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SÃO CLEMENTE MARIA HOFBAUER

Insigne propagador da

CONGREGAÇÃO DO SS. REDENTOR

pelo

P. OSCAR CHAGAS AZEREDO


C.Ss.R.

1928

Edição da
Livraria Nossa Senhora Aparecida

Edição PDF de Fl.Castro, abril 2002

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PRÓLOGO
Mais uma hagiografia entregue aos católicos da nossa Pátria. Abrindo o
livro esperam alguns deleitar-se na leitura empolgante de sensacionais mila-
gres, êxtases contínuos, penitências sobre-humanas, na certeza de que santo
só é aquele que opera prodígios estupendos. Julgam que a santidade consiste
nos milagres e que o Santo, alheio a este mundo, deve habitar uma altura ina-
cessível e ser dotado do dom da impecabilidade. Quanto mais estupendos os
prodígios, maior o Santo.
Para eles a santidade é coisa que se admira — e que muitos não crêem —
e que se não pode imitar. Extasiam-se ante a vida extraordinária de um S. Ge-
raldo que desde o berço brincava com os milagres e vivia em êxtases contínu-
os; param perplexos ante a poesia perfumosa de um coração santamente infan-
til de uma Teresinha, que nas doçuras de uma alma bondosa e calma se desfa-
zia nos sentimentos e arroubos místicos da união íntima com Deus — e sentem
NIHIL OBSTAT.
certa repugnância daqueles que nos combates se exercem pela prática das
S. Pauli, 22 Februarii 1927.
mais acrisoladas virtudes sem as exterioridades de fatos extraordinários.
É um engano. A santidade não consiste absolutamente nos milagres que
Can. Dor. Joannes Martins Ladeira
Deus opera, quando lhe apraz, e que são apenas a manifestação, nem sempre
Censor.
necessária, da santidade interna. A verdadeira santidade está em executar em
tudo e do modo mais perfeito possível a vontade santíssima de Deus. Ela de-
IMPRIMI POTEST.
pende não só do socorro do alto mas também — e principalmente — da coope-
Pe. Estevam Maria
ração do homem, sem a qual não pode haver merecimento nem recompensa.
Vice-Provincial
Em São Clemente Maria não encontramos a multidão espantosa dos mila-
gres nem os êxtases continuados; em sua vida não se manifesta um coração
IMPRIMATUR
convulsionado por violentas paixões internas com os enredos empolgantes que
Mons. Pereira Barros
costumam adornar os romances fantásticos. A grande de São Clemente é bem
Vig. Geral
diversa; de coração singelo e pacato sabia conviver com a sociedade sem nela
se manchar; era simples, amável, alegre, despreocupado a cantar hinos religio-
sos e, na intimidade, capaz de gracejos inocentes.
Os combates que São Clemente teve de travar em vida são todos de or-
dem exterior: as perseguições que suportou, os desgostos por que passou, o
fracasso dos seus esforços, e o aparente insucesso das suas obras: em tudo
isto São Clemente tornou-se modelo da mais inabalável constância e da mais
inteira confiança em Deus, esperando qual outro Abraão contra a esperança.
Em tudo ele é digno da nossa imitação, e isso é para nós a coisa mais importan-
te na vida dos Santos.
Clemente recebera de Deus um papel especial a representar sobre a terra.
Nas grandes calamidades e nos cataclismos sociais Deus sempre suscita

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um herói que lhes faça frente e lhes possa apresentar remédio salutar. Quando ções para Jesus! Desejo-te, de coração, a melhor viagem e os maiores triunfos
Clemente apareceu reinava na Europa o indiferentismo religioso a par do para a glória do teu herói.
racionalismo mais declarado, produzido pelas idéias josefinas. Na sua infância
Clemente assistira ao espetáculo desolador da guerra dos sete anos; nos anos S. Paulo, Festa do Santíssimo Redentor, 18 de julho de 1926.
do seu apostolado presenciou o desmembramento da Polônia, e mais tarde foi O AUTOR.
vítima das arbitrariedades de Napoleão. A vida agitada da Europa favorecia o
torpor e indiferentismo religioso. Neste trabalho foram utilizadas as mais conhecidas biografias de São Cle-
Clemente, com a sua constância de aço e com o seu coração afogueado mente, mormente as seguintes: Hofer, Bauchinger, Innerkofler, Haringer, Pichler,
de amor à santa religião, conseguiu quebrar o gelo e despertar a vida religiosa Brunner, Freund, Saint-Omer, autores todos da mais comprovadas competên-
não só entre o povo, mas ainda nos professores e alunos da Universidade e, cia e dignos de toda a fé.
com eles, nas altas rodas sociais.
Os nossos tempos são, mais ou menos, como os de São Clemente; vemos
o racionalismo dominar as massas, o sentimentalismo avassalar pessoas aliás
bem intencionadas. Precisamos de homens que imitem o grande Apóstolo de
Viena, inflamados do mesmo zelo e do mesmo amor à Santa Igreja. São Cle-
mente é um Santo moderno, no sentido verdadeiro da palavra. Também hoje
podemos dizer como outrora o vigário de Babenhausen: “Dai-me quatro Cle-
mentes... que eu converterei impérios”.
No nosso meio começa felizmente a despertar-se uma nova vida de pieda-
de sólida e esclarecida. Do terreno putrefato do racionalismo levantam-se flores
mimosas de virtude, centros de piedade. Uma árvore frondosa estende seus
ramos produzindo os mais saborosos frutos: a “Liga Católica Jesus, Maria, José”.
São homens de fé esclarecida que tomaram por lema da sua vida restaurar
santamente a família brasileira. Ora, especialmente para os liguistas quisemos
escrever esta biografia, onde encontrarão o modelo consumado e o guia seguro
na grande obra da restauração social.
Que cada liguista manuseie, estude e saboreie, em família, essa vida cheia
de peripécias guiada pela luz da fé! É Clemente o propagador insigne da Con-
gregação Redentorista, e quem é que não conhece ainda o redentorista, que
com sua batina preta e colarinho branco, e o rosário da Virgem pendente ao
lado, percorre as cidades e aldeias de nossa Terra evangelizando e chamando
as almas para Deus? Que Ele pois mereça a confiança e o amor do povo brasi-
leiro!

***

E agora, livrinho meu, levanta o vôo e percorre o Brasil de Norte a Sul


cantando as glórias de São Clemente; faze-o conhecido e amado dos nossos
patrícios! Conta às criancinhas a docilidade e a obediência do filhinho do cortador
de Tasswitz, e aos operários a humildade do padeiro de Znaim; descreve aos
inocentes a pureza virginal de Clemente, e aos pecadores o seu zelo e amor
das almas. Penetra os conventos e descreve aos religiosos a vida interior e
recolhida do grande Apóstolo do Norte; não receies entrar em todos os lares e
falar a todos os corações das virtudes do grande Redentorista. Se caíres nas
mãos de um sacerdote, sobretudo nas de um vigário, canta-lhe melodiosamen-
te os trabalhos de S. Beno e de Viena.
Não canses, livrinho meu, nem desanimes, corre, voa ganhando os cora-

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NA CAPITAL DA POLÔNIA (1787-1808)

CAPÍTULO I
Os primeiros anos em Varsóvia
Em Viena — Estado lamentável da religião na Áustria — Destina-se à
Curlândia — Fica em Varsóvia — S. Beno — As primeiras dificuldades — Se-
nhor, agora é tempo — Restaura a igreja — Visita de Sto. Afonso — Um colégio
em Roma — Os grandes planos — Recrutamento — O demônio em ação.
CAPÍTULO II
O apostolado em Varsóvia
Polônia e sua história — Finis Poloniae — O comando da Prússia — Os
ÍNDICE trabalhos apostólicos — Corpus Christi — O confessionário e o púlpito — Vida
de convento — As escolas — Os oblatos Redentoristas — Apostolado da im-
PARTE PRIMEIRA prensa.
CAPÍTULO III
LUTA PELO SACERDÓCIO Viagens de fundação
(1751-1786) O desejo mais ardente — Mitau — Radzynim — Lutkowka — O Santo em
Praga — Lindau — Em Viena — Morte inesperada — Novo recrutamento —
CAPÍTULO I Novas dificuldades com o governo — A imagem da Virgem.
No lar paterno CAPÍTULO IV
A pátria do Santo — Seu nascimento — Os pais de Clemente — Primeiras Os anos de 1798 a 1802
dores — É Ele o teu pai... — Ocupações prediletas — Passatempos — O futuro Os trabalhos do Santo — Uma cura curiosa — Conversões numerosas —
Apóstolo. A congregação dos Oblatos — Três missões em regra — Os padres de S. Beno
CAPÍTULO II — Date et dabitur — Isto foi para mim... — O Pe. Passerat — A direção do
Os primeiros estudos Seminário — Escolas paroquiais — Desinteligências e explicações — Os livre
Procura um ofício — Os sentimentos nobres — O São Cristóvão — No pensadores em ação — S. Beno hostilizado.
convento dos Premonstratenses — A grande carestia — Entre os seminaristas CAPÍTULO V
do Convento — Dificuldade nos estudos. Na diocese da Constância
CAPÍTULO III Em Altötting — Monte Tabor — Pe. Passerat Reitor — Ordenação dos clé-
Peregrinações rigos na Itália — As necessidades do novo convento — Clemente em Jestetten
O ermitão de Mühlfrauen — As romarias e os romeiros — Abandona o — O rico cardápio — Triberg, santuário da Virgem — Uma noite no paiol —
ermitério — Vai à Boêmia e volta a Viena — Romaria à Itália — Volta à Áustria e Recepção em Triberg — Reanimação da vida de piedade — Raiva do demônio
torna novamente a Roma — Tívoli — Outra vez em Viena — As senhoras von — Triberg abandonada.
Maul. CAPÍTULO VI
CAPÍTULO IV Na Suabia
Na universidade de Viena Ondas de soldados — Napoleão e Clemente — O manto ou a vida — Em
Os estudos na Áustria — Na universidade — Contradiz o professor — En- Babenhausen — Weinried — Desejam confessar-se? — O rapaz que ri no ser-
contro com Thadeu Hübl — A fé acima de tudo — As obras de Santo Afonso — mão — A ferreira apostrofada — O violinista convertido — O rapaz libertino —
Novamente em Roma. Quebra vidraças e ganha uma missa — Vítima de calúnias — Montgelas —
CAPÍTULO V Perseguições.
O santo Redentorista CAPÍTULO VII
Em Roma — O Senhor será um deles. Luta entre os dois peregrinos — É O último ano em S. Beno
recebido na Congregação Redentorista. — O noviciado — O espírito da Con- Um jantar depois da oração da noite — Perseguições em Varsóvia — Aten-
gregação — A uva tentadora — Os noviços italianos — Alegria e profecia de tado contra o Pe. Thadeu — O escudo quebrado — Napoleão — A Baviera
Sto. Afonso — Profissão — Ordenação — Transpõe os Alpes. hostiliza os Redentoristas — Zelo admirável dos padres — Tristes aconteci-
mentos em Varsóvia.
PARTE SEGUNDA
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CAPÍTULO VIII Confessor procurado — O dia no confessionário — A Irmã Francisca —
A expulsão Luiza Xavier — O caminho mais seguro — Francisco Arrependido — A caixa de
Verdadeira causa da expulsão — Davoust persegue os Benonitas — Sole- rapé — A senhora às margens do Danúbio — O Kraus escrupuloso — Pe. José
nidade da Páscoa — Decreto de Napoleão — Aviso do céu — Execução do no altar — A mulher sem pecados — Preparação contínua — Passy confessa-
Decreto — Resignação do Santo. se sem o saber.
CAPÍTULO IX
PARTE TERCEIRA O amigo dos doentes
O caridoso enfermeiro — O neo-presbítero enfraquecido — A Religiosa
O APÓSTOLO DE VIENA (1808-1820) neurastênica — O cão preto — O barão tuberculoso — O lobo convertido em
cordeiro — Convertido pela água benta — Dois coelhos de uma cajadada —
CAPÍTULO I Um funcionário maçom morre santamente — Esforços de conversão — Con-
Chegada à Viena e primeiros trabalhos versão estupenda na hora da morte.
Chega à Viena — Dificuldades com a polícia — O racionalismo na Áustria CAPÍTULO X
— Napoleão e Francisco da Áustria — Bombardeio de Viena — Batalha de Sua dedicação aos pobres
Aspern — Na igreja dos Italianos — Os Mechitaristas — Trabalhos prediletos — O pintor em apuros — A mulher esperta — A benfeitora oportuna — Multi-
Intimação do governo — Notícias de Valais — Fundação em Friburgo. plicação milagrosa — A postulante maravilhada — As dívidas das Ursulinas —
CAPÍTULO II O peixe pagador — Os sapatos da Irmã — O batalhão dos pobres.
O primeiro ano em Santa Úrsula CAPÍTULO XI
Obrigações do Reitor da igreja — Reformas — Santa Úrsula adquire gran- O sábio conselheiro
de nome — Os primeiros trabalhos na cura d’almas. O Espírito Santo lhe dirá — Ler romances — Pequenos presentes — Uma
CAPÍTULO III profecia — Interesse pelas vocações — Dedicação paternal.
O CONGRESSO DE VIENA CAPÍTULO XII
Clemente na lista dos bispos — Igreja nacional — O desinteresse pela O Santo Superior
religião no Congresso — Desunião de vistas — Os três defensores — Atrás dos Vida interior — Rigor na pobreza — Obediência prática — A vida de simpli-
bastidores — Trabalho depois do Congresso cidade — Humilhações edificantes — O exemplo escrupuloso — Os defeitos
CAPÍTULO IV dos Santos — Uma precipitação — O dueto abençoado — A chave do enigma.
O sábio pregador CAPÍTULO XIII
Exposição original e simples — O médico subjugado — Um velho funcioná- O amigo das crianças
rio josefino — Rir-se por último — Sua mímica no púlpito — temas prediletos — Porque amava a infância — O enxame de crianças — Honrosa excepção
Apreciações populares — Proibição de pregar... — Carlito obediente — A criança judia batizada — O mais belo vestido — As
CAPÍTULO V alunas das Ursulinas — Lição a um professor — O Colégio dos nobres — Pro-
O zeloso auxiliar nas pregações messas do arquiduque.
Conversão do poeta — Suas pregações — Trombeta do juízo — O orador CAPÍTULO XIV
dos eruditos — O discípulo do grande Mestre — O poeta e o dramaturgo — São Clemente e a mocidade
Esses moleques... O magnete admirável — Pedagogo ideal — Os êxtases do Santo — Os
CAPÍTULO VI passeios pela cidade — Medonho temporal — As nuvens no jardim — Amor à
O Santo ao altar pureza — Padre novo — Expor dúvidas — José Lobo — O despertador traidor
O Serafim ante o tabernáculo — O humilde ajudante de missa — As piedo- — Os secretas.
sas traidoras — Cena comovente — O esmagador do josefismo — As quarenta CAPÍTULO XV
horas. O bom pastor
CAPÍTULO VII Em procura do pecador — Magnífica prece — Interessante diálogo —
O devoto da Virgem Frederico Schlegel convertido — Klinkowström e sua família — Os preconceitos
Devoção combatida — O digno filho de S. Afonso — Invocações prediletas — Antônio Pilat renuncia a maçonaria — Schlosser e sua família aos pés do
— O rosário sua biblioteca — O rosário à cabeceira dos doentes — A devoção Mestre — O temor da penitência na confissão.
a Maria; uma necessidade — Os Santuários da Virgem. CAPÍTULO XVI
CAPÍTULO VIII O sábio Diretor das Ursulinas
O prudente Confessor Que é a Religiosa — Da chácara ao convento — Deus ilumina os confesso-

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res — Reforma as Ursulinas — Os trabalhos das religiosas — A Religiosa tíbia Retrato do Servo de Deus
— A vontade de Deus — A obediência — A Religiosa nervosa — A vassoura Testemunho de um dos discípulos — do Dr. Veith — do cônego Greif — de
usada — A Irmã tentada — A bruaca velha — As armas da mulher. um amigo do Santo — de Jacoba de Welschenau — de Luiza Pilat — de um ex-
CAPÍTULO XVII jesuíta — do cardeal Rauscher.
Sua fé profunda CAPÍTULO XXVI
A fé profunda — O plano da Providência — O faro católico — O seu tesouro O Santo na glória
— O terço do Senhor — A boa intenção — Amor à Igreja — A Igreja na história Declaração de João Pilat — de Zacharias Werner — das Irmãs Ursulinas.
— Os incrédulos — Respeito humano — Um professor — Um professor perigo- CAPÍTULO XXVII
so —Trabalho pela imprensa — A biblioteca popular. O bondoso Taumaturgo
CAPÍTULO XVIII As profecias do Santo — Conversões miraculosas — Protege nas voca-
O amante da pobreza ções — Em grande falta de recursos — Mesmo em negócio de cozinha — O
Que são as riquezas — O tesouro nas mãos — A cruz de brilhante — O padroeiro dos enfermos: Ignez Fiath — Livra da morte — Paralisia e trismo —
quarto do Santo — A roupa do Servo de Deus — O belo Vigário Geral — As Chlorose complicado — Hidropisia — Tumores perigosos — Dores de garganta
palavras de Jesus. — Artrite — Varizes — Hemorragia — Escrofulas — Artroflogose — Reumatis-
CAPÍTULO XIX mo — Peritonite.
O Anjo de pureza CAPÍTULO XXVIII
A virtude angélica — As portas da impureza — As mulheres santas — Na memória da Congregação e da Igreja
Laconismo santo — A mortificação e a pureza — O cardápio de cada dia — Sua As reuniões dos rapazes — Os primeiros noviços — Atividade do Pe.
bebida usual — Necessárias explicações. Passerat — Difusão da Congregação — A província do Rio — A província de S.
CAPÍTULO XX Paulo — Aparecida, Campinas, Penha, Perdões, Araraquara, Cachoeira —
O Coração bondoso Quadro sinótico.
Os princípios mundanos — Humildade necessária — O defensor dos CAPÍTULO XXIX
oprimidos — O coração grato — Deogratias — Louvores humanos — Humil- As Irmãs Redentoristas
dade de fato — Oculta os dons sobrenaturais — Humilhações na vida — O Em Scala — A Ordem das Irmãs Redentoristas — O seu fim principal — O
blasfemador arrependido — O perdão generoso. seu hábito atraente — Sua propagação na Europa — Sua vinda ao Brasil —
CAPÍTULO XXI Seus progressos.
Amor ao clero e à Congregação CAPÍTULO XXX
Amor ao Papa, aos Bispos e Sacerdotes — As pupilas de Deus — O sacer- O seu sepulcro glorioso
dote francês — Redentorista até a medula dos ossos — Cache-nez de seda — O seu sepulcro — Exumação — Beatificação — O seu triunfo no mundo —
Exemplos de severidade e brandura — Enérgico protesto — Difusão da Con- Canonização — O ofício e missa do Santo — Observação final.
gregação — Fundação na Valachia — Saudades da Polônia.
CAPÍTULO XXII
No combate com os maçons
Sabelli imprudente — A causa da perseguição — As acusações — Aqui
não é bom estar... — É cidadão austríaco — A busca na residência — A intimação
— A palavra do monarca — Esperanças desfeitas.
CAPÍTULO XXIII
A Congregação na Áustria
O Imperador visita o Papa — O memorandum — Começa com os jovens —
Eu não o verei — Previsões — Resignação.
CAPÍTULO XXIV
Suspirando pelo céu
O cortejo das Virgens — Sempre a trabalhar — O auxiliar enfermo — Des-
graça é só o pecado — Missa por uma benfeitora — Bela profecia — Recebe a
extrema-unção — Obediência edificante — Vou para o meu retiro — Morte san-
ta — Na câmara ardente — Sepultamento magnífico.
CAPÍTULO XXV

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demorar-se na igreja, sempre que suas ocupações domésticas o permitiam;
PARTE PRIMEIRA
ajoelhada diante de Jesus Sacramentado mais parecia um anjo do que uma
criatura mortal. Terminadas as funções do culto, a missa, a reza etc, era ela a
Luta pelo sacerdócio (1751-1786) última a deixar o recinto sagrado, sentindo sempre dificuldade em abandonar a
presença de Jesus no seu Sacramento de amor. Ao chegar e casa depois da
CAPÍTULO I missa e da sagrada comunhão, longe de palestrar com os vizinhos para se
informar das novidades da cidade ou das famílias, encetava logo o trabalho que
No lar paterno se prolongava até a tarde. Em as múltiplas devoções, porém, não se descuida-
va das obrigações do seu estado; como esposa amava enternecida o marido, e
como mãe olhava desvelada para os filhinhos que procurava educar para o céu.
A pátria do Santo — Seu nascimento — Os pais de Clemente — Primeiras O seu predileto era Clemente, porque mais piedoso e de índole mais dócil
dores — É Ele o teu pai... — Ocupações prediletas — Passatempos — O futuro que os outros. Desvelava-se a boa mãe em desenvolver cautelosamente no
Apóstolo. coração do filhinho os germes do bem, que Deus nele implantara; ensinou-lhe
bem cedo as orações e as devoções, que Clemente conservou até o fim da
Incontestavelmente um dos mais belos recantos da Europa é o sul da vida. A boa mãe bem sabia que a piedade não consiste apenas em pronunciar
Morávia, cujas campinas sorridentes se cobrem de ondas de trigo e lourejar, e belas orações, baixar a cabeça, virar os olhos e ter uma aparência singular e
cujos outeiros ostentam os vinhedos carregados, riqueza principal daquela zona. atraente, mas que ela deve apoderar-se de todo o homem encaminhando para
Tão linda e poética é lá a paisagem que um dos melhores trovadores, depois de o bem tanto a inteligência como a vontade; eis porque lhe ensinara a abnega-
percorrer o mundo e lhe apreciar as belezas, exclamou como que estático dian- ção e a mortificação, insistindo com ele para que amasse o jejum e guerreasse
te dos encantos da Morávia: “Aqui quisera eu morar e passar o resto de minha a vontade própria. Todas as vezes que o pequeno Clemente se mostrava extra-
vida, tão atraente e sedutora me parece esta região, mesmo debaixo da neve”. ordinariamente bem comportado, a mãe o recompensava permitindo-lhe jejuar
Ora nesse pedacinho do globo é que, em meados do século XVIII, viviam duas ou dar alguma esmola aos pobres.
grandes e piedosas famílias, pobres quanto aos bens de fortuna, porém muito Quando Deus ama alguém, não deixa de visitá-lo com sofrimentos e dissa-
ricas dos dons sobrenaturais da virtude. Uma delas era oriunda da Boêmia e a bores para mais o purificar, desprender do mundo e tornar semelhante a seu
outra, da Áustria. divino Filho que tomou sobre si as nossas dores. Ora, sendo a família de Cle-
Tasswitz, pequena aldeia não longe de Znaim, era o lugar onde moravam mente agradável a Deus, devia passar desde cedo pelo crisol de duras prova-
na mais doce paz e harmonia essas abençoadas famílias. Um jovem cortador, ções. Contava o nosso Santo apenas sete anos quando perdeu o extremoso e
eslavo de nascimento por nome de Pedro Paulo Dworak, uniu-se em matrimô- carinhoso pai. Fortemente golpeada sentiu-se a pobre viúva com a morte do
nio com uma donzela alemã de Tasswitz chamada Maria Steer. Piedosos am- esposo que idolatrava ,mas como o seu coração era todo de Deus não se dei-
bos viviam, no seio da família, mais contentes e satisfeitos do que se foram xou perturbar pelo duro golpe, resignou-se docilmente, beijando com carinho a
poderosos monarcas, embora não possuíssem senão a pobre casa, em que mão de Deus que a feria, e depositando toda a sua confiança na Providência
moravam, e um pequeno vinhedo com uns campos de trigo, onde derramavam que tudo dirige com a maior sabedoria e acerto. O pequeno Clemente que,
os suores de seu rosto. Deus abençoou essa união com doze filhos, dos quais embora criança, já amava seu pai, chorou sentido a perda daquele que tanto o
sete voaram para o céu ainda crianças; dos cinco sobreviventes Clemente foi o acariciava e tanta ternura lhe mostrava. A pobre mãe tomando-o um dia pela
mais novo e o mais santo. O sr. Pedro Paulo Dworak, por ocasião do seu casa- mão levou-o para a igreja onde se achava um lindo e devoto Crucifixo; mãe e
mento, mudou o nome boêmio para o de Hofbauer. filho contemplavam resignados o Redentor pendente da cruz, haurindo confor-
Clemente viu a luz do dia pela primeira vez a 26 de dezembro de 1751 to e alívio das chagas rubras de Jesus. No auge do fervor e da fé, a mãe sentiu
sendo batizado no mesmo dia com o nome do evangelista S. João, que deveria subitamente o coração palpitar-lhe fortemente no peito e toda enlevada disse
dar e que, de fato, deu a seu protegido, junto com a candura virginal do coração, ao filhinho apontando para o Cristo pregado na Cruz: “Meu filho, de hoje em
o amor acendrado a Jesus Redentor. Esse nome de João foi mudado para o de diante é Ele o teu pai, não te afastes nunca do caminho que lhe agrada”. O
Clemente alguns anos mais tarde como veremos adiante. Como o Santo é qua- pequeno Clemente compreendeu essa palavra saída dos lábios maternos em
se só conhecido com esse segundo nome, nós nesta biografia chamá-lo-emos hora tão solene, e conservou-a profundamente gravada em seu coração. A re-
Clemente e não João. cordação dessa cena íntima foi para Clemente, mais tarde, como que uma fonte
A mãe do pequeno Clemente soube dar-lhe uma educação firme mais pelo de luz que o conservou no caminho da virtude e o confortou em os penosos
exemplo do que por palavras. Em toda a redondeza era ela conhecida como um transes da sua trabalhosa vida.
modelo consumado de virtudes, salientando-se entre todas a sua piedade tão Clemente recebeu de Deus um coração extraordinariamente propenso para
profunda quão esclarecida; a sua ocupação predileta era a oração; gostava de o bem, um coração reto e sincero, que odiava toda hipocrisia. Amava sincera-

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mente sua mãe e gostava de falar dela com respeito e veneração. Quando já
avançado em anos, agradecia ainda a Nosso Senhor o ter-lhe dado uma mãe
tão santa e virtuosa; cada vez que, mais tarde, em suas viagens empreendidas
para o bem da Congregação ou das almas, passava por perto do lugar, onde se
achava a sepultura de sua querida mãe, fazia uma visita, breve embora, ao seu
túmulo, ajoelhava-se respeitosamente umedecendo com suas lágrimas a terra
que ocultava o precioso tesouro do seu coração.
Para o coração filial de Clemente, em extremo impressionável para o bem,
tinham grande valor e importância os exemplos de sua mãe. Como esta, amava
Os primeiros estudos
Clemente a oração e a casa de Deus; ao vê-lo ajoelhado ao lado da querida
progenitora, as mãozinhas postas, o rosto inocente inspirando santa seriedade Procura um ofício — Os sentimentos nobres — O São Cristóvão — No
e os olhos fitos no tabernáculo ou em alguma imagem da Santíssima Virgem, convento dos Premonstratenses — A grande carestia — Entre os seminaristas
não havia quem não se comovesse tomando-o por um anjinho descido do céu. do Convento — Dificuldade nos estudos.
Sentia viva alegria em aproximar-se o mais possível, de Jesus a quem
tanto amava; gostava de servir à missa por se achar assim mais perto do Meni- Clemente havia já entrado nos seus catorze anos. Depois de abandonar o
no Deus, vivo sobre o altar debaixo das espécies sacramentais. Já nessa idade banco escolar onde fora um dos alunos mais aplicados e estudiosos, pôs-se a
era o rosário a sua oração predileta; aos sábados, consagrados à Santíssima ajudar sua mãe no cultivo do vinhedo e do campo, alegrando sempre a todos
Virgem, não sossegava enquanto não fizesse alguma devoção especial em lou- com o seu semblante risonho e com o seu comportamento exemplar; não havia
vor de sua mãe celestial. Se, às vezes, recebia alguma gratificação por seus quem não sentisse viva satisfação em se achar na companhia do filho do cortador
servicinhos ao altar, economizava o dinheiro para depois ir ter com o vigário e de Tasswitz. Mas na medida que os anos se iam, mudava-se tudo ao redor de
mandar celebrar uma missa por intenção dos seus ou das almas do purgatório. Clemente. Seu pai, já de há muito, havia falecido e junto dele repousavam no
A sua vocação de apóstolo do bem, recebeu-a Clemente em seus verdes silêncio do túmulo quatro irmãs e três irmãos de Clemente. Os outros, pobres
anos. Um belo dia, acompanhando sua mãe a um lugar um pouco retirado de também, já se haviam espalhado em direções diversas a cata de negócios ou
Tasswitz, encontrou de caminho algumas pessoas de seu parentesco que se ocupações que lhes garantissem a subsistência. Era pois tempo de Clemente
distraíam em agradável passeio. Como de costume em tais ocasiões, pergun- decidir-se a começar a carreira de sua vida. Um único ideal pairava então ante
tou-lhes a mãe de Clemente, como iam de saúde, para onde se dirigiam e o que o seu espírito: sua alma inocente e pura sentia ternas saudades do interior do
estavam a fazer; a esta última pergunta os parentes responderam: “Estamos Santuário do Senhor e ele só desejava alistar-se entre os ministros do Altíssimo
passando o tempo”. Clemente não compreendeu bem essa última expressão; pelo Sacerdócio. Clemente queria ser padre para oferecer a Deus o santo Sa-
feitas as despedidas retiraram-se, mas o menino preocupado puxa de leve o crifício dos nossos altares, anunciara do alto do púlpito a palavra divina, conver-
vestido de sua mãe e pergunta-lhe: “Mamãe, que quer dizer isto: ‘estamos pas- ter os pecadores, perdoar as culpas ao pecador contrito depois de investido da
sando o tempo’?” Ao receber a explicação encheu-se o pequeno de santa indig- dignidade sacerdotal, superior à dos reis e imperadores. Esse era também o
nação e, com ar de indescritível gravidade disse: “Mamãe, quando a gente não sonho dourado da sua mãe, cujo coração estremecia de júbilo só em pressentir
tem o que fazer, deve rezar!” Que bela palavra! que ensinamento salutar para a dita de ver um dia o seu filho sacerdote, intermediário das bênçãos celestes
tantos adultos que, esquecidos da eternidade, se preocupam quase que exclu- entre Deus e o homem! Mas — pobrezinho! — Clemente não dispunha dos
sivamente com a terra pensando encontrar nela o paraíso! Essa palavra, pro- meios, sem os quais o estudo se torna impossível e por isso, o coração sangra-
nunciada por Clemente em tão tenra idade, foi a norma de sua vida, como va-lhe no peito; teve de renunciar, talvez para sempre, à mais querida aspiração
veremos mais tarde; sempre se manifestou inimigo da expressão “passatempos de sua alma — não podia ser padre. Não havia outro remédio, era forçoso apren-
e divertimentos” etc. der um ofício qualquer para o sustento da vida. O ofício de seu pai não lhe era
Bela educação essa, dada por uma mulher simples do meio do povo! e ela simpático, parecia-lhe demasiado cruel; preferiu o ofício de padeiro. Entrou pois
soube, segundo os ditames do seu coração reto, desenvolver e educar rica e valo- como aprendiz na casa de um dos melhores e mais afamados padeiros da
rosamente as disposições sobrenaturais colocadas tão prodigamente por Deus no cidade, senhor de uma honestidade a toda prova, católico praticante Estava
coração de seu filhinho. Já na infância de Clemente se revelaram claramente os pois bem colocado; seu novo mestre não queria fazer dele somente um bom
traços que o distinguiram mais tarde: a sensibilidade extraordinária para as orações padeiro mas, sobretudo, um cristão adornado de virtudes, alheio às tabernas,
do Espírito Santo, a vida num mundo superior, a clara e profunda compreensão da aos divertimentos perigosos e aos princípios subversivos que conduzem o po-
verdade da fé, o apóstolo da oração, o relacionamento com as grandes e as peque-
bre operário ao desprezo da autoridade, ao ouvido de Deus, às blasfêmias e à
nas questões da vida, o herói da mortificação, o pai dos pobres e dos órfãos. Eis o
que vale a educação dada por uma mãe virtuosa e santa. vida dissoluta. Clemente lá esteve três anos a trabalhar e a exercer-se na práti-
ca das virtudes necessárias a um operário piedoso. Trabalhava sim, mas seu
CAPÍTULO II
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coração não se satisfazia, sentia um vácuo indizível na sua alma, uma voz pare- des, possuía um coração extremamente generoso: novecentas pessoas recebi-
cia soar-lhe constantemente aos ouvidos convidando-o a subir os degraus do am diariamente a alimentação à porta do convento. O trabalho de Clemente no
altar; ah! Clemente tinha saudades pungentes do sacerdócio, e ele, como ou- convento, consistia em preparar o pão para essa multidão de desditosos, e ele
trora Abraão, esperando em Deus contra toda a esperança, suplicava ao céu se sentia-se realmente feliz por poder prestar seus serviços aos pobres; dia e noite
dignasse abrir-lhe em par as portas do santuário. Entretanto tudo parecia conju- trabalhava para não deixar ninguém sofrer, e muitas vezes tirava o pão da pró-
rar-se contra ele, mas Clemente não desanimava; ao fabricar o pão material pria boca, afim de matar a fome àqueles infelizes. Mas a carestia não veio só;
lembrava-se do pão dos anjos, que o padre consagra sobre o altar; ao levar aos apareceu acompanhada do tifo e de outras moléstias que dizimavam a popula-
fregueses a cesta de pão às costas, pedia a Deus, soluçando, que lhe fosse ção. Centenas de homens arrastavam-se até a porta do convento enfraqueci-
dado um dia, levar o pão do céu aos pobres moribundos. dos pela fome e torturados pela febre, recebiam o pão que, às vezes, não podi-
O mestre tinha um filhinho que contava então seus cinco anos de idade. O am levar à boca, porque a morte os surpreendia naquele momento.
pequeno era inocente e, como as almas inocentes logo se conhecem, não tar- Deus não se deixa vencer em generosidade, dá cem por um a todos os que
dou a travar com Clemente a mais santa amizade, não o querendo mais deixar trabalham por amor dele; Clemente pois devia receber a sua recompensa: e
nem um instante; acompanhava-o em toda parte, seguia-o em suas voltas pela esta não foi pequena. Na abadia, onde Clemente se empregara, existia um
cidade, pois que Clemente sabia falar tão bem e contar tão lindas coisas do céu, seminário onde trinta rapazes recebiam instrução e donde já tinham saído sa-
dos Santos e da Virgem Santíssima. Para não perder tempo na entrega dos cerdotes exemplares e santos. O pequeno padeiro conteve-se, dezoito meses,
pães aos fregueses, pediu Clemente à mãe do pequeno, que o retivesse em a ver calado os meninos que, os livros debaixo do braço, iam às aulas ou brin-
casa nessas ocasiões; porém debalde, a respeitável senhora não acedeu ao cavam alegres na hora do recreio. As lágrimas corriam-lhe pelas faces, lágri-
pedido de Clemente, porque não julgava perdido o tempo, em que o distribuidor mas de uma santa inveja, que ele não podia reprimir porque eram sinceras,
do pão se retardava nos negócios, a dar tão santas instruções e tão belos exem- saídas do fundo do coração. As lágrimas de Clemente enterneceram o coração
plos a seu filhinho. Que faz Clemente? Toma a cesta às costas e o menino em divino que lhe outorgou ânimo e coragem. Foi ter com o abade, abriu-lhe a alma
seus braços, e assim percorre apressado a cidade. Semelhante cena Tasswitz e, o coração nos lábios, suplicou-lhe uma ocupação mais leve na abadia afim
nunca presenciara; alguns sorriam-se pela novidade do fato, e outros das jane- de poder dedicar-se aos estudos e assistir às aulas do colégio. O coração bon-
las gritavam: “Olha o São Cristóvão”. Clemente desejoso de ver o Santo que o doso do abade, reconhecendo a vocação sacerdotal do seu padeiro, acedeu ao
povo anunciava, olhou, no princípio, para todas as direções; como não visse pedido de Clemente, nomeando-o seu refeitoreiro e copeiro.
coisa alguma perguntou admirado onde é que estava S. Cristóvão. Quando lhe Clemente podia, pois, mais desimpedido dedicar-se às letras — mas o es-
disseram que São Cristóvão era ele mesmo, não soube o que pensar; ao che- tudo já não lhe era tão fácil; o pouco de latim que aprendera com o vigário de
gar em casa contou tudo ao mestre perguntando-lhe porque é que lhe tinham Tasswitz, já há muito estava esquecido e aos vinte anos, que Clemente não
dado esse nome tão interessante. Ao ouvir da mulher do mestre, que S. Cristó- contava, a memória já não é tão fresca e firme para reter tanta coisa. Além disso
vão era um gigante muito santo, que levado da caridade, transportava as pes- o estudo era para ele, naquelas circunstâncias, uma coisa secundária. Mas não
soas por sobre um rio destituído de ponte, e que um dia Jesus Cristo mesmo há o que a aplicação constante não vença. Labor improbus omnia vincit. Em
lhe apareceu, na forma de um viajante, pedindo o quisesse levar para o outro quatro anos completou Clemente as classes ginasiais fazendo os mais brilhan-
lado do rio. S. Cristóvão o transportou sobre seus ombros, merecendo depois tes progressos em todas as matérias: em religião, latim, grego, geografia e his-
ver a Jesus e ouvir-lhe as palavras de agradecimento. Clemente não pôde con- tória Clemente avantajou-se a muitos outros alunos mais talentosos do que ele.
ter-se e exclamou: “Quem me dera ser deveras um S. Cristóvão para levar o É certo que o nosso Santo, mais de uma vez, teve de ouvir palavras picantes
Cristo em minhas mãos!” dos colegas que zombavam da sua idade, mas Clemente sabia suportar tudo
Esse pensamento não o deixava sossegar. Mal havia terminado o tempo aquilo com a maior tranqüilidade, agradecendo a Deus a amarga pílula que lhe
de sua aprendizagem, Clemente, numa esperança que ele mesmo não saberia apresentava.
definir, dirigiu-se ao convento dos padres Premonstratenses, apresentou-se ao
abade que se mostrou bem impressionado como o moço tão modesto, tão bem
vestido e asseado. Clemente conjecturou: “Quem sabe, se lá não será mais fácil
remover os obstáculos, superar as barreiras que me impedem de subir os de-
graus do altar?!” A Europa inteira gemia naquele tempo debaixo das mais duras
provações. A guerra dos sete anos era já passada, mas as conseqüências fazi-
am-se sentir profundamente, levando a miséria e a fome a todos os países; as
terras ficaram sem cultivo, muitas cidades foram incendiadas. Nesse tempo de
desolação e miséria eram os conventos o celeiro que fornecia o alimento a
milhares de bocas. O abade dos Premonstratenses, homem de grandes virtu-

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sofrer alguma coisa por Nosso Senhor.
As grandes virtudes do ermitão já não podiam permanecer ocultas; espa-
lharam-se pelos arredores e atraíram bem depressa a atenção e a admiração
dos moradores da cidade e das circunvizinhanças, e em geral de todos quantos
iam visitar a Igreja de Nossa Senhora de Mühlfrauen. Os peregrinos, depois de
CAPÍTULO III satisfeita a devoção ao pé do altar da Virgem, iam procurar o ermitão, levando-
lhe presentes, o que Clemente agradecia retribuindo tão finas gentilezas com
Peregrinações bons conselhos, úteis admoestações e santos pensamentos. Nas horas vagas,
Clemente confeccionava cruzes de madeira extraída da floresta; com esse tra-
balho mostrava aos peregrinos sua gratidão, exortando-os a carregarem sem-
O ermitão de Mühlfrauen — As romarias e os romeiros — Abandona o pre e com verdadeiro amor e espírito de sacrifício a cruz que Deus lhes impu-
ermitério — Vai à Boêmia e volta a Viena — Romaria à Itália — Volta à Áustria e nha sobre os ombros. Não raras vezes ele mesmo tomava uma cruz grande e
torna novamente a Roma — Tívoli — Outra vez em Viena — As senhoras von pesada, que se conservava encostada à porta, e carregava-a acompanhado
Maul. dos peregrinos, cada um com sua cruz às costas, até ao santuário do Bom
Jesus atado à coluna. Nessa romaria piedosa cantavam e rezavam edificando a
Os Premonstratenses, também chamados Norbertinos, foram fundados por todos e despertando neles sentimentos de santa compunção e arrependimen-
S. Norberto em 1120 na França. Têm por fim unir a atividade paroquial às ocu- to.
pações do claustro. A ordem foi aprovada por Honório II em 1126. Dividem-se Eram tempos de fé e de simplicidade; que contraste com a vida moderna!
em sacerdotes Cônegos e leigos conversos. Têm o hábito de lã branca. A or- Hoje em dia, em vez do Santuário, visitam-se em geral os lugares de diverti-
dem espalhou-se rapidamente na Europa, mormente na França e Alemanha. mentos; em vez da cruz carregam-se os jovens de perfumes; em vez da peni-
Em 1250 já contava com 1.200 residências. A reforma protestante fechou mui- tência procuram a sensualidade. Mas, que contraste também no interior da alma!
tos conventos na Alemanha, e a revolução francesa só poupou algumas resi- Clemente e os seus romeiros sentiam-se felizes no meio das mortificações,
dências na Áustria e na Hungria. Desde 1834, porém, recomeçou a Ordem a porque gozavam a paz da consciência, enquanto que os modernos não se sen-
florescer e em 1900 já possuía 5 províncias com 17 abadias e alguns prioratos. tem bem nas ondas dos prazeres, porquanto a paz da alma só se encontra nos
O abade geral é eleito; em 1905 tomavam mais de 182 paróquias e dirigiam 7 corações inocentes e puros, e a inocência não medra nos divertimentos que
ginásios. enervam, mas na mortificação que eleva o coração.
Terminados os estudos da abadia, achava-se outra vez Clemente em séri- Apenas um ano pôde Clemente gozar as doçuras da solidão. Naquele tem-
as dificuldades. A escola abacial tinha só quatro classes. Para entrar na Ordem po, como agora, os governantes não tinham compreensão da vida de sacrifício
dos Premonstratenses, não sentia vocação; para continuar os estudos fora, não e de devoção; a oração era sinônimo de ociosidade, e o ermitão passava por
possuía os meios necessários. Que fazer em semelhantes conjunturas? Deus mandrião e preguiçoso. Entretanto os ermitães eram os melhores cidadãos,
mostrou-lhe um caminho inteiramente novo. Clemente será ermitão. Sem mais que nas horas vagas se dedicavam ao cultivo da terra, empregando assim o
hesitar atravessou o rio e no meio da floresta construiu uma ermida pequena e seu tempo melhor do que centenas ou milhares de ricaços que vivem a custa
simples, não longe da povoação da Mühlfrauen. De manhã ia todos os dias à dos pobres, e do que numerosos escritores que envenenam milhares de cora-
cidade ouvir a missa, recebia a santa comunhão, e depois voltava ao trabalho, à ções com seus escritos heréticos ou imorais. Um decreto imperial proibiu na
oração ou à leitura de algum livro piedoso; um pedaço de pão com alguns pou- Áustria a vida eremítica, como já havia proibido também os conventos. Clemen-
cos legumes constituía a sua refeição cotidiana. Aos domingos, porém, e dias te, que nada se simpatizava com a visita importuna da polícia, abandonou a
santos, Clemente quase não se ausentava da igreja; sentia-se lá tão feliz pare- pobre choupana e disse adeus à doce solidão. Indeciso vai, sem saber bem
cendo-lhe achar-se na antecâmara do paraíso. Na solidão da floresta sua alma porque, à cidade onde nascera seu pai. Era o dedo da Providência que para lá
expandia-se tranqüila aos encantos da natureza, cantava com os passarinhos, o guiava, pois que destinando-o para o apostolado da Polônia, queria que lá
com as águas e as árvores sacudidas pelo vento, os louvores e as magnificências aprendesse a língua necessária para a sua futura atividade em prol das almas.
de Deus; e quando a natureza repousava nas trevas que envolviam a terra, Pobre Clemente! as portas do sacerdócio continuavam-lhe fechadas; a vida
Clemente ainda rezava, até que o sono lhe abatesse as pálpebras sobre os solitária tornara-se-lhe impossível; que fazer? Não havia outro expediente se-
olhos. A vida da floresta, porém, não era sempre assim tão poética; dias chuvo- não voltar ao ofício antigo, à vida de padeiro. Homem de resoluções firmes, não
sos umedeciam-lhe, por vezes, a pobre choupana e as tempestades com seus trepidou; afivelou a mochila, tomou a bengala e a pé caminhou até Viena, que
trovões desencadeavam-se sobre as árvores, curvando os possantes troncos, ainda não conhecia. Nem por sonhos lhe passava pela mente, que um dia os
e não raramente os furacões furiosos das tentações oprimiam-lhe violentamen- vienenses haveriam de pronunciar com respeito o seu nome, gloriando-se de
te a alma: Clemente, então, humilhava-se, abraçava a cruz alegre por poder tê-lo por apóstolo e protetor. Não tardou a encontrar colocação numa padaria A

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pera de ferro em frente à Igreja das Ursulinas, onde passou três anos; sempre tes, e com razão, pois que o coração humano precisa de quanto em vez, dessas
que lhe era possível, ajudava a missa na Catedral ou na Igreja das Ursulinas, emoções íntimas que lhe servem de desabafo e ao mesmo tempo de animação.
que freqüentava com assiduidade. Era esse o seu procedimento e o seu recato Chegados a Viena, entram novamente na “A pera de ferro”; mas que contraste
em Viena, porque estava convencido de que um moço não se conserva inocen- de vida! Roma com suas festas pomposas, com suas igrejas magníficas e seus
te e puro numa cidade grande a não ser por meio da oração e da freqüência dos altares suntuosos, com suas procissões solenes, impressionara os visitantes e
sacramentos. ficara para sempre gravada em seus corações — e em Viena era tudo tão frio,
Nesse lapso de tempo, Clemente havia lido muita coisa edificante sobre as igrejas tão vazias, a vida religiosa tão diminuta; as irmandades e as ordens
Roma, a cidade dos papas, onde tantos mártires derramaram o seu sangue religiosas abolidas e o culto desprovido de seu esplendor antigo: em vez dos
pela fé, a cidade das belas igrejas, onde se conservam preciosas relíquias. O sermões substanciosos de outrora, ouviam-se agora do alto do púlpito somente
seu coração sentiu saudades da cidade eterna e Clemente resolveu viajar até palavras de humanidade e quejandas expressões de filantropia que não satisfa-
lá. Se tantos jovens visitam as grandes capitais, onde se perdem e pervertem, zem o coração.
porque é que ele não poderia também satisfazer a esse seu desejo ardente e Clemente e Kunzmann sentiam-se mal em Viena; não podendo habituar-se
derramar o coração sobre os tumultos dos santos Apóstolos e dos grandes com a vida monótona da Capital austríaca pensavam em voltar outra vez para o
papas? Manifesta esse seu intento a um dos seus melhores e mais fiéis ami- Sul, afim de darem expansão a seus sentimentos de piedade. E quiçá, ser-lhes-
gos, Pedro Kunzmann e convida-o para a viagem; faz por um tempo as maiores ia possível lá consagrar-se a Deus na solidão; na Itália não se considerava
economias possíveis, e juntos parte para Roma, vencendo a distância toda a crime a vida de ermitão. Deixando a conversa cair repetidas vezes sobre o as-
pé. Era uma verdadeira romaria de penitência; rezando em voz alta o rosário, sunto, animaram-se por fim e tomaram a resolução de voltar para a Itália, desta
que repetiam muitas vezes, cantavam também as ladainhas e outras orações à vez provavelmente para sempre. Chegada a hora da partida foram levar suas
Nossa Senhora, e os hinos devotos que sabiam de cor. A impressão causada despedidas a “A pera de ferro”. Houve lágrimas e protestos do velho mestre que
sobre as pessoas à beira da estrada, por onde os nossos romeiros passavam, os não queria deixar partir; disposto a tudo para impedir a perda dos dois ami-
era naturalmente diversa e, às vezes oposta; uns sacudiam a cabeça em sinal gos, ofereceu a Clemente grande soma de dinheiro e sua única filha em casa-
de desaprovação, outros, porém, edificavam-se com tamanha devoção; os pe- mento. Tudo porém em vão; Clemente aspirava a coisas mais elevadas. Um
regrinos, porém, pouco ou nada se importavam com os comentários que se último abraço e o sacrifício estava completo. Clemente, sempre generosos, ca-
faziam. Eles só procuravam glorificar o Senhor e tornar-se dignos das bênçãos ritativo e de mãos abertas, não possuía recursos para a viagem, mas, em com-
divinas na cidade eterna. Cansados de cantar e rezar, punham-se, às vezes, a pensação, o companheiro mais econômico do que ele, conseguira ajuntar uma
contemplar a natureza, que se abria belíssima a seus olhos sob o sol encanta- quantia não desprezível. Como da primeira vez seguiram a pé, renovando as
dor da Itália. Dos vinhedos admiráveis, dos campos ondulados de trigo, por cenas comoventes da primeira viagem. Chegados em Roma, peregrinaram e
entre as alcantiladas montanhas dos Alpes e dos Apeninos, seus olhos levanta- rezaram a vontade, pois que já não havia pressa como da primeira vez; entre-
vam-se até Deus, autor dessas maravilhas estupendas, dessas belezas encan- tanto não podiam nem deviam esquecer que tinham ido em procura da solidão.
tadoras. Se uma ou outra vez lhes faltava agasalho, à noite, para descansarem Seis léguas distante de Roma salientava-se uma cidade célebre, mais antiga do
seus membros fatigados, lembravam-se do Redentor e sobre a palha, ao relen- que a cidade dos papas, de nome Tívoli com um ermitério de conhecido nome
to, dormiam mais tranqüilos do que os reis em seus ricos palácios. na Europa.
Itália, paraíso da Europa! os nossos peregrinos exultaram quando, pela Vão a Tívoli onde visitam o bispo Gregório Chiaramonti, Beneditino, futuro
primeira vez, sentiram as auras perfumadas e quentes da península. Era Deus papa com o nome de Pio VII. Como o bispo era dotado de insignes virtudes e de
que os abençoava do alto do céu; embora não conhecessem a língua italiana, uma grande prudência, não deixou de colocar ante os olhos dos dois alemães
nada lhes faltou e nenhum incidente menos agradável veio perturbar-lhes a paz as dificuldades da vida solitária, que geralmente se enche de cruzes e sacrifíci-
e a tranqüilidade. Ao passo que se avizinhavam da Cidade Santa, os corações os, onde a alma sente muitas vezes a fúria das tempestades e os assaltos
pulsavam-lhes com mais rapidez e calor dentro do peito. Mal avistaram, da últi- freqüentes dos inimigos, segundo as palavras do Espírito Santo. “Filho, quando
ma colina, a magnífica cidade com suas quatrocentas igrejas e inúmeros santu- entrares no serviço de Deus... prepara a tua alma para a tentação, vida de
ários, pareceu-lhes entrar no paraíso. Clemente não resiste, cai de joelhos, reza trabalhos, de oração, de desprendimentos e de contemplação. A resposta dos
e chora de alegria. Apenas chegados, põem-se a percorrer com devoção os dois postulantes foi: “por amor de Jesus estamos dispostos a tudo”. Foi o pró-
santuários mais conhecidos implorando, em toda a parte, a força na fé, o amor prio bispo quem lhes deu o hábito e lhes mudou os nomes para que se esque-
sincero a Jesus e a perseverança no caminho do céu. Ah! eles não tinham ido a cessem completamente do século; João recebeu o nome de Clemente, e Pedro
Roma em excursão científica para estudarem os estilos das igrejas e as galeri- Kunzmann o de Manoel. É dessa ocasião em diante que o futuro Redentorista
as artísticas, mas só com o fim de desabafarem os corações e haurirem mais começou a assinar-se sempre Clemente, tendo por protetor São Clemente de
profundos sentimentos de fé. Ancyra na Ásia, o qual derramou intrepidamente o seu sangue em defesa da
Depois de satisfeita a devoção, voltaram para a Áustria alegres e conten- santa fé, e cuja festa a Igreja comemora no dia 23 de novembro. Revestidos do

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burel escuro de ermitão, viam as suas esperanças em parte realizadas. Os dava com saudades do doce tempo da solidão do Tívoli. “Se soubésseis quão
corações a transbordar de contentamento, não se demoram na cidade de Tívoli, belo é o Tívoli! — dizia ele a seus discípulos mais tarde — lá podia-se rezar com
transpõem o Anjo das águas turbulentas e dirigem seus passos para o conven- o coração aberto, a alma sentia-se desprendida do mundo e abismava-se toda
to e a igreja, construídos na encosta da montanha, circundados de todos os em Deus”.
lados, por magníficas oliveiras que adornavam a montanha inteira. Que bela Seis meses durou o noviciado de Clemente em Tívoli. Embora tudo ali lhe
igreja a da Madona coroada com o diadema de ouro, tendo o Menino Deus em satisfizesse o coração e lhe fizesse gozar a mais doce paz da alma, uma coisa
seus braços! Era a Madona de Quintiliolo, conhecida e venerada em toda a havia a realizar-se e cumprir-se a qual, dia a dia, fazia maiores exigências a seu
redondeza. Os novos ermitães foram fraternalmente recebidos pelos quatro ir- coração: era o desejo do sacerdócio, da vida ativa, do apostolado, que converte
mãos que lá se santificavam na solidão. O coração de Clemente, tão sensível as almas e as conduz ao Redentor. Clemente contava já 26 anos e o seu cora-
aos encantos da natureza e tão susceptível de emoções, quase não podia con- ção, ainda lhe fazia sentir, que ele seria um padre e que faria grandes coisas
ter-se de contentamento aos pés da Virgem, na paisagem incomparável do para Deus. Mas como? Deus o haveria de providenciar. Num belo dia, deixa
Tívoli, no silêncio da sua cela, na misteriosa tranqüilidade do olival. Foi Clemen- Clemente na cela o hábito de ermitão e sem se despedir de ninguém, a não ser
te quem se incumbiu de adornar a igreja e o altar da Virgem Santíssima. Depois do bispo que ele acatava, desaparece e põe-se a caminho confiando na Provi-
de dedicar diariamente algumas horas ao cultivo do terreno que lhe coube por dência e no bom coração dos que haveria de encontrar em seu trajeto.
sorte, corria à igreja, que desejava sempre asseada e limpa, percorria o olival Em Viena voltou ao emprego antigo de padeiro, esperando que Deus lhe
ou o jardim, em procura de flores frescas, para com elas mimosear o altar de mostrasse o caminho do presbitério, e — oh! prodígio da bondade divina! —
sua querida Mãe. Acendia com cuidado a lâmpada da Virgem, e no meio das desta vez o Senhor iria recompensar a confiança de seu fiel servo, tanto é certo
flores e das luzes ofertava à sua Rainha o fogo do seu amor e as flores frescas, que quem põe no Senhor a sua confiança, não será confundido eternamente.
para com elas mimosear o altar de sua querida Mãe. Acendia com cuidado a — Como no tempo anterior à sua ida a Tívoli, também agora, aos domingos,
lâmpada da Virgem, e no meio das flores e das luzes ofertava à sua Rainha o ajudava uma ou mais missas na Catedral de Santo Estevam em Viena com o
fogo do seu amor e as flores das suas virtudes. Se de quando em quando recolhimento e a devoção de um anjo diante dos augustos mistérios dos nossos
alguém pela estrada solitária passava perto da igreja e do convento, Clemente altares. Não havia na cidade quem não se edificasse com tão exemplar procedi-
batia com a mão na janelinha de sua cela, e quando o viandante, sem saber mento de um jovem de vinte e poucos anos, idade essa que costuma ser fatal
donde vinha a saudação, perguntava quem é que o chamava, Clemente res- para quase todos os moços, mormente nos grandes centros. Entre os maiores
pondia: “É a Virgem de Quintiliolo”, e o viandante entrava na Igreja onde sauda- admiradores de Clemente contavam-se três senhoras solteiras de bastante ida-
va a Virgem implorando sua bênção para a viagem. de, pertencentes à nobreza e possuidoras de grande fortuna e de maior pieda-
Quando os romeiros iam ao ermitério para homenagear a Virgem, Clemen- de ainda; pertenciam à família von Maul. Aconteceu que um dia, quando as três
te recebia-os, acendia-lhes as velas rezando e cantando com os peregrinos. senhoras solteiras de bastante idade, pertencentes à nobreza e possuidoras de
Assim escoavam-se os dias; Clemente rezava continuamente e tinha deveras grande fortuna e de maior piedade ainda; pertenciam à família von Maul. Acon-
para quem rezar. Se olhava para a direita, divisava ao longe através da espessa teceu que um dia, quando as três senhoras saiam da igreja, depois de findas as
neblina a cúpula do grande Domo, a cobrir os restos mortais do pobre pescador sagradas funções, começou a chover a cântaros e com tal abundância que as
da Galiléia, que com as armas da graça divina esmagara o paganismo romano, ruas ficaram alagadas, obrigando as nobres damas a esperar na porta da igre-
e ele de joelhos agradecia a Jesus o grande benefício da fé; se olhava para a ja. Clemente pelo mesmo motivo não pôde sair e como era um tanto acanhado,
esquerda, os seus olhos contemplavam o Anio que de rochedo em rochedo se recostou-se a um canto da parede e esperou que o aguaceiro passasse. A hora
precipitava espumante, formando cachoeiras e despenhando no abismo, e ele já ia um tanto adiantada e o céu não cessava de derramar torrencialmente as
recordava-se dos infelizes irmãos separados da verdadeira Igreja, que do alto águas. Compreendendo o embaraço das nobres senhoras, Clemente aproxi-
da verdade se haviam precipitado no abismo da heresia. E ele temia também mou-se delas com todo o respeito e depois de saudá-las atenciosamente, per-
por sua própria alma, que não estava livre dos perigos, era também homem, e guntou-lhes se não desejavam um carro para voltar à casa; as damas aceitaram
por isso com santo temor e indizível humildade se recomendava a oferta e Clemente imediatamente se pôs a correr debaixo da chuva torrencial
encarecidamente à Virgem, para que lhe conservasse a fé tão firme como os em procura de cocheiro. Gratas àquela amabilidade, convidam o moço a tomar
rochedos que contemplava batidos do caudaloso rio; e quando, à noite, a lua assento no carro, e entretém com ele familiar palestra, perguntando-lhe por
projetava sobre a cidade os seus meigos raios, cobrindo-a de um manto de seus desejos e intenções; uma delas chegou a indagar, se Clemente por acaso
prata, ele lá no jardim se ajoelhava meditando na dor imensa que oprimira o nutria desejos de ser sacerdote, pois que ajudava a missa com tanta devoção.
coração do Redentor, quando na véspera da sua morte, no jardim das Oliveiras, Radiante de satisfação o humilde padeiro abriu o coração, manifestou-lhes a
oferecia o seu sangue pela redenção do homem, implorando o perdão para o sua pobreza e completa falta de recursos, e em seguida narrou-lhes toda a sua
mundo culpado. Essas cenas eram tão gratas ao seu coração e impressiona- vida desde o banco escolar de Tasswitz e a sua estada em Tívoli até aquele
vam tanto o seu espírito que, mesmo em sua avançada idade, ainda se recor- momento, em que esperava tudo da Providência. As ricas damas sentiram-se

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comovidas e ofereceram-se a cobrir as despesas. Ao ouvir tão lisonjeira oferta
Clemente parecia sonhar; tinha já 32 anos de idade e nunca ninguém ainda lhe
havia falado assim. Ao voltar para a casado mestre sentiu-se tão fora de si que
queria abraçar a todos, tão grande era a alegria e o contentamento da sua
alma. Clemente iria pois estudar, seria padre, veria realizado o sonho de sua
infância. Debulhado em lágrimas de satisfação íntima despediu-se de seu mes- CAPÍTULO IV
tre e foi à universidade.
Na universidade de Viena
Os estudos na Áustria — Na universidade — Contradiz o professor — En-
contro com Thadeu Hübl — A fé acima de tudo — As obras de Santo Afonso —
Novamente em Roma.

