliadas aos conceitos eurocêntricos de civilização.cativeiro que revelam a atuante participação do negro no processo de extinção da escravidão. 24 . p. inseridos na camada popular. Apud: Chalhoub. diante das formas de dominação exercidas contra os descendentes de africanos. Reconhecer e evidenciar a existência de uma “hegemonia de classe” não implica necessariamente a esterilização das lutas e das transformações sociais ou vigência de um consenso paralisante (Thompson. 25). cabe a análise de como se cultivaram ou transformaram as manifestações de resistência negra. Atentando para a afirmação acima. 1990. em Lages. do período que vai da Abolição da Escravatura até a fundação do Centro Cívico Cruz e Souza. Desconstruir as noções de invisibilidade e de “inexistência teórica” é necessário para demonstrar como o discurso das elites mascarou a presença negra.

em 177124. foi comumente assimilada como insignificante e justificada. em Lages.Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade. a historiografia local afirmou que o relacionamento entre senhores e os “poucos escravos” que aqui existiram. escravos negros. como tal. social e político de todo o Planalto Serrano catarinense. Não guenta mais vregaio. Foi varido cativero Na Tera de Bendengó. visibilidade histórica “Babaô tera de Congo. bugres gentios e escravizados. pelos números apresentados por pesquisadores que tradicionalmente estudaram a temática da escravidão na região. Visibilidade negra durante o período escravista Lages. Além deste fator. Não Padece mais trabaio”. Fazendeiros e suas famílias. foi mais harmônico e afável do que em outras regiões do Brasil escravista. Não se toma mais rovado. Tudo fica um gente só. Negro agora anda contente. por Antônio Correia Pinto de Macedo. tornou-se o núcleo econômico. Matheus Junqueiro23 A questão quantitativa dos descendentes de africanos. desde sua fundação como vila. e uma camada popular de homens livres de diversos matizes compuseram o mapa 25 .

17% da população como “não branca”. outras vezes como brancos. dos quais 10. assinada por João Damasceno de Córdova.585 pessoas – classificados segundo a “cor” 28 entre negros e pardos29.1 % de habitantes livres. representavam um total de 45. Curitibanos e São Joaquim27. totalizava uma população de 14. adicionados ao de escravos.demográfico da região. Pardo e Branco25. Em tal listagem.24%. Campos Novos. que também classificou os habitantes através da categoria “cor”. foi levantado um número considerável de pardos e negros que. percentuais que. somadas as 26 . 60). p.9 % eram escravos – ou seja. contra 380 pessoas formadas por pretos livres e mulatos escravos” (Serpa.05%. quando “livres”. realizado em 1798. os pretos 2. a região do Planalto Serrano catarinense.549 habitantes. sendo 136 escravas. dos restantes 89. Baguaes. Na denominação “escravos” foram arrolados também alguns poucos “gentios” 26 . no ano de 1872. nomeando-os como: Negro. sargento-mor comandante. por ocasião do primeiro “Recenseamento Geral do Brasil”. aleatoriamente foram identificados como agregados ou como proprietários de um minguado número de itens de subsistência. Mais de meio século depois do último levantamento demográfico apontado acima. Em levantamento da população da vila. O número de pardos e pretos livres era três vezes maior do que o número de escravos e. 1990. algumas vezes classificados como pardos. compreendidas as freguesias de Lages. segundo a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. Lages “contava com 218 brancos livres. Em 1801. os pardos somavam 28. 1.98% e os caboclos 3. No entanto. a população era de 715 pessoas.

o historiador Licurgo Costa (1982). 495 foram definidos pela atividade de “lavradores”. ou eram de nação. levantando vários números30 sobre a população escrava de Lages. 181). As condições da população de descendentes de africanos que compunha o quadro demográfico da região durante o século XIX eram as mais diversas. um grande entusiasta das lides do campo. livres ou escravos. concluiu que o motivo pelo qual a região não apresentou um índice expressivo de população escrava foi o fato de este ser um centro quase que exclusivamente de atividades pastoris e o “[. representavam quase metade dos habitantes do Planalto Serrano. Esse aspecto do discurso de Licurgo. p. africanos. Por exemplo. a historiografia tradicional potencializou a “invisibilidade” negra na região. dos 1.585 escravos. Porém.. 605 foram descritos como “sem profissão”. observamos que. poderiam estar entre libertos. insinuando que o número da população negra na região esteve diretamente relacionado com o número da população escrava31.duas categorias sociais. porém.” (Costa. contribuiu para invisibilizá-la. mulatos ou pretos. Quanto à “cor”. nunca. Quanto à classificação social. 377 em “serviço doméstico” e ou27 .] negro não ter sido. entre homens e mulheres.. nascidos no Brasil. Quanto à naturalidade. que um número significativo de descendentes de africanos em Lages não era escravo e. não estava necessariamente empregado nas lides pastoris. pois muitos deles trabalhavam na agricultura e em outras atividades domésticas. ou eram crioulos. eram pardos. É importante salientar. Analisando o censo de 187232. mesmo quando o era. 1982.

ou. a região de Lages detinha 18 escravos em domicílio urbano e 708 em domicílio rural. Segundo “Relatório apresentado pelo presidente da província dr. Portanto. então. ora nos serviços do campo.94% daquele total. constatamos também que os negros e pardos livres se empregavam como jornaleiros e agregados. tropeiros. às vezes se tornando.tros 88 distribuídos em diversas atividades. ora exercendo trabalhos domésticos variados. o rocio e a produção de alimentos. naquele momento. inclusive. pela estatística oficial. estabeleciam-se com suas famílias na pro28 . sem ofício definido. em ocupações outras que demandassem maior esforço físico. acusando a realização de um levantamento do número de escravos existentes em Santa Catarina.33 O fato de 377 escravas ou escravos trabalharem em serviços domésticos não significava que residissem na área urbana. com atividades como o pastoreio do gado. como a construção de casas e o levante de taipas. operários. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial. Com o auxílio de outras fontes documentais35. em outubro de 1887”34. vendendo sua mão-de-obra a algum “homem de posses” da região.927 escravos. artesãos ou lavradores. campeiros. No caso dos jornaleiros. em toda a província de Santa Catarina somavam-se 4. há pouco menos de um ano do “13 de Maio de 1888”. e a população escrava da região de Lages representava 14. Entre aqueles descritos como “sem profissão”. pequenos proprietários. através da matrícula. por exemplo.36 Como agregados. de um total de 736 escravos matriculados. exerciam atividades variadas. prestavam serviços como feitores.

Frequentemente. como também entre pequenos proprietários brancos e negros. como. ou mulatos38. jornaleiros. com ele. predominava nas relações sociais o patriarcalismo nuclear e hierárquico. onde o grande proprietário latifundiário concentrava todos os poderes temporais e religiosos em suas mãos. proprietários de pequenas casas comerciais ou botequins. vagabundos e pequenos proprietários com diversos matizes. com suas pequenas fainas agrícolas ou outras atividades urbanas37. havia uniões conjugais entre escravos negros e agregados pardos ou brancos. fazendeiro ou negociante. por exemplo. diz Sérgio Buarque de Holanda (1997): Os escravos das plantações e das casas. Até mesmo os pequenos proprietários acabavam por submeter-se à autoridade de um ou outro grande fazendeiro. No que se refere aos que se tornavam pequenos proprietários. composta de escravos. agregados.priedade de algum criador. criando uma massa subalterna. Sobre a sociedade patriarcal no Brasil. baseado na tradição das sociedades que se desenvolveram distantes dos poderes centrais. “índios mansos” e a prole do fazendeiro estavam sujeitos ao seu poder pátrio. de onde tiravam o seu sustento em troca do trabalho realizado. A sociedade tradicional escravocrata em Lages Naqueles anos do século XIX. agregados. dilatam o círculo familiar e. Esta era uma característica do período escravista em todo o Brasil. como os agregados. e não somente os escravos. estes eram responsáveis pelo próprio sustento. Escravos. a auto- 29 .

de 17 anos. natural de Lages. se acha estreitamente vinculada à idéia de escravidão. Porém. Os limites da relação entre senhores e subjugados eram estabelecidos pela tradição da arbitrariedade do primeiro para com o segundo.39 A ordem social era definida por contextos hierárquicos específicos. e o que fez com empurrões. derivada de “famulus”. os “liberi”. José Madruga. 81) A historiografia recente demonstra que essa relação hierárquica e vertical entre dominados e dominadores não representou uma total submissão do primeiro para com o segundo. até mesmo. imediatamente puxou de um facão e deu-lhe até a morte. também. mas não significa que dentro desta concepção de sociedade não houvesse mobilidade social ou. de assassinato de seu senhor. Esse núcleo bem característico em tudo se comporta como seu modelo da Antigüidade. ao verificar os serviços de que encarregara seu escravo – “o de fazer uma irra para trilhar trigo” –. de 78 anos. o escravo José. em resposta. natu30 . e em que mesmo os filhos são apenas os membros livres do vasto corpo. (p. Testemunharam o fato a escrava Rita. Maria Rosário Pereira. pela tradição se construíram mecanismos para ludibriar e reverter a ordem estabelecida. teve motivos para repreendê-lo. O promotor público de Lages. A autoridade exercida pelo senhor legitimava-se através da violência ou da sua ameaça. “pardo escuro”. o escravo Plácido. fugindo após roubar-lhes alguns objetos. na manhã do dia 7 de fevereiro de 187940. Segundo a promotoria.ridade imensa do pater-famílias. denunciou o “ex-escravo” Plácido. em que a própria “família”. José Madruga de Córdova Primo. inteiramente subordinado ao patriarca. no dia 23 de maio de 1879. que fosse impossível resistir a ela. e Leonardo.

“que não desejava mais servir a tal senhor”. carpinteiro. em sua concepção. Capturado e inquirido. além da invisibilidade numérica. O réu. o réu relatou com detalhes como assassinou José Madruga. como se estivesse no seu direito de reagir àquele tipo de condição. dizendo não ter medo das consequências. disse que confessara um roubo que não cometera. alegava que José Madruga era mau para com ele e não lhe dava dia para trabalhar. por motivo de furto. profissão campeiro. em outro processo-crime. O réu acabou condenado à pena de morte pelo juiz Cândido Alves Duarte de Lima. A situação conflituosa entre Plácido e Madruga já vinha de alguns anos antes da tragédia da manhã de 7 de fevereiro de 1879. limitando-se a chamar ajuda. pois. voltouse contra a autoridade hierárquica. no ano de 187541. para que este o vendesse. Plácido envolvera-se. não se importando com as possíveis consequências de seu julgamento. finalmente afirmando. Naquela ocasião. pois era maltratado com castigos e passava fome.ral dos EUA. e não estava apenas ligada a um fato isolado. em seus depoimentos. injustamente tratado. Plácido. José Madruga. Nenhuma das testemunhas interferiu. conforme denunciado pela promotoria. na casa de negócios de Miguel Francisco Melo. como no estado de Santa Catarina. com o intuito de desgastar a imagem de seu senhor. anteriormente. Em Lages. que agira motivado pela contestação da maneira pela qual era. conhecido como “alemão”. há muito suportando os maus tratos e castigos de seu proprietário. a ponto de reconhecer. outro tipo de representação que se construiu foi a de uma escravidão que teria sido 31 .

sempre foi benigna. sem poder prestar serviços ao seu senhor e. foi aberto. por esse motivo. a promotoria pública denunciou o proprietário João O. 32 . Alguns processos crimes demonstraram que as relações entre senhores e escravos não foram afáveis e tampouco humanitárias. há tempos encontrava-se doente. que. como denúncia de que a escrava fora cruelmente açoitada a cordas de couro cru. No dia 15 de junho de 186743.] o tratamento dado aos escravos pelos fazendeiros.” No entanto. por assassinato de sua escrava Mariana. observamos as manifestações de conflito e violência entre senhores e escravos. pelo juiz municipal Henrique Ribeiro de Córdova. inquérito de corpo delito da vítima escrava Verônica. por suas características mais dóceis. Em 9 de abril de 188445. Historiadores como Licurgo Costa (1997). vinha sendo espancada. inquéritos policiais ou processos cíveis de liberdade referentes ao período escravista. por dois escravos de seu senhor. afirmam que “[. 1996). Branco por espancamento de seu escravo de nome Luis. vários são os exemplos em que foi possível verificarmos o contrário. determinadas pelo tipo de produção econômica e relações sociais existentes (Leite. com mais de 70 anos. até que veio a falecer. de 26 de abril de 187944.diferente em relação a outras regiões do Brasil42. humana e afável. do senhor Francisco Borges do Amaral e Castro.. proprietários da quase totalidade deles. contradizendo o que se tornou senso-comum no discurso historiográfico sobre a escravidão e o negro na região. originados pelos mais diversos motivos. Através de processos criminais. o senhor Antônio Joaquim da Silva Júnior foi acusado pelo bacharel Braulio Colônia. Em outro processo..

algumas situações que levaram os escravos.Conflitos jurídicos de outra ordem. em 1885. para reafirmar escalas hierárquicas em que se pressupunha 33 . pedia a liberdade. para o ajuntamento de pecúlio 48. entre escravos e senhores. pedia liberdade.46 Em Lages.]”50. em que os cativos se julgavam tratados “injustamente” por seus senhores. Muitas dessas ações eram originadas por motivos diversos. a procurar a justiça foram. escrava do capitão José Antunes Lima. porque este não lhe permitia o trabalho aos domingos e dias santos. estão registrados nas Ações Cíveis de Liberdade. o escravo Manoel. Na ordem social escravocrata brasileira. a parda Margarida. preto. os seguintes: o escravo João. O autoritarismo hierárquico dos grandes proprietários se estendia para além dos seus cativos. inclusive aos trabalhadores livres52 ocasionalmente contratados. denunciando a crueldade e os maus tratos de seu senhor. em 1884. requeria sua liberdade. “a fim de evitar os maus tratos de seu senhor [. de Venâncio Antunes de Moraes. declarava que já havia sido dada como livre pelos seus patrões e que estes ainda a mantinham em cativeiro49. a todos que o rodeavam. Adão. escravo do senhor Ramiro Pereira de Andrade. dizendo dispor a quantia de 200$000 réis. através de seus curadores. entre as diversas ações de liberdade47 impetradas na década de oitenta do século XIX. por viver há 6 anos em completo abandono pelos seus senhores herdeiros51. em 1885. de José Manoel Oliveira Branco. A violência era uma instituição comumente praticada em todos os meios... em 1883. o fantasma das relações conflituosas entre senhores e escravos rondava a vida comum de toda a sociedade.

chegando à obra. peões. empregado na construção da casa do tenente coronel Manoel Ribeiro da Silva. identificamos.um respeito a graus superiores de tais escalas que. por ter aquele agredido o filho deste. onde a hierarquia tradicional era geralmente contestada. Na grande maioria dos casos. que o pariu”. o filho do coronel enviou ao dito Gregório. Gregório Evaristo de Almeida. constantes no corpo delito do processo. tentando Vidal acertar com sua bengala o denunciado. derrubando-o em um buraco de amassar barro. o seguinte recado: “que se quizesse ir trabalhar fosse depressa. ofendido. a presença negra. vez por outra. no entanto. Entre as testemunhas. do que este se defendeu. jornaleiros e membros da família senhorial também desenvolveram práticas de resistência e mobilidade àquela prática social. o pano de fundo dos processos citados foram as relações de trabalho e de autoridade entre senhores e escravos. indo buscar suas coisas. O fato se deu no dia 16 de outubro. e se não quizesse fosse a put. No dia 20 de outubro de 188353. eram rompidas espontaneamente. tendo demorado um pouco. Entre os trabalhadores livres que contestavam tal ordem. ainda. Gregório deliberou a retirar-se da obra. através de um escravo de nome Honorato. pelo motivo de ter o denunciado se retirado da obra para ir jantar em sua casa e. Assim sendo.. um carcereiro e escravos confirmaram 34 . ele e Vidal Ribeiro trocaram desagravos. a promotoria pública denunciou o operário pedreiro. Mas não apenas os escravos encontraram suas formas de subversão à ordem patriarcal. outros pedreiros. Vidal Ribeiro. seu contratante. fazendo-lhe os ferimentos. Agregados.. Pouco depois.

No caso acima. principalmente. nenhum documento oficial como. Hebe Mattos (1998) explica as razões. Segundo ela: 35 . rompeu um elo da tradição hierárquica e pessoal que o tratou indignamente. inclusive o de ter-lhe dito: “ – você não quer trabalhar porque é um negro ordinário. quando Vidal soube de tal atitude. insistindo em sua condição de homem livre. ou até mesmo aproximado. “Após a Abolição. considerou-a uma insolência à sua autoridade e foi ao encontro de Gregório. Negro é barbárie. gradativamente as diferenças quanto à “cor”. um filho da puta”. com ela. a ordem hierárquica foi rompida em dois momentos. estatísticas. na atitude rebelde de cunho moral de Gregório ao retirar-se deliberadamente da obra. por exemplo. Primeiro. casamento e óbito. censos. deixaram de ser referidas. Entretanto. ao que o “negro”. a partir de meados do século XIX e. por causa das ofensas verbais recomendadas por Vidal. o pressuposto da servidão pacífica. em dois atos. A ideia que perpassava por esse discurso de omissão era de que o Brasil se confirmasse como um país de mestiços e progressivamente passasse por um processo de branqueamento. certidões de nascimento. branco é civilidade” Com a progressiva miscigenação. após a Abolição da Escravatura. A partir da abolição até a década de vinte do século passado. O pedreiro Gregório carregava. permite um levantamento exato. Segundo. tentando agredi-lo. da população pela “cor”. nos textos e no discurso da elite.os insultos de Vidal ao réu. derrubou-o. o estigma da inferioridade social e. defendendo-se. pela “cor”.

é especialmente acentuada. de se discriminar a cor de homens e mulheres livres nos registros históricos disponíveis. Com advento da República. que se faz notar desde meados do século XIX. e mesmo majoritária. em alguns casos.. com duas considerações. também as fontes estatísticas conhecidas sobre o período54 silenciam quanto a informações em relação à “cor” dos indivíduos. baseadas em distinções de cor e raça ou pela presença demograficamente expressiva. (p. registros de batismo. Podemos completar o pensamento de Hebe Mattos. foi a fórmula encontrada na tentativa de acelerar a 36 . como também a africanidade e a indianidade que representavam a velha ordem e os maus costumes da sociedade brasileira. não fazem menção da cor e. escravocrata. antes mesmo da abolição. que utilizando os processos criminais como fontes. No Brasil. não apenas pela inexistência de práticas legais.] desde que os libertos deixam de ter um estatuto jurídico específico. Segundo. casamento e óbito. 19). nas antigas sociedades escravistas.[. Por outro lado. a “cor” de alguns dos indivíduos envolvidos55. mesmo nos registros civis. na maioria dos casos.. através da leitura minuciosa de todo o conteúdo dos processos. a civilidade e o progresso que eles representavam. instituídos em 1888. foi possível identificar. que além das fontes documentais citadas por ela. entretanto. Processos cíveis e criminais. tornou-se preocupação da elite brasileira não só esquecer o passado monárquico. torna-se bastante mais difícil encontrá-los nas fontes de época. de negros e mestiços livres. onde citar a cor era legalmente obrigatório. em muitos casos ela se faz ausente. Primeiro. quanto ao problema de identificar ou visibilizar o negro. no que se refere às primeiras décadas do período pósabolicionista. Esta é uma dificuldade geral nas pesquisas sobre a experiência histórica pós-emancipação nas Américas. mas pelo desaparecimento. absorver o imigrante europeu.

que apressa a eliminação certa da raça de cor. Aproximadamente nos anos setenta do século XIX. e princípios deixam-se absorver naturalmente. estabeleciam uma hierarquia entre as raças. exactamente o contrário do que se nota nos Estados Unidos. os índios e os mestiços do país como possuidores de atributos físicos e morais negativos. a partir daí. a intelectualidade brasileira passa a absorver as ideologias positivistas. os negros puros vão sendo substituídos pelos mestiços. O jornal O Imparcial. afastar-se do princípio básico do “racialismo” europeu que hierarquizava as raças. no Brasil. concorrendo mutuamente para transformação ou substituição. Nos Estados Unidos um abysmo separa fundamentalmente as duas raças. não foi diferente. intelectualmente inferiores perante “outros tipos raciais que compunham a população brasileira.] No Brazil. 22). especificamente. 1987. Cientistas. por sua vez. as diversas discussões e divergências que se seguiram sobre a temática. acabaram concebendo a ideia de um país em processo de branqueamento e em harmonia racial sem. Aqui as raças como que amplexam-se. dizia o seguinte sobre o “problema negro”57: [. Os negros pelas crenças. do dia 27 de setembro de 1903. Assim. que fundamentavam o chamado determinismo racial56 e. políticos e literatos brasileiros definiram. p. hábitos..transformação dos tradicionais costumes populares e apressar o desejo de “branqueamento” vislumbrado pela elite.59 37 . no entanto.” (Schwarcz.. evolucionistas e darwinistas gestadas na Europa. os negros. Em Lages. onde os brancos ocupavam o topo e os negros a base de uma dada estrutura evolucionista da humanidade. Observadores auctorizados58 assignalam a extensão da mestiçagem brazileira.

Sem ser explicitamente racista.. Observamos ainda que o articulista do jornal usou a comparação com os Estados Unidos. seguia “naturalmente” seu curso no país. hábitos e costumes.]” (Serpa. os discursos jornalísticos sobre o tema não eram marcadamente de caráter “racialista” discriminatório. o projeto de mestiçagem brasileira. como popular.] precisamos de reforma dos costumes. os artigos de jornais que explicitavam a crença na degeneração do negro e do índio. o articulista alertava “explicitamente”: Fomos e somos sempre o escravocrata ocioso. em um fragmento de artigo do jornal O Imparcial. que. 38 . a isto. a evolução de sua moralidade. considerados rústicos e obsoletos. porém. Estes se encontravam “[. no entanto. ressaltando o branqueamento fenóptico da população negra do Brasil. no entanto. p.. e. de envolta com o africano superticioso que espreita nos symbolos e fetiches a ‘buena dicha’ do porvir.60 Neste caso. relacionando as características culturais de tal passado como causadoras de um “problema” característico de seu presente. 15). o autor adjetivou negativamente o passado escravocrata e a composição étnica do país. exaltando positivamente o aspecto da “mestiçagem brasileira”. também. objetivavam reformulações dos hábitos culturais das classes populares.. 1996..Segundo os jornais dos primeiros anos da República. era considerada de forma homogênea. Em grande parte.] enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural [... o indiano indolente que dorme à sombra das palmeiras. [. o atraso em relação à modernidade e à civilização almejadas. sim. de 3 de outubro de 1903. associando. Poucos foram. que possibilitaria eliminar os “negros puros”.

