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Artigos & Fatos

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Copyright © 2011 by Henrique Mendonça

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Comissão Técnica

Carlos Augusto Tavares

Diagramação

Ruyfran Loyola Carvalho Projeto editorial

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP BIBLIOTECA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO

M495a

Mendonça, Henrique. Artigos & Fatos / Henrique Mendonça. Goiânia : Kelps, 2011.

192 p. (Coleção Anapólis em Letras, Fatos e Imagens)

ISBN: 978-85-63331-95-3

1. Literatura brasileira - jornalismo. I. Título. II. Série

295-2011

CDU: 821.134.3(81)-94

DIREITOS RESERVADOS

É proibida a reprodução total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio, sem a autorização prévia e por escrito dos autores. A violação dos Direitos Autorais (Lei nº 9610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.

Impresso no Brasil Printed in Brazil Presita en Brazilo

2011

Apresentação

A edição da coletânea “Anápolis em Letras, Fatos e Imagens” é uma iniciativa que resgata obras fundamentais para a compreensão e o acesso à cultura anapolina. Poemas, crônicas, peças teatrais, pesquisas históricas, numa variedade tão grande de propostas literárias que no seu conjunto são de uma riqueza incomensurável. Mas cada uma das obras guarda em si toda a expressão do contexto em que foram produzidas, os dilemas, o estágio de desenvolvimento das ideias e estilos literários de autores em diferentes períodos. A possibilidade de tornar todas essas ideias disponíveis à comunidade é, sem dúvida, uma ação que contribui para a formação intelectual de toda a população. A literatura, seja ela de ficção ou científica, tem essa propriedade de remontar nossa história, remeter-nos a valores e crenças, sonhos e conceitos que formam uma mentalidade. A valorização de escritores anapolinos, representativos de nosso cenário literário, é vista como de grande importância para a construção da cidadania. Ao ler esta obra, saiba que ela compõe um projeto que intenciona dar projeção ao trabalho de autores que se destacam dentre vários outros que se dedicam a expressar seus pensamentos por meio das letras. Este trabalho foi merecedor

desta publicação e representa o que há de significativo na literatura anapolina.

Augusto César Almeida Secretário Municipal de Cultura

Anápolis - 2011

Algumas Palavras

O escritor e jornalista Henrique Mendonça vem, há bastante tempo, dedicando-se ao resgate da história de Anápolis,

com ênfase na cultura local. Militando na imprensa, vem se dedicando à temática cultural: lúcidos artigos, em estilo claro e conciso, agradável e informativo. Henrique Mendonça lembra-me como este vivo Estado de Goiás foi feito à base da cooperação entre progressistas goianos

e trabalhadores e intelectuais vindos de fora - de Minas, de São

Paulo, do Sul, do Nordeste e mesmo do exterior. Povo idealista que, contribuindo com a modernização de Goiás, veio igualmente

a ter importante participação na construção de Brasília. Vivendo de seu trabalho como jornalista e redator profissional, Henrique Mendonça tem se revelado ao longo de muitos anos um exemplar e desprendido idealista, expressando, através de sua militância intelectual, um genuíno amor pela cidade e pelo Estado que o acolheram. Disso temos significativa demonstração na presente coletânea de seus escritos. Neste oportuno “Artigos & Fatos”, ele trata magistralmente de livros e autores nacionais e estrangeiros, destacando nomes goianos. Também se refere a fatos e identifica episódios fundamentais para o conhecimento da história anapolina, goiana e nacional.

Nascido que sou em Minas, mas tendo forte ligação com Anápolis - onde, menino, freqüentei os Cines Santana e Imperial,

e vendi nas ruas a Folha de Goyaz, sinto-me muito grato ao

brilhante escritor por este trabalho, em que, com mestria, registra

a contribuição anapolina em âmbito cultural e histórico. Anápolis pode orgulhar-se de ter intelectuais como Henrique Mendonça. Vale a pena ler cada tópico desta coletânea.

Miter dos Santos Fonseca - Brasília, 2011.

Sumário

Algumas Palavras

7

‘Lírios do Vale’ completa um século

13

Jarbas de Oliveira, poeta e comunicador

17

Sombras de Reis Barbudos

19

Margens do Atlântico

21

A

Volta ao mundo em 80 dias

23

Jânio Quadros escritor

25

Eram os deuses astronautas?

27

Brinco-de-rainha

29

Pela história de Goiás

31

Prisão: crepúsculo de uma era

33

Horizonte Perdido

35

Americanidade em Iracema

37

O

cordel só de luz

39

Alguns versos

41

Parabéns, Dona Loló!

43

O

Livro dos Espíritos

45

O

pomar

47

Centenário de Carlos Marighela

49

Crepúsculo

55

O

sistema Braille

57

Vinicius tem som e poesia

59

Coelho Neto - testemunha da Abolição

61

Os cavalinhos de J. J. Veiga

63

Confissão de Amor por Anápolis

65

Anápolis Centenária

67

A

Cinqüentenária

69

100 anos de esperanto no Brasil

71

O

literato João Luiz de Oliveira

73

No palco da vida

77

Coelho Vaz & a cultura

79

Encontro com homens notáveis

81

O

vôo in verso

83

2001, Odisséia espacial

85

Minha vida de casada

87

A

imprensa amordaçada

89

Os ciclos na natureza

91

Crepúsculo dos deuses

93

Porque tinha que ser - II

95

Auto-ajuda em Iron Junqueira

97

O

polígrafo Mário Ribeiro Martins

99

Huberto Rohden e a filosofia univérsica

101

Um assassino econômico

103

Dossiê Werneck Sodré

105

Barbarela, beija-flor

107

O

abolicionista do império

109

Gerundismo, praga que enfeia a língua

111

Alencar e as minas de prata

113

Consumatum West

115

Clécio Dutra, irmão camarada

117

O

sucinto Eno Theodoro Wanke

119

Memorial do Araguaia

121

O

mundo de Carmo Bernardes

123

Johnny Alf, pai da Bossa-Nova

125

De favas e favelas

127

Sal e arte

129

Capitalismo para principiantes

131

A

criptopoética de PNB

133

O

Processo Maurizius

135

Tratado da incompetência

137

Os melhores estão na política?

139

A

madona de cedro

141

Índio a bordo

143

O

Grego

Kazantzakis

145

Divas de Floradas na Serra

147

Patrimônio histórico

149

O

“X” da questão

151

Profanação do verbo

153

A Indústria do Holocausto

155

Mídias e mudanças

157

O

pior

presidente

159

Mistério da sobrevivência

161

Bernardo Sayão

163

Gustavo Barroso na cultura brasileira

165

Das presidentes e dos presidentes

167

De Santana de Parnaíba a Santana das Antas

169

Brasil perde o maior editor que já teve

177

Anápolis produzirá avião polonês

179

Anápolis tem um banco a menos

183

Contribuição para o urbanismo de Anápolis

185

O

Mundo Sem Nós

187

Goiás, Terra da Promissão

189

Henrique Mendonça

‘Lírios do Vale’ completa um século

A obra “Lírios do Vale”, de Arlindo Costa (Piracanjuba - GO, 1881 – Anápolis - GO, 1928),

completa, neste ano, um século de existência. Foi na cidade mineira de Uberaba, onde Arlindo viveu desde adolescente até pouco depois de haver se casado, com Julieta Nince, que o livro veio à luz, em 1907. Preocupada com a educação do jovem Arlindo, sua mãe, Maria Elisa, a primeira professora do povoado ainda na época da vila, não teve outro caminho senão enviar o garoto àquela cidade mineira, pois na Vila de Sant’Anna das Antas não existia curso para dar seqüência ao ensino fundamental. Ali, foi marcante a vida de Arlindo como professor, diretor de escola e jornalista, tendo deixado trabalhos no lendário jornal Lavoura e Comércio, como também na Gazeta de Uberaba e no Brasil Central. Embora publicado fora daqui, Lírios do Vale imortalizaria a verve de Arlindo Costa entre os vates antesinos. Trata-se duma coletânea de versos graciosos, muitos de natureza familiar, outros dedicados à sua Julieta; há diversos

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deles com enfoque filosófico dedicados a amigos, e outros que exaltam a terra natal cantando suas belezas e falando da saudade que levou, como, por exemplo, “Canção Goiana”:

Como são belas as plagas / da minha terra formosa! /

Que lindas são as palmeiras! / Que relva tão perfumosa! // Há muitas flores bonitas / pelas campinas gigantes / Há tantos, tantos, há vastos / buritizais sussurrantes. // De tarde, à beira da estrada, / nos arvoredos de pouso, / as seriemas entoam

/ um triste canto saudoso. // Ao pé das fontes chorosas, /

os ledos pássaros pretos, / em musical harmonia / dão seus

alegres concertos. Em 1913, Arlindo Costa retornou à terra onde residira

em menino com a mãe, o padrasto e os irmãos. Encontrou

a vila já emancipada, com o nome de “Annapolis” (sic), e

preparando-se para crescer. Tornou-se influente personagem local, atuando na política e na vida cultural do pequenino núcleo urbano. O polígrafo Mário Ribeiro Martins escreve, em seu livro “Letras Anapolinas” (Anápolis, 1984), que: Arlindo Costa, “considerado o primeiro poeta anapolino, foi também jornalista, advogado e político. Trama política o levou à morte em 4 de janeiro de 1928, por envenenamento, consoante voz corrente”. Aydée Jayme, sobrinha em primeiro grau de Arlindo, também escreve isso em seu livro “Anápolis, sua vida, seu povo” (Gráfica do Senado, Brasília, 1981). Entretanto, outro sobrinho em primeiro grau, Humberto Crispim Borges, autor

de “História de Anápolis” (Goiânia, 1975), nega essa versão

e disse, numa entrevista a nós concedida, que a morte do tio

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deveu-se a causas naturais, provavelmente mal cardíaco, e que o boato de envenenamento se deu pela crendice da população da época, pois, envolto com a política, Arlindo Costa granjeara muitos adversários inimigos.

Jornal Contexto, Anápolis, julho de 2007.

Henrique Mendonça

Jarbas de Oliveira, poeta e comunicador

N este passado 24 de outubro, o poeta, escritor e dramaturgo Jarbas de Oliveira completou 94 anos

de existência (Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1913). Jarbas, cujo nome civil é Artemídoro Alves de Oliveira, mudou-se para Anápolis em 1957, depois de passar por inúmeras cidades fluminenses e mineiras, sempre dividindo o tempo entre a imprensa escrita e a radiofônica, e o teatro. Como poeta, por onde andou foi deixando um rastro lírico, constando que foi também diretor e professor da Escola de Comércio de Ubá, em Minas. Mais tarde se aposentaria pelo fisco goiano. Em Anápolis, Jarbas vinculou-se desde logo aos jornais de maior circulação. Sua vinda coincide com a época dos preparativos da comemoração do Cinqüentenário da cidade naquele ano, cujo evento ele cobriu como repórter. Também sua passagem pelo mundo do teatro local (então muito mais atuante do que hoje) foi marcante. Escreveu na revista e foi correspondente da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

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Dos livros que publicou, podemos citar: ‘Devaneios’, ‘Inquietação’, ‘Versos’, ‘Trovas’ (poesia); ‘Relembranças’ (crônicas e reminiscências); ‘Maria’, ‘O Pintor’ e ‘Reflexões de uma Professora’ (teatro). A poética de Jarbas é leve e familiar. A poética de Jarbas é leve e familiar. De fácil apreensão, alguns de seus trabalhos chegam a ter múltiplos níveis de significação, a despeito da simplicidade com que foram escritos. Com freqüência, seus versos não usam rima, embora preservem a métrica de forma escorreita e o ritmo flua feito leite, que é um dos pilares da poesia. Jarbas foi o primeiro presidente da ULA (União Literária Anapolina), da qual foi um dos fundadores. É formado em direito e aposentado da Fazenda Estadual.

Contexto, outubro de 2007.

PS.: Jarbas viria a falecer em 2010.

Henrique Mendonça

Sombras de Reis Barbudos

S ombras de Reis Barbudos, de José J. Veiga (José Jacinto Pereira Veiga: Corumbá de Goiás, 1915 -

Rio de Janeiro, 1999), é daquelas obras que poderiam levar outro qualquer nome em vez deste. Lançado em 1972, pela Editora Civilização Brasileira, a obra concretiza em definitivo aquilo que já havia sido colocado desde “Os Cavalinhos de Platiplanto” (1959), quanto à forma de narrar e tecer a trama. Tecer, não no sentido de emaranhar episódios, porquanto o romance se desenrola em linha reta, sem interferências laterais ou entrechos adjacentes, mas no sentido de colocar os fatos na hora certa e com ligação com o passado, início da narrativa. J. J. Veiga criou e usou no Brasil, aquilo que foi sobejamente utilizado na Europa, e principalmente pelas mãos de Franz Kafka, a narração decidida e sem subterfúgios. Sem necessidade de explicações. Ler José J. Veiga é obrigar-se a crer como crêem as personagens e como afirma o narrador; é sentir-se transportado não para o mundo que ele descreve, mas para a ação que se passa naquele mundo.

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Voltando à Sombra de Reis Barbudos, escrito em plena era Garrastazu Médice, faz-nos crer em múltiplas intenções do

autor; principalmente porque ele não se refere (e nem poderia)

a fatos políticos ou conjunturas sociais da época em que o livro foi publicado, mas a um passado na própria infância. Versado no trabalho de tradução (Veiga foi redator e tradutor da editora estadunidense Reader’s Digest), deve ter sido intenso seu contato com autores do surrealismo ianque,

britânico e europeu em geral, de onde ele deve ter transportado

a temática para o falante do português do Brasil. Vale a pena conhecer a obra desse goiano de Corumbá de Goiás, que escrevia pão de queijo com chantili.

Contexto, outubro de 2006.

Henrique Mendonça

Margens do Atlântico

A lém do fato literário em si, sempre ocorre aparecer produções interessantes também na forma da

composição e do conteúdo. Em época de globalização, é de

se esperar que o contato entre escritores não se dê apenas pela

internete (o “e” final é nosso), mas de todas as formas possíveis que se apresentarem. Em 2006, foi lançado pela Editora Zeni Leal, de

Curitiba, o livro “Margens do Atlântico”, reunindo poetas brasileiros e portugueses, num esplêndido elo antológico, em que podemos sentir a maravilha da energia vérvica que há nos dois países. Os 26 poetas e poetisas que vêm enriquecer

a poesia luso-brasileira fazem-no de forma despretensiosa,

declamando seus momentos comuns e falando familiarmente das contingências alegres e tristes da vida. A goiana Maria Loussa, por exemplo, diz: “Ao acordar, grande é minha alegria / Agradeço ao Grande Deus / Por me

proteger a cada dia e / Digo pra mim mesma: sorria, / Sua vida

é uma alforria. /

” Outros versos, do português João Carlos

Ferreira Almeida dizem: “Afastas-te com galhardia / Perdes-te na ”

imensidão / Está morta a sinfonia / Estás só na multidão /

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“Margens do Atlântico” é nome apropriado. Usando

de poesia, diz na apresentação, o português Joaquim Evónio, que “há mais de 500 milhões de anos os nossos continentes estavam juntos. Depois, segundo os cientistas da Terra,

começou, lentamente, a deriva continental

este grande Oceano ouve dizer que separa dois povos irmãos,

e chora ondas convulsas que se

espraiam nas areias das duas margens

sente as dores da injustiça

Orgulhemo-nos, pois,

Hoje, quando

da originalidade, do sincretismo e das sinergias que hoje fazem da cultura lusófona uma das mais ricas do mundo”.

Contexto, janeiro de 2007.

Henrique Mendonça

A Volta ao mundo em 80 dias

J úlio Verne, famoso escritor francês (Nantes, 1828 - Amians, 1905) foi um romancista genial. Tornou-

se mais conhecido pelo entrecho de fundo técnico-científico de suas obras. Entretanto, a base tecnológica de que se valeu apenas serviu de veículo para suas idéias. Grande parte de seus livros são novelas de época, lugares e costumes. Em seu romance “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, Verne cria uma história engenhosa e verossímil, a partir da ilusão, ou impercepção, dos seres humanos quanto ao fuso horário. Viajando à pé, em lombo de animal e em lentas embarcações, o aristocrático inglês Fíleas Fogg, personagem central do romance, contorna a Terra indo de Oeste para Leste, com seu relógio ficando adiantado sessenta minutos, a cada mudança de fuso horário. A aventura teve início devido a uma aposta em que Fogg disse que provaria ser possível dar a volta ao mundo em apenas 80 dias. Em 1872, época imaginada, com toda a velocidade disponível o tempo seria de mais de quatro meses. Fogg e seu secretário Jean Passepartout (João Porta-Retrato) conseguem dar a volta, em meio a muitas peripécias.

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Na ocasião da partida de Fíleas Fogg, o Banco da Inglaterra havia sido roubado, e alguém acha que o ladrão é ele, e que ele estaria fugindo. Daí, Fogg é seguido a cada passo pelo detetive Fix, que o persegue na esperança de prendê-lo na primeira oportunidade. Logo que o aristocrata pisa de volta em solo britânico, na costa oeste, Fix lhe dá voz de prisão e o conduz ao xadrez. Mas o ladrão é descoberto e a história tem um final feliz, com Fogg liberto e socando a cara de Fix. Destino diferente e trágico teve nosso conterrâneo Jean Charles de Menezes, assassinado por ingleses policiais em 2005, por cuja inocência nosso Itamarati, em atitude pífia e tíbia, deixou de protestar de modo veraz e convincente.

Contexto, janeiro de 2007.

Henrique Mendonça

Jânio Quadros escritor

N o dia 25 de janeiro, se estivesse vivo, o ex-presidente da República, ex-governador do estado de São

Paulo, vereador e prefeito por duas vezes da capital paulista, o mato-grossense Jânio da Silva Quadros (Campo Grande, 25/01/1917 - São Paulo, 17/02/1992) teria completado 90 anos. Quando ele nasceu, ainda não havia Mato Grosso do Sul. Devido à sua vida política conturbada e desastrada,

fatos ligados à sua pessoa como professor e escritor passaram despercebidos do grande público, em que pese o sucesso alcançado por suas obras, entre estudantes e estudiosos. Em setembro de 1981, em Londres, Jânio Quadros foi entrevistado pelo jornalista José Rodrigues então editor de Economia do jornal A Tribuna, de Santos - SP. Pergunta - É voz corrente no Brasil que o senhor só possuía um terreninho em São Paulo. Mas o sr. viaja e apresenta uma situação estável. Como se explica essa sua posição? Resposta de Jânio - Bem, eu poderia remetê-lo ao Imposto de Renda. Lá está a minha declaração, que é pública. Quem deseje, pode até obter a fotocópia, tem a minha licença ampla. Mas quero contar uma coisa ao senhor. Eu ganhei uma pequena

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fortuna escrevendo. À roda de Cr$ 1 milhão (um milhão de cruzeiros), àquela época, na gramática. Ganhei outra pequena fortuna no dicionário. Quer a gramática, quer o dicionário, estão esgotados. Vou ganhar mais ao regressar, com uma nova edição ” Seu livro “Os Dois Mundos das Três Américas”, publicado em 1967, guardadas as devidas proporções é uma espécie de “Os Sertões” americano. Outras obras deixadas por Jânio da Silva Quadros foram: “Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura” (1966), “História do Povo Brasileiro” (1967, em co-autoria com Afonso Arinos), “Novo Dicionário Prático da Língua Portuguesa” (1976) e “Quinze Contos” (1983).

Contexto, janeiro de 2007.

Henrique Mendonça

Eram os deuses astronautas?

A o contrário do que muitos críticos afirmam, o escritor suíço Erich Von Däniken (Zofingen, 14 de

abril de 1935) em nenhuma parte do livro “Eram os Deuses Astronautas?” (1968) afirma alguma coisa com respeito à sua teoria, segundo a qual a Terra teria sido visitada por seres extraterrestres inteligentes, no passado histórico e pré- histórico. O próprio título do livro é uma pergunta! Tal como ocorreu com a obra de ficção científica “2001, Uma Odisséia Espacial”, de Artur C. Clarke, o livro de Däniken saiu a público às vésperas da chegada do homem à Lua, o que foi, em si, um grande momento mercadológico. Junto às freqüentes notícias sobre o projeto da Nasa, naquele momento o livro despertou grande interesse pelo espaço exterior. Não que o tema fosse novo, mas até então fôra tratado pelas editoras e divulgado quase que como um assunto esotérico. A aceitação foi tanta, que por volta de 1973 Däniken já havia vendido mais de sete milhões de exemplares em 40 línguas, inclusive português. Desde então, vários trabalhos de pesquisa na mesma linha foram publicados por ele. Parece que o livro de Däniken, abordando coisas físicas e imateriais inexplicáveis, existentes na própria Terra, como as

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pirâmides antigas, objetos arqueológicos e as lendas dos povos, acordou numa parte dos leitores alguma coisa que sempre estivera inconscientemente emudecida. Mais recentemente, ele publicou “Sim, os Deuses Eram Astronautas”. São muitos os caminhos que conduzem à forte presunção da existência de vida inteligente no espaço sideral, levando os positivistas a se calarem diante da probabilidade quando as galáxias se anunciam em bilhões elevados a bilhões. Däniken, entretanto, escolheu o que apresenta em sua obra. Contexto, fevereiro de 2007.

Brinco-de-rainha

Henrique Mendonça

“B rinco-de-Rainha” é o título de recente livro lançado pelo prosador e historiador Humberto

Crispim Borges (Anápolis, 1918), através da Editora Kelps. Há algumas décadas, ele reside em Goiânia. Com uma carreira literária edificada por um conjunto coerente de obras, o acadêmico e militar reformado Humberto Crispim desenvolveu um estilo todo próprio de escrever, conferindo ao seu trabalho uma linguagem homogênea. Muitos de seus contos contêm elementos da ficção histórica, de vez que ele conhece a arte de criar o ficcional utilizando-se dos fatos e contextos dessa natureza. Como de costume, em Brinco-de-Rainha está presente outra de suas grandes habilidades, que é a de contador de causos; esta, uma arte que conta hoje com muito poucos mestres, e Humberto a exerce de forma convincente. Embora o autor tenha seu trabalho publicado ao longo de 70 anos na imprensa goiana, foi só em 1967 que ele publicou seu primeiro livro, “Chico Melancolia” (contos), seguindo-se daí numerosa publicação, como “Cacho do Tucum”, “O vale das Imbaúbas”, “Chico Trinta” etc. Em 1972, entrou para a Academia Goiana de Letras.

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Além da vertente ficcional, outro lado incorrigível de Crispim é o de historiador perene. Em 1975, publicou “Historia de Anápolis”; seguiram-se a partir de então várias obras que registram a vida goiana. Sua obstinação como pesquisador da história de Goiás e nacional levou-o a registrar dados importantes acerca da vida e da obra de Americano do Brasil, Moisés Santana e outros vultos. Chegando aos 90 anos, o amanuense Humberto Crispim produz sua obra como sempre fez, escrevendo a lápis em cadernos com pauta. Aos noventa, como aos nove, gosta da vida do campo, do ar livre e duma boa praia de rio ou de mar. E essa sua natureza está presente em “Brinco-de-Rainha”.

Contexto, fevereiro de 2007.

Henrique Mendonça

Pela história de Goiás

T em crescido em Goiás o número dos estudiosos que analisam de forma crítica a história local desde

seu surgimento, no Brasil Colônia, aos dias atuais. De vez em quando tomamos conhecimento de que alguma obra veio a público fruto do resultado de pesquisas.

