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Capítulo Terceiro

Recordações

Acordei desatinado e a dar comigo num estado


intranquilo, tenso e a suar. Não consegui voltar a
adormecer, ao que me pareceu terem sido cinco ou seis
horas de sono. Depois, olhei rapidamente para o
despertador e vi que ainda faltavam quase trinta e cinco
minutos para o toque para a entrada da aula tão
espectacular. Sally de um lado, golos do outro. Que mais
poderia desejar? Era simplesmente aconchegante chegar
àquela altura do dia, e o melhor, é que não me sentia tão
negativo como o fizera de manhã, apesar do meu
atordoamento ainda durar.
O sol apareceu definitivamente na janela daquele
quarto, único e singular, que eu tanto apreciava. A janela
ferrugenta permanecia aberta, tal como a deixara quando
me levantei, irradiando claridade solarenga para depois
iluminar o compartimento que parecia pintado de azul-
bebé, em que, os lençóis brilhavam e o castanho dos
móveis estava com um tom castanho vivo, quase a fugir
para o amarelado. Puxei pela memória para me lembrar tal
situação, já que estava com uma nítida sensação de ter
visto tal coisa semelhante.
Seria pois, Katerown sem dúvida, a linda cidade do sol,
porque era um sitio inigualável de claridade e alegria, que
em deixava sempre com um sorriso nos lábios, quase como
um pateta alegre. As nuvens porém, ainda permaneciam no
céu azul, e tal se previam para os dias futuros, o que para
mim era ideal pois a minha boa disposição, ou parte dela,
voltaria.
Os meus receios não quiseram voltar e quando
cheguei à escola, Anna mostrava ter recuperado o bom
humor e alguma auto-estima, num grupo de três raparigas
que falavam com ela alegremente.
- Isto é óptimo – Disse com a minha voz bastante
entusiasmada. – Ao menos diverte-se e não repara tanto
em mim.
Em seguida semicerrei os olhos até os fechar, devagar,
esperando que os raios de sol, quentes, se apressassem a
chegar até à minha face, mas isso era ainda um pouco
difícil com o vento forte a deixar-me desconfortável ao ar
livre. Os meus braços começaram a arrepiar-se e a ficarem
gelados, pelo que me tive de mexer para não ficar esfriado.
Para isso, fiz um esforço para me voltar a recompor, até
porque o que estaria a calhar bem, acabou quando a
campainha tocou e eu me virei lateralmente para o portão a
ajeitar a mochila puma onde trazia a roupa para a aula,
esperando que se tornasse mais confortável, pois era
demasiado grande para os meus ombros finos.
A aula de Educação Física finalmente chegara.
Esperava que fosse tão emocionante como em Katerown,
com um ginásio enorme, e uma professora gira e
competente.
A minha turma fez equipas e para meu espanto,
quando a turma de Sally começou a treinar, ela não estava
lá. Estaria certamente atrasada, o que me foi
estranhamente incómodo, porque sabia que a sua ausência
não era normal. Ela nunca se atrasava.
- Vamos começar? - Questionou-me um colega alto e
com um porte atlético demasiado grande para poder
mostrar-me zangado. Ainda me arriscaria a arranjar
problemas, e logo lhe acenei, olhando uma vez mais para o
campo contrário à procura dela. Mas Sally não apareceu
E senti-me triste. Teria ela desistido do jogo? Ou pior,
do encontro? Que pensamentos tão sombrios e arrepiantes,
podia senti-los. Tentei concentrar-me nos passes que teria
de estar disposto a fazer, mas tudo saiu ao lado do que eu
esperava e gostava. Quase nunca acertava na baliza, e
quando o fazia, ou a bola ia ao poste ou à barra. Apenas me
senti melhor quando um ressalto bateu em mim e muito
devagar, com bastante sorte, entrou finalmente e ficou
presa às malhas da baliza.
Eu suspirei quando me vieram abraçar.
- Olá Daniel! - Chamaram-me.
- Tudo bem?
- Estás bem? - Quis saber o mesmo rapaz que me
alertara enquanto eu desapertava os cordões bastante
grossos e apertados das sapatilhas, a caminho do balneário
minúsculo. Em relação à ideia que tinha sobre Katerown,
aquele cubículo era mesmo pequeno.
- Hum... Estava a perguntar-me se a tua chegada cá
tem sido tão calorosa como imaginava.
A voz dele mostrava seriedade.
- Como sabes que viria? Já não é a primeira vez que
me felicitam. - Bem, és mesmo bem-vindo. - Exclamou ele,
com pouco à vontade. Recompôs-se com facilidade e
esbocei-lhe um sorriso fechado.
