Uma experiência profunda durante o processo dos 21 dias

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Encontro Íntimo
Adão caminhava ansiosamente pelo gramado. A manhã era agradabilíssima, não obstante ele já não mais prestar atenção a isso. Estava irrefutavelmente irresignado. Como última alternativa havia se instalado num retiro muito afastado da cidade, uma chácara de um casal onde havia sido construído um spa exatamente para fins meditativos, relaxantes, e afins. Resolveu ir juntamente com seu grande amigo e companheiro, Geremias, o qual partilhava das mesmas idéias e opiniões e acolheu de bom grado o convite, afinal, já estavam há algum tempo planejando um recolhimento para colocarem em prática algumas teorias que colheram após um ano de pesquisas. Ali se encontravam há quase duas semanas e percebia que nada do que havia planejado estava indo bem. Adão e Geremias eram dois incansáveis pesquisadores das questões religiosas e divinas. Adão em especial, queria provar de forma cabal a existência de Deus, o que gerava sempre conversas calorosas com seu colega de pesquisas. - Adão, como pode um homem que ostenta o nome do primeiro ser humano a habitar a Terra querer provar a existência do Criador? – Ironizava Geremias, com a intimidade que somente quem desfruta da confiança fraterna pode ter. - Ora, Geremias, nossa meta é provar de forma concreta todas as nossas pesquisas, não é? Pois então, cheguei a ponto de querer provar, não para os outros, mas para mim mesmo, se Deus existe, ou não... - Bem, concordo que nossa meta, quando nos colocamos à disposição dessas investigações, era pôr em prática todas as teorias de que tínhamos acesso; discutir um assunto sem vivenciá-lo não tem muito sentido, em especial quando se quer passar algo de concreto para os demais.
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- Pois então! - Mas Adão, basta olhar ao redor... - Não me venha com essa! – Interrompeu o extremista, já percebendo onde o colega iria chegar. - Esse papo de que “Deus está em tudo o que existe na criação” é uma maneira muito simplória de escapar ao assunto. – Ia falando e chacoalhando as mãos. - Quero constatar por mim mesmo, – dizia enquanto esfregava os polegares entre os dedos, como se quisesse detectar com as mãos – quero conseguir algo concreto para poder realmente ter a certeza de sua existência plena, algo irrefutável. - Tudo bem, concordo em certo ponto com você. – Condescendia Geremias vendo exagero na meta de Adão. – Realmente nosso objetivo quando nos unimos nessa tarefa é provar tudo para que nossa vivência sirva de testigo em nossos relatos. Mas, o que pretende fazer para atestar a veracidade disso? – Desafiou-o achando que Adão se daria por vencido. Em vão. Adão emendou com a réplica já pronta - Lembra daquele casal que o professor João nos apresentou? Aquele que tem uma chácara retirada que se vale de atividades medicinais com plantas e ervas, que oferece um ambiente para o pessoal repousar, fazer meditações, banho de lama, cromoterapia, orientações internas, relaxamento e afins? - Sim, claro, já estivemos lá uma vez conversando com eles; eles mantêm um trabalho voltado para o auxílio da humanidade, é esse não? – Reforçava a lembrança, Geremias. - Exatamente. Que tal nos instalarmos por lá um período? Deve ser muito apropriado para nossas pesquisas. – Sugeriu Adão não escondendo a euforia ante a possibilidade. - Parece-me interessante, poderemos registrar algumas impressões agradáveis, divulgar em nossa página na internete alguma coisa das plantas, levar uns CDs. – Já se imaginava no local executando alguns trabalhos. - Isso mesmo, Geremias, sem considerar que eles possuem uma biblioteca esotérica fantástica, se tivermos acesso, seria gratificante por si só!
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Foi então que os dois companheiros agendaram duas semanas no spa no período de suas férias e para lá se encaminharam. Era julho, frio intenso por aquelas regiões. Adão nunca se deu muito com o clima de inverno, mas não tinham opção. Mesmo porque sua aflição não lhe permitiria aguardar mais tempo. E agora ali estavam, os dois, há 10 dias. O local era singelo mas reunia tudo o que necessitavam. Estavam alocados em uma das dependências do estabelecimento a qual possuía 03 quartos, sendo um suíte, uma sala ampla, e mais um banheiro compartilhado. Imediatamente à frente da entrada, uma varanda calçada e cercada por altos muros com um portão em cada extremo recebia quem chegava. Uma mesa de jardim com suas respectivas cadeiras brancas enfeitava o local. Uma rede podia ser ancorada próxima a um pequeno recanto com rosas silvestres. - Deve ser maravilhoso passar uma noite de verão por aqui. – Lastimava Adão a Geremias, enquanto se encolhiam em suas blusas. Seguindo pela saída da esquerda, um jardim trazia brilho aos olhos de quem passava por ele. Lugar próprio para tomarem um pouco de sol pelas manhãs frias. O que de fato realmente faziam horas a fio, às vezes sem trocar palavras, apenas consentindo em absorver através do corpo seu aprazível calor. Tiveram muita sorte, pois eram, naquela oportunidade, os únicos a estarem usufruindo as instalações, portanto, não tinham nenhuma restrição ao realizarem suas práticas de interiorização. O casal morava nas dependências ao lado deles. Um grande gramado se estendia de fronte o ambiente onde eles manipulavam suas ervas medicinais, fruto de sua renda. Uma frondosa árvore fazia sombra a um banco de madeira instalado sob sua copa. Em seu redor, num raio de dois metros aproximadamente, um pequeno calçamento isolava o banco da grama e permitia horas agradáveis recebendo o acolhedor banho da luz solar, o que convidava a uma aprazível leitura ou meramente à contemplação. À esquerda do banco, uma colina se erguia ostentando voluptuosamente uma mata que atiçava a vontade dos dois hóspedes em se embrenharem na mesma com fitos explorativos. Mas, sabiam de antemão
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que o objetivo não era esse naquele momento, a meta era outra: introspecção, meditação, autoconhecimento. Todavia, Adão não conseguia relaxar mais e sôfrego, tendo em conta os poucos dias que ainda lhe restavam para conseguir algo positivo em seu intento, seu propósito em ali estar, não mais se aquietava. - Você não deveria estar caminhando uma hora dessas, Adão. – Alertava Geremias seu colega. - Optamos por um jejum, e nossas energias devem ser canalizadas para a meditação. O que há? Parece tenso! - Estou mesmo. – Respondeu sem mirar o colega e mantendo o ritmo da caminhada típica de quem se apresenta tenso, desgostoso. - Venha. Sentemo-nos aqui. – E indicou o acolhedor banco sob a árvore onde os raios de sol aqueciam a suave brisa matinal. – Converse um pouco comigo, o que está sentindo? Adão, um pouco relutante resolveu sentar-se. Quem sabe seu grande amigo poderia lhe consolar. - Presumo que esteja fazendo algo de errado neste trabalho, Geremias. - Por quê? - Já faz dez dias que aqui estamos, já fiz leitura apropriada, contemplação, relaxamento, meditação, fiquei um tempão no quarto fazendo pranayama, vim receber a luz do sol, respirar o ar fresco da manhã, e até agora não recebi nada! - Como assim, “recebeu nada”? – Indaga o paciente amigo. - Nada, ora: nenhuma mensagem, nenhuma visão, nenhum sinal, voz, qualquer coisa! É como se estivesse desconectado com o mundo interno, compreende? - Acho que sim. Mas é natural isso acabar ocorrendo. Eu te conheço muito bem, e não é de hoje. Você é muito ansioso. O excesso de adrenalina que você joga numa expectativa atrapalha qualquer abertura sua. E você sabe muito bem disso, não? Adão respirou profundamente erguendo as sobrancelhas e olhou para a folhagem da árvore, como quem concordava plenamente com as tentativas revigorantes de seu amigo.
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- Acho que está sendo tempo perdido... - Não diga isso! – Geremias repreende com ênfase o desalentado Adão. - Olhe ao redor, como pode chamar de tempo perdido os momentos sublimes que estamos vivendo? Não estamos ouvindo há dias um ruído de carro, buzina, rádio, TV, cigarro, fumaça de automóveis, problemas de trabalho, contas, e tantas outras situações desgastantes que temos no dia a dia. Aqui pode não ser o paraíso, mas estamos em condições propícias de nos manter limpos de energias densas. Adão, piscando um olho e torcendo os lábios, esboçou um forçado rascunho de sorriso, onde deixava clara a insatisfação que sentia, apesar de saber que tudo o que Geremias lhe dizia era correto. Entrecruzou os dedos das mãos e pendurou-as sobre a cabeça amargurando uma resposta que não convencia nem a ele, muito menos a Geremias. Ainda assim, não se sentia bem. Suas elucubrações foram interrompidas pela proprietária que lhes convidava a tomar um suco matinal de laranjas, colhidas a pouco por ela própria no pomar que ficava do outro lado da estrada, à direita da casa. Ao terminarem o saboroso refresco puro que encerrava o jejum, conversaram um pouco sobre as atividades do local e então Geremias optou por deixar Adão. - Vocês me dão licença, mas quero concluir um livro que estou lendo, e o solzinho está convidativo para isso. - Claro. – Consentiu a anfitriã. - Logo vou para lá também. – Ofereceu-se Adão sem opção no momento. Nisso, Nádia, a proprietária, mostrou para Adão algumas sementes de uma planta conhecida cientificamente por Aguaí. - Você já viu isto? – Perguntou-lhe passando em suas mãos duas sementes triangulares e de casca marrom rígida que havia retirado de um frasco de vidro repleto delas. - Não, nunca vi, parece aquela semente, “olho de boi”, só que não é redonda e menos resistente que ela.
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- Também é conhecida por “Chapéu de Napoleão” ou ainda por “Coração de Cristo”, tendo em conta a forma de chapéu que Napoleão usava e o formato de coração quando se abre ela. – Nádia era uma exímia conhecedora de plantas, sabia só de olhar de qual se tratava, e o melhor, para que servia em matéria de propriedades curativas. Adão ouvia sem muito interesse, mas com o respeito que cabia à gentil anfitriã. - Seu elemental auxilia em muito as pessoas a conseguir coisas que anelam. Agora Adão chegou a abrir melhor os olhos e ouvidos. - Como assim? Explique melhor. – Explorou. - Adquiri informações fidedignas de que, se usada as sementes em conjunto, como um casal, elas possuem a capacidade energética de liberar as forças necessárias para que as pessoas possam cumprir etapas ou concretizar anelos. - Usar como um casal? De que forma? - Cada semente possuí uma forma diferente, veja. – E mostrou à Adão uma outra porção de sementes tiradas de um frasco ao lado do anterior e continuou. – Esta mais encorpada é considerada o macho e a mais aberta a fêmea. Portanto, formam uma unidade. Uma completa a outra. - E como é essa história de concretizar os desejos das pessoas. – Olhou para Nádia com certa desconfiança. - É simplíssimo. Basta carregá-las consigo e elas se encarregam do resto. – E passou duas sementes às mãos de Adão. – Tome. Fique com um casal para você. – E sorriu amistosamente. Adão não se reprimia. Olhou as sementes com grande exultação. Conhecia bem o que se tratava de elementais da natureza e sabia de muitos rituais mágicos onde se evocava suas forças para realizações de curas, à exemplo de uma benzedeira utilizando-se de um galhinho de arruda. Esfregou uma semente à outra e apertando-as com a mão esquerda, passou-as no alto da cabeça cumprindo a ritualística inusitada e saiu para tomar sol satisfeito com a novidade descoberta.