]”62 dizia a “sinopse da administração do Estado de 1910-14. de modo animador. dedica-se de preferência. à industria pastoril ou ao pequeno comércio.Pobres. attentas as grandes vantagens. da urbanidade e da civilidade vindoura. por aforamento. sinônimo do progresso econômico. Cumpre. pelo superintendente. “Paiz novo e despovoado. Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior”.]. negros e mestiços eram estigmatizados como responsáveis pelo atraso do país.61 Assim como em outras regiões do país.. em 01 de janeiro de 1899. o imigrante europeu era visto como a renovação dos costumes.. a Superintendência Municipal foi auctorisada. sobre a colonização que afluía para o município: No intuito de attrair a immigração expontânea que. pelo prazo máximo de cem annos [. o estado de Santa Catarina sempre associou a imigração à perspectiva de desenvolvimento. O nosso povo. ao presidente do Congresso Representativo de Santa Catarina”. apresentada pelo governador Vidal José de Oliveira Ramos. procedente dos núcleos coloniaes allemães e italianos do Estado. por outro lado.. porém. é pouco inclinado à agricultura.. em sua maioria. não desanimar.. pela Lei n. o Brazil só na immigração terá factor essencial ao seu progresso econômico..]. Enquanto isso. disse o major.42 de 05 de janeiro do anno passado.. representantes da velha ordem escravista e monárquica de um Brasil que se pretendia esquecer. a conceder lotes suburbanos.. e o brasileiro à incapacidade produtiva. que dessa nascente immigração deve resultar para a nossa terra [. embora também menos lucrativas [. profissões sem dúvida menos trabalhosas. No “relatório apresentado ao Conselho Municipal de Lages.]. começa a affluir para o nosso Município. 39 . [.

e que tinha sido agredido porque “Damaso de tal pediu a ele respondente o seu fumo e pediu também. como atestam os depoimentos constantes no processo crime abaixo. norteava as práticas de relações sociais do Brasil. Miguel Bernardo. suscitou-se uma dúvida entre Miguel Joaquim Bernardo. Damaso de tal atirou-lhe aos olhos o fumo e. que respondendo não ter palha.. negociante. 39 anos..]”.” Outra testemunha. No sábado de Aleluia do mês de abril de 191263. 45 anos. no nosso caso específico de Lages. pois “[. jornaleiro. e os réus João Pereira. disse que os réus eram de “[. na casa de negócios de João Naschenveng..] boa índole [e] trabalhadores. natural e residente na comarca de Lages. natural da Áustria. 29 anos. mascarada e discriminatória propagada pelos dirigentes e pela intelectualidade do país. Generoso Miguel Valente e Carlos Müller. antes do acontecido. natural do Rio Grande do Sul.. João Naschenveng. em seguida deu-lhe uma bofetada que ele respondente desviou com o braço.] Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha e que não respeita os outros. sempre tinha mantido boas relações com os acusados. quando os outros acusados também o atacaram.. Damaso de tal. mas Miguel Bernardo é dado [à] embriagues. inquirido no processo. disse que. servindo como testemunha. na localidade de Índios 64.Esta mentalidade “racialista”. que Damaso de tal levou a mão ao cabo do facão desembainhando-o e ele respondente correu para a rua [. disse que viu a discussão entre os envolvidos e mandou que Miguel se retirasse. a vítima.. logo em seguida. desordeiro [e] 40 . O dono da casa de negócios. João Cruz Júnior. palha para o cigarro.

segundo. Os debates quanto à transição do trabalho escravo para o livre e sobre o destino racial do país. a “cor” continuou sendo o símbolo da inferiori41 . desordeiro e metido a machão”. à branquidade. igualmente. Enquanto isso. 241) àqueles indivíduos egressos do sistema escravista – negros. e. a mancha da inferioridade do sangue negro presente nas veias de quase todo brasileiro. Carlos Augusto Amaral e Desidério Daboit demonstramnos. com a adoção de uma política imigrantista e a consequente perspectiva de branqueamento.65 Os fragmentos do processo citado acima servem para demonstrar como o senso-comum associou certos valores morais. estigmatizaram o Brasil escravista e monárquico como sinônimo de atraso ante dois argumentos: em primeiro lugar. foi relacionada à desordem e à indolência. pelos testemunhos de Carlos Augusto do Amaral e do italiano Desidério Daboit. travados nos meios políticos e intelectuais desde meados do século XIX. o seu oposto. como nos depoimentos citados. a presença destas representações no imaginário coletivo66 da sociedade de Lages. p. pardos. indígenas e brancos pobres. Ambos os argumentos produziram um imaginário estigmatizante (Azevedo. como a dedicação ao trabalho e a boa índole. Os testemunhos de João Cruz Júnior.metido a machão”. 1987. a imoralidade e a inépcia econômica do sistema escravista em si. a negritude. ainda. Mesmo que os discursos acima já não fossem mais necessários com o fim do escravismo. de que “Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha dado à embriaguez. que o sistema escravista tinha semeado. Tais conceitos foram corroborados.

1996. higiênicos. da inépcia e da velha ordem do país. da síntese do progresso. p. o crescimento econômico da elite e sua projeção na política estadual.. tanto expressava um ideal de civilização quanto aos interesses burgueses. do desenvolvimento. o imigrante europeu. tanto sob o aspecto cultural quanto racial. foram definitivos para as transformações sociais. enfim.]. Porto Alegre e Florianópolis para terem sua formação escolar – entrava em contato com os novos padrões morais das condutas ditas civilizadas (Serpa. 1994.]. Feios. representado como o portador da boa-nova.. Lages – através do comércio que faziam os viajantes que partiam ou chegavam à cidade e de determinado grupo da elite que enviava seus filhos a São Paulo. Os padrões liberais econômicos. Principalmente quando de cor [.. urbanos. (Pesavento. Enquanto isso. econômicas e culturais que passaram a ocorrer a partir dos últimos anos do século XIX. Trabalho e civilização X tradição Esta fúria de embelezamento. 20).. implícitos na renovação urbana. de sociabilidade e racionalidade científica eram espelhados nos padrões culturais europeus e vistos como transformações prioritárias para a conquista do progresso e da civilização. indisciplinado. tinha o seu complemento na estruturação de uma imagem do pobre como perigoso. estéticos. da liberdade. 140) Fatores como a chegada da imprensa à cidade. higiene e segurança que. conforto. São Leopoldo. 67 42 . com aspecto e comportamento não recomendável. Mesmo isolada no ermo planalto catarinense.dade. do trabalho disciplinado. afastada dos grandes centros68. era visto como o alvo imaginário das ambições civilizadoras. sujos e malvados [. p. em 1883 .

em suas páginas. Lages foi impulsionada a seguir a lógica da civilização69. ao projetarem. publicado em Lages nos idos de 1904: 43 . dizia: O jornalismo que dia a dia se espalha cada vez mais em todo mundo é por sem dúvida um dos agentes principais do progresso e de civilização moderna. associando-as à civilidade. Brancos pobres. como um dos principais instrumentos na defesa dos interesses da elite70. a prática do curandeirismo. afetando a moral e os significados das práticas cotidianas populares existentes. em oposição à “ordem”.Como em praticamente todas as cidades brasileiras. O jornal Cruzeiro do Sul. os roubos de gado. à civilidade e à urbanidade apregoadas pelas elites. a moral idealizada pela mesma. a prostituição e os bailes populares – também chamados “sambas” ou “fandangos” –. resistia uma moral da “desordem” nas manifestações do cotidiano das classes populares. caboclos e descendentes de africanos em geral formavam essa classe de populares e tinham suas manifestações cotidianas associadas à barbárie. combatiam as de caráter popular e tornavam-se o órgão difusor oficial de um “discurso civilizador” para a sociedade. em artigo intitulado “O Jornalismo”. Por outro lado. Segundo o jornal Cruzeiro do Sul.71 Os próprios jornais se pronunciavam como porta-vozes de tal discurso72. a jogatina. Os jornais. a vagabundagem. No entanto. como maus costumes e imoralidades. os mesmos jornais definiam. a mesma imprensa registrava que. em seus artigos. em 25 de junho de 1902. a partir de meados do século XIX. ao noticiarem os melhoramentos urbanos73 e as novas práticas sociais da elite. aos maus costumes e à ociosidade.

teriam que ser reeducados numa nova ética de trabalho.] se apoiava em diversas expectativas de comportamento: assiduidade.. Festas noturnas. ‘bons costumes’ . Em artigo publicado pela Revista Brasileira de História. para se diferenciar das práticas populares e tradicionais vigen44 . Às noutes porém a gaita solta suas notas gafas manuseada por um vadio e a sala soturna de bachanal enche-se de vagabundos de todos os sexos. mascarada pela homogeneização da camada popular e. que os transformaria em trabalhadores disciplinados. como forma de ordenar e submeter os ditos “vadios” ao trabalho.. ainda. definir aqueles que seriam aceitos positivamente no círculo social. 1985. 74 Pelo trecho da citação acima... eram adjetivadas como “bacanais”. eficiência. 105) Além de exaltar o trabalho como valor moral positivo e construir as expectativas acima sobre ele. populares. p. responsabilidade. que buscava. todas as cores .[. A construção da imagem de ‘bom trabalhador’ [. foi possível identificarmos a invisibilidade étnica. através do discurso. nas casas de família há falta de creadas e muitos serviços que exigem o braço do jornaleiro são demorados porque falta quem queira empregar-se. ou mesmo os brancos pobres.] é necessário a repressão dos vadios e vagabundos que infestam esta cidade [.. Sidney Chalhoub (1985) analisou a transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil.].. a imprensa. onde estavam presentes vagabundos de “todas as cores”. apresentando como se pretendia instituir novos valores à sociedade: Os trabalhadores libertos. em oposição aos desclassificados. todas as idades e todas as procedências. etc. referia-se à necessidade de repressão à vadiagem. a elite. em relação ao trabalho. como institucionalizadora da moral branca da elite. Como facetas daquele discurso. a construção de uma ordem disciplinar. aos quais se legava a exclusão. (Chalhoub.

quando o dito Bernardo de Cezare estava em casa. A queixosa Albertina. clubes e sociedades musicais. tirou-lhe duas mantas de carne. dançantes e recreativas. mais próximas dos padrões de civilidade almejados. Albertina Catadore. atribuiu o furto ao “pardo Luiz Eufrazio dos Santos e ao preto Raimundo Corneta”. combatendo as práticas costumeiras de divertimento. ou seja. o preto Marcelino. profissão jornaleiro e que. um moço de nome 45 . casada com Bernardo de Cezare. Vadios. O próprio caráter repreensivo e legal do aparelho administrativo e policial foi instituído. criando grupos teatrais. solteiro. associações beneficentes. o paradigma europeu de civilização. denunciou ao delegado de polícia. trabalhadores e tradição No dia 18 de setembro de 1889 75. exaltando os valores de uma nova moral civilizada e. onde o mesmo Luiz era caseiro. que tinham roubado de sua cozinha duas arrobas de toucinho. ajudando-lhe a carnear uma rês. imigrante natural da Itália. Disse ainda que. que frequentavam a mesma casa: Raimundo Corneta. e que só ficara sabendo por uma preta que vira a dita carne na chácara de Dona Anna Passos. tomou a iniciativa de reformular seus costumes. o pardo Luiz respondeu chamar-se Luiz Eufrázio dos Santos. a preta Joanna. sempre ia até lá por motivos de serviço. Interrogado. ele. sabendo. o pardo Luiz Eufrázio. há um ano atrás da data do roubo do toucinho em sua casa. sociabilidade e significado de trabalho livre para a massa popular. Luiz. residente na cidade. ainda. por outro lado. além daquele crime. ter 21 anos de idade. investindo em educação.tes.

a parda Beacta de tal. um sobrinho do capitão Antonio Ricken do Amorim. que não tendo lugar certo onde dormir. disse ter pernoitado em casa de José Paranaguá. de quem era camarada. por ocasião de ter ido levar até o bairro Ponte Grande. residente na cidade de Lages e que. Marcelino disse. a casa da queixosa e tinham conhecimento do tal toucinho. casado com a parda Manoela. em altas horas da noite. 22 anos de idade. subúrbio da cidade de Lages. solteiro. o preto Dionizio. ainda. passou trabalhando em quitanda. Não há sequer um depoimento 46 . 49 anos de idade. residente na cidade de Lages. Sobre o roubo do qual foi acusado.Cândido e uma mulher. solteiro. de nome Cândido e por alcunha Condoco.. naquele dia em que ocorreu o crime. acrescentando que sabia que freqüentavam. que disse chamar-se Marcelino Maria de Jesus. O promotor público encerrou o inquérito sem citar judicialmente nenhum dos acusados.] o preto Marcelino que foi escravo de Antonio de Palmas. Maria Romana. a preta Thereza. Outro acusado e interrogado foi Raimundo Corneta. que respondeu chamar-se José Raimundo da Silva. às vezes pernoitava no Corpo da Guarda. além dele. dizendo “não haver matéria para a denúncia”. às vezes em casa do dito doutor Fiúza. profissão jornaleiro. Luiz Eufrazio dos Santos.. e que todos eram recebidos na cozinha pela dona da casa. natural da Bahia. um cavalo de propriedade do doutor Fiúza. e.. regularmente. que. natural desta província.”76 Por suspeita. “[.] nunca teve em sua casa duas mantas de carne”. foi também inquerido o preto Marcelino. que foi escrava de Clementino Alves.. sobre a noite do roubo. um carpinteiro natural de São Paulo. disse Luiz que “[.

ora acolá. Ora aqui. como o caso de Marcelino. Através da leitura e análise dos mais de 350 processos-crime e inquéritos policiais dos ano de 1889 a 192077. em 47 . Humildes em suas posses. em grande parte. Pairam apenas suspeitas sem testemunhos. observamos que os descendentes de africanos da região. se identificavam profissionalmente. aquele homem era um tipo de mascate que contratava ocasionalmente os “pretos” acima para serviços domésticos de carneação e de quitanda. Pelos indícios. O “preto” Marcelino. ou criador da região. na Lages do recente período pós-escravista. No espaço urbano.mais objetivo que possa incriminar um dos autuados pelo roubo do toucinho. que era caseiro na chácara de dona Anna Passos. o “preto” Raimundo e o “pardo” Luiz Eufrazio frequentavam a cozinha da casa do senhor Bernardo Cezare. alguns deles eram exescravos que não tinham sequer casa para dormir. Ou. a “parda” Beacta de tal. fornecendo alguns indícios sobre os significados de trabalho e as práticas sociais dos ex-escravos e seus descendentes na região. comerciante. a “preta” Thereza. suburbano e rural onde ocorriam as relações entre pretos e brancos. a mobilidade era um valor importante para o negro (Mattos. 1998). então. o “preto” Dionizio. Tal inquérito foi útil por trazer à luz fragmentos do cotidiano negro do pós-escravismo. não pretendemos encontrar respostas às indagações de quem teria cometido o crime. como Luiz Eufrazio. e ia à casa de Bernardo sempre a motivo de serviço. ele se movimentava livremente em busca de sua subsistência. No entanto. e se tornavam camaradas de um ou outro chefe político.

Do índice de 21. e os que “vivem de suas agências”.35% 1. conforme quadro.35% 1.97% 21.76% 4. ou peão e camarada. foi denunciado o criador major Diogo Alves Vieira por assassinato de seu cama48 . às vezes de forma agregada à propriedade de algum outro proprietário de terras. ex: lavrador e jornaleiro. Muitos lavradores. na cidade ou no campo. etc. para complementar a renda familiar. são atividades que pressupunham a mobilidade.62% de jornaleiros e das variáveis dessa categoria. se empregavam. como jornaleiros e camaradas. principalmente como “jornaleiros” e “lavradores”. arrolados nos processos crimes e apelações de 1889 à 1920 Profissão Quantidade Não cita profissão 21 Lavrador 17 Jornaleiro 16 Camarada 05 Doméstica 03 Criada 03 Peão 02 Negociante 02 Agregado 01 Índice 28. Quanto aos “lavradores” descendentes de africanos.tais processos. no entanto.05% 4.37% 22.70% 2..35% 1.05% 2. “camaradas”.62% 6.35% 1. Em 13 de outubro de 191578. como no caso do “pardo” Domingos Padilha.35% 1.35% 1.. ainda. “peões”.35% Profissão Lavadeira De suas Agências Pedreiro Sapateiro Parteira Oleiro Praça Ferreiro Quantidade 01 01 01 01 01 01 01 01 Índice 1.35% Obs: a) dos quais foram arrolados um total de 74 pessoas “de cor”. como os “criados”.70% 1. porque eram temporárias ou ocasionais. às vezes propriedade própria.35% 1. normalmente tinham sua pequena roça de subsistência. conforme quadro abaixo: Quadro das profissões de negros/mulatos/pardos e morenos. b) alguns foram arrolados com mais que uma profissão.

disse que o fez para vingar-se de uma surra que lhe dera João Aquino. porém. o elo hierárquico e paternalista. não fosse tão fácil desvencilhar-se das amarras hierárquicas e paternalistas que a tradição lhe impunha. em 189980. Segundo a promotoria. deu-lhe um tiro mortal. pelo assassinato de três crianças menores de dois anos. filhos de seu patrão.” Ora. Outra questão das relações entre senhores e trabalhadores livres é o significado que tais relações representavam para os negros egressos de uma tradição escravista. tradicionalmente tão profundo nos meandros sociais daquele período. Em outra ocasião. ainda. o fato se deu por ocasião de uma discussão entre o réu e a vítima. Em seu depoimento. poderia ser contestado de várias formas. ou no “seu direito” de contestação àquela ordem.. sem criar o “motivo que a legitimasse”. mesmo anos após a abolição. jornaleiro e agregado de João Aquino Cabral. Em depoimento por escrito. foi acusado. o réu escolheu a sua maneira de contestá-la. João Fernandes Ayres Varella.rada Domingos. 49 . defendendo-se. na qual o “pardo” Domingos teria agredido com um facão ao réu que. acrescentou ainda João Fernandes que “ [. filho da ex-escrava Gervásia de tal79. cedida gratuitamente pelo suplicante e sita na sua propriedade ‘dos Conselhos’ [no quarteirão dos Índios]”. Talvez.] queria ir embora por isso tinha morto as crianças. com lavouras e outras benfeitorias. pelo motivo de ele não ter encontrado umas rezes que saíra para procurar. o réu disse: “Domingos Padilha era seu peão desde mais de um ano e vivia como agregado numa casa de campo.. Talvez não imaginasse sua trágica pena. acreditasse na impunidade.

Por outro lado. 50 . que nem sempre tinha um fim trágico como nos casos acima. até o surgimento de uma distensão entre o proprietário e o dito agregado. Por mais que se perpetuasse algum tipo de vínculo patriarcal hierárquico entre os negros livres em relação a antigos ou novos patrões – por imperativo daquela ordem social – a mobilidade espacial e o arbítrio de decidir quando e a quem servir.81 Denegrindo alguns valores e associando-os negativamente em relação a outros. de 8 de fevereiro de 1906. que estava relacionada a certos padrões de comportamento e “bons costumes” ditos civilizados. no que tange à definição de suas relações de trabalho. eram-lhes imprescindíveis como significantes de liberdade. eram consideradas pela elite branca como insubmissão. jornaleiros. muitas vezes. encontramos o seguinte anúncio: Precisa-se: de uma criada que não se dê ao vício da embriagues e que não faça mudanças por conta própria. e isto estava ligado. No jornal A Evolução. às expectativas de liberdade construídas na época escravista. criados e peões. a elite branca sentia-se prejudicada com a arbitrariedade de criados e jornaleiros. pelo contrário. ainda. isto se dava. a imprensa difundia uma nova moral de trabalho. por curto espaço de tempo. geralmente era a de trabalho ocasional. Assim como as visões do negro sobre liberdade (Chalhoub.A forma com que se empregavam camaradas. 1990) remetiam a noções de mobilidade. vadiagem e propensão ao roubo e à criminalidade. Quando se estabeleciam em propriedades alheias como agregados. e que iam de encontro às práticas de vida cotidiana dos populares.

e isto sempre que se ausenta Felippe José Bairros.Livres. disse o promotor: “está pois claro. O problema se agravara com a progressiva abolição dos escravos. Já alguns meses após abolida a escravidão. Justificando a denúncia. onde residem. que os denunciados vivem do furto.” Os denunciados. de quem os denunciados são agregados. denunciou83 Manoel Waltrick e seu irmão Serafim Waltrick pelo roubo de três reses em dezembro de 1887. em setembro de 1888. não possuindo nada de seu”. não eram porém de “dedicar-se ao trabalho”. desde que “foram libertados. teem no entretanto feito constantemente carneação de gados em casa da preta velha Mariana. constituindo a gatunice quase que um meio de vida ou profissão. também fazendeiro. entre negros.82 Comum e muito combatido na região. não procuraram até hoje dedicar-se ao trabalho e não possuindo nada de seu. ou seja. ditos pelo próprio promotor “agregados” de Felipe José Barrios. a partir da segunda metade do século XIX. indígenas e brancos pobres. Jornaleiros. camaradas. porquanto desde que foram libertados. agregados. retiradas dos campos do criador Lourenço José Theodoro Waltrick. despossuídos e móveis O furto de animais nesta comarca é um crime que campeia impunemente desde épocas remotas. o promotor público João José Theodoro da Costa. Ora. Manoel e Serafim eram ex-es51 . todos que se mantinham em atividades sazonais e circulavam livremente pela região eram suspeitos. o roubo de gado tornou-se uma das principais preocupações das autoridades e dos criadores.

Em oito destes. Após adquirirem a liberdade. p. Em muitos dos casos. Ainda assim. não possuindo nada de seu”. “nunca teve em sua casa duas mantas de carne”. o que significa a sua “não submissão a um “tempo burguês”. em seus depoimentos. como também de autoidentificação perante a sociedade de que faziam parte. o que demonstrava uma relação de dependência e afinidade. apud Azevedo. foram: 1) a de que furtaram para comer e alimentar a sua família. houve o envolvimento de descendentes de africanos. 2) para vender e conse52 . externo às suas necessidades de sobrevivência e. Assim como o pardo Luiz Eufrázio.” (Thompson. muitos dos descendentes de africanos viveram perambulando. de acordo com suas necessidades e vontades. o que revela uma certa ambiguidade das relações hierárquicas naqueles termos e a possibilidade prática de contestação a uma ordem pré-estabelecida.138). em um ou outro momento da leitura de seus conteúdos. ainda. do processo ante84 rior . roubando e/ou trabalhando periodicamente. o relacionamento não impediu que Manoel e Serafim roubassem o gado do senhor Waltrick. identificamos vinte e nove processos referentes a furto de bovinos. 1987. a vítima. por isso. “vivem de furto. conflitante com o seu bem-viver. Do fichamento de processos-crimes. O ideal de acúmulo e riqueza não fazia parte da mentalidade daqueles negros. Usavam.cravos de Lourenço Waltrick. o mesmo sobrenome de seu antigo proprietário. cavalares e muares86. inquéritos policiais e apelações crimes da comarca de Lages dos anos de 1888 a 1920. segundo o promotor João Costa85. os acusados Manoel e Serafim. as justificativas dos acusados.

Esse tipo de banditismo89. aumentara a massa de despossuídos que disputavam as migalhas do velho sistema e. no caso de gado bovino. onde os furtos de gado são freqüentes e a repressão difícil. 3) pensando que os animais roubados seriam “orelhanos”87. A “Mensagem dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina. Governador do Estado”. assim.guir algum dinheiro. há muito tempo comum no meio rural do Planalto Serrano catarinense e agravado pelo processo abolicionista. Os cavalos e mulas eram vendidos em localidades distantes. não houve policiamento eficiente ou suficiente para a contenção da prática. uma condição de sobrevivência daqueles que usufruíam de tais furtos. pelo Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz. caracterizando aquele momento de transição. por significar. por vários anos após tal pronunciamento. urbana e capitalista que se instituía. não organizado. a venda.88 Mesmo assim. a problemática dos furtos 53 . também. e. para que não fossem reconhecidos. Com a libertação total dos escravos. até mesmo em outras cidades. dizia: Faz-se necessária a creação de uma companhia montada e que permaneça na região serrana. Geralmente. a quantidade de cada furto era pequena. depois de carneado. em muitos dos casos. attentas as grandes distâncias em que se acham uma das outras e dos centros populosos as fazendas de criação. frequentemente era feita no próprio mercado público. aleatório e espontâneo. em agosto de 1896. ou ainda. Essa categoria de crime chegou a preocupar o governo estadual. era uma forma de resistência individual em relação a uma nova moral civilizatória.