- Porque dizes isso? - Questionei com estranheza nas
palavras. Estava perto de saber algo que tentava esconder
há algum tempo, o porquê de me fazerem tais festas
quando me conheciam.
- O teu pai era um grande jogador. Todos tinham inveja
dele, e quando soubemos que virias para cá, pensamos que
um novo número dez fosse substitui-lo. Mas estou a ver que
não estás em muito boa forma para seres igual a ele.
Afastou-se a coçar a cabeça e já longe perguntei-lhe o
nome, ao que ele respondeu em bom tom o nome John
Mella.
E riu-se num tom abafado. Quando o deixei de ver,
permaneci sentado a recuperar memórias perdidas de um
espaço amplo e com duas balizas no lugar das tabelas de
basquetebol dos lados laterais. As que ali se apresentavam
eram quase idênticas às do ginásio de Katerown, onde
apenas a pintura em preto e branco se distanciava do que
tinha em mente, de cor azul vivo.
Sentei-me e permaneci ali, ouvindo as sapatilhas dos
restantes a ecoarem sobre as paredes brancas e despidas.
Quando a professora Mastés passou por mim, segurei a
porta com uma mão, para que não batesse, e ao
percepcionar que o balneário se esvaziara, corri para lá,
vestindo-me rápido e medrosamente de me ter perdido.
Tudo parecia igual e saí em direcção às escadas, algo
perdidas do lado direito, mesmo ao lado da outra porta
igualmente parecida à do balneário. Mostrava-me
aborrecido, e como era óbvio, por causa do resultado e da
ausência prolongada de Sally. Ainda por cima, o telemóvel
ficara na mesa da sala, quando me preparava para sair de
casa rumo ali.
Quando cheguei finalmente à entrada da casa,
ninguém estava lá, naturalmente. Pousei a mochila de
desporto pesadamente no sofá e sentei-me nele, com uma
postura de puro cansaço.
A minha barriga fez um barulho esquisito quando
pensei que talvez devesse ter respondido à mensagem que
Sally tinha mandado, e que por isso, ela pudesse ter
desistido de estar comigo. Deveria ter percebido que
poderia não estar interessado em tal coisa, o que era
completamente mentira... assim, não conseguiríamos ser
amigos, e no ver dela, eu não passaria de um puto mimado
e um bocado egoísta.
Ela era genial. Era meiga, gira, com carácter e
bastante atenciosa. A sua pele reflectia o sol e ficava clara
parecendo vidro. No meu interior saberia que valeria bem
mais que vidro, seria mais diamante em bruto.
Bem... Não haveria de cair o mundo por aquilo, mas
sabia que algo do género já acontecera, com um amigo
meu, quando, no ano interior em Katerown ficáramos de vir
à praia, e no fim de contas, ele nem apareceu devido a uma
laringite, algo comum por aquela zona. Estaria a lembrar-
me mais de Katerown, do que a princípio o desejaria, e isso
dava-me angústia.
Lancei um olhar rápido para todos os recantos à
procura de alguém que me tirasse dali, ou saberia que pelo
menos quinze minutos perderia ali, até sair, se é que isso
fosse possível. Tinha como último recurso o meu grito de
pânico que incomodaria até os vizinhos ali à volta do liceu.
Não havia problema, pelo menos por agora. Alguém
soltou um ar de riso atrás de mim e olhei para enfrentar... A
empregada.
- Estás perdido?
Encolhi-me contra a parede junto à porta e tremi de
receio. Porém, ela sorria.
- Já estava de saída. - Informei com a mão no manípulo
da porta. Depois abri-a rapidamente e a última coisa que
ouvi foi o seu riso quase maquiavélico. Aquilo era no
mínimo estranho.
Percorri os corredores que me lembrava, e consegui
chegar perto de algumas pessoas, para meu alívio. Estas
eram apenas raparigas, mas mesmo assim pareciam ser a
minha fonte de confiança por ali.
Onde se teria metido Anna? Ou o tal rapaz que falara
comigo no jogo em Educação Física?
Caminhei mais calmamente até ao bar, para poder
lanchar. Tudo aquilo deixara-me esfomeado, mas ir ali não
seria definitivamente o local para ir uma segunda vez. Não
havia ninguém e pedi uma tosta mista aquecida, para em
seguida a meter no casaco, delicadamente embrulhada
com guardanapos e num saco de papel pequeno. Seria o
que iria abstrair até casa, pensei eu, e logo me pus a
caminho, bastante desanimado.
Durante quase todo o caminho, pelo meio de nuvens
algo escurecidas, permaneci calado e calmo, apesar de o
meu interior estar a disparar de tristeza e aflição; não saber
como e onde Sally estaria constituía um dilema mil vezes
superior a que se eu fosse atropelado por um camião numa
noite de tempestade, ficando completamente despedaçado.
