FRANK MARCON

VISIBILIDADE E RESISTÊNCIA NEGRA EM LAGES

com. www.letrascontemporaneas. projeto gráfico e editoração eletrônica Estúdio Letras Contemporâneas Ilustração da capa Cacimba da Santa Cruz. de Marino Malinverni. primeiros anos do século XX. by Frank Marcon Capa. Preparação de originais Fábio Brüggemann Conselho editorial Daniel Mayer Fábio Brüggemann Péricles Prade ISBN 978-85-7662-52-9 Todos os direitos reservados à LETRAS CONTEMPORÂNEAS OFICINA EDITORIAL LTDA.br .Copyright © 2010. Acervo família Malinverni.

.Para dona Basilícia. dona Marieta (Mulata) e seu Sebastião Ataide.

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“A mais estúpida mania dos brasileiros.] )”. Abre aí um jornaleco desses bonecos.. a mais estúpida e lorpa. quase pretos de tão pobres são tratados/ E não importa se os olhos do mundo inteiro/ Possam estar por um momento voltados para o largo/ Onde os escravos eram castigados/ E hoje um batuque. um batuque/ Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada/ E a grandeza épica de um povo em formação/ Nos atrai... Caetano Veloso e Gilberto Gil . e se você não for/ Pense no Haiti.” Lima Barreto “O fato de uma fonte não ser ‘objetiva’ – mas nem mesmo um inventário é ‘objetivo’ – não significa que seja inutilizável.. e logo das com os clichês muito negros. pobres e mulatos/ E quase brancos. o Haiti não é aqui [. nos deslumbra e estimula/ Não importa nada: nem o traço do sobrado/ Nem a lente do Fantástico.. nem o disco de Paul Simon/ Ninguém é cidadão/ Se você for ver a festa no Pelô. Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!.” Carlo Ginzburg “Quando você for convidado pra subir no adro/Da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados.. quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/ De ladrões mulatos e outros quase brancos/ Tratados como pretos/ Só pra mostrar aos outros quase pretos/ (Que são quase todos pretos)/ Como é que pretos. é a aristocracia. reze pelo Haiti/ O Haiti é aqui.

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................................................................Sumário Prólogo .......................................................................................................................... 123 Notas .................................................................................................................................................................................... 57 Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages ................. 15 Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade..................................................................... 25 Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas contra a “cor” inexistente .................................................................................................................................................................................................................................................................................... 91 Considerações Finais .................11 Introdução ......... visibilidade histórica ........... 139 9 .......................................................................................................127 Bibliografia ................................. 117 Anexos ...............................................................

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a partir de pesquisa realizada entre os anos de 1997 e 1999. Joana Maria Pedro e Maria Bernardete Ramos Flores. recorrendo ainda a entrevistas com alguns descendentes de africanos octogenários na cidade de Lages. Ilka Boaventura Leite. que enfrentavam o desafio de questionar os discursos historiográficos e sociológicos estabelecidos. por pesquisadores como Élio Cantalício Serpa. bem como a inspiração indiciária da “micro-história italiana” e a influência da semiótica na 11 . científica e documental sobre o estado de Santa Catarina. encontrando novas possibilidades de análise e novos sujeitos de pesquisa.Prólogo E ste livro foi escrito originalmente no ano 2000. A contribuição mais interessante daquele momento foi a desconstrução dos discursos sobre a invisibilidade de alguns grupos sociais e o estímulo às releituras críticas da produção ensaística. Tais referências. O principal argumento do trabalho surgiu a partir do contato com algumas publicações realizadas nos anos noventa. A maior parte foi feita nos arquivos judiciários de Lages e de Florianópolis. no acervo de jornais da Biblioteca do Estado de Santa Catarina. em forma de dissertação de mestrado.

para tal caso. aqueles que eram mencionados ou identificados de alguma forma como negros.“antropologia interpretativista norte-americana”. corrente entre alguns historiadores e cientistas sociais brasileiros. cruzamentos indiciários e análises densas dos textos narrativos dos depoimentos e testemunhos integrantes dos processos. que nortearam boa parte desta pesquisa. teve influências muito peculiares a partir da leitura do livro de Sidney Chalhoub. e a metodologia utilizada para tal fim. A existência e a disponibilidade desta documentação no Fórum de Lages e no Tribunal de Justiça de Santa Catarina foram fundamentais para que a pesquisa ganhasse corpus cronológico e temático adequados. as análises que realizamos. a linguagem jurídica utilizada e. que cobriu as décadas finais do século XIX e as décadas iniciais do século XX. tivemos outros desafios. associadas a técnicas de tabulação de dados. fossem eles réus. A utilização dos processos judiciais. a partir daí. e. inspiraram. libertos e livres no Rio de Janeiro. Diferente do recorte de Chalhoub. no século XIX. a estrutura dos documentos. vítimas ou testemunhas nos processos. a leitura detalhada dos documentos. sobre escravos. priorizamos o período pós-escravidão. naquele momento. como encontrar entre os atores dos processos judiciais. Os processos judiciais se mostraram com inúmeras possibilidades de análise e de prioridades interpretativas. Visões da Liberdade. 12 . mas algumas pareceram mais interessantes aos propósitos iniciais de demonstrar a presença negra na região. A pesquisa com os processos judiciais exigiu certa familiarização sobre os tramites processuais.

o leitor já deve imaginar que está diante de um livro com a característica peculiar das influências de um momento relevante de renovação do “olhar” sobre o tema da escravidão e da história das populações negras na Região Sul.As características dos processos crimes e dos inquéritos policiais exigiram ainda a utilização de teorias analíticas que dessem conta de uma peculiaridade importante destes documentos: os conflitos sociais recorrentes entre os envolvidos. professores e outros interessados. Diante de tais considerações. o que foi imprescindível para análise das tensões sociais que surgiam dos depoimentos dos réus. possibilitaram a análise sobre as conexões de uma ampla teia de relações e tensões sociais próprias da região. num contexto de teorias que revisavam o marxismo a partir da “história social”. sugerida por Heloísa Jochmins Reichel. bem como sobre o uso 13 . dos técnicos do judiciário e das testemunhas que participavam dos processos. Contradições de valores. A categoria “resistência”. Publicar este livro depois de dez anos é gratificante pelo desafio de ampliar à difusão de seu acesso entre pesquisadores. as preocupações e o contexto de uma dada época em que o texto foi originalmente escrito. estava em voga na época. das vítimas. muitas vezes permeados pela emergência de referências à “raça” ou à “cor” dos envolvidos. de comportamentos e de convicções sociais. imaginando que ele ainda tenha algo a contribuir sobre o tema das populações negras no Sul do Brasil. orientadora da pesquisa. Também poderá se deparar com algumas categorias de análise e um vocabulário que expressam em muito as orientações teóricas.

num contexto de amplo debate sobre políticas de ações afirmativas. no caso mais específico da pesquisa com processos judiciais. de inspiração por possibilidades de pesquisas interdisciplinares e. dos debates em torno da questão quilombola. neste caso. Além disto. principalmente. encontramo-nos em um momento importante de discussões teóricas sobre identidades. da necessidade ou não de cotas raciais nas universidades e. com as quais este livro pode contribuir direta ou indiretamente. Frank Marcon Aracaju.de algumas fontes e metodologias de pesquisa. principalmente aquelas sobre inclusão do conteúdo de História da África e Cultura AfroBrasileira nas escolas. entre outros. outono de 2010 14 .

e. mesmo que involuntariamente. a antropóloga Ilka Boaventura Leite (1996) e a historiadora Patrícia Freitas (1997) abordaram a “invisibilidade”2 e “insignificância”3 negra na historiografia. afirmam que: A invisibilidade tem sido. no artigo “Escravidão e preconceito em Santa Catarina: história e historiografia”1. literários e dos meios de comunicação que projetaram e projetam a imagem de um Estado catarinense branco e europeizado. As autoras. 233) A Além de Joana Maria Pedro (1996). portanto. Entre eles. denun15 .Introdução lguns trabalhos recentes de autores ligados à História e à Antropologia Social em Santa Catarina têm tratado da “invisibilidade negra” no Estado. Além da historiografia. mais uma forma de discriminação: a negação da existência e da memória. literária ou histórica sobre os descendentes de africanos. pelo viés da desconstrução dos discursos históricos. acaba-se acrescentando. Joana Maria Pedro e outros (1996). um pedaço da Europa no Sul do Brasil. desta forma. ao observarem elementos específicos da narrativa sociológica. mais um dos atributos pagos por populações de origem africana em Santa Catarina. (p. os meios de comunicação de massa vêm construindo uma imagem de loira catarina.

a historiografia sobre Lages – município localizado na área central de Santa Catarina – re- 16 .ciaram a “negação da existência e a negação da memória” em relação àquelas populações. No entanto. tradicionalmente. Estas relações seriam decorrentes sobretudo do modelo econômico implantado. 1996. foram: Heitor Blum4. Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni7. 40) Desde as primeiras décadas do século passado até os anos de 1980. inexpressiva ou insignificante e atribui a isto a ausência de um grande sistema escravista voltado para exportação. p. entre negros e a sociedade catarinense em geral8. o negro em Santa Catarina. Walter Piazza6. Osvaldo Cabral. sugere que em algumas áreas e em certos tipos de atividade. sempre usando como método de análise e discurso a comparação com outras regiões do Brasil. (Leite. os nomes mais expressivos que focalizaram. em algumas de suas produções. Renato Barbosa5. posteriormente. Segundo a antropóloga Ilka Boaventura Leite. em Santa Catarina. afirma que o negro teve e tem presença rara. Concentrando tal problema num espaço mais específico dentro do Estado. ainda. de sua reduzida importância histórica e. como ocorreu em outras regiões do Brasil. fundamentada a partir de uma análise do passado colonial. duas “especificidades” do tratamento historiográfico sobre a temática dos negros em todo o Sul do Brasil contribuíram para “invisibilizar” a sua presença nesta região: A primeira. eles confirmaram o discurso da insignificância numérica dos negros no Estado. existiram relações mais democráticas e igualitárias. A segunda. sugerindo que existiram relaões mais democráticas e igualitárias entre escravos e senhores ou.

mas argumentam pela sua “insignificância” numérica e produtiva.. Licurgo Costa (1997) . diz que “[. se consolidaram como insofismáveis. As conclusões. e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Ao trabalharem com o período escravista. não é argumento suficiente para associarmos que tais números correspondessem à toda a população negra da região. historiador da região de Lages. “espaços de saber autorizado”. pois é necessário reconhecer que houve um significativo número de descendentes de africanos livres ou libertos em 17 . (p.. de pecuária extensiva”.] em relação ao restante da Província de Santa Catarina. O historiador. em artigo escrito sobre “A escravidão numa área de pastoreio: os ‘Campos’ de Lages” . quanto para o senso comum local. como define Patrícia Freitas (1996)9. Lages não foi um município de grande população escrava”...produziu o mesmo discurso da “invisiblidade” e da “insignificância” negra em sua história.] uma das maiores evidências deste estudo é o pequeno número de escravos em relação à propriedade fundiária. vindas de historiadores que falam de um lugar como o Instituto Histórico. Walter Piazza (1990). 272). ao fazer uso de censos e matrículas de escravos. e considerando sua extensão territorial. O fato de a historiografia tradicional do Estado ter identificado um número menor de escravos em relação a outras províncias do período imperial. conclui que “[. ambos admitem a existência negra na história da região. 181). e também membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. tanto para os pesquisadores que os seguiram. (p.

Atualmente. era justificada pela reprodução de teorias científicas absorvidas da Europa. acrescentaram ao determinismo ra18 . Desde os últimos anos do século XIX.” (p.Santa Catarina. entre elas: o positivismo. a miscigenação11 da sociedade brasileira12 começou a ser pensada por grande parte da intelectualidade como alternativa possível ao branqueamento da população do país. Segundo Lilia Moritz Schwarcz (1995). um dos maiores desafios temáticos em relação à visibilidade negra é trabalhar com a história da população negra após a escravidão. a existência da população negra estigmatizada por ele. A necessidade de esquecer o passado escravocrata e. estas teorias eram assimiladas “por parte das elites intelectuais e políticas brasileiras trazendo a sensação de proximidade com o mundo europeu e de confiança na inevitabilidade do progresso e da civilização. como foi predominantemente focalizado por aqueles que estudaram o negro na região. o evolucionismo e o darwinismo-social10. o discurso da imprensa e de parte da intelectualidade daquela época orientava pelos interesses de uma elite branca e burguesa. apesar da referência à “cor” ter desaparecido dos registros estatísticos. Além disto. porque a população negra não sumiu instantaneamente com a abolição. Ao mesmo tempo. o reconhecimento da existência histórica dos descendentes de africanos não pode ficar restrito aos anos de escravismo. 34). tornando-se os veiculadores das ideias de progresso e civilização que ela absorvia do exterior.13 Com base nas teorias “racialistas” europeias. em 1888. da documentação oficial e da historiografia. por consequência.

a eliminação gradual da barbárie que o negro e o índio representavam. p. alegando que através da “mestiçagem” é que se construiria um “Brasil branco”. 25).” (Schwarcz.15 Promover a invisibilidade negra foi um dos suportes da “ideologia do branqueamento”. Para os teóricos da época. onde prevaleceria a vitória da “raça” branca superior.cial a crença “[. Segundo Thomas Skidmore (1989). de vez que as teorias racistas passaram a ser interpretadas pelos brasileiros como confirmação das suas idéias de que a raça superior – a branca –. assim. Segundo Lilia Schwarcz (1995).. Inserido em tal hierarquia. acabaria por prevalecer no processo de amalgamação. vinculando a capacidade intelectual e o posicionamento social dos indivíduos às características raciais do seu grupo. numa seleção natural e social que conduziria a um povo brasileiro branco num futuro não muito remoto. ocorreria uma miscigenação seletiva. (p. o “mestiço” passou a ser pensado como sendo antídoto ao veneno da degeneração. a hierarquia social14 existente no país. 1987. por sua vez. nas páginas da Revista do 19 . Silvio Romero escrevia. 63) Esse discurso racial determinista à brasileira legitimou. Durante o período alto do pensamento racial – 1880 a 1920 – a ideologia do ‘branqueamento’ ganhou foros de legitimidade científica. as previsões deterministas europeias de degeneração racial brasileira pela mistura das raças.. e principalmente. como prioridade para a nação atingir “foros de civilizada”. e um meio para a conquista de uma harmonia racial após a abolição. Contrariavam.] na desigualdade das raças humanas. através dele e do estímulo à entrada de imigrantes no país.16 A intelectualidade brasileira concluía.

em vez de lamentar a “barbárie do indígena e a inépcia do negro”. Lilia Schwarcz (1995): Tomando como suposto inicial que ao elemento branco cabia um papel fundamental no processo civilizatório. Em Lages. 20 . segundo Serpa (1995. em 1908. surgimento de sociedades recreativas privadas e a reformulação dos códigos de posturas e leis municipais em geral18. naquela época. 8). embelezamento da cidade.” A “ordem” para civilizar passaria pela prioridade de reordenação e disci-plinação do espaço público. 115) Foi também naquele mesmo período – dos últimos anos de escravidão às primeiras décadas da República – que se enfatizou a necessidade de consolidação de um processo “civilizador”17 e urbanizador da sociedade brasileira. sobre suas conclusões a esse respeito. melhor adaptado ao meio – que recaíam as esperanças do autor. porém compartilhada por grande maioria de seus pares. Assim. “o horizonte vislumbrado pelas elites locais foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus. que esteve empenhada em coagir as manifestações populares e em propagar um discurso de igualdade e mestiçagem racial que invisibilizasse e imiscuísse o negro numa massa popular única20. de novas edificações. p. (p. a característica dos primeiros trinta anos do período pós-escravista foi o prevalecimento de uma orientação ideológica19 e política. Diz. resumindo uma ideia polêmica na época. partia para soluções originais: estava na mestiçagem a saída ante a situação deteriorada do país e era sobre o mestiço – enquanto produto local. Romero. através da higienização.Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. corroborada pelos intelectuais brasileiros da época.

1985. a diferença ante uma suposta identidade nacional homogênea. da reformulação dos objetivos a serem alcançados para sua própria sobrevivência e a possibilidade aberta para a conquista de novos espaços sociais. Para o negro lageano. justamente em uma época em que se fortalecia. as formas de resistência articuladas por eles contra a dominação da elite branca. o Centro Cívico Cruz e Souza tornou-se o espaço específico onde o negro passou a exercer alguns aspectos de sua sociabilidade. manifestada através do discurso e de práticas civilizadoras da sociedade. A proposta deste livro é perceber a visibilidade histórica das populações de origem africana em Lages durante as primeiras décadas da República. no Brasil. Assim. em algumas de suas práticas cotidianas21. não significou apenas o direito jurídico à liberdade física. p. de renovação de suas manifestações e tradições culturais. a Lei Áurea. políticos ou econômicos. mas o momento de sua inserção no mercado de trabalho e de consumo. fundou-se o Centro Cívico Cruz e Souza – hoje com noventa anos – como um “clube para negros”..Para toda a população brasileira.. 22). 21 .” (Ortiz. principalmente a de origem africana. assinada em 1888.] o espírito nacionalista que procura se desvencilhar das teorias raciais e ambientais características do início da República Velha. outro marco referencial de sua história foi ano de 1918. que o incluía no discurso e o excluía ao exercício prático da cidadania. Naquele ano. além da abolição. representou um marco histórico. observando. “[. reconhecendo a sua ascendência africana e escrava e. Para os negros. portanto.

Entendemos aqui “cultura”. formas manifestas de manutenção ou exercício de tradições e usos habituais que caracterizam as ações de um grupo social como resistência contra a dominação. 22 .] (p.. 1992). Dessan. capaz ainda de transformar-se de acordo com suas relações sociais. sempre que os interesses em defesa de seus costumes são confrontados. Thompson (Apud. para encontrarmos respostas aos problemas da visibilidade e da resistência negra em relação ao projeto civilizador. a serviço dos próprios interesses do “popular”. São estas ações que ajudarão a tirar as populações negras da invisibilidade [. Aqui. a cultura dos descendentes de africanos – inseridos na heterogênea camada de populares – nos mais diversos contextos do seu cotidiano. não de forma fragmentada. Observar a construção de diferenciadas formas de resistência articuladas nos embates do cotidiano. É necessário investigarmos os “costumes”. A padronização das formas de agir e se comportar de um determinado grupo..Tal objetivo tem por inspiração a seguinte reflexão de Joana Maria Pedro (1996): Historicizar a criação de instituições e espaços de sociabilidade. mas sim como costume. 244) Para E. apontamos a “cultura popular” como “defesa” contra o exercício de dominação por parte de outros grupos sociais. As manifestações cotidianas de um grupo social inserido num contexto de relações com outros grupos sociais se chocam. o identificam culturalmente. que possa distrair-nos a atenção das existentes contradições sociais. P. Perceber a ressignificação de valores ditos “brancos”. um grupo social só adquire existência ao longo do processo de luta que o leva à gradual aquisição de identidade cultural e política.

sobre o combate dessa elite em relação às manifestações culturais tradicionais. 1996. embora sofrendo ingerências de políticas e práticas segregacionistas.Segundo a análise que o historiador Élio Serpa (1996) faz sobre Lages. combatidas por uma “elite burguesa e branca”22. renovaram-se as formas de dominação sobre os descendentes africanos. surgiram processos de luta no interior do 23 . p. passaram a ser consideradas como sinônimo da “não civilização” e. ( p. antes marcada pela escravidão negra. elas subsistiram em meio à discriminações e até porque a existência de grande quantidade de descendentes de africanos denunciava que estas expressões culturais ainda estavam presentes na própria permanência destes no convívio social. analisou o “significado de liberdade forjado pelos negros durante a experiência escravista” e concluiu que. Manifestações culturais. por exemplo. portanto. em A reformulação das condutas e das sociabilidade durante a Primeira República: O horizonte vislumbrado pelas elites foi o de civilizar o povo a partir dos paradigmas europeus. Porém. além de outras que destoassem do exemplo de “civilização” europeia. (Serpa. 15) Com o processo de abolição e implantação da República. enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural. tradicionais e populares. 17) Sidney Chalhoub (1990). criando novas formas de sociabilidades que denotassem mudanças de hábitos culturais considerados rústicos e obsoletos. em seu estudo sobre o fim da instituição escrava no Brasil. através de processos judiciais. Élio Serpa (1996) diz o seguinte: Isto não quer dizer que estes tipos de manifestações deixaram de ser cultivadas. através das diversas visões e manifestações de liberdade.

Apud: Chalhoub. 25). inseridos na camada popular. cabe a análise de como se cultivaram ou transformaram as manifestações de resistência negra. diante das formas de dominação exercidas contra os descendentes de africanos. aliadas aos conceitos eurocêntricos de civilização. 24 . 1990. Atentando para a afirmação acima. Desconstruir as noções de invisibilidade e de “inexistência teórica” é necessário para demonstrar como o discurso das elites mascarou a presença negra.cativeiro que revelam a atuante participação do negro no processo de extinção da escravidão. do período que vai da Abolição da Escravatura até a fundação do Centro Cívico Cruz e Souza. em Lages. p. Reconhecer e evidenciar a existência de uma “hegemonia de classe” não implica necessariamente a esterilização das lutas e das transformações sociais ou vigência de um consenso paralisante (Thompson. na tentativa de construção de identidades regionais e nacionais.

desde sua fundação como vila. foi comumente assimilada como insignificante e justificada. Além deste fator. pelos números apresentados por pesquisadores que tradicionalmente estudaram a temática da escravidão na região. Matheus Junqueiro23 A questão quantitativa dos descendentes de africanos. Fazendeiros e suas famílias. social e político de todo o Planalto Serrano catarinense. tornou-se o núcleo econômico. visibilidade histórica “Babaô tera de Congo. Não Padece mais trabaio”. Não se toma mais rovado. Foi varido cativero Na Tera de Bendengó. em Lages. Não guenta mais vregaio. foi mais harmônico e afável do que em outras regiões do Brasil escravista.Capítulo 1 O negro lageano no campo e na cidade. Visibilidade negra durante o período escravista Lages. escravos negros. bugres gentios e escravizados. a historiografia local afirmou que o relacionamento entre senhores e os “poucos escravos” que aqui existiram. por Antônio Correia Pinto de Macedo. e uma camada popular de homens livres de diversos matizes compuseram o mapa 25 . em 177124. como tal. Negro agora anda contente. Tudo fica um gente só.

sargento-mor comandante. Em 1801. aleatoriamente foram identificados como agregados ou como proprietários de um minguado número de itens de subsistência.17% da população como “não branca”. dos quais 10. totalizava uma população de 14. Em tal listagem. dos restantes 89. Lages “contava com 218 brancos livres. realizado em 1798.24%. que também classificou os habitantes através da categoria “cor”. quando “livres”. percentuais que. outras vezes como brancos. 1. Pardo e Branco25.demográfico da região.1 % de habitantes livres.585 pessoas – classificados segundo a “cor” 28 entre negros e pardos29. O número de pardos e pretos livres era três vezes maior do que o número de escravos e. Em levantamento da população da vila. a população era de 715 pessoas.98% e os caboclos 3. 1990. contra 380 pessoas formadas por pretos livres e mulatos escravos” (Serpa.05%. os pardos somavam 28. os pretos 2. nomeando-os como: Negro. sendo 136 escravas. no ano de 1872. p. algumas vezes classificados como pardos. representavam um total de 45. No entanto. Campos Novos. 60). assinada por João Damasceno de Córdova.9 % eram escravos – ou seja.549 habitantes. Curitibanos e São Joaquim27. Na denominação “escravos” foram arrolados também alguns poucos “gentios” 26 . Mais de meio século depois do último levantamento demográfico apontado acima. compreendidas as freguesias de Lages. Baguaes. a região do Planalto Serrano catarinense. segundo a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. adicionados ao de escravos. somadas as 26 . foi levantado um número considerável de pardos e negros que. por ocasião do primeiro “Recenseamento Geral do Brasil”.

entre homens e mulheres. africanos. 495 foram definidos pela atividade de “lavradores”. As condições da população de descendentes de africanos que compunha o quadro demográfico da região durante o século XIX eram as mais diversas. Porém.duas categorias sociais. ou eram crioulos. É importante salientar. mesmo quando o era. a historiografia tradicional potencializou a “invisibilidade” negra na região. um grande entusiasta das lides do campo. Por exemplo. não estava necessariamente empregado nas lides pastoris. poderiam estar entre libertos. pois muitos deles trabalhavam na agricultura e em outras atividades domésticas. levantando vários números30 sobre a população escrava de Lages. ou eram de nação. livres ou escravos. dos 1.] negro não ter sido. que um número significativo de descendentes de africanos em Lages não era escravo e. contribuiu para invisibilizá-la.. eram pardos. mulatos ou pretos. representavam quase metade dos habitantes do Planalto Serrano. Quanto à naturalidade. Analisando o censo de 187232. Esse aspecto do discurso de Licurgo. 181).” (Costa.585 escravos. Quanto à classificação social. porém. observamos que. o historiador Licurgo Costa (1982). p. 605 foram descritos como “sem profissão”. concluiu que o motivo pelo qual a região não apresentou um índice expressivo de população escrava foi o fato de este ser um centro quase que exclusivamente de atividades pastoris e o “[. nascidos no Brasil. 377 em “serviço doméstico” e ou27 . Quanto à “cor”. 1982. insinuando que o número da população negra na região esteve diretamente relacionado com o número da população escrava31.. nunca.

constatamos também que os negros e pardos livres se empregavam como jornaleiros e agregados. de um total de 736 escravos matriculados. ora nos serviços do campo.927 escravos.36 Como agregados. há pouco menos de um ano do “13 de Maio de 1888”. pela estatística oficial. sem ofício definido. Portanto. operários. Segundo “Relatório apresentado pelo presidente da província dr. a região de Lages detinha 18 escravos em domicílio urbano e 708 em domicílio rural. No caso dos jornaleiros. artesãos ou lavradores. inclusive. através da matrícula. por exemplo. prestavam serviços como feitores.tros 88 distribuídos em diversas atividades. em outubro de 1887”34.33 O fato de 377 escravas ou escravos trabalharem em serviços domésticos não significava que residissem na área urbana. em ocupações outras que demandassem maior esforço físico. acusando a realização de um levantamento do número de escravos existentes em Santa Catarina. como a construção de casas e o levante de taipas. naquele momento. com atividades como o pastoreio do gado.94% daquele total. estabeleciam-se com suas famílias na pro28 . às vezes se tornando. pequenos proprietários. e a população escrava da região de Lages representava 14. em toda a província de Santa Catarina somavam-se 4. Entre aqueles descritos como “sem profissão”. exerciam atividades variadas. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial. ou. o rocio e a produção de alimentos. vendendo sua mão-de-obra a algum “homem de posses” da região. tropeiros. campeiros. Com o auxílio de outras fontes documentais35. então. ora exercendo trabalhos domésticos variados.