O registro histórico hoje difere muito do que foi

prática há décadas, principalmente antes da metade do século

passado, quando o fato era mencionado quase que como nota jornalística, limitando-se a fixar que tal acontecimento havia ocorrido. A narrativa tinha como objetivo apenas ordenar cronologicamente o registro de acontecimentos.

Se aquela prática era apenas narrativa, deixando de

analisar o assunto em seus meandros e implicações, não é menos verdade que em grande parte das vezes a obra era eivada de qualificativos da parte do autor, que apenas denotavam sua predileção ou repulsa pelas personagens. Isso valia para historiadores e artistas. E em Goiás, tal modalidade de publicismo histórico começou a ser modificada um pouco a partir de Antônio Americano do Brasil (Bonfim, atual Silvânia, 28/08/1892 - Santa Luzia, atual Luziânia, 20/04/1932).

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Vivendo já na República, Americano do Brasil buscou intensamente conhecer a vida do estado goiano e chegou a fazer interessantes revelações acerca de nossa história, deixando inúmeros trabalhos além da prestigiada Súmula de História de Goiás. Deixou também grande número de escritos de análise crítica sobre política e história, principalmente nos jornais da época. Foi poeta e deixou livros de poesia. Como deputado federal, Americano do Brasil foi o autor do primeiro projeto de lei que viabilizasse a implantação da capital federal no Planalto Central. Seus discursos parlamentares revelam alto grau de saber jurídico e geográfico, principalmente ao tratar de questões de limites territoriais. Com o título de “Pela História de Goiás”, vários artigos de Americano do Brasil foram reunidos pelo pesquisador Humberto Crispim Borges, e publicados em um livro pela Editora da UFG, em 1980.

Contexto, maio de 2007.

Henrique Mendonça

Prisão: crepúsculo de uma era

O bra de fácil leitura e compreensão para quem não é da área jurídica, mas tem interesse em saber

um pouco como pensam os especialistas acerca da questão prisional, é o pequeno livro “Prisão: Crepúsculo de uma Era”, da autoria de César Barros Leal, Edições Demócrito Rocha, Fortaleza, 2002. O autor é professor na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, membro da Academia Brasileira de Direito Penal e Membro do Conselho Nacional de Política Prisional e Criminal. No livro de 150 páginas, César Barros dedica dois capítulos ao menor de idade, e analisa como é tratado no direito penal desde os tempos da colônia portuguesa. No início do século XVII, cita Barros, um código de leis (Ordenações Filipinas - 1603), dizia no Artigo 134, do Livro V: “Os menores serão punidos pelos delitos que praticarem. Se o delinqüente for maior de 17 e menor de 20 anos, o próprio juiz decidirá sobre a pena a ser aplicada, e se este considerar que a pena máxima é razoável, ele a aplicará, ainda que seja a pena de morte. Se for menor de 17 anos, ainda que o delito mereça a

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pena de morte, ela de forma nenhuma será aplicada”. Barros Leal conclui pela instituição de prestação alternativa de serviços à comunidade, não só para menores, mas também para maiores. Sua argumentação é interessante e sensata, mas abarca apenas os casos de menor gravidade. Normalmente obras como essa não tratam, nem tem como tratar, a questão dos crimes hediondos contumazes. Os constituintes de 1988, ocupados em solidificar a “Anistia” (Golpe de 1979), acabaram deixando uma janela aberta para um caos proposital, ao suprimirem a Prisão Perpétua, embora até exista previsão de pena de morte, em caso de guerra declarada. Esse tema tem sido tratado como tabu, pois fala-se amiúde sobre a pena capital, mas Prisão Perpétua jamais é abordado.

Contexto, fevereiro de 2007.

Henrique Mendonça

Horizonte Perdido

O romance “Horizonte Perdido”, escrito por James Hilton (Inglaterra, 09/09/1900 - EUA,

20/12/1954), é dessas obras que condensam todo um mundo de filosofia e arte. Hilton imagina um local no Oriente, onde reina a mais formosa paz, alheia e distante de tudo o que constitui nosso agitado mundo desenvolvido. Naquelas paragens, até a idade das pessoas, ou pelo menos as condições e aparência física, paravam no tempo, permitindo que elas vivessem e se dedicassem a coisas mais substanciais e profundas da existência. O personagem principal, por nome Conway, exercia um cargo diplomático ao norte do Paquistão. Num período de agravamento das tensões políticas entre os nacionalistas do lugar e as forças de ocupação estrangeiras, ingleses e estadunidenses são retirados às pressas. Conway mais um grupo de quatro pessoas deixam o lugar viajando num luxuoso avião cedido por um marajá (a palavra “marajá” aqui tem o seu significado correto). Mas quando pensavam haver deixado para trás todo o risco e

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tensão, percebem que, na verdade estavam sendo raptados por um estranho piloto alojado na cabine da aeronave. Depois de

horas de apreensão e dúvidas, o avião cai desgovernado sobre

a neve que cobre as montanhas do Tibet. Só o piloto morreu. Os passageiros, depois de algum tempo, foram encontrados por um grupo liderado por um monge idoso, de nome Chang, que os convida a se hospedar

no mosteiro lamaísta de Xangri-Lá (em inglês, a ortografia

é “Shangri-La). James Hilton empregou símbolos de grande significação: parece que “Lá” em tibetano quer dizer “desfiladeiro”. E como o lendário conterrâneo Walter Scott, Hilton traça sua concepção de forma decidida, como um pintor

impressionista faria numa tela, deixando para o espectador

a opção de ver de perto ou de longe. Também deixou, como

Scott, u’a marca de censura à superficialidade ocidental.

Contexto, março de 2007.

Henrique Mendonça

Americanidade em Iracema

E m maio próximo, completará 142 anos a obra “Iracema” (1865), de José de Alencar (Mecejana

- CE, 1º/05/1829 - Rio de Janeiro, 12/12/1877). Dos

primeiros escritores brasileiros a se ocupar em produzir belas- letras realmente brasileiras, José Martiniano de Alencar foi

o fundador do Romantismo na prosa brasileira e, dentro do

Romantismo, o Indianismo. Iracema, a primeira vista um nome indígena, e que no romance de Alencar realmente nomeia a jovem indígena personagem central de sua creação, é, na verdade, um anagrama da palavra “América”. Com as mesmas letras escrevemos tanto uma quanto outra palavra. Concebido como alegoria da colonização européia no Brasil, pois que Alencar utiliza um vocabulário todo voltado às terras brasílicas e retrata um índio não sul-americano, mas sudeste-americano, ele não titubeia em

designar o Brasil por América, o que, aliás, era normal fazer, até

o início do século XX. De igual modo procedeu Castro Alves em

1870, com o poema “O Livro e a América”, pensando a palavra “América” como a designação de um grande continente do qual

o

Brasil é parte soberana. Também o venezuelano Simon Bolívar

e

o cubano José Martí muito prezaram a palavra “América”, pelo

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que representava quanto à emancipação cultural em relação ao Velho Mundo. Foi só a partir do grande processo emigratório europeu iniciado pouco antes da I Grande Guerra Mundial, que a palavra “América” teve o sentido pervertido. Porque os estadunidenses se autodenominam “americans”, hordas que deixavam a Europa ou por lá passavam para vir ao Novo Mundo aprenderam a designar por “americano” só o gentílico dos Estados Unidos da América do Norte, uma vez que a elite européia viajava mais para ir à parte norte das Américas, referindo-se ao povo de lá como “americano” e aos demais pelo gentílico dos respectivos países: argentino, brasileiro, chileno, mexicano etc.

Contexto, março de 2007.

Henrique Mendonça

O cordel só de luz

H á legados literários que impressionam, tanto pelo conteúdo que encerram quanto pela capacidade

de síntese com que o autor foi ungido pela inspiração: “Na natureza nada se perde, tudo se transforma”, “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, “Ser ou não ser, eis a questão”, “Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sem cessar, tal é a Lei”, foram frases expressas em algum momento por seus respectivos pensadores, quando

analisavam conclusão a que tinham chegado. Em literatura uma das leis fundamentais é a síntese, e dela se serve o poeta paraibano Paulo Nunes Batista (João Pessoa, 02/08/1924), há 57 anos naturalizado anapolino. Paulo cultiva desde jovem a arte de versejar de improviso nos eventos a que comparece. É uma habilidade que herdou dos antepassados repentistas. Ele já publicou cerca de 20 livros e mais de 300 folhetos de cordel. É um nome altamente representativo das letras goianas e nacionais. Na década de 1990 representou Goiás num evento literário em Portugal. É nome citado pelo estudioso folclorista Câmara Cascudo. Em que pese sua grande expressão na chamada poesia erudita, é no cordel que podemos encontrá-lo com tiradas

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impressionantes, como sói acontecer tradicionalmente com os vates nordestinos. Seu opúsculo “O Cordel só de Luz” é

como esses pequenos vidros de essência rara. Dele retiramos

o poema “Viver”:

Viver é seguir em frente! / Água que pára - apodrece

/ Viver é servir - só serve / semente que “morre” e cresce

Viver é fazer da vida, / a cada instante, uma Prece! // Viver é aprender da Vida / a Luminosa Lição, / é construir o destino

/ no gesto de cada mão, / é plantar paz - colher luz / no céu

do seu coração. // Viver é sentir Deus Vivo / nas Obras da Natureza, / fazer de sua existência / aquela lâmpada acesa / para abrir em toda Noite / as estrelas da Beleza!

/

Contexto, março de 2007

Alguns versos

Henrique Mendonça

E m 2003, por ocasião de seus 20 anos de existência, a Editora Kelps, de Goiânia, republicou um pequenino

livro de poesias, que marcou historicamente o início da poesia em Goiás no início do século XX. Lançado pela primeira vez em 1913, “Alguns Versos” é um livreto, pequeno em tamanho, mas grande no conteúdo. Sua autoria vem do poeta Joaquim Bonifácio (Cidade de Goiás, 1883 - Silvânia-GO, 1923), cognominado o “Príncipe dos Poetas Goianos”, e que, segundo o escritor e historiador José Mendonça Teles, exerceu o jornalismo e importantes cargos públicos. Joaquim Bonifácio foi um dos fundadores e secretário da primeira Academia de Letras de Goiás, em 1904, então presidida pela jovem Eurídice Natal e Silva, que veio a ser a mãe de Colemar Natal e Silva, que em 1939 refundou a entidade em Goiânia sob a denominação de Academia Goiana de Letras - AGL. Além de Alguns Versos, o autor publicou: “Alvorada” (poesia, 1902), “Origem e Descendência de Bartolomeu Bueno da Silva” (1914), “Através dos Séculos” e “A Descoberta de Goiás” (1920). Seus restos mortais foram trasladados para a terra natal.

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É do livro Alguns Versos o poema “NOITES GOYANAS”, que transcrevemos em sua ortografia e forma originais, conforme a edição da Kelps, de 2003:

“Tão meigas, tão claras, tão bellas, tão puras / Por certo

não ha! / São noites de trovas, de beijos, de juras / As noites de

// A lua derrama no céo azulineo / Seu manto de prata /

E

Deus. Das estrellas abrindo o escrinio, / No céo as desata

// Em Nice, em Lisboa, na Italia famosa / Taes noites não ha

//

As noites goyanas são claras são lindas, / Não temem rivaes! / Goyanos! Traduzem doçuras infindas / As noites que amaes! // Goyanos as sonham, da Patria saudosos, / Nas terras de lá ”

/

(sic)

São noites de risos, de affectos, de gosos, / As noites de eà

/ São noites sómente da Patria formosa / Do indio goià

Contexto, março de 2007.

Henrique Mendonça

Parabéns, Dona Loló!

N este 29 de março, fez aniversário uma das pessoas mais importantes para as letras e a cultura em

Anápolis, dado seu grande amor pelo belo, e sentimento de grande apreço pelas pessoas em geral. Seu nome é conhecido de todos os que de uma forma ou de outra se ligam às artes nesta cidade. A poetisa e escritora, Laurentina Murici de Medeiros (Carolina - MA, 29/03/1918), carinhosamente conhecida pelos amigos como Dona Loló, tem uma história de muita atividade no meio cultural anapolino, desde 1947 quando chegou com o esposo Adolfo Lopes de Medeiros, já falecido. Em Anápolis ela se vinculou definitivamente ao pensamento e à cultura. Formou-se em pedagogia pela Faculdade de Filosofia “Bernardo Sayão” e foi professora, vice-diretora e diretora em várias instituições de ensino, dentre as quais, os colégios Americano do Brasil, Francisco Silvério de Faria, Elzira Balduíno, Antesina Santana e Frei João Batista. No setor cultural, mais precisamente, merece destaque sua participação como coordenadora, supervisora de ensino e diretora da Escola Municipal de Artes Plásticas “Osvaldo

Verano”, à frente da qual esteve nas décadas de 1980 e 1990.

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Amante das belas letras, Dona Loló desde jovem cultivou o gosto pela poesia e pela prosa em forma de crônica. Possui grande número de trabalhos publicados em jornais e revistas de Goiás e do Brasil e em várias antologias. Publicou os livros “Folhas Esparsas” (1988 e 2007), “Pelos Caminhos da Vida” (2001) e “Retalhos da Minha Vida” (2008). Ela é membro de várias entidades, dentre elas a Academia Feminina de Letras de Goiás e o Clube Literário de Brasília, tendo recebido várias comendas e diplomas de reconhecimento. Em 1999, por sua iniciativa e empenho, tiveram início os preparativos para fundação daquele que é atualmente o grêmio literário mais atuantes que Anápolis já conheceu e tem a honra de tê-la por presidente: a ULA (União Literária Anapolina). Por tudo isso, Dona Loló, parabéns pelas 89 flores colhidas!

Contexto, março de 2007.

PS. Laurentina viria a falecer em dezembro de 2010.

Henrique Mendonça

O Livro dos Espíritos

P aris - sábado, 18 de abril de 1857. A capital francesa viveu um acontecimento de grande importância

para o pensamento ocidental e mundial, nessa data. O pedagogo e filósofo Hippolyte Leon Denizard Rivail, sob o pseudônimo Allan Kardec, lançou seu trabalho intitulado “O Livro dos Espíritos”. O evento se deu na loja da editora Dentu Librarie, na Galerie D’Orleans. Resultado de uma pesquisa realizada por Kardec, a obra tem características de reportagem, abordando indagações sobre o estado mental, emocional e afetivo do ser humano a partir do momento em que deixa o corpo físico com o episódio do falecimento, ou óbito. O texto é organizado numa seqüência de perguntas e respostas, estas últimas sendo atribuídas por Allan Kardec a espíritos [inteligências desencarnadas] de falecidos que se manifestaram durante seu trabalho de investigação científica, respondendo às perguntas que ele e seu grupo haviam preparado. Ao sistema e método que concebeu para analisar os fenômenos observados, e seu vínculo com a religiosidade do ser humano, Kardec denominou “espiritismo”.

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Depois disso, seguiram-se “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, “A Gênese”, “O Céu e o Inferno”, e outros. Alguns podem ser baixados em versão digitalizada do portal <www.dominiopublico.gov.br>. Hippolyte Leon Rivail nasceu na cidade de Lyon, em 1804. Fez os primeiros estudos na escola de Johann Heinrich Pestalozzi, em Yverdun, na Suíça. Do famoso educador, Hippolyte se tornaria um dos mais destacados alunos, e um dos maiores propagandistas do método de ensino. Adulto, Hippolyte se tornou membro da Academia Real de Arras. Entre 1835 e 1840, instalou, em sua própria residência, cursos gratuitos de química, física, anatomia e astronomia. Também deixou várias obras didáticas publicadas, sobre vários assuntos. Faleceu em 1869.

Contexto, abril de 2007.

O pomar

Henrique Mendonça

U ma das mais extraordinárias artes populares e tradicionais em todo o mundo é a habilidade

para contar histórias e casos, e causos. Vem de priscas épocas

o costume de as pessoas ficarem juntas para ouvir alguém

apresentar narrativas verídicas ou fictícias, prendendo a atenção e causando forte impressão, quando não mexendo profundamente no estado emocional dos ouvintes. Na verdade, a arte, e a ciência, do contar histórias,

e também de criá-las, são mais que milenares, e podemos

buscá-las nos livros mais antigos de todos os povos. Todavia, as histórias nem sempre são identificadas como tal, pelo fato de conjuntos inteiros delas haverem sido distorcidos

e transformados na História de determinada comunidade,

passando a ser utilizado como elemento político. Há, entretanto, histórias que nos chegaram tal como foram concebidas e com o objetivo definido de beneficiar a cada ser humano, em vez de aprisioná-lo em proveito de uns poucos “líderes”. Tanto no Oriente como no Ocidente, vamos encontrar os casos mais extraordinários; não só do ponto de vista da

história em si, mas do fundo da construção do mesmo.

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Os estudiosos afirmam que as histórias das antigas tradições de pensamento são acessíveis a vários níveis de compreensão. Os mais elementares são captados já pelo intelecto. Subindo (ou derivando) em gradação, cada nível é compreendido por uma parte do ser. Utilizando esse recurso dialético, mestres do passado transmitiram ensinamentos através de histórias, até interessantes, mas cujo fim último escapava da compreensão mental. Um desses mestres foi o xeque Muslih-ud-din Saadi, nascido em 1175 d.C., na cidade persa de Shiraz. Entre seus 22 trabalhos, que deixou em forma de livros, hoje traduzidos para centenas de línguas, por escrito e oralmente, está “O Bustan”, isto é “O Pomar”. Diz Saadi de Shiraz: “O açúcar que trago não é do que se pode comer, mas daquele com que os conhecedores da verdade podem se nutrir com respeito”.

Contexto, abril de 2007.

Henrique Mendonça

Centenário de Carlos Marighela

C arlos Marighella foi um grande ensaísta no campo teórico-político. Entretanto, não ficou apenas nisso,

que por si justificaria a admiração que muitos têm pelos seus textos, inclusive traduzidos para outros idiomas. O guerrilheiro urbano da resistência, disposto a defender com a própria vida a causa dos milhões de enganados, alguns até vestidos de farda para prendê-lo e matá-lo, como de fato o fizeram, foi um poeta incorrigível, desde jovem. Seus versos falam da justiça e adejam na brisa dos sonhos. Carlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão. Teve seis irmãos. De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo. Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado,

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prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3° ano, em 1932, quando se deslocou para o Rio de Janeiro. De 1° de maio de 1936 a abril de 1945, Marighella seria várias vezes preso. Em 1939, foi recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande, onde passou seis anos dirigindo sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de reclusão. Anistiado em abril de 1945, com a deposição de Getúlio

Vargas, e convocadas eleições gerais, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Proferiu, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no pais. Com o mandato cassado pela repressão que o governo Eurico Gaspar Dutra desencadeou contra os comunistas (após o fim da 2º Guerra Mundial e com a criação da ONU), Marighella retorna à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu martírio. Em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo, contra

o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização

da economia. Redige, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises que elaborou até 1969, ano em que foi assassinado. Visita a China Popular e a União Soviética, e anos depois, conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências revolucionárias vitoriosas daqueles

paises. A partir do golpe militar de 1964, Marighella intensifica

o combate à ditadura que se seguiu, utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo, e sob o terror policial.

Henrique Mendonça

Em 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, pediu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional. Marighella criticava o imobilismo do partido que o ameaçava de expulsão por pretender participar dum congresso da OLAS - Organização Latino-Americana de Solidariedade, em Havana. Fundou a ALN - Ação Libertadora Nacional, para, de armas em punho, enfrentar a ditadura. Ao longo de sua vida de intelectual, Carlos Marighela deixou incontável número de textos publicados na imprensa nacional. É através desse material que se conhece a maior parte de suas idéias. Dos livros que falam da presença de Marighella, talvez o mais conhecido seja “Batismo de Sangue”, de Frei Beto. Já “Escritos de Carlos Marighella”, é importante coletânea de artigos e análises de Carlos, publicados no Jornal do Brasil. Marighela sonhou um Brasil e uma América Latina feitos para o ser humano viver dignamente. Seu sonho era ambicioso. Talvez ele sentisse vergonha de muitos ditos progressistas de hoje, como sentiu dos camaradas que não se habilitaram em se fazer presentes quando ele e toda a Nação, mais necessitavam. O endurecimento do chamado “regime militar” (na verdade o aparelho militar foi apenas utilizado por golpistas burgueses, que difundiram a denominação “golpe de direita”), a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Sua participação como consultor espiritual do seqüestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, em 4

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setembro de 1969, é pouco difundida, pois Marighella veio

a

ser assassinado exatamente dois meses depois. Entretanto,

o

sucesso do Movimento Revolucionário 8 de Outubro

(MR-8) carioca na operação, se deve à participação da Ação Libertadora Nacional (ALN), fundada por Marighella em São Paulo, no ano anterior, e liderada por ele. Marighella passa a ser apontado como “inimigo público número um” e é transformado em alvo de uma caçada sem

precedente, envolvendo toda a estrutura das policias estaduais

e das Forças Armadas.

O martírio foi noticiado a 4 de novembro de 1969.

Naquela noite, surpreendido numa emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos Marighella tombou

varado pelas balas de agentes da Delegacia de Ordem Política

e Social, sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury, o açougueiro do DOPS.

É deste jeito que Frei Beto narra a forma como foi

noticiada em primeira mão, no estádio do Pacaembu, a morte

do militante da resistência ao Golpe de 1964:

Bem que Pelé tentou. Mas não seria ainda dessa vez. Quando ele dominava a bola, o coração da torcida batia acelerado. Poderia ocorrer a qualquer momento. Rivelino, porém, roubou-lhe a noite e balançou a rede adversária duas vezes. Pelé permaneceu na soma de 996 gols ao longo de sua

brilhante carreira. Não seria ainda dessa vez que ele marcaria o milésimo gol No intervalo do jogo, a torcida movimentava-se, agitada. O cheiro de suor misturava-se ao hálito úmido do clima

chuvoso da noite quente

De súbito, um ruído metálico de

microfonia ressoou pelo estádio. Um ajustar de ferros puxados por corrente elétrica. Cessaram as batucadas, silenciaram as cornetas, murcharam as bandeiras em torno de seus mastros. O gramado vazio aprofundou o silêncio curioso da multidão.

Henrique Mendonça

O locutor pediu atenção e deu a notícia, inusitada para um campo de futebol: Foi morto pela policia o líder terrorista Carlos Marighella.

Há controvérsias quanto aos fundamentos de sua morte, relativamente à hostilização que ele sofreu da cúpula do próprio PCB; se isso não o teria deixado totalmente vulnerável. Ele que dera a vida pela existência do partido, teve que se socorrer entre alguns amigos historicamente estranhos à causa que ele professava, isto é, a alguns sacerdotes católicos romanos (padres beneditinos) que começavam a simpatizar com as propostas ditas de esquerda. O soneto a seguir, como tantos outros, mostra a habilidade do poeta Carlos Marighella na construção dos versos e no uso do vernáculo. LIBERDADE:

Não ficarei tão só no campo da arte, / e, ânimo firme, sobranceiro e forte, / tudo farei por ti para exaltar-te, / serenamente, alheio à própria sorte. // Para que eu possa um dia contemplar-te / dominadora, em férvido transporte, / direi que és bela e pura em toda parte, / por maior risco em que essa audácia importe. // Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, / que não exista força humana alguma / que esta paixão embriagadora dome. // E que eu por ti, se torturado for, / possa feliz, indiferente à dor, / morrer sorrindo a murmurar teu nome. (São Paulo, Presídio Especial, 1939).

