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COOPERATIVAS DE CRÉDITO SOLIDÁRIO:

CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO

Agência de Desenvolvimento Solidário ADS

Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável CNDRS

Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural NEAD

Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA

2001

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO

Raul Belens Jungmann Pinto Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário

José Abrão Secretário-Executivo

Francisco Orlando Costa Muniz Secretário de Reforma Agrária

Gilson Alceu Bittencourt Secretário da Agricultura Familiar

Sebastião Azevedo Presidente do Incra

Luiz Fernando de Mattos Pimenta Secretário-Executivo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável

Juarez Brandão Lopes Coordenador-Geral do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural

Édson Teófilo Coordenador-Executivo do Núcleo de Estudos Agrários e

Desenvolvimento Rural

AGÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO - ADS

Remigio Todeschini Coordenador-Geral

Francisco Dias Barbosa Coordenador Administrativo-Financeiro

Altemir Tortelli Coordenador de Formação

Mônica Valente Coordenadora de Pesquisa

Gilmar Carneiro Coordenador de Crédito

Jorge Lorenzetti Coordenador de Relações Internacionais

COOPERATIVAS DE CRÉDITO SOLIDÁRIO:

CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO

Gilson Alceu Bittencourt 1

Estudos NEAD 4

2 a Edição - Revisada

1 Agrônomo. Especialista em Análise de Políticas Públicas; mestrando em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente - IE/Unicamp; membro da Plural Cooperativa – Consultoria e Assessoria; assessor técnico do Deser (1992/00); consultor do Sistema Cresol de Cooperativas de Crédito (1996/00); consultor da FAO (1995/ 99); bolsista da Fapesp (2000/01). E-mail: bittenca@eco.unicamp.br

Gilson Alceu Bittencourt

Agradecimentos

A elaboração deste livro contou com a rica colaboração de Adriano Michelon (Cresol/Baser), Egeu Gomez Furtado (Integração/CUT), Dulce Cazzuni (Desep/CUT), Gilmar Carneiro (Coordenador da Área de Crédito/ADS), Paulo Wataru (Bancredi), Mônica Schröder (Doutoranda IE–Unicamp), Reginaldo Magalhães (ADS), Ricardo Cifuentes (ADS), Roberto Vasques (ITCP/USP) e Selênio Sartori (Instituto Vianey de Educação Popular/SC), cujas contribuições foram desde a proposição do conteúdo do livro até a leitura e sugestões de texto. Aproveito para fazer um agradecimento especial ao Sistema Cresol de Cooperativas de Crédito Rural, cuja vivência e acompanhamento que realizei nos últimos cinco anos forneceram os elementos centrais para a elaboração deste livro. Agradeço ainda a Cresol-Baser, pelas constantes informações e dados disponibilizados sempre que requisitados.

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Cooperativas de Crédito Solidário

Prefácio - NEAD/MDA

Este livro apóia-se na experiência prática de um dos mais dinâmicos movimentos sociais do Brasil contemporâneo. Ele é uma das expressões da força que, durante os anos 90, os agricultores familiares souberam organizar e pela qual eles puderam impor uma nova agenda para as políticas públicas voltadas ao meio rural. Até então, imperavam generosas subvenções que explicam muito – mas não tudo é claro – da “eficiência” das grandes fazendas, acompanhadas timidamente por algum tipo de política compensatória. A novidade dos anos 90 é que em vez de simplesmente lutar para que as políticas compensatórias – certamente necessárias – fossem ampliadas, os agricultores familiares tiveram a sabedoria de recolocar os termos do problema: por que razão os temas de natureza econômica referentes à agricultura e ao desenvolvimento rural deveriam permanecer nas mãos da agricultura patronal? Afinal, eram cada vez mais evidentes os sinais de que os agricultores familiares não só constituíam a maior parte de energia vital do interior do país, mas sua expressão econômica era muito mais importante do que o fazia crer a expressão cética consolidada no vocabulário nacional de “pequena produção”. Foi uma verdadeira revolução copermicana do desenvolvimento rural que imprimiu um novo estato à agricultura familiar: não mais um segmento marginal, condenado, mais dia menos dia, ao desaparecimento e do qual uma política socialmente comprometida poderia, no máximo, tornar a morte menos dolorosa, mas um ator social capaz de encarnar um novo projeto para a agricultura e as regiões não-densamente povoadas do país. É como parte deste novo projeto que sugem novas organizações que se distinguem do sistema cooperativista até então existente por duas razões básicas. Em primeiro lugar – e esta é das pedras de toque do sistema CRESOL, que acaba de completar cinco anos de vida e de cuja história o autor deste livro é um dos protagonistas – trata-se de formar um conjunto altamente descentralizado, com forte controle local e que só possa existir em vistudes da conquista de uma certa coesão social que permita aos agricultores substituir, de certa forma, custos de transação bancária por laços interpessoais de confiança.

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Nada mais distante do espírito deste movimento que o endividamento em larga escala e a promiscuidade entre cooperativas de crédito e de produção que caracterizaram em tantas ocasiões o cooperativismo tradicional. Mas esta estrutura local descentralizada só foi possível – e eis um dos desafios mais interessantes que este movimento cooperativista hoje enfrente – pela clara opção de restringir as cooperativas aos agricultores familiares. Eles é que tiveram que forma quadros, adquirir os conhecimentos, acumular o capital político necessário para estabelecer relações com o Banco Central e outros órgãos do governo, com os mais amplos segmentos da sociedade, em suma, para assumir tarefas dirigentes que não fazem parte – é o mínimo que se pode dizer – da tradição histórica dos excluídos num país como Brasil. Não é à toa então que este movimento vem de grupos ligados à Central Única dos Trabalhadores. O interessante porém é que o próprio fato de se organizar uma cooperativa de crédito já representa por si só um convite a que se ultrapasse o âmbito político definitivo em que o movimento se origina. A marca inicial da CUT permanece nas aspirações sociais, na exigência com a lisura do comportamento dos dirigentes, no espírito de descentralização e transferência de poder às bases: mas conforme o movimento se amplia, dele vào participando os mais diferentes segmentos da sociedade o que resulta numa saudável diversificação de suas cores políticas. Daí resulta a importância deste manual: a construção de cooperativas de crédito é talvez o mais importante desafio que têm hoje pela frente os agricultores familiares no Brasil. O sistema bancário – em que pese a presença dos bancos estatais – é incapaz de atender às reais necessidades dos agricultores familiares e quando o faz, os custos para o Tesouro são exorbitantes. A experiência das cooperativas mostra que estes custos podem ser reduzidos significativamente com a tríplice vantegem de se atingirem mais agricultores, agricultores menos favorecidos e, sobretudo, que o acesso ao crédito seja um fator de reforço educativo e político para as populações por ele beneficiadas. Em outras palavras, o desafio cooperativista hoje não é mais da CUT, do governo ou do Sistema CRESOL. Ele está colocado para o conjunto dos atores voltados ao desenvolvimento rural. Este livro mostra que não é fácil formar uma cooperativa. Ele não vende a ilusão de que o cooperativismo por si só pode resolver os grandes problemas sociais que afligem o interior do país. Mas ele oferece ao leitor a justa medida entre as dificuldades a serem enfrentadas e os passos necessários para superá-las. Escrito por Gilson Bittencourt, jovem pesquisador, militante extremamente cuidadoso no estudo da legislaçào e minucioso na exposição dos detalhes fundamentais para a atividade prática, este é um livro que contribui de maneira decisiva para a construção da cidadania no campo brasileiro.

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Ricardo Abramovay

Professor livre-docente do Departamento de Economia da FEA Presidente do Programa de Ciência Ambiental da USP

Cooperativas de Crédito Solidário

Prefácio – ADS/CUT

O processo de debate promovido pela CUT nos últimos anos resultou na

constituição de uma Agência de Desenvolvimento Solidário. A Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS) é uma organização criada em parceria entre a CUT, Unitrabalho e Dieese, articulada com diversas outras entidades nacionais e

regionais, com o apoio de entidades de cooperação internacional. Está estruturada

a partir de um escritório nacional e de diversos escritórios regionais e estaduais.

O objetivo geral da ADS é gerar novas oportunidades de trabalho e

renda em organizações de caráter solidário e contribuir com a construção de alternativas de desenvolvimento social e sustentável. Os seus princípios são gestão democrática e solidária do trabalho e da produção; distribuição de renda; desenvolvimento social e sustentável; educação permanente dos trabalhadores;

respeito à diversidade étnica, cultural, regional, ambiental e de gênero.

A ADS possui diversos programas em andamento, entre os quais os de

crédito solidário, de educação, de pesquisa e de incubação e formação de redes de economia solidária, os quais desenvolvem e acompanham inúmeros projetos

e experiências de economia solidária.

O programa de crédito solidário procura recuperar o papel do crédito

como um instrumento potencializador do desenvolvimento local. Entre as ações desenvolvidas por este programa está o incentivo à criação de cooperativas de crédito, as quais deverão originar um sistema nacional de crédito solidário, na perspectiva de ampliar as possibilidades de captação de recursos financeiros junto aos trabalhadores e aos fundos públicos e privados, visando ao financiamento de empreendimentos solidários rurais e urbanos.

O Sistema de Crédito Cooperativo Solidário, compromissado com o

desenvolvimento econômico e social, deverá conter os seguintes princípios:

1. gestão política democrática, participativa e solidária;

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2. gestão profissional com filosofia de viabilidade econômica, financeira

e de qualidade dos serviços e com filosofia cooperativa (cooperação entre os

trabalhadores e cooperação entre cooperativas);

3. descentralização administrativa e flexibilidade quanto às condições

locais, garantindo proximidade social, confiança e conhecimento mútuo entre

o Sistema e os seus associados, a fim de estabelecer um sistema eficaz de

controle social e de valorização da comunidade;

4. promoção da elevação e da distribuição da renda, do desenvolvimento

humano e da cidadania, por meio de financiamento de empreendimentos econômicos articulado a processos contínuos e permanentes de formação, de educação integral e de qualificação técnica e profissional;

5. promoção do desenvolvimento local com ênfase no desenvolvimento

social e sustentável e respeito à diversidade étnica, cultural, regional, ambiental

e

de gênero.

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Cooperativas de Crédito Solidário

Apresentação

COOPERATIVAS DE CRÉDITO SOLIDÁRIO: CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO foi

elaborado visando contribuir para a formulação de diversos sistemas de cooperativas de crédito que sejam acessíveis a todos e que promova o desenvolvimento econômico, com justiça social, cooperação e solidariedade. Ele fornece elementos básicos para que as organizações sociais possam criar de cooperativas de crédito rural entre os agricultores familiares e de economia e crédito mútuo entre os trabalhadores urbanos. Este livro está organizado em quatro partes, além da introdução. A primeira está dividida em dois capítulos, contendo algumas informações sobre

o Sistema Financeiro Nacional e apresentando as instituições de crédito no

Brasil, com destaque para as que atuam com microcrédito. A segunda parte está dividida em três capítulos, nos quais é apresentado um pouco da história do cooperativismo de crédito no Brasil, destacando também alguns princípios que devem nortear a criação e o funcionamento de uma cooperativa de crédito. Nesta parte também são apresentadas as principais legislações que regulamentam

a criação e o funcionamento das cooperativas de crédito no Brasil. A terceira parte deste manual está dividida em quatro capítulos, onde são apresentados o funcionamento de um sistema de cooperativas de crédito, a estrutura administrativa, os serviços e as operações que podem ser realizadas por uma cooperativa de crédito. Em seguida são apresentados alguns exemplos de convênios realizados por cooperativas de crédito com instituições financeiras. Por fim, na quarta e última parte do manual, dividida em três capítulos, são apresentadas diversas informações sobre a constituição e abertura de uma cooperativa de crédito, tais como a necessidade de articulações com a sociedade civil, a viabilidade econômica, a contabilidade e a estrutura operacional, a documentação a ser encaminhada ao Banco Central e Junta Comercial, além das garantias, taxas de inadimplência, provisões, balanços e fundos existentes em uma cooperativa de crédito.

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Além das quatro partes acima descritas, o manual também apresenta um glossário de termos técnicos utilizados pelo cooperativismo de crédito, além de diversos anexos, contendo modelos de documentos que devem ser encaminhados ao Banco Central e/ou Junta Comercial quando da constituição de uma cooperativa de crédito.

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PREFÁCIO NEAD/MDA

PREFÁCIO ADS/CUT

APRESENTAÇÃO

INTRODUÇÃO

Sumário

PARTE I

1 O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL

2 AS INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO NO BRASIL

Cooperativas de Crédito Solidário

2.1 Bancos

2.2 Instituições não-bancárias de crédito e microcrédito

2.2.1 Cooperativas de crédito

2.2.2 Sociedades de crédito ao microempreendedor – SCM

2.2.3 Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público –

OSCIP

2.2.4 Banco do Povo

2.2.5 Outras organizações de microcrédito

PARTE II

3 A HISTÓRIA DO COOPERATIVISMO DE CRÉDITO

4 OS PRINCÍPIOS QUE DEVEM NORTEAR UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

5 A LEGISLAÇÃO QUE REGULAMENTA AS COOPERATIVAS DE CRÉDITO

5.1 Principais regulamentações e comentários sobre a Resolução nº 2.771 do Bacen 5.1.1Constituição e funcionamento das cooperativas de crédito

5.1.2 Tipos de cooperativas de crédito existentes

5.1.3 Área de atuação

5.1.4 Administradores

5.1.5 Capital social e patrimônio líquido

5.1.6 Cooperativas centrais de crédito

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5.1.7 Operações – captação de recursos, financiamentos e

endividamento

5.1.8 Outras disposições gerais

PARTE III

6 O FUNCIONAMENTO DE UM SISTEMA DE COOPERATIVAS DE CRÉDITO

6.1 Cooperativa de crédito singular (rural ou mútuo)

6.2 Unidades administrativas desmembradas e postos de atendimento

6.3 Cooperativa central de crédito

6.4 Sistema Nacional de Cooperativas de Economia e Crédito Solidá-

rio (Federação)

6.5 Bancos cooperativos

7 ESTRUTURA ADMINISTRATIVA DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

7.1 Assembléia Geral

7.2 Conselho de Administração

7.3 Conselho Fiscal

7.4 Condições básicas para o exercício de cargos eletivos

8 OS SERVIÇOS E OPERAÇÕES DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

8.1 Cooperativa de crédito rural

8.1.1 Serviços prestados e operacionalização dos financiamentos

8.1.2 Crédito com recursos próprios

8.1.3 Crédito rural com recursos oficiais de crédito

8.2 Cooperativa de crédito mútuo

9 OS CONVÊNIOS COM INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS

9.1 Cooperativas de crédito rural – o exemplo do Sistema Cresol

9.2 Cooperativas de crédito mútuo – o exemplo do Bancredi

PARTE IV 10 A CONSTITUIÇÃO DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

10.1 As premissas para a criação de uma cooperativa de crédito

10.2 A viabilidade econômica de uma cooperativa de crédito

10.2.1 Cooperativa de crédito rural

10.2.2 Cooperativa de crédito mútuo

10.3 A articulação política para a criação da cooperativa de crédito

10.3.1 A articulação com outras entidades dos trabalhadores

10.3.2 A articulação com o poder público local

10.4 A Assembléia Geral de constituição da cooperativa

10.5 O Estatuto Social

10.6 Os sócios fundadores

10.7 Documentação necessária para a constituição da cooperativa

10.7.1 Documentos para o Banco Central

10.7.2 Documentos para a Junta Comercial

10.8 A filiação a uma central de crédito ou de serviços

10.9 A escolha de um banco para convênios de compensação

10.10 A contabilidade da cooperativa 10.11 O software para o gerenciamento e contabilidade

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10.12 O capital social e o patrimônio líquido

11 A ABERTURA DA COOPERATIVA

Cooperativas de Crédito Solidário

11.1 A sede da cooperativa – segurança e funcionalidade

11.2 A estrutura operacional

11.3 O quadro pessoal da cooperativa

11.4 O cadastro socioeconômico

11.5 Os empréstimos e as garantias

11.6 As inadimplências e as provisões de créditos

12 O BALANÇO GERAL DA COOPERATIVA FUNDOS, SOBRAS E PERDAS

12.1 Fundo de Liquidez – a solidariedade entre as cooperativas

13 FUSÃO, INCORPORAÇÃO E DESMEMBRAMENTO DE COOPERATIVAS

GLOSSÁRIO DE TERMOS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANEXOS

Anexo 1 – EDITAL DE CONVOCAÇÃO DA ASSEMBLÉIA DE CONSTITUIÇÃO Anexo 2 – MODELO DO BACEN PARA ATA DE ASSEMBLÉIA GERAL DE CONSTITUIÇÃO Anexo 3 – MODELO DO BACEN PARA ESTATUTO SOCIAL DE COOPERATIVA DE CRÉDITO Anexo 4 – REQUERIMENTO PARA A CONSTITUIÇÃO DA COOPERATIVA Anexo 5 – DECLARAÇÃO DE DESIMPEDIMENTO Anexo 6 – RECIBO DE DEPÓSITO PARA A CONSTITUIÇÃO Anexo 7 – FORMULÁRIO CADASTRAL Anexo 8 – DECLARAÇÃO DE RESPONSABILIDADE PARA O CONSELHEIRO DE ADMINISTRAÇÃO Anexo 9 – DECLARAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE PARENTESCO Anexo 10 – DECLARAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS Anexo 11 – DECLARAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS JUNTO AO CADIN Anexo 12 – DECLARAÇÃO DE BENS DOS CONSELHEIROS DE ADMINISTRAÇÃO Anexo 14 – COMUNICAÇÃO AO BACEN DO ARQUIVAMENTO NA JUNTA COMERCIAL Anexo 15 – COMUNICAÇÃO AO BACEN DO INÍCIO DAS ATIVIDADES Anexo 16 – MODELO DO BACEN PARA EDITAL DE CONVOCAÇÃO DE ASSEMBLÉIA Anexo 17 – MODELO DO BACEN PARA ATA SUMÁRIA DE ASSEMBLÉIA GERAL Anexo 18 – INFORMAÇÕES SOBRE O ATO DE ELEIÇÃO OU NOMEAÇÃO

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Cooperativas de Crédito Solidário

Introdução

O Brasil entra no ano 2000 com uma situação social bastante precária.

É visível o baixo grau de desenvolvimento social, principalmente quando se

observam os indicadores sociais e o nível de concentração de renda. O crescimento econômico ocorrido principalmente a partir dos anos 50 impulsionou um intenso processo de mobilidade social, mas, por outro lado, provocou também um processo de concentração de renda.

Nos anos 90, a situação social se agrava ainda mais em virtude da estagnação da economia nacional. A mobilidade social percebida antes perde sua força e o que se vê é um processo de degeneração do tecido social, onde uma massa de pessoas é colocada a margem da economia e da própria sociedade. A concentração de renda continua, dividindo a sociedade basicamente em dois grupos: a elite “moderna e globalizada”, que desfruta dos benefícios desta “modernidade” e os excluídos, um grupo numeroso que não tem acesso às benesses da sociedade moderna e que, muitas vezes, não tem acesso nem às condições básicas de sobrevivência.

Mesmo neste quadro adverso, ainda existe um desejo por construir uma

sociedade mais justa, que promova o acesso universal às condições básicas de uma vida digna e uma melhor distribuição de renda. Para isso, é necessário que

a sociedade ofereça oportunidades de geração de renda a todos os estratos sociais, principalmente para aquelas camadas marginalizadas.

Para atingir esses objetivos, um importante instrumento é o crédito. O crédito tem a função de promover uma melhor relação entre aquelas pessoas que tem recursos ociosos e as pessoas que querem investir na produção de mercadorias ou serviços. Desta forma, o crédito funciona como uma mola propulsora do desenvolvimento econômico. Um exemplo disso ocorreu na Europa do pós-guerra. Com um parque produtivo destruído e uma infra-estrutura econômica bastante afetada pela guerra, a Europa encontrou no crédito um importante elemento de recuperação da atividade econômica. Porém, em tempos

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mais recentes, o crédito inserido no sistema financeiro, acabou tendo um caráter excludente e, em virtude de políticas econômicas restritivas, passou a ser o centro do sistema econômico. O crédito deixou de ser um meio de gerar riquezas por meio da produção e passou a ser um fim pelo qual se objetiva valorizar o dinheiro investido, sem uma relação mais direta com a atividade produtiva. Dessa forma, as altas taxas de juros acabaram conferindo ao sistema financeiro um caráter altamente excludente.

O crédito é um dos pilares para o desenvolvimento econômico e social de uma sociedade. Se o acesso ao crédito não for privilégio de uma pequena parcela da sociedade, mas pelo contrário, for uma instituição à disposição de toda a sociedade, ele terá um poder de incentivar a atividade econômica e a geração de renda, desde que associado com algum nível de qualificação profissional e acompanhamento gerencial.

Entretanto, no Brasil este instrumento é altamente seletivo e excludente, tanto no meio rural como no meio urbano. Os bancos comerciais, privados e estatais, privilegiam os grandes investidores, deixando à margem da economia um grande número de micros e pequenos empresários urbanos e rurais, formais e informais, além de populações inteiras, residentes em pequenos municípios ou comunidades (bairros) pobres das grandes cidades. Além disso, cerca de 34% dos municípios brasileiros não possuem nenhuma agência bancária. Em muitos outros, onde a presença bancária era restrita aos bancos estaduais, o crescente processo de privatização tem provocado o fechamento de agências. O problema é agravado pelo enxugamento da máquina do Banco do Brasil, que também está fechando muitas agências, principalmente nos pequenos municípios.

No meio urbano, muitas famílias de trabalhadores necessitam de crédito

para financiar o próprio consumo ou para a realização de investimentos visando

à geração de emprego e renda, mas têm problemas para acessá-lo, passando

normalmente por três situações: a) ficam a mercê dos bancos, os quais além de serem seletivos, exigindo pesadas garantias e rígidos cadastros, cobram taxas abusivas por seus financiamentos; b) financiam-se por meio de agiotas ou financeiras, os quais cobram taxas mais exorbitantes ainda; c) não têm acesso

a financiamentos e nem aos serviços bancários. O acesso ao crédito para muitas

destas famílias pode passar pela constituição de cooperativas de crédito mútuo,

seja de trabalhadores de uma mesma empresa ou de uma mesma categoria profissional, que também pode englobar os seus familiares.