Deus dispusera tudo do melhor modo em favor de Clemente; o encontro


com as três senhoras von Maul dera-se no outono, justamente no início do ano
letivo da Universidade de Viena. Embora houvessem já decorrido sete anos que
Clemente não abria livros escolares, ainda conservava na memória o que apren-
dera com tanto afã e a custo de tanto suor, de sorte que lhe foi possível come-
çar logo o estudo da filosofia com as matérias anexas, a saber: o grego, a histó-
ria universal, as matemáticas e a física.
Felizmente não tinha Clemente de preocupar-se com o sustento, porque
as nobres damas, suas benfeitoras se esmeravam em auxiliá-lo e faziam ques-
tão que nada lhe faltasse. Mas Clemente já não era criança, a memória estava
já cansada e a inteligência perdera muito da agudeza e perspicácia antiga; e
estudar filosofia é um trabalho penoso, e, naquele tempo, cheio de dificuldades;
os professores de então entendiam da matéria, muitas vezes, tão pouco como
os estudantes, o compendio escolar distinguia-se pela confusão das noções e
das divisões e não apresentava aos alunos a ciência clara e verdadeira, mas
um sistema confuso sem precisão e sem ordem. Faltando as explicações dos
professores, ficava o estudo à mercê dos estudantes; Clemente era aplicado e
queria seriamente progredir não só para se mostrar grato às suas generosas
benfeitoras, mas principalmente por ser o estudo a condição necessária para o
estado sacerdotal; estudava, investigava, examinava e quando julgava desco-
brir algum sentido nas imensas lucubrações do compendio, abanava a cabeça
com asco, achando que aquilo não era católico. De dia Clemente folheava os
livros procurando a dar a sua vida; a clarividência e a firmeza de convicção em
sua crença tinham sido, desde a infância, a força carismática de seu ser, de
sorte que mais tarde ele mesmo afirmou, não esperar de Deus nenhuma re-
compensa por causa da fé, visto que nunca sentira tentações contra ela.
Desde cedo familiarizara-se Clemente com as obras ascéticas e dogmáticas
de Sto. Afonso Maria, obras essas ditadas pela mais profunda fé e convicção,
repletas de santa e celestial unção; o jovem estudante via nelas a mais comple-
ta e a melhor refutação dos erros que então se espalhavam na Europa; e de fato
eram elas que reconfortavam a fé já vacilante ou prestes a se extinguir, e que
em sua simplicidade e clareza retratavam em quadros magníficos a formosura
divina da religião. Traduzidas para o alemão tornaram-se o remédio salutar para

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aqueles tempos abismados no indiferentismo e racionalismo, e o antídoto pode-
roso contra outros erros funestos. Essas obras, maximé o livrinho das Visitas a
Jesus Sacramentado, encheram o coração de Clemente de veneração e amor
para com o bispo de Sta. Agueda, que na Itália acabava de renunciar a seu O santo Redentorista
honroso cargo.
Para uma alma assim preparada era impossível freqüentar os seminários Em Roma — O Senhor será um deles. Luta entre os dois peregrinos — É
da Áustria; Clemente queria ser padre, mas um padre virtuoso, trabalhador, recebido na Congregação Redentorista. — O noviciado — O espírito da Con-
segundo o coração de Deus. Era pois forçoso dizer adeus à Áustria, que tanto gregação — A uva tentadora — Os noviços italianos — Alegria e profecia de
amava, e despedir-se dela, talvez para sempre, pois não podia prever até onde Sto. Afonso — Profissão — Ordenação — Transpõe os Alpes.
chegaria a impiedade em sua pátria; ele estava pronto ao sacrifício e fê-lo de
boa vontade. Procurou seu amigo Thadeu Hübl, informou-o dos seus novos Os dois amigos chegaram a Roma, sem novidade, no mês de setembro de
planos convidando-o a que o acompanhasse. Hübl jazia enfermo no hospital e, 1784. Clemente, nesse interim, havia tomado a resolução firme de ingressar
irresoluto como era, admirou-se da súbita e brusca resolução do amigo. Doen- em uma Ordem religiosa: mas por prudência diferiu a entrada para ter mais
te e sem recursos, como empreender semelhante viagem? Como em sua reso- tempo de examinar primeiro o fim particular das diversas Congregações, o fer-
lução Clemente era inabalável, não pôde nem quis admitir as escusas e os vor da observância regular e outras particularidades que haveriam de influir na
pretextos do amigo; quando ao dinheiro, ele mesmo se incumbiria de arranjá-lo, sua resolução definitiva. Em companhia de Thadeu percorreu a cidade, visitou
quanto à saúde, Deus providenciaria. E assim foi. Thadeu Hübl restabeleceu-se as igrejas célebres de Roma, observando sempre os religiosos, e indagando de
e acompanhou Clemente a Roma. várias pessoas, o que sabiam das diversas Ordens e Congregações que lá
havia. Coisas edificantes ouviam eles sobre grande número de Congregações
CAPÍTULO V cujos membros aspiravam seriamente à perfeição, mas nenhuma delas conse-
guiu entusiasmar-lhes os corações. Foi o próprio Deus que se encarregou de
indicar a Clemente o lugar, onde o queria.
Numa tarde, depois das visitas feitas aos grandes santuários conferiu com
o amigo as impressões recebidas durante o dia, e junto compuseram o progra-
ma das visitas para o dia seguinte. Clemente teve subitamente uma idéia:
“Thadeu, disse ele, a primeira igreja a que iremos amanhã, será aquela cujo
sino ouvirmos primeiro”. Thadeu concordou.
Na manhã seguinte era ainda escuro, quando ouviram o som melancólico
de um pequeno sino, que os convidava à igreja; levantaram-se depressa e fo-
ram. Era a pequena Igreja de São Julião, perto da Vila Caserta; entraram, pé
por pé, e ouviram rezar; eram sacerdotes desconhecidos para eles, batinas
pretas com colarinhos brancos e salientes; rezavam imóveis como se fossem
estátuas de mármore; de joelhos, mãos postas, olhos baixos pareciam imersos
em profunda contemplação; os padres estavam fazendo a meditação da ma-
nhã. Os dois amigos caíram também de joelhos pedindo a Deus, se dignasse
manifestar-lhes sua santíssima vontade. Terminada a meditação, Clemente tam-
bém se levantou com o coração a bater-lhe fortemente no peito. Ao sair da
igreja deu com um rapazinho, coroinha da Igreja de S. Julião, e perguntou-lhe:
“Menino, que padres são esses que acabam de rezar agora nessa igreja?” —
“São padres Redentoristas, disse o pequeno, e o senhor também será um de-
les”.
Essas palavras do menino abalaram o coração do Servo de Deus e bani-

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ram-lhe a tranqüilidade; a todo instante parecia-lhe ouvir: “o senhor será tam- como se já a muitos anos o não tivesse visto; entraram ambos na igreja e dali a
bém um deles”. Não encontrando mais sossego, volta, essa mesma tarde ain- pouco, os dois austríacos eram recebidos definitivamente na Congregação do
da, à Igreja de São Julião, chama o Reitor ao locutório e informa-se da Congre- Santíssimo Redentor.
gação dos Redentoristas. Quando ouviu que foram fundada por Santo Afonso, De acordo com a Regra da Congregação, passaram eles uns dias, como
cujas obras tanto apreciava, e que tem por fim evangelizar os povos por meio de candidatos, em suas vestes seculares na casa do noviciado, preparando-se
missões e retiros, dedicando-se de um modo todo particular ao povo abando- para o retiro de quinze dias que precede à tomada de hábito. Aos 24 de outubro
nado nos sítios, sentiu que para ela Deus o chamava; não hesitou, relatou ao de 1784 foram revestidos do hábito de Santo Afonso Maria e começaram o
Reitor os estudos que já tinha feito, a idade que então contava, pediu admissão noviciado sob a sábia e firme direção do Pe. Landi, Reitor da casa, o qual há
e o Reitor recebeu-o na Congregação: ei-lo o Redentorista. anos havia bebido o espírito da Regra, tendo por mestre o próprio santo Funda-
A alegria de Clemente Maria foi indescritível: achara enfim a sua vocação, dor. Foi Esse o momento da maior importância e relevância para a Congrega-
e isso de um modo tão extraordinário, sabia onde é que Deus o queria, e não ção transalpina. Nos planos divinos denotava esse momento um movimento
encontrava na língua humana expressões com que pudesse agradecer digna- espantoso de salvação, de trabalho, de suores em benefício das almas; a entra-
mente ao Senhor de tê-lo chamado à Congregação do grande Apóstolo e emi- da dos dois estrangeiros na Congregação era o princípio da propagação do
nente Teólogo Santo Afonso Maria, cujas “visitas” afogueadas de amor divino instituto Redentorista além dos Alpes, os limites da Congregação já não seriam
tantas vezes recitara na Igreja de Santo Estevam. Além de tudo isso seria mis- coarctados pelas divisas da Itália, mas iriam de oceano a oceano, estendendo-
sionário para salvar as almas mais abandonadas e levá-las ao céu; seria o se pelo mundo inteiro.
imitador de Jesus na sua vida oculta e no seu apostolado. Contente como quem Clemente olhando para o seu novo hábito sentia-se outro homem; a batina
encontra um tesouro, corre ao encontro de Thadeu para fazê-lo participante da preta, o cíngulo tosco com o rosário à cintura, a cruz oculta ao peito enlevavam
sua indizível felicidade e anuncia-lhe que fora admitido na Congregação dos o seu espírito pela alta significação que tinham. Como noviço fervoroso procu-
Redentoristas. rava familiarizar-se com as Regras, ou antes, refundir em si o espírito da Con-
Thadeu porém, que absolutamente não esperava tal resolução, indignou- gregação. A consecução desse nobre ideal não lhe causava a menor dificulda-
se, lançou-lhe em rosto sua precipitação e imprudência, exprobrou-lhe sua falta de; ouvira do mestre dos noviços que o espírito da Congregação Redentorista
de caridade, perguntando se era para abandoná-lo e deixá-lo só que o trouxera consiste, sobretudo, no espírito de oração, de humildade e de abnegação pró-
da Áustria para a Itália, cuja língua não conhecia; Thadeu ficaria só num país pria; ora tudo isto era-lhe familiar desde os primeiros anos de sua vida: a oração
desconhecido, sem recursos para continuar os seus estudos. Isso era, na opi- fora sempre o divertimento favorito da sua alma, desde os seus mais verdes
nião de Thadeu, uma traição vergonhosa. Por mais que se esforçasse, Clemen- anos, a humildade aprendera ele, de sobre, na casa paterna e na oficina do
te não conseguiu abrandar o coração do amigo, cujas palavras pesadas lhe padeiro; a abnegação da vontade própria fora sempre o seu pão cotidiano; não
traspassaram a alma como uma espada de dois gumes; e entretanto a intenção lhe era pois necessário transformar muita coisa na sua nova vida, mas só con-
de Clemente era a melhor do mundo, queria fazer feliz o amigo levando-o con- tinuar e aperfeiçoar o que praticara no século. E com a graça divina Clemente
sigo ao convento; este porém obstinava-se em não querer acompanhá-lo. não foi nada remisso no cumprimento desse dever. A oração tornou-se a alma
Mas não há como um dia depois do outro; caiu a noite e Thadeu Hübl foi da sua vida religiosa; orava não só quando prostrado ante o altar de Jesus
repousar das fadigas do dia, e mais ainda do dissabor que o prostrara. Clemen- Sacramentado ou a imagem da Virgem, mas sempre que andava pelos corre-
te porém compreendendo que, em semelhantes apuros, só Deus pode ajudar, dores do convento e pelas ruas da cidade. Reconhecia de boa mente na Regra
ajoelhou-se em terra junto do leito do amigo, e rezou a noite inteira pedindo ao do Instituto a expressão da vontade divina. Rijo por natureza e temperamento,
céu se dignasse iluminar o companheiro, aliás tão virtuoso e dócil. Ao amanhe- fugia da moleza, amando a mortificação e procurando conseguir o domínio com-
cer estava ele ainda ajoelhado em oração a lutar com Deus como outrora o pleto sobre as suas paixões.
patriarca Jacó com o anjo na solidão da Palestina. Quando Thadeu acordou, No noviciado de São Julião quis Deus que lhe não faltassem ocasiões para
volveu os olhos para o leito do amigo, como que a despertá-lo; mas com grande mortificações de todo o gênero. Filho do norte levara ao sul um apetite não
surpresa verificou-o intacto, tal qual o deixara na noite anterior; mais surpreen- insignificante, aumentado ainda pela força de uma constituição robusta, e a
dido ainda ficou ao contemplar Clemente ajoelhado em terra, os olhos a nadar cozinha italiana do convento de S. Julião era tão parca e tão mesquinha. “A
em lágrimas; compreendeu imediatamente o motivo daqueles preces e sentiu- coisa mais difícil para mim na Itália, disse ele mais tarde, foi o não poder eu
se comovido, mas não disse palavra. Levantou-se e com o companheiro dirigiu- nunca matar completamente a fome”. O seu maior pecado no noviciado foi ter
se a Maria Maggiore atravessando em silêncio as ruas desertas e taciturnas. mandado vir uma fez algumas uvas sem a necessária licença dos Superiores.
Os corações de ambos sentiam-se torturados e vazios como as ruas ermas que Isso porém deu-se uma única vez, pois que mesmo nesse ponto Clemente
atravessavam. À graça por fim venceu e Thadeu interrompendo o silêncio disse: sempre se mostrou forte; junto à janela da sua cela, do lado de fora, havia uma
“Clemente, eu entrarei contigo na Congregação dos Redentoristas”. Um abraço parreira, que estendia seus ramos até a altura do quarto e dum dos ramos
forte foi a resposta de Clemente, que não pôde conter as lágrimas; amplexou-o pendia um cacho grande, maduro e apetitoso, que lhe sorria tentadoramente:

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Clemente gostava das uvas doces da Itália; mas não sucumbiu à tentação, foi especial do céu”. E o grande bispo resignatário de Santa Agueda dos Godos,
mais forte do que Eva no paraíso, venceu-se e lá deixou ficar o cacho para ter que amava a Congregação, por ele fundada, como a pupila dos seus olhos,
cada dia mais ocasião de se mortificar. viveu ainda três anos depois da tomada de hábito dos dois austríacos a rezar e
Nos companheiros de noviciado não podia o Servo de Deus suportar mole- sacrificar-se pelos dois noviços; e se Clemente Maria se tornou um grande San-
za nem falta de mortificação. — Com franqueza austríaca — e Clemente era de to e a pedra fundamental da Congregação transalpina, deve-o em grande parte
franqueza rude — não raramente dizia aos italianos: “Os estrangeiros que vêm às orações que por ele fez o velhinho Fundador do seu leito de dores em Pagani.
à Itália esperar e querem que os italianos sejam santos; prestam atenção a tudo Tão grande e extraordinário foi o zelo e fervor dos dois noviços que o Supe-
para depois contarem lá fora quanto viram e observaram na Itália”. Os noviços rior Geral achou que podia abreviar o tempo da provação. No dia de S. José, a
italianos tinham o costume de, no tempo do calor, levar consigo, nos passeios, 19 de março de 1785, cinco meses depois da tomada de hábito, os dois austrí-
alguma roupa limpa, para quando estivessem suados. Clemente estranhou se- acos fizeram a profissão religiosa, sendo logo em seguida enviados para
melhante hábito e uma vez não podendo conter-se foi ter com o mestre de Frosinone, que era a casa de estudos, não longe das divisas do reino de Nápo-
noviços e disse-lhe: “Sr. padre, eu que aqui estou, vim da Áustria com uma les. A sua estada nessa nova residência não devia, contudo, prolongar-se por
camisa, um paletó, um par de calçar, um chapéu e uma bengala caminhando muito tempo; em atenção à idade de Clemente e em vista dos estudos feitos na
400 horas de Viena até Roma, e nem por isso vi abalada a minha saúde; e aqui Universidade de Viena e da premente necessidade de dar início, quanto antes,
em Roma para um passeio de duas horas vejo tantos preparativos, porque tudo à fundação além dos Alpes, julgaram os Superiores poder realizar o mais ar-
isso? O mau costume foi, desde então, abolido no noviciado de São Julião. dente desejo do coração de Clemente. Dez dias depois da profissão religiosa
Clemente costumava dizer que os meses do seu noviciado oram os mais receberam os dois austríacos a ordenação sacerdotal na cidade de Alatri, duas
belos da sua vida. O conselho que Santo Afonso dava aos seus, de serem horas distante de Frosinone. Debaixo de uma chuva torrencial voltaram os
cartuxos em casa e apóstolos fora, condizia inteiramente com a sua inclinação. neopresbíteros para casa, jubilosos pela graça extraordinária que Deus lhes
O impulso para a solidão e o desejo ardente do apostolado haviam até então concedera. Segundo o costume na Áustria, esperavam uma recepção festiva e
lutado em sua alma, e agora via esses dois sentimentos harmoniosamente uni- solene, um banquete opíparo, um dia de recreio, adornos em todos os quartos
dos em sua Congregação. Tornou-se Redentorista de corpo e alma, entregando e corredores, em sinal de alegria da comunidade. Mas, ó decepção! O Superior
e consagrando à Congregação o amor robusto do seu coração, tomando por de Frosinone, que bem conhecia a virtude de ambos, quis pô-la em prova já no
lema da sua vida trabalhar por ela, e por ela dar até a última gota do seu san- primeiro dia. Logo que chegaram em casa, em vez desses sinais externos de
gue. Eis porque mal entrando na Congregação do Santíssimo Redentor já so- regozijo, um deles teve de ler no refeitório enquanto os outros tomavam a refei-
nhava com a propagação desta no Norte da Europa; queria levá-la à sua Pátria, ção, e o outro foi auxiliar do irmão copeiro. Nada pois de banquete, de recreio,
fazê-la conhecida e amada de todos: disso nunca fez segredo durante o novici- de distinções. São Clemente mais tarde, lembrando-se desse episódio de sua
ado. As circunstâncias, porém, não pareciam favoráveis aos dois noviços austrí- vida, gracejava narrando com vivas cores como ao voltar de Alatri com apetite
acos. Os próprios companheiros de noviciado sacudiam a cabeça achando até devorador e desejo de sentar-se à mesa junto com os confrades — o Reitor,
atrevimento, o quererem dois pobres padeiros, que não conheciam ainda a fun- para o mortificar, mandou-lhe que servisse à comunidade e almoçasse depois.
do a teologia, implantar a Congregação na Áustria numa época em que tudo se Mas isso tudo pouco importava; Clemente era padre, o pobre filho do cortador
conjurava contra os conventos. Essa notícia transpôs os limites dos Estados de Tasswitz podia subir ao altar, chamar do céu o próprio Deus às suas mãos.
Pontifícios e chegou aos ouvidos do Santo Fundador, que residia em Nápoles. Como soe acontecer em tais circunstâncias, a vida parecia um sonho a Cle-
O velhinho também sorriu-se ao ouvir falar do desejo de dois austríacos, mas o mente, que não cansava de repetir: “Sou padre, ministro de Deus, para conduzir
seu sorriso foi a expressão da alegria e do contentamento. Essa foi uma das as almas ao céu”. A mãe de Clemente sobreviveu a esse acontecimento, soube
maiores consolações, que Deus lhe mandara em sua velhice e no meio das que seu Joãozinho era sacerdote do Altíssimo, mas não lhe foi dado abraçá-lo
mais rudes provações por que ele tinha de passar nos últimos anos da sua depois dessa grande ventura, porque em junho desse mesmo ano veio a falecer
laboriosa vida. Deus iluminou-lhe o espírito, como outrora ao velho Simeão no em Tasswitz. Clemente contava 34 anos de idade quando, pela primeira vez,
templo, e extremamente consolado quis, ele também, pronunciar o seu “Nunc subiu aos degraus do altar para o santo sacrifício; era justamente a metade da
dimittis”. Em tom profético disse Santo Afonso aos seus filhos espirituais: “Não vida, que Nosso Senhor lhe iria conceder. Ainda um ano passaram eles em
duvideis, a Congregação há de persistir até o dia do juízo, porque não é obra Frosinone, ocupados com o estudo da teologia, e de um modo especial, da
minha, mas de Deus; enquanto eu viver ela continuará na obscuridade e nas moral composta pelo Santo Fundador da Congregação.
humilhações; depois da minha morte, porém, ela estenderá suas asas, mor- Os Superiores tomaram seriamente a peito a fundação redentorista na
mente nos países do Norte”. Para Santo Afonso eram Clemente Maria e o seu Áustria, chamaram a Roma os dois austríacos, que receberam ordens de partir
companheiro os dois homens da Providência, enviados pelo céu para consoli- logo depois do encerramento do Capítulo de Scifelli. Devido às enormes dificul-
darem a Congregação e levarem-na para além dos Alpes. “Esses padres, acres- dades que iriam ter na Áustria, e às circunstâncias especiais desse país, que se
centou Afonso, farão muito pela glória de Deus, mas necessitam de uma luz achava nas mãos dos “iluminados” e josefinos, receberam eles plenos poderes

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com carta branca para tudo; a própria Regra sofreu pequenas modificações
acidentais, devendo provisoriamente amoldar-se às lamentáveis circunstâncias PARTE SEGUNDA
do Norte, onde não se podia mencionar a palavra “missão” que se detestava
como sinal de atraso; era, pois, necessário fundar — contra a Regra — escolas Na capital da Polônia (1787-1808)
e colégios, aceitar paróquias, dirigir institutos etc. Clemente foi nomeado Supe-
rior, e dele esperavam todos o maior êxito possível para a glória de Deus e a CAPÍTULO I
salvação das almas.
Os primeiros anos em Varsóvia
Em Viena — Estado lamentável da religião na Áustria — Destina-se à
Curlândia — Fica em Varsóvia — S. Beno — As primeiras dificuldades — Se-
nhor, agora é tempo — Restaura a igreja — Visita de Sto. Afonso — Um colégio
em Roma — Os grandes planos — Recrutamento — O demônio em ação.

Em vestes de sacerdotes seculares Clemente e Thadeu Hübl tomaram o


caminho mais breve em direção a Viena; ao avistarem as primeiras casas da
grande Capital sentiram os corações palpitar de contentamento, e prostrados
agradeceram à Providência, que lhes fizera ver novamente a cidade onde tan-
tos anos haviam labutado pela existência com saudades do sacerdócio; visita-
ram as pessoas da sua amizade, maxime as insignes benfeitoras von Maul, o
antigo mestre e amigo da “A pera de ferro”, e em geral a todos a quem devi-
am algum favor especial.
Depois de cumprindo esse primeiro dever de gratidão, o Pe. Clemente Maria
começou a ocupar-se seriamente da missão que lhe fora confiada, de introduzir
na grande cidade do Danúbio a sua querida Congregação do Santíssimo Re-
dentor. Dificuldades de todo o gênero impediam-lhe os passos e baldavam-lhe
os esforços. O racionalismo e o jansenismo haviam já escravizado a Áustria
levando tudo a ferro e fogo e procurando abafar e extinguir todo e qualquer
sentimento católico. O imperador José II, instigado pelos ministros e pela políti-
ca contrária, baixava decretos e mais decretos que suprimiam os conventos,
perseguiam os religiosos e impediam o exercício livre do culto divino. No espa-
ço de apenas cinco anos suprimira nada menos de sessenta e quatro conven-
tos na Boêmia e trinta na Áustria, bem como todas as Ordens mendicantes, não
excetuando as irmãs de caridade. Os governantes precisavam de quartéis para
os soldados — e para isso os conventos prestavam-se admiravelmente; os reli-
giosos foram expulsos, as bibliotecas saqueadas, as obras de arte despedaçadas
e os próprios esquifes preciosos, que guardavam os restos mortais dos antigos
fidalgos, foram postos em hasta pública. A par de todas essas injustiças, forja-
vam-se ainda contra os religiosos as maiores calúnias, como se quisessem
assim justificar seu nefando procedimento.
S. Clemente considerando tudo isso sentiu a espada traspassar-lhe a alma;
não era possível, em tais circunstâncias, nem sequer pensar em fundações de
conventos em Viena, e muito menos de uma residência de Redentoristas que
ninguém ainda conhecia, uma Congregação estrangeira, emissária talvez do
papismo que os governantes detestavam. Além disso S. Clemente havia peca-
do gravemente contra o decreto de José II, recebendo o sacerdócio fora da

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mente. A casa que lhe serviria de convento era mais do que modesta; além de
Áustria, sem passar pelo seminário organizado pelo governo. De tudo isto S. muito pequena, era úmida e desprovida de tudo; uma mesinha e algumas ca-
Clemente informou o Superior Geral em Roma, mas convencido de sua missão deiras velhas constituíam a única mobília da nova residência e do primeiro con-
e movido do desejo de não privar sua Pátria dos benefícios da religião, pôs-se à vento dos Redentoristas além dos Alpes; não havia livros, nem relógio, nem
disposição da Propagação da fé com a licença do Superior Geral. estampas, nem camas, nem utensílios de cozinha e — o que era ainda pior —
O Núncio de Varsóvia acabava de pedir sacerdotes alemães para a provín- nem dinheiro para comprá-los. A igreja participava inteiramente da sorte do
cia da Curlândia na Rússia por conselho da imperatriz Catarina II, que embora convento: Não possuía um vintém, nem título algum de rendas, de sorte que se
má em sua vida particular, compreendia que só pela proteção outorgada à reli- tornava difícil obter o azeite para a lâmpada, a cera para o altar e o vinho para
gião poderia ganhar para si os católicos da nova província, que lhe ficou caben- a missa.
do na divisão da Polônia. O Superior Geral autorizou os dois Redentoristas a Os dois padres encetaram logo sua atividade apostólica na igreja, cele-
trabalhar na Curlândia, fundar casas e aceitar noviços. Sem mais detença apron- brando, ouvindo confissões e pregando em alemão. Fr. Manoel servia de cozi-
tam a mala e põem-se a caminho, dispostos a transpor a pé as 200 léguas que nheiro e porteiro; de alfaiate não se precisava, porque cada um remendava o
vão de Viena a Varsóvia. Já se achavam fora da cidade, quando deram com um que lhe pertencia. A cozinha, porém, era lastimável em toda a extensão da
pobre ermitão, vestido pobremente com o capuz cinzento às costas e um bor- palavra, pois que Fr. Manoel, que nunca exercera o ofício de cozinheiro em sua
dão na mão: era o velho eremita de Tívoli, Manoel Kunzmann, amigo de S. vida, por força das circunstâncias, tornara-se o cozinheiro-mor da nova comuni-
Clemente, o qual se achava em viagem de visita às relíquias dos Santos Reis dade; de uns pedaços de madeira improvisou os talheres para a cozinha; pratos
Magos em Colônia. S. Clemente o convidou a entrar na Congregação e a e caçarolas recebeu-as de presente de umas pessoas caridosas, que se apie-
acompanhá-lo à Curlândia. Manoel aceitou gostosamente o convite e tornou-se daram dos pobres religiosos. O mais difícil era digerir o preparado na cozinha
assim o primeiro noviço, admitido por S. Clemente na Congregação. do Irmão Manoel; não poucas vezes foi necessário ao Pe. Superior, ao sair do
S. Clemente, ao partir de Viena, passando por perto de Znaim fez uma confessionário ou ao descer do púlpito, ir à cozinha, cingir o avental e preparar
pequena volta a fim de visitar os seus parentes e amigos; de Znaim foi a Tasswitz, a refeição. O fazer as camas não fatigava ninguém; Irmão Manoel estendia-se
sua cidade natal, onde sentiu renascerem em sua alma as mais gratas recorda- sobre o banco e os dois padres procuravam o repouso sobre a dura mesa. O Pe.
ções da infância: conhecia ainda tudo, a igrejinha era a mesma de outrora sem Clemente, embora amante apaixonado da pobreza, sentia, ver seu caro confrade
nenhuma modificação, os prédios não apresentavam nenhuma alteração consi- sofrer tantas privações; não tinha a quem recorrer senão ao melhor de todos os
derável; ao chegar à casa, onde nascera, bateu à porta e radiante de satisfação benfeitores; nos momentos mais penosos, quando faltava o necessário em casa,
abraçou sua boa irmã, que já não via há muitos anos; dirigiu-se em seguida ao ia à Igreja, ajoelhava-se diante do sacrário e, sentindo-se com coragem, subia
cemitério, e diante do túmulo de sua mãe ajoelhou-se e, as lágrimas a correr- os degraus do altar, batia à porta do sacrário e, cheio de confiança, parecia
lhe pelas faces, rezou por intenção de sua santa mãe, agradecendo-lhe os be- acordar a Jesus como outrora os Apóstolos, e dizia-lhe: “Senhor, agora é tem-
nefícios, sobretudo a boa educação cristã que dela recebera. po”. E — ó prodígio! — muitas vezes, depois dessas cenas tocantes, batiam à
Entretanto o tempo urgia e Clemente não podia demorar-se muito; a obedi- porta do convento; eram benfeitores que traziam alguma coisa para os padres
ência chamava-o à Curlândia, onde tantas almas sedentas da verdade e ávidas de S. Beno.
do pão da palavra divina reclamavam seu suor e suas fadigas. Como o Núncio Um dos primeiros trabalhos de S. Clemente em Varsóvia, como ele mesmo
Apostólico, D. Fernando Salluzo, nobre napolitano e íntimo amigo de Sto. Afon- narra em uma carta, consistiu em fundar e dirigir escolas alemãs, que eram lá
so, se achava em Varsóvia nessa ocasião, resolveram os missionários passar desconhecidas até então. O trabalho tornou-se em breve exaustivo pela enor-
por lá afim de receberem a necessária jurisdição para a Curlândia e as ordens me afluência de alunos alemães, polacos e russos; até meninos protestantes
do Superior Geral. Mons. Salluzo, porém, não os quis deixar ir adiante, reteve- pediram admissão na escola de S. Beno. Os livros escolares compravam-se
os em Varsóvia confiando-lhes a cura espiritual dos alemães, antigamente en- todos em Viena; o local comportava cerca de 200 crianças, não contando os
tregue aos cuidados dos padres jesuítas, e há treze anos já sem pastor. Depois órfãos, que eram numerosos.
dos necessários entendimentos com a Congregação da Propaganda Fide e o O serviço da igreja, no princípio, não tomava muito tempo aos sacerdotes.
Superior Geral dos Redentoristas, e com a permissão de Poniatowski, rei da Depois de feita a necessária limpeza das paredes e dos altares, os missionári-
Polônia, receberam eles a Igreja de S. Beno, construída sobre uma colina no os puseram-se a trabalhar no confessionário e no púlpito, mas a assistência era
ponto extremo da cidade de Varsóvia. Essa igreja, embora não muito vasta, diminuta; no primeiro ano distribuíram apenas 2.000 comunhões. Os alemães
comportava cerca de mil pessoas e possuía três altares. Na capela-mor, abaixo eram frios e indiferentes para as coisas da religião, enquanto que os polacos
da estátua de S. Beno achava-se o quadro milagroso de Nossa Senhora fugiam ou evitavam propositalmente os Benonitas, aos quais desprezavam como
Auxiliadora, venerada com amor pela população de Varsóvia; dos outros altares a estrangeiros e mais ainda como alemães, que o povo considerava luteranos.
um era dedicado a S. José e o outro a Jesus preso à coluna na flagelação; O fato de que em S. Beno se pregava em alemão e se davam aulas nessa
invocações essas que condiziam admiravelmente com as devoções de S. Cle- língua, foi interpretado como um ensaio de germanização dos polacos. A tudo

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isso ajuntava-se ainda a desesperada situação financeira, a pobreza mais que exagero de piedade, mas Dalberg e Wessenberg embargaram-lhe os passos;
franciscana. A pobre comunidade só tinha o conforto do céu, que felizmente dirigiu seus olhares para os protestantes da Alemanha e da Suíça para convertê-
não faltava. Deus conhecia a virtude daqueles heróis, a sinceridade e a boa los; chegou a envolver em seus gigantescos planos a América e a Ásia, na
vontade de seus corações, e como os queria para instrumento na realização de convicção de que Deus não o poderia abandonar na grandiosa empresa, que
seus divinos planos na restauração moral da Europa, aprouve-lhe aperfeiçoá- visava tão somente a glória divina e o bem das almas. Seus planos eram vastos
los na prática da mais completa abnegação. Sem abrirem os lábios para a me- e ilimitados, porque imenso era o zelo pela salvação das almas, e ardente o
nor queixa, suportaram tudo resignados — e Deus mostrou-se contente e satis- desejo de difundir o reino de Deus em toda parte; não era apenas fantasia ou
feito com eles de um modo visível. sonho de uma natureza doentia, pois que, onde Clemente punha os pés, brota-
Como que para aprovar a nova fundação, Clemente teve um dia um aviso va a vida de piedade e floresciam as virtudes. Em toda parte, porém, colheu
do céu. Era o dia 1 de agosto de 1787, e não fazia ainda um ano que os padres desilusões bem amargas; se todos os planos de S. Clemente se tivessem reali-
tinham aberto a residência de S. Beno. Depois do meio-dia, estando os dois zado, a sua biografia seria uma das mais interessantes, mais variadas pela
missionários a recrear-se no Senhor e a conversar sobre as dificuldades, que multiplicidade e variedade dos pontos de vista com que ele encarava as coisas,
se multiplicavam de dia para dia em Varsóvia, ouviram subitamente um ruído sabendo dar a tudo, com admirável precisão, a unidade de ação. É sob esse
inexplicável, que os fez estremecer nos bancos. Clemente dirigindo-se a Thadeu aspecto que se compreendem as palavras do grande poeta Zacharias Werner,
Hübl disse-lhe: “Com certeza este é o sinal de que o nosso Fundador acaba de que afirmava, serem Napoleão e Clemente os maiores gênios, os mais abaliza-
falecer”. E com efeito, tomaram nota do dia e da hora e, meses depois, soube- dos talentos do seu século. Embora não nos seja dado o prazer de contemplar,
ram ter passado à melhor vida justamente naquela data, o grande Sto. Afonso, admirados, a realização dos intentos grandiosos de S. Clemente, curvemo-nos
que, desejoso de conhecer seus filhos e de abençoá-los, foi visitá-los no mo- ante as suas virtudes excepcionais, sua humildade, seu desprendimento, sua
mento em que subiu ao céu. confiança em Deus e sua fortaleza inabalável.
S. Clemente, depois dos primeiros meses em Varsóvia, quase se decidira a Para Clemente não havia outro remédio, senão contentar-se provisoria-
voltar para a Itália. Quem conhece bem os grandes planos do Santo não estra- mente com o movimento localizado na Igreja de S. Beno e ai receber os noviços
nha esse resolução, que à primeira vista, parece um tanto precipitada, e fruto que Deus lhe mandasse, e viver da esperança de um futuro mais favorável na
de um espírito indeciso, fraco e volúvel. O desejo de S. Clemente não era achar mais inteira confiança em a Providência.
para si e para o Pe. Thadeu um campo qualquer de trabalho; a missão, de que Aprouve a Deus consolar seu humilde Servo que, batido das adversidades,
ele se sabia incumbido, era de formar nas terras do Norte um ramo viçoso da colocara sob a proteção do Altíssimo a sua pessoa e os seus maravilhosos
Congregação Redentorista, e isso o mais breve possível, pois que não podiam planos. Além de um Irmão leigo pediu admissão no convento de S. Beno, logo
nem queriam viver longe de uma comunidade completa, onde pudessem ob- no ano seguinte, um saxônio, alto no corpo e grande no coração, de um tempe-
servar a Regra e executar todos os seus preceitos com a maior exatidão e ramento pacato e sisudo: O Pe. Jestersheim que mais tarde se tornou uma das
pontualidade. É o próprio Superior Geral que lhe escreve: “Se não houver espe- colunas da comunidade de Varsóvia. As esperanças de Clemente readquiriram
rança de se fundar ai um convento, o melhor é voltar para Itália”. Apenas chega- novo vigor com a entrada desse esperançoso jovem. Para maior facilidade no
do em Varsóvia, dera S. Clemente os primeiros passos para a realização dessa desempenho do seu cargo o Superior Geral nomeou Clemente seu represen-
grandiosa missão, mas sem resultado; as circunstâncias declararam-se contra tante com todas as faculdades e poderes além dos Alpes, delegação essa que
ela, e as experiências feitas fracassaram tristemente. Da Itália não lhe podiam se tornara necessária, porquanto Clemente se achava, em S. Beno, sobrecarre-
mandar reforços de pessoal nem de dinheiro, e dois alemães, que entretanto gado de trabalhos: era o mesmo tempo Superior de Varsóvia, vigário, mestre-
pediram admissão no Instituto, abandonaram logo a Congregação. escola, mestre de noviços e pai dos órfãos.
Uma idéia grandiosa reanimou-lhe ainda a esperança: a fundação de um Em 1791 existia já em São Beno uma respeitável comunidade de cinco
grande colégio na Itália, quanto possível em Roma, com o fim de educar e padres e dois irmãos leigos, com um noviciado de quatro clérigos, que faziam
formar os alemães para a Congregação e para o Norte; chegou a expor essa entrever um belo futuro e davam as maiores e as mais consoladoras esperan-
idéia ao Núncio e ao Superior Geral, que aplaudiram e aprovaram o grandioso ças. Ao ser informado desse estado florescente da Congregação transalpina, o
plano. Mas onde levantar esse colégio? O Superior Geral ofereceu S. Julião, Superior Geral escreveu a Clemente: “Congratulo-me convosco pelos muitos
como único local menos mau para isso. — Em vista da estreiteza da casa e da trabalhos que tendes; quem me dera poder, também eu, ir batalhar ao vosso
impossibilidade de encontrar outro lugar, teve S. Clemente de desistir desse lado! Coragem, não desanimeis na missão sublime que Jesus vos confiou; eus
grande plano, que entretanto o preocupou até os últimos anos da sua vida. dar-vos-á, pelos vossos trabalhos, a recompensa que esperais”.
S. Clemente, porém, depositando toda a sua confiança na Providência, As dificuldades financeiras, porém, continuavam sempre mais prementes,
pôs-se a trabalhar, na certeza de que, mais cedo ou mais tarde, Deus haveria e se não fosse um adjutório de cem escudos oferecidos gentilmente pela Pro-
de ajudá-lo na realização da missão que o céu lhe dera. Conhecedor profundo paganda para cobrir as grandes e forçadas despesas da comunidade e do cul-
das almas quis começar seu plano de reforma pelo clero, que não pecava por to, bem como as palavras reconfortantes do Núncio, que apreciava imensamen-

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te os trabalhos dos Redentoristas, Clemente teria voltado à Itália, e a grande
obra da reforma dos costumes da Polônia e na Áustria ficaria por fazer, Deus
sabe até quando.
O demônio, que não estava nada contente com a piedade sempre crescen-
te em S. Beno, envidou os maiores esforços para destruir a obra começada com
tão belos auspícios e tão brilhantes êxitos espirituais para as almas. Por intrigas CAPÍTULO II
e má vontade de um dos padres, que logo depois abandonou a Congregação,
começaram a surgir certas desinteligências entre Varsóvia e Roma, de sorte
que o Procurador Geral dos Redentoristas julgou necessário pedir ao Núncio
O apostolado em Varsóvia
Apostólico que verificasse, se de fato Clemente havia falsificado a Regra, e o
Superior Geral, desconfiado pela falta de cartas que explicassem a situação, Polônia e sua história — Finis Poloniae — O comando da Prússia — Os
perguntou a Clemente, se os padres de S. Beno planejavam uma ruptura de trabalhos apostólicos — Corpus Christi — O confessionário e o púlpito — Vida
relações com a Congregação, pretendendo declarar-se independentes. Essas de convento — As escolas — Os oblatos Redentoristas — Apostolado da im-
suspeitas cresciam, dia a dia, por causa da desorganização dos correios e em prensa.
conseqüência das guerras e outras perturbações sociais, que tornavam difícil,
para não dizer quase impossível a comunicação epistolar com Roma. A corres- Nos primeiros anos, a contar de 1790, S. Clemente pouco se preocupou
pondência era feita ou por portadores especiais ou, então, por intermédio da com os trabalhos de fundações, que se tornaram impossíveis devido às nume-
Nunciatura. rosas guerras encetadas e realizadas nesse lapso de tempo. Varsóvia não foi
Devido a tudo isso a questão entre S. Beno e Roma azedou-se de forma poupada nesses tempos calamitosos; antes parecia ter sido escolhida para te-
que Clemente chegou a pedir ao Superior Geral a exoneração do pesado cargo atro principal e mais doloroso das graves perturbações européias de então.
de Vigário Geral da Congregação, pedido esse que ficou sem efeito. Desde o primeiro desmembramento a Polônia não conseguiu mais levantar-se
O ano de 1790 começou alvissareiro para a Congregação Redentorista; às da sua ruína. Catarina II da Rússia, de há muito, planejara-lhe a ruína completa;
casas do reino de Nápoles, que por decreto real não podiam antes seguir o de nada valeu a brilhante vitória conquistada com bravura por Cosciusko em
regulamento aprovado pelo Papa, foi permitido pelo rei seguir a Regra antiga Cracóvia. Varsóvia passou a pertencer ao domínio da Prússia. A prepotente
sem falsificações, operando-se assim a união delas aos conventos dos Estados imperatriz da Rússia impôs ao reino da Polônia a Estanislau Poniatowski, seu
Pontifícios; o Capítulo Geral reunido elegeu Reitor-mor o padre Paulo Blasucci, favorito, rei sem energia e sem amor à Pátria, dado às letras e à estética, porém
cujo governo abrangia então as dezoito casas da Congregação, existentes nos sem caráter e sem força moral “rei das mulheres e não rei dos heróis”. A nobre-
Estados Pontifícios, na Sicília, em Nápoles e em Varsóvia. São Clemente foi za da Polônia, outrora tão forte e poderosa, acabara de enfraquecer-se nos
confirmado pelo Superior Geral no campo de Vigário Geral e de representante combates contra a Rússia; a flor da fidalguia polaca sucumbira, em parte, nos
do Reitor-mor para todos os efeitos, além dos Alpes. Clemente, para se tornar combates sangrentos empreendidos em defesa sagrada da Pátria, e em parte,
menos impedido no desempenho de seu cargo, procurou dividir um pouco o sob o ferro desapiedado dos carrascos. Dentre os nobres restaurantes, quase
peso da responsabilidade imediata, nomeando o padre Thadeu Hübl Reitor da todos preferiam comer o pão do exílio e mendigar o sustento longe da Pátria, a
casa e o Pe. Jestersheim ministros do convento. A coisa ia pois desenvolvendo- curvar-se ante o domínio humilhante da Rússia. Entre os poucos nobres, que
se admiravelmente a contento de todos e com a garantia da proteção do Rei se deixaram ficar na Polônia, reinava a mais degradante desunião; porque, en-
que também se dignou de reconhecer, aprovar e admitir em toda a Polônia, de quanto uns se prontificaram a derramar o sangue pela Pátria, outros venderam-
uma vez para sempre, a Congregação dos Redentoristas. se vergonhosamente à Rússia, cuja devassidão procuravam imitar. Infelizmente
também alguns prelados seguiram em tudo a nobreza; os que com heroísmo
cristão se levantaram contra os ataques do cisma russo e da violência do domí-
nio estrangeiro, foram deportados para a Sibéria e outros pontos da Rússia. Os
seus substitutos não passavam de humildes criaturas da imperatriz Catarina e
juntamente com a nobreza degenerada puxavam o carro triunfante da Czarina.
O baixo clero, em grande parte ignorante, deixava-se guiar quase em tudo pe-
los seus prelados. O comércio achava-se todo nas mãos dos judeus, que se
enriqueciam explorando escandalosamente os cristãos enquanto que a indús-
tria pertencia exclusivamente a estrangeiros. Nas guerras de 1764 e 1772 fo-
ram arrasadas aldeias, vilas e cidades inteiras pelos cossacos russos, sendo os
seus habitantes, homens e mulheres, velhos e crianças, trucidados com a mais