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Sentou-se num acolchoado previamente acomodado por eles para receberem todas as manhãs a luz solar pelo corpo, cerrou os olhos e serenou-se finalmente. A manhã daquele dia transcorreu sem mais novidades. Um suco de frutas durante o dia, uma leitura específica à tarde e a noite chegou com seu frio indiferente. Após um acolhedor e demorado banho quente, Adão resolveu recolher-se. Trazia consigo as já inseparáveis sementes de Aguaí. Geremias havia retirado seu colchão da cama e o levou para a sala onde se deitou enrolado com suas cobertas acompanhado de um grosso volume para leitura. Optara por ficar na sala com a porta aberta. Apesar de estar frio e de estar envolto em espessas cobertas, o ar do ambiente ali circulava melhor e todos entenderam que era adequada uma boa ventilação do ambiente saturado. Aliviava as energias estacionárias. Geremias queria terminar a leitura que estava fazendo, e, com o tempo de sobra que possuíam, podia dedicar horas com tal deleite. Adão resolveu naquele momento lhe mostrar as sementes e explicou o que havia aprendido e Geremias também se interessou pelos benefícios que lhe eram atribuídos. - Puxa vida! – Exclamou Geremias entusiasmado. – Se Nádia puder me conseguir um parzinho, amanhã também começarei a usar. - Ela me orientou que é interessante usar um sachê de algodão, disse que as fibras sintéticas interferem na sua manifestação energética. Nunca é demais, não é? - De jeito algum! E ambos riram gostosamente com as expectativas que os elementais da flora daquele local prometiam realizar. Mais uma noite sem novidades. Adão sentia-se um pouco desconfortável com o colchão, e uma ou outra dor nas costas lhe tirava o revigorante sono. Pôde perceber quando, altas horas da noite, Geremias resolveu apagar a luz da sala e, após voltar do banheiro, também se entregou aos braços de Morfeu. Toda madrugada, um galo branco de estimação que o casal adquirira e que ficava no cercado do jardim em frente às acomodações dos
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jovens, irrompia a escuridão gélida com seu co-có-ri-có isonômico e imparcial. Teve uma noite em que os dois, já estafados de tanto dormirem, em virtude de uma prática que optaram por concretizar durante o dia, sem opção e reimosos pelo ócio do não fazer e do fazer inalterável, como ler e dormir, resolveram ficar sentados na sala à espreita da claridade rósea que ilumina o céu a Este. Um examinando a cara do outro sem nada a exprimir, na esperança otimista de que, quando o galo rasgasse o silêncio com seu concerto singular, poderiam iniciar alguma atividade salvadora. Mas já sabiam que essa atitude era uma tentativa de auto-engodo, pois, mesmo depois da melodiosa cantoria faunística ainda restavam algumas horas para a aurora. Filosofavam prazenteiramente durante alguns breves momentos sobre a condição a que voluntariamente se submeteram e seus reflexos em seu organismo e psique; às vezes com espanto, às vezes arquitetando um estratagema que pudessem usar para burlar o tédio numa futura empreita similar ou apenas meramente como orientação para quem, como eles, optasse pela prática da profunda introspecção anímica, fazendo-se valer do isolamento, da ausência dos confortos e recursos que a modernidade ocidental proporciona com suas conseqüências para os que se embriagam dela. E assim se estimulavam mutuamente a prosseguirem adiante na meta. - Tudo que é feito espontaneamente, sem que seja a mando ou por necessidade de se cumprir algo, é suportável e melhor aproveitado. – Dizia Adão para Geremias. - Concordo. Já passamos por diversas situações juntos que, se fôssemos contar para alguém, nos tratariam como néscios... - Tudo pela evolução, meu amigo, tudo para que possamos sacar nossa parte interna e galgarmos um degrau a mais em nossa evolução íntima e pessoal. - É por isso que não sofremos por demais. Tudo é opcional. – Concluía o raciocínio, Geremias e suspirava tentando se consolar com o diálogo já conhecido por ambos.
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Haviam se despojado de todo o conforto e orientação temporal. Estavam sem relógios, sem calendários, sem rádio. Apenas alguns discos com músicas instrumentais eram usados para quebrar o inexorável fastio. Naquela manhã, como em todas as outras, tentavam substituir o frio impiedoso matutino pelo tímido calor invernal que o sol irradiava na chácara alcançando a dupla em seus não tão confortáveis colchonetes dispostos no chão. - E então, Adão, como se sente hoje? Está mais conforme? - É... às vezes se espera um festival de luzes e sons para que se comprove alguma teoria na prática. E às vezes, se percebe o quão distante se está da constatação dos anelos mais profundos que se tem. - Pois é meu amigo, uns querem ganhar na loteria, e semana após semana crêem que será na próxima jogada que acertarão a sorte grande. Mas nem por isto deixam de apostar. Adão percebia que Geremias dizia palavras às vezes insofismáveis e que nem de perto arranhavam a profunda necessidade de conhecer que carregava dentro de si. - Geremias, - dirigiu-se seriamente ao amigo e confidente. – não é de hoje que você me conhece, e sabe-se lá desde quando. Não está me restando outra alternativa que não seja agarrar-me a um fio fino e invisível que se encontra fixo em um nada e me lançar ao espaço vazio na expectativa de que ele me suportará e me conduzirá para onde preciso e quero ir. Geremias olhava com perplexidade a profunda revelação de Adão. - Esse “fio invisível”, meu caro amigo, é a Esperança Divina. Se não fosse isso, se não fosse essa... fé, não estaria aqui hoje! - Adão, não supunha que você se sentia assim, tão ardente por uma verdade. - Pois então creia Geremias, e saiba que continuo no escuro, e percebo que o fio, apesar de continuar existindo, não está me conduzindo a lugar algum, continuo estagnado; e o tempo vai se escoando e eu vou ficando como estou. - Não diga uma coisa dessas Adão, você, nós, evoluímos muito todos esses anos, olhe o que éramos e onde estamos hoje; quanta coisa
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aprendemos, quantas pessoas boas e sábias tivemos a oportunidade de conhecer e de desfrutar de seus bons e perspicazes ensinamentos e se você analisar bem, muitas dessas pessoas ficaram, e nós, nós seguimos adiante... - Concordo com tudo isso. Mas me vejo hoje um pouco infeliz. A vida, de certa forma, perdeu a graça. Hoje me reprimo com isto, amanhã com aquilo, depois com aquilo outro, e os dias vão se passando e me pego numa situação de autopoliciamento que me coíbe de realizar coisas singelas e prazerosas como um alimento, uma festa, um programa de TV, por receio de estar cometendo um deslize ou de estar me entregando ao nefasto com seqüelas infernais. Geremias espantado com as surpreendentes colocações de Adão, percebeu-se às vezes na mesma condição em que ele estava expondo na forma de um desabafo. Vivia as mesmas situações que o nobre amigo e podia dizer, com conhecimento de causa, que de certa forma ele estava correto em suas atribulações. A vida realmente havia mudado e muito, radicalmente nos últimos anos. - Ninguém nos disse que seria fácil essa jornada. – Tentava uma nova saída que aliviasse a aflição, Geremias. – Pelo contrário, Adão, sempre nos foi dito que se tratava de um caminho árduo e difícil, e o estamos comprovando, na esperança de que um dia, quiçá, nos encontremos com nosso Verdadeiro e Real Ser Interno e oxalá Ele nos oriente como proceder daí por diante! - Como eu havia dito, Geremias, um fio invisível... Geremias sorriu dando um tapinha de rendição no ombro direito de Adão e voltou-se para olhar o sol, respirando a refrescante aragem que soprava as ramas da vegetação e tonificava o organismo. Ambos permaneceram de olhos fechados entregues ao não pensar. Lá pelas tantas, Adão percebeu que havia passado do limite tolerável sob os raios solares; podia perceber uma forte luz que lhe ardia a cútis e lhe incomodava mesmo de olhos fechados. Resolveu retirar-se para que não lhe baixasse a pressão, como já havia ocorrido em outro dia de exagero. Quando abriu os olhos a forte luz refulgente havia tomado conta de todo o local onde se encontravam, não deixando possibilidade de
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identificar nada que existisse ao redor, sequer a majestosa árvore. Piscou várias vezes na tentativa de dissipar o clarão e nada se alterou. Esfregou os olhos com as mãos e nada, a luminosidade permanecia intensa e viva. Buscou Geremias e não conseguia enxergá-lo. Surpreendido pela situação, empenhou-se em recorrer à sua razão raciocinando. Apalpou-se e ao chão tentando se situar no espaço em que se encontrava anteriormente. Sabia que estava sentado e onde o estava. Sentia a textura do pequeno acolchoado, mas não conseguia vê-lo. Percebia com distinção a sólida parede em que estava escorado. - Mas, o que está acontecendo? – Pensou estranhando a situação adversa. Ergueu-se com vagar, evitando a vertigem que poderia lhe desnortear. De braços abertos tateava um equilíbrio sob o novo ambiente luz onde nada mais existia que não fosse ela. Testa franzida, olhos piscando, agitava a cabeça esperando dissipar a desconfortável circunstância a qual havia lhe investido. Envergonhado pela condição estranha em que se encontrava, chamou pelo colega de forma retraída. - Geremias. Cara, estou vendo tudo com um clarão danado, acho que peguei uma insolação! Como não obteve resposta, procurou dirigir seu corpo na direção em que se achava Geremias e tornou: - Geremias, - clamou de forma um pouco mais enfática – Dê-me uma forcinha. – E esticava os braços no espaço luminoso que lhe envolvia nas proximidades em que calculava estar o colega, no aguardo do auxílio fraternal de Geremias. Aguardou alguns milésimos de segundo e constatou que Geremias não deveria estar mais ali. Ainda forçando uma racional lógica para o estranho evento, tentou dissuadir de sua cabeça algo incomum e, crendo que o amigo tivesse se retirado do local, optou por agachar-se na espera de que sua pressão se estabilizasse, mesmo constatando não estar com vertigem. Nada se alterou. Respirou inconformado e começou a perceber que se adaptava com o radiante acontecimento.
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- Ora, ora, ora. Que é que está me acontecendo agora? – Uma certa contração estomacal lhe acometia, típica de momentos inóspitos. Adão arriscou-se a um pequeno lance de passos, rumando-se por onde acreditava estar o caminho livre, na certeza de que ainda permanecia do lado de fora da casa. E ia fazendo ilações: - Bem, estou pisando em algo sólido; estou com bom equilíbrio. – Puxou seu dedo indicador para se certificar de que não estava numa viagem em que o espírito se entrega quando no estado de vigília. – Não estou sonhando; então... onde estou?... Buscou mais uma vez tentar identificar o local: o acima era como o abaixo e o lado era como o oposto. Entregou-se num riso silencioso e indutivo. Estava vivendo um momento filosofal, típico dos hermetistas. - Bem, o que fazer agora? – De um salto tentou deslocar-se pelo que supunha ser o ar, como num vôo atípico. Retornou ao que seria o solo, desconsolado por haver constatado que não se achava num outro plano dimensional. Mentalmente invocou a seres divinos para que lhe assistissem. Mas o implacável nada, tornou a suceder furtando-lhe o inocente ânimo astral. Ocorreu-lhe que havia lido em algum lugar que a “paciência é a porta para se alcançar o céu” e optou por aguardar alguns instantes de forma passiva. - Bom, já que é para esperar – pensou consigo – melhor esperar sentado. – E postou-se num asana oriental, a posição de lótus. Mas, algo dentro de Adão gritava para que não perdesse a oportunidade que estava vivenciando. Inquieto, mantinha os olhos abertos escrutinando o local tentando vislumbrar algo além da luminosidade fulgurante. Então, pouco a pouco uma imagem turva ia tomando forma à sua frente. Uma forma com baixa luminosidade onde se podia ver contornos e constituição sólida. Percebia que além de se movimentar ela crescia em sua direção. Logo a sensação de calafrio lhe invadia novamente. Ergueu-se. Discerniu, à medida que a figura se aproximava, tratar-se de um homem, um homem da sua estatura e compleição. Não se recorda de suas vestes, o momento não lhe permitiu ficar preso a esses detalhes.