Ainda para a população urbana, certas comunidades, bairros ou mesmo pequenas cidades, a falta de crédito ou a dificuldade em obtê-lo, restringe ou mesmo impossibilita o avanço econômico de inúmeras experiências produtivas

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Cooperativas de Crédito Solidário

e comerciais, geradoras de emprego e renda, sejam elas formais ou informais.

A criação de cooperativas de crédito comunitárias, com área de ação limitada

a uma cidade ou bairro, com limitação de renda entre seus associados, embora

não permitida pela atual legislação, poderia ser uma alternativa, ajudando a criação de atividades produtivas e fomentando a economia local.

No meio rural, os problemas são ainda mais limitantes devido à instabilidade e riscos inerentes à produção agropecuária. Apesar das organizações sindicais e associativas terem conseguido avanços com relação às políticas de crédito agrícola, estes benefícios têm tido dificuldades de chegar até os agricultores familiares. O sistema de crédito rural estruturado na atual rede bancária não tem atendido aos interesses dos agricultores familiares, pois os bancos não têm interesse em atender quem movimenta pouco dinheiro, tem poucas garantias e deseja fazer empréstimos de pequeno porte, pois estes apresentam custos operacionais elevados para os seus padrões. Diante destes entraves, as cooperativas de crédito rurais de agricultores familiares podem proporcionar canais de acesso ao crédito, além de uma melhor capacitação para sua utilização.

As cooperativas de crédito passam por constantes desafios na tentativa de mantê-las voltadas à sua missão central. Estes desafios vão desde a necessidade de articulação e luta conjunta com outras organizações políticas e representativas, à busca de recursos mais baratos, à constante formação e capacitação de seu quadro diretivo e associativo, à necessidade de melhores serviços e controles internos e, principalmente, da transformação dos recursos financeiros em projetos de desenvolvimento sustentáveis e não em mais endividamento e empobrecimento da população.

Por fim, é preciso ter muito claro que o acesso ao crédito rural ou urbano, não é a solução final para o conjunto de seus problemas. É fundamental a articulação com outras organizações que têm como eixo de atuação a promoção

e o desenvolvimento social e econômico da população, tais como sindicatos,

associações profissionais, associações de produtores, pequenas agroindústrias, micro e pequenos empresários, escolas de formação profissional, cooperativas de produção e de trabalho, organizações não-governamentais (ONGs) e poder público.

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Parte I

1 O SISTEMA FINANCEIRO NACIONAL

Cooperativas de Crédito Solidário

Um sistema financeiro é o conjunto de instituições que atuam no sentido

de

propiciar um fluxo de recursos adequados entre poupadores e investidores.

O

sistema financeiro é capaz de realizar a intermediação de forma que os

recursos disponíveis sejam distribuídos entre aqueles que têm a intenção de investi-los. Os poupadores, que fornecem os recursos, recebem o dinheiro de volta após um certo tempo, remunerado por uma determinada taxa de juros. Nesse sentido, o sistema financeiro pode ser um impulsionador do crescimento econômico, pois disponibiliza recursos para investimento.

O Sistema Financeiro Nacional (SFN) é composto por diversas instituições,

sejam elas financeiras monetárias (que podem criar moeda bancária escritural, correspondente a lançamentos contábeis de débito e crédito), financeiras não- monetárias (que não criam moeda escritural), instituições financeiras auxiliares (somente intermediam operações entre poupadores e investidores) e instituições não financeiras, mas que participam do mercado financeiro.

O SFN é regulamentado, em grande parte, pela Lei de Reforma Bancária

(Lei n o 4.695, de 1964). Nesta lei, consideram-se instituições financeiras “as pessoas jurídicas públicas e privadas, que tenham como atividade principal ou acessória a coleta, intermediação ou a aplicação de recursos financeiros próprios ou de

terceiros, em moeda nacional ou estrangeira, e a custódia de valor de propriedade de terceiros”. As instituições financeiras são aquelas que captam recursos diretamente do público, emitem passivos e realizam financiamentos. As instituições auxiliares não financeiras são aquelas que promovem a aproximação entre poupadores e investidores, porém não realiza operações entre eles.

A estrutura da SNF tem um subsistema normativo (Bacen, 2000A), que

estabelece regras de funcionamento e de operação do sistema, constituído por:

· Conselho Monetário Nacional (CMN): responsável pela fixação de diretrizes da política monetária, creditícia e cambial. Ele conta com sete comissões

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consultivas (normas e organização do sistema financeiro, mercado de valores mobiliários e futuros, crédito rural, crédito industrial, endividamento público, política monetária e cambial e processos administrativos).

· Banco Central do Brasil (Bacen): é o órgão executivo central do sistema financeiro. Ele emite papel moeda e executa todos os serviços relativos ao meio circulante. Além disso, recebe os empréstimos compulsórios dos bancos, realiza operações de redesconto e empréstimo a instituições financeiras, regula compensação de cheques, compra e vende títulos públicos federais, exerce o controle sobre o crédito e sobre os fluxos internacionais de capital, além de controlar e fiscalizar as atividades de instituições ligadas ao sistema financeiro.

· Comissão de Valores Mobiliários (CVM): é uma unidade autônoma e descentralizada, mas vinculada ao governo. Tem como objetivo assegurar o

funcionamento das bolsas de valores e fiscalizar a emissão de ações, debêntures

e outros títulos privados nos mercados primário e secundário.

O outro componente do sistema financeiro, além do subsistema normativo, é o de intermediação, que executa os serviços de intermediação financeira na sociedade. É formado pelas instituições financeiras que se

diferenciam em relação aos seus objetivos, e conseqüentemente em relação ao público que pretendem atingir, e em relação às formas de captação de recursos

e atividades permitidas. Os componentes deste subsistema são (Bacen, 2000A):

de captação de recursos e atividades permitidas. Os componentes deste subsistema são (Bacen, 2000A): 20 Estudos

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Cooperativas de Crédito Solidário

Cooperativas de Crédito Solidário Além destes, existem ainda os bancos múltiplos, que são os bancos que

Além destes, existem ainda os bancos múltiplos, que são os bancos que possuem, no mínimo, duas carteiras (comercial, investimento, crédito imobiliário, de aceite ou financiamento, de desenvolvimento ou de leasing). Pelo menos uma das carteiras deve ser comercial ou de investimento.

2 AS INSTITUIÇÕES DE CRÉDITO NO BRASIL

2.1 Bancos

Os bancos públicos e privados têm tido uma grande dificuldade em trabalhar com a população de baixa renda, seja por meio de financiamentos produtivos de pequeno porte ou no fornecimento de serviços (talão de cheques, cartões, poupança etc.). A recusa em atender esta camada da população é aplicada por meio do excesso de burocracias e exigências, bem como com a imposição de capital mínimo para operar com o banco. A exceção ocorre por parte de alguns bancos em relação à poupança, onde o interesse é do Banco, que busca captar os poucos recursos poupados sem fornecer nada em troca a estes poupadores, direcionando os recursos para outros setores econômicos.

No meio rural, mesmo os bancos públicos responsáveis pela gestão dos recursos oficiais destinados à agricultura, têm pouco preparo, pouca estrutura e

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quase nenhum interesse na execução de contratos de crédito rural de pequeno porte (ABRAMOVAY & VEIGA, 1999). Pelo seu alto custo operacional e sua excessiva burocracia, esses bancos normalmente preferem liberar os recursos do crédito rural para os agricultores mais estruturados e que apresentam, pela lógica dos bancos, menores riscos para a aplicação e para o retorno dos recursos. As normas operacionais dos programas de crédito rural oficial, apesar da burocracia imposta pelo governo federal, são elaboradas e definidas pelos agentes financeiros por meio de normativos internos. Em função disso, os bancos optam por liberar os recursos do crédito rural preferencialmente para os agricultores que produzem culturas tradicionais, e que utilizam a risca o “pacote” tecnológico composto por adubos químicos e agrotóxicos. Aquelas atividades que não se enquadram no padrão tradicional de produção e aqueles agricultores mais descapitalizados que não preenchem as exigências do sistema financeiro convencional, não têm acesso aos incentivos necessários para a sua capitalização, mantendo um círculo vicioso de exclusão social.

2.2 Instituições não-bancárias de crédito e microcrédito

O aparecimento de programas de crédito microcrédito popular no Brasil, além dos já operados pelas cooperativas de crédito constituídas no início do século XX, data do início da década de 80, com a experiência da Cáritas Brasil (1981), a criação da Rede Ceape (1987) e diversas outras experiências de fundos rotativos desenvolvidos por ONGs. Estes fundos eram mais comuns no meio rural, sendo viabilizados pelo apoio de entidades de cooperação internacional, não contando com a participação do poder público. O boom destas experiências ocorreu na década de 90, com o aparecimento de iniciativas urbanas, envolvendo o poder público, e com o amadurecimento das ONGs já atuantes, além da constituição de novas cooperativas de crédito.

Outro fator determinante para essa explosão foi os crescentes índices de informalidade da economia, aumentando significativamente a parcela da população excluída do setor formal de crédito, bem como originando milhares de microempreendimentos, carentes de recursos para alavancar suas atividades. Essas novas iniciativas que surgiram no Brasil trazem clara influência da experiência latina, percebida na profissionalização dessas entidades, que passam a contar com profissionais especializados em seus quadros, com estrutura enxuta e orientada para a auto-suficiência (resultando na utilização de juros reais em suas operações).

No setor agrícola, o número de experiências aumentou em função da redução do crédito rural e das dificuldades enfrentadas para o seu acesso pelos agricultores familiares. Esta redução do crédito rural foi em função da significativa

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Cooperativas de Crédito Solidário

diminuição dos recursos disponibilizados pelo governo federal para o setor a partir da metade dos anos 80, e mais recentemente, pela redução da inflação e dos subsídios. Em virtude da escassez de recursos, os bancos ampliaram a adoção de critérios mais rígidos na concessão de empréstimos, exigindo um grande número de garantias, o que levou a uma forte seleção da clientela.

Buscando colaborar para a formação de experiências na área de microfinanças, em 1996 o governo federal, via BNDES, criou um conjunto de programas com intuito de fortalecer e capitalizar as organizações que atuassem com o crédito produtivo popular, prevendo no limite, a incorporação dessas atividades pelos bancos comerciais.

Do ponto de vista institucional, o governo federal também avançou um pouco, criando em 1999 a figura da Sociedade de Crédito ao Microempreendedor (SCM) e as organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Somando-se estas novas organizações às entidades e experiências informais anteriores, existem atualmente como alternativa de institucionalização de operações de microcrédito no país, as seguintes entidades: Cooperativas de Crédito, Sociedade de Crédito ao Micro Empreendedor (SCM), Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), Bancos do Povo e organizações informais de microcrédito.

2.2.1 Cooperativas de crédito

As cooperativas de crédito são instituições financeiras e sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, sem fins lucrativos e não sujeitas à falência, constituídas com o objetivo de propiciar crédito e prestar serviços aos seus associados.

Uma cooperativa de crédito é uma associação que presta basicamente os mesmos serviços fornecidos pelos bancos: financia a produção e os investimentos, cobra contas, fornece talão de cheques e opções de aplicações para seus associados. Por outro lado, é diferente de um banco, pois seus proprietários são os seus clientes, não precisando ter lucro para funcionar, bastando ser remunerada o suficiente para saldar suas próprias contas. Seus custos são rateados entre o quadro social na forma de juros e de pequenas taxas, assim quanto menores forem os custos da cooperativa, menores podem ser os juros e as taxas cobradas por estas.

Da mesma forma que os bancos, as cooperativas de crédito movimentam os recursos de seus associados, podendo também atuar no repasse de recursos públicos por meio de programas oficiais de crédito, como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e o Proger (Programa de Geração de Emprego e Renda).

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Gilson Alceu Bittencourt

As diferenças em relação aos bancos começam no tamanho e no destino dos rendimentos recebidos com as operações. Enquanto nos bancos tais rendimentos são apropriados pelos donos, constituindo lucro, nas cooperativas de crédito as taxas são menores e, quando existem sobras, são divididas entre os associados ou é utilizado para a capitalização da cooperativa, por meio da elevação do valor da cota capital dos associados. Além do baixo custo operacional das cooperativas, devido à sua menor estrutura física e de pessoal, elas podem fornecer empréstimos com juros abaixo do praticado pelos bancos e ainda remunerar as aplicações de seus associados com taxas superiores às do mercado.

Nas cooperativas de crédito, a maior parte do dinheiro dos associados tende a ficar no próprio município, contribuindo para o seu desenvolvimento. Além disso, enquanto os bancos precisam aplicar apenas 25% de seus “depósitos à vista” na agricultura, as cooperativas de crédito rural aplicam no mínimo 60%, sendo que a maioria dos bancos prefere depositar no Banco Central o valor referente aos “depósitos à vista” do que financiar a agricultura.

Entretanto, apesar dos avanços que uma cooperativa de crédito tem em relação a um banco comercial, isto não significa que todas são agentes do desenvolvimento. Algumas (e não são poucas) cooperativas de crédito no Brasil atuam meramente como agentes financeiros, visando apenas à sua sustentação econômica, independente de quem são os beneficiários do crédito e de seus serviços, ou melhor, fazem uma forte seleção de seu quadro social, e não estão vinculados ao desenvolvimento social, seja ele no meio rural ou no urbano.

As principais diferenciações entre as Cooperativas de Crédito e os bancos (BITTENCOURT, 1999) são apresentadas no quadro abaixo:

entre as Cooperativas de Crédito e os bancos (BITTENCOURT, 1999) são apresentadas no quadro abaixo: 24

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Cooperativas de Crédito Solidário

Cooperativas de Crédito Solidário As principais diferenças entre as cooperativas de crédito e as outras formas

As principais diferenças entre as cooperativas de crédito e as outras formas de organização do microcrédito estão no fato delas terem mais autonomia de gestão administrativa (apesar de serem fiscalizadas pelo Bacen), poder captar recursos de seus associados (depósitos à vista e a prazo), fornecer diferentes modalidades de crédito e poder atuar como repassadores de recursos oficiais de crédito, especialmente as cooperativas de crédito rural.

2.2.2 SCMs - Sociedades de crédito ao microempreendedor

As sociedades de crédito ao microempreendedor foram autorizadas a funcionar em agosto de 1999, por meio da Resolução nº 2.627 e da Circular nº 2.915, ambas do Banco Central. Segundo esta resolução, as sociedades de crédito ao microempreendedor têm como objetivo social exclusivo à concessão de financiamentos a pessoas físicas, com vista à viabilizar empreendimentos de natureza profissional, comercial ou industrial de pequeno porte, bem como pessoas jurídicas classificadas como microempresas nos termos da legislação em vigor.

Estas sociedades somente podem ser constituídas sob a forma de companhias fechadas nos termos da Lei nº 6.404, representado por, no mínimo, 50% de ações ordinárias e sociedade por quotas de responsabilidade limitada. A criação de sociedades de crédito depende de prévia autorização do Bacen, que também fiscaliza e controla o seu funcionamento.

As SCMs precisam ter um limite mínimo de capital realizado e patrimônio líquido ajustado de R$100.000,00. É proibida a participação societária, direta ou indireta, do setor publico no capital destas sociedades. Os seus recursos podem ser captados no país e no exterior, originários de:

a) organismos e instituições nacionais e internacionais de desenvolvimento;

b) orçamentos estaduais e municipais;

c) fundos constitucionais;

d) doações;

e) outras fontes, desde que autorizadas pelo Bacen.

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Em suas operações de crédito, as sociedades devem observar o limite de diversificação de risco de, no máximo, R$10.000,00 por cliente. Os seus empréstimos não podem ultrapassar cinco vezes o respectivo patrimônio líquido ajustado (PLA), e os seus recursos não têm cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A resolução veda às sociedades de crédito a:

a) transformação em qualquer tipo de instituição integrante do SFN;

b) captação de recursos do público;

c) participação societária no capital de outras empresas;

d) contratação de depósitos interfinanceiros na qualidade de depositante ou depositária;

e) concessão de empréstimos para fins de consumo;

f) cessão de créditos com co-obrigação.

Quando se iniciou o debate em torno das SCMs, o objetivo era ampliar

as alternativas de microcrédito urbanas, mas a resolução do Bacen não avançou

muito neste sentido. As principais limitações estão no alto valor exigido para o patrimônio líquido e o impedimento para que as sociedades de crédito captem recursos por meio de depósitos de seus associados. A restrição do uso do crédito para consumo também pode ser considerada como uma limitação para as atividades do microcrédito urbano. Como estas sociedades dependem basicamente de repasses de recursos de outras instituições, os recursos para os créditos, além de serem muito limitados, apresentam condições de financiamento muitas vezes proibitivas, pois normalmente estas são impostas pelas entidades fornecedoras dos recursos.

2.2.3 Oscip - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público

As Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público - Oscip são

associações civis, de direito privado, sem fins lucrativos, que conquistam junto ao Ministério da Justiça o “título” de Interesse Público. Tradicionalmente conhecidas como ONGs, essas entidades que se caracterizaram pela proposição

e execução de diversas políticas públicas, poderão vir a desempenhar um

importante papel na construção das microfinanças e crédito popular no Brasil,

conforme contempla a Lei nº 9.790, de 23 de março de 1999, regulamentada pelo Decreto nº 3.100, de 30 de julho de 1999.

A qualificação de uma organização como Oscip será conferida às pessoas

jurídicas de direito privado e sem fins lucrativos, cujo princípio de universalização dos serviços deve ser respeitado, e que os objetivos sociais tenham no mínimo

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Cooperativas de Crédito Solidário

uma das finalidades descritas pela lei, entre as quais destaca-se a “experimentação, não lucrativa, de novos modelos sócioprodutivos e de sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito”.

Deve-se destacar que a promulgação dessa lei, bem como a das SCMs, surgiram da pressão exercida por organizações sociais pela regulamentação da atividade de microcrédito.

Apesar das dificuldades de capitalização, às quais normalmente estão expostas, as organizações que têm conquistado o título de Oscip têm conseguido sucesso nas suas operações, que devido à sua natureza não-lucrativa, lhes permite baixar os juros e assim, têm possibilidade de competir com instituições de outra natureza. Porém, se são beneficiadas pela não-distribuição de lucros e dividendos, devido ao seu caráter não-lucrativo, muitas destas Oscip acabam contando com equipes não-profissionais, o que apesar de já ser percebido como fundamental, é oneroso.

Por outro lado, estas organizações incorrem em diversas dificuldades para sua legalização, apesar das exigências legais não parecerem tão complicadas. Os documentos exigidos pelo Ministério da Justiça são:

g) estatuto registrado em cartório;

h) data de eleição de sua atual diretoria;

i) balanço patrimonial e demonstração do resultado do exercício;

j) declaração de isenção do imposto de renda;

k) inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes.

A constatação da dificuldade encontrada para obter o título de Oscip pode ser notada pelo pequeno número de entidades que atuam com microcrédito a solicitar a qualificação junto ao Ministério da Justiça, bem como pelo número ainda menor de pedidos deferidos. Deve-se destacar a necessidade de alterações na lei que rege as Oscip, adaptando-a melhor à realidade brasileira.

2.2.4 Banco do Povo

Este tipo de instituição é normalmente limitado ao espaço urbano, pois não atuam com repasses de créditos oficial para o meio rural, principal fonte de recursos para os financiamentos rurais de médio e longo prazos. Quanto à sua natureza jurídica, deve-se destacar que, apesar da influência direta do poder público em suas constituições, os bancos do povo estão limitados às personalidades jurídicas de Oscip ou SCMs. Exemplo disso é o Banco do Povo de Santo André, que desde janeiro de 2000, obteve a qualificação de Oscip junto ao Ministério da Justiça.

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Estas instituições, apesar de ampliarem as alternativas de microcrédito para o meio urbano, são limitadas em relação às suas fontes de recursos, dificultando a sua sustentabilidade ao longo do tempo. O impedimento à captação de recursos da população atingida provoca duas importantes conseqüências. A primeira é em relação à limitada quantidade de recursos colocados à disposição destas agências de microcrédito, pois está restrito, na maioria dos casos, aos recursos disponibilizados pelo poder público local, que são escassos e limitados. Porém, cabe lembrar que a busca por novas fontes de capitalização tem sido uma preocupação constante nessas organizações, que utilizam o respaldo governamental para facilitar a viabilização desses fundos. A segunda conseqüência está relacionada com o grau de comprometimento do público alvo em relação ao Banco. Apesar de todo trabalho de formação que possa ser realizado com os beneficiários, normalmente não existe um compromisso econômico do beneficiário em relação aos recursos do banco, o que aumenta a inadimplência e a necessidade de fiscalização coletiva da utilização dos recursos e do pagamento dos financiamentos. Nesse sentido, em alguns casos, as instituições vêm elaborando rigorosos procedimentos de concessão de crédito que se por um lado diminui a inadimplência, por outro restringe o número de solicitações atendidas.

2.2.5 Outras organizações de microcrédito

São organizações não-regulamentadas e/ou não-reconhecidas pelo governo federal, portanto, não-autorizadas a funcionar. Entretanto, estas organizações de crédito existem, sendo que muitas delas prestam importantes serviços ao desenvolvimento humano, por meio da concessão de pequenos créditos produtivos e créditos pessoais emergenciais. Além destas organizações informais de crédito, existem outras formas de obtenção de crédito pela população, as quais não serão trabalhadas neste texto, mas merecem ser destacadas. São elas o crédito por meio de amigos, parentes, agiotas, fornecedores de insumos e compradores da produção (comerciantes), entre outros.

2.2.5.1 Bancos comunitários informais

Um bom exemplo deste tipo de organização é o Banco Palmas (Banco Popular do Conjunto Palmeira), criado em 1998 na cidade de Fortaleza-CE. O Banco funciona no bairro Palmeira, que é constituído por uma população de trinta mil habitantes e caracterizado pela pobreza econômica, onde cerca de 80 % da população têm renda familiar abaixo de dois salários mínimos e 95% dos moradores possuem no máximo o 1º grau completo.