Dos mapas demonstrativos da movimentação da cadeia de Lages. Além das características apontadas acima. Mn. Alexandre V. em que muitas vezes estavam presentes os negros. Jacintho 13. dos quais identificamos ape54 . Da Conceição Idade 21 22 22 46 30 21 24 29 25 20 25 26 26 24 22 21 Ofício Jornaleiro Lavrador Jornaleiro Carpinteiro Pedreiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Lavadeira Lavadeira Lavadeira Lavadeira Sinais Pardo Pardo Pardo Pardo Preto Pardo Pardo Moreno Preto Preto Preto Pardo Branca Parda Parda Parda Crime Morte Ferimentos Furto Furto Morte Morte Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Entrou 04/4 29 10 10 12/4 24 24 24 24 24 24 24 24 24 24 Saiu 14/5 10 11 14/5 14 27 27 27 25 Por ordem do Juiz Municipal Delegado Juiz de Direito Subdelegado Juiz Municipal Juiz Municipal Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Obs: 1). ou seja. Apenas três indivíduos foram presos por ordem do juiz municipal ou do juiz de Direito. Maurício Rita Theresa 2. Os mapas de abril e maio no original são individuais. Manoel André 10. existe a seguinte relação: Nome 1. 16. Souza 12. entre alguns “pretos” e um “moreno”. Gercina Dos Santos S. Clara M. Manoel Ant. enquanto os outros foram presos por ordem do delegado ou subdelegado municipal. José Paranaguá 5. da Costa 11. Dos dezesseis indivíduos que entraram ou saíram da prisão nos referidos meses. Daqueles. sendo que doze foram presos por crime de furto. Gersino D. outras são: naturalidade. Souza 15. apenas dois indivíduos foram arrolados por crime de morte. Amancio B. Cyrina Maria Pereira 14. Antonio Luiz 3. Da grande maioria desses presos. Mn. Mauricio Rita Theresa 7. estado civil e estatura. da Cruz 6. Silva 4. apenas uma mulher foi caracterizada como “branca”. Maria Ignacio d. investigamos a possibilidade de encontrar os devidos processos-crime ou inquéritos policiais referentes a tais prisões. F.não só de animais -. David Canabarro 8. sendo a grande maioria denominada de “parda”. de Moraes 9. a maioria era descendente de africanos. referentes aos meses de abril e maio de 188990.

que se refere ao tipo de característica física dos indivíduos presos.nas dois daqueles indivíduos. No entanto. o que significa que muitas das prisões foram realizadas preventivamente. principalmente quanto ao tópico que mais interessa. não existem muitos relatórios tão detalhados como os da fonte acima. A característica “cor” foi anotada no mapa como sinônimo do quesito “sinais”. onde se encontrava um número significativo de descendentes de africanos propensos a uma criminalidade. as demonstrações autorizam a afirmar a existência de uma classe marginalizada na sociedade lageana. não existindo uma documentação policial particularizada sobre cada uma daquelas prisões. por suspeita ou por estratégia de coibir-se a criminalidade. Além disso. que é o quesito “cor”. 55 . apesar do “silêncio” – o das fontes documentais – característico daquele período. definida segundo os valores ditos brancos e burgueses.

56 .

as práticas sociais vivenciadas em toda a região de Lages foram marcadas por uma íntima relação com os valores religiosos. ligada a uma época. específica. a forma sob a qual elas se manifestam é sempre histórica. sem a intervenção eclesiástica e oficial da Igreja Católica. quer dizer. 1996. As emoções não são. e se acreditava curar as pessoas rezando sobre suas feridas (Queiroz. 6). os populares estabeleceram sua devoção religiosa. onde denunciava 57 . Através dos chamados curandeiros ou feiticeiros.Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas “As emoções possuem sempre um fundamento de classe muito bem determinado. assinado por um indivíduo com o pseudônimo de Bisbilhoteiro. distrito de Lages. em absoluto universais nem intemporais. limitada. residente em Capão Alto. Para os habitantes do Planalto Serrano. a religião possuía sentido tão pragmático que as roças e os animais eram benzidos.” Bertolt Brecht D Contra a “cor” inexistente urante o século XIX e as primeiras décadas do século XX. p. o jornal O Planalto publicou o artigo intitulado “Fanatismo em Lages”. Em 18 de julho de 1918.

sortistas e curandeiros eram sempre seguidos por cognomes de: fanáticos. Para os porta-vozes da moral civilizadora. benzedor. que é também adivinho e benze com patuás.. benzedeira e xaropista. todo um arcabouço vernacular era usado indistintamente para associar a religiosidade popular a aspectos negativos. Benzedeiras. foi denunciado por crime de ferimentos contra Antonio de Mello Corrêa. Além da área urbana. teria aconte- 58 . costumando receitar chá de raspagem de uma madeira que só elle fornece. No dia 16 de setembro de 190292. xaropista e bêbedo”91..a prática um tanto comum de aspectos da religiosidade popular na região. como aquela manifestada pelo jornal O Planalto. temos outros fanáticos e exploradores de algibeiras. entre os quaes sobresahem os seguintes: Nessa cidade. principalmente entre os setores mais populares da sociedade. No districto de Campo Bello. lavrador. casado. em toda a ampla área suburbana e rural sob a jurisdição da cidade de Lages. vulgo Pedro Barulho. 35 anos. 50 anos. Capão Alto e Campo Belo. ambos do Painel. Dizia o Bisbilhoteiro: [.] além do Luciano e do Daniel. residente há 15 anos em Lages. Neste districto (Capão Alto) Therezio Brasileiro e João Olympio. natural de Desterro. feiticeiros. discípulo de Daniel. xaropistas. no lugar – Cerro Negro –. Pedro Guilherme da Silva. ocorrido em 14 de julho na localidade Cerrito93. exploradores. xaropista e bêbado”. criador e lavrador. ou qualquer outra denominação que reforçasse o seu aspecto depreciativo para a sociedade civilizada. O crime. como no caso de Painel. existe um tal Manoel Xerengue. uma tal Maria Eugenia (do Boava) que é sortista. prevaleciam as costumeiras práticas de curandeirismo. em que Manoel Xerengue foi lembrado como “benzedor.

o que mais chamou a atenção é que nenhum o teria qualificado de negro. o curava das moléstias que o importunavam. O réu foi condenado a um ano de prisão. A análise de tal documento teria sido dada por estar inserida no espaço de tempo escolhido para esta pesquisa. preto. Pedro Barulho começou a bater em Antonio. inclusive o da própria vítima. alegando que Barulho era feiticeiro. em seguida. foi publicada a informação sobre o mesmo episódio. confirmaram a versão da promotoria. o envolvimento de Pedro Barulho. Enquanto isso. em um “rolo effectuado no lugar denominado Índios”95. de que “Pedro em companhia de outros pretos metteuse numa grossa carraspana”97. em 17 de março de 1907. No entanto. e a furar-lhe com um chifre de veado branco. se retirado do local. dizendo que tudo aquilo era para tirar o mau espírito que Mello tinha no corpo”. ao denunciá-lo. Primeiro. também em notícia do jornal A Evolução. Pedro defendeu-se dizendo que apenas benzeu a vítima com arruda molhada. Ao escurecer. que na noite de 20 59 . produzindo-lhe diversos ferimentos”. Segundo. curandeiro e monge. dizendo que. dois fatos permitiram a identificação da “cor” daquele indivíduo. tendo. De todos os epítetos dados a Pedro. usando de “um rosário e vara de marmeleiro. Pedro Barulho teria ainda distribuído a todos os presentes uma “beberagem e encerrado a vítima em um quarto. outros testemunhos do processo. por meio de magias.cido na ocasião em que Pedro Barulho apresentara-se em casa de Antonio. Em seu depoimento94. chamou-o de “esse indivíduo de cor escura” 96. pardo ou escuro em tal processo. onde o promotor público Manoel Thiago de Castro. Autorizado pelos que se encontravam na casa.

envolveram-se em uma discussão. À primeira vista. disse a testemunha João Pedro Luiz. Luiz Vieira e “seu capanga e empregado Antonio Barulho”. onde se realizava um baile. pudemos também percebê-lo na análise dos processos-crime da comarca de Lages durante a Primeira República. geralmente. A partir daí. embora. por vezes. não tenha sido possível identificá-los. apenas os indivíduos que tinham alguma relação com um próximo passado escravista. ofendendo fisicamente várias pessoas. 43 anos. Por exemplo: pretos e pardos eram 60 . na rua da Santa Cruz. Aproximadamente até meados do século XIX. em casa de Antonio Machado. envolvendo populares no período da Primeira República. e um preto que empunhava um facão. passaram a ser nomeados pela “cor”. idenficava-se a “cor” dos envolvidos nos processos. Assim como Hebe Mattos (1998) detectou o progressivo desaparecimento da “cor” nos processos judiciais do Sudeste brasileiro no século XIX. não foi possível identificar a “cor” de Barulho. fossem brancos ou negros. armados. vindo a saber depois que o moço branco era filho do senhor Diogo Vieira e o preto era filho de um tal Pedro Barulho”.para 21 de abril de 191898. Só depois de confrontar com outras informações obtidas através de uma nota de jornal e de outros processos é que foi possível distingui-la. como nos autos processuais em que o curandeiro Pedro Barulho foi acusado por ferimentos contra Antônio de Mello Corrêa. operário. incluíssem descendentes de africanos. É provável que muitos dos processos estudados. que viu “um moço de boa altura tendo um revólver na mão. Sobre tal acontecimento.

não era incomum que. pois com o progressivo distanciamento da ascendência escrava. em relação aos homens nascidos livres. Perder o estigma do cativeiro era deixar de ser reconhecido não só como liberto (categoria necessariamente provisória). na segunda metade – se bem que continuasse fundamentalmente hierarquizada – já não incorporava a diferenciação racial ao controle social. vítimas e réus. mas como ‘preto’ ou ‘negro’. inclusive nos processos judiciais a partir das últimas décadas do século XIX até os anos vinte e trinta deste século. ainda. observamos que. (Mattos. 61 . Hebe Mattos (1998) faz a seguinte afirmativa: Se. p. sem nenhum critério aparentemente técnico. até então sinônimos de escravo ou ex-escravo e. um ou outro escrivão.. No entanto. à maneira colonial. o juíz . deixava-se de citar tal categoria. referentes a seu caráter de não cidadãos. aleatoriamente. o delegado de polícia. até a primeira metade do século XIX. nas últimas décadas da escravidão [. em praticamente todos os registros oficiais. inclusive em termos policiais e criminais. Sobre isso. 284) Em Lages. os homens livres se dividiam. mas uma prática já plenamente vigente.]. portanto. tenha usado distinguir a “cor”99 naqueles autos. outras pela transcrição da fala de funcionários da justiça envolvidos no processo – o promotor público. Era como se a “cor” estivesse cumprindo um papel de distinção quanto ao status social. a vivência da liberdade. em brancos e pardos..sempre identificados como escravos ou libertos. os peritos do corpo delito – ou. O desaparecimento da marca racial dos registros policiais não foi uma invenção republicana. dos homens livres e pobres. pela transcrição literal dos depoimentos de testemunhas. houve um progressivo desaparecimento da definição da “cor” dos indivíduos arrolados em tal documentação. alguma vezes identificando-a por livre arbítrio. 1998.

vítimas e réus. Por outro lado. a “cor” se manifestava. como elemento social diferenciador. ou seja. em 47. tais índices totalizam 48. de 1889 a 1920: Origem do termo Citado pela denúncia: Citado por testemunhos/réu/vítima Corpo delito Cito pelo próprio depoimento Outros Quantidade de processos 23 35 12 02 01 Índice proporcional 31.37% TOTAL 73 Obs: a) o ítem “dito pelo próprio depoimento”. resultou o quadro a seguir. constata-se que a manifestação da “cor”.44 % 2. Com uma leitura atenta de todos os processos crimes de 1880 a 1920.51% dos casos. A origem do termo “cor” foi citada oficialmente por funcionários da justiça em dois momentos.44% das vezes. Somados. só foi possível a identificação dos negros pela leitura cuidadosa do conteúdo dos depoimentos de testemunhas.95% dos casos. referente ao momento em que foi possível localizar os descendentes de africanos no conteúdo dos autos: Em relação à origem da sua citação nos processos. b) o ítem “outros” é referente à identificação da “cor” por uma fotografia anexa aos autos do processo.95% dos processos. Apesar de não haver distinções étnicas definidas oficialmente por qualquer tipo de política racial. expressava a existência de uma 62 . a citação foi feita pela promotoria e. no cotidiano conflituoso daquela sociedade. pelos depoentes.Dos processos-crimes consultados. quase metade deles. foi citada pelos responsáveis pelo exame de corpo delito das vítimas. se refere à condição quanto à situação de ex-escravo ou filho de ex-escravo. em 16.95 % 16. por vezes.51 % 47. Em 31.75% 1.

“fronteira situacional e contrastiva” entre os indivíduos daquela sociedade. Segundo o historiador gaúcho Paulo Roberto Staudt Moreira (1995),
“[...] no seu dia-a-dia, os indivíduos elaboram estrategicamente sistemas de símbolos e classificações, visualizando grupos adversários - demarcando-os - e construindo sua própria auto-imagem. Neste jogo diário de convivência em um mesmo espaço, os indivíduos acabam por elaborar sua identidade de forma situacional e contrastiva.” (p. 78).

Através da vivência em seu cotidiano, os indivíduos estabeleciam entre si códigos de relacionamento. As distenções e alianças que se manifestavam através das experiências estabelecidas entre eles permitiam o surgimento de uma identidade situacional e contrastiva que, por sua vez, possuía fronteiras próprias. Estas constituíam-se em “fronteira situacional e contrastiva” nos momentos em que afloravam determinados conflitos sociais. Assim, a “fronteira” é delimitada pelo momento em que uma dada unidade social é rompida pela manifestação de uma situação conflituosa. Estes conflitos podiam ser de forma horizontal, ou seja, entre as próprias classes populares, ou ainda, de forma vertical, entre subalternos e dominadores. A fronteira situacional e contrastiva se manifesta em certas situações práticas do cotidiano, definindo hierarquicamente posições e diferenças em que estariam inseridos brancos e negros, bem como pobres e ricos, nacionais e estrangeiros, homens e mulheres, entre outros grupos que compõem dado quadro social em que, por vezes, os indivíduos se incluem ou se excluem de uma dada unidade, dependendo da situção social manifesta. No entanto, no que
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se refere a questões étnicas no Brasil, essa “fronteira” mal definida e embaçada pelo discurso e prática do “branqueamento” e pelo silêncio sobre as diferenças no Brasil pósabolicionista, nem sempre salientou a alteridade pela questão da “cor”, manifestando-se de outras formas. Como não se expunha necessariamente a “cor” dos indivíduos envolvidos em todos os processos do período pesquisado, fato que também ocorria com outros documentos, não foi possível identificar com exatidão todos os negros, pardos ou mulatos envolvidos. Porém, quando foi possível fazê-lo, seja através da fala de um depoente, seja colidindo informações entre fontes como processos e jornais, verificou-se algumas situações sociais específicas do cotidiano de Lages, em que era comum a presença de descendentes de africanos, como no exemplo da prática de curandeirismo. No processo em que Pedro Barulho foi acusado de provocar ferimentos graves em Antonio Mello Corrêa, várias testemunhas depuseram, dizendo que Pedro era curandeiro, feiticeiro e monge, com a intenção de ressaltar, ao aparelho judiciário aspectos da vida do acusado, que a ordem social predominante considerava como imoral. Em tal caso, a “fronteira” se manifestou em outros termos, não sendo lembrada a “cor” do acusado, pois quem sabe outros presentes, ou a maioria em questão, também fossem descescendentes de africanos. Por mais que as pessoas que testemunharam o fato em casa de Antonio tenham se mostrado coniventes com a prática curandeira, permitindo que Barulho benzesse Antonio, eram amigas da vítima e sabiam que, ao narrarem para o
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judiciário a atividade do curandeiro, comprometeriam sua índole diante da moral “civilizadora”, não sendo necessário destacar a sua “cor”. Aspectos da religiosidade popular: a presença negra
Devoção aos santos, festas, novenas, promessas e benzeduras eram elementos fortes do catolicismo popular e se caracterizavam pelo seu caráter festivo, pela interpenetração entre sagrado e profano e pela mínima ingerência da hierarquia eclesiástica. (Serpa, 1997, p. 55)

Em Igreja e poder em Santa Catarina, o historiador Élio Cantalício Serpa (1997) disserta como, concomitante a um processo civilizador da sociedade catarinense, entre 1889 e 1920, houve uma reorganização burocrática, institucional e devocional da Igreja Católica no Estado, seguindo a lógica de transformações que ocorria em todo o país com a proclamação da república. Na expressão de Serpa, a Igreja se “romanizava”101 e pretendia instituir, simbolicamente, uma hierarquia administrativa e devocional, que contradizia o costume e a tradição das camadas populares da região. Na mentalidade daquela diversidade de populares do Planalto Serrano Catarinense, formada por descendentes de portugueses, espanhóis, indígenas e africanos, as autoridades eclesiásticas eram pouco reconhecidas. Além disto, até fins do século XIX, os sacramentos da igreja como o batismo, a comunhão e o casamento, eram pouco considerados em suas práticas cotidianas. Em Lages e região, com a vinda dos padres alemães da Ordem Franciscana, a partir de 1892, começou a reestruturação do catolicismo pela Igreja, preocupada em implementar e estabelecer práticas disciplinadoras em re65

lação à hierarquia da Igreja e legitimar a autoridade de padres, vigários, bispo e papa. Para isto, encontraram apoio entre as classes dirigentes e os setores médios que, naquele momento, reformulavam suas condutas sociais de acordo com os padrões de civilização adotados, branco e burguês, e que relacionavam os costumes tradicionais ao atraso e à ignorância. Por conta daquelas intenções, pela primeira vez, no ano de 1898, a região recebeu a visita de um bispo, dom José de Camargo Barros102. Festas e recepções foram preparadas pelos padres franciscanos em diversas cidades e freguesias da região, como: São Joaquim, Painel, Lages, Canoas, Curitibanos e Campos Novos. Em seus diários, (Barros, apud Piazza, 1984) dentre as impressões de pouca consideração à sua presença por parte do povo em geral, de atraso, ignorância e pobreza da região, o Bispo afirmou que, no Painel “[...] são quase todos caboclos e mulatos” e que, em Lages, “[...] a população de negros e mulatos é muito grande”103. Dom José visitou várias cidades catarinenses onde a afluência de imigrantes europeus já se fazia presente há algumas décadas em grande número, como na região do vale do Rio Itajaí e na região sul de Santa Catarina. Por isso se explica a atitude incomum do bispo, identificando a diferença fenótipa da composição populacional da região do planalto, em fins do século XIX. A visita de dom José procurava submeter o caráter de reconhecimento da autoridade episcopal aos populares, dentro do plano de “romanização” da Igreja. Entre as estratégias de disciplinarização religiosa, que incluíam
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vivenciavam suas práticas devocionais típicas do catolicismo popular em que: o leigo tinha participação ativa nos assuntos religiosos. pois o caboclo pobre.a ação dos padres pelo interior da região. transgredindo a normalidade do cotidiano vivido” (Serpa. as benzeduras eram práticas corriqueiras. sendo considerado o momento em “que todos estavam juntos. as capelas eram geridas por capelães que não estavam subordinados à hierarquia eclesiástica. a crença em pessoas com poderes sobrenaturais fazia parte do cotidiano de homens e mulheres. bem como a resistência à “romanização” de algumas capelas em que os fiéis e capelães não admitiam subordinar-se à hierarquia eclesiástica. perpetuavam-se as práticas cotidianas do curandeirismo e das benzeduras. bandas musicais. No entanto. segundo Élio Serpa (1997): Junto às camadas pobres da sociedade. em 1903 –. extraindo da terra os mínimos vitais. 79) Dentre as manifestações religiosas populares e tradicionais da região. a Igreja também condenava o concubinato. alijado da posse e dos meios de produção. p. Nestas. que nunca antes fizera parte do mundo que vivenciaram. A Igreja fundou ainda escolas. pelos quais impunha um conjunto de moralidade civilizada e condenava outros de caráter popular. tinha outras formas de se relacionar com o sagrado. crismando e casando a população. 1997. Estes habitantes. vivendo muitas vezes sob a dependência dos ricos fazendeiros. jogava-se. 67 . vivendo em completo analfabetismo. enfrentaram dificuldades e reações. como as festas profanas dos populares. 111). designados por caboclos. (p. bebia-se e brincava-se. batizando. associações beneficentes e jornais – como por exemplo o Cruzeiro do Sul. entre outros instrumentos. o culto aos santos tinha um papel central. o curandeirismo e outras práticas cotidianas tradicionais. sem distinção de classe ou “cor”.

dois fatos contribuíram para o gradativo desdém dos descendentes de africanos à devoção de Nossa Senhora do Rosário: a abolição da escravatura. natural de Angola. e a vinda dos padres franciscanos a Lages. em 1888. Durante o período escravista. São parcas as informações sobre a capela Nossa Senhora do Rosário106. A falta de interesse e recursos para mantê-la levou suas instalações às ruínas. a capela congregava os escravos da cidade e seus descendentes. o controle administrativo exercido pelos padres franciscanos em relação às capelas que não demonstravam resistência popular à “romanização”. em 1892. sendo fechada entre os anos vinte e trinta do século XX. onde se fundam as raízes do movimento milenarista caboclo104 e a crença em São João Maria – um santo de “carne e osso”105 – em Lages. Provavelmente. 68 . talvez a capela lembrasse aos ex-escravos um passado e uma condição social que preferiam esquecer e. por outro. escravo do fazendeiro Manoel Joaquim Pinto. a segunda. A primeira. celebravam-se pomposas festas em homenagem à santa padroeira dos pretos e escravos108. pelo seu significado para as populações de origem africana durante o período escravista e.Duas capelas de caráter popular merecem atenção: a de Nossa Senhora do Rosário e a de Santa Cruz. Construída por volta de 1860107 pelo mestre pedreiro Pai João. fez com que a capela do Rosário ficasse cada vez mais fragilizada em relação ao número de fiéis. Por um lado. tradicionalmente no mês de outubro. pelo seu caráter extremamente popular e característico da região. e demolida nos anos quarenta 109.

No entanto. 209). Até por volta do ano de 1915. surgiram muitas lendas e verdades. e a capela constituiu-se num foco de conflitos entre franciscanos e os devotos de Santa Cruz. visto que considero que somente devo prestar contas aos devotos de S. construída com o esforço dos seus devotos. p. em novembro de 1902: “a capela de Santa Cruz tem estado muitíssimos anos sob minha gerência [. Cruz. 110 69 . mantendo-se. 1997. Lourenço Dias Baptista. aos poucos.Segundo Serpa (1997. só em 1931. ela resistiu. Em seu lugar. escreveu no jornal O Imparcial. O controle total da capela foi passado à autoridade diocesana em 1924. a capela de Santa Cruz representava. a capela foi fechada para ser demolida. foi lançada a pedra fundamental do novo templo de Santa Cruz que. perdeu seu vínculo com a religiosidade popular tradicional. Em torno da cruz. um marco significativo da presença de João Maria de Agostinho em Lages. a partir de 1920. arbitrariamente. p. nas suas andanças pelo interior de Santa Catarina. O zelador de Santa Cruz. O monge João Maria.”111 Pretos e brancos frequentavam as festas e os cultos da capela de Santa Cruz112 durante o período.]” e não darei “satisfações sobre ela a nenhum Vigário. dado o caráter exclusivamente popular da capela. 203). registrado em cartório (Serpa. para a maioria da população. deixou sua marca registrada na cidade.. através da elaboração dos Estatutos da Irmandade de Santa Cruz. outra seria construída por acordo entre os franciscanos e o poder público municipal. plantando uma cruz no local onde se originou a capela. fora da jurisdição franciscana.. Porém.

solteiro. 79 anos. casado. Em vista de uma carta que está em mão do sr. Achavam-se em casa o sr. talvez jamais o soubéssemos. Sobre o fato do incêndio. há um ano morador na cidade de Lages. feiticeiro ou curandeiro. onde se ocupava de fazer flores de papel e “preparar remédios”. distante a légua e meia desta cidade. dizia o seguinte: Na noite de 17 do andante ficou reduzida a cinzas a casa de residência do sr. no dia 30 de abril de 1908. natural da antiga Desterro. o hebdomadário O Clarim. em casa de João Waltrick. Antonio Waltrick. no momento em que fez a denúncia. o incêndio parece ter sido praticado por um curandeiro ou feiticeiro que há tempo se acha nesta praça induzindo o povo incauto com suas bestialogias que estão passando despercebidas às autoridades. Justino Augusto do Carmo disse que era sapateiro. Waltrick. como autor do incêndio proposital em sua casa. na madrugada de 18 de abril de 1908. denunciou113 o “mulato Justino do Carmo. na rua Santa Cruz. no momento de exaltação de Waltrick. em uma nota com o título “Casa Queimada”. No entanto. a “fronteira situacional e contrastiva” se manifestou no inquérito policial. Tenente Cel. por sua con70 . profissão criador. com 45 anos de idade. sua exma Esposa e um filho. Interrogado. o que leva-nos a crer que estas não comprehendem que nosso adiantamento moral já não permitte tal MODUS VIVENDI que só tem entrada onde a ignorância tem domicílio. Se não fosse o coronel Waltrick chamá-lo de “mulato”. na fazenda Santo Antônio Lisboa. que pouco salvar puderam. morador da cidade”. Justino finalizou seu depoimento alegando sua inocência.114 Não há menção nenhuma referente à “cor” de Justino na nota de O Clarim.Feiticeiros e curandeiros: a crendice popular Antonio Waltrick. Commissário de polícia.