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De fato tratava-se deveras de um homem. Um homem que demonstrava estar muito feliz. Sorria abertamente na direção de Adão e, para brindar com fecho de ouro a estupefação incipiente daquela condição, era sua imagem e semelhança. - Olá, Adão. Tenho plena certeza de que vai muito bem! – Afirmou a figura gêmea no mesmo timbre de voz que o afônico e boquiaberto Adão. - Resolvi lhe visitar neste momento e nesta oportunidade, pois era a situação que mais me convinha no ensejo. - Quem ou o que é você?? – Indagou arrancando as palavras com uma força descomunal da garganta, o espantado jovem. - Quem sou? Bem, como dizem por estes tempos: eu sou você amanhã! Adão dispôs as mãos em forma de bitola no rosto, e só não desfaleceu ali mesmo porque possuía um espírito preparado e reforçado para novidades, mesmo que daquele porte. Uma mescla de descrença com tudo o que lhe sobrevinha e de êxtase, que despejava adrenalina em suas veias, fazia com que Adão começasse a rir da situação. A figura irmã mantinha-se serena e com semblante afortunado. Parecia estar muito satisfeita com o episódio. Recobrando um pouco da lógica em seu conflitante centro intelectual, Adão recordou-se de algo. - Você é de energia Crística? – Impôs a pergunta mantendo uma postura protetiva. - Frustrar-me-ia se não me perguntasse isso. Sim, para lhe tranqüilizar nesta oportunidade de apresentações, posso lhe assegurar que é essa magna força uma das que respeito efusivamente. Internamente Adão conjurava a figura em pé ante seus estarrecidos olhos com toda sorte de proteção mística que conhecia. E ia se acalmando ao perceber que ela não fugia aterrorizada com suas emanações positivas. - Não se preocupe e nem se envergonhe, Adão. Está muito correto para esta situação o que esta fazendo.

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Adão estranhou por breves momentos. Aquele ser podia ler sua mente! Bem seria evidente esperar algo assim de alguém tecnicamente de nível interno superior ao seu. Muitos humanos o faziam, porque não ele!? - O que quer? O que faz aqui? Onde estou agora?... A enxurrada de indagações que se iniciava com ares de não terminar foi interrompida pela entidade. - Primeiro gostaria que se acalmasse, organize seus centros energéticos. E não se preocupe, o que quero e o que faço aqui é exatamente responder a todas suas perguntas. Adão consolou-se. Responder a suas indagações; será que finalmente os céus atenderam suas preces? Era a chance ímpar de sua existência terrena. - Posso tocá-lo? – E estendeu o braço iniciando a perquirição. Sua réplica afastou-se cautelosa. E argumentou. - Poder até que pode, mas você não suportaria fisicamente a minha alta corrente de energia. É a velha história que você já conhece: estou reduzindo ao meu limite minhas irradiações de alta voltagem para poder estar com você nesta forma, aqui, e perto de um corpo ainda em evolução. - Qual o seu nome? - Nome?! Pode me chamar de Adão mesmo. - Então, devo presumir que você sou eu mesmo? Quer dizer, você vem de um futuro meu ou de outra dimensão? - Hoje vocês já estão percebendo que nomes são rótulos que por enquanto são necessários a uma identificação pessoal, de identidade, mas que com o tempo deverão ser descartados para que o indivíduo não se prenda a personalidades terrenas. Apenas para um melhor diálogo entre nós compreendo a necessidade de um nome, assim como você também precisa de uma forma física para ver enquanto dialoga comigo. Por tal escolhi esta constituição. Uma charada que adotei para criar um beco em sua mente desbloqueando seu raciocínio, livrando-o da lógica comum e corrente. E, complementando a resposta, sim, venho de um futuro da Terra. Uma era ainda muito além do que você possa imaginar com dados numéricos, mas que existirá certamente.
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- Mas como é que podemos coexistir aqui e agora no mesmo espaço físico? – Seguia com a torrente de indagações o Adão presente. - Mais uma demonstração de quebra das limitações que a humanidade insiste em se aplicar. Quem é que inventou essa história de que seres de épocas distintas, embora sejam os mesmos, não podem coabitar? - Não sei quem, mas é o que os cientistas afirmam. - Afirmam? – Com base em quê, Adão? - Em experiências, testes... - Humm... testes; quer dizer então que já existem cientistas neste período da história que conseguem viajar no tempo e no espaço!? O Adão presente ficou encurralado. Não tinha como contraargumentar. Não o sabia de fato. Mas em seu íntimo cria ser impossível. - Vê como é sutil a limitação na vida da atual humanidade? Ninguém sabe, ninguém viu, mas, como não se sabe, então não pode ser. Portanto, uma barreira é implantada; um limite é fincado! E continuava com seus exemplos, o Adão futurístico. - Pare para imaginar o que seria de vocês hoje em dia sem a imagem filmada. Há décadas atrás, sequer se cogitava a possibilidade de se registrar em um mero pedaço de acrílico movimentos e fatos do cotidiano, os quais poderiam ser preservados sendo vistos e revistos por muito tempo. Se a pessoa que teve a iniciativa de criar tal equipamento tivesse vivido a vida inteira crendo piamente em barreiras e limites de que tal feito era impossível, muita evolução ainda estaria por vir. Assim é com tudo e com toda a humanidade: uma série progressiva de transformações que alteram positivamente uma condição preexistente de forma constante, mesmo que não o queiram; e aqueles que se põem a receber, recebem! - O que fez com que você viesse até mim aqui, agora? - Uma experiência. De onde venho atingimos um estágio de magnitude que nos permite deslocarmos em qualquer espaço e lapso temporal, sem a condição escravizante do nascer e morrer para seguir na escala evolucionária do aprendizado interno. Podemos verificar períodos da história que já foram e que serão, para meramente aprendermos com isso e nos completar internamente. - E lhes é permitido uma interferência na vida das pessoas?
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- Não diria que é comum uma interferência. A vida é uma condição pessoal e deve fluir por si só. Mas existem possibilidades de ajuda, de intercessão! Muitas dessas intercessões são tidas pela humanidade como visões angelicais, divinas, inspirações, intuições, depende da fonte de cultura, de crença, de educação... É daí que surgem as grandes obras, os talentos, as idéias inovadoras. O Adão presente não se continha, e a cada resposta uma nova questão se apresentava. - Você acabou de me dizer que está fazendo uma “experiência”. Que tipo? - Bem, levando-se em conta que você e eu somos a mesma pessoa, eu poderia dizer que a experiência é com você; mas para não lhe alarmar, quero deixar claro que os resultados refletirão diretamente em mim no momento em que subsisto. O Adão atual inquietou-se. A que espécie de experimento estaria sendo submetido? Era só o que lhe faltava agora, ser cobaia de si próprio. Estaria preparado para consentir nisto? E seria possível não consentir? Que chances o teria, um mero Adão, contra “o” Adão à sua frente? Sequer sabia onde se encontrava! Percebendo o receio que estava acometendo seu velho eu o Adão de amanhã transmutou o local em que se encontravam para retornar à chácara de outrora. Antes do contato. Impressionado com a imediata transformação de cenário, o neófito do passado sentiu-se imediatamente mais reconfortado por regressar em um local conhecido; dava-lhe mais segurança, apesar de constatar que não existiam pessoas nas imediações. - Está mais tranqüilo assim? – Consultou afavelmente seu eu passado. Com uma expressão serena ele aquiesce e já tomado de novo ânimo, prossegue. - Conclua, por favor. Que experimento quer desenvolver? - Bem, nada alarmante. Pelo menos em termos... - Ai... você não disse que era para suprimir bloqueios? Então seja claro e vá direto ao assunto e pare de me amedrontar, caramba!
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- A questão não é de todo complexa, na verdade é até simples demais: venho de uma época em que tudo me é possível concretizar, já não preciso mais experimentar gostos, medos, emoções, dores, sexo... e isto já há um tempo difícil para você conceber, apenas vivemos o momento e desfrutamos do que estamos presenciando no aqui agora. A única coisa que fazemos extraordinariamente é auxiliar aos menos favorecidos, sem interferir. Mas, vez por outra, surgem alguns seres que renunciam a essa existência e resolvem experimentar coisas diferentes nas diversas multidimensionalidades do criado. Num desses arroubos é que a humanidade deste momento e de outrora pode constatar um milagre, como vocês gostam de denominar. Um evento extraordinário, incomum, e que ainda assim, insistem e dizer que não pode advir! - Bem, e onde eu entro nessa história toda? Como rato de laboratorio? - Não seja drástico, Adão. Seja pioneiro! – Incentivou o Adão atemporal. – Só para lhe trazer um prisma diferente para sua interpretação do conceito “experiência”, eis que você está se colocando, digamos, de forma pejorativa no contexto do trabalho que pretendo desenvolver. Olhe para você mesmo: sempre desenvolveu em si seus próprios experimentos com o fito de chegar a resultados que lhe satisfizessem interna e até mesmo externamente. Senão, o que estaria fazendo nesta chácara? Não é uma experiência, um teste para comprovar algo que você ouviu falar, ou apenas para ver a que resultado se chega, sempre no aguardo de que está edificando algo prático? - É difícil conversar com alguém que tudo sabe. Não sei se é um consolo ou uma decepção. – Quedou-se silente por alguns segundos, como que calculando o tipo de pergunta que faria, e então se estendeu: - Mas, qual o experimento? - Depois de vários eons, ou espaço de tempo, os quais seguramente não podem ser mesurados com os mecanismos desta época, resolvi que seria interessante ver o que iria passar-se comigo se, numa determinada data de minha antiga existência, tivesse acesso a informações sumariamente imprescindíveis para meu estágio evolutivo, o qual alcancei morosamente. O que me seria acrescido em minha vivência atual se, num
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passado distante, eu conseguisse saltar os degraus da evolução ao invés de escaloná-los um a um? - Espere! – Ergue a mão o Adão do presente demonstrando estar compreendendo onde seu futuro eu queria chegar. – Quer me dizer que você está apto a me revelar segredos e mistérios que eu normalmente levaria, digamos, vidas inteiras para conhecer? - Exatamente! – Arrematou satisfeito o Adão futurístico com a análise alcançada. - Só para saber o que lhe acontece?! – Finaliza com a estupefação de quem desconfia das boas intenções do curioso visitante desconhecido. - Isso mesmo! - Mas isso, pelo que me passa, é um pouco ilógico, se me permite dizer em meu parco conhecimento de hoje! Se estiver errado, por favor, me corrija. Se você é quem diz ser, se tem as faculdades que diz ter, se pode trasladar-se para qualquer época ou tempo, por que é que não vai até o futuro e constata por seus próprios meios o que lhe sucede? - Ora, Adão, porque em um futuro meu onde não houve interferência minha num passado remoto, a reação não coincidiria com a ação! Entendeu? - Acho que sim. Uma ação é igual a uma reação de mesma magnitude com conseqüências que podem ser inesperadas. Essa é sua experiência? - Sim. - Quais os riscos? - O primeiro é você não aceitar fazer parte dela. - Eu aceitar? – Estranhou. – Quer dizer que eu tenho a escolha de não participar de seu experimento? Que chances tenho eu de recusar fazer alguma coisa diante de um ser que tudo pode? - Você me superestima quando diz que “tudo posso”. Ainda estou em processo de crescimento. E quanto a você participar ou não, bem, teoricamente eu realmente poderia forçá-lo a se submeter, mas seria como um cientista injetando uma determinada droga de indução em seu veículo de experimento procurando conduzir a observação sem dificuldades; todavia, percebendo que poderia obter conclusões antagônicas ao esperado,
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em função da indução, optaria por não interferir no objeto de estudo a fim de se avaliar os resultados de forma mais cristalina, livre de qualquer alteração com influência de agente exterior, seja por processos mecânicos, físicos, ou até mesmo químicos, evitando-se, desta maneira, uma diferença entre um valor observado num ensaio e o valor mais provável de grandeza sob observação. Será que consegui ser claro? – Percebendo a confusão estampada no rosto de seu ouvinte. Adão agitou-se. Mastigou os lábios e ordenou as idéias. - Ou seja, o rato de laboratório deve estar livre de coerção para que os resultados sejam livres de interferências e mais satisfatórios! O Adão futurístico não gostou muito do termo “rato”, mas, em verdade as coisas poderiam ser exemplificadas, sem firulas, exatamente daquela forma. - Preste atenção, Adão. Existe uma coisa que está para ocorrer muito em breve com a humanidade de hoje que é a eliminação de algo que vocês intitulam como livre arbítrio. - Como assim, alguém vai nos tirar o direito de opção? - É... sim. O ser humano em geral não está tendo êxito com seu direito de fazer o que bem entende, mas é algo que ainda não se deve mencionar abertamente; considere como uma informação de primeira mão. O livre arbítrio continuará existindo, desde que sejam feitas as coisas de acordo com a consciência, a voz interna, o Pai! Todavia, gostaria imensamente que você acedesse à minha proposta. Tenha espírito empreendedor! - E seu eu não concordar? - Vou-me embora... Talvez daqui há algumas eras eu esteja preparado para receber de mim mesmo estas informações. Se você não estiver agora... Adão calou-se. Seu cérebro iniciara uma alucinante corrida analítica. Sôfrego em não se meter em uma encrenca, mas também em não perder uma oportunidade que era absolutamente excepcional, e mais ainda, tão suspirada; voltou-se com nova dúvida, esta seria definitiva na tomada de sua decisão.