Frequentemente. Sobre a sociedade patriarcal no Brasil. “índios mansos” e a prole do fazendeiro estavam sujeitos ao seu poder pátrio. ou mulatos38. agregados.priedade de algum criador. Até mesmo os pequenos proprietários acabavam por submeter-se à autoridade de um ou outro grande fazendeiro. criando uma massa subalterna. com ele. como também entre pequenos proprietários brancos e negros. proprietários de pequenas casas comerciais ou botequins. dilatam o círculo familiar e. Escravos. diz Sérgio Buarque de Holanda (1997): Os escravos das plantações e das casas. de onde tiravam o seu sustento em troca do trabalho realizado. a auto- 29 . jornaleiros. onde o grande proprietário latifundiário concentrava todos os poderes temporais e religiosos em suas mãos. com suas pequenas fainas agrícolas ou outras atividades urbanas37. e não somente os escravos. No que se refere aos que se tornavam pequenos proprietários. estes eram responsáveis pelo próprio sustento. composta de escravos. baseado na tradição das sociedades que se desenvolveram distantes dos poderes centrais. A sociedade tradicional escravocrata em Lages Naqueles anos do século XIX. havia uniões conjugais entre escravos negros e agregados pardos ou brancos. predominava nas relações sociais o patriarcalismo nuclear e hierárquico. vagabundos e pequenos proprietários com diversos matizes. como. como os agregados. Esta era uma característica do período escravista em todo o Brasil. agregados. fazendeiro ou negociante. por exemplo.

pela tradição se construíram mecanismos para ludibriar e reverter a ordem estabelecida. mas não significa que dentro desta concepção de sociedade não houvesse mobilidade social ou. (p. ao verificar os serviços de que encarregara seu escravo – “o de fazer uma irra para trilhar trigo” –. em que a própria “família”. o escravo José. na manhã do dia 7 de fevereiro de 187940. em resposta. Porém. José Madruga de Córdova Primo. no dia 23 de maio de 1879. também. Testemunharam o fato a escrava Rita. se acha estreitamente vinculada à idéia de escravidão. Maria Rosário Pereira.ridade imensa do pater-famílias. imediatamente puxou de um facão e deu-lhe até a morte. até mesmo. derivada de “famulus”. 81) A historiografia recente demonstra que essa relação hierárquica e vertical entre dominados e dominadores não representou uma total submissão do primeiro para com o segundo. de 17 anos. O promotor público de Lages. os “liberi”. teve motivos para repreendê-lo. natu30 .39 A ordem social era definida por contextos hierárquicos específicos. Os limites da relação entre senhores e subjugados eram estabelecidos pela tradição da arbitrariedade do primeiro para com o segundo. de 78 anos. e Leonardo. Segundo a promotoria. “pardo escuro”. Esse núcleo bem característico em tudo se comporta como seu modelo da Antigüidade. e o que fez com empurrões. José Madruga. inteiramente subordinado ao patriarca. de assassinato de seu senhor. natural de Lages. fugindo após roubar-lhes alguns objetos. A autoridade exercida pelo senhor legitimava-se através da violência ou da sua ameaça. o escravo Plácido. que fosse impossível resistir a ela. denunciou o “ex-escravo” Plácido. e em que mesmo os filhos são apenas os membros livres do vasto corpo.

por motivo de furto. com o intuito de desgastar a imagem de seu senhor. em sua concepção. a ponto de reconhecer. o réu relatou com detalhes como assassinou José Madruga. Nenhuma das testemunhas interferiu. além da invisibilidade numérica. profissão campeiro. carpinteiro. Capturado e inquirido. Naquela ocasião. Plácido. há muito suportando os maus tratos e castigos de seu proprietário. José Madruga. dizendo não ter medo das consequências. limitando-se a chamar ajuda. Em Lages. anteriormente. pois era maltratado com castigos e passava fome. e não estava apenas ligada a um fato isolado.ral dos EUA. finalmente afirmando. em outro processo-crime. na casa de negócios de Miguel Francisco Melo. Plácido envolvera-se. como no estado de Santa Catarina. para que este o vendesse. conforme denunciado pela promotoria. A situação conflituosa entre Plácido e Madruga já vinha de alguns anos antes da tragédia da manhã de 7 de fevereiro de 1879. pois. como se estivesse no seu direito de reagir àquele tipo de condição. O réu. não se importando com as possíveis consequências de seu julgamento. “que não desejava mais servir a tal senhor”. em seus depoimentos. injustamente tratado. disse que confessara um roubo que não cometera. conhecido como “alemão”. que agira motivado pela contestação da maneira pela qual era. outro tipo de representação que se construiu foi a de uma escravidão que teria sido 31 . alegava que José Madruga era mau para com ele e não lhe dava dia para trabalhar. voltouse contra a autoridade hierárquica. O réu acabou condenado à pena de morte pelo juiz Cândido Alves Duarte de Lima. no ano de 187541.

inquérito de corpo delito da vítima escrava Verônica. afirmam que “[. do senhor Francisco Borges do Amaral e Castro. pelo juiz municipal Henrique Ribeiro de Córdova. vinha sendo espancada. 1996). por dois escravos de seu senhor. com mais de 70 anos. sem poder prestar serviços ao seu senhor e.. observamos as manifestações de conflito e violência entre senhores e escravos. até que veio a falecer. Historiadores como Licurgo Costa (1997). por suas características mais dóceis. Branco por espancamento de seu escravo de nome Luis. originados pelos mais diversos motivos. sempre foi benigna. a promotoria pública denunciou o proprietário João O.diferente em relação a outras regiões do Brasil42. que. foi aberto. Em 9 de abril de 188445. proprietários da quase totalidade deles. Alguns processos crimes demonstraram que as relações entre senhores e escravos não foram afáveis e tampouco humanitárias. determinadas pelo tipo de produção econômica e relações sociais existentes (Leite. de 26 de abril de 187944. Através de processos criminais. No dia 15 de junho de 186743. inquéritos policiais ou processos cíveis de liberdade referentes ao período escravista. vários são os exemplos em que foi possível verificarmos o contrário.. por esse motivo.” No entanto. há tempos encontrava-se doente. por assassinato de sua escrava Mariana. o senhor Antônio Joaquim da Silva Júnior foi acusado pelo bacharel Braulio Colônia.] o tratamento dado aos escravos pelos fazendeiros. Em outro processo. humana e afável. como denúncia de que a escrava fora cruelmente açoitada a cordas de couro cru. 32 . contradizendo o que se tornou senso-comum no discurso historiográfico sobre a escravidão e o negro na região.

através de seus curadores.. porque este não lhe permitia o trabalho aos domingos e dias santos. em 1884. a procurar a justiça foram. Na ordem social escravocrata brasileira. o fantasma das relações conflituosas entre senhores e escravos rondava a vida comum de toda a sociedade. para o ajuntamento de pecúlio 48.Conflitos jurídicos de outra ordem. para reafirmar escalas hierárquicas em que se pressupunha 33 . pedia a liberdade. requeria sua liberdade. por viver há 6 anos em completo abandono pelos seus senhores herdeiros51. algumas situações que levaram os escravos. Adão. declarava que já havia sido dada como livre pelos seus patrões e que estes ainda a mantinham em cativeiro49. em 1885.46 Em Lages. em 1885. de José Manoel Oliveira Branco. de Venâncio Antunes de Moraes. a parda Margarida. escrava do capitão José Antunes Lima. estão registrados nas Ações Cíveis de Liberdade. denunciando a crueldade e os maus tratos de seu senhor. a todos que o rodeavam.. “a fim de evitar os maus tratos de seu senhor [. preto. Muitas dessas ações eram originadas por motivos diversos. o escravo Manoel. entre escravos e senhores. O autoritarismo hierárquico dos grandes proprietários se estendia para além dos seus cativos. escravo do senhor Ramiro Pereira de Andrade. em 1883. inclusive aos trabalhadores livres52 ocasionalmente contratados. os seguintes: o escravo João. A violência era uma instituição comumente praticada em todos os meios. em que os cativos se julgavam tratados “injustamente” por seus senhores.]”50. dizendo dispor a quantia de 200$000 réis. entre as diversas ações de liberdade47 impetradas na década de oitenta do século XIX. pedia liberdade.

por ter aquele agredido o filho deste. O fato se deu no dia 16 de outubro. vez por outra. um carcereiro e escravos confirmaram 34 . que o pariu”. no entanto. tendo demorado um pouco. eram rompidas espontaneamente. seu contratante. Agregados. Entre os trabalhadores livres que contestavam tal ordem. e se não quizesse fosse a put. Pouco depois. o filho do coronel enviou ao dito Gregório. através de um escravo de nome Honorato. jornaleiros e membros da família senhorial também desenvolveram práticas de resistência e mobilidade àquela prática social. indo buscar suas coisas. constantes no corpo delito do processo. Entre as testemunhas. Vidal Ribeiro. chegando à obra. fazendo-lhe os ferimentos. outros pedreiros. Gregório deliberou a retirar-se da obra.. ofendido. empregado na construção da casa do tenente coronel Manoel Ribeiro da Silva. do que este se defendeu.um respeito a graus superiores de tais escalas que. a presença negra. ele e Vidal Ribeiro trocaram desagravos. onde a hierarquia tradicional era geralmente contestada. Mas não apenas os escravos encontraram suas formas de subversão à ordem patriarcal. identificamos. Assim sendo. tentando Vidal acertar com sua bengala o denunciado. peões. Gregório Evaristo de Almeida. ainda. derrubando-o em um buraco de amassar barro. pelo motivo de ter o denunciado se retirado da obra para ir jantar em sua casa e. No dia 20 de outubro de 188353. o seguinte recado: “que se quizesse ir trabalhar fosse depressa. Na grande maioria dos casos. o pano de fundo dos processos citados foram as relações de trabalho e de autoridade entre senhores e escravos.. a promotoria pública denunciou o operário pedreiro.

principalmente. Segundo. certidões de nascimento. defendendo-se. o estigma da inferioridade social e. a ordem hierárquica foi rompida em dois momentos. quando Vidal soube de tal atitude. estatísticas. censos. Hebe Mattos (1998) explica as razões. ao que o “negro”. derrubou-o. por exemplo. pela “cor”. deixaram de ser referidas. em dois atos. nenhum documento oficial como. Primeiro. A ideia que perpassava por esse discurso de omissão era de que o Brasil se confirmasse como um país de mestiços e progressivamente passasse por um processo de branqueamento. Entretanto. tentando agredi-lo. ou até mesmo aproximado. Negro é barbárie. a partir de meados do século XIX e. “Após a Abolição. o pressuposto da servidão pacífica. gradativamente as diferenças quanto à “cor”. por causa das ofensas verbais recomendadas por Vidal. rompeu um elo da tradição hierárquica e pessoal que o tratou indignamente. Segundo ela: 35 . nos textos e no discurso da elite. com ela. insistindo em sua condição de homem livre. da população pela “cor”. inclusive o de ter-lhe dito: “ – você não quer trabalhar porque é um negro ordinário. permite um levantamento exato. O pedreiro Gregório carregava. considerou-a uma insolência à sua autoridade e foi ao encontro de Gregório. após a Abolição da Escravatura. na atitude rebelde de cunho moral de Gregório ao retirar-se deliberadamente da obra. A partir da abolição até a década de vinte do século passado.os insultos de Vidal ao réu. um filho da puta”. No caso acima. casamento e óbito. branco é civilidade” Com a progressiva miscigenação.

Esta é uma dificuldade geral nas pesquisas sobre a experiência histórica pós-emancipação nas Américas. que utilizando os processos criminais como fontes. quanto ao problema de identificar ou visibilizar o negro. Processos cíveis e criminais. torna-se bastante mais difícil encontrá-los nas fontes de época. onde citar a cor era legalmente obrigatório. a “cor” de alguns dos indivíduos envolvidos55. Primeiro. (p. não apenas pela inexistência de práticas legais. é especialmente acentuada. registros de batismo. Podemos completar o pensamento de Hebe Mattos.. não fazem menção da cor e. Segundo. Por outro lado. de se discriminar a cor de homens e mulheres livres nos registros históricos disponíveis. entretanto. de negros e mestiços livres. em alguns casos. que além das fontes documentais citadas por ela. em muitos casos ela se faz ausente. que se faz notar desde meados do século XIX. mesmo nos registros civis. absorver o imigrante europeu. foi a fórmula encontrada na tentativa de acelerar a 36 . casamento e óbito. no que se refere às primeiras décadas do período pósabolicionista.. antes mesmo da abolição.[. nas antigas sociedades escravistas. tornou-se preocupação da elite brasileira não só esquecer o passado monárquico. mas pelo desaparecimento. e mesmo majoritária. como também a africanidade e a indianidade que representavam a velha ordem e os maus costumes da sociedade brasileira. a civilidade e o progresso que eles representavam. No Brasil. foi possível identificar. através da leitura minuciosa de todo o conteúdo dos processos. Com advento da República.] desde que os libertos deixam de ter um estatuto jurídico específico. na maioria dos casos. baseadas em distinções de cor e raça ou pela presença demograficamente expressiva. escravocrata. com duas considerações. 19). instituídos em 1888. também as fontes estatísticas conhecidas sobre o período54 silenciam quanto a informações em relação à “cor” dos indivíduos.

59 37 . Cientistas.” (Schwarcz.. onde os brancos ocupavam o topo e os negros a base de uma dada estrutura evolucionista da humanidade. evolucionistas e darwinistas gestadas na Europa.. a partir daí. por sua vez. p. Observadores auctorizados58 assignalam a extensão da mestiçagem brazileira. estabeleciam uma hierarquia entre as raças. dizia o seguinte sobre o “problema negro”57: [. não foi diferente. políticos e literatos brasileiros definiram. no Brasil. intelectualmente inferiores perante “outros tipos raciais que compunham a população brasileira. que fundamentavam o chamado determinismo racial56 e. concorrendo mutuamente para transformação ou substituição. 1987. no entanto. Nos Estados Unidos um abysmo separa fundamentalmente as duas raças.] No Brazil. Aqui as raças como que amplexam-se. especificamente. hábitos. Em Lages. acabaram concebendo a ideia de um país em processo de branqueamento e em harmonia racial sem. Assim. afastar-se do princípio básico do “racialismo” europeu que hierarquizava as raças. do dia 27 de setembro de 1903. 22).transformação dos tradicionais costumes populares e apressar o desejo de “branqueamento” vislumbrado pela elite. que apressa a eliminação certa da raça de cor. O jornal O Imparcial. as diversas discussões e divergências que se seguiram sobre a temática. os índios e os mestiços do país como possuidores de atributos físicos e morais negativos. os negros puros vão sendo substituídos pelos mestiços. Aproximadamente nos anos setenta do século XIX. Os negros pelas crenças. exactamente o contrário do que se nota nos Estados Unidos. e princípios deixam-se absorver naturalmente. a intelectualidade brasileira passa a absorver as ideologias positivistas. os negros.

a isto. considerados rústicos e obsoletos. associando. p.Segundo os jornais dos primeiros anos da República. no entanto.] enraizados numa população marcada pela heterogeneidade étnica e cultural [. em um fragmento de artigo do jornal O Imparcial. no entanto. de 3 de outubro de 1903. objetivavam reformulações dos hábitos culturais das classes populares. hábitos e costumes. a evolução de sua moralidade. relacionando as características culturais de tal passado como causadoras de um “problema” característico de seu presente. sim. [. 38 . o indiano indolente que dorme à sombra das palmeiras. e. ressaltando o branqueamento fenóptico da população negra do Brasil. que possibilitaria eliminar os “negros puros”. de envolta com o africano superticioso que espreita nos symbolos e fetiches a ‘buena dicha’ do porvir.. como popular. Observamos ainda que o articulista do jornal usou a comparação com os Estados Unidos. também. seguia “naturalmente” seu curso no país.60 Neste caso.. Poucos foram. o articulista alertava “explicitamente”: Fomos e somos sempre o escravocrata ocioso. que. os discursos jornalísticos sobre o tema não eram marcadamente de caráter “racialista” discriminatório. os artigos de jornais que explicitavam a crença na degeneração do negro e do índio. exaltando positivamente o aspecto da “mestiçagem brasileira”. Sem ser explicitamente racista.]” (Serpa. 1996.. 15).] precisamos de reforma dos costumes.... o projeto de mestiçagem brasileira. o autor adjetivou negativamente o passado escravocrata e a composição étnica do país. o atraso em relação à modernidade e à civilização almejadas. era considerada de forma homogênea. porém. Estes se encontravam “[. Em grande parte.

Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior”. pela Lei n. disse o major.. No “relatório apresentado ao Conselho Municipal de Lages.61 Assim como em outras regiões do país.]”62 dizia a “sinopse da administração do Estado de 1910-14. da urbanidade e da civilidade vindoura. dedica-se de preferência.Pobres. por aforamento.42 de 05 de janeiro do anno passado. apresentada pelo governador Vidal José de Oliveira Ramos. Cumpre. porém. começa a affluir para o nosso Município. por outro lado. em sua maioria..]. O nosso povo. em 01 de janeiro de 1899. e o brasileiro à incapacidade produtiva. que dessa nascente immigração deve resultar para a nossa terra [... [. pelo prazo máximo de cem annos [. não desanimar. 39 ... sobre a colonização que afluía para o município: No intuito de attrair a immigração expontânea que. Enquanto isso.]. é pouco inclinado à agricultura.. procedente dos núcleos coloniaes allemães e italianos do Estado. o Brazil só na immigração terá factor essencial ao seu progresso econômico. de modo animador. o imigrante europeu era visto como a renovação dos costumes. attentas as grandes vantagens. o estado de Santa Catarina sempre associou a imigração à perspectiva de desenvolvimento. sinônimo do progresso econômico. “Paiz novo e despovoado. ao presidente do Congresso Representativo de Santa Catarina”. embora também menos lucrativas [. à industria pastoril ou ao pequeno comércio. a conceder lotes suburbanos. representantes da velha ordem escravista e monárquica de um Brasil que se pretendia esquecer. negros e mestiços eram estigmatizados como responsáveis pelo atraso do país. profissões sem dúvida menos trabalhosas.. pelo superintendente.]. a Superintendência Municipal foi auctorisada.

Generoso Miguel Valente e Carlos Müller. quando os outros acusados também o atacaram.] Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha e que não respeita os outros. Miguel Bernardo. João Naschenveng. negociante. na localidade de Índios 64. logo em seguida. O dono da casa de negócios. norteava as práticas de relações sociais do Brasil. que respondendo não ter palha. pois “[. mas Miguel Bernardo é dado [à] embriagues. 39 anos. em seguida deu-lhe uma bofetada que ele respondente desviou com o braço. mascarada e discriminatória propagada pelos dirigentes e pela intelectualidade do país. disse que.Esta mentalidade “racialista”. 29 anos. inquirido no processo. natural da Áustria. João Cruz Júnior.. disse que viu a discussão entre os envolvidos e mandou que Miguel se retirasse. sempre tinha mantido boas relações com os acusados. que Damaso de tal levou a mão ao cabo do facão desembainhando-o e ele respondente correu para a rua [. No sábado de Aleluia do mês de abril de 191263. e os réus João Pereira. servindo como testemunha. na casa de negócios de João Naschenveng.. a vítima.] boa índole [e] trabalhadores.. Damaso de tal atirou-lhe aos olhos o fumo e. natural do Rio Grande do Sul. suscitou-se uma dúvida entre Miguel Joaquim Bernardo.. palha para o cigarro. 45 anos. jornaleiro. Damaso de tal. antes do acontecido. como atestam os depoimentos constantes no processo crime abaixo. no nosso caso específico de Lages..]”.. desordeiro [e] 40 . disse que os réus eram de “[. natural e residente na comarca de Lages.” Outra testemunha. e que tinha sido agredido porque “Damaso de tal pediu a ele respondente o seu fumo e pediu também.

p. de que “Miguel Bernardo é um negro muito sem vergonha dado à embriaguez. desordeiro e metido a machão”. a imoralidade e a inépcia econômica do sistema escravista em si. Os testemunhos de João Cruz Júnior. a mancha da inferioridade do sangue negro presente nas veias de quase todo brasileiro. à branquidade. Enquanto isso. o seu oposto. indígenas e brancos pobres. a “cor” continuou sendo o símbolo da inferiori41 . ainda. com a adoção de uma política imigrantista e a consequente perspectiva de branqueamento.65 Os fragmentos do processo citado acima servem para demonstrar como o senso-comum associou certos valores morais. como a dedicação ao trabalho e a boa índole. a presença destas representações no imaginário coletivo66 da sociedade de Lages. e. estigmatizaram o Brasil escravista e monárquico como sinônimo de atraso ante dois argumentos: em primeiro lugar. Tais conceitos foram corroborados. Mesmo que os discursos acima já não fossem mais necessários com o fim do escravismo. Carlos Augusto Amaral e Desidério Daboit demonstramnos. 241) àqueles indivíduos egressos do sistema escravista – negros.metido a machão”. segundo. como nos depoimentos citados. Os debates quanto à transição do trabalho escravo para o livre e sobre o destino racial do país. a negritude. igualmente. foi relacionada à desordem e à indolência. travados nos meios políticos e intelectuais desde meados do século XIX. Ambos os argumentos produziram um imaginário estigmatizante (Azevedo. 1987. pelos testemunhos de Carlos Augusto do Amaral e do italiano Desidério Daboit. que o sistema escravista tinha semeado. pardos.

Lages – através do comércio que faziam os viajantes que partiam ou chegavam à cidade e de determinado grupo da elite que enviava seus filhos a São Paulo. Mesmo isolada no ermo planalto catarinense.. Principalmente quando de cor [. da liberdade. sujos e malvados [. afastada dos grandes centros68. do trabalho disciplinado. Trabalho e civilização X tradição Esta fúria de embelezamento. p. era visto como o alvo imaginário das ambições civilizadoras. da síntese do progresso. (Pesavento. conforto. enfim. tanto sob o aspecto cultural quanto racial. do desenvolvimento. o crescimento econômico da elite e sua projeção na política estadual. higiene e segurança que. implícitos na renovação urbana. o imigrante europeu. 1994. p. tanto expressava um ideal de civilização quanto aos interesses burgueses.. indisciplinado. foram definitivos para as transformações sociais. 67 42 . 1996. estéticos. econômicas e culturais que passaram a ocorrer a partir dos últimos anos do século XIX. com aspecto e comportamento não recomendável. representado como o portador da boa-nova. tinha o seu complemento na estruturação de uma imagem do pobre como perigoso.. urbanos. higiênicos.. 140) Fatores como a chegada da imprensa à cidade. Porto Alegre e Florianópolis para terem sua formação escolar – entrava em contato com os novos padrões morais das condutas ditas civilizadas (Serpa.dade. 20). Enquanto isso. Feios. São Leopoldo. Os padrões liberais econômicos.]. da inépcia e da velha ordem do país. de sociabilidade e racionalidade científica eram espelhados nos padrões culturais europeus e vistos como transformações prioritárias para a conquista do progresso e da civilização. em 1883 .].

a moral idealizada pela mesma. O jornal Cruzeiro do Sul. como um dos principais instrumentos na defesa dos interesses da elite70. em suas páginas. caboclos e descendentes de africanos em geral formavam essa classe de populares e tinham suas manifestações cotidianas associadas à barbárie. a partir de meados do século XIX. em 25 de junho de 1902. Lages foi impulsionada a seguir a lógica da civilização69. combatiam as de caráter popular e tornavam-se o órgão difusor oficial de um “discurso civilizador” para a sociedade. resistia uma moral da “desordem” nas manifestações do cotidiano das classes populares.Como em praticamente todas as cidades brasileiras. como maus costumes e imoralidades. Segundo o jornal Cruzeiro do Sul. os mesmos jornais definiam. a prostituição e os bailes populares – também chamados “sambas” ou “fandangos” –. afetando a moral e os significados das práticas cotidianas populares existentes. a vagabundagem. Por outro lado. publicado em Lages nos idos de 1904: 43 . ao noticiarem os melhoramentos urbanos73 e as novas práticas sociais da elite. a mesma imprensa registrava que. em artigo intitulado “O Jornalismo”. No entanto. ao projetarem. dizia: O jornalismo que dia a dia se espalha cada vez mais em todo mundo é por sem dúvida um dos agentes principais do progresso e de civilização moderna.71 Os próprios jornais se pronunciavam como porta-vozes de tal discurso72. Os jornais. Brancos pobres. os roubos de gado. associando-as à civilidade. em oposição à “ordem”. aos maus costumes e à ociosidade. a prática do curandeirismo. a jogatina. em seus artigos. à civilidade e à urbanidade apregoadas pelas elites.

teriam que ser reeducados numa nova ética de trabalho. foi possível identificarmos a invisibilidade étnica. 105) Além de exaltar o trabalho como valor moral positivo e construir as expectativas acima sobre ele.. que os transformaria em trabalhadores disciplinados. A construção da imagem de ‘bom trabalhador’ [. eram adjetivadas como “bacanais”. p. em oposição aos desclassificados. responsabilidade. ainda. para se diferenciar das práticas populares e tradicionais vigen44 . apresentando como se pretendia instituir novos valores à sociedade: Os trabalhadores libertos. Festas noturnas. a imprensa. Sidney Chalhoub (1985) analisou a transição do trabalho escravo para o trabalho livre no Brasil. todas as cores .. mascarada pela homogeneização da camada popular e. onde estavam presentes vagabundos de “todas as cores”. ‘bons costumes’ . populares. 1985.. através do discurso. 74 Pelo trecho da citação acima.]. a construção de uma ordem disciplinar. como institucionalizadora da moral branca da elite. aos quais se legava a exclusão. Como facetas daquele discurso. nas casas de família há falta de creadas e muitos serviços que exigem o braço do jornaleiro são demorados porque falta quem queira empregar-se. (Chalhoub. a elite. referia-se à necessidade de repressão à vadiagem.. ou mesmo os brancos pobres. todas as idades e todas as procedências.[.. Em artigo publicado pela Revista Brasileira de História. definir aqueles que seriam aceitos positivamente no círculo social..] se apoiava em diversas expectativas de comportamento: assiduidade. eficiência. que buscava. etc. Às noutes porém a gaita solta suas notas gafas manuseada por um vadio e a sala soturna de bachanal enche-se de vagabundos de todos os sexos. em relação ao trabalho.] é necessário a repressão dos vadios e vagabundos que infestam esta cidade [. como forma de ordenar e submeter os ditos “vadios” ao trabalho.