Por coincidência ou não. alegando ter-lhe feito “mal as ervas que o recomendara” e que “continham venenos”. Justino. conhecida como Manoela. que por outras três vezes já havia sido queimada a dita casa. era inocente. que o tomou. lavradora. também. Justino dizia que respeitava o coronel. negociante. Domingas Maria Henrique. tanto Justino quanto Pedro Barulho. e que. pela sua “cor”. Naquele momento. Waltrick receberia “um sinal de Deus” para lhe mostrar como ele. porém. negou ter cometido o crime ou rogado pragas ao senhor Waltrick. foi anexada uma carta enviada por Justino ao senhor Waltrick. o coronel Waltrick intencionava reforçar os valores negativos do acusado em relação aos padrões de civilidade aceitos. do processo anterior. mas negou o crime. cabe esclarecer que Justino. Domingas Manoela. 45 anos. reforçando as intrigas entre seu pai e Manoela. na sexta-feira santa. A testemunha. Antes de passarmos a ela. havia preparado um remédio para Waltrick. Ao corpo delito e inquérito policial do incêndio na casa da Fazenda Santo Antonio Lisboa115. e acrescentou ter ouvido dizer que uma parda. dias antes. Na carta. lembrando. defendeu o curandeiro a quem tinha como hóspede.vicção de que o incêndio foi causado por aquele a quem chamou de “mulato” Justino. Justino confirmou a autoria da carta. o estigma da condição social passada de Justino. Inquirida. natural do Ceará. relembrando ao aparato jurídico-policial. Outras 71 . teria rogado pragas ao senhor Waltrick. e que ficou muito chateado com suas insinuações. três dias antes do incêndio. eram curandeiros. João Waltrick. 70 anos. filho do coronel.

na carta anexa ao processo. No entanto. não considerando a possibilidade do ato do incêndio pelo curandeiro. mas foi desconsiderado todo um discurso de “adiantamento moral” que já não permitia tal modus vivendi propagado incansavelmente pelas elites. dizendo que não tinha argumentos suficientes para confirmar a denúncia e pediu que se arquivasse o inquérito em julho de 1908. a evidência de um questionamento moral quanto à ordem hierárquica. que não apenas a ordem hierárquica foi rompida.. o que foi despachado pelo juiz. e o incêndio foi dado como casual. na atitude de Justino.]”. por si só. Houve. A condenação moral do curandeirismo. é bastante provável que Justino tenha tido parte em tal crime. acrescentando que.testemunhas disseram ser “voz geral” na cidade que Justino foi o autor do crime de incêndio. Isto. ameaçando toda a ordem social vigente e uma nova moral que se pretendia implantar. pois o incêndio ocorreu exatamente na sexta-feira santa. Embora não tenha sido condenado. à interpretação do acontecimento. A prática social do curandeirismo e da feitiçaria sobrevivia como elemento da religiosidade popular e intimidava. Acrescentamos. pelo tom ameaçador de suas palavras. some-se a este raciocínio que o preconceito em relação à “cor” de Justino também o é de 72 . na “Sexta-Feira Santa receberás um sinal de Deus”. A promotoria pública finalizou. poderia ser vista como preconceito moral de setores da sociedade em relação aos populares. dia previsto por ele para Waltrick receber “um sinal de Deus”. que “respeita o coronel e que ficou muito chateado com suas insinuações [. O “mulato” disse..

científico. em que as práticas de crendice e religiosidade popular eram consideradas como manifestações imorais e ilegais: Sabemos que existe nesta cidade curandeiros charlatães que aqui andam explorando o povo. de 29 de janeiro de 1908. entre outros. étnico. para a elite. da moral do próprio coronel Waltrick. está relacionada a um tipo de preconceito de ordem moral. mormente aquellas pessoas de pouca instrucção que facilmente estão sendo levadas pela fama de taes curandeiros. Para a pensadora Agnes Heller (1992). As manifestações do preconceito de ordem moral da sociedade branca e elitizada de Lages contra as práticas tradicionais de religiosidade popular eram duplamente reforçadas quando tais práticas se manifestavam por descendentes de africanos. sejam estes de caráter econômico. Exemplificamos os procedimentos de tal mentalidade preconceituosa da época com as palavras do jornal O Clarim.ordem moral. todos os preconceitos se caracterizam por uma “tomada de posição moral”. manifestações de um Brasil arcaico. representando uma ordem moral em que a influência negra era bastante significativa em sua formação. nacional. Por mais que determinada fonte omitisse informações quanto à “cor”. Qualquer acusação de imoralidade de um grupo social em relação a outros grupos. pois quando da distinção de sua “cor” por parte do depoimento de Waltrick. que era cúmplice da moralidade civilizadora das elites e da Igreja e. por sua vez. É necessário que 73 . tais práticas eram reconhecidamente. de certa forma. este a ressaltou como intenção estratégica de denegrir a imagem de Justino diante do aparato jurídico. verdadeiros charlatães exploradores.

esses senhores deixem taes modos de vida para que não sejam punidos pela lei que aberta e energicamente se oppõe a taes practicas.116

O combate às práticas de uma moral tradicional e popular não foi diretamente tratado envolvendo a questão da “cor”, embora esta fosse uma condição intrínseca nas práticas sociais. Não afirmamos que todo curandeiro ou feiticeiro fosse descendente de africano, mas entendemos que tais atividades eram características de uma ampla classe popular de indistinta ascendência étnica e diversos matizes, onde, também, a população negra se fez – e se faz – presente de forma significativa. Aspectos do cotidiano lúdico popular em Lages
Nesta busca de construção de um espaço urbano está a preocupação das elites em construir a esfera pública, mas concomitantemente esta edificação não está isenta de medidas que denotem segregação no caso, mendigos, desocupados, loucos e bêbados e expressões culturais “sambas e batuques” passam a ser consideradas expressões de “não civilização” e que, portanto, deveriam ser banidas. Estas manifestações culturais deveriam ser extirpadas como forma de possibilitar a construção de uma esfera pública burguesa e branca. (Serpa, 1996, p. 17)

Na citação acima, o historiador Élio Serpa refere-se ao processo civilizador em Lages durante a Primeira República. Sua ênfase é quanto aos mecanismos utilizados pela elite econômica, política e intelectual da região, na busca pelo “civilizar-se”. As elites idealizavam um novo espaço urbano ordenado e civilizado, de acordo com os padrões espelhados nas principais cidades do mundo e do país, como Londres, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo. Desde os últimos anos do século XIX, o poder público, a polícia e o aparato jurídico passaram a delimitar e
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remodelar os padrões de conduta lúdico-popular da sociedade (Chalhoub, 1985, p. 112). No dia 3 de novembro de 1895, o jornal Gazeta de Lages publicou, entre outras regulamentações do Código de Posturas da cidade de Lages, o fragmento em que dizia ser “proibido”:
# 1o. Fazer bulhas ou voserias, dar gritos altos sem necessidade reconhecida. # 2o. Fazer sambas, ou batuques quaisquer que sejam as denominações, dentro das ruas e das povoações.117

As práticas sociais de entretenimento denominadas “sambas” e “batuques”118, que estão diretamente relacionadas à africanidade, foram as únicas identificadas textualmente, pelo Código de Posturas, como ilegais. No entanto, outras nomenclaturas sinônimas, como: “fandangos”119 ou “bailes populares”, foram usadas pela elite da região para identificar “quaisquer que sejam as denominações” dos ajuntamentos de pessoas que produzissem ruídos, barulhos e algazarras. Esta definição incerta de tais categorias era uma demonstração do sincretismo tradicional e cultural do cotidiano de negros, mestiços e brancos pobres da sociedade lageana. A condenação das práticas sociais e de vida desses descendentes de africanos e brancos pobres pela sociedade civilizada, branca e burguesa, não impediu que aquelas formas de manifestação deixassem de existir, embora os porta-vozes do discurso civilizador fizessem de tudo, através da imprensa, para associar tais bailes a aspectos morais negativos, relacionando-os à negritude e reclamando a vigilância das autoridades policiais.
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O jornal Região Serrana, de 15 de maio de 1910, clamava a devida atenção policial para acabar com aquele tipo de divertimento popular que persistia no centro da cidade. Segundo o articulista:
Ultimamente a nossa polícia tem cochilado um pouquinho [...]. Assim é que nenhuma providência tomou para acabar com esses indecentes fandangos que quasi todas as noites, como á atrasada, perturbam a tranqüilidade das famílias, especialmente na rua Cel. Córdova, onde existem alguns cortiços infectos e antihygiênicos. Admira-nos o consentimento que por parte do proprietário da casa encontram as perturbadoras do sossego que à noite tem direito as famílias daquella rua, para a realização desses nauseabundos fandangos. Esperamos da auctoridade policial as providências que esse acto reclama.120

Os intelectuais, a elite e o poder público121, além do discurso e institucionalização de uma moral civilizada, através dos inúmeros jornais do período, adotaram, na prática, outras estratégias para redefinição da sensibilidade e dos costumes da sociedade. A criação de escolas particulares e a fundação do Instituto Estadual de Educação Vidal Ramos, em 1912; a fundação de clubes sociais, como o 1o. de Julho, em 1896, e o 14 de Junho, em 1920; a criação de sociedades literárias, teatrais e musicais; a ênfase à higiene e ao embelezamento122 na reformulação do espaço urbano; e o reaparelhamento dos órgãos repressivos, como as constantes ampliações e reformas da cadeia municipal e o aumento do efetivo policial, foram alguns dos instrumentos usados para a implantação gradativa das novas práticas sociais que se pretendia regulamentar, no intuito de se fazer cumprir as leis e posturas, além de manter uma determinada ordem em relação ao comportamento social que condissesse com a propagada moral civilizada.
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Avisado. o caráter lúdico e profano de seus bailes representava códigos legítimos de conduta. lugar onde a bebida estimulava os participantes a expansões de certas práticas. 216). lá para as bandas da antiga rua das Tropas. o sonho de que todos fossem civilizados esbarrava em individualidades recalcitrantes e formas de subjetivação alheias ao processo ou submersas em seu mundo. O “samba” realizado em casa de Theresa de tal demonstra a persistência da prática. Na noite de 24. em que elos hierárquicos e a ordem de situações convencionais do dia-a-dia eram rompidos. p. Ou seja. violento e anti-higiênico. houve um chimfrim. compareceu o sr.A grande preocupação da elite e do poder público com as manifestações cotidianas de entretenimento dos populares era o seu caráter barulhento. serenando o ânimo dos exaltados que na maior parte estavam armados de cacetes. meretrizes e outras pessoas de “duvidosa conduta” desobedeciam os códigos de posturas e promoviam arbitrariamente suas “reuniões dançantes”. Para os descendentes de africanos e outros populares. que pretendia instituir novos valores morais e bur77 . Com o conceito de “legítimo” queremos dizer que os homens e mulheres que constituíam a multidão acreditavam estar defendendo direitos ou costumes tradicionais124 (Thompson. resistiam a um processo civilizador e intolerante das elites. Delegado de polícia que acabou com a festa. n’um dos costumeiros sambas que realizava-se na casa de Thereza de tal. 1995. p. Segundo Serpa (1996. 25). apesar do olhar vigilante da imprensa e da ação da polícia. Quatro praças que policiavam o bairro foram aggredidas e contundidas algumas. Pretos.123 Os bailes populares subsistiam.

em frente a casa. respondendo o camarada: “A rapariga. jornaleiro. por causa de uma prostituta de nome Julia. já deitado. Antonio Guerreiro perguntar à seu camarada: “O que foi que os negros disseram”. em casa de negócios de Francisco Circumpcisão Farias. peão do senhor João Luiz Vieira Júnior. filho de Maria Benedicta. sua esposa Maria Rodrigues. solteiro. da qual foi vítima de morte Antonio Tolentino Guerreiro. jornaleiro. jornaleiro. negociante. 35 anos. outro negro. casado. filha de Maria Preta. Por ocasião do testemunho de Olivério Rodrigues Nunes127. 40 anos.gueses de ordem. 37 anos. no Arraial do Painel126. Benedicto Nogueira. e. Adão. Estavam presentes no local: Manoel Serafim da Cruz. Bailes populares: a presença negra Na noite de 11 de fevereiro de 1892125. ouviu na rua. 52 anos. 35 anos. conhecido como Bernardo Bexiga. Feliciano Francisco dos Santos. estavam reunidas várias pessoas “a tocar viola. filho de pais incógnitos e Benedicto de Calazans Guerreiro. este disse “que estando em sua casa. filha de Maria Preta. de nome Justino Vieira Camargo. Nhinhara. as mulheres. trabalho e higiene. natural de Vacaria. entre outros. natural de Curitiba. o preto conhecido por Justino. Julia. 58 anos. que cantava. disciplina. começou uma briga entre Benedicto Nogueira de Andrade. Manoela preta. vulgo alferes. avessos à moralidade lúdica e tradicional dos descendentes de africanos e populares. e. dissera que se era por di78 . que tocava viola. Candida Zangada e a própria Julia. a cantar e a beber” quando.

79). onde estavam reunidos lavradores.nheiro que ella ficava com os negros. alguns bailes eram realizados após o chamado “pixurum” ou “puxurum”. principalmente gaitas. onde deu-se o conflito. O cotidiano popular da região era marcadamente profano. No auto de perguntas aos denunciados. após a abolição. dentre os quais vários dos presentes eram de “cor” preta. quase sempre eram os negros que estavam no comando dos instrumentos musicais. ambos disseram que foram à casa de Farias para “cantar e tocar” e que foram agredidos por Antonio Guerreiro. jornaleiros e prostitutas. Pela habilidade e hábitos adquiridos.” (p. a dança. que era um trabalho realizado solidariamente entre vários indi79 .. Tradicionalmente. Aquele era um típico “baile popular”. e davam aos escravos para que eles animassem seus bailes de senzala.. que acabou morrendo no conflito. a prostituição e a bebida eram os principais ingredientes.. Naquele tipo de reunião lúdica.128 Nas “reuniões dançantes”. Antonio Guerreiro pediu um rifle ao seu camarada e sahiu correndo para a casa de Francisco Farias [. A violência também era comum e manifestada geralmente por ânimos mais exaltados como conduta legítima. Segundo o memorialista Armando Ramos (1988) “[. os descendentes de africanos consagraram-se na região.] aqui em Lages de 1905 a 1915 eu só conheci tocadores pretos. pela sua sensibilidade musical.]”. a música. Benedicto Nogueira e Feliciano dos Santos. não ia. Ramos (1988) disse.. ainda. ter ouvido de seus antepassados que os proprietários de escravos da região compravam os instrumentos musicais.

jornaleiros e. na parte de fora da casa. na verdade. agregados. No entanto. Geralmente. “perturbando a ordem pública. apareceu Geraldo..].129 A grande expectativa dos envolvidos era o fim do trabalho e a realização do baile. quando. com insólitas provocações a todos [. entre criadores. que na sede do distrito de Capão Alto130. a recompensa e o estímulo para que os vizinhos se socorressem mutuamente. peões. De maneira geral. no tempo da escravidão. conforme a tradição. lidar com o gado. Denunciou à promotoria pública da comarca de Lages. onde a presença das pessoas se fazia de forma mais homogênea.. vez por outra. às 23 horas da noite de 14 de abril de 1914131. havia certas “invasões” desses espaços. que era. os bailes tinham uma composição informalmente segregada e excludente. quanto por parte de indivíduos das elites. de faca em punho. erguer uma taipa ou um galpão. entre outros trabalhos que exigissem urgência e um maior números de pessoas para realizá-lo. Ou eram “bailes populares”. fazendeiros. ou “baile”. ou eram “bailes familiares”.víduos: lavradores. Essa solidariedade era premiada. tal situação predispunha um ambiente ao conflito.. cativos de uma dada vizinhança que. tanto por parte de indivíduos das classes populares. pela realização de uma festa dançante. Acresce que Geraldo é tido e havido como desordeiro de peor espécie [. entre as quais José Zeferino Neves.]”. negociantes e artistas. estavam algumas pessoas em uma “reunião familiar”. sen80 . como no caso que segue. solidariamente se reuniam para fazer uma roça. onde frequentavam indivíduos de várias classes e etnias .. subdelegado de polícia daquele distrito.

o criador José Leite disse que “pelas onze horas mais ou menos. pois era uma reunião familiar e que nenhum deles poderia ter cabida. com bons modos. continuando.. o denunciado começou a provocar a todos indistintamente proferindo palavras injuriosas. os quais não tinham sido convidados e não são pessoas que reunam requisitos para tanto. foram chamados para prestar depoimento. acompanhado de um negro e de um mulato. daqueles fumeiros e do próprio denunciado.. e José Luiz Tubbs. pelo que foi mandado sair o mulato que não tinha convite para o baile.”132 Conforme os testemunhos. Quando iam saindo para a rua. o acusado e seus companheiros. o que fizeram. preso em flagrante pelo delegado presente. na rua. criador.do. alguém dos presentes pediu-lhes. criador. que eles se retirassem.. como descrito por José Luiz Tubbs e José Leite. como também não tinha o denunciado e muito menos o negro. o denunciado entrou na sala do baile de que se estava dançando. em uma reunião familiar. José Xavier Leite Sobrinho. 19 anos. o artista José Luiz Tubbs acrescentou que: “[. artista sapateiro. a provocar [. Em outro testemunho do mesmo processo. entre outros. mandou que este dançasse. portanto. Manoel José Pereira de Jesus.]”.. os presentes no dito baile: José Waltrick Branco. 81 . devido a sua “cor” e condição social. por resistência a entregar a arma. Sendo notada a presença. não eram bem vindos no “baile familiar” realizado por criadores133 e artistas. porque não reuniam “requisitos para tanto”. Em seu depoimento.] quando o denunciado entrou na sala de baile. Aberto o inquérito. com uns fumeiros. criador. um “negro” e um “mulato”.

ou entre indivíduos que tentam exercitar o mesmo direito. e si é certo que a lei áurea de 13 de maio de 88 veio arrancá-los do nefando captiveiro e considerá-los irmãos na mesma pátria. sem devida venia do sr. isto é. representado pelo discurso da elite como um modelo ideal de comportamento. legando a todos os mesmos direitos assegurados na constituição republica- 82 . Si os pretos não podem fazer bailes. Enquanto o primeiro ocupava as páginas dos jornais. e assegura a cada um o direito de inviolabilidade individual. veio. pelo facto de ter este feito um baile. com o facto da prisão de um preto velho desta cidade. como principal condição nivelar todos os cidadãos brazileiros na mesma raia de direitos. de 27 de maio de 1908. o direito de liberdade. que concede a todos o exercício livre da sua vontade e liberdade. É um facto contrastável com as disposições constitucionaes da República. como se pode admitir que haja um completo traço de distincção entre classes. os valores sociais negativos da sociedade tradicional. exceptos os casos pela própria lei determinados. Abaixo. contanto que este não ultrapasse as normas da razão. Commissario de polícia que se achava em viagem ou a passeio fora da cidade. que fez derruir a dynastia. divertirem-se independentemente da vontade de um superior. simbolizando. Ora. o outro ocupava as páginas policiais. o artigo publicado no jornal O Clarim. do justo e do honesto. e a explendorosa pronunciação de 15 de novembro de 1889 veio com mais amplitude ligá-los mais intimamente ao seio da cara pátria. em potencial. com o título de “Violências Policiais”: Há poucos dias ficamos perplexos e até certo modo completamente attonitos. isto é. se a nova forma de governo. claro é que essa raça não tem a verdadeira e completa independência.As distinções entre “bailes familiares” e “bailes populares” eram significativamente demarcadas. na íntegra.

83 . pobres já porque deixam-se subjugar miseravelmente. onde “uma grande massa popular.]”136. Gustavo Martins que à frente do povo ergueu um viva ‘a democrata redacção do Clarim’.. A justificativa mais provável para a publicação do artigo acima é que o fato tenha ganho tal entonação por ter. não escapam ao chanfalho policial que sobre elles pesa como reflexo d’outr’ora..]”135 seguindo até a “[..na que considera iguaes todos os homens – menos certo. coincidentemente.] redacção do ‘Clarim’ a qual foi saudada pelo sr.. tenha sensibilizado a redação do jornal pela injustificada prisão do “preto velho”. E.. por parte da imprensa lageana. é justo que elles. não será que estes pobres.. a denúncia de atitudes que denotassem caráter segregacionista de qualquer segmento social contra descendentes de africanos. pobres já por sua inferioridade de raça.. que são de carne e osso também possam dar os seus bailes. si essa prohibição firma-se em disposição da lei municipal. percorreu as ruas desta cidade. sendo estrepitosamente correspondido pelo povo em massa [. então é o caso de dizer-se: – CADA MUNICÍPIO É UMA REPÚBLICA DENTRO DA REPÚBLICA. trucidada a sua liberdade e integridade individual – que se estão no mesmo nível de garantias constitucionaes. TOLLITUR QUESTIO!134 Nunca foi comum.. sem que para isso seja preciso mendigar uma previa licença. festejando esse dia comemorativo de sua liberdade [. e . – Não podemos admitir que haja um completa prohibição para essa pobre gente dar azas as suas expansões. inflamado pelos acontecimentos da semana anterior. caído em dias próximos à comemoração dos 20 anos da Abolição da Escravatura e que o articulista. porque se nós outros temos livremente as nossas occasiões de júbilo e nos divertimos. por força.

do justo e do honesto”.. esbordoando-o até que este saiu para fora do pátio da casa onde se achavam [. os pretos”. a quem chamou de “estes pobres. O artigo expressa com realismo a convivência entre a elite branca e “os pretos e pobres”. A presença negra em outras formas de entretenimento Na casa de negócios do cidadão Manoel Francisco da Silva. disse em seu depoimento.]”. instituídos pela moral civilizadora. “travando-se de palavras Innocêncio e Francisco Xavier por motivo de não ter este cumprimentado aquelle. o próprio autor imprimiu na redação do artigo um caráter de diferenciação entre “nós outros” e “eles. pelas duas horas da tarde do dia 20 de janeiro de 1905137. Innocencio. demonstrando o aspecto racialista de seu discurso..Apesar dos apelos feitos pelo articulista às leis que vieram “nivelar todos os cidadãos brasileiros na mesma raia de direitos”. Em síntese. lavrador. “o direito da inviolabilidade individual” e a condição de cidadão legada a todos os brasileiros com a Abolição da Escravatura e pelas “disposições constitucionais da República”. em que é possível observar o sentimento de alteridade e superioridade do autor (“nós outros”) em relação aos descendentes de africanos (“ele”s). foi limitado pelas ditas “normas da razão. que a briga entre ele e Francisco Xavier foi inicia84 . natural de Lages. casado. o mesmo Xavier deu de relho no dito Innocencio. fazenda Pinheiros Ralos. não podendo se “admitir que haja um completo traço de distinção entre classes”. com 25 anos de idade. na localidade de Campo Belo138. pobres já por sua inferioridade de raça”.