Envolvido na confusão mais abrupta e incontestável,
vivi de novo momentos igualmente traumatizantes, como
guardo da minha mãe que caíra de um piso, percorrendo
quase trinta degraus às voltas, e depois de ter ficado em
coma, só recuperou a memória numa nova queda, em casa,
onde ficou com um enorme golpe na cabeça, a sangrar por
tudo que era lado. Tentei explicar tais situações de medo e
susto, e finalmente percebi que estava envolto numa onda
de azar.
Só podia ser isso. Primeiro a minha nova amiga não
tinha aparecido, e eu, lembrava-me de uma situação
idêntica em Katerown; depois o quase assassínio pela
empregada meia louca que me queria fechar dentro do
átrio dos balneários, bem, desta vez foi a primeira vez, e
agora o eu lembrar-me da minha mãe e do terrível acidente
que tinha tido. Seria uma ideia assim que me levaria a ter
um acidente tão drástico?
Tinha uma sucessão de pensamentos negativos na
cabeça, como fantasmas a arrombarem o meu cérebro, que
de tão fraco que era, não aguentaria outra investida, sem
que eu fizesse alguma asneira. Quando eu me comecei, não
sei porquê, a chegar para perto de uma faca que estava no
chão da sala, assustei-me com um bater agressivo na porta,
uma e outra vez. Quem quer que fosse, estava com pressa,
o que me deixou muito maldisposto, pois não queria estar
um pouco no meu descanso de guerreiro... merecido.
Mordi o lábio e uni as mãos, fechando-as uma contra a
outra bastante firmemente, enquanto os dedos se
enrijeceram para que não tivesse nenhuma atitude errada.
No entanto, nem uma palavra me ocorria, demasiado dura,
até porque nem era assim violento, quando tive a sensação
de algo a arder dentro de mim, consumindo-me o peito, que
fisicamente me estava a doer profundamente. Esse
sentimento doentio só passou quando, por infortúnio me
decidi a abrir a porta, estando uma estátua da cor do
mármore mesmo ali, colocada em frente à minha porta.
Não podia nega-lo, assustava-me ver aquilo, e jogo
recuei para fechar a porta, mas apenas uma parte do pé se
moveu, e o meu ser parecia petrificado ao ver ali aquela
figura, com uns olhos ardentes e carregados de raiva,
quase prontos a matar.
Tinha uns cabelos loiros e bastante compridos, com a
face bastante graciosa, quase igual a alguém que eu
conheceria em qualquer lugar.
Sally, sem dúvida, mas aquela imagem era
nitidamente masculina, que tossiu antes que eu fizesse
alguma coisa, depois Sally surgiu mesmo ao lado dele, o
que me aliviou.
- Olá! - Disse com alguma atrapalhação. - Este é o meu
pai, Lethor, Marcus Lethor.
O seu sorriso, bastante denunciado por um nervosismo
plausível, fazia daquele rosto o melhor do meu dia. Ela
estava mesmo ali, e era tudo o que eu mais desejava.
Mesmo assim permaneci calado, vendo Marcus, que
aparentava uma idade bastante jovem, o que me deixou
admirado.
- Quantos anos tem o teu pai? - Sussurrei eu, na
esperança de que ele não ouvisse a questão.
Sally sorriu e olhou para o pai. Depois respondeu
suavemente, em tom baixo.
- Quarenta e dois. Mas ninguém lhe dá mais de vinte e
três. Por vezes até pareço ser mais velha do que ele
pretende... Já nos confundiram como namorados.
Mal disse tal coisa soltou uma gargalhada tímida ao
meu ouvido e eu ri-me com ela, não parecendo demasiado
entusiasmado. Normalmente o meu riso seria extravagante
e bastante audível, pelo que tive de fazer grande esforço
para me conter ali.
- Mas... Não entendo. Eu nunca o vi na escola.
- Pois não. Ele não gosta muito de lugares públicos e a
abarrotar de gente. É mais do tipo... caseiro, estás a ver?
Expirei de alívio por aquele "senhor" não me querer
fazer mal.
- Tudo bem. Porque desapareceste e não foste à aula?
- E que tal acabares com as perguntas? Que tal irmos
sair? Recebeste a minha sms, espero. - Recebi, mas, ele
vem connosco? Com um olhar repentino, o Sr. Lethor
retirou-se e deixou-nos, sem que o seu olhar me deixasse
mais seguro de mim mesmo.
