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11TESESSOBREAAUTONOMIA

As “11 Teses sobre a Autonomia” foram escritas em 1980 para aprofundar um debate entre militantes que encetavamumacríticaaosreferenciaisteóricosdominantesnaesquerdaebuscavamnovosfundamentosparaa relaçãoentreateoriaeapráticapolíticas.Peloseuobjetivomesmo,tratou­sedeumtextoprovisório,reunindovárias ideiasqueamadureciamnascabeçasdosseusautoresmascujoalcanceearticulaçãomalestavamapreendidas. Visava­seprovocaradiscussãoeporissonãosepreocuparamcomevidentesprecariedadesemváriasformulações. Suacirculaçãoultrapassoudemuitoaintençãoinicialdocoletivoqueoredigiu.Apartirdeumoriginalmimeografado foram inúmeras as reproduções Fotocopiadas e as solicitações de exemplares já esgotados. Se seus autores resistiramatéaquiaumanovaediçãofoipeloconsensoexistenteentreelesacercadasdebilidadeseinsuficiências dotexto.Sobretudopode­severcomovelhascategoriasvoltamaquiealidificultandooestabelecimentodeuma nova ótica para a abordagem dos problemas tratados. No primeiro número da revista Desvios o coletivo que

assumiuas“11Teses”comoreferênciaparaasreflexõessobresuapráticajáprocurouretomarasquestõestratadas.

Nãoofez“corrigindo”partesinsatisfatóriasdotextomastentandosituarosproblemasdomodocomoelesestão postospelasuaprática,pelosmovimentossociaisepeloavançodadiscussão. Mas apesar de sua precariedade, as “11 Teses” permanecem como ponto de partida de uma reflexão, cujo conhecimentotorna­senecessárioparaacompreensãodeseuprocessodeconstituição.Foisentindoaforçaque ainda ressalta do documento, que decidimos reeditá­lo, sem pretender retificar pontos que hoje nos parecem inadequados,remetendoapenasparaoartigo“Aautonomiaemquestão”narevistaDesvios.Aúnicaalteraçãoaqui feitaconsistenatitulaçãodecadaumadasteses,parafacilitarsualeitura.

11TESESSOBREAAUTONOMIA

EntreosfatoresresponsáveispelorenascimentoedesenvolvimentodanoçãodeAutonomianomovimentooperário

epopularmundialenoBrasilemparticular,ressaltamosseguintes:

•acrisedos“modelossocialistas”existentes,pelasuaprática,conservadoraeanti­operária,geradoradenovas formasdedominação; •ascondiçõesatualmenteimperantesnosistemadedominaçãocapitalistacomorealidademundial; •ofracassodediferentesmodelosdeatividaderevolucionárianaAméricaLatinanosúltimostempos; • o atual período da luta de classes no Brasil, com o surgimento de um movimento operário e popular com tendênciasautônomas,frenteaumEstadoditatorialeumadesarticulaçãodasorganizaçõespolíticastradicionais. Anovareflexãoquesereclamadaideiaedaprática“autonomistas”levaouprocuralevar:

•aumnovoprojetosocialistadesociedade;

•anovasconcepçõessobreoprocessorevolucionárioesobreopartido(oupartidos)revolucionário(s);

•anovasrelaçõesentrepartidosemassas.

Emtornodanoçãodeautonomia,váriasconcepçõespolíticasestãosendoavançadas.Procuraremosaquisintetizar

osprincipaiselementosdaconcepçãoqueestamoselaborando.

I—AcrisedosModelosSocialistas

Nosso empenho em valorizaropapeldaautonomiadosmovimentospopularesnoprocessodetransformação social,narevoluçãosocialistaenaconstruçãodocomunismo,estádiretamentevinculadoàcrisedos“modelos socialistas”.Éestacrisequenoslevou–comoaváriosagrupamentoscomunistas—arepensarascategoriase

métodosquetêmorientadoaatividaderevolucionárianesteséculo. Oqueentendemospor“crisedosmodelossocialistas”? Numaprimeiraabordagemtrata­sedaconstataçãodeumadegenerescênciadassociedadespós­revolucionárias ondehaviaprojetosdeedificaçãosocialista.Trata­setambémdaconstataçãodopapelconservador,burocrático, sectário, elitista, que vem sendodesempenhadopororganizaçõespartidáriasconstituídasparaserexatamente instrumentos da revolução e da libertaçãosocial.Essepapelconservadortendeinclusiveaacentuar­secoma tomadadopoder. Masestaprimeiraabordagemaindanãovaiaofundodaquestão.Elajáfoifeitaporváriascorrentescomunistas desdeasprimeirasoposiçõessoviéticasqueanotaramodesviodostalinismoemrelaçãoaosprincípiosleninistas. Desde então, cadadeformaçãoconstatadanomovimentocomunistafoivistocomoumafastamentodomodelo clássicomarxista­leninista. De nossa parte, nós consideramos que o desenvolvimento concreto dos processos históricos nos impele a repensaroprópriomodelo.Mesmoanecessáriaassimilaçãodetodacontribuiçãodosclássicossóépossívelse adotarmosumaposturaquerechacetodareverênciamísticaaosseustextos.Odesenvolvimentohistórico–comos avanços revolucionários e com os impasses criados – produziu situações e problemas cuja solução não se encontranosmodelosquenosforamlegados. Se de um lado, assistimos tendências generalizadas à burocratização no “socialismo real” e nos partidos tradicionais,deoutrotambéméverdadequesurgiramnovastendênciasepremissasparaarevoluçãosocialista, cujaspotencialidadesnãosãodesenvolvidaspelosmodelosconhecidosdeorganizaçãoepráticarevolucionária. Lutasoperáriasquequestionamasrelaçõesdetrabalhonaprópriainstânciadaproduçãoequeultrapassama tradicional dicotomia entre prática econômica e prática política se estenderam na Europa a partir de 1968. Movimentos de contestação do autoritarismo da divisão capitalista do trabalho, movimentos feministas de contestaçãodomachismo,daopressãodamulher,movimentosdequestionamentodasinstituiçõesdereprodução dasociedadeburguesacomoaescola,afamília,etc;movimentosecológicosquequestionamoprópriomodelode civilização. Movimentosnospaísesdo“socialismoreal”quequestionamsuaestruturaautoritáriaerecolocama questãodademocraciasocialista,comooquemarcouagoraahistóriacontemporâneadaPolônia.Sãomovimentos cujodesenvolvimentonãoencontrareferenciaissegurosnosmodelospropostosnoiníciodoséculo.Nistoconsiste a“crisedosmodelossocialistas”.