Xavier. à quem apenas cortejou dizendo-lhe: – Boa tarde.139 Lavrador e negro. foi agredido a relhos por Xavier. viúvo. defendendo-se. natural de Lages. a ruptura de uma hierarquia 85 . Innocencio. demonstrando sentirse ofendido pelo tom com o qual foi chamado de “negro. Innocencio retrucou a Xavier. agredido primeiramente por Innocencio.. ao que. e que perguntando o porquê de tal atitude. prontamente. Importunado. por fim.da porque Xavier cumprimentou a todos os presentes. Innocencio foi o único dos presentes ao qual Xavier não estendeu a mão para cumprimentar. criador. e que.]” recebendo diversas relhadas. que negro nunca foi gente. ao que retrucou-lhe Innocencio perguntando se negro não era gente. ainda mais nas condições delle [. que sim. menos a ele. A reação de Innocencio demonstra como o fim da escravidão representava na visão de alguns negros. este disse que chegou à casa de negócios e cumprimentou “a todos com aperto de mão. teria sido ele. cobrando-lhe uma atitude de igual consideração à dada aos outros presentes. e como tal precisa de laço”.. Xavier ficou irritado pela presunção do negro em dirigirlhe a palavra. recebendo como resposta que o motivo era o fato de ele “ser negro. exigindo o direito de ser tratado como um igual.. ainda mais. Innocencio respondeu que “o captiveiro já tinha acabado”. Quanto ao depoimento de Francisco Xavier de Souza.]”.” como alguém que nunca perderá a marca da escravidão. “Innocencio ser negro. que respondeu-lhe que o fazia pelo fato de ele. deu-lhe como resposta que “o captiveiro já tinha acabado [.. e como tal precisa de laço”. respondendo-lhe elle depoente. excepto a Innocencio.

Como espaço público141. onde o respeito e o tratamento de igualdade eram requisitados por eles próprios. onde os homens se reuniam para beber. alguns criadores e lavradores que estiveram presentes na “casa de negócios” de Manoel Francisco da Silva. Por exemplo. botequins e outros espaços sociais de lazer. a negritude em relação à antiga condição social escrava dos descendentes de africanos. entre elas. botequins ou “casas de negócio” eram o espaço de lazer diário. como no caso de Innocencio. Nos bares. várias testemunhas foram arroladas no processo em que Innocencio e Francisco Xavier entraram em conflito e. nada limitava a presença da diversidade social e étnica naqueles ambientes. a moral dominante. legitimada pelas teorias racialistas. Os conflitos também se tornaram frequentes. sempre que possível. associando. No entanto. ela mostrou-se como uma conquista individual dos negros pelo reconhecimento de sua cidadania. prevaleceu uma diferença hierárquica marcada pela etnicidade140. na prática. mesmo que nem sempre resultassem em processos ou inquéritos criminais. jogar e conversar sobre os acontecimentos do dia-adia. quando se sentiam redimidos por outrem. E nos momentos em que essa hierarquia foi contestada.pré condicionada à “cor”. Os bares. A Abolição da Escravatura e a Proclamação da República colocaram os negros legalmente sob a mesma condição jurídica de cidadãos que o restante da sociedade. a presença diversificada de indivíduos de várias classes sociais e ascendência étnica era comum. devido à inexistência de vítimas com ferimentos graves ou por causa do silêncio dos envolvidos em relação à justiça ou à 86 .

“insultou muito Sebastião. Porém. foi o que melhor situou os acontecimentos daquela tarde. ao que Antonio. O depoimento da testemunha Irineu Antunes de Castro. terminando com as seguintes palavras: tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”. ainda. A testemunha acrescentou. residente e inspetor do quarteirão do Amola Facas. outras três testemunhas. casado. no mínimo. Dentre outros diversos testemunhos. 45 anos. pois era costumeira a resolução de contendas sem a intervenção policial ou jurídica142. E Sebastião respondeu que “ele não tinha dinheiro para comprar negros da qualidade delle [. numa raia em frente à casa de Alexandre Ignacio de Jesus. ao afirmarem estar próximas do acontecido. no dia 24 de agosto de 1913143. No lugar chamado Amola Facas.. irmão de Francisco. natural de Lages. indignado. Segundo Irineu. Sebastião convidou a Antonio para “abrirem o dinheiro”. o acusado Antonio apostou com Sebastião. distrito de Lages. confirmaram ter visto a tentativa de agressão por parte de Antonio e ouvido a expressão: “eu tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”. que Manoel segurou a espada que Antonio iria dar em Sebastião e que Antonio começou a atirar contra o grupo de pessoas em que estavam reunidos os irmãos de Sebastião. além de Antunes Castro. durante uma corrida de cavalos. lavrador. foi gravemente ofendido pelo acusado Antonio Ribeiro Lara. logo em seguida. ou algo similar.]”. nenhum confirmou ser o tiro que saiu da arma de Antonio o mesmo que atingiu Francisco.polícia.. A discussão entre Antonio Lara e os irmãos ‘Anhaya’ iniciou-se por causa da aposta. mas agravara-se no momento 87 . a vítima Francisco Bibiano de Anhaya. 50$000 réis em uma corrida de cavalos. Porém.

se produzisse algum tipo de intriga verbal ou violência física. chamando-os de “negrada”. elaborada naquela época sob a égide mítica do que se convencionou chamar. de “democracia racial”144. sobre as “carreiras” realizadas em Lages. situacional e contrastiva que se tentou omitir com a ideia de unidade da nação brasileira. peões – brancos e pretos – para apreciarem as corridas de cavalos147. Devido à diversidade social. na área rural145 ou nos arrabaldes da cidade146. era comum que. Sebastião e seus irmãos responderam em defesa própria contra um tipo de ofensa que não aceitavam mais: a qualificação de inferioridade. insistia em aparecer naquele momento. associando diretamente tal termo ao passado escravista dos ofendidos. Segundo Licurgo Costa (1982). A negritude era a marca do cativeiro e de uma condição social e racial estigmatizada hierarquicamente como inferior em todos o País. jogos. estimulando o surgimento de uma etnicidade negra. A fronteira tênue. suscetível a brincadeiras. posteriormente. “havia sempre grande afluxo de povo para as raias: faziam-se vultuosas apostas. dos ânimos mais exaltados. Os negros sabiam muito bem o que aquelas palavras representavam. ao dizer que poderia “comprá-los”. mas não deixavam de ter uma característica profana.em que Antonio “insultou” Sebastião e seus irmãos. vendedores de comidas e bebidas instalavam suas tendas. danças. Nos fins de semana. bebedeiras e conflitos. lavradores. mestiça e harmônica. juntavam-se criadores. Os espaços não eram especificamente populares. 88 . marcada pelo reconhecer-se e ser reconhecido como diferente pela “cor”.

aos poucos. civilizadora e renovadora dos costumes da sociedade. Além disso.” (p. A religiosidade e o entretenimento estavam profundamente arraigados em sua moralidade. 1429) Com a fundação da Associação Turf Catharinense por um grupo de fazendeiros lageanos. corria muita cachaça e as brigas eram frequentes. a elite lutava insistentemente para impor uma outra moral. na maior parte dos casos. a Associação Turf Catharinense inaugurou um hipódromo. surgiam tocadores de violas e sanfona. Em 1920. mas. subúrbio da cidade. muitas vezes com graves conseqüências. eram os criadores e fazendeiros quem as promoviam. remodelaram-se as corridas de cavalos. foram se esgotando. Apesar das mudanças promovidas pela elite e pelo poder público. pelos costumes de um passado recente e tradicional.muitos assistentes montavam barracas. improvisavam-se danças. já que. com características mais “ordeiras”. o pagamento de taxas foi adotado pelo poder público municipal para coibir a realização das “corridas” em outros espaços públicos ou privados que não aquele determinado pelos fazendeiros. As situações cotidianas dos populares em Lages eram comuns entre mulatos. em julho de 1917. criando-se. No entanto. gradativamente. um espaço específico e definitivo para a atividade. 89 . o que possibilitava um controle mais eficiente sobre tais manifestações. pretos e brancos pobres. “elitizadas” e “civilizadas”. em substituição às velhas raias de corridas. as “carreiras” continuaram ocorrendo em alguns dos antigos locais. em local doado pela prefeitura na localidade da Várzea. por ela adotada.

90 .

” Cruz e Sousa N o dia 14 de março de 1907 foi publicada no jornal A Evolução.148 Para os novos padrões de civilidade e urbanidade que contagiavam as elites lageanas das primeiras décadas da República. tonto dos prazeres. Ó ser humilde entre os humildes seres. O mundo para ti foi negro e duro. algumas imagens das condições de vida de po91 . E isto passa-se dentro da área urbana desta cidade sem um rápido olhar dos que devem zelar pela saúde pública e mitigar os sofrimentos dos desamparados da sorte. alli num miserável cochichólo replecto de vermina e nú. Há poucos dias tivemos occasião de vê-lo. É quase indiscritível a impressão que nos causou o mísero preto velho. Entregue aos cuidados de uma aleijada que tem que sahir à rua arrastando-se para obter o duro pão de sua subsistência o infeliz preto velho paralítico jáz sobre os mais repelentes trapos tendo como única faculdade respirar o ar infecto que exahala de dentro da casucha. Embriagado. a seguinte nota: Chamamos a attenção de quem competir afim de providenciar no sentido de serem suavisados os males do pobre preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz.Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages “Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro.

Além da causa arquitetônica. dar-lhe aspecto salubre. adotada pelas elites e pelo poder público na renovação do espaço urbano149. Além das associações. lembrando que aquela situação passava-se “dentro da área urbana desta cidade”.pulares e miseráveis não poderiam permanecer à vista pública. como recreativo. conclamando a ação do poder público e de particulares. ressaltando os aspectos repugnantes da condição em que o dito preto se encontrava. outras de caráter diverso. incentivar e estabelecer os requisitos materiais necessários para que a cidade se tornasse civilizada. principalmente no que se refere às áreas centrais da urbe e suas proximidades. literário ou religioso. em que a maioria da população vivia aquém das condições de higiene propagadas como necessárias pela moral burguesa e civilizadora. sob a perspectiva da sua lógica moral de civilização. Financiadas por intelectuais. confortável e seguro. O olhar vigilante da imprensa lageana estava atento a fiscalizar. O aspecto sujo e feio do ambiente em que vivia o “preto velho” fazia parte de um cenário social pobre e comum de bairros periféricos ao centro da cidade. era necessário “limpar a cidade”. A situação infeliz vivida pelo miserável Amaro foi narrada pela imprensa. A caridade e a generosidade para com os mendigos e os enfermos. políticos. também estabeleceram em seus estatutos a beneficência. as associações beneficentes se multiplicaram na cidade151 e incorporaram a filantropia pública como sinônimo de civilidade. bem como a denunciar a presença do indesejável e do patológico150. pela Igreja e por homens de posses. ao mesmo tempo que aliviavam a 92 .

] já não é pequeno o número de desprotegidos da fortuna. pobres.consciência da elite. ampliando a representatividade política local155 em relação ao estado de Santa Catarina. por ser o thermometro característico e denunciante do desenvolvimento e progresso daquelles que nella vivem. que usufruía de uma vida economicamente tranquila. pela lei estadual número 928. o embelezamento constituía-se em “uma ação urgente e execução inadiável. Alguns anos antes.”154 Naqueles primeiros anos da República. “principalmente quando de cor” (Pesavento. Em 20 de agosto de 1912. estendendo a mão ao óbulo generoso da philantropia pública. foi criado. pois “[. o Hospital de Caridade de Lages152. bonito. representavam a estética social do feio e do indesejado na esfera do espaço público que a elite branca pretendia construir e consolidar. saudável e ordeiro para a moral burguesa de civilização. 140). discursavam sobre o caráter essencial da construção de um hospital e casa de caridade para a cidade. exhibindo-a nas vestes andrajosas e nas feições denunciadoras de amargas e continuas privações sofridas. sem pão e sem lar que passeiam a miséria pelas ruas da cidade. o clero. a região de Lages crescia economicamente e demograficamente. Os miseráveis. o poder público e a elite local. melhorando seu aspecto.”153 A questão do embelezamento da cidade passava pela definição do que é belo. sinopses e relatórios periódicos da administração pública do município e do estado. Estes fatores impulsionaram 93 .. contribuíam para sanar a pobreza das ruas centrais. 1994. loucos e aleijados. p. através dos jornais e de mensagens. Para os setores sociais que representavam a moral da elite..

principalmente. 138) Como em Porto Alegre. ao mesmo tempo saneadora. conhecida como Lagoão e o bairro da Brusque158. a região denominada de Banhado157. por consequência. com o crescimento populacional da urbe. devido à falta de propriedade e trabalho àqueles que deixaram de ser cativos e não queriam permanecer ou não eram mais aceitos nas antigas propriedades em que serviram como escravos. principalmente. uma nova configuração de seu espaço urbano. os subalternos deveriam ser varridos da área central. estética e especulativa. Segundo Sandra Pesavento. p. moralizante. às novas áreas que eram loteadas. as elites na área central da cidade e os pobres na área suburbana. os mais significantes foram as proximidades da região onde estava localizada a capela de Santa Cruz156. convergiam as opiniões de homens de governo e daqueles mais situados socialmente. aos arrabaldes. O fluxo deste crescimento vinha de outras cidades e.o desenvolvimento da cidade e. sobre a cidade de Porto Alegre nos primeiros anos da República: Na divisão do espaço que obedecia à assimetria social.1994. também se desenhou em Lages um quadro social geograficamente segregado. cresceram os “indesejáveis sociais”. Alguns populares. por descendentes de africanos. alguns espaços geográficos da cidade foram gradativamente ocupados por populares e. (Pesavento. onde a ocupação dos espaços estava preestabelecida pela condição social. Após a Abolição da Escravatura. resistiram enquan94 . respeitadas as proporções. Para esta operação. da área rural da própria região. mas sempre baseada em critérios classistas. No entanto. levados aos subúrbios. Entre outros. moradores antigos do “centro”.

No entanto.] havia [.. o poder público estava sempre renovando as leis e posturas do município. p... Em alguns jornais da cidade e processos crimes pesquisados. Banhado162 e Santa Cruz. vizinhos um do outro. hoje fazem parte da área central da cidade. 1997. Brusque. por falta de condições materiais para se manterem nas antigas propriedades... viviam diversos descendentes de africanos. à medida que o “centro” crescia e incorporava esses antigos bairros.. 38) Os bairros161 que antigamente eram reconhecidos como Lagoão. Desta forma. como estratégia para a expulsão dos indesejados sociais do “centro”. tudo sob a ameaça de taxas e multas159.]. aparecem referências a estes locais como sendo a residência de algum indivíduo de “cor” negra. Muito pouco dos descendentes daquelas populações permaneceram nestes locais. Nos bairros Banhado e Santa Cruz. através das quais aumentava os impostos sob as propriedades.160 Banhado e Santa Cruz. Só que este mundo passava ao largo do mundo oficial da política. locais ou mesmo habitacionais. os próprios populares acabavam saindo gradativamente da área central. saneamento e melhorias dos passeios públicos em frente às casas..] concretizava-se em pequenas comunidades étnicas.] um vasto mundo de participação popular. Como exemplos. transladando-se à periferia urbana.to puderam a deslocarem-se para a periferia. estabelecendo-se nos bairros e arrabaldes da cidade.. [. além 95 . [. exigia dos proprietários a reforma estética das residências. Brusque e Lagoão [. abrigando a população de descendentes de africanos e os brancos pobres. (Carvalho.

muitas vezes. Lá pela madrugada. Na noite de 20 para 21 de abril de 1918169. 96 . atirou-se contra os que se achavam em sua frente. filho de Miguel Coelho. travando-se uma discussão entre Vieira e Juventino Xavier. acertando. casas de prostituição. eram espaços onde se manifestavam as situações do cotidiano lúdico. O Banhado e o Santa Cruz. realizou-se um baile na rua da Santa Cruz. o menor Luiz Vieira. além de serem ocupados por moradores humildes. filho de Diogo Vieira.do “preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz”163. alguns dos locais em que visualizamos a presença de descendentes de africanos naquelas imediações. filho de Pedro Barulho170. conhecido como Antonio Barulho. chegaram o “preto” Guilherme da Silva. O baile corria animado até o momento em que Vieira entrou numa sala onde alguns indivíduos conversavam e começou provocá-los. inclusive sendo atraídos moradores negros de outros bairros ou arrabaldes da cidade. o “pardo” Antonio Gonçalves da Silva Porto165. fatalmente. o “preto” Francisco Gonçalves167 e o curandeiro “mulato” Justino do Carmo168. Fermino José dos Santos. Os bares. o “moreno” Claudino de Chaves Lins164. entre outros. e Agostinho de tal – “mulato”171 –. o “preto” Laurindo José Garcia166. identificamos como moradores das imediações do Banhado e da Santa Cruz. em casa de Antonio Machado. bailes ou festas em residências particulares e a própria rua foram. O capanga e empregado do denunciado Luiz Vieira. tendo em uma das mãos um punhal. por vezes pretos.

ruidosos e promíscuos pela ótica civilizadora. além dos bailes em casas de particulares. Tal dado demonstra o caráter popular do baile e a provável presença de outros descendentes de africanos em seu meio. seu camarada. 28 anos. o “preto”172. o jornaleiro André Francisco da Silva. Disse também. identificamos outros dos presentes naquele baile. 23 anos. Agostinho de tal era seu vizinho e Antonio Barulho. No Banhado e no Santa Cruz. cidades próximas. Além da presença do “mulato” Agostinho de tal. também eram comuns as chamadas 97 . o jornaleiro Emílio Roza. Jornaleiros. o lavrador Sebastião Borges. 43 anos. ou das redondezas. o acusado Luiz Vieira disse sobre seus parceiros que. na rua dos marmeleiros. Entre eles. residente na cidade. pedreiros ou lavradores de Lages. o pedreiro João Pedro Luiz. natural de Curitibanos. onde souberam que a dita meretriz tinha ido a um baile em casa de Antonio Machado. que saiu de sua casa em companhia de ambos para irem a cidade à procura de uma meretriz de nome Sebastiana.Em seu depoimento. arrolados pela justiça como testemunhas do crime. natural de São Joaquim. jornaleiro Laurindo José Garcia. descobrimos as profissões de alguns deles. e o jornaleiro Jerônimo Lopes de Liz. bairro de Santa Cruz. 28 anos. 31 anos. considerados como violentos. Apesar da impossibilidade de identificar a “cor” de todos os presentes. 27 anos. para onde se dirigiu com seus companheiros. o pedreiro João Ozorio dos Santos. eram a grande maioria das pessoas presentes naquele tipo de divertimento dos bairros periféricos da cidade. do “preto” Antonio Barulho e do menor Luiz Vieira.

da venda de quitutes. do excedente de suas lavouras. “em geral o pessoal mais humilde. em entrevista no dia 26 de junho de 1998. Na sua maioria jornaleiros e lavradores. nascido em 1923 e morador de Lages desde o ano de 1929. as reuniões eram realizadas no Santa Cruz. negros e aqueles mais pobres” 176 de toda a região. homens e mulheres. onde os fiéis do monge São João Maria. devido à proximidade da área central. debaixo de lampiões. batuque e “bate pé”175. porque a cidade não tinha iluminação elétrica. onde os negros acendiam fogueiras e cantavam até determinada hora. Nos bairros Brusque e Lagoão. no alto da Santa Cruz. da lavagem de roupas às margens do rio Lagoão. em busca de oportunidades de sobrevivência. realizadas com bastante frequência. e ainda de serviços esporádi98 . o que perturbava a tranquilidade social das elites. Disse que. a capela de Santa Cruz estava localizada numa colina. compareciam populares diversos e produzia-se muito barulho. se reuniam para orar.“reuniões de rua”. Tio Eufrázio.177 Segundo Sebastião Ataide. falou173 sobre o que seriam as “reuniões de rua”. foi um dos puxadores das rezas em frente à capela Santa Cruz178. O senhor Sebastião Ataide. velas de cera e sabão caseiro. ex-escravo da família Ribeiro. viviam de vender a lenha que recolhiam de matas próximas. segundo o que soube pela tradição oral. também concentraram-se vários descendentes de africanos que migraram para a cidade após a Abolição da Escravatura.174 Nas reuniões. Além do aspecto lúdico do cotidiano dos bairros citados acima. do serviço doméstico para terceiros. estudioso da história de seus antepassados. descendente de africanos.

. jornaleiro.cos diversos pela venda de seu jornal de trabalho179.. aqui. dizia: – Isso aqui está até parece Brusque. muita gente de cor. que dizem.. exerceram atividades como o recolhimento do lixo e material fecal. Disse ele que: Existem certas versões [. o nome total. Como vimos.. gente loira.. parece. lá perto da “Brusque”. que a chamar: – Ele mora lá pra “Brusque”. Era uma pilhéria. e começou. Lino Euphrazio Garcia Ribeiro. o acendimento da iluminação a gás das ruas da cidade e o serviço de praças da força pública policial180.. ele residiu numa casa ali mais ou menos onde está o Pronto Socorro. “Brusque”.. esse engenheiro. ele parece que contratou um engenheiro para fazer um levantamento topográfico da cidade. Agrimensor. é que veio. que eram Franceses e Alemãos. né. apontou os prováveis motivos da origem do nome Brusque para o bairro. Também existe isso aí. né. parece que ele tinha uma placa. pardo182.] A única informação meio certo que se sabe. em que fora acusado e qualificado como reú. e.. como tinha muito moreno. Sebastião Ataide (1998).. é o seguinte: que foi devido à quantidade de mulatos. como funcionários do poder público.. “Brusque”... servidores da Prefeitura e gente que foram requerendo terras ali e fazendo casas. Outros. “Brüsk”.. e. A nossa Brusque. no Estado. a hipótese do senhor Sebastião Ataide (1998) sobre o nome do bairro originou-se do fato de que o agrimensor Brüsk teria se 99 .. 28. lá.. “Brüsk” – eu não estou lembrado bem do primeiro nome –. relembrando de sua infância e do que ouvira pela tradição oral. alí por 1927. não é? 181 A referência documental mais antiga que encontramos sobre a denominação daquela região como “Brusque” foi no processo crime de 10 de março de 1927. com o nome dele.. E o outro. quando o senhor Caetano Vieira da Costa foi prefeito de Lages. do outro lado – até a casa eu conheci –. identificado como morador “na rua Brusque”183.

ou seja. ocupada principalmente por descendentes de africanos. que se diferenciava da realidade do modelo de civilidade que a elite implantava nas áreas centrais. já era. até a década de cinquenta do século passado184. A presença do agrimensor Brusk naquelas imediações se tornava irônica. 100 . suja e de aspecto brusco. Por outro lado. Nos bairros em que se estabeleceram as populações pobres. Naquela região. como uma normalidade vivida por seus habitantes. a idéia de pilhéria deve ser considerada. representaria o seu oposto. desde o período da libertação dos escravos. momento a partir do qual a região ficara conhecida como “Brusque”. tal forma de identificar a localidade. para os moradores das áreas centrais. tendo como referência a residência do agrimensor. acumularam-se. eram comuns as casas de prostituição. A “Brusque” de Lages. no Vale do Rio Itajaí. inicialmente as pessoas se referiam à localidade da Brusque. tornou-se uma forma de gracejar com a região. reconhecidamente uma das colônias germânicas mais prósperas e numerosas do estado de Santa Catarina.instalado naquela região de “1927 a1928”. há muitos anos. pois como disse Sebastião Ataide (1998). Em virtude da característica da grande maioria da população e do número de casas com aspecto humilde. pois o município de Brusque. vista como feia. moradores negros e pobres vindos da área rural e de outras cidades. a violência. em busca de sobrevivência. Tal informação coincide com a referência ao ano do processo do “pardo” Lino Euphrazio Garcia de Ribeiro. na sua maioria. progressivamente. o “bairro”. os bailes populares – sambas ou fandangos – e a insalubridade de ruas e casas.

