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Revista Litteris - Literatura Julho de 2010 Número 5

Labirintos da posteridade: Clarice Lispector e Jorge Luis Borges sob o olhar da crítica

Julio Augusto Xavier Galharte1 (USP, São Paulo - Brasil) e Julio Couto Filho2 (USP, São Paulo – Brasil)

RESUMO: Apresenta-se uma reflexão sobre a recepção crítica de Clarice Lispector e Jorge Luis Borges, bem como é feita uma análise comparativa de “A procura de uma dignidade”, da escritora brasileira, e “La Biblioteca de Babel”, do autor argentino. Palavras-Chave: Clarice Lispector; Jorge Luis Borges; Recepção crítica; Labirinto; Literatura Comparada. ABSTRACT: It is presented a discussion about the critic reception of Clarice Lispector e Jorge Luis Borges, and it is showed an comparative analysis on “A procura de uma dignidade”, by the Brazilian writer, and “La Biblioteca de Babel”, by the Argentinean author. Keywords: Clarice Lispector; Jorge Luis Borges; Critic reception; Labyrinth; Comparative Literature.

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Mestre e Doutor pela USP; Professor da Universidade São Marcos-SP; autor do ensaio “Na trilha da despalavra: silêncios em obras de Clarice Lispector e Samuel Beckett” In: PONTIERI, R. [org.]. Leitores e leituras de Clarice Lispector. SP: Hedra, 2004, p.69-83; atualmente, prepara projeto de pós-doutorado sobre a relação entre João Guimarães Rosa e o cinema; e-mail: xgalharte@gmail.com. 2 Mestre e Doutor em Filosofia pela USP; pesquisador do projeto temático do grupo de Filosofia Moderna da USP: “Experiência e Razão no pensamento moderno”, coordenado por Mari lena Chauí. Sua dissertação teve como título “Acerca da determinação das concepções de espaço e tempo na correspondência Leibniz – Clarke”; sua tese de doutorado foi “Leibniz e o labirinto do contínuo” ; e-mail: autom@ig.com.br Revista Litteris ISSN 1983 7429 www.revistaliteris.com.br Número 5

236). afirma que “O ovo e a galinha” foi o primeiro texto curto que leu de Clarice Lispector e que ele “acudia a uma situação trivial: o dilema sobre a prioridade do ovo ou da galinha. no ato criador. felizmente”.com. do mesmo modo como em Borges. p. o negro Bogle abre de par em par as janelas e deixa entrar todo o sol: “A luz fez-se máscara”. para definir melhor a mirada clariciana e seu efeito. 1984. em que o fazer literário era a tônica. que poderiam ser comparadas por Monegal de modo mais amplo. Ao final do ensaio. ressalta a beleza de Clarice. 238). é a base de sua observação: “No conto de Borges (“O inverossímil impostor Tom Castro”). p. Emir afirma que.revistaliteris. voltou a visitála e Borges. mas a escritura de Clarice o convertia em densa meditação poética. 232). p. o crítico usa uma definição de Borges: “Mas digo mal: não havia acesso. e que “a criação artística é um mistério que me escapa. 1984. surgidas quando visitou a escritora em seu apartamento no Rio de Janeiro. 1984. Esse ensaio de 1984 de Emir é basicamente um depoimento. Agora descubro que a máscara de Clarice estava feita de luz naquele dia de inverno no Rio. Toma as palavras claricianas que indicam que. 1984. Borges definiu o feito estético como a iminência de uma revelação que não se produz. guiando-se pela memória. publicado na Revista ibero-americana. em outra posterior oportunidade. (LISPECTOR.br Número 5 . para forçar uma mãe lacrimosa a reconhecer no impostor o filho que havia perdido.” (MONEGAL. apud MONEGAL.” (MONEGAL. sua introspecção e seus silêncios. Os olhos eram uma superfície misteriosa. 1984. a autora não escreve. 232).Revista Litteris . ela possui observações “passivas”. que ao escrever não escolhe. O crítico transcreve e comenta algumas passagens de uma entrevista da escritora a Renato Gomes. Destaca o seu típico mirar: “Era possível entender que o mundo interior a que davam acesso esses olhos era o infinito. o crítico afirma que. no ensaio: “Clarice Lispector em sus libros y em mi recuerdo”. p. 232). muitas vezes poético. disse impecavelmente Borges. Usar máscaras. em janeiro de 1984. é tema recorrente nas obras de Lispector e Borges. A primeira impressão que deixou Clarice Lispector em mim foi essa”. mas é escrita. p. O estudioso. (MONEGAL. mais uma vez. de suas impressões sobre Lispector. “O ovo Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. Leitores das senhas que se bifurcam Emir Monegal. inclusive as menos previsíveis. Em seguida.Literatura Julho de 2010 Número 5 1.” (MONEGAL. Com base nesse depoimento. biógrafo de Jorge Luis Borges.