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Cooperativas de Crédito Solidário

O projeto surgiu a partir da Associação de Moradores, que implantou

um projeto voltado para a geração de ocupação e renda, com um amplo componente social de mobilização e organização dos moradores. O banco é totalmente administrado e gerenciado pelos líderes comunitários do bairro.

A filosofia central do banco está voltada para uma rede de solidariedade

de produção e consumo local. O banco possui uma linha de microcrédito para quem deseja criar ou ampliar um pequeno negócio e outra linha de crédito que financia aqueles que desejam comprar dos produtores do próprio bairro. Para financiar o consumo local, o banco criou o seu próprio cartão de crédito: o PalmaCard, que tem validade apenas no Conjunto Palmeira, estimulando as famílias a comprarem os produtos produzidos e vendidos na própria comunidade. É importante destacar que todos os clientes do banco precisam ser sócios da Associação e participarem das atividades comunitárias.

O banco trabalha com uma política pautada no controle social do

crédito. Quando um morador solicita um crédito, ele é informado das regras de funcionamento da rede de solidariedade. Em seguida um analista de crédito visita a casa do solicitante e conversa com os vizinhos. É o depoimento da vizinhança que vai servir de aval para o futuro cliente. O Banco Palmas não exige fiador e não faz consultas ao SPC, Serasa ou Cadim. A partir do momento em que o cliente é aceito no banco, ele passa a ser acompanhado por toda a rede de solidariedade. Esse controle social fiscaliza as ações do banco e dos seus empreendedores, ajudando a manter um baixo índice de inadimplência (1% a 3%).

O banco adota a política de juros evolutivos, isto é, quanto maior for o

crédito solicitado, maior é a taxa de juros. Desta forma, quem tem mais recursos subsidia o juro de quem tem menos. Essa estratégia garante a distribuição de renda entre os produtores locais. O banco possui 870 clientes, que além do aspecto econômico, se articulam com o bairro por meio da participação em atividades comunitárias, tais como: acompanhamento às escolas e postos de saúde, mutirões de limpeza e manutenção dos equipamentos públicos, lutas e mobilizações sociais por serviços e melhorias gerais para o bairro, participação nos grupos culturais, entre outras modalidades de participação.

O Banco Palmas não pode captar depósitos de seus associados, pois

está impedido pelo Bacen por não ser uma entidade reconhecida. Os recursos utilizados para os empréstimos têm sido originários nas entidades de cooperação internacional. Atualmente existe uma negociação com o BNDES para a realização de repasses de recursos para os microcréditos.

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2.2.5.2 Fundos rotativos

Os fundos rotativos são caracterizados como uma organização informal de crédito, sendo mais comuns no meio rural. Têm sido criados normalmente por iniciativa de ONGs, governos municipais, movimentos populares e associações de produtores. Estes fundos tornam o crédito mais acessível e democrático, dando oportunidades aos agricultores de participarem de sua gestão.

Estas experiências têm contribuído na construção de propostas de crédito rural compatíveis com a realidade e diversidade dos agricultores familiares. Eles têm demonstrado a viabilidade da agricultura familiar e a importância do crédito, não como uma forma de transferir rendas para a agricultura, mas como um meio de potencializar e reestruturar as pequenas unidades de produção. Os fundos rotativos são um importante instrumento das organizações dos agricultores, já que os financiamentos destinam-se prioritariamente a grupos e a associações.

Os principais limites destes fundos são a falta de uma maior institucionalidade, o que em muitos casos provoca um descomprometimento por parte dos beneficiários com o seu pagamento (como normalmente as fontes de recursos são entidades de cooperação internacional ou órgãos públicos, existe um “costume” de tratá-los como “fundo perdido” e não como fundos rotativos, além da dificuldade legal para realizar as cobranças dos inadimplentes); a limitada quantidade de recursos, frente a uma grande demanda (não captam recursos da comunidade em que atuam e não repassam recursos oficiais de crédito) e a fraca profissionalização administrativa de seus gestores (o que contribui para ampliar a inadimplência e amplia as possibilidades de clientelismo).

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Parte II

Cooperativas de Crédito Solidário

3 A HISTÓRIA DO COOPERATIVISMO DE CRÉDITO

As primeiras cooperativas de crédito foram organizadas na Europa a partir da segunda metade do Século XIX, principalmente na Alemanha e na Itália. A idéia era permitir que as pessoas juntassem dinheiro e pudessem tomar empréstimos mutuamente, criando assim condições para que a população mais pobre do campo pudesse ter alternativas para sair da miséria e melhorar de vida. Por meio desta experiência, o cooperativismo de crédito expandiu-se por quase todo o mundo, sendo que atualmente existem 20.000 agências de crédito cooperativo na Alemanha, 18.500 na Inglaterra e 3.000 na Holanda.

No Brasil, o cooperativismo de crédito surgiu no início do Século XX, trazido pelos imigrantes alemães e italianos. Eles implantaram um sistema de crédito cooperativo nos moldes das organizações que existiam em suas cidades

e

vilas de origem, na tentativa de resolver seus problemas de crédito, produção

e

consumo. A primeira cooperativa brasileira foi fundada em 1902 na cidade

de Nova Petrópolis (serra gaúcha), funcionando até hoje. A partir desta iniciativa, outras organizações de crédito foram criadas no Rio Grande do Sul e difundidas

nos demais Estados, principalmente das regiões Sul e Sudeste do país (SCHRÖDER, 1998). As primeiras cooperativas de crédito mútuo no Brasil surgiram em 1959, com o apoio da Cuna - Associação Norte-Americana das Cooperativas de Economia e Crédito Mútuo.

As cooperativas de crédito tiveram um grande desenvolvimento até os anos 60, tornando-se a principal sustentação financeira em muitos municípios brasileiros. Contudo, os problemas administrativos enfrentados por muitas destas cooperativas contribuíram para criar, a partir do final dos anos 50, uma situação de desconfiança e de desvirtuamento dos seus próprios propósitos iniciais.

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Nos anos 60, durante o regime militar, foi realizada uma reforma no sistema financeiro brasileiro, estabelecendo diversas exigências para o funcionamento das cooperativas de crédito. Estas exigências acabaram por “liquidar” um grande número de cooperativas, principalmente as cooperativas do tipo Luzzatti (aberta à população de uma ou mais cidades), obrigando outras a se reestruturarem e limitarem sua atuação. Nos anos 70 e início dos anos 80, o cooperativismo de crédito no Brasil restringiu-se praticamente às cooperativas de crédito mútuo e às de crédito rural vinculadas às cooperativas de produção (BURIGO,1999).

A proposta de cooperativismo de crédito rural retornou no início dos

anos 80, em função das mudanças na política de financiamento da agricultura brasileira, que resultou em uma redução drástica no volume de recursos destinados ao crédito rural e no fim dos subsídios via taxa de juros. A Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) coordenou um movimento de constituição das cooperativas de crédito (Credis) a partir das cooperativas agropecuárias, especialmente no Sul e Sudeste.

O vínculo das Credis às cooperativas de produção provocou um intensivo

processo seletivo, resultando na exclusão de um grande número de agricultores familiares, principalmente os mais descapitalizados, do quadro social das cooperativas. As cooperativas agropecuárias, incentivadas pelo Estado, haviam adotado um padrão de desenvolvimento rural baseado em um nível tecnológico não compatível com as condições socioeconômicas e culturais vividas pelas unidades de produção familiar (SCHRÖDER, 1998). Como conseqüência, de um instrumento para o desenvolvimento rural e local, as Credis transformaram-se em algo desvinculado da realidade de um grande número de agricultores familiares.

Após a criação de várias cooperativas de crédito, o Banco Central autorizou a criação de Cooperativas Centrais de Crédito. Estas centrais, além de darem mais autonomia às cooperativas de crédito rural, contribuíram para a criação de cooperativas de crédito “mútuo” no meio urbano, mas sempre mantendo a sintonia política com o cooperativismo agropecuário.

Em 1995, fruto das pressões da cúpula do movimento cooperativista brasileiro, aqui entendido como a OCB, o CMN autorizou a organização de bancos cooperativos. Diferente do BNCC (Banco Nacional de Crédito Cooperativo), que era estatal-misto, estes bancos são privados, embora sejam cooperativos. Em 1996 é fundado o Bansicredi (Banco do Sistema Sicredi S.A.), com atuação no Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e em 1997 é fundado o Bancoob (Banco Cooperativo do Brasil S.A.), com atuação em vários Estados do Brasil. Esses bancos foram constituídos

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Cooperativas de Crédito Solidário

a partir de diversas cooperativas de crédito rurais “tradicionais” e de algumas de crédito mútuo (BURIGO, 1999).

Estes dois bancos são freqüentemente criticados por atuarem com um forte viés financeiro, preferindo aplicar mais no mercado financeiro que em empréstimos aos associados, ferindo um dos objetivos básicos das cooperativas de crédito. Além disto, uma das estratégias adotadas por estes bancos e pelas centrais de crédito a eles vinculadas têm sido a fusão de pequenas cooperativas de crédito, ou mesmo a incorporação das pequenas pelas grandes.

No meio rural brasileiro, os agricultores familiares e suas organizações representativas e de apoio, somente começaram a ver o cooperativismo de crédito como uma alternativa para ampliar e democratizar o acesso ao crédito rural no início dos anos 90. Os projetos começaram a partir do trabalho de ONGs e entidades dos agricultores familiares, por meio de fundos de crédito rotativo, apoiados em recursos oriundos da cooperação internacional (BITTENCOURT, 1999).

A primeira experiência de cooperativas de crédito vinculadas aos

agricultores familiares ocorreu em Santa Catarina, com a fundação da Crediquilombo, em 1993. Seguindo esse exemplo, foram criadas outras nove cooperativas naquele Estado, todas desvinculadas de cooperativas de produção, mas filiadas ao Sicredi-SC (Sistema de Crédito Cooperativo).

O fornecimento do crédito não deve estar totalmente atrelado aos

interesses e investimentos das cooperativas de produção, pois a decisão sobre

a liberação do empréstimo não deve ser tomada pela mesma pessoa (ou

grupo) que define o investimento. A análise do ponto de vista do financiador deve ser diferente de quem está fazendo ou propondo o investimento, na medida em que considera elementos normalmente não observados pelo investidor. Além disso, o crédito não deve estar vinculado à venda de insumos ou produtos pela cooperativa de produção, prática comum nas cooperativas de crédito e de produção vinculadas, pois com o tempo o crédito passa a se restringir a esta finalidade, passando a ser um mero financiador das vendas da cooperativa de produção, perdendo sua função de estimulador dos investimentos e do desenvolvimento.

No Paraná, os agricultores familiares e suas organizações iniciaram o processo de constituição das cooperativas de crédito em 1995, sendo a primeira inaugurada em 1996. Neste Estado, as cooperativas de crédito, formadas exclusivamente de agricultores familiares, criaram o seu próprio sistema, denominado Sistema Cresol de Cooperativas de Crédito com Interação Solidária Ltda. A desvinculação das cooperativas de crédito das cooperativas de produção fez parte da concepção inicial dos fundadores do Sistema Cresol.

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Em janeiro de 2001, o Sistema Cresol já tinha se expandido para os três Estados da região Sul, possuindo cerca de 15,5 mil agricultores familiares associados, organizados em 33 cooperativas de crédito rural e atuação em mais de 100 municípios da região. Entre as cooperativas filiadas a este sistema estão cinco Credis de Santa Catarina formadas por agricultores familiares, que por discordarem da forma de atuação do banco cooperativo, optaram por se desvincular do Sicredi-SC e filiar-se ao Sistema Cresol.

Entre as cooperativas de crédito mútuo, muitas são as experiências positivas no Brasil. A Bancredi – Cooperativa de Crédito dos Bancários de São Paulo e Municípios Limítrofes é uma das cooperativas que está contribuindo para a construção do Sistema de Crédito Solidário. A Bancredi surgiu do sucesso obtido com a constituição da Bancoob – Cooperativa Habitacional dos Bancários. Em meados de 1999, o Sindicado dos Bancários de São Paulo, representante da categoria profissional, constituiu a Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo, baseado no apoio mutuo, no sentido recíproco de união e de responsabilidades conjuntas, para promoverem o progresso social e econômico de seus filiados.

4 OS PRINCÍPIOS QUE DEVEM NORTEAR UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

Alguns princípios básicos devem nortear a constituição e o funcionamento de uma cooperativa ou sistema de cooperativas de crédito (LANCELIN, 1996). Inicialmente é importante considerar que um sistema de crédito é um sistema de financiamento monetário, portanto independente do tipo de crédito ele está ligado à evolução da moeda e a tudo a ela relacionado, como por exemplo, à inflação. Está também submetido às regras de regulação e de controle do mercado financeiro, portanto, existe a necessidade de reconhecimento institucional.

Em segundo lugar, uma cooperativa de crédito tem uma finalidade social, fator que pode diferenciá-lo dos sistemas de crédito tradicionais, dependendo da lógica e da prática de atuação adotada. As lógicas de ação mais comuns de uma cooperativa de crédito são:

· lógica financeira – o objetivo é ganhar dinheiro por meio do crédito,

pouco importando quem é financiado. O importante é recuperar os recursos envolvidos com o maior benefício possível – é o comércio de dinheiro;

· lógica de rentabilidade econômica – embora exista uma finalidade

econômica, como financiar investimentos, o objetivo é obter a melhor rentabilidade possível. Para isto serão tomadas as melhores garantias, as melhores taxas (para a cooperativa, é claro) e serão escolhidos os setores de atividades mais rentáveis;

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Cooperativas de Crédito Solidário

· lógica administrativa – comum entre os financiamentos públicos e privados que são submetidos a normas restritivas. Preocupa-se mais com a burocracia e o respeito aos regulamentos, normas e controles, esquecendo-se muitas vezes da própria finalidade do crédito;

· lógica de desenvolvimento – o objetivo é contribuir para o crescimento da riqueza nacional e individual, procurando soluções para o equilíbrio social e territorial. Enfim, colocar o Sistema em função do desenvolvimento local, sempre associado aos atores sociais que lutam pelo desenvolvimento sustentável.

Por isto, não basta que seja uma cooperativa de crédito para que cumpra uma função social importante, mas é preciso que atue dentro de uma lógica de desenvolvimento.

Em terceiro lugar, uma cooperativa de crédito só pode funcionar e sobreviver com recursos, portanto é preciso ter dinheiro para realizar as operações de crédito. Os recursos podem ser dos próprios associados e de instituições públicas ou privadas que emprestam para a cooperativa, ou mesmo por meio de repasses de recursos controlados pelo governo, sejam eles municipal, estadual ou federal. Entretanto, estes recursos têm dono e um custo (os juros pagos), além de uma duração que vai pesar sobre sua utilização em empréstimos. De acordo com cada uma das fontes de recursos será possível definir um custo do dinheiro, prazos de financiamentos e prioridades em relação ao público e atividade financiada.

Por fim, uma cooperativa de crédito é um serviço para atores econômicos, devendo responder nas melhores condições possíveis às necessidades daqueles

a quem se destina. Portanto, é imprescindível definir “a que e a quem ele deve

servir”. A qualidade de seus serviços deve ser boa para que seus associados não

a rejeitem, confiem nela e respeitem a disciplina e suas responsabilidades

enquanto participante ativo na cooperativa, seja como sócio ou como tomador de crédito. Caso os serviços sejam ruins, com procedimentos pesados e complicados, e os empréstimos liberados depois do período que deveriam ser utilizados, o sistema torna-se ineficaz e os associados vão procurar outras instituições, mesmo que o crédito seja mais caro.

Uma vez escolhida a lógica a ser adotada pela cooperativa, que para o crédito solidário é necessariamente a do desenvolvimento, devem ser considerados alguns princípios de funcionamento das cooperativas. As cooperativas de crédito devem ser autônomas em relação às atividades de outras cooperativas (seja de produção, comercialização ou de serviços) e de organizações sociais, embora deva ser muita bem articulada a estas. Uma atividade de crédito deve ser gerenciada diferentemente de uma operação de venda de insumos, produtos ou serviços, pois um bom empréstimo é o resultado de uma “relação” social.

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Gilson Alceu Bittencourt

Um sistema de cooperativas de crédito que vise fomentar o desenvolvimento deve buscar ter quatro princípios básicos de funcionamento (LANCELIN, 1996):

· confiança: o crédito, a partir de seu sentido original, significa “ter confiança”. Toda proposta de requerimento de crédito deve também ser objeto de uma troca de informações para ajustar o financiamento à capacidade do requerente.

· proximidade espacial e social: quanto mais próxima uma instituição de

crédito é do local onde vivem os beneficiários, melhor tendem a ser suas atividades e serviços prestados, e a confiança só é efetiva se existe um

conhecimento mútuo.

· disciplina: é preciso que os participantes aceitem as regras dos financiamentos. Um empréstimo é um “contrato” onde cada participante se compromete a respeitar

o acordo. Entretanto, é preciso considerar possíveis necessidades de renegociações,

quando motivos fora do controle dos tomadores ocorrerem.

· projeto: o uso do crédito produtivo deve estar ligado a um projeto,

portanto, ele é um instrumento de antecipação de renda futura. Quanto mais bem elaborado e organizado for o projeto, mais o crédito poderá beneficiar o usuário. O importante deste crédito é a perspectiva de aumento da renda que ele deve provocar, produzindo um excedente para o tomador do empréstimo e não apenas para pagar o financiamento.

Em síntese, para a criação e funcionamento de um Sistema de Cooperativas de Crédito, ele deve ter os seguintes princípios gerais (LANCELIN, 1996):

· estar integrado a uma perspectiva de desenvolvimento econômico e social. Não pode estar isolado nem ignorar as decisões de política geral;

· definir sua situação institucional em relação à legislação bancária e às diferentes instituições financeiras;

· estar próximo de seus usuários, sendo condição básica de sua eficácia

o funcionamento descentralizado;

· ter qualidade nos serviços prestados e rigor no funcionamento, exigindo pessoas competentes e que tenham ao mesmo tempo uma boa capacidade profissional e uma boa capacidade para escutar e empreender iniciativas locais;

· ser construído e sobreviver graças a uma política controlada dos recursos financeiros;

· possuir normativos e regras que disciplinam seu funcionamento;

· possuir um controle administrativo ágil, eficiente e eficaz que consiga medir com precisão sua evolução e suas atividades diárias.

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Cooperativas de Crédito Solidário

LANCELIN (1996) reforça que a avaliação de um sistema de crédito cooperativo normalmente é feita em função de seu “estatuto jurídico”, mas esses estatutos não determinam o funcionamento e o cumprimento de seus objetivos. Um estatuto jurídico é apenas a formalização, de acordo com a lei em vigor, de um projeto econômico ou social e das modalidades de sua implementação, sendo comum encontrar bancos com estatuto cooperativo que funcionam como bancos comerciais.

Uma cooperativa de crédito deve ser caracterizada por:

a) uma “sociedade de pessoas” voluntárias: é a escolha por uma forma

comum de ação. Um sócio não é aquele que apenas integraliza o capital social, mas é aquele que adere aos objetivos da instituição;

b) um conjunto de indivíduos que aderem a um projeto comum: o cooperativismo supõe uma forte solidariedade econômica, repartida e admitida pelos membros. No momento em que esta solidariedade se dilui ou não é renovada, o funcionamento cooperativo desaparece e, ainda mais grave, a organização pode decretar falência;

c) satisfazer às necessidades individuais: uma cooperativa está a serviço

de seus membros e sua primeira regra é escutá-los e prestar atenção às suas

reivindicações;

d) utilizar uma filosofia empresarial: uma cooperativa de crédito não é

uma “obra de assistência social”, sobretudo em uma economia de mercado. Para sobreviver, ela tem necessidade de adotar instrumentos de gestão e de gerenciar sua rentabilidade. Entretanto, não deve viver em função de si mesma, ou seja, apenas garantir a sobrevivência financeira de sua estrutura em detrimento dos seus associados;

e) deve ser administrada por responsáveis escolhidos pelos membros e

por técnicos assalariados: trata-se de uma combinação entre voluntários e profissionais qualificados, entretanto, com atribuições diferentes.

Portanto, uma cooperativa de crédito deve ser uma vontade coletiva de realizar um projeto comum baseado em regras concebidas ou aceitas por todos. Um sistema de crédito cooperativo deve aliar permanentemente um projeto de desenvolvimento comum, uma solidariedade econômica rigorosa e modalidades descentralizadas de funcionamento e de responsabilidades.

5 A LEGISLAÇÃO QUE REGULAMENTA AS COOPERATIVAS DE CRÉDITO

As cooperativas de crédito são organizações financeiras amparadas pela Lei n. o 4.595/64, que dispõe sobre a política e as instituições monetárias, bancárias

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Gilson Alceu Bittencourt

e creditícias, Lei n. o 5.764/71, que define a política nacional de cooperativismo

e institui o regime jurídico das sociedades cooperativas e pela Lei n. o 6.981, que altera a redação do artigo 42, da Lei n. o 5.764/71. Além destas leis, as cooperativas são regulamentadas por diversas resoluções, circulares e cartas circulares do Banco Central e pelo próprio estatuto social da cooperativa. Destaca-se que a atual Lei do Cooperativismo está sendo discutida e avaliada pelo Congresso Nacional e pelo governo federal, o que deve provocar a sua alteração no curto prazo.

No quadro a seguir, são apresentadas as principais resoluções e circulares do Bacen que regulamentam as cooperativas de crédito no Brasil (BACEN, 2000c).

e circulares do Bacen que regulamentam as cooperativas de crédito no Brasil (BACEN, 2000c). 38 Estudos

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Cooperativas de Crédito Solidário

Cooperativas de Crédito Solidário De maio/1999 a agosto/2000, o cooperativismo de crédito foi regido pela Resolução

De maio/1999 a agosto/2000, o cooperativismo de crédito foi regido pela Resolução nº 2.608 do CMN. Esta resolução, que foi revogada e substituída pela nº 2.771, dificultava ou mesmo inviabilizava a criação de pequenas cooperativas de crédito, pois exigia um alto valor de patrimônio líquido (R$ 50.000,00) para a constituição de uma cooperativa de crédito.