Thompson (1987). liberdade e cidadania aos egressos do regime escravocrata. O discurso das elites. sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si. que produziam inclusive. surgidos com a Abolição da Escravatura e a Constituição Republicana. como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas). A experiência de classe é determinada. 101 . no prefácio do livro A formação da classe operária inglesa. p. observamos um “fazer-se da etnicidade”185 desse grupo social. conceitua seu entendimento de “classe”. em grande medida. e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõe) dos seus. continua com sua definição. 10). 1987. no caso dos descendentes de africanos no interior do conceito de populares.ou entraram involuntariamente. de diferença em relação ao outro..” (p. que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados. o surgimento do sentimento de alteridade.. tanto na matéria-prima da experiência como na consciência.No interior da diversidade popular. entre eles. E..] a classe acontece quando alguns homens. pelas relações de produção em que os homens nasceram . ficou apenas no papel. como “[. 10) Tomando de empréstimo a definição de Thompson sobre “classe” para conceituar um grupo étnico-social específico.] um fenômeno histórico. sistemas de valores. um fazer-se em sua experiência comum. dizendo que: “[.. da elite e civilizado. de sua consciência de alteridade. E. idéias e formas institucionais.” (Thompson. P. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições. de igualdade. nas primeiras décadas da República no Brasil. os descendentes de africanos reconheciam solidariamente aqueles códigos sociais.

de 20 de maio de 1908. começou a dar expanção aos seus justo enthusiasmo. da redação do jornal O Clarim. Tais diferenças constituíram-se em elementos importantes para o florescimento de uma etnicidade negra.Na prática social. pela comemoração dos vinte anos de Abolição da Escravatura. sobre o “reconhecimento profundo à família imperial.]... percorreu as ruas desta cidade.. Levando à frente uma banda musical. percorrendo todas as outras ruas em repetidos vivas ao 13 de maio. donde sahiram. ao povo lageano. reforçadas pelo grande volume de imigrantes europeus que entraram no Brasil durante a primeira República. em casa do senhor Luiz Pimentel. por último. os manifestantes se prostraram em frente à sede do “Club 1o de Julho”.. festejando esse dia comemmorativo de sua liberdade.]186 Naquele mesmo dia. da casa do comissário de polícia Francisco de Paula Ramos e. [. à República. trouxe em sua terceira página a notícia de que: No dia 13 de maio um grupo de pretos. onde um dos manifestantes falou. na rua Deodoro. pelo ato magnânimo que concedeu aos de sua raça a liberdade considerando-os irmãos [. de uma das janelas. e muito especialmente a Dona Isabel. sugere que começara a florescer um autoreconhecimento. de certa forma. O “Centro Cívico Cruz e Souza”: etnicidade e civilidade O jornal O Clarim. do Colégio São José. as diferenças entre negros e brancos permaneceram latentes e foram. acompanhados de uma grande massa popular. da redação do jornal Região Serrana. 102 .”187 A manifestação dos descendentes de africanos na cidade de Lages. por parte daqueles pretos lageanos.

passara a se dar pela distinção da “cor”. Os primeiros grandes bailes. Paulino Saldanha do Amaral. Segundo o jornal Cruz e Souza. Joaquim Pinto de Oliveira. o ‘Centro Cívico’.. como 1o.. Hemiliano Honorato da Silva.] allumnos da Escola Nocturna dos Amadores da Arte.de sua diferença pela “raça” ou pela “cor”. Saturnino Antonio do Pilar. secretário. como entidade recreativa. cívica e literária dos “homens de cor”189. Congregando os descendentes de africanos do município. Em 6 de outubro do mesmo ano. e. no regime de trabalho livre. um ano após a sua fundação. como vice-presidente. como estigma de uma posição social passada. como 2 o.]”191 e levaram adiante a idéia de uma agremiação para os “homens de cor”. em relação aos “outros”. solenidades e sessões comemorativas foram realizados no 103 .. contava com 60 sócios contribuintes que pagavam mensalidade de 1$000 réis192. A distinção social hierárquica. os idealizadores da sociedade “Centro Cívico Cruz e Souza” foram alguns negros “[. como tesoureiro. secretário. esses jovens chamaram ao seu lado alguns elementos de fóra [.1919. que no sistema escravista se deu pela condição de livre. alguns pretos de Lages fundaram o “Centro Cívico Cruz e Souza”188. liberto e escravo. No dia 22 de setembro de 1918. Suas primeiras reuniões foram realizadas no “edifício onde funcciona a Escola Nocturna dos Amadores da Arte”193. considerados “irmãos” a partir de 13 de maio de 1888. Alípio Cruz.. assim formada: como presidente. como orador oficial. Vicente Cassuly de Menezes190. elegeram sua primeira diretoria para a gestão de 1918 .

pronunciou notável peça oratória. pela fundação do Centro Cívico. onde a congregação mútua promovesse. e o “22 de Setembro”. O surgimento do Cruz e Souza era associado à necessidade emergente dos descendentes de africanos de conquistarem e estabelecerem um espaço social próprio. um caráter de autorreconhecimento como “classe”. Às 8 horas foi aberta a sessão pelo presidente. foi hasteada. de certa forma. foi publicada a notícia “A Festa da Bandeira . Belisário Ramos. era ditado. a bandeira Nacional. através da coerção policial e da progressiva urbanização da cidade. deu a palavra ao sr. houve uma sessão cívica commemorativa. cheio de belíssimos ensinamentos cívicos. entre eles. controlado e manipulado pelas elites. O espaço social.Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza”. Dos eventos anuais. no Theatro Municipal. Conforme o protocolo. em todas as repartições. nesta cidade. federaes. até então atribuído. pela comemoração da Abolição da Escravatura. estadoaes e municipaes.“Theatro Municipal”194. a festa da bandeira. sr. às 12 horas. de novembro de 1918. o superintendente cel. Á noite. No exemplar do jornal O Planalto. os mais badalados eram o “13 de Maio”. Esteve muito concorrida essa festa. Joaquim Pinto de Oliveira que. promovida pela recem-creada sociedade – Centro Cívico Cruz e Souza – que escolheu esse dia para a sua inauguração official. Em seguida o senador Coronel Vidal Ramos. muitas outras pessôas eradas e os representantes da imprensa local. Vicente Cassuly de Menezes que produziu um bom discurso. declarando inaugurado o Centro Cívico Cruz e Souza. distinto de “homens de cor”. sendo muito applaudido. comparecendo á ella o senador Vidal Ramos. á 19. rece- 104 . ou como um “grupo social”. com o seguinte conteúdo: Realizou-se.

os srs. provocando um fortalecimento das ideias cívicas e de unidade nacional. quando o Brasil declarou guerra à Alemanha. “Amadores da Arte” abrilhantou a festa executando alem do Hynno Nacional e da Marselhesa. multiplicaram-se. fundadores do centro. foi também publicada a notícia referente às condições do tratado de armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. Um “novo nacionalismo”. A questão posta pela intelectualidade era da necessidade de despertar o sentimento cívico e nacio- 105 . ao terminar. 1989. até então. A Orchestra do G. estava “desnacionalizada pela leitura. A imprensa local acompanhou atentamente o desenrolar da guerra em seus quatro anos de conflitos. e.bendo. principalmente.195 No mesmo número do jornal O Planalto. as notícias sobre o front.P. principalmente quanto aos de origem europeia. Paulino Saldanha do Amaral e Jucundino Godinho. Para o pesquisador Thomas Skidmore. o período de 1914 a 1918 foi de transição ideológica para um “novo nacionalismo”196. em seguida. prolongada salva de palmas. nos jornais. pelo qual a intelectualidade brasileira passou a ressaltar o civismo e a necessidade de uma produção literária e científica nacional que. diversas peças do seu vasto repertorio. artigos sobre a questão do perigo germanófilo para o Brasil e de exaltação do civismo e do nacionalismo no país. principalmente a partir de 1917. estrangeirada pelos costumes alheios” (Skidmore. 174). p. De 1914 a 1918. Às 22 horas terminou a festa retirando-se todos satisfeitos pela captivante gentilesa dos homens de côr. Fallaram. A crise política social e econômica que proliferou em todo o mundo atingiu também o País.D.

A percepção. (p. o preconceito de cor se estabelece na opinião pública. nas elites. estimulando na população o espírito de nação e de unidade. por parte dos negros. Para Arthur Ramos (1956): Na zona Sul.. como parte do seu todo.] E embora não exista nenhuma separação no plano legal. por carregarem o estigma da inferioridade racial. Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956). em Lages. “[. o Negro se sente como uma minoria oprimida.” (p. [. sobre uma das primeiras sociedades negras surgidas no estado de São Paulo nos anos vinte197. o sentimento de alteridade em relação a outros grupos sociais. e até mesmo entre alguns setores populares. embora a legislação não estabeleça nenhuma separação. A comemoração e exaltação de datas cívicas pelos descendentes de africanos demonstrou o seu desejo de participar de um novo projeto de nação e a inserirem-se como sujeitos históricos desse processo. na comunidade branca.. foi imbuída pelo caráter cívico. durante as primeiras décadas da República.. que se propunha a realizar ‘tudo pela integração do homem negro na comunidade nacional’. por acontecer num momento em que o civismo estava latente no meio intelectual.. de que a abolição e a constituição republicana não os colocou efetivamente em igualdade de oportunidades econômicas e sociais em relação aos outros elementos nacionais.nal em todos os recantos do país.. [. onde a imigração branca se vem processando em larga escala..185) 106 .] vamos encontrar uma sociedade formada.186) A fundação de uma sociedade recreativa para os “homens de cor”. amadureceu progressivamente. como nos outros Estados do Centro e do Norte.] O negro não é bem recebido.

talvez o receio preconceituoso das elites. a legitimidade. a partir de 1918. continua Ramos (1956): [.. o respeito e o apoio da intelectualidade e da elite lageana. o “Cruz e Souza” procurava ganhar o reconhecimento. da Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza. Sob a bandeira do civismo. na ordem econômica.185). onde se proibia em seus estatutos a inclusão de negros como sócios (Serpa. da elite em relação à negritude. política e cultural. (p.. 19). Como exemplo. estrategicamente. apesar da latente moral preconceituosa. no calendário programático de atividades sociais das elites políticas e da imprensa.]. em 1920. dando-lhes um espaço que antes era só branco.. nem sempre manifesta. [. o “Clube 14” foi fundado por alguns representantes da elite que apoiaram e aplaudiram a iniciativa dos descendentes de africanos no ato cívico da Festa da Bandeira. colocou os “homens de cor”.Exemplificando o proliferamento desse tipo de associação no estado de São Paulo.. em igualdade de condição com os brancos.] Como conseqüência lógica dos preconceitos de cor que lá se formaram. A iniciativa da fundação do Centro Cívico. p. de ascenção social dos negros.] o Negro se arregimentou em associações contemporâneas que visam à afirmação dos seus direitos sociais e políticos. tenha se manifestado na fundação do Clube 14 de Junho. [.. de São Paulo. há o fato da fundação do “Clube 14 de Junho”. de negros e brancos. quando da proibição de 107 .. O preconceito estabelecido desde a abolição em relação aos descendentes de africanos negou-lhes as oportunidades de ascenção social a esferas superiores de um mundo que se consolidava como burguês e branco. 1996. Estas agremiações negras. Por outro lado. Por ironia. proclamam ainda os direitos iguais.

pretos como sócios. pois os lugares sociais estavam preestabelecidos. Em síntese. uma ambiguidade entre a perspectiva de dominação pelas elites. não só pelo seu desenvolvimento moral e intellectual. Para tanto. como também. Trabalhamos pois.198 A ideia de civismo no Brasil. 180) que rompessem com os ícones estrangeiros do pensamento literário e social. foi imposta a necessidade de fortalecer o nacionalismo. o que nunca antes se fez necessário. assim. sem desvanecimentos pela nosso futurosa sociedade. o Brasil deveria se autoinventar culturalmente. Diante da crise provocada pela guerra e o reconhecimento dos intelectuais e políticos de que a crise atingiu o país. desenvolver. para que seja a nossa divisa: – Moralidade. Os negros fundadores do Centro Cívico Cruz e Souza perceberam que um comportamento dentro dos padrões moralmente aceitos na sociedade possibilitava-lhes negar o estigma da “cor” associado à barbárie. através de projetos civilizadores e uma perspectiva de resistên108 . em relação aos descendentes de africanos. assimilou a moralidade e a civilidade como elementos de seu significado. trabalho e civilização. que são documentos que confrontam e nos reabilitam para com os homens de mérito e de consciência. Civilidade e negritude Trabalhamos pois unidos com afinco. era preciso modernizar. Estabeleceu-se. pela sua dependência econômica direta em relação às potências estrangeiras. 1989. para continuarmos a honrar o excelso e immortal nome do nosso Patrono poeta lyrico Cruz e Souza. civilizar e educar o Brasil. estimulando-se o progresso interno da nação. através de referenciais próprios e nativos (Skidmore. p. forjada pela intelectualidade naqueles anos da guerra mundial.

]. principalmente aquelas onde a maioria era descendente de africanos. articularam a possibilidade de alcançar uma projeção social. De certa forma. a preocupação da diretoria do Centro Cívico... No inquérito policial de número 466. [. “nós os do C.] na melhor da boa ordem [. era com a manutenção da ordem e a demonstração de civilidade200. aspecto importante para o reconhecimento moral positivo da agremiação ante as elites. aberto em 31 de novembro de 1931202 por crime de defloramento de Natalina da Silva Xavier. nada mais fazemos do que grangear a sympathia de todos os que se interessam pelo progresso desta terra.”199 Como sociedade recreativa. os negros aceitaram uma segregação racial informal. Segundo um dos diretores da sociedade. 18 anos de idade.. organizados pelo Cruz e Souza. na promoção de seus bailes e festas.] trabalhando pelo levantamento do nível moral e social dos homens de côr. que construíam sua consciência de classe e possibilidade de ascensão social na prática daqueles embates morais. foi acusado o namorado da vítima. arquivado no foro da comarca de Lages.”201 Os jornais locais constantemente elogiavam e parabenizavam os negros do Cruz e Souza pela demonstração de civismo. mas. ao relatar sobre os acontecimentos comemorativos do “13 de Maio” daquele ano. de “cor” morena. comentou que tudo ocorreu “[. civilidade e ordem com que realizavam suas festas. pela denúncia de 109 . de 17 de maio de 1919. por outro lado. de nome Genésio... que sempre vigiaram atentas as manifestações de divertimento populares. Cruz e Souza.cia dos próprios descendentes de africanos.. O jornal O Lageano.C.

por con110 . o réu conseguiu desvirginá-la. Várias testemunhas arroladas no inquérito.”204 Outras testemunhas reforçaram. 23 anos. novamente no quintal da casa da vítima. continuou a namorar Genésio.... No entanto. que atestou “[. fazendo-lhe promessas de casamento. ainda. Natalina respondeu ser namorada do acusado há dois anos e que a primeira vez que ele tentou ter relações sexuais com ela.] diversas vezes em bailes familiares. lavrador. No auto de perguntas. 42 anos. lavrador.” 203 Outro testemunho foi dado por Antonio Manoel dos Santos. frequentando pela última vez..José Gregório da Silva Xavier.] lá ver Natalina dançar e ter seu procedimento digno de uma sociedade. assim como na sociedade Centro Cívico Cruz e Souza e que seu comportamento era de respeito e honestidade. foram surpreendidos no pátio de sua casa pela sua avó. membro da diretoria do Cruz e Souza. residente na cidade. pai da vítima. o álibi da boa índole de Natalina. 19 anos. entre amigos e conhecidos de Natalina. Os depoentes que entonaram tal condição em seus testemunhos eram próximos à vitima e sabiam como o aparato jurídico interpretaria suas palavras. demonstrando para o aparato jurídico que o comportamento da vítima estava dentro dos padrões de moralidade aceitos pela sociedade. O “Centro Cívico Cruz e Souza” sedimentara-se. em sua companhia. destacaram o costumeiro comportamento regrado e moral da vítima. no Centro Cívico Cruz e Souza. em outubro. no entanto. pois Natalina frequentava bailes no Cruz e Souza. Inês Zuza. disse que viu Natalina por “[. Disse ainda Natalina que. com as mesmas promessas de casamento. Praxédes Goulart. o baile do dia “22 de Setembro” de 1931. natural de Lages. profissão doméstica.

Da Abolição da Escravatura. “Cruz e Souza”: resistência pela unidade. como um representante da ordem. Joaquim Pinto de Oliveira. Joaquim. comentando que ele e outros desejavam fazer um baile com “gente escolhida”.. como também absorvida pelo judiciário. No final do inquérito. passaram-se trinta anos do ano de fundação do Centro Cívico. até alta da madrugada. para a fundação do Cruz e Souza.venção social. e dissidência E assim foi que seguiu-se o baile na maior ordem e alegria.”207 Daí que surgiu pela primeira vez a ideia posteriormente discutida pelos alunos pretos da Escola Noturna Amadores da Arte. estava fazendo uma calçada de pedras na casa do político Caetano Vieira da Costa206 e. que conheceu o primeiro presidente do Centro Cívico Cruz e Souza. não se reúnem vocês pretos. através da compreensão mútua de uma moralidade positiva da vítima. se aculturarem [. o réu foi declarado culpado.. justificada pelo fato de que ela frequentava o Cruz e Souza. fazer os bailes de vocês. A integridade moral de Natalina foi avaliada pelos depoentes. onde vocês possam se reunir. da moral civilizada e dos bons costumes. em 1918. ele conta que este contou que a ideia da fundação do Centro surgiu quando ele.205 Na entrevista com Sebastião Ataide (1998). No de111 . para não acontecerem as costumeiras confusões. o dito político lhe disse: “Mas vem cá! Tá na hora! Por que vocês não se organizam.]. não organizam um centro cívico? Centro cívico. trocar as ideias. em 10 de agosto de 1932. com o apoio político e decisivo do então deputado estadual Caetano Costa.

pela absorção da moral civilizada pela popular e pela resistência da moral popular à civilizada. Se o trabalho.correr deste período. novos elementos de significado social foram inseridos ao cotidiano daqueles populares. o lazer. o profano e o festivo o eram do mundo popular e negro. sendo resignificados por eles. sem perspectivas econômicas. De acordo com Sebastião Ataide (1998) sobre o perfil dos negros fundadores do “Cruz e Souza”. destacamos alguns deles e suas ocupações. a ordem e a civilidade eram elementos do mundo burguês e branco. de acordo com sua visão das coisas. Desorganizados. Mas com o progressivo aburguesamento da cidade. A preocupação cívica e moral estava restrita ao grupo específico daqueles negros mais próximos da diretoria da agremiação. A maioria deles estava interessada no ambiente festivo e seguro que o Centro Cívico proporcionava em relação a possíveis interferências policiais. Paulino Saldanha do Amaral 112 . O Centro Cívico Cruz e Souza se consolidou pelo entrosamento do considerado “ordeiro” com o “desordeiro”. a vida cotidiana tradicional era o único sistema de valores em que os populares compreendiam o seu mundo. mas não sem a oposição veemente da moral popular. a estratégia civilizadora de dominação das elites fez conquistas. impôs seu modelo e sua moral de sociedade. a moralidade. A diversão ou tradição lúdica dos descendentes de africanos foi a motivação primeira para o surgimento do clube . base da sustentação de seu quorum e. consequentemente. de sua existência. Joaquim Pinto de Oliveira e Alípio Cruz eram pedreiros.

senão o de bem servir os interesses do ‘Centro Cívico Cruz e Souza’ e despertar o gosto pela leitura entre os seus associados. Apesar de humildes em suas posses.] Conhecemos perfeitamente que a nossa leitura não fascinará e nem irá prender a attenção do nosso povo. Luiz Gomes Dias era sapateiro. festas e a vinda 113 . em 1919. dizendo: Apparece hoje ao povo de Lages. [. o último. Despido de toda e qualquer pretenção. sendo o primeiro com data de 3 de agosto de 1919. Em seu primeiro número. que trazia a epígrafe: “Orgam do Centro Civico Cruz e Souza”.tinha uma casa de secos e molhados no Santa Cruz. datado em 5 de outubro de 1919. No entanto. Vicente Cassuly de Menezes era tipógrafo de jornal. O jornal mantinha a coluna “entre sócios” que noticiava aniversários. e. ou destituídos de tal. foram apenas cinco números.209 O jornal Cruz e Souza teve duração efêmera. de auxiliar-nos. alguns deles se distinguiam da maioria por terem. a leitura deles é fundamental para compreender os significados da fundação do Centro Cívico para os descendentes de africanos. conquistado algum tipo de formação escolar ou erudita. o diretor Vicente de Menezes fez a apresentação do jornal à sociedade. conseguiu rodar nas oficinas do jornal O Planalto. o “Cruz e Souza” não visa outro fim. viagens. de alguma forma. falecimentos. o jornal Cruz e Souza208. e Sebastião de Oliveira Dias era professor. Saturnino Antonio do Pilar e João Maria da Rosa eram funcionários do poder público. que [porém] reconhecendo os nossos esforços na fundação de um jornal para negros. este modesto jornalzinho.. O “Centro Cívico Cruz e Souza”. não deixará por isso.. através do tipógrafo e jornalista Vicente Cassuly de Menezes.

perturbando o socego público. Sempre trazia. pelo estigma da “cor”. é esclarecedor: Do Civismo o pendão arvoramos Denodados. em uma de suas páginas. aquele grupo fundador almejava afeiçoar-se à moral civilizada para ascender socialmente. semanas inteiras.. [. Se isto era impossível. para que se acabassem certos “sambas” e fez com que em nossa cidade reinasse completa harmonia. seria possível pelo “civilizar-se”. entre outras notícias sociais sobre a comunidade do Centro Cívico. com fé.para a cidade de sócios do interior. cantado pela primeira vez por seus membros em 1919.. e “abrasileirador” de um grupo de negros. Não mais se houve o “bate pé” no Alto da Santa Cruz. aculturador. além de artigos de opinião. a exemplo do próprio poeta Cruz e Sousa –mesmo que ele só tenha sido reconhecido após a sua morte –. 114 . Quando ufanos e crentes fundamos Este Centro de paz e amor. Em um dos artigos. Nosso lema é reunir os pequenos Os humildes que ganham seu pão. Assim como o reconhecimento nacional conquistado por alguns descendentes de africanos na política e na literatura.210 O Centro Cívico passou a ser um instrumento civilizador. dizia o jornal: [. os quaes sempre traziam maos resultados.] O digno official providenciou ainda mais.. O hino do “Cruz e Souza”. com ardor.]. no Banhado e nos seus arrabaldes. elogiando a atuação do delegado de polícia da cidade.. entre outros. e publicava notícias em geral sobre a vida social e policial da cidade. um poema do poeta João da Cruz e Sousa.

Conquistemol-a em toda amplitude! Para tanto é mister aprender. altivos. Da victória teremos a palma.” A letra foi feita pelo deputado Caetano Vieira da Costa. 115 . em homenagem ao ‘Centro Cívico’ e musicada pelo maestro Lourenço Baptista e pelo negro Pedro Cândido.E dizer-lhes. o que significa um compactuar com aquelas ideias. Para tanto elevemos nossa alma. É a consciência da honra e dever. Do saber gozaremos os lumes. Do Brasil desd’as serras ao mar Os seus feitos de tanta grandeza É mister conhecer. o trabalho e a educação dos costumes. Aos seus filhos compete luctar. Sejamos unidos Que dez Valem mil! Cantemos as glórias [estribilho] Do nosso Brasil. a humildade. a fortuna. celebrar. A extensão. a belleza. Eduquemos os nossos costumes. Os princípios morais conclamados pelo hino eram o civismo. serenos! A grandeza da nossa missão. foi aceita pela diretoria do clube como seu hino oficial. A riqueza do pobre é a virtude. Mesmo que sua letra não tenha sido feita por negros. Ao trabalho compete um logar De elevado destaque na História. P’ra galgal-o com honra e com glória.

116 . tá lá. O Bom Jesus foi um clube de bailes. o Cruz e Souza fazia questão de anunciar nos jornais que não tinha nada a ver com tais eventos212. onde tá essa ‘Gruta Bom Jesus’ [no antigo bairro do Banhado]. o Centro Cívico passou a proibir a presença. e. Mas isto seria outra história.. o que significa que os bailes populares continuaram ocorrendo. segundo Sebastião Ataide (1998). Lá criaram um clube. assim como outros particulares que continuavam acontecendo. “[. e a expulsar da “sociedade” os negros que provocassem badernas e imoralidades nas festas do clube. lá fora. Em vista disto. apesar de nunca terem conseguido coibi-las totalmente.Aliado da moral civilizada. em seus bailes. outros continuaram promovendo festas e bailes fora do Centro Cívico. pra eles. promovia festas sem a preocupação ordeira. civilizada e cívica do Centro Cívico.] uma ala de negros criou o ‘Bom Jesus’.”211 Além daqueles negros fundadores do Bom Jesus.. e quando isto acontecia.

a visibilidade histórica da população negra em Lages. Através dela.Considerações Finais O s temas condutores desta pesquisa foram: primeiro. terceiro. principalmente pela omissão sobre a população negra não-escrava na região. segundo. e. a partir da constatação de que ela esteve envolta pela categoria popular. demonstramos a premissa da existência de um passado histórico escravista. no qual constata-se que os negros foram numericamente significativos. só podiamos começar por uma releitura da escravidão. Para respondermos qualquer questão sobre a visibilidade dos descendentes de africanos. a resistência individual e coletiva da população negra. A origem do discurso sobre a insignificância numérica da população negra na região está ancorada na história que se fazia sobre o período escravista. e esclarecemos que elas foram invisibilizadas pela historiografia local. a partir dos indícios que possibilitam afirmar como se constituiu certo sentimento de identificação étnica. 117 . Revimos as fontes quantitativas. o processo civilizador que administrou a omissão da presença verificável dos descendentes de africanos e sua cultura na região.