trabalhadores e tradição No dia 18 de setembro de 1889 75. sempre ia até lá por motivos de serviço. onde o mesmo Luiz era caseiro. há um ano atrás da data do roubo do toucinho em sua casa. criando grupos teatrais. sociabilidade e significado de trabalho livre para a massa popular. e que só ficara sabendo por uma preta que vira a dita carne na chácara de Dona Anna Passos. Vadios. denunciou ao delegado de polícia. casada com Bernardo de Cezare. mais próximas dos padrões de civilidade almejados. o preto Marcelino.tes. Disse ainda que. tirou-lhe duas mantas de carne. sabendo. combatendo as práticas costumeiras de divertimento. o pardo Luiz Eufrázio. ou seja. exaltando os valores de uma nova moral civilizada e. o pardo Luiz respondeu chamar-se Luiz Eufrázio dos Santos. residente na cidade. além daquele crime. ter 21 anos de idade. dançantes e recreativas. um moço de nome 45 . tomou a iniciativa de reformular seus costumes. associações beneficentes. que frequentavam a mesma casa: Raimundo Corneta. quando o dito Bernardo de Cezare estava em casa. imigrante natural da Itália. profissão jornaleiro e que. solteiro. ainda. ajudando-lhe a carnear uma rês. O próprio caráter repreensivo e legal do aparelho administrativo e policial foi instituído. que tinham roubado de sua cozinha duas arrobas de toucinho. atribuiu o furto ao “pardo Luiz Eufrazio dos Santos e ao preto Raimundo Corneta”. Luiz. Interrogado. ele. por outro lado. Albertina Catadore. investindo em educação. o paradigma europeu de civilização. clubes e sociedades musicais. a preta Joanna. A queixosa Albertina.

por ocasião de ter ido levar até o bairro Ponte Grande. Luiz Eufrazio dos Santos. que disse chamar-se Marcelino Maria de Jesus. Outro acusado e interrogado foi Raimundo Corneta. natural da Bahia. dizendo “não haver matéria para a denúncia”. passou trabalhando em quitanda. de quem era camarada. profissão jornaleiro. regularmente. que. solteiro. às vezes pernoitava no Corpo da Guarda. O promotor público encerrou o inquérito sem citar judicialmente nenhum dos acusados. em altas horas da noite. que foi escrava de Clementino Alves.. ainda. às vezes em casa do dito doutor Fiúza. o preto Dionizio. um cavalo de propriedade do doutor Fiúza. Maria Romana. Marcelino disse.] nunca teve em sua casa duas mantas de carne”.Cândido e uma mulher. que não tendo lugar certo onde dormir. residente na cidade de Lages e que. residente na cidade de Lages.. 22 anos de idade. 49 anos de idade. a preta Thereza. que respondeu chamar-se José Raimundo da Silva.] o preto Marcelino que foi escravo de Antonio de Palmas. Sobre o roubo do qual foi acusado. acrescentando que sabia que freqüentavam.. solteiro. Não há sequer um depoimento 46 . um carpinteiro natural de São Paulo. foi também inquerido o preto Marcelino. um sobrinho do capitão Antonio Ricken do Amorim.”76 Por suspeita. disse Luiz que “[. a casa da queixosa e tinham conhecimento do tal toucinho. “[. e que todos eram recebidos na cozinha pela dona da casa. a parda Beacta de tal. subúrbio da cidade de Lages. além dele. naquele dia em que ocorreu o crime. de nome Cândido e por alcunha Condoco. e. disse ter pernoitado em casa de José Paranaguá. sobre a noite do roubo. casado com a parda Manoela.. natural desta província.

na Lages do recente período pós-escravista. aquele homem era um tipo de mascate que contratava ocasionalmente os “pretos” acima para serviços domésticos de carneação e de quitanda. o “preto” Raimundo e o “pardo” Luiz Eufrazio frequentavam a cozinha da casa do senhor Bernardo Cezare. não pretendemos encontrar respostas às indagações de quem teria cometido o crime. alguns deles eram exescravos que não tinham sequer casa para dormir. suburbano e rural onde ocorriam as relações entre pretos e brancos. ou criador da região. fornecendo alguns indícios sobre os significados de trabalho e as práticas sociais dos ex-escravos e seus descendentes na região. a “parda” Beacta de tal. Ora aqui. a “preta” Thereza. ora acolá. observamos que os descendentes de africanos da região. e se tornavam camaradas de um ou outro chefe político. ele se movimentava livremente em busca de sua subsistência. como o caso de Marcelino. como Luiz Eufrazio. O “preto” Marcelino.mais objetivo que possa incriminar um dos autuados pelo roubo do toucinho. Pairam apenas suspeitas sem testemunhos. No espaço urbano. Humildes em suas posses. então. em grande parte. em 47 . que era caseiro na chácara de dona Anna Passos. Ou. Tal inquérito foi útil por trazer à luz fragmentos do cotidiano negro do pós-escravismo. a mobilidade era um valor importante para o negro (Mattos. 1998). No entanto. Pelos indícios. Através da leitura e análise dos mais de 350 processos-crime e inquéritos policiais dos ano de 1889 a 192077. se identificavam profissionalmente. e ia à casa de Bernardo sempre a motivo de serviço. o “preto” Dionizio. comerciante.

76% 4.35% 1. às vezes propriedade própria. ex: lavrador e jornaleiro. ou peão e camarada. principalmente como “jornaleiros” e “lavradores”.62% de jornaleiros e das variáveis dessa categoria.35% 1.. Quanto aos “lavradores” descendentes de africanos. b) alguns foram arrolados com mais que uma profissão. como jornaleiros e camaradas.35% 1.35% Profissão Lavadeira De suas Agências Pedreiro Sapateiro Parteira Oleiro Praça Ferreiro Quantidade 01 01 01 01 01 01 01 01 Índice 1. arrolados nos processos crimes e apelações de 1889 à 1920 Profissão Quantidade Não cita profissão 21 Lavrador 17 Jornaleiro 16 Camarada 05 Doméstica 03 Criada 03 Peão 02 Negociante 02 Agregado 01 Índice 28. foi denunciado o criador major Diogo Alves Vieira por assassinato de seu cama48 . conforme quadro abaixo: Quadro das profissões de negros/mulatos/pardos e morenos.70% 1. etc. ainda.70% 2. se empregavam. Em 13 de outubro de 191578.35% 1.tais processos. conforme quadro. são atividades que pressupunham a mobilidade.35% 1.05% 4.37% 22. Do índice de 21.97% 21.. “peões”. porque eram temporárias ou ocasionais. como no caso do “pardo” Domingos Padilha. para complementar a renda familiar. e os que “vivem de suas agências”. como os “criados”. Muitos lavradores. na cidade ou no campo. “camaradas”. no entanto.35% 1. às vezes de forma agregada à propriedade de algum outro proprietário de terras.05% 2.35% 1. normalmente tinham sua pequena roça de subsistência.35% Obs: a) dos quais foram arrolados um total de 74 pessoas “de cor”.62% 6.

poderia ser contestado de várias formas.rada Domingos. acrescentou ainda João Fernandes que “ [. defendendo-se. pelo assassinato de três crianças menores de dois anos. não fosse tão fácil desvencilhar-se das amarras hierárquicas e paternalistas que a tradição lhe impunha. na qual o “pardo” Domingos teria agredido com um facão ao réu que. tradicionalmente tão profundo nos meandros sociais daquele período. deu-lhe um tiro mortal.” Ora. Segundo a promotoria. filho da ex-escrava Gervásia de tal79. ainda. ou no “seu direito” de contestação àquela ordem. mesmo anos após a abolição. Em outra ocasião. porém. João Fernandes Ayres Varella. Talvez. foi acusado. o réu disse: “Domingos Padilha era seu peão desde mais de um ano e vivia como agregado numa casa de campo. o réu escolheu a sua maneira de contestá-la. jornaleiro e agregado de João Aquino Cabral. disse que o fez para vingar-se de uma surra que lhe dera João Aquino. Em depoimento por escrito.. acreditasse na impunidade. o fato se deu por ocasião de uma discussão entre o réu e a vítima.] queria ir embora por isso tinha morto as crianças.. sem criar o “motivo que a legitimasse”. em 189980. Talvez não imaginasse sua trágica pena. 49 . Outra questão das relações entre senhores e trabalhadores livres é o significado que tais relações representavam para os negros egressos de uma tradição escravista. cedida gratuitamente pelo suplicante e sita na sua propriedade ‘dos Conselhos’ [no quarteirão dos Índios]”. pelo motivo de ele não ter encontrado umas rezes que saíra para procurar. o elo hierárquico e paternalista. filhos de seu patrão. com lavouras e outras benfeitorias. Em seu depoimento.

criados e peões. e que iam de encontro às práticas de vida cotidiana dos populares. a elite branca sentia-se prejudicada com a arbitrariedade de criados e jornaleiros. até o surgimento de uma distensão entre o proprietário e o dito agregado. por curto espaço de tempo. 1990) remetiam a noções de mobilidade. encontramos o seguinte anúncio: Precisa-se: de uma criada que não se dê ao vício da embriagues e que não faça mudanças por conta própria. no que tange à definição de suas relações de trabalho. e isto estava ligado. geralmente era a de trabalho ocasional. jornaleiros. a imprensa difundia uma nova moral de trabalho. muitas vezes.A forma com que se empregavam camaradas. Por mais que se perpetuasse algum tipo de vínculo patriarcal hierárquico entre os negros livres em relação a antigos ou novos patrões – por imperativo daquela ordem social – a mobilidade espacial e o arbítrio de decidir quando e a quem servir. que nem sempre tinha um fim trágico como nos casos acima. eram consideradas pela elite branca como insubmissão. eram-lhes imprescindíveis como significantes de liberdade. ainda. de 8 de fevereiro de 1906.81 Denegrindo alguns valores e associando-os negativamente em relação a outros. que estava relacionada a certos padrões de comportamento e “bons costumes” ditos civilizados. às expectativas de liberdade construídas na época escravista. vadiagem e propensão ao roubo e à criminalidade. Assim como as visões do negro sobre liberdade (Chalhoub. isto se dava. No jornal A Evolução. pelo contrário. 50 . Por outro lado. Quando se estabeleciam em propriedades alheias como agregados.

82 Comum e muito combatido na região. não possuindo nada de seu”. entre negros. em setembro de 1888. desde que “foram libertados.” Os denunciados. também fazendeiro. Já alguns meses após abolida a escravidão. constituindo a gatunice quase que um meio de vida ou profissão.Livres. que os denunciados vivem do furto. o promotor público João José Theodoro da Costa. ditos pelo próprio promotor “agregados” de Felipe José Barrios. indígenas e brancos pobres. camaradas. ou seja. retiradas dos campos do criador Lourenço José Theodoro Waltrick. denunciou83 Manoel Waltrick e seu irmão Serafim Waltrick pelo roubo de três reses em dezembro de 1887. O problema se agravara com a progressiva abolição dos escravos. não procuraram até hoje dedicar-se ao trabalho e não possuindo nada de seu. a partir da segunda metade do século XIX. disse o promotor: “está pois claro. onde residem. teem no entretanto feito constantemente carneação de gados em casa da preta velha Mariana. o roubo de gado tornou-se uma das principais preocupações das autoridades e dos criadores. todos que se mantinham em atividades sazonais e circulavam livremente pela região eram suspeitos. Jornaleiros. porquanto desde que foram libertados. Manoel e Serafim eram ex-es51 . agregados. não eram porém de “dedicar-se ao trabalho”. e isto sempre que se ausenta Felippe José Bairros. de quem os denunciados são agregados. Ora. despossuídos e móveis O furto de animais nesta comarca é um crime que campeia impunemente desde épocas remotas. Justificando a denúncia.

cavalares e muares86. inquéritos policiais e apelações crimes da comarca de Lages dos anos de 1888 a 1920. o mesmo sobrenome de seu antigo proprietário. muitos dos descendentes de africanos viveram perambulando.cravos de Lourenço Waltrick. roubando e/ou trabalhando periodicamente. Em oito destes. “nunca teve em sua casa duas mantas de carne”. Assim como o pardo Luiz Eufrázio. O ideal de acúmulo e riqueza não fazia parte da mentalidade daqueles negros. as justificativas dos acusados. houve o envolvimento de descendentes de africanos. como também de autoidentificação perante a sociedade de que faziam parte. não possuindo nada de seu”. Do fichamento de processos-crimes. o que revela uma certa ambiguidade das relações hierárquicas naqueles termos e a possibilidade prática de contestação a uma ordem pré-estabelecida. por isso. os acusados Manoel e Serafim. 2) para vender e conse52 .138).” (Thompson. conflitante com o seu bem-viver. foram: 1) a de que furtaram para comer e alimentar a sua família. p. o que significa a sua “não submissão a um “tempo burguês”. em um ou outro momento da leitura de seus conteúdos. do processo ante84 rior . Em muitos dos casos. ainda. em seus depoimentos. “vivem de furto. externo às suas necessidades de sobrevivência e. de acordo com suas necessidades e vontades. Ainda assim. Após adquirirem a liberdade. a vítima. Usavam. apud Azevedo. identificamos vinte e nove processos referentes a furto de bovinos. segundo o promotor João Costa85. 1987. o relacionamento não impediu que Manoel e Serafim roubassem o gado do senhor Waltrick. o que demonstrava uma relação de dependência e afinidade.

não organizado. ou ainda. a problemática dos furtos 53 . por vários anos após tal pronunciamento. caracterizando aquele momento de transição. depois de carneado. também. era uma forma de resistência individual em relação a uma nova moral civilizatória. aleatório e espontâneo. A “Mensagem dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina. frequentemente era feita no próprio mercado público. Com a libertação total dos escravos. Governador do Estado”. 3) pensando que os animais roubados seriam “orelhanos”87. aumentara a massa de despossuídos que disputavam as migalhas do velho sistema e. dizia: Faz-se necessária a creação de uma companhia montada e que permaneça na região serrana. por significar. a quantidade de cada furto era pequena. onde os furtos de gado são freqüentes e a repressão difícil. Geralmente. não houve policiamento eficiente ou suficiente para a contenção da prática. para que não fossem reconhecidos. em muitos dos casos. assim. Os cavalos e mulas eram vendidos em localidades distantes. uma condição de sobrevivência daqueles que usufruíam de tais furtos. até mesmo em outras cidades. e. a venda. há muito tempo comum no meio rural do Planalto Serrano catarinense e agravado pelo processo abolicionista. urbana e capitalista que se instituía. Essa categoria de crime chegou a preocupar o governo estadual. no caso de gado bovino.88 Mesmo assim. em agosto de 1896. pelo Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz. Esse tipo de banditismo89.guir algum dinheiro. attentas as grandes distâncias em que se acham uma das outras e dos centros populosos as fazendas de criação.

Silva 4. Dos mapas demonstrativos da movimentação da cadeia de Lages. investigamos a possibilidade de encontrar os devidos processos-crime ou inquéritos policiais referentes a tais prisões. Além das características apontadas acima. Dos dezesseis indivíduos que entraram ou saíram da prisão nos referidos meses.não só de animais -. Alexandre V. Os mapas de abril e maio no original são individuais. apenas uma mulher foi caracterizada como “branca”. entre alguns “pretos” e um “moreno”. da Cruz 6. Mn. Souza 12. Clara M. Manoel Ant. Gersino D. ou seja. enquanto os outros foram presos por ordem do delegado ou subdelegado municipal. estado civil e estatura. dos quais identificamos ape54 . Da grande maioria desses presos. Souza 15. 16. sendo a grande maioria denominada de “parda”. Cyrina Maria Pereira 14. em que muitas vezes estavam presentes os negros. referentes aos meses de abril e maio de 188990. Gercina Dos Santos S. José Paranaguá 5. Manoel André 10. Maria Ignacio d. de Moraes 9. David Canabarro 8. Amancio B. F. Maurício Rita Theresa 2. Apenas três indivíduos foram presos por ordem do juiz municipal ou do juiz de Direito. existe a seguinte relação: Nome 1. outras são: naturalidade. Da Conceição Idade 21 22 22 46 30 21 24 29 25 20 25 26 26 24 22 21 Ofício Jornaleiro Lavrador Jornaleiro Carpinteiro Pedreiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Jornaleiro Lavadeira Lavadeira Lavadeira Lavadeira Sinais Pardo Pardo Pardo Pardo Preto Pardo Pardo Moreno Preto Preto Preto Pardo Branca Parda Parda Parda Crime Morte Ferimentos Furto Furto Morte Morte Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Furto Entrou 04/4 29 10 10 12/4 24 24 24 24 24 24 24 24 24 24 Saiu 14/5 10 11 14/5 14 27 27 27 25 Por ordem do Juiz Municipal Delegado Juiz de Direito Subdelegado Juiz Municipal Juiz Municipal Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Delegado Obs: 1). Mn. Daqueles. a maioria era descendente de africanos. da Costa 11. sendo que doze foram presos por crime de furto. Jacintho 13. Mauricio Rita Theresa 7. Antonio Luiz 3. apenas dois indivíduos foram arrolados por crime de morte.

não existem muitos relatórios tão detalhados como os da fonte acima. No entanto. o que significa que muitas das prisões foram realizadas preventivamente.nas dois daqueles indivíduos. 55 . as demonstrações autorizam a afirmar a existência de uma classe marginalizada na sociedade lageana. que é o quesito “cor”. que se refere ao tipo de característica física dos indivíduos presos. Além disso. A característica “cor” foi anotada no mapa como sinônimo do quesito “sinais”. apesar do “silêncio” – o das fontes documentais – característico daquele período. não existindo uma documentação policial particularizada sobre cada uma daquelas prisões. por suspeita ou por estratégia de coibir-se a criminalidade. principalmente quanto ao tópico que mais interessa. definida segundo os valores ditos brancos e burgueses. onde se encontrava um número significativo de descendentes de africanos propensos a uma criminalidade.

56 .

as práticas sociais vivenciadas em toda a região de Lages foram marcadas por uma íntima relação com os valores religiosos. assinado por um indivíduo com o pseudônimo de Bisbilhoteiro. As emoções não são. quer dizer. a religião possuía sentido tão pragmático que as roças e os animais eram benzidos. a forma sob a qual elas se manifestam é sempre histórica. específica. limitada. 6). ligada a uma época. Em 18 de julho de 1918. e se acreditava curar as pessoas rezando sobre suas feridas (Queiroz. o jornal O Planalto publicou o artigo intitulado “Fanatismo em Lages”. residente em Capão Alto.” Bertolt Brecht D Contra a “cor” inexistente urante o século XIX e as primeiras décadas do século XX. p.Capítulo 2 A “cor” manifesta: práticas cotidianas “As emoções possuem sempre um fundamento de classe muito bem determinado. os populares estabeleceram sua devoção religiosa. Através dos chamados curandeiros ou feiticeiros. Para os habitantes do Planalto Serrano. sem a intervenção eclesiástica e oficial da Igreja Católica. em absoluto universais nem intemporais. onde denunciava 57 . 1996. distrito de Lages.

discípulo de Daniel. Além da área urbana. exploradores. natural de Desterro. existe um tal Manoel Xerengue. principalmente entre os setores mais populares da sociedade.. Para os porta-vozes da moral civilizadora. xaropistas. O crime. No dia 16 de setembro de 190292. Pedro Guilherme da Silva. feiticeiros. xaropista e bêbado”. uma tal Maria Eugenia (do Boava) que é sortista. Neste districto (Capão Alto) Therezio Brasileiro e João Olympio. residente há 15 anos em Lages. vulgo Pedro Barulho. no lugar – Cerro Negro –. costumando receitar chá de raspagem de uma madeira que só elle fornece. entre os quaes sobresahem os seguintes: Nessa cidade. em que Manoel Xerengue foi lembrado como “benzedor. 50 anos. prevaleciam as costumeiras práticas de curandeirismo. ou qualquer outra denominação que reforçasse o seu aspecto depreciativo para a sociedade civilizada. 35 anos.] além do Luciano e do Daniel. teria aconte- 58 . benzedeira e xaropista. todo um arcabouço vernacular era usado indistintamente para associar a religiosidade popular a aspectos negativos. Benzedeiras. em toda a ampla área suburbana e rural sob a jurisdição da cidade de Lages. xaropista e bêbedo”91. benzedor. temos outros fanáticos e exploradores de algibeiras. criador e lavrador. No districto de Campo Bello. ocorrido em 14 de julho na localidade Cerrito93. como no caso de Painel. que é também adivinho e benze com patuás. como aquela manifestada pelo jornal O Planalto. foi denunciado por crime de ferimentos contra Antonio de Mello Corrêa. casado. Capão Alto e Campo Belo. ambos do Painel. sortistas e curandeiros eram sempre seguidos por cognomes de: fanáticos.a prática um tanto comum de aspectos da religiosidade popular na região. lavrador.. Dizia o Bisbilhoteiro: [.

A análise de tal documento teria sido dada por estar inserida no espaço de tempo escolhido para esta pesquisa. Enquanto isso. Primeiro. em um “rolo effectuado no lugar denominado Índios”95. que na noite de 20 59 . o que mais chamou a atenção é que nenhum o teria qualificado de negro. o curava das moléstias que o importunavam. se retirado do local. dois fatos permitiram a identificação da “cor” daquele indivíduo. produzindo-lhe diversos ferimentos”. Segundo. outros testemunhos do processo. O réu foi condenado a um ano de prisão. e a furar-lhe com um chifre de veado branco. confirmaram a versão da promotoria. pardo ou escuro em tal processo. De todos os epítetos dados a Pedro. por meio de magias.cido na ocasião em que Pedro Barulho apresentara-se em casa de Antonio. alegando que Barulho era feiticeiro. usando de “um rosário e vara de marmeleiro. chamou-o de “esse indivíduo de cor escura” 96. Ao escurecer. em 17 de março de 1907. inclusive o da própria vítima. o envolvimento de Pedro Barulho. Em seu depoimento94. de que “Pedro em companhia de outros pretos metteuse numa grossa carraspana”97. onde o promotor público Manoel Thiago de Castro. Pedro Barulho começou a bater em Antonio. ao denunciá-lo. também em notícia do jornal A Evolução. tendo. em seguida. curandeiro e monge. Pedro defendeu-se dizendo que apenas benzeu a vítima com arruda molhada. No entanto. foi publicada a informação sobre o mesmo episódio. preto. dizendo que tudo aquilo era para tirar o mau espírito que Mello tinha no corpo”. dizendo que. Autorizado pelos que se encontravam na casa. Pedro Barulho teria ainda distribuído a todos os presentes uma “beberagem e encerrado a vítima em um quarto.

Por exemplo: pretos e pardos eram 60 . pudemos também percebê-lo na análise dos processos-crime da comarca de Lages durante a Primeira República. não foi possível identificar a “cor” de Barulho. É provável que muitos dos processos estudados. A partir daí. em casa de Antonio Machado. armados. operário. passaram a ser nomeados pela “cor”. idenficava-se a “cor” dos envolvidos nos processos. Só depois de confrontar com outras informações obtidas através de uma nota de jornal e de outros processos é que foi possível distingui-la. incluíssem descendentes de africanos. envolvendo populares no período da Primeira República. na rua da Santa Cruz.para 21 de abril de 191898. Sobre tal acontecimento. disse a testemunha João Pedro Luiz. apenas os indivíduos que tinham alguma relação com um próximo passado escravista. ofendendo fisicamente várias pessoas. embora. Luiz Vieira e “seu capanga e empregado Antonio Barulho”. envolveram-se em uma discussão. vindo a saber depois que o moço branco era filho do senhor Diogo Vieira e o preto era filho de um tal Pedro Barulho”. Aproximadamente até meados do século XIX. por vezes. À primeira vista. não tenha sido possível identificá-los. que viu “um moço de boa altura tendo um revólver na mão. geralmente. Assim como Hebe Mattos (1998) detectou o progressivo desaparecimento da “cor” nos processos judiciais do Sudeste brasileiro no século XIX. onde se realizava um baile. e um preto que empunhava um facão. 43 anos. fossem brancos ou negros. como nos autos processuais em que o curandeiro Pedro Barulho foi acusado por ferimentos contra Antônio de Mello Corrêa.

p. os peritos do corpo delito – ou.]. não era incomum que. mas como ‘preto’ ou ‘negro’. o delegado de polícia. observamos que. aleatoriamente. houve um progressivo desaparecimento da definição da “cor” dos indivíduos arrolados em tal documentação. sem nenhum critério aparentemente técnico. Hebe Mattos (1998) faz a seguinte afirmativa: Se. um ou outro escrivão. Era como se a “cor” estivesse cumprindo um papel de distinção quanto ao status social. Sobre isso. O desaparecimento da marca racial dos registros policiais não foi uma invenção republicana. deixava-se de citar tal categoria. até então sinônimos de escravo ou ex-escravo e.. dos homens livres e pobres. pois com o progressivo distanciamento da ascendência escrava. inclusive nos processos judiciais a partir das últimas décadas do século XIX até os anos vinte e trinta deste século.. inclusive em termos policiais e criminais. 284) Em Lages. referentes a seu caráter de não cidadãos. Perder o estigma do cativeiro era deixar de ser reconhecido não só como liberto (categoria necessariamente provisória). em relação aos homens nascidos livres. os homens livres se dividiam. na segunda metade – se bem que continuasse fundamentalmente hierarquizada – já não incorporava a diferenciação racial ao controle social. em brancos e pardos. ainda.sempre identificados como escravos ou libertos. em praticamente todos os registros oficiais. à maneira colonial. a vivência da liberdade. mas uma prática já plenamente vigente. 61 . até a primeira metade do século XIX. o juíz . nas últimas décadas da escravidão [. vítimas e réus. (Mattos. tenha usado distinguir a “cor”99 naqueles autos. outras pela transcrição da fala de funcionários da justiça envolvidos no processo – o promotor público. pela transcrição literal dos depoimentos de testemunhas. 1998. alguma vezes identificando-a por livre arbítrio. portanto. No entanto.

Com uma leitura atenta de todos os processos crimes de 1880 a 1920. a citação foi feita pela promotoria e. ou seja. se refere à condição quanto à situação de ex-escravo ou filho de ex-escravo. b) o ítem “outros” é referente à identificação da “cor” por uma fotografia anexa aos autos do processo.51% dos casos. no cotidiano conflituoso daquela sociedade.44% das vezes.95% dos processos. constata-se que a manifestação da “cor”. expressava a existência de uma 62 .Dos processos-crimes consultados. quase metade deles. de 1889 a 1920: Origem do termo Citado pela denúncia: Citado por testemunhos/réu/vítima Corpo delito Cito pelo próprio depoimento Outros Quantidade de processos 23 35 12 02 01 Índice proporcional 31. pelos depoentes. Em 31.75% 1. tais índices totalizam 48.37% TOTAL 73 Obs: a) o ítem “dito pelo próprio depoimento”. Somados. foi citada pelos responsáveis pelo exame de corpo delito das vítimas.95 % 16. vítimas e réus.44 % 2. Apesar de não haver distinções étnicas definidas oficialmente por qualquer tipo de política racial. por vezes. como elemento social diferenciador. a “cor” se manifestava. em 47.95% dos casos. referente ao momento em que foi possível localizar os descendentes de africanos no conteúdo dos autos: Em relação à origem da sua citação nos processos. em 16.51 % 47. resultou o quadro a seguir. Por outro lado. A origem do termo “cor” foi citada oficialmente por funcionários da justiça em dois momentos. só foi possível a identificação dos negros pela leitura cuidadosa do conteúdo dos depoimentos de testemunhas.