de Borges. alimento espiritual à mão. que está em seu livro Ficciones. em 2001. 47).revistaliteris. ela é uma “mística” que busca a fonte de tudo ao seu redor. a presença de agentes e o veicular de cifras fazem parte também do conto “A morte e a bússula”. 1992. p. escondendo profundos significados-gemas. Um outro elemento comum em Borges e Lispector é a ficcionalização das citações. publicado no Cahier de L’Herne. texto caro para o crítico. cita um dos maiores estudiosos do judaísmo: Gershom Scholem. mostra como o escritor argentino era fascinado pela tradição judaica.br Número 5 . 66). p. em sua cozinha. Criam uma obra-ovo plena de hieróglifos. Em “O ovo e a galinha”. que é republicado no livro Borges no Brasil. já que no seu poema “O golem”. O judeu Yarmolinsky é assassinado em um hotel. ela começa a ver Deus em todas as coisas. em 1981. mas como os escritores que se servem de imagens e palavras cujo sentido eles fazem questão de não explicar.com. Elementos do Hassidismo.Revista Litteris . Ela faz parte de um grupo de agentes que são instrumentalizados para a feitura do ovo. senhas que se colam à casca verbal. em uma folha na máquina de escrever. pode-se ler esta frase: “A primeira letra do Nome foi articulada” (BORGES. além de dona de casa. o que foi percebido pelo crítico Raúl Antelo. 1979. Perto do cadáver. em 1984. de Borges. publicado no Boletim bibliográfico. apresenta várias coincidências com “A morte e a bússola”. a dona de casa fala por meio de cifras. recebendo pouquíssimas instruções para compreender esse processo. Como os hindus e os judeus hassídicos. O crítico Rabi.Literatura Julho de 2010 Número 5 e a galinha” mesmo. no ensaio “Borges/Brasil”. Percebe a figura divina a habitar a clara e a gema que estão na mesa. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. 123). deixando o ovo “protegido por tantas palavras” (LISPECTOR. p. organizado por Jorge Schwartz. Tais agentes podem ser entendidos não só como aqueles envolvidos na mística secreta do ovo. uma mulher. a começar pelo ovo: “De ovo a ovo chega-se a Deus” (LISPECTOR. 15). entre seus livros consta. Mas. p. 1992. de 1944. o mesmo. Envolvida em mistérios. prepara o café da manhã para ela e suas crianças comerem. 2007. por exemplo. em seu ensaio “Fascination de la Kabbale”. Haroldo de Campos chamou essa imagem do texto clariciano de “ovo-enigma” (CAMPOS. dedicado a Borges. a História da seita dos Hassidim. do livro O outro. Não por acaso.

No dia 22 de março de 1969. a segunda é um texto sem título que Lispector afirma ser do autor argentino e do mesmo livro. posteriormente. no cárcere. apud ANTELO. no Cairo. com o título alterado para “Demiurgos: Borges e Clarice Lispector”. ele é preso e açoitado com varas de bambu. texto publicado em Desconversa (ensaios críticos). depois de apresentar a sua tradução. é da própria Clarice. do livro A legião estrangeira. Walnice Nogueira Galvão. ladeado por uma casa que é roubada. ele mostra. No dia 15 de março de 1969. em “Demiurgos”. estaria localizada embaixo de uma figueira e nunca dera valor a isso. a escritora publica um texto. por sua vez. na Pérsia. O protagonista vai para lá na ânsia de encontrar tesouros.Literatura Julho de 2010 Número 5 O crítico aponta que a escritora brasileira por várias vezes mencionava ou traduzia textos borgianos. p 428). mas Antelo mostra que não pertence a Borges. com acuidade. debaixo da figueira do seu quintal. sonhou com um homem que afirmou que a fortuna dele estava em Isfaján. Lispector. em 1998. Ele conta seu sonho. na década de 1960.com. quando a obra de Borges já está totalmente vertida para essa língua.br Número 5 . a primeira é a tradução de “Borges y yo”. mas só encontra açoites: ao chegar à cidade. no livro Borges no Brasil. o cansaço o faz dormir em um templo. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. ainda no Jornal do Brasil: atribuir a outros a autoria de um escrito que é seu. Se Antelo deixou escapar essa relação. e. que é reeditado quase sem alterações no dia 24 de novembro de 1973. para o francês. a cronista apresentou umas “Histórias curtas selecionadas por Jorge Luis Borges” e no dia 27 de dezembro do mesmo ano verteu para o português a “História dos dois que sonharam” e “A sentença”. republicado. (LISPECTOR. ao pé de sua figueira. na década de 1960 e 1970. “para os que gostam de interpretações”. mostra que os escritos claricianos começam a ser traduzidos. Antelo não faz nenhuma comparação da interpretação clariciana em torno da história borgiana com o conto “Os desastres de Sofia”.Revista Litteris . no Jornal do Brasil.revistaliteris. A polícia pensa que Mohamed é o ladrão e. embaixo de uma fonte que. 2001. como Clarice acaba servindo-se de um processo borgiano. que afirma que não se deve acreditar em sonhos. Walnice indica que os críticos franceses. em sua coluna de crônicas. de El hacedor. de Lispector. ao capitão. Mohamed volta para seu país e desencava o tesouro embaixo da fonte. A “História dos dois que sonharam” mostra Mohamed El Magrebi que uma noite. pois ele mesmo já havia sonhado três vezes que sua fortuna estaria no Cairo. por outro lado. mostra Antelo. faz um comentário: “a moral é que nossa fortuna está conosco mesmo”. que se divide em duas seções. assim. no qual aparece a mesma “moral” apontada pela escritora brasileira.

divulgasse a obra da brasileira na Europa e nos Estados Unidos (GALVÃO. “otro”. Uma explicação possível para isso seria o crescimento de movimentos feministas. no campo das identidades e das alteridades..] – como as galinhas e os pintos de Legião estrangeira. Estamos. a crítica parece evocar sutilmente a presença de Borges. Yudith Rosenbaun. que não se serve dessa mediação. o que não ocorre com Clarice. ao criarem textos metalingüísticos. mas também ao crítico. a imagem do demiurgo. também.br Número 5 . 2001. precisa passar. p. no seu primeiro capítulo. se bem que invertendo a ordem dos termos: “Seguindo um receituário de como matar baratas. mas não só: em certo trecho do seu ensaio. 2001. 2001. [. o que faz da matéria narrativa o confronto entre o mesmo e o outro.Revista Litteris . p. Mas uma diferença fundamental desponta: falta nos demiurgos claricianos o que desborda nos borgianos: a distanciação épica. no entanto.. A crítica aponta que Lispector e Borges. americanos e alemães passam a ler Clarice a partir das décadas de 1980 e 1990. o grifo é nosso). em seu livro A via crucis do outro.. Freud e “As mil e uma noites” são chamados para dialogar com o texto clariciano. (GALVÃO. os olhos pela escrita de outros autores. em seu livro Metamorfoses do mal: uma leitura de Clarice Lispector. que fizeram com que Hélène Cixous.. [.com. cerne da obra clariciana”. o narrador/personagem adota diferentes posições frente ao mesmo objeto narrado. ao veicularem. mostrando erudição não só com relação ao universo literário. notar a presença borgiana na escolha das palavras da crítica. Sade. incidindo o olhar diretamente sobre seu próprio fazer literário. ou seja. por exemplo. que se soma à intensa ironia e forte lucidez (GALVÃO. em seus escritos. É possível..[.]. Borges e Lispector. evoca a longínqua e já mencionada narrativa oriental: “As mil e uma formas do mesmo”. ao mesmo tempo. 339). el mismo”.revistaliteris. apresenta o perfil sádico da dona de casa da narrativa em questão. segundo Walnice. novamente. o escritor argentino. p. 1999. As baratas de “A quinta história” foram lidas de modos diversos pelos críticos e três deles relacionaram esse texto clariciano com os escritos borgianos. 131. ou seja: esse “mesmo” do título pode lembrar “o mismo” borgiano que é. também nas entrelinhas. 345). assemelham-se. editado em 2005.Literatura Julho de 2010 Número 5 italianos. 341). Walnice nota nos textos curtos de Lispector uma “ubíqua cumplicidade com os animais .]”. as baratas de “A quinta história”. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. como em Rosenbaun. p. antes. com seu “El otro. Daniela Kahn.. aproximam-se. para mirar sua própria obra. a do criador de um mundo. (ROSENBAUN.

