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Aula: 09 Temática: As palavras e suas famílias Nós pensamos com palavras. E quando queremos
Aula: 09
Temática: As palavras e suas famílias
Nós pensamos com palavras. E quando queremos ou preci-
samos expressar verbalmente nossos pensamentos, trans-
miti-los para outras pessoas, procuramos encontrar as pa-
lavras certas, adequadas, para deixá-los claros, e conseguirmos, assim, a
comunicação desejada.
Eu, você e a maioria dos falantes de uma língua sabemos que, para isso,
devemos ter um bom domínio do vocabulário. Em nossa comunicação diá-
ria, seja ela oral ou escrita, empregamos um número x de palavras com as
quais nos sentimos confortáveis, já que dominamos seus sentidos e em-
pregos. Ao conjunto dessas palavras dá-se o nome de vocabulário ativo.
Por outro lado, há outras palavras que não costumamos usar, nem quando
falamos nem quando escrevemos. No entanto, se as ouvimos ou lemos,
conseguimos entendê-las, pois ou conhecemos seus sentidos ou temos
uma noção deles, embora não os saibamos com precisão. Ao conjunto
dessas palavras dá-se o nome de vocabulário passivo.
Portanto, a consulta ao dicionário não é o único caminho
para a ampliação do nosso vocabulário. Para isso, é neces-
sário ler jornais, revistas, livros, assistir a filmes, palestras,
debates, prestar atenção às letras de músicas de bons autores. Num pri-
meiro momento, vamo-nos familiarizando com novas palavras e constru-
ções de frases, que passam, então, a fazer parte de nosso vocabulário
passivo. Aos poucos, começamos a nos sentir mais à vontade com elas,
mais seguros para usá-las em nossos textos (orais ou escritos), sinal de
que ampliamos nosso vocabulário ativo.
Com isso, você deve ter percebido que não só a leitura mas também a
produção de textos são os meios mais eficazes para o enriquecimento do
vocabulário. Aliás, nossa competência textual está intimamente relaciona-
da com nosso domínio do léxico.
Dá-se o nome de léxico ao conjunto das palavras de uma
língua. Esse conjunto é aberto, isto é, novas palavras estão
sempre sendo agregadas a ele, enquanto outras tantas vão
caindo em desuso e chegam a desaparecer. Atualmente, com o acelerado
desenvolvimento das novas tecnologias, temos notado a rápida incorpo-
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ração de muitos termos que, a princípio utilizados na nossa fala do dia-a- dia, passaram (ou passarão, daqui a alguns anos) a fazer parte do nosso léxico.

Mas as palavras, também, se transformam. Como você deve saber, o Por-

tuguês (assim como o Espanhol, o Italiano

)

é uma língua neolatina, isto

é, derivada do Latim. Ao longo do tempo, por vários motivos, o Latim foi passando por transformações, dando origem às novas línguas (creio que você sabe, também, que o Latim é uma “língua morta”, isto é, ele não é mais falado por nenhum povo, em nenhuma região do mundo). Isso sig- nifica que as palavras sofreram várias transformações ao longo do tempo até chegarem a ser o que são hoje, seja do ponto vista fonético (som), ortográfico (o modo como são escritas) ou semântico (significado). Trans- creverei abaixo uma passagem do texto “Qualidade na educação: as arma- dilhas do óbvio”, do professor Nilson José Machado, na qual, ao tratar da valorização dos programas de qualidade das empresas, o autor explica a etimologia e o uso da palavra cliente ao longo do tempo.

 

vamos

procurar entender os estranhos desígnios

etimológicos que contemplaram a palavra cliente no léxico dos teóricos da qualidade. Pelo menos nas lín- guas de origem latina, como a nossa, cliente origina- se de cliens, clientis, que significa “vassalo, protegido de alguém, de um senhor”, este sim, detentor do poder. Depois a palavra foi associada aos protegidos dos senadores romanos, dando origem à variante do costume político comum e freqüentemente criticado, denominado “clientelismo”. Mais tarde ainda, o uso foi estendido para designar os que consultavam determi- nados profissionais, como os advogados ou os médi- cos. Hoje, no discurso da qualidade, uma fantástica torção semântica transformou o vassalo no senhor.