Publicado inicialmente no Jornal da ULA, em 2003. Adaptado para esta coletânea, em 2011.

Henrique Mendonça

Crepúsculo

O mestre em belas-letras verdadeiro se denuncia pela destreza no lidar com as palavras, o que faz sempre

enxugando e sintetizando os dizeres e reduzindo o pensamento ao mínimo necessário de palavras. Em prosa, causa admiração

o texto nesse feitio e o trabalho do escritor já tem seu mérito

garantido por apenas essa qualidade. Quando, porém, a arte do beletrista ultrapassa tal habilidade e chega à capacidade descritiva dos detalhes, aí então estamos na presença de um mestre da arte de escrever; por fim, se a obra tiver significado humano universal, então estamos falando de um imortal. Goiás é um estado feliz pela existência de muitos escritores que exercem seu mister cultivando familiaridade com as letras, e vários são portadores de tais predicados. Um nome que precisa ser mencionado na lista dos ótimos escritores de nosso estado é o do poeta e professor anapolinizado Délio Pereira da Cruz (Rio Verde - GO, 24/11/1934). Sua obra não

é vasta ou numerosa; possui publicados apenas dois livros que, porém, ao serem compulsados causam admiração pelo apuramento com que trata cada página.

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Em “Crepúsculo” (Editora Kelps, Goiânia, 2005), percebe-se o cuidado com que o autor tem a iniciativa de

ordenar o que escreveu, por natureza de cada trabalho. Assim é que o livro tem por subtítulo “Conto, Canto, Encanto”, e ele mesmo explica o porquê da divisão. Também em seu

livro anterior, “Morro e Saudade

mereceram divisão por natureza, e dele já conhecíamos a verve do poeta. Mas, no que se refere a prosa, que junto a ótimos poemas também encontramos em Crepúsculo, causa grande admiração o trato que Délio dá a esta forma de creação (é crEação mesmo que queremos dizer). Délio trabalha a madeira do regionalismo, que é a matéria-prima com que grande parte dos Grandes busca esculpir o pensamento na carpintaria da prosa, e é admiravelmente bem sucedido.

Versos” (1989) os poemas

Contexto, maio de 2007.

PS: Délio da Cruz viria a falecer em abril de 2011.

O sistema Braille

Henrique Mendonça

Há 183 anos os deficientes visuais têm acesso a um sistema de escrita e leitura bastante prático e eficiente. A solução foi dada pelo francês Louis Braille (1809-1852), que ficou cego aos três anos e aos quinze concebeu um modo de escrever que suprisse a necessidade dos portadores de deficiência visual. Utilizando a habilidade tátil, que é bem mais desenvolvida nos cegos, Louis Braille elaborou o sistema que passaria a levar seu nome. O princípio dessa escrita consiste num pequeno agrupamento de seis pontos em relevo, chamado “Célula Braille”. A partir desses pontos, e de acordo com sua disposição, é possível escrever tudo o que se escreve para os não deficientes, inclusive a notação musical e outros símbolos. O Braille chegou ao Brasil em 1850, através de José Álvares de Azevedo, um rapaz cego, que estudou na França. Outro fato interessante para nós brasileiros é que a primeira obra publicada em Braille foi editada com recursos doados pelo imperador D. Pedro II; trata-se de um livro didático de leitura em português, lançado na França, em 1854. Já no século XX, em 1965 houve um incremento para utilização do Sistema Braille em matemática e disciplinas técnicas, o que tornou possível aos cegos terem acesso aos estudos científicos com mais facilidade.

Artigos & Fatos

A forma mais simples utilizada para se escrever em Braille é com o emprego de uma prancheta, denominada “reglete”, e um punção. Existem também máquinas de datilografar e, atualmente, a escrita através de computador pessoal, que veio facilitar o processo de impressão seriada. Em Anápolis, a Biblioteca Municipal Zeca Batista conta com um departamento especializado em livros e literatura em Braille; seu endereço é Avenida Miguel João, 251, próximo ao Colégio Einstein*. O telefone para informações é 3902- 1013. Outra organização que se dedica ao assunto no Brasil é a Associação de Deficientes Visuais e Amigos - Adeva, cujo portal é <www.adeva.org.br>.

Contexto, maio de 2007.

* Depois, a Biblioteca Zeca Batista transferiu-se para a sede original, na Praça Americano do Brasil.

Henrique Mendonça

Vinicius tem som e poesia

U m dos maiores poetas do Brasil, o carioca Vinicius de Moraes (19/10/1913 - 09/7/1980), nasceu

Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, e vivendo uma segunda fase do modernismo (chegou a convier com Manoel Bandeira, com Oswald e com Mário de Andrade), escreveu centenas de poemas do mais alto nível, como também compôs centenas de músicas populares, para as quais transpôs seu conhecimento da língua culta. Foi através da MPB que Vinicius de Moraes se fez notável popularmente, sem, contudo, sacrificar a qualidade em proveito de lucro monetário. Fazer um poema e compor a letra de uma música popular são coisas parecidas. Há poemas que musicados se transformam em letras de música; entretanto, nem sempre uma letra, desvestida da melodia e do ritmo em que foi concebida, se faz poema. Uma canção, por bela que seja e com letra até interessante, privada da música que lhe serve de veículo não se constitui necessariamente em poesia no sentido estrito da palavra, nem significa que o compositor seja poeta; pode ser que sim, se for iluminado pela verve que alimenta o artista, como foi o caso de Vinicius.

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Em música popular, é freqüente a parceria entre letrista e músico, bem como o intercâmbio na composição da letra, o que não é normal em poesia. Vinicius de Moraes, através dos tempos, compartilhou sua poética com excelentes compositores, como, por exemplo, Antônio Carlos Jobim, Carlos Lira e os violonistas Baden Powell e Toquinho. A obra literária de Vinicius de Moraes compreende os livros “O caminho para a distância” (1933), “Forma e exegese” (1935), “Ariana, a mulher” (1936), “Novos poemas” (1938), “Cinco elegias” (1943), “Poemas, sonetos e baladas” (1946), “Antologia poética” (1955), “Livro dos sonetos” (1957), “Novos poemas II” (1959), “Procura-se uma rosa” e “Para viver um grande amor” (ambos de 1962), “Para uma menina com uma flor” (1966, de crônicas), “A arca de Noé” (1970, poesia para crianças).

Contexto, maio de 2007.

Henrique Mendonça

Coelho Neto - testemunha da Abolição

O s 70 anos de vida de Coelho Neto (Caxias - MA, 1864 - Rio de Janeiro, 1934) coincidem com um

agitado período político e cultural, tanto no Brasil quanto no mundo. Filho de um comerciante português e uma aborígine, aos seis anos de idade Henrique Maximiano Coelho Neto muda-se com a família para o Rio de Janeiro, que vivia o entusiasmo do Segundo Império. Dessa época até 1885, dedica o tempo aos estudos. Cursa direito, mas abandona a faculdade e entra de corpo

e alma na Campanha pela Abolição da Escravatura. Em

jornalismo, Coelho iniciou carreira ligando-se a José do Patrocínio, cuja Gazeta da Tarde era uma espécie de órgão oficial do movimento abolicionista. A seguir, une-se a intelectuais da chamada “boemia

literária”, dentre eles Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac e Francisco

de Paula Ney, e em 1891 dá início à carreira de escritor, publicando

“Rapsódias”, uma coletânea de contos. Dois anos depois sai seu primeiro romance, “A Capital Federal”. Daí por diante, o nome de Coelho Neto não mais deixaria de freqüentar as colunas dos jornais e prateleiras das livrarias

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do país. O apogeu de sua carreira de escritor foi atingido em 1898, com a publicação de 11 volumes, destacando-se “O Morto”, “O Romanceiro” e “O Paraíso”. Ativista político que se revelara durante a campanha abolicionista, Coelho Neto teve seu nome eleito deputado federal pelo Maranhão em 1909, e reeleito por duas legislaturas consecutivas. Nesse ano, também seu trabalho como dramaturgo recebe consagração com a peça “Bonança” sendo encenada na inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Coelho Neto teve o grande mérito de ser prolífero sem cair em mesmice ou adotar lugares comuns, ou valer-se de formas feitas. Possuía personalidade própria. Coelho Neto foi testemunha ocular da abolição oficial da escravatura no Brasil, perlustrando a intimidade dos bastidores políticos da época e estudando as raízes do crime secular. Saiu indene. Não tiveram igual sorte os contemporâneos Euclides da Cunha e Americano do Brasil, pesquisadores da história extra-oficial de nosso país.

Contexto, junho de 2007.

Henrique Mendonça

Os cavalinhos de J. J. Veiga

S e fosse descrever o conto que dá nome ao seu primeiro livro, o goiano José J. Veiga (José Jacinto

Pereira Veiga: Corumbá de Goiás, 1915 - Rio de Janeiro, 1999), provavelmente diria que “Os Cavalinhos de Platiplanto” (1959)

é uma dessas historinhas que a gente conta quando quer fazer

criança dormir. E, decerto, se fosse contá-la iniciaria daquele jeito tradicional: “Quando eu era menino ” J. J. Veiga usou em seus trabalhos uma forma de narrar que demonstra decisão, sem subterfúgios e necessidade de explicações. Ele narra os fatos que vão saindo de sua imaginação embainhados em coerência e verossimilhança, mesmo que sejam coisas surrealistas. Começa a dizer e não pára para dar explicações, que são desnecessárias, pois que seu leitor já deve ter entrado numa espécie de sala mental, ou virtual, onde sua narrativa é perfeitamente natural e, portanto, não há que causar estranheza. Conforme escrevemos em outra parte, ler José J. Veiga

é obrigar-se a crer como crêem as personagens e como afirma o narrador; é sentir-se transportado não para o mundo que ele descreve, mas para a ação que se passa naquele mundo.

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José J. Veiga tem a inocência do infante, que acredita nas coisas que os mais velhos lhe contam, e é nessa beatitude que um personagem de “Sombra de Reis Barbudos” chega a dormir com a própria tia bolinosa, na mais completa ausência de libidinosidade ou escrúpulo. Já em Cavalinhos de Platiplanto, temos uma cena mais tênue, porém tão natural em narrativa quanto àquela. Como redator e tradutor da editora estadunidense Reader’s Digest, José J. Veiga deve ter tido apreciável contato com autores do surrealismo ianque e britânico (ele foi locutor da rádio BBC de Londres), de onde deve ter haurido a influência que transpôs para suas obras com esse gênero pouco freqüente no Brasil.

Contexto, junho de 2007.

Henrique Mendonça

Confissão de Amor por Anápolis

O manancial artístico e cultural de Anápolis, em termos humanos, é motivo de glória e orgulho a

todos que amam esta cidade e se sentem por ela acolhidos de

forma afetuosa. Através dos anos, foram muitos os anapolinos natos ou adotivos que deixaram seu sentimento de gratidão registrado em poesia, cantando o bem que a cidade lhes faz ou fez sentir. Adentrando o mês em que comemoramos o centenário de emancipação política da querida urbe, achamos por bem assinalar alguns desses poemas que, de forma feliz, cantaram nossa cidade. O que vem a seguir tem o título acima; é da autoria de Paulo Nunes Batista e data de 1957, ano do cinqüentenário da cidade. O paraibano anapolinizado marca com a perícia de artífice do cordel esta interessante homenagem brejeira:

Respirei o ar de Anápolis / e me anapolinizei; / ainda que eu vá pra China / desta terra anapolina / nunca me esquecerei. // Esta Anápolis tem coisas / que outras cidades

/ Eu gosto da liberdade / e amo Anápolis, cidade /

não têm

de todos e de ninguém. // Anápolis, cidade livre / que a todos recebe e ampara / e onde “vivem em sua terra” / sem ninguém

Artigos & Fatos

fazer-lhe guerra / gringo, turco e “pau-de-arara”. // Anápolis que ora festeja / meio século de idade / e está cada vez mais

// E

esta Anápolis tem tudo: / tem até mesmo garoa / tem um frio tão gostoso / que deixa um sabor saudoso / dentro da alma

da pessoa

Jesus

// Anápolis já foi “Anápolis / a

/ - Hoje, com botas de asfalto / para frente

capital da poeira

e para o alto / vai numa grande carreira! // Quem quer falar

/ Parece que foi

mal de Anápolis / não fale perto de mim

feitiço

nova / dando a mais lídima prova / de sua vitalidade

// Anápolis tem uma praça / que se chama Bom

/ que, seguindo a lei divina, / toda noite anapolina

/ muitos amores produz ”

/ mas se foi, que é que tem isso? / - Gosto dela mesmo

assim. (Poema extraído do livro “História de Anápolis”, de Humberto Crispim Borges, edição de 1975).

Contexto, junho de 2007.

Henrique Mendonça

Anápolis Centenária

N o ensejo do mês em que comemoramos o jubileu centenário de nossa cidade, estamos registrando

alguns poemas que foram a ela dedicados. O primeiro deles está incluso no livro “Anápolis Centenária em prosa e verso”, que será lançado por ocasião dos festejos do Centenário, neste mês. O segundo foi publicado em março de 1978, provavelmente através da imprensa, pois a data que temos precede a publicação do primeiro livro de Haydée Jayme. “SONETINHO”, de Eraldo Silva Batista: Colherei em

algum jardim, cem flores, / e, a ti darei,

centenária menina!

/ Por gratidão, pela lição que ensinas, / Terra Amada, por tantos amores. // Em cada uma destas flores, porei um

/ recolhidos

é

sorriso; / Amada Mãe de tantos filhos amados

no teu seio, ou de teu ventre gerados, / pois, ser teu filho

incomensurável regozijo! // No teu aniversário de cem anos,

/ nós, os teus filhos, te cantaremos loas, / e, de alegria e de

a harmonia

e a suavidade que ressoas, / enfim se dissiparão nossos

beleza, construiremos planos. // E, na cantiga

desenganos

/ Anápolis, Mãe Amada, que aos teus filhos

abençoas!

Artigos & Fatos

“ANÁPOLIS”, de Haydée Jayme Ferreira: Quero

escrever o nome de Anápolis / com os raios de ouro do sol /

e com o clarão brando da lua, / que beija a minha terra / em

noites de abril. // Quero escrever o nome de Anápolis / com o

brilho das estrelas / na profundidade azul, / e com a simetria / do Cruzeiro do Sul. // Quero escrever o nome de Antas / com

o sangue vermelho, / que irrigou as fibras / de seus pioneiros,

/ com o verde das matas / da cor da esperança / dos filhos

primeiros. // Quero escrever a História / de um povo sofrido / com o suor da luta / pelo rincão querido. // Estou escrevendo

/ o nome de Anápolis / com palmas e louros, / com sangue e com alma, / com tudo que vibra / em meu coração!

Contexto, julho de 2007.

Henrique Mendonça

A Cinqüentenária

A nápolis viveu os primeiros momentos de seu segundo século com a partida de um grande e

importante amigo da cidade, o jornalista e editor Raul José dos Santos (Romaria - MG, 31/03/1920 - Anápolis, 03/08/2007). As palavras a seguir mostram a dimensão de seu gosto e carinho pela cidade.

A idéia de se imprimir uma revista para comemorar o

cinqüentenário de Anápolis partiu de dois homens simples:

Celso Edmar Gomes e Waldemar Epaminondas Pereira. O intuito desses modestos anapolinos era presentear a cidade, pelos seus cinqüenta anos, com uma publicação condigna, que apresentasse tudo de bom que a cidade possui. Mas, como

financiar a obra? Falaram comigo. Gostei da idéia e falei com

os amigos. Todos nos ajudariam. Ficamos entusiasmados.

Solicitamos a colaboração do comércio e da indústria e tivemos apoio. Era só tocar para frente. Entretanto, surgiu a grande dúvida: fazer uma revista em Anápolis? Como? Compilar a matéria, angariar os anúncios e imprimi-la em um centro maior, a obra não teria mérito. Deliberamos, então, confeccioná-la aqui mesmo. E ela aí está! Cheia de

falhas técnicas, imperfeita, mas foi feita aqui em Anápolis. Enfrentamos todas as dificuldades e vencemos. Pode não

ser uma belíssima obra, mas ela registrará em suas páginas

tudo o que a cidade tem em 1957. Queremos provar que em

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Anápolis também se pode fazer uma revista. Custa muito, mas pode. Os que nos lêem queiram perdoar nossas falhas técnicas. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, para deixar esta lembrança aos anapolinos de amanhã.

Com estas palavras de modéstia, Raul José dos Santos escreveu o editorial da revista “A Cinqüentenária”, em sua edição única, de julho de 1957, produzida nas oficinas do jornal O Anápolis. O trabalho saiu ótimo, nada ficando a dever para as melhores revistas publicadas na época. Em forma de documentário, ela tornou-se um valioso registro a respeito não só do tempo em que foi publicada, mas também da história de Anápolis desde os primórdios do povoado de Santana das Antas.

Para redigir o conteúdo histórico, Raul contou com a participação do amigo João Luiz de Oliveira, do qual escreveu:

“Sem a sua preciosa e indispensável colaboração, não nos seria possível preencher as finalidades desta revista. A parte mais importante desta publicação, que estamos legando aos pósteros, foi a ele confiada”.

Contexto, agosto de 2007.

Henrique Mendonça

100 anos de esperanto no Brasil

O ano e o mês que assistiram à emancipação política de Anápolis viram também o nascimento da Liga

Brasileira de Esperanto, ocorrido no Rio de Janeiro, antiga

capital do país. Dez dias antes de a Vila de Santana das Antas chamar-

se Anápolis, na condição de cidade, o que ocorreu em 31 de

julho de 1907, era fundada a Liga (no dia 21), com o objetivo

de coordenar, em nosso país, a atividade dos usuários da língua

internacional surgida exatamente vinte anos antes, na Polônia. Assim, a comemoração anual e periódica do mundo esperantista sobre sua data magna sempre coincidirá com a comemoração dos anapolinos em relação à elevação política do município. Grande parte dos principais congressos de esperanto, no mundo todo, é realizada em julho, porque foi no dia 26 desse mês, em 1887, que o poliglota polonês Lázaro Luiz Zamenhof publicou sua obra básica “Língua Internacional”,

uma gramática para falantes do idioma russo, explicando

o funcionamento da língua neutra que estava propondo. Convém mencionar que a preocupação em se criar uma

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língua politicamente neutra e própria para ser utilizada internacionalmente não foi sua, vinha já de séculos; Zamenhof apenas estudou a questão e elaborou uma de fato funcional. Voltando a Anápolis, há 15 anos, no mês de julho, a cidade sediou o 28º Congresso Brasileiro de Esperanto. Na oportunidade, esperantistas locais receberam quase 300 visitantes de todo o país, e inauguraram, na Praça 31 de Julho, um monumento em homenagem ao Esperanto. A obra foi confeccionada pelo saudoso artista plástico Loures.

Contexto, agosto de 2007.

Henrique Mendonça

O literato João Luiz de Oliveira

A vida traça seus rumos dos modos mais inesperados e imprevisíveis que se pode imaginar. Há histórias

de pessoas que são verdadeiras epopéias do espírito humano e

que nos fazem pensar sobre a Inteligência que a tudo preside e tudo penetra através de suas leis. Às vezes, do modo mais inesperado, alguém muda de rumo no caminho que parecia certo haver de trilhar,

e ganha novos destinos, para um lado ou para outro. Foi o

que aconteceu com João Luiz de Oliveira (Anápolis - GO, 30/10/1904 - 14/12/1969), nome importante da história anapolina. De lavrador e produtor rural ganhou as salas, os saraus e as tribunas. Nascido no campo, numa fazenda por nome “Sapato Arcado”, João Luiz dedicou boa parte de sua vida às lides rurais. Segundo ficou conhecido de todos, João Luiz pouco freqüentou a escola. Entretanto, logo se interessou pelos livros, tornando-se um dos mais destacados intelectuais de Anápolis,

e mesmo do estado de Goiás. No final da década de 1920, passa a ser um dos líderes políticos da cidade. Com a vitória de Getúlio Vargas

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na Revolução de 1930, e com Pedro Ludovico no governo de Goiás, João Luiz de Oliveira foi guinado à intendência municipal (prefeitura), ficando até 1934. Mais tarde, na década de 1950, voltaria ao cargo, como prefeito eleito. Foi também vereador. João Luiz teve importante participação na vida jornalística anapolina, e foi obstinado incentivador das atividades literárias na cidade. Em 16 de abril de 1931, fundou, com amigos, a primeira entidade literária de Anápolis, chamada “Grêmio Literário Moisés Santana”. É dele a sinopse histórica de Anápolis publicada na revista “A Cinqüentenária” (1957). Deixou milhares de publicações em jornais anapolinos e goianos. Sua esposa, Maria José Dafico de Oliveira (Dona Nenê) foi professora normalista formada pelo Instituto de Ciências e Letras de Anápolis. Não tiveram filhos consangüíneos. João Luiz foi também representante comercial de grandes marcas no estado de Goiás. Pouco depois da chegada de Vargas ao poder, João Luiz publicou o seguinte soneto, na edição de 6 de setembro de 1931, do jornal “Voz do Sul”: EXULTAÇÃO: “Meu Deus, se ter orgulho for pecado, / eu, então, sou um grande pecador, / pois, esse sentimento hei cultivado, / carinhosamente, com muito ardor. // Orgulho-me do meu querido Estado, / ao qual dedico o mais intenso amor; / e, muitas provas tenho dado, / em exaltando sempre o seu valor. // Ufano-me de em Goiás ter nascido, / este mundo até há pouco esquecido, / como se não fosse também Brasil. // Mas, com essa mudança radical, / depois da revolução divinal, / Goiás tornou-se forte e varonil.”

Contexto, agosto de 2007.

Henrique Mendonça

Juscelino Polonial e a história

O professor Juscelino Martins Polonial tem feito um trabalho de grande importância no registro da

história, não apenas de Anápolis, mas também de Goiás, e de forma integrada ou holística em relação à do Brasil, sempre lembrando, a cada passo, que os fatos e ações daqui nada mais são que parte de um grande todo. Com o olhar do mestre sociólogo, Juscelino adentra pelos meandros dos registros, realizando inventários com partilhas e responsabilizações, advertindo que aquela ainda não é a última palavra. Seu primeiro livro, “Anápolis nos Tempos da Ferrovia”, editado pelas Faculdades da Associação Educativa Evangélica (atual Unievangélica), é resultado de sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Goiás, em 1995. Seguiram-se “Ensaio sobre a História de Anápolis”, em 2000, e “Terra do Anhanguera”, em 2001, ambas pela mesma editora. O levantamento de dados e a análise científica da história não são abundantes na historiografia brasileira, embora existam nomes respeitáveis. Trata-se de um trabalho entre árduo e agradável, num ambiente mental impróprio para paixões, se o que se pretende é a busca de conclusões verdadeiras, acerca da realidade de fatos. Nem sempre isso é fácil.

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Às vezes, a relativa isenção no registro de memórias já satisfaz, porque quem lê esse tipo de registro deve ter em mente que se trata de um conjunto de fatos segundo o ângulo do narrador; porém, na análise ampla da história, a imparcialidade é fundamental, o que não significa dizer que o estudioso não possa ter sua predileção ideológica. Nesse sentido, Juscelino Polonial é bem sucedido ao transitar nesse campo.

Contexto, setembro de 2007.

