Você está na página 1de 3

MARCÍLIO, Maria Luiza. “A população do Brasil Colonial”. In: Bethell, Leslie (org.).

História da América
Latina: A América Latina Colonial. 2ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília,
DF: Fundação Alexandre Gusmão, 1998. (volume II, pp. 311-338).

Resumè:

Logo às primeiras linhas, o artigo de Maria Luiza Marcílio começa delineando as dificuldades nas
quais convive a demografia quando esta se atém a população da Colônia, aliás, somente agora há
interesse manifesto no Brasil para esse tipo de abordagem, que já consta de aparatos científicos.
Entretanto, o material de trabalho para o estudo não existe antes da era pombalina, no século XVII,
pois, não há no Brasil, até então, nenhuma quantificação de seus habitantes tampouco da área de
ocupação destes. Somente a partir das reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal começam a
ser produzidas as primeiras informações estatísticas sobre a Colônia, porém, os dados em geral não
apresentam nomes, senão referências de toda a população quantificada em número de sexo, idade,
cor, ocupação, estado civil, dentre outras mostras. Mas, todavia o censo fosse uma determinação, nem
todas a capitanias o fizeram e, pior, muitos dados se perderam ou estão nalgum arquivo regional ou
em poder das famílias e igrejas, cujos acesso e catálogo são quase impossíveis.

Da mesma forma, no século XVII, com o aumento significativo das paróquias, a Igreja começa a
organizar e manter melhor os seus registros com deliberada sistematização. Percebe-se, assim, que
durante os primeiros dois séculos da empresa colonial nada se tem a respeito de sua população. Para
Maria Luiza esta é a fase pré-estatística da demografia histórica brasileira, uma vez que não há dados,
e, com as reformas pombalinas afinadas com o mercantilismo, ingressamos na proto-estatística, o
período estatístico mesmo inicia-se com o recenseamento de 1872, posteriormente deflagrado com a
obrigatoriedade do Registro de nascimentos, óbitos e casamentos em 1890.

Postas estas primeiras considerações, Maria Luiza divide artigo em quatro tópicos: o primeiro, O
declínio da população indígena, assegura os pequenos e dispersos registros sobre os índios e sobre a
tragédia que se abateu sobre eles, quase os exterminando; o segundo aponta para O crescimento da
população colonizadora branca, especialmente durante o fim do século XVII com a descoberta do
ouro que favoreceu também a migração interna. O terceiro ponto reconstitui a trajetória d’O tráfico
de escravos negros, cuja migração negra data dos primeiros anos da ocupação européia e cujo
número é impossível de precisar dado a queima dos arquivos que sucedeu no século XIX. Já quanto
A mistura de raças, quarto e último ponto, apresenta os laços de convergência dos tipos índio,
europeu e africano para a formação da etnia brasileira.

O declínio da população indígena. Não há registros suficientes para precisar o número dos
habitantes do Brasil quando da chegado dos portugueses, existe apenas um limitado número de
elementos fornecidos de ordem religiosa e da burocracia colonial, ainda assim datados no fim do
século XVI. Quaisquer possibilidades de chegarmos a um número exato esbarra-se na falta de
documentação escrita e pela total inutilidade da arqueologia, uma vez que os nativos brasileiros não
produziram artefatos que pudessem chegar até nós. Contudo, citando os estudos de Hemmig,
Rosenblat e Denevan, Maria Luiza arrisca o número de quase 2,5 milhões de índios em 1 500 e,
apoiada nos escritos de Nóbrega e Anchieta, descreve o expediente de guerra utilizado pelos
europeus para subjugar os nativos num período entre as décadas de 60 e 90 do século XVI. Aliada às
campanhas de guerra, as doenças epidemiológicas, variadas e sucessivas, levaram ao excessivo declínio
da população indígena, estima-se que em 1 570 estava reduzida a um terço do total no ano de 1 500.
É somente a partir do século XVII que os índios começam adquirir capacidades de resistência e
adaptação, fruto das missões e da força, enquanto outros fugiam para o interior da colônia, cuja
necessidade de mão-de-obra obrigava fazendeiros a empreenderem expedições para captura
escravos índios. Para a autora, a ocupação holandesa representou um hiato nos para os maltratos
portugueses para com os nativos, isso porque os holandeses, chocados com a queda da população,
proibiram de imediato a escravização dos índios. Porém, com o fim do Brasil nassoviano, os
portugueses reassumiram a condição de proprietários voltando a escravização indígena, além disso, à
medida que avançam os anos, somam-se novas e devastadoras epidemias.