IIAQuestãodoPartido

Umatesedecisivaquedeveserquestionadarefere­seaocaráterdopartidorevolucionário.Segundoateseclássica do“Quefazer?”,ateoriasocialistaélevadaparaaclasseoperáriapelosintelectuaisrevolucionários,sendoatarefa dopartidointroduzirnaclasseaconsciênciadesuamissão.Estaformulaçãoconstituiapremissaparatodauma linhaderaciocínioquevisavacombateroespontaneismoeapontarparaaespecificidadedalutapolítica.Lenin,ao elaborá­la, enfrentava problemas reais cujas respostas também não se encontravam na herança ideológica existente:

acapacidadedeadaptaçãodocapitalismo,integrandoaclasseoperáriaoufraçõesdela,e,daí,anecessidade

deumatáticapolíticaquenãosejasimplesdesdobramentodaslutaseconômicas;

oreforçamentodoaparatodeEstadocapitalistaeanecessidadedeumaparatoprofissionalcentralizadopara

enfrentá­lo;

aexistênciadeumadiversidadedeforçassociaispotencialmenterevolucionáriaseanecessidadede

articulá­las.

MasaverdadeéqueasoluçãoavançadaporLenintemcomopontodepartidaumaconcepçãovanguardistae

messiânicadopartido.Aoconceberaconsciênciadeclasseeadoutrinasocialistacomoalgolevadoparaaclasse

pelos intelectuais revolucionários, pelo partido, ele corta toda a base real, as premissassociais,daideologia revolucionária. E termina por propor um partido que poderia ser revolucionário independentemente de seu enraizamento nas massas. Nós questionamos essa visão. O que entendemos por consciência de classe e ideologiasocialistanãosereduzaosconjuntosdeteseselaboradaspelosclássicosetransmitidasdegeraçãoa geraçãoporguardiãesdanovafé.Aconsciênciasocialistaéumacontínuaelaboraçãoderespostasdomovimento operárioepopularaosdesafios,semprenovos,impostospeladominaçãodeclasse.Marx,Engels,Rosa,Lenin, Trotsky,Gramsci,Maoemuitosoutrosaportaram—emníveisdiferentes—contribuiçõesvaliosasmasquenão constituemnenhumsistemacompletoneminfalível.Daíque:

a)opapeldasvanguardaspolíticaséodeasseguraracontinuidadedalutadasmassas,ameaçadapelaação

desagregadora da dominação capitalista. Mas esse papel cumprido por um partido, portador de experiências assimiladas e transformadas em propostas para uma ação presente, é inseparável de sua capacidade em incorporarnovasexperiênciascontinuamenteproduzidaspelasmassas;

b) um partidomilitarizado,queextraiasuaeficáciadomonolitismointernoedasuacapacidadeemimporuma

direçãoaorganismosdomassa,torna­seincapazdeimpulsionarumaefetivainiciativarevolucionárianasmassas,

condição básica de qualquer movimento revolucionário nas massas, condição básica de qualquer movimento revolucionário;

c) a pretenção de proteger­se das “infiltrações da ideologia dominante” através de uma estrutura que separa

radicalmenteosmilitantesprofissionaisdosmovimentossociais,concebeoprocessorevolucionáriocomouma ação dirigida por uma vanguarda política auto­proclamada termina sempre por reproduzir mecanismos de dominaçãoideológica.Eporproduzirmilitantesincapazesderecriarapolítica,submissosanteasdiretrizes“de cima”,elitistasdiantedasmassas.Sãoreproduzidosassimaspectosdaprópriaideologiaburguesa. OpróprioLeninretificouváriosaspectosdasuavisãocentralistado“Quefazer?”,observandonoentantoquese tratava de questão de ênfases. Uma condição da vitória da revolução foi mesmo a maturação e pleno

desenvolvimentodossovietes,paraoqualosbolcheviquescontribuíramdecisivamente.Masse,em1917prevalece

umaconcepçãoqueimpulsionaaautonomiadasmassas—atravésdeseussovietes—ascircunstânciaspolíticas

quecercaramaedificaçãodopoderrevolucionárionaURSSterminaramporempurrarosbolcheviquesaposições

ultra­centralistas(proibiçõesdetendênciasnointeriordoseupartidoatéaconsagraçãodopartidoúnico).Eforam

estasposiçõesque,afinal,secristalizaramnaInternacionalComunistae,apartirdaí,setornarammodeloparao

mundo.Essemodelodeveserquestionado.

Opapeldeumverdadeiropartidorevolucionáriodeveserodesistematizarexperiênciaseelaborarpropostasparaa

lutapolítica,impulsionaraunidadeeautonomiadosmovimentossociaisdeexploradoseoprimidos,impulsionara

capacitaçãodasmassasparafazerfrenteàordemopressoradoEstadoBurguês.Umpartidoquenãoimpulsione

essadinâmicaéumpartidoemviasdeburocratização.

IIIAQuestãodoEstado

AsconcepçõespredominantesatualmenteacercadopapeldoEstadonatransformaçãosocialconstituemumoutro corpodeideiasaserquestionado.EmprimeirolugarsetratadasrelaçõescomoEstadoCapitalista,aatitudedos comunistasfaceaoEstadoantesdatomadadopoder.Prevaleceumaconcepçãopolíticaarticuladatodaemtorno doobjetivoo“assaltoaopoder”.Essavisãonãodácontadainfinidadedeinstituiçõeseprepostosdopoderburguês (na burocracia, nos aparatosmédicos,educacionais,naorganizaçãodotrabalho,nafamília)quereproduzema

ideologia dominante e garantem a dominação capitalista. A crítica a essa concepçãotemsidofeitaporvários

autoresquechamamaatençãoparaaexistênciadesses“micro­poderes”reprodutoresdadominaçãoatravésdos

aparatosideológicos.Essescríticosexpressamemgeralseuslimitesaoignoraremopapelcentraldesempenhado