“fronteira situacional e contrastiva” entre os indivíduos daquela sociedade. Segundo o historiador gaúcho Paulo Roberto Staudt Moreira (1995),
“[...] no seu dia-a-dia, os indivíduos elaboram estrategicamente sistemas de símbolos e classificações, visualizando grupos adversários - demarcando-os - e construindo sua própria auto-imagem. Neste jogo diário de convivência em um mesmo espaço, os indivíduos acabam por elaborar sua identidade de forma situacional e contrastiva.” (p. 78).

Através da vivência em seu cotidiano, os indivíduos estabeleciam entre si códigos de relacionamento. As distenções e alianças que se manifestavam através das experiências estabelecidas entre eles permitiam o surgimento de uma identidade situacional e contrastiva que, por sua vez, possuía fronteiras próprias. Estas constituíam-se em “fronteira situacional e contrastiva” nos momentos em que afloravam determinados conflitos sociais. Assim, a “fronteira” é delimitada pelo momento em que uma dada unidade social é rompida pela manifestação de uma situação conflituosa. Estes conflitos podiam ser de forma horizontal, ou seja, entre as próprias classes populares, ou ainda, de forma vertical, entre subalternos e dominadores. A fronteira situacional e contrastiva se manifesta em certas situações práticas do cotidiano, definindo hierarquicamente posições e diferenças em que estariam inseridos brancos e negros, bem como pobres e ricos, nacionais e estrangeiros, homens e mulheres, entre outros grupos que compõem dado quadro social em que, por vezes, os indivíduos se incluem ou se excluem de uma dada unidade, dependendo da situção social manifesta. No entanto, no que
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se refere a questões étnicas no Brasil, essa “fronteira” mal definida e embaçada pelo discurso e prática do “branqueamento” e pelo silêncio sobre as diferenças no Brasil pósabolicionista, nem sempre salientou a alteridade pela questão da “cor”, manifestando-se de outras formas. Como não se expunha necessariamente a “cor” dos indivíduos envolvidos em todos os processos do período pesquisado, fato que também ocorria com outros documentos, não foi possível identificar com exatidão todos os negros, pardos ou mulatos envolvidos. Porém, quando foi possível fazê-lo, seja através da fala de um depoente, seja colidindo informações entre fontes como processos e jornais, verificou-se algumas situações sociais específicas do cotidiano de Lages, em que era comum a presença de descendentes de africanos, como no exemplo da prática de curandeirismo. No processo em que Pedro Barulho foi acusado de provocar ferimentos graves em Antonio Mello Corrêa, várias testemunhas depuseram, dizendo que Pedro era curandeiro, feiticeiro e monge, com a intenção de ressaltar, ao aparelho judiciário aspectos da vida do acusado, que a ordem social predominante considerava como imoral. Em tal caso, a “fronteira” se manifestou em outros termos, não sendo lembrada a “cor” do acusado, pois quem sabe outros presentes, ou a maioria em questão, também fossem descescendentes de africanos. Por mais que as pessoas que testemunharam o fato em casa de Antonio tenham se mostrado coniventes com a prática curandeira, permitindo que Barulho benzesse Antonio, eram amigas da vítima e sabiam que, ao narrarem para o
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judiciário a atividade do curandeiro, comprometeriam sua índole diante da moral “civilizadora”, não sendo necessário destacar a sua “cor”. Aspectos da religiosidade popular: a presença negra
Devoção aos santos, festas, novenas, promessas e benzeduras eram elementos fortes do catolicismo popular e se caracterizavam pelo seu caráter festivo, pela interpenetração entre sagrado e profano e pela mínima ingerência da hierarquia eclesiástica. (Serpa, 1997, p. 55)

Em Igreja e poder em Santa Catarina, o historiador Élio Cantalício Serpa (1997) disserta como, concomitante a um processo civilizador da sociedade catarinense, entre 1889 e 1920, houve uma reorganização burocrática, institucional e devocional da Igreja Católica no Estado, seguindo a lógica de transformações que ocorria em todo o país com a proclamação da república. Na expressão de Serpa, a Igreja se “romanizava”101 e pretendia instituir, simbolicamente, uma hierarquia administrativa e devocional, que contradizia o costume e a tradição das camadas populares da região. Na mentalidade daquela diversidade de populares do Planalto Serrano Catarinense, formada por descendentes de portugueses, espanhóis, indígenas e africanos, as autoridades eclesiásticas eram pouco reconhecidas. Além disto, até fins do século XIX, os sacramentos da igreja como o batismo, a comunhão e o casamento, eram pouco considerados em suas práticas cotidianas. Em Lages e região, com a vinda dos padres alemães da Ordem Franciscana, a partir de 1892, começou a reestruturação do catolicismo pela Igreja, preocupada em implementar e estabelecer práticas disciplinadoras em re65

lação à hierarquia da Igreja e legitimar a autoridade de padres, vigários, bispo e papa. Para isto, encontraram apoio entre as classes dirigentes e os setores médios que, naquele momento, reformulavam suas condutas sociais de acordo com os padrões de civilização adotados, branco e burguês, e que relacionavam os costumes tradicionais ao atraso e à ignorância. Por conta daquelas intenções, pela primeira vez, no ano de 1898, a região recebeu a visita de um bispo, dom José de Camargo Barros102. Festas e recepções foram preparadas pelos padres franciscanos em diversas cidades e freguesias da região, como: São Joaquim, Painel, Lages, Canoas, Curitibanos e Campos Novos. Em seus diários, (Barros, apud Piazza, 1984) dentre as impressões de pouca consideração à sua presença por parte do povo em geral, de atraso, ignorância e pobreza da região, o Bispo afirmou que, no Painel “[...] são quase todos caboclos e mulatos” e que, em Lages, “[...] a população de negros e mulatos é muito grande”103. Dom José visitou várias cidades catarinenses onde a afluência de imigrantes europeus já se fazia presente há algumas décadas em grande número, como na região do vale do Rio Itajaí e na região sul de Santa Catarina. Por isso se explica a atitude incomum do bispo, identificando a diferença fenótipa da composição populacional da região do planalto, em fins do século XIX. A visita de dom José procurava submeter o caráter de reconhecimento da autoridade episcopal aos populares, dentro do plano de “romanização” da Igreja. Entre as estratégias de disciplinarização religiosa, que incluíam
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tinha outras formas de se relacionar com o sagrado. como as festas profanas dos populares. 1997.a ação dos padres pelo interior da região. a crença em pessoas com poderes sobrenaturais fazia parte do cotidiano de homens e mulheres. 67 . as capelas eram geridas por capelães que não estavam subordinados à hierarquia eclesiástica. p. alijado da posse e dos meios de produção. vivendo em completo analfabetismo. transgredindo a normalidade do cotidiano vivido” (Serpa. jogava-se. que nunca antes fizera parte do mundo que vivenciaram. sem distinção de classe ou “cor”. sendo considerado o momento em “que todos estavam juntos. 111). bandas musicais. segundo Élio Serpa (1997): Junto às camadas pobres da sociedade. o culto aos santos tinha um papel central. bebia-se e brincava-se. Nestas. entre outros instrumentos. A Igreja fundou ainda escolas. o curandeirismo e outras práticas cotidianas tradicionais. em 1903 –. enfrentaram dificuldades e reações. perpetuavam-se as práticas cotidianas do curandeirismo e das benzeduras. 79) Dentre as manifestações religiosas populares e tradicionais da região. crismando e casando a população. designados por caboclos. bem como a resistência à “romanização” de algumas capelas em que os fiéis e capelães não admitiam subordinar-se à hierarquia eclesiástica. extraindo da terra os mínimos vitais. No entanto. a Igreja também condenava o concubinato. (p. pelos quais impunha um conjunto de moralidade civilizada e condenava outros de caráter popular. vivendo muitas vezes sob a dependência dos ricos fazendeiros. Estes habitantes. batizando. as benzeduras eram práticas corriqueiras. pois o caboclo pobre. associações beneficentes e jornais – como por exemplo o Cruzeiro do Sul. vivenciavam suas práticas devocionais típicas do catolicismo popular em que: o leigo tinha participação ativa nos assuntos religiosos.

natural de Angola. o controle administrativo exercido pelos padres franciscanos em relação às capelas que não demonstravam resistência popular à “romanização”. Provavelmente. 68 . celebravam-se pomposas festas em homenagem à santa padroeira dos pretos e escravos108. onde se fundam as raízes do movimento milenarista caboclo104 e a crença em São João Maria – um santo de “carne e osso”105 – em Lages. Construída por volta de 1860107 pelo mestre pedreiro Pai João. e demolida nos anos quarenta 109. e a vinda dos padres franciscanos a Lages. em 1892. pelo seu significado para as populações de origem africana durante o período escravista e. a segunda. Por um lado. escravo do fazendeiro Manoel Joaquim Pinto.Duas capelas de caráter popular merecem atenção: a de Nossa Senhora do Rosário e a de Santa Cruz. em 1888. A falta de interesse e recursos para mantê-la levou suas instalações às ruínas. pelo seu caráter extremamente popular e característico da região. sendo fechada entre os anos vinte e trinta do século XX. talvez a capela lembrasse aos ex-escravos um passado e uma condição social que preferiam esquecer e. Durante o período escravista. tradicionalmente no mês de outubro. a capela congregava os escravos da cidade e seus descendentes. A primeira. São parcas as informações sobre a capela Nossa Senhora do Rosário106. fez com que a capela do Rosário ficasse cada vez mais fragilizada em relação ao número de fiéis. por outro. dois fatos contribuíram para o gradativo desdém dos descendentes de africanos à devoção de Nossa Senhora do Rosário: a abolição da escravatura.

através da elaboração dos Estatutos da Irmandade de Santa Cruz.. visto que considero que somente devo prestar contas aos devotos de S. fora da jurisdição franciscana. 209). perdeu seu vínculo com a religiosidade popular tradicional. mantendo-se. construída com o esforço dos seus devotos.Segundo Serpa (1997. a capela de Santa Cruz representava. a capela foi fechada para ser demolida. Em seu lugar. ela resistiu.. O monge João Maria. a partir de 1920. só em 1931. e a capela constituiu-se num foco de conflitos entre franciscanos e os devotos de Santa Cruz. escreveu no jornal O Imparcial.]” e não darei “satisfações sobre ela a nenhum Vigário. p. O zelador de Santa Cruz. 1997. Em torno da cruz. No entanto. Cruz. Lourenço Dias Baptista.”111 Pretos e brancos frequentavam as festas e os cultos da capela de Santa Cruz112 durante o período. um marco significativo da presença de João Maria de Agostinho em Lages. dado o caráter exclusivamente popular da capela. surgiram muitas lendas e verdades. foi lançada a pedra fundamental do novo templo de Santa Cruz que. Porém. deixou sua marca registrada na cidade. nas suas andanças pelo interior de Santa Catarina. p. outra seria construída por acordo entre os franciscanos e o poder público municipal. arbitrariamente. aos poucos. 203). para a maioria da população. O controle total da capela foi passado à autoridade diocesana em 1924. em novembro de 1902: “a capela de Santa Cruz tem estado muitíssimos anos sob minha gerência [. Até por volta do ano de 1915. 110 69 . registrado em cartório (Serpa. plantando uma cruz no local onde se originou a capela.

solteiro. Em vista de uma carta que está em mão do sr.114 Não há menção nenhuma referente à “cor” de Justino na nota de O Clarim. na rua Santa Cruz. sua exma Esposa e um filho. em uma nota com o título “Casa Queimada”. dizia o seguinte: Na noite de 17 do andante ficou reduzida a cinzas a casa de residência do sr. por sua con70 . talvez jamais o soubéssemos. Achavam-se em casa o sr. 79 anos. no momento em que fez a denúncia. onde se ocupava de fazer flores de papel e “preparar remédios”. distante a légua e meia desta cidade. morador da cidade”. Justino finalizou seu depoimento alegando sua inocência. o incêndio parece ter sido praticado por um curandeiro ou feiticeiro que há tempo se acha nesta praça induzindo o povo incauto com suas bestialogias que estão passando despercebidas às autoridades. profissão criador. na fazenda Santo Antônio Lisboa. com 45 anos de idade. em casa de João Waltrick. natural da antiga Desterro. no dia 30 de abril de 1908. na madrugada de 18 de abril de 1908. Se não fosse o coronel Waltrick chamá-lo de “mulato”. No entanto. o hebdomadário O Clarim. Antonio Waltrick. Justino Augusto do Carmo disse que era sapateiro. Tenente Cel. Interrogado. Commissário de polícia. a “fronteira situacional e contrastiva” se manifestou no inquérito policial.Feiticeiros e curandeiros: a crendice popular Antonio Waltrick. Waltrick. feiticeiro ou curandeiro. no momento de exaltação de Waltrick. como autor do incêndio proposital em sua casa. Sobre o fato do incêndio. há um ano morador na cidade de Lages. denunciou113 o “mulato Justino do Carmo. casado. que pouco salvar puderam. o que leva-nos a crer que estas não comprehendem que nosso adiantamento moral já não permitte tal MODUS VIVENDI que só tem entrada onde a ignorância tem domicílio.

reforçando as intrigas entre seu pai e Manoela. também. conhecida como Manoela. Domingas Maria Henrique. natural do Ceará.vicção de que o incêndio foi causado por aquele a quem chamou de “mulato” Justino. que o tomou. havia preparado um remédio para Waltrick. alegando ter-lhe feito “mal as ervas que o recomendara” e que “continham venenos”. lavradora. três dias antes do incêndio. dias antes. relembrando ao aparato jurídico-policial. Naquele momento. 70 anos. era inocente. na sexta-feira santa. 45 anos. Justino dizia que respeitava o coronel. Outras 71 . Justino. mas negou o crime. o coronel Waltrick intencionava reforçar os valores negativos do acusado em relação aos padrões de civilidade aceitos. teria rogado pragas ao senhor Waltrick. Antes de passarmos a ela. cabe esclarecer que Justino. o estigma da condição social passada de Justino. eram curandeiros. Inquirida. negou ter cometido o crime ou rogado pragas ao senhor Waltrick. porém. Waltrick receberia “um sinal de Deus” para lhe mostrar como ele. Por coincidência ou não. defendeu o curandeiro a quem tinha como hóspede. Domingas Manoela. Na carta. e que ficou muito chateado com suas insinuações. pela sua “cor”. Justino confirmou a autoria da carta. do processo anterior. Ao corpo delito e inquérito policial do incêndio na casa da Fazenda Santo Antonio Lisboa115. e acrescentou ter ouvido dizer que uma parda. negociante. filho do coronel. e que. foi anexada uma carta enviada por Justino ao senhor Waltrick. tanto Justino quanto Pedro Barulho. A testemunha. que por outras três vezes já havia sido queimada a dita casa. lembrando. João Waltrick.

que não apenas a ordem hierárquica foi rompida. dia previsto por ele para Waltrick receber “um sinal de Deus”. A promotoria pública finalizou. na carta anexa ao processo. Houve. poderia ser vista como preconceito moral de setores da sociedade em relação aos populares.testemunhas disseram ser “voz geral” na cidade que Justino foi o autor do crime de incêndio.]”. No entanto. o que foi despachado pelo juiz. A condenação moral do curandeirismo. Embora não tenha sido condenado. Isto. O “mulato” disse. pois o incêndio ocorreu exatamente na sexta-feira santa. ameaçando toda a ordem social vigente e uma nova moral que se pretendia implantar. Acrescentamos. mas foi desconsiderado todo um discurso de “adiantamento moral” que já não permitia tal modus vivendi propagado incansavelmente pelas elites. A prática social do curandeirismo e da feitiçaria sobrevivia como elemento da religiosidade popular e intimidava. não considerando a possibilidade do ato do incêndio pelo curandeiro. na “Sexta-Feira Santa receberás um sinal de Deus”. e o incêndio foi dado como casual. à interpretação do acontecimento. acrescentando que. a evidência de um questionamento moral quanto à ordem hierárquica.. dizendo que não tinha argumentos suficientes para confirmar a denúncia e pediu que se arquivasse o inquérito em julho de 1908. é bastante provável que Justino tenha tido parte em tal crime. pelo tom ameaçador de suas palavras.. some-se a este raciocínio que o preconceito em relação à “cor” de Justino também o é de 72 . por si só. que “respeita o coronel e que ficou muito chateado com suas insinuações [. na atitude de Justino.

da moral do próprio coronel Waltrick.ordem moral. científico. representando uma ordem moral em que a influência negra era bastante significativa em sua formação. É necessário que 73 . manifestações de um Brasil arcaico. em que as práticas de crendice e religiosidade popular eram consideradas como manifestações imorais e ilegais: Sabemos que existe nesta cidade curandeiros charlatães que aqui andam explorando o povo. este a ressaltou como intenção estratégica de denegrir a imagem de Justino diante do aparato jurídico. para a elite. nacional. étnico. Exemplificamos os procedimentos de tal mentalidade preconceituosa da época com as palavras do jornal O Clarim. está relacionada a um tipo de preconceito de ordem moral. pois quando da distinção de sua “cor” por parte do depoimento de Waltrick. por sua vez. de 29 de janeiro de 1908. verdadeiros charlatães exploradores. Qualquer acusação de imoralidade de um grupo social em relação a outros grupos. entre outros. mormente aquellas pessoas de pouca instrucção que facilmente estão sendo levadas pela fama de taes curandeiros. sejam estes de caráter econômico. As manifestações do preconceito de ordem moral da sociedade branca e elitizada de Lages contra as práticas tradicionais de religiosidade popular eram duplamente reforçadas quando tais práticas se manifestavam por descendentes de africanos. tais práticas eram reconhecidamente. todos os preconceitos se caracterizam por uma “tomada de posição moral”. que era cúmplice da moralidade civilizadora das elites e da Igreja e. de certa forma. Por mais que determinada fonte omitisse informações quanto à “cor”. Para a pensadora Agnes Heller (1992).

esses senhores deixem taes modos de vida para que não sejam punidos pela lei que aberta e energicamente se oppõe a taes practicas.116

O combate às práticas de uma moral tradicional e popular não foi diretamente tratado envolvendo a questão da “cor”, embora esta fosse uma condição intrínseca nas práticas sociais. Não afirmamos que todo curandeiro ou feiticeiro fosse descendente de africano, mas entendemos que tais atividades eram características de uma ampla classe popular de indistinta ascendência étnica e diversos matizes, onde, também, a população negra se fez – e se faz – presente de forma significativa. Aspectos do cotidiano lúdico popular em Lages
Nesta busca de construção de um espaço urbano está a preocupação das elites em construir a esfera pública, mas concomitantemente esta edificação não está isenta de medidas que denotem segregação no caso, mendigos, desocupados, loucos e bêbados e expressões culturais “sambas e batuques” passam a ser consideradas expressões de “não civilização” e que, portanto, deveriam ser banidas. Estas manifestações culturais deveriam ser extirpadas como forma de possibilitar a construção de uma esfera pública burguesa e branca. (Serpa, 1996, p. 17)

Na citação acima, o historiador Élio Serpa refere-se ao processo civilizador em Lages durante a Primeira República. Sua ênfase é quanto aos mecanismos utilizados pela elite econômica, política e intelectual da região, na busca pelo “civilizar-se”. As elites idealizavam um novo espaço urbano ordenado e civilizado, de acordo com os padrões espelhados nas principais cidades do mundo e do país, como Londres, Paris, Rio de Janeiro e São Paulo. Desde os últimos anos do século XIX, o poder público, a polícia e o aparato jurídico passaram a delimitar e
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remodelar os padrões de conduta lúdico-popular da sociedade (Chalhoub, 1985, p. 112). No dia 3 de novembro de 1895, o jornal Gazeta de Lages publicou, entre outras regulamentações do Código de Posturas da cidade de Lages, o fragmento em que dizia ser “proibido”:
# 1o. Fazer bulhas ou voserias, dar gritos altos sem necessidade reconhecida. # 2o. Fazer sambas, ou batuques quaisquer que sejam as denominações, dentro das ruas e das povoações.117

As práticas sociais de entretenimento denominadas “sambas” e “batuques”118, que estão diretamente relacionadas à africanidade, foram as únicas identificadas textualmente, pelo Código de Posturas, como ilegais. No entanto, outras nomenclaturas sinônimas, como: “fandangos”119 ou “bailes populares”, foram usadas pela elite da região para identificar “quaisquer que sejam as denominações” dos ajuntamentos de pessoas que produzissem ruídos, barulhos e algazarras. Esta definição incerta de tais categorias era uma demonstração do sincretismo tradicional e cultural do cotidiano de negros, mestiços e brancos pobres da sociedade lageana. A condenação das práticas sociais e de vida desses descendentes de africanos e brancos pobres pela sociedade civilizada, branca e burguesa, não impediu que aquelas formas de manifestação deixassem de existir, embora os porta-vozes do discurso civilizador fizessem de tudo, através da imprensa, para associar tais bailes a aspectos morais negativos, relacionando-os à negritude e reclamando a vigilância das autoridades policiais.
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O jornal Região Serrana, de 15 de maio de 1910, clamava a devida atenção policial para acabar com aquele tipo de divertimento popular que persistia no centro da cidade. Segundo o articulista:
Ultimamente a nossa polícia tem cochilado um pouquinho [...]. Assim é que nenhuma providência tomou para acabar com esses indecentes fandangos que quasi todas as noites, como á atrasada, perturbam a tranqüilidade das famílias, especialmente na rua Cel. Córdova, onde existem alguns cortiços infectos e antihygiênicos. Admira-nos o consentimento que por parte do proprietário da casa encontram as perturbadoras do sossego que à noite tem direito as famílias daquella rua, para a realização desses nauseabundos fandangos. Esperamos da auctoridade policial as providências que esse acto reclama.120

Os intelectuais, a elite e o poder público121, além do discurso e institucionalização de uma moral civilizada, através dos inúmeros jornais do período, adotaram, na prática, outras estratégias para redefinição da sensibilidade e dos costumes da sociedade. A criação de escolas particulares e a fundação do Instituto Estadual de Educação Vidal Ramos, em 1912; a fundação de clubes sociais, como o 1o. de Julho, em 1896, e o 14 de Junho, em 1920; a criação de sociedades literárias, teatrais e musicais; a ênfase à higiene e ao embelezamento122 na reformulação do espaço urbano; e o reaparelhamento dos órgãos repressivos, como as constantes ampliações e reformas da cadeia municipal e o aumento do efetivo policial, foram alguns dos instrumentos usados para a implantação gradativa das novas práticas sociais que se pretendia regulamentar, no intuito de se fazer cumprir as leis e posturas, além de manter uma determinada ordem em relação ao comportamento social que condissesse com a propagada moral civilizada.
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123 Os bailes populares subsistiam. Segundo Serpa (1996. Na noite de 24. em que elos hierárquicos e a ordem de situações convencionais do dia-a-dia eram rompidos. Avisado. Ou seja. 216). Delegado de polícia que acabou com a festa. p. meretrizes e outras pessoas de “duvidosa conduta” desobedeciam os códigos de posturas e promoviam arbitrariamente suas “reuniões dançantes”. O “samba” realizado em casa de Theresa de tal demonstra a persistência da prática. Quatro praças que policiavam o bairro foram aggredidas e contundidas algumas. violento e anti-higiênico. houve um chimfrim. 25). resistiam a um processo civilizador e intolerante das elites. que pretendia instituir novos valores morais e bur77 . n’um dos costumeiros sambas que realizava-se na casa de Thereza de tal. apesar do olhar vigilante da imprensa e da ação da polícia. Com o conceito de “legítimo” queremos dizer que os homens e mulheres que constituíam a multidão acreditavam estar defendendo direitos ou costumes tradicionais124 (Thompson. lugar onde a bebida estimulava os participantes a expansões de certas práticas. Para os descendentes de africanos e outros populares. compareceu o sr. o caráter lúdico e profano de seus bailes representava códigos legítimos de conduta. o sonho de que todos fossem civilizados esbarrava em individualidades recalcitrantes e formas de subjetivação alheias ao processo ou submersas em seu mundo. 1995. lá para as bandas da antiga rua das Tropas. p.A grande preocupação da elite e do poder público com as manifestações cotidianas de entretenimento dos populares era o seu caráter barulhento. Pretos. serenando o ânimo dos exaltados que na maior parte estavam armados de cacetes.

entre outros. conhecido como Bernardo Bexiga. filha de Maria Preta. que cantava. e. ouviu na rua. vulgo alferes. filho de pais incógnitos e Benedicto de Calazans Guerreiro. disciplina. solteiro. Nhinhara. Benedicto Nogueira. 40 anos. no Arraial do Painel126. dissera que se era por di78 . Por ocasião do testemunho de Olivério Rodrigues Nunes127. sua esposa Maria Rodrigues. outro negro. a cantar e a beber” quando. jornaleiro. natural de Curitiba. respondendo o camarada: “A rapariga. jornaleiro. começou uma briga entre Benedicto Nogueira de Andrade. de nome Justino Vieira Camargo. negociante.gueses de ordem. peão do senhor João Luiz Vieira Júnior. e. Estavam presentes no local: Manoel Serafim da Cruz. 37 anos. da qual foi vítima de morte Antonio Tolentino Guerreiro. este disse “que estando em sua casa. 52 anos. casado. em casa de negócios de Francisco Circumpcisão Farias. jornaleiro. as mulheres. 58 anos. avessos à moralidade lúdica e tradicional dos descendentes de africanos e populares. 35 anos. Manoela preta. o preto conhecido por Justino. já deitado. que tocava viola. trabalho e higiene. natural de Vacaria. filho de Maria Benedicta. por causa de uma prostituta de nome Julia. Adão. filha de Maria Preta. Bailes populares: a presença negra Na noite de 11 de fevereiro de 1892125. Julia. estavam reunidas várias pessoas “a tocar viola. Antonio Guerreiro perguntar à seu camarada: “O que foi que os negros disseram”. 35 anos. em frente a casa. Candida Zangada e a própria Julia. Feliciano Francisco dos Santos.