A Resolução nº 2.771 foi uma conquista das organizações de agricultores familiares, em especial do Sistema Cresol de Cooperativas de Crédito Solidário e da Frente Sul da Agricultura Familiar, que com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, conseguiram demonstrar ao Bacen que não é o valor do patrimônio líquido inicial que dá a garantia de credibilidade a uma cooperativa ou sistema de crédito cooperativo, mas a sua gestão.

Estas organizações demonstraram que uma cooperativa de crédito precisa ter um patrimônio compatível com as necessidades e a realidade econômica de seus associados. Além disso, provaram que mesmo entre as cooperativas que atuam com a população mais pobre, e que iniciaram seu funcionamento com baixos valores de patrimônio líquido, é possível elevá-lo a patamares adequados às exigências do Bacen em determinado prazo de operação.

Quando da efetiva constituição de uma cooperativa de crédito, é fundamental que os técnicos e dirigentes coordenadores do processo de constituição, bem como os futuros responsáveis pela contabilidade, tenham acesso a todas as leis e resoluções que regulam a constituição e o funcionamento das cooperativas de crédito no Brasil. Para um melhor acompanhamento da legislação, sugere-se que a leitura comece pelas Leis do Cooperativismo e do Sistema Financeiro Nacional, seguido pelas resoluções do Banco Central que regulamentam o cooperativismo de crédito. Como é muito comum que as

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Gilson Alceu Bittencourt

resoluções, quando publicadas, revoguem artigos ou parágrafos de resoluções anteriores, ou mesmo resoluções inteiras, a leitura dessas deve começar da mais nova para a mais antiga, observando as resoluções e/ou artigos de resoluções anteriores que foram revogados ou substituídos.

As cooperativas de crédito rural, além das resoluções do Banco Central que regulamentam o seu funcionamento, deverão dispor de estrutura organizacional específica para operar em crédito rural, devendo cumprir as disposições contidas no Manual de Crédito Rural (MCR).

A seguir são apresentados os principais artigos da Resolução n o 2.771,

acrescidos de informações fornecidas pelo Bacen por meio do Roteiro de Procedimentos para Instrução e Análise de Processos de Cooperativas de Crédito (BACEN, 2000c) e de alguns comentários do autor.

5.1 Principais regulamentações e comentários sobre a Resolução n o 2.771 do Bacen

5.1.1 Constituição e funcionamento das cooperativas de crédito

A constituição e o funcionamento de cooperativas de crédito mútuo e de

crédito rural singulares e de cooperativas centrais dependem de prévia autorização do Banco Central, que é concedida sem ônus e por prazo indeterminado. Deve constar no estatuto das cooperativas de crédito singulares as condições de associação de pessoas físicas que levem em conta, além das disposições legais pertinentes, a existência de afinidades entre os associados, cabendo ao Bacen decidir sobre a adequação das correspondentes cláusulas estatutárias propostas à aprovação.

5.1.2 Tipos de cooperativas de crédito existentes

No Brasil, existem três tipos de cooperativas de crédito rural, mútuo e “Luzzatti”. Entretanto, a legislação em vigor não concede autorizações para o funcionamento de novas cooperativas de crédito do tipo “Luzzatti”.

A) Cooperativas de crédito mútuo

Tipo I - Cooperativas de Crédito Mútuo de Empregados: pode ser formada por empregados ou servidores e prestadores de serviço em caráter não-eventual de:

1) determinada entidade pública ou privada;

2) determinado conglomerado econômico;

definido

3)

ou

administrativamente vinculado;

4) conjunto definido de pessoas jurídicas que desenvolvam atividades idênticas ou estreitamente correlacionado por afinidade ou complementaridade.

conjunto

de

órgãos

públicos

hierárquica

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Cooperativas de Crédito Solidário

Nas cooperativas formadas por servidores de órgãos e entidades públicas, poderão associar-se os servidores públicos em geral, pertencentes aos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e nas três esferas (federal, estadual e municipal), desde que lotados na área de ação da cooperativa. No caso de escolha de um ou mais órgão/entidade, estes deverão ser especificados no estatuto social.

Tipo II – Cooperativas de Crédito Mútuo de Profissionais: é formada por trabalhadores de:

1) determinada profissão regulamentada (médico, advogado, engenheiro etc.);

2) determinada atividade, definida quanto à especialização (pedreiro, padeiro, caminhoneiro, feirante de produtos hortifrutigranjeiros etc.);

3) conjunto definido de profissões ou atividades cujos objetos sejam idênticos ou estreitamente correlacionado por afinidade ou complementaridade (médicos e odontólogos, engenheiros e arquitetos, profissionais da área de saúde, trabalhadores em artes gráficas etc.).

Nestas cooperativas o estatuto social deverá caracterizar o campo genérico de trabalho a que pertencem as atividades ou profissões exercidas, seguido da expressão “conforme Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), divulgada pelo Ministério do Trabalho” (endereço na internet: http://www.mtb.gov.br). Preferindo a escolha de uma ou mais ocupações, desde que contidas na tabela do respectivo grupo de base de classificação, estas deverão ser especificadas no estatuto social (Bacen, 2000c). Pode ser constituída mais de uma cooperativa de crédito em áreas de ação coincidentes ou não, independentemente do seu tipo e desde que adotada denominação social diferenciada.

As cooperativas singulares de crédito mútuo também podem admitir a associação de:

1) empregados da própria cooperativa de crédito, das entidades a ela associadas e daquelas de cujo capital participem, e pessoas físicas prestadoras de serviços, em caráter não- eventual, a cooperativa de crédito e as referidas entidades, equiparadas aos primeiros no tocante aos seus direitos e deveres como associados;

2) aposentados que, quando em atividade, atendiam aos critérios estatutários de associação;

3) pais, cônjuge ou companheiro, viúvo e dependente legal de associado e pensionista de associado falecido.

Como se pode verificar, a legislação permite a associação de familiares de primeiro grau e de aposentados nas cooperativas de crédito mútuo. Isso significa que é possível uma cooperativa de crédito mútuo atuar no financiamento de projetos

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Gilson Alceu Bittencourt

produtivos que gerem renda e trabalho para os familiares dos associados empregados ou para os profissionais aposentados, desde que estejam filiados à cooperativa. Caso se concretize, esta prática será um grande avanço, pois estas cooperativas normalmente atuam apenas com trabalhadores empregados, financiando basicamente o consumo e a compra de bens duráveis por parte dos associados.

As cooperativas de crédito somente podem admitir associados nas condições previstas no seu estatuto social. Essa previsão poderá ser moldada segundo os interesses da cooperativa, desde que respeitado o universo de possibilidades de associação estabelecido nas normas legais ou regulamentares em vigor.

B) Cooperativas de crédito rural – Tipo III

A estas cooperativas permite-se associar pessoas (físicas e jurídicas) que desenvolvam, na área de atuação da cooperativa, de forma efetiva e predominante, atividades agrícolas, pecuárias ou extrativas, ou se dediquem a operações de captura e transformação do pescado.

Como as cooperativas de crédito mútuo, as cooperativas de crédito rural singulares também podem admitir a associação de:

a) empregados da própria cooperativa de crédito, das entidades a ela

associadas e daquelas de cujo capital participem, e pessoas físicas prestadoras de serviços, em caráter não-eventual, a cooperativa de crédito e as referidas entidades, equiparados aos primeiros no tocante aos seus direitos e deveres

como associados;

b) aposentados que, quando em atividade, atendiam aos critérios

estatutários de associação;

c) pais, cônjuge ou companheiro, viúvo e dependente legal de associado

e pensionista de associado falecido.

As cooperativas de crédito podem criar mecanismos para limitar o seu quadro social, por meio de critérios estabelecidos em seus estatutos. O sistema Cresol, por exemplo, limita a associação aos agricultores familiares, permitindo apenas a filiação de pessoas que explorem, sob qualquer condição, área inferior

a quatro módulos rurais, a força de trabalho utilizada no estabelecimento deve

ser majoritariamente familiar, variando de 51% a 100%. Algumas cooperativas também estabelecem limites quanto à renda, incorporando os critérios do Pronaf, restringindo a associação a agricultores familiares que têm uma Renda Bruta

Anual inferior a R$ 27.500,00.

C) Cooperativas de crédito Luzzatti

As cooperativas de crédito do tipo Luzzatti são abertas a toda a população de um ou mais municípios limítrofes. Estas cooperativas cresceram muito até os

42

Cooperativas de Crédito Solidário

anos 60, mas devido à pressão dos bancos, que receavam que estas cooperativas ampliassem sua atuação junto ao público potencial dos bancos, além da utilização de algumas destas cooperativas como instrumento de legalização da agiotagem por parte de oportunistas, este tipo de cooperativa vem sofrendo pesadas restrições por parte do Banco Central. Com a proibição do Bacen para a criação de novas cooperativas Luzzatti desde a década de 60, e as fortes restrições ao seu funcionamento, o número deste tipo de cooperativa em funcionamento vem caindo, sendo que atualmente existem apenas nove delas em operação.

5.1.3 Área de atuação

É o Bacen que aprova a área de atuação das cooperativas de crédito

prevista em seus estatutos, que deve estar limitada às possibilidades de reunião, controle, realização de operações e prestação de serviços por parte das cooperativas de crédito.

5.1.4 Administradores

É vedado aos membros de órgãos estatutários e aos ocupantes de funções de

gerência de cooperativas de crédito participarem da administração ou deter 5% ou mais do capital das demais instituições financeiras, exceto de cooperativas de crédito.

5.1.5 Capital social e patrimônio líquido

Para melhor compreender os conceitos de capital social e patrimônio líquido, é preciso conhecer o significado do termo quota-parte utilizado no cooperativismo.

Quotas-partes são os recursos que os associados integralizam (depositam) na cooperativa. É uma participação em dinheiro para formação do patrimônio comum, mas que continua sendo do associado. Estes depósitos visam formar um capital mínimo para dar suporte financeiro e garantias para o funcionamento da cooperativa. A quota-parte é um instrumento legal e rege-se pelo estatuto social da cooperativa, que determina o seu valor, prazo para o associado repassar os valores à cooperativa e o volume mínimo de quotas-partes que cada associado deve subscrever e integralizar junto à cooperativa.

O capital social é a soma das quotas-partes de todos os associados de

uma cooperativa. Quanto maior for o volume de recursos disponível em capital social na cooperativa, que tende a aumentar ao longo dos anos, maior será o volume de recursos que poderão ser utilizados em empréstimos. A legislação cooperativista limita a 1/3 a participação de um único sócio no capital social total da cooperativa de crédito.

O patrimônio líquido (PL) é o capital social dos cooperados integralizado

na cooperativa, somado às reservas que a mesma possui (a cooperativa pode

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Gilson Alceu Bittencourt

ter vários fundos, mas no mínimo 10% das sobras obrigatoriamente devem ser destinados à reserva legal da cooperativa).

Patrimônio líquido ajustado (PLA) é o patrimônio líquido somado às receitas da cooperativa e subtraído as despesas em um determinado período.

Para constituição e funcionamento, as cooperativas de crédito devem observar os seguintes limites mínimos, em relação ao capital social e ao PLA na forma da regulamentação em vigor:

I - Cooperativas centrais:

a) capital social de R$ 60.000,00, na data de autorização para

funcionamento;

b) PLA de R$ 150.000,00, após três anos da referida data;

c) PLA de R$ 300.000,00, após cinco anos da referida data.

II - Cooperativas singulares filiadas a centrais:

a) capital social de R$ 3.000,00, na data de autorização para

funcionamento;

b)

PLA de R$ 30.000,00, após três anos da referida data;

c)

PLA de R$ 60.000,00, após cinco anos da referida data.

III

- Cooperativas singulares não-filadas a centrais:

a)

capital social de R$ 4.300,00, na data de autorização para

funcionamento;

b) PLA de R$ 43.000,00, após dois anos da referida data;

c) PLA de R$ 86.000,00, após quatro anos da referida data.

As cooperativas de crédito autorizadas a funcionar anteriormente a 30 de agosto de 2000, devem adequar-se aos limites estabelecidos neste artigo, contando-se os respectivos prazos:

a) a partir de 27/05/1999, para as cooperativas autorizadas a funcionar

até essa data;

b) a partir da data de autorização, para as demais cooperativas de crédito.

Para efeito de verificação do atendimento dos limites mínimos de capital e patrimônio líquido, deverão ser deduzidos do PLA das cooperativas de crédito os valores correspondentes ao patrimônio líquido mínimo fixado para as instituições financeiras de que participem, ajustados proporcionalmente ao nível de cada participação.

As cooperativas de crédito devem manter valor de patrimônio líquido compatível

com o grau de risco da estrutura de seus ativos, passivos e contas de compensação

44

Cooperativas de Crédito Solidário

(PLE), de acordo com o disposto no Anexo IV da Resolução nº 2.099, alterado pela Resolução nº 2.692, a partir das datas-base adiante especificadas:

a) cooperativas centrais de crédito: 30 de junho de 2001, inclusive;

b) cooperativas de crédito singulares: 30 de junho de 2002, inclusive.

Até estas datas-base, as cooperativas de crédito singulares devem observar o limite de endividamento estabelecido na Resolução nº 2.771, ficando vedadas às cooperativas centrais à contratação ou renovação de operações que infrinjam os níveis mínimos de PLA a serem observados, ou que agravem eventuais excessos verificados com relação aos referidos níveis.

As cooperativas de crédito são proibidas de efetuar aumento de capital mediante a retenção de parte do valor dos empréstimos ou conceder empréstimo com a finalidade de permitir a subscrição de quotas-partes de seu capital. Excetuam- se as cooperativas de crédito rural que estabelecerem em seus estatutos critérios de proporcionalidade, que podem incluir no orçamento de custeio agrícola, pecuário, de industrialização ou beneficiamento, verba necessária à elevação do capital do associado até atingir o mínimo exigido para a concessão do empréstimo.

Também é proibido que cooperativas de crédito adotem o capital rotativo, assim caracterizado o registro, em contas de patrimônio líquido, de recursos captados para a realização de depósitos à vista e a prazo.

5.1.6 Cooperativas centrais de crédito

As cooperativas centrais de crédito devem prever, em seus estatutos e normas operacionais, dispositivos que possibilitem prevenir e corrigir situações anormais que possam configurar infrações a normas legais ou regulamentares ou acarretar risco para a solidez das cooperativas filiadas e do sistema cooperativo associado, inclusive a possibilidade de constituição de fundo com objetivo de garantir a liquidez do sistema. Para atingir esses objetivos, as cooperativas centrais de crédito devem desempenhar, entre outras, as seguintes funções:

I - supervisionar o funcionamento e realizar auditoria em suas filiadas, podendo, para tanto, examinar livros e registros de contabilidade e outros papéis ou documentos ligados às atividades daquelas cooperativas, mantendo à disposição do Bacen os relatórios elaborados por seus supervisores e auditores;

II - supervisionar e coordenar o cumprimento das disposições

regulamentares referentes à implementação do sistema de controles internos de suas filiadas;

III - formar e capacitar membros de órgãos estatutários, gerentes e

associados de cooperativas filiadas, bem como seus próprios supervisores e

auditores, mantendo departamento responsável por essas atividades;

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Gilson Alceu Bittencourt

IV - promover, em relação às cooperativas singulares filiadas, a partir do

ano de 2001, auditoria de demonstrações financeiras relativas ao exercício social, inclusive notas explicativas exigidas pelas normas legais e regulamentares em vigor.

Na realização de auditoria de demonstrações financeiras de cooperativas singulares, as centrais devem atuar por meio de equipe própria, contando com auditores que atendam, no que couber, à regulamentação específica do Conselho Federal de Contabilidade, ou mediante contratação de auditores independentes registrados na Comissão de Valores Mobiliários.

As cooperativas centrais devem comunicar imediatamente ao Bacen,

qualquer anormalidade detectada no desempenho de suas atribuições, e adotar providências para que seja restabelecida a regularidade do funcionamento das cooperativas filiadas. As cooperativas centrais devem designar um diretor estatutário responsável pelas atividades atribuídas a elas pelo Bacen.

5.1.7 Operações – captação de recursos, financiamentos e endividamento

As cooperativas de crédito podem praticar as seguintes operações:

I - Captação de recursos de:

a) associados, oriundos de depósitos à vista e depósitos a prazo sem

emissão de certificado;

b) instituições financeiras, nacionais ou estrangeiras na forma de empréstimos,

repasses, refinanciamentos e outras modalidades de operações de crédito;

c) qualquer entidade, na forma de doações, de empréstimos ou repasses,

em caráter eventual, isentos de remuneração ou a taxas favorecidas.

II - Concessão de créditos, exclusivamente a seus associados, incluídos os membros de órgãos estatutários, nas modalidades de:

a)

desconto de títulos;

b)

operações de empréstimo e de financiamento;

c)

crédito rural;

d)

repasses de recursos oriundos de órgãos oficiais e instituições financeiras.

III

- Aplicações de recursos no mercado financeiro, inclusive depósitos a

prazo, com ou sem emissão de certificado, observando eventuais restrições legais

e

regulamentares específicas de cada aplicação.

IV - Prestação de serviços:

a) de cobrança, de custódia, de correspondente no país, de recebimentos

e

pagamentos por conta de terceiros e sob convênio com instituições públicas e

privadas, nos termos da regulamentação aplicável às demais instituições financeiras;

46

Cooperativas de Crédito Solidário

b) a outras instituições financeiras, mediante convênio, para recebimento

e

pagamento de recursos coletados com vistas à aplicação em depósitos, fundos

e

outras operações disponibilizadas pela instituição convenente.

V - Formalização de convênios com outras instituições financeiras com vistas a:

a) obter acesso indireto à conta Reservas Bancárias, na forma da

regulamentação em vigor;

b) participar do Serviço de Compensação de Cheques e Outros Papéis

(SCCOP);

c) realizar outros serviços complementares às atividades fins da

cooperativa.

VI - Outros tipos previstos na regulamentação em vigor ou autorizados

pelo Bacen.

A cooperativa de crédito deve cientificar o associado, mediante documento

formal, que os depósitos não contam com garantia do Fundo Garantidor de Crédito - FGC.

Os recursos captados ou repassados de outras instituições financeiras destinados ao crédito rural deverão ser integralmente aplicados em operações vinculadas àquela finalidade, e os sem destinação específica, deverão ser integralmente aplicados em operações vinculadas a atividade principal prevista em estatuto.

As cooperativas devem observar os seguintes limites operacionais:

I - De diversificação de risco por cliente:

a) 25% do PLA, por parte de todas as cooperativas de crédito, em

aplicações em títulos e valores mobiliários emitidos por uma mesma empresa, empresas coligadas e controladoras e suas controladas;

b) 20 do PLA, por parte de cooperativas centrais de crédito, em operações

de crédito e de concessão de garantias com uma única cooperativa filiada;

c) 10% do PLA, por parte de cooperativas singulares filiadas a centrais

de crédito, e 5 % do PLA, por parte de cooperativas de crédito singulares não- filiadas a centrais de crédito, em operações de crédito e de concessão de garantias

com um único associado.

II - De endividamento, a ser utilizado na realização de quaisquer operações

passivas facultadas às cooperativas de:

a) dez vezes o PLA, no caso de cooperativas singulares filiadas a centrais;

b) cinco vezes o PLA, no caso de cooperativas singulares não-filiadas a centrais.

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47

Gilson Alceu Bittencourt

As cooperativas de crédito singulares podem deduzir, das obrigações computadas para efeito da observância do limite de endividamento, os recursos aplicados em títulos públicos federais. Não estão sujeitos aos limites de diversificação de risco os depósitos e aplicações efetuadas nas cooperativas centrais de crédito pelas cooperativas filiadas, bem como os realizados no banco cooperativo pelas cooperativas acionistas.

As cooperativas de crédito rural singulares filiadas a centrais têm um tratamento específico quando realizam operações ao amparo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Entre essas cooperativas, aquelas que apresentarem valor do PLA de até no máximo R$ 650.000,00 (seiscentos e cinqüenta mil reais), têm um limite de endividamento adicional de dez vezes o respectivo PLA, a ser utilizado exclusivamente em operações realizadas ao amparo do Pronaf.

As cooperativas de crédito rural singulares filiadas a centrais, na realização

de operações de crédito ao amparo do Pronaf em favor de associados pessoas físicas, podem adotar limite de diversificação de risco de até 20% do PLA durante o primeiro ano de funcionamento, e de até 10% após o referido prazo.

Para efeito de verificação dos limites de endividamento, será deduzido do PLA o montante das participações no capital social de cooperativas centrais de crédito e de instituições financeiras controladas por centrais de crédito.

As cooperativas de crédito em funcionamento têm até 30 de junho de 2001 para proceder à adequação de suas posições visando cumprir os limites estabelecidos para o endividamento, sendo vedadas, durante esse prazo, a contratação ou renovação de operações que os infrinjam diretamente ou que agravem eventuais excessos verificados com relação aos referidos limites.

5.1.8 Outras disposições gerais

As cooperativas de crédito somente podem participar do capital de:

I - cooperativas centrais de crédito, no caso de cooperativas singulares;

II - instituições financeiras controladas por cooperativas centrais de crédito;

III - cooperativas, ou empresas controladas por cooperativas centrais de

crédito, que atuem na prestação de serviços e fornecimento de bens

exclusivamente ao setor cooperativo;

IV - entidades de representação institucional, de cooperação técnica ou

educacional.

O Bacen poderá cancelar a autorização para o funcionamento de

cooperativa de crédito cujas atividades se achem paralisadas ou que esteja em regime de liquidação, o que ocorre por deliberação da assembléia dos cooperados

48

Cooperativas de Crédito Solidário

no sentido da paralisação ou liquidação; pela apuração pelo Bacen, a qualquer momento, da paralisação, por mais de cento e vinte dias, das atividades da cooperativa, ou do envio dos demonstrativos financeiros, exigidos pela regulamentação em vigor, daquela autarquia; ou pelo aviso espontâneo, dirigido pela cooperativa ao Bacen.