pelo aparato de Estado e, consequentemente, da luta politica contra ele. Mas, de todo modo, é certo que a preocupação obsessiva na esquerda tradicional com a “tomada do poder” se fazàscustasdeumafrequente manipulaçãodasmassas,utilizadasparaaqueleassalto.Oresultado,nessescasos,ouéumfracassopornão

levaremcontaaforçadaideologiadominantenoconjuntodasociedade,ouéareproduçãodadominaçãoatravés

dos próprios aparatos supostamente revolucionários.Deumoutropontodevista,Gramscijáhaviachamadoa

atençãoparaanecessidadedaconquistadahegemonianasociedade,criticandoosimplismodeestratégias“de

assalto”elaboradaspelaInternacionalComunista.Oseurocomunistasprocuramhojeretomaressaproblemática. Mas, na medida em que suas políticas visam simplesmente a ocupação e transformação interna do Estado

burguês,elesrompemcomomaisdecisivodaestratégicadaconstituiçãodeumanovahegemonianasociedade,

quetemqueserealizaratravésdaformaçãodeembriõesdepoderdisseminadosnasociedade.Areapropriaçãoda

políticanoseusentidomaisamploquetocaosdiferentesaspectosdaexistênciasocial–bemcomonoseusentido

mais específico, de projeto deorganizaçãosocial,expressa­senareivindicaçãodaautonomiadosmovimentos

sociais,capazdepermitir­lhesabrangeralutaemtodaasuaextensão,detravá­lanassuasinumeráveisfrentes,

fazendo­asconvergirsimultaneamenteparaaderrocadadaordemcapitalistaeparaacriaçãodeformasalternativas

dedecisão,pensamento,produçãoepráticasocial.

Emsegundolugar,trata­sedasrelaçõescomoEstadopós­revolucionário.Segundoaconcepçãopredominante,o

Estado revolucionário deve reforçar­se para enfrentar a contra­revolução, paradirigirfirmementeoprocessono sentido da transformação comunista. O Estado é visto como o guardião da hegemonia proletária,enquantoa sociedade noseuconjuntoéoterritórioduvidosoondevicejamoindividualismo,osrestos(oumuitomaisque restos)dasrelaçõescapitalistas,aleidomercado,aideologiaburguesa.OEstadodevepoliciaraSociedade.O EstadoseautonomizadiantedaSociedade.Masentão,os“agentesrevolucionários”,assim“autonomizados”diante

dostrabalhadores,setornamagentesburocráticos,sacerdotesoudéspotas,dequalquermodoprivilegiadosfrente

àsociedade.Senoinícioeramagentesdarevoluçãocontraperigosquevinhamdasociedade,terminam–pelas

suasprópriascondiçõesdevida,pelolugarqueocupamnadivisãodotrabalhosocial–comoagentesdeumanova

ordemhierárquicaeautoritária.Ocomunismopassaaservistocomoummodelopré­figuradoaoqualsechega

atravésdocumprimentodosplanosestabelecidospeloPartido.NósaquiretomamosaconcepçãooriginaldeMarx,

docomunismocomoomovimentorealdenegaçãodocapitalismo.Enquantotal,elenãopodeserreduzidoaum

projetodesociedadeideal,masconstituiumreferencialideológicoquesóserealizanamedidaemqueéassumido

e reatualizado como proposta social no interior do movimento de massas. Ele é, pois, inseparável da plena autonomiadasmassasexploradaseoprimidas.

E é aquitambémqueretomamosastesesclássicasdeMarx,Engels,Lenin,sobreoprocessodeextinçãodo

Estadoapósarevolução.UmprocessodediluiçãodoEstadoqueseinicienomomentomesmodaconstrução

dessenovoEstadosemqueissorepresenteumdebilitamentofrenteacontra­revoluçãosópodesedarnamedida

emqueapoliticarevolucionáriaconsistanadisseminaçãodopoderrevolucionárionoconjuntodasociedade;na

medida em que cada movimento social exerça sua autonomia, num movimento denegaçãodaantigaordem. Dizem­nosqueagarantiadarevoluçãoestánaforçadopartidoúnico.Masseráentãoagarantiadeumarevolução queagonizanoconjuntodasociedadeeque,assim,secongelanumEstadoburocratizado.Averdadeiragarantiada

revoluçãosópodeestarnoprocessodehegemoniarevolucionárianasociedade,narevolucionarizaçãodotodo

social.