 

Como você pôde notar, a palavra cliente sofreu tantas mu- danças que, hoje, pelo menos na área dos programas de qualidade das empresas, ela quer dizer o oposto do que ori- ginariamente significava. Esse exemplo também evidencia o caráter “aber- to” do léxico de uma língua ao qual me referi anteriormente.

Esse exemplo também evidencia o caráter “aber - to” do léxico de uma língua ao qual

Já que mencionei as mudanças pelas quais passam as palavras ao longo do tempo, aproveito para retomar um aspecto a que já me referi na aula anterior (Dicionário, “o pai dos inteligentes”) quando disse que é pos- sível chegarmos ao sentido de uma palavra desconhecida comparando-a com outras já conhecidas.

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1 Pensando e fazendo educação de qualidade. (org. Maria Teresa Eglér Mantoan). São Paulo: Moderna, 2001, p.33-34.

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Na verdade, nós não “adivinhamos” nada. O que fizemos foi relacionar “in- ventividade” (palavra cujo significado presumi que nós não conhecíamos) com “inventar”, “invenção”, “inventor” porque percebemos que essas pa- lavras têm algo em comum: invent-, cujo t transformou-se em c em alguns vocábulos (como “invenção”, “invencionice”). Ao conjunto das palavras que têm um mesmo radical (parte invariável de uma palavra, em torno da qual gira o seu sentido principal) dá-se o nome de famílias etimológicas.

 

Segundo Antonio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Eti- mológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, étimo é o “vocábulo que é origem de outro”. 2 Portanto, as famílias etimológicas constituem-se de palavras que têm o mesmo étimo, como:

é origem de outro”. 2 Portanto, as famílias etimológicas constituem-se de palavras que têm o mesmo

andar, andarilho, andante, desandar (cujo étimo é and-: relativo a dar passos, caminhar);

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bélico, belicoso, beligerante (cujo étimo é bel-: relativo à guerra);

concordar, cordial, discordar, recordar (cujo étimo é cord-: relativo ao coração);

-

-

década, dezena, decalitro, decímetro (cujo étimo é dec-: relativo a dez);

etnia, etnocentrismo, etnogracia, etnografia (cujo étimo é etno-: relativo a raça, nação); e assim por diante.

-

Para encerrar esta nossa primeira reflexão sobre as palavras, vamos consi- derar, agora, um outro subgrupo do léxico de uma língua: as famílias ide- ológicas (alguns estudiosos chamam as “famílias ideológicas” de campo semântico). Nelas, as palavras se agrupam por sua afinidade de sentido. Podemos dizer, por exemplo, que os verbos circular, cercar, rodear, rodar pertencem ao mesmo campo semântico, pois reconhecemos, neles, um núcleo de sentido comum.

O campo semântico, na verdade, é determinado pelo contexto em que as palavras aparecem.

Compare as frases:

Compare as frases:

Na esquina, o guarda apitava, fazendo sinal para que os carros circulas- sem mais rapidamente.

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Na aula de hoje, o professor pediu que os alunos circulassem os subs- tantivos do texto.

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2 Antonio Geraldo da Cunha. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portu- guesa. 2ª ed., 8ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p.336.

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- Na cidade amedrontada, nada impediu que circulassem os boatos de um novo atentado.

Você deve ter notado que, no contexto da primeira frase, o verbo circular pertence ao mesmo campo semântico de transitar, brecar, correr, aciden- tar-se, trafegar, multar – para listarmos apenas verbos. Se pensarmos em outra classe de palavra – o substantivo, por exemplo –, poderíamos rela- cioná-lo também a carro, automóvel, congestionamento, moto, farol e até a transeunte, asfalto, rua, poste, ou mesmo a acidente, estresse, violência.

Já na segunda frase, o mesmo verbo pertence ao campo semântico de anotar, marcar, registrar, sublinhar, ou ainda ao de estudar, ler, observar, treinar, exercitar.

Na terceira, o verbo circular, pelo contexto, insere-se no campo semântico de propagar, difundir, alardear, divulgar.

semântico de propagar, difundir, alardear, divulgar . E agora: você diria que casa, residência, mansão,

E agora: você diria que casa, residência, mansão, domicílio, moradia, lar têm o mesmo sentido, ou seja, são sinônimos, ou participam da mesma família ideológica?

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