No palco da vida

Henrique Mendonça

S aído da simpática e irmã cidade mineira de Araguari, que guarda apreciável relação histórica com a cidade

de Anápolis da primeira metade do século XX, vem até nós um interessante romance de época, que temos o prazer e a honra de ler: “No palco da vida”. A autora, Jessy Carísio de Paula, foi muito feliz ao abordar um tema tão importante e quase desconhecido, qual seja o da terapia das vidas passadas. E sua felicidade maior está na maneira simples e despretensiosa com que o fez, falando direto ao interior de quem tem a ventura de ler o livro. Manejando as letras mais com o coração do que com o intelecto, e usando da intuição, sentido mais sublime de que o ser humano é dotado, Jessy coloca no papel um entrecho tocante, que foge à percepção do normal do cotidiano segundo aquilo que se convencionou chamar de normal. Com base em fatos reais, ocorridos no século retrasado, “No palco da vida” (Minas Editora. Araguari - MG, 2004) é um romance baseado numa história passada no ambiente rural do Brasil Central de então; acontecimento que deixou marcas profundas na ambiência mental das personagens que dele tomaram parte.

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Jessy de Paula é promotora da cultura em sua cidade, preside atualmente a Academia de Letras e Artes de Araguari e é membro atuante da Academia de Letras do Triângulo Mineiro; também escreve para jornais e revistas.

Contexto, setembro de 2007.

Henrique Mendonça

Coelho Vaz & a cultura

E m meio às múltiplas atividades, o poeta, historiador e gestor cultural Geraldo Coelho Vaz (Goiânia,

24.09.1940) vem construindo, ao longo de vários anos e décadas, uma coletânea apreciável de versos que, se fosse para dar um nome, chamaríamos de “estilo cristalino”; bem entendido, porque guarda sugestão analógica com o cristal

translúcido. Trata-se duma poética que passeia da nostalgia ao clamor social, tendo em muitas partes, por linha tênue a unir

a obra, uma espécie de fio erótico tornando o conjunto numa só peça coerente.

Seu livro “Coelho Vaz, Poemas Reunidos” (São Paulo:

Nankin Editorial, 2004), traz versos desde sua primeira obra, “Poema da ascensão” (1963), em que lemos o POEMA DOS DESENGANOS: “Minha alma é branda / como a água

/ serena da brisa. // É tão leve / como nota amorosa / em

que se frisa, / uma dor lastimável. / É tão pura / como olhar amável / de uma linda criatura. // Minha alma vai / pela correnteza atroz / em busca de um amor. / Minha alma vem / numa solidão imensa / trazendo apenas dor.”

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Já “Goiânia 69” (2002): “Falo de Goiânia nova / moça-menina desabrochada. / No cio, na cama, / no sofá, no

tapete / os sessenta e nove / excitam-lhe mais cios / e cicios. / Goiânia excitada, / impura, desnuda / desliza pelo chão vermelho / pelas grossas árvores frondosas / no vai e vem / dos ventos, / em movimentos, / em sussurros / e gemidos.” Em CORPO NOTURNO (1990): “Te busco / no mistério de tua gruta. / E me encontro / na oferenda / de teus beijos.” E em “ÁGUAS DO PASSADO” (1986): “Sei que você morreu. / Não a vi morta, / mas sei que você morreu. // Telefonaram-me dizendo que / você estava morrendo. / Não ”

acreditei, / ninguém morre sem um adeus. / Falando acerca da obra de Coelho Vaz, o crítico e escritor Fernando Py refere que alguns dos poemetos do livro “chegam a ser pequeninas obras-primas de contenção vocabular e expressão bem acabada”.

Contexto, setembro de 2007.

Henrique Mendonça

Encontro com homens notáveis

N osso título nesta semana é o de um livro diferente na forma de se apresentar e de manter o leitor

atento ao texto. Foi escrito por George Ivanovitch Gurdjieff

(Rússia, 1877 – França, 1949). Mas quem foi esse homem? Há relativamente poucas referências acerca de

Gurdjieff, e o que se tem sobre ele foi escrito, na maior parte, por seus discípulos e ex-discípulos, de forma que sua biografia

é bastante restrita, pois o mister a que dedicou sua vida nunca foi muito atrativo para a maioria das pessoas. Mesma assim,

existe informações suficientes para que se tenha razoável idéia

a respeito. Para usarmos palavra mais conhecida, poderíamos chamá-lo de “filósofo”. Entretanto, tal definição só em parte corresponderia à realidade. Ele mesmo e as várias pessoas que com ele conviveram e compartilharam o trabalho, tornaram-se conhecidos da forma como se autodenominavam:

“buscadores”. O que George Ivanovitch Gurdjieff e seus seguidores buscavam talvez se possa depreender da instituição que fundaram, inicialmente em sua terra, e depois em Paris, em 1922, cujo nome era “Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Ser Humano”.

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“Encontro com Homens Notáveis” (em português, pela Editora Pensamento, 1980) é uma das obras desse indivíduo, que acreditava que o homem tem dentro de si enorme potencial para vencer desafios, a começar a si mesmo, e alcançar páramos desconhecidos da maioria. O livro é dividido em 10 capítulos, cada um relatando o contato que o autor teve com determinada personalidade; num deles, fala sobre o próprio pai, no outro sobre o primeiro professor, depois sobre amigo príncipe, sobre viajantes; relata acontecimentos variados, frutos de sua experiência no convívio com Homens Notáveis. Trata-se de uma obra que nos faz pensar para além do comum dos portais.

Contexto, setembro de 2007.

Henrique Mendonça

O vôo in verso

“O Vôo in verso” é um interessante livro do poeta Paulo Nunes Batista (João Pessoa,

02/08/1924). Há 60 anos ele reside em Anápolis. Neste, como em todos os demais (cerca de 15 livros publicados), Paulo Nunes não se limita a trabalhar o belo, mas realiza-o sob aspersão da filosofia. Prefaciando o livro de Paulo, diz o poeta e crítico literário

Anderson Braga Horta que “

a Poesia, propriamente,

o ar, que ele [Paulo Nunes Batista] sabe explorar em todos os quadrantes, transitando com igual desembaraço pelos

caminhos do cordel, em que é mestre sem pobrezas e sem ranços de linguagem, e pelo das formas poéticas mais requintadas, grande versejador e grande sonetista”. Como exemplo da finesse que permeia a obra “O vôo

in verso”, eis o soneto SE QUERES SER FELIZ: “Se queres

um modelo a ser seguido, / imita o Sol, esse astro Solitário,

/ e que é ao mesmo tempo Solidário, / todo em luz e energia

repartido. // É porque o Sol existe que existido / tem a vida na Terra. O necessário / calor, e a própria vida em modo vário, / é do Sol que nós temos recebido. // Nunca a ninguém o Sol

é

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nega seus brilhos. / Assim também é Deus: Ama seus filhos, / do mais perverso até a alma de escol. // A luz solar a todos ilumina, / tal como a tudo faz a Luz Divina. / Se queres ser feliz, imita o Sol! ” A Televisão Senado preparou uma entrevista com Paulo Nunes Batista, que irá ao ar neste sábado (06/10), às 16 e às 21:30 horas, e no domingo (07/10), às 22 horas.

Contexto, outubro de 2007.

Henrique Mendonça

2001, Odisséia espacial

S egundo o romance de Arthur C. Clarke, numa missão espacial secreta dos Estados Unidos da

América do Norte, que se passaria em 2001, a nave planetária “Discovery” singra o espaço buscando descobrir a origem de um instrumento em forma de monólito (pedra inteiriça

e de grandes proporções) que seres de outras partes do

universo haviam deixado próximo à Terra para observar o comportamento dos homens. A Discovery é praticamente uma enorme cidade

espacial concebida para uma viagem nunca dantes imaginada.

E embora tripulada por competentes cientistas da nata da

agência espacial, o comando geral e a palavra final estavam nas mãos de HAL (cada letra, respectivamente uma antes de IBM), um computador tão extraordinário que se podia comparar a seres humanos. Esse HAL filosofava, jogava xadrez, e em alguns momentos até deixava trair uma certa dose de presunção e ciúme. De alta sensibilidade, podia ler a conversa dos tripulantes pelo movimento dos lábios. Num dado ponto da viagem, por acharem HAL muito incompreensivo e frio nas avaliações que fazia, tramaram

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desativá-lo parcialmente, projeto que foi fatal para quase todos, pois o computador eliminou um a um, inclusive três dos astronautas que viajavam em estado de hibernação para serem despertados oportunamente. Apenas restou Bowman. Depois de grande sacrifício e muita luta; não contra algum robô, pois HAL era a própria estrutura pensante da nave, mas contra o tempo, desativando a programação que alimentava HAL, Bowman consegue finalmente livrar-se daquela inteligência, que fôra mais um estorvo do que mesmo um orientador. Arthur Clarke deve ter utilizado, no romance, elementos hauridos na região hindustânica, onde conviveu com mestres espirituais por longos anos. Seu livro baseia-se no roteiro cinematográfico que ele e Stanley Kubrick escreveram; foi lançado em língua portuguesa em 1968.

Contexto, outubro de 2007.

Henrique Mendonça

Minha vida de casada

“C asei-me com João Alves Teles, conhecido por Nêgo Teles, no dia 15 de fevereiro de 1930, às

cinco horas da manhã, na igreja de Bela Vista de Goiás. Eu tinha 18 anos e ele 22. O Nego era muito apressado, quis o casamento nessa hora dizendo que precisava abrir sua loja em Hidrolândia, que nessa época se chamava Santo Antônio das Grimpas ” É assim que Celuta Mendonça Teles (1911-1995) inicia seu livro de memórias “Minha vida de Casada” (Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2006), denúncia póstuma narrada em ritmo de resignação. Celuta ficara viúva em 1977, aos 47 anos de casada; além de resignação, face ao sofrimento e às turbulências conjugais, o amor aos filhos e a fé em Deus. A narrativa, em tom de naturalidade e sem artificialismos é tocante, valendo por documento que retrata um lugar do mundo e uma época ainda sacudida pela mesma ressaca das caravelas. “Um dia, antes do almoço, ele estava no telefone conversando com uma mulher e eu atrás dele, escutando. Daí, ele falou: - ‘Então, está certo, eu vou encontrar com você lá na

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Praça Cívica’. Nessa hora, eu passei um susto nele. Gritei no

telefone que ele não ia, que ela não precisava esperar, que eu ia também. Ele disse: - ‘Que susto que levei, Celuta, você faz ”

cada uma!

Conforme explica um dos filhos de Celuta, o escritor e historiador José Mendonça Teles, o livro foi o segundo que sua mãe deixou. Depois de lançar “História da Menina de Pirenópolis” (1991). Diz José: “entusiasmada com o sucesso familiar de seu livrinho, que mereceu uma segunda edição, minha mãe pediu mais cadernos e quando ela faleceu, em 11 de maio de 1995, deixou um caderno de 200 páginas manuscritas, contando sua vida de casada, outro caderno registrando as histórias que ela ouviu contar, quando menina e mais outro contendo orações e as letras das canções de seu tempo, valsas e modinhas, principalmente”.

Contexto, outubro de 2007.

Henrique Mendonça

A imprensa amordaçada

C om o título “A Imprensa Amordaçada, Contribuição à História da Censura no Brasil - 1964 - 1984”, a

editora Contato Comunicação, de Goiânia, publicou, em 2004, um livro contendo um conjunto de depoimentos do jornalista Jávier Godinho (Cidade de Goiás, 1936). O livro supre a falta de registros mais precisos sobre fatos ocorridos em solo goiano naquele período. Como o próprio subtítulo anuncia, a “mordaça” refere- se ao Golpe de 1964 e seus conseqüentes desdobramentos. Dentre vários, um dos fatos narrados desce à concessão, pela Assembléia Legislativa, em 1972, e com apoio do então governador Leonino Caiado, do título de cidadão goiano ao empresário dono das Organizações Globo, Roberto Marinho. Segundo Jávier, a idéia teve origem na mente do jornalista Leonídio Barros, diretor da sucursal de Brasília “transferido para o Estado do Rio, com muitas vantagens financeiras”. Marinho caíra nas graças dos gestores do golpe, enaltecendo através de seus veículos o “Milagre Brasileiro”, enquanto centenas de jornalistas e mesmo donos de jornais eram perseguidos pelo mesmo aparelho que protegia Roberto Marinho.

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“Ele não precisa de nada, porque possui tudo. Mas ficará muito feliz sendo cidadão goiano”, disse Leonídio Barros. Perguntaram: “Ele já veio alguma vez àqui?” Leonídio respondeu: “A Goiás mesmo não, mas esteve em Brasília, que afinal é a mesma coisa, pois o quadrilátero do Distrito Federal fica dentro deste Estado”. O deputado Paulo Rezec foi o autor do projeto de concessão, rapidamente aprovado por unanimidade Diz Jávier que “a entrega do título quase foi feriado estadual”. Durante o discurso que fez, Marinho trocou várias vezes os nomes de Clube Jaó por “Clube Joá”, e município de Itaberaí por “Itaboraí”.

Contexto, novembro de 2007.

Henrique Mendonça

Os ciclos na natureza

“T rabalhando em silêncio por trás das cenas, milhares de cientistas em campos tão sem

relação entre si como história, botânica, antropologia, estudo dos mamíferos, magnetismo terrestre, sociologia e economia - para mencionar apenas uns poucos - estão acumulando fatos

e números que prometem transformar em parcial realidade o

antiqüíssimo sonho de prever o futuro. Uma nova ciência que estuda o comportamento de fatos que se repetem a intervalos razoavelmente regulares em todo o universo pode, finalmente, permitir-nos prever científica e exatamente, os eventos do amanhã.” Para entendermos esta afirmação, só mesmo lendo o pequeno livro em que ela se insere, e que tem por título “Ciclo, as forças misteriosas que guiam os fatos” (no Brasil, pela editora Record, 1970). Trata-se de um trabalho conjunto de Edward R. Dewey (EUA, 1895-1978), presidente da Fundação para Estudo dos Ciclos <www.foundationforthestudyofcycles. org>, e Og Mandino (EUA, 1923-1996), autor, dentre outros títulos, de “O maior vendedor do mundo”. O assunto tratado pelos autores é por demais intrigante,

e leva a pensar. Eles sustentam a tese, com base em gráficos,

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números e relatórios, de que ondas de fatos naturais, e também de ingerência humana, ocorrem em períodos com intervalos razoavelmente regulares. Para provar o fato, há no livro centenas de exemplos, que vão de épocas de incidência de chuvas em várias partes do mundo, até picos ou abismos alcançados por bolsas de valores; de períodos de guerras intensas, até as intensas extrações de algum minério, ou consumo de algum produto. Atividade imobiliária, produção de cigarros, construção de prédios residenciais, plantio de trigo, surto de esquilos e de ratos e de insetos, acidentes de todos os tipos, tudo tem apreciação no campo de estudo cíclico. As contas não se apresentam necessariamente com o tempo expresso em número redondo; por exemplo, houve um ciclo de 18,2 anos de imigração nos Estados Unidos, de 1824 a 1950, ou seja, há cada 18,2 anos daquele período de 126, ocorreu uma elevação coerente na chegada de estrangeiros naquele país. É interessante, que ciclos de vários fatos coincidam em freqüência e ocorrência.

Contexto, novembro de 2007.

Henrique Mendonça

Crepúsculo dos deuses

E m Axtlan a duração do dia é de 38 horas terrestres, já que o diâmetro do planeta é de 23.418 quilômetros

em seu equador. Lá, o ano demora 84 dos terrestres, ou seja, “na Terra, o movimento denominado translação ocorre 84 vezes mais rápido”. Assim relata o livro Crepúsculo dos Deuses (Casa dos Espíritos Editora, Contagem - MG, 2002), uma ficção histórica do autor Ângelo Inácio, escrita através do processo psicográfico por Robson Pinheiro <www. robsonpinheiro.com.br>. De texto limpo, objetivo e direto, como deve ser um romance de época contemporâneo, Crepúsculo dos Deuses interliga momentos da humanidade desde as cavernas até o imperialismo megaegômano e homens-bomba. O argumento tem a verossimilhança necessária para o gênero entre ficção científica e espionagem, com fundo moral de profundidade. A introdução lembra, de leve, “2001, odisséia espacial”, mas logo sai para narrativa e forma totalmente diferentes. Seres vindos de um sistema planetário distante 42 anos- luz da Terra chegaram no bojo de um cometa. Certamente não em seus corpos físicos, pois que o bólido se espatifou contra

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o planeta dos dinossauros, ocasionando total destruição.

A questão agora era como encontrar meios para possuírem

corpos físicos adequados ao planeta em que se encontravam. Ao depararem com alguns escassos terrícolas sobreviventes, pouco mais que pós-hominídeos, entraram a conjecturarsobreoquepoderiaserfeitoemtermosdeadaptação. Os chegantes eram evoluidíssimos tecnologicamente falando,

mas se encontravam na Terra na condição de degredados, por haverem utilizado mal as benesses de seu mundo original. Um deles após várias apreciações de cada um, apoiou a sugestão: “Exatamente! Façamos o homem à nossa imagem

e semelhança!” Alguns milhares de anos mais tarde, por

confusão, ignorância ou má fé, esse ‘deus’ passaria à história ocidental como sendo Deus, a essência suprema e imanente no Universo.

Contexto, novembro de 2007.

Henrique Mendonça

Porque tinha que ser - II

I ron Junqueira (Brazabrantes, antigo distrito de Anápolis - GO, 22/12/1938) é um dos mais prolíferos escritores

goianos. Não há qualquer dúvida sobre isso. Seu trabalho em verso e prosa se estende por quase uma centena de títulos, de textos compostos ao longo de meio século de pensamento e meditação, ao longo de dias e madrugadas de reflexão. Além de haver militado no rádio e na imprensa escrita,

Iron erigiu, através desse tempo, um vasto acervo abordando os mais variados temas, sempre tendo presente a ética e o amor ao próximo, coisa que ele hauriu dos pais e da vida. Agora, aparece mais um livro de sua lavra: “Porque Tinha que Ser”. Em algum lugar do livro podemos ler: “Muitas vezes, nos julgamos vítimas de incompreensão. Todavia, às vezes

Se já entendemos que nem

não somos vítimas, mas algozes

todos têm o entendimento que temos, cabe-nos silenciarmos

em torno de determinados assuntos, para não cairmos vítimas

de

ouvirmos e calarmos, porque nem todos têm o entendimento

E já acrescentava o pensador cujo nome não

que temos

Recordemos

a necessidade de vermos,

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recordamos no momento: “às vezes, é preferível calar-se, para que fale o pior dos tolos”. E depois: “Não caias na asneira de confiar as tuas experiências a todos; não fales de mares e oceanos, de montanhas e céus a um sapo que conhece, apenas, a estreiteza do poço onde nasceu e sempre viveu, ou serás alvo do escárnio e indagações tolas ” Há crônicas sobre diversos temas, e Iron, de forma toda própria, deixa entrever, em cada uma delas, as possibilidades do perdão, do silêncio e da fé. Com a venda de seus trabalhos ele obtém subsídios para melhor manter o Lar da Criança Humberto de Campos, que ele fundou e mantém com a esposa, desde 1968.

Contexto, dezembro de 2007.

Henrique Mendonça

Auto-ajuda em Iron Junqueira

O gênero literário de auto-ajuda é relativamente recente no Brasil. Até o final da década de 1950,

poucas eram as editoras que se dedicavam a esse campo de publicação, cujo pioneirismo é da Editora Pensamento, fundada na Paulicéia em 1907, por Antônio Olívio Rodrigues, e seguida em 1957 pela a Editora Cultrix, do mesmo grupo. A Pensamento dedica-se a uma linha editorial que por muitos séculos ocidentais foi tida por esotérica (leia- se “herege”), mas também ponteada por textos tidos por politicamente corretos, como “Alegria e Triunfo” do filósofo Lourenço Prado, por exemplo. O título mais conhecido talvez seja “Hei de Vencer”, de Arthur Riedel. Quase todas essas pioneiras tinham algo semântico que as ligavam de alguma forma às dos britânicos e estadunidenses, em que pontificaram, dentre outros, Prentice Mulford e Napoleon Hill. Hoje, entretanto, há uma auto-ajuda brasileira, na acepção literária. Aqui em Anápolis, Iron Junqueira (Brazabrantes - GO, 1938) escreveu por exemplo, além de vários outros, “Palavras de Conforto” (Labor Editora, Anápolis, anos 1990), um opúsculo

“conta-gotas” de otimismo e sabedoria, com mensagens assim:

Artigos & Fatos

“Cada dia que surge é nova oportunidade que temos para fazer certo hoje o que fizemos errado ontem. Se em cada novo dia nos atentarmos por corrigir nosso espírito, na hora de falar, de agir, de lutar, tenhamos a certeza de que estaremos agradando mais a Deus do que se ficarmos rezando diariamente ou o dia todo com a bíblia sendo repassada, sem, no entanto, a entendermos devidamente. A forma de sermos mais agradáveis a Deus é ‘fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem’. O pai não precisa de bajulação. Nem Jesus. Aliás, nem nós”.

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Contexto, outubro de 2008.

Henrique Mendonça

O polígrafo Mário Ribeiro Martins

U m dos escritores mais produtivos de Goiás é o polígrafo Mário Ribeiro Martins (Ipupiara - BA,

07/08/1943), que residiu por muitos anos em Anápolis desde 1975 e deu continuidade à sua veia literária, discorrendo sobre os mais variados assuntos, como já fazia desde bem jovem e mesmo antes de sua publicação de “Gilberto Freire, o ex-protestante” (São Paulo, Imprensa Metodista, 1972). Em Recife, concluiu bacharelado e mestrado em teologia, tendo também estudado ciências sociais e filosofia, e lecionado na Universidade Católica de Pernambuco, no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, na Universidade Federal Rural e na Escola Superior de Relações Públicas. Estudou na Espanha e foi pastor batista em sua terra. Mário Ribeiro Martins é antes de tudo pesquisador dedicado e disciplinado. O número de seus livros soma algumas dezenas, que vão de biografias e história e sociologia a filosofia, antologias e dicionários biobibliográficos. Seu trabalho é de incalculável importância para a memória das letras em Anápolis, Goiás e Tocantins, porquanto os registros reunidos em seus livros dificilmente são encontrados em outras fontes sem grande dificuldade.

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Artigos & Fatos

Obra lapidar e de cabeceira, de sua autoria, é “Letras Anapolinas” (Goiânia, O Popular, 1984), alentado trabalho que reúne nomes antesinos desde o século retrasado. Publicou ainda, dentre outros livros, “Filosofia da Ciência” (Goiânia, Oriente, 1979), “Sociologia Geral e Especial” (Anápolis, Walt Disney, 1980), “Escritores de Goiás” (Rio de Janeiro, Máster, 1996), “Estudos Literários de Autores Goianos” (Anápolis, Fica, 1995), “Dicionário Biobibliográfico do Tocantins” (Rio de Janeiro, Máster, 2001), “Coronelismo no Antigo Fundão de Brotas” (Goiânia, Kelps, 2004), “Dicionário Biobibliográfico de Membros da Academia Brasileira de Letras” (Goiânia, Kelps, 2007). Sua contribuição para a imprensa anapolina e goiana é também apreciável, e seus escritos dentro das letras jurídicas são cristalinos e de personalidade, marcados pelo inédito do pensamento. Aposentou-se nos cargos de promotor de justiça e procurador de justiça do Estado de Goiás. Reside atualmente em Tocantins.

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Contexto, janeiro de 2008.