IVAsCondiçõesdaAutonomia

Os projetos comunistas fundados no desenvolvimento da plena autonomia operária e popularnãoconstituem algumanegaçãoutópicaeromânticadarealidade,masencontramsuascondiçõesdepossibilidadenaspróprias característicasdodesenvolvimentocapitalistaenasnovascondiçõescriadaspelo“socialismoreal”. Em primeiro lugarestáatendênciadoEstadoburguêsatornar­secadavezmaiscentralizadoeautoritário,em funçãodanecessidadederegularasprincipaisvariáveiseconómicasedemanterocontrolesobreumasociedade crescentementediversificada,cujasdesigualdadeseinjustiçasprovocamreações,emváriosníveis,dosdiversos setores alijados dos benefícios econômicos ou das possibilidades de participação tornados possíveis, paradoxalmente,pelopróprio‘progresso’dasforçasprodutivasedosmeiosdecomunicação.Essasreaçõestem contribuídoparadesvendarosmecanismosdeopressãoedemanipulação,ocaráterirracionaldodesenvolvimento econômico comandado pelo capital internacionalizado, e para estimular a busca de alternativas radicalmente diferentes.Nesseprocesso,destacam­setambémcommaiorclarezaosinteressescomunsaosdiversossetorese classes sociais explorados e oprimidos, eaconvergênciadesuaslutasconduzaoenfrentamentocontraesse Estado/Leviatã,àpercepçãodoseupapelglobalizadornosistemadedominaçãoefavoreceodesenvolvimentodos projetosvisandoàsuasuperação.Adiversidadedossetoresemmovimentoedesuaslutas,aliadaàpadronização crescentedasformasdoEstadoedomododevidadaburguesiaaonivelmundial,criamascondiçõesparaquea exigênciadetomaremmãososdestinosdaslutassurjaportodaparte,eparaaarticulaçãodasmesmas,com basenorespeitodasuaautonomia.Emsegundolugarestáainternacionalizaçãodocapitaledasrelaçõesde produção,peloqualaburguesiaiguala­seenivela­secadavezmais,internacionalmente,emtermosprodutivos, culturaisepolíticos.Osprópriosgovernoschamamaatençãoparaainternacionalizaçãodosseusproblemasedas “soluções” que propõe. O capitalismo penetra no campo e nas “regiõesnão­capitalistas”,diminuindoassuas reservas e configurando mais definidamente estruturas de classe estáveis, favorecendo o surgimento de consciênciasdeclasseemfunçãodeinteressesconcretos.Ocaráterobjetivodascontradiçõesdessasclasses comosistematendeatornar­semaisclaro,iluminadopelaslutasquesedesenrolam.Emterceirolugarestáa tomadadaconsciênciadafalênciadosmodelosderevoluçãooudesociedadesocialista,poisoagravamentodos problemasmostraaslimitaçõesecontradiçõesdosqueexistemouexistiram.Énecessáriocontarcomaspróprias forças, abandonar a confiança ingênua em paísesoupartidos“guias”,reapropriar­senãosódopresentemas tambémdofuturo.Forçadosalutarcontraocapitalismodiaadiamaisagressivo,eliberadosdetodopaternalismo fatalista – ou fatalismo paternalista – em relação às“pátriasdosocialismo”,osmovimentossociaisprocuram articular­seemtornodeumprojetoqueimpeçaqueseussacrifíciospelalibertacãosejamutilizadosparaasubida aopoderdenovasminorias,etratamdemanterocontroledomovimentoedasinstânciasdedecisãoquevão construindo.Finalmente–masdeimportânciaprimordial–estáacontradiçãoentreadivisãosocialdotrabalho,que reduz os indivíduos a peças subalternas de um monstruoso mecanismo, e a produção de necessidades, aspiraçõeseconhecimentosquenãoencontramcabidanessesistema.Oprópriodesenvolvimentoinusitadodas forçasprodutivas,comapossibilidadecrescentedeumcontrolesocialsobreascondiçõesdeexistência,criaem setorescadavezmaioresdapopulação,aspiraçõesquesechocamcomamediocridadeeoautoritarismodas relaçõesdeproduçãoeconsumoexistentes.Cumpredizerqueessacontradiçãosemanifesta—aindaquede modo diferente – nos países capitalistas industrializados tanto quanto nos países de economia centralmente planificada.Emunscomoemoutrosadivisãosocialdotrabalhoatomizaosindivíduoseencontrasuaarticulação através de um Estado hipertrofiado. Em uns como em outrosdesenvolvem­seforçassociaisinteressadasem romperessaestruturaalienante.Láondeasrevoluçõescriaramformasdepoderpopularmaisvivasestãomais avançadasascondiçõesparaasuperaçãodessascontradições.

V—AQuestãodoPoder

Aburguesia,mãeefilhadoEstadocentralizadonacional,foitornando­ocadavezmaisautoritárioetodo­poderoso, paraapoiá­lanaacumulaçãodecapitaleparareduzirosseusinimigosdeclasse,pelaforçaoupelapersuasão.A revoluçãosocialepolíticadoproletariadoeseusaliados,frenteaesseEstado,vê­secompelidaaresolverdois problemas:adestruiçãodoEstadoburguêsopressorconcreto,emcadacaso,eoenfraquecimentodoEstadoem geral,istoé,inclusivedaqueleaseuserviço,queelaéforçadaaconstruirnoperíododetransição.Asoluçãodo duplodilemacomeçaporperceberasualigaçãointerna:oprojetodesociedadeaconstruirorientaalutaconcreta, masesta,porsuavez,irámoldandoasfeiçõesdaquela.Osocialismobaseadonopoderpopular,ondeaautonomia dostrabalhadorescomosujeitossociaisencontraráoseuplenoflorescimento,defineaslutasautônomastravadas hoje,enascedelas. AalternativaaoEstadoCapitalistanãopodeseroPartidoRevolucionário,massimasOrganizaçõesDemocráticas derepresentaçãodiretadasmassas,centralizadasnacionalmente.Sãoosconselhosdetrabalhadores. Esteselementosdecarátergenéricoconcretizam­senacombinaçãodalutapelademocraciapolíticacomalutapelo socialismoenoforjardasaliançasdeclassequepermitirãosolucionaraquestãodopoder.Adquireimportância central, a este nível, a compreensão doEstadoliberalburguêscomotenazmenteopostoaoexercíciodiretoda soberania(baseia­sena“representação”),àsocializaçãodapropriedadeeaodireitoaotrabalho.Justamenteos três pilares de uma democracia proletária e popular. Essa compreensão coloca para o movimento dos trabalhadoresumasériedequestõesqueexigirãorespostascompatíveiscomoprojetodelineadoacima;enos marcosdeumasituaçãohistóricadeterminada:arelaçãoentredemocraciaesocialismo,entreformaspolíticase formassociaisdeEstadodetransição,entredemocraciadiretaedemocraciarepresentativa,entreparticipaçãoe garantiasindividuais,entregestãoburocráticaeautogestãodasociedade.Areflexãosobreostemasacimanão prejudicaaconclusão,avançadatambémapartirdacríticado“socialismoreal”edasrevoluçõesconhecidasdeque “nãopodehaverrevoluçãosocialseparadaderevoluçãopolítica,ambosobjetivosgeraiseinter­condicionadosdo socialismo.ReivindicarvigorosamenteumprocessopolíticoqueleveàextinçãoousuperaçãodoEstadoeprojetar umEstadodetransiçãoemqueesseprocessoserealizecomoexpansãodademocracia,dasliberdadespolíticase daparticipaçãodetodosnagestãodacoisapública”(Cerroni).Apreparaçãodesseprocessoéoconteúdoea realizaçãodaperspectivadaautonomiadomovimentopopular.