que substitui a Enciclopédia britânica. Dois aventureiros entregam-se a passadas ansiosas: um é o bibliotecário perdido em seu palácio livresco e a outra é a Sra. como é o caso de “O tempo circular”. Uqbar..113).com. 2005.” e também em “La Biblioteca de Babel”. já que existe uma Ciclopédia anglo-americana. pintura e fotografia. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www.Literatura Julho de 2010 Número 5 Mas Borges sai das entrelinhas para surgir nas linhas do ensaio de Daniela. o outro. Ricardo mostra a preocupação borgiana com as inúmeras traduções de “As mil e uma noites” e. que também apresenta essa imagem. O espelho está presente em “Tlön. [. posteriormente. coincidentemente. 19). a refletir acerca desse modelo de suporte estrutural” (IANNACE. ao avaliar o último parágrafo do texto clariciano em que Leibniz é citado. O nome do escritor argentino é explicitado pela estudiosa. p. Daniela percebe nesse trecho a inclusão do discurso científico que se mescla ao dizer fictício e comenta: “Numa ótica que remete a Jorge Luis Borges. 2007.].. afirma que o que aproxima “A quinta história” dessa narrativa oriental e de Leibniz é o tema da infinitude. 2005. o texto científico. OS EMBARAÇOS DE ARIADNE: “A PROCURA DE UMA DIGNIDADE” E “LA BIBLIOTECA DE BABEL” Dois conjuntos de galerias apresentam-se bastante amplos. Nessa narrativa. como apenas mais uma modalidade de ficção.. a última seção de sua tese de doutorado defendida em 2004. 2007. Um amontoa hexágonos distantes. 2.” (KAHN. cujo título é Retrato em Clarice Lispector: literatura.br Número 5 .. Ao fazer observações sobre a noção de “misè en abîme” de “A quinta história”. aparecem o “infinito Leibniz” (BORGES. ele comenta que “Jorge Luis Borges também se viu tentado. Jorge B. Esse assunto aparece também no conto borgiano “Tlön.revistaliteris. Orbis Tertius”. Isso ocorre não só nos contos mas também nos ensaios. avistando salas no espaço interno do futebolístico Maracanã. p. de Clarice Lispector. p. O autor argentino é trazido também à baila por Ricardo Iannace em “Fotocomposição em „A quinta história‟ ”. texto que será comparado a seguir com “A procura de uma dignidade”. 19) e um livro com “mil e uma páginas” (BORGES. na Universidade de São Paulo. do livro A história da eternidade. 36).Revista Litteris . Xavier. quadrados de vazios. Clarice Lispector apresenta a forma supostamente mais isenta e neutra de texto. p.

[. É bem possível que não seja arbitrária a escolha da África como pano de fundo para uma cena de nascimento. talvez por guardar em si os segredos milenares de perfeição arquitetônica.br Número 5 . entoam uma lengalenga primária.. no topo da pirâmide. Em “A Biblioteca de Babel”. deve existir um livro que seja a chave e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o percorreu e é Revista Litteris ISSN 1983 7429 www.. intitulada Água viva: “Os africanos para me adormecer. que a atraiu justamente pelo seu conteúdo “inaugural”. nessa ânsia. 2007. imagens plenas de mistério. pois nela talvez seja apresentada uma resposta para a pergunta que persegue o ponto primordial da existência do planeta e do ser vivo. O bibliotecário e outros perseguidores do arcano.Revista Litteris . As palavras de Napoleão. 71). algum hexágono (pensaram os homens). foram encontrados os mais antigos fósseis humanos. Se buscar o início do mundo relaciona-se à procura da origem da Biblioteca. Jorge B. Como no conto de Borges. move-se em pensamento o bibliotecário que nasceu em um desses inúmeros hexágonos e percebe que não está sozinho em sua empreitada.]. eu recém-nascida. naquele continente. mas a página penúltima diz „Oh tempo tuas pirâmides‟.” (BORGES. são retomadas com algumas mudanças em Um sopro de vida: “– O que é a natureza senão o mistério que tudo engloba? Cada coisa tem seu lugar.” (LISPECTOR.revistaliteris. as pirâmides geram fascínio. Ela deseja assistir a uma aula. o livro que aponta para os primórdios talvez seja também aquele em que as africanas pirâmides aparecem: “é um mero labirinto de letras. em sua procura.. querem encontrar uma obra específica: “Em alguma prateleira. 106). não quer retomar e investigar apenas o primeiro passo.74).Literatura Julho de 2010 Número 5 Diferentemente do bibliotecário.. p. p. Que o digam as pirâmides do Egito. talvez um de seus livros contenha o segredo. por outro lado. 1990. assim como ele. a Sra. há solidários inquisidores: “Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. a resposta pode estar em um livro.” (LISPECTOR. Ora estático. Xavier não nasceu naquele espaço. p. mas não em uma estante de uma biblioteca e sim em uma outra obra da autora. Faz já quatro séculos que os homens exaurem pelos hexágonos. eu te contemplo oh ignorância. com relação às pirâmides. quantos séculos. 2007. Nessa terra primordial. 1994. No alto de tanta incompreensão.com. já que. Há os que procuram oficialmente: os inquisidores. 48). p.” (BORGES.

Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. Essa noção era cara a Leibniz e funcionava como motivação para a busca de uma característica universal e uma combinatória da língua que fosse constituída por símbolos que expressassem não só o pensamento humano. escrupulosamente. buscar o livro primeiro.” (BORGES. contém todas as demais e. p. dedica algumas páginas ao exame da noção de que a Biblioteca é única e. a cada página quarenta linhas.. anterior a confusio linguarum. então. a cada linha. 1986. uma linguagem primitiva. pois de todo modo a harmonia universal exige a harmonia das línguas. Muitos críticos recorreram à filosofia para transitar pelos sentidos desse conto borgiano. deve estar contida em si mesma.com. na biblioteca do conto em análise. além da Biblioteca de Babel existem outras bibliotecas. observa Nuño. 2007. já que as referências a pensadores são explícitas e implícitas. comentador de Leibniz. afirma: “A língua original deve ter existido. p. aproximadamente. supostamente adâmica.” (ROY. Durante um século cansaram de buscar em vão nas mais diversas direções. mas também a realidade das coisas. em seu livro La Filosofia de Borges. acrescenta: a ordem se origina da duplicação elementar da desordem (ou multiplicação exata e indefinida da mesma). 73). parece labiríntica e é fácil perder o senso de direção: as paredes dos hexágonos contêm. conseqüentemente. Muitos peregrinam em busca d‟Ele. em seu ensaio “Borges y Nietzsche más alla del eterno retorno: el infierno y la biblioteca”. “não há. dois livros idênticos. como nas reflexões do pensador. é ansiar pelo tomo harmônico existente antes da Babel? O texto não oferece esclarecimentos e sim aponta para vários caminhos a possíveis respostas. se o princípio do terceiro excluído tiver vigência ali.br Número 5 .Revista Litteris . o que é impossível (NUÑO. Olivier Roy. p. 49). por isso mesmo. p.” (BORGES. portanto a procura de uma língua universal é historicamente fundada. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: para localizar o livro A. caso contrário. No entanto. Assim. Além disso. a exatidão da mesmice: a cada estante trinta e dois livros. antiteticamente. 124). 2007. 1972. a cada livro quatrocentas e dez páginas. Na linguagem desta zona persistem ainda vestígios do culto desse funcionário remoto.Literatura Julho de 2010 Número 5 análogo a um deus.revistaliteris. A biblioteca. Juan Nuño. consultar previamente um livro B que indique o lugar de A. e assim até o infinito. Mónica Cragnolini. consultar previamente um livro C. 76). na vasta Biblioteca. o que é inevitável. oitenta letras. como um conjunto paradoxal. para localizar o livro B.. Haveria um alfabeto de idéias. percebe que aparece em “A biblioteca de Babel” a doutrina nietzschiana do Eterno Retorno.

Revista Litteris . the universe. 2000. afirma o narrador. a lâmpada transversal dos tetos dos hexágonos (CABRERO. nem provém do exterior e sim é interna. fazendo com que o narrador cite uma teoria do filósofo Cavalieri: “Letizia Álvarez de Toledo observou que a vasta Biblioteca é inútil. Segundo o crítico. p. foi feita por Ion Agheana.Literatura Julho de 2010 Número 5 Francisco Martín Cabrero. 79). Essa fórmula é parecida com a de Pascal. as an hexagon”. pautada em seus elementos místicos. a multiplicação da forma regular dos saguões hexagonais (no espaço e no tempo eterno) concilia a idéia de infinitude da Biblioteca com a perfeição da forma que preenche todo espaço harmonicamente. associou a Biblioteca à caverna do mito de Platão. o livro-Deus é perfeitamente plausível. 109). resultando em uma noção de eternidade: “a Biblioteca existe „Ab Aeterno‟. 2007. seção do seu livro The Prose of Jorge Luis Borges. em vez de escolher um.br Número 5 .”3 (DELEUZE.” (BORGES. já que o narrador afirma que há andares superiores e inferiores com relação àquele em que está. O mesmo ocorrendo com relação aos lugares. em seu ensaio “La caverna de Borges”. Uma leitura da biblioteca borgiana. Os tempos também se sobrepõem. 2007. que constasse de um número infinito de folhas infinitamente finas. p. (Cavalieri. O pensador. impresso em corpo nove ou dez. um dos filósofos preferidos do autor argentino.revistaliteris. dá-se a concomitância de linguagens na Biblioteca de Babel. “A Biblioteca é uma esfera cujo verdadeiro centro é qualquer hexágono e cuja circunferência é inacessível” (BORGES. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. disse que todo corpo sólido é a superposição de um número infinito de planos. mas o todo também se encontra na parte. p. no caso do conto borgiano. O livro-único.” (BORGES. 3 Assim. 2007. Borges é um dos maiores responsáveis por um processo que tem cada vez mais força: o questionamento e o enfraquecimento do eurocentrismo. infinito. p. em “God. No entanto. as páginas dos livros também apresentam-se dessa maneira. bastaria um único volume. não é natural. baseia-se no conto “El jardín de senderos que se bifurcan”. o melhor. Além disso. p. como é o caso de Gilles Deleuze. em princípios do século XVII.).com. a rigor. como um centro único e verdadeiro em meio a um universo infinito e descentrado. para dizer que o escritor argentino. sendo de uma fonte artificial. de formato comum. mas não encontrável. deseja “que Deus trouxesse à existência todos os mundos incompossíveis ao mesmo tempo. em A dobra: Leibniz e o barroco. Escritores e filósofos estrangeiros passaram a inspirar-se na literatura borgeana. Os textos borgianos chamaram a atenção dos franceses e foram todos traduzidos naquele país. 66). multiplamente sobrepostos. de Borges. 70). como notou Walnice Nogueira Galvão. A parte está no todo. 71). ou seja. 1993. ela. apesar de ser discípulo de Leibniz. já que em ambos os contextos busca-se a luz.