Ele parecia quase não humano, com toda a altivez e a
postura rígida que tomara. Fez-me recordar as estátuas das
exposições que teria visto dois anos, os quais detestei, mas
que, ao contrário de todas elas, ele até parecia uma estátua
simpática. Talvez me habituasse à sua presença, caso
fizesse menção de querer assustar-me de novo, claro,
sempre com Sally do seu lado para me salvar do impacto
tão devastador.
O seu sorriso e a sua expressão salvariam qualquer ser
vivo, apenas era preciso acreditar que, com ela, haveria
sempre sol, e um encontro esperava-nos.
- Vamos? – Empolgou-se ela muito rapidamente,
estendendo-me o braço para que saíssemos dali
rapidamente.
- Sim, vamos já.
No mesmo instante, a minha barriga parecia gelatina,
e um aroma diferente vagueava no ar, muito húmido que o
céu trazia. De facto, o tempo estava instável, mas para
minha sorte, ainda nem uma gota de chuva tinha caído até
então. Não que não fosse propriamente necessário, mas,
ali, naquela altura, a chuva viria estragar sentimentos e o
espírito tão próximo que nos unia. Nada parecia deter-nos,
e mais admirado fiquei ao ver que um arco-íris estava a
formar-se no céu. Via cores como o azul, a minha cor
favorita, e quase que adivinhava a cor de Sally, por isso
mandei-me a adivinhar.
- Verde…
Ela estava tão absorta ao que a rodeava que até me
senti lisonjeado quando lhe falei, e, ao virar-me para ela,
observei que também ela me observava. Era quase como
um trocadilho montado num puzzle muito mal construído,
pois se eu a estava a observar, teria de a observar para que
soubesse que me observava. Basicamente, sabia que
ambos fazíamos um gesto recíproco, e eu não me
importava por ela estar a pensar em qualquer outra coisa e
que não me ouvisse. Ali sabia que todos os meus sonhos se
tinham tornado realidade. Sally fazia com que eu fosse
diferente, não para mal, mas para que a minha diferença se
complementasse com ela. A sua presença era
indispensável, tanto a nível social como sentimental. Eu já
não era mais o Daniel certinho que sabia que tinha sido, e
apesar de eu nunca o ter mencionado, não me importava
de ser mil e uma vezes rebelde com o único pedido antes
de uma sentença de morte igualmente doloroso, de ter de
ficar longe dela, daqueles cabelos ao ar, da voz melodiosa
que me fazia parecer flutuar por toda a zona de Sutterfrin, e
metade eu desconhecia.
- Então aquele Marcus era o teu pai? Parece-me um
pouco novo demais…
Ela ficou atenta a tais palavras e olhou-se de lado,
fingindo não perceber a minha questão.
- Como assim? Porque achas isso?
- Eu…, penso que… - Hesitei durante um longo tempo.
A minha voz estava seca, assim como a garganta. Talvez
aquilo se devesse ao ar seco e gélido que passava por nós
enquanto caminhávamos pela rua.
- Aonde queres ir? Conheço um restaurante muito bom
para podermos ir jantar.
- Ah… jantar? Eu estava mais virado para um lanche. É
que não posso ir muito tarde para casa.
- Não costumas ter gente em casa, porque estás assim
tão nervoso?
Agora é que estava a tornar-se tudo muito estranho.
Como saberia Sally que os meus padrinhos viriam tarde, ao
ponto de não ter ninguém em casa até de madrugada?
Optei por não opinar desta vez sobre o assunto, até
porque quando quisesse explicações, estas seriam acerca
de tudo, sobre o salvamento, sobre isto, e sobre como ela
saberia interpretar o que eu falava, com os pensamentos
ligados às mesmas. Iria esperar por um momento oportuno,
mas ali não, numa ocasião tão especial, não iria deitar tudo
a perder.
Sorri por estar ali com ela. O tempo voava, mas todos
os segundos se aproveitavam para eu poder, por um
segundo, contemplar o rosto angélico dela. Estava ainda
com receio de estar afazer figura de tonto com a expressão
de satisfação no rosto, sem que ela reparasse muito.
Parecia estar numa névoa carrgada de pensamentos, com
as mãos nos bolsos e olhar fixo na estrada à nossa frente.
Não percebia o que ali se passava e sabia que tinha de
interpelá-la a respeito disso mesmo.
- Estás bem?
Ela olhou-me com um olhar de incómodo latejante.
Estaria a incomodá-la?
Depois ela abanou a cabeça com os olhos fixos nas
marcas de pneus patentes na estrada e suspirou. Parecia
querer contar-me algo, algo que a incomodaria e que eu
estava ansioso por ouvir.
As palavras estavam determinadas a sair e claramente
espelhadas no seu olhar aflito. Era algo de grave, ou de
muito importante, e então ela tomou uma posição de
frente-a-frente comigo.

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