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- Pelo que entendi você veio para me responder questões, tirar minhas dúvidas em todo e qualquer nível, estou correto? - Isso mesmo, Adão. - Poderei perguntar qualquer coisa, de qualquer nível, que obterei uma resposta clara e compreensível para meu nível de intelecto? – Lascou com miúças específicas, o ansioso Adão do presente. O Adão futurístico sorriu com a perspicácia da pergunta. Sabia que deveria ser assim sua reação, afinal de contas, era com ele próprio que estava tratando. - Como já disse antes, vim até você exatamente para esclarecer! Considere como um auto-investimento. Repentinamente o Adão presente deu-se conta de que estava diante da maior realização de toda uma vida, de cuja espécie, até então, não existia outra. Algo que sequer podia imaginar que um dia viesse lhe acontecer. Algo que só em seus mais íntimos decretos sabia ter pleiteado. Respirou melhor e, com uma coragem incisiva, resolveu: - Pois bem, eu aceito! – Declarou seguro de si, o esperançoso antepassado do ser que lhe abonava maravilhas. - Tinha plena consciência de que assumiria o risco! Adão sentia-se como Aladim ante o gênio das mil e uma noites, mirabolando e planejando quais seriam os desejos a serem concretizados pelo elemental da lâmpada, tendo em conta a possibilidade de um pedido equivocado. - Libere-se, Adão, flua, não estou para armadilhas. – O Adão de outra era trouxe nova paz de espírito ao tenso gêmeo do passado. Pleno em sua consciência, Adão encontrou, dentre todas suas dúvidas, a que mais lhe afligia no momento que passava. Esforçou-se para afastar qualquer receio de erro e perguntou em tom claro e seguro: - Diga-me então, Adão do futuro, de forma clara, sem rodeios nem conceitos enigmáticos, expressões parabólicas, respostas difusas e de conclusões meramente subjetivas. – Respirou um pouco mais medindo a dimensão da pergunta uma última vez e a magnitude do peso da resposta, e lançou sem vacilar: - Afinal de contas, Deus existe?
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Sem demonstrar espanto, o Adão diante de si emendou imediatamente à pergunta: - O que você acha? - Ah não. – Reclamou. - Não começa! A resposta tem de ser simples: “sim” ou “não”! Depois poderemos nos estender sobre o assunto, filosofar, conjeturar dogmas, visões e tudo o que mais nos parecer elucidativo. Seu alter eu apenas sorriu. Imaginou com plena certeza de causa que a inteligência de seu consultante não poderia alcançar o significado de tamanha resposta. Se fosse “sim”, que novas dúvidas lhe aflorariam? Questionamentos de décadas viriam à tona arrasando uma estrutura intelectual construída em base científica e de crítica razonativa, onde a satisfação de que uma hipótese divinal não seria suficientemente estável para a existência, de uma hora para outra seria soterrada. Indagações fúteis para se confirmar atos do Todo Poderoso seriam estocadas e miseravelmente fulminadas. Se fosse “não”, desmoronaria um mundo sob sua cabeça. Tudo em que se fiava até então poderia ser considerado uma bobagem mística, um poço de asneiras ridículas, um verdadeiro e cósmico embuste! Onde estaria a síntese de todo o criado se uma força divina não existisse para ordenar o caos dentro da ordem? Difícil seria aceitar meio termo. - E então? – Forçou a resposta esperada, não admitindo mais prorrogações em seu tom de voz, o Adão examinador. - Quer mesmo saber? – O ser ainda desafiou, trazendo à mostra a enorme responsabilidade para seu escolhido ter tamanho conhecimento. – O que fará depois que lhe contar? - Não tenho a mínima idéia. Nem cogito tal hipótese e nem quero pensar nisto agora! As duas possibilidades fervilham dentro de mim. Uma querendo tomar a frente da outra com suas teorias e resultados possíveis e hipotéticos. E de teorias já estou saturado no momento!! Quero uma resposta clara e verdadeira! - E você se contentará com a minha verdade? - Bem, se você é quem realmente diz ser... por que não? - E não parou para pensar como estou hoje com o que sei?
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- Você está me enrolando... Não me venha com temores e medos novamente. Passei todo esse tempo adiando decisões importantes por medos: o que vai ocorrer?, como ficarei?, o que dirão?, como vou sobreviver?, e minha esposa... e tantos outros mais. Será que já não chega? Afinal, não são seres como você que pregam que devemos nos desapegar das coisas e sentimentos inferiores? - Quem lhe disse isso? - Bem, é o que aprendi em minhas buscas, é o que é ensinado. - Você viveu isso? - (...) na verdade, não. Li em algum lugar, ouvi em algumas palestras, escolas. Entretanto, se analisar bem, esse me parece o momento da vivência, não concorda? Uma vez mais o oráculo do futuro sorriu. Desta, com uma certa satisfação de que, talvez, aquele ser, a criatura diante de si, tivesse realmente aprendido algo em sua vida. Experiência, vivência, sabedoria, e não se contentava só com o que tinha. Precisava investigar mais, chafurdar afundo. Ficou satisfeito com a época escolhida. Cada vez mais parecia ter sido a ideal. E, afinal, era para ajudá-lo que renunciara momentaneamente sua condição, que tinha experimentado e evoluído tanto. Já havia amadurecido dentro de si essa decisão depois de tudo o que conquistara e descobrira; restava apenas experimentar os resultados e conseqüências que poderiam advir de uma revelação dessa magnitude, e não só revelar, mas também a quem o seria revelado. Os resultados refletiriam diretamente em sua própria existência, sabia disso. Mas, como, nem mesmo ele sabia quais as reações... Poderia ser necessário tal momento naquele instante ou então, seria perigosíssima a sua atual posição de “guia”, até mesmo para ele próprio. Ele olhou para o alto, na direção do brilho solar com a mesma sensação de tranqüilidade que o Adão do presente tinha todas as vezes que se punha sob sua influência naquela chácara, e voltou-se para o ansioso “amigo” diante de si. - Bem, você sabe de onde venho e quem sou. – Iniciou o relato como se a verdade fosse finalmente aparecer, trazendo em Adão um
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desconforto estomacal. – Para que eu possa chegar a responder a sua pergunta de forma conclusiva e plausível, você PRECISA acreditar nisso! - Ora, só sei o que me disse. De concreto não tenho nada. Devo crer no “escuro”? Assim vou voltar à velha história de certas religiões: “crer sem ver” e se duvidar estarei cometendo um pecado e por tal vou terminar no inferno. Você não vai me colocar nesta condição divergente, vai? - Concordo. Não vou. Seu duplo de época vindoura esticou o braço com os dedos em forma de “V” em direção à fronte de Adão, o qual recuou receoso e instintivamente. - Desculpe-me. É que foram tantos anos de condicionamento, construindo “bloqueios”, “muralhas”, que fica quase que impossível evitar a fuga condicionada ou tentar uma proteção energética... Seu guia anuiu com a cabeça e, em silêncio, reiniciou o gesto. Sem que houvesse um toque físico, apenas energético. Adão percebeu que o movimento gerava a impressão de que a afluência se dava em câmara lenta até que os dedos se aproximaram a milímetros da região onde se encontra sua glândula pituitária. Golpeado por uma energia fantástica e indescritível, Adão perdeu o chão sob seus pés, e num rodopio acrobático de costas, foi atirado ao ar, inundado simultaneamente por um turbilhão de imagens multicores e de formas diversas umas das outras, cujos sons que se ouvia mesclavam-se com o que lhe parecia serem gritos, buzinas, vento chicoteando árvores, ondas de rebentação, golfinhos, o urro enfurecido do fogo ardendo sua crepitação implacável e inúmeros outros inimagináveis e indecifráveis. No primeiro instante acreditou que iria perder sua sanidade. Não tinha controle de nada, nenhuma coordenação motora ou emocional; sentia tudo ao mesmo tempo, sem ter condições humanas de absorver com compreensão o que a torrente lhe transmitia. Sua mente finalmente estava em branco; não conseguia construir um pensamento sequer, nem se o quisesse não tinha condições de elaborar um. Então, aos poucos conseguiu estabilizar-se como se estivesse num processo de adaptação antigravitacional, onde o organismo fisiológico e a mente deveriam
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encontrar um ponto de equilíbrio e, só então, recordou-se do que ocorrera e o que estaria sendo feito consigo... para ele... para ambos. E a intelecção começou a se estruturar novamente. - Melhorou? – Soou a voz conhecida como se estivesse ao seu lado. - Você?? Onde está? – Buscou ao redor num movimento plástico, alongado e gelatinoso. - Sempre estive e sempre estarei ao seu lado. Não se esqueça de quem sou, quem fui e serei. É por isso que aqui estou, para provar-lhe tudo o que já tentei lhe dizer, tudo! Silêncio novamente. Adão insistiu numa nova tentativa racional de adaptação tridimensional e óptica do que sentia e via. Num esforço desconfortável para manter sua razão, o espaço e o tempo. - Inútil esforçar-se para compreender com seu corpo mental o que não figura na “dimensão de Euclides”. Compreenda que tudo o que vive em seu “mundo”, é “maia”, uma mera ilusão. É difícil compreender como um atropelamento pode ser ilusório, não é? Não se esqueça que tudo o que é sólido para você não passa de energia condensada. Bem, fisicamente uma mesa, seu trabalho, um trem existem, e fisicamente você sente emoções dentre elas dores e alegrias, mas tudo é transitório e serve apenas como banco escolar para algo maior, íntimo e pessoal, que você vai experimentar agora; talvez sem o devido preparo, mas... veremos o que ocorre. Ainda assim é meu experimento também. Se você ensandecer apenas terá passado de um estágio de consciência para outro. Fisicamente será péssimo e perdese uma vida que poderia ser trabalhada de forma diferente, mas servirá como aprendizado de que isto também não serve, não é assim que se faz o trabalho. Ao final, não será de todo mal, o tempo e o espaço também não existem. É essa minha aposta. - Aposta?! Como é que você me fala uma coisa dessas agora!? Depois de eu já estar aqui? Ele riu alto. Aqui onde? - Ora, nessa... realidade diferente, nesse “mundo” estranho em que você me enfiou.