Jorge B. mas que suscita uma interpretação de âmbito figurativo: a entrada da Sra. o modernismo brasileiro e não a português é que se torna o modelo a ser seguido pelos escritores nacionais. na Biblioteca do conto.Revista Litteris . em alguma medida. o crítico observa que “o personagem central” (SOUSA. como um dialeto samoyedo-lituano do guarani. sabe-se que se vai avançando. que está nessa língua total do livro da biblioteca do conto borgiano. há um livro. mostrando que essa linguagem total tem a contribuição dos que por muito tempo foram considerados periféricos. em qualquer lugar onde o homem experimentou se pôr de pé. 2000. Essa noção de que qualquer ponto espacial pode ser o centro está em “La biblioteca de Babel”. É por tentativas que progressivamente se revela a face dos seres como a da escrita. O português-brasileiro de Lispector inspirou o português-lusitano de Carlos Mendes de Sousa no seu livro Clarice Lispector: figuras da escrita. 354). No caso deste último. O estudioso cita o romance da autora brasileira: “Qualquer direção era a mesma rota vazia e iluminada. e o começo apenas arbitrário de um caminho” (LISPECTOR. texto em que a noção de avanço e retorno se relativizam: “A perplexidade apontada para a personagem [de A maçã no escuro]. apud SOUSA. A Europa volta-se. p. depois como iídiche e. mesmo não entendendo. e ele não sabia que caminho significaria avançar ou retroceder. Desse modo. finalmente.revistaliteris. ao nível da diegese. como se viu. para um centro irradiador de idéias e de arte vívidas localizado na América Latina. tem peculiaridade digna de nota.br Número 5 .Literatura Julho de 2010 Número 5 Não por acaso. cuja língua não está centrada em um único idioma. 354) de A maçã no escuro tem um modo de avançar parecido com o da escrita clariciana. o guarani de alguns indígenas latino-americanos fica no mesmo patamar de importância com relação a outras línguas de prestígio. na obra de Lispector. dessa idéia de que é pelo meio que sempre se começa encontra-se muitíssimo bem apresentada no início do conto “A procura de uma dignidade”. como Guiné-Bissau e Moçambique. ele próprio se tornou o centro do grande círculo. p. Aí sublinhamos um facto que pode parecer insignificante. como o Brasil e países africanos. e. O caso do idioma português. que em qualquer ponto se torna centro de si mesma e da situação que protagoniza é aquela que ilumina os procedimentos que subjazem a esta escrita em „aberto‟. já que era exclusivamente europeu em princípio. Xavier no Estádio do Marcanã figura os inícios programados in media res que Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. 2000. com inflexões do árabe clássico. O tema do centro chama a atenção de Carlos. mas chega a nações “descentradas”. Na verdade.com. ela foi identificada primeiramente como o português. pois. segundo o crítico pode ser notada em “A procura de uma dignindade”. A correspondência. À medida que se caminha ou mesmo quando se está parado.

Havia uma multidão que existia pelo vazio de sua ausência absoluta. O fato é que quando viu já estava dentro. Mas um segundo depois tornaram a desaparecer. O labirinto do texto clariciano é rotundo. Em seguida. Xavier”. Carlos. (SOUSA. Jorge B. p. um tom fantástico: Então este segundo homem informou que havia visto perto da arquibancada da direita. 34). Xavier tinha dúvida de que essas pessoas fossem o grupo com quem devia se encontrar antes da conferência.Literatura Julho de 2010 Número 5 em alguns textos vão ser assinalados pelos próprios narradores (como é o caso do livro A hora da estrela). 2000. Sobretudo sem multidão. p. Pareceulhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras. Nesse circular universo.Revista Litteris .” (LISPECTOR. 354). Nele.‟ E de fato de muito longe ambos os viram. 2007. eles não podem ter sumido no ar. 354).revistaliteris. Carlos cita o início do texto de Lispector: “A Sra. p. apud SOUSA.” (SOUSA.8 -9). em outro trecho de seu livro nota diferenças entre Borges e Lispector. “duas damas e um cavalheiro. o estudioso nota uma aproximação entre as duas obras: elas geram no leitor ou adesão ou horror imediatos. Ele afirma: “Também não se poderá dizer que a vida é para esta escritora [Clarice] um epifenómeno da literatura. despontou Pelé. e também onde cabe a bola do globo na Copa Mundial. em pleno estádio aberto. ao menos nessa passagem. A Sra. o estádio nu desventrado. e na verdade já perdera de vista o motivo pelo qual caminhava sem nunca mais parar. que é mencionado em dois textos de Lispector: Vida íntima de Laura e Para não esquecer. Por algum portão principal não fora. como acontece com o modo conceptualizador da escrita de Borges”. Parecia um jogo infantil onde gargalhadas amordaçadas riam da Sra. De qualquer modo seguiu o homem para o estádio. (LISPECTOR. (SOUSA. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www.br Número 5 . 30). seres fantasmáticos aparecem (e desaparecem).com. Jorge B. 1980. dando ao texto clariciano. uma de vermelho”. onde parou ofuscada no espaço oco de luz escancarada e mudez aberta. As duas damas e o cavalheiro já haviam sumido por algum corredor? Então o homem disse com desafio exagerado: „Pois vou procurar para a senhora e vou encontrar de qualquer jeito essa gente. “paixão nacional”. 2000. 2000. Xavier simplesmente não saberia dizer como entrara. sem bola nem futebol. como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. p. p. Por outro lado. O Maracanã é círculo que sagra o nacional na bola do futebol.