As infrações aos dispositivos da legislação em vigor e deste Regulamento, bem como a prática de atos contrários aos princípios cooperativistas, sujeitam os diretores e os membros de conselhos administrativos, consultivos, fiscais e semelhantes de cooperativas de crédito às penalidades da Lei nº 4.595, sem prejuízo de outras estabelecidas na legislação.

As cooperativas de crédito singulares não-filiadas a centrais, a partir do ano de 2001, devem ter suas demonstrações financeiras relativas a encerramento de exercício social, inclusive notas explicativas, exigidas pelas normas legais e regulamentares, submetidas à auditoria independente. Para a realização desses serviços de auditorias, devem ser contratados auditores independentes, registrados na Comissão de Valores Mobiliários, ou cooperativas centrais de crédito.

Constatado o descumprimento dos limites de patrimônio líquido estabelecido, o Bacen poderá exigir a apresentação de plano de regularização contendo medidas previstas para enquadramento e respectivo cronograma de execução. A implementação do plano de regularização deverá ser objeto de acompanhamento por parte de auditor independente, que remeterá relatórios mensais ao Bacen.

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50

Parte III

Cooperativas de Crédito Solidário

6 O FUNCIONAMENTO DE UM SISTEMA DE COOPERATIVAS DE CRÉDITO

6.1 Cooperativa de crédito singular (rural ou mútuo)

São constituídas pelo número mínimo de 20 pessoas físicas. As cooperativas de crédito devem ter autonomia e vida própria, mas devem (preferencialmente) se integrar às outras cooperativas por meio de uma central de crédito, que também deve ser uma prestadora de serviços para as cooperativas a ela filiada.

Cada cooperativa deve possuir uma agência para o atendimento aos seus associados no município sede da cooperativa, além de postos de serviços distribuídos estrategicamente nos demais municípios (ou empresas) onde tem atuação. É fundamental que cada cooperativa singular e seus postos de atendimento estejam vinculadas entre si e com a cooperativa central, por meio de programa automatizado, via modem.

As cooperativas singulares devem ter, no mínimo, um dirigente liberado em tempo integral, com pagamento de dias de serviços (por meio de cédulas de presença) para os demais diretores (quando necessário e requisitado seus serviços), inclusive para os membros do conselho fiscal.

As principais funções de uma cooperativa de crédito singular são:

a) organizar o quadro social, incentivando a cooperação entre os seus membros;

b) aplicar e analisar o cadastro entre os seus associados, atualizando-o freqüentemente;

c) operacionalizar e controlar a liberação dos financiamentos;

d) fazer a contabilidade básica da cooperativa (que pode ser centralizada

na cooperativa central ou base regional) e o controle administrativo e gerencial

(arquivos, compensação; controle de contas, segurança e aplicações financeiras);

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Gilson Alceu Bittencourt

e) formar seu quadro diretivo, funcional e associativo;

f) atender ao público e acompanhar seus associados;

g) negociar institucionalmente e articular com as organizações públicas,

privadas, representativas e associativas do município;

h) comunicar-se com seu quadro social;

i) desenvolver linhas de crédito específico, adaptado à realidade do quadro social.

Para diminuir custos, facilitar o acompanhamento e o controle financeiro das cooperativas singulares, a contabilidade pode ser centralizada na cooperativa central ou em unidades regionais de serviços (bases regionais) dependendo do número de cooperativas filiadas e o tamanho (movimento financeiro) das mesmas. Caso a opção adotada seja a centralização da contabilidade, basta criar condições para enviar diariamente para a central, via modem, todas as informações sobre as finanças das cooperativas (saldo das contas, aplicações financeiras, depósitos em conta corrente, retirada e pagamento de empréstimos). Com isto, a central de crédito também poderá acompanhar mais diretamente a situação administrativa e financeira das cooperativas, como a relação entre capital social e empréstimos, custos e receitas, número e valor médio dos empréstimos, captação e aplicação etc.

6.2 Unidades administrativas desmembradas e postos de atendimento

As cooperativas de crédito, com o objetivo de melhor atender seus associados e desenvolver suas atividades, podem manter unidades administrativas desmembradas (UAD) e instalar postos de atendimento cooperativo (PAC) e postos de atendimento transitório (PAT).

Unidade administrativa desmembrada (UAD)

É destinada a executar atividades contábeis e administrativas de natureza

interna, devendo ser instalada no município onde se situa a sede ou onde haja PAC instalado, sendo vedado a atendimento ao público e a divulgação de seu endereço em impresso ou em qualquer tipo de propaganda. A instalação de UAD deve ser objeto de comunicação ao Bacen com antecedência mínima de 5 dias úteis.

Posto de atendimento cooperativo (PAC)

É a dependência da cooperativa destinada a prestar serviços em sua

área de ação. O atendimento deve ser executado exclusivamente por funcionários da cooperativa, podendo ter horário de atendimento ao público diferente do horário de funcionamento da sede. Não pode ter contabilidade própria, devendo seu movimento diário ser incorporado ao da sede na mesma data em que

52

Cooperativas de Crédito Solidário

ocorrer. A instalação de PAC está condicionada à prévia comunicação ao Bacen

e ao prévio atendimento, pela cooperativa, dos seguintes limites operacionais:

níveis mínimos de capital realizado e patrimônio líquido ajustado; índice de imobilizações e limites de endividamento e de diversificação de risco.

A instalação deve ser objeto de comunicação ao Bacen com antecedência mínima de 5 dias úteis. A mudança de endereço e o encerramento devem ser objeto de comunicação no prazo máximo de 5 dias, contados da data de sua ocorrência.

Posto de atendimento transitório (PAT)

Estes postos de atendimento somente podem ser instalados em recintos de feiras, de exposições, de congressos e de outros eventos de natureza semelhante ou em locais de grande afluxo temporário de público, na área de ação da cooperativa.

Destina-se a prestar os serviços permitidos à instituição, vedado seu funcionamento por mais de 90 dias, podendo ter horários diferentes para atendimento ao público

e funcionamento da sede. Subordina-se à sede, cuja contabilidade de seu movimento diário deve ser incorporado na mesma data em que ocorrer.

A instalação de PAT também está condicionada à prévia comunicação ao Bacen e ao prévio atendimento, pela cooperativa, dos seguintes limites operacionais: níveis mínimos de capital realizado e patrimônio líquido ajustado; índice de imobilizações e limites de endividamento e de diversificação de risco.

O início de atividades deve ser objeto de comunicação ao Bacen com

antecedência mínima de 5 dias úteis.

6.3 Cooperativa central de crédito

São constituídas por pelo menos 3 cooperativas singulares de crédito. A cooperativa central deve ter uma diretoria eleita pelos delegados representantes das cooperativas associadas, com diretores liberados e funcionários treinados nas áreas de contabilidade, finanças e projetos, normas técnicas e acompanhamento econômico, análise, avaliação e elaboração de projetos de crédito de investimentos, informática, auditorias e secretaria. Além destes profissionais, pode contratar serviços de assessoria especializada.

As cooperativas centrais de crédito devem ter um caráter diretivo, normativo, fiscalizador e de desenvolvimento de seus sistemas cooperativos. Parte de suas funções são definidas pela Resolução nº 2.771 do Bacen, mas além destas, as centrais de crédito devem atuar como prestadoras de serviços a suas filiadas, destacando-se:

a) edição de normativos padronizados para as operações e serviços prestados pelo sistema, em função das exigências legais e normativas aplicadas

às cooperativas pelo Bacen;

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b) contabilidade: padronização, normatização, execução (dependendo

de cada sistema) análise e coordenação;

c) relação com o Bacen para a criação e desmembramento de

cooperativas, atas de assembléias, balanço contábil e crédito rural;

d) negociação e representação junto às instituições estaduais e federais,

e com as organizações da sociedade civil;

e) informática: desenvolvimento de software para padronizados de

operações, serviços, produtos, contabilidade e controle;

f) padronização dos procedimentos operacionais e administrativos;

g) comunicação e marketing para dentro e fora do sistema;

h) crédito rural: acompanhamento do Manual de Crédito Rural (MCR),

títulos de crédito, plano de safra, normas internas, estratégias de investimentos etc.;

i) controle e fiscalização dos atos de gestão de todas as filiadas, por

meio de inspeções diretas e indiretas e auditorias, face à responsabilidade do

próprio sistema em se autocontrolar;

j) recursos humanos: formação e treinamento de monitores, dirigentes,

técnicos e funcionários, além da definição de uma política de cargos e salários;

k) administrar o fundo de liquidez que deve ser criado pelas cooperativas filiadas.

As centrais de crédito tradicionais centralizam uma parcela significativa dos recursos captados pelas cooperativas referentes aos depósitos à vista e a prazo, aplicando-os em uma agência do banco com a qual mantêm convênio, ou em um dos bancos cooperativos existentes, caso sejam filiadas.

Para evitar a concentração de poder por parte da cooperativa central, facilitar o relacionamento entre a cooperativa e a agência local do banco conveniado e ampliar as fontes de financiamento no município, defende-se que os recursos não sejam centralizados pela central. Entretanto, defende-se que a central de crédito unifique a negociação das taxas de juros a serem pagas às cooperativas pelos bancos, considerando o volume total de recursos aplicados pelas cooperativas que integram o sistema de crédito.

Como um dos principais objetivos das centrais de crédito é a prestação de serviços e o acompanhamento a suas filiadas, o número de cooperativas singulares a elas associadas deve depender da possibilidade de um atendimento que qualitativo às demandas apresentadas, e de um número mínimo de cooperativas que consigam garantir a viabilidade econômica da central.

As cooperativas centrais também podem criar bases regionais ou microrregionais de serviços, visando à melhorar o atendimento às suas filiadas

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Cooperativas de Crédito Solidário

e garantindo um acompanhamento mais próximo da realidade das cooperativas. Estas bases regionais de serviços, criadas em função de um determinado número de cooperativas que possa garantir a sua viabilidade econômica, podem assumir várias funções das centrais, como a contabilidade das cooperativas a elas vinculadas, o acompanhamento e a manutenção dos equipamentos de informática, a negociação e articulação com organizações e agentes regionais de desenvolvimento etc. (Cresol-Baser, 2000).

Uma cooperativa central de crédito pode atuar com diferentes tipos de cooperativas de crédito, sejam elas de crédito rural ou de crédito mútuo. Entretanto, para que o atendimento possa ser mais dirigido e corresponda às demandas das cooperativas filiadas, é importante considerar a possibilidade de criar centrais de crédito por tipo de cooperativa, o que não impede, em um primeiro momento, a criação de centrais de crédito que possam atuar com todos os tipos de cooperativas. Desta forma, será possível, dependendo de cada região ou categoria profissional, a existência de diversas cooperativas centrais de crédito solidário, divididas por Unidade da Federação e/ou categoria profissional e/ou tipo de cooperativa (rural ou mútuo).

6.4 Sistema Nacional de Cooperativas de Economia e Crédito Solidário (Federação)

Um conjunto de cooperativas centrais de crédito (ou de sistemas de cooperativas de crédito estaduais ou regionais) pode e deve se articular, formando assim um Sistema Nacional de Cooperativas de Crédito Solidário. Esta articulação pode ser por meio da constituição de uma federação ou mesmo uma confederação de cooperativas centrais e singulares de crédito

Uma Federação Nacional ou um Sistema Nacional de Cooperativas de Crédito Solidário pode ampliar o poder de negociação das cooperativas, além de criar mecanismos e instrumentos para diminuir os custos das cooperativas e centrais de crédito por meio do desenvolvimento de produtos e serviços nacionais que possam ser utilizados pelo conjunto das cooperativas filiadas.

6.5 Bancos cooperativos

Os bancos cooperativos são bancos comerciais, constituídos sob a forma de sociedades anônimas que se diferenciam dos demais bancos por terem como acionistas, exclusivamente, as cooperativas de crédito. Para a constituição de banco cooperativo devem ser seguidos os procedimentos pertinentes para a constituição de banco comercial.

Devem fazer constar, obrigatoriamente, de sua denominação a expressão “Banco Cooperativo” e têm sua atuação restrita às Unidades da Federação em que

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estejam situadas as sedes das pessoas jurídicas (cooperativas) controladoras. Podem firmar convênio de prestação de serviços com cooperativas de crédito localizadas em sua área de atuação. É vedada a sua participação no capital social de instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Bacen (Bacen, 2000C).

A criação de um banco cooperativo não é inerente à constituição de um sistema nacional de crédito cooperativo. As relações que as cooperativas de crédito precisam ter com o sistema bancário, em especial para a participação no sistema nacional de compensação de cheques e para realização de seus depósitos financeiros, podem ser concretizadas por meio de convênios e parcerias com bancos públicos ou privados existentes no país.

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A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

As instâncias decisórias de uma cooperativa de crédito, definidas em lei

e

que devem estar presentes no seu Estatuto Social, são:

· Assembléia Geral

· Conselho de Administração

· Conselho Fiscal

7.1 Assembléia Geral

Na assembléia geral são tomadas todas as decisões de interesse da cooperativa e dos associados, inclusive a eleição dos integrantes dos conselhos de administração e fiscal e a destinação das sobras do exercício contábil anterior. Porém, se formalmente, a assembléia geral é o órgão mais importante para a participação dos associados na gestão da cooperativa, na prática, o que normalmente ocorre é que as decisões na assembléia ficam limitadas à eleição dos conselheiros e à aprovação das ações da diretoria anterior.

Para se contrapor a tais características, é preciso que as direções das cooperativas de crédito tenham em conta que a intensidade e a qualidade da participação dos associados são resultado, entre outras iniciativas, da forma como são divulgadas, organizadas e conduzidas as assembléias. Deve-se evitar, por exemplo, que a participação dos associados fique restrita apenas à votação, dando-lhes condições de resolver dúvidas e discutir os temas a serem votados, mesmo considerando-se que

a assembléia geral tenha uma pauta parcialmente definida pelo Bacen.

Existem dois tipos de assembléias gerais, a ordinária e a extraordinária. A assembléia geral ordinária (AGO) deve ser realizada anualmente, nos três primeiros meses seguintes ao término do exercício social, devendo deliberar sobre:

· prestação de contas acompanhada de parecer do conselho fiscal, contendo relatório de gestão, balanço e demonstrativos de sobras ou perdas;

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Cooperativas de Crédito Solidário

· destinação das sobras ou rateio das perdas;

· eleição dos membros de órgãos estatutários;

· quando previsto, a fixação dos honorários, gratificações e cédulas de presença dos membros do conselho de administração ou da diretoria e do conselho fiscal; e

· outros assuntos de interesse social, tais como relatório de auditoria, programas de utilização do Fates etc. (que não sejam da competência das assembléias extraordinárias).

A assembléia geral extraordinária (AGE) deve ser realizada sempre que

necessária e poderá deliberar sobre qualquer assunto de interesse social, desde que mencionado no edital de convocação, sendo de sua competência exclusiva:

· reforma estatutária;

· fusão, incorporação ou desmembramento;

· mudança do objeto da sociedade;

· dissolução voluntária da sociedade e nomeação do liquidante;

· prestação de contas do liquidante.

Desde que observadas as formalidades legais necessárias à realização de AGE, inclusive as regras especiais de quorum legal, admite-se a realização concomitante de AGO e AGE.

A divulgação da realização da assembléia geral deve ser ampla, devendo ser

realizada nas cooperativas, nos locais mais freqüentados pelos associados, nos

jornais e programas de rádio locais. Para o caso das cooperativas de crédito rural,

a divulgação também pode ocorrer nos encontros e reuniões organizados na área

de abrangência da cooperativa pelas entidades de representação dos agricultores.

Uma forma de ampliar o debate e a democracia, facilitando uma maior participação dos associados nos rumos da cooperativa é a realização de pré- assembléias - reuniões realizadas anteriormente a cada assembléia geral, organizadas em cada município ou comunidade abrangida pela cooperativa, dependendo da amplitude de sua área de atuação. Nelas, a direção da

cooperativa de crédito, além de divulgar a data de realização da assembléia geral, fornece subsídios para que os associados possam analisar antecipadamente os assuntos que serão discutidos nessa assembléia ou mesmo apresentar sugestões

e propostas a serem encaminhadas à assembléia geral. As pré-assembléias

também podem incluir a discussão de temas relacionados aos rumos da cooperativa de uma forma geral ou mesmo particularidades (problemas e soluções) da cooperativa de crédito em sua região.

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Nas cooperativas singulares com filiados residindo a mais de 50

quilômetros da sede ou com mais de 3.000 associados, o estatuto social pode estabelecer que os associados sejam representados, nas assembléias gerais, por delegados escolhidos dentre os associados que estejam em pleno gozo de seus direitos sociais, disciplinando adequadamente essa forma de reunião de maneira

a garantir a sua efetividade. A partir do momento em que a cooperativa optar

por este tipo de representação, não é mais admitida decisão da assembléia com

a participação dos sócios individualmente. Dessa forma, deverá constar dos

estatutos que em não se conseguindo realizar assembléia geral de delegados, por falta de quorum, será reiterada a convocação para nova data e que,

persistindo a impossibilidade de reunião nessa segunda tentativa consecutiva, será automaticamente convocada assembléia geral de associados para reformar

o estatuto social, extinguindo o instituto da representação por delegados e,

conseqüentemente, reduzindo a amplitude da área de ação de modo a possibilitar

a reunião dos associados (Bacen, 2000c).

Este tipo de representação nas assembléias (delegados) deve ser adotado somente em último caso, pois limita a participação dos associados nas decisões da cooperativa. Além disso, defende-se que as cooperativas de crédito tenham uma área de abrangência pequena, de preferência municipal.

7.2 Conselho de Administração

O conselho de administração é responsável pelo planejamento, elaboração

de normas internas e gerenciamento da cooperativa. É composto no mínimo por cinco e no máximo por 10 componentes. Os diretores, eleitos na assembléia geral, assumem os cargos definidos pelos estatutos, como: presidente, tesoureiro, secretário e mais dois a sete conselheiros, dependendo da cooperativa. Suas funções são determinadas pelo Estatuto Social e pelo Regimento Interno, assumindo responsabilidade:

a) legal pela cooperativa perante o Banco Central;

b) política de representação perante a sociedade;

c) executiva, em que deve controlar e acompanhar diretamente a gestão

e a organização da cooperativa.

O presidente, o secretário e o tesoureiro formam a diretoria executiva,

que assume também responsabilidades específicas. Os demais conselheiros assumem, juntamente com a diretoria executiva, a responsabilidade pelos atos administrativos e cumprem o papel de democratizar o processo de tomada de decisões na cooperativa, potencializar o controle e a gestão, fazendo circular as informações para o quadro social sobre o andamento da cooperativa.

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Cooperativas de Crédito Solidário

O conselho de administração, ou diretoria, deve ser composto exclusivamente

por associados, com mandato nunca superior a quatro anos, sendo obrigatória a renovação de, no mínimo, 1/3 do quadro da administração. Apesar da legislação cooperativista não especificar questões relacionadas à reeleição dos membros da diretoria executiva, para que o processo seja realmente democrático, é importante que a reeleição esteja restrita a um determinado número de mandatos, o que deve constar no Estatuto Social. Só assim é possível evitar a perpetuação de alguns dirigentes em seus cargos e a imagem de que alguns deles, ao acumularem larga experiência na administração cooperativista, sejam insubstituíveis.

Deve-se observar que a concessão de crédito a membros de órgãos estatutários (diretoria) deverá observar critérios idênticos aos utilizados para os demais associados.

7.3 Conselho Fiscal

É o órgão responsável pela fiscalização dos atos administrativos da

cooperativa. É composto por seis membros, sendo três efetivos e três suplentes. Tem um papel fundamental no sentido de garantir e eficiência, solidariedade e transparência das cooperativas. São eleitos para um mandato de um ano, sendo permitida a reeleição, como efetivo ou suplente, de apenas um terço dos membros efetivos e um terço dos membros suplentes.

Além destas estruturas decisórias, e importante que as cooperativas singulares e centrais criem conselhos consultivos, envolvendo as entidades parceiras

e de apoio, como sindicatos, associações e ONGs. A participação destas entidades

na discussão sobre a atuação e os rumos das cooperativas contribui para ampliar

o debate, visando elaborar um conjunto de alternativas para os seus associados,

pois muitos de seus problemas não se restringem ao crédito.

Para deliberar sobre a liberação de financiamentos, principalmente os financiamentos de maior valor e/ou para os créditos de investimento, é fundamental que as cooperativas criem uma comissão ou comitê de crédito. Esta comissão deverá ser composta por delegados eleitos ou designados pelo conselho de administração, com a finalidade de acompanhar e auxiliar no controle e na boa aplicação dos créditos para os associados. As comissões de crédito, balizada pelas orientações da assembléia da cooperativa, definem as prioridades de linhas de financiamentos e auxiliam na definição dos associados contemplados por ordem de prioridade, respeitando as normas internas de cada cooperativa.

7.4 Condições básicas para o exercício de cargos eletivos

A cooperativa pode criar exigências próprias para o exercício de cargos

eletivos por meio do Regimento Interno ou Estatuto Social. Entretanto, para

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exercer um cargo nos órgãos estatutários de uma cooperativa o associado precisa, no mínimo, adequar-se às seguintes normas legais:

a) não estar impedido por lei especial, nem ter sido condenado por crime

falimentar, de sonegação fiscal, de prevaricação, de corrupção ativa ou passiva, de concussão, de peculato, contra a economia popular, fé pública, a propriedade, ou contra o Sistema Financeiro Nacional, ou condenado à pena criminal que vede, ainda que temporariamente, o acesso a cargos públicos;

b) não estar incluído no cadastro de emitentes de cheques sem fundo;

c) não ser declarado inabilitado para cargos de administração em

instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Bacen

ou por outro órgão do Poder Público, aí incluído as sociedades seguradoras, entidades de previdência privada ou companhias abertas;

d) não haver sofrido protesto de títulos e nem ter sido condenado em

ação judicial de cobrança;

e) não participar da administração de qualquer outra instituição financeira

não-cooperativa;

f) não deter mais de 5% do capital de qualquer outra instituição

financeira; e

g) não possuir parentes, até o 2º (segundo) grau, em linha reta ou colateral,

ou cônjuge dentre os demais integrantes dos órgãos estatutários da cooperativa.