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requintada barbaridade. Em última análise todas essas calamidades e misérias mulheres e crianças foram trucidados barbaramente; a nós coube a infelicidade
recaíam sobre os pobres lavradores e operários, oprimindo-os e esmagando- de ser testemunhas dessas cenas horrorosas que se deram em frente da nossa
os. casa à margem do Vistula; graças a Deus nada sofremos dos milhares de ar-
Apesar de tudo isso, o reino conseguiu recolher ainda as últimas forças mas de fogo russas; os tiros passaram por sobre o telhado da igreja e da nossa
para se levantar de tamanha ruína. O próprio rei colocou-se à frente do povo, residência, estando nós sempre em gravíssimo perigo de morte”. Foi nessa
restabelecendo assim a ordem e a tranqüilidade pública. Catarina, que ambici- ocasião que S. Clemente fez o voto de ir em romaria a S. João Nepomuceno em
onava para si a Polônia, não podia ver com bons olhos esse estado de coisas; Praga, se Varsóvia fosse poupada.
sob pretexto de tutelar a ordem expediu para a Polônia os militares que, desde Vinte meses esteve Varsóvia sob o domínio russo, o que lhe foi de grande
a paz com a Turquia em 1792, estavam à disposição da Czarina. Os Polacos, vantagem. O governo verificando serem pequenas as acomodações escolares,
em justa defesa, pediram auxílio em toda a parte, porém debalde; a Saxônia destinadas aos pobres, ofereceu generosamente os meios para a construção
achava-se demasiado enfraquecida, a Áustria estava ainda ocupada com a Fran- de escolas mais espaçosas. O convento de S. Beno foi aumentado e as suas
ça; a Turquia não se restabelecera bastantemente de última guerra; restava necessidades providas pelo governo. Esse estado de coisas, porém, não durou
ainda a Prússia, que anciava por receber um bom pedaço da Polônia depois de muito tempo, pois que em 1796 Varsóvia foi entregue oficialmente à Prússia,
feita a divisão. que lá governou durante dez anos. Os tempos normalizaram-se, mas Varsóvia
No auge do desespero os polacos pegaram em armas, prontos e dispostos decaiu consideravelmente, baixando de 120.000 habitantes a apenas 68.000.
a todas as eventualidades; o rei amedrontado passou vergonhosamente ao lado S. Beno lucrou muito com a chegada dos Prussianos, que viam nos padres
dos russos e o general polaco traiu o seu exército. Cosciusko, o último herói da Redentoristas um reforço do elemento alemão, embora os Redentoristas se
Polônia, com seu exército diminuto embora composto só de heróis, não pôde conservassem sempre neutros, distribuindo seus benefícios indistintamente a
resistir ao número colossal dos soldados russos, e assim em 1793 efetuou-se o alemães e polacos. De um documento daquele tempo temos a seguinte notícia:
segundo desmembramento da pobre Polônia. NO ano seguinte, ao receber-se “Atualmente sustenta o Instituto (de S. Beno) 40 crianças e fornece instrução a
a ordem do desarmamento completo dos polacos organizou-se em Cracóvia 200; esta ramifica-se no ensino do alemão, polaco, latim, religião, história, geo-
um levantamento com Cosciusko à frente; o povo parecia eletrizado pelo entu- grafia, história natural...; os professores são homens de talento”.
siasmo e pela esperança da vitória, porquanto a sorte das armas estava a sor- A atividade espiritual desenvolvida por S. Clemente e seus padres na Igreja
rir-lhe favoravelmente; os russos foram esmagados em Varsóvia, e em geral, de S. Beno excede a qualquer descrição; foi coisa nunca vista na Europa. O
em todos os pontos do país. O ódio e a indignação popular contra os inimigos povo, compreendendo que os Benonitas — assim chamavam os Redentoristas
da Pátria era tal, que em Varsóvia se improvisaram forcas onde pereceram — longe de qualquer pretensão política apenas procuravam a glória de Deus e
todos os grandes amigos dos russos; durante o último combate contra os súdi- o bem das almas, mormente entre a mocidade, escolheu a Igreja de S. Beno
tos da Czarina os polacos penetraram nas prisões e trucidaram os prisioneiros para centro de edificante piedade. Desde o dia do assalto de Varsóvia em 1794
prussianos e russos. Em meados de julho apresentou-se o exército prussiano a igreja começou a apinhar-se de povo, mais de polacos que de alemães, por-
às portas de Varsóvia, onde se travou um sangrento combate, enquanto os que aqueles se deliciavam em ouvir as pregações polacas do Pe. Podgorski,
russos avançaram pelo lado oposto; indignados e exasperados os polacos for- que possuía um exterior angélico e a eloqüência de um João Crisóstomo. O
maram um novo exército para debelá-los, e em um só combate, os russos per- número das comunhões distribuídas é a prova mais evidente e incontestável do
deram 9.000 homens. Em 10 de outubro o próprio Cosciusko comandou em progresso consolador e sempre crescente da vida de piedade na Igreja dos
pessoa o exército polaco, composto de 10.000 heróis; o combate foi tão renhido Benonitas; quando os padres lá chegaram havia 2.000 comunhões anuais, em
que, em seis horas, as forças polacas ficaram reduzidas a 2.000 homens cain- 1800 já houve 100.000. Nas funções religiosas a aglomeração era tanta, que
do 8.000 gloriosamente no campo de batalha; Cosciusko atingido por uma não cabendo na igreja, que comportava só mil pessoas, os fiéis ficavam a rezar
espada inimiga exclamou: Finis Poloniae. O caminho para Varsóvia estava pois no cemitério e ao longo das ruas para ao menos de longe ouvirem missa aos
aberto; em novembro entraram os russos em Praga, que serve de arrabalde a domingos. Com a introdução de novas devoções e exercícios, como novenas,
Varsóvia, em cujas ruas os polacos, homens e mulheres, se defendiam como tríduos etc. não passava um dia sem pregações, missas solenes etc. Isso foi um
leões; mas como o exército inimigo era demasiado grande, a vitória declarou-se sucesso extraordinário, porque Polacos se sentem bem quando as missas e as
a favor dos russos, cujo general Suwarow, indignado e enfurecido, mandou pas- funções religiosas se prolongam por muito tempo e são realizadas com pompa.
sar a fio da espada a população inteira, correndo o sangue em torrentes pelas Em 1800 já todos os moradores de Varsóvia e das imediações conheciam e
ruas da cidade; os que tentaram fugir foram afogados no Vistula. Varsóvia lutou, estimavam a Igreja de S. Beno, onde se pregava uma missão contínua. É o
porém, debalde; a 13 de junho de 1795 passou a ser uma possessão prussiana. próprio S. Clemente quem nos dá a seguinte descrição dos seus trabalhos em
O assédio da cidade pelos russos S. Clemente o descreve a seu Superior Geral: S. Beno: “Aos domingos e dias santos, às 5 horas da manhã há instrução para
“Mal libertados do assédio prussiano presenciamos o dos russos, o qual, em- os operários e empregados, que não podem ouvir, em outra hora, a palavra
bora não demorasse muito, teve um resultado horrível: mais de 16.000 homens, divina, havendo em seguida uma missa para eles; nos dias úteis omite-se essa

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pregação. Todos os dias á uma missa às 6 horas com exposição do Santíssimo, entusiasmo e sem espírito”.
durante o qual o povo canta, havendo em seguida uma instrução ao povo em Para necessidades supremas remédios extraordinários: eis a lógica natural
polaco; durante a instrução celebram-se missas para aqueles que não compre- e simples que organizou a missão contínua de S. Beno. Além disso, era essa
endem alemão nem polaco. Às 8 horas, missa cantada a cantochão com uma também a única missão que se podia pregar naqueles tempos calamitosos. É
pregação em polaco, e logo em seguida uma outra em alemão. Terminada essa necessário notar que, com esses trabalhos múltiplos e constantes, S. Clemente
instrução os meninos da escola vão à igreja, onde começa a missa solene a não se mostrava cruel para seus padres martirizando-os, porque o Santo cuida-
grande orquestra: assim encerra-se o culto da manhã. Depois no meio-dia: aos va sempre para que o serviço fosse bem dividido os diversos sacerdotes da
domingos e dias santos há catecismo para as crianças às 2 horas, às 3 h. as comunidade. O povo, em extremo satisfeito e contente com as solenidades pom-
irmandades cantam o ofício parvo de Nossa Senhora, às 4 h. há pregação para posas e os esforços aturados dos Redentoristas, não hesitava em ofertar o
os alemães, seguida de vésperas solenes; terminadas estas, uma pregação em necessário para o sustento do culto e as despesas da igreja, e São Clemente
polaco e enfim a visita ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora segundo não conhecia limites em sua generosidade em se tratando da glória de Deus e
o método do venerável Servo de Deus, Afonso de Ligório. Nos dias úteis os dos Santos.
exercícios pomeridianos começam só depois da aula. Todos os dias às 5 horas De um modo todo especial fazia o Servo de Deus revestirem-se de soleni-
da tarde há pregação em alemão, visita ao Santíssimo e em seguida outra pre- dade e pompa as procissões do Santíssimo Sacramento, mormente na festa de
gação em polaco, via sacra e cânticos sacros em louvor de Jesus Sacramentado Corpus Christi, em que a Igreja presta publicamente a Jesus as homenagens
e da Santíssima Virgem; rematando tudo faz-se com o povo o exame de consci- de sua gratidão pelos tesouros de graças recebidas da Eucaristia no altar e
ência, rezam-se os atos cristãos, procede-se à leitura da vida do Santo, cuja especialmente na mesa da comunhão. Nesse dia adornava a igreja com as
festa a igreja celebra no dia seguinte, e por fim a ladainha de Nossa Senhora, mais lindas flores que encontrava na cidade, não se preocupando com o preço
findo o que fecha-se a igreja”. Essa era a vida em S. Beno no longo período de delas. Como a procissão só se podia fazer ao redor da igreja, providenciava
dez anos! Cada dia cinco pregações: três em polaco e duas em alemão, aos para que esta e o largo se achassem profusamente ornamentados de luzes e
domingos ainda duas aulas de catecismo; diariamente três missas solenes e flores; doze coroinhas caminhavam com turíbulos fumegando, enquanto que
tantos outros exercícios. E como tudo isso não se fazia para o mesmo público, uma multidão de meninos, adornados de prata e ouro, espargiam flores diante
mas para diversas classes de pessoas que se revezavam, era aquilo uma mis- do Santíssimo; os sacerdotes compareciam paramentados de pluviais
são contínua de dez anos. riquíssimos; sendo o palio, mais suntuoso ainda, carregado pelos seis senhores
Alguns talvez sintam tentação de pensar, ser essa atividade um exagero e mais nobres da cidade; senhoras da mais alta nobreza e até príncipes faziam
quiçá, um abuso. Quem porém conhece o estado deplorável em que se achava questão de trabalhar, cada ano, no adorno do palio no qual pregavam flores e
Varsóvia em matéria de fé e de costumes, certamente se convencerá da grande emblemas, da Eucaristia; só o ouro no palio avaliava-se em 3.000 escudos per-
sabedoria e prudência, que nesse particular guiaram a S. Clemente, cujo dese- to do ostensório formavam a guarda nobre do Santíssimo numerosos rapazes,
jo sincero era a reforma radical e a restauração da sociedade tão decaída. “Es- em cujas vestes reluziam a prata e o ouro, com asas douradas, simbolizando os
cândalos, vícios”, escreve ele, “atingiram aqui o seu auge e é difícil encontrar o querubins que rodeiam o trono do Altíssimo no céu. Na frente da procissão
caminho mais seguro e o modo mais eficaz de melhorar a situação; desde o caminhavam as Associações e Irmandades com seus respectivos estandartes,
clero até o mais miserável mendigo está tudo corrompido; é para se temer que símbolo da vitória de Jesus sobre o mundo, e logo em seguida, centenas de
Deus afaste o candelabro do seu lugar”. virgens, vestidas de branco, empunhando velas acesas e entoando, sem ces-
E S. Clemente não exagerava. Varsóvia possuía mais ou menos o caráter e sar, piedosos hinos a Jesus Sacramentado, enquanto que os sinos de S. Beno,
as qualidades das grandes cidades modernas, a saber: frivolidade a descrença como se quisessem cantar também, faziam ecoar ao longe os sentimentos de
nas altas rodas sociais, e ignorância e imoralidade no povo baixo. Um outro fé e o entusiasmo do povo católico. Atrás de Jesus Sacramentado ia a banda de
escritor, conhecedor profundo daquele tempo, descreve a alta sociedade de música, prestando homenagens ao Rei dos reis, e logo em seguida os milhares
então: “Varsóvia da alta aristocracia, que se revolvia e remexia atrás do carro de fiéis que cantavam e rezavam em voz alta. Terminada a procissão, São Cle-
triunfal da revolução francesa, corroída nas orgias do rei Estanislau pela depra- mente subia ao púlpito e com seu verbo afogueado e empolgante falava do
vação da sensualidade, a Varsóvia de então com seus palácios, com seus adul- amor imenso do Prisioneiro dos nossos tabernáculos. Terminada a alocução do
térios nos salões, com suas profanações do matrimônio pelo dinheiro vil, não Santo o Pe. Blumenau, orador arrebatado, ascendia à tribuna sagrada e discor-
queria saber de Deus nem do bem da Pátria, contanto que lhe fosse dado gozar ria, em polaco, sobre o mesmo assunto, arrancando lágrimas aos ouvintes.
e divertir-se”. S. Clemente ainda supunha pouco o que se fazia então, não pela Com essas solenidades externas queria S. Clemente, além de prestar pu-
falta de sacerdotes e conventos da cidade, que contava 400 padres seculares e blicamente as homenagens de adoração que competem a Jesus, chamar a
15 regulares, mas pela falta de atividade no clero. “Fora da igreja dos Lazaristas atenção do povo e guiá-lo para Deus; “as solenidades públicas”, dizia ele, “atra-
e dos Reformados”, escreve ele, “só se prega uma vez por semana nas outras em por seu esplendor e aos poucos cativam o povo, que ouve mais com os
igrejas de Varsóvia e isso mesmo de modo incompreensível para o povo, sem olhos do que com os ouvidos”.

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No ministério apostólico a coisa principal para S. Clemente não eram essas causa grande impressão nos pequenos”. Depois da aula conduzia as crianças à
exterioridades, mas sim o púlpito e o confessionário; durante as longas soleni- igreja, cantava com elas e rezava algumas das orações que haviam decorado
dades religiosas, tão queridas dos Polacos, os confessionários achavam-se na escola. Assim a teoria unia-se à prática, e mais indelevelmente se imprimia
constantemente assediados de penitentes. De longe, até de vinte léguas de na memória das crianças.
distância, iam pessoas a S. Beno para recuperar a paz do coração e da consci- Maior caridade dedicava às meninas, que corriam perigo de se perderem
ência. No púlpito um dos temas prediletos de S. Clemente, em essas ocasiões devido à grande imoralidade, que campeava livre e soberana na cidade em
extraordinárias, era a sublimidade da fé. Nessas pregações mostrava-se incan- todos os cantos e direções; S. Clemente esmerava-se em preservá-las da se-
sável e inesgotável, realizando à risca as palavras de S. Paulo: praedica verbum, dução por meio da instrução e da piedade. Em 1795 fundou para as meninas
insta opportune et importune (2 Thim. 4, 2). Em S. Beno faziam-se anualmente uma escola profissional a fim de assim habituá-las ao trabalho e garantir-lhes
cerca de duas mil pregações, em que S. Clemente e os seus padres esgota- no futuro a honesta subsistência; para as donzelas mais piedosas e dedicadas
vam, nas duas línguas, todas as verdades do símbolo e do decálogo. formou-se uma Associação com vida comum, dando-lhes uma Regra própria,
Tantos esforços não podiam ficar frustrados e sem resultado; a palavra por ele esboçada; as Associadas receberam o nome de “irmãs de São José”. O
divina, pronunciada por lábios tão santos, devia necessariamente mover os co- fim que as donzelas se propunham nessa nova Instituição era, instruir gratuita-
rações e ilustrar os espíritos. E de fato; o povo de Varsóvia transformou-se com- mente as meninas pobres nos rudimentos das ciências e nos ofícios próprios
pletamente, de sorte que as pessoas, que freqüentavam a Igreja de S. Beno, de sua idade e sexo, e sobretudo educá-las e formá-las para moças piedosas e
começaram a levar uma vida de piedade, que se podia quase chamar uma vida puras. Terminado o tempo da instrução as irmãs procuravam interná-las em
de convento: faziam todos os dias o exame de consciência e a meditação, e por casas de boas famílias. O bem que essas escolas produziam naquele tempo,
ocasião das têmporas recolhiam-se à solidão do retiro espiritual; essas pesso- pode-se perfeitamente deduzir do número de meninas que nelas se educavam
as piedosas, guiadas por tão sábios e prudentes Diretores, tornavam-se após- em Varsóvia: era nada menos de 300 todos os anos.
tolos para os pobres extraviados, não só pelo bom exemplo que davam, mas No tempo em que S. Clemente era ainda estudante em Viena, inscrevera-
sobretudo pelos conselhos, boas palavras que prodigalizavam e pelas orações se na Ordem Terceira de São Francisco, e achava ser essa instituição providen-
que, na Igreja de S. Beno, dirigiam ao céu pela conversão dos pecadores. Des- cial e de magníficos resultados para a conservação da fé e da piedade entre os
sa forma a atividade desenvolvida no tempo por S. Clemente irradiava-se por jovens; procurou fundar também para a sua Congregação uma coisa semelhan-
toda a cidade e até para mais longe com grande proveito de inúmeras almas. A te, e essa idéia ele acalentou desde os primeiros dias da sua chegada em S.
atividade religiosa de Varsóvia ficará sendo sempre o modelo clássico de uma Beno. Aos poucos foi aparecendo a realização desse desejo numa espécie de
paróquia bem organizada nas grandes cidades modernas, onde não é lícito ordem Terceira também para os Redentoristas: eram os Oblatos, entre os quais
cingir-se ao costume patriarcal das aldeias, mas onde os vigários devem ter em se achavam sacerdotes e pessoas virtuosas de ambos os sexos e de todas as
vista as necessidades espirituais não só das classes abastadas, mas também classes sociais. Não viviam juntos, como no convento, mas cada um ficava em
dos operários, dos empregados e em geral de todos os que precisam sacrificar- sua casa, comprometendo-se todos a tomar parte em atos determinados de
se, o dia inteiro, a fim de ganhar o sustento para si e para os seus. vida ascética, v. g. nas meditações diárias, exame de consciência etc. O objetivo
É claro que esses exercícios de piedade dentro do templo não absorviam de S. Clemente, ao instituir a Associação dos Oblatos, era de promover e se-
toda a atividade de S. Clemente; constituíam apenas uns pontos de seu vasto cundar o apostolado leigo, a defesa da Igreja, da fé e da moralidade, bem como
programa, pois que S. Clemente era reformador em grande estilo, de idéias a santificação pessoal dos membros; a essa Instituição de Oblatos deve S. Cle-
largas e vastos horizontes; no momento, porém, não podia fazer muito mais por mente grande parte dos resultados magníficos que conseguiu as simpatias de
fora porque todas as portas lhe estavam fechadas e a sua ação tolhida. Suas muitas famílias, às quais nunca teria podido chegar por outros meios.
vistas e sua atenção achavam-se também voltadas para a escola, para a moci- Como se ainda não bastasse tudo isso, S. Clemente lançou mão de um
dade, para a organização da imprensa etc. De todos esses meios pretendia ele outro apostolado, talvez mais importante ainda: a imprensa. É certo que sempre
servir-se afim de restaurar o reino de Deus nos corações dos homens. se pregava em S. Beno, mas que era pequena a Igreja de S. Beno para poder
A escola, por ele fundada para as crianças pobres, auxiliava poderosa- conter a população da cidade que ultrapassava o número de 128.000 habitan-
mente sua ação pastoral: as meninas e os meninos convertiam-se em apósto- tes? E quantos havia ainda fora de Varsóvia, que não chegavam a ouvir a pala-
los junto de seus parentes; era edificante e comovente ver muitas delas ajoe- vra de Deus e a instruir-se nas verdades da religião! E quantas pessoas instru-
lhar-se diante dos pais, as mãos postas e os olhos, não poucas vezes, banha- ídas em diversos ramos da ciência ficavam privadas da instrução religiosa por
dos em lágrimas, a pedir-lhes que se confessassem, fossem à igreja e ouvis- não quererem no templo ouvir a linguagem desataviada e apostólica, preferindo
sem a palavra de Deus. O método seguido por S. Clemente na educação da entreter-se com as obras melífluas e benesonantes dos jansenistas e
infância, como veremos adiante, era todo dele e ditado por uma fé profunda e enciclopedistas1 franceses com seus palavrões de filantropia, fraternidade, li-
uma experiência de muitos anos. “No princípio das aulas”, dizia ele, “basta que berdade etc.! ou então deliciando-se com as obras perniciosas dos maçons e
se leia, todos os dias, para as crianças alguma pericope do Evangelho, isso “iluminados” da Alemanha, que além de acariciar o orgulho e a sensualidade

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eram escritas em linguagem elegante, poética e atraente, que mais parecia
doce música e delicioso aroma que encantava os leitores e deixava as leitoras
enlouquecidas e apaixonadas, mormente quando nada ainda haviam ouvido de
Deus ou da religião! Eram desse quilate os livros que se espalhavam então em
toda a Europa, passando de mão em mão e enervando com seu doce veneno,
o pobre povo. A S. Clemente não podia passar despercebida a desgraça, sem- CAPÍTULO III
pre crescente, produzida por esses livros perniciosos; compreendendo que do
púlpito não lhe era possível por um dique a esses males, recorreu à imprensa.
Embora não pertencesse ele mesmo ao número dos escritores fecundos, tor-
Viagens de fundação
nou-se o maior propagandista dos livros bons já existentes e o instigador quase
importuno de pessoas competentes, para que publicassem outros livros novos O desejo mais ardente — Mitau — Radzynim — Lutkowka — O Santo em
e instrutivos. De um modo especial dedicou-se em propagar e difundir em toda Praga — Lindau — Em Viena — Morte inesperada — Novo recrutamento —
a parte os livros de S. Afonso de Ligório, que Deus suscitara como um Doutor Novas dificuldades com o governo — A imagem da Virgem.
clássico contra Jansenio e a maçonaria; essas obras obtiveram na Polônia uma
aceitação tal, que bastava constar serem elas da pena de S. Afonso para terem Com o fim de consolidar a obra começada em Varsóvia com tanto benefício
rápida extração. Os Redentoristas de S. Beno tornaram-se heróis da pena por espiritual para as almas S. Clemente não saiu da cidade nos primeiros oito anos
ordem de S. Clemente; o Pe. Thadeu Hübl traduziu para o alemão as obras de S. de seu apostolado na Polônia. Percebendo, porém, que sua presença em Var-
Afonso, que ainda faltavam, e diversas outras obras ascéticas; o Pe. Podgorski sóvia já não era de absoluta necessidade, e vendo, de outro lado, que o número
fez o mesmo para o polaco, enquanto que os padres franceses se dedicaram à de seus padres se aumentava dia a dia, sentiu chegada a hora de expandir o
tradução dessas mesmas obras para o francês. Para facilitar o trabalho da im- seu zelo e de tratar na execução dos seus grandes planos; era tempo de pensar
pressão S. Clemente tentou montar uma máquina tipográfica em ponto peque- em outras fundações para assim levar a graça da conversão a todos os povos.
no, e para a mais rápida difusão dessas obras serviu-se da Congregação S. Clemente não ignorava ser esse o seu dever principal, essa a missão que
mariana, cujos Associados assumiam solene compromisso de trabalhar em Deus lhe confiara, pois que para isso fora mandado ao Norte. Cheio de cora-
benefício da boa imprensa. gem e de confiança em Deus encetou suas grandes viagens pela Europa em
Desejoso de consolidar para sempre o seu trabalho, não hesitou S. Cle- procura de lugares para a querida Congregação, de campos de atividade para
mente e, fundar Associações para todas as classes de pessoas, porém, em seus filhos espirituais; o seu desejo imediato era encontrar uma residência es-
particular para a juventude, porque estava convencido de que baldados são paçosa e vasta para acomodar os noviços, e outra não menor para os estudan-
todos os trabalhos em prol do povo, quando não se ganha para o bem a moci- tes de filosofia e teologia; assim a Congregação poderia desenvolver-se e rami-
dade, de um modo duradouro, e isso com maior razão ainda porque, em geral, ficar-se na Europa para regenerar a sociedade tão decaída, levantar o espírito
a mocidade costuma ser preterida e desprezada por católicos de certa catego- de fé e arrebanhar as almas para o grêmio da Santa Igreja, fora da qual não há
ria e até por sacerdotes, ao passo que os inimigos de Deus não se cansam de salvação. Mas para onde ir? Onde teria ele esperança de ver seus trabalhos
lhe proporcionar, por todas as formas, meios de perversão. Só Deus sabe, a coroados de êxito? Certamente não podia contar com o norte da Alemanha,
quantos jovens de ambos os sexos a Congregação mariana dos rapazes e a com a Inglaterra etc. onde tudo estava eivado de protestantismo; esses países
Associação S. José das donzelas preservaram da corrupção, mormente naque- deveriam ser missionados, porém só mais tarde, quando a Congregação tives-
les tempos em que tudo parecia conspirar para a perversão da mocidade. Mui- se já conseguido firmeza e garantias de existência em outras partes. As suas
tos dentre eles — mormente entre as donzelas — consagraram-se a Deus no vistas dirigiram-se, em primeiro lugar, para os países católicos no sul da Alema-
estado religioso. nha e na Suíça. Deus, porém, em seus planos divinos dispôs que as primeiras
tentativas de fundação se fizessem na Curlândia, para onde já desde o princí-
pio, teria ido Clemente com seu companheiro P. Thadeu Hübl, se o Núncio Apos-
tólico não o tivesse detido em Varsóvia, ainda mais que a Curlândia acabava de
ser incorporada à Rússia em virtude do terceiro desmembramento da Polônia.
No princípio S. Clemente mostrou-se indeciso e um tanto sem vontade de acei-
tar essa fundação, apesar dos pedidos reiterados do bispo da Curlândia, que
lhe punha ante os olhos a grande falta de padres na sua diocese, pois que das
quarenta e duas paróquias alemãs quase todas estavam vagas, enquanto que
nas outras providas os vigários já eram de idade muito avançada. O Superior
Geral, Pe. Blasucci, veio tirar-lhe toda a dúvida mostrando-lhe numa carta ser a

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vontade divina que se fundassem residências no Norte, ainda mais que ele somente para casa a mais viva impressão das necessidades espirituais do povo
esperava da Curlândia inúmeras conversões. São Clemente destacou para essa e o desejo, ainda mais ardente, de socorrer os infelizes. Em uma carta ao Supe-
missão dois padres e um clérigo, que se dirigiram a Mitau, capital da Curlândia, rior Geral escreve: “Entre os católicos do Norte é grande a fome do pão da
e tomaram por residência o antigo convento dos padres jesuítas; poucos anos palavra divina a distribuir-se pelos operários evangélicos; o estado em que se
depois fundou ainda as residências de Radzynim e de Lutkowka, e mais outras acham as igrejas é mais triste do que se possa crer; em toda a parte reina
teria aceito, se não fossem tão maus os tempos, porquanto se achava pronto a incalculável ignorância a respeito das mais importantes verdades da salvação.
fazer o bem onde quer que fosse, mesmo nos países mais longínquos. De Mitau Na Boêmia é tão sensível a falta de sacerdotes, que muitas paróquias estão
não tardaram a chegar as mais consoladoras notícias sobre a atividade dos desprovidas de vigários, os quais, em os dias santificados, devem ir de um lugar
padres e sobre o resultado obtido; os padres conseguiram cativar o povo, que para o outro afim de celebrar a santa missa; os escândalos estão na ordem do
neles depositava inteira confiança; os próprios luteranos, vindos de longe, iam dia e não há quem lhes possa dar remédio; em todos os lados há falta de fé e os
receber a bênção dos missionários. Tudo isso fez com que S. Clemente se com- inimigos da religião difundem os erros da heresia, não havendo que os possa
prometesse, por um contrato, a enviar para lá mais sete padres, contanto que o rebater”.
aumento dos Redentoristas em Varsóvia correspondesse a seus cálculos; de- Na volta de Lindau visitou Viena, que já não vira há mais de nove anos.
sejava que Mitau fosse para o Norte e que S. Beno era para Varsóvia e para a Francisco II, católico fervoroso, inimigo dos “iluminados” governava a Áustria;
Polônia. mas o espírito josefino, que tudo perturbara, dirigia a burocracia; aos bispos
Já em 1792 um nobre cavalheiro fôra da Suíça a Varsóvia para pedir a S. continuava ainda proibida toda e qualquer influência na formação dos teólogos,
Clemente que se dignasse fundar em sua Pátria uma residência, expondo-lhe e nas preleções das universidades ensinavam-se os princípios falsos e heréti-
as belezas da Suíça e mais ainda o abandono em que se achava o povo seden- cos do josefismo. S. Clemente, pois, não podia pensar em fazer tentativas da
to de ouvir, naqueles regiões, a palavra de Deus; por absoluta falta de pessoal fundação na Áustria. Felizmente não faltavam homens de talento, peso e nobre-
teve S. Clemente de indeferir, embora muito contra a vontade, o pedido do no- za que quisessem levantar o espírito da época. Diversos desses sacerdotes
bre senhor; essa oferta, porém, tanto o impressionou que não lhe saiu mais da distintos trabalhavam em Viena para a regeneração religiosa do povo, porém,
lembrança. Três anos mais tarde o convento de Varsóvia contava já maior nú- sempre às ocultas e com medo das perseguições; faziam, entretanto, constan-
mero de religiosos. Um belo dia Clemente, havendo descido do púlpito, dirigia- temente suas conferências pela restauração da fé e empenhavam-se na difu-
se à sacristia a fim de paramentar-se para o santo Sacrifício, quando recebeu são de livros católicos e morais. Nos poucos dias que S. Clemente lá esteve,
de alguém uma carta; terminada a missa pôs-se o Santo a ler a escrita assina- relacionou-se com esses sacerdotes, aumentando assim seus conhecimentos
da por um cônego Lindau na Alemanha, a pedir-lhe que se lembrasse da Suabia e deixando em tão distintos ministros de Deus a mais indelével e a melhor
com a fundação de um convento, e a prometer auxiliá-lo nos primeiros anos. impressão, como veremos mais tarde. Não havia entre eles quem não reconhe-
São Clemente viu nisso o dedo da Providência e alegrou-se com o antegozo da cesse em Clemente um homem superior, pois que de outra forma não se pode-
realização de seus mais lisonjeiros intentos; iria encontrar um convento para ria explicar como um religioso sem nome, sem fortuna, sem distinção de família
seus noviços e assim garantir a existência dos Redentoristas além dos Alpes. S. e sem maiores sucessos conhecidos, pudesse exercer tanta atração e força
Beno teria que sofrer, provisoriamente, com a perda dos padres, dos quais dois sobre aqueles espíritos inteligentes e experimentados da grande Capital.
já tinha ido ao Norte e agora mais quatro sairiam em procura de novas casas, Por Tasswitz, sua cidade natal, dirigiu-se para Varsóvia acompanhado de
pois que também de Constança tinha chegado insistente pedido para uma nova quatro meninos que pediram a admissão no colégio de S. Beno; depois de três
fundação. Os três que deviam ficar em Varsóvia, porém, eram fortes e corajo- meses de ausência São Clemente e Pe. Thadeu Hübl chegaram a Varsóvia em
sos, podendo com facilidade desempenhar-se do serviço da Igreja já bem orga- meados de dezembro.
nizado e consolidado. Clemente toma o bordão do viandante, apronta a sua Entretanto, na Curlândia as coisas não corriam nada bem; o novo governo
pequena mala, e tendo por companheiro o Pe. Thadeu Hübl, diz adeus aos que começava a imiscuir-se nos negócios da Igreja. Os padres podiam, sim, traba-
ficavam, e depois dos paternais conselhos e necessárias recomendações põe- lhar e desenvolver sua atividade, mas a comunicação com os Superiores torna-
se a caminho para a bela Suíça. A Europa achava-se então mais ou menos ra-se-lhes quase impossível. De outro lado, em Roma não compreendiam bem
tranqüila; a França e a Prússia acabavam de entrar em acordo em Basiléia e a as intenções de S. Clemente em seus novos empreendimentos. Fundar casas
Áustria estava já entabolando as negociações para a paz. São Clemente apro- em tantos lugares ao mesmo tempo parecia exagero aos Superiores de Roma,
veitou nessa ocasião o ensejo de cumprir o voto feito a S. João Nepomuceno no que viam, em tudo isto, possível enfado de Varsóvia, ou saudades da Pátria
assédio de Varsóvia. Em Praga permaneceu nove dias em visita ao túmulo do austríaca por parte de Clemente e seus companheiros. Em uma longa carta
grande Taumaturgo e às relíquias dos célebres Santos Padroeiros da cidade: explica São Clemente as suas intenções, manifesta a vontade que sempre nu-
São Norberto, Sta. Ludmila, São Wenceslau e São Vito; de lá dirigiu-se a Lindau trira de morrer, talvez, em Roma junto dos caros confrades, e declara ser o
passando por Ratisbona. As suas esperanças, porém, foram baldadas; não con- desejo do seu coração em todos esses trabalhos, empreendimentos e viagens,
seguiu nada por causa da revolução que acabava de rebentar outra vez; levou abrir novos horizontes para a Congregação. Corrigindo, com alguma ironia, o

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pouco conhecimento de geografia lá em Roma, acrescenta, fazendo alusão às cola a todas as outras”. Tudo parecia correr de vento em popa para os
palavras do Superior Geral, i.é que ele desejava ir à Suíça por amor à Pátria: “A Redentoristas em S. Beno — quando em Berlim nuvens negras se preparavam,
Suíça dista da minha terra mais ou menos como Roma dista da Suíça”. às ocultas, para se precipitar contra o convento de São Clemente. Já em 1796 o
A Suíça pairava-lhe constantemente aos olhos como o país das suas espe- governo proibira a todas as Congregações e Ordens religiosas admitir noviços
ranças; de fato não tardou a vir nesse sentido, mais um convite por intermédio à profissão sem a sua alta licença; três anos mais tarde, em 1799, apareceu
do Embaixador de Varsóvia; São Clemente despachou-o com as melhores es- nova proibição de abraçar a vida religiosa aos jovens que não tivessem ainda
peranças. Preparava-se já para enviar reforço à Curlândia, onde os padres ar- feito o serviço militar, ou que ainda não houvessem completado 24 anos, e isso
cavam sob o peso dos trabalhos apostólicos quando, num só dia, vê morrer três mesmo com a licença do governo; a ninguém era permitido comunicar-se com
de seus padres mais novos e três dias depois o quarto, talvez em conseqüência Roma, sob as mais severas penas; os noviços não podiam usar o hábito religi-
de algum envenenamento. O choque foi tremendo. Ficando a comunidade redu- oso; durante o noviciado em vez de livros de piedade deviam dar-se aos novi-
zida à metade, S. Clemente não podia já pensar na Curlândia e muito menos na ços obras científicas, obrigá-los a compor trechos de literatura em polaco e
Suíça. Deus, porém, não abandonou seu Servo; uma semana antes daquela alemão, e dedicar-se ao estudo da álgebra, geometria, desenho, história natu-
morte inesperada, a Providência mandara-lhe quatro noviços franceses de vas- ral, física, tecnologia e pedagogia teórica e prática; terminado o noviciado, far-
tos e profundos conhecimentos; Passerat, Lenoir, Vannelet e Mercier, que du- se-iam dois exames diante de examinadores protestantes: o primeiro, antes da
rante a revolução havia fugido de sua terra para completar os estudos na Ale- profissão religiosa, o segundo, antes da ordenação que não podia ser feita se-
manha; ao rebentar a guerra de 1795, não se sentindo seguros lá, passaram a não por bispos alemães, quando se tratava de alunos germanos. Para a fiscali-
Varsóvia, onde, depois de breve noviciado na Congregação, fizeram a profissão zação do cumprimento dessa lei constituiu-se, em toda a parte, uma Comissão
religiosa no dia de Sto. Estanislau Kostka. Dentre eles destaca-se o Pe. José de conselheiros; os de Varsóvia professavam todos o protestantismo e tinham
Constantino Passerat que teve um papel sobremaneira saliente na vida do nos- por presidente um homem detestável, inimigo fidalgal dos conventos. Além dis-
so Santo, como veremos mais adiante. Em fins de 1796 S. Beno contava três so o governo proibiu protrair as rezas para além das 18 horas, sendo apenas
padres, catorze clérigos professores, quatro noviços e dois aspirantes. S. Cle- permitido deixar aberta a igreja até às 20 horas, porém só de 1 de maio a 1 de
mente estava satisfeito com a sua comunidade, mormente com o Pe. Passerat, outubro. Isso era naturalmente a morte de S. Beno e da florescente fundação
em quem notara disposição declarada para uma perfeição não comum. redentorista.
Em abril de 1797 Napoleão assinou os preliminares da paz com a Áustria. S. Clemente mandara vir a Varsóvia uma belíssima imagem da Ssma. Vir-
No Sul, pois, o caminho estava aberto: era necessário aproveitar a ocasião. gem, que queria colocar na igreja com a maior solenidade e o maior concurso
Clemente toma, pela segunda vez, o bordão do viandante e parte para o Oeste; do povo. Esse desejo foi considerado um crime; o governo protestou, mandou
as coisas porém tornaram-se ainda piores que dois anos atrás; a revolução chamar o Superior do convento, que não se deixou todavia amedrontar. Consi-
francesa precipitara-se, qual furacão violento, contra o Este ameaçando sub- derando que em coisas de religião nada tinha que perguntar a protestantes,
verter a ordem em toda a Europa. Não sabemos, se São Clemente, desta vez, Clemente esperou, à noite, o povo ausentar-se da igreja, e ocultamente colocou
chegou até a Suíça; o certo é, que ele esteve em Ratisbona em visita ao santo a imagem no lugar preparado; no dia seguinte foi grande o contentamento dos
bispo Wittmann e também na Áustria, onde ainda medrava o josefismo. A Áus- católicos, quando viram a belíssima imagem da Virgem sobre o altar, porém,
tria pôs-se em guerra com Napoleão que marchara da Itália contra Viena. Não não menor a indignação do governo. São Clemente foi citado perante o consistório
era, pois, tempo de fundar conventos. Entretanto a viagem não foi totalmente episcopal protestante, onde relatou o fato sem mais graves conseqüências. O
perdida para ele nem para a Congregação, porque teve outra vez o prazer de Servo de Deus percebeu que as coisas iam de mal a pior e temia, não sem motivo,
visitar sua irmã e as alegres crianças bem como seu irmão em Bratelsbrunn, que o expulsassem da cidade; revestiu-se de toda a prudência e soube tentear os
donde levou seu sobrinho Francisco Hofbauer, que se tornou um santo negócios com tal diplomacia, que nada sucedeu de desagradável à igreja dos
Redentorista, vindo a falecer em Altötting, na Baviera, em 1845. Redentoristas durante todo o tempo, que Varsóvia esteve debaixo do poder prussiano,
São Clemente não deixou de ficar sentido com o fracasso dessa sua se- não deixando, porém, nunca de defender os direitos sacrossantos da Igreja com
gunda excursão, que não teve melhor êxito que a primeira. Como recompensa, franqueza e energia apostólica. Tal modo de vida, porém, não agradava nada a
porém, da boa vontade de seu Servo, quis Deus conceder-lhe as alegrias ino- Clemente, inimigo da guerra, onde nada medra nem prospera; suspirava por um
centes e santas do seu convento. Ao chegar em casa edificou-se com o movi- lugar seguro, onde pudesse ver seus noviços tranqüilos e sossegados; não o en-
mento sempre crescente na igreja; as crianças da escola, cheias de saudades contrando no Norte, lembrou-se da Itália, mas infelizmente lá também a coisa não
do seu benfeitor e pai, rodearam-no e fizeram-lhe festa; a casa de estudos pro- ia bem. Foi necessário curvar-se ante a mão de Deus e adorar os juízos do Eterno.
gredia também admiravelmente, de sorte que até de longe iam estudantes a Nesse interim os padres da Curlândia receberam de Roma a dispensa dos votos.
Varsóvia para se aperfeiçoar na teologia em S. Beno. São Clemente pode es- Antes de encetarmos a narração da terceira viagem de fundação, lancemos
crever a Roma: “O governo prussiano vê com bons olhos os que se dedicam à um olhar para os trabalhos do Santo em Varsóvia nesse lapso de tempo.
educação da mocidade, e por isso muitos nos favorece preferindo a nossa es-

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los desaparecerão”. A pobrezinha corou-se, mas sarou completamente em cor-
po e alma, vindo a exercer, diversas vezes, o cargo de Superiora antes da mor-
te, que só a levou depois de muitos anos de vida religiosa, estando ela em idade
bem avançada.
Os convertidos davam muito trabalho aos padres; atraídos pela beleza da
CAPÍTULO IV música, os protestantes também freqüentavam a igreja dos Redentoristas, e
não poucos se converteram ouvindo os sermões cheios de unção e erudição do
Os anos de 1798 a 1802 nosso Santo. Inúmeros judeus também se apresentaram pedindo o batismo;
antes porém de renascerem pelas águas lustrais eram preparados pelo Pe.
Lenoir, versado em todas as línguas orientais e conhecedor profundo do Talmud.
Os trabalhos do Santo — Uma cura curiosa — Conversões numerosas — Uma ou outra dessas conversões judaicas não eram sinceras, mas sim motiva-
A congregação dos Oblatos — Três missões em regra — Os padres de S. Beno das pelo interesse; os judeus, odiados pelos católicos, deixavam-se batizar para
— Date et dabitur — Isto foi para mim... — O Pe. Passerat — A direção do o aumento da freguesia, continuando todavia em as práticas do judaísmo. É por
Seminário — Escolas paroquiais — Desinteligências e explicações — Os livre isso que algumas vezes S. Clemente dizia a sorrir: “O judeu deveria ser afogado
pensadores em ação — S. Beno hostilizado. nas águas do Vistula logo após o batizado”. As conversões sinceras e duradou-
ras eram tão numerosas, que foi necessário alugar um quarto na casa vizinha,
De 1798 a 1802 S. Beno tinha atingido ao apogeu da grandeza e desenvol- para se ter mais comodidade em instruir todos os que queriam abjurar a here-
vimento. Achando-se em casa, era S. Clemente que tomava sobre si todo o sia.
peso do trabalho; desejava excitar os outros padres ao trabalho apostólico mais Nesse mesmo tempo S. Clemente dedicou-se ao aperfeiçoamento da Con-
pelo exemplo do que por palavras. Verba movent, exempla trahunt. Uma senho- gregação dos Oblatos, que poucos anos antes instituíra, confeccionando os
ra da alta nobreza polaca, quando já avançada em anos, escreveu o seguinte Estatuto que deveriam ser apresentados em Roma à aprovação da Santa Sé.
juízo sobre S. Clemente: “Parece-me ter sempre antes os olhos aquele sacer- Para a propaganda dessa obra santa serviu-se das viagens pela Alemanha,
dote venerando em sua atitude tão nobre e cheia de dignidade, e entretanto tão Suíça, Áustria etc. O número de Oblatos não era grande, porque só se admitiam
simples; ele irradiava sempre alegria ao derredor de si; suas palestras eram pessoas conhecidamente piedosas, almas de virtudes provadas e acrisoladas.
chans não usando nelas palavras rebuscadas, mas traíam sempre a grandeza O noviciado devia durar um ano; a formula de profissão continha juramento de
de espírito e inspiravam imediatamente confiança; seu grande amor para com fidelidade irrevogável à Santa Sé e a promessa de “edificar, quanto possível, o
Jesus Cristo transluzia em todas as suas ações... de seus olhos percebia-se a próximo com bons exemplos, desviá-lo dos princípios subversivos da época,
pureza do seu coração e a paz íntima da sua alma... ele afadigava-se sem difundir o conhecimento da Santa Igreja Romana, implantar os bons costumes,
conhecer descanso”. E realmente S. Clemente era incansável. Não raras vezes, espalhar a leitura de livros bons e piedosos, de escritos segundo o Espírito de
da cozinha onde estava a remediar os poucos conhecimentos culinários do Jesus Cristo, e destruir nos corações o reinado da culpa”. O Oblato recebia um
Irmão Manoel, no caso de alguma visita mais nobre, ia ao confessionário ou, nome e o hábito da Ordem, que ele trazia somente em casa, para se lembrar
tirando o avental, subia do fogão ao púlpito. Era sempre ele que celebrava todos constantemente do seu compromisso; os associados estavam debaixo das or-
os dias a última missa cantada e pregava os sermão principal; por assunto da dens de um Diretor provincial, escolhendo-se um lugar determinado para as
pregação costumava tomar a epístola do último domingo, da qual só explicava reuniões e as conferências. A direção suprema, porém, pertencia ao Vigário
dois ou três versículos, porém com tal clareza que sobre o tema não restava Geral dos Redentoristas.
dúvida alguma por resolver nos ouvintes. Por vezes ele mesmo apostrofava, do Desde 1800 podia S. Clemente dedicar-se às missões propriamente ditas,
púlpito, os alunos da escola e os estudantes para assim manter sempre viva a que são o escopo principal da Congregação Redentorista. Até então as circuns-
atenção; louvava os aplicados e censurava os preguiçosos. Como se vê, era tâncias tão desagradáveis, ocasionadas pelas constantes guerras e revoluções
tudo isso muito familiar. e, não menos, pela má vontade dos governantes, não lhe permitiam pensar
Diversos conventos de religiosas queriam-no para Diretor espiritual, v. g. as nisso; agora parecia viável esse apostolado da palavra. E de fato, em 1801
Beneditinas, Visitandinas, Carmelitas etc. O confessor ordinário dessas últimas foram pregadas três grandes missões: a primeira em uma das matrizes de Var-
era o Pe. Podgorski; às vezes, porém, era necessário que São Clemente, o sóvia e as outras duas em cidades do interior. Estas últimas estiveram ao cargo
próprio Vigário Geral, interviesse no caso. Assim estando uma vez o Pe. Podgorski do Pe. Thadeu Hübl que saiu acompanhado de cinco missionários; uma delas
quase desesperado com os escrúpulos de uma das Irmãs, por nome Josefa, durou quinze dias e a outra trinta, ambas com o mais estupendo resultado: mais
mandou chamar o Vigário Geral, que logo apareceu e citou a Irmã escrupulosa. de onze mil pessoas, em cada uma delas, receberam os santos sacramentos
Vendo-a tão abatida, as faces encovadas e a nervosia estampada no rosto, da confissão e da comunhão. Em uma carta ao Superior Geral, descreve São
disse sorrindo. “A Irmã coma muita galinha e durma bastante, que os escrúpu- Clemente uma dessas missões, acrescentando que o maior adversários da

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missão fora justamente o vigário da paróquia, o qual porém, ao ouvir o primeiro saltar-lhe do corpo, cobriu de injúrias o pobre do padre lançando-lhe em rosto
sermão da tarde, sentiu-se tão comovido que, não podendo já conter-se, diri- que ele não deveria começar coisa alguma, muito menos um orfanato, não ten-
giu-se ao quarto dos missionários, caiu de joelhos a seus pés abraçando-os e do meios para isso. Clemente ouvia tudo aquilo com calma e tranqüilidade; o
chorando sem poder falar durante um quarto de hora. Desde então pregaram- homem porém, na medida que falava, se enchia de cólera e mais se exaltava:
se diversas missões, no sul da Prússia, ao povo ávido de ouvir a palavra divina. esgotado afinal o vasto repertório de palavras injuriosas, enche a boca e escar-
Mesmo então eram as missões apenas uma ocupação secundária devido às ra vergonhosamente no rosto do Santo, o qual com a maior tranqüilidade de
circunstâncias, à grande falta de sacerdotes, à absorção das forças em S. Beno, espírito toma o lenço, passa-o pela face, dizendo em seguida ao homem: “Isto
e a preocupação principal de difundir e consolidar a Congregação Redentorista foi para mim; agora dê alguma coisa para os meus orfãozinhos”. Essa palavra
além dos Alpes. Os grandes oradores que emocionavam o povo e arrancavam tão humilde e tão mansa foi como água na fervura. Não houve entre aqueles
lágrimas às massas, fazendo encher, à cunha, a Igreja de S. Beno, eram os senhores quem não admirasse tão heróica virtude; o próprio senhor, que tanto
padres Podgorski e Blumenau; o Pe. Thadeu Hübl pregava menos, mas era o se enraivecera, sentiu-se comovido, arrependeu-se, pediu perdão e entregou a
mais procurado no confessionário, mormente pelos nobres e pelos prelados; na S. Clemente uma avultada soma para os seus orfãozinhos. A conversão desse
cúria metropolitana de Varsóvia era ele uma autoridade em questões teológi- senhor foi sincera; ele tornou-se um católico fervoroso e um grande benfeitor
cas; dos doze examinadores sinodais era ele o mais temido dos estudantes, dos órfãos e das demais obras caritativas de S. Clemente.
que lhe deram o apelido de “Hobl”, i. é plaina; falava corretamente sete línguas Não pequeno serviço prestava a comunidade o grande Pe. José Passerat;
e para o uso dos seus alunos compôs tratados de lógica e metafísica. O seu os sete anos passados na formação dos noviços foram para ele a escada por
temperamento grave, porém bondoso e serviçal, valeu-lhe o nome “mãe da onde subiu às alturas da perfeição na vida interior; era homem da oração, digno
Congregação”. Em caso de questões com o governo, São Clemente, temendo imitador de seu pai espiritual Santo Afonso com razão intitulado o grande Dou-
seu temperamento sangüíneo e irascível, confiava o negócio à prudência do Pe. tor da Oração, porque ninguém como ele soube inculcar tanto o valor e a neces-
Thadeu Hübl. sidade dela para a salvação. O Pe. Passerat não cessava de fazer de seus
A parte material do convento era administrada pelo Pe. Jestersheim, que, noviços outros tantos mestres da oração. “O primeiro meio, dizia ele, para pro-
como ótimo cantor, regia o coro da Igreja de S. Beno. Por força das circunstân- gredir na perfeição é a oração, o segundo, o terceiro, o quarto, o décimo, o
cias era necessário fazer então as maiores economias. O ministro tinha mão centésimo meio é outra vez a oração”. O Vigário Geral não poucas vezes fê-lo
firme e passava por ser um administrador econômico; era, pois, o homem em dar a seus noviços o mais heróico exemplo de humildade. O seguinte fato é a
seu posto certo — como dizem os ingleses — porque as rendas da casa não prova evidente do espírito de abnegação e humildade que reinava no noviciado
cresciam e a caixa estava quase sempre vazia. Não poucas vezes ele, um tanto de São Beno. Um dia o Pe. Passerat querendo provar a vocação de um de seus
contrariado, chamou a atenção do Vigário Geral, que abria demais as mãos noviços, mandou-lhe conservar-se de joelhos à porta da igreja, do lado de fora,
para beneficiar os pobres; São Clemente, porém, abrandava-o sempre com estas até segunda ordem. Entretanto Passerat esquecendo-se inteiramente de seu
palavras, que bem mostram a confiança ilimitada que depositava na Providên- noviço que tinha sido posto em provação; à noite, achando falta nele, correu à
cia. “Date et dabitur (dar e receber) são duas irmãs”, isto é, se derdes esmolas, igreja e encontrou o pobre noviço ajoelhado como lhe tinha sido mandado des-
recebereis outras, essas irmãs dão-se muito e não querem estar separadas. E de a manhã; Pe. Passerat abraçou-o e pediu-lhe perdão com a maior humilda-
de fato, embora a caixa do convento tivesse estado muitas vezes vazia, a Provi- de. Deus quis purificar seu servo Passerat com grandes provações interiores.
dência nunca deixou de socorrer os Redentoristas de Varsóvia. Em favor dos Era ele um francês nobre e de coração grande; abandonara tudo e queria só
órfãos e dos outros meninos pobres ia ele, em pessoa, pedir esmola de casa viver para Deus, mas o amor da idolatrada Pátria e da família era-lhe uma ver-
em casa, expondo-se a vexames e humilhações de toda a sorte; isso porém ele dadeira tortura. Filho único de sua mãe, que vivia tão distante, tinha saudades
fazia com gosto e santa alegria em espírito de humildade sacrificando-se para o dela e sabia que a progenitora ardia em desejo de vê-lo ao menos uma vez
bem das criancinhas, das quais mais tarde dependeria, em parte, a regenera- antes da morte, mas não conseguiu obter licença, porque a Regra dos
ção social da cidade e a conservação do espírito de fé. Foi numa dessas ocasi- Redentoristas proíbe a todos a visita à casa paterna, a não ser em caso de
ões que ele deu um exemplo admirável de mansidão e paciência. Saiu a esmolar, perigo de vida para o pai ou para a mãe. Pe. Passerat consumou o sacrifício,
quando observou que no balcão de uma casa de negócios reinava extraordiná- curvando-se ao peso da cruz.
ria alegria; vendo tanta gente reunida sentiu-se no direito de esperar copiosa Não obstante todo o esforço de São Clemente em contrário, São Beno
esmola. Se um der, pensava ele, os outros por coleguismo ou outros motivos, continuava ainda a ser a casa dos estudos. Os padres franceses que se distin-
não poderão negar. Devagar entrou e aproximou-se do lado, onde estavam sen- guiam por uma instrução vasta e profunda foram incumbidos da formação inte-
tados muitos senhores que pelo traje pareciam bastante ricos; chegou-se a um lectual dos clérigos. Afim de que os estudantes aprendessem praticamente a
deles e delicadamente pediu uma esmola para os seus órfãos. O homem que aparecer em público e a se desenvolver no exercício da linguagem, São Cle-
estava disposto a tudo, menos a dar esmolas, e que não era nada amigo de mente designava-os, de vez em quando, para diversos ofícios na igreja v. g.
batinas, irritou-se com o pedido, levantou-se espumando de raiva, as veias a explicar as estações da Via Sacra, o Catecismo, o modo de fazer o exame de