em um outro conto borgiano. portanto. suspeito. porém.. suas palavras. p. “Los teólogos”. A favela com os seus barracos que se espremem na miséria é um dos maiores índices da má distribuição espacial e econômica ocorrida nas cidades grandes modernas. 2007.H.br Número 5 . 2007. Como se isso fosse pouco. Destino que se assemelha a um livro buscado por alguns: “(Os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua. Xavier..” (Por meio dessa arte você pode contemplar a variação das 23 letras.revistaliteris.com. cercados por balaustradas baixíssimas. O protagonista do conto borgeano nunca sai do mesmo espaço: a biblioteca. 2007. que pressente sua morte.” (BORGES. apud BORGES. pelos místicos. não se confina em um único espaço. Uma vez liberta das entranhas do Maracanã. 1964. que dá toda a volta das paredes: seu testemunho é.. p. a imagem circular é associada à blasfêmia. O diálogo embaralhado que ecoa no táxi assemelha-se aos desníveis e acúmulos das favelas da mesma cidade. Como Francisco de Laprida.: “Mentalmente tracei um círculo em torno das semi-ruínas das favelas.Literatura Julho de 2010 Número 5 O círculo também aparece em “A biblioteca de Babel”: o bibliotecário morrerá em um hexágono próximo àquele em que nasceu. que Northrop Frye atribui-lhe.. pois é o símbolo da seita herege dos “monótonos”. o círculo é associado a Deus. 69). nessa biblioteca. o bibliotecário percebe seu destino. obscuras. Esse livro cíclico é Deus)” (BORGES.” (LISPECTOR. com vastos poços de ventilação no meio. de galerias hexagonais. que aparece como epígrafe de “A Biblioteca de Babel”: “By this art you may contemplate the variation of 23 letters. para criar o título dessa sua obra: Anatomia da melancolia. que seduzem G. Jorge B. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. já que conota a curva. o próprio táxi que toma transforma-se em labirinto. vendo um giro formar-se. A biblioteca consagra as combinatórias. do qual é retirado este excerto. Nesse caso. ela perde-se em outros enleios da cidade: as ruas. expresso na babel de falas desencontradas de motorista e passageira: são nomes de logradouros pela metade. p. em Anatomia da crítica. posteriormente fala-se o nome de um bairro e entende-se outro. p.Revista Litteris . O crítico canadense inspirou-se em Burton. o sair da linha reta da lei divina.)” (BURTON. A Sra. diferentemente do bibliotecário. de “Poema conjectural”. Se. 69). 108). e talvez infinito. 70). o círculo está associado ao significado demoníaco. que pode ser vista como o mundo: “O universo (que outros chamam a Biblioteca) é composto de um número indefinido.

Xavier. não desistindo de sua procura. Xavier faz parte de uma galeria de personagens femininas velhas. 58). mostrando que Lispector não oferece ponto final para o enredo. Marcelo associa os labirintos formados por nove procuras do texto clariciano ao inferno dantesco. Nádia Gotlib. o labirinto da Sra. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. Jorge B. prossegue em torno de uma praça dentro de um táxi. correspondendo à procura em que a Sra. escreve no Jornal do Brasil. mas também em tempos cada vez menores em uma espécie de afunilamento. depois para o banheiro e termina em seu próprio corpo (labirinto do desejo). O último círculo é gélido. já que antes de morrer afirma: “tem! que! haver! uma! porta! de saííííííída!” (LISPECTOR. contrariando a proposta de Edgar Allan Poe. exatamente o número de buscas da Sra. p. que inicia no Maracanã. p. Marcelo Pen Parreira em “A cabala do Maracanã” percebeu um diálogo desse escrito com A divina comédia. segundo o crítico: “1ª procura – conferência/ 2ª procura – duas damas e um cavalheiro/ 3ª procura – saída do Maracanã/ 4ª procura – rua da conferência/ 5ª procura – “labirinto da espera”/ 6ª procura – apartamento no Leblon/ Sono/ 7ª procura – echarpe/ 8ª procura – letra de câmbio/ 9ª procura – pensamento sublime” (PARREIRA. Além disso. 420). p. que em 1974. ano da publicação de Onde estivestes de Noite.com. progressivamente reduzidos à medida que se desce. Xavier não tem saída. que o conto é “kafkiano”. 1974. como no inferno de Dante. (NASCIMENTO.br Número 5 . 420). 4). em que está o escrito em análise. A crítica observa que o fim da história é anticlimático e para comprovar cita uma passagem do texto: “Então a senhora pensou o seguinte: na minha vida nunca houve um clímax como nas histórias que se lêem. Xavier encontra-se enregelada. Jorge B. Ela “está perdida num cotidiano sem sentido” e “perdida em labirintos que compõem a sua „via-sacra‟”.Literatura Julho de 2010 Número 5 “A procura de uma dignidade” obteve a atenção de Esdras Nascimento.revistaliteris. 1980. As procuras e perdas ocorrem em espaços. mostra que a Sra. 1995. p.Revista Litteris . dirige-se para o quarto de sua casa. A saída não pode estar associada à própria morte? A interpretação de Marcelo parece muito categórica para um texto literário que promove polissemias. 1999. de Dante. pode-se questioná-lo: a protagonista não se dá por derrotada. no dia 20 de abril. 21). p. com seus nove círculos. em seu livro Clarice Lispector uma vida que se conta. esse fim revela-se infindo já que a última sílaba da derradeira palavra do texto é átona. Para o crítico. 1995. (GOTLIB.” (GOTLIB. No inferno dantesco há nove pisos. No entanto.