Ao fazermos uma análise detida do cotidiano social popular daquela época. justamente num período em que ele parece desaparecer da documentação histórica: o período das primeiras décadas da República. de progresso e de civilização. uma batalha moralizadora dos costumes e práticas tradicionais de trabalho. contra as camadas populares. os setores médios e a Igreja Católica promoveram. em que não existiam a diversidade e os conflitos sociais com apelos a estereótipos raciais. valores morais e costumes que estavam arraigados em suas vidas cotidianas. primando pela manutenção de certas práticas sociais. em parte morando nos arrabaldes e bairros pobres de Lages e região. A elite da região. os indivíduos de culturas populares diversificadas e criativas parecem ter resistido a tais projetos. foi através dos processos judiciais que surgiu a possibilidade de visualizarmos o negro de maneira qualitativa na região. Pela documentação jurídica.Apesar da impossibilidade de quantificarmos os números da população negra pós-escravidão. lazer e religiosidade. Porém. percebemos que aqueles embates sociais eram perpassados por significados de diferenças e. entre elas. em que predominava nos jornais impressos e na bibliografia ensaística o discurso burguês de desenvolvimento. foi possível desmontarmos os argumentos ideológicos de uma região socialmente “homogênea” e “pacífica”. frequentando 118 . civilizada e predisposta ao controle político e ao poder econômico. estavam presentes os descendentes de africanos. vislumbrando uma composição social cada vez mais ordeira. No conjunto daquela população. as diferenças constituídas pela referência à “cor”.

portanto diferente. um estereótipo de qualificação social de indivíduos e grupos. Vimos que no dia-a-dia dos descendentes de africanos surgiam manifestações de reconhecimento de tais diferenças. a partir das últimas décadas do século XIX. Talvez. e contesta no presente. contestava. o discurso de unidade e “democracial racial”. que os inserira na condição de cidadãos. Apesar do discurso de igualdade social difundido pelas elites. no complexo que formava a pluralidade social na região e no País. não os incorporara incondicionalmente e definitivamente em igualdade de oportunidades sociais ao ideal de civilidade e brancura do projeto nacional. igualdade e cidadania. começaram também a se concretizar e consolidar nas práticas do dia-a-dia as diferenças sociais entre os “brasileiros” negros e os “brasileiros” brancos. 119 . A partir da aglomeração de famílias negras na periferia e da criação de sociedades recreativas. No entanto. roubando ou trabalhando como servidores esporádicos e criados do serviço particular ou público. republicanas e burguesas de liberdade. O “ser negro”. certa consciência étnica dos descendentes de africanos tenha se constituindo desde o período escravocrata. a população negra de Lages parece aos poucos ter percebido que o idealismo abolicionista e republicano. e a “cor” parece que passou a ser um elemento fundamental de distinção social. percebemos alguns exemplos de sentimentos de solidariedade étnica entre os descendentes de africanos. positivistas. praticando sua mística religiosidade. quando as elites passaram a elaborar suas ideias abolicionistas.“fandangos” e “sambas”.

Para os negros de Lages. apontamos para a necessidade de outros trabalhos sobre o tema. As estratégias de resistência não se manifestam apenas nos momentos de conflitos sangrentos entre grupos sociais que se opõem. parece que havia ali a possibilidade daqueles negros se equipararem socialmente aos ideais de civilidade. Elas são elaboradas nas manifestações do cotidiano das relações. muitos negros se recusaram a assimilar a moral de civismo e civilidade e não aceitaram fazer parte do club ou não foram aceitos por ele. onde o descaso com tais his120 . podem ser interpretadas como assimiladas pelos negros que fundaram o club. Nem a dominação. civilizada e excludente. Finalmente. podem também ser vistas como estratégias de alguns descendentes de africanos para ascenderem socialmente no plano daquela moral civilizadora. a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” representou um caráter ambíguo em tal embate. por outro lado. e. Por um lado. se. No caso da fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza”. no que diz respeito a moral civilizadora e excludente.No embate cotidiano entre as elites e as classes populares. as estratégias de dominação da elite. principalmente no que se refere ao estado de Santa Catarina. Mas antes disto. Ambas são construídas nas práticas das relações sociais entre os homens ou entre os grupos. nem a resistência em relação a ela são vias de sentido único. é que foram constituindo-se as estratégias de dominação e resistência na região. parece que houve a aceitação da determinação de uma moralidade branca. bem como na experiência social vivida. por outro lado. por um lado.

fica aberta a questão para que se construam outras problemáticas. No que diz respeito ao negro na região de Lages.tórias parece ter sido muito mais recorrente do que em outras partes do país. assim como outros que ainda precisam ser estudados. principalmente. em relação aos anos que se suscederam a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” e a constituição do bairro da “Brusque”. tornaramse alguns dos principais e mais duradouros lugares de sociabilização dos descendentes de africanos na região durante quase todo o transcorrer do século XX. tanto sobre o período escravista. Tais espaços. 121 . quanto.

122 .

do ano de 1905. na Comarca de Lages/SC. (Acervo do Fórum de Lages). 123 . Anexo 02 – Fotografia da folha de rosto de um Processo Crime. 1982).Anexos Anexo 01 Mapa da divisão administrativa do Estado de Santa Catarina no ano 1908 (Licurgo Costa.

Lagoão e Brusque circundando a área central. Anexo 04 – Mapa da cidade de Lages em 1940. (Acervo da família Malinverni).Anexo 03 – Fotografia da obra óleo sobre tela Cacimba da Santa Cruz. em que aparecem os bairros Banhado. (Licurgo Costa. primeiros anos do século XX. 1982) 124 . de Marino Malinverni.

no ano de 1919.Anexo 05 – Fotografia da primeira página do jornal Cruz e Souza. (Acervo Museu Thiago de Castro) 125 .

126 .

3 Sobre a teoria da insignificância. já citada. ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). 41). 5 Ver a obra de Renato Barbosa (1940): Geração Abolicionista. 16 Conforme entendimento sobre invsibilidade. p. 10 Sobre as instituições. 12 Sobre as teorias de branqueamento da sociedade brasileira em fins do século XIX e início deste. ver a obra de Thomas Skidmore (1989): Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. 1 127 . 7 Ver a obra conjunta de Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni (1960): Cor e mobilidade social em Florianópolis. 13 Sobre as concepções racistas ortodoxas (à frente deles Nina Rodrigues) e os partidários do “branqueamento” (à frente deles Silvio Romero) a partir de fins do século XIX. 11 A miscigenação já era uma prática comum no Brasil desde a período colonial. ver Ilka Boaventura Leite (1996). ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997). 14 Sobre o envolvimento do fator racial nas relações hierárquicas no Brasil. em relação às populações de origem africana em Santa Catarina. de Ilka Boaventura Leite (1996. ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997): “Margem da palavra. 1870-1930. ou o problema do racismo à brasileira”. cientistas e teorias que prevaleceram no Brasil de 1870 a 1930. 2 Sobre a invisibilidade negra no Sul do Brasil. cada qual à sua maneira. percorreu objetivos e problemas diferentes. silêncio do número”. 15 Sobre tais conclusões. 9 Ver ainda a obra de Lilia Moritz Schwarcz (1995): O espetáculo das raças: cientistas. obra já citada. 4 Ver a obra de Heitor Blum (1939): A Campanha Abolicionista na antiga Desterro. obra já citada. ver a obra de Thomas Skidmore (1989). ver o texto de Roberto da Matta (1997): “A fábula das Três Raças. 8 Cabe ressaltar que existiram diferenças teóricas e metodológicas entre os autores citados e que. obra já citada. em seus trabalhos. 6 Sobre a produção de Cabral e Piazza. instituições e questão racial no Brasil. em seu livro Relativizando: uma introdução à antropologia social. ver a obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. da organizadora. em especial o artigo “Descendentes de Africanos em Santa Catarina: invisibilidade histórica e segregação”.Notas Artigo publicado na obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): “Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade”.

27 Os municípios de Lages. p. sempre deixaram margem a dúvidas. neste livro.. significa dizer que: “. várias leis imperiais regulamentaram a proibição da escravização de indígenas. 26 Assim denominados os índios que eram escravizados até as primeiras décadas do século XIX. 20 Ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). a atividade social sistematizada. da qual uma das estrofes é a trasncrita em epígrafe. entre outros acontecimentos. 25 As categorias referentes à “cor”. também denominada “Campos das Lagens”.Ver as obras de Norbert Elias. estão respectivamente citadas no dito documento. como pelos trabalhos realizados por pesquisadores das ciências ditas sociais e humanas. 24 Licurgo Costa (1982). 21 Entenda-se aqui “cotidiano” como vida cotidiana que. et al (1985). e O processo civilizador: formação do estado civilização (1993). ou “póvoa”. havia algumas fazendas e moradores esparsos na região. 18 Como exemplos. a obra de Renato Ortiz (1985. que aos poucos se extinguiu totalmente. como sinônimos de descendentes de africanos. sob os códigos: “B” de branco. em Lages. a criação da Polícia Municipal. a construção da nova sede do Poder Público Municipal e da nova Igreja Matriz. de 1872. explica que muitos anos antes da fundação da vila. segundo a autora Agnes Heller (1992): O cotidiano e a história. O processo civilizador: uma história dos costumes (1994). a fundação do Mercado Público.] são partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada. 22): Cultura brasileira identidade nacional.é a vida do homem inteiro. sobre “O lugar do negro na força de trabalho”. por determinação do governador da Capitania de São Paulo – a qual pertencia toda a região do que é hoje o Planalto Catarinense – foi definitivamente estabelecida onde é hoje a parte central da cidade de Lages. 23 Matheus Junqueiro foi um escritor lageano do início do século. Curitibanos e São Joaquim podem ser localizados no “Mapa da divisão administrativa de Santa Catarina no ano de 1908”. em que o personagem Gregório Branco. mulato e negro foram usadas. na cidade de Lages. E. 22 Expressão usada pelo historiador Élio Cantalício Serpa (1996). no Brasil. 29 As denominações preto. O Lageano – e em seguida vários outros –. para aqueles autores. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade e personalidade. depois de algumas tentativas frustradas de fundação de um núcleo populacional. contidas na “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. em 1801. na região. canta uma música.” (p. o intercâmbio e a purificação” (p..18). e elevada à categoria de vila em 1771. e. Campos Novos. “cor” preta. em artigo sobre a “Reformulação das condutas e sociabilidades durante a Primeira República”. pardo. a fronteira entre as categorias de “cor” e “raça”. o termo usado foi a categoria raça. os lazeres e o descanso. autor da comédia intitulada Trapaça Matrimonial. ou seja. em sua obra O Continente das Lagens: sua história e influência no Sertão da Terra Firme. coibindo tal prática. 19 Ver a obra de Marilena Chauí (1994): Convite à filosofia. “o termo negro é 17 128 . obra já citada. 28 No “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. “P” de pardo e “N” de negro. A partir daí. Só a partir de 1766. também. No estudo de Lúcia Elena de Oliveira. “[. os autores afirmaram que tanto pelos levantamentos demográficos feitos no passado. Por isso.. o surgimento do primeiro jornal em 1883.. ver anexo 01. reformulação do Código de Posturas (1895). a fundação do Club Primeiro de Julho (1896).17).

.” (p. Para o autor. Março 30. para negar a existência de conflitos na própria nação ou região de onde falam. os estudiosos do problema racial usaram o método comparativo.. Os números são os seguintes: ano de 1766: 50 escravos. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial do Estado em outubro de 1887". Maço 45. àqueles que manifestam fenotipamente características de ascendência étnica africana. por exemplo. 41 LAGES. Foro da Comarca. obra já citada. 33 Essa informação foi tirada da leitura de diversos processos crimes e ações de liberdade do período escravista. 437/438) 37 Ver. 26 Abr. cor. tendências teóricas de excpecionalismo racial. 34 SANTA CATARINA. em relação a outras nações ou regiões. Processo Crime. como exemplos: Sidney Chalhoub (1990): Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. 43 LAGES. assinado por João Damasceno de Córdova. 15 Jun. ano de 1884: 1233 escravos. em Lages. de Norte a Sul. Governador (Rocha). condição social. 23 maio 1879. ocupações e observações que se referem à propriedade e à produção dos fogos. ano de 1776: 110 escravos. ano de 1887: 1064 escravos. 35 Processos crimes até 1888.]” (p. ano de 1777: 191 escravos. 1872. Processo Crime. onde demonstra como se construíram. 129 . 31 Sobre alguns números da população livre de origem africana. em 1801. retirados de fontes diversas. 30 Em Licurgo Costa (1982). como nomes de todos os indivíduos da família.] durante o século XIX. ano de 1872: 2012 escravos. Foro da Comarca. Maço 40. ano de 1856: 1195 escravos. idade. 1884. a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. a pecuária gaúcha evoluiu no sentido do emprego mais frequente de peões sob formas rudimentares de salariado. Processo Crime. 32 “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. Florianópolis. 44 LAGES. durante o período escravista.] podemos concluir que. ano de 1829: 338 escravos. estado civil. Foro da Comarca. publicou na revista Estudos Afro-Asiáticos interessante artigo com o título “Fazendo a exceção: narrativas de igualdade racial no Brasil.um termo consagrado pelo pensamento social brasileiro para designar pretos e pardos [. 40 LAGES. É importante observar que o autor omite a fonte de origem de vários destes números. 42 O professor de ciências políticas. 11). Sargento Mór Comandante. Maço 48.. o historiador Jacob Gorender (1988). 36 Sobre a escravidão nas áreas de criação de gado do Sul do Brasil. 39 Ver. e Maria Helena Machado (1994): O plano e o pânico: os movimentos sociais da década da abolição. ano de 1801: 136 escravos. ano de 1883: 1522 escravos. 1879. Foro da Comarca. o autor relaciona alguns números demográficos sobre população escrava de Lages. a chamada “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto” ou “Mapa Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Districto” traz informações detalhadas sobre os “fogos” existentes. 09 Abr. no México e em Cuba”. coexistiram na pecuária o trabalho escravo e o trabalho livre. 1887. ano de 1886: 1076 escravos. 45 LAGES. ver a obra de Maria Hebe Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista do Brasil.. 38 Dos anos de 1799. Maço 31. 1800 e 1801. naquelas nações. Arquivo do Convento Diocesano da cidade de Lages. Michael Hanchard (1995). diz que “[. Processo Crime. Processo Crime. [.. ano de 1840: 1000 escravos. “Relatório do Presidente da Província Dr. jornal Guia Serrano e Lista Geral dos habitantes. Foro da Comarca.. ou seja. 1867. empregos. 1875.

só foi possível identificar sua “cor” pelo depoimento de algumas testemunhas arroladas no processo. por estarem diretamente ligados a um determinado projeto de nação branca. Lages. Caixa 13. LAGES. “Problema Negro” é também o título do artigo. 06 Dez.. Governador (Vidal Ramos). Foro da Comarca. Ação Cível de Liberdade. 1884. p. Ação Cível de Liberdade. Foro da Comarca. Para Hernan Otero (1996). século XIX. LAGES. ver a obra de Tzvetan Todorov (1993): Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Foro da Comarca. “Sinopse da Administração do Estado de Santa Catarina. Sidney Chalhoub (1990). 06. Ação Cível de Liberdade. Sobre os procedimentos usuais para a entrada com uma ação de kiberdade no período escravista. Foro da Comarca.. LAGES. atuam como “[. ao passar-lhe o governo. Rothermund. as categorias oficiais usadas pelo Estado para a identificação dos indivíduos em censos e relatórios demográficos. é o desaparecimento das definições que identificam a negritude ou a indianidade em tais documentos. O Imparcial. 04 Jun. assim como outros em documentos oficiais. 1870-1930. 1883. Typ. porém. 1903. p. a lei da ambiguidade: as ações de liberdade da Corte de Apelação do Rio de Janeiro. A promotoria pede a condenação dos réus em abril de 1913. Maço 64. Ver ainda. 41). p. dando margens à dúvida de que foi abandonado à revelia da 130 . São Leopoldo. o escravo agia de acordo com a sua própria compreensão em relação à situação em que se encontrava e não simplesmente reproduzindo a ótica opressora. 01. SANTA CATARINA. Maço 51 A localidade “Santo Antonio dos Índios”. Caixa 13.02) desejada pelo Estado.]” (p.11/12. 19. LAGES. Processo Crime.46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 Segundo Sidney Chalhoub (1990.] matrices mentales y discursivas que desempeñaron un rol importante en la creación y la divusión de uma imagem de la sociedade y la Nación [. Para Lilia Moritz Schwarcz (1995). apresentado pelo Governador Coronel Vidal José de Oliveira Ramos ao senhor Major João Guimarães Pinho. Caixa 14. 26 Dez. Lages. 1883. No caso do pedreiro Gregório. 03 out. Foro da Comarca. “Relatório do Superintendente Municipal de Lages Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior ao Conselho Municipal em 01 de janeiro de 1899. em sua obra O espetáculo das raças: cientistas. p. em junho de 1914". é até hoje conhecida como Índios. n. Caixa 14. 09 mar. sobre as “visões da liberdade”. p. LAGES. obra já citada. os “Homens de Sciencia” eram aqueles vistos como representantes do saber autorizado e legítimos observadores dos ‘problemas’ raciais do país. 22 out. Sobre a vida dos homens livres na ordem social escravocrata brasileira. Ação Cível de Liberdade. Presidente do Congresso Representativo do Estado. LAGES. 18. instituições e questão racial no Brasil. Foro da Comarca. Superintendente (Vidal Ramos). denominado Crisol de razas e integración de inmigrantes en la Argentina. quadriênio de 1910 a 1914.. 1886.. ver a obra de Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997): Homens livres na ordem escravocrata. Em síntese.01. em seu estudo sobre a Argentina. n. Processo Crime. 1869-1914. nos arredores da cidade. 27 set. 1899. é interessante o trabalho de Keila Grinberg (1994) Liberata. obra já citada.1912. LAGES. O Imparcial. 07 jun. Sobre as teorias científicas que fundamentaram o determinismo racial. citado anteriormente. 1885. 1903. o processo está incompleto.

04. Processo Crime. 14 Dez. n. CRUZEIRO DO SUL. o “15 de Novembro”. o “Região Serrana”. na virada do século XIX para o XX. Processo Crime. entre outros temas. nascido em 16 de outubro de 1881 na Freguesia dos Baguaes. n. e. 1916. 04. 1912. penetrando todos seus meandros. 19 Dez. 1899. 1996. 31. Já citado. surgiram outros tantos. Porto Alegre e Florianópolis. durante pesquisa realizada em 1999.66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 justiça – o que é bem provável – ou tenha se perdido no tempo. 01 Set. p. LAGES. Lages teve dificuldades na comunicação freqüente com tais centros. encontrados no Fórum da Comarca de Lages e no Arquivo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. encontramos a Certidão de Batismo do réu. ver o artigo de Anderson VARGAS (1994): “Moralidade. ver Norbert ELIAS (1993). Esta elite pode ser identificada como sendo formada pelos fazendeiros. em todos os níveis. Lages. atua como um vigoroso caudal que atravessa obliquamente as formações sociais. novo prédio para a prefeitura. SANTA CATARINA. p. o “Município”. Foro da Comarca. ver relação de jornais pesquisados em “Fontes documentais”. Maço 60. LAGES. em 1883. Foro da Comarca. o “O Clarim” e o “O Planalto”. Maço 51. p. 25 jun. Sobre o combate ao comportamento popular e a projeção de uma moralidade civilizada pela imprensa. Segundo Tania: “[. Devido à distância e aos acidentes geográficos no caminho entre Lages e alguns centros maiores. A Evolução. 920. n. Tania Navarro Swain (1994): Você disse imaginário? . O primeiro jornal que surgiu na cidade foi “O Lageano”. 1915. “O Imparcial”. Apelação Crime n. 01. 21.49). Caixa 19. LAGES. Foro da Comarca. melhoramento de vias urbanas. 24 Mar. Isso até os anos vinte deste século. Anexo ao processo em questão. Ver Bronislaw Baczo (1985): A imaginação social. 18 Set. 1888. Inquérito Policial. 14 dez. Foro da Comarca.] o imaginário. 1889. como o “Echo da Serra”. no final desta dissertação. Em seguida. 19 Dez.. Caixa 19. 1902. construção e limpeza de cacimbas para o fornecimento de água. como Curitiba. cuja duração compreende maior ou menor lapso de tempo” (p. Sobre processo civilizador. LAGES. 900. Apelação Crime n. Foro da Comarca. Para consulta. Tribunal de Justiça. LAGES. através das mais diferentes linguagens. altos funcionários públicos e profissionais liberais ( SERPA. todas as classes sociais – interclasse – modelando conjuntos/pacotes de relações sociais hegemônicas. iluminação pública. 1904. SANTA CATARINA. Maço 78 Os acervos e documentos consultados para tal caso foram os inquéritos policiais e processos crimes do período entre 1888 e 1920. saúde. CRUZEIRO DO SUL. Lages. Inquérito Policial. Processo Crime. Tribunal de Justiça. Maço 60. Jun. solteira. reformas no Mercado Público. o “Aurora”. 05 abr. 17). Maço 75 131 . Processo Crime n. o “Escudo”. Foro da Comarca. 1889. comerciantes. 7. “O Cruzeiro do Sul”. 18 Set. Lages. o “Rebate”. 1899. até os primeiros anos do século XX. filho da preta Gervásia.. autoritarismo e controle social em Porto Alegre na virada do século 19". Algumas notícias e artigos que se repetiam com freqüência nos jornais da época. 1906. Maço 78 LAGES. 14. estavam relacionadas à higiene pública.

n. p. títulos. Inquérito Policial. porque as hierarquias asseguram a superioridade do branco como grupo dominante. Todo o universo social. “Mensagem do Governador do Estado de Santa Catarina Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina em agosto de 1896".Santa Catarina de 1894 a 1904. 1888. em sua visita de outubro 84 85 132 . n. Processo Crime n. “orelhano” significa animal sem identificação. 21 mar. Maço 30. nome dinheiro. um ponto-chave em sistemas hierarquizantes. Processo Crime n. Hobsbawm (1976): Bandidos. 17. Processo Crime. a literatura utilizou os termos catolicismo romanizado e catolicismo ultramontano. 1907. Lages. 25). Maço 65. sem marca de propriedade. n. então.. acaba pagando o preço da sua extremada desigualdade. 100 Roberto da Matta (1997) define o sistema de hierarquia social brasileiro. e tomou corpo durante a Primeira República com a expansão de seus ideais por todas as unidades da federação. Lages. 103 Trechos dos “Diários de Dom José de Camargo Barros”. como também a sua ausência. está ligada à tendência da Igreja em afirmar os princípios hierárquicos da sua política organizacional fortemente burocratizada. 01 Set. uma diferenciação para cima.Brasil. colocando tudo em gradações. 95 Conforme jornal A EVOLUÇÃO. “Ofício do Delegado de Polícia para o Presidente da Província . relações pessoais passíveis de manipulação etc. consultar a obra de Hebe Maria Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista . dos anos de 1888 e 1889". 58. no anexo 04. Esse é. 18 Set. 1902. dizendo: “Ninguém é igual entre si ou perante a lei. não há necessidade de segregar o mestiço. 102 Bispo da diocese Paraná . século XIX. 7. distante 30 km do centro. Maço 78. 14. quando se estabelecem distinções para baixo. parece-me. nem os escravos.] A referência ao catolicismo. com adjetivo ultramontano. propriedades.. ou selvagens.03. 03. 16 Set.75). 87 No linguajar da região. Foro da Comarca.Mapas demonstrativos do movimento de entrada e saída de presos da cadeia de Lages. educação. 96 LAGES. casamento e registros religiosos. o mulato. que no Brasil se desencadeou na segunda metade do século XIX. Governador (Hercílio Luz). ver a obra de E. A intimidade. n. 91 O Planalto. 99 Sobre as categorias de cor em registros civis de nascimento. admiti-se. 90 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 17. J. LAGES. o índio e o negro. 21 mar. óbito. 18 jul. 101 Segundo Élio Cantalício SERPA (1997): “Do processo de romanização da Igreja. 1918. 17 Abr. 94 LAGES. 98 LAGES. p. 89 Sobre banditismo. Maço 65. criados ou subalternos. 17 Maio 1918.LAGES. 88 SANTA CATARINA. 93 São José do Cerrito é hoje um município localizado na direção oeste da cidade de Lages. Florianópolis. Foro da Comarca. 92 LAGES. a consideração. Foro da Comarca. pela mesma lógica. o favor e a confiança. 97 A EVOLUÇÃO. (p. Lages. Maço 10. centralizada. 161. autoritária e que relegava aos leigos papel secundário em assuntos de cunho religioso. [. Maço 75. 1907. igualmente diferenciados entre si por meio de vários critérios. Processo Crime n. n. podem se desenvolver como traços e valores associados à hierarquia indiscutível que emoldura a sociedade [. p. Foro da Comarca. 1902. Foro da Comarca.” (p. 86 Ver a imagem da capa de um destes processos crimes. 1907. 7. nem senhores (diferenciados pelo sangue. 01. 59. 16 Set. Processo Crime. Foro da Comarca..). Neste sistema. especialmente o capítulo 18.. pois. 1889.]”.