VI—OSignificadodaAutonomia

Pensamos a autonomia das classes e setores dominados como o movimento de negação da dominação. A autonomiaoperária,assim,seidentificacomseumovimentodeoposiçãoàdominaçãocapitalista.Nessesentido,a autonomiadecadasetordominadoouexploradoéaafirmaçãodesuaoposiçãoàdominaçãoouexploraçãodeque é vítima, E a autonomia popular em sua dimensão mais abrangente se confunde com o próprio processo revolucionário. A emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores, assim como cada setor oprimidodevetomaremsuasmãosalutaporsualiberação.Essemovimentotemcomopontodepartida–ede chegada–aaçãolocal,direta,dosprópriosinteressados. Masnãoéqualquerdecisãotomadaporumgruposocialquecontribuiparaoprocessodesuaemancipação,de conquista de sua autonomia. Esses grupos sociais podem manter­se subordinados a dominação ideológica burguesa e, em sua prática, reforça­la ao invés de destrui­la. Entretanto, enquanto expressão de uma “falsa consciência”, sua prática pode levá­los aumprocessodetomadadeconsciênciareal.Napráticadasclasses

dominadasexistesempreumaspectoquesignificaareiteraçãodasubmissãoeumaspectoqueimplicanarevolta contraesta.Todomomentodelutatrazconsigoumanegaçãodaideologiadominante,trazumadesestabilizaçãoda dominação,umaafirmaçãodaautonomia.Masaslutasdeclassesofremrefluxos,descontinuidades.Areprodução dosistematrazconsigoaretomadadadominação,aneutralização,adivisão,adesmoralizaçãooudispersãodos dominados.Daíanecessidadedevanguardassociaisepolíticas,quesãoaquelasqueasseguramacontinuidade dosmovimentos,elaboramasexperiências,articulamdiversosmovimentos,edãorespostasmaisabrangentesàs formasdeenfrentamentodeclassedefinidasemcadaconjuntura.Existemportantováriosníveisdeautonomia.A autonomia de um movimento local, parcial, constitui o primeiro nível, o mais elementar. A autonomia só se desenvolveàmedidaemqueessesmovimentossearticulamcomoutros,porque,afinal,sóépossívelenfrentara dominaçãoeafirmarumaplenaautonomia(ouseja,odomíniosobresuascondiçõesdevida)noníveldetodaa sociedade. Essasnecessidadesdedesenvolvimentodosmovimentosnãosãoresolvidasespontaneamentepelasmassas,e daíquerechaçamosastesesanarquistasouespontaneístas.Mastambémnãosãoresolvidasdeumpontodevista revolucionário pela prática tradicional de cooptar os movimentos de base, “representá­los” na grande política, relegando­osàssuas“especificidades”corporativistaselocais.Porqueassimsereproduzatradicionaldivisãodo trabalhopolíticoesufoca­setodadinâmicaliberadoradoprópriomovimentosocial. Por isso a defesa da autonomia envolve um empenho de participação em todos os níveis, dos indivíduos e, principalmente, das comunidades, ou dos indivíduos nassuascomunidades,emlutaporumdesenvolvimento alternativo,baseadonasnecessidadessociaisequeconcebeumprocessodelibertaçãosocialapartirdoespaço local. Aconquistadopoderautônomo,cultural,políticoeeconômicodostrabalhadoresedopovobaseia­senacríticaà delegaçãodesoberaniaqueéaessênciadoliberalismoburguês.Implicanacapacidadedetraduzirosinteresses dossujeitosdaslutas,permanecendosobseucontrole.

VII–Aexploraçãoeadominação Aênfasenalutapelaautonomiadosmovimentossociaisdasclassesecamadasexploradaseoprimidasdecorre dacompreensãodequeaexploraçãoeaopressãosãoaspectoinseparáveisnocursodaslutasdeclasse.Assim sendo, a afirmação da autonomia,querompecomadominação,representaummovimentoessencialcontraa exploração.Foiatradiçãoeconomicista,quetomoucontadomarxismodesdeaIIInternacional,queseparouosdois aspectosereduziua“essência”dalutaanti­capitalistaàlutacontraaexploração.Éverdadequeabasematerialdo sistemacapitalistaencontra­seemsuacapacidadeparaapropriar­sedotrabalhoexcedentecomomais­valiaena valorizaçãopermanentedocapital,independentementedaconsciênciaquetenhamdesseprocessooscapitalistas eosoperários.Ooperárioatuacomoforçaprodutivasocial,comoassalariadoenãocomoprodutor.Aexploraçãose realizaemprimeirolugarporumacoaçãoeconômica:ooperáriodespojadodemeiosdesubsistênciaéobrigadoa vendersuaforçadetrabalhoparasobreviver.Aí,elesesubmeteaodespotisnodocapitalnoprocessoprodutivo. Mas seria simplismo parar aí. Imaginar que a reprodução do sistema seria assegurado pelos automatismos econômicosseriaignoraropapeldasubjetividadeedalutadeclasses.Ascondiçõesconcretascomoserealizaa exploração—desdeocontratodetrabalhoatéoregimedetrabalhoconcreto—dependedoquadromaisgeraldas relaçõessociais.Depende,emsuma,domodocomoseexerceadominação.Arelaçãodeforçasquedeterminao quadrogeraldadominaçãoé,porsuavez,determinadaporváriosfatoresextra­econômicos,quecompreendem desde o chamado despotismo da fábrica (os sistemas de vigilância,adelação,àsvezesaviolênciadiretade capangas) até o conjunto domecanismorepressivodoEstado,e,maisalém,dosmecanismosdedominação ideológicareproduzidosatravésdafamília,daescolaedeumadiversidadedeinstituiçõessociais.Éporissoquea

lutacontraosmecanismosdeopressão,sejamosdiretamenterepressivossejamosencobertospelassutilezasda

ideologia,liberaenergiasindispensáveisparaoenfrentamentodaexploração.