2000. Joel observa que o labirinto foi estudado por Bakhtin. a relação com “A procura de uma dignidade” parece-lhe nítida: Na narrativa de CL [Clarice Lispector]. Elena Vassina. p. terminam em reticências. 114). 2004. ventre e falo são as duas partes do corpo mais propensas ao „exagero positivo‟. 2004. muitas vezes. já que ela é “a velha rica que sobrevive à custa das aparências” e “morre porque parece não encontrar na sua vida fútil a dignidade como porta de saída do labirinto no qual se encerra. Nesse caso.” (ALMEIDA. p. Tal espaço aproxima -se do mundo de Rabelais visto por Bakhtin. no molde de muitos contos de Borges. como é o caso de “A procura de uma dignidade”. Através do indefinido e do infinito. Xavier: labirinto e morte”. A dúvida permanece com o leitor.Literatura Julho de 2010 Número 5 Segundo o escritor norte-americano. 16]. Tchekhov ficou para a posteridade. Segundo o teórico russo. suas obras ficam ligadas com a eternidade da própria vida. que deveria lê-los em uma só assentada (POE. à Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. Joel Rosa de Almeida. ao escrever não opta pelos finais em fortíssimo do autor de “A queda da casa de Usher” e sim pelos intermináveis epílogos tchekhovianos. o grotesco também se organiza nos movimentos do próprio corpo assim como o Maracanã em dia atípico é descrito como „estádio nu desventrado‟. afirma que a protagonista vive a experiência de sentir-se pobre de alma diante da riqueza econômica. Tal receita.” [VÁSSINA. que faz parte do seu livro A experimentação do grotesco em Clarice Lispector: ensaios sobre literatura e pintura. Não se pode ter certeza que a protagonista achou ou não a porta de saída com a sua morte. presente em “Filosofia da composição”. 40). em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.revistaliteris. muitas obras não têm desfecho. por isso. Clarice que foi leitora e tradutora de Poe. B. que se depara não com uma finalização esclarecedora e sim inquiridora. com aquela luz divina que sempre se sente nas verdadeiras obras de arte que ultrapassam o seu tempo. afirma que o escritor russo “nunca sugere soluções para os problemas tão difíceis da vida. quando as estranhas hiperbólicas de Pantagruel são um mundo à parte nos seus deslimites. foi contrariada por Anton Tchekhov. que preferia terminar a maior parte de seus contos em pianíssimo. os contos deviam ser conclusivos ou apoteóticos e sua qualidade seria medida a partir da sua capacidade de prender a atenção do leitor. algum duplo sentido ignorado nas leituras anteriores. exigindo releituras de seus textos para que se perceba alguma sutileza.Revista Litteris .br Número 5 . como o fluxo natural da vida. no ensaio “O eterno Tchékhov”. na seção “Sra.com. sempre presentes na narrativa de Tchekhov. p.

Xavier: “De pé no banheiro era tão anônima quanto uma galinha. No Borges mirim. também engendra no conto sua corporeidade grotesco-hiperbólica. 106). No mito. no seu livro El secreto de Borges: indagación psicoanalítica de sua obra.Literatura Julho de 2010 Número 5 hiperbolização. Os caminhos tortuosos são os intestinos. que apresenta toda a grandiosidade de um reino em algumas linhas de um poema. como a enunciadora de “O ovo e a galinha” e a Sra. a ponto de inserir elementos gigantescos em espaço reduzido. em um de seus primeiros escritos. A escolha de CL pelo estádio do Maracanã. além de funcionar como labirinto que desnorteia a protagonista. em Novas conferências de introdução à psicanálise. como ela própria disse. já aparece o gosto pelo enciclopédico (ele certa vez declarou que a Enciclopédia Britânica era seu livro favorito) e pelas compilações (que resultará. Isso tudo dá início a uma progressiva Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. seguidas da boca. que sabemos se tratar ainda do maior estádio de futebol do mundo. 18). Jorge B. certa vez. pois esta é a que permite a devoração. rasgou o que escrevera. posteriormente. como o poeta de “Parábola del Palácio”. A simplificação da história coube com justeza dentro dos limites do gênero conto. faz menção ao símbolo do labirinto (o mito) que relaciona a saída do mesmo com a figuração de um nascimento anal. extrapolou as cercas que o gênero previa e. A leitura dos labirintos borgianos feita pelo crítico Julio Woscoboinik. Borges. Os minotauros borgianos talvez sejam a junção de tigres e gauchos. p. progressivamente. Já a criança Clarice. 1980. meio animal. o fio de Ariadne é o cordão umbilical e o ânus. a origem do minotauro está ligada ao estupro de uma mulher por um touro que a sodomiza e gera um ser monstruoso. foram reescritos por Borges quando criança. p. porque era um conto que não acabava mais. que também tem sua importância. Já os claricianos parecem ser a junção de mulheres e galinhas. Julio observa que Freud.com. aperfeiçoaria sua economia com estilo. Por essas duas tentativas literárias infantis podemos notar algumas diferenças entre os escritores.br Número 5 . em El libro de los seres imaginários). O mito do ser meio homem. é parecida com a de Joel. 2004. pautada em Bakhtin. junto a outros clássicos.” (LISPECTOR. a saída.Revista Litteris .revistaliteris. (ALMEIDA.

p. Mas não conseguiu: a delicadeza dele apenas a leva a um corredor escuro de sensualidade. obviamente.Revista Litteris . Jorge B.revistaliteris. Ali no banheiro. (LISPECTOR. nesta passagem: “Então a senhora seguiu por um corredor sombrio. 1980. que inclusive como na aclamada obra de Dostoievski. como ocorre em “La Biblioteca de Babel”. Lispector apresenta uma diferença fundamental com relação à obra do escritor argentino: o oscilar entre a narrativa curta e o romance (sendo inclusive considerada uma excelente romancista). defronte do espelho da pia. Era fome baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos. 18). 1980. Xavier tem alguns traços esteriotipados masculinos e está apaixonada pelo feminino Roberto Carlos: “Então quis ter sentimentos bonitos e românticos em relação à delicadeza de rosto de Roberto Carlos. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. ao que tudo indica. certa vez.Literatura Julho de 2010 Número 5 erudição do futuro escritor. Este levou igualmente a outro mais sombrio. Pareceu-lhe que o teto dos subterrâneos eram baixos”. p. a palavra “crime” é referida. afirmou: “A formação das histórias curtas é superior à dos romances. em certa passagem. Começam com uma idéia. como ocorre. quando criança. 1980. Um outro contraste: só existe em “A procura de uma dignidade” e não em “La Biblioteca de Babel” o tema do hibridismo de gênero (sexual). 1990. e então. mas se esquecem dela no segundo capítulo.br Número 5 . com febre. Clarice opta pelo diálogo com outros autores nas entrelinhas. 16) e essa mulher que tem Jorge no nome (apesar de ser do seu marido). Não era romântica. p. acaba inspirando-a também a alongar sua escrita em livros como A maçã no escuro. ela era grosseira em matéria de amor. 52). Fiódor Dostoievski parece ser evocado duas vezes: no universo subterrâneo de Memórias do subsolo e no teto baixo do quarto de Raskonikov. como “aquilo”. em que Burton e Cavalieri são mencionados diretamente.com. Estes são tão longos que os escritores perdem de vista seu objetivo e se vão pelas ramificações. livro que Lispector disse ter lido.” (BORGES apud STORTINI. O gosto clariciano por escritos compridos.” (LISPECTOR. p. como o mencionado romance dostoievskiano. que faz questão de mencionar suas leituras em seus textos. já que a Sra. Antropofagia e hibridismo habitam esse universo em que aparecem o “rosto de menina-moça de Roberto Carlos” (LISPECTOR. o mesmo acontece com o leitor. Ao escrever. Esse gênero mais extenso está ausente da produção de Borges que. 7). E a danação era a lascívia. “um conto que não acabava mais”. certa vez. de Crime e castigo.