Henrique Mendonça

Huberto Rohden e a filosofia univérsica

H uberto Rohden (Tubarão - SC, 1894 - Cidade de São Paulo, 1981) foi um dos filósofos brasileiros

mais importantes. Seu trabalho dentro daquilo que adotou chamar “Filosofia Univérsica” é vasto e profundo, mas de uma acessibilidade cristalina, como ocorre com os grandes pensadores, que depararam com situações e visualizaram soluções explicando-as de forma simples e sem rodeios. Conquanto tenha escrito algumas dezenas de livros desde a época em que exerceu o sacerdócio católico romano até às vésperas de seu falecimento, sua obra da “fase univérsica” é um monumento homogêneo a ensinar sobre a importância do encontro do homem consigo mesmo. Rohden formou-se em ciências, filosofia e teologia em universidades européias, na Áustria, na Holanda e na Itália. No Brasil trabalhou como professor e conferencista, além de escritor. Publicou mais de 60 livros. Na década de 1940 obteve uma bolsa de estudos para pesquisas científicas, na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos da América do Norte. Ali, conviveu com Albert Einstein, e foi ali que lançou as bases do movimento da Filosofia Univérsica,

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Artigos & Fatos

em que ele propõe: “Para que o homem seja invadido pela

consciência mística ou cósmica, é necessário que ele se esvazie totalmente da consciência do seu ego humano. Segundo leis eternas, o ego-esvaziamento produz a cosmoplenificação

A invasão desta cosmoconsciência na vida humana é o início

duma vida nova, o nascimento do Reino dos Céus e uma completa transformação de toda a vida individual e social”. Usando as palavras com precisão, para transmitir o pensamento com o mínimo de desvios, Huberto Rohden

advertia seus leitores sobre o significado que dava às palavras, como, por exemplo, “crear”. Dizia ele: “O Poder Infinito é

o creador do Universo - um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores”. Antes, havia em nosso vocabulário o verbo “crear”. Além do português e outras línguas modernas, Rohden conhecia profundamente o sânscrito, o latim, o grego antigo e o hebraico, o que lhe possibilitou pesquisar, escrever e traduzir muitos livros, como o “Bhagavad Gita” e “O Quinto Evangelho” (Segundo Tomé), dentre outros.

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Contexto, janeiro de 2008.

Henrique Mendonça

Um assassino econômico

D esde a queda das torres gêmeas de Nova Iorque, muitas paredes e muros começaram a ruir naquele

belo país norte-americano. É um engano pensar que só do lado de fora há críticos ao amargo way of life. Lá dentro ‘tem’ muitos; alguns natos outros convertidos. O economista John Perkins, numa denúncia-confissão, publicada em 2003, dá as pistas e os caminhos pelos quais a grande nação se orienta em sua majestosa prosperidade. No Brasil, a obra foi lançada pela Editora Cultrix, em 2005, com o título “Confissões de um Assassino Econômico”. Através da Agência Nacional de Segurança, Perkins começou a trabalhar para a Chas. T. Main, uma empresa de consultoria internacional, avaliando o potencial de crescimento de países subdesenvolvidos caso organismos como o Banco Mundial, ou estadunidenses como Usaid, concedessem empréstimos vultosos para esses países investirem em obras de infra-estrutura, que seriam realizadas por empresas estadunidenses. “Uma grande parte do trabalho é encorajar os líderes mundiais a fazer parte de uma extensa rede de conexões operacionais que promovem os interesses comerciais americanos”, explica o ‘dissidente’. “No final das contas, tais

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Artigos & Fatos

líderes acabam enredados nessa teia de dívidas que assegura a lealdade deles”. Na função, John Perkins conheceu líderes mundiais, freqüentou rodas de ricos empresários, ajudou a selar empréstimos e fechar acordos comerciais na Indonésia, Panamá, Arábia Saudita, Irã e Colômbia. Inicialmente empolgado com o trabalho que desenvolvia em prol do crescimento ‘americano’, logo Perkins passou a observar as conseqüências do seu trabalho: consolidação de um império mundial e concentração de riqueza nas mãos de poucos, em detrimento da maioria absoluta da humanidade. Foi quando resolveu escrever o livro contando como funcionam os meandros do corporativismo (General Electric, Halliburton, Monsanto, Nike, Bechtel etc) enrabichado com os donos da Casa Branca e do Pentágono. Com revelações que chegam a parecer ficção, Perkins fala

deles foram treinados

até mesmo dos “chacais”: “

por forças especiais nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na África do Sul, mas geralmente quando eles se tornam

Os chacais

chacais vão trabalhar para corporações

foram enviados à Venezuela em 2002 para organizar o golpe contra Hugo Chávez. Eu conheço os que fizeram isso, e o que conseguiu convencer o presidente Gutiérrez, do Equador”. De

modo terrível, Perkins ensina:

Você vai até o gabinete do

presidente e o relembra do que aconteceu com Allende, Jaime Roldós, Torrijos, e Noriega. Todos esses eram presidentes que se opuseram à ‘corporatocracia’ e foram derrubados ou assassinados”.

Muitos

Contexto, fevereiro de 2008.

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Henrique Mendonça

Dossiê Werneck Sodré

Baseado em sua vocação para a pesquisa jornalística,

e com fulcro em registros jornalísticos, o estudioso Nelson

Werneck Sodré (Rio de Janeiro, 1911-1999) compôs um dos mais

impressionantes relatórios sobre o Golpe de 1964 e a ditadura que o sucedeu, bem como sobre a gestação do episódio nos corredores do Pentágono estadunidense. Sociólogo e historiador, professor e pesquisador do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros),

o também deposto general do Exército, por opinião política,

Nelson buscou grande parte dos dados de seu livro “O Governo Militar Secreto” (Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987), em matérias publicadas no Correio da Manhã, jornal carioca que existiu de 1901 a 1974. Revelações interessantes são feitas por Sodré, como a seguinte, referindo-se à insistência do governo dos Estados Unidos da América do Norte, para criação da JID (Junta Interamericana de Defesa), com vistas a “proteger as Américas” de uma possível “agressão externa”. Diz o historiador: “Uma

dessas necessidades é, sem dúvida, o policiamento externo, destinado a evitar que os países latino-americanos escapem ao controle, alcancem o desenvolvimento, atinjam a libertação

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Artigos & Fatos

econômica. Para mantê-los jungidos à canga do imperialismo, um dos instrumentos utilizados foi justamente a JID, claro que com sede em Washington e presidida por um general norte- americano”. Nelson Werneck Sodré não era um investigador qualquer. Além de seu contato com pessoas bem informadas de dentro e de fora do Brasil, de dentro e de fora dos EUA, sua atuação no ISEB o levou à condição de importante conhecedor da realidade de nosso país. Dentre seus importantes trabalhos, dois se destacam: “História da Imprensa no Brasil” (1966), e “Formação da Sociedade Brasileira” (1944).

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Conterxto, julho de 2008.

Henrique Mendonça

Barbarela, beija-flor

A literatura infantil e o meio ambiente receberam com grande alegria e proveito, o lançamento

de “Barbarela, Beija-flor” (Editora Kelps, Goiânia, 2007), interessante trabalho da escritora Natalina Fernandes (Pilar de Goiás, 1957), professora e poetisa, que reside em Anápolis. Emgeral,tiranteespecialistas,poucosseanimamàabordagem do tema “meio ambiente”, por se pensar que só há campo para obras técnicas, com números, gráficos e fotos mostrando fatos concretos colhidos por cientistas ou militantes de alguma organizaçãoespecífica. Se o trabalho for para crianças, aí nem se fale. Natalina, porém, valendo-se de sua condição e experiência de educadora, bem como de iniciativa e idealismo, trouxe para as letras uma bela fábula que encanta não só pequenos, mas todas as idades. Com ilustrações do artista Gedson Chrisóstomo, o livro conta a história de uma mãe beija-flor e um casal de filhos, vítimas de queimadas nos campos. A autora valorizou seu trabalho ao incluir nas páginas finais um vocabulário e algumas informações a respeito dos beija-flores e das matas ciliares. Outros dois livros publicados por Natalina Fernandes são “Vôo Sereno” (1998) e “Risos e Lágrimas” (2007).

Contexto, março de 2008.

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Henrique Mendonça

O abolicionista do império

A par dos nomes consagrados de José do Patrocínio, André Rebouças, Coelho Neto e Joaquim Nabuco,

dentre outros, o movimento abolicionista no Brasil contou com a figura importante do cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (Riacho do Sangue - CE, 1831 - Rio de Janeiro - RJ,

1900).

Neste início de ano, a editora carioca F. V. Lorenz <editora_lorenz@uol.com.br> lançou o opúsculo “Bezerra de Menezes, o abolicionista do Império”, de 94 páginas, em que reproduz uma importante publicação de 1869, então intitulada “A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem danos para a nação”, impresso na antiga capital federal, pela Typografia Progresso, em pleno Segundo Império. Com apresentação e notas de Paulo Roberto Viola, trata-se de interessante tese através da qual Bezerra de Menezes procura convencer escravocracia e políticos que, além da questão humana e ética, a abolição não significaria a derrocada econômica que preconizavam os meliantes pecuniários do tráfico negreiro. “Nenhuma questão, segundo penso, reclama tão seriamente a atenção de quem se interessa pelo bem-estar e

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Artigos & Fatos

futuro do País, como a da emancipação da escravatura”, escreveu Bezerra de Menezes. E mais: “Fundo, no seio da sociedade brasileira, tem penetrado as raízes malditas do cancro da escravidão”. A diferença da abordagem de Bezerra com a de vários de seus contemporâneos em relação à extinção da escravatura residiu na preocupação para com a situação do liberto e a necessidade do Estado arcar com o ônus secular. Bezerra não foi ouvido neste particular, e as vítimas foram relegadas ao abandono. Escreveu ele: “E como a emancipação dos escravos é atualmente a maior e mais elevada questão de caráter moral que temos de resolver, repartamos com ela uma parte da receita pública, que se costuma aplicar a verbas de melhoramentos materiais”. Dizia Bezerra de Menezes aquilo que hoje todos reconhecem correto. Em matéria de mão-de-obra no processo de colonização do país, em vez de importar colonos de outros continentes, que fosse dada oportunidade ao negro liberto para que este mesmo empreendesse na agricultura, substituindo o trabalho que exercera coercitivamente como escravo. “Pois suspendamos as despesas com a colonização estrangeira, enquanto lançamos as bases da melhor colonização que podemos ter - a colonização nacional ” Bezerra de Menezes era médico, jornalista e conferencista. Na política foi conselheiro da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (vereador) e deputado geral por aquela província. Na imprensa, atuou nos jornais “Reforma” e “O Paiz”, dirigido por Quintino Bocaiúva.

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Contexto, março de 2008.

Henrique Mendonça

Gerundismo, praga que enfeia a língua

G erundismo é a utilização indiscriminada, genérica, e além de tudo incorreta por desnecessária, do

gerúndio no português falado e escrito. Sua propagação é recente, e alguns analistas têm buscado identificar as origens da epidemia que tomou conta da fala de alguns brasileiros há menos de uma década. Embora seja difícil apontar uma única fonte desse descaminho, não se pode deixar de observar que as novas mídias têm papel preponderante na difusão de expressões, sintaxes e morfologias deturpadas. No caso do gerundismo, detectamos na página “Ajuda” de uma empresa operadora de telefonia móvel cerca de uma dezena do emprego indevido. Possivelmente foi redigida por alguém gênio em telecomunicações, mas ignorante em comunicação na língua portuguesa. Talvez uma seqüela lingüística das privatizações do setor. Alguém teria esbarrado na riqueza da língua e encontrou uma forma de “simplificação”, reduzindo expressões ao infinitivo do verbo “estar” (auxiliar) seguido do gerúndio do verbo principal desejado (estar _ando, estar _endo, estar _indo, estar _ondo).

Os jovens são as maiores vítimas, porque hoje até bebê tem um telefone móvel “celular”; e embora todos estejam

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Artigos & Fatos

sujeitos a contatar alguma empresa de telefonia reclamando por algum serviço mal prestado, são os adolescentes, os mais expostos a serem inconscientemente convencidos pela aparente onda chique, a absorverem a forma nojenta de se expressar. Os exemplos seguintes são típicos no dia a dia. “O senhor gostaria de estar marcando um horário? Eu posso estar agendando para o senhor. Ou o senhor prefere estar deixando para depois e eu estar marcando quando me telefonar?” Não haveria qualquer mal, e seria o correto, dizer:

“O senhor gostaria de marcar um horário? Eu posso agendá- lo para o senhor. Ou o senhor prefere deixar para depois e eu marco quando me telefonar?” Mas há casos de parlamentares fundadores de partido dizerem: “Falo aos nobres senadores, para que possamos estar discutindo o projeto ainda hoje e, se for possível, estar votando-o amanhã cedo, para em seguida estar enviando ao Ministério do Turismo.” No entanto, quando parlamentar sabia falar, dizia: “Falo aos nobres senadores, para que possamos discutir o projeto ainda hoje e, se for possível, votá-lo amanhã cedo ” Isso não significa a morte do gerúndio. Há casos apropriados, e é para isso que ele existe: “Amanhã o chefe vai estar viajando (vai estar fora). Ou: “Ele vem e estará falando no parlamento durante a semana. Serão várias sessões; ainda não sabemos os horários.” Ou: “Amanhã, por estas horas, ela vai estar viajando, vai estar na estrada a caminho de Soberânia.” Língua é soberania. Os impérios sabem disso!

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Contexto, março de 2008.

Henrique Mendonça

Alencar e as minas de prata

D entre as obras literárias monumentais mais expressivas do Brasil, encontra-se a de José de

Alencar (Mecejana - CE, 1829 - Rio de Janeiro - RJ, 1877). Emparelha com Machado de Assis, Jorge Amado e Coelho Neto; é verdade que sem gozar dos favores midiáticos com que os dois primeiros foram agraciados, em que se pese a excelência de ambos. “As Minas de Prata”, foi um de seus romances históricos. Lançado no mesmo ano que seu outro romance, “Iracema” (1865), nele Alencar cria momentos ficcionais de quando o país estava sob o domínio espanhol, porque o Brasil era colônia portuguesa e Portugal, naquele momento, regido por Felipe III, rei da Espanha. “Raiava o ano de 1609”. No ambiente urbano de Salvador, a então capital, desenvolve-se o argumento central, que se espraia pelo eixo Bahia-Rio de Janeiro envolvendo amor, política e conspiração civilizatória, havendo lances de aventura e de legítimo romance de capa e espada. A grande marca da trama é a busca do lendário tesouro descrito por Robério Dias, pelo neto, Estácio. Mas Estácio

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Artigos & Fatos

descobriu o engano de seus ancestrais, e “as decantadas minas ”

de prata não eram mais que uma ilusão

sabia que essa areia pisada por ele, e que rangia sob seus passos, estava recamada de diamantes ” Nas escolas, José de Alencar é muito decantado sob os aspectos do indianismo e do nativismo, mas sua obra é muito vasta, abrangendo vários âmbitos do romantismo, conferindo sempre um teor nacionalista aos costumes e formas de expressão. Adepto da monarquia, mas em conflito com a cultura proveniente da Corte, tal circunstância fez de Alencar um exímio e insuspeito porta-voz do nacionalismo literário brasileiro. Bem inserido no meio governamental da colônia, Alencar era filho de um deputado, presidente da província do Ceará e senador, além de sacerdote, que viveu entre os anos

Entretanto, “mal

1794 e 1860, e que também se chamava José Martiniano de Alencar. Seguindo a vocação paterna, o escritor José de Alencar, aderiu à vida política, integrando o Partido Conservador. Foi deputado pelo Ceará em quatro legislaturas, entre 1861 e 1877. Foi também ministro da Justiça. Apesar de sua cultura e alto espírito crítico, José de Alencar não pleiteou o fim da monarquia, nem a abolição da escravatura. Faleceu com 48 anos. Um de seus filhos, Mário de Alencar, também se tornou escritor.

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Contexto, abril de 2008.

Henrique Mendonça

Consumatum West

H á alguns anos o poeta e filósofo Miter Fonseca (Piumhi - MG, 1944) residiu nesta cidade. Foi

em 1995 que decidiu retornar de vez a Brasília. Foi lá que ele deixou a adolescência, trabalhando nas madrugadas como cobrador de ônibus coletivo de transportar candangos. Enquanto morou em Anápolis pela segunda vez, pois aqui já vivera em menino, Miter escreveu para vários jornais e revistas, sempre trazendo algo novo e pertinente. Pari passu, moldava os frutos de seu pensamento numa obra de fôlego, abrangendo a história oficial de nossa civilização e seus sutis tributários. Lido nos clássicos gregos e no estadunidense Henry Miller, Mitermaia dos Santos Fonseca construiu todo um tratado sobre as mazelas do Ocidente. O trabalho ainda não saiu de suas mãos, e talvez ainda demore um pouco, mas, com certeza, quando acontecer deixará a humanidade um pouco mais rica, e consciente. Enquanto isso, vem às mãos seu opúsculo “Consumatum West” (Thesaurus, Brasília, 1987), que conforme ele mesmo diz, contem “três dúzias de quase-poemas”. São versos

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Artigos & Fatos

interessantes, que lampejam Camões numa linha, Augusto dos Anjos noutra, mas sempre tudo dentro de um estilo próprio, Mitermaiano, como este, CAMALEÕES: É dos vis, dos celerados, / cuja insânia, que fermenta, / já em si não

se sustenta, / buscar, em fazendo claro, / quaisquer deslizes humanos / para ao Clube dos Insanos / quais achados apontá-

los

Na contracapa, Miter escreve: “Culturalmente, quando nada, o Ocidente acabou. Compete-nos sepultá-lo, em seu lugar construindo um mundo novo, embasado na justiça, na fraternidade e na busca dos verdadeiros caminhos do homem”.

//

Contexto, abril de 2008.

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Henrique Mendonça

Clécio Dutra, irmão camarada

Q uem leu jornais e revistas em Anápolis nos anos 1970 e 1980, por certos terá desfrutado de

momentos de enlevo literário com linhas escritas por Clécio Fernandes Dutra (Itaperuna, RJ, 20/04/1922 - Taguatinga, DF, 24/01/2008). Como ocorre com a imensa maioria dos escritores e poetas no Brasil, Clécio não deixou livros publicados. Sua obra de prosador ficou nas publicações jornalísticas dos lugares por onde passou. Migrando ainda jovem dos campos fluminenses para a metrópole carioca, Clécio estudou em Campo Grande e fez o curso ginasial em Marechal Hermes. Estudou na Escola Técnica Mauá, onde foi colega do jovem Paulo Nunes Batista. Depois, serviu o Exército, foi motorista de ônibus coletivo e soldado da Força Pública (Atual Polícia Militar) do Rio de Janeiro. De 1940 a 1981, trabalhou no Ministério da Agricultura, sendo transferido para Brasília em 1967. Parece que a residência do poeta Paulo Nunes, amigo de adolescência, em Anápolis fez com que Clécio se ligasse à urbe antesina, passando a conviver com gente daqui. Logo estava escrevendo nos jornais Folha de Goiaz, O Popular, e

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Artigos & Fatos

outros. Uma das paixões de Clécio Dutra era a leitura. Lendo em média mais de um livro por semana, Clécio deve ter chegado à casa dos 4.000 títulos. Suas crônicas têm o feitio brejeiro que ele mesmo tinha; são leves, sem preocupação intelectual e falam do dia a dia do brasileiro urbano do Rio, de Anápolis ou do Ceará. Clécio era ótimo repentista em trocadilhos. Brincava: “quero trabalhar na recortagem ou n’arredação”. Temos alguns de seus trabalhos, datilografados, como “Kim”, crônica sobre um cachorro dos seus tempos de menino; “Caminhos Cruzados”, interessante conto, homônimo dum romance de Érico Veríssimo; “O Hipopótamo”, conto surrealista; “Zé Tostão”, “Velho Duque” e “Ascensão e Queda de Asclepíades”, uma brincadeira autobiográfica. Pretendo trabalhar pela publicação desses escritos de valor humorístico e filosófico. Clécio partiu em janeiro deixando saudades. Fique bem, Clécio, e sinta-se feliz! Onde estiver, ore por nós, Amigo de fé, Irmão Camarada!

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Contexto, maio de 2008.

Henrique Mendonça

O sucinto Eno Theodoro Wanke

O s que fogem dos livros depois de folheá-los e constatar uma quantidade de páginas superior a

dois dígitos, podem se deliciar, e com proveito, lendo alguns

trabalhos de Eno Theodoro Wanke (Ponta Grossa - PR, 23/6/1929 - Rio de Janeiro, RJ - 28/5/2001). Autor também de livros alentados e de temas múltiplos, Eno Wanke demonstrou pendor e competência para os trabalhos de pequeno e de micro porte. Sobressai sua predileção pelos miniconto, aquela categoria de composição que se convencionou chamar de “micrologia literária”. São contos mesmo, alguns de até menos de uma página, e alguns em menos de meia. E confirmando seu pendor pelo sintético,

Eno, poeta de nível e grande sonetista, preferiu a trova, da qual

se tornou um dos maiores representantes no Brasil. Engenheiro

por profissão, o poeta Eno Wanke teve de explicar mais de uma vez como era possível um técnico de carreira de uma empresa estatal, Petrobrás, amar a literatura, e lírica.

Eno começou a escrever aos doze anos. Seus livros e

opúsculos ultrapassam os mil títulos. Trata-se de obra vasta

e multiforme, que vai do popular ao clássico, mas toda ela

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Artigos & Fatos

com fulcro erudito. Seu poema “Apelo” é, talvez, o soneto

em português mais traduzido, alcançando 160 versões para 95 idiomas e dialetos. Diz ele:

“Eu venho da lição dos tempos idos / e vejo a guerra no horizonte armada. / Será que os homens bons não fazem nada? / Será que não me prestarão ouvidos? // Eu vejo a Humanidade manejada / em prol dos interesses corrompidos.

/ É mister acabar com esta espada / suspensa sobre os lares

oprimidos! // É preciso ganhar maturidade / no fomento da

paz e da verdade, / na supressão do mal e da loucura

// Que

a estrutura econômica da guerra / se faça em pó! E que reinem sobre a terra // os frutos do trabalho e da fartura!”

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Contexto, maio de 2008.

Henrique Mendonça

Memorial do Araguaia

O século XX viveu um episodio semelhante ao de Canudos no século XIX, deixando, em certo

sentido, marcas vestigiais parecidas, qual seja a falta de informações contemporâneas às atividades e ao extermínio da Resistência do Araguaia, um dos fatos históricos mais mal documentados na imprensa, propositalmente por honra e graça do governo milicar dos anos 1970. Por ordem da censura do general Garrastazu Médici, foi proibida qualquer referência ao assunto enquanto duraram os combates de seu exército contra a resistência. O movimento de resistência política que ficou conhecido por Guerrilha do Araguaia foi um grupo de ações, que insurgentes contra o governo estabelecido com o Golpe de 1964, iniciaram numa região às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo e Marabá no Pará e de Xambioá, no norte de Goiás (hoje, norte de Tocantins), região também denominada de Bico do Papagaio, devido à configuração geográfica. Médici e seus súditos utilizaram milhares de soldados do Exército, dando combate a cerca de 80 pessoas, a

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Artigos & Fatos

maioria profissionais liberais e artistas, integrantes do grupo revolucionário que se estabelecera naquela região ganhando a simpatia das pessoas simples ali moradoras. O líder Maurício Grabóis morreu em combate. Outro líder, João Amazonas, conseguiu refúgio nalgum lugar, e dali para o exterior. Já Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão), segundo testemunhas, os executores amarraram seu cadáver num helicóptero, e, depois de elevá-lo a grande altura, soltaram o corpo ao solo. Depois, amarram-no outra vez à aeronave e o levaram para ser exibido aos camponeses como um troféu e exemplo. Dentre os não formados, e que sobreviveram ao ataque final, em dezembro de 1974, estava o camponês Micheas Gomes de Almeida (Zezinho do Araguaia). Zezinho trabalha atualmente para concretização de um projeto, aprovado junto ao Ministério da Cultura, para criação do “Memorial do Araguaia”, a ser edificado na própria região.