] aqui em Lages de 1905 a 1915 eu só conheci tocadores pretos. a música. a prostituição e a bebida eram os principais ingredientes.]”. onde estavam reunidos lavradores. quase sempre eram os negros que estavam no comando dos instrumentos musicais. 79). O cotidiano popular da região era marcadamente profano. após a abolição.. pela sua sensibilidade musical. ambos disseram que foram à casa de Farias para “cantar e tocar” e que foram agredidos por Antonio Guerreiro. jornaleiros e prostitutas. principalmente gaitas. ainda. que era um trabalho realizado solidariamente entre vários indi79 . Ramos (1988) disse. Antonio Guerreiro pediu um rifle ao seu camarada e sahiu correndo para a casa de Francisco Farias [. ter ouvido de seus antepassados que os proprietários de escravos da região compravam os instrumentos musicais. No auto de perguntas aos denunciados... Benedicto Nogueira e Feliciano dos Santos. Naquele tipo de reunião lúdica. onde deu-se o conflito. A violência também era comum e manifestada geralmente por ânimos mais exaltados como conduta legítima.128 Nas “reuniões dançantes”. Segundo o memorialista Armando Ramos (1988) “[. a dança. Tradicionalmente. e davam aos escravos para que eles animassem seus bailes de senzala. alguns bailes eram realizados após o chamado “pixurum” ou “puxurum”. não ia. os descendentes de africanos consagraram-se na região.. que acabou morrendo no conflito. Aquele era um típico “baile popular”. Pela habilidade e hábitos adquiridos.nheiro que ella ficava com os negros.” (p. dentre os quais vários dos presentes eram de “cor” preta.

sen80 .129 A grande expectativa dos envolvidos era o fim do trabalho e a realização do baile. cativos de uma dada vizinhança que. Ou eram “bailes populares”. como no caso que segue. tanto por parte de indivíduos das classes populares. apareceu Geraldo... os bailes tinham uma composição informalmente segregada e excludente. conforme a tradição. Denunciou à promotoria pública da comarca de Lages. que na sede do distrito de Capão Alto130. a recompensa e o estímulo para que os vizinhos se socorressem mutuamente.]”. fazendeiros. tal situação predispunha um ambiente ao conflito. De maneira geral. ou eram “bailes familiares”. na verdade. entre criadores. agregados. às 23 horas da noite de 14 de abril de 1914131. erguer uma taipa ou um galpão. com insólitas provocações a todos [.víduos: lavradores. “perturbando a ordem pública. lidar com o gado. de faca em punho. vez por outra. jornaleiros e. que era. negociantes e artistas. no tempo da escravidão. havia certas “invasões” desses espaços. quando. entre outros trabalhos que exigissem urgência e um maior números de pessoas para realizá-lo. solidariamente se reuniam para fazer uma roça. subdelegado de polícia daquele distrito. onde frequentavam indivíduos de várias classes e etnias .. estavam algumas pessoas em uma “reunião familiar”. na parte de fora da casa. pela realização de uma festa dançante. Geralmente. No entanto. Essa solidariedade era premiada. onde a presença das pessoas se fazia de forma mais homogênea. peões.. ou “baile”. entre as quais José Zeferino Neves. Acresce que Geraldo é tido e havido como desordeiro de peor espécie [. quanto por parte de indivíduos das elites.].

o acusado e seus companheiros.] quando o denunciado entrou na sala de baile. 19 anos. os presentes no dito baile: José Waltrick Branco. o artista José Luiz Tubbs acrescentou que: “[. foram chamados para prestar depoimento..do. Em outro testemunho do mesmo processo. entre outros.]”. porque não reuniam “requisitos para tanto”. Manoel José Pereira de Jesus. criador. José Xavier Leite Sobrinho. o denunciado começou a provocar a todos indistintamente proferindo palavras injuriosas. os quais não tinham sido convidados e não são pessoas que reunam requisitos para tanto. o criador José Leite disse que “pelas onze horas mais ou menos. 81 . pois era uma reunião familiar e que nenhum deles poderia ter cabida. por resistência a entregar a arma. que eles se retirassem. na rua. Sendo notada a presença. devido a sua “cor” e condição social. com bons modos. pelo que foi mandado sair o mulato que não tinha convite para o baile. preso em flagrante pelo delegado presente.. um “negro” e um “mulato”. artista sapateiro. não eram bem vindos no “baile familiar” realizado por criadores133 e artistas. como também não tinha o denunciado e muito menos o negro. mandou que este dançasse.”132 Conforme os testemunhos. Aberto o inquérito. acompanhado de um negro e de um mulato. criador. Quando iam saindo para a rua. daqueles fumeiros e do próprio denunciado. com uns fumeiros.. a provocar [. continuando. alguém dos presentes pediu-lhes. em uma reunião familiar. o que fizeram. criador. portanto.. o denunciado entrou na sala do baile de que se estava dançando. como descrito por José Luiz Tubbs e José Leite. Em seu depoimento. e José Luiz Tubbs.

sem devida venia do sr. como se pode admitir que haja um completo traço de distincção entre classes. os valores sociais negativos da sociedade tradicional. em potencial. claro é que essa raça não tem a verdadeira e completa independência. que fez derruir a dynastia. legando a todos os mesmos direitos assegurados na constituição republica- 82 . de 27 de maio de 1908. exceptos os casos pela própria lei determinados. e a explendorosa pronunciação de 15 de novembro de 1889 veio com mais amplitude ligá-los mais intimamente ao seio da cara pátria. se a nova forma de governo. veio. Abaixo. Si os pretos não podem fazer bailes. Commissario de polícia que se achava em viagem ou a passeio fora da cidade. isto é. e assegura a cada um o direito de inviolabilidade individual. pelo facto de ter este feito um baile. representado pelo discurso da elite como um modelo ideal de comportamento. do justo e do honesto. É um facto contrastável com as disposições constitucionaes da República. como principal condição nivelar todos os cidadãos brazileiros na mesma raia de direitos. Enquanto o primeiro ocupava as páginas dos jornais. divertirem-se independentemente da vontade de um superior. ou entre indivíduos que tentam exercitar o mesmo direito. na íntegra. com o título de “Violências Policiais”: Há poucos dias ficamos perplexos e até certo modo completamente attonitos.As distinções entre “bailes familiares” e “bailes populares” eram significativamente demarcadas. simbolizando. Ora. o direito de liberdade. e si é certo que a lei áurea de 13 de maio de 88 veio arrancá-los do nefando captiveiro e considerá-los irmãos na mesma pátria. o artigo publicado no jornal O Clarim. o outro ocupava as páginas policiais. isto é. com o facto da prisão de um preto velho desta cidade. contanto que este não ultrapasse as normas da razão. que concede a todos o exercício livre da sua vontade e liberdade.

é justo que elles. caído em dias próximos à comemoração dos 20 anos da Abolição da Escravatura e que o articulista. onde “uma grande massa popular. sendo estrepitosamente correspondido pelo povo em massa [.. por força. não escapam ao chanfalho policial que sobre elles pesa como reflexo d’outr’ora. festejando esse dia comemorativo de sua liberdade [. que são de carne e osso também possam dar os seus bailes. pobres já por sua inferioridade de raça. pobres já porque deixam-se subjugar miseravelmente.na que considera iguaes todos os homens – menos certo. percorreu as ruas desta cidade. trucidada a sua liberdade e integridade individual – que se estão no mesmo nível de garantias constitucionaes..]”136.]”135 seguindo até a “[. a denúncia de atitudes que denotassem caráter segregacionista de qualquer segmento social contra descendentes de africanos.. inflamado pelos acontecimentos da semana anterior. não será que estes pobres. e . – Não podemos admitir que haja um completa prohibição para essa pobre gente dar azas as suas expansões. Gustavo Martins que à frente do povo ergueu um viva ‘a democrata redacção do Clarim’. si essa prohibição firma-se em disposição da lei municipal.. tenha sensibilizado a redação do jornal pela injustificada prisão do “preto velho”. A justificativa mais provável para a publicação do artigo acima é que o fato tenha ganho tal entonação por ter. E. coincidentemente.. 83 .. TOLLITUR QUESTIO!134 Nunca foi comum.. por parte da imprensa lageana. então é o caso de dizer-se: – CADA MUNICÍPIO É UMA REPÚBLICA DENTRO DA REPÚBLICA.] redacção do ‘Clarim’ a qual foi saudada pelo sr.. porque se nós outros temos livremente as nossas occasiões de júbilo e nos divertimos. sem que para isso seja preciso mendigar uma previa licença.

a quem chamou de “estes pobres. não podendo se “admitir que haja um completo traço de distinção entre classes”. natural de Lages. A presença negra em outras formas de entretenimento Na casa de negócios do cidadão Manoel Francisco da Silva. os pretos”.. do justo e do honesto”. que a briga entre ele e Francisco Xavier foi inicia84 . disse em seu depoimento. Innocencio. “travando-se de palavras Innocêncio e Francisco Xavier por motivo de não ter este cumprimentado aquelle. esbordoando-o até que este saiu para fora do pátio da casa onde se achavam [. O artigo expressa com realismo a convivência entre a elite branca e “os pretos e pobres”. o mesmo Xavier deu de relho no dito Innocencio. fazenda Pinheiros Ralos. o próprio autor imprimiu na redação do artigo um caráter de diferenciação entre “nós outros” e “eles. foi limitado pelas ditas “normas da razão. Em síntese. na localidade de Campo Belo138. pelas duas horas da tarde do dia 20 de janeiro de 1905137. lavrador.. instituídos pela moral civilizadora. casado. pobres já por sua inferioridade de raça”. em que é possível observar o sentimento de alteridade e superioridade do autor (“nós outros”) em relação aos descendentes de africanos (“ele”s). “o direito da inviolabilidade individual” e a condição de cidadão legada a todos os brasileiros com a Abolição da Escravatura e pelas “disposições constitucionais da República”.]”.Apesar dos apelos feitos pelo articulista às leis que vieram “nivelar todos os cidadãos brasileiros na mesma raia de direitos”. demonstrando o aspecto racialista de seu discurso. com 25 anos de idade.

da porque Xavier cumprimentou a todos os presentes. defendendo-se. cobrando-lhe uma atitude de igual consideração à dada aos outros presentes. e como tal precisa de laço”. e que. e que perguntando o porquê de tal atitude. foi agredido a relhos por Xavier. Innocencio retrucou a Xavier. Xavier ficou irritado pela presunção do negro em dirigirlhe a palavra. que sim. Innocencio respondeu que “o captiveiro já tinha acabado”. ainda mais. menos a ele. demonstrando sentirse ofendido pelo tom com o qual foi chamado de “negro. que negro nunca foi gente. recebendo como resposta que o motivo era o fato de ele “ser negro.139 Lavrador e negro. a ruptura de uma hierarquia 85 . ao que retrucou-lhe Innocencio perguntando se negro não era gente. que respondeu-lhe que o fazia pelo fato de ele. criador. prontamente. Innocencio. e como tal precisa de laço”. viúvo. natural de Lages. ainda mais nas condições delle [. “Innocencio ser negro.]” recebendo diversas relhadas. Quanto ao depoimento de Francisco Xavier de Souza. exigindo o direito de ser tratado como um igual..” como alguém que nunca perderá a marca da escravidão. este disse que chegou à casa de negócios e cumprimentou “a todos com aperto de mão. Importunado.. A reação de Innocencio demonstra como o fim da escravidão representava na visão de alguns negros. teria sido ele. por fim. respondendo-lhe elle depoente. agredido primeiramente por Innocencio.]”... excepto a Innocencio. Innocencio foi o único dos presentes ao qual Xavier não estendeu a mão para cumprimentar. Xavier. à quem apenas cortejou dizendo-lhe: – Boa tarde. ao que. deu-lhe como resposta que “o captiveiro já tinha acabado [.

como no caso de Innocencio. botequins ou “casas de negócio” eram o espaço de lazer diário. onde o respeito e o tratamento de igualdade eram requisitados por eles próprios. onde os homens se reuniam para beber. Por exemplo. No entanto. ela mostrou-se como uma conquista individual dos negros pelo reconhecimento de sua cidadania. a moral dominante. Os conflitos também se tornaram frequentes. entre elas. a presença diversificada de indivíduos de várias classes sociais e ascendência étnica era comum. jogar e conversar sobre os acontecimentos do dia-adia. legitimada pelas teorias racialistas. quando se sentiam redimidos por outrem. devido à inexistência de vítimas com ferimentos graves ou por causa do silêncio dos envolvidos em relação à justiça ou à 86 .pré condicionada à “cor”. várias testemunhas foram arroladas no processo em que Innocencio e Francisco Xavier entraram em conflito e. A Abolição da Escravatura e a Proclamação da República colocaram os negros legalmente sob a mesma condição jurídica de cidadãos que o restante da sociedade. botequins e outros espaços sociais de lazer. a negritude em relação à antiga condição social escrava dos descendentes de africanos. Os bares. sempre que possível. associando. na prática. alguns criadores e lavradores que estiveram presentes na “casa de negócios” de Manoel Francisco da Silva. nada limitava a presença da diversidade social e étnica naqueles ambientes. prevaleceu uma diferença hierárquica marcada pela etnicidade140. mesmo que nem sempre resultassem em processos ou inquéritos criminais. E nos momentos em que essa hierarquia foi contestada. Como espaço público141. Nos bares.

Porém. O depoimento da testemunha Irineu Antunes de Castro.. distrito de Lages. indignado. “insultou muito Sebastião. outras três testemunhas.]”. durante uma corrida de cavalos. numa raia em frente à casa de Alexandre Ignacio de Jesus. foi o que melhor situou os acontecimentos daquela tarde. 45 anos. logo em seguida. o acusado Antonio apostou com Sebastião. no dia 24 de agosto de 1913143. A testemunha acrescentou. que Manoel segurou a espada que Antonio iria dar em Sebastião e que Antonio começou a atirar contra o grupo de pessoas em que estavam reunidos os irmãos de Sebastião. A discussão entre Antonio Lara e os irmãos ‘Anhaya’ iniciou-se por causa da aposta. ou algo similar. irmão de Francisco. ao afirmarem estar próximas do acontecido. E Sebastião respondeu que “ele não tinha dinheiro para comprar negros da qualidade delle [. Dentre outros diversos testemunhos. confirmaram ter visto a tentativa de agressão por parte de Antonio e ouvido a expressão: “eu tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”. mas agravara-se no momento 87 . lavrador. terminando com as seguintes palavras: tenho dinheiro para comprar toda essa negrada”.polícia. Porém. nenhum confirmou ser o tiro que saiu da arma de Antonio o mesmo que atingiu Francisco. natural de Lages. casado. Sebastião convidou a Antonio para “abrirem o dinheiro”. Segundo Irineu. No lugar chamado Amola Facas. além de Antunes Castro. ainda. a vítima Francisco Bibiano de Anhaya. no mínimo.. pois era costumeira a resolução de contendas sem a intervenção policial ou jurídica142. residente e inspetor do quarteirão do Amola Facas. 50$000 réis em uma corrida de cavalos. foi gravemente ofendido pelo acusado Antonio Ribeiro Lara. ao que Antonio.

danças. Os espaços não eram especificamente populares. insistia em aparecer naquele momento. lavradores. era comum que. suscetível a brincadeiras. A negritude era a marca do cativeiro e de uma condição social e racial estigmatizada hierarquicamente como inferior em todos o País. chamando-os de “negrada”. ao dizer que poderia “comprá-los”. dos ânimos mais exaltados. Sebastião e seus irmãos responderam em defesa própria contra um tipo de ofensa que não aceitavam mais: a qualificação de inferioridade. na área rural145 ou nos arrabaldes da cidade146. Nos fins de semana. situacional e contrastiva que se tentou omitir com a ideia de unidade da nação brasileira. Segundo Licurgo Costa (1982). estimulando o surgimento de uma etnicidade negra. peões – brancos e pretos – para apreciarem as corridas de cavalos147. “havia sempre grande afluxo de povo para as raias: faziam-se vultuosas apostas. sobre as “carreiras” realizadas em Lages. posteriormente. marcada pelo reconhecer-se e ser reconhecido como diferente pela “cor”. se produzisse algum tipo de intriga verbal ou violência física. Os negros sabiam muito bem o que aquelas palavras representavam. mestiça e harmônica.em que Antonio “insultou” Sebastião e seus irmãos. juntavam-se criadores. associando diretamente tal termo ao passado escravista dos ofendidos. bebedeiras e conflitos. de “democracia racial”144. mas não deixavam de ter uma característica profana. 88 . elaborada naquela época sob a égide mítica do que se convencionou chamar. vendedores de comidas e bebidas instalavam suas tendas. jogos. A fronteira tênue. Devido à diversidade social.

pretos e brancos pobres. a elite lutava insistentemente para impor uma outra moral. foram se esgotando. pelos costumes de um passado recente e tradicional. remodelaram-se as corridas de cavalos. “elitizadas” e “civilizadas”. Em 1920. em julho de 1917. 89 . em substituição às velhas raias de corridas. as “carreiras” continuaram ocorrendo em alguns dos antigos locais. o que possibilitava um controle mais eficiente sobre tais manifestações. subúrbio da cidade.” (p. a Associação Turf Catharinense inaugurou um hipódromo. No entanto. por ela adotada.muitos assistentes montavam barracas. Além disso. As situações cotidianas dos populares em Lages eram comuns entre mulatos. improvisavam-se danças. Apesar das mudanças promovidas pela elite e pelo poder público. o pagamento de taxas foi adotado pelo poder público municipal para coibir a realização das “corridas” em outros espaços públicos ou privados que não aquele determinado pelos fazendeiros. já que. com características mais “ordeiras”. gradativamente. surgiam tocadores de violas e sanfona. mas. A religiosidade e o entretenimento estavam profundamente arraigados em sua moralidade. muitas vezes com graves conseqüências. corria muita cachaça e as brigas eram frequentes. um espaço específico e definitivo para a atividade. na maior parte dos casos. aos poucos. em local doado pela prefeitura na localidade da Várzea. 1429) Com a fundação da Associação Turf Catharinense por um grupo de fazendeiros lageanos. eram os criadores e fazendeiros quem as promoviam. civilizadora e renovadora dos costumes da sociedade. criando-se.

90 .

Capítulo 3 “Homens de cor” no espaço urbano de Lages “Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro. Entregue aos cuidados de uma aleijada que tem que sahir à rua arrastando-se para obter o duro pão de sua subsistência o infeliz preto velho paralítico jáz sobre os mais repelentes trapos tendo como única faculdade respirar o ar infecto que exahala de dentro da casucha. alli num miserável cochichólo replecto de vermina e nú. E isto passa-se dentro da área urbana desta cidade sem um rápido olhar dos que devem zelar pela saúde pública e mitigar os sofrimentos dos desamparados da sorte.148 Para os novos padrões de civilidade e urbanidade que contagiavam as elites lageanas das primeiras décadas da República. algumas imagens das condições de vida de po91 . Ó ser humilde entre os humildes seres. Há poucos dias tivemos occasião de vê-lo. a seguinte nota: Chamamos a attenção de quem competir afim de providenciar no sentido de serem suavisados os males do pobre preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz. O mundo para ti foi negro e duro. Embriagado. É quase indiscritível a impressão que nos causou o mísero preto velho. tonto dos prazeres.” Cruz e Sousa N o dia 14 de março de 1907 foi publicada no jornal A Evolução.

literário ou religioso. também estabeleceram em seus estatutos a beneficência. confortável e seguro. políticos. O olhar vigilante da imprensa lageana estava atento a fiscalizar. principalmente no que se refere às áreas centrais da urbe e suas proximidades. adotada pelas elites e pelo poder público na renovação do espaço urbano149.pulares e miseráveis não poderiam permanecer à vista pública. incentivar e estabelecer os requisitos materiais necessários para que a cidade se tornasse civilizada. Financiadas por intelectuais. A situação infeliz vivida pelo miserável Amaro foi narrada pela imprensa. A caridade e a generosidade para com os mendigos e os enfermos. bem como a denunciar a presença do indesejável e do patológico150. sob a perspectiva da sua lógica moral de civilização. ressaltando os aspectos repugnantes da condição em que o dito preto se encontrava. em que a maioria da população vivia aquém das condições de higiene propagadas como necessárias pela moral burguesa e civilizadora. era necessário “limpar a cidade”. as associações beneficentes se multiplicaram na cidade151 e incorporaram a filantropia pública como sinônimo de civilidade. Além da causa arquitetônica. O aspecto sujo e feio do ambiente em que vivia o “preto velho” fazia parte de um cenário social pobre e comum de bairros periféricos ao centro da cidade. Além das associações. como recreativo. pela Igreja e por homens de posses. lembrando que aquela situação passava-se “dentro da área urbana desta cidade”. outras de caráter diverso. conclamando a ação do poder público e de particulares. ao mesmo tempo que aliviavam a 92 . dar-lhe aspecto salubre.

representavam a estética social do feio e do indesejado na esfera do espaço público que a elite branca pretendia construir e consolidar. sinopses e relatórios periódicos da administração pública do município e do estado.] já não é pequeno o número de desprotegidos da fortuna. saudável e ordeiro para a moral burguesa de civilização. p. o embelezamento constituía-se em “uma ação urgente e execução inadiável. melhorando seu aspecto.”154 Naqueles primeiros anos da República. o Hospital de Caridade de Lages152. através dos jornais e de mensagens.. Estes fatores impulsionaram 93 . foi criado. sem pão e sem lar que passeiam a miséria pelas ruas da cidade. pela lei estadual número 928.consciência da elite. por ser o thermometro característico e denunciante do desenvolvimento e progresso daquelles que nella vivem. 140). bonito. “principalmente quando de cor” (Pesavento. ampliando a representatividade política local155 em relação ao estado de Santa Catarina. pois “[. 1994. que usufruía de uma vida economicamente tranquila. a região de Lages crescia economicamente e demograficamente. o poder público e a elite local. Para os setores sociais que representavam a moral da elite. o clero.. estendendo a mão ao óbulo generoso da philantropia pública.”153 A questão do embelezamento da cidade passava pela definição do que é belo. Em 20 de agosto de 1912. discursavam sobre o caráter essencial da construção de um hospital e casa de caridade para a cidade. exhibindo-a nas vestes andrajosas e nas feições denunciadoras de amargas e continuas privações sofridas. contribuíam para sanar a pobreza das ruas centrais. Os miseráveis. pobres. loucos e aleijados. Alguns anos antes.

com o crescimento populacional da urbe. por descendentes de africanos. Para esta operação.o desenvolvimento da cidade e. principalmente. ao mesmo tempo saneadora. às novas áreas que eram loteadas. também se desenhou em Lages um quadro social geograficamente segregado. os subalternos deveriam ser varridos da área central. Alguns populares. devido à falta de propriedade e trabalho àqueles que deixaram de ser cativos e não queriam permanecer ou não eram mais aceitos nas antigas propriedades em que serviram como escravos. No entanto. (Pesavento. onde a ocupação dos espaços estava preestabelecida pela condição social. aos arrabaldes. Entre outros. cresceram os “indesejáveis sociais”. sobre a cidade de Porto Alegre nos primeiros anos da República: Na divisão do espaço que obedecia à assimetria social. levados aos subúrbios. p. resistiram enquan94 . por consequência. moralizante. convergiam as opiniões de homens de governo e daqueles mais situados socialmente. O fluxo deste crescimento vinha de outras cidades e. os mais significantes foram as proximidades da região onde estava localizada a capela de Santa Cruz156. a região denominada de Banhado157. alguns espaços geográficos da cidade foram gradativamente ocupados por populares e. 138) Como em Porto Alegre. respeitadas as proporções. Após a Abolição da Escravatura. conhecida como Lagoão e o bairro da Brusque158.1994. uma nova configuração de seu espaço urbano. estética e especulativa. as elites na área central da cidade e os pobres na área suburbana. Segundo Sandra Pesavento. moradores antigos do “centro”. da área rural da própria região. mas sempre baseada em critérios classistas. principalmente.

Em alguns jornais da cidade e processos crimes pesquisados.. além 95 .] concretizava-se em pequenas comunidades étnicas.. Brusque e Lagoão [. viviam diversos descendentes de africanos.. vizinhos um do outro. o poder público estava sempre renovando as leis e posturas do município. Como exemplos. exigia dos proprietários a reforma estética das residências. hoje fazem parte da área central da cidade. (Carvalho. No entanto. Desta forma. Nos bairros Banhado e Santa Cruz..to puderam a deslocarem-se para a periferia. transladando-se à periferia urbana. abrigando a população de descendentes de africanos e os brancos pobres. p. 38) Os bairros161 que antigamente eram reconhecidos como Lagoão. saneamento e melhorias dos passeios públicos em frente às casas.] havia [. estabelecendo-se nos bairros e arrabaldes da cidade.. Banhado162 e Santa Cruz. através das quais aumentava os impostos sob as propriedades.160 Banhado e Santa Cruz. os próprios populares acabavam saindo gradativamente da área central. [. tudo sob a ameaça de taxas e multas159.] um vasto mundo de participação popular. à medida que o “centro” crescia e incorporava esses antigos bairros...]. [. como estratégia para a expulsão dos indesejados sociais do “centro”. por falta de condições materiais para se manterem nas antigas propriedades. Só que este mundo passava ao largo do mundo oficial da política. aparecem referências a estes locais como sendo a residência de algum indivíduo de “cor” negra. Brusque. Muito pouco dos descendentes daquelas populações permaneceram nestes locais.. 1997. locais ou mesmo habitacionais.