Xavier é um pouco bicho (além de ser mencionada como uma galinha.. A Sra. um pouco Raskolnikov. 2001. Mónica. “Sra. 181-191. marzo-abril [Barcelona]. São infinitas as relações que podem ser estabelecidas.. na revista Colóquio de Letras. em maio de 1977.Revista Litteris . CABRERO. São Paulo: Cia. com suas tensões e dúvidas. p. Jorge B.Literatura Julho de 2010 Número 5 Esse texto clariciano foi publicado em Portugal. Buenos Aires: Emecé. ela também é referida como uma cadela. RJ: Vozes. Joel Rosa de. 69-75. Jorge Luis. N. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGHEANA. Obras completas. 1974. Jorge”.). a Sra. “Borges/Brasil”. “La caverna de Borges”. um pouco uma Ariadne embaraçada . “Introdução. p. Vol. mas o contrário também ocorre. ______. A experimentação do grotesco em Clarice Lispector: ensaios sobre literatura e pintura. avessos à finitude. 1979. CRAGNOLINI. p. 2004. Assim. 1984. Gregório (compilador). Também de mão dadas seguem seus demiurgos por circuitos descentrados. Anthropos: revista de documentación científica de la cultura. In: Schwartz (org. BORGES. 142/143. Buenos Aires: Facultad de Filosofia y Letras de Buenos Aires. Haroldo. n. “Borges y Nietzche más allá del eterno retorno: el infierno y la biblioteca”.br Número 5 . as the hexagon”. p. [Tradução de Davi Arrigucci Junior]. In: SÁ. O caráter masculino da protagonista da narrativa fica mais evidente na revista portuguesa. A escritura de Clarice Lispector. The prose of Jorge Luis Borges: existencialism and the dynamics of surprise.com. Raul. “God. In: Kaminsky.. das Letras. Xavier: labirinto e morte”. um pouco homem. CAMPOS. Xavier dá a mão para o bibliotecário e eles seguem enredados na busca. mostrando que Lispector contribui para o descentramento português: não só brasileiros são “influenciados‟ por lusitanos. New York: Peter Lang Publishing Inc. Borges y la filosofia. Jorge B. quando fica de quatro).. 2007. assim como ocorre em “La Biblioteca de Babel”. São Paulo: Nankin Editorial & EDUSP. 66-97. Ion T. 1994. p.revistaliteris.” ficou minúscula e é possível ler “a Sr. Francisco J. Borges no Brasil. ANTELO. graças a uma mudança tipográfica: a letra “a” da palavra “Sra.. 37. Ficções. 1. Martín. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. 417-432. 105-117. ALMEIDA. Olga de. the universe. São Paulo: Editora da UNESP.

Revista Litteris . Carlos R. 10a. 1991. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda Ed. 1994. 231-238. de Klara Gouriánova. 1980. Emir Rodriguez.Literatura Julho de 2010 Número 5 GALVÃO. p. “Clarice Lispector em sus libros y en mi recuerdo”. p. o Borges das declarações e polêmicas. POE. Carlos Mendes de. RABI. vl. p.). de Ivo Barroso]. 20 de abril de 1974. Paris. NUÑO. 2000. 1981. p. [Tradução de Vera Mourão]. 273-286. Rio de Janeiro. Julio. São Paulo: Peixoto Neto. Clarice Lispector: figuras da escrita. 2001. Leibniz et la China. Revista Iberoamericana. SOUSA. “Fascination de la Kabbale”. LISPECTOR. 1990. A paixão segundo GH. STORTINI. 2000. edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. ROY. WOSCOBOINIK. “Demiurgos: Borges e Clarice Lispector”. Paris: Vrin. “El laberinto”. 1986. p. revista e ampliada] [org. Onde estivestes de noite. Walnice Nogueira. Rio de Janeiro: Editora do Autor. janeiro 1984. [Segunda edición. MONEGAL. Clarice. ___.com. 102-103. In: As três irmãs. “O eterno Tchechov”. NASCIMENTO. O dicionário de Borges: o Borges oral. 1972. [Trad. México: Fondo de Cultura Econômica. corregida y aumentada]. edição RJ: Francisco Alves. In: Schwartz (org. El secreto de Borges. [2a. Juan. USA]. Revista Litteris ISSN 1983 7429 www. “A filosofia da composição”. “Clarice Lispector e seus bons momentos”. Buenos Aires: Grupo Editor Latinoamericano. ed. Esdras. 126. ___. 2ª. Olivier. VASSINA.br Número 5 . Borges no Brasil.. 2004. Cahier de L‟Herne: Borges. Um sopro de vida. São Paulo: Editora da UNESP. “O corvo” e suas traduções. [Pittsburgh. 4.revistaliteris. 1964. La filosofía de Borges. Jornal do Brasil. 333-346. Edgar Allan. Portugal: Universidade do Minho.