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Imediatamente Adão retorna àquela radiação luminosa da chácara, e ainda permanecia em pé, ao lado dele como se nada tivesse ocorrido. - Mas o que houve? Voltamos e não vi nada, era só isso? Mas... que decepção... Com o peculiar sorriso que trazia um certo incômodo em Adão, ele exclamou: - Voltar de onde? Você não esteve em lugar algum, o tempo todo esteve aqui! - Como assim, e tudo aquilo que vi? - Apesar de você estar ingressando em outra, digamos, dimensão, você continuou o tempo todo aqui. Não só física, mas também mentalmente. - Ainda não consegui compreender... - Simples. Em que pese você estar crente de que estava preparado para um “algo diferente”, uma experiência extrafenomenal, sua vontade, ou seus medos de novo, a expectativa do que encontrar com tamanha experiência, continuavam exigindo de seu cérebro uma compreensão física, palpável, uma explicação lógica para o que estava sendo vivenciado, e isso evidentemente interferiu na sua jornada fazendo com que seu apego à matéria viesse a criar uma outra matéria similar onde não há a mínima possibilidade energética para coexistir, deixando, dessa forma, de usufruir as possibilidades infinitas que lhe aguardavam. - Espere um pouco aí. – Esticou o braço em sua direção como que pedindo um fôlego. – Pelo que estou entendendo, eu estava realmente num outro plano e ainda assim, talvez inconscientemente, tentava fazer dele um lugar conhecido tridimensionalmente, digamos, seguro? - Exatamente! - E agora? Vai me dizer que desperdicei a única chance de minha vida e irá embora se dizer nada? O visitante ficou sério e silencioso, para logo em seguida asseverar. - Não vim até você à toa. Realmente quero saber as conseqüências da revelação que farei. Evidente que poderia investigar resultados hipotéticos em outros planos, mas na verdade quero ver isso na prática.
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- Já sei disso. Foi por tal decisão que me tornei sua cobaia. Mas, já discutimos isso e aceitei com plena satisfação e cônscio de que os resultados podem não ser deslumbrantes como ambos esperamos. - Pois bem, então vamos de novo! O ritual se repetiu. Adão poderia estar aparentando uma certa tranqüilidade externa, mas ainda não havia compreendido que suas demonstrações equivocadas em tentar aparentar algo agradável nada representavam ante aquele Ser que podia enxergar seu cerne. Desta feita o festival multicor não se fez apresentar. Imediatamente se encontraram tecnicamente no espaço sideral. Adão pôde identificar a esfera azul logo abaixo do que seria seu corpo. Era um pouco diferente do que estava acostumado a presenciar em imagens de computador, ou por fotografias, parecia um pouco embaçada, talvez a névoa que a envolvia lhe conferia essa aura diversificada. Não sentiu emoções fortes e de impulsos incontidos de satisfação ou de mero espanto. Sua condição interna era estável, fixa. Buscou o Adão do futuro e não o localizava visualmente, todavia podia perfeitamente sentir sua influência na condução da jornada. Repentinamente um enorme e atormentante ruído surgiu do nada, fazendo com que Adão se identificasse com a situação desconfortável. - Que barulho medonho é esse? – Perquiriu seu guia na forma de linguagem não falada. - Trata-se de uma via intermediária que existe na superfície da terra conhecida, diria, por faixa de pensamentos. Sim, é uma forma de exemplificar essa zona da superfície planetária onde se aglomeram todos os tipos e formas imagináveis de pensamentos humanos. Quando reunidos nesta porção da esfera global, causam esse barulho desagradável, como um chiado intenso e irritante que invade a cabeça. Porém é um breve estágio da nossa viagem. De fato, instantes após tudo voltou à normalidade do que se podia entender por normal dentro do que viviam. Em seguida, Adão percebeu que já não dava valor à suas emoções e sentimentos humanos; estas haviam sido substituídas por sentimentos mais nobres, algo que trazia uma importância diferente da que sua
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necessidade humana conhecia ou lhe exigia. Um calor agradável lhe acalentava ainda mais as sensações de flutuação que sentiam. Radiações e emanações diversas lhes transpassavam ao passo que avançavam para um local indefinido em sua singela concepção de lugar. Então, imprevistamente, seu mentor estacionou a marcha. Existia um foco luminoso muito intenso adiante. Adão olhou para trás e perguntou: - O que houve? Não podemos avançar mais? - Nós não meu amigo, nesta você vai sozinho! - Como assim, “sozinho”, você não vem comigo? – Impressionouse com a colocação do guia. - Acumulei conhecimento e experiência suficiente para saber que devo parar por aqui. Daqui para frente o experimento é seu. Foi por isto que o busquei, e tendo em conta o teor de sua pergunta, somente a você compete seguir daqui para frente. - Mas como vou prosseguir, não sei nem onde estou, nem como o estou? - Isso você irá descobrir, e dessa descoberta é que me beneficiarei e nos beneficiaremos mutuamente em nossa respectiva e atual condição. Você irá pesquisar agora entre uma inteligência nobre e superior, e não será iludido ou desencaminhado. – Acalmava seu pupilo dos mundos internos. - A busca. Pode me dizer o que exatamente estou procurando e como chegar a isso? - Vê como suas importâncias e necessidades mudaram? Agora nem se recorda direito qual sua maior dúvida, a que lhe impulsionou até este estágio, a que lhe trouxe aqui... - Verdade, mas tudo se esclarece novamente. Busco Deus! – Recorda-se com vagar e sem os valores e urgências de antes. - E se eu não conseguir voltar ou não encontrar nada? – Temeu Adão. - Não se aflija. Há uma coisa que precisa saber: seja o que for que encontre tenha a certeza plena de que nada, absolutamente nada pode destruí-lo. Agora você é única e exclusivamente uma energia, independente de seu veículo físico, orgânico. E como tal não pode ser manipulada por
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coisa alguma, somente você tem o direito de usufruir dessa condição que lhe pertence. - Isto é reconfortante. Gostaria que Geremias pudesse estar aqui partilhando desta vivência fantástica. – Sentiu Adão. - Você está numa manifestação do pleno e do mais nobre amor que possa existir. Essa sensação poderá ser transmitida a todos que tiver vontade de passar, bastará querer. Adão deu-se conta de que não estaria sozinho. A radiação de amor o acompanhava o tempo todo. Era essa emanação que se emitia diante deles. Era ela que o guiaria dali para frente. O Adão do futuro pressentiu que a cada momento novas compreensões e etapas eram alcançadas e ele vibrou satisfeito com o progresso de Adão, seu eu do passado. - Não preciso de mais nada. – Anunciou rumando confiante para a força luminosa à sua frente. - Tenha sempre em conta de que estarei aqui, como um farol guiando sua volta. Isto lhe trará segurança interna. – Transmitiu como uma última coordenada a seu iniciante que já se mesclava sem preocupações à forte radiação. Adão sentia a claridade diante de si de uma forma convencional: cegante. Em seguida o calor, a radiação emanada parecia fustigar-lhe o que ainda compreendia por corpo. Então ouviu: - Sou o Senhor teu Deus, a quem tu deves seguir! Uma sensação de pressão intensa o atingiu. Sentia como se estivesse se dissolvendo ou se fundindo com uma enorme quantidade de água. Teve a impressão de que seus pulmões estavam repletos de água. Sentiu pânico. Horror. A morte o atraia! - Mas o que é que está ocorrendo... isto não pode ser... não possuo físico, não tenho pulmões... devo me libertar dessa condição. - Não, você não vai se libertar! – Reverberou novamente a voz invisível, imperiosa. - Espere, estou começando a coordenar minhas idéias. – Lutava no espaço luminoso, Adão.
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- Não está não, você deve me aceitar como seu Deus Todo Poderoso, aqui e agora! - Me recordo agora, nada pode me fazer mal... estou pronto para essa energia exigente. Que espécie de Deus pode ser este?! Não pode me magoar ou me atacar! – Adão começava a tomar conta a situação crítica. - Ora, ora, então você não me toma por seu Deus? – Tornou a voz em um tom diferente, menos agressiva. - Agora acho até engraçada a idéia de um Deus exigente e ameaçador. É melhor você autorizar meu avanço, não quero problemas e não creio neles. - Você está perdido, não passa de um desperdício de minha energia! Eu que sou seu Senhor, você nada pode! Submeta-se!! – Cresceu novamente a vibração densa, esmagante. - Não vou perder meu precioso tempo com você. Anelo transcender essa situação. – Adão recordava-se das manifestações de amor que sentia instantes antes de ser abordado. Essas lembranças fizeram com que ondas ardentes e reconfortantes passassem por ele. – Nada pode me magoar, nada pode me ferir. – Repetia para si mesmo. – Devo seguir, apenas seguir adiante... – E ignorou a ameaça. - Não existe nada maior do que estou sentindo neste momento. Tudo me preenche e me completa: alegria, beleza, segurança, satisfação, sou querido, compreendido por tudo o que fiz; sou amado, que lindo, que belo... Adão passava por uma manifestação mais parecida com um sonho, fluídico, repleto de nuvens e espirais energéticas de nuanças vibrantes, algo que fractal. Vida e morte já não lhe representavam um significado de limite. Algo vagamente lhe trazia a lembrança de tempo, espaço, de um planeta azul, de um sol. Essas sensações lhe eram prazerosas e cristalinas, fortes, como milhões de sóis unidos num único jorro direcionado a seu peito, sua cabeça, ele sentia vontade de sorrir, de chorar; traduziu essa emoção superior como amor. Algo que jamais esqueceria, mesmo que tudo não passasse de uma alucinação, um sonho, um sonho complexo, profundo, repleto de significados e de conotações esplêndidas, lindas, que somente agora podia entender com clareza, livre de egos, defeitos, falhas, típicas do
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homem. Sentia-se sereno, como um anjo, uma entidade isenta de conceitos, medos e dúvidas. Bastava estar, ser. Sentiu-se liberto daquela entidade ameaçadora a qual mais lhe parecia uma última prova de força de vontade, um teste final para que pudesse romper um umbral para alcançar um precioso tesouro. Um novo estímulo fez com que ordenasse sua vontade em direção ao fluxo que parecia estar mais suportável. - Sim, preciso seguir esse fluxo de força... Mas que coisa prodigiosa... inenarrável... – Tentava ordenar seu raciocínio, trazendo uma compreensão plausível para o que vivia. - Sinto-me um nada. Uma minúscula partícula desse todo que está diante de mim. - De fato pequenino. Fique comigo. Eu o ajudarei. – Uma nova vibração lhe transpassava. Dessa feita com ternura e um afeto brando, incondicional. - Essa manifestação, é tão grande que mal posso vê-la. Uma onda... uma onda incomensurável de energia... passa através de mim... é gostoso... me ajuda... minha consciência se dilata, se expande... minhas percepções... fica claro, compreensível... sim... agora começo a me lembrar!! Um imenso júbilo esclarecedor toma conta de Adão ao passo que suas recordações de algo majestoso vão lhe aflorando à consciência. - Sim... agora me recordo de tudo! Eu fazia parte do Todo, era completo e pleno. Com o passar do tempo minhas partículas foram se desmembrando numa alegria infinita que nos arrebatava pela certeza de uma nova aventura. Faço parte de mais partes. Elas estão soltas por aí... não sei onde... isto é incerto... a separação é dolorosa... confusa... quero voltar ao Todo, quero voltar a ser o Todo, mas... Ele se foi, não É mais... que solidão terrível... que dor angustiante... Adão vivia um êxtase de caos e de ordem; sua expansão era de uma dimensão que o universo não podia abarcar. Então, a mescla confusa de sensações, de lembranças nostálgicas, emoções alegres de se descobrir, de tristeza pela separação, foram se posicionando de forma conveniente e compreensível.