O Banhado e o Santa Cruz. além de serem ocupados por moradores humildes. Fermino José dos Santos. o “preto” Francisco Gonçalves167 e o curandeiro “mulato” Justino do Carmo168. O capanga e empregado do denunciado Luiz Vieira. filho de Miguel Coelho. o menor Luiz Vieira. muitas vezes. eram espaços onde se manifestavam as situações do cotidiano lúdico. 96 . filho de Pedro Barulho170. chegaram o “preto” Guilherme da Silva. fatalmente. e Agostinho de tal – “mulato”171 –. atirou-se contra os que se achavam em sua frente. alguns dos locais em que visualizamos a presença de descendentes de africanos naquelas imediações. O baile corria animado até o momento em que Vieira entrou numa sala onde alguns indivíduos conversavam e começou provocá-los. filho de Diogo Vieira. Na noite de 20 para 21 de abril de 1918169. o “moreno” Claudino de Chaves Lins164. inclusive sendo atraídos moradores negros de outros bairros ou arrabaldes da cidade. realizou-se um baile na rua da Santa Cruz. o “pardo” Antonio Gonçalves da Silva Porto165. bailes ou festas em residências particulares e a própria rua foram. Os bares. entre outros. conhecido como Antonio Barulho. identificamos como moradores das imediações do Banhado e da Santa Cruz. tendo em uma das mãos um punhal. por vezes pretos. o “preto” Laurindo José Garcia166. travando-se uma discussão entre Vieira e Juventino Xavier. em casa de Antonio Machado.do “preto velho Amaro que habita em uma casa mais semelhante a uma pocilga nas proximidades da Santa Cruz”163. acertando. casas de prostituição. Lá pela madrugada.

que saiu de sua casa em companhia de ambos para irem a cidade à procura de uma meretriz de nome Sebastiana. natural de São Joaquim. o jornaleiro Emílio Roza. o pedreiro João Pedro Luiz. o “preto”172. eram a grande maioria das pessoas presentes naquele tipo de divertimento dos bairros periféricos da cidade. o acusado Luiz Vieira disse sobre seus parceiros que. No Banhado e no Santa Cruz. o pedreiro João Ozorio dos Santos.Em seu depoimento. também eram comuns as chamadas 97 . descobrimos as profissões de alguns deles. na rua dos marmeleiros. Jornaleiros. cidades próximas. natural de Curitibanos. 23 anos. 27 anos. identificamos outros dos presentes naquele baile. arrolados pela justiça como testemunhas do crime. Agostinho de tal era seu vizinho e Antonio Barulho. ou das redondezas. ruidosos e promíscuos pela ótica civilizadora. seu camarada. para onde se dirigiu com seus companheiros. residente na cidade. onde souberam que a dita meretriz tinha ido a um baile em casa de Antonio Machado. considerados como violentos. o lavrador Sebastião Borges. pedreiros ou lavradores de Lages. 43 anos. além dos bailes em casas de particulares. 28 anos. e o jornaleiro Jerônimo Lopes de Liz. Entre eles. 28 anos. Tal dado demonstra o caráter popular do baile e a provável presença de outros descendentes de africanos em seu meio. 31 anos. Apesar da impossibilidade de identificar a “cor” de todos os presentes. do “preto” Antonio Barulho e do menor Luiz Vieira. jornaleiro Laurindo José Garcia. Disse também. Além da presença do “mulato” Agostinho de tal. bairro de Santa Cruz. o jornaleiro André Francisco da Silva.

realizadas com bastante frequência. viviam de vender a lenha que recolhiam de matas próximas. O senhor Sebastião Ataide. “em geral o pessoal mais humilde. onde os fiéis do monge São João Maria. da lavagem de roupas às margens do rio Lagoão. onde os negros acendiam fogueiras e cantavam até determinada hora. velas de cera e sabão caseiro. descendente de africanos. foi um dos puxadores das rezas em frente à capela Santa Cruz178. em busca de oportunidades de sobrevivência. Além do aspecto lúdico do cotidiano dos bairros citados acima. do excedente de suas lavouras. Tio Eufrázio. Na sua maioria jornaleiros e lavradores. falou173 sobre o que seriam as “reuniões de rua”. devido à proximidade da área central. da venda de quitutes.“reuniões de rua”.177 Segundo Sebastião Ataide. nascido em 1923 e morador de Lages desde o ano de 1929. ex-escravo da família Ribeiro. e ainda de serviços esporádi98 . se reuniam para orar.174 Nas reuniões. estudioso da história de seus antepassados. em entrevista no dia 26 de junho de 1998. o que perturbava a tranquilidade social das elites. no alto da Santa Cruz. segundo o que soube pela tradição oral. Nos bairros Brusque e Lagoão. a capela de Santa Cruz estava localizada numa colina. as reuniões eram realizadas no Santa Cruz. porque a cidade não tinha iluminação elétrica. batuque e “bate pé”175. homens e mulheres. também concentraram-se vários descendentes de africanos que migraram para a cidade após a Abolição da Escravatura. negros e aqueles mais pobres” 176 de toda a região. Disse que. debaixo de lampiões. do serviço doméstico para terceiros. compareciam populares diversos e produzia-se muito barulho.

.. relembrando de sua infância e do que ouvira pela tradição oral.. aqui.. no Estado.. né. e começou. “Brüsk”. Outros. o acendimento da iluminação a gás das ruas da cidade e o serviço de praças da força pública policial180. “Brusque”. do outro lado – até a casa eu conheci –. Também existe isso aí. e. servidores da Prefeitura e gente que foram requerendo terras ali e fazendo casas. jornaleiro.. né. que eram Franceses e Alemãos.cos diversos pela venda de seu jornal de trabalho179. é que veio. como tinha muito moreno. muita gente de cor. alí por 1927. pardo182.. “Brusque”. “Brüsk” – eu não estou lembrado bem do primeiro nome –. que dizem. lá. E o outro. quando o senhor Caetano Vieira da Costa foi prefeito de Lages.. ele residiu numa casa ali mais ou menos onde está o Pronto Socorro. que a chamar: – Ele mora lá pra “Brusque”. dizia: – Isso aqui está até parece Brusque. lá perto da “Brusque”. Lino Euphrazio Garcia Ribeiro. o nome total.... 28. Agrimensor.. Era uma pilhéria. e. não é? 181 A referência documental mais antiga que encontramos sobre a denominação daquela região como “Brusque” foi no processo crime de 10 de março de 1927. em que fora acusado e qualificado como reú. exerceram atividades como o recolhimento do lixo e material fecal. parece. como funcionários do poder público... apontou os prováveis motivos da origem do nome Brusque para o bairro. Disse ele que: Existem certas versões [. é o seguinte: que foi devido à quantidade de mulatos. identificado como morador “na rua Brusque”183. a hipótese do senhor Sebastião Ataide (1998) sobre o nome do bairro originou-se do fato de que o agrimensor Brüsk teria se 99 .] A única informação meio certo que se sabe. esse engenheiro... parece que ele tinha uma placa. gente loira. Como vimos. com o nome dele. Sebastião Ataide (1998). A nossa Brusque. ele parece que contratou um engenheiro para fazer um levantamento topográfico da cidade.

tornou-se uma forma de gracejar com a região. a violência. para os moradores das áreas centrais. até a década de cinquenta do século passado184. tal forma de identificar a localidade. inicialmente as pessoas se referiam à localidade da Brusque. no Vale do Rio Itajaí. representaria o seu oposto. Em virtude da característica da grande maioria da população e do número de casas com aspecto humilde. já era. reconhecidamente uma das colônias germânicas mais prósperas e numerosas do estado de Santa Catarina. suja e de aspecto brusco. vista como feia. 100 . momento a partir do qual a região ficara conhecida como “Brusque”. Por outro lado. Nos bairros em que se estabeleceram as populações pobres. na sua maioria. A “Brusque” de Lages. os bailes populares – sambas ou fandangos – e a insalubridade de ruas e casas. pois como disse Sebastião Ataide (1998). ocupada principalmente por descendentes de africanos. como uma normalidade vivida por seus habitantes. que se diferenciava da realidade do modelo de civilidade que a elite implantava nas áreas centrais. A presença do agrimensor Brusk naquelas imediações se tornava irônica. há muitos anos. desde o período da libertação dos escravos. em busca de sobrevivência. tendo como referência a residência do agrimensor. Naquela região. acumularam-se. ou seja. a idéia de pilhéria deve ser considerada. progressivamente.instalado naquela região de “1927 a1928”. o “bairro”. eram comuns as casas de prostituição. pois o município de Brusque. Tal informação coincide com a referência ao ano do processo do “pardo” Lino Euphrazio Garcia de Ribeiro. moradores negros e pobres vindos da área rural e de outras cidades.

A experiência de classe é determinada.. como “[..ou entraram involuntariamente. o surgimento do sentimento de alteridade.] um fenômeno histórico.] a classe acontece quando alguns homens. ficou apenas no papel. sistemas de valores. no prefácio do livro A formação da classe operária inglesa.” (p. entre eles. e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõe) dos seus. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições.No interior da diversidade popular. 10) Tomando de empréstimo a definição de Thompson sobre “classe” para conceituar um grupo étnico-social específico. O discurso das elites. da elite e civilizado. um fazer-se em sua experiência comum. 1987.” (Thompson. continua com sua definição.. 10). pelas relações de produção em que os homens nasceram . que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados. 101 . de igualdade. surgidos com a Abolição da Escravatura e a Constituição Republicana. tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. em grande medida. como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas). liberdade e cidadania aos egressos do regime escravocrata. de sua consciência de alteridade. os descendentes de africanos reconheciam solidariamente aqueles códigos sociais. Thompson (1987). p. E.. nas primeiras décadas da República no Brasil. E. dizendo que: “[. idéias e formas institucionais. observamos um “fazer-se da etnicidade”185 desse grupo social. de diferença em relação ao outro. P. que produziam inclusive. conceitua seu entendimento de “classe”. no caso dos descendentes de africanos no interior do conceito de populares. sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si.

festejando esse dia comemmorativo de sua liberdade. à República. começou a dar expanção aos seus justo enthusiasmo. onde um dos manifestantes falou. pela comemoração dos vinte anos de Abolição da Escravatura. de 20 de maio de 1908. donde sahiram.”187 A manifestação dos descendentes de africanos na cidade de Lages. Levando à frente uma banda musical. da casa do comissário de polícia Francisco de Paula Ramos e. percorreu as ruas desta cidade. O “Centro Cívico Cruz e Souza”: etnicidade e civilidade O jornal O Clarim. ao povo lageano. de certa forma.. [.Na prática social. da redação do jornal O Clarim. e muito especialmente a Dona Isabel.]186 Naquele mesmo dia... por último. na rua Deodoro. acompanhados de uma grande massa popular. sugere que começara a florescer um autoreconhecimento. da redação do jornal Região Serrana. Tais diferenças constituíram-se em elementos importantes para o florescimento de uma etnicidade negra.].. 102 . do Colégio São José. trouxe em sua terceira página a notícia de que: No dia 13 de maio um grupo de pretos. por parte daqueles pretos lageanos. pelo ato magnânimo que concedeu aos de sua raça a liberdade considerando-os irmãos [. reforçadas pelo grande volume de imigrantes europeus que entraram no Brasil durante a primeira República. os manifestantes se prostraram em frente à sede do “Club 1o de Julho”. as diferenças entre negros e brancos permaneceram latentes e foram. de uma das janelas. percorrendo todas as outras ruas em repetidos vivas ao 13 de maio. sobre o “reconhecimento profundo à família imperial. em casa do senhor Luiz Pimentel.

como tesoureiro.] allumnos da Escola Nocturna dos Amadores da Arte.. secretário.]”191 e levaram adiante a idéia de uma agremiação para os “homens de cor”. considerados “irmãos” a partir de 13 de maio de 1888.de sua diferença pela “raça” ou pela “cor”. passara a se dar pela distinção da “cor”. liberto e escravo.. no regime de trabalho livre. os idealizadores da sociedade “Centro Cívico Cruz e Souza” foram alguns negros “[. Hemiliano Honorato da Silva. solenidades e sessões comemorativas foram realizados no 103 . Suas primeiras reuniões foram realizadas no “edifício onde funcciona a Escola Nocturna dos Amadores da Arte”193. o ‘Centro Cívico’. Saturnino Antonio do Pilar. secretário. alguns pretos de Lages fundaram o “Centro Cívico Cruz e Souza”188. Paulino Saldanha do Amaral. Congregando os descendentes de africanos do município.. esses jovens chamaram ao seu lado alguns elementos de fóra [. como 2 o. Os primeiros grandes bailes.. como estigma de uma posição social passada. assim formada: como presidente. elegeram sua primeira diretoria para a gestão de 1918 . como entidade recreativa. como vice-presidente. como orador oficial. como 1o. Alípio Cruz. Vicente Cassuly de Menezes190. cívica e literária dos “homens de cor”189. em relação aos “outros”. que no sistema escravista se deu pela condição de livre. e.1919. Segundo o jornal Cruz e Souza. um ano após a sua fundação. Joaquim Pinto de Oliveira. Em 6 de outubro do mesmo ano. contava com 60 sócios contribuintes que pagavam mensalidade de 1$000 réis192. A distinção social hierárquica. No dia 22 de setembro de 1918.

Conforme o protocolo. às 12 horas. pronunciou notável peça oratória. a festa da bandeira. os mais badalados eram o “13 de Maio”. sendo muito applaudido. foi hasteada. comparecendo á ella o senador Vidal Ramos. o superintendente cel. Em seguida o senador Coronel Vidal Ramos. era ditado. até então atribuído.“Theatro Municipal”194. cheio de belíssimos ensinamentos cívicos. pela comemoração da Abolição da Escravatura. de certa forma. em todas as repartições. declarando inaugurado o Centro Cívico Cruz e Souza.Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza”. nesta cidade. sr. controlado e manipulado pelas elites. um caráter de autorreconhecimento como “classe”. Às 8 horas foi aberta a sessão pelo presidente. Joaquim Pinto de Oliveira que. entre eles. de novembro de 1918. e o “22 de Setembro”. O surgimento do Cruz e Souza era associado à necessidade emergente dos descendentes de africanos de conquistarem e estabelecerem um espaço social próprio. Á noite. pela fundação do Centro Cívico. Esteve muito concorrida essa festa. com o seguinte conteúdo: Realizou-se. rece- 104 . á 19. promovida pela recem-creada sociedade – Centro Cívico Cruz e Souza – que escolheu esse dia para a sua inauguração official. O espaço social. distinto de “homens de cor”. Belisário Ramos. onde a congregação mútua promovesse. houve uma sessão cívica commemorativa. Vicente Cassuly de Menezes que produziu um bom discurso. deu a palavra ao sr. No exemplar do jornal O Planalto. estadoaes e municipaes. muitas outras pessôas eradas e os representantes da imprensa local. através da coerção policial e da progressiva urbanização da cidade. Dos eventos anuais. federaes. ou como um “grupo social”. a bandeira Nacional. no Theatro Municipal. foi publicada a notícia “A Festa da Bandeira .

principalmente quanto aos de origem europeia. 174). em seguida. A Orchestra do G. provocando um fortalecimento das ideias cívicas e de unidade nacional. nos jornais. A crise política social e econômica que proliferou em todo o mundo atingiu também o País. Fallaram. Paulino Saldanha do Amaral e Jucundino Godinho. principalmente. diversas peças do seu vasto repertorio. 1989. prolongada salva de palmas. fundadores do centro. até então. os srs. artigos sobre a questão do perigo germanófilo para o Brasil e de exaltação do civismo e do nacionalismo no país. pelo qual a intelectualidade brasileira passou a ressaltar o civismo e a necessidade de uma produção literária e científica nacional que. A questão posta pela intelectualidade era da necessidade de despertar o sentimento cívico e nacio- 105 . estava “desnacionalizada pela leitura. o período de 1914 a 1918 foi de transição ideológica para um “novo nacionalismo”196. e. “Amadores da Arte” abrilhantou a festa executando alem do Hynno Nacional e da Marselhesa. ao terminar. multiplicaram-se.195 No mesmo número do jornal O Planalto.P.D. Às 22 horas terminou a festa retirando-se todos satisfeitos pela captivante gentilesa dos homens de côr. Para o pesquisador Thomas Skidmore. p. principalmente a partir de 1917. estrangeirada pelos costumes alheios” (Skidmore. Um “novo nacionalismo”. foi também publicada a notícia referente às condições do tratado de armistício que pôs fim à Primeira Guerra Mundial. as notícias sobre o front. A imprensa local acompanhou atentamente o desenrolar da guerra em seus quatro anos de conflitos.bendo. De 1914 a 1918. quando o Brasil declarou guerra à Alemanha.

o preconceito de cor se estabelece na opinião pública. sobre uma das primeiras sociedades negras surgidas no estado de São Paulo nos anos vinte197. nas elites. onde a imigração branca se vem processando em larga escala..186) A fundação de uma sociedade recreativa para os “homens de cor”. [. por parte dos negros. A percepção. durante as primeiras décadas da República. como parte do seu todo. por carregarem o estigma da inferioridade racial. que se propunha a realizar ‘tudo pela integração do homem negro na comunidade nacional’.] O negro não é bem recebido. Para Arthur Ramos (1956): Na zona Sul..] E embora não exista nenhuma separação no plano legal. embora a legislação não estabeleça nenhuma separação. na comunidade branca.. “[. A comemoração e exaltação de datas cívicas pelos descendentes de africanos demonstrou o seu desejo de participar de um novo projeto de nação e a inserirem-se como sujeitos históricos desse processo.nal em todos os recantos do país.. amadureceu progressivamente. foi imbuída pelo caráter cívico.. estimulando na população o espírito de nação e de unidade.” (p.185) 106 . Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956). o Negro se sente como uma minoria oprimida.. o sentimento de alteridade em relação a outros grupos sociais. e até mesmo entre alguns setores populares.] vamos encontrar uma sociedade formada. (p. em Lages. de que a abolição e a constituição republicana não os colocou efetivamente em igualdade de oportunidades econômicas e sociais em relação aos outros elementos nacionais. [. como nos outros Estados do Centro e do Norte. por acontecer num momento em que o civismo estava latente no meio intelectual.

]. [. continua Ramos (1956): [. o “Clube 14” foi fundado por alguns representantes da elite que apoiaram e aplaudiram a iniciativa dos descendentes de africanos no ato cívico da Festa da Bandeira. em igualdade de condição com os brancos. quando da proibição de 107 . de São Paulo. A iniciativa da fundação do Centro Cívico.] o Negro se arregimentou em associações contemporâneas que visam à afirmação dos seus direitos sociais e políticos. onde se proibia em seus estatutos a inclusão de negros como sócios (Serpa. a legitimidade. da Inauguração do Centro Cívico Cruz e Souza. apesar da latente moral preconceituosa. Por ironia. 1996. o “Cruz e Souza” procurava ganhar o reconhecimento.185).. Por outro lado. proclamam ainda os direitos iguais..Exemplificando o proliferamento desse tipo de associação no estado de São Paulo. colocou os “homens de cor”. da elite em relação à negritude. no calendário programático de atividades sociais das elites políticas e da imprensa. 19).. de negros e brancos. política e cultural.. (p. Sob a bandeira do civismo. O preconceito estabelecido desde a abolição em relação aos descendentes de africanos negou-lhes as oportunidades de ascenção social a esferas superiores de um mundo que se consolidava como burguês e branco. Estas agremiações negras. em 1920. há o fato da fundação do “Clube 14 de Junho”. talvez o receio preconceituoso das elites. tenha se manifestado na fundação do Clube 14 de Junho. de ascenção social dos negros. nem sempre manifesta. na ordem econômica.. Como exemplo. dando-lhes um espaço que antes era só branco. a partir de 1918. o respeito e o apoio da intelectualidade e da elite lageana.] Como conseqüência lógica dos preconceitos de cor que lá se formaram.. [. estrategicamente. p.

o que nunca antes se fez necessário. desenvolver. pela sua dependência econômica direta em relação às potências estrangeiras. sem desvanecimentos pela nosso futurosa sociedade. era preciso modernizar. Os negros fundadores do Centro Cívico Cruz e Souza perceberam que um comportamento dentro dos padrões moralmente aceitos na sociedade possibilitava-lhes negar o estigma da “cor” associado à barbárie. assim. como também. Civilidade e negritude Trabalhamos pois unidos com afinco. assimilou a moralidade e a civilidade como elementos de seu significado. Estabeleceu-se. não só pelo seu desenvolvimento moral e intellectual. foi imposta a necessidade de fortalecer o nacionalismo. Em síntese. uma ambiguidade entre a perspectiva de dominação pelas elites. 180) que rompessem com os ícones estrangeiros do pensamento literário e social. através de referenciais próprios e nativos (Skidmore. em relação aos descendentes de africanos.198 A ideia de civismo no Brasil. trabalho e civilização. pois os lugares sociais estavam preestabelecidos. para continuarmos a honrar o excelso e immortal nome do nosso Patrono poeta lyrico Cruz e Souza. Diante da crise provocada pela guerra e o reconhecimento dos intelectuais e políticos de que a crise atingiu o país. para que seja a nossa divisa: – Moralidade. estimulando-se o progresso interno da nação. Para tanto. 1989. Trabalhamos pois.pretos como sócios. civilizar e educar o Brasil. que são documentos que confrontam e nos reabilitam para com os homens de mérito e de consciência. forjada pela intelectualidade naqueles anos da guerra mundial. o Brasil deveria se autoinventar culturalmente. através de projetos civilizadores e uma perspectiva de resistên108 . p.

Cruz e Souza.”199 Como sociedade recreativa. No inquérito policial de número 466. comentou que tudo ocorreu “[. De certa forma. os negros aceitaram uma segregação racial informal. “nós os do C. Segundo um dos diretores da sociedade. civilidade e ordem com que realizavam suas festas.]. de nome Genésio. O jornal O Lageano. nada mais fazemos do que grangear a sympathia de todos os que se interessam pelo progresso desta terra.. [.. aspecto importante para o reconhecimento moral positivo da agremiação ante as elites. que construíam sua consciência de classe e possibilidade de ascensão social na prática daqueles embates morais. ao relatar sobre os acontecimentos comemorativos do “13 de Maio” daquele ano. organizados pelo Cruz e Souza.] trabalhando pelo levantamento do nível moral e social dos homens de côr. aberto em 31 de novembro de 1931202 por crime de defloramento de Natalina da Silva Xavier. 18 anos de idade.C.. na promoção de seus bailes e festas. de “cor” morena. principalmente aquelas onde a maioria era descendente de africanos. articularam a possibilidade de alcançar uma projeção social. de 17 de maio de 1919. pela denúncia de 109 . mas. arquivado no foro da comarca de Lages..] na melhor da boa ordem [.cia dos próprios descendentes de africanos. por outro lado. a preocupação da diretoria do Centro Cívico. que sempre vigiaram atentas as manifestações de divertimento populares. era com a manutenção da ordem e a demonstração de civilidade200. foi acusado o namorado da vítima.”201 Os jornais locais constantemente elogiavam e parabenizavam os negros do Cruz e Souza pela demonstração de civismo...

Inês Zuza.. continuou a namorar Genésio.. Os depoentes que entonaram tal condição em seus testemunhos eram próximos à vitima e sabiam como o aparato jurídico interpretaria suas palavras. disse que viu Natalina por “[. em outubro. o baile do dia “22 de Setembro” de 1931. 19 anos. entre amigos e conhecidos de Natalina.] diversas vezes em bailes familiares.”204 Outras testemunhas reforçaram. Várias testemunhas arroladas no inquérito. foram surpreendidos no pátio de sua casa pela sua avó. o réu conseguiu desvirginá-la. novamente no quintal da casa da vítima.” 203 Outro testemunho foi dado por Antonio Manoel dos Santos. ainda.José Gregório da Silva Xavier. assim como na sociedade Centro Cívico Cruz e Souza e que seu comportamento era de respeito e honestidade. O “Centro Cívico Cruz e Souza” sedimentara-se. residente na cidade. No entanto. lavrador. 42 anos.. por con110 . Praxédes Goulart. em sua companhia. no entanto. lavrador. pois Natalina frequentava bailes no Cruz e Souza. natural de Lages. com as mesmas promessas de casamento. demonstrando para o aparato jurídico que o comportamento da vítima estava dentro dos padrões de moralidade aceitos pela sociedade. No auto de perguntas. o álibi da boa índole de Natalina.] lá ver Natalina dançar e ter seu procedimento digno de uma sociedade. fazendo-lhe promessas de casamento.. pai da vítima. membro da diretoria do Cruz e Souza. 23 anos. Disse ainda Natalina que. Natalina respondeu ser namorada do acusado há dois anos e que a primeira vez que ele tentou ter relações sexuais com ela. que atestou “[. destacaram o costumeiro comportamento regrado e moral da vítima. profissão doméstica. frequentando pela última vez. no Centro Cívico Cruz e Souza.

ele conta que este contou que a ideia da fundação do Centro surgiu quando ele. não organizam um centro cívico? Centro cívico.205 Na entrevista com Sebastião Ataide (1998). se aculturarem [. para a fundação do Cruz e Souza. o réu foi declarado culpado.. o dito político lhe disse: “Mas vem cá! Tá na hora! Por que vocês não se organizam. que conheceu o primeiro presidente do Centro Cívico Cruz e Souza. através da compreensão mútua de uma moralidade positiva da vítima. trocar as ideias. Joaquim Pinto de Oliveira. da moral civilizada e dos bons costumes. em 1918. onde vocês possam se reunir.”207 Daí que surgiu pela primeira vez a ideia posteriormente discutida pelos alunos pretos da Escola Noturna Amadores da Arte. passaram-se trinta anos do ano de fundação do Centro Cívico. e dissidência E assim foi que seguiu-se o baile na maior ordem e alegria. com o apoio político e decisivo do então deputado estadual Caetano Costa. justificada pelo fato de que ela frequentava o Cruz e Souza. fazer os bailes de vocês. A integridade moral de Natalina foi avaliada pelos depoentes. comentando que ele e outros desejavam fazer um baile com “gente escolhida”. No de111 . “Cruz e Souza”: resistência pela unidade.. No final do inquérito. estava fazendo uma calçada de pedras na casa do político Caetano Vieira da Costa206 e. Da Abolição da Escravatura. como um representante da ordem.venção social. Joaquim. não se reúnem vocês pretos. como também absorvida pelo judiciário.]. em 10 de agosto de 1932. para não acontecerem as costumeiras confusões. até alta da madrugada.

Se o trabalho. O Centro Cívico Cruz e Souza se consolidou pelo entrosamento do considerado “ordeiro” com o “desordeiro”.correr deste período. pela absorção da moral civilizada pela popular e pela resistência da moral popular à civilizada. Desorganizados. novos elementos de significado social foram inseridos ao cotidiano daqueles populares. A diversão ou tradição lúdica dos descendentes de africanos foi a motivação primeira para o surgimento do clube . de acordo com sua visão das coisas. A preocupação cívica e moral estava restrita ao grupo específico daqueles negros mais próximos da diretoria da agremiação. A maioria deles estava interessada no ambiente festivo e seguro que o Centro Cívico proporcionava em relação a possíveis interferências policiais. a moralidade. de sua existência. base da sustentação de seu quorum e. a ordem e a civilidade eram elementos do mundo burguês e branco. a estratégia civilizadora de dominação das elites fez conquistas. Mas com o progressivo aburguesamento da cidade. sem perspectivas econômicas. a vida cotidiana tradicional era o único sistema de valores em que os populares compreendiam o seu mundo. Paulino Saldanha do Amaral 112 . o lazer. De acordo com Sebastião Ataide (1998) sobre o perfil dos negros fundadores do “Cruz e Souza”. impôs seu modelo e sua moral de sociedade. sendo resignificados por eles. consequentemente. Joaquim Pinto de Oliveira e Alípio Cruz eram pedreiros. o profano e o festivo o eram do mundo popular e negro. destacamos alguns deles e suas ocupações. mas não sem a oposição veemente da moral popular.

conquistado algum tipo de formação escolar ou erudita. Vicente Cassuly de Menezes era tipógrafo de jornal. o jornal Cruz e Souza208.. Despido de toda e qualquer pretenção. ou destituídos de tal.] Conhecemos perfeitamente que a nossa leitura não fascinará e nem irá prender a attenção do nosso povo. O jornal mantinha a coluna “entre sócios” que noticiava aniversários. falecimentos. em 1919. No entanto. alguns deles se distinguiam da maioria por terem. que trazia a epígrafe: “Orgam do Centro Civico Cruz e Souza”. de alguma forma. a leitura deles é fundamental para compreender os significados da fundação do Centro Cívico para os descendentes de africanos. datado em 5 de outubro de 1919.tinha uma casa de secos e molhados no Santa Cruz. este modesto jornalzinho. Em seu primeiro número. que [porém] reconhecendo os nossos esforços na fundação de um jornal para negros. não deixará por isso. através do tipógrafo e jornalista Vicente Cassuly de Menezes. foram apenas cinco números.209 O jornal Cruz e Souza teve duração efêmera. conseguiu rodar nas oficinas do jornal O Planalto.. viagens. Apesar de humildes em suas posses. de auxiliar-nos. senão o de bem servir os interesses do ‘Centro Cívico Cruz e Souza’ e despertar o gosto pela leitura entre os seus associados. festas e a vinda 113 . o diretor Vicente de Menezes fez a apresentação do jornal à sociedade. dizendo: Apparece hoje ao povo de Lages. [. sendo o primeiro com data de 3 de agosto de 1919. e Sebastião de Oliveira Dias era professor. e. o “Cruz e Souza” não visa outro fim. o último. O “Centro Cívico Cruz e Souza”. Luiz Gomes Dias era sapateiro. Saturnino Antonio do Pilar e João Maria da Rosa eram funcionários do poder público.

pelo estigma da “cor”. Nosso lema é reunir os pequenos Os humildes que ganham seu pão.. entre outras notícias sociais sobre a comunidade do Centro Cívico. aquele grupo fundador almejava afeiçoar-se à moral civilizada para ascender socialmente. aculturador. Se isto era impossível. O hino do “Cruz e Souza”. um poema do poeta João da Cruz e Sousa. Sempre trazia. Não mais se houve o “bate pé” no Alto da Santa Cruz. com fé. os quaes sempre traziam maos resultados. para que se acabassem certos “sambas” e fez com que em nossa cidade reinasse completa harmonia. [. é esclarecedor: Do Civismo o pendão arvoramos Denodados.210 O Centro Cívico passou a ser um instrumento civilizador. 114 ..] O digno official providenciou ainda mais. em uma de suas páginas.. a exemplo do próprio poeta Cruz e Sousa –mesmo que ele só tenha sido reconhecido após a sua morte –.. Assim como o reconhecimento nacional conquistado por alguns descendentes de africanos na política e na literatura. entre outros.para a cidade de sócios do interior.]. com ardor. Em um dos artigos. no Banhado e nos seus arrabaldes. e publicava notícias em geral sobre a vida social e policial da cidade. elogiando a atuação do delegado de polícia da cidade. além de artigos de opinião. e “abrasileirador” de um grupo de negros. seria possível pelo “civilizar-se”. cantado pela primeira vez por seus membros em 1919. semanas inteiras. Quando ufanos e crentes fundamos Este Centro de paz e amor. perturbando o socego público. dizia o jornal: [.