Um associado não pode ser ao mesmo tempo empregado da cooperativa

e integrante de órgão estatutário, assim como não podem compor o conselho

fiscal os empregados de membros integrantes do conselho de administração.

Estas condições legais não devem ser os únicos elementos a compor o perfil de um dirigente cooperativo. A representatividade política e social dos dirigentes junto aos associados são cruciais para o exercício do cargo, não só porque conferem legitimidade, mas também porque, ao possuir maior vivência com os associados, os dirigentes tendem a apresentar maior compreensão da realidade socioeconômica e de suas demandas. Para garantir esta representatividade, a discussão e a escolha dos nomes dos dirigentes deve ser feita em espaços que garantam a participação dos associados, como a assembléia geral, pré-assembléias e reuniões com o conjunto das entidades de representação dos associados (sindicatos, associações, grupos coletivos etc.).

8 OS SERVIÇOS E OPERAÇÕES DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

O principal serviço de uma cooperativa de crédito é o de emprestar dinheiro

a seus cooperados. Mas, para emprestar ela precisa primeiro captar dinheiro de

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Cooperativas de Crédito Solidário

seus cooperados ou de terceiros (organismos públicos, instituições financeiras, ONGs e entidades de cooperação internacional), por meio de convênios específicos ou de doações. Entretanto, o atendimento às demandas não pode ser superior à sua disponibilidade de recursos, precisando também respeitar a legislação e a curva de equilíbrio, a qual permite que a cooperativa de crédito empreste até 65% dos seus depósitos a prazo, 35% dos depósitos à vista, 100% dos repasses de recursos e 100% do seu patrimônio líquido (descontados os recursos aplicados em materiais permanentes, tais como bens móveis, imóveis, equipamentos e investimentos).

8.1 Cooperativa de crédito rural

As cooperativas de crédito rural fornecem aos seus associados diversos tipos de financiamentos, utilizando-se para isso recursos próprios ou de terceiros. Os principais financiamentos fornecidos por este tipo de cooperativa (em valor

e número de contratos) são os financiamentos agrícolas, cuja principal fonte de financiamento são os recursos oficiais de crédito.

8.1.1 Serviços prestados e operacionalização dos financiamentos

Como as cooperativas de crédito são instituições financeiras, elas podem fornecer uma série de serviços a seus associados, destacando-se:

· conta corrente, talão de cheques e limite em conta corrente (cheque especial);

· depósito a prazo cooperativo (espécie de poupança);

· recebimento de contas (água, luz, telefone, IPTU etc.);

· pagamento de funcionários de cooperativas, prefeituras etc.;

· crédito pessoal (CAC ou “papagaio”);

· crédito rural com recursos próprios (CRP);

· crédito rural com repasse de recursos oficiais (ou prestação de serviços);

· desconto de cheques;

· administração de fundos públicos e fundos rotativos privados.

As cooperativas praticam diferentes modalidades de empréstimos ou

financiamentos, com taxas de juros distintas. As taxas de juros dos financiamentos com “recursos oficiais” são menores que as com “recursos próprios”, isto porque

o governo federal subsidia os empréstimos por meio da equalização de uma parte

dos juros. Os recursos de repasse não podem ser destinados para o crédito pessoal, sendo necessário cumprir as regras estabelecidas para cada programa e pelas instituições intermediárias desses recursos.

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Por definição, todos os associados podem fazer financiamentos e utilizarem

os demais serviços, porém é preciso estar em dia com suas obrigações perante

a cooperativa e atender às exigências estabelecidas pelos agentes repassadores

do crédito ou pelo conselho administrativo. Para a aprovação dos empréstimos,

dependendo da cooperativa, da modalidade e do valor do crédito solicitado, existem três instâncias que podem deliberar sobre sua liberação: o diretor em exercício (ou gerente), o conselho administrativo ou as comissões de crédito.

Quanto maior for o volume de capital social integralizado, maior é o volume de recursos por empréstimo que o sócio pode captar junto à cooperativa. Porém, cada associado fica limitado pela legislação ao volume máximo de 5% do total do PLA da cooperativa. Caso a cooperativa seja filiada a uma central de crédito reconhecida pelo Bacen, este limite de diversificação de risco sobe para 10% do PLA.

8.1.2 Crédito com recursos próprios

Os recursos próprios de uma cooperativa são constituídos pelos depósitos

à vista (conta corrente), depósitos a prazo (aplicações), pelos fundos de reservas,

que podem ser constituídos das sobras (no mínimo 10%), ou outros fundos que

o quadro social constituir junto à cooperativa, e pela integralização de capital

social dos associados. As três principais modalidades de crédito com estes recursos, com base na realidade das cooperativas de crédito do Sistema Cresol em novembro de 2000 eram:

Contrato de abertura de crédito (CAC) - também conhecido como “papagaio”, é emprestado com um prazo máximo de quatro meses. A taxa de juros era de 4,75% ao mês, sendo o valor médio dos empréstimos de R$ 776,00 por contrato.

Crédito rural com recursos próprios (CRP) - É um empréstimo de custeio com prazos de até quatro meses. A taxa de juros era de 2,82% ao mês. É utilizado normalmente para compra de insumos quando o desconto à vista é superior a esta taxa, sendo também utilizado como pré-custeio, permitindo que o agricultor consiga descontos ao adquirir seus insumos antes da elevação dos preços, comum no período de plantio. O valor médio é de R$ 1.230,00 por contrato, sendo que nesta linha aplicam-se mais de 50% do total da carteira de recursos próprios.

Cheque especial - embora muito cara, é uma opção de crédito que deve ser utilizada apenas para prazos curtos. A taxa de juros era de 6,5% ao mês, com um valor médio de R$ 365,00 por contrato, sendo que todo o quadro social possui um limite básico de valor igual a seu capital social integralizado.

Os financiamentos com recursos próprios são considerados como créditos emergenciais, destinados para cobrir eventuais imprevistos no orçamento familiar e

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Cooperativas de Crédito Solidário

no sistema produtivo. As taxas de juros referentes aos recursos próprios são definidas com base nos custos de captação (valor pago às aplicações dos associados, sendo hoje uma média de 12% ao ano) e nos custos administrativos e operacionais, dependendo da linha de crédito e de sua forma de concessão. Essas taxas variam de acordo com o mercado, ou conforme mudanças governamentais nas taxas de juros oficiais, mas sempre estão abaixo da média praticada pelos bancos.

8.1.3 Crédito rural com recursos oficiais de crédito

Os recursos oficiais de crédito são disponibilizados pelo governo federal, sendo captados pelas cooperativas de crédito por meio de convênios de repasse ou de prestação de serviços com bancos públicos federais. As linhas de crédito mais comuns com este tipo de recurso são o Pronaf e o Proger. Estas modalidades de crédito são destinadas à:

a) custeio agrícola e pecuário;

b) investimento agrícola e pecuário;

c) investimentos em atividades não-agrícolas desenvolvidas pelos

agricultores familiares em seus estabelecimentos agropecuários.

As taxas de juros destes financiamentos são definidas anualmente pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), podendo existir taxas específicas para cada categoria de produtor. Todos os agentes financeiros que operam com este tipo de recurso são obrigados a praticar as taxas definidas pelo CMN nos seus financiamentos. Entretanto, cada agente financeiro pode ter um tratamento diferenciado do Tesouro Nacional em relação ao recebimento de taxas de administração e spread por suas operações com recursos oficiais de crédito rural.

8.2 Cooperativa de crédito mútuo

Os serviços prestados pelas cooperativas de economia e crédito mútuo são praticamente os mesmos praticados pelas de crédito rural, excetuando as operações inerentes a atividade rural, especialmente os de repasse de recursos oficiais de crédito. Basicamente, todos os tipos de financiamentos realizados aos associados são com recursos próprios, ou seja, é formado pelo capital social e aplicação dos associados na cooperativa (depósitos à vista e a prazo). Na Bancredi, por exemplo, as modalidades iniciais de eram, em setembro de 2000:

· Crédito Direto ao Cooperado (CDC) – empréstimo pessoal com juros nominativos de 1% ao mês + TR + 2,5% de Taxa de Administração, cujo valor está limitado a cinco vezes ao seu capital social e parcelado em quatro vezes. Na medida em que ocorrer o aumento do capital da cooperativa, esses limites deverão ser dilatados;

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· Financiamento de Bens ao Cooperado (FBC) - conforme o contrato de

convênio com as instituições e empresas conveniadas ou fornecedoras dos bens;

· Financiamentos Especiais aos Cooperados (FEC) – construção e reforma de imóveis; seguros de veículos/ emergência medica e funeral.

Os depósitos a prazo (aplicações) dos associados são realizados por meio do Recibo de Depósito Cooperado (RDC), onde a cooperativa capta recursos de seus cooperados, fornecendo uma remuneração equivalente ao CDB do mercado financeiro.

No Brasil, como a maioria das cooperativas de crédito mútuo é formada por funcionários de uma mesma empresa ou conglomerado econômico, ou por funcionários públicos de determinados órgãos ou empresas estatais, os seus associados geralmente estão empregados. Por isso, normalmente os serviços prestados por estas cooperativas ficam limitados aos financiamentos de bens de consumo duráveis e empréstimos pessoais ou emergenciais. Assim, apesar dessas cooperativas serem de grande importância para os seus associados, viabilizando e agilizando empréstimos a taxas de juros mais baixas que o mercado, elas pouco contribuem para a geração de novos empregos e renda para os demais trabalhadores.

Entretanto, esta realidade pode mudar, pois a legislação vigente abre espaço para que estas cooperativas possam atuar de forma mais efetiva no incentivo a economia solidária, potencializando investimentos que podem gerar novos empregos e renda para os trabalhadores.

Como a legislação permite que as cooperativas de crédito mútuo aceitem no seu quadro social a participação de pais, cônjuges ou companheiro, viúvo e dependente legal de associado, além de pensionista de associado falecido, ela pode financiar investimentos produtivos nas áreas industriais, comerciais ou de serviços desenvolvidos por estas pessoas. Portanto, para que a cooperativa de crédito mútuo atue com associados não-empregados ou não-vinculados diretamente às empresas ou categorias profissionais que compõem a cooperativa, é preciso incentivar a associação dos familiares dos associados na cooperativa.

Outra forma de utilizar as cooperativas de crédito mútuo como um instrumento para criar iniciativas de geração de emprego e renda, além de potencializar o desenvolvimento local, é a criação de cooperativas composta por trabalhadores de determinada profissão regulamentada, determinada atividade (definida quanto à sua especialização) ou então, conforme também permite a legislação, por meio de trabalhadores de um conjunto definido de profissões ou atividades cujos objetos sejam idênticos ou estritamente correlacionado por afinidade ou complementaridade. Desta forma é possível,

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Cooperativas de Crédito Solidário

por exemplo, criar cooperativas de crédito mútuo de costureiras, pedreiros ou de outras profissões ou atividades, podendo associar tanto os profissionais da categoria que estejam empregados como os que estejam desempregados, além de seus familiares.

Caso as cooperativas de crédito mútuo comecem a atuar mais intensamente no financiamento de atividades produtivas de seus associados, visando à geração de emprego e renda, é possível que elas também venham a atuar com financiamentos oriundos de repasses de recursos oficiais de crédito, como por exemplo, o Proger Urbano (Programa de Geração de Emprego e Renda).

9 OS CONVÊNIOS COM INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS

As cooperativas de crédito precisam estar conveniadas a um banco para poderem ter acesso ao sistema de compensação de cheques e outros papéis. Para demonstrar como funciona a relação entre os bancos e as cooperativa de crédito rural e de crédito mútuo, serão utilizados como exemplo os convênios realizados com bancos pelo Sistema Cresol e pela Bancredi, respectivamente.

9.1 Cooperativas de crédito rural – o exemplo do Sistema Cresol

O Sistema Cresol, para acessar o sistema de compensação, é conveniado

com o Banco do Brasil, que também atua na forma intermediária de recursos oficiais de crédito rural, em especial para o crédito de custeio. Além do Banco do Brasil, o Sistema Cresol mantém convênios para repasse de recursos oficiais

de crédito rural com o BNDES e o BRDE.

A) Banco do Brasil

O Sistema Cresol relaciona-se com o Banco do Brasil nas questões de

compensação e aplicações de recursos das cooperativas, além da intermediação de recursos oficiais de crédito. As negociações são realizadas diretamente pela Cresol-Baser, que busca homogeneizar os critérios desta parceira, mas são as cooperativas singulares que assinam os convênios de compensação e repasse

com as agências locais do banco.

Existem diferenças significativas na relação das Cresol com as agências do Banco do Brasil, sendo que alguns gerentes tratam as primeiras como parceiros, enquanto outros procuram dificultar a ação das cooperativas, por meio de excesso de exigências e burocracia, tratando as cooperativas como concorrentes. Estas diferenças, embora ainda presentes, têm diminuído na proporção em que o Sistema cresce e se desenvolve, o que facilita a negociação diretamente em Brasília, unificando os procedimentos.

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Para operar os recursos de seus associados, cada cooperativa possui no mínimo duas contas no banco, onde movimenta todos os depósitos de seus associados. Os recursos ficam em nome da cooperativa, que mantém para seu controle, a discriminação dos valores depositados por seus associados em contas específicas e individualizadas. Quando um cheque cai na compensação do banco, este consulta a cooperativa para verificar o saldo do associado. Com saldo suficiente, o banco desconta o cheque da conta da cooperativa. Em seguida, a cooperativa desconta o valor correspondente da conta do cooperado. Caso não tenha saldo, a cooperativa comunica o banco, que devolve o cheque ao depositante, e como esta atividade é realizada de forma informatizada, possibilita compensar 100, 500 ou 1.000 cheques diariamente de forma ágil e eficiente.

O Banco do Brasil também atua na intermediação de recursos oficiais de crédito para as cooperativas (Pronaf e Proger), que podem ser disponibilizados de duas formas – repasse de crédito e prestação de serviços. No caso de repasse de recursos, as cooperativas são as fornecedoras finais dos empréstimos aos agricultores, devendo organizar a demanda e os contratos e assumir todos os riscos das operações.

Na prestação de serviços ao banco, as cooperativas organizam a demanda e os contratos, mas não assumem (teoricamente) os riscos dos financiamentos. Neste caso, o financiador final ao agricultor é o banco e não as

cooperativas. Entretanto, não é assim que ocorre na prática, pois as cooperativas têm um convênio com o Banco do Brasil avalizando as operações. O cooperado que recebeu o Pronaf por intermédio da prestação de serviços da cooperativa deve quitar sua dívida junto à mesma, a qual reúne o volume total de pagamentos

e os repassa ao banco. Mesmo nos casos dos associados que não efetuaram o

pagamento, a cooperativa acaba quitando os financiamentos junto ao banco, pois caso contrário, ele não efetuará a liberação de crédito para os demais

cooperados na safra seguinte.

Até a safra 1998/99, a maioria das agências do Banco do Brasil operava com as cooperativas do Sistema Cresol por meio de repasse de recursos. Para os repasses de recursos, o Banco do Brasil pagou na safra 99/00 a título de spread 1,5% ao ano sobre o valor financiado referente ao período de vigência do financiamento, que é de no máximo 10 meses. Para os anos anteriores este percentual foi de 0% na safra 96/97, 0,5% na de 97/98 e de 1,0% em 98/99.

Destaca-se ainda que, por exigência do banco, a garantia destes empréstimos era dada pelos agricultores (por meio do penhor da safra), por avalistas e pela própria cooperativa, que avalizava todas as “cédulas-mãe” dos financiamentos,

e em alguns casos, pelos bens dos diretores, que precisavam assinar como

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Cooperativas de Crédito Solidário

avalista das cédulas junto ao banco, sendo também necessário o aval da cooperativa central (BITTENCOURT, 2000).

Na safra 1999/00, o Banco do Brasil ampliou o uso da prestação de serviços pelas cooperativas como forma de liberar os financiamentos do Pronaf Custeio. Nesta safra, 45% do valor financiado de Pronaf Custeio pelo Sistema Cresol foi por intermédio da prestação de serviços. Na safra 2000/01, todos os recursos oficiais de crédito rural intermediados pelo Banco do Brasil foram liberados por meio da prestação de serviços pelas cooperativas.

Segundo o Banco do Brasil, esta alteração na forma de liberação dos recursos deve-se a normas internas do banco, que exigem que os contratos com as cooperativas sejam feitos com análise de risco com limite de crédito. Isto significa que os repasses de recursos dependeriam do PL das cooperativas. Como o PL das cooperativas é pequeno, o volume de recursos que poderiam ser repassados também seria pequeno. Diferentemente dos anos anteriores, quando o banco não pagava nada para as cooperativas na prestação de serviços para a liberação dos financiamentos de custeio, nesta safra foi pago 1,5% ao ano sobre o valor dos contratos.

Uma situação polêmica acontece na maneira com que é remunerado quem viabiliza o Pronaf Custeio. Na safra 2000/2001, o Banco do Brasil vai receber do Tesouro Nacional, a título de spread, 8,48% sobre o valor dos contratos, além de receber uma taxa fixa de R$ 13,01 mensais para cada contrato durante a sua vigência, a título de administração desses recursos. De toda esta remuneração, o Banco do Brasil repassa para as cooperativas apenas 1,5% ao ano sobre o valor financiado. Com este pequeno spread as cooperativas precisam pagar todas as suas despesas operacionais, além das possíveis inadimplências de seus associados.

Por outro lado, o Banco do Brasil cobra muito caro pelos serviços prestados às cooperativas de crédito, além de remunerar pouco às aplicações de recursos ali depositados. Apesar dos avanços obtidos nos últimos anos, os custos ainda são altos. Em 1996, era cobrado R$ 0,65 para cada lançamento efetuado na conta da cooperativa no banco e R$ 0,20 por folha de cheque emitido. Em 2000, depois de muitas negociações, o custo da compensação caiu para R$ 0,25 por lançamento e R$ 0,10 por folha de cheque.

B) BRDE – Banco Regional de Desenvolvimento Econômico

A parceria com o BRDE restringiu-se ao Pronaf Investimento nos anos de 1997 e 1998. A relação atual é restrita aos contratos efetivados neste período, sendo substituída pela relação direta entre o Sistema Cresol e o BNDES.

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Gilson Alceu Bittencourt

O BRDE recebia os recursos do BNDES e como não tem estrutura capaz

de atender à demanda (agências locais), utilizava os serviços das cooperativas. Na prática, o Sistema Cresol prestava um serviço para o BRDE, pois organizava

a demanda, fazia uma análise preliminar dos projetos, preparava os contratos

de financiamentos (de acordo com formulário entregue pelo banco), registrava

a documentação no cartório e os enviava para o BRDE, além de assumir o

risco. O BRDE apenas fazia uma última análise nos projetos e contratos, liberando em seguida os recursos que iam diretamente para as contas dos associados.

O limite do volume total dos financiamentos era previamente acertado

entre o BRDE e o Sistema Cresol, o qual era vinculado ao PLA das cooperativas. O BRDE recebia 3% de spread anual sobre o valor do financiamento do BNDES, repassando às cooperativas apenas 0,6% sobre os valores das amortizações dos financiamentos. Para que os associados tenham acesso ao crédito, as cooperativas assumiam todo o trabalho operacional e os riscos dos financiamentos.

Para o BRDE repassar os recursos oficiais dos financiamentos do Pronaf

Investimento, o agricultor necessitava apresentar garantias de seu pagamento (normalmente o penhor da atividade financiada) e avalistas. As cooperativas e

a Cresol-Baser também precisavam avalizar os contratos. Ou seja, a garantia

para o BRDE era total e mesmo assim, ficava com quase a totalidade do spread dos financiamentos. Nos primeiros contratos realizados em 1997, os associados também precisaram apresentar a hipoteca da propriedade para terem direito ao financiamento.

C) BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

Esta parceria tem viabilizado um crescente repasse de recursos oficiais de crédito rural aos programas Pró-solo e Pronaf Investimento. Na safra 2000/ 01 também serão repassados recursos para os programas Pró-leite e Pronaf Agregar. Para liberar estes recursos, o BNDES repassa os recursos para a Cresol- Baser o equivalente a 2% ao ano sobre o saldo devedor a título de spread. Além destas linhas de financiamento para investimento rural, neste ano o BNDES fez um convênio com o Sistema Cresol para trabalhar com uma nova modalidade de financiamento de crédito pessoal, denominada Microcrédito.

O convênio de repasse do BNDES é realizado com a cooperativa central.

As cooperativas singulares organizam a demanda, fazem a seleção dos projetos

e preparam a documentação básica para a liberação do crédito, repassando-os para a Central. A Cresol-Baser recebe os recursos do BNDES e os repassa diretamente para os associados das cooperativas.

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Cooperativas de Crédito Solidário

Nestes repasses, o Sistema Cresol assume todos os custos operacionais para a liberação dos créditos e assume os riscos, por meio da garantia dos financiamentos ao banco. As garantias dadas ao BNDES são normalmente de

quatro níveis, dependendo do tipo de financiamento. O primeiro nível pode ser

o

aval solidário entre os tomadores de crédito ou o penhor do bem financiado,

o

segundo nível é representado pelo avalista, o terceiro pela cooperativa singular,

e

por fim a Cooperativa Central.

9.2 Cooperativas de crédito mútuo – o exemplo da Bancredi

A Bancredi está mantendo relacionamento com a Caixa Econômica Federal, realizando abertura de conta corrente em nome da cooperativa e iniciando operações de reciprocidade no sentido de obter menores taxas de serviços, além de buscar convênios gradativos na medida de sua necessidade.

Como a Bancredi somente atua com bancários, onde a maioria tem conta corrente e talão de cheques disponibilizados pelos bancos onde trabalham,

a cooperativa ainda não sentiu necessidade de fornecer talão de cheques a seus

associados. Essa situação é específica desta categoria profissional, o que diminui

a necessidade de relacionamento mais intensivo com um banco, como é o caso

das demais cooperativas de crédito, que precisam manter este vínculo para a realização da compensação, que, de acordo com a legislação, somente pode ser realizado por um banco.