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- Agora retorno novamente... de volta ao Todo a que pertenço. Posso sentir o começo da radiação se intensificando a medida que me aproximo, que avanço, que me integro... que alegria voltar... isso então que é alegria?... Essa é que é a felicidade plena? Então, Adão sentiu novamente o clarão intenso, tão forte que lhe queimava as entranhas. - Meu Deus! - Não meu pequenino. Não há deus aqui da forma que você entende. Sinto muito. Ouviu a voz amável novamente. Desta feita a força energética se manifestou mais amena. Adão conseguiu definir uma esfera imaterial de luzes e matizes diversas as quais se resumiam numa cor só: branca. - E então, pequenino. Que dádivas você me traz? - Dádivas? Dádivas? Sinto apenas a necessidade premente de retornar ao Todo, ao Absoluto que é o meu lugar... de onde parti, de onde outras partes minhas também partiram... Não há dádivas, sou o que sempre fui. Dádivas significam algo mais do que fui todo esse tempo... não há mais nada... sinto muito. – Lastimou-se Adão. - Sim, mas há algo diferente em você. Não trouxe dádivas, mas está aqui, sozinho. Está incompleto ainda. Ainda não pode se unir ao Todo. - Incompleto? – Contra-argumentava a pequena chispa receosa de não ser digna do retorno. – Mas como pode? Sou o mesmo de quando deixei o Todo. Só estarei completo quando me unir novamente ao Absoluto. Não entendo, tudo o que preciso é voltar, é só o que sinto... - Entende sim. Possui condições plenas da compreensão, caso contrário não lhe seria permitido estar aqui. Você está ofuscando seu entendimento. Tenha sempre em conta que você é mais que seus corpos inferiores, sua mente, suas emoções, seu físico os quais insiste em querer manter aqui. Este conhecimento abre uma perspectiva imediata para qualquer atividade no sistema de vida que está acostumado. A aflição torna-se tolerável e o êxtase mais profundo. Os medos induzidos incrustados desaparecem. Reconheça e controle seu instinto de sobrevivência. Use-o ao invés de ser usado por ele.
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Adão deixou a insistente forma física que continuava fervilhando em sua estrutura molecular para apenas permitir-se ser. Adotou uma constituição automática de esfera luminosa, semelhante ao Todo diante de si, mas em proporção evidentemente miúda. - Vejo que está se soltando, se permitindo existir apenas por ser. Vou ajudá-lo a se recordar de como tudo começou. No meio do todo que Adão se achava, uma torrente de percepções iniciou um regresso em memória instantaneamente, trazendo algo de valor inestimável: o Conhecimento. - Sim, sou preenchido por informações. Consigo compreender agora. Antes de ser o que sou, eu era o Todo. O Todo distribuindo suas próprias partes para crescer, amadurecer, mutar, reproduzir, para depois, novamente acrescentar-se ao Todo... de forma mais evoluída, por único e exclusivo amor incondicional... Mas então é isto... as dádivas seriam mais de mim? As demais partículas que o Todo desprendeu para seu próprio engrandecimento. Adão percebia o tédio que existia, a curiosidade, a decisão, a partida, a migração de cada partícula em rumos distintos, uma migração individual, solitária, buscando, buscando... Então, sóis brilhantes de energia pura numa sucessão infinita, a compreensão de que outros como ele se uniam na busca, mas, na busca de quê? Era algo diria, inexpressível, difícil de localizar. Então, a radiação de uma esfera azul flutuante no escuro, o satélite de um sol amarelo. A atração gravitacional que o impelia a entrar. - Entrar?... Mas entrar para quê?... Sim, para me tornar... Mas, o quê?... HUMANO! Sim! Humano! Matéria física, distorcida por sensações e formas diversas, um composto energético enclausurado numa forma densa, pesada, lenta, limitada, energia trancafiada. Adão sentiu o impulso em direção ao nascimento, algo necessário para conservar a energia na matéria física e mantê-la funcionando num projeto maravilhoso, embora contraditório. Uma matriz uterina se fez presente com toda sua escuridão líquida. Depois, sentia a necessidade de pesquisar, convertida em ações e reações de diversas modalidades: fracassos e sucessos. Percebia repetidas tentativas em sucessões diversas de
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formas e compleições físicas, desde uma primitiva criatura de face peluda a qual ascendia e caia novamente, tentando e tentando novamente... muitas passagens, entrando e saindo. A ascensão e queda da consciência de novo e de novo, através de passagens milenares, ingressando em novos e diferentes veículos físicos de carne e osso os quais sempre tiveram a mesma e ansiosa meta, aprender! Agora Adão exultava. Tinha consciência plena novamente. - É a total experiência da vida, seu completo conjunto de vivência como humano que são as dádivas! A soma de tudo isso são dádivas que se devolvem ao Todo... mas... não as tenho comigo. Uma nova luz de discernimento ilumina Adão. - Agora entendo a razão para a distribuição das partes... quantas dádivas tenho da necessidade de aprender esparramadas por aí... Eu sou todas aquelas passagens pela vida, todas elas. O que pode ser entendido como reencarnações, o meu Eu total, o meu Eu Maior. Mas, sou apenas uma parte desse Todo. - Eis por que está pequeno e incompleto; há mais! – Torna o Ser diante de Adão. - Conheça a si mesmo; a experiência é a maior de todas as mestras. - Sim. Há outras partículas minhas, do Todo que ainda estão tentando e outras que já estão aqui, esperando. Por isso fui um agente do progresso..., um explorador! - Quando todos estiverem reunidos você virá com suas dádivas. Não será mais pequeno, será tanto quanto nós somos. Todas essas partículas que ainda exploram, não só no pequeno mundo que chama de Terra, mas de todo o Criado, virão com você. - Nós? – Indagou Adão. – Então que dizer que você, o Todo, nada mais é que o conjunto das pequenas partículas que um dia saíram em busca de uma mudança, de uma experimentação. O seu processo foi igual? Uma parte sua também desceu antes? A esfera chamejante de energia brilhou mais intensamente. Adão percebeu que a resposta era sim. - A emissão dos feixes de luz não se restringem a uma única dimensão espaço temporal. Estamos espalhados pelo todo do Todo.
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Nova confusão. A luz que Adão emitia esmaeceu em nítido sinal de nova questão paradoxal. Como o Todo, tudo o que existia, poderia se espalhar pelo todo sendo Ele próprio o Todo de tudo? Se assim o fosse, sabia de antemão o que ser e como ser, para que experimentar? - Já amadureceu alguma coisa, pequenino. Por enquanto isto lhe basta. O padrão fundamental do sistema é a mudança. A estagnação é entropia. E entropia pode ser entendida como morte. Por tal o desequilíbrio é constante. Há muita especulação sobre isso e muitas outras questões, tais como: o que ocorre quando todas as chispas se reúnem ao Todo? Mas o que você sabe já é muito, até para você mesmo. Portanto, ao passo que retornar irá perder parte dessas informações, que somente deverão ser readquiridas no momento oportuno. - Retornar? Tenho que retornar àquele mundo de sonho, de inconsciência? Perder tudo novamente? - Não tem escolha. Está incompleto. Mas não se preocupe, meu querido. Terá uma nova sabedoria, um novo e acalentador conforto lhe acompanhará, somos Nós, Sou Eu, a Presença Eu Sou em você. Disto você se recordará. Essa será a mola propulsora que romperá com os limites do estágio vivencial em que você se encontra, pequenino. - Podemos nos encontrar novamente? Estaremos em contato? - Entenda, somos Um só. Tudo o que precisa é pedir Nossa ajuda. - Você quer dizer, meditando, rezando?... - Palavras... as palavras e os rituais são inexpressivos. Assim como as limitações das diversas formas de crenças. O sistema de credo é tudo o que a humanidade têm para sustentá-la e orientá-la. É seu freio e seu amplificador. Desse modo, todos vão para onde acreditam encontrar algum tipo de segurança. Entretanto, quando tentamos ajudar, crêem em algo difuso, incoerente, impossível de ser, mesmo vendo ante seus olhos. Na verdade, dentro ou fora do corpo precisamos ignorar, ou mais, derrubar os sinais de “é proibido ir além”, os tabus, os avisos de “sagrado dos sagrados”, a distorção de “tempo” e a translação, a euforia, o misticismo, o mito, as fantasias de um pai eterno ou a imagem de uma mãe distantes, fora do indivíduo. Nada é tão sagrado que não possa ser investigado ou pesquisado. Para a humanidade comum e corrente, isto requer uma
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transição brusca para a autêntica percepção extraordinária do Todo, do Absoluto. Entretanto, ter ciência disso é uma coisa, saber isso e querer fazer é outra, e saber fazer é outra completamente diferente. Adão imaginava em seu íntimo o que palavras daquele porte resultariam em seu modo de vida. E, cônscio de seus pressentimentos, o Ser ante si voltou: - Ao longo de sua história diversos rótulos são empregados àqueles seres que, considerados mais rebeldes em sua sociedade resolvem questionar e sair do convencional; são tidos como: infiéis, misticóides, pecadores, anarquistas, desajustados, neuróticos, aventureiros, visionários, traidores, exploradores, pesquisadores, santos, magos, bruxas e assim por diante. Qualquer discordância da norma padrão a que estão incutidos é arriscada. A percepção extraordinária que uma pessoa tem e começa a julgar, pode acabar tornando-se mais uma crença se ela não a testa com o objetivo de torná-la válida através de sua crescente experiência como uma Inteligência Humana Ativa, até atingir a liberdade. – E seguia de forma natural e com argumentos surpreendentes, inovadores e transparentes: - Um dia, pequenino, no tempo certo, esses pedaços de nós desenvolvem uma dúvida, uma inconformidade, uma necessidade investigativa e menos do medo limitador brota em seus corações e então, quando atingem certo estágio de amadurecimento, são resgatados e trazidos de volta ao lugar que pertencem, por mérito, via um representante de seus próprios Eus Maiores. - O Adão do futuro!! – Conclui o radiante pequenino. - Portanto, é o... pensamento dirigido, a emoção atenta, isto aciona o sinal, o contato. Quando o sinal apropriado é dado, nós podemos ajudar, atuar: basta crer, romper limitações e barreiras. Amuletos, símbolos, imagens, beberagens, dizeres, são como muletas para os que ainda não sabem andar por si! Não estão errados em usá-los tampouco certos; servem como meio para se chegar a um fim, canalizar, focar uma manifestação de energia. Para a Luz pouco importa os conceitos e teoremas de bem e mal; Ela está além disso, ilumina tanto um quanto outro indistintamente. Adão recordou-se de seu Mentor. Quanta sabedoria ele já adquirira. Que mais poderia lhe acrescentar ele?