Do saber gozaremos os lumes. a belleza.E dizer-lhes. o trabalho e a educação dos costumes. Mesmo que sua letra não tenha sido feita por negros.” A letra foi feita pelo deputado Caetano Vieira da Costa. em homenagem ao ‘Centro Cívico’ e musicada pelo maestro Lourenço Baptista e pelo negro Pedro Cândido. Para tanto elevemos nossa alma. altivos. o que significa um compactuar com aquelas ideias. 115 . P’ra galgal-o com honra e com glória. Os princípios morais conclamados pelo hino eram o civismo. Conquistemol-a em toda amplitude! Para tanto é mister aprender. Eduquemos os nossos costumes. A riqueza do pobre é a virtude. foi aceita pela diretoria do clube como seu hino oficial. Ao trabalho compete um logar De elevado destaque na História. celebrar. a humildade. Da victória teremos a palma. Sejamos unidos Que dez Valem mil! Cantemos as glórias [estribilho] Do nosso Brasil. A extensão. a fortuna. Aos seus filhos compete luctar. serenos! A grandeza da nossa missão. É a consciência da honra e dever. Do Brasil desd’as serras ao mar Os seus feitos de tanta grandeza É mister conhecer.

”211 Além daqueles negros fundadores do Bom Jesus. e quando isto acontecia. onde tá essa ‘Gruta Bom Jesus’ [no antigo bairro do Banhado]. em seus bailes. 116 .Aliado da moral civilizada. e. civilizada e cívica do Centro Cívico. Lá criaram um clube. Mas isto seria outra história.. O Bom Jesus foi um clube de bailes. promovia festas sem a preocupação ordeira. e a expulsar da “sociedade” os negros que provocassem badernas e imoralidades nas festas do clube. lá fora. Em vista disto. segundo Sebastião Ataide (1998). apesar de nunca terem conseguido coibi-las totalmente. o Centro Cívico passou a proibir a presença. o que significa que os bailes populares continuaram ocorrendo. assim como outros particulares que continuavam acontecendo. “[. o Cruz e Souza fazia questão de anunciar nos jornais que não tinha nada a ver com tais eventos212. tá lá.. outros continuaram promovendo festas e bailes fora do Centro Cívico.] uma ala de negros criou o ‘Bom Jesus’. pra eles.

o processo civilizador que administrou a omissão da presença verificável dos descendentes de africanos e sua cultura na região. só podiamos começar por uma releitura da escravidão. a resistência individual e coletiva da população negra. Para respondermos qualquer questão sobre a visibilidade dos descendentes de africanos. 117 . A origem do discurso sobre a insignificância numérica da população negra na região está ancorada na história que se fazia sobre o período escravista. demonstramos a premissa da existência de um passado histórico escravista. principalmente pela omissão sobre a população negra não-escrava na região. a partir da constatação de que ela esteve envolta pela categoria popular. e. no qual constata-se que os negros foram numericamente significativos.Considerações Finais O s temas condutores desta pesquisa foram: primeiro. a partir dos indícios que possibilitam afirmar como se constituiu certo sentimento de identificação étnica. Revimos as fontes quantitativas. Através dela. segundo. a visibilidade histórica da população negra em Lages. terceiro. e esclarecemos que elas foram invisibilizadas pela historiografia local.

os indivíduos de culturas populares diversificadas e criativas parecem ter resistido a tais projetos. A elite da região. justamente num período em que ele parece desaparecer da documentação histórica: o período das primeiras décadas da República. em que predominava nos jornais impressos e na bibliografia ensaística o discurso burguês de desenvolvimento. os setores médios e a Igreja Católica promoveram. uma batalha moralizadora dos costumes e práticas tradicionais de trabalho. civilizada e predisposta ao controle político e ao poder econômico. valores morais e costumes que estavam arraigados em suas vidas cotidianas. contra as camadas populares. em que não existiam a diversidade e os conflitos sociais com apelos a estereótipos raciais. de progresso e de civilização.Apesar da impossibilidade de quantificarmos os números da população negra pós-escravidão. Ao fazermos uma análise detida do cotidiano social popular daquela época. foi possível desmontarmos os argumentos ideológicos de uma região socialmente “homogênea” e “pacífica”. entre elas. lazer e religiosidade. Porém. percebemos que aqueles embates sociais eram perpassados por significados de diferenças e. primando pela manutenção de certas práticas sociais. foi através dos processos judiciais que surgiu a possibilidade de visualizarmos o negro de maneira qualitativa na região. vislumbrando uma composição social cada vez mais ordeira. em parte morando nos arrabaldes e bairros pobres de Lages e região. as diferenças constituídas pela referência à “cor”. estavam presentes os descendentes de africanos. No conjunto daquela população. frequentando 118 . Pela documentação jurídica.

começaram também a se concretizar e consolidar nas práticas do dia-a-dia as diferenças sociais entre os “brasileiros” negros e os “brasileiros” brancos. um estereótipo de qualificação social de indivíduos e grupos.“fandangos” e “sambas”. praticando sua mística religiosidade. O “ser negro”. Talvez. certa consciência étnica dos descendentes de africanos tenha se constituindo desde o período escravocrata. percebemos alguns exemplos de sentimentos de solidariedade étnica entre os descendentes de africanos. não os incorporara incondicionalmente e definitivamente em igualdade de oportunidades sociais ao ideal de civilidade e brancura do projeto nacional. republicanas e burguesas de liberdade. a população negra de Lages parece aos poucos ter percebido que o idealismo abolicionista e republicano. e a “cor” parece que passou a ser um elemento fundamental de distinção social. roubando ou trabalhando como servidores esporádicos e criados do serviço particular ou público. portanto diferente. no complexo que formava a pluralidade social na região e no País. positivistas. que os inserira na condição de cidadãos. Apesar do discurso de igualdade social difundido pelas elites. contestava. 119 . No entanto. igualdade e cidadania. e contesta no presente. Vimos que no dia-a-dia dos descendentes de africanos surgiam manifestações de reconhecimento de tais diferenças. a partir das últimas décadas do século XIX. quando as elites passaram a elaborar suas ideias abolicionistas. o discurso de unidade e “democracial racial”. A partir da aglomeração de famílias negras na periferia e da criação de sociedades recreativas.

principalmente no que se refere ao estado de Santa Catarina. se.No embate cotidiano entre as elites e as classes populares. Nem a dominação. podem também ser vistas como estratégias de alguns descendentes de africanos para ascenderem socialmente no plano daquela moral civilizadora. Finalmente. é que foram constituindo-se as estratégias de dominação e resistência na região. No caso da fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza”. apontamos para a necessidade de outros trabalhos sobre o tema. as estratégias de dominação da elite. por outro lado. Elas são elaboradas nas manifestações do cotidiano das relações. a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” representou um caráter ambíguo em tal embate. Para os negros de Lages. Por um lado. Ambas são construídas nas práticas das relações sociais entre os homens ou entre os grupos. onde o descaso com tais his120 . nem a resistência em relação a ela são vias de sentido único. por um lado. civilizada e excludente. Mas antes disto. muitos negros se recusaram a assimilar a moral de civismo e civilidade e não aceitaram fazer parte do club ou não foram aceitos por ele. por outro lado. parece que houve a aceitação da determinação de uma moralidade branca. e. bem como na experiência social vivida. As estratégias de resistência não se manifestam apenas nos momentos de conflitos sangrentos entre grupos sociais que se opõem. podem ser interpretadas como assimiladas pelos negros que fundaram o club. no que diz respeito a moral civilizadora e excludente. parece que havia ali a possibilidade daqueles negros se equipararem socialmente aos ideais de civilidade.

121 . tanto sobre o período escravista. fica aberta a questão para que se construam outras problemáticas. Tais espaços. em relação aos anos que se suscederam a fundação do “Centro Cívico Cruz e Souza” e a constituição do bairro da “Brusque”.tórias parece ter sido muito mais recorrente do que em outras partes do país. principalmente. quanto. tornaramse alguns dos principais e mais duradouros lugares de sociabilização dos descendentes de africanos na região durante quase todo o transcorrer do século XX. No que diz respeito ao negro na região de Lages. assim como outros que ainda precisam ser estudados.

122 .

na Comarca de Lages/SC. 1982). Anexo 02 – Fotografia da folha de rosto de um Processo Crime. do ano de 1905. (Acervo do Fórum de Lages).Anexos Anexo 01 Mapa da divisão administrativa do Estado de Santa Catarina no ano 1908 (Licurgo Costa. 123 .

Lagoão e Brusque circundando a área central. (Licurgo Costa. de Marino Malinverni. Anexo 04 – Mapa da cidade de Lages em 1940. 1982) 124 . (Acervo da família Malinverni). em que aparecem os bairros Banhado.Anexo 03 – Fotografia da obra óleo sobre tela Cacimba da Santa Cruz. primeiros anos do século XX.

Anexo 05 – Fotografia da primeira página do jornal Cruz e Souza. no ano de 1919. (Acervo Museu Thiago de Castro) 125 .

126 .

11 A miscigenação já era uma prática comum no Brasil desde a período colonial. 3 Sobre a teoria da insignificância. em seu livro Relativizando: uma introdução à antropologia social. 7 Ver a obra conjunta de Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni (1960): Cor e mobilidade social em Florianópolis. 4 Ver a obra de Heitor Blum (1939): A Campanha Abolicionista na antiga Desterro. ver Ilka Boaventura Leite (1996). 8 Cabe ressaltar que existiram diferenças teóricas e metodológicas entre os autores citados e que. 5 Ver a obra de Renato Barbosa (1940): Geração Abolicionista. 14 Sobre o envolvimento do fator racial nas relações hierárquicas no Brasil. da organizadora. obra já citada. ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997): “Margem da palavra. em relação às populações de origem africana em Santa Catarina. percorreu objetivos e problemas diferentes. cada qual à sua maneira. ver a obra de Thomas Skidmore (1989): Preto no Branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. ver o texto de Roberto da Matta (1997): “A fábula das Três Raças. silêncio do número”. em especial o artigo “Descendentes de Africanos em Santa Catarina: invisibilidade histórica e segregação”. de Ilka Boaventura Leite (1996. instituições e questão racial no Brasil. 2 Sobre a invisibilidade negra no Sul do Brasil. obra já citada. 15 Sobre tais conclusões. 13 Sobre as concepções racistas ortodoxas (à frente deles Nina Rodrigues) e os partidários do “branqueamento” (à frente deles Silvio Romero) a partir de fins do século XIX. 16 Conforme entendimento sobre invsibilidade.Notas Artigo publicado na obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): “Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade”. ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). ver a obra de Thomas Skidmore (1989). p. 9 Ver ainda a obra de Lilia Moritz Schwarcz (1995): O espetáculo das raças: cientistas. ver a obra organizada pela professora Ilka Boaventura Leite (1996): Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. ou o problema do racismo à brasileira”. 1 127 . obra já citada. 41). cientistas e teorias que prevaleceram no Brasil de 1870 a 1930. 1870-1930. 10 Sobre as instituições. 6 Sobre a produção de Cabral e Piazza. 12 Sobre as teorias de branqueamento da sociedade brasileira em fins do século XIX e início deste. já citada. em seus trabalhos. ver a dissertação de mestrado de Patrícia Freitas (1997).

“[. neste livro. no Brasil. na região. o intercâmbio e a purificação” (p. A partir daí.” (p. e elevada à categoria de vila em 1771. 23 Matheus Junqueiro foi um escritor lageano do início do século. 29 As denominações preto. autor da comédia intitulada Trapaça Matrimonial. a fundação do Club Primeiro de Julho (1896). contidas na “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. 27 Os municípios de Lages.. Por isso.18). a atividade social sistematizada. estão respectivamente citadas no dito documento. para aqueles autores.Ver as obras de Norbert Elias. a fundação do Mercado Público. O processo civilizador: uma história dos costumes (1994). o termo usado foi a categoria raça. Só a partir de 1766.] são partes orgânicas da vida cotidiana: a organização do trabalho e da vida privada. que aos poucos se extinguiu totalmente. segundo a autora Agnes Heller (1992): O cotidiano e a história. várias leis imperiais regulamentaram a proibição da escravização de indígenas. ou seja. e O processo civilizador: formação do estado civilização (1993). “cor” preta. a obra de Renato Ortiz (1985. et al (1985). havia algumas fazendas e moradores esparsos na região. em que o personagem Gregório Branco. em artigo sobre a “Reformulação das condutas e sociabilidades durante a Primeira República”. 26 Assim denominados os índios que eram escravizados até as primeiras décadas do século XIX. em 1801. entre outros acontecimentos. E. também denominada “Campos das Lagens”. depois de algumas tentativas frustradas de fundação de um núcleo populacional. p. sob os códigos: “B” de branco. o surgimento do primeiro jornal em 1883. Curitibanos e São Joaquim podem ser localizados no “Mapa da divisão administrativa de Santa Catarina no ano de 1908”. canta uma música. ver anexo 01. explica que muitos anos antes da fundação da vila. “P” de pardo e “N” de negro. como sinônimos de descendentes de africanos.17). Campos Novos. obra já citada. 19 Ver a obra de Marilena Chauí (1994): Convite à filosofia. 25 As categorias referentes à “cor”. 22 Expressão usada pelo historiador Élio Cantalício Serpa (1996). também. “o termo negro é 17 128 . de 1872. 28 No “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. o homem participa na vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade e personalidade. sobre “O lugar do negro na força de trabalho”. os lazeres e o descanso.. como pelos trabalhos realizados por pesquisadores das ciências ditas sociais e humanas. na cidade de Lages. 22): Cultura brasileira identidade nacional. a fronteira entre as categorias de “cor” e “raça”. 24 Licurgo Costa (1982). significa dizer que: “. O Lageano – e em seguida vários outros –. e. No estudo de Lúcia Elena de Oliveira. em Lages. pardo. os autores afirmaram que tanto pelos levantamentos demográficos feitos no passado. 20 Ver Lilia Moritz Schwarcz (1995). 21 Entenda-se aqui “cotidiano” como vida cotidiana que. a criação da Polícia Municipal. mulato e negro foram usadas. coibindo tal prática.. reformulação do Código de Posturas (1895). 18 Como exemplos.. em sua obra O Continente das Lagens: sua história e influência no Sertão da Terra Firme. sempre deixaram margem a dúvidas. da qual uma das estrofes é a trasncrita em epígrafe. a construção da nova sede do Poder Público Municipal e da nova Igreja Matriz.é a vida do homem inteiro. por determinação do governador da Capitania de São Paulo – a qual pertencia toda a região do que é hoje o Planalto Catarinense – foi definitivamente estabelecida onde é hoje a parte central da cidade de Lages. ou “póvoa”.

É importante observar que o autor omite a fonte de origem de vários destes números. 33 Essa informação foi tirada da leitura de diversos processos crimes e ações de liberdade do período escravista. 1875. 39 Ver. os estudiosos do problema racial usaram o método comparativo. 34 SANTA CATARINA. a chamada “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto” ou “Mapa Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Districto” traz informações detalhadas sobre os “fogos” existentes. Arquivo do Convento Diocesano da cidade de Lages.. 36 Sobre a escravidão nas áreas de criação de gado do Sul do Brasil. 45 LAGES.] durante o século XIX. 1887. retirados de fontes diversas. em 1801. Maço 40. obra já citada. Foro da Comarca. Para o autor. ano de 1776: 110 escravos. 44 LAGES..um termo consagrado pelo pensamento social brasileiro para designar pretos e pardos [. publicou na revista Estudos Afro-Asiáticos interessante artigo com o título “Fazendo a exceção: narrativas de igualdade racial no Brasil. Sargento Mór Comandante. como nomes de todos os indivíduos da família. 30 Em Licurgo Costa (1982). 437/438) 37 Ver. Maço 45. 32 “RECENSEAMENTO GERAL DO BRASIL”. o autor relaciona alguns números demográficos sobre população escrava de Lages. Foro da Comarca. 129 . ou seja... a “Lista Geral dos Habitantes da Villa de Lages e seu Disctricto”. 1879. Processo Crime.. Maço 31. ano de 1856: 1195 escravos. durante o período escravista. Processo Crime. 1872. a pecuária gaúcha evoluiu no sentido do emprego mais frequente de peões sob formas rudimentares de salariado. ocupações e observações que se referem à propriedade e à produção dos fogos. diz que “[. 26 Abr. Francisco José da Rocha à Assembléia Legislativa Provincial do Estado em outubro de 1887". 40 LAGES. em Lages. tendências teóricas de excpecionalismo racial. idade. Processo Crime. 1884. coexistiram na pecuária o trabalho escravo e o trabalho livre. “Relatório do Presidente da Província Dr.. e Maria Helena Machado (1994): O plano e o pânico: os movimentos sociais da década da abolição. ano de 1884: 1233 escravos. onde demonstra como se construíram. Foro da Comarca. Processo Crime. ano de 1801: 136 escravos. para negar a existência de conflitos na própria nação ou região de onde falam. ver a obra de Maria Hebe Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista do Brasil. ano de 1886: 1076 escravos. o historiador Jacob Gorender (1988). condição social. 42 O professor de ciências políticas.] podemos concluir que. 41 LAGES. Os números são os seguintes: ano de 1766: 50 escravos. 43 LAGES. ano de 1829: 338 escravos. em relação a outras nações ou regiões. 11). estado civil. Governador (Rocha). por exemplo. 31 Sobre alguns números da população livre de origem africana. ano de 1883: 1522 escravos. ano de 1887: 1064 escravos. àqueles que manifestam fenotipamente características de ascendência étnica africana. Foro da Comarca. Março 30. ano de 1872: 2012 escravos. assinado por João Damasceno de Córdova. 1800 e 1801. ano de 1840: 1000 escravos. 15 Jun. Processo Crime. Florianópolis. empregos. 1867. Michael Hanchard (1995).]” (p. de Norte a Sul. no México e em Cuba”.” (p. 09 Abr. como exemplos: Sidney Chalhoub (1990): Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. [. naquelas nações. ano de 1777: 191 escravos. 38 Dos anos de 1799. Maço 48. 35 Processos crimes até 1888. jornal Guia Serrano e Lista Geral dos habitantes. cor. 23 maio 1879. Foro da Comarca.

Maço 64. p. obra já citada. LAGES. Processo Crime. ao passar-lhe o governo. Foro da Comarca. Superintendente (Vidal Ramos). século XIX. nos arredores da cidade. 1869-1914. Foro da Comarca. Em síntese. 1903. “Relatório do Superintendente Municipal de Lages Major Vidal de Oliveira Ramos Júnior ao Conselho Municipal em 01 de janeiro de 1899. Rothermund. Sobre a vida dos homens livres na ordem social escravocrata brasileira. Sobre as teorias científicas que fundamentaram o determinismo racial. por estarem diretamente ligados a um determinado projeto de nação branca. “Sinopse da Administração do Estado de Santa Catarina. p. Foro da Comarca.02) desejada pelo Estado. 03 out. No caso do pedreiro Gregório. “Problema Negro” é também o título do artigo. o escravo agia de acordo com a sua própria compreensão em relação à situação em que se encontrava e não simplesmente reproduzindo a ótica opressora. Lages. em sua obra O espetáculo das raças: cientistas. ver a obra de Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997): Homens livres na ordem escravocrata. Caixa 13. 1886. 1883. LAGES. Foro da Comarca. LAGES. 18. p. LAGES. é até hoje conhecida como Índios. 1884. 04 Jun. Para Lilia Moritz Schwarcz (1995). apresentado pelo Governador Coronel Vidal José de Oliveira Ramos ao senhor Major João Guimarães Pinho. as categorias oficiais usadas pelo Estado para a identificação dos indivíduos em censos e relatórios demográficos. O Imparcial. Sidney Chalhoub (1990). atuam como “[. 26 Dez. Foro da Comarca. SANTA CATARINA. Para Hernan Otero (1996). 1883. Caixa 14. citado anteriormente. Presidente do Congresso Representativo do Estado. Ver ainda. LAGES. porém. ver a obra de Tzvetan Todorov (1993): Nós e os outros: a reflexão francesa sobre a diversidade humana. Ação Cível de Liberdade. é interessante o trabalho de Keila Grinberg (1994) Liberata. A promotoria pede a condenação dos réus em abril de 1913. p. 06 Dez. 01.. Ação Cível de Liberdade.. os “Homens de Sciencia” eram aqueles vistos como representantes do saber autorizado e legítimos observadores dos ‘problemas’ raciais do país. Lages. instituições e questão racial no Brasil. sobre as “visões da liberdade”.. 19. Ação Cível de Liberdade. a lei da ambiguidade: as ações de liberdade da Corte de Apelação do Rio de Janeiro. é o desaparecimento das definições que identificam a negritude ou a indianidade em tais documentos. O Imparcial. Governador (Vidal Ramos). São Leopoldo.] matrices mentales y discursivas que desempeñaron un rol importante en la creación y la divusión de uma imagem de la sociedade y la Nación [. quadriênio de 1910 a 1914. 06. Caixa 14. em seu estudo sobre a Argentina. 27 set. Maço 51 A localidade “Santo Antonio dos Índios”. p. dando margens à dúvida de que foi abandonado à revelia da 130 . Sobre os procedimentos usuais para a entrada com uma ação de kiberdade no período escravista. o processo está incompleto. obra já citada. 1899.. só foi possível identificar sua “cor” pelo depoimento de algumas testemunhas arroladas no processo.46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 Segundo Sidney Chalhoub (1990.]” (p.1912. em junho de 1914". Processo Crime. denominado Crisol de razas e integración de inmigrantes en la Argentina. Ação Cível de Liberdade. 41). Foro da Comarca. LAGES. n. Caixa 13. n.01. LAGES. 1903. 09 mar. 22 out. 07 jun. 1885. assim como outros em documentos oficiais. Typ. 1870-1930.11/12.