VIII–Aquestãodahegemoniaoperária

Aconformaçãodeummovimentopopularautônomoenquantoblocosocialrevolucionário,alternativoaoblocono poder,terádedar­seatravésdaconstituiçãodahegemoniaoperária.Oregimededominaçãoburguêssebaseiana suacapacidadehegemônica.Nãoénecessáriooapoioativoaosistema.Deigualimportânciaéapassividade desmobilizadora das classes dominadas em especial do proletariado. Essa passividade é obtidaatravésdos mecanismos de exploração e opressão, sustentados pelas bases materiaisdoaparatoprodutivo,querecriam sempreasbasesdadominação.Daíqueaslutasdispersas,localizadas,nãopodemterminaradominaçãosenão se articulam contra a raizdaopressão,noprópriosistemacapitalista.Porissoaimportânciaprioritáriadaluta daquelaqueéopilarfundamentaldosistemaeque,emdecorrência,écapazdeprovocarumarupturaradical:a classeoperária.Aclasseoperáriaexpressasuasreivindicaçõessobduasformas.Asindical,corporativa,que,como tal,éassimilávelpelosistema;eapolitica,enquantomovimentosocialcomcapacidadehegemônicaalternativa.As outras classes ou grupos dominados (o campesinato, os negros, as mulheres, os índios, os estudantes, os homossexuais,etc.)tambémseexpressamnessesdoisníveis.Masadiferençaentreesteseoproletariadoéque, quandoelesseconstituemenquantomovimentosocialdiluemsuascaracterísticasespecíficaseassumemuma nova identidade, onde o principal é o questionamento da situação vigente. Aclasseoperária,aoexpressar­se enquanto movimento social, não perde sua identidade, dando­lhe apenas uma conformaçãomaisdepuradae coerente. Por outro lado, a constituição de uma nova hegemonia não pode se fazer submetendo os outros movimentossociaisaomovimentooperário.Porque,aoquestionarelementosdecisivosdadominaçãoburguesa, elesaportamelementosnecessáriosparaaelaboraçãodeumaalternativarevolucionária.Aconstituiçãodeuma forçasocialrevolucionária,quetemcomoeixoalutaanti­capitalista(e,portanto,aclasseoperária)deveincorporar asbandeirasdalutapelaemancipaçãodamulher,pelaemancipaçãodosnegros,dosíndios,pelaliberdadesexual, pelapreservaçãodomeioambienteecontraosmodelosdestrutivosealienantesdodesenvolvimentonascidoscom ocapitalismoeincorporadossemcríticapelo“socialismoreal”. Evidentemente esta concepção da relação entre o movimento operário e os outros movimentos sociais – de hegemoniaoperária,masnãodesubmissãodosoutrosmovimentossociaisquequestionemaordemburguesa— sevinculaàsprópriasnecessidadesdaconstituiçãodeumanovasociedade,quenãoserãoenfrentadaspormeras medidasadministrativastomadaspordecreto,masquedevemincorporarativamenteoconjuntodosexploradose oprimidos.

IX—ACrisedaesquerdabrasileira

Aesquerdabrasileiravivehojeumaprofundacrise,ondetodaumatradiçãopaternalistaéquestionada,masonde tambémpodeemergirumaforçapolíticacapazdefundirosideaisdocomunismocomapráticavivadasmassas. Paraissoénecessárioqueumaparcelasignificativarompacomtodaconcepçãoaparatistaeelitistaesejacapaz de formular, junto às lideranças sociaisdasclassesecamadasexploradasedominadas,umprojetodeação revolucionária.Atradiçãopaternalistade“fazerpolíticaparaopovo”,“pelopovo”,éantiganahistóriadocontinente, desdeoscaudilhosdaindependênciaatéosnossosabolicionistase,modernamente,ospopulistas.Aesquerda herdou essa tradição. Não se trata aqui de simplesmente efetuar um juizo moral. Esse paternalismo foi condicionadoporcaracterísticasprofundasdanossaorganizaçãosocial.Sejaopesodoescravismo,sejaavia

especificadodesenvolvimentocapitalista(incorporandoetransformandoolatifúndio,incorporando­setardiamente aosistemaimperialistanaqualidadedeperiferia,etc),exacerbaramastendênciasautoritáriasemarginalizantes inerentes à ordem burguesa. Ao poder discricionário de uma minoria de detentores dos meios de produção corresponde um sistema estatal super­dimensionado que se contrapõe a uma sociedade civil atomizada e desarticulada.Nessequadropolarizadoasmediaçõessãoefetuadasporumacamadailustradadefuncionários, técnicos,políticosprofissionais,burocratas.Arepresentaçãopoliticadasmassasfeitaporintermédiodecaudilhos ouaparelhosespecializadosécausaeconsequênciadeumadebilidadedeorganizaçãoeconsciênciadessas

massas,reiteradasemmomentoshistóricosdecisivos(naabolição,narevoluçãode30,na“redemocratização”de

45,nacrisedarepublicapopulista).

Por isso vemos no PCB um fundo vanguardista que percorre cada uma de suas etapas. Mais além das características específicas das etapas de “aventureirismo de esquerda” e de “oportunismodedireita”,háuma concepção sobre a“naturezadopartido”,“legítimorepresentantedaclasseoperária”,queestánabasedoseu sectarismo.

Aesquerdarevolucionáriasurgidanosanos60,apareceuemoposiçãoaoconservadorismodoPC.Mas,deum

lado, efetuou um corte excessivamente abrupto com o movimento político de onde surgiu, rompeu com as organizaçõestradicionaisdeummodotalqueterminoupordesprezarasexperiênciasnelasacumuladas,ahistória domovimentooperárioepopularque,aindaquedeformadamente,aíemparteseencontrava.Deoutrolado,ela nãorompecomovanguardismoaparatistaquemarcouessahistória.Inseridaemummomentodecrisepolíticae desafiadapeloatrasonaconsciênciaeorganizaçãodasmassas,aesquerdarevolucionáriarespondeproclamando alutafrontalcontraoregime,emnomedasmassasquenãolheacompanharam.Ficaríamosnageneralidadevazia sereduzíssemostodasaspráticasdaesquerdaàscaracterísticasdepaternalismoevanguardismo.Aesquerda tem não somente uma complexa diferenciação interna como também, uma história. Em uns se tratou deum paternalismo reformista para ocupar posições noaparelhodoEstado.Emoutrosdeumvanguardismoquese enfrentoucomesseaparelhodoEstado.Emunsumativismomilitarista,emoutrosumativismosimplesmente agitativo.Emunsumdoutrinarismosocialista,emoutrosumdoutrinarismopopulista.Alémdisso,aformaconcreta comoissoserealizou,determinou(ounão)algumgraudeincorporaçãoemobilizaçãodeenergiaspopulares.Não pretendemosaquiefetuarumaanáliseespecíficadapráticadessaesquerdarevolucionáriamasapenaschamara atençãoparaanecessidadedeumacríticaradicalquenãorechaceemblocotodoessemovimentopolíticomas resgateacervospolíticoseexperiênciasaíacumuladas. Seacríticadeveserradicaleseacriseatualquestionaaprópriaidentidadedaesquerdaéporqueelasearrogou umpapelquenãopoderiacumprir.Nãosetrata,pois,simplesmentedequefomosderrotadosnosenfrentamentos