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consciência etc. cipar, ou porque as cartas se extraviaram, o que não era coisa rara naqueles
Em 1800 os Redentoristas de S. Beno aceitaram a direção de um seminá- tempos. O Superior Geral, levando em conta e tomando em consideração a
rio de clérigos seculares. Com a supressão da Companhia de Jesus em muitos carta do Pe. Passerat, admoestou o Vigário Geral exigindo sossego e tranqüili-
seminários ficaram desprovidos de professores; eis porque muitos seminaristas dade para a casa dos noviços e dos estudantes, aconselhando apenas duas
de fora iam a Varsóvia para lá continuarem seus estudos; e não poucos dentre pregações por dia em vez das cinco usuais, e lembrando-lhe a proibição de
eles tornaram-se, mais tarde fervorosos Redentoristas. Essa medida extraordi- dirigir escolas, seminários etc. Às explicações de S. Clemente, que na sua carta
nária, tomada por São Clemente, garantiu a subsistência ao convento de S. acentuava a ignorância religiosa do povo, a necessidade das escolas para a
Beno sob o governo da Prússia, que timbrava em proteger todos os que se subsistência da Congregação, o bem espiritual das almas, o desejo e a ância
dedicavam à educação da infância e da mocidade. Também outras ordens reli- do povo por ouvir a palavra divina, bem como a afirmação verdadeira de que os
giosas, como, por exemplo, os Lazaristas2 serviram-se desse estratagema para estudos não eram de modo algum negligenciados, visto serem os alunos
a manutenção do Instituto. redentoristas sempre os primeiros nos exames dos ordinários, pacificaram com-
A instrução na escola dos meninos pobres foi ministrada pelos padres so- pletamente o Superior Geral.
mente nos primeiros anos; mais tarde o Superior Geral entregou esse serviço Diversas desinteligências amarguraram bem o Vigário Geral, cujas inten-
aos estudantes que pediam admissão na Congregação. São Clemente consi- ções eram, sem dúvida, as melhores possíveis. Deus permitiu esses dissabo-
derava essas escolas não só como uma obra de caridade para com os pobres, res para mais o conservar na humildade e para acrisolar a sua virtude. Não há
mas como um dos melhores meios de apostolado; e de fato na cidade de Varsó- dúvida de que bem grande era o perigo de uma cisão e separação do ramo
via nada menos de 700 crianças a saber 400 meninos e 300 meninas, recebiam transalpino da Congregação, e se S. Clemente não tivesse sido um Superior de
sempre instrução e educação religiosa nessas escolas, preservando-se assim alta envergadura, tão prudente e tão afeiçoado à sua querida Congregação,
da corrupção geral que campeava impune na grande cidade; durante a estada talvez fosse inevitável esse desfecho. Apesar da troca de cartas menos amisto-
relativamente curta dos padres Redentoristas em Varsóvia nada menos de onze sas tanto de Roma como de S. Beno, não nos é lícito concluir que tenha havido
mil crianças passaram por essas escolas. Os prédios em que funcionavam as estremecimento entre esses dois ramos vigorosos da Congregação Redentorista.
escolas eram naturalmente bem primitivos, sem luxo e sem as comodidades Ninguém poderá estranhar que o Superior Geral, obedecendo a um dever sa-
que se requerem geralmente em semelhantes estabelecimentos; as paredes grado, tenha tentado tudo para impedir qualquer transformação essencial e con-
eram, em grande parte, de madeira. Isso porém não estranha porque o próprio trária à Regra nos conventos além dos Alpes. Se o Pe. Blasucci, Superior Geral,
convento dos padres era pobre e mais que modesto, o Vigário Geral e o Reitor não se achasse já enfraquecido pela idade e se os tempos calamitosos e incer-
da casa, residiam no mesmo quarto por falta de acomodações. tos de então o permitissem, certamente o representante do Santo Fundador
É certo que Varsóvia nunca fora lugar apto para casa de noviços e estudan- atravessaria os Alpes e iria em pessoa regularizar tudo segundo os seus dese-
tes; São Clemente era o primeiro a reconhecê-lo, mas a necessidade o cons- jos. Os padres da Itália interessavam-se vivamente pela Congregação transalpina
trangia. Quem acreditara, que Deus se serviria dessa circunstância para humi- e não poucas vezes se lembravam dela enviando saudações e cartas aos pa-
lhar seu Servo e fazê-lo passar por momentos bem amargos! dres de São Beno. Assim, p. ex. escreve o Pe. Tannoia de Pagani ao Santo:
Nem todos os Redentoristas de Varsóvia estavam inteiramente de acordo “Quem nos dera asas para voarmos até ai e vos darmos o amplexo do nosso
com a atividade extraordinária e estafante, que nos primeiros anos de desen- amor e fraternidade!” Esse grande biógrafo de Santo Afonso, acrescentou a
volveu em S. Beno. — Os padres Passerat e Vannelet, almas dadas à contem- essa biografia interessantes notícias sobre as casas de Varsóvia e Mitau: isso
plação e ao recolhimento, não deixaram de estranhar esse moto contínuo na mostra o interesse com que os padres italianos acompanhavam o desenrolar
igreja e no convento, com o que achavam incompatível a observância da Regra da grande atividade apostólica dos Redentoristas, súditos do nosso Santo além
que manda o recolhimento de espírito. Como bons religiosos e santos sacerdo- dos Alpes.
tes julgaram-se em consciência obrigados a relatar tudo ao Superior Geral em Teria sido realmente um verdadeiro desastre se S. Clemente, por causa
Roma. Monsenhor Litta, Núncio apostólico, ao voltar de S. Petesburgo a Roma, dessas desinteligências tivesse abandonado a “missão continuada” de S. Beno.
levou a carta de Passerat; embora o Núncio fosse um acérrimo e eloqüente Ninguém podia desconhecer o grande bem que ela operava entre o povo e em
defensor da atividade de São Clemente, o Superior Geral esteve mais propenso todas as rodas e classes da população. Isto era mais uma prova de que S.
ao Pe. Passerat do que a Litta. Os trabalhos de Varsóvia eram realmente exage- Clemente não seguia apenas um capricho qualquer, mas que tinha em vista tão
rados e contrários aos princípios na Congregação nas casas da Itália. O Capítu- somente a maior glória de Deus e o bem das almas. É ele mesmo quem decla-
lo Geral reunido em 1793 para a união das duas partes da Congregação, aboliu rou uma vez, que após os dez anos de trabalhos em Varsóvia lá se formou um
as permissões e resoluções de Scifelli que outorgara carta branca a São Cle- número bem considerável de católicos, de ambos os sexos, que poderiam fazer
mente no Norte, proibiu as escolas, os colégios e semelhantes trabalhos por honra aos cristãos do primeiro século da cristandade pelo brilho de todas as
serem contrários à letra e ao espírito da Regra; Clemente porém nada ouvira virtudes.
desse Capítulo, ou porque os Superiores de Roma se esqueceram de lho parti- A prova mais evidente da conversão radical de muitos e da difusão cons-

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tante do espírito haurido na Igreja de S. Beno, é o combate sempre crescente aqueles exageravam na honra e estes no desprezo”.
que contra os Redentoristas faziam os livre pensadores de Varsóvia, que se A ação do governo prejudicou muito a atividade pastoral de S. Clemente,
sentiam seriamente ameaçados em seu governo absoluto sobre a cidade. Luz mas o ódio dos livre pensadores incentivou ainda mais a coragem do Servo de
sobre a situação de então lança uma carta escrita por um oficial a seu amigo: Deus e o seu desejo de combater o erro e de alcançar a vitória das almas, que
“Imagine... há aqui uma Ordem, os Benonitas, quase todos alemães, que não quisera depositar aos pés do Redentor. Os olhos fitos no céu aceitou tudo aqui-
obstante a grande aversão que todos da cidade sentem contra os germanos, lo com calma e santo heroísmo, desprezando o desprezo contanto que Deus
têm conseguido com argúcia jesuítica fazer com que o povo os estime mais do fosse glorificado e a sua querida Congregação se consolidasse no Norte. O que
que aos próprios sacerdotes nacionais, e esteja pronto a se deixar trucidar por mais o afligia era ver que também no clero encontrava inimigos, que se obstina-
eles. É certo que são trabalhadores, enquanto que alguns sacerdotes polacos vam em não querer compreender as suas melhores intenções; isso ele mesmo
são preguiçosos; são instruídos ao passo que os polacos são uns idiotas que dá a entender em uma carta ao Núncio de Viena a 9 de maio de 1802. Em
andam sempre bêbados; eles sabem prender o povo conservando a igreja aberta tantos apuros e dificuldades não tinha o Santo a quem se dirigir, a nenhum dos
das 6 horas da manhã às 9 da noite, cantando, pregando, incensando... possu- sacerdotes seculares de então atrevia-se a abrir o coração ou pedir conselho. O
em uma multidão de Irmandades de homens e de mulheres, tirados da mais seu único amigo e confidente era um ex-jesuíta, homem de merecimento e
baixa camada popular, e servem-se das confissões para terem maior influên- peso que outrora, como membro da Companhia, missionara a Pomerânia, a
cia... eu quisera oferecer 100 ducados a quem quebrasse o Crucifixo de S. Rússia, a Lituânia e a Polônia — e também a este quis Deus chamar para si,
Beno nas costas desses padrecos”. Quem isso escreveu foi o célebre Zacharias quando na idade de noventa anos, atacado de um colapso, expirou ao rezar a
Werner, que dez anos depois deveria tornar-se um dos maiores e mais sinceros ladainha de todos os santos no segundo dia das Rogações. Os outros amigos
amigos de S. Clemente em Viena. do Santo estavam longe, em Viena. Deus, aos poucos, ia rompendo os laços
Em 1800 S. Clemente mesmo escreve: “Os jacobinos espalham contra nós que o prendiam a Varsóvia e preparava sua ida a Viena, cujo Núncio Severoli
toda a sorte de invencionices injustas, somos escarnecidos nos teatros públi- muito o desejava.
cos, o próprio clero está contra nós, exceto o bispo e alguns cônegos, somos
publicamente ameaçados com a forca”. Os inimigos usaram contra os
Redentoristas todos os meios vis de combate, de que se costumam servir con-
tra as Ordens religiosas em geral: escárnio, calúnia, ameaças. S. Beno foi apre-
sentado por eles ao público como uma fonte de desordens e abusos para toda
a cidade, como se os Redentoristas disseminassem a discórdia nas famílias;
negligenciassem os deveres domésticos, roubassem as alfaias preciosas da
igreja, enviassem ladrões para expoliarem os bens da igreja etc. etc. Em plena
rua eram os padres escarnecidos e, à tarde, muitas vezes esperados por pes-
soas armadas de chicotes nas diversas esquinas, por onde tinham de passar.
Nos dias do carnaval os Benonitas eram a fantasia predileta dos rapazes, que
se vestiam dos paramentos litúrgicos para se tornarem mais engraçados. Os
mais abjetos e indignos panfletos eram contra eles espalhados entre o povo. O
alvo principal dos seus esforços resumia-se na desmoralização completa dos
padres junto ao governo, para assim mais desimpedidos e com mais facilidade
golpear de morte a atividade apostólica que tanto os incomodava. E de fato, o
governo recebeu as mais execráveis acusações contra eles que foram apresen-
tados, não só como perturbadores da ordem pública e da paz, mas também
como transgressores da moral e instigadores de revoltas políticas. Ora todas
essas acusações e vis calúnias caiam necessariamente sobre São Clemente
que era a alma de todo aquele movimento de São Beno, e por isso mesmo o
alvo predileto do ódio dos sectários e das nefandas calúnias. Se uns o venera-
vam a ponto de lhe beijarem a barra da batina e os vestígios dos pés, outros
consagravam-lhe o mais entranhável ódio, como a um fanático, não poupando
paus e pedras nem coisa alguma que o pudesse molestar. Mais tarde olhando
retrospectivamente para esses acontecimentos de Varsóvia dizia ele: Uns pros-
travam-se diante de mim, para me beijar os pés, outros me cobriam de lama;

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a fundação, ainda mais que Jestetten se achava na divisa de quatro países:
Baden, Suíça, Württemberg e Áustria. De Jestetten esperava poder entrar um
dia na Alemanha, e enquanto isso não se realizasse, teriam os seus padres um
campo de trabalho inteiramente novo, onde poderiam pregar as mais
consoladoras missões. Sem mais detença escreveu a Constança pedindo auto-
CAPÍTULO V rização para fundar o convento e chamou de Varsóvia o Pe. José Passerat, a
quem nomeou Reitor de Jestetten. Nessa nomeação mostrou o Vigário Geral
Na diocese da Constância admirável tato de governo. — Pe. Passerat amigo da pobreza e da abnegação
própria, era o homem para aquela fundação, sobre a qual com o seu espírito de
oração e de sacrifício atrairia as mais copiosas bênçãos do céu. Entretanto São
Em Altötting — Monte Tabor — Pe. Passerat Reitor — Ordenação dos clé- Clemente e o Pe. Thadeu puseram mãos à obra para a restauração da casa e a
rigos na Itália — As necessidades do novo convento — Clemente em Jestetten acomodação do convento. Ao chegar o Pe. Passerat com seus estudantes en-
— O rico cardápio — Triberg, santuário da Virgem — Uma noite no paiol — controu a casa mais ou menos em condições de recebê-lo e de agasalhar os
Recepção em Triberg — Reanimação da vida de piedade — Raiva do demônio bons clérigos.
— Triberg abandonada. São Clemente não se demorou muito em Jestetten; levando consigo o Pe.
Passerat foi a Joinville na Champagne a ver, se poderia fundar na França algum
Em fins de 1802 São Clemente deixou Varsóvia pela terceira vez, em pro- convento de Redentoristas, pois que a duquesa de Angoulême, filha de Luiz
cura de algum lugar, onde pudesse estabelecer definitivamente a sua Congre- XVI, lhe tinha dado as mais belas esperanças, quando se achava em Mitau com
gação na Alemanha; tinha tanta convicção de que conseguiria realizar o seu os Redentoristas. Infelizmente não lhe foi possível realizar esse grande plano
desejo ardente nessa viagem, que tomou consigo o Pe. Thadeu Hübl, embora por a França se achar em guerra naquela ocasião.
este parecesse indispensável ao serviço espiritual de Varsóvia e ao andamento Acompanhado do Pe. Thadeu e de três clérigos S. Clemente atravessou os
das obras da Igreja de S. Beno. Com essa viagem S. Clemente despedia-se Alpes e foi a Itália para lá conseguir a ordenação dos três teólogos e tratar
propriamente da Polônia, porque embora tenha ainda voltado duas vezes a pessoalmente com o Superior Geral de negócios importantes da Congregação.
Varsóvia, só o fez por circunstâncias imprevistas — e na opinião do Santo es- Essa medida era de necessidade em virtude da nova lei que acabou de ser
sas visitas deviam ser brevíssimas e apressadas. Isso não era indício nem pro- promulgada pelo governo. Os clérigos não podiam ser ordenados em Varsóvia
va de aversão que talvez sentisse para com a Polônia, que ele amava como sua porque pela lei só se ordenavam lá os súditos alemães nascidos na Prússia; em
segunda Pátria, cuja língua conhecia a fundo, cuja sorte infeliz lhe traspassava Constança tampouco era-lhes possível receber as ordens sacras porque o Vi-
o coração. São Clemente convencera-se de que sua Congregação não poderia gário Geral Wessenberg, que governava a diocese em nome de Dalberg, não
ter verdadeira garantia de subsistência para o futuro no Norte da Europa, en- era ainda nem sacerdote. Deixando os clérigos em Spello perto de Foligno,
quanto não lançasse raízes em algum pedaço do território alemão. continuou a viagem com o Pe. Hübl até Roma, onde foi recebido em audiência
São Clemente e o Pe. Thadeu vestem a batina dos sacerdotes seculares — pelo Papa Pio VII, que o Servo de Deus bem conhecia — era o antigo bispo de
naquele tempo não era permitido de viajar de outra forma — e a pé vão de Tívoli que, anos atrás, lhe dera o hábito de ermitão e lhe mudara o nome de
Varsóvia até a Alemanha não receando a distância nem temendo os perigos João para Clemente; o papa ouviu-o com benevolência, aprovou oralmente os
provenientes das constantes revoluções e guerras, mas confiando somente na Estatutos da Congregação dos Oblatos, concedendo-lhe muitos privilégios. Não
proteção do céu. Levou consigo também o clérigo Sabelli, passou por Viena, foi lhe foi possível avançar até Nápoles e Nocera, onde teria tido o prazer de cele-
a Baviera onde se deteve, um dia, no santuário de Nossa Senhora de Altötting, brar sobre o túmulo do Santo Fundador; prometeu porém ao Superior Geral
erigido por S. Roberto, seu primeiro bispo, a mais de mil anos. Depois de desa- voltar no ano seguinte. Essa promessa porém S. Clemente não realizaria mais
bafar o seu coração ante a imagem milagrosa da Virgem, recomendando-lhe em sua vida, não obstante ter sido grande e ardente o desejo de cumpri-la.
com fervor a sua pessoa e o feliz êxito das suas pesquisas para o bem da Ordenados a 23 de outubro, os neo-presbíteros celebraram a primeira missa no
Congregação, sem jamais sonhar que aquele mesmo Santuário, um dia, seria dia seguinte, e nessa mesma manhã puseram-se a caminho de volta para o
confiado aos cuidados dos seus filhos espirituais, continuou a viagem até Monte Tabor onde chegaram sãos e salvos. São Clemente demorou-se ainda
Jestetten, onde perguntou pelo Monte Tabor, que lhe fora oferecido pelo prínci- sete dias no novo convento para pôr em ordem os negócios das Irmãs, que lá
pe Schwarzenberg. A nova morada eram as ruínas de um antigo castelo, quase havia; depois disso voltou para Varsóvia com o Pe. Thadeu Hübl.
sem telhado e com as paredes encostadas. São Clemente compreendeu que a Mal haviam decorrido uns meses após a saída de São Clemente, quando
pobreza e a miséria seriam ali companheiras de seus filhos; mas lembrando-se cartas e mais cartas apareceram em Varsóvia, nas quais o Pe. Passerat expu-
de Varsóvia, cujo convento no princípio se achava em idênticas condições e que nha ao Vigário Geral as duras necessidades por que passava a nova comunida-
ele, com poucos vinténs no bolso, conseguiu levantar, criou coragem e aceitou de de Jestetten pela falta absoluta do mais indispensável; não havia recursos

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de qualidade alguma. O coração bondoso de Clemente ao ler aquelas notícias, existe uma cidade chamada Triberg, célebre por uma imagem milagrosa da
dadas pelo santo Pe. Passerat, que não era capaz de exageros, sentiu-se co- Virgem cuja história é a seguinte: A pouca distância da cidade havia um pinhei-
movido. As necessidades materiais dos seus padres em Jestetten traspassa- ro à beira da estrada. Aconteceu que um dos muitos transeuntes, para excitar
ram-lhe a alma; ele, o homem forte, chorou de compaixão; as lágrimas rolaram- pensamentos de piedade nos que passavam, abriu no pinheiro uma cavidade,
lhe pelas faces como que para apagarem aquelas novas, contidas nas cartas e onde colocou uma pequena imagem de Maria Santíssima, com a frente voltada
tão tristes ao seu coração. Como bom Superior obrigado a olhar para seus para uma fonte límpida que brotava de um rochedo não muito distante. A ima-
súditos, não hesitou em tomar outra vez o bordão do peregrino para fazer nova- gem não tardou a ser conhecida por todos, e havendo um conhecido morfético
mente, a pé, a caminhada de 300 horas até o Monte Tabor afim de levar auxílio recuperado miraculosamente a saúde somente por se ter banhado nas águas
a seus caros filhos; tomou consigo um estudante de Varsóvia, que desejava ser da fonte, a devoção à Virgem do Pinheiro começou a aumentar-se até atingir as
redentorista e, passando por Dresden, Augsburgo e Constança onde tinha ne- proporções do entusiasmo. Com o tempo porém a devoção arrefeceu e a ima-
gócios de urgência, chegou a Tabor a 21 de setembro. Até a primavera do ano gem da Virgem caiu no esquecimento. Depois de receber as homenagens do
seguinte permaneceu lá a compartilhar com os seus súditos as agruras de uma povo, fez a Virgem por diversas vezes, ouvirem-se no bosque doces e suaves
vida de privações e pobreza. O edifício, que tinha em vista de comprar, não o melodias que ecoavam pelos arredores. Três soldados atraídos por aquelas
pôde obter. A comunidade crescia entretanto dia a dia; naquela data lá se acha- vozes misteriosas foram ao bosque, ajeitaram o nicho da Virgem e a romaria
vam seis padres, quatro irmãos, nove noviços e diversos estudantes; estes dor- recomeçou com tanto fervor, que foi mister derrubar o pinheiro e levantar um
miam no sótão da igreja; como nos cinco quartos, de que se compunha a resi- templo, um santuário que pudesse conter as massas. Nada menos de 153.000
dência inteira, a comunidade não encontrassem acomodação suficiente, os seis pessoas recebiam lá anualmente os santos sacramentos da confissão e comu-
padres e os três teólogos dormiam nas mansardas da casa, enquanto que os nhão. Com o fim de facilitar ao povo o exercício das suas devoções, construiu-
noviços e os irmãos leigos iam procurar o descanso dentro de uma torre no se perto do templo um espaçoso prédio com acomodações para quinze sacer-
jardim; por uma pequena escada de mão subiam até em cima e ficavam, a dotes, e assim Triberg tornou-se um dos mais célebres santuários da zona;
noite, expostos ao vento, à neve e em geral a todas as inclemências do tempo. príncipes e princesas não excetuando o próprio imperador José I, iam, repeti-
Para defender os padres do rigor do inverno, havia apenas uma estufa no salão das vezes, a Triberg cumprir seus votos e homenagear a Rainha do universo.
que servia simultaneamente de sala de recreio e de estudos; de acordo com a No decorrer dos tempos esfriou um tanto a devoção; as guerras quase contínu-
habitação, a comida era também pouca e insuficiente; não se tomava café o ano as e os princípios falsos do racionalismo começaram a infiltrar a descrença nos
inteiro, o almoço consistia num prato de sopa e noutro de legumes com um corações, de sorte que o Santuário já não era quase visitado. Além disso o
pedacinho de carne, que não aparecia na mesa às quartas e sextas-feiras e cuidado do santuário foi confiado a sacerdotes idosos, que não davam bons
aos sábados: o jantar era o ano todo o mesmo, isto é: sopa e batatas; a única exemplos em sua vida particular. Os moradores de Triberg, ouvindo que em
bebida era a água da cisterna, exceto aos domingos e quintas-feiras em que Jestetten havia sacerdotes sérios, animados de zelo, foram ter com o arquiduque
aparecia à mesa um pequeno copo de vinho azedo. S. Clemente porém não se Fernando de Modena a quem pertencia Triberg, e instaram com ele para que
espantava com tão pouco; com prazer compartilhava essas privações e com o conseguisse padres como os de Jestetten para diretores do Santuário. O
exemplo e santas palavras animava a todos os seus, que esquecidos dos efei- arquiduque prometeu gostosamente realizar os desejos de seus súditos e che-
tos daquela pobreza extrema, sentiam-se felizes por estarem debaixo da dire- gou até oferecer 960 escudos para três padres de Jestetten, que quisessem
ção de um Superior tão santo e sábio; era edificante vê-lo, não poucas vezes, a encarregar-se da administração e direção do Santuário. Os moradores de Triberg,
enxada na mão, ir ao campo com seus confrades passando horas e horas na- satisfeitos com a decisão do arquiduque e a licença concedida, foram expor a
quele trabalho penoso e rude. Felizmente, como atesta o próprio S. Clemente, súplica também a S. Clemente, a quem fizeram ver as grandes dificuldades com
com aquele estado miserável das finanças reinava no convento o genuíno espí- que se achavam, o desejo ardente do povo e a promessa do arquiduque. S.
rito religioso: era o entusiasmo natural que costuma apoderar-se de gente nova Clemente depois de uma breve viagem a Lucerna, aonde levou dois clérigos
nas recentes fundações. Todos os domingos e dias santificados pregava Cle- para serem ordenados pelo Núncio Testaferrata que lá se achava, partiu para
mente em Jestetten, como o fazia em Varsóvia, e o povo acudia de todos os Triberg com quatro padres e alguns estudantes. Embora o tempo ameaçasse
lados. São Clemente em seu grande zelo apostólico instruía todos nas verda- muita chuva, S. Clemente não teve receio, partiu; não tardou porém a desabar
des da religião e não cessava de convidá-los à confissão e à santa comunhão uma chuva torrencial que molhou os nossos caminhantes até a medula dos
— e os católicos obedeceram afinal às instâncias do Santo e grande movimento ossos. Depois de marcharem umas doze horas sentiram-se cansados, além
religioso desenvolveu-se na Capela dos Redentoristas de Jestetten. O tempo disso a escuridão da noite chuvosa não lhes permitia ir adiante. A beira da
que restava das pregações, audição de confissões e despacho da grande cor- estrada viu S. Clemente uma casa e perto dela um paiol e uma estrebaria,
respondência epistolar, S. Clemente o empregava na oração e em outros exer- entrou na casa e adiantando-se para o dono pediu-lhe um pouso para aquele
cícios de piedade. noite. O pobre do homem vendo os padres, inteiramente molhados e ouvindo o
Deus quis recompensar seu Servo. Umas oito léguas distante de Jestetten pedido de S. Clemente ficou perplexo sem saber como sair do embaraço: ele

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era pobre, não possuía casa digna de hospedar pessoas tão distintas como santuários, afirmando serem os Redentoristas, em Triberg, uns fanáticos sem
aquelas que o apostrofavam, gostaria de oferecer tudo, mas não tinha o que prudência e sem ciência, que alucinavam o povo enlouquecendo-o. Wessenberg,
dar. — O nosso Santo compreendeu logo o motivo da perplexidade do homem que, embora vigário geral da diocese, era um dos “iluminados” e maçons, jurou
e sem mais rodeios lhe disse: “Diga a sua mulher que nos prepare uma sopa; perder aqueles sacerdotes ignorantes, fanáticos e carolas, e suspendeu imedi-
para o sono temos o paiol e isso basta”. O dono mais atônito ainda diante de atamente do uso de ordens dos dois sacerdotes novos que tinham chegado de
tanta modéstia e humildade, agradeceu a Deus tê-lo honrado com a visita de Jestetten, pelo simples motivo de terem sido ordenados pelo Núncio Apostólico,
tão santos sacerdotes. Aos cansados caminhantes apeteceu a pobre sopa mais não se lembrando que os Redentoristas têm um privilégio papal que lhes dá o
do que se tivessem, em outras ocasiões, saboreado um bocado de paca ou direito de receber a ordenação das mãos de qualquer prelado amigo, e que ele
qualquer outra iguaria preciosa. Na manhã seguinte tiveram de vestir a batina próprio — Wessenberg, por não ser ainda nem sacerdote, não podia conferir
ainda molhada; não deixaram porém de escapar de seus lábios nenhuma pala- essas ordens a ninguém. Aos outros padres mandou intimação a que se sub-
vra de queixa, porquanto viam ser o Superior o primeiro a fazer com alegria metessem a um exame de teologia. Como os examinadores eram também “ilu-
aquele ato de mortificação. minados”, cuja moral não se pautava pelos princípios do Evangelho mas sim
Algumas horas depois chegaram a Triberg, cuja população os recebeu pelos enciclopedistas franceses, e protestantes alemães, reprovaram S. Cle-
jubilosa. Repicaram os sinos solenemente como nos dias de grande festa, o mente e seus companheiros, declarando-os incapazes de fazer as pregações e
povo acorreu em multidão e assim entraram os novos padres no Santuário para de ouvir as confissões dos fiéis.
a missa cantada. Terminadas as cerimônias da igreja, o povo levou-os à resi- São Clemente viu, mais uma vez, ruírem suas esperanças e, o coração a
dência, casa espaçosa e bem construída de dois andares; o andar superior sangrar, teve de deixar aquele excelente povo de Triberg sem pastores, entre-
ficou reservado aos sacerdotes, encarregados do governo do Santuário, en- gue a dois sacerdotes contaminados pelo espírito da época, sem vontade nem
quanto que o primeiro andar e a rez do chão foram entregues aos Redentoristas. intenção de lhe mostrarem a vereda da virtude e o caminho do céu. Não tinha a
Poucos dias depois da chegada dos padres celebrava a Igreja a festa da Ascen- quem recorrer, porquanto o nobre arquiduque Fernando de Modena, na paz de
são do Senhor; o templo encheu-se de povo ávido por ouvir a palavra de Deus Pressburg em 1805 fora despojado de todos os seus bens e domínios que pas-
em sua simplicidade e verdade. Era a repetição daquelas cenas emocionantes saram primeiro a Württemberg e depois a Baden, cujo grão-duque era protes-
da Palestina em que as multidões se agrupavam ao redor de Jesus, pendentes tante. De nada valeu uma deputação do povo a Carlsruhe, pedindo que os pa-
dos lábios divinos, a beberem em largos tragos a água da doutrina sagrada. dres continuassem em Triberg. S. Clemente curvou-se resignado ante a mão
Desde esse dia não faltaram pregações em Triberg, aos domingos e dias santi- poderosa do Eterno que o feria em suas mais belas esperanças, mas não per-
ficados; os confessionários, em que as almas se purificam das suas manchas deu o ânimo. Sabia que quem confia no Senhor, não será confundido eterna-
recebendo conselhos salutares para o seu progresso na virtude, começaram a mente. Aos seus ouvidos soavam as palavras de Jesus: “Orai pelos que vos
ser freqüentados pelas massas, que se comoviam com as pregações dos zelo- perseguem e caluniam”, e ele perdoando de coração a Wessenberg e aos sa-
sos apóstolos do bem. Aos poucos a alegre nova difundiu-se por toda a redon- cerdotes que o perseguiam, rezou por eles, e sacudindo o pó dos seus sapatos
deza, de sorte que os romeiros recomeçaram suas peregrinações a Triberg, retirou-se com toda a comunidade.
não só em cumprimento das promessas feitas, mas também com o fim de se
instruírem nas verdades da religião, receberem os santos sacramentos da con-
fissão e comunhão, e assim deixarem a vida do pecado para a da graça. O
templo em pouco tempo se restaurou completamente, porque S. Clemente não
conhecia economias quando se tratava da glória de Deus ou da Santíssima
Virgem. O povo, que tudo observa e comenta, dava a Clemente o nome de
“Padre santo” e tinha razão para isso.
Todos achavam-se satisfeitos, menos o demônio que não podia ver com
bons olhos o desenvolvimento sempre crescente do Santuário, que se tinha
tornado um oásis abençoado de fé e inocência no meio do deserto tremendo do
indiferentismo e da incredulidade daqueles tempos. Para instrumentos da sua
cólera tomou os sacerdotes idosos que lá residiam e que não davam, infeliz-
mente, o melhor exemplo ao povo; excitou o ciúme nos seus corações bem
como nos dos sacerdotes circunvizinhos que começaram a maquinar, às ocul-
tas e também às claras, a expulsão dos Padres Redentoristas por meio de calú-
nias e intrigas; escreveram à cúria eclesiástica de Constança, a Wessenberg,
que infelizmente havia bebido o espírito do tempo e era inimigo declarado dos

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um imperador; um ano depois de Clemente faleceu Napoleão e teve o sepulta-
mento de um mendigo. São desígnios da Providência!
Depois de recebido amavelmente pelo bispo, volta a Babenhausen para
tratar com o príncipe Fugger da fundação da nova residência. De caminho um
soldado avança contra ele, e prevendo que Clemente não levava dinheiro consi-
CAPÍTULO VI go, puxa da espada, aponta-lhe o peito e diz: “O manto ou a vida”. Sem o menor
sinal de temor ou de impaciência, S. Clemente tira o manto, que nada tinha de
Na Suabia precioso, e entrega-o ao soldado, que saiu contente por possuir mais um meio
de se resguardar contra o frio.
São Clemente, apesar dos esforços feitos, não pôde conseguir senão uma
Ondas de soldados — Napoleão e Clemente — O manto ou a vida — Em habitação provisória, tão úmida que dos trinta religiosos que a inauguraram,
Babenhausen — Weinried — Desejam confessar-se? — O rapaz que ri no ser- quase todos adoeceram; somente alguns meses depois, foi-lhe possível conse-
mão — A ferreira apostrofada — O violinista convertido — O rapaz libertino — guir uma casa mais espaçosa, porém ainda insuficiente para tanta gente; essa
Quebra vidraças e ganha uma missa — Vítima de calúnias — Montgelas — circunstância obrigou alguns a hospedar-se na vizinha aldeia de Weinried na
Perseguições. casa do vigário, grande amigo de S. Clemente. De dia o Pe. Clemente ficava
com os seus padres em Babenhausen a rachar lenha, cuidar das estufas etc.;
Vendo S. Clemente que Triberg estava perdida para a Congregação e que na quaresma ele mesmo tomava conta da cozinha; às horas das refeições, nos
também Jestetten não lhe estava segura por haver essa cidade passado ao dias de jejum, ele sentava-se a mesa com a comunidade, mas não tocava nas
domínio protestante de Baden, volveu suas vistas para Augsburgo, onde tinha comidas, porque, em espírito de penitência, nesses dias só tomava alguma
um amigo sincero na pessoa de Antônio Nigg, que ocupava o honroso cargo de coisa depois do sol posto. A atividade apostólica era muito limitada em
vigário-geral da diocese, e que, desde há muito, desejava um ginásio bem orga- Babenhausen porque, não tendo eles igrejas própria, eram obrigados a ir à
nizado em Babenhausen. Em novembro de 1805 partiu para lá com Sabelli a matriz, onde o vigário só lhes permitia celebrar e ouvir confissões, ao púlpito
fim de se entender com o bispo Clemente Wenceslau e conseguir dele a per- era-lhes proibido subir. Os vigários dos arredores imitavam o vigário de
missão necessária para a fundação de uma residência em Babenhausen. Foi Babenhausen, menos os de Illerberg, que tendo tido S. Clemente dois dias em
essa uma viagem bem penosa para o nosso Santo; as trinta léguas que vão de sua companhia, escreveu no diário. “O Pe. Clemente é um homem muito delica-
Triberg a Augsburgo fê-las S. Clemente o coração oprimido pelos mais sinistros do, tem boa declamação, é muito lido e de muito zelo pela religião; fala um
pressentimentos. Em Varsóvia a revolução tornava-se sempre mais ameaçado- alemão puro, é vienense e tem relações de amizade com todos os senhores de
ra para S. Beno, no Tabor não encontrava garantia alguma, em Triberg estava Viena e até com a corte do imperador; à noite a nossa ceia passa-se entre
condenado à inação e entregue às mãos de poderosos inimigos; olhava para conversas edificantes e científicas... O fim da Congregação é propagar a reli-
Augsburgo, mas não com muitas esperanças ao contemplar a multidão de sol- gião nestes tempos sem fé. “O vigário de Weinried era o mais entusiasta pelo
dados que inundavam toda aquela região. No dia 1 de outubro Napoleão à fren- Santo e entregou-lhe a paróquia dando-lhe carta branca; desde a chegada dos
te de um exército de 180.000 homens atravessara o Reno perto de Strassburgo Redentoristas o vigário não subiu mais ao púlpito que deixara aos padres, e
em direção a Stuttgart contra Mack, o general austríaco, que o esperava em com íntima satisfação acompanhava o aumento da vida religiosa em sua paró-
Ulm com 80.000 soldados; aos 13 de outubro Napoleão cercou Mack em Ulm e quia. Em Babenhausen visitava ele constantemente os doentes a quem conso-
em sete dias a cidade se rendeu devendo 23.000 austríacos depor as armas lava e dava bons conselhos, animando-os e ouvindo-lhes as confissões. De um
aos pés do imperador dos franceses. O caminho estava aberto a Napoleão até modo todo especial tomava a peito a direção espiritual das almas; em Weinried
o coração da Áustria, e seus soldados debandaram para todos os lados na quase não saia do confessionário; se as vezes se levantava do tribunal da peni-
Baviera, roubando e saqueando quanto encontravam sem atenção à miséria, tência, ficava ajoelhado perto a rezar o seu breviário. Quando alguém entrava
em que iriam cair os pobres saqueados. É pelo meio dessa multidão que São na igreja por curiosidade ou qualquer outro motivo, Clemente levantava-se, ia
Clemente teve de passar; felizmente porém nada de mal lhe aconteceu. devagar até onde se achava a pessoa, e com toda a cortesia e amabilidade
Quando S. Clemente chegou em Augsburgo, lá se achava Napoleão. Que perguntava, se por acaso desejava se confessar. Esse estratagema produziu os
contraste entre essas duas personagens que se encontravam na mesma cida- melhores resultados; pessoas que há dezenas de anos já não se tinham recon-
de! entre o vitorioso Napoleão e o perseguido S. Clemente! Aquele triunfou dez ciliado com Deus, não podendo resistir ao convite do Santo, faziam com arre-
anos percorrendo a Europa ao sorriso das armas, vendo reis e imperadores pendimento a confissão e mudaram de vida.
tremer diante dele como a vara batida do vendaval; este perseguido, desconhe- O púlpito entretanto era o lugar predileto, onde com ardor discorria sobre
cido e desprezado, ia de cidade em cidade procurando não a sua glória, mas a as verdades da fé, corrigia os erros, cortava os abusos e mostrava a todos, com
de Jesus Cristo. Depois de alguns anos morreu S. Clemente e teve o enterro de argumentos irrespondíveis e fortes, quais os deveres para com Deus e o próxi-

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mo. Um dos vigários, admiradores de S. Clemente, disse uma vez: “Dai-me “Não te comprazas de ir às assembléias de grande tumulto, nem ainda às pe-
quatro homens para o púlpito como o Pe. Clemente, e quatro para o confessio- quenas; porque ali são freqüentes os pecados que se cometem” (Eclo 18,32)
nário como o Pe. Passerat, e eu converterei reinos inteiros”. O modo de pregar Lá em Weinried havia um indivíduo que se chafurdara em todos os vícios e
de S. Clemente era de uma simplicidade admirável; abria o Evangelho a qual- crimes, seduzindo a quantos podia; detestava a igreja e seus ministros; blasfe-
quer hora do sermão, apostrofava o povo, fazia perguntas prometendo uma mava contra a religião e em seus lábios só se encontrava palavras injuriosas e
missa a quem respondesse bem etc. Uma vez discorrendo com fogo sobre as ofensivas contra os padres, os bispos e o próprio Deus. O vigário trabalhara em
verdades eternas, comoveu o povo a ponto de todos prorromperem em prantos vão procurando todos os meios possíveis de conversão, a fim de o levar para o
e soluços, menos um moço que continuava a rir-se criticando as palavras do caminho da virtude; mas vendo a perversidade do rapaz, desesperou da sua
pregador. São Clemente parou bruscamente no meio do sermão, fitou por uns conversão. S. Clemente porém não desanimou, orou e orou bastante pelo infeliz
momentos o rapaz e disse-lhe com voz firme: “Moço, a igreja não é lugar para ao Pai, cuja misericórdia é infinita. Em seguida, com toda a ternura de um cora-
brincadeiras; teu procedimento bem mostra que não queres converter-te”. O ção amigo, aproximou-se do grande pecador; aos poucos foi-lhe mostrando
auditório voltou-se para o jovem, que corou de vergonha, e reconhecendo o toda a fealdade do vício, e conseguiu que ele rezasse e fosse a igreja. A mise-
erro, pediu perdão e mudou de vida: foi esse o mais proveitoso sermão, que o ricórdia divina tocou-lhe o coração e ele se converteu sinceramente fazendo a
moço ouvira em sua vida. sua confissão debulhado em lágrimas.
Em Weinried havia uma senhora, esposa do ferreiro do lugar, já bem idosa, Depois de reparar com o arrependimento sincero os escândalos que cau-
que não gostava muito de se confessar com freqüência, contentando-se com sara, perguntou a S. Clemente como deveria agir para desfazer o mal ocasiona-
uma única confissão anual pela Páscoa. Encontrando-a casualmente admoes- do aos outros por sua vida escandalosa. Como bom pai aconselhou-lhe o Santo
tou-a S. Clemente a que se aproximasse mais vezes do santo tribunal da peni- que fizesse quanto estivesse ao seu alcance, pois que o escândalo é como um
tência, porquanto já estava velha e não longe da hora em que deveria prestar grande incêndio que se ateia com uma pequena faísca, e não se apaga nem
contas a Deus. A ferreira porém olhou para S. Clemente e disse-lhe: “Mas pa- com o maior cuidado e trabalho; mas que confiasse na misericórdia divina e
dre, que diria a gente se a mulher do ferreiro se fosse confessar tantas vezes?” pedisse perdão a todos a começar pelo vigário e de fato levou-o ao pároco, que
No domingo seguinte São Clemente pregou sobre a recepção freqüente dos ficou atônito ao ver o Pe. Clemente e o criminoso entrarem juntos em sua casa;
Sacramentos, mostrando sua utilidade para o tempo e a eternidade, pois que mais perplexo porém se sentiu quando o rapaz escandaloso se prostrou a seus
comunicam força e vigor espiritual à alma para os combates com os inimigos, pés chorando de compunção, como outrora Madalena aos pés de Jesus; não
consolam-na na hora da morte etc., e no fim acrescentou: “Vedes pois que é útil pôde conter-se de alegria o bom vigário, chorou com o penitente e no excesso
e salutar receber amiúde os Sacramentos; mas a velha ferreira diz: ‘que diria a de contentamento deu três saltos no quarto como se fosse ainda rapazinho na
gente se a mulher do ferreiro se fosse confessar tantas vezes’ — e em seguida flor da idade.
olhando para a ferreira que lá estava, apostrofou-a perguntando: ‘Ó boa Meio anos apenas estivera S. Clemente em Babenhausen, e a cidade já
ferreirinha, que diria a gente se a ferreira estivesse no inferno?’” Não só no mostrava um aspecto inteiramente novo quanto à vida de piedade e à prática
púlpito, mas também em suas relações de amizade procurava S. Clemente con- das virtudes; e esse progresso espiritual não era conseqüência de um entusias-
verter os pecadores e levar as almas para o céu. mo passageiro que se extingue como um fogo de palha, mas real e duradouro
Uma vez encontrou-se com um músico que tocava violino em todos os pois que, dezenas de anos depois, ainda se encontraram na cidade pessoas
bailes e sempre que se apresentava ocasião em qualquer divertimento. Por que levavam uma vida santa, recordadas dos sábios ensinamentos de S. Cle-
causa dessa alegria o Santo certamente não o repreenderia, pois que Deus mente. Os habitantes de Weinried agrupavam-se em redor de São Clemente
ama os corações alegres e S. Paulo duas vezes, em seguida, aconselha os como os filhos em torno do pai, amavam-no sinceramente, e não poucas vezes,
Filipenses a se alegrarem no Senhor; o rei Davi também dançava diante da arca vendo a grande pobreza do Santo, levavam-lhe o necessário para a sua subsis-
e tocava sua harpa cantando os salmos do Senhor. — Mas o violinista de Weinried tência; respeitavam-no como a um Santo e beijavam o chão por onde ele passa-
não tocava a harpa sagrada nem cantava os salmos de Davi, mas modinhas va. Por mais que São Clemente procurasse esconder o brilho das suas virtudes
inconvenientes, ditadas pelo espírito impuro e pelas vis paixões, escandalizan- e corresse atrás das humilhações e até do desprezo dos homens, a sua santi-
do a todos e levando muitas almas à perdição. S. Clemente, compadecido do dade se fazia sentir a todos com tanto maior admiração quanto maior cuidado
pobre violinista, chamou-o às ordens pondo-lhe antes os olhos o estado deplo- tinha o Santo em ocultá-la. A fisionomia e a lembrança de Clemente imprimi-
rável de sua alma, a ignobilidade daquele modo de ganhar a vida, o escândalo ram-se tão indelevelmente na alma daquele bom povo, que muitos e muitos
causado a tantas almas, e o contentamento do demônio, que o queria levar anos depois que o Santo já se achava na eternidade, ele ainda falava com
para o inferno. As palavras tão sinceras quão severas de S. Clemente penetra- gratidão e saudades do bom e santo padre Clemente. Sessenta anos depois da
ram profundamente no coração do pobre músico que refletindo seriamente ne- saída do Pe. Clemente de Babenhausen, mostraram a sua fotografia a uma
las, deixou para sempre a vida cômica e pecaminosa que levava e tornou-se um velhinha, que vendo o retrato derramou lágrimas de contentamento exclaman-
excelente cristão tendo sempre antes os olhos as palavras do Espírito Santo. do como que fora de si de alegria: “É o Pe. Clemente!” A velhinha, quando vira o

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Santo, tinha apenas 10 anos de idade, esquecera desde então muita coisa que celebrar a missa por intenção dele”. Os lavradores que acorreram, voltaram
se passara em sua vida, mas os traços da fisionomia e da bondade de S. Cle- para casa descontentes por perderem uma ocasião tão boa de ensinar
mente permaneceram gravados em sua memória e muito mais ainda em seu moralidade ao libertino, porém edificados com o procedimento de São Clemen-
coração. Em sinal de respeito e veneração para com São Clemente, deixaram te, que executava o conselho do divino Mestre: “Orai pelos que vos perseguem
vazio, durante muitos anos, o quarto em que ele residia em a casa paroquial e caluniam”.
durante a sua permanência em Babenhausen, e na parede do quarto pendura- Como esse pobre rapaz havia também outros, mesmo entre o clero, que
ram o retrato do Santo, que quase todos conservavam no coração. Um indiví- não podiam ver com bons olhos a atividade apostólica e os resultados estupen-
duo de Babenhausen, que não possuía nem religião, nem fé disse um dia: “Te- dos obtidos por S. Clemente. Não encontrando outras armas, nem descobrindo
nho um estômago de soldado, mas gostei imensamente desse homem” — era na vida de Clemente coisa alguma que depusesse contra ele, recorreram à
S. Clemente. calúnia que forjaram com tanta habilidade, que muitos deram crédito às suas
Em Weinried porém havia também alguns que não se simpatizavam com S. palavras. Assim acusaram o Santo ao delegado de polícia, de haver arrombado
Clemente, e que nem queriam ouvir pronunciar-lhe o nome; mas isso não admi- violentamente o sacrário para levar a comunhão a um dos seus doentes contra
ra, porque os maus não podem suportar o brilho da virtude; o próprio Jesus a vontade do vigário que lhe havia negado a chave. Como o delegado era pru-
Cristo, a Bondade infinita, teve inúmeros adversários que o desprezaram, dene- dente chamou o respectivo vigário, que aproveitou a ocasião para tecer oficial-
griram e por fim lhe deram a morte infame da cruz. Também em Babenhausen mente os mais elogiosos encômios ao zelo apostólico e às virtudes consuma-
havia um rapaz libertino e malcriado, a quem as pregações de S. Clemente das daquele Servo de Deus, que trouxera à sua paróquia as mais copiosas
causavam dor de cabeça e mau estar, porque o Santo se aprazia em discorrer, bênçãos do céu.
repetidas vezes, sobre a obediência, temperança, castidade e semelhantes vir- As más línguas porém não cansam, quando querem vingar-se ou fazer mal
tudes, que o jovem detestava tanto na teoria como principalmente na prática. O a um sacerdote; eram tantas as calúnias inventadas pelos maus, que S. Cle-
infeliz perdendo-se na leitura dos filósofos da Revolução francesa e nas más mente pôde escrever a seus confrades na Itália: “São tantos os inimigos que se
companhias, julgava-se liberto dos mandamentos da lei de Deus e supunha já levantam contra nós nesta terra, onde estamos há pouco tempo, que sentimos
não existir o sexto mandamento. E como S. Clemente sempre pregava sobre necessidade de amigos verdadeiros que nos consolem e nos levantem o âni-
esse assunto, as moças começavam a revestir-se de grande seriedade, as se- mo”. Durante todo tempo em que o príncipe Fugger dominou em Babenhausen,
nhoras casadas tornaram-se modelos de virtude, e as próprias infelizes, que estavam os Redentoristas bem amparados, porquanto esse bondoso príncipe
antes se entregaram ao vício, caíram em si, mudaram de vida e fizeram peni- era amigo de São Clemente, escolher o Pe. Sabelli para educador de seus filhos
tência. O rapaz libertino via pois em S. Clemente o seu maior inimigo, enraive- e tinha já em vista construir, em seu território, um convento e uma igreja para os
ceu-se contra ele e entregou ocasião oportuna em que pudesse vingar-se. Acon- padres Redentoristas. Mas naquele tempo andava Napoleão pela Europa mu-
teceu passar uma noite má o pobre rapaz; não pregou os olhos pois que estava dando e transferindo reis e coroas, como se fossem figuras de xadrez; em 1806
fortemente excitado da paixão, e tocado do calor do álcool; achava-se conse- Fugger foi pelo poderoso monarca dos franceses despojado de suas terras que
qüentemente de mau humor, cabeça pesada, olhos cansados e consciência passaram a pertencer à Baviera cujo príncipe eleitoral fora mimoseado por
carregada. Ao amanhecer lembrou-se de descarregar a sua cólera no pobre Pe. Napoleão com a coroa real, por lhe haver prestado auxílio contra a Alemanha.
Clemente, que em sua humilde cela estava a fazer a meditação da manhã. Embora Maximiliano José fosse um monarca de bom coração e um cristão de
Colocando-se em frente à janela do Santo desatou a língua nas mais grossei- convicção, deixou-se rodear de maus auxiliares, a cuja testa se achava o ímpio
ras imprecações, nos nomes mais injuriosos contra Deus e seu Servo; e quanto Montgelas, maçom e “iluminado”, que possuía tanta fé como a sua escrivani-
mais impropérios soltava, mais se enraivecia; não encontrando, em seu copioso nha, arrogando-se poderes papais, espoliando as igrejas e abolindo todos os
vocabulário, palavras que lhe traduzissem todo o rancor que nutria contra o conventos da Baviera. Um dos seus primeiros atos foi, baixar um decreto, que
Santo, colecionou umas pedras na rua, e com elas fez em cacos a vidraça do proibia os Redentoristas toda e qualquer atividade no reino da Baviera.
quarto onde estava São Clemente, de sorte que os pedaços iam cair aos pés do Entretanto recebia S. Clemente as mais desoladoras notícias do seu queri-
nosso Santo, que chorava não de medo das pedradas nem de raiva das pala- do convento de São Beno, que desde o momento em que Varsóvia passou para
vras injuriosas, mas de compaixão para com o infeliz, que assim ofendia a Deus o governo prussiano, fora o alvo do ódio dos maçons e dos “iluminados” que o
e escandalizava o povo. Ao clamor do rapaz e ao som das pedradas acordaram queriam arrasar. Grave acusação acabava de ser feita contra os Benonitas ao
as pessoas dos arredores, que vendo o procedimento do moço, se amaram de rei da Prússia; estando o Reitor da casa, Pe. Thadeu, gravemente enfermo teve
cacetes, bengalas e chicotes para lhe darem uma boa lição de urbanidade. o Pe. Jestersheim de ir pessoalmente a Berlim desfazer a calúnia e defender-se
Quando S. Clemente percebeu que a vizinhança se pusera em movimento, des- junto ao rei, o que conseguiu felizmente com o mais brilhante êxito.
ceu também, não para se vingar, mas para tomar em sua defesa o rapaz liber- Todas essas circunstâncias alarmantes faziam S. Clemente compreender
tino que o acabava de injuriar tão covardemente. Recomendando a todos que que não se achava seguro em Babenhausen nem em Varsóvia. Mas para onde
tivesse compaixão do infeliz, disse: “Não lhe façais mal; vou agora à igreja, ir? Pensou primeiro na Itália e nesse sentido escreveu a Severoli, que infeliz-

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mente nem com a melhor vontade pôde servir a seu amigo por não ter, na hora, anime o outro”. Partiu para a capital da Áustria, e o seu coração lhe dizia que já
nenhum colégio disponível na diocese, mas que aconselhou Clemente a não não haveria de ver a muitos dos seus filhos. Com as lágrimas a rebentar-lhe dos
sair da Alemanha. Guiando-se por esse conselho resolveu dirigir-se a Würzburg olhos despediu-se: “É forçoso deixar-vos, caros confrades; em Varsóvia há mai-
no caso que a situação em Babenhausen se tornasse insuportável e insusten- ores dificuldades ainda do que aqui em Babenhausen; rezai pela Congregação
tável, o que infelizmente sucedeu. Por ordem de Montgelas os vigários recebe- para que ela não venha a perecer; os tempos são maus; quem sabe o que será
ram proibição expressa e terminante de chamar Redentoristas para as suas de nós; talvez não nos vejamos mais”. Recomendando ainda a todos a mais fiel
paróquias, e o povo, de confessar a eles, dar-lhes intenções de missa, presen- obediência ao Pe. Passerat, do qual ninguém deveria separar-se, abraçou pa-
tes etc. Tudo isso era anunciado e comentado publicamente do alto do púlpito. ternalmente a todos apertando-os contra seu coração; depois de uma breve
São Clemente sentiu o coração partido; todas as suas esperanças ruíram oração levantou suas mãos ao céu e deitou sua bênção sobre a comunidade,
por terra; o Santo via-se só, perseguido de todos os lados. Um pensamento implorando para ela as bênçãos de Deus. Em seguida tomou o bordão do via-
porém o consolava: era perseguido de todos os lados. Um pensamento porém o jante e com o clérigo Martinho Starck partiu para Varsóvia passando por Viena.
consolava: era perseguido tão somente por causa do bem que Ele e seus pa- Os moradores de Weinried, que idolatravam seu apóstolo e benfeitor, foram a
dres operavam; e Jesus dissera: “Bem-aventurados os que sofrem persegui- São Clemente dizer-lhe o último adeus — e em sinal da sua gratidão oferece-
ções por amor da justiça”. ram-lhe cem escudos para a viagem. Era a última vez que eles veriam São
Mas ele responsabilizara-se diante dos Superiores em Roma pela implan- Clemente sobre a terra.
tação do Instituto redentorista além do Alpes, e era esse o ideal da sua vida.
Vendo que lhe era de todo impossível fixar-se na Europa, volveu seus olhos
para a América, a terra clássica da liberdade, que cheia de vida e vigor se
mostrava aos europeus, prometendo as maiores esperanças para o futuro. Cle-
mente era homem prudente, mas de decisões rápidas, quando necessário; es-
tava pois decidido: durante o inverno ficaria em Würzburg com os seus e logo,
ao entrar na primavera, atravessaria os mares em demanda do Canadá; de lá
mandaria missionários para cristianizar a Europa. — A única coisa que ainda o
preocupava então, eram as dificuldades da viagem por causa da guerra da
França com a Inglaterra. Ele escreveu ao Pe. Thadeu: “Já estão feitos os prepa-
rativos para a viagem, porque sinto mandar embora e demitir da Congregação
tão boa gente... muitas palavras causar-te-ão surpresa e dir-me-ás que o cami-
nho do Canadá é longo; não faz mal, contanto que tenhamos um lugar, onde
esperar tempos melhores, e formar missionários para a infeliz Europa! Da Suabia
muitos se unirão a nós porque eles gostam de viajar; a dificuldade única é agora
arranjar as passagens por causa da guerra... nunca me sinto tão bem como
quando me lembro do Canadá... quero cuidar dos meus filhinhos antes de dei-
xar este mundo... estamos estudando o mapa e a geografia... só Deus sabe,
onde os meus ossos aguardarão a ressurreição...; se tiveres algum plano me-
lhor, peço-te comunicar-me... do Canadá poderemos com o tempo mandar mis-
sionários para o Oriente”. E continuando a carta dá ao Pe. Thadeu a notícia de
que todo o peso recai sobre os seus ombros: “... Aqui o Pe. Passerat detém-se
no confessionário o dia inteiro, de sorte que nem lhe posso falar; ele pensa que
todo o merecimento de um padre consiste em sentar-se no confessionário dia e
noite; os outros são crianças, nem refletem na possibilidade de sermos expul-
sos da noite para o dia; tudo pois se acumula sobre a minha pessoa”.
A 6 de agosto S. Clemente recebeu do Pe. Thadeu uma carta pedindo uma
entrevista em Viena. Clemente com os mais negros pressentimentos abandona
a idéia de ir a Würzburg e dirige-se a Viena; antes porém escreveu a S. Beno:
“Coragem, Deus é o Senhor, que dirige tudo para a sua glória e o nosso bem;
quem se levanta contra nós, leva-nos para onde Deus quer; caros confrades,
conservemos a inocência e a perfeição: é só a isso que devemos aspirar; um