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Contexto, maio de 2008.

Henrique Mendonça

O mundo de Carmo Bernardes

A ntes de se definir como escritor consagrado, Carmo Bernardes fez de tudo um pouco na vida,

de tipógrafo a protético e dentista prático; de administrador de obras públicas e redator da UFG a assessor de governador e funcionário da empresa Centrais Elétricas de Goiás. Carmo Bernardes da Costa (Patos de Minas, 1915 - Goiânia, 1996) exerceu o ofício da carpintaria literária de forma honesta e autêntica durante a vida toda, mas seu primeiro livro publicado, “Vida Mundo”, só foi sair em 1966. Carmo residiu e trabalhou em Anápolis. OtrabalhodeCarmoédaquelaqualidadeimpressionante do escritor consciente, que apreende o que tem sob os próprios pés e à frente do nariz, e identifica exteriores sem se alienar de seu próprio habitat. Bernardes soube descrever com precisão o ambiente sertanejo da chamada “Paulistânia”, como poucos conseguem. Soube registrar muito bem o personagem que ainda vibra ou dormita nas veias de grande contingente nacional. Além do trabalho de jornalista repórter, deixou milhares de artigos de opinião e publicações em jornais e

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Artigos & Fatos

revistas do país. Entrando para a Academia Goiana de Letras em 1974, Carmo Bernardes foi também um dos pioneiros na defesa do meio ambiente em Goiás, e quiçá no país; muito antes da Constituição mencionar o tema. Recebeu inúmeros homenagens através de sua carreira de escritor e pensador, inclusive o “Premio de las Américas”, de Cuba. Em vida publicou os livros “Vida Mundo”, “Reçaga”, “Areia Branca”, “Idas e Vindas” (todos de contos e causos); “Rememórias I e II” (crônicas); “Jurubatuba”, “Nunila”, “Memórias do Vento”, “Perpetinha” (romances): “Força da Nova”, “Quarto Crescente” (reminiscências). Após o falecimento do escritor, o amigo jornalista e também ambientalista Washington Novaes conduziu para que algumas obras deixadas por Carmo fossem publicadas: “Selva, Bichos e Gente”, “O Visto do Tempo”, e “Almanaque”.

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Contexto, maio de 2008.

Henrique Mendonça

Johnny Alf, pai da Bossa-Nova

A grande mídia brasileira comemora neste ano meio século de Bossa Nova. E assim o faz embasada

no lançamento, em 1958, do disco “Chega de Saudade”, pelo cantor João Gilberto. Se o que considera é o início do uso do termo “Bossa Nova” para designar um jeito de se cantar ou tocar música, talvez a comemoração tenha algum sentido. Quando João Gilberto [do Prado Pereira de Oliveira] (Juazeiro - BA, 10/06/1931), gravou “Chega de Saudade” (de A. C. Jobim e V. Moraes), já há seis anos o compositor, cantor e pianista Johnny Alf (José Alfredo da Silva - Rio de Janeiro, 19/05/1929) atuava profissionalmente nas noites do Rio. Há cinco, gravara o primeiro disco nesse estilo. O testemunho está registrado em livro pelo próprio lançador de Alf, Antônio Ramalho Neto. Em “Historinha do Desafinado” (Editora Vecchi, RJ, 1965), o produtor, crítico musical e jornalista Ramalho Neto afirma que “De Alf verdadeiramente veio o que convencionamos chamar de Bossa-Nova. Ele é realmente o pai da criança!” Também os cantores Dick Farney, Nora Ney, Carlos Lira e outros, já cantavam há anos nesse, que não é necessariamente um gênero

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Artigos & Fatos

musical, mas um jeito de interpretar samba, aproximando a essência afro às raízes do jazz, permeando elementos do clássico europeu. Diz Ramalho Neto: “Mas, por uma dessas incoerências, ficou Alf para trás. Não musicalmente, mas na projeção do seu ”

nome

E ainda: “Por volta de 1955, uma das músicas de seu

disco era “Rapaz de Bem”, a primeira música autenticamente

juntamente

Bossa Nova gravada, composta por ele em 1951

com “Céu e Mar”. Ambas possuem as características rítmicas e poéticas que identificam a Bossa Nova.

Contexto, junho de 2008.

PS: Alf viria a falecer em 4 de março de 2010, aos 80 anos, em Santo André - SP.

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Henrique Mendonça

De favas e favelas

A pós séculos de vontade, finalmente um novo governo se estabeleceu. Depois de tantas gerações

ansiarem por um sistema político realmente voltado para o povo, finalmente aconteceu. Só oito anos transcorreram. O novo governo é defendido por uma força militar despreparada,

mas tomou o poder graças a uma força política defesa, isto é, subterrânea, escusa; porque, continuam no poder os mesmos indivíduos que vinham do sistema anterior. A economia anda alegre, e a classe produtiva canta glórias à perspectivas que se abrem. Num dos momentos de maiores esperanças para a jovem nação, eis que surgem boatos de que há gente que não se conforma com as mudanças. E mais, uma escória de gente que é a própria violência.

E outro bem

informado respondeu: “É lá mesmo, no Morro da Favela; é ”

O nome “Favela” é porque ali vicejou a

lá que eles estão

Jatropha phyllacantha, menos aristocrática, porém mais nutritiva que a Vicia faba, que para o sul é conhecida apenas por “Fava”. Dar combate, eis a ordem maior. “Acabar com aquela insurgência criminosa”. Mas como? “Não há soldados

Alguém, mais bem informado, indagou

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competentes, nem suficientes”. Sim, “há uma forma, e necessária: mercenários, em grande número”. Tropas se formaram, foram, deram combate. Venceram! Retornando ao Rio de Janeiro, os soldados arrancharam nas cercanias da capital do extinto império, agora República. Ali aguardaram por longos meses pelo soldo acordado em caso de vitória. Alguns desistiram no primeiro ano. Outros conseguiram alguma coisa de um jeito ou de outro. Os que permaneceram, e os filhos, e os netos, foram os pioneiros da favela hodierna. O combate, relatado por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, deu-se na Bahia, onde cordilheiras formavam uma “curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos”.

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Contexto, junho de 2008.

Sal e arte

Henrique Mendonça

E m literatura, não são muitos os que cultivam a arte pela arte. Via de regra, o literato lida com as

palavras e tem-nas como “ferramenta” para apresentar o que lhe vai na alma. E como a palavra é o mesmo instrumento de que se servem todos os que pretendem transmitir suas idéia de forma direta aos vários públicos, calha de ser a palavra escrita um veículo comum ao idealista, ao ideólogo e também ao artista desengajado. É difícil, senão impossível, identificarmos com certeza quando uma obra literária não está a serviço de algum pensamento que não seja exclusivamente artístico. Também não há pecado em alguém exercitar sua habilidade numa arte descomprometida, buscando os meandros da forma em sua essência e fazendo o que lhe parecer mais habilidoso com a palavra, sem com isso se macular nas idéias ou propostas de um mundo ideado. Por outro lado, as obras de arte documentais, são verdadeiros registros de fatos, situações e conjunturas estabelecidas e vividas pela humanidade coletivamente ou em alguma parte do mundo interior. Os grandes monumentos

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Artigos & Fatos

literários são conhecidos de todos e seus autores têm seus nomes repetidos no dia a dia das escolas, e as mídias falam neles com freqüência. Há outros, entretanto, que atingiram níveis extraordinários de expressão literária, sem terem se tornado, pelo menos por enquanto, monstros sagrados populistas. Caio Porfírio Carneiro (Fortaleza - CE, 1928), cuja novela “O Sal da Terra”, publicado em 1961 pela Civilização Brasileira, já foi traduzida para mais de dez línguas e adaptado para o cinema, é um deles. O Sal da Terra é obra que denuncia aquilo que todo mundo sabe, que todo mundo vê. O cenário é um belo palco nas salinas do nordeste sob um sol de 45 graus Celsius, mas poderia ser em qualquer lugar deste país ou do coração humano.

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Contexto, julho de 2008.

Henrique Mendonça

Capitalismo para principiantes

U ma das artes e ciências mais admiráveis é a da pedagogia. Ensinar, isto é criar condições para que

alguém aprenda por si mesmo alguma matéria ou disciplina. Normalmente, sabemos para nós mesmos. Sabemos fazer, sabemos dizer e explicar, porém não temos os elementos necessários para que outros compreendam com todas as implicações iniciais necessárias. Glória aos professores, aos que gostam do que fazem; claro! Saudade de minhas lindas e amáveis professorinhas da infância. Quando alguém consegue fazer isso, significa que ocorreu a transmissão de conhecimento. Os especialistas ensinam que, na verdade, o mestre fez com que seu ensinamento ou informação fosse aprendido pelo discípulo ou aluno. Às vezes, o aluno pode ser um leitor, distante no tempo e no espaço. Um caso assim ocorreu com o estadunidense Leo Huberman (1903-1968), quando publicou seu trabalho mais conhecido “História da Riqueza do Homem”, em 1936. Trata-se de um livro de referência básico, em que o autor ensina, através de exemplos e da história, quais os princípios que

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Artigos & Fatos

regem as finanças e a economia; quais as leis. A obra de Huberman teve a primeira edição em português em 1959 e, desde então, mais de 30 edições pela Editora Guanabara, do Rio de Janeiro. Perguntas como “de onde vem o dinheiro?”, “como ele se valoriza ou desvaloriza?” são respondidas e explicadas de forma simples e assimilável. O autor inicia o livro de forma crítica e bem humorada, referindo-se aos filmes cinematográficos em que não era dada importância ao dia a dia do dinheiro; por exemplo, as pessoas pegavam um táxi e desciam sem pagar pela corrida, isto é sem que esse ritual importante merecesse atenção do diretor a ponto de ser mostrado na cena.

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Contexto, julho de 2008.

Henrique Mendonça

A criptopoética de PNB

O correu no dia 2 de agosto, primeiro sábado deste mês. Letras, pontos, acentos, ritmos e rimas se

curvaram em reverente louvação pelo 84º aniversário daquele que tão bem lhes dá atenção. Nessa data veio ao mundo o poeta paraibano Paulo Nunes Batista, há seis décadas anapolino. Parabéns! Traçando seus versos em regime folclórico ou lírico, PNB sempre desenvolveu sua arte usando o alto potencial de discernimento que possui acerca da união e aglutinação e da supressão e separação das palavras e termos, qualidade herdada dos antepassados, cordelistas do Nordeste, mais a que ele próprio desenvolveu no dia a dia, no trabalho literário. Nas mãos de PNB, as palavras têm possibilidades ilimitadas balançando e saltando como fazem os acrobatas num grande circo. Paulo desenvolveu como ninguém a arte, no dizer do professor José Fernandes, “criptopoética”, e aí a habilidade do vate se mistura à do filósofo. Dá disso pequena mostra o poema “O Cara”, publicado no livro “Algemas” (Editora Kelps, Goiânia, 2003): “O cara que me esperava / atrás da porta em que eu bato / era eu. E se riu em minha cara /

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Artigos & Fatos

deslavadamente. / O cara (que me passou a rasteira) / atrás da moita, era eu. / E fiquei mangando de minha Queda. // O cara que me vigia / por trás dos óculos grossos / sou eu.

E me sarcasteia / com seu sorriso podre. Chíspite! // O cara

a quem me refiro / gosta imenso de passar trotes / e impor

pegas nos outros (eu) / Às vezes me telefona / e eu atendo:

do outro lado, sou eu / quem fala. Dou-me recados incríveis. / O cara usa más’caras / e ainda quer que eu me ria, / sou eu. Agradecer-lhe o quê? / Causa’dor de minha dor amara, / meu carrasco, meu algoz / frio, implacável, feroz - / sou eu o cara.”

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Contexto, agosto de 2008.

Henrique Mendonça

O Processo Maurizius

O escritor germânico Jakob Wassermann (1873 - 1934) é considerado por muitos como o maior

novelista alemão do século XX. Desde 1897, ano em que publicou seu primeiro romance, foram dezenas de livros e trabalhos seus em jornais e revistas, traduzidos para diversos idiomas. Em 1915, Wassermann iniciou uma fase de sua carreira com enfoque para os problemas morais e a relatividade da justiça pública. Foi nessa linha que ele atingiu o grau máximo no estudo da personalidade humana, com a publicação da obra-prima ‘O Processo Maurizius’ (1928). É a história de um erro judiciário e do empenho de um jovem, filho dum juiz, para libertar o homem que seu pai condenara. Na realidade, o réu assumira a culpa do verdadeiro criminoso: a mulher que ele, réu, “amava”. No Brasil, O Processo Maurizius foi publicado por várias editoras. Mas, a Justiça é apenas um cenário, através do qual Jakob Wassermann simboliza as adversidades enfrentadas pelo judeu sionisticamente apolítico em face à contingência de se ver afeiçoado, quiçá conivente,

místico e requintado de ser

com a presunção do “ um povo eleito”.

sentimento

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Artigos & Fatos

Escreveu o romancista: “Entre todos os fatos, havia um que me era absolutamente intolerável: o pensamento de que seria excluído de um setor qualquer da vida e da atividade humana. Um só desses argumentos bastava para me tornar solidário com meus correligionários”. Cedo Wassermann aprendeu que “é da paciência dos povos que se prevalecem todos os governos”. Deixou milhares de pensamentos lapidares, como este: “Se as coisas aparentemente impossíveis não se verificassem, a vida seria coisa muito simples, cada um de nós estando a todo o momento preparado para a realização do possível”.

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Contexto, agosto de 2008.

Henrique Mendonça

Tratado da incompetência

tratado sobre as causas da incompetência vida cotidiana veio à luz pelas pesquisas da

dupla Laurence J. Peter (Canadá, 1919-1990) e Raymond Hull (Inglaterra, 1919 - Canadá, 1985). Publicadas em “Todo Mundo é Incompetente, Inclusive Você” (José Olympio Editora, 1979), revelam, segundo os autores, o limite a que chega cada um de nós em matéria de possibilidades de ascensão com competência (capacidade), na carreira que abraçamos, ou pela qual fomos abraçados. “Quando eu era menino, ensinaram-me que os homens lá de cima sabiam o que estavam fazendo: ‘Peter, quanto mais se sabe, mais se sobe’, diziam-me. Mais tarde, durante meu primeiro ano de ensino perturbou-me verificar que numerosos professores, diretores e superintendentes não pareciam compenetrar-se de suas responsabilidades profissionais, e mostravam-se incompetentes no cumprimento de seus deveres”. Peter atribui a globalizada situação da incompetência à arraigada prática da promoção dos indivíduos para exercerem atividades ou cargos, operacional e/ou gerencialmente, sempre um patamar acima de onde se encontram. “Vemos

U

m

na

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Artigos & Fatos

políticos indecisos posando de estadistas resolutos, e a ‘fonte autorizada’ que põe a culpa de sua desinformação nas ‘forças ocultas’. Não tem limites o número de funcionários públicos preguiçosos ou ociosos; governantes cujo servilismo inato os impede de governar de verdade. Habituamo-nos com clérigos libidinosos, juízes corruptos, psicanalistas neuróticos, escritores que não sabem escrever, professores que não sabem soletrar”, escreve Laurence Peter, propondo uma nova ciência, a da “Hierarquiologia”.

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Contexto, setembro de 2008.

Henrique Mendonça

Os melhores estão na política?

V iscont James Bryce, jurista, historiador, tribuno e político norte-irlandês (1838 - 1922) visitou

algumas vezes os Estados Unidos da América do Norte. Em 1888, ele escreveu no ensaio “A comunidade estadunidense”:

O sistema de governo democrático nos Estados Unidos é tal que é difícil que atraia para a política os melhores homens do país.

Parece que por lá, já naquele tempo, o processo eleitoral era de tal forma uma corrida do ouro, “que poucos são os cidadãos competentes, que tenham muito a oferecer e se disponham a participar de tal corrida. De um modo quase geral vence a astúcia, a ousadia e os interesses próprios”. Em sua análise, o sistema eleitoral dos EUA não estava preparado para selecionar os ocupantes de cargos públicos eletivos, e arrebanhava somente aqueles que queriam ter um posto de prestígio, boa renda mensal e, pior de tudo, legislar em causa própria. “Um sistema de fato tacanho e viciado”. Até hoje, por lá, e por aqui, o próprio sistema favorece tal disparate.

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Artigos & Fatos

Como, não legislando em causa própria, ficariam de boca fechada em relação aos poderes dominantes, além deles próprios? Como atenderiam bem o “lobby” institucionalizado no interesse dos mais audaciosos? Muita gente boa na área social, na educação, na economia, na administração, nas ciências etc faria o serviço ganhando a oitava, a décima parte daquilo que ganham aqueles com todos os seus salários, jetones e mordomias espúrias. Quanta mente arejada, quanta força de vontade, quantos bons propósitos ficam fora do concurso eletivo, simplesmente “por não possuir a necessária disposição para o logro, para a mentira, a avareza e os conchavos escusos”. Nada mudou. E aqui alguns se ressentem da atual ausência dos espetáculos das campanhas eleitorais.

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Contexto, setembro de 2008.

Henrique Mendonça

A madona de cedro

A verdade histórica da humanidade encontra-se, segundo alguns ocultistas, registrada apenas no

arquivo dos tempos, e somente poderia ser devassada através de conhecimentos profundos, que fugiriam ao comum dos profanos, que busca saber no flutuante mundo intelecto- mental. De fato, se é difícil saber até o que há de realidade no noticiário cotidiano, com muito mais razão é difícil saber o que há de verdade nos fatos históricos que fogem no tempo a cada segundo. As coisas vão acontecendo, situações e acontecimentos vão sendo vivenciados por testemunhas oculares e, muitas vezes, registrados por alguém que não estava, mas tenta interpretar o que ocorreu. Deslocado no tempo e no espaço, nem sempre estas conclusões chegam perto da verdade. Dentre outras coisas, tal circunstância é mostrada na obra “A Madona de Cedro” (1957), do romancista e dramaturgo Antônio Callado (Niterói - RJ, 26/01/1917 - Rio de Janeiro - RJ, 28/01/1997), que narra um drama policial ocorrido em Congonhas do Campo, cidade histórica de Minas. Com os mesmos elementos do fugidio factual

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Artigos & Fatos

denunciados por Lauro César Muniz (“O Crime do Zé Bigorna”, na televisão), e por Roberto Pires (“A Máscara da Traição”, no cinema), a obra de Callado deixa uma indagação no ar: O que está por trás de cada herói oficial, de cada fato narrado como certo, de cada data comemorativa? Excelente dramaturgo, esta aptidão possibilitou a Callado enriquecer cada linha e cada dizer de seus personagens. Sua narrativa é leve e se ambienta como luva ao clima literário que ele utiliza. Em 1968, “A Madona de Cedro” foi para o cinema, com um ótimo elenco, sob direção de Carlos Coimbra.

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Contexto, setembro de 2008.

Índio a bordo

Henrique Mendonça

O radialista, escritor, dramaturgo e roteirista brasileiro Stanislaw Ponte Preta (Rio de Janeiro,

1923 - 1968), cujo verdadeiro nome era Sérgio Marcus Rangel Porto, contava a seguinte peripécia ambientada no sertão brasileiro:

Uma reserva indígena era visitada por funcionários do governo. Os índios já estavam acostumados com a equipe, que chegava sempre num avião bimotor a pouca distância da aldeia. Com o passar do tempo, um deles, um dos tidos por corajosos na tribo, adquiriu intimidade com os funcionários e passou a pedir pra “andar” de avião. Durante algum tempo o pessoal foi adiando atender ao

pedido. Num dia era a pressa; noutro, o combustível que estava

Por fim, não houve mais jeito. Numa das visitas,

logo que o aparelho aterrissou, veio o jovem correndo, com sorriso alegre e esperançoso: “E hoje? Leva eu! Leva eu! Leva eu navião!” O pedido foi tão sincero e sentido que tocou o coração do pessoal da equipe. Eram quatro. Combinaram que dois deles ficariam em terra, enquanto dois subiriam, levando o bravo silvícola num dos bancos traseiros, para um vôo de uns quinze ou vinte minutos.

pouco

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Artigos & Fatos

Passearam um bocado, e já se preparavam para o retomo, quando o piloto, olhando ao longe, reconhece uma elevação e

diz ao colega: “Está vendo aquele pico? Foi lá que caiu o avião comercial no mês passado”. Ao ouvir o comentário, o índio deu um pulo feito doido e perguntou: “O que? E avião cai?”

- “Às vezes”, respondeu o piloto. O rapaz começou a gritar e
a ”

E foi

um deus-nos-acuda pra conter o moço índio.

pedir: “Tira eu daqui

Tira eu daqui

Euquédecê

Contexto, setembro de 2008.

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Henrique Mendonça

O Grego Kazantzakis

F ilósofo, poeta, romancista, dramaturgo e jornalista Nikos Kazantzakis (Creta, -Grécia,

1883 - Alemanha, 1957) é o autor grego contemporâneo mais traduzido. Iniciou em 1907, com a peça “Amanhece”, vencedora dum concurso universitário. Nesse ano transfere-se

para Paris, e atua como escritor e jornalista. Nos anos 1930, viajou por vários países, como correspondente, inclusive cobrindo a Guerra Civil Espanhola para um jornal grego.

A obra de Kazantzakis recebeu forte influência dos

autores clássicos gregos, de filósofos como Nietzsche e Bérgson, e do cristianismo, do budismo e mesmo do marxismo. Sua obra máxima é “Odisséia”, poema épico moderno, com 33.333 versos, publicado em 1938, e que pretende ser continuação da “Odisséia” de Homero. Mas, o romance que tornou seu nome popular foi “Zorba, o Grego”, lançado em 1943 e adaptado para o cinema em 1964.

A obra foi inspirada na figura de Giorgos Zorbas, um

sócio com quem Nikos pretendeu explorar uma mina de lignita. O empreendimento fracassou, mas restou um manancial de ensinamentos. Giorgos teria sido seu guru (Sócrates?).

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Artigos & Fatos

Outro livro de Kazantzakis adaptado para o cinema foi “A Última Tentação de Cristo”, publicada em 1948, e levado às telas 50 anos mais tarde. Por este, foi excomungado pela igreja católica romana. Escreveu também “O Cristo Recrucificado”, “Sodoma e Gomorra”, “Carta a El Greco”, “Capitão Michaelis”, e outros. “O Pobre de Deus”, romance sobre Francisco de Assis, é uma sublime prosa poética. A partir de 1939, Kazantzakis dividiu sua vida entre a França e a Inglaterra. Em 1956, recebeu o Prêmio Internacional da Paz. Traduziu para o grego moderno Dante, Goethe e outros autores clássicos.

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Contexto, outubro de 2008.