decisivosde1964a1970.Omaisexpressivodessaderrotaéqueelasedeusemasmassas.Asmassastambém

foram derrotadas. Mas cada uma dessas derrotas se deu separadamente, foi vivida separadamente, foram experiênciasquenãoconvergiram. Aesquerdasearrogouarepresentaçãoeconduçãodasmassasdesorganizadas.Osintelectuaisrevolucionários– que se moviam sobretudo entre a pequena burguesia urbana—elaboraramprogramaseestratégiasparaas massas, forjaram organismos para enquadrá­las e mobilizá­las. Fracassamos. Como resultado, muitos companheiros romperam com a própria identidade da esquerda, com a noção mesmo de uma vanguarda ideológica autoproclamada. Procuraram esquecer as complexaselaboraçõesquemaishaviamservidodeauto justificação ideológica do que de instrumento de mobilização popular. A esses, os companheiros que permaneceramnointeriordasorganizaçõesdeesquerdadirigiramascríticasdeliquidacionismo,deabstenção diantedasnecessáriastarefasdevanguarda. Oimportanteparanósagoraépartirdeumarupturacomoprincipiodelegitimaçãorevolucionáriadeumafarsa politica pelas suas declarações e objetivos ou mesmo pelo sentido que elas dão às suas ações. O que

entendemos por “esquerda”? Em princípio seriam as vanguardas políticas do movimento operário e popular. Quandoseconstatouqueessaidentidadenãoestavaserealizando,houve,aprudentedistinçãoentrea“vanguarda ideológica”–representadapelaesquerda(ou,maisprecisamente,pelatendênciadeesquerdaquefazoenunciado) ea“vanguardapolítica”.Recuperadadessaformaumalegitimação,tratava­separaa“vanguardaideológica”de resgatarseupapeldedireitode“vanguardapolítica”. Nósrompemoscomessavisão.Nãopretendemosabdicardastarefasdaesquerda,dastarefasdeumavanguarda ideológica e política. Não pretendemos esquecer ou enterrar experiências acumuladas e elaboradas. Não pretendemosabdicardeformularpolíticasedefendê­las.Masaprópriaatividadeideológicadevanguardasóse atualiza, só se realiza, no processo mesmodecriaçãopolíticacomasmassas.Avanguardaideológicanãoé vanguardaideológicaporqueadotoualgumlivrinhovermelhomasporqueelaborouumaperspectivaparaaslutas políticasquesedão. Hoje, diante do PT e do que ele representa, são inúmeros os companheiros que, isolados ou articulados politicamente,convergemprocurandorefundaraesquerda.Nãoparaauto­preservar­senumpapeldevanguarda ideológica, embrião do “verdadeiro partido revolucionário”, mas para recriar uma vanguarda política e uma perspectivarevolucionárianoencontrocomasliderançasemergentesdomovimentosocial.

X–OsmovimentossociaisnoBrasildehoje

Omaiorfracassodoregimemilitareseumilagreeconômicoestáestampadonascaracterísticasdomovimento popular que se formou no país em reação a ele. Apesar danotávelofensivarepressiva,política,econômicae ideológica,oregimefoiincapazdecriarumabasesocialedeevitarosurgimentodeummovimentopopularcom característicasautônomas. Essemovimentopopularéfrutodaresistênciacontraaexploraçãoenaopressãonumquadropolíticomarcadopela profundaderrotadaesquerdae,emgeral,dasoposições.Éfruto,pois,deumreaprendizadodapolíticaapartirde suasreivindicaçõesmaiselementares. Issonãoquerdizerqueaesquerda(atravésdemilitantessoltosouorganizados,atravésdequadrosportadoresde sua experiência e formulações) não estivesse presente nesse lento processo dereorganização.Masdevidoà repressão,devidoàdebilidadedasorganizaçõespolíticas,devidoàdesconfiançaquesuaspolíticasdespertavam namassa(enasliderançassociais),alteraram­seasrelaçõesentreasliderançaslocaiseosquadrospolíticos. Estesnãoiammaispara‘daralinha’.Independentementedecomoessesquadrosconcebiamosignificadodeque faziam,ofatoconcretoéqueapolíticalocaleraproduzidalocalmente.Nesseprocessodelentareorganizaçãoe mobilização a partir das condições e consciêncialocal,inúmerosquadrospolíticosdesempenharamumpapel fundamentaldeapoioàelaboraçãodealternativas,formasdeorganizaçãoeação.Mastambémfrequentemente essamobilizaçãolocaltevedesehavercomproposiçõesaparatistas,quetraiamaânsiadecooptarrapidamente essasatividadesdebase.Osfracassosdessesintentosforamresponsáveisporumaprofundamentodascrises internasdeváriasorganizaçõesdeesquerda. AestruturanacionalemtornodaqualsearticularamasprincipaisorganizaçõesdabasefoiafornecidapelaIgreja Católica.IssofoipossívelporqueoenquadramentoorgânicoefetuadopelaIgrejanãosefezatravésdediretrizes políticaseestratégicasprévias.Osagentespastoraisselimitaramaofereceroapoioinfra­estruturaleascondições paraaarticulaçãodeváriosmovimentosdebase.Umaviolentacríticaàsposiçõesvanguardistas,elitistas,efetuada nessemovimentonãopermitiriamqueseusagentesrepetissemasmesmaspráticas.Oresultadoprimeirodesse rechaço,quepreservouosmovimentosdaspolíticasestranhasaeles,foimesmoumgrandeobreirismo,basismo, recusa da própria política. Evidentemente, o simples papel da Igreja nesseprocessojárevelacomo,atrásdo

basismoproclamado,haviaumespaçoprivilegiadoreservadoparaumaInstituição–aprópriaIgreja–representar

nacionalmenteosinteressesdessapopulaçãoorganizadalocalmente.Masofatoéqueomodocomotinhamque seestabelecerosnúcleosdebase,comunidadesebase,associaçõesdemoradores,oposiçõessindicais,etc.– reforçavaastendênciasàauto­organizaçãopopular. Seu ponto de partida, como formadeorganização,estavanademocraciadireta,ecomoobjetivo,nalutapelos