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que os dois senhores de batina tinham ido acomodar-se sem jantar, mandou ao
hoteleiro aprontar uma suculenta ceia para a qual convidou São Clemente e
seu companheiro, que se levantou bem depressa e se assentou à mesa. Termi-
nada a refeição, disse São Clemente sorrindo: “Martinho, está vendo como Deus
é bom e não desampara os seus servos?”
CAPÍTULO VII Na manhã seguinte partiram para Viena, onde o Pe. Thadeu Hübl os espe-
rava; lá demoraram-se cerca de dois meses. São Clemente preparava-se já
O último ano em S. Beno para voltar a Varsóvia, quando em outubro, rebentou a guerra entre França e
Prússia, de cujo êxito dependia a sorte de Varsóvia e conseqüentemente tam-
bém de S. Beno. As batalhas de Iena e Auerstädt foram decisivas; Napoleão
Um jantar depois da oração da noite — Perseguições em Varsóvia — Aten- entrou triunfante em Berlim depois de derrotar, ou antes, aniquilar o exército
tado contra o Pe. Thadeu — O escudo quebrado — Napoleão — A Baviera prussiano. Varsóvia pois pertencia à França; em 1806 Napoleão em pessoa foi
hostiliza os Redentoristas — Zelo admirável dos padres — Tristes aconteci- visitar a capital da Polônia depois que seu general Davoust lá tinha entrado
mentos em Varsóvia. debaixo das aclamações delirantes do povo. No ano seguinte Napoleão elevou
a Polônia à categoria de grão-ducado entregando-a a Frederico Augusto, que
A pé, debaixo de um sol ardente, partiram S. Clemente e o clérigo Martinho fora rei da Saxônia. Embora católico e até piedoso, Frederico Augusto era ape-
Starck para Viena passando por Linz. Não levaram dinheiro consigo, porque S. nas um manequinho na Polônia, devendo obedecer servilmente aos magnatas
Clemente presenteara a comunidade de Babenhausen com o valioso donativo da França e dançar ao compasso da batuta de Napoleão. O ódio e a persegui-
recebido dos habitantes de Weinried, e para a viagem muniram-se de uma boa ção aos sacerdotes estendeu-se também à Polônia, na medida que eram prati-
porção de confiança na divina Providência. Muitas vezes tiveram de esmolar, de cados na França. Os maçons e “iluminados” de Varsóvia exultavam, pois que a
caminho, uma fatia de pão e de padecer fome não poucos dias. Uma vez acon- vitória lhes estava garantida, e sem detença começaram a mais encarniçada
teceu andarem o dia inteiro sem provarem um pedacinho de pão. Cansado e guerra contra o convento de S. Beno. Momentos amargos foram esses para S.
debilitado pela fome queixou-se Martinho Starck de não poder mais caminhar Clemente que, mais tarde, o manifestou com as palavras: “Ninguém no mundo
de fraqueza. S. Clemente consolou o súdito pedindo-lhe que tivesse paciência, pode fazer idéia, e só no dia do juízo final ficará patente o quando padeci em
porque o dia não passaria sem que ele recebesse suculento jantar. Embora a Varsóvia nesses tristes dias”.
promessa não parecesse muito crível, Martinho fez um esforço supremo e em Os maçons3 de Varsóvia excogitaram um plano de campanha ardiloso con-
silêncio acompanhou o Superior até a cidade, onde Clemente pediu um agasa- tra os Benonitas e contra a religião, o que aliás costumam fazer em toda parte,
lho por ser já noite. Ainda que contrariado com a visita importuna, o dono da também em nossos dias. Esforçaram-se primeiro para ridicularizar os Benonitas
casa, querendo passar por hospitaleiro, mandou buscar no paiol algumas pa- através da imprensa e de folhetos avulsos que distribuíam grátis entre o povo;
lhas, que estendeu no chão para servirem de cama aos hóspedes e retirou-se. em versos chulos adaptados a melodias conhecidas e triviais zombavam-se
São Clemente agradecendo a Deus que lhes proporcionava mais uma ocasião dos sacerdotes e de Deus; e essas cantilenas ouviam-se nos cafés, nas esqui-
para a mortificação, disse ao companheiros: “Vamos fazer a oração da noite”. O nas, nos teatros etc.; para figuras cômicas nos teatros usavam a batina dos
clérigo, espantado, puxa a batina do Santo com as palavras: “E o jantar...?” São Benonitas; e o povo ébrio de divertimentos e novidade ria-se e aplaudia a tudo,
Clemente sorriu-se: “Reze e vá deitar-se, que a refeição virá”. O pobre clérigo como outrora os judeus que gritavam Crucifique contra Jesus.
abriu uns olhos que denunciavam tristeza e desaponto. Deitar-se para comer As pessoas piedosas de Varsóvia, porém, firmes na sua fé continuaram a
depois: isso lhe parecia uma ironia. Entretanto sabia que seu Superior nunca freqüentar ainda com mais assiduidade a igreja dos Redentoristas, onde rece-
mentira. Foi deitar-se sobre as palhas sem todavia conciliar o sono por fome e biam com devoção os santos sacramentos, pois que as almas verdadeiramente
cansaço. Na sala, entretanto, desenvolveu-se uma luta furiosa: dois jogadores, religiosas não se incomodam com as irrisões dos maus e chegam-se tanto
descontentes, gritava, imprecavam e blasfemavam contra Deus; das palavras mais aos sacerdotes, quanto mais estes são perseguidos e caluniados pelos
passaram aos fatos e a coisa ia-se tornando bem desagradável quando de inimigos de Deus. Em plena rua eram eles escarnecidos pela corja maçônica,
repente aparece S. Clemente, olha a cena de longe, percebendo porém que a que os apontava entre assobios de escárnio com o grito: “Benonitas, Benonitas!”
luta não queria terminar, entra no meios dos lutadores, pede por amor de Deus Vendo os maçons que não conseguiam demover o povo de freqüentar a
que deixem de ofender Nosso Senhor, se perdoem mutuamente para evitarem igreja dos Redentoristas, procuravam incutir temor aos padres, proibindo-lhes
os remorsos das consciência e os castigos do outro mundo; toma as dextras pregar sobre pecados, vícios etc. e mandando espiões à igreja. Quando um
dos adversários, fita-os com mansidão e bondade, e depois de os apaziguar padre era chamado a confessar algum doente, ou quando ia pregar em outra
com boas palavras consegue que eles se dêem amigavelmente as mãos. Um igreja, os tais de combinação se punham se punham a assobiar, a populaça se
deles deixou-se tomar de veneração para com S. Clemente, e lembrando-se reunia e o pobre padre se via desacatado publicamente. Ao Pe. Blumenau, ora-

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dor fogoso que não só empolgava, mas também arrebatava as massas, amea- to francês e do regimento italiano. O bom do padre, embora doente, mostrou-se
çaram de morte se continuasse a fazer as suas pregações; como o Pe. Blumenau incansável no cuidado dos enfermos, acudindo a todos com carinho e presteza,
não se deixasse atemorizar pelas pistolas carregadas dos emissários da maço- até que Deus lhe mandou o aviso de que não estava longe o dia em que iria no
naria, a raiva dos inimigos se transformou em fúria, de sorte que o pobre do céu receber a recompensa dos seus grandes trabalhos; a febre tifóide, apanha-
padre não pôde mais sair de casa. da à cabeceira dos doentes, reduziu-o à fraqueza extrema; S. Clemente não
O zelo apostólico dos Benonitas crescia na medida que os maçons se en- saía de perto do seu confrade; vendo que a doença era grave administrou-lhe
fureciam; de sorte que em 1807 pôde S. Clemente escrever a Roma: “A nossa os santos sacramentos dos moribundos. Dia e noite passava o Santo junto do
igreja está sempre repleta; admiradíssimos estão os confessores do rei e da leito do seu caro Pe. Thadeu Hübl. À 4 de julho de 1807 rodeado de toda a
rainha da Saxônia que vêm freqüentemente à nossa igreja e à nossa casa... em comunidade esperava Thadeu a morte com o rosto sereno e a conformidade de
cada missa distribuem-se mais de cem comunhões; muitos protestantes con- um Santo; depois de receber a última bênção de S. Clemente, que conservava
vertem-se... É um verdadeiro milagre poder sustentar 64 pessoas nestes tem- as mãos do moribundo entre as suas, o Pe. Thadeu voou para o céu deixando
pos calamitosos sem o auxílio de um vintém de esmola”. seus caros confrades imersos na mais profunda dor. A morte desse prestimoso
Entretanto o Pe. Passerat estava lá para tratar das passagens para o Cana- sacerdote foi uma das maiores provações para S. Clemente, porque amava
dá e São Clemente participou isto ao Vigário de Mitau, que lamentando intima- Thadeu Hübl coo a seu irmão com amor santo e forte; a consternação no con-
mente a resolução do Santo, escreveu-lhe para o demover do seu intento: “Que- vento foi tal que ninguém teve ânimo nem a lembrança de fazer o necessário
res abandonar um povo que se nutriu a teu peito, somente porque sua cerviz é para o enterro. Foi preciso que de foram viessem as providências nesse sentido.
dura e seu coração corrompido? porque procuraste três anos os frutos e não os O arcebispo mandou que por três dias cessassem as cerimônias da Igreja de S.
encontraste, queres agora cortar a figueira? Deus tal não permita”. Como po- Beno, providenciou para que a noite, empregados de confiança cobrissem o
rém o vigário não queria contrariar o Santo deu-lhe uma carta de recomenda- templo de luto pesado e arranjassem o maior número possível de velas. Nos
ção para Lord Douglas em Londres. três dias que se seguiram à morte do Pe. Thadeu, as comunidades religiosas de
Em tudo isto o coração de S. Clemente sangrava, não tanto por causa da Varsóvia rezaram, revezando-se, o ofício dos defuntos na igreja e todos esses
sua pessoa, mas por causa dos seus padres, da sua querida Congregação, e dias, os sinos de Varsóvia dobraram tristemente durante uma meia hora. O
ainda mais, da glória de Deus ultrajado — previa grandes males para o futuro e enterro do antigo estudante mendigo foi pomposo como o sepultamento de um
temia pela grandiosa obra que estabelecera na capital da Polônia. grande do mundo. A dor de S. Clemente, nessa ocasião, foi lancinante. Quatro
Em todos esses duros transes procurava ele, depois de Deus, o coração do meses depois, escreveu ainda a um amigo na Itália: “Tenho a convicção de que
grande e sincero amigo Pe. Thadeu Hübl para se desabafar e encontrar novo Hübl está no céu... conformo-me com a vontade santíssima de Deus, contudo
alento e coragem; e o Pe. Thadeu, homem de grande prudência e de vastos devo confessar que, desde a sua morte, não tive mais nem uma hora feliz na
conhecimentos sempre sabia um bom conselho a dar e um expediente para vida”. Em uma carta ao bispo, falando da dor que sentira pela morte de seu
sair das dificuldades. É por isso que S. Clemente não poucas vezes o denomi- amigo Hübl, acrescentou: “No tempo da meditação, aos pés do Crucifixo, pare-
nava “um outro eu” e a outra metade da sua alma. ce que estamos dispostos para tudo, mas logo que o Senhor nos quer impor a
Havia pouco que Clemente e Thadeu tinham chegado a Varsóvia, quando sua cruz, não sentimos coragem de carregá-la”. Semelhantes cartas repassa-
este foi vítima de um nefando atentado. Sob pretexto de que um penitente, achan- das dos mais dolorosos sentimentos escreveu ele ao Pe. Passerat, que do seu
do-se muito mal, o chamava para os últimos sacramentos, foram buscar o Pe. lado também sentia a morte do amigo e companheiro Pe. Vannelet, falecido
Thadeu em um carro. Mal o padre tinha entrado, quando o amarram de mãos e quase ao mesmo tempo que Hübl. Desconsolado escreveu Passerat a Varsóvia
pés e lhe vendam os olhos. Depois de muitas voltas chegam a uma choupana, desfazendo-se em pensamentos tristes e desejando a morte, ao que S. Cle-
onde não havia nenhum enfermo, mas alguns senhores e empregados. O padre mente respondeu: “Devemos adorar a santíssima vontade de Deus e beijar cem
recebe afrontas de toda a sorte e por fim a intimação de nunca mais ouvir de vezes a mão que nos feriu, porque ele pode curar-nos novamente as chagas. Tu
confissão certas senhoras, ao que o nobre Redentorista respondeu que não queres também morrer? será isso por amor de Jesus Cristo ou da carne, que
recuaria um passo do cumprimento do seu dever. A um aceno dos senhores, os reluta contra a cruz? melhor do que morrer é sofrer e permanecer pregado com
empregados começam seu trabalho: despem o padre, lançam-no por terra, e Cristo na cruz”.
põe-se a vergastá-lo com bengalas e outros instrumentos até rebentar o san- São Clemente tencionava ira Cur em visita ao Pe. Passerat e a seus pa-
gue de muitas chagas. Em estado grave foi ele, de olhos vendados, reconduzido dres; mas a morte inesperada de Thadeu Hübl o impediu; era difícil achar um
a Varsóvia. Só S. Clemente ficou sabendo desse acontecimento. substituto para o falecido: “O escudo está quebrado, Deus sabe o que agora
Mal restabelecido desses maus tratos foi o Pe. Thadeu chamado ao hospi- virá sobre nós” disse ele a sua comunidade em uma das suas conferências.
tal. Era ele o único sacerdote que em Varsóvia falava sete línguas e por isso só Em meados de novembro anunciou o Pe. Passerat sua provável ida a Cur.
ele estava em condições de consolar nos hospitais os soldados alemães italia- Essa carta parecia ditada pelos mais graves pressentimentos; são as últimas
nos, franceses, polacos e boêmios que lá se reuniram com a entrada do exérci- palavras de despedida a transbordar de amor e intimidade. “Sede santos, aceitai

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bastante noviços... Procede de forma como se fosses o Vigário Geral, dou-te samparasse nem os julgasse indignos da santa vocação. O Pe. Passerat não
todas as faculdades, os padres José e Francisco Hofbauer são teus auxiliares; pôde resistir, tomou-os consigo dizendo: “A Providência que cuida das aves do
alegrem-se eles contigo por serem as primeiras pedras do edifício; na eternida- céu, não nos abandonará”. Os diversos grupos encontraram-se em Visp. No
de alegrar-se-ão certamente com os santos patriarcas, quando virem seus fi- meio de tantas desilusões São Clemente teve uma consolação bem grande:
lhos sentados à direita de Deus; mas lembrem-se também que hão de suportar nesse ano de perseguições nenhum dos seus filhos se tornou infiel à sua santa
as dores da maternidade; o temor dos sofrimentos não os intimide de dar filhos vocação; pelo contrário em santa emulação exerciam-se todos de modo admi-
a Nosso Senhor. Saúdo a todos, apertando-os contra o meu coração. Adeus, rável na prática das virtudes convertendo a milhares com suas palavras e mais
irmãos, vós sois a minha alegria, a minha coroa, a minha glória em Cristo; ainda com seus exemplos. Tudo isso parecia menos mal a S. Clemente, mas o
adeus, Jesus Cristo queira encher-vos a todos das bênçãos celestiais, dê-vos o desejo ardente de achar um lugar e uma casa para os seus noviços e sua
seu Santo Espírito como aos apóstolos. Santificai o mundo, caríssimos irmãos, Congregação, ainda não se tinha realizado nem parecia querer realizar-se em
nada poderá contra vós o inimigo, se Cristo for por vós; rezai por nós como o breve. A ida ao Canadá, tornara-se impossível devido às circunstâncias.
fazemos por vós para que cumpramos a santíssima vontade do nosso Pai. Sau- Em Varsóvia as coisas pioraram de dia para dia, só não na igreja, onde os
dações de todos os irmãos”. Essa carta não alcançou o seu destino porque o padres no último ano tiveram nada menos de 104.000 comunhões, e mais ain-
Pe. Passerat tinha abandonado Luzi em Cur justamente uma semana antes da da teriam se os padres fossem mais numerosos; mas o ódio dos maçons au-
data da carta. mentava-se sempre mais. São Beno tinha-se tornado o baluarte contra o livre
Já em junho Passerat escrevera a Varsóvia, que as calúnias contra os pensamento que tudo avassalara. Já temos falado do atentado contra o Pe.
Redentoristas haviam já chegado a Paris. O Pe. Passerat, francês patriota, de- Thadeu Hübl, que nos últimos anos era o representante de S. Beno; gozava nas
pusera toda a sua confiança e esperança em Napoleão, no grande imperador, rodas católicas uma influência única; via-se o seu retrato até nos cachimbos e
“protetor da inocência oprimida”; pedira ao Vigário Geral que se dirigisse a ele, nas caixas de rapé; as princesas e as damas nobres tinham-no por confessor. O
pois que com uma só palavra o imperador faria calar todos os adversários. contraste entre os Benonitas e os Jacobinos acentuava-se sempre mais.
Pobre Passerat, em breve teve de sentir que o homem só pode confiar em A São Clemente não pouparam os maçons; à semelhança do Pe. Thadeu
Deus, que tem os corações dos reis em suas mãos! O adversário principal dos Hübl esteve ele atado de mãos e pés numa adega escura e funda onde não se
Redentoristas foi, naquele tempo, o governo bávaro, que fazia passar pela cen- pôde afastar os sapos e rãs que pulavam sobre o seu rosto; ele mesmo afirmou
sura todas as cartas enviadas ou recebidas pelos padres da Congregação; vin- uma vez, “haver sofrido na Polônia coisas que só serão manifestadas no dia do
te e quatro delas estão ainda guardadas no arquivo do governo, cartas inocen- juízo final”.
tes que só se referem a coisas de negócios e que bastariam para provar aos Os Redentoristas ficaram afinal inteiramente isolados; não podiam traba-
funcionários públicos que os Redentoristas não se envolviam em política nem lhar com o clero tão numeroso da cidade porque as idéias divergiam demais.
se intrometiam em negócios do Estado. Alguns trechos dessas cartas são tes- Davoust pôde com verdade participar a Napoleão, que o clero de Varsóvia de-
temunhas evidentes do bom espírito que existia entre os bons religiosos. Assim testava os Benonitas, e um dia S. Clemente perguntado, por quem haviam sido
a resposta a um postulante que perguntava o que deveria levar para ser recebi- expulsos os Redentoristas de Varsóvia, respondeu laconicamente: “pelos falsos
do na Congregação, dizia: “Não compreendemos o que o sr. entende por requi- irmãos”. Em geral porém, S. Clemente não tinha motivos mais sérios para sus-
sitos da entrada... aqui nada se prescreve a respeito; quer traga bastante, quer peitar perigosa a sua posição no grão-ducado; suas últimas cartas não traem
traga pouco o sr. será recebido da mesma forma; se trouxer um coração dócil e cuidados nem receios. À 9 de março escreveu ainda ao Procurador geral dos
bom, estimaremos mais do que todas as riquezas e tesouros; aviso que o sr. Redentoristas em Roma: “Aqui não há novidades; o tempo difícil, em que todos
não encontrará entre nós comodidade alguma, mas sim uma vida simples e sofrem, não nos poupa, mas, Deus louvado, nossa Congregação faz dia a dia
pobre que não afaga nem a carne nem as paixões, mormente em nossos tem- novos progressos”. Isso era apenas uma pausa. O Santo iria em breve sofrer a
pos, em que se exige uma alma forte para o sacerdócio; se estiver resolvido a mais dura provação em sua vida, pois que se preparava a ruína de São Beno.
isso, venha, venha quando quiser; não tenha cuidados por causa do temporal,
pense só em salvar a sua alma”. Mesmo dessa carta quiseram deduzir que os
padres da Suíça chamavam para o estrangeiro os súditos da Baviera. Os pa-
dres Redentoristas receberam ordens de sair do território bávaro; não houve
pois remédio. O Pe. Passerat aprontou-se e, em grupos de quatro, saíram todos
para Valais na Suíça pelo caminho mais breve.
Como as dificuldades se aumentavam dia a dia, o Pe. Passerat resolveu
enviar para as suas casas os quatro estudantes, que o acompanharam; mas
qual não foi o seu espanto, quando estes, assustados com a triste nova, se
ajoelharam diante da Imagem de Nosso Senhor suplicando-lhe que não os de-

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quais V. M. poderá ver a constituição dessa Associação e quais as suas ramifi-
cações... Um tal Litta, Núncio do papa, é um dos grandes organizadores...
Hofbauer esteve de viagem pela Suíça e França, mas já voltou faz pouco; as
observações por ele feitas, levam à convicção de que é um homem perigoso...
Hofbauer está em correspondência ativa com o confessor do rei da Saxônia...
CAPÍTULO VIII Peço a V. M. mandar a esta região homens experimentados e fiéis”.
Os inimigos de São Beno tinham pois o jogo ganho. As acusações foram
A expulsão todas acreditadas e aceitas sem mais indagações, mesmo as que eram eviden-
tes mentiras e calúnias. Assim p. ex. aconteceu que devido à grande carestia da
vida os padeiros, açougueiros etc. de Varsóvia fecharam suas portas para não
Verdadeira causa da expulsão — Davoust persegue os Benonitas — Sole- sofrerem prejuízos: e na cidade correu que os Redentoristas os haviam instiga-
nidade da Páscoa — Decreto de Napoleão — Aviso do céu — Execução do do a isso para oporem dificuldades ao novo governo. Poucos meses antes eram
Decreto — Resignação do Santo. os Benonitas considerados inimigos figadais dos Prussianos, e agora acusados
de amizade exagerada com eles. Davoust desejava liquidar logo com os
A expulsão dos Redentoristas e a ruína de S. Beno devem sua realização, Redentoristas ainda mais que para isso não encontrava oposição no governo
em parte, à loja maçônica de Varsóvia, a qual, desde muito, não podia ver com de Varsóvia; o único que protegia os Benonitas era Estanislau Breza, secretário
bons olhos a atividade dos padres e os resultados estupendos que haviam con- de Estado na Polônia. O rei católico da Saxônia fez o papel de Pedro no átrio do
seguido quanto à piedade e moralização do povo. Embora tivessem os maçons Sumo Sacerdote: negou estar relacionado ou conhecer os Benonitas, exigiu
trabalhado nesse sentido e contribuído para isso, não é bem a eles, mas às também que Davoust examinasse pessoalmente a coisas com exatidão, e lhe
conseqüências desastrosas de Babenhausen, que se deve atribuir a expulsão mandasse as atas. Isso desagradou a Davoust. O marechal para não dar satis-
dos padres de Varsóvia. O governo bávaro fez o que pôde não só para desmo- fações ao rei da Saxônia, só procurou uma ocasião em que pudesse provar a
ralizar os Redentoristas, mas também para denegri-los aos olhos do povo, e animosidade dos padres contra os franceses, o que não tardou a dar-se. A 19
apresentá-los ao público como uma sociedade inútil e prejudicial. Os diários de abril de 1808 celebrava o mundo cristão a festa da páscoa da Ressurreição
mais importantes e mais lidos na Baviera v. g. o Postzeitung de Augsburgo, o do Senhor. Em S. Beno costumava essa festa ser celebrada com a maior sole-
jornal de Frankfurt etc. publicavam as maiores infâmias contra os padres de nidade possível. No sábado de Aleluia prolongaram-se as cerimônias até às 10
Babenhausen e de Cur. horas da noite, como é costume na Polônia; a igreja naquela ocasião asseme-
De uma dessas notícias teve conhecimento o comandante militar de Varsó- lhava-se a uma noiva no dia das suas núpcias, resplandecente ao clarão das
via, o marechal Davoust, a saber, que os Redentoristas haviam sido expulsos inúmeras velas e adornada das mais lindas flores. O templo regurgitava de povo
da Baviera, por haverem conspirado contra a paz e a tranqüilidade públicas, e de sorte se tornara impossível encontrar mais um lugar vazio na igreja. Quando
que os Congregados estavam em correspondência epistolar com um tal Cle- o sacerdote no altar entoou o “Surrexit Dominus” o Senhor ressuscitou, milha-
mente Hofbauer, Vigário Geral dessa Ordem em Varsóvia. Essa notícia foi o res de vozes acompanharam o celebrante cheias de entusiasmo. Terminadas
começo do fim para o convento de S. Beno. O marechal, desejoso de informa- as cerimônias voltou novamente a tranqüilidade ao templo, e as pessoas puse-
ções, escreveu a Montgelas, ministro do interior na Baviera. A carta-resposta ram-se a caminho para suas casas, passando, como de costume, por uma por-
deu a Devoust a informação desejada, isto é, que os Redentoristas eram os ta estreita perto da sacristia. Naquele aperto apareceram dois senhores à pai-
causadores da perturbação da ordem em Babenhausen, fanatizando o povo, sana que queriam, à força, penetrar na igreja, dizendo serem oficiais franceses
indispondo-o com o governo e o clero. que seus penitentes se distinguiam pela mas portando-se como embriagados. Não sendo atendidos, puseram-se a ba-
devassidão etc. Ainda mais perigosa foi a declaração de que em Cur se verifi- ter por todos os lados e a gritar contra o povo. Naturalmente as pessoas que
cou ser sua presença prejudicial ao recrutamento dos regimentos para o Impe- saíam, ofenderam-se com aquele procedimento, e alguns mais valentes retri-
rador dos franceses. Era o suficiente para Devoust mandar fazer buscas no buíram na mesma moeda as cortesias dos oficiais franceses; o sangue chegou
convento e seqüestrar o arquivo da casa. Alguns trechos da correspondência a correr. Passando por ali um oficial polaco encheu-se de cólera contra os fran-
epistolar confiscada, como: as relações dos Redentoristas com os Bourbons, ceses e estava já de espada em punho para acabar com eles, quando apareceu
com os jesuítas e os amigos dos jesuítas, as expressões do Pe. Eduardo de o Pe. Jestersheim, Reitor dos Redentoristas, pedindo por amor de Deus que
Mitau pouco honrosas para Napoleão e os franceses, o projeto da fundação no respeitassem aquela noite tão santa. Como tudo aquilo não passava de uma
Canadá, deviam realmente parecer comprometedoras a Davoust que selecio- farsa, em que se procurava acusação contra os Benonitas, logo se propalou
nando as passagens mais obscuras escreveu a Napoleão a 12 de abril: “... Te- que o Pe. Reitor havia dado uma violenta bofetada em um dos oficiais france-
nho certeza de que essa gente é realmente inimiga de todo governo, mormente ses; e isso era um crime perante a lei. Davoust ouviu os oficiais e remeteu a
do de Vossa Majestade; em breve terei a honra de enviar a V. M. os papéis, dos Napoleão as acusações junto com um resumo da correspondência de S. Cle-

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mente. o sermão, e os irmãos ir de confessionário a confessionário chamar os padres,
Napoleão leu com atenção as informações de Davoust e respondeu: “Eles que se levantaram imediatamente. Fecharam-se as portas e o povo ficou preso
parecem ser da mesma corporação como aqueles que expulsei da Itália e da dentro da igreja. Os comissários assustaram-se ao perceber a calma dos pa-
França; pedirei às cortes alemãs que os expulsem, e farei o mesmo ao rei da dres, que não se mostravam surpreendidos; temeram uma revolta, mas S. Cle-
Saxônia: esses padres começaram a existir há poucos anos e já se tentou inun- mente tranqüilizou-os assegurando-lhes que o povo ignorava tudo e que eles
dar deles a França; já proibi suas reuniões, mandei fechar seus conventos e não usariam violência. Os Redentoristas, desde aquele momento, estavam pre-
dispersar-se todos indo cada um para sua casa...!” E no mesmo dia mandou o sos por ordem de Davoust e incomunicáveis — só então é que abriram as por-
Ministro do Exterior expulsar esses sacerdotes da Polônia... “por serem eles o tas da igreja e deixaram o povo sair.
renascimento dos jesuítas”. Era essa a sentença de morte contra S. Beno! Davoust não era contrário à ida dos padres à Galícia como haviam pedido,
Napoleão, em sua leviandade, afirmou que os Redentoristas inundavam a Fran- mas, como o coronel austríaco nada podia decidir sem primeiro consultar Vie-
ça quando não havia nenhum deles lá! na, o comandante indignou-se e mandou os presos para Küstrin, donde cada
São Clemente iludira-se muito tempo a esse respeito; confiava demais na um iria para sua casa; isto se daria a 20 de junho. Os comissários franceses
lealdade do rei católico da Saxônia, a quem pertencia Varsóvia. Deus entretanto insistiram com os clérigos e estudantes de Varsóvia, a que rompessem de vez
quis preparar seu Servo para o grande golpe. À 9 de junho, num dos dias da com os padres e de lá mesmo voltassem para suas casas; só um foi infiel à
oitava de Pentecostes, lera no breviário as palavras do salmo 87: “Eu sou pobre, vocação; todos os outros preferiram partilhar a sorte dos demais padres indo
e em trabalhos estou desde a minha juventude, e embora exaltado e elevado, juntos ao exílio. A comunidade de S. Beno contava então quarenta membros,
sinto-me humilhado e contristado”; nesse momento sentiu o corpo tremer como dos quais vinte eram padres e vinte estudantes e irmãos leigos. No dia 20 de
uma vara verde; pôs-se a meditar no que podia significar aquilo e tornou a sentir junho, levantaram-se os religiosos às 3h30min, prepararam-se para a viagem e
o mesmo tremor em todo o corpo; convenceu-se de que era aviso do céu para esperaram os carros que os haviam de separar da cela querida. Os veículos
uma grande tribulação; curvou-se antecipadamente, com toda a resignação, não tardaram a chegar a S. Beno munidos de soldados. Embora de madrugada,
ante a vontade de Deus, e a tranqüilidade tornou a voltar à sua alma. as ruas e as janelas das casas achavam-se repletas de povo; os padres entre-
Nesse mesmo dia foi assinado em Pilnitz o decreto que expulsava os tanto consolaram-se ao verem que os carros seguiam na mesma direção espe-
Redentoristas de S. Beno. Essa ordem fora confeccionada por dois amigos do rando poder juntos beber o cálice da amargura e do desterro; mas essa conso-
Santo: pelo rei da Saxônia e por Breza, secretário do Estado! O rei Frederico lação também evanuiu-se quando, ao sair da cidade, perceberam que os carros
Augusto com lágrimas nos olhos tomou a pena para confirmar o decreto da se dirigiam para direção diversa; separavam-se, talvez para sempre, sem se
expulsão — fizera-o debaixo da pressão do imperador dos franceses. Pelo de- despedirem. São Clemente, sentando em seu carro baixara a cabeça resignan-
creto era permitido aos padres levar consigo suas propriedades pessoais e a do-se com a vontade santíssima de Deus, enquanto que seus dedos desfiavam
viagem deveria ser feita às custas do governo. as contas do rosário da Virgem, e seu coração rezava pelos filhos perseguidos
Aos 14 de junho o decreto chegou às mãos de Davoust, que com a maior e pelos perseguidores. Nenhuma palavra de queixa ou reprovação saiu de seus
circunspecção se preparou para desfechar o golpe; um funcionário, porém, amigo lábios; colocara tudo nas mãos da Providência.
dos padres traiu o segredo; entrou no convento disfarçado por causa da grande Era o fim de S. Beno.
vigilância dos soldados, e na maior reserva contou tudo a S. Clemente, o qual, Durante cinco dias, de carros fechados, foram conduzidos para o Oeste
convocada a comunidade, impôs-lhe o mais rigoroso segredo e narrou o que parando apenas ao meio-dia e à tarde para o descanso dos cavalos — enfim
estava por acontecer. Foi como se um raio, naquele momento, caísse sobre o chegaram a uma cidade cingida de muralhas de todos os lados. Lá havia uma
convento: uns até choraram e soluçaram de dor. Mas não havia tempo a perder; fortaleza, como São Clemente nunca vira na sua vida; — e agora ia vê-la bem
da igreja e da sacristia foram retiradas as alfaias mais preciosas; os ornamen- de perto; a cidade era toda protestante. Os carros pararam em frente a essa
tos foram colocados na cripta; as relíquias repartidas entre os padres e os ir- fortaleza no meio da cidade, abriram-se as portas e os padres receberam o
mãos; estes aprontaram as malas e cada qual recebeu um pouco de dinheiro convite de entrar dentro do soberbo prédio. Foi na cidade e na fortaleza de
para as maiores e mais urgentes necessidades eventuais. Küstrin, perto de Berlim que se reuniram os exilados. A habitação era espaçosa
No dia seguinte houve as cerimônias na igreja como de costume sem que e o tratamento não deixou nada a desejar. Cada um recebeu um quarto separa-
ninguém pudesse suspeitar a menor sombra de novidade. do; na sala grande levantaram um altar, e a comunidade reencetou os seus
O dia 17 de junho foram determinado para a execução do decreto. Pelo exercícios, prescritos pela Regra, como se os Congregados se achassem no
temor de possível sedição popular, foram guardadas militarmente as ruas que convento. Os protestantes sentiam compaixão dos exilados e não tardaram a
iam ao convento; ao meio-dia apareceu em S. Beno a comissão da expulsão; simpatizar-se com eles; em grandes grupos detinham-se perto das janelas a
era hora do culto. São Clemente estava no púlpito a pregar e os padres no ouvir os cânticos que ecoavam pela sala; os pastores protestantes chegaram a
confessionário a ouvir as confissões. A citação foi feita sem mais preâmbulos temer a influência dos sacerdotes católicos sobre as suas ovelhas.
com a obstupefação do povo que viu o Pe. Clemente interromper bruscamente Aos 28 de junho S. Clemente dirigiu uma carta ao arcebispo de Posen,

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agradecendo todos os favores recebidos e dando algumas informações sobre a mentos em Viena.
situação “... conformamo-nos com a sorte que nos coube pela vontade de Deus; Conseguidos os papéis reencetaram a viagem por Olmütz e Brünn até
é-nos suave o sofrimento porque nossa consciência de nada nos acusa; o de- Tasswitz, onde S. Clemente esteve com sua irmã Bárbara. Depois de uma breve
creto nos foi anunciado sem preceder-lhe processo, e foi executado com mais demora na pátria, apressou-se o Santo a partir para a nova residência ao en-
dureza do que fora lavrado... estamos separados de todos e não sabemos por- contro de novos esforços e trabalhos.
que; estamos aqui na fortaleza e só Deus sabe a sorte que nos espera... porém Quem poderia imaginar que aquele sacerdote pobre, perseguido e desco-
em tudo reconhecemos a vontade de Deus que seja sempre glorificado Deus nhecido seria por Deus escolhido como instrumento para a restauração do es-
permitiu isto, porque não éramos o que deveríamos ser”. pírito cristão, da verdadeira piedade e da salvação de inúmeras almas na gran-
A prisão na fortaleza durou quatro semanas passadas na mais escrupulo- de cidade, em que acabara de entrar, e em toda a Áustria, para não dizer no
sa observância regular, semanas de mortificação e de resignação com a vonta- mundo inteiro! Quem acreditaria que aquele homem sem nome, avançado já
de divina; São Clemente nutria ainda a esperança de poder conservar unida a em anos, seria o médico enviado por Deus para inocular nova vida e nova força
sua querida Comunidade; confiava sempre na lealdade e amizade do rei que à Igreja na Áustria que definhava sob o jugo do josefismo nas garras da maço-
tudo faria para o seu regresso a Varsóvia ou a alguma residência na Saxônia. naria!
Eram sonhos! Em meados de julho anunciou-se aos exilados a cassação do Deus assim apraz-se em brincar com os homens; fá-los passar por dificul-
desterro, indo cada um para sua casa. Tremendo golpe para S. Clemente! Se- dades e parece querer aniquilá-los, quando os escolhe para instrumentos da
parar-se dos seus, ver seus planos esfacelados, sua grande obra aniquilada, o execução dos seus grandiosos planos. Deus escolhe o fraco para confundir o
ideal da sua vida para sempre frustrado! O fechamento do convento de São forte, e destruir aquilo que o mundo preza, com aquilo que o mundo despreza.
Beno significava não só a perda de uma residência como Triberg, Babenhausen Vinte anos passaram desde a ordenação sacerdotal de São Clemente até
etc., mas a dissolução da Congregação além dos Alpes. Quando, na fortaleza, a expulsão de Varsóvia, período bastante longo, repleto de trabalhos, de gran-
ele abraçou os seus súditos por despedida, fê-lo pela última vez, porque a mui- des planos, de belas esperanças, de grandiosos sucessos, mas também de
tos dentre eles não veria mais em sua vida. amargas desilusões, de cruéis perseguições, de nefanda ingratidão; foi uma via
Só restava ainda salvar as propriedades da Congregação em Varsóvia: as crucis de vinte anos e de outras tantas estações, cada qual mais doída e tortu-
novas construções, os terrenos adquiridos etc. O Pe. Jestersheim, saxônio de rante. Quem tudo olha só com os olhos da carne, terá compaixão de Clemente,
nascimento, foi incumbido desse negócio, ainda mais que fora ele o Reitor da a quem olhará como a um infeliz sem sorte, que trabalhou em vão. Os desígnios
casa desde a morte do Pe. Thadeu Hübl. São Clemente esperou em Viena a de Deus são imperscrutáveis; todas essas peripécias só serviram para mostrar
solução final de tudo, para de lá tomar a decisão sobre sua futura residência. ao mundo a grandeza da alma de S. Clemente, que qual rochedo inabalável
Consigo levou o clérigo Martinho Stark e o irmão Mathias Wildhalm, os únicos sustentado pelas mãos do Eterno, resistia a tudo depositando inteira confiança
austríacos da comunidade dissolvida. em Aquele que não desampara seus filhos. Nessas desilusões é que admira-
A viagem a Viena não se deu sem dificuldades e dissabores para o Servo mos a santidade do herói, que não abre sua boca para proferir uma palavra
de Deus. No passe recebido do governo estava, com toda a exatidão, determi- sequer contra as disposições admiráveis da Providência.
nada a marcha de Küstrin até Viena. Como porém S. Clemente desejava cele-
brar todos os dias o santo Sacrifício da missa tinha de fazer, às vezes, algum
pequeno desvio para chegar a uma igreja católica, o que não era fácil naquelas
regiões onde dominava o protestantismo. Na Silésia Superior saiu-se mal uma
vez, porque encontrando tropas francesas, teve de lhes apresentar o passe,
que o clérigo Martinho Stark, na grande pressa, perdera com os outros papéis.
Levaram-no ao Comandante que o tomou por espião e já estava para ordenar o
seu fuzilamento, quando apareceu um oficial polaco, conhecido do Santo, o
qual deu informações favoráveis; devido a isso o Santo foi detido em um con-
vento até chegar de Küstrin a notícia de que Clemente e Martinho Stark haviam
recebido o passe. Assim, debaixo de agruras e dissabores, chegou o nosso
Santo às últimas fronteiras do país, ao qual tantos benefícios prestara, em os
dias do seu ativo apostolado. O novo país, que haveria de receber dele as mais
insignes bênçãos do céu, recebeu-o mal até com injuriosa suspeita. Atravessa-
das as fronteiras da Áustria foram logo aprisionados por faltarem, mais uma
vez, os necessários passaportes, e tiveram de esperar até que uma nobre se-
nhora polaca, que se interessara por S. Clemente, lhes procurou novos docu-

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pedou-se com os Servitas enquanto que o Irmão Manoel Kunzmann, que entre-
PARTE TERCEIRA tanto chegara a Viena, encontrou um lugar no convento dos Cistercienses. Qua-
tro Redentoristas achavam-se em a Capital austríaca, porém separados sem
O apóstolo de Viena (1808-1820) formarem comunidade. Na casa de Weyrig S. Clemente era o cozinheiro e as
refeições obedeciam sempre ao mesmo cardápio a saber: pão negro e bolo de
CAPÍTULO I farinha. Não lhe faltaram contudo convites feitos pelos bons amigos que pos-
suía em Viena; às sextas-feiras e aos sábados ia sempre à casa do padeiro “A
Chegada à Viena e pera de ferro” para suas modestas refeições. A pequena Pepi, filhinha do padei-
ro, a qual não era pouco curiosa, observava atentamente, nessas ocasiões,
primeiros trabalhos quanto cada um comia; muitos anos mais tarde ela contou: “Quanto mais insípi-
da a comida, mais parecia ser do gosto de Clemente, que deixava de lado todo
o manjar agradável e apetitoso; creio que ele nunca matou a fome lá em casa”.
Chega à Viena — Dificuldades com a polícia — O racionalismo na Áustria Clemente porém não se demorou muito na casa do seu antigo mestre nos
— Napoleão e Francisco da Áustria — Bombardeio de Viena — Batalha de arrabaldes da cidade; os católicos de Viena, edificando-se desde logo com o
Aspern — Na igreja dos Italianos — Os Mechitaristas — Trabalhos prediletos — procedimento santo de Clemente, fizeram questão que esse homem de tantas
Intimação do governo — Notícias de Valais — Fundação em Friburgo. virtudes se hospedasse no centro da Capital.
Clemente, homem de ação, habituado às lutas, afeito aos grandes empre-
Viena não recebeu com as devidas honras o seu grande Apóstolo, que a endimentos, não podia acostumar-se à vida de completa inação a que se via
visitou no intenso inverno de 1808. Apenas chegado à Capital da Áustria, teve condenado sem nenhuma atividade apostólica. Sem esperança de breve alte-
de avir-se coma polícia, que lendo no passaporte o nome de Clemente Hofbauer, ração em seu modo de viver, Clemente pensava em abandonar Viena. Nas
vindo da fortaleza de Küstrin, se deixou levar pelas mais graves suspeitas; sem horas em que a aflição oprimia sua alma pela solidão em que se via imerso, ia
mais preâmbulos conduziu o pobre padre com seu companheiro ao posto poli- visitar o Santuário da Virgem do Socorro, não distante de Viena; lá desabafava
cial, onde ambos ficaram detidos os três dias inteiros, que foram necessários seu coração apostólico, que clamava constantemente com S. Francisco Xavier.
para o exame dos papéis e as informações a respeito dos prisioneiros. Termina- “Da mihi animas” dai-me almas, Senhor, dai-me a possibilidade de sacrificar-
do e protocolado esse exame, originou-se na polícia nova suspeita, ao verificar me, de imolar-me inteiramente em prol das almas abandonadas, para reconduzi-
que ricos paramentos de igreja acondicionados em dois enxergões e um gran- las ao aprisco e levá-las ao céu. “Prostrava-se em seguida ante o altar do
de caixão, se achava em poder daquele sacerdote. A modéstia excessiva da Santíssimo, onde passava, por vezes, horas e horas a fio em procura de confor-
batina do padre contrastava por demais com a riqueza dos paramentos; daí a to, de animação e de conformidade. O povo de Viena, pouco habituado a seme-
conclusão, de que muito provavelmente deveriam ter sido roubados a alguma lhantes transportes de devoção e fervor, admirava e, em magníficos comentári-
igreja das imediações; e essa suspeita atingiu a seu auge quando o agente os, enaltecia aquele sacerdote que em todo o seu porte, mormente nos mo-
policial encontrou em poder de S. Clemente uma boa quantia de dinheiro. Não mentos da prece, fazia resplandecer um que de extraordinário e divino. Essa
foi difícil ao Santo provar à polícia que aqueles paramentos preciosos, ele os admiração, originada da santidade não comum daquele sacerdote recém-che-
comprara legitimamente quando Superior em Varsóvia, e que aquele dinheiro gado em Viena, não se apoderara só do povo simples, mas sobretudo de pes-
ele o recebera da família Bourbon na Polônia como intenções de missa. Depois soas altamente colocadas como: o arcebispo de Viena Mons. Hohenwart, o
de três dias presos foram postos em liberdade, mas as investigações prolonga- Núncio apostólico Mons. Severoli, Mons. Muzzi, auditor da Nunciatura, o Provin-
ram-se durante meses tantos em Dresden como em Varsóvia e Viena. Foi ne- cial dos Carmelitas e o dos Servitas, os quais se tornaram todos amigos íntimos
cessária a intervenção do Núncio Apostólico, que pediu informações oficiais do nosso Santo.
das autoridades civis e eclesiásticas de Varsóvia a respeito dos objetos levados Nesses primeiros anos de solidão dedicou-se o Servo de Deus, de um
por S. Clemente; somente depois dessas declarações oficiais é que a polícia modo todo especial, à oração, que sabia ser a arma poderosa que conquista o
restituiu os paramentos. Foi nessa ocasião que Severoli escreveu ao bispo de coração do próprio Deus. Orava por seus caros confrades expulsos da Polônia
Varsóvia: “Deus tem permitido que esse seu Servo fiel seja provado por muitas e dispersos pelo mundo para que Deus lhes concedesse a perseverança; orava
contrariedades, para fazê-lo ainda mais digno da sua divina complacência; amo por aqueles confrades que sob a direção do grande Pe. Passerat erravam de
e venero imensamente esse homem de Deus tanto por simpatia pessoal como um lugar para o outro em busca de um seguro abrigo para a Congregação;
principalmente por ele trabalhar tanto pelo rebanho de Jesus Cristo”. orava porém com especial ardor por sua pobre Pátria, presa do racionalismo
Chegados em Viena necessitavam de algum albergue, ao menos para as implantado da França, o qual na Áustria levava o nome de josefismo. Como o
primeiras semanas. S. Clemente lembrou-se do seu velho mestre Weyrig, e intuito do racionalismo é extinguir a fé no coração do povo, projetando sobre
para lá foi com o Fr. Stark num dos arrabaldes de Viena; o Irmão Widhalm hos- todas as verdades, mesmo de ordem sobrenatural, apenas os fracos lampejos

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da limitada razão humana, compreende-se que os seus defensores se empe- zes de combater com vantagem o josefismo e de implantar na Europa a Santa
nhavam em estancar, o mais possível, todas as fontes que pudessem alimentar religião que produz os heróis da virtude e da santidade. S. Clemente, em sua
ou fomentar o sentimento religioso; eis porque na Áustria as leis do josefismo4 grande modéstia estava longe de suspeitar ser ele mesmo o homem escolhido
proibiam as pregações substanciosas da palavra divina, a impressão e difusão pela Providência para debelar o racionalismo e converter a Áustria e a Europa
de livros piedosos, o adorno dos templos, as rezas e devoções públicas, as com a sua palavra e o seu exemplo
missas solenes, a freqüência dos sacramentos etc.; as irmandades foram qua- O próprio Deus se incumbiu de preparar o terreno para a admirável ativida-
se todas abolidas, as procissões restringidas, as romarias formalmente interdi- de apostólica que S. Clemente haveria de desenvolver em Viena. Em 1809 o
tas. O josefismo chegou até a determinar o número de velas e acender-se nos imperador Francisco da Áustria, confiado no auxílio do céu e no patriotismo de
altares durante as cerimônias religiosas; não se podia introduzir nenhuma reza seus súditos resolveu guerrear o imperador dos franceses e humilhar a arro-
nem cantar hino algum a não ser com a alta aprovação e licença do governo. gância de Napoleão; convocou seus soldados, dos quais 176.000 se postaram
Essas leis causaram no princípio a indignação geral; mas, aos poucos, foi-se o nas fronteiras da Polônia, enquanto que 80.000 defendiam a Áustria contra a
povo habituando a elas na medida que desaparecia a fé e o sentimento religio- Itália. Os príncipes alemães acharam mais prudente e seguro combater ao lado
so. Era desolador o estado da religião na Áustria pelos anos de 1808; a vida de Napoleão e abandonaram vergonhosamente o imperador Francisco da Áus-
cristã com seus encantos espirituais era desconhecida entre o povo; os que tria cobrindo-o de injúrias, taxando de loucura e megalomania o seu procedi-
freqüentavam a igreja, aos domingos, faziam-no quase só por costume e tradi- mento em conjunturas tão arriscadas. Napoleão indignado resolvera esmagar a
ção; os homens envergonhavam-se da prática das devoções católicas, que de- Áustria e perder a família dos Habsburgos. A 20 de abril Napoleão, a frente de
nominavam crendices e superstição e temiam ser conhecidos na sociedade seu exército entra na Alemanha e desbarata os austríacos em Abensberg e em
como católicos da têmpera dos antigos, que não baseavam sua crença na pala- Eckmühl, avançando até Viena; a 10 de maio assedia a Capital, cujo imperador
vra do homem nem nos ditames da falível e fraca razão humana, mas sim na fugira para a Hungria com toda a família. Nenhuma potência ousou levantar-se
autoridade de Deus que tem poder e direito de manifestar sua vontade ao ho- para terçar armas em defesa da Áustria. A 12 de maio começou Napoleão a
mem e de lhe revelar seus mistérios e suas verdades. bombardear Viena — e de momento a momento crescia o furor do bombardeio;
Nos templos as pregações não eram vazadas nos moldes da simplicidade bombas sibilavam pelos ares, penetravam nas casas dos particulares produzin-
e liberdade apostólicas, nem versavam sobre as verdades substanciosas do do o pânico em toda a cidade. Todos tremiam, só Clemente conservava a sere-
dogma ou da moral cristã e muito menos sobre as verdades eternas, mas limi- nidade d’alma, depositando toda sua confiança em Deus, e qual outro Moisés
tavam-se a frases vazias de sentido, períodos altissonantes, floreados retóricos, dirigia ao céu as mais ardentes preces em favor de sua pátria enquanto fervia o
terminologia insípida de humanidade e filantropia e quejandas expressões, in- combate; da oração levantava-se ele apenas para animar e consolar as famíli-
ventadas para o engano da humanidade. Isso eram, aliás, muitíssimo natural, e as; não era fácil a sua tarefa porque as bombas caíam sobre a cidade como as
nem se podia esperar outra coisa dos sacerdotes formados nos seminários gotas d’água numa chuva impertinente. A família Weyrig, onde se achava Cle-
gerais do governo, onde os jovens bebiam a largos tragos o espírito envenena- mente, parecia desesperar, quando Clemente a sorrir mandou que todos se
do das leis e da doutrina do josefismo. ajoelhassem para implorar do céu a proteção; rezava a família quando uma
No ano em que S. Clemente foi a Viena, i. é em 1808 já não existiam esses bomba penetrando pela janela passou por cima das cabeças dos que oravam e,
tais seminários, mas o seu espírito ainda perdurava. Nas escolas públicas ensi- sem explodir, rolou tranqüila a um canto do quarto. O bombardeio não tardou a
nava-se às crianças o catecismo explicado segundo as normas do racionalismo5, cessar porque Viena se entregou depois de algumas horas; a casa em que
de acordo com os princípios de Pestalozzi e de Rousseau. Nos ginásios confir- estivera o Servo de Deus não sofreu a menor arranhadura, não obstante achar-
mava-se o racionalismo, que atingia seu auge nas universidades, onde se ouvia se no ponto da cidade, onde o fogo era mais violento e terrível.
a filosofia de Kant sem palavra alguma que pudesse abrir aos alunos os hori- Napoleão entrou na cidade, onde não se demorou muito; correu com seu
zontes sublimes da verdade católica, que enleva o espírito e conforta os cora- exército contra o grão-duque Carlos, que se aproximava para à defesa de Vie-
ções. A conseqüência natural de tudo isso era o ódio ou, pelo menos, o despre- na. As primeiras bombas de combate de Aspern foram ouvidas na Capital da
zo ao clero, a liberdade mal entendida de cada um poder formar a sua religião e Áustria a 21 de maio. Clemente sabia que daquela batalha dependia a sorte da
forjar a sua crença de acordo com as suas comodidades, os seus interesses e sua pátria, que ele queria salva e grande; corre pressuroso a Jesus no
os seus caprichos. tabernáculo, ajoelha-se e de braços abertos pede a Deus a vitória, ou pelo
São Clemente, ao chegar a Viena, viu logo o abismo em que se precipitava menos, a salvação da sua pátria. Entretanto lá fora o combate tornava-se renhi-
sua pátria, e a ruína de milhares e milhares de almas; quis logo levantar a voz, do e feroz; as bombas pareciam querer escurecer o sol e o combate perdurou
clamar, ensinar, persuadir, mover, converter, porém debalde; foi-lhe imposto o até a noite sem resultado definitivo; ao romper da aurora Napoleão recomeçou
mais rigoroso silêncio tanto no púlpito como no confessionário. Só uma coisa o ataque saudando os austríacos com uma salva de bombas que fizeram estre-
podia ele fazer: rezar e rezar bastante — e Clemente orava, pedia a Deus se mecer as vidraças de Viena; foi para São Clemente o sinal de que era chegada
amerceasse do pobre povo e lhe mandasse homens de valor e de peso, capa- a hora de ele se prostrar novamente aos pés de Jesus no tabernáculo. E a