Henrique Mendonça

Divas de Floradas na Serra

O palco, a cena, as personagens, a denúncia, a reportagem. Todos os elementos num extraordinário

entrecho, que fez de Floradas na Serra (Livraria José Olímpio Editora, 1939), um dos livros mais reeditados no Brasil. A obra é de uma ficção ultra-realista, em que a fantasia constitui-se apenas num pano de fundo. Floradas na Serra seriam reminiscências de Dinah Silveira de Queiroz (São Paulo - SP, 9 de novembro de 1911 - Rio de Janeiro - RJ, 27 de novembro de 1982) a respeito da mãe, Dinorah, falecida muito jovem. Ambientada na localidade de Albernéssia, em Campos do Jordão, SP, a novela de Dinah reúne um grupo de jovens, elegantes companheiras, numa pousada serrana, para tratamento de saúde num dispensário próximo. Em 1882, o bacteriologista alemão Robert Koch isolara a bactéria causadora da tuberculose humana. Em 1928, tiveram início pesquisas para se chegar à penicilina; depois à estreptomicina, às tetraciclinas, cloranfenicol. Mas até que as pesquisas chegassem aos antibióticos, muita gente morreu da doença. Alguns sobreviviam em situação “estabilizada”, com a pessoa mantida segregada num exílio como em Albernéssia.

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Ali, homens e mulheres convivem em comunidade: passeiam, namoram, praticam arte, sentindo o estigma da discriminação. Uns poucos se curavam e desciam [a serra] voltando ao “mundo” dos sadios, como foi o caso de Elza, personagem central, que lá deixou para sempre seu amor, que não alcançara a cura.

Verossimilhança é a marca principal neste primeiro livro de Dinah, que foi depurando sua letra nas obras seguintes. “A Muralha” (1954) foi traduzida para várias línguas, e adaptada para telenovela e cinema.

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Contexto, novembro de 2008.

Henrique Mendonça

Patrimônio histórico

A situação da Estação Ferroviária Prefeito “José Fernandes Valente” será objeto de debate no

Plenário Teotônio Vilela da Câmara Municipal de Anápolis, nesta segunda-feira, dia 17, às 17 horas. O convite está sendo feito pelo presidente daquela casa legislativa, vereador Gerson Sant’Ana Fallacci.

Os que conhecem a construção, inaugurada em 1935, e

têm consciência do que ela significa para a história de Anápolis e de Goiás, sabem da necessidade urgente de sua restauração, como também da revitalização do ambiente em que ela foi sendo imersa no decorrer dos anos.

O assunto tem sido estudado por especialistas, que

constataram a premência de medidas que salvem o edifício,

que tem características especiais e elementos arquitetônicos em estilo art déco. Trata-se de uma das poucas construções históricas ainda existentes em Anápolis.

O presidente do Conselho do Patrimônio Histórico e

Cultural de Anápolis, Jairo Alves Leite, disse que tanto o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) quanto a Agepel (Agência Goiana de Cultura “Pedro Ludovico Teixeira”) preparam documentação atestando a importância do prédio e a

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Artigos & Fatos

necessidade de sua preservação e exposição como documento histórico. A audiência na Câmara foi agendada por iniciativa da vereadora Dinamélia Ribeiro de Oliveira Rabelo.

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Contexto, novembro de 2008.

Henrique Mendonça

O “X” da questão

meio à pior utilização da língua portuguesa vivida no Brasil, vem sendo trombeteada a

mudança ortográfica que um acordo assinado entre alguns países lusófonos oficializou. Pelas estatísticas, serão alteradas 1,42% das palavras do idioma em Portugal, e 0,43% no Brasil. O impacto desta “reforma” nos outros seis países da comunidade lusófona é desconhecido. São eles: Angola, Cabo Verde,

Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. O Brasil já havia reformado anteriormente em 1943 e 1971. Portugal, em 1911, 1931 e 1945. Não há dados sobre os demais países. Se todos efetivamente usassem bem o idioma para escrever, seriam afetados 230 milhões de pessoas. Os escritores portugueses José Saramago, António Lobo Antunes e Amilcar Neves disseram que irão continuar criando suas obras sem incorporar as mudanças de grafia previstas neste novo acordo. À deles, junta-se a voz deste humilde escriba. Mas, a quem interessa mais esta mudança? Possivelmente aos editores de dicionários e livros didáticos, mas há outros. Algumas das alterações são razoáveis, outras representam retrocesso em relação à racionalização trazida em 1971. Das

E

m

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mais absurdas, para o brasileiro consciente, uma refere-se à supressão do trema (que não é usado em Portugal), outra, à da acentuação nos ditongos abertos (“idéia”, “apóio”). Os acadêmicos da ABL estão perdidos! O acento gráfico é uma convenção destinada a facilitar o entendimento da expressão oral (pronúncia). Destina-se tanto ao nativo quanto ao estrangeiro aprendiz. Como os dicionários irão informar, doravante, que o correto é dizer “questão” (kestão) e não “qüestão” (kuestão)?

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Contexto, novembro de 2008.

Henrique Mendonça

Profanação do verbo

“P rofanação” (Editora Girafa, São Paulo, 2005) é título de um romance do escritor Ruy Fabiano

[Baptista Rabello] (Rio de Janeiro, 1953). O livro relata as peripécias do jornalista Gregório Pedra, que à beira da morte confia a Rui a missão de depositário das memórias profissionais e vivenciais de regenerado profanador do verbo, que fôra. O cenário em que se desenrola o entrecho deixado pelo falecido são os bastidores políticos de Brasília à época do Colégio Eleitoral (15 de janeiro de 1985), com as personagens revelando-se tais quais eram e tais quais ainda são, as muitas que ainda sobrevivem e as que chegaram depois. Nada mudou. Pelo mundo de Pedra, transitam nomes conhecidos de toda a população, elementos do mundo político, administrativo, empresarial e jornalístico do país. Ali está o influente senador Lúcio Fera (nome fictício), também Tancredo Neves, já quase jogado pra escanteio, decrépito e desvigorado; e ainda, Juvenal Serra (nome fictício), diretor do (s?) “Diário (s?)”, grande jornal, influente, metendo medo até em generais do sistema que então vigorava oficialmente.

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Artigos & Fatos

Pedra morreu “assassinado” por um processo de feitiçaria

engendrado pelo grupo que freqüentava a “mansão” de Fera, no

Park Way. “

manhã luminosa de domingo, um ano após o rompimento com a Confraria”. Na verdade, Gregório Pedra é o próprio Ruy Fabiano, eliminado do mundo profissional que habitou por vários anos. O propósito capital do romance é revelar a natureza metafísica do verbo, da palavra, que Pedra tanto menoscabou a serviço de um mundo em que a palavra vale menos que nada.

faleceu de insuficiência cardiorrespiratória, numa

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Contexto, dezembro de 2008.

Henrique Mendonça

A Indústria do Holocausto

A estante revisionista do chamado “holocausto judeu” vem crescendo a cada ano. Se há duas

décadas tais estudos eram publicados apenas por desafetos

do sionismo e inadvertidos detratores do judaísmo, tem vindo

à luz obras lúcidas e de honestidade incontestável; trabalhos

de fôlego e praticamente irrefutáveis, como “A Indústria do Holocausto” (Editora Record, RJ, 2001), do estadunidense Norman G. Finkelstein. Sem negar que tenha havido, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, o fato em si, Norman denuncia a exploração político-ideológica e financeira do acontecimento histórico, pelas grandes organizações judaicas internacionais. E mais:

que “a quantidade nos campos de concentração é exagerada para chantagear bancos suíços, indústrias alemãs e países do Leste Europeu com indenizações bilionárias. “O maior roubo

da história”, escreve. Ele grafa o fato real com “h” minúsculo,

e a fantasia com “H”. Filho de judeus sobreviventes dos campos de concentração de Maidanek e Auschwitz, Norman Gary Finkelstein (Nova Iorque, 1953) recorda a infância, durante

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Artigos & Fatos

a qual não se discutia o holocausto com tamanha obsessão.

Para Norman, depois da guerra dos Seis Dias (1967), quando os Estados Unidos perceberam que seria interessante ter um

parceiro forte no Oriente Médio, e grupos judaicos dos EUA e

a direita no poder em Israel passaram a vender a idéia de que

a hostilidade árabe poderia levar a uma reedição da chamada

“solução final”, surgiram “uma indústria e um turismo do Holocausto”. Norman, que não é parente do arqueólogo Israel Finkelstein, autor de “A Bíblia Não Tinha Razão”, doutorou- se em ciências políticas com a tese “A Teoria do Sionismo”, defendida no Departamento de Política da Universidade de Princeton.

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Contexto, dezembro de 2008.

Henrique Mendonça

Mídias e mudanças

N os anos 1980, a indústria fonográfica vivia seu melhor momento com o disco de vinil, quando surgiu na

praça o CD (compact disc). A evolução do chamado LP (long play, que rodava 33 1/3 rotações por minuto) alcançara um nível de alta satisfação para os ouvintes, principalmente em música. Parece ironia, mas justamente quando o melhor som podia ser reproduzido através do vinil, entrou no mercado o CD, que alardeava melhor som do que o da mídia (ou suporte) antecessora. Na verdade, os audiófilos do vinil nunca se convenceram disso. É certo que na gravação digital são eliminados ruídos indesejáveis, mas também os sons nas freqüências sonoras mais altas e baixas, isto é, harmônicos, ecos, batidas graves e a espacialidade do som. No CD, o som fica literalmente esterilizado, o que não ocorre na leitura analógica da agulha no vinil. Junto com a fidelidade artística do som, sofreram duro golpe os direitos autorais. Pirataria em vinil havia, mas raramente. De qualquer forma, o CD pôs fim a um reinado de 50 anos do vinil (1948 – 2000), que, somados aos do período em que se produziu o disco de goma-laca (78 rpm), chegou-se a quase um século.

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Artigos & Fatos

Também o mundo gráfico, editorial e jornalístico está passando por grandes mudanças, que deverão se acentuar ainda mais em duas décadas. Devido à diversidade de mídias, o período para que estas mudanças ocorram é maior, porém elas serão ainda mais radicais que a passagem dos bolachões de vinil para o CD e DVD. Num futuro próximo, um jornal como este poderá ser adquirido nas bancas, mas com o leitor armazenando-o em telefone móvel ou ‘iPode’, isto é, se ele ainda não for assinante, porque, se for, receberá o conteúdo em qualquer lugar onde se encontrar.

Contexto, janeiro de 2009.

Henrique Mendonça

O pior presidente

“O Pior Presidente” (Editora El Aleph, Espanha, 2007) é um livro do professor, doutor em

filosofia, Gerardo Sánchez Navarro, da Universidade de Miami, EUA, que aborda questões a partir do início de 2001, quando a suprema corte dos Estados Unidos, ao arrepio da população, colocou George Walker Bush na presidência do país.

Depois de explicar que pretende apenas registrar um erro histórico, o escritor pondera que o nível cultural de Bush ficou evidente já numa mesa de entrevistas durante a campanha eleitoral. Às três perguntas simples sobre política internacional, ele respondeu com silêncio e uma crescente irritação que o levou a replicar ao interlocutor perguntando se este sabia quem era o ministro da economia da Índia. O jornalista respondeu: “Eu não! Mas eu não concorro à presidência dos Estados Unidos”. Sanches Navarro confirma que “a carreira deste Bush teve início porque um grupo de ultradireitistas viu nele excelente personalidade para manejarem como marionete, por reunir numa só pessoa mediocridade intelectual e irresponsabilidade política”, através de assessores dirigidos pelo que viria a ser vice-presidente, Dick Cheney.

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Artigos & Fatos

O registro mais grave apresentado pelo pesquisador da Flórida aponta o pretexto básico para o crime de invasão ao Iraque, a partir de uma confissão forjada, arrancada a golpe de tortura pela CIA (Agência de Espionagem): Em dezembro de 2001, Ibn al-Shaikh al-Libi, um dos líderes máximos da Al Qaeda, foi preso no Paquistão. Após manejá-lo de um país para outro, “os agentes disseram ao preso que iriam violentar sua mãe, caso não confirmasse que Saddam Hussein tinha contatos com a Al Qaeda. Então Al Libi ‘confirmou’ que o Iraque mantinha treinamento para uso de gases mortíferos”.

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Contexto, janeiro de 2009.

Henrique Mendonça

Mistério da sobrevivência

H amilton Prado (Rio Claro - SP 1907 – Ubatuba - SP 1972) foi um notável viajor astral, isto

é, praticante da projeção da consciência. Tal experiência consiste na mobilidade do chamado “corpo astral”, segundo os pesquisadores um dos corpos que constituem o ser vivo, o qual pode se afastar do corpo físico em ocasiões e/ou situações específicas. Essa vivência pode ocorrer espontaneamente, por alguns motivos, ou ser provocada mediante certos exercícios. No caso de Hamilton ocorreu desde menino com freqüência e involuntariamente, quando se deitava para descansar ou dormir. No Brasil, esses conhecimentos tiveram maior expansão com os estudos do pesquisador Waldo Vieira, fundador do Instituto Internacional de Projeciologia, no Rio de Janeiro, e que atualmente mantém intercâmbio científico com vários países da América e da Europa. Hoje o instituto possui um importante campus em Foz do Iguaçu, no Paraná. Através desse meio, Hamilton Prado visitou lugares ‘sui generis’, identificados por ele como terrenos ou de outros orbes, e, até, do passado ou de outras dimensões, e registrou suas experiências em dois livros: “No limiar do mistério da

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Artigos & Fatos

sobrevivência” (Serviço Social Batuíra, São Paulo, 1967) e

“Ainda no limiar do mistério da sobrevivência” (1969, edição do autor). De modo claro e sem teor místico, Hamilton Prado, que

foiadvogado,pugilistaedeputadofederalemquatrolegislaturas,

narra suas vivências, muitas delas comprovadas e irrefutáveis,

e pergunta: Se o ser humano “em vida” pode deixar o corpo

físico e presenciar outros lugares, pessoas e fatos; a parte, que se desdobra do homem, não pode sobreviver ao corpo físico e continuar vendo, sentindo emoções, conhecendo, aprendendo

e até procurando se comunicar com os que ainda estão imersos no corpo físico em estado de vida biológica ativa?

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Contexto, fevereiro de 2009.

Bernardo Sayão

Henrique Mendonça

F oi no dia 15 de janeiro de 1959, no município de Açailândia - Maranhão, que o engenheiro Bernardo

Sayão Carvalho de Araújo, de 57 anos, teria falecido, vitima de acidente com uma árvore, na apressada abertura da rodovia

Belém-Brasília. Sayão dera sua palavra ao presidente Juscelino Kubitschek, que o encontro das turmas Norte e Sul ocorreria no dia 31 de janeiro. JK estaria no local com sua comitiva. No dia 13, Sayão pedia suporte por radiotelegrafia:

vir

até Açaí com urgência possível, trazendo o

avião

Peço recomendar

que

venha logo

Dizia faltar cerca de 60 quilômetros:

que

vamos realizar em poucos dias com a

concentração do pessoal

Léa Araújo de Pina, filha de Bernardo, baseada em relatos, traça no livro “Meu pai, Bernardo Sayão” (Imprensa da UFG, 2ª edição, 1968) os lances que teriam ocorrido:

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Artigos & Fatos

“Depois do almoço

(topógrafo) e Bernardo traçam planos na barraca. Lá fora

o barulho é ensurdecedor. Gilberto vai até a sua turma de

homens

cai em direção à barraca

A barraca completamente amassada. Não viram o chefe

querido. Sabiam que ele estava também na barraca. De

repente deram um grito de pavor

com uma enorme fratura exposta na perna esquerda. O braço esquerdo completamente esbagaçado, uma enorme fratura ”

na cabeça

ele estava ainda de pé,

Jorge machucado no braço.

e ouve um estrondo. Um imenso galho de árvore

Gilberto (engenheiro), Jorge

esvaindo-se em sangue

É a imagem do herói que, mesmo ferido, não pode aparecer caído para a posteridade. Entretanto, estudiosos analisam o fato distante afirmando que o grande brasileiro morreu de malária, mas havia interesse em não se amedrontar operários candidatos àquela frente de trabalho, e mesmo em não arriscar a obra a ser paralisada.

Preparado para o jornal Contexto, fevereiro de 2009.

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Henrique Mendonça

Gustavo Barroso na cultura brasileira

O nome de Gustavo Barroso encontra-se indelevelmente vinculado à cultura brasileira. Em

71 anos de vida, ele publicou cerca de 150 livros, iniciando com “Terra do Sol”, sob o pseudónimo de João do Norte (1912). Seguiram-se incontáveis trabalhos nos mais variados setores da vida, com ênfase para o Brasil; alguns de natureza técnica, a grande maioria no âmbito das ciências humanas. Nascido na capital cearense em 29 de dezembro de 1888, Gustavo Adolfo Dodt Barroso foi eleito para a ABL em 1923, aos 35 anos, e foi seu presidente em várias gestões, num tempo em que ser membro da ABL era estar literalmente entre maiores. Exerceu também várias funções na administração pública, notadamente nos setores da cultura, como foi o caso do Museu Histórico Nacional, que dirigiu até o fim da vida. Enquanto vivo e até pouco depois, suas obras foram sobejamente publicadas pelas melhores e maiores editoras do país, e receberam total acolhida, tanto pela relevância dos temas abordados quanto pelo estilo com que foram escritas. Gustavo Barroso dominou mais que ninguém a arte de

descrever detalhes triviais da vida e da natureza; coisas que, pela simplicidade, escapam ao domínio de se descrevê-las.

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Artigos & Fatos

Romances, contos, crônicas, poesia; ensaios literários,

antropológicos, folclóricos, históricos, geográficos, políticos e outros temas foram objeto de sua atenção. Foi também ativo jornalista. Embora o grande saber, inteligência e erudição, sua percepção política foi relativamente pueril. Em 1933, após ouvir uma palestra do líder integralista Plínio Salgado, Barroso adere ao movimento Ação Integralista Brasileira, tornando-se coerente com a ideologia esposada. Padece, então, da ingenuidade recorrente na concepção política da direita católica, em que se “coa o mosquito deixando passar

o elefante”. Uma cortina de silêncio veio cobrir seu nome, desde sua morte, ocorrida em 3 de dezembro de 1959, no Rio de Janeiro. Por obra da parcialidade vigente numa ditadura velada na indústria editorial, hoje é extremamente raro encontrarmos

trabalhos de Gustavo Barroso em livrarias, o que, o mais das vezes, é conseguido em algum sebo, ou sítio na internet. Entretanto, independentemente de sua postura ideológica, seu trabalho nas belas letras, no folclore, na história

e na cultura em geral jamais poderia ser desprezado. Vale a

pena conhecer o trabalho de Gustavo Barroso ou, de João do Norte.

Seus restos mortais estão enterrados na praça que leva o seu nome em Fortaleza.

Jornal da ULA, setembro a dezembro de 2003.

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Henrique Mendonça

Das presidentes e dos presidentes

N os primeiros dias de mandato da presidente Dilma Rousseff, logo em janeiro de 2011, as

redações dos principais jornais e mídias de comunicação social do Brasil receberam ofício da assessoria de comunicação da Presidência da República recomendando o

uso da expressão “presidenta”, em vez de “presidente” para se referir à chefe do Executivo na esfera da União.

Já durante a campanha de Dilma, chamou atenção a

maneira insisiva com que o então presidente Lula ressaltava

repetidamente o termo “presidenta”, como a infirmar uma forma a ser adotada por quem o desejasse, sugerindo tacitamente que o termo “presidente” seria masculino. Alguém chegou a aventar que se tratava apenas de costume:

“Não estamos acostumados com ‘presidenta’; é só uma questão de nos habituarmos, então passa isso a ser normal e ninguém mais estranha!”

O assunto despertou alguma discussão, que não chegou

a ganhar as mesas dos bares e mesmo dos programas televisivos populares de audiência expressiva. E nem seria de se esperar qualquer manifestação nesse sentido, num ambiente (não é só no

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Artigos & Fatos

Brasil) em que há forte propósito conspiracional de morte lingüística contra as matrizes classicas do latim e do grego, haja vista a distorção no emprego de afixos como “homo”, “filo” e outros . Entretanto, a utilização do termo presidente não está sujeita a discussão de preferências; restando as manifestações de protesto, numa espécie de iconoclastia ignorante, contra as quais não há diálogo. Sobre o assunto falam diversos professores, esclarecendo a dúvida, dentre eles os professores Antônio Oirmes Ferrari, Maria Helena e Rita Pascale, da cidade paulista de Salto, que ensinam:

No português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante. Qual é o particípio ativo do verbo “ser”? O particípio ativo do verbo ser é “ente”. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos “ante”, “ente” ou “inte”. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não “presidenta”, independentemente do sexo que tenha. Diz- se capela ardente, e não capela “ardenta”; estudante, e não “estudanta”; diz-se adolescente, e não “adolescenta”; paciente, e não “pacienta”. Ninguém diria: “A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que se imagina ser eleganta e pode ser representanta naquela corte mundial. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas não têm o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta.

No espanhol as regras são outras. Nele, a mulher diz “estoy mui contenta”. Por isso, na Espanha, ou Argentina, ou Cuba, ou Chile, ou aqui mesmo, se nos expressamos em espanhol, dizemos “presidenta”. Mas em português, nem “parenta” temos.

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Henrique Mendonça

De Santana de Parnaíba a Santana das Antas

I mitando o escritor e pesquisador Antônio Americano do Brasil, que disse ainda “não haver nascido o historiador

de Goiás”, dizemos, da mesma forma, que ainda não nasceu o historiador de Anápolis. E muito está por ser feito. O que se tem até hoje são fragmentos esparsos e espaçados no tempo. Alguns se encaixam perfeitamente, outros necessitam de pesquisas aprofundadas, enquanto o tempo passa e preciosidades são dizimadas, como foi o caso do incêndio em tempo recente da igreja matriz de Pirenópolis (antiga Meia Ponte), de que a antiga Vila de Santana das Antas foi parte territorial e administrativa. Isso foi gravíssimo, porque naquele tempo os registros de nascimento, casamento e óbito de Antas eram feitos ali. Mas há referências que permitem, pelo menos em parte, analisarmos o passado de Santana das Antas, hoje o importante município de Anápolis. Nesse sentido, damos a seguir uma pequena contribuição, que nos parece plausível. A referência mais antiga de que se tem conhecimento acerca do local onde hoje se ergue a grande cidade goiana, foi deixada pelo estudioso francês Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu o interior brasileiro entre os anos 1816 e 1822.

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Artigos & Fatos

Artigos & Fatos O estudioso francês Auguste de Saint- Hilaire (Orleans, 04.10.1779 - 03 .09.1853). Em

O estudioso francês Auguste de Saint- Hilaire (Orleans, 04.10.1779 - 03 .09.1853).

Em 1819,

Saint Hilaire atestou as condições da

localidade de Antas como sendo rota de negócios e decisões.

Em seu diário, Saint Hilaire disse, dentre outras coisas:

A três léguas de Forquilha [vindo de Bonfim, cujo nome mais tarde mudaria para Silvânia]*, fiz parada na Fazenda das Antas, situada acima do rio do mesmo nome, ainda um dos afluentes do Corumbá. A Fazenda tinha um engenho de açúcar que me pareceu em péssimo estado de conservação, mas o rancho que fazia parte da fazenda era espaçoso e limpo, e foi nele que nos instalamos. O rancho era cercado por grossos paus da altura de um homem, formando uma parede que livrava os viajantes da indesejável visita dos cães e porcos. Foi nesse galpão que encontrei os mercadores de Araxá [localidade hoje pertencente a Minas Gerais, mas nesse tempo Araxá ainda estava vinculada a Goiás]*. Eles percorrem as fazendas levando cobertores, chumbo para a

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Henrique Mendonça

caça e outras mercadorias que trocam por gado, que então

é posto a engordar nas excelentes pastagens, sendo depois

vendido a compradores da comarca de São João Del Rei, que todos os anos vão ao distrito de Araxá para comprar gado.