Que movimento/ Os rojões cortam o espaço. ver trabalho de Sebasitão Ataíde (1988. Sobre o Contestado. escravo de Claudiano Rosa. 111 O Imparcial. narrou Otacílio Costa (1943): “Dez de outubro! Dia de N. Apud. 64): O negro no planalto lageano. com seu cavanhaque. Depois vem o Antônio Ismério bem trajado e mais o Pedro Cachoeira. dizia o jornal O Clarim. É o festeiro do ano.. a seu lado. do Rosário volta para o seu altar. 110 Ver no anexo 3. benquisto vem o Padre Antônio e ao seu lado o Manézinho. a do ano de 1880. 107 Sobre histórico da fundação da capela Nossa Senhora do Rosário em Lages. liberto do Padre Camillo. Depois vem o tio Horácio. enquanto na rua a música ataca uma marcha religiosa e a Imagem vai solenemente subindo a escada da celebrada Igreja do Rosário. S.S. n. acusando a irmandade de não entregar a chave da capela e não 104 133 . a imagem da antiga capela da Santa Cruz.” 109 Em 1943. onde residiam muitos descendentes de italianos. 21. preto alto. fizeram com que homens e mulheres respondessem a esse conjunto de situações. de cartola e calças brancas e sapatos lustrosos. p. Seu amo... completamente contrária aos preceitos da S. Igreja e assim contrária as ensinações de Jesus Christo [.” (p. no bairro Coral. E vão pela rua Paranaguá e dobram a esquina da velha Matriz e regressam na mesma ordem. 55). 112 Sobre a “Festa de Santa Cruz” no ano de 1911. 1902. marido da Iria. 01. Lages. ver também a obra de Maurício Vinhas de Queiroz (1981) Messianismo e conflito social no Brasil: a guerra sertaneja do Contestado: 1912-1916.. ver a trabalho de Julita Scarano (1978): Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino. A imagem e as alfaias da antiga capela Rosário foram transpostas para nova igreja. expropriação da posse da terra por empresas estrangeiras. 105 Expressão usada por Élio Serpa (1997. independente da boa fé que por ventura haja de seus promotores. prosperidade e justiça na terra [. Depois.de 1898 o estado de Santa Catarina. É de notar o aprumo dos pretos e a tafularia das pretas. foi inaugurada a igreja do Rosário.].. Obra já citada. p. o prestigia e deseja o brilho da festa para cabal desempenho do tio Agostinho. p.. introdução de novas relações sociais com a penetração do capitalismo no campo e o aumento significativo da população com a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. E que respeito. o João Mocámbique. Lages. 1911: “É portanto lamentável que a festa que se vai realizar como tantas outras já realizadas seja... 106 Sobre “Irmandade do Rosário”. exímio tocador de sino. O novo local da igreja do Rosário ficou bem distante da área onde antes funcionava a capela. Atrás do andor vai a música do Justino – o maestro Justino Espíndola de Lima. Prossegue o articulista. alemães e portugueses. 108 Referindo-se a uma dessas festas. escravo do fazendeiro Antônio Ribeiro dos Santos. solene. A utopia calcava-se na possibilidade de instaurar ‘um reinado de paz. no século XVIII. 22 abr. o tio Cinza. Segundo Élio Cantalício Serpa (1997).]”. propriedade de terra nas mãos de poucos. que profunda veneração de todos. o Martinho e o Rogério do Juca Antunes. Walter Fernando Piazza (1984). respeitado. projetando um sonho que de acordo com suas condições concretas e culturais lhes parecia viável. Novamente a Imagem de N.. sobre as raízes do movimento milenarista caboclo do Contestado: “A problemática social esboçada na forma de analfabetismo generalizado. do Rosário. o tio Cypriano. 72). por ocasião de sua inauguração.. Vai Sair a procissão! Lá vem o Agostinho. 01 nov. brancos e pretos! .

1900.. 24 Abr. 02.] a atual administração que manifestamente procura dar a esta cidade um cunho differente alliando a higiene e o embelezamento”. p. n. Processo Crime. 129 Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997). No processo crime em que foi acusado José Borges de Amaral e Castro: LAGES.] “. n. 45). Foro da Comarca. Foro da Comarca. p.. no anno de 1913. usando ambas as denominações como sinônimos. 26 dez. ver Maurício Vinhas de Queiroz (1981. o promotor público. 10. 120 Região Serrana. os termos “fandango” ou “samba” foram usados indiscriminadamente como sinônimos de “baile popular”. 129). em casa de Domingos Leite Júnior [. Sobre tais definições. 30 Abr. Lages. 121 Segundo jornal A Notícia.03. 1895. p. 117 O jornal Gazeta de Lages. 1914: a prefeitura do município de Lages publicou o “Relatório da gestão dos negócios do município de Lages. 114 O Clarim. p. 125 LAGES.. Processo Crime n. 3.. “[. 1912. Maço 60. 07 set. podemos dizer que eram “os pequenos criadores e grandes negociantes de gado de corte”. pelo sr.. 11 maio 1914. (Thompson. 1908. disse que: “[. Processo Crime. Maço 38. Lages. Maço 82. transcreveu parcialmente o Código de Posturas do Município de Lages. 127 LAGES. p. 123 Jornal O Planalto. Lages. 30. Foro da Comarca. p. Processo Crime. Quanto aos “meio fazendeiros”. 11 maio 1914. apresentado ao Conselho Municipal. 27 maio 1908. 03. 30-42). p. 23 mar. 29 jan. n. Lages. trabalhou a questão da solidariedade entre os trabalhadores rurais do século XIX (p. 1908. que “[.]”. 118 Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956): “Batuque e samba tornaram-se dois termos generalizados para designarem a dança profana dos negros.17. 216). a aproximadamente 50 km. 128 Sobre a violência como norma comum de conduta.” (p. Maço 82. p. p. Processo Crime n. 1899. 119 Em alguns processos crimes pesquisados. LAGES. 134 O Clarim. 51): Homens livres na ordem escravocrata. Foro da Comarca. substituto em exercício do Superintendente Municipal”. 04. 36. p. 23 mar. 132 LAGES. em obra já citada. 132. 130 A antiga localidade de Capão Alto é hoje um município localizado na direção sul de Lages. n. com um número menor de cabeças de gado. 24 Abr. 122 Dizia jornal A Notícia .. n. 116 O Clarim. 113 134 . 133 Os criadores da época eram fazendeiros com centenas de cabeças de gado. Maço 32. Processo Crime.. 01. 125. n. 03 nov. Maço 32. 1908. 1900. Otacílio Vieira da Costa.. Maço 38. 125. 08 Set. 02. Foro da Comarca. 24 jan. Lages. Processo Crime.] acontecia um “samba ou fandango”. hoje município. ver Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997. Lages.. 02. p. está distante poucos quilômetros da cidade de Lages.prestar contas às autoridades diocesanas. n. 15 maio 1910. ao abrir a denúncia. 126 A antiga localidade denominada Painel. em 03 de janeiro de 1914.] a administração não tem medido esforços em prol do desenvolvimento moral. 1995. intelectual e material desta parte do Estado. ou “meio fazendeiros” . no Brasil. 1908.. Foro da Comarca.. 124 No original: “Con el concepto de legitimación quiero decir que los hombres y las mujeres que constituían la multitud creían estar defendiendo derechos o costumbres tradicionales [. 03. 115 LAGES. 131 LAGES. aprovado em 1895. 34. em que enfatizava que. Foro da Comarca. innegavelmente mais adiantada hinterland Chatarinense”. 79. 20. n. 1918. Lages.

1913. Em 12 de julho de 1906. 1428).. Processo Crime. Processo Crime. Foro da Comarca. terminada em 1921. Foro da Comarca.35. foi fundada a Conferência Vicentina de Lages. 147 Para confirmação quanto à presença de descendentes de africanos em corridas de cavalos. 17 Jul. Foro da Comarca. Campo Belo. malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. ver. p.1401-1405). 163-204). Lages. 87-107): Carnavais.114). n. 56. p. então. Foro da Comarca. como o prédio da Prefeitura Municipal. n. 16 set. 1982. Processo Crime. o prédio da Escola Estadual Vidal Ramos. construídas algumas praças e jardins. 137 LAGES. 1905. n. Maço 29. Também foram abertas novas ruas – acabando com alguns cubículos existentes na área central –. ver obra de Roberto Da Matta (1997. n. n. 148 A Evolução. Felippe Schmidt em 1o. 1428). os seguintes processos: LAGES. 120. Foro da Comarca. hoje município Campo Belo do Sul. p.03. de 135 135 . 20 maio 1908. Maria Odila Leite da Silva Dias (1995. 138 A localidade de Campo Belo.33. 22 Mar. em primeira página: Orgam Popular e Independente. 51). está distante pouco mais de 50 km da cidade de Lages em direção ao Rio Grande do Sul. 140 Ver obra de Roberto Cardoso de Oliveira (1976): Identidade. Segundo Licurgo Costa (1982. Maço 26. 145 Na área rural de Lages existiam raias no Painel.. 136 O Clarim. Fulvio Aducci apresentado ao Governador do Estado Dr.. também. 1907. em 1902. 13. em 1912. fundado em 27 de novembro de 1892. 02 Jan. n. foi criada a Ordem Franciscana Secular. 1908. Observamos ainda que os números do jornal O Clarim vêm com a seguinte subscrição. Maço 29. p. estas foram algumas das sociedades beneficentes criadas na cidade de Lages. e LAGES. e arborizadas outras vias já existentes. 139 LAGES.. n. etnia e estrutura social. que os populares vivem em um estado anômico ou patológico [. Secretário Geral dos Negócios do Estado (Fulvio Aducci). já citada. 1890. Informação tirada da leitura sistemática dos Processos Crimes de 1888 a 1918. 151 A primeira entidade beneficente em Lages foi o Clube União Artística. 146 Na zona urbana e suburbana da cidade. Canoas e Rio Bonito. 20 maio1908.Artigo com o título “13 de maio” publicado no jornal O Clarim. ver Sidney Chalhoub (1986. algumas casas e edifícios foram construídos ou reformados com traços arquitetônicos ao estilo europeu. 70.] a conduta real vivida pelos membros das classes populares não se ajusta aos padrões dominantes. 1905. 143 LAGES. do ano 1888 a 1918. 141 Sobre definições de espaço público e privado. 150 Conforme Sidney Chalhoub (1986): “ [. 03. 33. Lages. p. (Costa. p. Quanto à visão das classes dominantes em relação ao cotidiano dos populares como patológico. 22 Mar. Coxília Rica. e da obra de Licurgo Costa (1982. as raias se localizavam no “Banhado” e no “Conta Dinheiro”. p. 35. p. concluindo-se. 02 14 fev. (p. e a Igreja Matriz de Lages. 142 Em relação ao cotidiano conflituoso dos populares e sua relação com o aparelho judiciário e a polícia. “Relatório do Secretário Geral dos Negócios do Estado Dr. Capão Alto.]”. 144 Algumas leituras contemporâneas interessantes sobre o mito da democracia racial brasileira são os trabalhos de Michael Hanchard (1995) e Fernando Rosa Ribeiro (1995): A nação em fluxo. consultar. ainda. Maço 29. Processo Crime. Em 19 de janeiro de 1917. 149 Naquela época. Maço 45. 152 Ver: SANTA CATARINA. n. p. Processo Crime.

os melhoramentos urbanos. e ocupou. chama-se bairro Copacabana. Lages. 164 LAGES. LAGES. 1906. junto ao Centro.27) 160 Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias (1995). além de outros cargos do executivo municipal e do legislativo estadual e federal. de 1902 a 1906. 155 Referimo-nos principalmente à família “Ramos”. . filho de Vidal. do Banhado. anexo 4. sobre o cotidiano das mulheres pobres paulistas no século XIX. a iluminação. 1917. demolidas por seus proprietários. Processo Crime. Godinho. do Lagoão e da Brusque. Maço 38. Florianópolis. 12151390). Typ. Belisário José de Oliveira Ramos. Superintendente (Belisário Ramos). Observação: o município de Curitibanos está localizado na região do Planalto Catarinense. finalmente. Processo Crime. reconhecido com aquele nome. eram localidades da área urbana não necessariamente denominadas oficialmente pelo poder público municipal como “bairros”. o Código de Posturas do município dizia o seguinte: “Art. oligarquia de políticos lageanos de renome estadual.. irmão de Vidal. aproximadamente a 80 Km. a parte alta era denominada de Brusque e a parte baixa era chamada de Lagoão – por causa de um córrego que passava naquelas proximidades. foi governador e interventor estadual de 1935 a 1945. e a migração das mesmas das áreas centrais para a periferia: “ [. 30 Mar. consultar a obra de Licurgo Costa (1982. Lages. n. e governador. 153 136 . no mês de maio de 1949. Curitibanos. “Brusque” e “Banhado”. um rio. Nereu Ramos. p. 02. 39 . p. 01 fev. 185. Lages. Para maiores esclarecimentos sobre tais nomes. ameacem ruína ou desabamento serão no prazo marcado pela superintendência. 1907. foi por sucessivas vezes. 158 O Lagoão era uma região que se confundia com o bairro da Brusque por fazer parte de seu prolongamento. n. de 1940. e a maior parte dela também foi engolida pelo centro da cidade. ver mapa da cidade de Lages. quaesquer edifícios. logo após do prazo. (p. em geral.O infrator será punido com uma multa de 10$000 a 20$000 reis. frentes. p. 1895. 03. casas e sobrados e. 154 O PLANALTO. Entre os expoentes da família: Vidal Ramos Júnior foi vice-governador do estado de Santa Catarina.julho de 1916". as estradas de ferros”. no todo ou em parte. a presidência da República do Brasil por alguns dias. Foro da Comarca. n. “Relatório do Superintendente Municipal Belisário Ramos apresentado ao Conselho Municipal em 02 de janeiro de 1906". Typ. 26 Jan. 162 Sobre a localização dos bairros “Lagoão”. Localizados numa região íngrime. ou outra característica qualquer de suas redondezas acabavam tornando todo um dado recorte da região urbana. de 1910 a 1914.. Gabinete Typográfico J. 1921. Maço 28.” (p. 165 LAGES. 156 Hoje faz parte da área central da cidade. É o caso de Santa Cruz.] expulsaram-nas o aburguesamento da vila. foi parte desse município até o ano de 1875. Colleção De Leis Do Município. superintendente municipal de Lages. além de outros cargos. 14 fev. 1909. 01. o encarecimento dos impostos municipais e.Os muros. a sua custa. da cidade de Lages. Foro da Comarca. o alinhamento das casas.17) 161 Naquela época. já citada. do ano de 1902 a 1922. e far-se-há a mesma demolição. obras em construções que. 13. Hoje toda aquela região é conhecida como bairro da Brusque. 159 Impresso em: LAGES. d’O Estado. 163 A Evolução. inclusive. Região Serrana. 157 Hoje. onde às vezes uma rua.

n. Foro da Comarca. e auxílio da obra de Janaina Amado. 174 Ataide. 26 jun. 1921. Cabe ressaltar que trabalhamos a história oral conforme o entendimento de Verena Alberti (1989): História oral: a experiência do Cpdoc. No entanto. tendo também um trabalho publicado sobre o tema: O Negro no Planalto Lageano.. 176 Ataide. 33. etnia e estrutura social. 170 Sobre o curandeiro Pedro Barulho.. 15 Jun. ver o capítulo “Aspectos da religiosidade popular em Lages: a presença negra”. 1908. e informações do jornal Correio Lageano.. n. fiz por ele ser um estudioso da história dos negros em Lages. Maço 88. Apelação Crime. Processo Crime. ainda. Sebastião. Sebastião. 180 Conforme entrevista com Sebastião Ataide (1998).1998. 188 O nome do Centro Cívico Cruz e Souza é uma homenagem ao poeta simbolista catarinense João da Cruz e Sousa. 172 A “cor” de Laurindo José Garcia foi identificada no corpo delito do processo: SANTA CATARINA. 26 jun. 03. 10 mar. 03. 181 Ataide. p. 1997. 177 Sobre a capela de Santa Cruz. Entre elas. Carolina Eva 166 137 . Maço 38. Foro da Comarca. Sebastião. 18 Fev. Maço 27.] Etnicidade é essencialmente a forma de interação entre grupos culturais operando dentro de contextos sociais comuns [. 167 LAGES. 1998. Quanto à entrevista realizada com Sebastião Ataíde (1998). 26 jun. Foro da Comarca. na intenção de esclarecer algumas dúvidas sobre a vida dos negros no período. nascido em Desterro (Florianópolis). Caixa 44.161. Foro da Comarca. 179 Conforme informações retiradas da leitura de alguns processos crimes da comarca de Lages durante a década de 30. Lages.” (p.85) 186 O Clarim. 05 out. p. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. 20 maio 1908. 182 A cor de Lino Garcia dos Santos foi identificada em: LAGES. n. 20 maio 1908. 10/11 ago. 185 Baseado na obra de Roberto Cardoso de Oliveira: Identidade. 178 Ataide. Tribunal de Justiça . Lages. 169 LAGES. ao mesmo tempo que é nascido na região. Lages. e foi. aos 24 dias de novembro de 1861. Sebastião. 3063. n. e entrevistas com Marieta Camargo da Silva Santos (1998) e Sebastião Ataide (1998). quando a promotoria requisitou que se identificassem corretamente os réus. p. 05. n. Apelação Crime. escravo do marechal Guilherme Sousa. Caixa 44. Marieta de Moraes Ferreira (1996): Usos & abusos da história oral. Foro da Comarca. Processo Crime. Tribunal de Justiça. Lages. Lages. 1997. 03. Segundo o autor: “[. 1926. 171 Este termo foi usado na p. 26 jun. 1926. ver o capítulo:Contra a ‘cor’ inexistente. 23 do processo em questão. Lages. liberta. 05 Fev. 183 LAGES. 33. 173 Não priorizei a fonte oral na pesquisa. 24 Abr. e da lavadeira. Processo Crime. 187 O Clarim. duas senhoras com mais de 90 anos. Maço 77. 1927. 05 fev. Inquérito Policial. 1923. num baile no lugar denominado Banhado.. 17 Maio 1918. 168 LAGES.1998.SANTA CATARINA. Processo Crime. 198. membro da diretoria do Centro Cívico Cruz e Souza. Lages. 1919.]. n. 184 Conforme o jornal Correio Lageano. filho do mestre pedreiro Guilherme. 3063. 1998. Maço 10. 10/11 ago. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. por ocasião de uma briga em que se envolveu. 175 Cruz e Souza. fiz várias entrevistas com descendentes de africanos.

n. 138 . p.. 1919. 1918. 02/03. 13 Nov. 209 Cruz e Souza. 03. fundada em 1924. secretário geral do governo do estado de Santa Catarina e superintendente municipal de Lages. 03. 186). 466. p. p. 193 Cruz e Souza. n. 211 Ataide. 202 LAGES. n. 466. n. a grafia “Souza” com a letra ‘z’ foi convencionalmente usada para nominar o “Centro Cívico”. No século XIX. 194 Mais tarde. 01. p. 1919. p. 207 Ataide. uma biblioteca e um grupo dramático. 1998. uma orquestra sinfônica. convencionouse alterar seu sobrenome para Sousa. Maço 112. p. porque era desse modo que o próprio poeta assinava. além da escola. senhor Danilo Thiago de Castro. 17 maio 1919.]”. 70. 03 ago. 196. Skidmore (1989): obra já citada. 21 nov. 13 Nov. Maço 112. 199 Cruz e Souza. Lages. 04. no anexo 5. 191 Cruz e Souza. foi inaugurada sua sede própria. 17 dez. Observação: a Escola Noturna Amadores da Arte pertencia à sociedade Grupo Dramático Particular Amadores da Arte. Lages. p. Lages.P. Lages. Sebastião. 05. n. 189 O termo “homens de cor” foi usado difusamente pelos membros do Centro Cívico Cruz e Souza e pela sociedade em geral. p. fundado em 1916. 04. 1919. 01. (art. 1918. n. 05. Lages. 74. 1919. o G.da Conceição. Em todos os documentos pesquisados referentes ao “Centro Cívico Cruz e Souza”. 196 Termo usado por Thomas E. p. 1998. 195 O Planalto. 1931. p. 13 Nov. Sebastião. p. Inquérito Policial.D. 206 Caetano Vieira da Costa foi deputado estadual. n. 1919. 03. 198 Cruz e Souza.. Sebastião. 03. próximo ao bairro da Brusque. 07 set. 466. localizada até hoje em frente à Igreja de Santa Cruz. n. 203 LAGES. 32) 201 O Lageano. 208 Ver imagem da capa do jornal “Cruz e Souza”. Lages 26 jun. 1919. 01. 05 set. Lages. Amadores da Arte mantinha. n. Lages. Foro da Comarca. 1919. 04. n. em São Paulo. “O Clarim d’Alvorada”. Foro da Comarca. 22 set. 01. p. Lages 26 jun. n. O artigo foi assinado por Cassimiro da Silva Varella. 200 Conforme os “ESTATUTOS DO CENTRO CÍVICO CRUZ E SOUZA”. segundo conversa informal com o diretor e pesquisador do Museu Thiago de Castro. foi alugado um prédio para sede do Centro Cívico Cruz e Souza e. 1931. Lages. 02. Maço 112 205 Cruz e Souza. 204 LAGES. 1931. com “s”. Lages. Foro da Comarca. 03. Lages. 05. 05 out. 01. 05 out. Inquérito Policial. 06 out. 22 set. 1998. 1919. Inquérito Policial. n. ver: Arthur Ramos (1956. 192 Conforme o jornal Cruz e Souza. para se referirem aos sócios daquele club. 22 set. em 1938. em uma das reformas ortográficas. n. 26 jun. 1918: “A diretoria esforçar-se-a de modo que as festas promovidas pelo Centro sejam realizadas na melhor ordem possível [. 197 Sobre a sociedade jornalística de homens negros. 05. 212 Conforme entrevista com: Ataide. Lages. E. Lages. 190 Ver: jornal O Planalto. n. 210 Cruz e Souza.

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. no estúdio da Letras Contemporâneas.Composto com a fonte Goudy Old Style. em Florianópolis. e impresso na gráfica Nova Letra. em Blumenau. em abril de 2010.

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