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oração de S. Clemente foi atendida pelo céu. No último ataque feito por Napoleão, am em Viena; aos poucos tornou-se bem considerável o núcleo de vienenses
tornou-se a luta encarniçada; o desespero apoderou-se dos franceses, o grão- que se agrupavam ao redor do confessionário do nosso Santo.
duque Carlos saltou do cavalo e à frente dos seus soldados empunhou a ban- Em 1809 os padres Mechitaristas6, acossados pelos franceses, de Trieste
deira animando com seus exemplos e com seu valor os soldados que o segui- foram procuram um abrigo em Viena, onde o imperador lhes cedera o antigo
ram vibrando de entusiasmo; mais umas poucas horas e o campo de batalha convento dos Capuchinhos. No princípio o povo assustado por aquelas figuras
achava-se em poder dos austríacos; era a primeira batalha aberta que Napoleão barbadas e de rito tão diverso, não quis freqüentar a igreja dos recém-chega-
perdia. Quem reconhece que é Deus quem distribui as vitórias segundo os dos. S. Clemente compreendendo o embaraço daqueles sacerdotes, foi ter com
sapientíssimos desígnios da sua Providência, não hesitará em crer que a famí- eles e lá permaneceu três semanas auxiliando-os no arranjo da casa, pregando
lia Habsburgo foi salva mediante as súplicas do grande Apóstolo de Viena, pois e ouvido as confissões, numa palavra, envidando os maiores esforços para que
que Deus não deixa de atender os pedidos dos seus Santos. Se a Áustria não os Michitaristas fossem conhecidos e estimados do povo. É por esse motivo que
venceu em Wagram, foi por disposição da Providência; pois que no caso de esses religiosos, reconhecidos e gratos para com S. Clemente, lhe dão o honro-
vitória o josefismo ter-se-ia consolidado na Áustria e produzido à pátria de S. so nome de “Anjo da Guarda da Congregação”.
Clemente maiores males do que poderia fazer a derrota dos austríacos por Como uma das virtudes mais características do nosso Santo era a cons-
Napoleão. tância em todos os seus trabalhos, quando neles entrevia algum aumento da
Porém não foi só com suas orações que o servo de Deus prestou à sua glória divina, ou algum proveito espiritual para as almas, permaneceu quatro
Pátria relevantes serviços nessa ocasião. Os soldados feridos nas grandes ba- anos quase inteiros na igreja dos Italianos a ouvir pacientemente as confissões
talhas foram conduzidos em massas para a cidade e, como conseqüência natu- das numerosas pessoas que o procuravam, e a apurar conversões estupendas
ral, a febre tifóide começou a grassar desastradamente em Viena, cujos habi- que só Deus conhece. São Clemente pregava apenas uma ou outra vez nas
tantes se alarmaram. O bispo convocou o clero, e ele, ancião de seus 79 anos, igrejas dos arrabaldes de Viena, porém a sua pessoa não tardou a empolgar a
deu a todos o bom exemplo trabalhando incansável nos hospitais da cidade e população vienense. Crianças, jovens e adultos de todas as classes procura-
dos arrabaldes. S. Clemente recebeu especial convite para os hospitais milita- vam avizinhar-se dele, para de seus lábios ouvirem falar de Deus e da religião.
res, onde dia e noite se cansava no cuidado espiritual e temporal dos pobres Um senhor de Würzburg que gostava de freqüentar a igreja dos Italianos, já
enfermos, esquecendo-se de si próprio, do sono e da fome para que aos doen- naquele tempo pôde escrever: “De 1811 a 1812 fui eu diversas vezes à igreja
tes nada faltasse. Foi nessa ocasião que um soldado sem religião no auge do dos Italianos, que se achava sob a direção do Pe. Clemente Maria Hofbauer;
desespero clamou ao avistar S. Clemente: “Venha aqui, que lhe quero arrancar sua humildade e devoção edificaram-me tanto, que me parecia ver um anjo do
os olhos”. S. Clemente foi ter com o infeliz e com suas palavras repassadas de céu. Desejava muito falar com esse distinto sacerdote, mas um notável número
bondade e de fé converteu-o para Deus inoculando-se na alma sentimentos de de moços que o rodeavam, não me deixou chegar até ele; nunca em minha vida
arrependimento e de confiança em Deus. Muitos sacerdotes perderam sua vida tinha eu visto um homem como o Pe. Clemente”. O nome de S. Clemente come-
nessa época de heroísmos. A S. Clemente Deus reservara para coisas maiores çava a ser pronunciado pelas altas rodas da cidade com admiração e amor; as
e mais importantes empreendimentos. As portas do apostolado em Viena esta- pessoas mais distintas pelo nascimento ou pelas belas qualidades pessoais
vam abertas dessa data em diante, ao nosso Santo. alistaram-se no rol dos penitentes do nosso Santo, a quem abriam seus cora-
Como nos hospitais militares de Viena havia uma infinidade de soldados ções. Uma das mais notáveis figuras femininas de Viena, Júlia Zichy, a mais
franceses e italianos, foram destacados para o serviço dos soldados enfermos nobre matrona da Capital, em a qual, como disse alguém, no mais puro ideal do
todos os sacerdotes da Capital, que pudessem prestar serviços nessas duas feminismo resplandecia a maior beleza, a expressão da inocência e da virtude
línguas; entre esses distintos sacerdotes achava-se também o Pe. Luiz Virginio, em toda a plenitude, depois de conhecer o Pe. Clemente, cuja vida santa e cuja
Diretor da Igreja dos Italianos em Viena. Tendo Deus levado para melhor vida o ciência sobre-humana admirava, deixou-se vencer pela graça e tomou-o por
Pe. Virginio, que faleceu vítima de seus trabalhos em prol dos soldados, cuja diretor espiritual. O mesmo deu-se com a donzela distinta tanto por sua beleza
moléstia contraíra, passou a direção da Igreja dos Italianos ao venerando Pe. e espírito como por sua ilustração e nobreza de sentimentos, Nina Hartl; dei-
Caselli, que não podendo lá trabalhar em virtude de sua idade avançada, rece- xou-se guiar em tudo pela mão firme e santa de Clemente, encontrando na vida
beu um coadjutor na pessoa de S. Clemente, a quem deu carta branca no ser- austera a maior consolação para sua alma.
viço espiritual da igreja. Era pois S. Clemente quem desempenhava todas as Enquanto tudo parecia correr às mil maravilhas, preparava Deus amargos
funções religiosas na vasta e bela igreja; o trabalho porém era pouco, porque golpes para o coração de São Clemente. A polícia continuava a persegui-lo sem
quase não havia pregações durante o ano, e porque na quaresma, o único lhe permitir sossego. Ao perceber o governo que o arcebispo de Viena protegia
tempo em que se podia anunciar a palavra de Deus, era costume chamar da a Clemente dando-lhe até uma colocação na igreja dos Italianos, indignou-se e
Itália algum orador de celebridade mundial, para deliciar os ouvidos dos italia- protestou contra o Ordinário, que se defendeu com um tanto de azedume. O
nos de Viena. O serviço principal de Clemente era o confessionário, onde ele chanceler Ugarte que em nome do governo, desejava ver o nosso Santo pelas
passava boa parte do dia, sendo procurado mormente pelos polacos que residi- costas, propôs a S. Clemente a alternativa: “Ou emigrar ou abandonar a Con-

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gregação que não era reconhecida na Áustria”. Clemente, torcendo da alterna- Na Polônia ia tudo de mal a pior. O governo do arquiducado de Varsóvia
tiva, declarou querer terminar a vida em sua pátria. O nosso Santo assim res- caíra em poder da loja, muitas igrejas foram profanadas e entregues a fins me-
pondeu ao chanceler porque nutria a convicção íntima de trabalhar pela Con- nos dignos. São Beno não conseguiu escapar à sorte infeliz: tornou-se primeiro
gregação e conseguir para ela a confirmação e a consolidação na Áustria. arquivo nacional e depois cutelaria. Pobre Polônia! S. Clemente nunca mais
Em Valais ia tudo bem como diziam cartas do Pe. Passerat. Os padres pôde olvidar a bela Polônia que ele amava sinceramente e onde derramara os
Redentoristas trabalhavam lá assiduamente na vinha do Senhor, e esperanço- primeiros suores do seu intenso apostolado. As saudades torturavam-lhe o co-
sos olhavam para o futuro, pois que tinham vinte jovens a completar o estudo da ração. Parecem não ser mais do que um eco das conversas prolongadas com o
filosofia e teologia. Foi nessa ocasião que o Pe. Passerat, fatigado de tantos Núncio apostólico as palavras, que este escreveu ao bispo de Varsóvia: “Pode-
esforços, rogou a S. Clemente, se dignasse nomear o Pe. José Hofbauer Reitor remos ainda esperar a volta desse homem extraordinário e de seu Instituto a
da Suíça, pois que tudo estava em ordem e o futuro da Congregação parecia já essa cidade? oh! quem dera, quem dera!”
garantido. S. Clemente porém que pensava de outra forma escreveu ao Superi-
or Geral; “Pe. Passerat é um homem extraordinário em prudência e piedade,
exige de todos a observância exata das Regras e Constituições sendo em tudo
a paciência personificada; possui extraordinário zelo e não foge dos trabalhos
nem teme os perigos...; nele tem a Congregação o modelo de todas as virtudes;
se aprouver a Deus chamar-me deste mundo, desejo e peço que ele seja meu
sucessor no cargo que ocupo”.
Não obstante toda a tranqüilidade do momento, Passerat procurava um
lugar seguro de refúgio e suas vistas dirigiam-se para Würzburgo, e com razão,
porque, como pressentira, ainda nesse mesmo ano Valais tornou-se um depar-
tamento francês, passando os Redentoristas com essa mudança de governo a
súditos de Napoleão, que os não podia tragar; era pois necessário fugir. Mas
para onde? Na incerteza em ponto de tanta relevância foi a Viena consultar S.
Clemente e o Núncio apostólico. Este opinou que em vista das circunstâncias
alarmantes e excepcionais os padres deveriam continuar na Suíça trabalhando
e vivendo cada um em seu canto. Estava pois novamente dissolvida a Congre-
gação além dos Alpes. Na Polônia e na Suíça viviam os padres, em grupos de
dois, nas paróquias ou no seio das famílias. A única coisa que Clemente podia
fazer era esperar e confiar em Deus, e para isto não havia lugar melhor do que
Viena, ainda mais que de lá lhe era mais fácil do que de qualquer outro lugar,
entender-se e cartear-se com os confrades dispersos na Polônia e na Suíça.
Sendo Viena a cidade mais central de toda a Europa, de la acompanharia com
mais facilidade os acontecimentos e com mais vantagem trabalharia na execu-
ção dos seus gigantescos planos.
Entretanto o Pe. Passerat corria todos os países e cidades da Europa em
procura de um abrigo para os seus estudantes; rechaçado de todos os lados
nunca perdeu a coragem nem a confiança em Deus. Em Friburgo encontrou
enfim uma casa, para onde transferiu os seus estudantes, que deveriam fre-
qüentar a universidade lá existente, os outros padres permaneceram nos luga-
res onde se achavam na Suíça e na Alsacia. Desejoso de conservar nos seus
padres o espírito religioso, não obstante as dificuldades dos tempos, Passerat
visitara ora um ora outro nas paróquias. Os que estavam mais perto iam procurá-
lo em Friburgo. O quanto rezava Passerat por seus súditos testemunham seus
dedos calejados de passar as contas do rosário. S. Clemente entregou por es-
crito todas as suas faculdades de Vigário Geral ao Pe. Passerat, porque vigiado
e espionado sempre pela polícia não lhe era possível manter com a Suíça a
correspondência epistolar regular.

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de todos os pontos da cidade, de sorte que a igreja se tornava demasiado pe-
quena para conter a multidão, que desejava assistir as santas cerimônias do
culto que em sua beleza e majestade empolga os corações. Os sacerdotes da
cidade percebendo o movimento religioso que se desenvolvia em a Igreja de
Sta. Úrsula, edificados com a devoção da multidão e com os cânticos devotos
CAPÍTULO II que ecoavam pelas abóbadas do templo, faziam questão de participar daquele
ambiente de santidade e iam celebrar diariamente em Sta. Úrsula, de sorte que
O primeiro ano em Santa Úrsula lá havia ininterruptamente missas desde manhã até o meio-dia. A polícia pouco
se incomodou com essas cerimônias proibidas pelo josefismo, porque os gran-
des do império, entre eles o próprio irmão do imperador, freqüentavam a igreja
Obrigações do Reitor da igreja — Reformas — Santa Úrsula adquire gran- e se edificavam com a piedade e devoção do povo. Aos poucos também outras
de nome — Os primeiros trabalhos na cura d’almas. igrejas de Viena começaram a imitar o Reitor de Sta. Úrsula.
Esse movimento todo porém não se realizou da noite para o dia. Só com o
Em 1813 houve uma pequena mudança na vida externa de S. Clemente. tempo, com paciência e com um trabalho aturado é que se pôde desfazer a
Falecendo nessa data o diretor espiritual das Irmãs Ursulinas de Viena, S. Cle- prevenção de um povo. Já no primeiro domingo depois de empossado no cargo,
mente foi investido desse cargo pelo bispo Hohenwart, e nomeado Reitor da perguntou Clemente a que hora costumava ser a pregação naquela igreja. Ou-
Igreja de Santa Úrsula. Com esse ato do Arcebispo de Viena S. Clemente dava vindo não ser costume pregar em Viena senão nas maiores festividades do ano,
mais um passo para a realização dos seus grandes desejos: possuía enfim uma o novo Reitor admirou-se e mandou ao sacristão tocar festivamente para que o
igreja da qual podia dispor e onde podia pregar a palavra de Deus livremente. povo soubesse que lá haveria pregação naquele dia; embora no princípio, só
Como continuasse ainda no posto que tinha na igreja dos Italianos, deixou poucas pessoas fossem à igreja nem por isso deixava ele de anunciar a palavra
lá o Pe. Martinho Stark fazendo as suas vezes, enquanto ele com o Pe. Sabelli, divina; pregou sempre todos os domingos e dias santificados. A pregação era
que viera da Suíça, passou a residir na nova casa contínua à padaria “A pera de para ele uma necessidade, queria converter o mundo inteiro e naqueles tempos
ferro”. Dois quartos no andar superior e uma pequena sala de expediente for- calamitosos, a pregação era quase que o único meio de restabelecer a fé em
mavam então a sua nova morada; mais tarde ele ocupou os outros dois aposen- tantas inteligências extraviadas e de afervorar a piedade nos corações bem
tos do terceiro andar. As refeições vinham da cozinha do convento em uma intencionados.
espécie de marmita. A única obrigação a que se sujeitava aceitando o novo E, coisa admirável, o povo começou a interessar-se pelas pregações
cargo, consistia em ouvir semanalmente as confissões das religiosas. As confe- substanciosas de S. Clemente, de sorte que a igreja se enchia já muito antes de
rências não estavam então em uso. Menos trabalho tinha ainda ele na igreja do começarem as cerimônias, devendo o resto ouvir as pregações das ruas e dos
convento, porque lá não era costume fazer pregação, e além disso o Reitor da largos; e entre os ouvintes de Clemente não se encontravam apenas velhas e
igreja era coadjuvado por um capelão. Não obstante, esse novo posto marcava crianças, empregadas ou cozinheiras, mas também pessoas da mais fina soci-
um dos pontos mais importantes para a vida de S. Clemente em Viena: pois que edade, homens de peso e de talento, doutores e professores e até pregadores
Sta. Úrsula se tornou propriamente o lugar do seu apostolado na Capital da de fama, que iam a Santa Úrsula aprender o segredo de empolgar o povo. Os
Áustria, como veremos adiante. primeiros anos do esconderijo do Santo tinham pois desaparecido; seu nome
Empossado no seu cargo começou S. Clemente por reformar a igreja que de pregador era pronunciado com admiração e amor em quase toda a cidade
lhe acabava de ser confiada: refez o assoalho, caiou as paredes, providenciou de Viena, e seu confessionário permanecia assediado desde a manhã até ao
os bancos, encomendou novas estátuas, levantou novos altares, conseguiu novos meio-dia. Com o aumento diário do trabalho em sua igreja viu-se ele obrigado a
paramentos para o Santo Sacrifício e para as demais funções do culto, introdu- levantar-se diariamente as quatro horas da manhã, às vezes até um pouco
ziu o cântico piedoso, celebrou com pompa as festas religiosas, numa palavra, antes; para não perder a hora, na falta de um despertador, combinou com o
reformou de tal modo a igreja, que nas imediações não se encontrava uma guarda noturno da cidade que o despertasse. Depois da meditação ia ao con-
outra que se lhe pudesse comparar. Vendo a boa vontade do Reitor, o povo não fessionário, donde não se levantava antes das 10 horas em que subia ao altar
se negou aos pedidos de S. Clemente: nunca lhe faltaram flores, velas, adornos para o santo Sacrifício.
nem dinheiro para a casa de Deus; São Clemente não conhecia economias. A Duas vezes por semana levantava-se ainda mais cedo porque costumava
semana Santa, a festa de Corpus Christi e a adoração das quarenta horas eram levar à igreja dos Mechitaristas, distante meia hora, pão e outros objetos para
celebradas com toda a pompa na Igreja de Santa Úrsula. Para esse fim S. Cle- os pobres que lá se reuniam. À tarde fazia suas excursões pela cidade e pelos
mente convidava sacerdotes e clérigos que abrilhantassem as cerimônias reli- arrabaldes em visita aos pobres, doentes e moribundos. Quantas vezes não se
giosas; não poucas vezes ia o próprio Núncio apostólico pontificar na Igreja de levantou ele, alta hora da noite, o solidéu na cabeça e uma lanternazinha na
Santa Úrsula. O povo que já não estava habituado a essas solenidades afluía mão para sacramentar moribundos nos arrabaldes da cidade!

48 CAPÍTULO III
O maior perigo para a Igreja na Alemanha e na Áustria não era tanto a sua
desorganização externa mas sim a desorientação dos seus governantes. A par-
te mais influente do clero, inspirada por Wessenberg que governava a diocese
de Constança na qualidade de vigário geral de Dalberg, primaz da Germânia,
pretendia a emancipação completa e absoluta do episcopado alemão em rela-
ção à Cúria Romana; com outras palavras, trabalhava para a formação de uma
Igreja nacional e independente. O Núncio Severoli que esperava tudo do Con-
O Congresso de Viena gresso, já meses antes começara os preparativos, aprontara os papéis, tomara
as informações necessárias, aconselhara-se com todos os católicos de nome
na Áustria, e de um modo todo especial, com S. Clemente, cuja prudência e
Clemente na lista dos bispos — Igreja nacional — O desinteresse pela zelo apostólico faziam jus à admiração universal. Em princípios de setembro
religião no Congresso — Desunião de vistas — Os três defensores — Atrás dos escrevera ao cardeal Litta: “O nosso Pe. Clemente tem idéias grandiosas; dese-
bastidores — Trabalho depois do Congresso. jara que ele estivesse em Roma para expor tudo a V. Eminência”. Uma dessas
idéias grandiosas, de que fala o Núncio, era estreitar e tornar mais íntimas as
As guerras contínuas daqueles anos arruinaram política e economicamen- relações entre Roma e a Germânia, o que se poderia facilmente conseguir, pelo
te a Europa inteira, que se sentiu aliviada com a derrota final do imperador dos interesse que Roma deveria tomar pelas coisas e pelo povo do Norte e pela
franceses, que terminou sua vida no exílio de Sta. Helena. A Igreja ressentiu-se abertura de um grande Colégio em Roma para os alemães, que assim entrari-
imensamente de todas essas devastações. Wessenberg descreve o estado am em contato com a Igreja, amando-a com mais calor, trabalhando por ela
tristíssimo em que se achava a religião na Alemanha e Áustria do modo seguin- com melhor vontade. O nosso Santo lamentava amargamente o pouco interes-
te: “Há doze anos que a Igreja na Alemanha, a qual antes gozava do maior se manifestado em Roma e a pouca vontade de ela se amoldar ao gênio e ao
esplendor, se acha em um estado de abandono sem igual na história. Rouba- modo de pensar dos germanos, cujos corações com facilidade se poderiam
ram-lhe os bens que possuía, subtraíram-lhe o apoio legal às suas mais antigas entusiasmar pelas belezas e grandeza da Igreja de Roma.
Constituições; negaram a subvenção a seus estabelecimentos e institutos mais Não obstante tudo isso era grande a esperança no resultado do Congres-
essenciais; os bispados acham-se devastados, o cabido catedrático está a expi- so, do qual dependeria a prosperidade da religião de Nosso Senhor na Europa.
rar, sua atividade reprimida, a execução de suas leis impedida”. A todos esses Foi providencial a estada de S. Clemente em Viena nessa época, como
abusos deveria o Congresso de Viena trazer um remédio eficaz. Segundo o veremos em breve.
disposto no tratado de Paris de 10 de maio de 1814, reuniram-se as potências Os príncipes congressistas pouco ou nada se interessavam pela religião,
européias em Viena para tratar da reorganização da Europa, cujo equilibro pe- tendo em vista apenas o bem material e financeiro dos seus Estados e reinos. O
recera de todo. Nesse grande senado europeu estiveram pessoalmente pre- único que de coração se batia pela causa de Deus era o príncipe da Baviera.
sentes os monarcas da Prússia, da Rússia e da Áustria com a maior parte dos Entre os que deviam defender a Igreja, havia grande deficiência e desunião de
soberanos secundários da Alemanha. O Papa foi representado pelo cardeal vistas; o cardeal Gonsalvi, representante da Santa Sé, estava pouco enfronhado
Gonsalvi. nos negócios e intenções da Alemanha. Severoli carecia de toda influência; o
Nesse congresso reunido em fins de setembro de 1814 tratou-se, entre trunfo do Congresso era Wessenberg que representava o arcebispo Dalberg.
outras coisas, da abolição do decreto sobre as nomeações dos bispos, pois Diplomata consumado sabia torcer-se para todos os lados, distribuindo sorrisos
que, por causa dele, das trinta e quatro dioceses só cinco estavam providas. a gregos e troianos; por suas maneiras gentis, suas palavras amáveis e sua
Para o provimento desses bispados foram apresentadas duas listas, numa das pouca consciência soube conquistar a simpatia dos príncipes e dos adeptos do
quais se achava o nome de Clemente; corria o boato de que S. Clemente seria josefismo, e como maçom que era, envidou todos os esforços, abusando da
nomeado bispo dos Balcãs; isso causou protesto entre os numerosos amigos sua influência, para conseguir a formação da igreja nacional. A seu lado eram
do Santo, que o reclamavam para qualquer diocese na Áustria ou na Alemanha. incansáveis os representantes da Prússia, Hannover, Nassau e Münster. O pró-
Severoli escreveu ao cardeal Litta: “A estima que esse homem goza na Alema- prio cardeal Gonsalvi, que nada suspeitava de Wessenberg, em cuja probidade
nha é muito grande, porque ele conhece as necessidades do povo em todos os confiava cegamente, não poucas vezes a ele se dirigiu pedindo conselhos e
sentidos... V. Excia. o ficou conhecendo qual Jeremias por seus lamentos... mas consultando-o em questões da maior relevância.
esteja certo que ele é também um Daniel por sua prudência e um grande Santo A defesa dos interesses da Igreja estava toda nas mãos de três homens,
em sua vida”. E Litta respondeu: “... aprovo o plano de dar ao Pe. Clemente um que agiam independentes e em nome próprio, a saber o barão Francisco de
bispado na Alemanha; fique certo de que terei imenso prazer se isso se der”. Wambold, José Helfferich, deão de Spira, e José Spies, sacerdote de Worms;
Isso tudo porém ficou sem efeito devido ao mau êxito da concordata entre a junto com eles agia incansavelmente José Schlegel, adido ao ministério do Ex-
Alemanha e a Santa Sé. terior na Áustria. Só por um verdadeiro milagre explica-se o fato de poderem

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esses três homens, aliás sem influência extraordinária, resistir a todos os diplo- o mundo; eu confiei nele, e o mundo me enganou vergonhosamente; não confieis
matas do Congresso, que não eram poucos, e impedir a realização dos planos nele mas permanecei fiéis à Igreja”. Dalberg teve uma morte edificante em 1817.
de Wessenberg e de todos os seus grandes amigos e admiradores. Atrás dos Vagando com sua morte a diocese de Constança S. Clemente apressou-se a
bastidores trabalhava um outro, que por sua prudência e santidade valia mais escrever a Roma, em nome do Núncio Severoli, apresentando para sucessor
que todos eles: era S. Clemente. O Reitor da Igreja de Santa Úrsula, embora de Dalberg o seu amigo Wambold, o grande batalhador pela causa da Igreja.
não tivesse assento no Congresso, nada deixou por fazer a fim de evitar a ca- Com esse último ato S. Clemente terminou a obra grandiosa que começara no
tástrofe tão sinistra, que parecia inevitável. Não passava um dia, sem que Congresso de Viena: destruiu os planos dos inimigos da Igreja e consolidou a
Helfferich fosse ter com S. Clemente a examinar com ele os papéis e as propos- obra de Cristo assegurando-lhe brilhante futuro.
tas que iria fazer no Congresso, a provar os argumentos e os arrazoados que
pretendia desenvolver com energia na presença dos nobres Congressistas. Os
outros amigos e discípulos de São Clemente preparavam a opinião pública por
meio de artigos calorosos nos principais diários de Viena, expondo com clareza
e entusiasmo o que ouviam do seu Mestre; até o príncipe da Baviera ia pedir as
instruções e os conselhos de Clemente, que tomara por confessor nos dias da
sua estada em Viena; é notório que ele uma vez ficou conferenciando com o
Reitor de Santa Úrsula das 8 horas da noite até à 2 da madrugada ventilando
as mais intrincadas questões e dilucidando os pontos mais importantes a tratar-
se na seguinte sessão do Congresso. Zacharias Werner, o discípulo e amigo de
S. Clemente, recebeu de seu Diretor ordem expressa de pregar em todas as
igrejas de Viena, durante o tempo do Congresso, sobre os pontos religiosos em
discussão orientando o povo e preparando os ânimos. A forma literária de seus
sermões, sua conversão sensacional, seu modo original de expor as teses, sua
bela linguagem, suas descrições poéticas e franqueza rude atraíam as multi-
dões para a igreja onde pregava; a afluência, por vezes, era tamanha, que al-
guns por falta de espaço no templo, subiam em cima dos altares e dos confes-
sionários para não perderem a ocasião de ouvi-lo. O inspirador de Zacharias
Werner era o nosso Santo que, em tudo isto, visava o triunfo da Igreja e a glória
de Deus.
Se Clemente não conseguiu quanto desejava do Congresso, teve a glória
de salvar a Áustria do cisma que a ameaçava, e de destruir por completo os
planos da separação excogitados e defendidos pelo poderoso Wessenberg. Essa
vitória foi uma das mais gloriosas, que S. Clemente alcançou em sua vida.
Terminado o Congresso, o nosso Santo não quis descansar à sombra dos
louros colhidos; colocou-se de atalaia para que não perigasse o que com tanto
esforço conseguira. Em qualquer perigo mobilizava os seus, e com exatidão
punha Roma ao par de tudo quanto se passava na Áustria. Em 2 de julho de
1818 escreveu entre lágrimas a Pio VII, expondo-lhe as dificuldades da Igreja
em sua Pátria e os perigos que lá ameaçavam a cristandade. “Não tememos
pela Igreja, cuja pedra fundamental foi lançada por Jesus Cristo, mas receamos
uma lamentável separação, cujos inícios parece-nos já perceber, e essa sepa-
ração começa a efetuar-se com tanta petulância e progride tão espantosamen-
te, que quase já não podemos esperar consolação nem auxílio senão do céu,
da intercessão dos Santos”.
Clemente entretanto rezava com insistência pela conversão dos que per-
seguiam a Santa religião. Dalberg, logo depois do Congresso converteu-se sin-
ceramente, separou-se de Wessenberg, detestou sua ação separatista e mui-
tas vezes repetia a seus alunos em Ratisbona: Meus senhores, não andeis com

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sermões não eram pregações temáticas nem homilias propriamente ditas, mas
qualquer coisa intermediária entre essas duas espécies de manifestação orató-
ria. Do púlpito ou do altar lia o Evangelho ao povo, e durante a leitura intercalava
observações oportunas; continuava em seguida, sentença por sentença, demo-
rando-se em uma menos e em outra mais, explicando em cada uma delas um
CAPÍTULO IV dogma da fé ou um mandamento qualquer; com os princípios do Evangelho
confrontava os costumes em voga e as idéias do tempo, exortando sempre com
O sábio pregador palavras quentes e insinuantes a que todos se convertessem e praticassem a
virtude e a piedade. Por vezes acontecia que em um só sermão tratava de
assuntos diversos; assim, p. ex., na festa do nome de Maria a 10 de setembro
Exposição original e simples — O médico subjugado — Um velho funcioná- falou ele sobre a santificação do domingo, a infalibilidade da Igreja, a devoção a
rio josefino — Rir-se por último — Sua mímica no púlpito — temas prediletos — Nossa Senhora e a vida religiosa. S. Clemente não era orador; a sua estada no
Apreciações populares — Proibição de pregar... estrangeiro durante muitos anos pode ter sido causa de a sua linguagem
vernácula não ser castiça nem escorreita. Ele pouco se preocupava com a ele-
São Clemente era um sacerdote e um apóstolo segundo o coração de Deus; gância da forma; vestia seus possantes pensamentos em roupagem simples,
exercia o munus sacerdotal com santo entusiasmo e escrupulosa exatidão; nessa repetindo e repisando muitas expressões que se tornaram estereotípicas. E
esfera de pregador e diretor de almas é que ele se mostrou, à evidência, o não obstante, S. Clemente empolgava e eletrizava como nenhum outro prega-
verdadeiro apóstolo de Viena. O modo original com que se havia no exercício dor em Viena; sabia o segredo de arrebatar enchendo as almas de uma unção
desse cargo, tornou-o popular na grande Capital e rompeu com todo o pedan- sobrenatural, de sorte que até os mais eruditos profundamente consternados
tismo introduzido pelo josefismo na Áustria. Um professor de teologia pastoral diziam: “Uma só palavra da sua boca basta-nos para a semana inteira”. Em
em uma preleção científica sobre as medidas de prudência a tomar-se na admi- parte explica-se isso por ser seu modo de pregar um contraste com o adotado
nistração dos sacramentos aos enfermos, notou que conhecia em Viena um em Viena e pelo tom de convicção e de fé com que São Clemente discorria
sacerdote muito distinto que não observava nenhuma das regras expostas e sobre as verdades da religião; mas o segredo dessa força mágica está na san-
que, não obstante, conseguia os mais estupendos resultados: era São Clemen- tidade de Clemente e no seu zelo apostólico.
te. Essas palavras referiam-se a todo o seu apostolado que se distinguia e so- A simplicidade da sua pregação não prejudicava em nada a profundeza e
bressaia pela sua originalidade; por isso nem todas as particularidades da sua perfeição de suas explicações e argumentações, e não o impedia de expender
atividade apostólica são para todos indistintamente a serem imitadas literal- seus vastos conhecimentos da Escritura e dos Santos Padres. Com facilidade
mente. O jovem sacerdote Dom Pajalich edificado e encantado com o resultado estupenda sabia explicar e expor a seus ouvintes os mais profundos mistérios
obtido por S. Clemente, quis em tudo imitar seu mestre, mas saiu-se mal: assim da fé satisfazendo igualmente aos ignorantes e aos doutos.
começou a andar pelas ruas da cidade de cabeça descoberta, como o fazia Muitos iam assistir os sermões de Clemente com o fim de ridicularizar a
sempre S. Clemente, mas as vaias estrondosas da criançada fizeram-lhe cobri- oração e o orador; entravam no templo e, logo às primeiras palavras, ficavam
la novamente; entrou uma vez sem cerimônias na casa de um luterano para presos pela eloqüência, pela convicção e unção sobrenatural do Santo, voltan-
convertê-lo, mas foi tão infeliz que quase não teve tempo de abrir a boca, por- do para casa contritos e, muitas vezes, confessados.
que o despediram logo pela porta fora etc. São Clemente, nesse particular do Uma vez um jovem médico, passando pela Rua de São João em Viena viu
apostolado, era simplesmente inimitável. Zacharias Werner dizia acertadamen- imensa multidão de povo atropelar-se para entrar na Igreja de Sta. Úrsula como
te referindo-se a ele: “Não há outro como ele; da boca desse homem fala o se lá houvesse alguma representação teatral, algum cinema ou coisa seme-
Espírito Santo”. lhante. Admirado perguntou pela causa de tão estranho movimento; a resposta
Para termos uma idéia mais ou menos nítida e certa da atividade apostóli- foi: “O Pe. Clemente vai pregar”. A curiosidade subjugou-o, entrou; o pregador
ca de S. Clemente basta-nos contemplá-lo no púlpito, no confessionário, ao arrebatado falava sobre a necessidade que têm os homens de trabalhar para a
altar, à cabeceira dos doentes, no seio das famílias, e até nas ruas da cidade, salvação de sua alma; expunha com clareza que o céu não se compra com
nas suas relações com as diversas classes da sociedade, no seu modo de agir fortunas, honrosas patentes, belos títulos ou robusta saúde, mas sim com a boa
como diretor das religiosas e como superior do convento. vontade, com o desejo sincero e efetivo de cumprir a vontade de Deus. O médi-
Como temos visto em diversos lugares desta biografia, Clemente celebrizara- co gostou da pregação e desde aquele dia não perdeu mais nenhum sermão da
se em toda a parte na qualidade de pregador fluente e arrebatador. Igreja de Sta. Úrsula.
Não possuímos na íntegra nenhum sermão de São Clemente, porque ele Um outro senhor vivia em Viena como funcionário público, admirador pro-
não costumava escrever os sermões nem mesmo os esboços; os seus contem- fundo do imperador e adepto fanático do josefismo, cujos princípios mais lhe
porâneos dão-nos porém informações exatas do seu modo de pregar. Seus sabiam do que as máximas do Evangelho. Como muitos do seu tempo, formara-

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se ele a sua religião que praticava ou não de acordo com os seus caprichos, sível sobre a divindade e a humanidade de Cristo.
nada detestava tanto como aquilo que costumava denominar fanatismo religio- Naquele tempo, desde José II, já não se ouvia mais sermão algum genui-
so, porquanto seu íntimo se revoltava sempre contra a intolerância da Igreja namente católico em Viena, porque quase não se falava mais nas verdades da
Católica, que reprova as outras religiões impondo aos homens dogmas incom- fé, mas quase exclusivamente em elegantes e agradáveis temas, como: cristia-
preensíveis e contrários à razão humana. nismo, filantropia etc. Muito significativa é a observação que faz um discípulo de
Por felicidade o velho funcionário tinha um amigo, que embora antes co- nosso Santo, de que a pregação sobre a Igreja católica era coisa tão rara, que
mungasse com as suas idéias, agora lhe falava do célebre pregador de Santa os moços se alegravam quando o orador proferia a palavra “Santa Igreja Cató-
Úrsula, dos doutores que o ouviam com religiosa atenção e das conversões lica”. As pregações de S. Clemente produziam o efeito das bombas. Eucaristia,
maravilhosas que ele operava em Viena. Mais por atenção para com o amigo do culto da Virgem e dos Santos, confissão, indulgências, purgatório, inferno, de-
que por outro motivo, foi ele também ouvir as pregações de Clemente, e debu- mônio, eram temas proibidos então pelo josefismo, mas verdades que S. Cle-
lhado em lágrimas de comoção voltou para a casa sinceramente convertido, mente expunha no púlpito com a maior clareza e firmeza. O tema predileto
abjurando o josefismo e tornando-se um católico prático. Mais tarde, referindo- porém era a Igreja e sua autoridade. São Clemente ressuscitou em Viena a
se a essa sua conversão, admirava-se de como isso sucedera; para ele era um pregação católica; a sua expressão física contrastava imensamente com a pose
mistério a sua conversão; nenhum dos muitos oradores por ele apreciados lo- elegante e vaidosa dos pregadores da moda; ele era um pregador popular no
grara convertê-lo de josefino em católico fervoroso. Tais pecadores converteu- sentido verdadeiro da palavra: falava segundo as impressões do momento e
os São Clemente aos milhares com a sua pregação e conseguiu até entusias- não segundo esboços aprendidos.
mar os hereges pelas belezas da santa Igreja Católica. Quem ouvia o servo de Deus não se sentia somente satisfeito; voltava
Mais interessante ainda é que a não poucos dos amigos, veneradores e mudado para a casa. “Ficava-se banhado em lágrimas, odiava-se o pecado e
até futuros membros da Congregação, Clemente conquistou-se dentre os que abraçava-se resolutamente a virtude”, diz resumindo, um dos ouvintes do nos-
iam a suas pregações para o ridicularizarem. Uma vez percebeu S. Clemente so Santo. Não era raro ficarem homens esperando na sacristia a volta de Cle-
que alguns estudantes falavam e se riam durante a pregação. Sem perder o mente para fazerem a sua confissão. A pregação de Clemente era a revelação
sangue frio, voltou-se para eles com as palavras: “Meus senhores, continuai a da fé que quase atingia os limites da visão; não argumentava muito, mas anun-
rir, mas quem se rir por último rirá melhor”. Foi o suficiente para encher de ciava como quem via, ouvia ou tocava, sendo seus sermões verdadeiros atos
vergonha e de arrependimento os jovens que mudaram de vida. de fé.
Se era apostólica a sua simplicidade, não o era menos o modo com que Dentre os atributos divinos gostava Clemente de salientar a misericórdia
pregava; falava com vivacidade, entusiasmo, ardor e sentimento tal que não só infinita do Eterno. Mesmo quando falando da Justiça esmagava os corações,
convencia, mas também prendia e arrebatava. “No púlpito, disse o cônego Veith, reanimava-os com a confiança na misericórdia sem limites de Deus descreven-
seu rosto se transfigurava dando-lhe as aparências de um Serafim”. Suas pala- do com vivas cores e ternura filial o amor de Jesus Cristo, o sangue que derra-
vras eram chamas ardentes que inflamavam os corações, e espadas que tras- mou e a morte que por nós sofreu.
passavam as almas. Esforçava-se por consolar os pusilânimes e reanimar os tímidos, e com voz
“Percebia-se perfeitamente, contra a Irmã Thadéa, que o Pe. Clemente não comovida repetia com freqüência: Jesus, filho de Davi, tende compaixão de
procurava a si próprio nas pregações mas tão somente a glória de Deus e o nós, e Porque queres perecer, casa de Israel?
bem das almas; falava com força e vida, inflamado de zelo ardente; suas pala- Era tocante quando nas prédicas sobre o Santíssimo Sacramento, subju-
vras saiam do coração e por isso penetravam também os corações; não discor- gado pelo amor, se ajoelhava no púlpito para adorar o Deus sacramentado;
ria com doutas palavras de humana sabedoria, mas com a doutrina do Espírito; nessas ocasiões ele parecia um Serafim e de seus olhos abertos saiam raios
por isso os que ouviam as suas pregações não podiam resistir e davam-se por de amor, que se concentravam na Hóstia consagrada.
vencidos”. Mais adiante acrescenta a mesma Irmã: “Durante as suas pregações O seu auditório compunha-se geralmente de pessoas simples; não falta-
reinava um silêncio sepulcral entre os numerosos ouvintes, que freqüentes ve- vam todavia representantes de todas as classes; estudantes, literatos, artistas,
zes se sentiram comovidos a ponto de não poderem conter as lágrimas e repri- funcionários públicos, aristocratas etc.; Clemente porém nunca sucumbiu à ten-
mir os soluços”. tação, aliás comum aos oradores, de sacrificar o povo simples para agradar à
Nem no auge do maior entusiasmo perdia Clemente a dignidade e a calma classe erudita, talvez até nunca sentiu essa tentação nem mesmo quando ao
em seus movimentos e gestos; na expressão do seu rosto e na viveza de seus pé do púlpito via os seus grandes e eruditíssimos amigos. O seu princípio era
olhos estampava-se a sua convicção profunda e fé viva. As vezes a sua ação sempre o mesmo: pregar com toda a simplicidade de modo a ser compreendido
expressiva produzia maior efeito do que suas palavras. Discorrendo, uma vez, pelo mais ignorante dos ouvintes e até pelas crianças. S. Clemente que com
sobre o mistério da Encarnação ao pronunciar as palavras: “Ele assumiu a nos- sua pregação simples conseguiu empolgar homens de envergadura intelectual
sa natureza, revestiu-se da nossa carne” bateu as mãos com tanta gravidade e de um Werner, Günther, bem como estudantes e professores das universida-
comoção que arrancou lágrimas aos ouvintes dissipando qualquer dúvida pos- des, é uma prova evidente de que a pregação genuinamente católica agrada e

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satisfaz tanto a pequenos como a grandes, a sábios como a indoutos. É certo
que nem todos os pregadores podem ser como S. Clemente, ao qual faltaram
os atrativos naturais, mas não os encantos da fé e de uma convicção profunda.
Clemente recebera de Deus a missão de esmagar os pregadores da moda, que
se perdiam nas frases rebuscadas com detrimento da clareza requerida pelas
verdades religiosas. O povo notara logo a diferença; não era raro ouvir-se: “Queres CAPÍTULO V
ouvir um orador brilhante? vai à igreja tal; queres porém ouvir um apóstolo, vai
a Santa Úrsula, onde prega o Pe. Clemente”.
A pregação de Clemente tornou-se em breve um espinho aos olhos do
O zeloso auxiliar nas pregações
governo josefino e da polícia austríaca; temiam farisaicamente que, por essas
pregações, os austríacos se tornassem ultramontanos e quisessem obedecer Conversão do poeta — Suas pregações — Trombeta do juízo — O orador
mais ao Papa do que ao Imperador; olhavam tudo aquilo com um fanatismo dos eruditos — O discípulo do grande Mestre — O poeta e o dramaturgo —
perigoso, que as autoridades deviam abafar, ainda mais que as leis austríacas Esses moleques...
proibiam terminantemente esse exagero de pregações, mormente a cerimônia
da bênção papal que Clemente dava quatro vezes ao ano, sem haver para isso Com certeza o leitor ainda se recordará da cena tristíssima que Varsóvia
requerido licença do governo. presenciou em 1808, quando S. Clemente, internado numa carruagem toda
O resultado foi uma ordem da polícia em 1816, que proibia de vez a Cle- fechada, o terço a deslizar-lhe pelos dedos, foi expulso do seu querido convento
mente, pregar em Viena ou onde quer que fosse na Áustria. Ao receber essa de S. Beno e conduzido ao exílio, à fortaleza de Küstrin perto de Berlim. Um dos
proibição Clemente sentiu o seu coração como que estracinhado; teve compai- principais perseguidores dos Redentoristas e mais encarniçados inimigos de
xão de milhares de almas que ficariam para sempre privadas do pão da palavra Clemente, foi um funcionário prussiano, de estatura elegante, estilo fluente, fan-
de Deus. Mas não havia remédio; Clemente teve que sujeitar-se e de fato, cur- tasia viva acalentada por uma veia poética arrebatadora. Chamava-se Zacharias
vou sua fronte confiado na proteção divina. No domingo seguinte calaram-se os Werner; filho de sua época, joguete das mais desenfreadas paixões, só procu-
sinos, mas o povo afluiu da mesma forma. O Reitor da Igreja ao ver a massa rava os divertimentos mundanos; educado no protestantismo pusera sua pena,
que se apinhava no templo, sentiu tentação de transgredir a ordem recebida aliás brilhante, a serviço da heresia compondo poesias, romances, peças tea-
dos homens, mas soube conter-se; de sobrepeliz e estola subiu ao púlpito e trais, vazadas nos moldes do filosofismo de Kant, atacando o clero, a Igreja, o
depois de lido o Evangelho, com voz entrecortada e trêmula começou: “Mas jesuitismo etc. Seus amigos prediletos eram Rousseau, Goethe e Schiller, que
caros irmãos, foi-me proibido fazer-vos pregações para o futuro, e eu devo obe- lhe representavam o expoente máximo da cultura e da inteligência humana.
decer; no santo Sacrifício da missa pedirei a Deus, se digne inspirar a cada um Além de adepto do josefismo e da maçonaria levava vida licenciosa, pois que
de vós, o que eu hoje queria pregar”. O povo desatou em prantos e soluços, além das três mulheres que possuía simultaneamente, era, em Varsóvia, o es-
indignando-se uns e chorando outros, de sorte que o próprio governo se deixou cândalo das boas famílias. Poeta fino e artista consumado introduziu-se Werner
intimidar e retraiu nos dias seguintes a proibição que fizera a São Clemente. na mais alta sociedade européia, mas descontente e irrequieto ia de cidade em
Esse golpe tão brusco quão inoportuno serviu apenas para preparar ainda cidade em procura de novos gozos e prazeres, até que, quas sem o perceber,
mais os ânimos, encher as almas de admiração pela pessoa do Reitor de Santa chegou a Roma; ao penetrar os umbrais da cidade dos Papas, o seu coração
Úrsula, e animar o Apóstolo à anunciar sempre mais destemidamente o Evan- suspirou e sua alma vibrou aos bafejos das auras acalentadas do Sul; seus
gelho, segundo a ordem do divino Mestre: “Ide e ensinai todas as gentes... ensi- olhos ficaram-se naquelas monumentos da fé enquanto que seus lábios, enter-
nando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado (Mt 28,19-20). necidos e arrependidos, pronunciavam a prece que brotava espontaneamente
O leitor poderá ainda, levado de uma inocente curiosidade, perguntar, como é do seu coração. E a oração salvou-o; retirou-se à solidão, meditou as verdades
que S. Clemente se preparava para as suas pregações. As muitas ocupações e eternas, e qual outro Saul no caminho de Damasco, levantou-se convertido e
preocupações da vida apostólica não lhe permitiam dedicar muito tempo à prepa-
decidido a pertencer inteiramente à Igreja católica, a única que apresenta e dá
ração; no princípio da semana lia o Evangelho do próximo domingo, meditando e
ponderando cada palavra e, nessa meditação, os pensamentos assaltavam-no em a seus filhos paz e sossego, verdade e esperança. A 19 de abril de 1810 Zacharias
multidão; aos sábados, à noite, ordenava as idéias e os argumentos de acordo com Werner abraçou a religião, da qual, três anos depois, se constituiu ministro pela
a lógica e a psicologia; só então é que regularmente subia ao púlpito. Sem prepara- ordenação sacerdotal. Por seu temperamento sangüíneo era volúvel e incons-
ção, embora breve, ele nunca pregou, porque sabia que do contrário tentaria a tante passando bruscamente do auge do entusiasmo ao mais completo abati-
Deus e faltaria ao respeito devido à palavra divina. Uma vez Clemente perguntou a mento moral. Necessitava pois de um guia seguro e prudente; ao chegar a Vie-
um dos seus amigos: “Qual é a melhor preparação para a pregação?” e sem espe- na encontrou-o em S. Clemente, que ele outrora perseguira, mas que agora lhe
rar a resposta apontou para os joelhos dizendo: “a oração é a coisa principal nas estendia amavelmente as mãos pronto a encaminhá-lo na vereda do céu pelas
pregações”. árduas montanhas da perfeição cristã. Desde então a história de Werner é

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inseparável da de São Clemente, o qual, vendo em seu amigo as qualidades Uma vez ao pregar em Santa Úrsula escapou a Werner uma expressão
excepcionais e os dotes admiráveis que Deus lhe concedera tão prodigamente, que cheirava ao protestantismo, e S. Clemente ouviu o sermão inteiro, sentado
procurou servir-se delas para a difusão do reino de Deus e a salvação das na sacristia. Terminada a alocução desceu Werner, mas ao entrar na sacristia
almas. A fama literária de Werner, os ecos da sua antiga vida efeminada, os ouviu dos lábios de seu Mestre: “O que hoje disseste não era católico, e por isso
comentários que sobre ele se faziam abertamente, atraiam as multidões para a no próximo domingo tens de retificá-lo”. E Werner obedeceu.
Igreja de Santo Agostinho onde pregava o antigo discípulo de Schiller e Goethe. Como Werner era, por natureza, altivo e voluntarioso, S. Clemente não
A impressão causada por Werner na tribuna era deslumbrante. A figura esbelta, perdia vaza para humilhá-lo às vezes até com certa aspereza. “Werner é a
o rosto pálido, as sobrancelhas cerradas e negras, os cabelos compridos que trombeta de Deus, dizia ele, mas o seu orgulho prussiano nunca se poderá
lhe caiam em cachos abundantes sobre os ombros preparavam o auditório; e bastantemente rebater”.
quando ele descerrava os seus lábios e com a magia da sua palavra inflamada Werner depois da sua conversão não abandonou a pena que sempre ma-
descrevia a felicidade, que goza um católico no seio da sua Igreja, e depois, nejara com maestria. Compôs peças teatrais, romances, poesias tão lindas,
abrindo sua alma e apelando para sua experiência própria, expunha a insipidez que ele mesmo se deliciava em sua leitura, e não raras vezes quis repartir a
do luteranismo ou pintava ao vivo o contentamento e o bem estar que se sente alegria com seu querido Diretor, esperando naturalmente os parabéns. Cle-
no estado de graça santificante, um como choque elétrico tocava os milhares mente porém levantava apenas o dedo e movendo-o dizia: “Dalila” como se
de corações que o ouviam, não havendo quem pudesse resistir às suas pala- dissesse: “Cuidado, meu filho, como Dalila seduziu Sansão e foi a sua ruína,
vras fascinantes. Quando sua fantasia se inflamava e com ardente fervor invo- assim também a tua poesia será a tua ruína, se te ensoberbeceres”. Werner,
cava as musas mais fagueiras, a poesia jorrava em borbotões de seus lábios qual criança amorosa, procurava achar-se, o mais possível, na companhia de
trêmulos a descrever os magníficos quadros da formosa Itália, onde em ondas seu Mestre; mas como Clemente sempre andava rodeado de estudantes, Werner
de púrpura o sol se esconde por entre os píncaros dos Apeninos; os ouvintes dificilmente conseguia estar a sós com seu Diretor. Uma vez por certo azedume
tinham então a sensação do assombro, ficando indelevelmente gravada em os lhe disse queixoso: “Quando é que lhe poderei falar! sempre que venho encon-
espíritos e corações a lembrança das verdades da fé, que o orador nunca dei- tro aqui esses moleques”. Ao que Clemente respondeu: “Gosto mais desses
xava de ligar a seus quadros. Quando com voz possante anunciava ao povo os moleques, que de você”.
terrores do juízo final, ou abria ante seus olhos os abismos infernais, parecia Nessa santa amizade passaram-se cinco anos de verdadeiro esforço para
um dos velhos profetas ressuscitados, e o temor e o espanto se estampavam a perfeição religiosa. Eram duas almas que se fundiam e se amavam em Nosso
nos rostos dos ouvintes que tremiam diante do juiz eterno. É por causa desses Senhor; era a verdadeira amizade que se não perdia em sentimentalismo, mas
sermões impressionantes que São Clemente lhe pusera o nome de “trombeta que se espiritualizava sempre mais, a medida que os anos se iam. Werner foi
do juízo universal”. Quando, pelo contrário, o pregador poeta, com uma humil- para Clemente um poderoso cooperador; por isso, como seu santo Diretor,
dade impressionável, falava dos desvarios da sua vida passada e mostrava a mereceu que os vienenses o denominassem “o apóstolo de Viena”.
misericórdia com que Deus o tirara do abismo da perdição, corriam-lhe as lágri-
mas pelas faces e os ouvintes choravam de comoção. Werner era original em
suas pregações; não se perdia em frases vazias, mas fazia transpirar a convic-
ção íntima de que se achava possuído, era o pregador dos eruditos e literatos.
As suas pregações puseram toda Viena em movimento; durante o famoso Con-
gresso de 1815 todos os reis e príncipes congressistas foram ouvir o maravilho-
so pregador. Ora esse homem tão grande aos olhos do mundo, era como uma
criança nas mãos de S. Clemente, em cuja escola ia constantemente aprender
a arte da pregação apostólica; obedecia-lhe em tudo, porque nele via o homem
de Deus, o oráculo do Espírito Santo. Do seu lado, Clemente que o estimava,
não poupava esforços para lhe mostrar o caminho seguro da perfeição.
Num domingo voltara Werner de uma estação de águas num carro, que lhe
moeu o corpo inteiro; embora extenuado foi cumprimentar seu bom amigo na
sacristia da Igreja das Ursulinas. Sucedeu chegar ele justamente na hora, em
que no coro se cantava o solo para a pregação. S. Clemente sem mais preâm-
bulos mandou a Werner subir ao púlpito, ao que ele respondeu: “Como? se eu
não tive tempo nem de ler o Evangelho?” Clemente respondeu secamente: “Isso
não é desculpa”. Werner curvou-se, fez o sacrifício acrescentando: “A isso nin-
guém poderia obrigar senão V. Revma. a quem obedeço com gosto e alegria”.