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- Sinto-me vazio. Não posso ter chegado ao máximo dos máximos e ter de regressar ao nada. – Reclamou o incontido Adão. - Seja paciente. Você e a sua soma – Referindo-se ao Adão do futuro. Adão já não mais sentia temor. Estava diante do Eu Maior e agora sabia que o Eu Maior era ele mesmo. Poderia alguém ter medo de si próprio? Duvidar de suas capacidades? - Eu compreendo, não sei se posso aceitar, mas também sei que não tenho escolha. – Então o Todo preencheu novamente o pequenino com sua radiação, e ele se banhou nela, absorveu-a. - Sim. Obrigado. Estou melhor agora. Tenho satisfação e entendo perfeitamente que estou onde estou para aprender e preencher o Todo com o que possa trazer de melhor. Gostaria apenas de poder levar algo de palpável a meu Guia e Mentor, ou até mesmo àqueles que me acompanham nas investigações. Assim, pelo que sei agora, estarei ajudando a mim mesmo, não de forma egocêntrica, mas por amor ao Todo, acima de tudo, e ao meu semelhante na verdadeira acepção da palavra! - Servir a humanidade pode ser classificado como servir a si mesmo. Quanto mais melhoramos a raça humana, ou todos e quaisquer seres do Absoluto, mais a Nossa própria situação melhora. Um progresso grande é igual a uma centena de outros progressos menores. - Você quer dizer que um mestre é igual a uma centena de discípulos? - Exceto pelo fato de que o “mestre” chega mais alto. - Então esse trabalho, ou progresso, vale mesmo a pena? - Definitivamente, pequenino. E é por tal que sabemos das necessidades desse rincão e lhe é permitido levar isto que chama de “mensagem” com consciência. Deverá registrá-la o quanto antes puder assim de seu retorno. Infelizmente a constituição humana ainda não percebeu suas capacidades, e pérolas da luz podem ser olvidadas pela inabilidade da inconsciência limitada por dogmas encravados na memória celular, na constituição genética daquela esfera de vida. O Todo cresceu de novo, era assim que se comunicava realmente. Não era fácil para Adão, mesmo naquele estágio, se habituar à idéia de se
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comunicar de forma absurdamente simples e completa, e ao mesmo tempo não lhe era nada surpreendente, algo inato, pois não havia barreiras de quaisquer tipos. O que se seguia era um compêndio de toda uma existência pura e cristalina. Tudo o que Adão tinha de fazer era sintonizar suavemente, permitir mera e simplesmente que o fluxo passasse por ele chegando até seu interior, até a cúpula de feixes luminosos de seu coração junto com seu Eu Maior. A luz intensificava-se e o que precisava ser dito era passado sem tergiversação, sem interpretações duvidosas e errôneas. Como se a informação lhe pertencesse à eras, como se já a tivesse vivido, assim era a “conversa”, o estudo superior. E Adão recebeu em seu íntimo: Não há começo nem fim, Apenas mudanças. Não há professor nem aluno, Apenas recordações. Não há bem nem mal, Apenas expressão. Não há união nem divisão, Apenas um. Não há alegria, não há tristeza, Apenas amor. Não há maior, nem menor, Apenas equilíbrio. Não há êxtase nem entropia, Apenas movimento. Não há insônia nem sono, Apenas existência. Não há limites nem possibilidades, Apenas um projeto. Assim é. Adão sentiu e compreendeu profundamente em seu verdadeiro e real Ser, a extrema significação do conceituado sentimento que a humanidade ainda precisa desenvolver: o amor!
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O Todo era a manifestação plena do amor, isenta de temor, por tal permitiu a separação de si próprio para a grandeza individual do Absoluto. - Agora pequenino, ficou mais fácil. Você precisa voltar. Adão simplesmente consentiu de forma natural e sem cerimônias. Impulsionado por uma gloriosa necessidade de alcançar a perfeição, Adão iniciou seu regresso. O fluxo de luz se afastava ao passo que o vislumbre da idéia de voltar ao mundo comum e corrente lhe arrebatava com uma enorme expectativa. Um novo sentimento agradável lhe apossava. Existia trabalho sério pela frente, ainda há diversão na vida e agora ele conhecia a resposta máxima; isto reascendia seu ânimo. Era inacreditável, mas havia acontecido. Era estranho e vibrante saber o que significava viver e para quê. Haveria alguma forma de expressar aos demais aquela monumental onda de energia? Em seu íntimo sabia que sim, mesmo tendo ciência de que não poderia levar consigo toda a recordação do encontro monumental que viveu, isto estava guardado dentro dele como a certeza de que fazia parte do Todo. A certeza de que poderia contatá-lo quando quisesse e mais, seria atendido. Veio à lembrança o Adão do futuro. Sim, deveria chegar até ele. Deveria passar a maior quantidade possível de dados que tinha antes que se esquecesse dos fatos vividos. Retornar, retornar, nem sabia como fazê-lo, apenas fazia, ia, fluía. - Adão, é você?! – Indagou o Adão do futuro se protegendo. - Sim meu mentor, estou de volta e obtive sucesso... - Controle sua radiação! Está me queimando... – Interrompeu o aflito Adão do amanhã. - Oh, desculpe-me. – E tomou consciência de sua nova condição equilibrando-se num nível radioativo mais reduzido. – Está melhor? - Você está muito diferente, Adão, sua energia está imensamente maior. Se me permite dizer, maior do que a minha em seu pleno vigor; agora é você quem precisa se controlar para que possamos estar juntos. Adão constatou que durante sua permanência com o Todo, tudo o que absorvera e recebera havia feito com que crescesse profundamente em todos os níveis. Mas percebia que esse manancial não lhe pertencia ainda, não por méritos, era algo emprestado. E pior, realmente estava se diluindo
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no esquecimento dos eventos. Precisava se esforçar para manter os dados ordenados, urgia passar as informações para seu Mestre. - Eu tenho a resposta, Adão! A tão anelada resposta a tudo. Mas preciso passar-lhe rapidamente, estou perdendo novamente meu estado pleno de consciência que é nato ante a presença do Todo! O Adão do futuro tinha plena concepção do que ele estava falando. Estava pronto para receber o fluxo de informações de uma forma que só ele passava para seu neófito. Estava vivendo algo novo. Finalmente algo novo. Com extrema agilidade, o Adão do presente lançou o manancial ordenado e coerente de dados, o Adão do futuro pode então compreender o que muito já sabia, e o que efetivamente surtiu de resultado do experimento em seu Eu passado. Assim se desenvolveu os dados: • Com respeito ao nosso Criador: • está além da compreensão da humanidade enquanto humana; • Ele é o Projetista de um processo crescente do qual fazemos parte; • tem um objetivo para agir assim que está além da nossa compreensão; • realiza ajustes afinando as harmonias da orquestra conforme o processo exige; • estabelece leis simples que aplica a cada um e a cada coisa do criado; • não exige reverência, gratidão, perdão ou adoração; • não castiga ninguém por “perversidade” ou “maldade”; • não interfere ou proíbe as nossas atividades na vida. - E o que é o Seu projeto, Adão? – A rotina de dados continuou. Ironicamente, agora era o Adão do presente quem respondia às questões.
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Com respeito ao Seu projeto: • O anelo de retornar com dádivas é parte integral de seu projeto. • Tal “dádiva” é o Conhecimento o qual somente se adquire através da experiência individual. O Adão do presente concluiu a rotina de informações e parou. Estático. Sua luz havia diminuído a um nível quase primordial. O empréstimo havia sido muito rápido. Já quase nada irradiava, mas retinha um reflexo próprio, algo adquirido por si mesmo, por seus méritos, e que ninguém poderia lhe tomar. Quase não teve tempo de passar as informações. O Adão do futuro sorria com as notícias. Sua própria manifestação energética havia evoluído a um estágio automático, tendo em conta que seu Eu presente crescera. O experimento dera resultado, e, como se esperava, positivo. Sabia, porém, que na mesma proporção que regressassem ao estágio físico, Adão perderia muito de sua condição consciente, mas, é para isso que estava ali, para instigá-lo a prosseguir, evoluir. Não o abandonaria jamais, não havia como abandonar a si próprio, uma partícula de si que representava uma parcela do Todo. Ele também queria retornar com suas dádivas um dia desses. Voltar ao lar. Seu experimento havia sido um sucesso maior do que cria. As espirais de energia começaram a se manifestar. O retorno à luz intensa da chácara foi breve. O Adão do presente permanecia em silêncio, quieto, num coma de emoções em ebulição. De repente uma desconexão súbita. Como um tirar de tomada, um desplugamento. Adão, despertou de sua catalepsia pós-dimensional. - Adão?! – Dirigiu-se ansioso ao seu mentor. – O que se passou? Sei que vivemos algo assombroso. Tenho esparsas recordações de um mundo de plena luz e de um imenso amor. Mas não consigo me recordar de tudo plenamente. - Não se admoeste, meu Eu presente. – Tranqüilizou-o. – É um processo natural para quem ainda vive com um corpo denso, com a consciência engarrafada. Mas agora você possui em seu interior todas as chaves necessárias para abrir as portas para a sua, para a nossa evolução e a de toda humanidade!
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O Adão de hoje, envolto pela cegante luz, ordenou seus pensamentos, percebeu como foi fácil fazê-lo. Detinha dentro de si algumas certezas e isto lhe bastava para tranqüilizá-lo. Todavia, o simplório Adão em que havia se convertido ainda precisava de um choque em seu nível. Algo que o chacoalhasse e que o fizesse tomar consciência do que deveria fazer para suplantar dificuldades que a densa existência imprimia em sua constituição física. Existiam defeitos que precisavam ser percebidos e expurgados e somente tendo ciência disso é que ele poderia sair adiante no imenso trabalho que o aguardava. Despertar de um profundo e doloroso sono! Ingenuamente, o Adão de hoje iniciou uma nova conversa, alheia à grande vivência que acabara de ter. Já dando mostras de que o mundo terreno o envolvia e cobrava seus tributos pela vida naquela forma, naquele sistema. - Sabe, minha mente não me permite acreditar no que vi, apesar de tudo o que incrivelmente foi constatado. - Adão, Adão! Não me decepcione... Adão baixou a cabeça como uma criança arteira, a qual, descoberta, se apresenta envergonhada. - Você sabe, você carrega dentro de si toda a informação necessária para se liberar, basta consciência para acessá-la. Hoje você acredita estar vivendo uma fase estagnada, inerte, e esse tipo de pensamento é uma armadilha mental terrível, na qual você e todos os demais que buscam se libertar se encontram enredados. Adão, com o polegar e o indicador ancorava a testa, à altura da raiz do nariz, e constatava que já sabia disso o tempo todo e continuava errando e voltava a ouvir de novo a mesma coisa de outra pessoa. - É exatamente essa a via! Adão voltava a se assombrar com a telepatia de seu orientador, não obstante as irrefutáveis provas de sua capacidade e o que já havia presenciado. - Já que você gosta de raciocinar, - seguia, o incansável auxiliador venturo – pense um pouco no quanto você cresceu internamente nos últimos dezoito meses! Olhe com atenção e cautela, sem falsa modéstia.