O crescimento da população colonizadora branca. Atraídos pela cana-de-açúcar, os portugueses


se concentraram entre Pernambuco, Bahia e Recôncavo durante o século XVI, mas, com os incentivos
para imigração no século seguinte, a coroa destinou colonos para outras regiões a fim de proteger e
alargar limites. Com a descoberta do ouro, em fins do século XVII, o quadro demográfico regional da
colônia se altera radicalmente, o Nordeste passa ocupar o segundo plano nas intenções migratórias
internas e de além mar, os portugueses não se vexaram em vir para o Brasil embora o esforço da
coroa procurasse, em vão, limitar o número de saída dos reinóis ávidos em busca de enriquecimento
fácil. Estima-se que durante o século XVIII, cerca de 400 mil lusíadas tenham partido para o Brasil.
Uma nova colonização surgiu do ouro: intensa e urbana, concentrada em áreas de acesso difícil,
percorrendo leitos de rios e correntes de extração, em geral, áreas impróprias para a agricultura, por
isso o de uma economia para produção de alimentos, pastoris e agrícolas, entre o sul das Minas
Gerais e o sul de São Paulo, o vale do Paraíba e a região do Viamão (RS).

A partir da segunda metade do século XVIII, em conseqüência da queda na extração do ouro,


houve acentuada retração demográfica, entretanto, coincidente com a centralização empreendida por
Pombal, o governo português tomou algumas medidas com vistas facilitar a entrada de colonos no
Brasil, facilitando inclusive a transferência de famílias imigrantes dos Açores e da Madeira nos anos de
1748 e 1752. Sendo assim, Maria Luiza apresenta estimativas, já no final do século XVIII, de uma
população branca de 1 010 000, as estimativas anteriores eram de 20 mil para 1570,
aproximadamente 30 mil para 1580 e no final do século XVII 100 mil. Veja-se quanto a descoberta
das jazidas de aluvião influenciou o quadro demográfico da colônia.

O tráfico de escravos africanos. Nos engenhos de cana-de-açúcar já havia peças negras desde o
ano de 1535, embora a autorização régia date quatorze anos depois, segundo Maria Luiza, negros
havia aos milhares em 1570. Com estudos de Roberto Simonsen, ela cita um total estimado em 350
mil escravos importados durante o século XVII, porém, os cálculos de Maurício Goulart estão mais
largos, apenas o número de 75 mil para o mesmo período, serializando dados para os anos de 1600 a
1630, Goulart mostra uma media anual de 2, 5 mil e para todo o século a média de 500 a 550 mil
africanos. Outro estudioso, Phillip Curtin, aproxima-se de Goulart com o número de 560 mil negros
no século XVII e no século seguinte cerca de 2 milhões negros teriam vindo para o Brasil. De acordo
os cálculos do final do século XVIII, havia um total de 1 361 000, pouco mais de 40% da população
colonial.

Levando-se em conta os riscos insalubres e o deliberado impedimento para a reprodução por


parte dos proprietários, além da elevada taxa de mortalidade, vê-se que o número do aumento
demográfico de escravos só se explica pelo expediente contínuo da exportação, uma vez que o
crescimento natural era totalmente inexpressivo.

A mistura de raças. Os tipos fundamentais para a formação da população brasileira (índios,


europeus e africanos) obtiveram em graus mais ou menos toleráveis uniões inter-raciais legalizadas
pelo estado e pela Igreja, a exceção dos africanos, ausentes da legislação, porém, assim como os
índios, ligados em uniões extramaritais com o tipo branco. Dito isso, Maria Luiza oferece os elevados
números de filhos ilegítimos para indicar uma intensa mistura racial, entre 40% e 52, 2% em São Paulo
e Ouro Preto, respectivamente, donde Vila Rica apresenta dados mais notáveis, entre 1719 e 1723,
89,5 % dos batismos foram de crianças bastardas. Entretanto, para Maria Luiza, não é fácil mensurar o
processo de miscigenação que aconteceu no Brasil, a começar pela própria definição do tipo mestiço
classificado pela documentação da época como “pardo” ou “mulato”, todavia, esses mesmos registros
incluíam os índios ora entre os brancos, ora entre os “mulatos” ou ainda entre os “negros”.