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dar-lhe o coração, falava com o seu Deus com a ternura de um filho que depo-
sita no coração de seu pai amado a expressão suma do seu amor e confiança;
com a ponta dos dedos reunidos atirava em cheio para o sacrário o ósculo dos
seus lábios e do seu coração”. Comovida a Irmã Thadéa chamou também as
outras irmãs, que se edificaram com aquela devoção e fé viva, que para elas
CAPÍTULO VI tiveram mais valor e efeito do que amais tocante pregação.
Jesus presente na Eucaristia é o centro de toda fé e piedade, e por isso a
O Santo ao altar devoção ao Santíssimo ocupa sempre um lugar saliente na vida de todos os
Santos. Mas em S. Clemente essa devoção tinha um caráter especial, produzi-
do talvez em parte pelo espírito da época; o jansenismo e o racionalismo con-
O Serafim ante o tabernáculo — O humilde ajudante de missa — As piedo- servavam afastado dos olhos e do coração do povo esse grande mistério da
sas traidoras — Cena comovente — O esmagador do josefismo — As quarenta nossa fé. Para combatê-los São Clemente instituíra a missão permanente em S.
horas. Beno, que não era senão semanas, meses e anos eucarísticos. E de fato, o
desejo ardente de São Clemente era difundir por toda parte e introduzir em
Para se compreender bem a atividade apostólica e o efeito admirável da todos os corações o amor ao Santíssimo, e o desejo de receber a Jesus fre-
pregação de Clemente, seria necessário contemplá-lo ao altar. Os que tiveram qüentes vezes na santa comunhão. Para a adoração do Rei dos reis, solene-
a ventura de vê-lo perto do sacrário, não encontraram na língua humana pala- mente exposto no ostensório, não lhe era permitido fazer em Viena o que fizera
vras capazes de definir ou descrever a impressão recebida. Sua intimidade com em S. Beno, porque lhe faltavam os meios e a permissão dos governo.
Jesus Sacramentado era uma outra manifestação da sua fé, talvez ainda mais Durante a adoração das 40 horas, porém, em Santa Úrsula, na igreja dos
arrebatadora do que seu verbo inflamado no alto da tribuna sagrada. À imitação Italianos e na dos Mechitaristas era ele quem mais se interessava e trabalhava
de seu Pai espiritual Santo Afonso não sentia maior prazer do que em permane- para que Jesus Sacramentado recebesse a homenagem merecida dos
cer diante do Prisioneiro dos nossos sacrários; lá era indescritível o seu recolhi- adoradores. Durante o ano visitava sempre a igreja em que se achava exposto
mento. Quando na igreja dos Italianos tinha de transportar o Santíssimo da o Santíssimo na espaçosa cidade de Viena, sendo quase sempre ele que, em
capela-mor para qualquer altar lateral, que se achasse um tanto afastado, sua própria pessoa, adornava de flores naturais os altares e o tabernáculo. Clemen-
fronte inclinava-se amorosamente sobre a ambula, os olhos conservavam-se te parecia ter abolido em Viena a diferença do domingo e dos dias úteis. O
semicerrados, fitos sobre o cibório, que ele apertava jeitosamente contra o pei- confessionário achava-se assediado todos os dias e a mesa da comunhão era
to. Clemente não precisava lutar para conservar a atenção e o recolhimento; um encanto diariamente pelo avultado número de almas eucarísticas; famílias
pelo contrário era-lhe, às vezes, difícil conter as chamas que o devoravam, sem inteiras, e das melhores, permaneciam ajoelhadas no pavimento, horas e horas
as manifestar por fora. Uma das suas ocupações prediletas era distribuir a san- a fio, na mais profunda devoção diante de Jesus Sacramento. Santa Úrsula era
ta comunhão, por se sentir assim mais perto do seu Deus. Nessas ocasiões não o centro, donde se difundia pela cidade toda esse amor e devoção a Jesus-
lhe era sempre fácil disfarçar os soluços e conter as lágrimas de comoção, que Hóstia, de sorte que um dos amigos de Clemente pôde afirmar sem exagero,
lhe brotavam dos olhos e corriam, a fio, pelas faces traindo o que se passava que depois de dez anos de trabalho de S. Clemente, Viena se tornou o lugar,
dentro do coração. Nos dias da exposição solene do Santíssimo, de joelhos onde Jesus era mais visitado, mesmo nos dias de semana, e onde mais se
fixava os olhos na Hóstia consagrada, seu rosto se transfigurava e ele parecia recebia a santa comunhão.
um Serafim a contemplar face a face a Jesus, encanto da sua vida.
Embora idoso gostava de ajudar a missa a qualquer sacerdote, embora
novo, porque tinha assim mais uma ocasião de se achar perto de Jesus
Sacramentado.
Homens de conhecida piedade, como v. g. Mons. Muzzi auditor da
Nunciatura, iam nos dias de grande festa, à Santa Úrsula, unicamente para se
edificarem com a devoção íntima de S. Clemente. O coração do Servo de Deus
transbordava de delícia e expandia-se docemente quando se julgava desperce-
bido, a sós com Jesus Sacramentado. As religiosas de Santa Úrsula costuma-
vam ser as traidoras piedosas dessas cenas comoventes. A Irmã Thadéa es-
condeu-se um dia na igreja, e pôs-se a contemplar Clemente que se julgava só
diante do sacrário. “O rosto do Santo, diz ela, estava como que transfigurado e
refulgente de amor; ele estendia muitas vezes seus braços a Jesus, como a

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dava com fogo essa devoção; nas pausas do confessionário rezava o terço, ou,
ao menos, algumas “Ave-Marias”, afirmando que por essa devoção conseguia
quanto pedia a Deus. Por vezes, à cabeceira dos doentes, esgotados os meios
de persuasão, ajoelhava-se, rezava o terço, e a conversão era garantida. Cha-
mado a algum doente, que morava um tanto afastado, punha-se a rezar o terço
CAPÍTULO VII de caminho e gostava de dizer: “Quando tenho tempo de rezar o terço, não há
pecador que se não converta!” Para S. Clemente a devoção a Nossa Senhora
O devoto da Virgem era uma necessidade imperiosa. Não podia ouvir falar em nome de Maria sem
algum predicado glorioso para Ela. Quando em suas longas viagens encontra-
va algum santuário da Virgem, não prosseguia seu caminho sem primeiro sau-
Devoção combatida — O digno filho de S. Afonso — Invocações prediletas dar sua Mãe celeste e depositar em seu altar o ósculo ardente do seu amor filial.
— O rosário sua biblioteca — O rosário à cabeceira dos doentes — A devoção Em Viena os únicos passeios, que fazia fora da cidade, eram consagrados à
a Maria; uma necessidade — Os Santuários da Virgem. Virgem em seus santuários. Todas as igrejas de Nossa Senhora eram-lhe ca-
ras, porque em todas elas encontrava ocasião de homenagear sua Mãe e Rai-
A devoção à Santíssima Virgem era um ponto atacado e combatido naque- nha; porém o santuário que mais atraia era o de Mariazell onde se desenvolvia,
les tempos de frieza religiosa e de jansenismo detestável. como em nenhum outro, a vida de fé católica, aliás abaladíssima na Áustria no
Até teólogos, que se diziam católicos, julgavam dever impugnar o culto de tempo do josefismo. Quando o Santo contemplava as multidões que, de perto e
Maria Santíssima. O rosário era desconhecido em bastante centros católicos de longe, invadiam o Santuário da Virgem, os corações a vibrar de amor, os
de sorte que em Viena se tinha em conta de curiosidade o fato de que na Igreja cânticos a ecoar pelas planícies, as orações a repercutir na vasta abóbada do
de Santa Úrsula havia um padre que benzia terços e rosários. Santuário, sua satisfação era sem limites, seu peito estremecia, e seu coração
São Clemente era um digno filho espiritual de Sto. Afonso de Ligório, o parecia saltar fora a desafiar os incrédulos a virem em sua incredulidade expli-
dedicado cantor e defensor acerrimo das Glórias de Maria, e por isso não podia car aquele espetáculo de fé. — “Que os incrédulos, exclamou ele, venham expli-
deixar de consagrar à Virgem um amor terno e filial. O divino Mestre afirmou car-me, se puderem, o que impulsiona este povo, o que o traz de tão longe
que a boca fala ex abundantia cordis, daquilo que enche o coração; para S. terras, a custo de mil fadigas, a estas montanhas! Tem-se de reconhecer que é
Clemente, o decantar no púlpito e nas palestras familiares as glórias da Mãe de o poder da fé. Oh! se o Santo Padre pudesse ver toda esta gente e esta devo-
Deus, era uma das maiores alegrias e consolações da sua alma. No púlpito, ção, havia de chorar de alegria”.
quando discorria sobre algum mistério da vida de Nossa Senhora, tornava-se No púlpito e no confessionário exortava continuamente os fiéis a recorre-
excepcionalmente eloqüente e as palavras jorravam fáceis dos seus lábios: era rem à Rainha do céu — “Não se pode ir para o paraíso senão por meio de
o filho amoroso que enaltecia os encômios de sua Mãe. A Imaculada Concei- Maria”, gostava ele de repetir.
ção, as Sete Dores de Maria, e sobretudo o mistério da Anunciação, em que Mormente aos pecadores apontava Clemente a devoção a Maria como
veneramos conjuntamente a encarnação do Verbo e a maternidade da Virgem, âncora de refúgio e de salvamento. “Meus irmãos, exclamou ele um dia levado
eram o objeto da sua mais terna devoção desde os dias da sua infância, e o de entusiasmo, se entre vós existir algum que perdeu a fé, ou nela se sente
assunto predileto dos seus eloqüentes sermões. Dificilmente passava-lhe des- fraco, ouça o remédio eficaz que eu conheço ser infalível: reze diariamente de
percebido o toque do “Angelus” de manhã, ao meio-dia e à tarde; onde quer que joelhos e com devoção uma ‘Ave Maria’ à Mãe de Deus, e sua alma atribulada
se achasse, punha-se de joelhos e com devoção e amor saudava sua Rainha e recuperará a paz”.
Mãe.
A exemplo de Sto. Afonso nutria uma devoção toda especial para com a
Virgem sob o título do Bom Conselho, de cujas luzes tanto necessitava naque-
les tempos turbulentos; e a Virgem diversas vezes deu mostras de que aceitava
os obséquios do seu devoto Servo, guiando-o, qual estrela indeficiente através
dos escolhos e abrolhos da vida tempestuosa do seu século.
Característica era a sua devoção para com o rosário de Maria, que deno-
minava a sua “biblioteca”. Em todos os seus passeios pela cidade e em casa,
nos momentos livres, Clemente desfiava as contas do rosário. Para consolidar
essa devoção entre os seus discípulos impôs aos Oblatos da Congregação o
dever de defender sempre o rosário, mormente quando escarnecido pelos he-
reges. No púlpito, no confessionário e nos entretenimentos familiares recomen-

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menos o esperava, S. Clemente aproxima-se dela com as palavras: ‘Francisca,
fica no convento, porque és chamada por Deus’. Como a ninguém ainda havia
ela manifestado os seus pensamentos nesse sentido, reconheceu nas palavras
de S. Clemente a vontade de Deus, e as dúvidas sobre a vocação desaparece-
ram instantaneamente”. Permaneceu na ordem e na idade de 83 anos foi uma
CAPÍTULO VIII das depoentes na causa da beatificação de S. Clemente.
Um caso semelhante; conta-o a Visitandina Luiza Xavier: “Thereza Gonzaga,
O prudente Confessor atual superiora do nosso convento em Gleink, era, no mundo, penitente de São
Clemente. Ao ouvir um sermão do Santo sentiu em si o desejo de entrar nas
Ursulinas; manifestou ao pai esse seu intento, mas este a dissuadiu prometen-
Confessor procurado — O dia no confessionário — A Irmã Francisca — do não dar jamais, para isso, o seu consentimento. Embora continuasse a ouvir
Luiza Xavier — O caminho mais seguro — Francisco Arrependido — A caixa de a voz de Deus, que a chamava, desanimou diante das dificuldades e desistiu do
rapé — A senhora às margens do Danúbio — O Kraus escrupuloso — Pe. José seu piedoso intento, ocultando tudo isso a seu diretor espiritual. Na confissão
no altar — A mulher sem pecados — Preparação contínua — Passy confessa- porém Clemente disse-lhe abruptamente: ‘Deves ser Visitandina, e eu mesmo
se sem o saber. me encarrego de arranjar-te um lugar’. A penitente sentiu um peso deslizar-se
do seu coração, entrou para as Visitandinas, onde viveu 50 anos no gozo da
Desde a chegada de Clemente a Viena, o lugar principal de sua atividade mais perfeita paz, graças ao esforço do seu bom diretor espiritual”.
apostólica em prol das almas já não era o púlpito como outrora em S. Beno, mas Com poucas palavras sabia Clemente aplicar o remédio conveniente às
o confessionário, onde passava horas e horas na direção espiritual dos seus chagas da alma. Era com todos bondoso, delicado, porém sempre enérgico e
penitentes, sendo procurado por pessoas de todas as classes da sociedade. Os firma em seus conselhos. A penitência que impunha não era sempre a mesma
prediletos eram os homens e os moços que iam procurar em casa para lá faze- para todos porque para cada doença há remédio especial. Homem de prudên-
rem sua confissão. E não era em vão que tantos o procuravam. Clemente pos- cia reprimia em seus penitentes qualquer exagero ou imoderado zelo, e acon-
suía, como confessor, qualidades extraordinárias que deixavam nos penitentes selhava a todos o caminho ordinário ao céu, por ser mais seguro do que todos
a certeza de uma direção segura e sã. Sempre que o estado da alma o exigia e os excessos que enfraquecem a alma e que muitas vezes se tornam contrapro-
as circunstâncias o permitiam, Clemente aconselhava a confissão geral, à qual ducentes.
fazia preceder bastante tempo de exata preparação. E Clemente não perdia a Uma vez um moço, comovido por um sermão, pediu a Clemente que o
paciência, ouvia tudo como bom médico e depois dava o necessário remédio. ouvisse de confissão imediatamente depois da pregação. O Santo tomou-o pela
Muitas vezes passava o dia inteiro no confessionário. Uma vez sentindo-se mal mão, fitou-lhe os olhos e penetrando toda a sua alma disse-lhe: “Ainda não,
tomou uma sangria, como era costume naquele tempo, e para não perder tem- venha comigo” e levou-o para o convento provisório, onde o jovem no silêncio e
po, correu ao confessionário, onde os panos se desataram, dando livre fluxo ao na oração se devia preparar para as contas a dar a Nosso Senhor; ao entrar no
sangue que se pôs a correr sem parar, pelo pavimento; enfraquecido pela perda quarto a ele destinado, Clemente apontou para um magnífico Crucifixo pendu-
de sangue Clemente desmaiou, e certamente ter-lhe-ia sucedido coisa pior, se rado na parede, e disse ao jovem: “Francisco, aprende aqui a tua lição”. O jovem
lá por acaso não se encontrasse um médico, que acudiu com prontidão. Não pôs-se a meditar, sua vida inteira passou novamente ante os olhos da sua alma,
era raro ficar o Santo no confessionário até alta hora da noite. Quem uma vez se recordou-se do tempo da infância e das diabruras efetuadas por ele nas ruas de
confessava a São Clemente sentia necessidade de voltar outra vez, não porque Viena; rememorou o tempo da sua primeira juventude dedicada à vida militar,
Clemente gostasse de agradar com palavras adocicadas, mas porque sabia da qual desertara para ir viver em Paris, onde o não puderam suportar por
infundir nas almas o verdadeiro amor a Jesus Cristo. Antes de sentar-se no muito tempo. Chafurdado em toda lama, lavado em todas as águas voltou a
confessionário costumava ajoelhar-se diante do tabernáculo a fim de pedir ao Viena e não teve coragem de se apresentar à sua mãe, que era uma senhora
céu prudência e amor para tão espinhoso cargo. Ao ouvir as confissões S. Cle- severa. Foi nessa ocasião que o seu bom anjo o levou à Igreja de Sta. Úrsula,
mente evitava os longos entretenimentos com os penitentes e procurava ser onde a voz de Clemente a discorrer sobre os tormentos da consciência crimino-
breve quanto possível; as poucas palavras de conselho e animação que dirigia sa, se fez ouvir ao coração do pobrezinho.
aos penitentes eram paternais e por isso calavam profundamente nas almas. Fez sua confissão derramando lágrimas de arrependimento; mas o temor
Clemente possuía o dom extraordinário de penetrar com seu olhar através da mão o perturbava. Clemente porém consolou-o dizendo: “Não temas, que eu
dos corações, e não poucas vezes, antes da confissão, desfazia as dúvidas que disporei tudo”. No dia seguinte a mãe do jovem não ficou pouco espantada ao
o penitente desejava expor. “Em um dos nossos conventos, escreve a Irmã receber o convite de tomar café na sala do convento. Clemente, muito de indús-
Thadéa, havia uma candidata que se via atormentada por inúmeras tentações tria, fez a conversa cair sobre os filhos e pediu-lhe que contasse a história deles.
contra a vocação, até que, um dia, se decidiu abandonar o convento. Quando A mãe falou de todos menos de Francisco, cujo nome nem quis mencionar por

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vergonha e indignação. Clemente não se deu por vencido e perguntou moral para se conformar com a nova posição, em que acabava de ser lançada
interessadamente por ele; foi a hora em que a mãe perdeu as estribeiras e falou da noite para o dia, e por isso desesperada resolvera pôr termo à vida atirando-
quanto seu coração sentiu num destampatório horrível, afirmando que, prova- se nas águas do Danúbio. Sem mais preâmbulos Clemente a interpela, e a
velmente, o tal já estaria enforcado. Clemente sorriu-se paternalmente notando senhora, que não esperava naquela hora a visita de um sacerdote, conta-lhe o
que a forca não é coisa tão barata, levantou-se, abriu a porta, e Francisco, que sucedera em sua casa com a quebra do banco, onde perdera toda a sua
debulhado em lágrimas, prostrou-se diante de sua mãe, que longe de se como- fortuna caindo em extrema miséria. O Santo compadecido com a dor da pobre
ver, desatou numa filípica até então desconhecida contra o filho. No meio da- mulher, inclinou-se, tomou um punhado de pó dizendo: “Que é dinheiro, minha
quela tempestade Clemente fez um sinal com a mão dizendo: “Agora basta, senhora? é um punhado de terra e nada mais”. Conseguindo dissuadi-la de
vamos tomar juntos o café”. E a paz se fez. Francisco porém estava devendo sem nefando intento, levou-a à cidade onde lhe arranjou um lugar no convento
ainda alguma diabrura às irmãs, que compravam todos os dias o leite na casa das Ursulinas. No dia seguinte ouviu-a de confissão; a senhora converteu-se
de Francisco. Clemente anunciou às irmãs que lhes iria levar um Agostinho. A inteiramente servindo de edificação para todos da cidade, que a ficaram consi-
Superiora agradeceu com toda a cordialidade afirmando possuir já diversas derando como a uma santa.
imagens desse Santo e por isso, não precisar de outra. Clemente levou-lhes Ao lado dos grandes pecadores, também muitas almas tímidas e pusilâni-
porém o Agostinho vivo, e a paz completa se restabeleceu com Deus e os ho- mes procuraram a direção de tão experimentado Diretor. O pior de todos esses
mens. Francisco já não quis abandonar seu protetor, pediu admissão na Con- maçadores, que roubavam muitas horas ao Santo, era um tal Kraus, que quan-
gregação Redentorista, e depois de terminar seus estudos, tornou-se o grande do se confessava ou se dirigia em particular ao Santo, não achava fim na enu-
missionário que enalteceu o nome da Congregação e que salvou inúmeras al- meração de seus escrúpulos e dúvidas de consciência. Referindo-se a ele dizia
mas na Valachia e em diversas regiões da Áustria e da Inglaterra. Não satisfeito S. Clemente a sorrir: “Um Kraus, ainda vá, mas dois, me matariam”. Escrúpulos
com esses trabalhos penosos, atravessou os mares, foi a América do Norte, e dúvidas de consciência ele os afastava com poucas palavras. Um dos seus
indo morrer, em idade avançada, no convento redentorista de Leoben na Áus- confrades Pe. José Forthuber dava-lhe ocasiões de sobra para exercer a virtu-
tria. Houve milhares de pessoas que como Francisco ficaram devendo a S. Cle- de da paciência por causa dos seus escrúpulos; quando celebrava o santo Sa-
mente a sua salvação eterna. O Santo redentorista empenhava-se seriamente crifício, ao chegar o momento de purificar a patena, gastava uma eternidade em
em encaminhar as almas segundo o espírito de Sto. Afonso. É por causa dessa procura dos fragmentos que não havia na patena molestando assim os ouvin-
circunstância que um pintor se lembrou, em boa hora, de representar S. Cle- tes, que começavam já a evitar a missa do Pe. José. Uma vez estando São
mente na forma do Bom Pastor, que apoiado em seu cajado levanta para o céu Clemente a assistira missa desse padre, e percebendo que ele não terminava a
a ovelha desgarrada. O Servo de Deus recebera do céu o dom singular de purificação levantou-se devagar, subiu os degraus do altar e sussurrou ao ouvi-
penetrar com o olhar o íntimo dos corações. do do celebrante: “Padre José, deixe alguma coisa também para os anjos”. Foi
Ao andar pelas ruas de Viena bastava-lhe observar, de longe, os transeun- o suficiente para corrigi-lo. Embora pacientíssimo no confessionário, às vezes
tes para saber o que lhes faltava. Uma vez ao passar por uma das ruas mais parecia perder a calma, quando pessoas que nunca se haviam confessado em
movimentadas da Capital deu com um rapaz de muito mau humor, que acabava sua vida, afirmavam não ter nenhum pecado a acusar. Nesses casos o Santo se
de ser expulso da aula. São Clemente dirige-se a ele com as palavras: “Menino, desabafava com um pouco de sarcasmo: “Ah! o senhor é um santo; vou mandar
venha cá um pouco; você tem qualquer coisa de anormal”, tomou-o pela mão, logo acender algumas velas para o novo santo”. Como o mundo é malicioso e
levou-o para casa, animou-o com bons conselhos transformando completamente inventa anedotas para todos, inventou uma também para S. Clemente. Contam
aquele coração, que mais tarde havia de tornar-se um benemérito da pátria. Em que estando uma vez o Santo a ouvir confissões na sacristia da Igreja das
uma outra ocasião encontrou-se com um indivíduo, que enojado da vida nutria Ursulinas, deu com uma pessoa que não tinha absolutamente nenhum pecado
desejos de ser afogar no Danúbio. Sem conhecer anteriormente a resolução a se acusar. Clemente interrogou-o sobre todas as possibilidades a respeito
íntima do infeliz, aproxima-se dele, tira do bolso a caixa de rapé e sorrindo dos dez mandamentos da lei de Deus, dos cinco preceitos da Igreja, dos peca-
amigavelmente oferece-lhe uma pitada cativando assim o coração do infeliz, dos capitais, esmiuçou suas perguntas sobre as mais sutis imperfeições, porém
que lhe contou sua triste história, abriu sua consciência numa sincera confis- debalde. Clemente, então, não podendo já conter-se, disse ao sacristão: “André,
são; foi Clemente quem o salvou guiando-o para melhores idéias. venha cá e coloque esta mulher no altar; ela é uma santa”.
Caso semelhante deu-se com uma senhora, nascida na opulência e no Das pessoas que semanalmente se confessavam e que, em geral, levavam
luxo, a qual pela quebra de um banco comercial ficou reduzida à miséria. S. uma vida piedosa não exigia São Clemente preparação muito prolongada. As-
Clemente passeava com um amigo ao longo da margem do rio, quando subita- sim quando às vezes chegava inesperadamente ao convento para ouvir as con-
mente interrompe a conversa e corre para uma senhora que se aproximava, fissões das Irmãs e estas, desapontadas, se escusavam pretextando falta de
devagar e com hesitações, das margens do Danúbio. Clemente percebera ime- preparação dizia o Santo: “Venham que eu as ajudarei”. Um belo dia chegou ao
diatamente o intento daquela senhora, que não lhe era conhecida. Sem religião convento e as irmãs deixaram-no esperar muito tempo; queriam preparar-se
e dada às vaidades e ilusões do mundo, a pobre mulher não possuía a força bem, porque receavam qualquer repreensão de S. Clemente, se se aproximas-

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sem do tribunal da penitência sem estarem bem preparadas. As mais velhas, confissão está feita, ajoelha-te, pede perdão a Deus de todo o mal que fizeste e
com o fim de evitar qualquer palavra mais pesada, foram ter com a Irmã mais promete ao Senhor não mais ofendê-lo em tua vida”. Em seguida perdoou-lhe
nova e convidaram-na a ir ao confessionário e demorar-se lá dando às outras o em nome de Deus todos os desvarios cometidos. Completamente transforma-
tempo necessário de fazer o exame de consciência. A Irmãzinha que nada sus- do, o coração a nadar de contentamento voltou Passy para casa contando a
peitara, ajoelhou-se no confessionário pedindo desculpas ao confessor por não todos, como se confessara sem o saber, e como recuperara a paz que há tantos
ter tido o necessário tempo de preparação. Clemente com todo o carinho e anos fugira da sua alma.
paciência auxiliou a jovem Religiosa que fez uma confissão tão boa como pou-
cas vezes na vida. Lá fora as outras puseram-se a contemplar o rosto da
Irmãzinha, para se formarem uma idéia do que as esperava no confessionário.
Vendo a Irmãzinha alegre e satisfeita, encheram-se de coragem, mas na confis-
são recebeu cada qual o sermão que não esperava. A Irmãzinha nova encheu-
se de curiosidade e, com a maior ingenuidade, perguntou às mais velhas que
conselhos tão doces haviam recebido, que as fizeram chorar, ao que elas res-
ponderam: “O Pe. Clemente nos disse que para a confissão e para a morte cada
qual deve estar sempre bem preparada, porque ninguém sabe quando o Se-
nhor virá”.
Em Viena havia naquele tempo um célebre ator de teatro, chamado José
Passy. Quando ainda pequeno, seu pai o queria para a vida comercial não per-
dendo nunca vasa de o entusiasmar para esse ramo de atividade. O rapaz
porém deu-se à leitura de romances cavalheirescos, amorosos e teatrais; com
a fantasia efeminada, detestando todo o trabalho sério, fugiu para a cidade de
Praga, onde se colocou numa companhia dramática. O pai ao ter conhecimento
do caso, mandou o filho mais velho ao encalço de José Passy para reconduzir à
casa paterna.
Reconhecendo José a sua incapacidade para a vida de teatros, e tendo a
experiência de que o romance escrito é bem mais atraente do que o da vida
real, acompanhou o irmão com o qual voltou para Viena. Sem fé e sem religião
o pobre jovem levava uma vida bem triste e sem consolação, quando percebeu
os primeiros sintomas da enfermidade que o levaria fatalmente ao túmulo. Mor-
rer na flor dos anos, ficar privado de todos os prazeres, dizer adeus a todos os
divertimentos... isso tudo torturava-lhe o coração.
Cheio de compaixão para com o pobre irmão, João Passy levou-o, a título
de visita, ao Servo de Deus, que o convidou a voltar outra vez no dia seguinte;
José que se edificara com as boas maneiras do velho sacerdote, para lá voltou
conforme prometera em busca de nova palestra agradável. Clemente olhando
para o jovem disse-lhe: “Amigo, deves fazer a tua confissão; só assim é que
uma nova luz iluminará a tua alma”.
Percebendo o desaponto do jovem, Clemente pareceu mudar de assunto,
perguntou-lhe por sua idade, sua vida, suas ocupações, seu desejos na infân-
cia e na juventude, interessou-se por seus sucessos em Praga, pelos livros de
sua predileção, pelas orações que mais gostava de fazer, pelas igrejas que
mais freqüentava aos domingos, pelos amores que lhe prenderam o coração
etc. O jovem, comovido por tanto interesse e delicadeza, abriu o coração e
desabafou-o no de Clemente fazendo-o confidente da sua vida inteira, descre-
veu-lhe minuciosamente os seus desejos, as suas aspirações, os seus dissabo-
res, os seus fiascos e mais alguns pormenores. Quando o jovem terminou a
narração, Clemente sorrindo paternalmente disse-lhe: “Meu caro amigo, tua

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vidou-o para o almoço, que o neo-presbítero aceitou, julgando-se ditoso por
poder passar umas horas em companhia do Santo.
Qual não foi o seu espanto, quando viu a Clemente, não sentado a seu
lado, mas a exercer com toda a delicadeza o ofício de copeiro. Terminada a
refeição, subiram ao andar superior, onde Clemente lhe preparara um leito macio
CAPÍTULO IX para a sesta... “porque é bom, disse ele, que gente nova e fraca durma um
pouco depois das refeições”. O neo-presbítero não se deixou rogar segunda
O amigo dos doentes vez, entregou-se ao sono, enquanto que São Clemente lá fora se aprofundava
em santas meditações.
Na enfermaria do convento das Ursulinas achava-se uma Religiosa já ido-
O caridoso enfermeiro — O neo-presbítero enfraquecido — A Religiosa sa e um tanto fraca do juízo, que com suas impaciências e impertinências mo-
neurastênica — O cão preto — O barão tuberculoso — O lobo convertido em lestava as outras religiosas. Clemente, para ganhar aquele coração, ia todos os
cordeiro — Convertido pela água benta — Dois coelhos de uma cajadada — dias ao jardim, onde colhia alguma flor, que levava à pobre enferma; na falta de
Um funcionário maçom morre santamente — Esforços de conversão — Con- flores, no inverno, procurava qualquer presente, de que a doente pudesse gos-
versão estupenda na hora da morte. tar, entretinha-se com ela sobre coisas e assuntos indiferentes, porque a velha
não se simpatizava com ascese nem misticismo. Aos poucos conseguiu domar
A exemplo do divino Redentor, que nos dias da sua vida mortal, visitava os aquele coração, que completamente se rendeu, quando Clemente, convidan-
doentes derramando-lhes nas chagas da alma o bálsamo de consolo ou restitu- do-a para um passeio pelos corredores do convento, lhe apresentou o braço
indo-lhes miraculosamente a saúde do corpo, os Santos de todos os tempos se para lhe facilitar os passos. Tal amizade e compaixão converteram a pobre en-
têm distinguido no amor para com os doentes consagrando-lhes boa parte de ferma, que alegre e contente dai por diante não molestou mais a enfermeira.
sua vida. Visitar os enfermos, consolá-los nas suas dores e aflições, e reanimar São Clemente tornava-se incansável à cabeceira dos doentes, mormente
os seus corações encaminhando-os para Deus, é uma obra de caridade genu- quando a morte se aproximava prostrando a pobre vítima. A Irmã Thadéa narra-
inamente cristã, um trabalho verdadeiramente apostólico, tão útil como a prega- nos um fato que comprova admiravelmente essa verdade.
ção ou a audição das confissões. São Clemente era admirável nesse particular. “No nosso instituto de educação, havia uma aluna por nome Rosa, que já
O seu coração nobre não podia ouvir, sem se comover, os ecos dos gemidos tinha feito a primeira comunhão. Aconteceu a pequena adoecer, e às portas da
profundos ou das dores lancinantes dos pobres enfermos. morte, sentir temores indizíveis; levantava os braços e clamava: ‘O cão preto me
Como já tivemos ocasião de observar, S. Clemente consagrava a primeira quer tragar”. Uma das Irmãs correu em procura do Pe. Clemente, que chegou
parte do dia ao serviço divino e ao confessionário, e a segunda parte, ao cuida- imediatamente; mal havia o Servo de Deus penetrado no quarto, a aluna excla-
do dos seus queridos doentes na cidade ou nos arrabaldes de Viena sem se mou tranqüilizada: “O cão preto já se foi”. O Servo de Deus abençoou a peque-
perturbar com a neve e o vento, a chuva ou a tempestade. Qual anjo consolador na, deu-lhe a absolvição geral e ela morreu com a placidez dos justos. “Temos
é cabeceira dos doentes, suas palavras eram sempre fortes e animadoras em no céu mais um anjo que reze por nós”, disse então o Servo de Deus dirigindo-
todas as enfermidades, porque extraídas da Escritura e umedecidas no sangue se às irmãs.
do Crucificado. Após as visitas do Santo, os enfermos abraçavam resignados a O amor do Santo Redentorista para com os doentes não se limitava à en-
sua cruz mandada por Deus, beijavam-na com amor, como a escada miraculosa fermaria do convento, mas abrangia a cidade de Viena inteira desde os palácios
que os conduziria ao paraíso. dos grandes até as míseras choupanas dos pobres. Seria difícil, para não dizer
No caso de pobreza levava-lhes Clemente, debaixo do manto, a esmola impossível, enumerar os doentes que S. Clemente visitou e consolou no tempo
que lhes devia mitigar a fome. Não tinha o pobrezinho quem lhe pensasse as da sua estada em Viena. Não havia na grande Capital quem não conhecesse
chagas e lhe apresentasse o remédio na hora certa, Clemente lá ficava horas e esse amor excepcional de Clemente para com os doentes; por isso chamavam-
horas, exercendo caridosamente o ofício de enfermeiro e não julgava perdido o no sempre, mormente em se tratando de infelizes, que perderam a fé e se
tempo que passava junto da cabeceira do doente. obstinavam em não receber os santos sacramentos.
Mesmo no caso de não ser grave a enfermidade, Clemente sentia igual Um dia foi chamado para sacramentar um senhor da alta nobreza; nin-
compaixão com o doente, e como não pudesse ver ninguém sofrer, ia visitá-lo e guém na família ousava manifestar ao infeliz a gravidade da doença, e o enfer-
lembrar-lhe que o tempo da doença é a colheita dos maiores merecimentos mo, ignorando a seriedade do caso, não se lembrou de pedir os últimos sacra-
para o céu. No seminário de Viena havia um rapaz, penitente do nosso Santo, mentos. Ao chegar Clemente à casa do doente, pediu-lhe a esposa que por
de constituição franzina e fraca, a quem ninguém profetizava cabelos brancos amor de Deus não espantasse o marido. O Servo de Deus deixou-a falar e
no futuro. Ordenado sacerdote foi participar sua alegria ao velho amigo e ben- entrou no quarto do enfermo; como este se achasse deitado atrás da porta,
feitor. Clemente mostrou viva satisfação pela felicidade do seu penitente e con- Clemente não o vendo, gritou: “Onde está o doente que não quer confessar-

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se?” O temor da esposa era felizmente infundado, o enfermo com gosto se Um jovem da aristocracia vienense, filho de pais católicos e piedosos, dedi-
confessou, consolando-se com a palavra de Clemente, que lhe assegurou a cando-se ao estudo da filosofia racionalista, perdeu a fé, como acontece a to-
salvação. dos que fazem seus estudos superficialmente sem procurar aprofundar-se na
E sempre que Clemente afiançava a alguém a salvação e o céu, ninguém ciência. Como a incredulidade, embora originada do orgulho humano, não tem
disso duvidava porque a voz de Clemente era a de um anjo que falava em nome poder para afastar as enfermidades e a morte, o jovem foi atacado de doença
de Deus. mortal, que lhe roubou a tranqüilidade e a paz, pois nada tinha a esperar nesta
Uma jovem princesa, prostrada em seu leito de morte, sofrendo horrivel- vida nem na outra. Chamaram o Pe. Clemente para lhe endireitar a cabeça que
mente, não cessava de dizer radiante de consolação: “O Pe. Clemente prome- os professores haviam entortado. Compreendendo S. Clemente que a fé, bebi-
teu-me o céu”. da nas fontes de uma boa educação doméstica, não se perde facilmente em
Em Viena havia um barão, católico prático, porém só de confissão anual. Já seus princípios, deixou de lado toda e qualquer argumentação e convidou o
de há muito vinham os bacilos da tuberculose roendo os seus pulmões. Embora moço a recitar com ele o “Creio em Deus Padre”. Porém debalde, o jovem não
o pobre barão se prometesse longa vida, a boa esposa não o deixava sossegar, proferia palavra. O Santo percebeu que não podia ser outro senão o demônio,
insistia com ele para que recebesse os sacramentos a fim de não morrer como que lhe segurava a língua para não rezar; tomou um pouco de água benta
um pagão. Como o nobre senhor não prestasse ouvidos a esse conselho, a aspergiu-a sobre o doente, com as palavras: “Reze agora!” E sem mais dificul-
baronesa foi procurar S. Clemente, que saudando o enfermo lhe disse com voz dade o jovem recitou o credo inteiro. Sua alma estava outra vez transformada
decidida: “Sr. Barão, confesse os seus pecados, que o sr. pode estar certo de ir para o bem, possuía novamente fé, cria como nos dias da sua infância. Seus
para o céu”. O nobre senhor estranhou aquela saudação, refletiu um pouco e olhos derramaram lágrimas, enquanto seus lábios proferiam o desejo íntimo do
perguntou: “Que é que V. Revma. está dizendo? será verdade mesmo?” — “Sim, coração: “Padre, eu quero confessar-me”. Pouco depois deu a alma a Deus,
é verdade”. — Achando o barão que para ele era um bom negócio comprar o consolado por haver recebido os Sacramentos.
céu por coisa tão fácil, respondeu: “Pois então eu quero confessar-me agora Um barão de Viena, embora filho de mãe católica e sobrinho de um trapista,
mesmo”. Confessou-se, recebeu o viático e a extrema-unção. era calvinista como seu pai, de acordo com o contrato pecaminoso feito pelos
A morte porém não chegou tão depressa como se esperava; e estando ele pais na hora do casamento, de educar os meninos no calvinismo e as meninas
já cansado de rezar e não sabendo sobre o que conversar com a baronesa o no catolicismo. O jovem entrou logo para a universidade, como aluno do grande
dia inteiro, comprou umas cartas de baralho e pôs-se a matar o tempo divertin- matemático João Madlener, discípulo de São Clemente; os estudos porém, aba-
do-se com seus amigos. A pobre esposa escandalizou-se com esse modo sin- teram logo o barão calvinista; o mal agravou-se sendo o pobrezinho em breve
gular de se preparar para a morte; mas ele tranqüilo respondeu-lhe: “Sabes tempo desenganado dos médicos. Seu antigo professor visitou-o freqüentes
duma coisa? o Pe. Clemente não me proibiu de jogar; se fosse pecado, ele não vezes lamentando estar ele emaranhado no calvinismo e, por isso mesmo, pri-
m’o teria permitido”. Foi o suficiente para terminar a desavença. vado dos confortos dos Sacramentos da Igreja; não teve porém coragem de
Um senhor idoso e rico em Viena estava já desenganado dos médicos e dizer uma palavra sequer ao jovem barão. Foi ter com S. Clemente, participan-
por isso sem esperança alguma de recuperar a saúde. Os parentes fizeram-lhe do-lhe o estado deplorável do seu discípulo na universidade. O Santo franziu o
ver o estado em que se achava e aconselharam-no a ajustar as contas com rosto e com toda a seriedade disse a Madlener: “Por essa alma o senhor é
Deus; porém debalde. O ancião estava decidido a não procurar os sacramen- responsável; diga-lhe que ele vai morrer”.
tos. Chamaram diversos sacerdotes, que foram visitá-lo, um depois do outro; e O professor toma o chapéu e corre à casa do barão para lhe comunicar a
o doente a cada um que entrava dirigia a saudação: “Vai-te para os diabos”. E sentença de morte; mas ao ver o infeliz perdeu a coragem contentando-se com
os sacerdotes retiraram-se rezando pelo infeliz. Os parentes encheram-se de as palavras: “Pe. Clemente interessou-se por ti e pretende fazer-te uma visita”.
terror diante daquelas palavras blasfemas dirigidas aos ministros de Deus, mas O jovem edificando-se com tamanha gentileza por parte de um homem tão
não desanimaram; lembraram-se do Reitor da Igreja de Santa Úrsula. Conta- conhecido e estimado na cidade, sorrindo-se de contentamento murmurou com
ram-lhe todo o ocorrido, mas Clemente não perdeu nem a coragem nem a es- voz sumida: “Diga-lhe que agradeço a visita, e que, quando sarar, quero ter o
perança; tomou o rosário e, pelas ruas de Viena, conjurou o céu que lhe desse prazer de pagar tanta amabilidade”. Madlener, compreendendo que o doente
aquela alma. Mal chegara o Servo de Deus à porta da casa, quando chorosas podia morrer a cada instante, voltou depressa a seu Diretor, pedindo-lhe que
lhe correram ao encontro a esposa e as filhas, pedindo que tivesse paciência não se demorasse, que o doente estava já nas últimas. S. Clemente acompa-
pois que já doze sacerdotes, antes dele, nada haviam conseguido do doente. nhava Madlener, porém em silêncio; por entre os seus dedos deslizaram-se as
Clemente entrou perguntando: “Onde é que está o doente?” Quando lhe mos- contas do Rosário, enquanto que ele pedia à Virgem a conversão do infeliz. Ao
traram o leito, viu o Servo de Deus o enfermo imóvel sobre a cama e exclamou: aproximar-se do enfermo pergunta-lhe por seu estado, ao que o interrogado
“Ah! é ele; estaremos logo prontos”. Saudou o doente, que mando como um responde: “Padre, estou muito mal”. Clemente sentiu-se comovido com aquela
cordeiro, fez sua confissão, recebeu a comunhão e extrema-unção e morreu na declaração, mandou que todos se retirassem, e em seguida sentando-se à ca-
amizade de Deus. beceira do jovem barão, tomou-lhe a mão e, com o coração nos lábios, falou-lhe

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da verdade e do erro, de Cristo e Calvino, da verdadeira Igreja e da falsa, da Milhares de casos semelhantes poderíamos mencionar para a edificação
consolação que o católico tem na vida e na morte, e do desespero do calvinismo dos leitores; mas esses bastem como prova da solicitude e do amor com que S.
que condena os seus adeptos, quer tenham culpa, quer não. Passado um quar- Clemente procurava o bem-estar temporal e espiritual, mormente daqueles que
to de hora, Clemente chama os amigos com as palavras: “O doente é católico, estavam prestes a ajustar suas contas com Deus.
vou buscar a santa comunhão”, e ele recebeu o Corpo do Senhor com uma Quando percebia que seus esforços eram insuficientes, corria a Jesus no
devoção tal, que arrancou lágrimas dos que presenciaram tão comovente cena. tabernáculo e não o deixava enquanto não sentisse em seu coração o pressen-
Depois de quatro horas de oração o enfermo entregou sua alma santificada ao timento da conversão dos pecadores, por quem rezava. Era um outro Israel que
Senhor. — O irmão do falecido, calvinista como ele, ao saber da gentileza de não cedia em sua luta com Deus. Um dia Clemente trabalhara em vão na con-
Clemente, julgou seu dever visitar o Santo e agradecer-lhe quanto fizera por versão de um moribundo: recorreu ao pastor de todas as almas, escondido no
seu falecido irmão. O Servo de Deus compadeceu-se também daquela alma e sacrário. Era meio-dia, as Ursulinas estavam reunidas no refeitório e a igreja
aproveitou-se da ocasião, que Deus lhe mandava, para convertê-lo. Clemente vazia, inteiramente vazia; Clemente julgando-se só, ajoelhou ao pé do altar; sua
descreveu ao visitante a morte santa que tivera o jovem barão, e começou a oração não era tranqüila como de costume, era santamente violenta: “Senhor,
falar de Calvino cuja vida era cheia de vícios, e que por isso Deus não o podia dai-me essa alma... dai-m’a eu vo-lo peço; se não m’a derdes irei a vossa Mãe...”
ter escolhido para reformar sua Igreja etc. Passada uma hora Carlos Rieger — Mais não pôde compreender a Irmã Thadéa que nessa ocasião se conservava
assim se chamava ele — estava convertido, era católico; anos depois foi orde- escondida no coro da igreja. O rosto do Santo estava banhado em lágrimas,
nado sacerdote trabalhando ainda muito tempo, em Viena, para a santa causa seus olhos fitos no sacrário, seus braços em forma de cruz, ora levantados, ora
de Deus. colocados sobre o altar; como que para obrigar a Jesus a conceder-lhe a alma
Um velho funcionário público vivia em Viena ao lado de sua esposa, senho- prostra-se por terra osculando o pavimento sagrado do templo, humilhando-se,
ra distintíssima, que se desvelava dia e noite, para tornar agradável ao seu o mais possível, para mover o coração Daquele que disse: “Pedi e recebereis”.
marido a vida doméstica. O funcionário, porém, desejoso de uma vida mais livre À cabeceira dos enfermos debatia-se muitas vezes para arrancar as almas à
e divertida, começou a sentir-se mal junto da sua esposa, cujas virtudes lhe perdição eterna. Disso temos uma prova clássica no exemplo seguinte.
exprobravam continuamente a vida desregrada que levava. Achou melhor divor- Um oculista, lente da Universidade de Viena, intoxicado pelas más leituras
ciar-se dela, o que fez sem se comover com as lágrimas e os pedidos de sua e pelo espírito da época abandonou não só a prática da piedade, mas também
santa esposa; filiou-se à maçonaria7, que então era proibida por lei na Áustria, a fé, homenageando tão somente os sábios racionalistas; alistou-se na maço-
como sociedade perigosa que ocultamente trabalha contra o trono e altar, em- naria e chegou até a negação da existência de Deus. Oculista do corpo precisa-
bora proclame altamente filantropia e altruísmo. A pobre esposa, que tudo per- va de alguém que lhe abrisse os olhos da alma. Chamaram o Servo de Deus,
doara de coração, orava sem cessar pela conversão de seu marido, e, como que conhecia remédios para semelhantes males — e o infeliz estava já às por-
penitente de São Clemente, pediu-lhe que em suas orações não se esqueces- tas da eternidade. Clemente entrou, e o oculista que se dedicara à estética
se do infeliz esposo do santo Sacrifício da missa. Por uma casualidade qualquer desde os tenros anos, fitando o Santo, sua fronte alta, seu rosto espiritualizado,
entrou o velho funcionário em uma igreja durante a pregação de Clemente. seus traços nobres, saudou-o: “Na verdade, tem a cabeça de um apóstolo”, ao
Empolgado pela eloqüência, convicção e unção do Servo de Deus, começou a que o Santo replicou, pagando na mesma moeda: “Na verdade, o sr. tem a
sentir os remorsos da consciência, até que subjugado pela graça fez sua confis- cabeça de um Sócrates”. O doente sorriu, e Clemente lhe principiou a falar de
são geral e chamou a esposa para sua companhia depois de lhe pedir humilde- Deus e da eternidade. Tudo porém foi em vão. Clemente retirou-se de perto do
mente perdão. Como sua conversão era sincera entregou ao confessor as in- pecador obstinado, o coração traspassado por uma espada de dor, porém es-
sígnias da maçonaria, vivendo dali por diante como bom católico. Pouco tempo perançoso ainda de ganhar aquela alma para Deus. Pouco depois volta nova-
depois da sua conversão, a tuberculose galopante o prostrou, tirando-lhe toda a mente o Santo, saúda com toda a cortesia o doutor oculista que o cumula de
esperança de restabelecimento. O convertido não se perturbou por isso; estava palavras grosseiras, o injuria, protestando contra padres que só sabem enga-
bem com Deus e assim poderia com tranqüilidade comparecer perante o seu nar a humanidade e não deixam a gente sossegada nem na hora da morte;
Juiz Eterno. São Clemente não cessou de o visitar, repetidas vezes, a fim de mandou-o retirar-se da casa antes que chegasse a polícia. São Clemente rece-
assim melhor prepará-lo para a morte. Estando já em seus últimos momentos beu todo aquele destampatório com a costumada calma, oferecendo tudo a
Clemente apresentou-lhe o Crucifixo, que ele beijou entre lágrimas e soluços Deus pela conversão do pecador obstinado; cheio de bondade aproximou-se do
aceitando de boa vontade a morte como expiação das suas numerosas culpas; leito do moribundo com a observação: “Meu amigo, quando alguém vai fazer
chamou sua esposa, agradeceu-lhe as orações, o generoso coração, os cari- uma viagem, leva dinheiro consigo; o senhor vai fazer uma longa viagem, e
nhos, e em seguida com voz entrecortada de soluços disse-lhe: “Mulher, per- despreza os meios que lhe são necessários no caminho: os Sacramentos da
doa-me todas as mágoas e dissabores que te causei”. E depois de receber o Igreja; não seja tolo”. O doente enfureceu-se novamente, apontando a porta ao
perdão de Deus e da sua esposa, entre os braços de São Clemente, expirou Servo de Deus. Clemente vendo que aquela alma se achava toda em poder de
placidamente no Senhor. Satanás, retirou-se um pouco, sentou-se em uma cadeira e pôs-se a desfiar as

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contas do rosário. O enfermo indignado até o íntimo da alma, quis saltar sobre
o Servo de Deus e, não o conseguindo, clamou-lhe: “Que quer o Senhor? vá-se
embora e deixe-me em paz”. Com calma e tranqüilidade respondeu o Santo:
“Tenho visto muitas vezes morrer o justo, agora quero ver como morre um con-
denado”, e continuou a rezar. Essas palavras despertaram o racionalista; ódio e
arrependimento, temor e remorsos, confiança e desespero borbulharam em seu CAPÍTULO X
coração; nos seus ouvidos repetiam-se os ecos: “Quero ver como morre um
condenado”. Não podendo já resistir à graça chama o Servo de Deus e pede-
lhe: “Reverendo, perdoe-me todas as injúrias que lhe acabo de dirigir”. Assegu-
Sua dedicação aos pobres
rando-lhe o Santo haver já esquecido tudo, acrescentou: “Mas Deus perdoar-
me-á os meus pecados?” A essas palavras o doente desatou em prantos de O pintor em apuros — A mulher esperta — A benfeitora oportuna — Multi-
arrependimento. — “Deus é bom, meu filho, faça o ato de contrição, peça-lhe plicação milagrosa — A postulante maravilhada — As dívidas das Ursulinas —
perdão, que ele perdoará tudo”. O peixe pagador — Os sapatos da Irmã — O batalhão dos pobres.
Em seguida o doente confessou-se com as mostras de maior contrição e
dali a pouco expirou brandamente apertando contra o peito a imagem do Cruci- São Clemente era incansável quando se tratava dos pobres. Embora vives-
ficado e as mãos do seu salvador. se muito modestamente, não podia ver os outros padecer fome ou miséria,
Se era raro um doente resistir aos esforços do Servo de Deus, não deixa achava sempre benfeitores dos quais recebia esmolas abundantes para os
contudo de haver exemplo disso. Eis um fato. deserdados da fortuna; muitos contos de réis passaram por suas mãos em
Um maçom gabava-se de não acreditar em coisa nenhuma e até zombava benefício dos necessitados. Às crianças que o rodeavam mimoseava o Santo
dos que tinham fé. Apesar da impiedade notória desse inimigo da Igreja, São com maçãs e doces, aos estudantes, que todas as noites se reuniam em sua
Clemente não hesitou emir ter com ele. Esgotou todos os recursos do seu zelo, casa, franqueava os armários; diariamente convidava para o almoço cinco ou
mas não pôde chegar a converter o infeliz. — A conversão de um maçom é seis estudantes pobres, aos quais não dava apenas do que lhe sobrava, mas
coisa dificílima: os juramentos que o prendem ao demônio são obstáculos terrí- tirava muitas vezes da sua própria boca o pão que recebia, para com ele matar-
veis à operação da graça no seu coração. São Clemente conseguiu, todavia, lhes a fome. Quando alguém nessas ocasiões se lembrava de dizer-lhe que não
várias conversões, mesmo entre os maçons como temos visto. Em Varsóvia e era bom privar-se do necessário para dá-lo aos outros, respondia o Santo: “Que
em Viena teve a alegria de levar para Deus grande quantidade deles. lhe importa isso, se eu me sinto satisfeito assim?” Em benefício dos estudantes
e dos órfão Clemente mendigava muitas vezes, de porta em porta não recean-
do os vexames e as humilhações que por vezes passava.
Especial solicitude manifestava o servo de Deus para com os pobres en-
vergonhados, que se acanhavam de pedir; enchia as algibeiras fundas do seu
manto e ia de casa em casa em procura desses infelizes, aos quais fornecia
caridosamente mantimentos e dinheiro, conforme as necessidades deles. Deti-
do por qualquer doença ou ocupação muito urgente, mandava seus padres em
nome dele, visitar os pobres, levando-lhes o conforto material e espiritual.
Nas suas esmolas São Clemente era prudente, não querendo, em sua ca-
ridade, favorecer a indolência de ninguém, pois que o trabalho é uma necessi-
dade e uma virtude, enquanto que a preguiça é um pecado e a mãe de muitos
outros. Naqueles tempos vivia em Viena um pintor que, no ano magro de 1817,
ficou reduzido à miséria, por falta de encomendas de pintura. Para trabalhar
não tinha incentivo, para mendigar não tinha ânimo e para roubar não tinha
vontade. Não conhecendo outro recurso foi expor a S. Clemente o mísero esta-
do em que se achava, pedindo seu apoio e conselho. E o pobre pintor não ficou
enganado, o Santo olhou por ele todos os dias, enquanto durou a carestia; não
querendo porém deixá-lo sem ocupação recomendou-lhe que pintasse muitos
quadros de Sto. Afonso que mais tarde conseguiu vender com bastante lucro.
Era interessante e edificante ao mesmo tempo. Os ricos procuravam a Cle-
mente, e Clemente procurava os pobres. Não sabemos muitos detalhes porme-