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Quantas novidades lhe chegaram para limpar, eliminar conceitos que insistem em querer ficar contigo. Admita para si mesmo, aqui e agora: não lhe resta outra alternativa que se entregar à você mesmo, à Suprema Presença Divina do Eu Sou em você; sem limites, fronteiras, inibições... Sei muito bem que pode parecer difícil crer nisso tudo, mesmo sabendo concretamente que é possível. Entretanto, até mesmo essa hipótese de dificuldade, tem de ser e-rra-di-ca-da de seu íntimo – Aplicou ênfase na palavra “erradicada” soletrando-a com firmeza e determinação para que não sobrasse nenhuma obscuridade na questão de se eliminar a “dificuldade”. - Sei disso. Por mais que possa parecer forte, ainda me rendo a paixões terrenas, e me pego frustrado, decepcionado, derrotado comigo mesmo... - Deixe de tontices infantis! – Seu alter eu era inclemente, incisivo e contundente. – Essa autopiedade é que lhe derruba, não percebe? Só o fato de admitir para si próprio que não possui forças já é um sinal enorme de força! Admitir um erro! Você precisa urgentemente aprender a se perdoar! Perdoe-se e se erga, insista novamente, não tenha vergonha, orgulho ferido, autoconsideração em se perdoar. Seja gentil consigo. Não se martirize nem estacione em equívocos, enganos, erros. Perceba-os, analise-os e use-os para mostrar que não servem mais! Saia adiante, de cabeça erguida, com humildade, mas persista, tente outra vez... O Adão do amanhã seguia sua doutrina com uma força demolidora, não permitindo em hipótese alguma que seu antecessor esmorecesse. Diferentemente das instruções que ele acabara de receber de forma benévola, seu gêmeo orientava com vigor, pois, Adão, em sua nova condição quase física, já havia perdido muito da expansiva consciência divina. E seu mentor seguia a orientação ciente da didática direta que empregava: - Já falamos sobre isto: olhe ao seu redor hoje, quantos dos que iniciaram essa jornada de se autoconhecer juntos com você prosseguiram? Nem os que eram orientadores o estão; uns ou outros, à exemplo de Geremias que o acompanha em experimentos de igual propósito, mas suas metas podem mudar de uma hora para outra, em que pese a conclusão, o
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objetivo final ser o mesmo: o encontro com o Absoluto, o caminho é único e exclusivamente seu, não dele ou de outros! A esta altura, Adão só tinha condições de anuir e tentar sorver e reter com consciência os versados ensinamentos. - Existe hoje em você, três forças unidas de proporções antagônicas à sua meta que lhe obstaculizam, que lhe amedrontam, que lhe desorientam. Essas forças são ardilosas, astutas, e agem em conjunto, de mãos dadas, porque têm plena ciência de como atuar e quando; conhecem quais os seus pontos fracos; e agora, perceberam que você pode e já iniciou o processo de destruição das mesmas, tenha ciência plena disso. Como todo ser que um dia foi gerado, essas criaturas não querem morrer, por incrível que possa parecer lutam pela vida, também querem a Luz, à sua maneira, mas querem. - Que faço então? – Suplicou Adão com os olhos marejados. - Você se entrega à elas quando deixa de crer na força Divina que é. Essa sua derrota! E pior, fica culpado por perder a batalha para a Mente Inferior, o Emocional Inferior e a Má Vontade! Seja firme, seja o guerreiro que é, e tenha certeza de que somente se entregando ao seu lado Divino poderá se livrar dessas forças, digamos, demoníacas. Elas atuam pois lhes é permitido atuar! Não receie em deixar que algo superior trabalhe por você. É assim que funciona. Deixe-se entregar à luz, invoque-a, queira ela em sua vida, aqui, agora, já! Não amanhã, ou quando estiver meditando. Permita-se vencer pela luz e com ela. Deixe-a trabalhar por você, purificá-lo, libertálo. É essa força sublime, maior, superior quem atua, à medida que você assim o permite. Permita-se, Adão... O Adão do amanhã tinha de usar um novo sistema de orientação, um pouco inferior ao que o Todo à pouco usara para mostrar a realidade para Adão do presente. Os níveis conscienciais haviam mudado. A compreensão já não era a mesma, livre, desembaraçada. E por mais contraditório que pareça era mestre ensinando pupilo com os ensinamentos adquiridos por este! A esta altura, Adão estava convulsionando em um pranto há muito tempo reprimido em seu coração. Entregou-se copiosamente a um choro de tudo o que tinha para chorar. Com as mãos no rosto ajoelhou-se ante seu
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mestre e suplicou perdão envolvido em grossas lágrimas que lhe banhavam o semblante. - Não é a mim que você deve pedir perdão, é à você mesmo. PERDOE-SE, Adão, agora, já! Rompa essa barreira, destrua a caixa negra em que se encontra seu coração há tantos anos enclausurado, fulmine-a! O Adão de hoje, ergueu a cabeça com um propósito descomunal. De olhos fechados, espremendo a torrente lacrimal, disse gaguejando: - E-eu... me perdôo... - Não ouvi! Mais forte, com certeza de propósito! – Insistia seu Eu Superior na iminente libertação de seu iniciado. - Eu me perdôo! - Mais alto!! Adão cerrou os punhos ao largo do corpo, abriu os olhos embaçados e gritou, urrou: - EU ME PERDÔO! AQUI, AGORA! POR TODOS OS ERROS QUE COMETI NO PASSADO OS QUAIS ENTREGO NESTE INSTANTE À MINHA PARTE DIVINAL PARA QUE SEJAM DESINTEGRADOS, LIBERTANDO-ME AQUI, AGORA E PARA SEMPRE DE TODO E QUALQUER ERRO COMETIDO E SUAS CONSEQÜENCIAS MENTAIS, EMOCIONAIS, ORGÂNICAS; EU RENUNCIO, AQUI E AGORA, NESTE INSTANTE E PARA TODA ETERNIDADE O ERRO, O DEFEITO; NÃO ADMITO NADA MAIS EM MIM QUE NÃO A PERFEIÇÃO DIVINA A QUE TENHO PLENO DIREITO E MEREÇO POR SER UMA PARTÍCULA DIVINA QUE ANELA PROFUNDAMENTE A EVOLUÇÃO E O ABSOLUTO!!! E chorou, chorou, chorou... com uma intensidade consciente da purificação de sua essência. Pranteava com lágrimas que vinham da alma; as que são sinceras, purificadoras. - Entregue suas forças negativas ao seu Deus interno para que Ele as destrua por você, Adão. – Orientava seu igual evoluído. – Não pense em como fazer, apenas o faça; deixe que as manifestações superiores atuem sem que haja uma condução, qualquer tipo de controle. Deixe fluir, apenas entregue e sinta a profilaxia.
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Adão, em meio a um soluço entrecortado, procurou organizar-se e respirou de maneira serena, profunda e sentida; estremeceu-se com um fluxo que lhe invadia o corpo, não o físico, mas o mais profundo e significativo de seu próprio Ser. Percebeu um imenso alívio conquistando as trevas que habitavam em seu coração. Três forças energéticas iniciaram uma irradiação no local negro que outrora a escuridão cardíaca: uma de cor azul, outra de cor violeta e a última, amarela... Ingressando num êxtase que lhe arrebatava o cerne anímico, Adão regozijou-se, expirando um ar que há tempos prendia em si; um ar que lhe era nefasto, negro, maculado, poluto, substituindo-o pela grata satisfação que inundava plenamente sua natureza íntima, sua essência de forma natural, divinal, graciosa. Num arroubo incontido, Adão, a plenos pulmões, gritou: - Bem vindo meu novo Ser!! Morri em mim mesmo para que voltasse a nascer! Um verdadeiro Homem; livre, livre para crescer e sair adiante na conclusão de meu plano Divino! Um silêncio de proporções indefinidas para padrões ordinários selou a notável metamorfose deífica. Aliviado, ergueu-se de sua prostração um novo e irreconhecível Adão. Olhou com plena convicção e sapiência do nível em que se encontrava. Sabia que ainda não estava completo e sabia também que ainda possuía muito a polir; mas, agora também sabia como caminhar, como galgar o rumo à concretização da meta de toda humanidade: a divinização de sua condição atual. O que viria depois só o viver dia a dia poderia comprovar, revelar. Não interessava. Existia agora em si a certeza de algo sublime e divino no fim da jornada, se assim o quisesse. Cabia-lhe meramente escolher o que fazer por si e, em opção, pela humanidade sofrida. - Adão, - comunicou-se agora ele telepaticamente com o ser do futuro – percebo em você também uma mudança, algo que lhe irradia em seu corpo. Você não mais possui aquela constituição densa que se apresentou à mim.

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- Sim, meu caro eu. O resultado de nosso experimento foi brindado com o sucesso pleno refletido diretamente em nossa essência Divina. Por reflexo também fui favorecido. Ao passo que lhe transmitia o comentário, o Adão do futuro ia se enleando na própria emanação luminosa e dourada que transmitia. O som de sua voz repercutia no meio como se derivasse de todos os recantos. - Trabalhe com a reestruturação de sua memória celular, genética. Reprograme-se de maneira plena, superior e constante para manter-se em estado evolutivo. – Professava em tom de despedida. - Ensine, mostre a quem quiser conhecer os caminhos que hoje lhe servem; e esteja pronto, apto a compreender o dia em que eles não mais forem úteis, substituindo-os com carinho pelos novos que virão. Seu Eu Superior mantinha-se alegre, feliz até. Era uma condição que somente podia ser percebida por via de emanações, eis que quase já não se discernia uma imagem física. - Adão, deixo-o agora. Por agora. Tenha a absoluta certeza dentro de si, de que está realmente no caminho certo. Pôde constatar por conta própria todas as realizações internas que um ser humano pode alcançar, pelo menos até onde cheguei e lhe mostrei. Sabe agora por ciência própria que não há limites na Existência Divina, e o criado também é ilimitado. Continue buscando sua evolução pessoal, continue ajudando aqueles que lhe buscam com a mesma vontade de aprender. Não empurre a sabedoria, apenas a distribua eqüitativamente, sem esperar resultados ou frutos deste ou daquele. Você sabe muito bem do que estou falando; já experimentou tudo isso em prática na sua vida: pessoas que querem algo a mais, mas que não suportam largar o pouco de conforto que conseguiram para galgar um degrau no processo que determina o surgimento de novos elementos mais simples e diferenciados, como resultado de adaptações e modificações contínuas e progressivas de desintegração dos elementos nefastos que habitam o indivíduo. É ruim isso. Eu sei. Mas compensa. Pode demorar, mas vem. Adão percebia que um fortíssimo elo os unia. Sua cara-metade o sabia, pois já havia vivido e investigado todas as suas existências passadas, e, com a capacidade que tinha, pudera chegar até ele com novas e benéficas
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intenções. Foi um risco o qual correram, mas, como ele mesmo dirá no futuro: “vale a pena tentar para saber se funciona, e se não, serve para mostrar que essa vereda não serve; se ficar parado pensando no: ‘como seria se fosse’, não será jamais”! - Obrigado por indicar quais meus bloqueios e meus medos. Pelo menos agora sei como eliminá-los de dentro de mim. O trabalho ficou muito mais simples sem conceitos equivocados e limitadores de que certas coisas não podem ser feitas. Eu sou! Eu posso, pois sou Deus em mim, aqui e agora, e se sou Deus em mim aqui e agora, tudo posso! Isto é realmente fantástico, libertador! - “A verdade o libertará!” – Citou o Adão futurístico se desvanecendo. - “Homem, conhece a ti mesmo e conhecerá os Deuses e o Universo!” – Retornou o Adão presente, satisfeito. - Cuida de ti e assim estará cuidando de nós! A luz imensa que originou a jornada enquanto lá na chácara, os envolveu novamente. O Adão do futuro foi engolfado por ela na medida em que se distanciava, em um processo inverso de quando chegou. E, já quase sumindo em meio à miríade luminosa ainda reforçou: - Não olvide, Adão: “Tudo posso Naquele que me fortalece!” - E essa Presença é o Eu Sou aqui e agora! – Reafirmou o Adão do século XXI. - Vamos voltar a nos encontrar? – Investigou uma nova possibilidade de contato o renovado Adão de hoje, reprisando uma pergunta inconsciente feita a um Ser muito mais evoluído. - É você quem escolhe a velocidade com que quer atingir o meu estágio evolucionário, e além dele; assim como sou eu quem escolhe a velocidade para suplantar o meu. Se vamos nos encontrar novamente, depende única e exclusivamente de você, que sou eu, que é o Eu Sou. Deve meramente contar com você..., de uma forma ou de outra.
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Adão alcançou o significado do paradoxo existencial que vivia. Tudo dependia dele aqui e dele lá, num ambíguo futuro. Então, tomado de um novo arroubo, lançou aquela que, no momento, seria a última interrogação: - Espere... esclareça-me uma última questão que se mantém: tendo em conta tudo o que você é e é capaz de fazer, você já não sabia que tudo isto iria acontecer da forma como foi? As perguntas que fiz, as vivências pelas quais passamos, minhas conclusões, e os resultados da minha condição interna? Silêncio. Quietude. E ele próprio percebeu em seu âmago que a grande pergunta, em verdade não era esta. A grande pergunta que originara tudo, todo o experimento pelo qual passou era se Deus efetivamente existia. Agora Adão possuía plena e concreta certeza disso; pois ele mesmo é Deus em si, atuante, aqui e agora, da maneira como hoje se concebe. Afinal, entendeu, por agora, que a partícula divinal que habita em si, habita também na humanidade. Portanto, ainda há esperanças...

Fim
(Ou começo?!)

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