Algumas notícias e artigos que se repetiam com freqüência nos jornais da época. Devido à distância e aos acidentes geográficos no caminho entre Lages e alguns centros maiores. Tribunal de Justiça. Sobre o combate ao comportamento popular e a projeção de uma moralidade civilizada pela imprensa. Maço 60. 900. como Curitiba. p. ver relação de jornais pesquisados em “Fontes documentais”. 1899. cuja duração compreende maior ou menor lapso de tempo” (p. Tania Navarro Swain (1994): Você disse imaginário? . CRUZEIRO DO SUL. o “Região Serrana”. Apelação Crime n. 1889. Foro da Comarca. n. Foro da Comarca. p. n. 1888. melhoramento de vias urbanas. 21. o “O Clarim” e o “O Planalto”. e. 25 jun. Maço 78 LAGES. 1996. novo prédio para a prefeitura. 1916. Ver Bronislaw Baczo (1985): A imaginação social. 18 Set. até os primeiros anos do século XX. 14 Dez. Porto Alegre e Florianópolis. através das mais diferentes linguagens. Apelação Crime n. Já citado. 04.. CRUZEIRO DO SUL. Anexo ao processo em questão. Processo Crime. atua como um vigoroso caudal que atravessa obliquamente as formações sociais. Jun. o “15 de Novembro”. Esta elite pode ser identificada como sendo formada pelos fazendeiros. A Evolução. 1902. encontramos a Certidão de Batismo do réu. SANTA CATARINA. saúde. 1904. Em seguida. 19 Dez. “O Cruzeiro do Sul”. 17). Tribunal de Justiça. 14 dez. O primeiro jornal que surgiu na cidade foi “O Lageano”. 31. Isso até os anos vinte deste século. encontrados no Fórum da Comarca de Lages e no Arquivo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Lages. comerciantes. o “Escudo”. altos funcionários públicos e profissionais liberais ( SERPA. o “Município”. em todos os níveis. Lages. Foro da Comarca. reformas no Mercado Público. Foro da Comarca. Foro da Comarca. o “Aurora”. Segundo Tania: “[. solteira. “O Imparcial”. LAGES.66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 justiça – o que é bem provável – ou tenha se perdido no tempo. Processo Crime n. 18 Set. Lages teve dificuldades na comunicação freqüente com tais centros. 01 Set. 01. LAGES. Maço 75 131 . em 1883. 24 Mar. Caixa 19. surgiram outros tantos. LAGES. 1912. Foro da Comarca.49). 1899. na virada do século XIX para o XX. 920. estavam relacionadas à higiene pública. 1889. entre outros temas. Maço 60. 19 Dez. SANTA CATARINA. Maço 78 Os acervos e documentos consultados para tal caso foram os inquéritos policiais e processos crimes do período entre 1888 e 1920. Maço 51. filho da preta Gervásia. Lages. n. Para consulta. 14. penetrando todos seus meandros.. o “Rebate”. iluminação pública. 1906. p. ver o artigo de Anderson VARGAS (1994): “Moralidade. 04. LAGES. Inquérito Policial. nascido em 16 de outubro de 1881 na Freguesia dos Baguaes.] o imaginário. 1915. no final desta dissertação. LAGES. Processo Crime. Caixa 19. Processo Crime. construção e limpeza de cacimbas para o fornecimento de água. Inquérito Policial. autoritarismo e controle social em Porto Alegre na virada do século 19". Sobre processo civilizador. 7. como o “Echo da Serra”. ver Norbert ELIAS (1993). todas as classes sociais – interclasse – modelando conjuntos/pacotes de relações sociais hegemônicas. durante pesquisa realizada em 1999. 05 abr.

no anexo 04. Todo o universo social. autoritária e que relegava aos leigos papel secundário em assuntos de cunho religioso. A intimidade. centralizada. igualmente diferenciados entre si por meio de vários critérios. como também a sua ausência.Santa Catarina de 1894 a 1904. propriedades. p. 16 Set. nome dinheiro. 100 Roberto da Matta (1997) define o sistema de hierarquia social brasileiro. 7. a consideração. Foro da Comarca. 98 LAGES. Lages. Maço 75. 1918. dos anos de 1888 e 1889". uma diferenciação para cima. “orelhano” significa animal sem identificação. 88 SANTA CATARINA.] A referência ao catolicismo. Foro da Comarca. Processo Crime n. 59. consultar a obra de Hebe Maria Mattos (1998): Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista . Esse é. que no Brasil se desencadeou na segunda metade do século XIX. 21 mar. Lages. títulos. Foro da Comarca. e tomou corpo durante a Primeira República com a expansão de seus ideais por todas as unidades da federação. a literatura utilizou os termos catolicismo romanizado e catolicismo ultramontano. o índio e o negro. LAGES. 94 LAGES. está ligada à tendência da Igreja em afirmar os princípios hierárquicos da sua política organizacional fortemente burocratizada. acaba pagando o preço da sua extremada desigualdade. 1907. Maço 30. pois. especialmente o capítulo 18. ou selvagens. 25).]”. 99 Sobre as categorias de cor em registros civis de nascimento. 161.” (p. Neste sistema. 1907. Florianópolis. 1888. admiti-se. 93 São José do Cerrito é hoje um município localizado na direção oeste da cidade de Lages. Lages. 102 Bispo da diocese Paraná . nem senhores (diferenciados pelo sangue.03. 96 LAGES.. Processo Crime n. 58. 16 Set. 86 Ver a imagem da capa de um destes processos crimes. 1902. século XIX. distante 30 km do centro. 89 Sobre banditismo. então.).. com adjetivo ultramontano. Maço 78. Hobsbawm (1976): Bandidos. Processo Crime. casamento e registros religiosos. 1902.Brasil.. Foro da Comarca. 03.. 21 mar. “Mensagem do Governador do Estado de Santa Catarina Engenheiro Civil Hercílio Pedro da Luz dirigida ao Congresso Representativo de Santa Catarina em agosto de 1896". 14. parece-me. “Ofício do Delegado de Polícia para o Presidente da Província . Processo Crime n. Processo Crime. 95 Conforme jornal A EVOLUÇÃO. sem marca de propriedade. J. relações pessoais passíveis de manipulação etc. Foro da Comarca. Maço 10.75). Governador (Hercílio Luz). Inquérito Policial. 87 No linguajar da região. nem os escravos. 101 Segundo Élio Cantalício SERPA (1997): “Do processo de romanização da Igreja. não há necessidade de segregar o mestiço. em sua visita de outubro 84 85 132 . um ponto-chave em sistemas hierarquizantes. 18 jul. óbito. 17 Abr. 97 A EVOLUÇÃO. (p. 7. 1889. 01. dizendo: “Ninguém é igual entre si ou perante a lei. 1907. pela mesma lógica. Maço 65. 01 Set. 103 Trechos dos “Diários de Dom José de Camargo Barros”. 91 O Planalto. n. [. o mulato. colocando tudo em gradações. porque as hierarquias asseguram a superioridade do branco como grupo dominante. educação. criados ou subalternos. o favor e a confiança. podem se desenvolver como traços e valores associados à hierarquia indiscutível que emoldura a sociedade [. 17 Maio 1918. Maço 65. Foro da Comarca. quando se estabelecem distinções para baixo. ver a obra de E.LAGES. n. 17. 90 ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA. 17. p. p. n.Mapas demonstrativos do movimento de entrada e saída de presos da cadeia de Lages. 18 Set. 92 LAGES. n. n.

É de notar o aprumo dos pretos e a tafularia das pretas. Que movimento/ Os rojões cortam o espaço.]”. marido da Iria. no bairro Coral. 22 abr. prosperidade e justiça na terra [. Apud.. introdução de novas relações sociais com a penetração do capitalismo no campo e o aumento significativo da população com a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande. Igreja e assim contrária as ensinações de Jesus Christo [. A imagem e as alfaias da antiga capela Rosário foram transpostas para nova igreja. Seu amo. que profunda veneração de todos. 108 Referindo-se a uma dessas festas. no século XVIII. E vão pela rua Paranaguá e dobram a esquina da velha Matriz e regressam na mesma ordem.de 1898 o estado de Santa Catarina. Walter Fernando Piazza (1984). O novo local da igreja do Rosário ficou bem distante da área onde antes funcionava a capela.S. propriedade de terra nas mãos de poucos. completamente contrária aos preceitos da S. projetando um sonho que de acordo com suas condições concretas e culturais lhes parecia viável.]. Atrás do andor vai a música do Justino – o maestro Justino Espíndola de Lima..” (p. Prossegue o articulista.. 21. Lages. alemães e portugueses. Vai Sair a procissão! Lá vem o Agostinho. 1902. acusando a irmandade de não entregar a chave da capela e não 104 133 . Depois. por ocasião de sua inauguração. Segundo Élio Cantalício Serpa (1997). E que respeito.. sobre as raízes do movimento milenarista caboclo do Contestado: “A problemática social esboçada na forma de analfabetismo generalizado. expropriação da posse da terra por empresas estrangeiras. brancos e pretos! . o prestigia e deseja o brilho da festa para cabal desempenho do tio Agostinho. A utopia calcava-se na possibilidade de instaurar ‘um reinado de paz. 64): O negro no planalto lageano. S. dizia o jornal O Clarim. Depois vem o tio Horácio.. 111 O Imparcial. do Rosário volta para o seu altar. o João Mocámbique. liberto do Padre Camillo. exímio tocador de sino. Sobre o Contestado. com seu cavanhaque. enquanto na rua a música ataca uma marcha religiosa e a Imagem vai solenemente subindo a escada da celebrada Igreja do Rosário. Novamente a Imagem de N. onde residiam muitos descendentes de italianos. 106 Sobre “Irmandade do Rosário”. o tio Cinza.. a do ano de 1880. 01 nov. p. p. 72). 110 Ver no anexo 3. escravo do fazendeiro Antônio Ribeiro dos Santos. 107 Sobre histórico da fundação da capela Nossa Senhora do Rosário em Lages. 105 Expressão usada por Élio Serpa (1997.. solene. a imagem da antiga capela da Santa Cruz. o Martinho e o Rogério do Juca Antunes. de cartola e calças brancas e sapatos lustrosos.. 1911: “É portanto lamentável que a festa que se vai realizar como tantas outras já realizadas seja. independente da boa fé que por ventura haja de seus promotores. p. Lages. narrou Otacílio Costa (1943): “Dez de outubro! Dia de N. n. Depois vem o Antônio Ismério bem trajado e mais o Pedro Cachoeira. benquisto vem o Padre Antônio e ao seu lado o Manézinho. do Rosário.. respeitado. a seu lado. o tio Cypriano.. 112 Sobre a “Festa de Santa Cruz” no ano de 1911. preto alto. ver a trabalho de Julita Scarano (1978): Devoção e escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino. ver trabalho de Sebasitão Ataíde (1988. 01. ver também a obra de Maurício Vinhas de Queiroz (1981) Messianismo e conflito social no Brasil: a guerra sertaneja do Contestado: 1912-1916. 55).” 109 Em 1943. É o festeiro do ano. foi inaugurada a igreja do Rosário. fizeram com que homens e mulheres respondessem a esse conjunto de situações. escravo de Claudiano Rosa. Obra já citada.

Maço 38. 24 Abr. em 03 de janeiro de 1914. ou “meio fazendeiros” ... 26 dez. Maço 82. está distante poucos quilômetros da cidade de Lages. Lages. 27 maio 1908. usando ambas as denominações como sinônimos. Lages. n. 36. com um número menor de cabeças de gado. 08 Set. em obra já citada. 127 LAGES. Processo Crime n. Processo Crime.. 1908. 1895. podemos dizer que eram “os pequenos criadores e grandes negociantes de gado de corte”. p. Otacílio Vieira da Costa. 30. Maço 32. Sobre tais definições. 132 LAGES. 1908. em que enfatizava que.] “. 131 LAGES. 02. Foro da Comarca. Processo Crime. hoje município. 216).]”. 30-42). 126 A antiga localidade denominada Painel. 79. 04. Lages. 114 O Clarim. no Brasil. LAGES. 117 O jornal Gazeta de Lages. Processo Crime. n. 128 Sobre a violência como norma comum de conduta. p.. 07 set. Maço 32.. 29 jan. 03. Quanto aos “meio fazendeiros”. 119 Em alguns processos crimes pesquisados. “[. Lages. 15 maio 1910. 20. 03. p. Foro da Comarca. p. 132. 11 maio 1914..03. 129 Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997). Foro da Comarca. 134 O Clarim. a aproximadamente 50 km. 113 134 . Maço 60. Processo Crime. Foro da Comarca. p. p. trabalhou a questão da solidariedade entre os trabalhadores rurais do século XIX (p. 1918. 1908. No processo crime em que foi acusado José Borges de Amaral e Castro: LAGES. 124 No original: “Con el concepto de legitimación quiero decir que los hombres y las mujeres que constituían la multitud creían estar defendiendo derechos o costumbres tradicionales [. Maço 38. 02. em casa de Domingos Leite Júnior [. 02. apresentado ao Conselho Municipal. disse que: “[.. 125.” (p. 24 jan. Processo Crime n. Processo Crime. 1900. n. pelo sr. n. 122 Dizia jornal A Notícia . 123 Jornal O Planalto. p. p. 129). 1899.. 01. no anno de 1913. Foro da Comarca. 1912. p.. 24 Abr. 23 mar. que “[.. 34. n. 130 A antiga localidade de Capão Alto é hoje um município localizado na direção sul de Lages. aprovado em 1895. 118 Segundo o antropólogo Arthur Ramos (1956): “Batuque e samba tornaram-se dois termos generalizados para designarem a dança profana dos negros. 30 Abr. intelectual e material desta parte do Estado.prestar contas às autoridades diocesanas. ver Maria Sylvia de Carvalho Franco (1997.. 03 nov. n. os termos “fandango” ou “samba” foram usados indiscriminadamente como sinônimos de “baile popular”. Lages. transcreveu parcialmente o Código de Posturas do Município de Lages. 1995. 120 Região Serrana. 1914: a prefeitura do município de Lages publicou o “Relatório da gestão dos negócios do município de Lages. Foro da Comarca.] acontecia um “samba ou fandango”.17.] a administração não tem medido esforços em prol do desenvolvimento moral. Foro da Comarca. p. 1900. 45). 51): Homens livres na ordem escravocrata. 116 O Clarim. p. 133 Os criadores da época eram fazendeiros com centenas de cabeças de gado. ver Maurício Vinhas de Queiroz (1981.] a atual administração que manifestamente procura dar a esta cidade um cunho differente alliando a higiene e o embelezamento”. innegavelmente mais adiantada hinterland Chatarinense”. n. ao abrir a denúncia. Lages. 115 LAGES. 125 LAGES. 1908. o promotor público. 10. substituto em exercício do Superintendente Municipal”. 23 mar. 11 maio 1914. Lages. Maço 82. (Thompson. 125. n. 121 Segundo jornal A Notícia. 3.

Foro da Comarca. ver Sidney Chalhoub (1986. construídas algumas praças e jardins. que os populares vivem em um estado anômico ou patológico [. 150 Conforme Sidney Chalhoub (1986): “ [. Foro da Comarca. 51). Também foram abertas novas ruas – acabando com alguns cubículos existentes na área central –. 144 Algumas leituras contemporâneas interessantes sobre o mito da democracia racial brasileira são os trabalhos de Michael Hanchard (1995) e Fernando Rosa Ribeiro (1995): A nação em fluxo. 152 Ver: SANTA CATARINA. 1982. 1907. etnia e estrutura social. em 1902. já citada. concluindo-se. 03. 141 Sobre definições de espaço público e privado. Maço 29. 1428). Foro da Comarca. Maria Odila Leite da Silva Dias (1995. p. malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro.. (Costa. 1913. 136 O Clarim. 142 Em relação ao cotidiano conflituoso dos populares e sua relação com o aparelho judiciário e a polícia. p. 22 Mar. Maço 29. Processo Crime. 17 Jul. também. estas foram algumas das sociedades beneficentes criadas na cidade de Lages.35. e a Igreja Matriz de Lages. do ano 1888 a 1918. 151 A primeira entidade beneficente em Lages foi o Clube União Artística. Canoas e Rio Bonito. 70. n. 20 maio 1908. p. n. algumas casas e edifícios foram construídos ou reformados com traços arquitetônicos ao estilo europeu. 20 maio1908. e LAGES. (p. então. n. 02 Jan. Fulvio Aducci apresentado ao Governador do Estado Dr. 1905. 1890. Quanto à visão das classes dominantes em relação ao cotidiano dos populares como patológico. consultar. 16 set.. 149 Naquela época. Campo Belo. 163-204). fundado em 27 de novembro de 1892. Capão Alto.Artigo com o título “13 de maio” publicado no jornal O Clarim. e da obra de Licurgo Costa (1982. os seguintes processos: LAGES. Em 19 de janeiro de 1917. Informação tirada da leitura sistemática dos Processos Crimes de 1888 a 1918. 56..03. Em 12 de julho de 1906.. 13. 147 Para confirmação quanto à presença de descendentes de africanos em corridas de cavalos. em 1912.] a conduta real vivida pelos membros das classes populares não se ajusta aos padrões dominantes. 35. p. n. ver obra de Roberto Da Matta (1997. 1428). Processo Crime. 140 Ver obra de Roberto Cardoso de Oliveira (1976): Identidade. terminada em 1921. o prédio da Escola Estadual Vidal Ramos. e arborizadas outras vias já existentes. 148 A Evolução. Processo Crime. Maço 45. p. Processo Crime. ainda. está distante pouco mais de 50 km da cidade de Lages em direção ao Rio Grande do Sul. Coxília Rica. Segundo Licurgo Costa (1982. Felippe Schmidt em 1o. n. ver. Foro da Comarca. foi criada a Ordem Franciscana Secular. foi fundada a Conferência Vicentina de Lages. n. 22 Mar. 145 Na área rural de Lages existiam raias no Painel. 146 Na zona urbana e suburbana da cidade. n. 87-107): Carnavais. como o prédio da Prefeitura Municipal. Observamos ainda que os números do jornal O Clarim vêm com a seguinte subscrição.114). Foro da Comarca. Maço 29. Lages. n. as raias se localizavam no “Banhado” e no “Conta Dinheiro”. 143 LAGES. Maço 26. 137 LAGES. p. 120. 33. 139 LAGES. 1908. “Relatório do Secretário Geral dos Negócios do Estado Dr. p. 1905. Secretário Geral dos Negócios do Estado (Fulvio Aducci). p. hoje município Campo Belo do Sul. em primeira página: Orgam Popular e Independente.1401-1405).33. p. 138 A localidade de Campo Belo. Lages. Processo Crime.]”. 02 14 fev. de 135 135 .

27) 160 Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias (1995). anexo 4. no mês de maio de 1949. p. 162 Sobre a localização dos bairros “Lagoão”. Godinho.O infrator será punido com uma multa de 10$000 a 20$000 reis. em geral. 157 Hoje.” (p. Processo Crime. finalmente. 163 A Evolução. 12151390). (p. Superintendente (Belisário Ramos). a iluminação. ou outra característica qualquer de suas redondezas acabavam tornando todo um dado recorte da região urbana. 1909. 154 O PLANALTO. 1906. ameacem ruína ou desabamento serão no prazo marcado pela superintendência. demolidas por seus proprietários. “Relatório do Superintendente Municipal Belisário Ramos apresentado ao Conselho Municipal em 02 de janeiro de 1906". além de outros cargos do executivo municipal e do legislativo estadual e federal. Maço 28. além de outros cargos. eram localidades da área urbana não necessariamente denominadas oficialmente pelo poder público municipal como “bairros”. do Lagoão e da Brusque. Belisário José de Oliveira Ramos. Curitibanos. e a migração das mesmas das áreas centrais para a periferia: “ [. LAGES. Florianópolis. Lages. Colleção De Leis Do Município. frentes. irmão de Vidal. e a maior parte dela também foi engolida pelo centro da cidade. 185. 03. foi por sucessivas vezes. Hoje toda aquela região é conhecida como bairro da Brusque. oligarquia de políticos lageanos de renome estadual. 14 fev. consultar a obra de Licurgo Costa (1982. 02.17) 161 Naquela época. n. foi governador e interventor estadual de 1935 a 1945. Para maiores esclarecimentos sobre tais nomes. superintendente municipal de Lages. já citada. d’O Estado. Observação: o município de Curitibanos está localizado na região do Planalto Catarinense. 155 Referimo-nos principalmente à família “Ramos”. a parte alta era denominada de Brusque e a parte baixa era chamada de Lagoão – por causa de um córrego que passava naquelas proximidades. junto ao Centro. 158 O Lagoão era uma região que se confundia com o bairro da Brusque por fazer parte de seu prolongamento. filho de Vidal. Maço 38. inclusive.julho de 1916". quaesquer edifícios. obras em construções que. 1917.] expulsaram-nas o aburguesamento da vila. . Typ. a sua custa. reconhecido com aquele nome. de 1910 a 1914. de 1902 a 1906. Localizados numa região íngrime. o alinhamento das casas. e governador. os melhoramentos urbanos. da cidade de Lages. chama-se bairro Copacabana. Nereu Ramos. ver mapa da cidade de Lages. aproximadamente a 80 Km. o Código de Posturas do município dizia o seguinte: “Art. Lages. 153 136 . n. 159 Impresso em: LAGES. Foro da Comarca. 01 fev. logo após do prazo. 164 LAGES. 1921. a presidência da República do Brasil por alguns dias.Os muros. 13. Região Serrana. as estradas de ferros”. 156 Hoje faz parte da área central da cidade. Lages. p. um rio. 1895. e ocupou. Typ. e far-se-há a mesma demolição. de 1940. casas e sobrados e. do Banhado. 30 Mar. 165 LAGES. o encarecimento dos impostos municipais e. no todo ou em parte. 01... Entre os expoentes da família: Vidal Ramos Júnior foi vice-governador do estado de Santa Catarina. 39 . Foro da Comarca. p. 26 Jan. n. Processo Crime. Gabinete Typográfico J. do ano de 1902 a 1922. É o caso de Santa Cruz. “Brusque” e “Banhado”. foi parte desse município até o ano de 1875. sobre o cotidiano das mulheres pobres paulistas no século XIX. 1907. onde às vezes uma rua.

187 O Clarim. Lages. 1998. 20 maio 1908. 179 Conforme informações retiradas da leitura de alguns processos crimes da comarca de Lages durante a década de 30. n. 184 Conforme o jornal Correio Lageano. Foro da Comarca. Maço 27. Lages. 167 LAGES. Carolina Eva 166 137 .. Maço 88. liberta. num baile no lugar denominado Banhado. 05. quando a promotoria requisitou que se identificassem corretamente os réus. 182 A cor de Lino Garcia dos Santos foi identificada em: LAGES. ver o capítulo:Contra a ‘cor’ inexistente. n. 10/11 ago.]. 185 Baseado na obra de Roberto Cardoso de Oliveira: Identidade. Foro da Comarca. 1927. Cabe ressaltar que trabalhamos a história oral conforme o entendimento de Verena Alberti (1989): História oral: a experiência do Cpdoc. 1923. Caixa 44. 17 Maio 1918. e informações do jornal Correio Lageano. Processo Crime. 05 fev. n. 10 mar. Apelação Crime.1998. 1998. 03. Lages. nascido em Desterro (Florianópolis). membro da diretoria do Centro Cívico Cruz e Souza. p. Maço 10. 180 Conforme entrevista com Sebastião Ataide (1998). Tribunal de Justiça . 3063. 05 Fev. 26 jun. Apelação Crime. 1997. 174 Ataide. 170 Sobre o curandeiro Pedro Barulho. 15 Jun. 1997. 26 jun. 175 Cruz e Souza. duas senhoras com mais de 90 anos. 172 A “cor” de Laurindo José Garcia foi identificada no corpo delito do processo: SANTA CATARINA. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. filho do mestre pedreiro Guilherme. Sebastião. 176 Ataide. Tribunal de Justiça. 173 Não priorizei a fonte oral na pesquisa. 1921. 20 maio 1908. na intenção de esclarecer algumas dúvidas sobre a vida dos negros no período. ver o capítulo “Aspectos da religiosidade popular em Lages: a presença negra”. 183 LAGES. 1919. p. 198.. Foro da Comarca. aos 24 dias de novembro de 1861. 26 jun. tendo também um trabalho publicado sobre o tema: O Negro no Planalto Lageano. Maço 77. Maço 38. 171 Este termo foi usado na p. Lages.] Etnicidade é essencialmente a forma de interação entre grupos culturais operando dentro de contextos sociais comuns [. 24 Abr. 3063. Suplemento especial: “Os bairros de Lages”. e auxílio da obra de Janaina Amado.. 1908. fiz várias entrevistas com descendentes de africanos. 188 O nome do Centro Cívico Cruz e Souza é uma homenagem ao poeta simbolista catarinense João da Cruz e Sousa. Sebastião. n. p. 168 LAGES. n..SANTA CATARINA. etnia e estrutura social. Foro da Comarca. 1926. ao mesmo tempo que é nascido na região.161. No entanto. 26 jun. Lages. 177 Sobre a capela de Santa Cruz. 05 out. Lages. Foro da Comarca. 33. Lages. 23 do processo em questão. Quanto à entrevista realizada com Sebastião Ataíde (1998). n.1998. Caixa 44. por ocasião de uma briga em que se envolveu. escravo do marechal Guilherme Sousa. Inquérito Policial. Processo Crime. Processo Crime. Sebastião. e da lavadeira. Segundo o autor: “[. 1926. ainda. e foi. fiz por ele ser um estudioso da história dos negros em Lages. Processo Crime.85) 186 O Clarim. Entre elas. Sebastião. 181 Ataide. 03. 169 LAGES. 18 Fev. 33. 03. Marieta de Moraes Ferreira (1996): Usos & abusos da história oral. 10/11 ago.” (p. e entrevistas com Marieta Camargo da Silva Santos (1998) e Sebastião Ataide (1998). 178 Ataide.

Lages. p. Inquérito Policial. n. uma biblioteca e um grupo dramático. 1919. 206 Caetano Vieira da Costa foi deputado estadual. n. 202 LAGES. foi inaugurada sua sede própria. Lages.D. Sebastião. 192 Conforme o jornal Cruz e Souza. 209 Cruz e Souza. 466. 195 O Planalto. No século XIX. p. 02/03. 1931. Sebastião. 03. 200 Conforme os “ESTATUTOS DO CENTRO CÍVICO CRUZ E SOUZA”. em 1938. 199 Cruz e Souza. p. 05. Lages 26 jun. segundo conversa informal com o diretor e pesquisador do Museu Thiago de Castro. 196. Sebastião. Lages. 1998. 1998. 01. 01. 198 Cruz e Souza. 466.da Conceição. Observação: a Escola Noturna Amadores da Arte pertencia à sociedade Grupo Dramático Particular Amadores da Arte.. fundado em 1916. n. n. n. p. Foro da Comarca. 193 Cruz e Souza. 22 set. Lages. a grafia “Souza” com a letra ‘z’ foi convencionalmente usada para nominar o “Centro Cívico”. 1919. p. 1918. p. 03 ago. p. Inquérito Policial. 210 Cruz e Souza. 22 set. p. 04. no anexo 5. 03. Lages. 03. uma orquestra sinfônica. além da escola. Maço 112 205 Cruz e Souza.. 1919. 1919. 17 dez. Lages. 189 O termo “homens de cor” foi usado difusamente pelos membros do Centro Cívico Cruz e Souza e pela sociedade em geral. porque era desse modo que o próprio poeta assinava. 32) 201 O Lageano. 02. fundada em 1924. 197 Sobre a sociedade jornalística de homens negros. n. 70. n. p. 05 out. 138 . 05 out. p. 1931. p. 01. Maço 112. 1919. 13 Nov. com “s”. 21 nov. Lages. 212 Conforme entrevista com: Ataide. secretário geral do governo do estado de Santa Catarina e superintendente municipal de Lages. 13 Nov. Skidmore (1989): obra já citada. 05. 04. 05 set. (art. em São Paulo. 190 Ver: jornal O Planalto. 01.P. O artigo foi assinado por Cassimiro da Silva Varella. “O Clarim d’Alvorada”. em uma das reformas ortográficas. Foro da Comarca. Lages 26 jun. Lages. 211 Ataide. 1919. 207 Ataide. Em todos os documentos pesquisados referentes ao “Centro Cívico Cruz e Souza”. 13 Nov. 01. Inquérito Policial. o G. 191 Cruz e Souza. 466. Lages. 203 LAGES. Lages. 07 set. 17 maio 1919. 194 Mais tarde. localizada até hoje em frente à Igreja de Santa Cruz. E. Maço 112. 1998. convencionouse alterar seu sobrenome para Sousa. 05. senhor Danilo Thiago de Castro. n. 196 Termo usado por Thomas E. n. 03. para se referirem aos sócios daquele club. Lages. 22 set. n. 1918. ver: Arthur Ramos (1956. 26 jun. 1918: “A diretoria esforçar-se-a de modo que as festas promovidas pelo Centro sejam realizadas na melhor ordem possível [. 1919. 204 LAGES. n. Foro da Comarca. Amadores da Arte mantinha. n. 03. 04. 74. 1919. 1931. n. Lages. 208 Ver imagem da capa do jornal “Cruz e Souza”. 05.]”. 186). n. 06 out. próximo ao bairro da Brusque. foi alugado um prédio para sede do Centro Cívico Cruz e Souza e. p.

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no estúdio da Letras Contemporâneas. e impresso na gráfica Nova Letra. em Blumenau. em abril de 2010. .Composto com a fonte Goudy Old Style. em Florianópolis.

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