O

proprietário da Fazenda das Antas me falou bastante sobre

o

missionário capuchinho que era então motivo de todas as

conversas. Alguns sacerdotes protestavam calorosamente contra a pressa exagerada com que o povo se dispôs a seguir o Padre Joseph, a se confessar com ele e ouvir suas exortações. É bem verdade que os padres da região, quando subiam ao púlpito, pregavam a mesma doutrina que ele, mas seria necessário que também tivessem a mesma conduta. A comparação entre eles e o missionário tinha feito desse digno sacerdote um profeta e um santo, capaz de fazer milagres. Afirmava-se haver ele predito que choveria no mês em que estávamos [agosto]*, e me foi impossível convencer o meu hospedeiro de que eu conhecia suficientemente o missionário, com quem já passara alguns dias, para ter certeza de que ele não poderia ter dito coisa semelhante. Depois de deixar a fazenda, vi alguns campos

(Trecho do livro “Voyage aux sources du Rio de S. Francisco

et dans la Province de Goyaz” (Viagem à Foz do Rio São

Francisco e à Província de Goiás), de Auguste de Saint- Hilaire, Publicado em Paris, em 1847)

Alguns pretendem qualificar a primitiva localidade de Antas desse tempo, como simples passagem de transeuntes. Entretanto, a historiadora anapolina e mestre em história Maria de Souza França, em sua obra “A Formação Histórica da Cidade de Anápolis e sua Área de Influência Regional” (ANPUH, São Paulo, 1974), escreveu:

1833, festejavam anualmente o dia consagrado a

Nossa Senhora Santana, 26 de julho, em casa de Manuel Rodrigues da Silva.

desde

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Artigos & Fatos

O ano de 1833 foi 14 anos depois da passagem de Saint Hilaire pelo lugar que fôra palmilhado, entre sete a nove décadas antes do sábio francês, por Bartolomeu Bueno

da Silva, João Leite da Silva Ortiz e outros exploradores que percorriam das Minas de Santana (hoje Cidade de Goiás) às de Meia Ponte (atual Pirenópolis).

A escritora Haydée Jayme (filha do genealogista e historiador

Jarbas Jaime) registrou no livro de sua autoria “Anápolis, Sua Vida, Seu Povo” (Gráfica do Senado, Brasília, 1981):

Em 1870, já havia, às margens do Rego Grande, pelo menos sete casas “e já se festejava, em casa de Manuel Rodrigues da Silva, o dia de Nossa Senhora Santana.

Nada autoriza duvidarmos de que alguns daqueles moradores descendiam de antigos companheiros de Bueno, ou

de outro explorador, que “se deixaram ficar plantando roças”, como soía ocorrer.

O escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico

de Goiás Humberto Crispim Borges, depois de referir-se a Saint Hilaire, escreve no livro “História de Anápolis” (Editora do CERNE, Goiânia, 1975):

Português de nascimento e brasileiro de coração, o marechal Raimundo José da Cunha Matos [militar e historiador que esteve em Goiás entre 1823 e 1826, como comandante de armas]* nos dá notícias da citada propriedade, encravada no rio do mesmo nome. E Francisco Castelnau, no recuado ano de 1844, chega a falar em “localidade de Antas”. É certo que nas vizinhanças dos cursos d’água - Góis, Antas, Nunes, Capuava, Cesário, Água Fria, João de Ahy (Jundiaí) - moravam, em 1865, os senhores Joaquim e Manuel Rodrigues

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Henrique Mendonça

dos Santos, José Inácio de Sousa, Manuel e Pedro Roriz, Camilo Mendes de Moraes, Manuel Rodrigues da Silva e outros lavradores. Sendo o local saudável, com bons pastos e aguadas excelentes, nele pernoitavam viajantes e tropeiros, surgindo casas e palhoças.

Crispim Borges menciona os nomes de “alguns dos antigos moradores do sítio das Antas, cujos inventários se encontram nos cartórios da cidade”. Quinze das pessoas mencionadas faleceram entre 1842 e 1870. O primeiro documento oficial sobre Anápolis data de 25 de abril de 1870. Naquele ano, um grupo de moradores, formado por Pedro Roiz dos Santos, Inácio José de Souza, Camilo Mendes de Morais, Manoel Roiz dos Santos e Joaquim Rodrigues dos Santos, fez a doação de parte de suas terras para formação do que se denominou “Patrimônio de Nossa Senhora de Santana”. Só Camilo sabia assinar o próprio nome; os demais tiveram assinatura a rogo. Em 1871, Gomes de Souza Ramos construiu, nas terras doadas, a Capela de Santana, o que contribuiu ainda mais para o crescimento populacional. Em agosto de 1873, o povoado foi elevado a Freguesia de Santana. Consta que esse Gomes chagara à localidade em 1870. Esse era, basicamente, o caminho a ser seguido para quem pretendesse iniciar um agrupamento humano viável, que se convertesse futuramente numa vila. O estado, no tempo do império, era católico romano. No Brasil, a vida social se desenvolvia em torno da igreja católica. Não apenas os batizados eram realizados nas igrejas, mas as certidões de nascimento, de casamento, de óbito, e, por vezes, as transações negociais eram registradas nas igrejas e tinham valor legal.

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Artigos & Fatos

Desse modo, era literalmente de lei submeter as pretensões de urbanização às autoridades civis, mas também aos dirigentes religiosos maiores. Muitas vezes essa submissão de dava através de consulta da autoridade civil ao prelado. Por isso, torna-se compreensível a doação a Santana pelos cinco moradores. A devoção a Santana chegara a Goiás através do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva. Americano do Brasil, referindo-se a outra capela, também de Santana, mas erguida onde se desenvolviam as lides mineradoras e que se tornaria capital da capitania e depois da província (atual Cidade de Goiás), escreveu:

foi a 26 de julho de 1727, que se lançaram os esteios da capela [em Vila Boa, atual Cidade de Goiás]* sob a invocação de N. S. Santana, a padroeira da Vila de [Santana de] Parnaíba [no estado de São Paulo]*, onde nasceu Bueno, onde tiveram berço os principais companheiros de Bueno.

Mais à frente, completando o assunto, Americano conclui:

Santana, padroeira dos goianos, é, ao certo, o fruto da promessa de Bueno quando partiu para a grande aventura, ao fazer sua última oração na vila natal.

(O artigo de Americano do Brasil foi publicado em março de 1925, na revista “A Informação Goiana”, sob o título “Pobre História de Goiás”. Em 1980, Humberto Crispim Borges coligiu os escritos jornalísticos de Americano, na obra “Pela História de Goiás”, Editora da UFG, Goiânia)

* Observações nossas

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Henrique Mendonça

UFG, Goiânia) * Observações nossas 174 Henrique Mendonça Páginas de “Voyage aux sources du Rio de

Páginas de “Voyage aux sources du Rio de S. Francisco et dans la Province de Goyaz” (Viagem à Foz do Rio São Francisco e à Província de Goiás), publicado em Paris, em 1847, em que Saint-Hilaire narra sua estada em Antas.

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Artigos & Fatos

Continuação da página anterior de Saint-Hilaire.
Continuação da página anterior de Saint-Hilaire.

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Henrique Mendonça

Brasil perde o maior editor que já teve

O jornalista e presidente das organizações Globo, Roberto Marinho, morreu na noite do dia 6 de

agosto passado, aos 98 anos, vítima de edema pulmonar. Familiares e amigos acompanharam o velório em sua casa, no

bairro Cosme Velho, zona Sul do Rio de Janeiro. O presidente

do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, decretou três dias de luto

pela morte do empresário. Roberto Pisani Marinho, dono de jornais, redes de

televisão, rádio, empresas de internet e operadoras a cabo, editoras

de

livros e discos, e de uma fortuna pessoal estimada em um bilhão

de

dólares, era filho de Irineu Maranho, e assumiu a direção de O

Globo, o jornal familiar, quando tinha apenas 21 anos, em 1925. Foi um dos brasileiros mais influentes do século XX. Sua grande arrancada como empresário ocorreu nos anos 60,

quando se tornou concessionário de radiodifusão televisiva. A partir

da década de 1970, os brasileiros passam a tomar conhecimento,

através de suas empresas, do “Milagre Brasileiro” e de tudo de bom

que a “Revolução” de 64 estava fazendo pelo povo. Com a inevitável abertura política, na década seguinte,

o discurso veiculado pelas empresas de Marinho migra

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Artigos & Fatos

paulatinamente para o contexto neoliberal. Em 1989, tem influência preponderante na eleição do presidente Fernando Affonso Collor de Mello, como também na sua deposição, dois anos e meio depois. Escritores imparciais que tiverem de abordar o fenômeno Roberto Marinho, deparar-se-ão com um fato singular: o passamento do empresário foi preparado por uma estrutura cerimonial que dificultou sobremaneira o aparecimento, ou pelo menos a divulgação, de obra congênere a “Chatô, o Rei do Brasil”, de Fernando Morais, que trouxe revisão acerca de Assis Chateaubriand.

Jornal da ULA - setembro a dezembro de 2003.

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Henrique Mendonça

Anápolis produzirá avião polonês

178 Henrique Mendonça Anápolis produzirá avião polonês Grupo de autoridades e empresários que compareceram à

Grupo de autoridades e empresários que compareceram à cerimônia de inauguração da PZL, em 1997.

A fabricante polonesa de aviões PZL Mielec, inaugurou hoje, 2 de julho, na cidade goiana de

Anápolis, a sua filial brasileira. Na cerimônia realizada na planta ainda em construção, a cerca de mil metros de onde Juscelino Kubitschek quatro décadas atrás assinou o ato de criação da estatal Novacap, estiveram presentes diretores da PZL, representantes do governo daquele país, o governador Maguito Vilela e o prefeito municipal Adhemar Santillo, além de diplomatas e representantes dos três poderes nas três esferas.

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Artigos & Fatos

Houve manifestação geral de otimismo quanto aos destinos do empreendimento. “Este é o primeiro investimento realizado pelo governo polonês no Brasil nos últimos setenta anos, e o mesmo consolida acordos bilaterais de livre comércio

que, certamente, impulsionarão novas parcerias de negócios entre o Brasil e o nosso país”, disse um executivo da firma polaca.

A meta inicial da PZL em Goiás é montar uma

aeronave agrícola por mês, a partir de setembro, e pretende, a médio prazo, fabricar no Brasil mais de 50% dos componentes utilizados na montagem, adiantou o prefeito Adhemar Santillo. O presidente da PZL brasileira, José Paes de Lucena, informou que os equipamentos da fábrica encontram-se em fase de despacho marítimo na Polônia, e o presidente mundial da empresa, Wielaw Postula, disse que “o Demander será o primeiro modelo produzido aqui, mas conforme a procura do mercado, serão fabricados outros modelos e versões”. O governador Maguito Vilela conclamou os empresários, secretários de sua administração, políticos e a comunidade

goiana a manterem contato com investidores de outros estados

e países, incentivando-os a conhecer as potencialidades de

Goiás. Maguito disse que a instalação da PZL em Anápolis abre mercado não só para o Centro-Oeste, mas para todo

o Brasil e países do Mercosul. Revelou que a PZL Mielec

expressou intenção de, num prazo maior, concentrar na cidade

de Anápolis não só a produção, mas toda a administração da empresa, em âmbito americano.

As instalações físicas da companhia nesta cidade ocupam

área construída de 2.500 metros quadrados, em terreno de cerca de 140.000, que abrange também a pista de pouso, decolagem e

provas. É a segunda vez que ocorre o anúncio da PZL sobre instalação de uma planta de produção em Anápolis. Há dois

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Henrique Mendonça

anos, durante a administração municipal de Wolney Martins de Araújo, uma delegação anapolina, incluindo o prefeito, também esteve no país polaco e chegou a trazer executivos da Mielec para as terras antesinas; entretanto, o assunto não teve continuidade.

Henrique Mendonça. De Anápolis - GO. 02/07/1997

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Henrique Mendonça

Anápolis tem um banco a menos

A partir da próxima segunda-feira, 28, Anápolis terá uma agência bancária a menos. Após 44 anos na

cidade, o Banespa (Banco do Estado de São Paulo) encerra suas

atividades na praça de Anápolis. Segundo o gerente, Abadio Souza, o fechamento, atende a um “processo de enxugamento pelo qual passa a instituição” financeira estatal da unidade federativa mais rica do país. O mesmo processo está sendo adotado também por outros bancos estaduais. Um funcionário da auditoria central do banco, que se encontrava na agência, mas pediu para não ter o nome revelado, explicou que existe uma tendência para os bancos estaduais manterem agências apenas em seus respectivos estados. Por outro lado, disse ele, “em relação ao Banespa, mais de 40 liminares entradas na Justiça reivindicam a permanência da instituição em várias localidades do país”. Ao todo, 91 agências estão na lista de fechamento, mas algumas liminares conseguiram, por enquanto, adiar o fato em algumas localidades, disse. Com o encerramento da agência de Anápolis, 27 funcionários estão sendo demitidos e sobe para quatro o

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Artigos & Fatos

número de agências bancárias fechadas na cidade em menos de um ano. As outras três foram as do Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais), que funcionava em Anápolis desde 1939, do holandês ABN/AMRO S/A; e uma do BEG (Banco do Estado de Goiás). Ainda assim, a cidade de Anápolis conta com 17 bancos, que atuam através de 24 agências e 14 postos, empregando cerca de 600 funcionários. Há 15 anos, a cidade contava com 30 agências. A primeira agência bancária a se instalar em Anápolis foi a do Banco Hypotecario e Agrícola de Minas Gerais, em 1934. Desde aquela época, o município cresceu econômica e demograficamente acima dos índices do resto do estado. Hoje é o terceiro do estado de Goiás, considerando-se em segundo Aparecida de Goiânia, e a própria capital. Analisando a situação, o presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Anápolis, Odilar Barreto Maciel, pondera que “realmente, a crise por que passam os bancos estaduais, de um modo geral, não deixa alternativa”. Permanece a agência em Goiânia, enquanto o governo paulista discute o futuro do banco e analistas falam até em ameaça de privatização.

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De Anápolis - GO Henrique Mendonça

25/04/1997

Henrique Mendonça

Contribuição para o urbanismo de Anápolis

E m 1935, festejou-se em Anápolis a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Goyaz. Foi uma festa inesquecível.

Talvez, nunca antes ocorrera tão grande. Era o resultado de anos de luta e reivindicação. Entretanto, eis só uma das muitas notícias que eram publicadas 24 anos depois, num jornal de larga circulação no estado.

1959. Sessão do dia 5 de julho. O vereador José Batista Sobrinho apresentou interessante requerimento, no qual solicita seja nomeada uma comissão de vereadores que, juntamente com o prefeito, vá a Goiânia a fim de solicitar do Sr. Nestor Rocha, diretor da Estrada de Ferro Goiaz, a mudança da estação local ora situada na Praça Americano do Brasil, para o Jundiaí. O vereador apresentou extensa e expressiva justificativa pela qual prova que a estação aqui situada nenhum benefício traz, uma vez que a distância do Jundiaí ao centro da cidade é quase a mesma. Justifica ainda, que o trânsito da cidade tem sido grandemente prejudicado com a estação onde se encontra, e que é por isto e outros motivos absolutamente necessária a mudança. Seu requerimento, depois de receber uma emenda do vereador João Furtado de Mendonça, emenda essa que solicita envio de cópia do requerimento ao Ministério da Viação e aos deputados goianos do Palácio Tiradentes, foi aprovado unanimemente.

Tudo tem um tempo certo na vida. Nada é fixo e imutável. O que à primeira vista poderia parecer incoerência era apenas a expressão de uma lei imutável em urbanismo, e

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Artigos & Fatos

em todos os outros âmbitos ligados à atividade humana em sociedade. E a lei imutável é a seguinte: as coisas mudam.

Em 1959, os trilhos que haviam sido agentes promotores de prosperidade, tornaram-se transtorno em pouco mais de duas décadas, com o crescimento da cidade. Os trilhos foram, finalmente, removidos da região central em 1976, ou seja, 17 anos depois daquela publicação. Entretanto, os depósitos e galpões de empresas atacadistas e prestadoras de serviços que em função do terminal da ferrovia se instalaram nas imediações, permaneceram.

O comércio atacadista que atualmente ocupa a zona

central da cidade, causa grande transtorno ao trânsito de veículos, de pedestres e ao próprio comércio varejista.

Os empresários do setor merecem todo o respeito. Circulam

mercadorias, geram riqueza com lastro, criam empregos, mas os cidadãos que não são do ramo também merecem. Não vamos pensar, sequer, em termos de segurança, fator que por si só já justificaria, neste instante, um arregaçar de mangas dos vereadores e do chefe do Executivo municipal. Há exemplos de atacadistas de visão que instalaram suas plantas em locais estratégicos, às margens de rodovias facilitando o acesso deles próprios e dos transportadores que vão até suas firmas, e aliviando a cidade. São empresários de visão. O poder público, entretanto, não pode ficar à espera da visão dos demais empresários, porque o caos está insuportável para todos.

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Henrique Mendonça Folha de Anápolis 05 a 11 de março de 1999

Henrique Mendonça

O Mundo Sem Nós

C omo seria o planeta de hoje, ou melhor, a partir de amanhã cedo, se à zero hora toda a humanidade

fosse suprimida da face da Terra? Esta é a pergunta feita pelo

jornalista estadunidense Alan H. Weisman, em seu livro “O Mundo sem Nós” (The World Without Us, em inglês), lançado nos Estados Unidos em 2007, e no mesmo ano pela Editora Planeta do Brasil. A obra ganhou também os documentários de televisão.

O autor não se limitou a colocar opinião própria acerca

do que seria o mundo nessa situação. Consultou especialistas

como biólogos, engenheiros, metalurgistas, químicos,

zoologistas, geólogos, sociólogos, historiadores e outros.

O resultado foi um relatório de fatos que se desenrolam

através dos primeiros dias, nos primeiros anos, séculos e pelos

milênios afora. Por exemplo: “O segundo e o terceiro século seriam considerados os ‘séculos dos desabamentos’, com todos os grandes edifícios do mundo ruindo e vindo abaixo em decorrência da ação do tempo e das intempéries”. Apenas

o ser humano sai de cena, mas ficam os animais domésticos e

a vegetação, e a natureza começa retomar o seu devido lugar.

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Artigos & Fatos

A obra joga por terra aquela resposta dada em silêncio no Ocidente, que considera infundada a possibilidade de haver existido uma civilização igual ou superior a atual, pois inegavelmente teria deixado vestígios. Weisman mostra que isso é falso. Pode ter havido. O tempo aproximado para o desaparecimento completo de algo material duradouro, feito por uma civilização como a nossa, e exposto à ação da natureza, medeia entre mil e dois mil anos, incluindo metálicos. Mesmo os monolíticos têm um tempo limitado. Um exemplo clássico mencionado por Weisman é o das pirâmides do Egito, que alguns afirmam ter cerca de 40 mil anos. Mesmo assim, o tempo passa e ninguém saberia dizer se outra civilização como a nossa mirou aqueles monumentos indagando de sua antiguidade. Mas esta dúvida já é nossa.

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Henrique Mendonça

Goiás, Terra da Promissão

F ato que poucos conhecem, mas que faz parte da história de Anápolis, refere-se à residência

por longos anos em terras antesinas, da ex-atriz e escritora estadunidense Joan Lowell (Berkeley, Califórnia, 23/11/1902 - Brasília, 07/11/1967). Jovem, ela atuou no filme mudo “The Gold Rush”, de Charles Chaplin, (“Em Busca do Ouro”, no Brasil; “A Quimera do Ouro”, em Portugal). Nascida Helen Joan Lowell Wagner, Joan Lowell sempre teve inclinação pela vida no mar e no campo. Cedo abandonou o convívio com a cidade e morou na zona rural em seu país. Veio para o Brasil em 1935, já estando separada do primeiro casamento. Pouco antes, conhecera o capitão de navio mercante Leek Bowen, bem mais velho do que ela e se dizendo disposto a se aposentar dos oceanos para viver nas matas brasileiras. Cantada pelo ancião, decide-se a se transferir para o Brasil. O tempo a partir de sua chegada até algum tempo depois, quando se mudam para Anápolis, é narrado por ela no livro “Terra da Promissão”, lançado em 1952. Sua vida é uma aventura. Não só no papel. Joan Lowell publicara o livro “Cradle of the Deep” (Berço do Abismo), que dizia tratar-se de sua autobiografia em criança.

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Lançado nos Estados Unidos em 1929, o livro causou sensação pela forma com que Joan convencia os leitores de

que se tratava de fato real sua infância e adolescência vividas numa escuna no Oceano Pacífico e nos Mares do Sul, após ser salva de um naufrágio, ainda bebê. Quando, entretanto, surgiram dúvidas quanto à veracidade das narrativas, jornalistas foram atrás dos fatos

e concluíram que se tratava de uma fantasia muito bem

arquitetada. A crítica não perdoou a escritora, que, no entanto,

já havia vendido uma cifra inigualável do título.

já havia vendido uma cifra inigualável do título. Helen Joan Lowell, encantada pelo mar, foi viver

Helen Joan Lowell, encantada pelo mar, foi viver a mil quilômetros distante dele.

Com sua chegada ao Brasil, e pouco depois chegando também Leek Bowen, a cena passa para as matas de São Patrício, no interior goiano, onde, de forma inusitada, tinham

a missão de abrir uma estrada. Mas, pelo que ela narra, o

serviço só foi realizado em parte, porque têm de mudar-se para

Anápolis.

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Henrique Mendonça

Na metade da vida em solo brasileiro, Joan Lowell incorporou totalmente o jeito goiano, restando tão só um leve sotaque ao qual os conviventes se familiarizaram. Lowell integrou-se bem à comunidade e chegou a ocupar, inclusive, cargo na diretoria da recém-inaugurada Fraternidade Eclética Espiritualista Universal, em 1957. Em Anápolis possuiu um posto de gasolina, que se localizava no início da avenida Tiradentes, na época saída para Ceres e Corumbá de Goiás. Depois, mudam-se para Brasília. Ali, em 1961, Bowen faleceu, vítima de um atropelamento. No tempo em que viveu em Anápolis, sua residência localizava-se numa fazenda de sua propriedade. Ali, Helen Joan Lowell recebeu importantes visitantes patrícios, dentre eles as atrizes Janet Gaynor e Mary Martin, e o figurinista de Hollywood Gilbert Adrian; constando também que esteve em sua residência o então ator e depois presidente da república estadunidense George Reagan. Para resgatar todos esses fatos, cineastas da UnB (Universidade de Brasília) preparam o filme documentário “Hollywood no Cerrado”, dirigido por Armando Bulcão e Tânia Montoro, e uma equipe de especialistas. A produção já realizou grande parte das tomadas de cena e agora busca por recursos para concluir o trabalho. Contatos de interessados podem ser mantidos com Cia. do Filme, pelos telefones (61) 3344-1911, 8433-6039, 8497- 2015 e 9807-2015*.

Jornal da ULA, 2010.

* O trabalho viria a ser lançado no 1º Festival de Cinema de Anápolis, em 2011.

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Os textos conferem com os originais, sob responsabilidade integral do(s) autor(es), inclusive a revisão.

ESTA PUBLICAÇÃO FOI IMPRESSA NA OFICINA DA EDITORA KELPS

No papel Off-set 75g, usando a(s) fonte(s): Minion Pro, corpo 12 e Apple Garamond, corpo 20. Junho, 2011

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