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Parte IV

Cooperativas de Crédito Solidário

10 A CONSTITUIÇÃO DE UMA COOPERATIVA DE CRÉDITO

10.1 As premissas para a criação de uma cooperativa de crédito

Para criar uma cooperativa de crédito não basta vontade política, é preciso existir uma demanda real das pessoas pelo crédito e pelos demais serviços que poderão ser prestados pela cooperativa, além de condições organizativas e econômicas da comunidade ou município que a demanda.

Antes da constituição de uma cooperativa de crédito é preciso verificar se existem potenciais associados na população (rural ou urbana) ou categoria profissional onde se deseja criá-la. Para isso, é preciso considerar que os associados em potencial não são simplesmente aqueles que demandam crédito pessoal ou produtivo, mas aqueles que terão condições de tomar determinados financiamentos com as condições e encargos financeiros que a cooperativa poderá disponibilizar. Apesar de fornecer outros serviços além dos financiamentos, as cooperativas de crédito precisam de um determinado número de associados ativos para que possa se viabilizar.

Dependendo do tipo e da extensão da demanda por crédito de uma comunidade ou município, a alternativa mais viável pode ser a organização dos demandantes para que possam exigir o acesso a uma linha de financiamento já existente (ou a ser criada) em um banco ou agência de crédito pública.

Como as cooperativas de crédito atuam normalmente com um volume de recursos maior do que outras instituições de microcrédito, além de serem mais controladas e fiscalizadas pelo Banco Central, a sua administração precisa ser mais qualificada, exigindo também um maior nível de organização de sua base. Assim, em alguns casos, dependendo do grau de organização da comunidade, outras alternativas institucionais mais simples para viabilizar o microcrédito podem ser recomendadas em preferência à criação de cooperativas

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de crédito. Estas instituições, formais ou não, podem atuar como bases para a criação de cooperativas de crédito no futuro, contribuindo tanto no processo formativo como na organização da economia local.

10.2 A viabilidade econômica de uma cooperativa de crédito

As cooperativas de crédito normalmente têm um baixo custo operacional e grandes chances de viabilizarem sua sustentação financeira ao longo do tempo. Entretanto, antes da criação de uma cooperativa, é preciso fazer uma análise de sua viabilidade econômica, considerando as reais condições existentes no local onde se deseja constituí-la.

Não existe um “modelo” único de gestão financeira e administrativa que possa garantir a viabilidade econômica de uma cooperativa de crédito. Podem existir diversas combinações entre o volume de recursos aplicados por modalidade de crédito e as respectivas taxas de inadimplência, o volume de depósitos à vista e a prazo, o valor do capital social e os custos operacionais e administrativos que poderão garantir a sua sustentação financeira.

Os custos de uma cooperativa de crédito singular rural ou mútua, também dependem muito de quais serão os serviços que ela venha a oferecer a seus associados. Alguns desses serviços têm um alto custo operacional, além de demandar maior capacitação e tempo dos dirigentes e funcionários da cooperativa, não gerando recursos suficientes para pagar os seus custos.

O fornecimento de talões de cheques aos associados, por exemplo, é um dos serviços que mais gera custos para uma cooperativa de crédito. Para fornecer os cheques, a cooperativa precisa fazer um convênio de compensação com um banco, o que aumenta a burocracia, pagam normalmente altas taxas ao banco conveniado para o fornecimento dos talões de cheques e para a realização da compensação, o trabalho dos funcionários e do contador da cooperativa é duplicado, a segurança precisa ser reforçada, além do limite do cheque especial ser um dos financiamentos que apresenta maior taxa de inadimplência entre os realizados pelas cooperativas.

Portanto, para a constituição de cooperativas de crédito em áreas rurais de baixa renda ou com categorias mais pobres, é possível diminuir significativamente os custos da cooperativa, eliminando inicialmente alguns dos serviços a serem prestados, o que poderá garantir a sua viabilidade econômica. Com o tempo, na medida em que a cooperativa se capitalize e os dirigentes e funcionários adquiram mais experiência no gerenciamento da cooperativa, esta poderá ampliar os serviços fornecidos aos seus associados.

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Cooperativas de Crédito Solidário

A título de exemplo e com base na experiência de algumas cooperativas de crédito rural em funcionamento, é apresentado a seguir um modelo de gestão econômica. Para as cooperativas de crédito mútuo são apresentadas apenas algumas considerações.

10.2.1 Cooperativa de Crédito Rural

De uma forma geral, segundo a Cresol-Baser, uma cooperativa de crédito rural que forneça diversos serviços a seus associados, entre os quais o talão de cheques, atinge seu ponto de equilíbrio quando atinge as seguintes metas:

a) Origem dos Recursos

quando atinge as seguintes metas: a) Origem dos Recursos Caso o número de associados seja maior,

Caso o número de associados seja maior, pode-se reduzir o valor do capital social por associado. Entretanto, as experiências demonstram que uma cooperativa de crédito rural com muito mais de 500 a 600 associados começa a perder o controle e o conhecimento pessoal do quadro associativo.

b) Destinação dos Recursos

pessoal do quadro associativo. b) Destinação dos Recursos Esta combinação de modalidades de aplicação dos recursos

Esta combinação de modalidades de aplicação dos recursos das cooperativas pode alterar-se significativamente, dependendo da época do ano ou da região onde a cooperativa atua, pois está intimamente vinculada aos períodos da atividade agropecuária local.

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c) Projeção de Receita Mensal

Gilson Alceu Bittencourt c) Projeção de Receita Mensal As receitas de uma cooperativa de crédito rural

As receitas de uma cooperativa de crédito rural são como operações de crédito (juros pagos pelos empréstimos com recursos próprios e de repasses oficiais), aplicações dos recursos excedentes no banco, prestação de serviços, recebimento de financiamentos já provisionados (reversões de provisões) e outras receitas gerais.

A participação de cada fonte na origem das receitas da cooperativa tende a se alterar caso as taxas de juros venham a diminuir, o que tende a acontecer em curto prazo. Com a diminuição dos juros nos empréstimos com recursos próprios, será necessário ampliar o volume de recursos emprestados, bem como aumentar a taxa de repasse do Pronaf (spread) cobrada junto ao Banco do Brasil pela cooperativa de crédito.

d) Projeção das Despesas Mensais

cooperativa de crédito. d) Projeção das Despesas Mensais As despesas das cooperativas são com captação de

As despesas das cooperativas são com captação de recursos (juros pagos aos associados pelas suas aplicações na cooperativa), despesas com repasse e prestação de serviços, despesas administrativas (salários, aluguel de salas, telefones, carros, materiais de consumo, diárias dos dirigentes, depreciação etc.), despesas com o Banco do Brasil (taxas dos serviços de compensação), provisões para créditos de liquidação duvidosa e outras despesas gerais.

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Cooperativas de Crédito Solidário

As despesas mensais variam de cooperativa para cooperativa, sendo

que os gastos com remuneração dos depósitos a prazo e o pagamento de pessoal (funcionários e dirigentes) são os responsáveis pelos maiores gastos.

Os gastos com provisão de créditos, que são os recursos destinados a cobrir possíveis inadimplências, também são significativos, representando cerca de 15% das despesas mensais de uma cooperativa. Neste sentido, é possível oferecer todos os serviços ao quadro social sem nenhum custo adicional, como taxas, serviços etc.

Este modelo de gestão permite que a cooperativa obtenha um superávit de cerca de R$ 935,00 mensais, além da remuneração do capital superior aos índices de poupança. No início de funcionamento de uma cooperativa de crédito, tanto as receitas como as despesas tenderão a ser menores, o que equilibra, em parte o seu funcionamento. Entretanto, na maioria dos casos, as cooperativas apresentam um pequeno déficit mensal em suas contas nos primeiros meses de funcionamento. Parte dessas despesas pode ser bancada pelas entidades e organizações que estão contribuindo para a criação da cooperativa, seja por meio da liberação do dirigente, como também para a liberação de carro, salas, telefone etc.

Como a realidade socioeconômica é distinta entre as regiões brasileiras,

é possível criar modelos diferenciados buscando garantir a viabilidade econômica da cooperativa. Entretanto, é preciso considerar que normalmente os pagamentos da cooperativa singular para a central de crédito, referentes aos

serviços de contabilidade, repasse de informações e normativos do Banco Central

e assessorias em geral, são fornecidos a preços mais baixos do que quando

contratados individualmente por uma cooperativa. Além disso, nem sempre esse tipo de serviço está disponível na região. Portanto, pode ser muito difícil viabilizar uma cooperativa de crédito rural, quando a experiência for isolada e não tiver acesso aos serviços de uma cooperativa central de crédito ou central de serviços, ou mesmo de alguma outra entidade que possa fornecer este tipo de serviço gratuitamente ou a baixos custos.

10.2.2 Cooperativa de Crédito Mútuo

A implantação de uma cooperativa de crédito requer apoio da

empresa ou do representante da categoria, cedendo espaço físico, funcionários e equipamentos para poder iniciar atividades e realizarem a capitalização, captação e imediatamente iniciar as concessões de empréstimos. A viabilidade econômica depende principalmente da definição da taxa de juros dos empréstimos, da remuneração dos recursos captados

e dos demais custos administrativos.

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Considerando que as taxas de remuneração do capital e aplicações giram de 1% a 1,5% ao mês, e que as despesas operacionais da cooperativa possam ser subsidiadas pela empresa ou pela representante da categoria, as taxas de empréstimos conseqüentemente serão inferiores às taxas praticadas pelo mercado.

As capitalizações podem ser feitas mensalmente, por meio de contribuições vinculadas ao salário, podendo variar de 1% a 10% do salário do associado. Também podem ser feitas por meio de capitalizações espontâneas ou anuais, mas normalmente este tipo de contribuição diminui o valor médio anual capitalizado por cada associado, dificultando ainda mais que a cooperativa atinja o ponto de equilíbrio financeiro. Cada cooperativa de crédito, de acordo com as características de sua base social, deve buscar a forma mais adequada para fazer a capitalização.

10.3 A articulação política para criação da cooperativa de crédito

A criação de uma cooperativa de crédito deve ser fruto da vontade e da

ação de diversas entidades de representação e assessoria de uma categoria profissional ou comunidade. É fundamental que o conjunto das entidades que estão participando do processo de criação da cooperativa conheçam as potencialidades e os limites de uma cooperativa de crédito. Caso contrário, os aliados no processo de criação se tornarão inimigos ao longo do tempo.

No caso de cooperativas de crédito rural, a articulação para sua criação deve buscar envolver os diversos atores sociais do município e, sempre que possível, o poder público local.

10.3.1 A articulação com outras entidades dos trabalhadores

A garantia do controle social sobre o cooperativismo de crédito solidário

depende de uma constante parceria com as organizações sociais, de forma a lhe garantir a prática permanente dos seus princípios e a sua ação adequada à população e ao desenvolvimento local. Os sindicatos em especial têm um importante papel de organização dos trabalhadores e de defesa dos seus interesses nas políticas das cooperativas. A ação dos sindicatos e demais organizações sociais no desenvolvimento local é uma diretriz importante para a ação das cooperativas de crédito.

Os processos participativos e democráticos, que contam com a possibilidade de uma articulação positiva com a sociedade e com o Estado, são processos motivados principalmente por sindicatos, associações e organizações não-governamentais. Além disso, o fortalecimento do tecido social, a ampliação da cidadania e da participação política direta propiciada pelas organizações sociais, é importantes fatores que contribuem com a eficiência das cooperativas

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Cooperativas de Crédito Solidário

de crédito. A degeneração política por que passou o cooperativismo de crédito tradicional no Brasil se deve em grande medida à sua exclusiva vinculação com os interesses do Estado e do capital.

As entidades representativas dos trabalhadores normalmente encaram as cooperativas de crédito, quando de sua criação, como um instrumento destinado a canalizar e ampliar o acesso ao crédito. Na medida em que as cooperativas se desenvolvem, provocam diferentes reações entre os dirigentes. Quando da cobrança dos financiamentos, muitos dirigentes das entidades de representação, buscando defender os interesses de seus associados, forçam para que as cooperativas sejam mais maleáveis nas negociações. Já os diretores das cooperativas de crédito procuram garantir os interesses da cooperativa, por meio do recebimento dos empréstimos.

Para muitos dos dirigentes de cooperativas de crédito falta uma melhor compreensão da importância da luta política para a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e de que o crédito, principalmente nas atuais condições econômicas, não é suficiente para o desenvolvimento e capitalização de seus associados. Com a intensificação deste conflito, a tendência, caso a criação da cooperativa não seja muito bem discutida, é ocorrer um afastamento em relação às demais entidades representativas, conseqüência de suas lutas e reivindicações, além da ampliação de uma visão economicista da sociedade.

Por outro lado, para muitos dirigentes de entidades representativas é mais prático estar afastado da cooperativa de crédito, pois desta forma não precisam assumir os problemas estruturais decorrentes das dificuldades dos trabalhadores (urbanos ou rurais) em seus investimentos, da falta de formação profissional e do conjunto das limitações decorrentes da política econômica, industrial e agrícola brasileira.

Com o tempo, caso não sejam tomadas atitudes enérgicas para manter

a relação e cooperação entre as diversas entidades, entendendo o real papel e

a importância de cada organização, é possível que ocorra um afastamento e o

acirramento de posições, trazendo enormes prejuízos para o conjunto dos trabalhadores. É por isto que a atuação dos sindicatos e demais organizações sociais como agentes motivadores e parceiros destas novas estruturas é fundamental para a construção de um novo cooperativismo de crédito, mais democrático, sustentável e solidário.

Entretanto, é preciso considerar o crescimento da consciência de muitos dirigentes sindicais e cooperativistas da importância desta parceria para o futuro de ambas as organizações. Para estes dirigentes, as cooperativas podem ser um canal de acesso às políticas públicas de crédito, criar e ampliar as

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possibilidades de financiamentos pessoais, além de contribuírem para o conjunto das organizações dos trabalhadores.

10.3.2 A articulação com o poder público local

Para a criação e início de operação de cooperativas de crédito rural é fundamental o apoio do poder público local, principalmente nas pequenas cidades. Este apoio pode ser financeiro, por meio do pagamento ou liberação de salas para as cooperativas, viabilizando linhas telefônicas, móveis e, em alguns casos, funcionários durante o primeiro ano de funcionamento.

As cooperativas também podem gerenciar os fundos de desenvolvimento municipal, quando estes existirem. A experiência tem demonstrado que nos pequenos municípios, as cooperativas de crédito rural têm conseguido gerar muito mais recursos, por meio dos recursos canalizados para o município e o conseqüente aumento da arrecadação tributária, que os governos locais investem nas cooperativas em seu período de implantação.

10.4 A Assembléia Geral de constituição da cooperativa

A cooperativa é constituída por deliberação de uma assembléia geral dos

sócios fundadores, inicialmente dirigida pelo coordenador da comissão de organização,

que escolherá de imediato um dos demais integrantes para secretariar os trabalhos.

A primeira deliberação da assembléia deverá ser em relação ao Estatuto

Social, cuja proposta de minuta deverá ser levada para a assembléia pela comissão organizadora. Portanto, o processo de constituição da cooperativa deve iniciar muito antes de sua assembléia. É preciso realizar reuniões com o público interessado, discutindo os objetivos da cooperativa, propostas de Estatuto Social, além de possíveis composições da futura diretoria.

Durante a assembléia, a proposta de Estatuto Social deverá ser lida, artigo por artigo, realizando a sua avaliação e aprovação (ou reprovação, se for o caso). Depois de aprovado o Estatuto, a assembléia deverá ser suspensa para que possa ocorrer a indicação dos nomes para a eleição do conselho de administração, diretoria executiva e conselho fiscal.

Uma vez apresentados os nomes, os trabalhos da assembléia devem ser retomados para a eleição dos membros. (caso exista apenas uma relação de nomes, a votação poderá ser simbólica). Caso algum dos indicados não seja aceito, a assembléia deverá substituí-lo.

Após a eleição, o coordenador declarará eleitos os membros do conselho de administração e do conselho fiscal, informando-os que a posse dependerá da homologação dos nomes pelo Bacen. A partir da eleição, o coordenador passará a direção da assembléia para o presidente eleito.

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Cooperativas de Crédito Solidário

A ata da assembléia geral de constituição deverá conter os nomes dos eleitos para os cargos estatutários, observando a qualificação em ordem constante no anexo próprio para este fim.

10.5 O Estatuto Social

O Estatuto Social é uma exigência do Bacen, que deverá ser lido e aprovado na assembléia de constituição da cooperativa. Deverá ser assinado, em todas as suas vias, pelos eleitos aos cargos estatutários e por todos os demais sócios fundadores. A assinatura deverá ser feita em espaço próprio na última folha, cabendo aos signatários rubricar as demais folhas. O Estatuto Social de uma cooperativa de crédito normalmente obedece a um padrão, em que estão os requisitos obrigatórios que constam na lei sobre cooperativismo e na lei do Sistema Financeiro Nacional, além de outras questões impostas por meio de resoluções do Bacen.

Os sócios fundadores podem acrescentar ao Estatuto algumas questões ou propostas que acharem pertinentes, desde que mantenham os itens obrigatórios e que estas questões não sejam conflitantes em relação à legislação em vigor.

Ao disciplinar no Estatuto Social as condições de devolução do valor das quotas-partes no caso de saída de um associado, é permitido à cooperativa estipular salvaguardas para evitar traumas na efetivação do respectivo pagamento. Isto porque em certos casos a saída de associados pode implicar na retirada de soma significativa de recursos, capaz de abalar a situação econômica da cooperativa (Bacen, 2000c).

Além do Estatuto Social, que trata de questões mais gerais e, principalmente, legais a cooperativa de crédito deve possuir um Regimento Interno para disciplinar o seu funcionamento. O objetivo desse Regimento Interno é tratar de questões relacionadas ao dia-a-dia das cooperativas, como o comportamento dos diretores e funcionários, fluxos de decisões e papéis (organograma gerencial), normas e controles internos para os créditos (em consonância com a legislação) etc.

10.6 Os sócios fundadores

Para a constituição de uma cooperativa, o número mínimo de sócios fundadores é de 20 pessoas físicas, sendo recomendado trabalhar inicialmente com cerca de 30 pessoas para o caso de alguns não se enquadrarem nas normas legais exigidas para os sócios fundadores.

Os sócios fundadores não podem:

· ter títulos protestados;

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· ter emitido cheques sem fundo;

· ter conta corrente encerrada por negligência ou má fé;

· ser analfabetos – precisam saber assinar o nome, ler e escrever.

Os documentos exigidos dos sócios fundadores são o RG, CPF, certidão de nascimento ou casamento e o endereço completo.

10.7 Documentação necessária para a constituição da cooperativa

Para a constituição e funcionamento de uma cooperativa de crédito é necessário encaminhar uma série de documentos ao Banco Central e à Junta Comercial. Após a liberação pela Junta Comercial, a cooperativa deverá também requerer um alvará de licença à prefeitura municipal e uma vistoria sanitária da Secretaria Municipal de Saúde. É possível solicitar a isenção das taxas municipais como contrapartida do poder público local ao processo de constituição da “cooperativa de crédito solidária”.

10.7.1 Documentos para o Banco Central

Todos os documentos a ser enviados ao Banco Central para homologação dos atos da Assembléia Geral de Constituição (AGC), precisam ser encaminhados no prazo máximo de 15 dias a contar de sua instalação devidamente enumerados. Devem ser acompanhados de um requerimento (como capa do encaminhamento) dirigido ao Bacen (anexo 4).

Os documentos que devem ser enviados ao Bacen são:

a) edital de convocação da Assembléia Geral de Constituição - página do

jornal contendo o Edital e cópia do convite encaminhado aos interessados (anexo 1);

b) quatro vias autenticadas da Ata da Assembléia Geral de Constituição

da cooperativa, devidamente assinada (pelos dirigentes e os demais sócios fundadores - última folha e rubricas nas demais), com visto de um advogado devidamente identificado com seu nome completo, número de inscrição na

OAB e respectiva seccional, de acordo com a Lei n. o 8.906/94 (anexo 2);

c) duas vias autenticadas (com assinaturas identificadas na última folha

e rubricas nas demais) da Ata da Reunião do conselho de administração que escolheu os ocupantes de cargos executivos, se for o caso;

d) quatro vias autenticadas do Estatuto Social da Cooperativa assinada

pelos dirigentes e os demais sócios fundadores (assinatura na última folha e rubricas

nas demais), com visto de um advogado devidamente identificado com o nome do profissional, número de inscrição na OAB e respectiva seccional (anexo 3);

e) duas vias do requerimento solicitando a homologação da constituição

da cooperativa de crédito (anexo 4);

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Cooperativas de Crédito Solidário

f) uma via da Declaração de Desimpedimento de cada sócio

fundador (anexo 5);

g) recibo de depósito do recolhimento do capital integralizado ao Banco

Central, devidamente autenticado (anexo 6);

h) uma via do Formulário Cadastral, de acordo com o modelo instituído

pela Circular 1.958, de 10.05.91, contendo todos os dados dos administradores (anexo 7);

i) declaração de responsabilidade para o conselheiro de administração (anexo 8);

j) duas vias da declaração de inexistência de parentesco entre os diretores

da cooperativa (anexo 9);

k) uma via da declaração de bens dos conselheiros de administração

(anexo 12);

l) uma via da declaração de bens dos conselheiros fiscais (anexo 13);

m) duas vias da lista dos associados fundadores, os quais deverão ser no

mínimo 20, assinadas pelo presidente e secretário da AGC (anexo 18);

n) duas vias do formulário de Cadastro de Pessoas Físicas e Jurídicas

contendo as informações sobre o ato da eleição ou nomeação, conforme as Circulares 518/80, e 624/81 (Anexo 18);

o) ata da reunião da diretoria contendo a designação dos diretores

responsáveis pela área contábil, pelas contas de depósito e pelo cumprimento das medidas estabelecidas na Circular 2.852/98 (lavagem de dinheiro - Lei 9.613/98).