interessessociaislocais.Tratou­sedoprimeironível,básico,daauto­organização.Mascomoalutaeaprópria

tomadadeconsciência–dosinteressescoletivosexigeapassagemaníveisdeaçãoeorganizaçãocadavezmais

amploseabrangentes(dobairroàregião,daregiãoàcidade,dacidadeaopaís;demovimentosreivindicatórios

específicosamovimentosquearticulamváriasreivindicações;demovimentoseconômicosamovimentospolíticos),

o basismo mostrou seus limites. Para atingir mais amplas massas e ajudá­las a encontrar o caminho da

auto­organização, paraarticularváriasforçaseinstrumentos,tornou­senecessárioutilizarinstituiçõesmarcadas pelaburocratizaçãoeautoritarismo,comooparlamentoeossindicatos.Masse,deumlado,asoposiçõessindicais

e comunidades de base se negaram a isso, relegaram­se a um papel marginal, de outro, sindicalistas e

parlamentaresquenãoseapoiameimpulsionamademocraciadebase,afastam­sedomovimentosocialmais

expressivo do país. O PT surgiu enfim como expressão e instrumento, ainda que empírico e embrionário, da politização desse movimento. Sua plena configuração como partido político dos trabalhadores, expressão e instrumentodaautonomiadomovimentooperárioepopularconstituiograndedesafiocolocadonaconjuntura.

XI—OsignificadodoPT

Umpartidocapazdeimpulsionar(enãopretendersubstituir)acapacidadecriativadasmassas,sedistinguejápelo

seupróprioprocessodeformação.Eledeveserconstruídojuntamentecomaorganizaçãoefortalecimentodos

organismosdeunidadeeautonomiadostrabalhadores.Seumpartidoéindispensávelparaavançar­sesobreo

momentoesobreascaracterísticasdecadalutaparcial,eformulareporempráticaprojetosdeaçãopolítica,os

organismos unitários das massas são indispensáveis para que esses projetos sejam sancionados,

transformados,materializadospelapráticamassivadostrabalhadores.Porissovalorizamosaexistênciaecriação

dosorganismosdeunidadedasmassas,autônomosemrelaçãoaospartidos,quedevemdisputaropredomínio

de suas políticas no seu interior. As diferenças ideológicas no seio das massas devem se enfrentar democraticamenteatravésdoconfrontodiferentespartidos.

Opartidoquedefendemosdeveserconstruídojuntamentecomaorganizaçãoefortalecimentodosorganismosde

unidade e autonomia dos trabalhadores. Ele não pode ser um simples desdobramento e uma tentativa de

coordenaçãodessesorganismos,maseledeveresponderaosproblemasconcretoscolocadosaomovimentode

massas,eledeveestimularacriaçãodeórgãosdepodernasociedadeapartirdessesorganismospopulares.

Nessaperspectiva,aprópriaelaboraçãoestratégicanãoéumprocessoteóricoquepossaserresolvidoporum

agrupamento ideológico separado das lutas de massa. Ela deve ser gestada progressivamente através da

assimilaçãodasexperiênciasdostrabalhadoresedeveserprecisadaaolongodoprocessodeconstruçãodos

organismosdeunidadeeautonomiadostrabalhadores,eportanto,aolongodoprocessodeconstruçãodopartido

que defendemos. O centralismo democrático,comoprincipiodearticulaçãoentreadiversidadeeaunidadeno

movimentooperárioepopular,nãopodeserencaradodemodohistóricoe,muitomenos,comotransposiçãodos

modelos materializados nas organizações tradicionais. A eficácia imediata deumcentralismo­democráticoque

impõeaunidadedeaçãoexternaenãodivulgaçãodasposiçõesminoritáriastemcomoefeitoamaislongoprazoa

automatização e irresponsabilidade individual dos militantes, o aparelhamento das entidades demassapelas organizaçõespartidáriasmonolíticas.

Osprincípiosorgânicos–entreelesocentralismodemocrático­devemtambém,pois,corresponderaoprocesso mesmodeconstruçãodeumpartidoconcomitantecomodesenvolvimentodosorganismosunitáriosdemassa. Ofatodetermos,assim,definidooPTcomooeixodaconstruçãopartidárianãoconstituiuma“decisãotática”,mas correspondeáprópriaconcepçãoquetemosdesseprocesso.Atarefadeuma“vanguardaideológica”(ouseja,de umagrupamentopolíticocoesionadoemtornodedeterminadosprincípiosideológicosepolíticos)nãoédeelaborar a parte estratégias e programas, de reforçar um aparato orgânico próprio para recrutar aderentes, ganhar trabalhadores e posições no movimento de massas. Sua tarefa deve ser de elaborar estratégias, táticas, programas,formasdeorganizaçãoeaçãojuntocomasliderançasemergentesdoprópriomovimentodemassa.Só assimseforjampolíticasquerepresentemefetivamenteumafusãoentreateoriaeaprática,entregasexperiências assimiladasdopassadoeasexperiênciasvivasdopresente. MasescolheroPTcomoeixodaconstruçãopartidárianãosignificaimaginarqueelejáéumpartidorepresentativo das lideranças políticas e sociais das massas. É preciso construí­lo enquanto tal, e isso se opõe tanto ao espontaneismodequemachaquebasta“aderiraoPTetrabalhar”quantoaooportunismodequantosentramnele para“terumpénomovimentodemassas”,útilparauma“construçãopartidária”paralela. AconstruçãopartidárianãoseesgotanaatividadepúblicadoPTmastemnelaseueixoprincipal.Issoquerdizer queosdesafiosprincipaiscolocadosparanóssãoosquesereferemàelaboração–atravésdoPT—derespostas àsquestõespolíticascolocadas.ParalutarnoPTnaperspectivadacriaçãodeummovimentopopularautônomo,da lutacontraaditaduramilitarvinculadaàlutacontraaexploraçãocapitalistaeaopressãoburguesa,dalutaporuma revolução socialista através da participação consciente e autônoma dos trabalhadores, massas populares e movimentosdesetoressociaisoprimidos,équepropugnamosaconstituiçãodeumatendênciapolíticaunidaem tornodessesprincípios.

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