A autorização para o funcionamento será concedida, por um prazo indeterminado, por meio da emissão pelo Bacen de um formulário denominado Homologação de Atos. Caso todos os documentos estejam em ordem e não for necessário providenciar pedidos de informações por parte do Banco Central, a autorização é publicada no Diário Oficial da União, num prazo de até 60 dias, a contar do recebimento do pedido.

10.7.2 Documentos para a Junta Comercial

A documentação para o registro na Junta Comercial somente deverá ser encaminhada após a homologação de atos, expedida pelo Banco Central, autorizando o funcionamento da cooperativa. O registro e arquivamento dos documentos na Junta Comercial e a sua respectiva publicação no diário Oficial da Indústria e Comércio, é que garantem personalidade jurídica à cooperativa, sendo então liberada para operar.

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Gilson Alceu Bittencourt

Os documentos que deverão ser encaminhados a Junta Comercial são:

a) três vias da Ata da Assembléia Geral de Constituição da Cooperativa (Anexo 2);

b) três vias do Estatuto Social (Anexo 3);

c) duas vias da Fichas de Cadastro Nacional / Identificação da Sociedade;

d) duas vias da Ficha de Cadastro Nacional dos Administradores;

e) três vias da ficha de inscrição do estabelecimento – CGC/MF;

f) três vias da guia Darf;

g) uma via da guia DIR para arquivamento e requerimento de certidão;

h) uma via da cópia autenticada do CPF e CI de todos os sócios fundadores;

i) uma via da Declaração de Desimpedimento de cada sócio

fundador (Anexo 5);

j) uma via do comprovante de depósito de capital ao Bacen;

k) uma via da cópia da autorização prévia do Bacen;

l) página do jornal onde foi publicado o edital da AGC;

m) requerimento tarja amarela devidamente assinado – capa do encaminhamento dos documentos.

Após a entrega dos documentos para a Junta Comercial o prazo para o arquivamento é de 7 a 15 dias. Uma vez efetivado o arquivamento, é preciso requerer uma Certidão Simplificada, onde deve constar o Ato Inaugural da cooperativa no registro do comércio. De posse da certidão de arquivamento, é preciso solicitar a publicação no Diário Oficial da Indústria e Comércio do Estado. Com a circulação da edição do jornal com a publicação, a cooperativa ganha personalidade jurídica, devendo remeter ao Banco Central um comprovante de publicação da certidão de arquivamento expedida pela Junta Comercial.

A cooperativa terá, a partir deste envio, 90 dias, já descontados os decorridos desde o arquivamento, para realizar a primeira operação. Caso contrário, os atos de constituição poderão caducar, resultando no encerramento das atividades da cooperativa antes mesmo de iniciar o seu funcionamento. Depois de efetuar a primeira operação, a cooperativa deve comunicar o fato ao Banco Central, mediante formulário próprio, em até 15 dias.

10.8 A filiação a uma central de crédito ou de serviços

As cooperativas de crédito têm autonomia sobre sua filiação a uma cooperativa central de crédito. As vantagens da filiação a uma central de crédito estão nos serviços que estas podem fornecer à cooperativa e na diminuição das

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Cooperativas de Crédito Solidário

exigências em relação a auditorias externas e no valor do patrimônio líquido exigido pelo Bacen, além de assessoria no processo de constituição e operacionalização da cooperativa.

Caso a cooperativa de crédito deseje filiar-se a uma cooperativa central de crédito, ela deve aprovar a sua filiação em assembléia geral. Uma vez aprovado, a cooperativa deverá encaminhar um pedido de filiação para a central, que solicitará alguns documentos. Cada cooperativa central tem uma forma diferente de atuação, mas a grande maioria delas assume a responsabilidade de enviar a documentação necessária ao Banco Central e à Junta Comercial, facilitando o trabalho da cooperativa filiada.

10.9 A escolha de um banco para convênios de compensação

Para ter acesso à compensação de papéis (cheques, títulos etc.) e para manter parte de seus recursos aplicados conforme determina a legislação, as cooperativas de crédito precisam manter um convênio com algum banco. No caso das cooperativas de crédito rural também é preciso fazer convênios com bancos públicos para acessar os recursos oficiais de crédito, sendo que este tipo de convênio pode ser realizado com vários bancos, não sendo exigido exclusividade.

A definição do banco “parceiro” é de livre escolha pelas cooperativas, mas é

importante que esta escolha esteja baseada na perspectiva de uma boa reciprocidade do banco para com a cooperativa. Esta reciprocidade pode ser viabilizada por meio

de menores custos cobrados pelo banco para a confecção de talões de cheque e para

a realização da compensação para as cooperativas, maiores taxas de juros para as

aplicações da cooperativa junto ao banco, além da possibilidade de intermediação

de recursos oficiais de crédito operacionalizados pelo banco.

10.10 A contabilidade da cooperativa

A contabilidade de uma cooperativa de crédito deve ser encarada com

muita responsabilidade e cuidado, pois é muito controlada pelo Banco Central. Existe um plano de contas (Cosif) específico do Bacen que é o orientador para

o enquadramento contábil de todas as operações de uma cooperativa de crédito,

no qual devem ser enviados mensalmente os balancetes contábeis até o 5 o dia útil de cada mês. Semestralmente, sempre até o dia 10 do mês subseqüente, também é preciso enviar os balanços mensais ao Bacen, além de outras

informações contábeis adicionais.

Cada cooperativa tem autonomia para fazer a sua contabilidade, desde que siga as normas do Bacen e os normativos contábeis. Entretanto, dependendo do tamanho e do volume de recursos administrados pela cooperativa, esta atividade pode ser muito onerosa. Para diminuir os custos, recomenda-se que

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as pequenas cooperativas vinculadas às centrais de crédito deleguem a essas a execução de sua contabilidade, a qual poderá fazer este serviço a um menor custo do que ocorreria caso a cooperativa contratasse um contador. Por outro lado, esta opção não elimina a responsabilidade de cada cooperativa em organizar os seus documentos contábeis, bem como mantê-los atualizados no programa de gestão da cooperativa. Os dados gerados pela contabilidade de uma cooperativa são bons instrumentos para a análise de sua gestão, e um importante instrumento para a sua fiscalização.

10.11 O software para gerenciamento e contabilidade

A escolha e o desenvolvimento do software gestor da cooperativa é

fundamental para o bom funcionamento de uma cooperativa de crédito. Além de permitir uma integração direta com a cooperativa central, o programa precisa atender a todas as demandas operacionais da cooperativa. De uma forma geral, o programa ou programas de gestão da cooperativa devem administrar as seguintes demandas e serviços das cooperativas:

· cadastro do cooperado e da unidade produtiva (quando for o caso);

· contabilidade total (parcial, quando for desenvolvida pela central);

· controle patrimonial;

· capital social e patrimônio líquido;

· depósitos à vista e a prazo;

· gerenciador das aplicações;

· cobrança bancária;

· crédito com recursos próprios e crédito com repasse de recursos oficiais;

· folha de pagamento;

· análise financeira da cooperativa;

· terminal financeiro (caixa da cooperativa);

· terminal de extratos.

A elaboração destes programas requer muito investimento por parte das

cooperativas de crédito e suas centrais, pois não existe um programa definitivo ou acabado. A cada alteração nas regras dos financiamentos ou do

funcionamento das cooperativas aprovado pelo Conselho Monetário Nacional, o programa precisa ser atualizado. Por isso, são poucos os programas (software) de gestão de cooperativas de crédito disponíveis no mercado.

Os programas são normalmente controlados pelas centrais de crédito ou mesmo pelos bancos cooperativos, sendo que muitas cooperativas, mesmo não

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estando vinculadas a centrais de crédito ou aos bancos cooperativos, “compram” deles o direito de uso dos programas. O “aluguel” é realizado por meio do pagamento de uma taxa mensal, sendo que a cooperativa recebe em troca, além do programa, suas atualizações e assistência técnica.

10.12 O capital social e o patrimônio líquido

Uma cooperativa de crédito normalmente inicia suas operações com pouco capital e baixo volume de depósitos. O capital inicial, segundo a legislação, é de R$ 3.000,00 para cooperativas filiadas à central de crédito e de R$ 4.300,00 para as não-filiadas. Apesar do valor dos depósitos e do capital social ser baixo no início de funcionamento da cooperativa, aparentando uma situação de risco, esta característica tem seu lado positivo, pois nos primeiros meses de operação da cooperativa os novos dirigentes estão aprendendo a trabalhar com o crédito. Assim, eles têm mais tempo para aprende a emprestar, a cobrar e a classificar melhor o quadro social, sempre para saber de fato quando cada associado pode emprestar e quais são as melhores opções de crédito para cada caso.

Depois de seis meses de funcionamento a cooperativa já precisa avançar para um planejamento que vise à alcançar um ponto de equilíbrio entre receitas, despesas, depósitos, carteira etc. Além disso, a cooperativa de crédito deverá criar mecanismos que possibilitem a ampliação de seu patrimônio líquido até os patamares exigidos pela legislação em vigor, ou seja, R$ 30.000,00 no terceiro ano e R$ 60.000,00 no quinto ano para as cooperativas filiadas à uma central de crédito. Caso a cooperativa não esteja filiada a uma central de crédito, o patrimônio líquido ajustado deverá ser de R$ 43.000,00 no segundo ano e R$ 86.000,00 no quarto ano.

O nível de capitalização garante às cooperativas maior autonomia e a

possibilidade de alavancar mais recursos para seu quadro social, pois os repasses de recursos oficiais, principalmente de investimento, são baseados na capacidade de endividamento da cooperativa, que é calculado pela soma das obrigações da cooperativa dividido pelo PLA.

As cooperativas de crédito devem definir o valor da quota-parte de acordo

com a realidade de cada comunidade ou cooperativa, respeitando o teto máximo de 1 (um) salário mínimo, sendo que nenhum associado poderá subscrever mais de 1/3 do total das quotas-partes. O valor da quota-parte, o mínimo de quotas- partes a ser subscrito pelo associado, o modo de integralização das quotas-partes, bem como as condições para sua retirada nos casos de demissão, eliminação ou

de exclusão, devem estar especificados no estatuto social da cooperativa.

Na assembléia de constituição, o associado deverá integralizar no mínimo 50% do total subscrito. O restante deverá, obrigatoriamente, ser integralizado

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no prazo máximo de um ano, contado da data da publicação no Diário Oficial do despacho de aprovação do funcionamento da cooperativa. Além da quota- parte integralizada no momento da associação à cooperativa, o associado poderá aumentar o seu número de quotas-partes na cooperativa, o que ampliará o volume máximo de recursos que ele poderá acessar via financiamento.

O valor do patrimônio líquido inicial (capital integralizado) deve ser

enviado ao Banco Central juntamente com o pedido de constituição da cooperativa no prazo de até cinco dias do seu recebimento. Ao aprovar o processo de criação da cooperativa o Bacen devolve o dinheiro.

11 A ABERTURA DA COOPERATIVA

A abertura de uma cooperativa de crédito para os seus associados não

deve coincidir com o período de constituição da mesma. Mesmo que a cooperativa receba a autorização para funcionar do Banco Central, ela precisa antes desenvolver uma série de atividades para que não tenha problemas em seu funcionamento. Caso contrário, a cooperativa terá despesas fixas antes mesmo de ter recursos para operar, além de restringir-se a um pequeno número de associados.

O primeiro passo é a formação de seus dirigentes e funcionários, que

devem receber a formação básica antes de abrir as portas aos associados, principalmente em relação à utilização do software de gestão da cooperativa. Os dirigentes também precisam trabalhar para ampliar o número de associados, pois inicialmente, apesar da possibilidade de ter tido um grande número de pessoas no processo de debate para a sua criação, os sócios fundadores somam somente 20 a 30 pessoas. Deve-se procurar atingir no mínimo 150 sócios para o início das atividades da cooperativa, o que deve ocorrer no máximo até 90 dias após a aprovação da mesma pelo Banco Central.

11.1 A sede da cooperativa – segurança e funcionalidade

No início de suas operações ou mesmo permanentemente, muitas cooperativas de crédito rural têm funcionado na sede de sindicatos de trabalhadores rurais, em salas cedidas pela igreja ou pela prefeitura. As de crédito mútuo, por outro lado, normalmente funcionam na sede da empresa onde se originam os seus associados e no sindicado ou associação da categoria profissional.

Estas alternativas, apesar de contribuírem para diminuir os custos operacionais das cooperativas, devendo ser potencializadas, podem trazer alguns problemas que precisam ser prevenidos. Apesar das cooperativas poderem funcionar em espaços de terceiros, isso não pode significar que os membros das entidades que forneceram as salas possam circular livremente pelo interior (espaço

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administrativo) da cooperativa ou venham a ter tratamento diferenciado, pois essa é uma entidade independente e, por trabalhar com dinheiro, necessita mais do que qualquer outra instituição, de privacidade, organização e segurança.

Apesar das limitações normalmente impostas pela disponibilidade de espaço para o funcionamento da cooperativa, é fundamental que esta tenha no mínimo quatro espaços distintos (pode ser por meio de divisórias), sendo um destinado ao atendimento direto aos associados, um para a realização de reuniões e atendimento aos cooperados por parte dos dirigentes, um para o funcionamento do caixa e o último destinado ao armazenamento e manipulação dos documentos administrativos.

Ainda em relação à sede da cooperativa, são necessários alguns cuidados básicos com sua segurança. Apesar da cooperativa manter pouco dinheiro em caixa, é preciso que todas as janelas possuam grades de segurança, as portas tenham fechaduras especiais e que, quando possível, possua um sistema de alarme monitorado.

11.2 A estrutura operacional

Uma cooperativa de crédito precisa ter alguns equipamentos básicos para operar, que são imprescindíveis para a sua segurança e funcionalidade. Os principais equipamentos que uma cooperativa de crédito precisa para operar são:

· 2 linhas telefônicas;

· 2 microcomputadores potentes;

· 2 máquinas autenticadoras Bematec;

· 2 calculadoras;

· 1 cofre;

· 2 impressoras (HP e matricial);

· 1 no-breack;

· 1 balcão para o guichê de caixa;

· arquivos para pastas suspensas;

· mesas, cadeiras e escrivaninhas;

· outros materiais de consumo, a critério de cada cooperativa de crédito.

No início da operação das cooperativas alguns desses equipamentos podem ser emprestados ou mesmo adaptados. O importante é garantir a segurança e a funcionalidade.

11.3 O quadro pessoal da cooperativa

Uma cooperativa de crédito rural pode funcionar nos primeiros anos com apenas um diretor liberado, mais duas pessoas, sendo um caixa e um

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estagiário, além de uma estrutura regional de apoio. Este número de pessoas deve aumentar de acordo como o número de postos de serviços em funcionamento e do número de sócios que a cooperativa possuir.

A administração de uma cooperativa de crédito demanda muita

dedicação, responsabilidade e disponibilidade de tempo de seus diretores, pois

o produto em questão é o dinheiro de seus companheiros de trabalho ou categoria

profissional. A má gestão de uma cooperativa poderá causar sérias conseqüências

à vida de um grande número de pessoas.

Além disto, não é apenas o dinheiro dos associados depositado na cooperativa ou mesmo o valor dos financiamentos tomados pelos associados que está em jogo, mas também o conjunto dos investimentos realizados pelos cooperados em suas unidades de produção, seja ela um estabelecimento agrícola ou uma microempresa urbana. Portanto, o próprio ato de emprestar um recurso destinado a um investimento produtivo demanda responsabilidade e seriedade por parte dos dirigentes e funcionários da cooperativa.

Como a participação na direção e a constituição de cooperativas de crédito são práticas relativamente novas entre as organizações de trabalhadores, não é possível exigir dos dirigentes que estes sejam exímios gestores financeiros já no início do funcionamento das cooperativas. Por outro lado, é possível e necessário selecionar muito bem as pessoas que deverão dirigir a cooperativa. Para isso, é preciso escolher dirigentes que sejam honestos, tenham vontade e facilidade para aprender novos temas (pois demandarão um intenso processo formativo), possuam disponibilidade de tempo e tenham responsabilidade administrativa e política.

11.4 O cadastro socioeconômico

O cadastro socioeconômico é um instrumento que visa fornecer um

diagnóstico dos associados, servindo para melhor definir e planejar as demandas de crédito, conhecer as principais atividades produtivas e a situação econômica dos associados, além de fornecer informações úteis sobre a ação e os possíveis impactos das cooperativas junto a seu quadro social, o que contribui na divulgação e aceitação da proposta junto à sociedade e ao governo.

O cadastro pode fornecer informações aos diretores e às comissões de

crédito sobre a capacidade de endividamento de cada associado, além de um diagnóstico de sua atividade produtiva, o que pode contribuir para a busca de alternativas técnicas e econômicas para cada situação. A análise do cadastro permite chegar a conclusões que podem auxiliar na aprovação, reprovação ou proposição de alterações no projeto de investimento apresentado pelo associado.

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11.5 Os empréstimos e as garantias

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Na origem de qualquer atividade de empréstimo existe potencialmente uma assimetria de informação entre devedor e credor que leva necessariamente

a

cooperativa singular a avaliar o risco de cada operação. O caráter assimétrico

e

a conseqüente imperfeição da informação obtida traduzem-se no custo do

próprio empréstimo. O que está em jogo é, de um lado, a incerteza sobre a viabilidade do projeto e de outro a incerteza a respeito da disposição a pagar – mais até que sobre a capacidade de pagamento – do tomador de empréstimo

(ABRAMOVAY,2000).

É fundamental que as cooperativas procurem trabalhar com uma política pautada no controle social do crédito, além de definir limites para os empréstimos dos associados. No Sistema Cresol, por exemplo, os associados podem tomar emprestado até 12 vezes o valor de suas quotas-partes integralizadas, considerando a soma de todas as linhas de financiamento disponibilizadas pela cooperativa. Este percentual já foi de 25% no início do funcionamento do Sistema, reduzindo posteriormente para 20%, 15% e agora para 12%. A redução do nível de endividamento é fruto da experiência adquirida pelo Sistema Cresol ao longo de cinco anos de operação.

As cooperativas podem adotar distintos mecanismos como garantia dos empréstimos. A confiança estabelecida e reconhecida pela idoneidade e pelos costumes de quem está pretendendo tomar o crédito é um importante mecanismo. O crédito grupal com aval solidário (quando um membro do grupo não quita sua dívida, o restante do grupo assume sua dívida) também é um instrumento bastante eficaz para aumentar o controle social sobre o crédito e diminuir as inadimplências. Os créditos pessoais de pequeno valor podem ser lastreados pelas próprias quotas-parte do associado. De uma forma geral, as cooperativas exigem como garantia o penhor da safra (rural), o penhor do bem financiado e/ ou um avalista (BITTENCOURT, 2001).

11.6 As inadimplências e as provisões de créditos

As cooperativas podem buscar garantir-se de todas as formas, mas sempre haverá algum nível de inadimplência, por menor que seja. No caso do Sistema Cresol, por exemplo, as taxas de inadimplências variam de acordo com a modalidade de crédito. Para os recursos próprios, as taxas giram em torno de 4% para o cheque especial, 8% para o crédito pessoal e 3,5% para o crédito rural com recursos próprios. Entre os financiamentos originários de recursos

oficiais de crédito, a taxa de inadimplência na data de vencimento dos contratos

é de 5%, mas 3% a 4% acabam sendo renegociados, o que significa uma inadimplência de apenas 1% a 2%.

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As taxas de inadimplência nos créditos pessoais e rurais variam muito entre as cooperativas pertencentes ao Sistema Cresol. Em algumas cooperativas, em especial as primeiras cooperativas criadas, a inadimplência é muito mais alta, concentrada em um pequeno número de tomadores. O principal motivo das altas taxas de inadimplência dessas cooperativas foi a inexperiência inicial. Estas cooperativas ainda carregam alguns problemas econômicos e políticos que resultam destes erros iniciais e que somente agora começam a ser superados.

Segundo avaliação do Sistema Cresol, em função da tentativa de superação dos problemas, as taxas de inadimplência de uma forma geral vêm caindo, devendo ser reduzidas à metade nos próximos dois anos. As ações

desenvolvidas neste sentido são o maior controle sobre os financiamentos (divisão de responsabilidades para a liberação de valores mais elevados), melhoria do software de gestão das cooperativas, redução do limites de financiamento por associado (de 25 vezes o valor da quota-parte para 12), melhor seleção das atividades financiadas (redução do financiamento a atividades de grande risco

– trigo e feijão), ampliação dos mecanismos de conhecimento do quadro social,

formação mais qualitativa dos conselhos fiscais e dos dirigentes das cooperativas (CRESOL-BASER, 2000).

Para que as cooperativas não sejam pegas de surpresa em relação à

inadimplência, precisam fazer provisões dos créditos vencidos e não liquidados. Seguindo normas do Bacen, a partir de 15 dias de inadimplência de um contrato,

a cooperativa deve provisionar 0,5% do valor financiado. Depois de 30 dias ela

deve provisionar 3% e, a partir daí, o percentual provisionado vai aumentando até os seis meses após o vencimento do contrato, quando 100% do valor do financiamento deve estar provisionado.

Considerando ainda o exemplo do Sistema Cresol, em relação às provisões

realizadas para os financiamentos, cerca de 20% a 25% são recuperadas. Para

o crédito com recursos próprios, as taxas reais de inadimplência caem para

cerca de 3% no cheque especial, 6% no empréstimo pessoal e 2,6% para o

CRP (BITTENCOURT, 2001).

Para diminuir o impacto das inadimplências nos financiamentos com recursos oficiais de crédito, algumas cooperativas do Sistema Cresol criaram uma espécie de fundo de aval. Este é controlado pelas próprias cooperativas, que retêm até 2% do valor financiado, dependendo da situação. As cooperativas que apresentam baixas taxas de inadimplência destes financiamentos nada recolhem para o fundo. As cooperativas com taxas mais altas de inadimplência recolhem de 1% a 2% dos financiamentos para o fundo.

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