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norizados da vida do Santo nesse sentido, e é natural, pois que os pobres es- Entre os discípulos do Santo havia um por nome Antônio Passy, que des-
quecidos e desprezados, não deixaram nenhures consignadas as suas impres- confiando, ou antes, percebendo qualquer coisa de extraordinário na distribui-
sões nem a gratidão de seus corações; além disso a caridade oculta-se o mais ção das comidas, quando feita por Clemente, pôs-se a observar a coisa com
possível, e Clemente trabalhava não para conquistar os louros da admiração especial atenção. Uma tarde chegou, como de costume a comida do convento
mundana, mas unicamente para agradar a Deus. das Ursulinas para o Santo e o Pe. Martinho seu companheiro; este, jovem e
O Pe. Madlener escreve com muita razão: “Clemente gostava muito mais robusto, comeu com apetite a parte que lhe cabia, e Clemente tomando a sua
da companhia dos pobres e dos simples do que da dos ricos e grandes”. porção, distribuiu-a entre os 16 estudantes que lá se achavam, ficando todos
Os pobres, que conheciam a grande generosidade de Clemente, usavam, satisfeitos. Em seguida o Santo tomando o pão de sobre a pesa, cortou-o em 16
às vezes, de astúcias para conseguir esmolas. Um belo dia um rapazinho de grandes pedaços, que distribuiu aos estudantes. Passy viu sobrar apenas um
olhos tristes e melancólicos bateu à porta do Santo, pedindo-lhe que fosse ver pedacinho, que o Santo guardou para si. — Como os estudantes, em geral, têm
uma senhora doente num dos arrabaldes da cidade. Era já tarde e começava a bom apetite, os pedaços de pão desapareceram-lhes bem depressa entre os
escurecer; o Servo de Deus cansado dos trabalhos e fadigas do dia preparava- dentes. O Santo, alegrando-se com os discípulos, sadios e contentes, tornou a
se para o descanso noturno. O recado do menino, porém, alarmou-o. A senho- tomar o pedacinho de pão que sobrara, e dele cortou novamente mais 16 peda-
ra, já idosa, poderia estar muito mal, talvez à morte, e quiçá com a consciência ços. Passy observou que o pão crescia nas mãos de seu Mestre.
pesada, e Clemente era responsável por aquela alma perante Deus. Vencendo O mesmo fato deu-se milhares de vezes, não só com o pão, mas também
o cansaço e sacrificando o sono pôs-se a caminho, atravessou a cidade e de- com as outras comidas. Como já ficou dito, as refeições eram mandadas do
pois de três quartos de hora chegou ao lugar indicado pelo rapaz. Ao entrar na convento das Ursulinas em porção suficiente só para duas pessoas i. é para o
sala não viu nenhuma pessoa doente, mas uma velhinha assentada à mesa, a Santo e seu auxiliar Pe. Martinho Stark; este último, moço e robusto, servia-se,
qual não parecia precisar nem de médico nem de padre. Como porém, as apa- com honra, da sua porção, ficando a outra metade de S. Clemente para ele e
rências enganam, perguntou-lhe o Santo por sua saúde e por seus desejos, ao cinco estudantes: e todos comiam e ficavam fartos. Se acontecia aparecer mais
que a velha respondeu com toda a simplicidade: “Doença eu não tenho nenhu- algum inesperadamente, o Santo mandava-o sentar-se e das marmitas vazias
ma, mas como eu ouvi dizer que o sr. gosta muito de ajudar os pobres, mandei tirava tanta comida que lhe saciava a fome e o satisfazia.
chamá-lo, eu estou precisando de 30$”. São Clemente admirou a esperteza da Numa sexta-feira apareceu na casa de S. Clemente uma postulante das
velha, não franziu a fronte nem proferiu palavra de repreensão por aquela im- Ursulinas para dar um recado ao Pe. Sabelli. Como era justamente a hora do
prudência, sacou da bolsa e fez-lhe o presente dos trinta mil réis desejados. almoço S. Clemente convidou-a para tomar parte da frugal refeição; isto causou
O Servo de Deus dava sempre, e embora pobre e nada possuísse, sempre certo espanto à pobre postulante, porque o Servo de Deus não convidava nun-
tinha o que dar. Os padeiros da cidade e as irmãs Ursulinas forneciam-lhe pães, ca senhoras para almoçar com ele. Para não fazer desfeita ao Santo, aceitou o
com que matava a fome aos pobres. Quando era convidado a algum almoço ou convite, ainda mais que a curiosidade a impelia a observar a mesa do Diretor
jantar, e lhe ofereciam a sobra da mesa, ele aceitava com alegria e levava-a espiritual do convento. Ao ver a pequena marmita e o número de estudantes
para os seus pobres. Os vienenses generosos não tardaram a perceber a cari- sentiu-se envergonhada raciocinando consigo: “A comida é tão pouca, e os con-
dade de Clemente e, aos poucos, enviaram-lhe comidas, roupas e até dinheiro, vivas são tantos, eu não posso, seria imprudência da minha parte, aceitar o
para que os pudesse distribuir entre os mais necessitados. Confiado na bonda- amável convite”, e foi dando escusas e mais escusas; mas já era tarde, o Santo
de dos benfeitores Clemente, às vezes, dava mais do que tinha. insistiu e ela ficou. Sobre a mesa viu a postulante: sopa de macarrão, dois peda-
Uma vez alugou uma casa para um estudante; chegando o dia do paga- ços de peixe, um prato de farinha de trigo, e perto um litro de vinho tinto. Depois
mento o Servo de Deus viu-se em apuros, porque não tinha com que satisfazer de feita a oração antes da refeição, como todo cristão a faz, o Santo levantou-se
o cobrador. Rezou e tornou a rezar e Deus parecia surdo às suas súplicas. e começou a servir os estudantes; cada qual recebeu mais sopa do que havia
Como os Santos sempre têm confiança ilimitada em Deus, também Clemente na terrina; o mesmo fez com os peixes e o prato de farinha, em seguida encheu
não desanimou: faltavam apenas 12 horas para o dono da casa aparecer com a todos os copos, que não eram pequenos, e a garrafa de vinho ainda ficou cheia
cobrança. Clemente estava orando em seu quarto, quando batem a campainha. pelo meio. A postulante das Ursulinas testemunha ocular do fato afirmou que
“Mais um pobre, supunha o Servo de Deus, mais um pobre que vem pedir es- aquelas comidas admiráveis eram mais deliciosas do que as refeições prepara-
mola, e eu com as mãos vazias!” Abriu a porta e uma senhora tira da bolsa um das pelo melhor cozinheiro de Paris.
pequeno pacote e retira-se. Clemente abre o presente, vê e admira: uma bela De um modo especial socorria ele às pobres irmãs Ursulinas; embora pos-
quantia para pagar a casa e fazer mais alguma esmola. suidoras de algum recurso pecuniário nos primeiros anos, perderam tudo em
Deus não poucas vezes mostrou quanto lhe era agradável a caridade de 1811, ano fatal em que o Estado fez bancarrota, os bancos se quebraram, e a
seu Servo, dando-lhe o poder de multiplicar os pães como outrora Jesus nas carestia se manifestou horrível em Viena e, em geral na Áustria. As religiosas
encostas da montanha, o qual com cinco pães e dois peixinhos sustentou mais sofreram mais que todos os outros, porque não podendo transpor a clausura,
de cinco mil homens, não contando as mulheres e crianças. só esperavam socorro da Providência e da generosidade de quem as quisesse

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beneficiar. S. Clemente não as desamparou; esmolava para elas entre os ami- Não obstante toda essa atividade, não se notava em Clemente aquela pre-
gos e, radiante de alegria, levava-lhes o que recebia dos benfeitores. Uma vez cipitação que facilmente se apodera de pessoas muito atarefadas. A impressão
bateu à porta do arquiduque Rodolfo, arcebispo de Olmütz e irmão do impera- que Clemente causava, habitualmente a todos, era a de uma alegria modesta e
dor, pedindo-lhe que intercedesse pelas irmãs junto do monarca, que se dignou uma tranqüilidade serena e imperturbável. É como diz a Imitação de Cristo:
saldar todas as dívidas das Ursulinas. — Uma outra vez a carestia e a fome “Uma alma pura, simples e firme no bem, nunca se desorienta nas preocupa-
invadiram novamente a cidade de Viena. A pobre ecônoma do convento viu-se ções mais agres da vida, porque todo o seu procedimento visa a glória de Deus,
quase no desespero não sabendo donde tirar o necessário para matar a fome e serena dentro em si, esquece-se sempre de si própria” (I. 3.3).
das suas religiosas: já não havia pão no refeitório, nem carne na dispensa, nem
farinha no armário, nem dinheiro na caixa e nem crédito nos negócios. A pobre CAPÍTULO XI
irmã procurou nas lágrimas um alívio para a sua dor. Uma Religiosa que passa-
va, compreendendo a causa daqueles prantos, consolou-a com as palavras:
“Precisamos de um peixe pagador como nos tempos de São Pedro”. A Irmã
referiu-se a um caso sucedido com S. Pedro e narrado por S. Mateus (17,23-
26): Estando a Judéia sujeita aos romanos, tinham os judeus de lhes pagar
anualmente os impostos, como também hoje em dia é costume em todos os
lugares. Indo S. Pedro com Jesus a Cafarnaum, lá encontrou os cobradores,
que o saudaram pouco amistosamente: “Pedro, como é, o vosso Mestre não
paga os impostos?” São Pedro não deixou de sentir o arrepio em todo o corpo,
pois que não estava absolutamente prevenido na hora; reanimando-se porém
respondeu: “Paga, sim” e foi contar tudo a Jesus que lhe disse: “Não há dúvida,
Pedro; vai ao lado, lança o anzol, o primeiro peixe que apanhares terá na boca
o dinheiro para o pagamento”. Embora admiradíssimo com semelhante ordem,
Pedro obedeceu e com mais admiração ainda encontrou entre as guelras do
peixe o dinheiro exigido pelos cobradores. — Coisa semelhante desejava a boa
Irmã que se desse com os peixes do Danúbio, que passa em Viena; esse peixe
pagador estava mais perto das Irmãs do que elas o poderiam imaginar. Algu-
mas horas depois aparece São Clemente no convento das Ursulinas e, olhando
para a Irmãzinha ecônoma disse-lhe: “Irmã, eu sou o peixe pagador”; tirou sua
bolsa e entregou à Superiora uma boa soma de dinheiro, que recebera dos
benfeitores.
A Irmã Thadéa conta o fato seguinte que se deu com ela: “Recebi o santo
hábito no tempo que Viena gemia sob o jugo da carestia e da fome: a Superiora
disse-me: ‘Sapatos como os que as irmãs usam, não lh’os posso fornecer, con-
tente-se, por enquanto, com os que a senhora trouxe’. Durante os santos exer-
cícios preparatórios para a tomada de hábito, veio o Pe. Clemente, mostrou-me
um par de sapatos com as palavras: ‘Experimente se lhe servem; se não, com-
prarei outros’. Os sapatos serviam perfeitamente, continua a irmã, e eu os usei
somente nos dias de grande festa durante 34 anos”.
O que São Clemente era para os pobres viu-se claramente por ocasião do
seu sepultamento; os pobres de Viena — batalhão incalculavelmente grande —
apareceram chorando o seu defunto pai e benfeitor. Por causa dos seus cons-
tantes passeios pelos arrabaldes da cidade em procura dos pobres, Clemente
era muito conhecido em Viena. Além disso Clemente gostava de andar de bati-
na Redentorista, embora a Congregação não fosse ainda aprovada na Áustria,
e as outras Congregações preferissem, por prudência, andar em trajes secula-
res. Isso atraía no princípio a curiosidade, e em seguida a admiração, o respeito
e amor para com o grande Apóstolo.

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ela entrou no convento das Irmãs Redentoristas, que naquele tempo eram ain-
da desconhecidas na Áustria.
Cuidado especial dedicava ele às vocações religiosas ou sacerdotais. Sem-
pre muito cauteloso e extremamente reservado nesse assunto, não deixava
nada sem tentar quanto se convencia de que alguém era realmente chamado
por Deus para a vida religiosa, que ele, em sua fé profunda, só olhava à luz da
eternidade.
O sábio conselheiro A uma Religiosa da Visitação disse o Servo de Deus uma vez: “Só na hora
da morte é que a senhora irá avaliar quão grande e sublime é a graça da voca-
ção religiosa; toda a grandeza do mundo não é nada em comparação dela” —
O Espírito Santo lhe dirá — Ler romances — Pequenos presentes — Uma Quando se tratava de levar alguma donzela ao convento, não olhava as dificul-
profecia — Interesse pelas vocações — Dedicação paternal. dades por grandes que fossem. Uma filha de boa família desejava ardentemen-
te entrar no convento das Carmelitas em Praga, mas a oposição dos pais era
São Clemente não era apenas Diretor de almas no confessionário; sua formidável; como não encontrasse meios de os convencer, a pobrezinha recor-
prudência, zelo e santidade faziam dele um firme conselheiro para todos os reu a São Clemente pedindo seus conselhos e auxílio. O Servo de Deus deter-
estados e classes de pessoas. Os seus princípios seguros e sãos, manejados minou a hora em que ela deveria expor novamente aos pais a resolução inaba-
sabiamente segundo as necessidades dos que pediam conselhos, nunca erra- lável do seu coração. Chegada a hora, Clemente estava já à porta. Ao cair o
vam o alvo. Havendo uma senhora em Viena perguntando ao Pe. Zacharias assunto sobre o ponto delicado, batem à porta. Era Clemente que simulando
Werner, quem poderia ser o seu diretor e conselheiro, teve por resposta: “Não ignorar o caso, perguntou, a sorrir, sobre que versava a conversa, e com tanta
lhe posso propor para Diretor nenhum outro melhor do que Clemente; porém eloqüência, vivacidade e calor discorreu sobre a beleza da vocação, que os
mais bem servida ficaria a senhora, se conseguisse, mesmo fora da confissão, pais deram de boa vontade o consentimento. Muito significativa é a notícia que
pedir-lhe os sábios conselhos”. — “Desde o dia que tive a felicidade de me Antônia Ott nos narra sobre S. Clemente a esse respeito,, quando escreveu: “Já
aproximar dele, dizia Maria Rizy, educadora dos filhos do conde Gilleis, tenho de há muito eu sentia o mais ardente desejo de me consagrar inteiramente a
sentido sempre alegria e consolação apesar dos meus muitos e graves padeci- Deus na vida religiosa, mas roceira e ignorante, não sabia como realizar o meu
mentos; quando se achava muito ocupado ou sem tempo de me ouvir prolonga- desejo... um dia vi passar pelas ruas de Viena um sacerdote venerável, que me
damente, dava-me a bênção com as palavras: ‘o que eu não lhe posso dizer parecia transfigurado. Dois anos mais tarde, tive de ir novamente à Viena... en-
agora, dir-lhe-á por mim o Espírito Santo’ e — coisa admirável — nessas ocasi- trei na Igreja de Santa Úrsula; indizível alegria apoderou-se de mim quando
ões eu adivinhava sempre o que o Pe. Clemente me iria dizer; muitas vezes só reconheci o padre que oficiava nas cerimônias e que levava o Santíssimo do
a sua aproximação fazia desaparecer da minha alma todas as angústias e pre- altar-mor à uma capela lateral... Abri-lhe o coração... O Santo interessou-se por
ocupações”. Quando uma vez uma dessas almas pediu a S. Clemente licença mim, fez-me instruir, aprendi a ler, escrever, contar, e até a falar francês para
para se deliciar na leitura de um romance, disse-lhe o Santo: “Se quiser tornar- poder entrar na Visitação”.
se mais sábia, leia; mas se quiser ficar mais piedosa, não leia, porque a Sra.
não precisa disso”. A uma das penitentes disse um dia: “A senhora precisa tirar
fora o que é de mulher e mudar-se em homem, se quiser prestar para alguma
coisa”. Quando alguém querendo falar-lhe, o encontrava a rezar o breviário,
sorria-se o Santo com as palavras: “Se o sr. não está com muita pressa, espere
que eu rezo ainda um pouco, para não ter de começar outra vez; mas se está
com pressa faço pausa já”. Especial prazer sentia em presentear alguém com
santinhos, terços, medalhas, para que os distribuísse aos outros, dizendo: “Ar-
ranje com isto bastante amigos para Nosso Senhor”; só dois santinhos ele guar-
dou sempre consigo e não os deu a ninguém por mais que os tivessem pedido.
Uma donzela que queria entrar no convento, queixou-se ao Santo, de que as
condições da vida a obrigavam a ficar no mundo ainda muitos anos, e que por
isso temia não poder ser recebida mais tarde no convento por causa da avança-
da idade. Clemente baixou os olhos, ficou uns momentos silencioso e pensati-
vo, dizendo depois: “Fique sossegada, daqui a pouco a senhora será aceita em
um convento, mas não faça nenhum plano a respeito”. E de fato, pouco depois,

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Procedendo assim queria Clemente dar aos padres e irmãos daquela residên-
cia uma ocasião de conhecerem a grande virtude de seu Reitor e se edificarem
com a heróica humildade e vida interior dele.
A simplicidade devia ser a virtude predileta dos seus padres, e por isso ele
nada se poupava para vê-la praticada por todos os seus filhos espirituais, e
CAPÍTULO XII conseguiu-o admiravelmente, de sorte que nas maiores dificuldades e priva-
ções das novas fundações todos se conservavam satisfeitos e contentes. O
O Santo Superior sábio Pe. Vannelet não julgava indigno da sua pessoa rachar lenha, varrer o
quarto, adornar a igreja, ajuntar os materiais para a nova igreja etc. Queria que
os Redentoristas aprendessem a vencer-se constantemente e desprezar as
Vida interior — Rigor na pobreza — Obediência prática — A vida de simpli- vaidades do mundo: eis porque, às vezes humilhava seus padres contra o amor
cidade — Humilhações edificantes — O exemplo escrupuloso — Os defeitos próprio. O Pe. Martinho possuía um exterior atraente e manifestava certa ten-
dos Santos — Uma precipitação — O dueto abençoado — A chave do enigma. dência para a elegância e belas maneiras na sociedade; com o fim de abater-
lhe o amor próprio Clemente, estando em Viena, mandou-o buscar em um gran-
Clemente, homem de ação, alheio a todo o sentimento estéril, amava e de jarro água fresca dum poço distante fora da cidade, e num vaso enorme
promovia entre os seus a vida interior, que para ele era a alma de toda a vida comprar meio litro de leite. Ninguém estranhava tal procedimento porque Cle-
religiosa. Alegrou-se vivamente quando Deus lhe mandou os dois franceses Pe. mente era o primeiro a proceder dessa forma e a dar o bom exemplo. A esse
Passerat e Pe. Vannelet, que tinham propensão especial e declarada para a rigor unia sempre o sorriso da bondade nos lábios. Quantas vezes sentava-se à
vida de piedade e que a compreendiam e praticavam, servindo de modelo para mesa sem provar coisa alguma! jejuava com gosto enquanto os outros se ali-
os demais confrades; por esse motivo entregou ao Pe. Passerat a formação e mentavam abundantemente. Não admitia queixas quanto ao preparo das comi-
direção dos noviços, e mais tarde, quando precisou do Pe. Passerat para um das tendo isso como coisa indigna dos discípulos de um Deus Crucificado. Per-
posto de maior responsabilidade ainda, confiou o noviciado ao outro amigo da cebendo, às vezes, que o cozinheiro, pouco entendia do ofício, o próprio Vigário
vida interior, isto é, ao Pe. Vannelet. geral da Congregação abalançava-se até a cozinha e preparava as refeições
Clemente era todo olhos e cuidado para os seus caros confrades; amava- para os súditos. Quem com ele viajava, tinha de ir a pé; o exemplo de Clemente
os com amor forte e esclarecido; era antes severo que benigno, não era todavia porém adoçava o cansaço da viagem.
pedante escravo da letra que mata; quando necessário sabia adaptar, com ge- Clemente suportava com calma e tranqüilidade as maiores ofensas e os
nerosidade, a Regra às circunstâncias. Em se tratando porém da observância desacatos feitos à sua pessoa, mas era-lhe extremamente difícil conservar a
regular e da manutenção da disciplina era simplesmente inexorável. calma, quando um Religioso que é de um modo especial consagrado a Deus,
Em ponto de pobreza religiosa não admitia concessão alguma nem nas maxime um súdito seu, cometia alguma falta. Nem sequer os maiores Santos
menores coisas. Quando se tratou em Nápoles de introduzir na Congregação o são inteiramente livres de certas imperfeições, que Deus permite para os con-
pecúlio, para a maior comodidade dos súditos, Clemente protestou com ener- servar na humildade. Sendo S. Clemente de um temperamento violento e pos-
gia. Aconteceu uma vez que um padre, por descuido, aceitou uma fita de seda suindo uma vontade de aço, por vezes deixava-se levar um tanto por alguns
e a pregou em seu manto. Era uma falta contra a Regra, que proíbe aos padres momentos de santa ira e indignação por causa de Deus. Clemente conhecia
o uso da seda, a não ser nas igrejas; essa falta custou-lhe caro. Tendo o Pe. esses defeitos; logo depois do primeiro ímpeto deixava seguir o arrependimen-
Clemente de fazer uma visita a uma família muito conhecida, levou consigo o to, levantava então os olhos ao céu e batia no peito dizendo: “Homo nequam
referido sacerdote; no meio da palestra perguntou aos presentes, se queriam sum, sou um servo indigno”.
conhecer um redentorista não observante da Regra, e apontou para o laço de Com tal temperamento do Superior, os súditos tinham, às vezes, de sofrer
seda, preso no manto do Pe. Martinho Stark, e em seguida despediu-o seca- um pouco. Quem, porém, mais lutava e padecia com isso era o próprio Servo de
mente dizendo: “Pode ir-se embora”. A família edificou-se com a modéstia e a Deus, não só um ano ou dois, mas sempre até o fim da sua vida, como prova o
humildade do padre, que com serenidade se retirou sem nenhum sinal de con- fato seguinte que ele mesmo contou a um amigo com todos os pormenores. Um
fusão ou desaprovação. belo dia os dois padres Martinho e Sabelli causaram-lhe um desgosto maior do
Do mesmo rigor usava Clemente em se tratando da obediência. Estava ele que o Servo de Deus esperava receber. Indignado disse-lhes Clemente que,
uma vez em Babenhausen, cujo Reitor era o Pe. Passerat, homem de extraordi- nesse caso, fizessem o que bem lhes parecesse, que não ficaria mais com eles,
nária virtude e de observância regular exemplar. Aconteceu demorar-se o Rei- mas iria para a América, e sem mais esperar, aprontou a mala em sinal de
tor um pouco mais que de costume nas confissões e retardar sua chegada ao desaprovação, e retirou-se.
refeitório. Clemente aproveitou a ocasião para humilhá-lo; passou-lhe uma for- Os dois padres ficaram perplexos e confusos sem saberem o que fazer ou
midável descompostura e por castigo fê-lo tomar a refeição sentado no chão. pensar. Clemente dirigiu-se à Igreja de N. Sra. Auxiliadora que costumava visi-

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tar todas as semanas. Enquanto, prostrado diante do altar, fazia suas preces à
Mãe de Deus, compreendeu o mal da sua precipitação, arrependeu-se; quisera
voltar, mas a sua posição de Superior não lhe permitia rebaixar-se diante de
seus súditos. Clemente esperou que os padres arrependidos o fossem procu-
rar. Seria essa a melhor solução; mas os dois padres nem se lembravam disso.
Com o coração pesado e pesaroso levantou-se e devagar e pensativo dirigiu-se
ao norte da Áustria rezando sempre. Já estava longe quando ouviu um rumor
como de alguém que se aproximava: eram os dois padres que arrependidos lhe
suplicavam que voltasse para casa. Nunca acedera Clemente de tão boa vonta-
O amigo das crianças
de a pedido algum como dessa vez. De caminho para Viena disse Clemente:
“Infelizmente eu sou assim; dou graças a Deus que tenho esse defeito porque Porque amava a infância — O enxame de crianças — Honrosa excepção
do contrário eu poderia ser tentado a beijar-me as próprias mãos por pura vai- — Carlito obediente — A criança judia batizada — O mais belo vestido — As
dade e consideração para comigo mesmo”. alunas das Ursulinas — Lição a um professor — O Colégio dos nobres — Pro-
Em geral, porém, Clemente combatia-se e procurava tratar a todos com a messas do arquiduque.
maior mansidão possível a exemplo do divino Mestre. Um rapaz de seus 19
anos, de muita boa vontade, mas de uma susceptibilidade única, desejava ar- Sendo certo que São Clemente, em seu zelo apostólico, não se descuidou
dentemente tornar-se redentorista; pediu a Clemente que o recebesse e o San- de nenhuma classe social procurando levá-la a Jesus, se trabalhou incansavel-
to colocou-o entre os seus discípulos. Aconteceu que havendo o moço cometi- mente pela conversão dos pecadores, parece ter-se distinguido ainda mais no
do uma falta qualquer, Clemente repreendeu-o como de costume não com lu- amor às crianças. E quem o diria! ele, o homem de têmpera de aço, de força
vas de pelica mas com termos claros e concisos. O jovem indignou-se interior- máscula, de planos gigantescos, de relações íntimas com as rodas mais aristo-
mente, fechou carranca e silencioso retirou-se para seu quarto, onde se pôs a cratas de Viena, sentia verdadeiro prazer em estar com as criancinhas, em
meditar sobre a injustiça da repreensão recebida. Não demorou muito bateram passar com elas bons momentos de sua labuta apostólica. É que o lema da sua
à porta; era Clemente que ia ter com o moço; não tinha já a severidade no olhar vida era a imitação completa da vida do divino Mestre: e Jesus afagava as
e no rosto, mas o sorriso nos lábios e um papel na mão; chegou-se e levantando crianças e com elas se entretinha. Além disso Clemente subordinava também
um pouco a fronte ao jovem perguntou-lhe em tom suave: “Você conhece este essa atividade ao plano grandioso, que se propusera de restaurar a sociedade
cântico? vamos cantá-lo juntos” e em seguida lançou-lhe um olhar de ternura pelos princípios sãos do Evangelho. Como for a infância e em geral a mocidade,
como se dissesse: “Não seja mau, eu não quis magoá-lo” Clemente pôs-se a também será a vida futura; das disposições e da educação das crianças depen-
cantar e o jovem acompanhou-o: era um dueto abençoado. No fim do cântico o dem os destinos da sociedade; e por isso Clemente devia começar pela infân-
moço estava outro, alegre e satisfeito. cia. O Servo de Deus ligava à educação uma importância capital, porque, pen-
Clemente era não só respeitado mas também amado de seus súditos; al- sava ele, se acaso as más companhias vierem mais tarde, conjuntamente com
guns até quase se tornaram fanatizados por ele devido às boas qualidades do as paixões, arrastar os pobres corações para o abismo, estes, nos momentos
seu coração, como o provam as cartas dos súditos ausentes, que manifestam da reflexão e da desilusão, facilmente se recordarão do que ouviram ou apren-
as saudades e o desejo ardente de tornar a ver o pai e abraçá-lo ternamente. — deram na infância, e espontaneamente se lançarão nas mãos do Redentor
Clemente conseguiu conservar o bom espírito entre os seus, conduzindo-os mudando de vida.
com brandura e energia à própria fonte: Jesus Sacramentado. Educou-os para Como o Servo de Deus, em todos os seus trabalhos, não procurava senão
a oração que dá força e coragem; na meditação de manhã, era ele quem fazia o bem das almas e a glória de Deus, gostava dos afazeres, que facilmente
muitas vezes a consideração em voz alta. “Na meditação da manhã, escreve permanecem encobertos aos olhos do mundo; é também por mais essa razão
Czech, Clemente nos inspirava seu espírito, o seu amor a Jesus e Maria, a sua que se dedicava de um modo todo especial à educação da infância. No alto do
dedicação à Congregação e o seu zelo para todas as virtudes”. É essa a chave púlpito um dos assuntos mais freqüentemente tratados, explicados e inculca-
de todo o segredo. dos era a educação dos filhos. “Pais e mães, disse ele uma vez, não vos esqueçais
que é de vós que, em grande parte, depende a bênção ou a maldição da socie-
CAPÍTULO XIII dade humana, porque a vós é que está confiada a educação da humanidade;
formareis uma boa geração se souberdes reprimir a rebeldia de vossos filhos; o
que se semeia no coração da criança produzirá fruto na velhice; convencei-vos
de que, se fizerdes o que está em vós, Deus dará o incremento e a prosperida-
de”. O leitor ainda se recordará do quanto S. Clemente trabalhou e fez para as
crianças, mormente para os órfãos de Varsóvia. Ora esse mesmo zelo desen-

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volveu-o S. Clemente em Viena. Ele mesmo, em pessoa, reunia as crianças da aproxima-se do pai e diz-lhe: “Papai, hoje eu não como carne”. Supondo que o
grande Cidade, ensinava-lhes as verdades principais da religião, instruía-as para pequeno estivesse doente, perguntou-lhe a causa, ao que o menino respondeu:
a confissão e a santa comunhão. O Servo de Deus tinha sorte nessas suas “É por ser sexta-feira; a Santa Igreja proíbe comer carne no dia de hoje em
pesquisas para Deus, via-se constantemente rodeado de crianças, que sabia memória da sagrada Paixão de Nosso Senhor”. O pai, despeitado pela lição
agradar e atrair, segredo esse que nem todos conhecem. A criança gosta de que o próprio filho lhe passava, cerrou os sobr’olhos, como que a mostrar supe-
agrado e carinho, contanto que procedam de um coração bondoso e sincero, e rioridade e a abafar os remorsos da consciência, e perguntou: “Quem foi que t’o
o Servo de Deus não regateava os presentes aos pequerruchos: santinhos, disse?” — “O Pe. Clemente”. — O nobre senhor indignou-se, enraiveceu-se,
medalhas, frutas e doces eram distribuídos com profusão entre a criançada. A exasperou-se afirmando que nenhum padre mandava em sua casa, que não
Irmã Thadéa descrevendo o Santo nesse particular conta-nos que “quando o era o padre que comprara a carne e que não tinha que determinar o que devia
Servo de Deus andava pelas ruas da cidade, os meninos corriam para ele, ser preparado na cozinha; em seguida com um tom de espantar, dirigindo-se ao
beijavam-lhe as mãos e o rodeavam como um enxame de abelhas; e como menino, intimou-o: “Põe-te já a comer!” O pequeno pôs as mãozinhas e, os
Clemente se entretivesse muito alegre e familiarmente com eles, permaneciam olhos a derramar lágrimas, pediu ao pai que por amor de Deus o dispensasse
em companhia do Santo um bom pedaço de tempo e, não raro o acompanha- daquela ordem. Mais enfurecido ainda com a resistência do pequeno, com voz
vam até a residência, onde o Servo de Deus os instruía e os presenteava com imperiosa e sobr’olhos carregados diz ao pequeno: “Retira-te da minha vista;
santinhos, doces, frutas etc”. hoje não comerás mais coisa alguma”. O menino levanta-se e, os olhos baixos,
Quem toma em consideração o grande plano que S. Clemente se esboçara arrasados de lágrimas, vai ter com a mãe e enxuga as lágrimas no avental dela.
para a restauração religiosa da Europa, compreenderá facilmente porque é que Enternecida pergunta esta ao filho o que se passara. Ao tomar conhecimento
o Santo se dedicara à educação da infância também nos colégios. É sabido que do caso, consola-o dizendo: “Não chores, meu filho; vou preparar-te uma comi-
os Redentoristas se dedicam, por lei, exclusivamente às missões, aos retiros da de farinha”. Carlito, porém, sacudindo brandamente a cabecinha inocente
espirituais e a outras ocupações congêneres; e a fim que eles possam mais diz: “Não, mamãe, papai disse que eu não comesse nada hoje, devo e quero
desimpedidamente dedicar-se à vida apostólica, S. Afonso proibiu-lhes ter a obedecer-lhe; o Pe. Clemente nos disse tantas vezes ‘meninos, obedecei a vos-
direção de colégios, de seminários etc. Ora São Clemente não podia pregar sos pais’; mamãe, não tenho medo, eu agüento passar o dia sem comer”. A
missões, por a Congregação não ser ainda reconhecida na Áustria e nos outros mãe, tomando as dores do filho tão obediente e amoroso, dirige-se ao pai, e
países do Norte, e por causa dos tempos turbulentos de então, que não lh’o depois de eloqüente filípica pergunta-lhe na certeza do triunfo: “Então queres
permitiam. Com a licença expressa dos seus Superiores da Itália, que lh’a con- que nosso filho morra de fome? carne ele não come, e outro alimento não quer
cederam como por exceção, foi-lhe permitido abrir colégios, cuidar de orfana- tomar porque tu lh’o proibiste; isso estão é coisa que se faça?” Ao perceber a
tos, instruir as crianças nas escolas etc. Nesse ponto o zelo de São Clemente obediência do filho o coração paterno enterneceu-se; o pai chamou o pequeno,
era inexcedível. louvou-o dizendo: “Pois bem, meu filho, às sextas-feiras não comerás carne de
As crianças, sentindo o afeto carinhoso do Servo de Deus, amavam-no hoje em diante, e agora come o que tua mãe te vai dar”. O conselheiro do
com sinceridade deixando-se influenciar grandemente pela palavra de Clemen- imperador encheu-se de admiração e respeito para com o Pe. Clemente que
te, que aceitavam como se fora a palavra do próprio Deus. Ao voltar, uma vez, soube infiltrar no ânimo da criança tanto respeito e obediência aos pais, e em
para casa numa sexta-feira, São Clemente teve, como sempre, a companhia de própria pessoa levou o pequeno a Santa Úrsula para que fosse o coroinha do
diversas crianças entre as quais se achava um rapazinho vistoso e de bons Pe. Clemente.
modos, por nome Carlos, filho do Conselheiro de Sua Majestade o imperador O que atraía São Clemente para as crianças, não era nenhum motivo natu-
Francisco I. Como era de manhã, o Servo de Deus perguntou ao pequeno, que ral de sentimentalismo doentio, mas unicamente a inocência que via estampa-
é que sua mãe lhe iria preparar para o almoço, ao que o menino ingenuamente da no rosto da criança e que queria conservar e adornar. Nos primeiros anos da
respondeu que iria comer carne etc. como de costume. O Santo não perdeu estada de Clemente em Viena deu-se lá um caso edificante, mas singular. Uma
vasa de ensinar o pequeno e disse-lhe compassadamente: “Carlito, temos obri- família judia tinha uma empregada católica de grande piedade, mas também de
gação de executar todos os preceitos da Santa Igreja, e por isso não podemos inconcebível ingenuidade. Na família havia uma menina em extremo galante de
comer carne nas sextas-feiras; temos de fazer esse pequeno sacrifício por amor seus dois anos de idade. A empregada, amiga íntima da criança, contristou-se
de Nosso Senhor que morreu por nós em uma sexta-feira”8. Em seguida pôs-se com o pensamento de que a menina, embora tão boa e tão formosa, não pode-
a falar, com coração, na Paixão e Morte de Jesus descrevendo-a em vivas co- ria nunca entrar no céu por não ser batizada; e esse pensamento a contrariava
res de modo acessível às crianças, e no direito que a Igreja tem de nos dar suas e incomodava dia e noite. Por fim julgou encontrar uma solução, que lhe pare-
leis etc. Por fim o rapazinho depositou um ósculo na mão do venerando sacer- ceu uma inspiração do céu. quando criança aprendera nas aulas de catecismo,
dote, que conquistara um trono em seu pequeno coração, e foi-se para casa. — que em caso de necessidade qualquer pessoa pode e deve batizar, e isso sem
A hora do almoço percebeu o pequeno que a cozinheiro preparara carne e haver distinção de homem ou mulher, cristão ou pagão, sem padrinhos ou
lembrou-se das palavras de São Clemente; com toda a modéstia e respeito velas, sem cerimônias e, mesmo, sem ser da Igreja. Raciocinou, como pôde, e

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convenceu-se de que o caso da criança judia era um caso de extrema necessi- e regozijo em N. Senhor”. A menina era toda olhos e ouvidos às palavras fluen-
dade, porque do contrário, a criança nunca seria batizada e por isso nunca veria tes e interessantes de Clemente; de repente porém uma como nuvem sombria
a Deus no céu por toda a eternidade. Fechando-se no quarto com a criança, passou-lhe pela fronte. A pequena lembrou-se do seu vestidinho e temendo
tomou água limpa e despejando-a sobre a cabeça da menina pronunciou ao não o receber novamente no céu, perguntou interessada ao Santo: “Lá no céu a
mesmo tempo, as palavras: “Eu te batizo em nome do Padre e do Filho e do gente também tem um vestidinho bonito?” O catequista sorriu-se da ingenuida-
Espírito Santo”. Idéia tão geniosa ela nunca a tivera em sua vida, guardou se- de da interlocutora dizendo-lhe: “Ó tolinha, o mais belo vestido que pudesses
gredo inviolável e o coração a transbordar de contentamento pela ação heróica ter neste mundo, não passaria de uma hediondez em comparação da glória que
e generosa que acabava de praticar, foi triunfante participar tudo a uma das tu receberás um dia no céu”. Esse belo vestido a que se referiu o Santo é a
Irmãs Ursulinas, que não sabendo o que dizer a respeito, mandou-lhe expor glória celeste tecida dos raios puríssimos do céu, reduzindo às sete cores do
todo o caso ao Servo de Deus, o que ela fez sem o menor acanhamento, espe- arco-íris, mais fulgurante que o esplendor do sol no auge do seu brilho, é a
rando receber do Santo os mais rasgados elogios. Ao ouvir o caso, porém, graça santificante que nos tornará semelhantes aos Anjos de Deus.
Clemente abriu os olhos, mostrando admiração, que não era nada sinal de apro- Considerável era a influência exercida pelo Santo sobre as alunas das
vação. A criança estava batizada, era pois necessário registrar-lhe o nome no Ursulinas, embora não fosse ele o seu professor. As boas irmãs reconhecendo
livro dos batizados, participar o caso à autoridade, dar-lhe uma educação cristã; a fundo a santidade do Diretor espiritual não deixavam facilmente passar uma
ora tudo isso comprometia a pobre empregada que tudo fizera com tão boa ocasião sem levar a S. Clemente as numerosas alunas a fim que as abençoas-
intenção. Que fazer em semelhantes conjunturas? Clemente teve uma idéia se e assim a bênção do céu pairasse sobre o instituto. O Santo do seu lado,
singular. Não querendo que a criança batizada fosse educada no judaísmo e grande amigo das crianças, era todo desvelo e solicitude para com as meninas,
vivesse como os hebreus, disse à empregada: “Recomendemos o caso a Nos- que o veneravam e lhe obedeciam como a um pai e protetor. Entre outras havia
so Senhor; talvez queira Deus levar a criancinha para o céu. “Em seguida pôs- uma natural da Silésia prussiana, que ouvia sempre com a maior atenção e
se a rezar e mandou que as Ursulinas também rezassem nesse sentido. E de interesse os sermões do Servo de Deus deixando seu coração receber em
fato, poucas semanas depois veio a pequena a falecer e Deus levou-a ao para- cheio os ensinamentos tão prudentes e salutares do Santo, os quais a haviam
íso. Esse caso encerra uma bela instrução e ao mesmo tempo uma grande de acompanhar a vida inteira; não poucas vezes dirigia-se ao Santo para lhe
consolação para os pais. A alma vale infinitamente mais do que o corpo, a vida expor suas dúvidas e receber os seus conselhos e a sua bênção. Terminado o
no céu é imensamente preferível à vida terrena cheia de misérias e amarguras. curso colegial, a pequena teve de voltar para casa; o pai foi buscá-la, mas ao
Quando Deus chama a si uma criança, na flor dos anos, Ele o faz por misericór- chegar a hora da despedida, a menina pôs-se a chorar, desatou-se em prantos
dia prevendo talvez a perdição futura da criancinha. É pois justo, que os pais se ao pensamento da separação das boas irmãs e das companheiras do colégio, e
conformem com as disposições divinas, e longe de se rebelarem contra os juízos mais ainda, do seu pai espiritual. De nada porém valeram suas lágrimas, foi
de Deus, se curvem reconhecidos diante Dele, aceitando de suas mãos benig- forçoso partir; ao aproximar-se do Santo a quem queria agradecer os bons con-
nas essa provação. É escusado dizer que somente por causa da salvação da selhos e cuja bênção desejava receber pela última vez, não pôde proferir pala-
alma da pequena criança é que S. Clemente pedira a Deus, se dignasse tirá-la vra; soluçando de dor ajoelhou-se aos pés de Clemente, que colocando a mão
deste mundo. Só assim é que nos compreendemos a palavra do Espírito Santo: sobre a fronte da menina, levantou os olhos ao céu, como se quisesse arrancar
“Foi arrebatado para que a malícia não lhe mudasse o entendimento, ou para as bênçãos de Deus para a sua dirigida, e disse: “Minha filha, guarda profunda-
que não seduzisse sua alma o aparente” (Sb 4,11). mente em teu coração os ensinamentos recebidos nesta casa; serás sempre
Prazer especial sentia São Clemente, quando podia preparar alguma cri- feliz e chegarás a uma idade avançada”. Essa bênção teve efeito duradouro e
ança para fazer com fruto sua confissão e receber pela primeira vez a santa as palavras de Clemente foram uma profecia que se realizou à risca. A moça
comunhão. Entre essas crianças havia uma menina galante chamada Carolina casou-se com o barão de Pongrácz e, sessenta anos depois desse aconteci-
Zichy, filha de uma rica e nobre condessa. Essa menina esteve sob a sábia mento ela ainda contava, com gratidão, os benefícios recebidos de seu santo
direção de S. Clemente até a morte dele e sentiu sempre um ardente desejo de Diretor. Mais tarde ela deixou tudo escrito afirmando que a devoção a S. Cle-
abandonar o mundo e voar para um convento, o que porém não conseguiu, por mente se tornara o patrimônio da família, que nos transes difíceis sempre re-
ter de tratar de uma tia que dela não podia prescindir; quando esta porém veio corria a sua valiosa proteção.
a falecer, Carolina, embora avançada em anos, entrou para o convento das A narração seguinte é mais uma prova do seu zelo pela educação religiosa
Visitandinas em Bruxelas. Quando menina era ela de uma ingenuidade encan- da infância. “Uma vez, escreve a Irmã Thadéa, encontrou S. Clemente um rapaz
tadora. Uma vez numa das aulas de catecismo, S. Clemente falou sobre o céu, completamente abandonado; a fome transparecia de seus olhos fundos e de
mostrou a beleza empolgante, arrebatadora dos Anjos e Santos, animando as suas faces encovadas, a pobreza mostrava-se nos farrapos e trapos miseráveis
crianças com as palavras: “Todas as crianças boas para lá irão, pois que lá que o cobriam, o descuido via-se no rosto imundo do pobrezinho; isso tudo
mora Jesus com sua Mãe e os Santos e os Anjos; a beleza do céu é sempre dava a entender que o menino não tinha nem podia ter uma educação decente.
nova, lá não há doenças nem morte, nem fadigas nem trabalhos, mas só alegria Depois de lhe matar a fome, foi conversando com ele pelas ruas de Viena,

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sobre catecismo e religião, em que o rapaz era tão leigo como o sapateiro em fracasso. O demônio havia triunfado, e Clemente aguardava oportunidade me-
jurisprudência. Por fim chegaram ao prédio escolar; Clemente mandou chamar lhor em que Deus haveria de vencer e de manifestar-se indubitavelmente. Al-
o Diretor do estabelecimento, apresentou-lhe o menino rogando-lhe que o ins- guns anos mais tarde, quando o ruído dos canhões e das guerras já tinham
truísse, que a gratificação correria por conta do apresentador. O Diretor era um acabado de soar ao longe, Clemente bateu à porta de um senhor nobre de
dos espíritos fortes e independentes, que julgavam ser a religião boa só para os Viena, pedindo-lhe se interessa-se pela idéia e abrisse um colégio para as clas-
velhos, que já tem um pé na sepultura, mas não para gente nova que quer ses nobres da sociedade vienense, pois que os pobres já possuíam colégios e
gozar da vida, e muito menos para homens que se sacrificam pelo bem-estar outros estabelecimentos desse gênero. Naturalmente o Colégio a fundar-se
da sociedade, e que tem muita outra coisa mais importante a fazer. Enquanto S. deveria basear-se sobretudo na instrução religiosa, sem a qual toda formação
Clemente lhe falava, com todo interesse, sobre a necessidade da educação e intelectual e moral é necessariamente falha e quase sempre, prejudicial. Esse
instrução do menino, começaram a ecoar pela cidade os primeiros sons melodi- senhor era Afonso Klinkowström que descreve a idéia do modo seguinte: “Trata-
osos e harmoniosos do sino de Santa Úrsula; momentos depois os outros sinos se de difundir a consciência católica há pouco despertada em Viena, e limitada
da cidade, com seus afinados acordes, produziam uma música admirável, que então a um pequeno número de homens escolhido, bem como de conseguir por
se fazia ouvir até os fundos dos arrabaldes. O Diretor que ignorava a significa- meio da educação cristã uma nova geração não eivada do indiferentismo religi-
ção daquele concerto harmonioso, julgou-se autorizado a fazer um gracejo de oso do tempo, porquanto as ordens religiosas, incumbidas dessa missão, se
mau gosto a S. Clemente dizendo: “Escute, estão tocando para a bóia”. A essa haviam desviado desse objetivo desde o período da reforma josefina”. Havia
palavra o Santo mudou de cor, tristeza e compaixão oprimiram-lhe o coração: tudo, menos o dinheiro para tão grandiosa empresa. Clemente, porém, confia-
era um insulto a sua Mãe Santíssima e a Jesus seu divino Filho. “O que? — o sr. do na Providência, que não os poderia abandonar, saiu com o futuro Diretor aos
é professor e deve ensinar religião às crianças e nem sabe o que significa esse arrabaldes de Viena, e ao avistar um prédio que se prestava, disse sem mais
toque de sinos?” Depois de lhe dar uma explicação sobre o Angelus que se toca hesitações: “Compre esse, que Deus providenciará pelo dinheiro”. E Klinkowström
três vezes ao dia, a saber, e manhã, ao meio-dia, e à tarde em recordação do comprou-o sem um vintém na algibeira; a confiança do Santo não foi desmentida:
mistério da encarnação, e depois de lhe mostrar a grande conveniência desse Deus enviou um ricaço que emprestou o necessário a juros módicos. A aprova-
sinal, a qual resulta da obrigação que temos de saudar a Virgem Santíssima em ção a obter-se do governo era a questão mais difícil. Clemente pediu a Deus, se
reconhecimento dos inumeráveis benefícios recebidos, instruiu o professor com dignasse mostrar-lhe, desta vez, o modo mais seguro de conseguir a aprova-
palavras delicadas, fez-lhe ver o quanto estava longe da verdadeira pedagogia, ção desejada. Em vez de se dirigir diretamente ao monarca, foi ter com o
e o professor, envergonhado das suas palavras descabidas, balbuciou umas arquiduque Maximiliano José, primo do imperador, o qual, católico prático, se
frases de desculpa e retirou-se; os ensinamentos do Santo, porém, gravaram- deixou entusiasmar pela idéia, e de olhos baixos, depois de fazer seus cálculos,
se-lhe tão profundamente na alma, que arrependido não pôde continuar no prometeu alcançar do imperador a necessária aprovação desejada. Ora acon-
mundo, abandonou-o e internou-se num convento para servir a Deus e a Ss. teceu que enquanto fitava o chão para não se distrair em seus cálculos, viu que
Virgem com mais fidelidade e amor. os sapatos de São Clemente estavam rotos, de forma a aparecem as meios de
A idéia da educação da infância era sempre uma das suas mais solícitas diversos furos. Embora qualquer outro membro da nobreza ou da aristocracia
preocupações. Olhando para a grande cidade de Viena deplorava o abandono estranhasse semelhante procedimento, tornando-o em conta de pouco caso ou
tendo como desconsideração o aparecer assim esfarrapado em audiência ofici-
em que se achavam milhares e milhares de crianças, não só nas classes po-
al, o arquiduque edificou-se com a santidade e desapego do Santo, que se
bres, mas até entre os nobres e ricos, de sorte que só com temor encarava o esquecia de si próprio para só se lembrar dos outros. Comovido tomou a peito
futuro religioso da sua Pátria. Já em 1813 acalentara a idéia de fundar um colé- os rogos do Servo de Deus, e chegou até a fazer a promessa de não tomar
gio para os meninos das melhores famílias, e não o podendo fazer pessoalmen- açúcar no café, em sinal de penitência se Deus ouvisse o seu pedido e moves-
te, insistiu com o célebre Adam Müller a tomar em mãos e a levar avante tão se o coração do imperador a aprovar o projeto e o novo estabelecimento de
importante empresa. Esse literato conselheiro da corte, aceitou gostosamente ensino. A aprovação foi concedida pelo monarca e o arquiduque cumpriu com
a idéia e pôs-se imediatamente a realizar o nobre e grandioso projeto. Para escrupulosa exatidão a sua promessa, não provando mais açúcar em toda sua
mais o animar na filantropia empresa São Clemente prometeu-lhe três padres vida, nem mesmo quando se sentava à mesa com príncipes ou monarcas. Quan-
Redentoristas para professores. O princípio foi auspicioso, alentado pela mais do alguém lhe chamava a atenção respondia laconicamente, que estava habitu-
ado a não tomar açúcar no café. Só ao aproximar-se da morte, é que ele reve-
fagueira esperança; quando porém recorreram ao governo pedindo a aprova-
lou a seu confessor o motivo dessa sua abstinência. O instituto fundado pelos
ção, encontraram as maiores dificuldades; os funcionários públicos temiam que esforços de Clemente, e em parte dirigido pela sua prudência, prosperou admi-
os alunos desse Colégio, orientados por São Clemente, só aprendessem a re- ravelmente recebendo alunos de quase todos os países da Europa v. g. da
zar o terço e cantar ladainhas, e tivessem maior amor a Roma do que a Áustria. Alemanha, Áustria, Nápoles, Polônia, Constantinopla etc. Mais de duzentos e
O resultado foi que o colégio teve a sorte das demais belas empresas que dez alunos, que se celebrizaram mais tarde nos diversos ramos da ciência,
fracassam pela má vontade de certos indivíduos, dos quais afinal tudo depen- passaram por ele e prestaram os mais relevantes serviços à Igreja e à Pátria.
de. O Servo de Deus porém não era desses que desanimam com qualquer
CAPÍTULO XIV
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ficantes. São Clemente era um pedagogo consumado, de uma prudência extre-
ma e comprovada por uma experiência de muitos anos. A virtude principal de
Clemente, como pedagogo, era a caridade incomparável, que o animava a to-
dos os atos e lhe traçava a norma de proceder para com cada um dos estudan-
tes. Dos principiantes exigia pouco, porque os achava ainda fracos na virtude, e
não poucas vezes os agradava com algum carinho especial, alguns elogios
merecidos, ou com palavras de animação. Aos mais provectos na virtude rega-
São Clemente e a mocidade teava aplausos, que excitam a vaidade, fomentam o orgulho e tiram a força da
virtude; não poucas vezes dizia-lhes verdades sérias, naturalmente com bon-
dade e a seu tempo: em tudo isso porém transparecia o amor que S. Clemente
O magnete admirável — Pedagogo ideal — Os êxtases do Santo — Os consagrava a seus queridos rapazes, que por isso aceitavam tudo quanto o
passeios pela cidade — Medonho temporal — As nuvens no jardim — Amor à Santo lhes dizia. Nessas reuniões e, em geral sempre que se achava com os
pureza — Padre novo — Expor dúvidas — José Lobo — O despertador traidor estudantes, falava pouco e isso mesmo com muita ponderação e prudência; um
— Os secretas. sorriso amável enflorava-lhe constantemente os lábios e a placidez e a bonda-
de resplandeciam de todo o seu físico espelhando a grandeza da sua alma.
Com toda a razão comparavam São Clemente ao magnete, pois que co- Sempre que algum estudante a ele se dirigia, Clemente o recebia e ouvia, en-
nhecia o segredo de atrair a si todos os corações. Realmente não havia em tretendo-se com ele como se não tivera coisa mais importante a fazer; mesmo
Viena classe alguma de pessoas que não o procurasse em sua pobre residên- nas horas em que a enfermidade lhe acabrunhava o corpo e abatia a alma, São
cia para receber seus conselhos ou para procurar consolo em alguma dor ou Clemente era para seus estudantes a amabilidade personificada.
sofrimento físico ou moral; entre essas pessoas encontravam-se também pro- Depois dos trabalhos penosos do dia, das corridas pela Cidade em visita
testantes, gregos cismáticos e até indivíduos que, em geral, se sentem mal na aos enfermos e aos pobres, ou em benefício da causa santa, encontrava Cle-
companhia de algum padre católico. Um atrativo especial sentiam os rapazes mente, à noite, uma multidão de estudantes que já o esperavam, alegres, diver-
que a ele corriam, e a ele se apegavam não o querendo deixar nunca, como se tindo-se na residência do Santo cuja casa não tinha nem tranca nem trinco para
pertencessem à família do Santo. Quando o Servo de Deus descia do púlpito, já os rapazes que podiam nela entrar ou sair à vontade. Ao chegar em casa, Cle-
alguns estudantes o esperavam na sacristia para o cumprimentar, beijar-lhe a mente os saudava ordinariamente com as palavras originais, que os faziam rir a
mão ou travar amizade com ele; desejavam achar-se ao seu lado e em sua todos: “Oh! que raça! que grandes marotos!” e depois de pendurar sua capa,
companhia nas reuniões que se efetuavam, todas as tardes, em sua residência. entretinha-se um tempo com eles, e em seguida abrindo o armário velho distri-
Um estudante servia de chamariz para o outro; aos poucos aumentou-se consi- buía-lhes o que para esse fim havia reservado dos presentes recebidos: maçãs,
deravelmente o número dos alunos de Clemente, entre os quais se achavam nozes, peras, pão, doces etc. Clemente servia-se dessas reuniões familiares e
estudantes de medicina, teologia, jurisprudência etc. Grande parte desses es- íntimas para infiltrar nos corações e inteligências dos rapazes os princípios só-
tudantes haviam já perdido a fé, outros haviam sido panteístas, ateístas, lidos da religião, e animá-los à prática constante das virtudes cristãs. Depois
racionalistas etc. S. Clemente converteu-os radicalmente em grandes amigos que os moços se haviam divertido bastante, Clemente abria um livro, geralmen-
da Igreja. Vinte e sete dentre eles abandonaram o mundo e entraram na Con- te da história eclesiástica, e mandava um dos estudantes fazer a leitura, duran-
gregação do Ss. Redentor, tornando-se colunas da Congregação na Áustria e te a qual o Santo semicerrava os olhos: quando ocorria algum caso mais
no resto da Europa além dos Alpes. Era belo e encantador ver os moços jubilosos, edificante o Santo interrompia a leitura, para fazer suas explicações e conside-
sem respeito humano, ajoelhados todos os domingos à mesa da comunhão na rações, tendo sempre em vista nesses comentários o bem espiritual dos rapa-
Igreja de Santa Úrsula a receber o corpo sacramentado de Jesus. Diariamente zes. O mais interessante é que os estudantes se sentiam, nessas ocasiões,
achavam-se mais de 60 rapazes na igreja das Ursulinas para à missa das 7 mais felizes do que se passassem aquelas horas no jogo, nas vendas, nos
horas empunhando algum livro piedoso, o terço da Virgem, ou rezando todos cabarés e teatros ou talvez em namoros pouco recomendáveis, que excitam as
em voz alta e clara. Quando alguém admirado perguntava a São Clemente como paixões e fazer perder a calma e a saúde. Por vezes sucedia que durante a
é que conseguira tantos rapazes para Nosso Senhor, respondia ele: “Eu tam- leitura, mormente quando se tratava da bondade e misericórdia divina, Clemen-
bém não sei como é que Deus quis reunir tantos moços ao redor de mim, como te inclinava a fronte e fechava os olhos a meditar nesses atributos divinos. En-
se fossem minha guarda de honra”. Isso o Santo dizia com grande humildade, tão parecia ter a fronte cingida de uma auréola e o rosto resplandecia-lhe com
porquanto não desconhecia que amor atrai amor. Ele amava muito a mocidade, brilho desusado, saindo-lhe dos lábios palavras que traíam os seus transportes
e os rapazes retribuíam-lhe na mesma moeda. Para cada estudante era o Ser- interiores, as faces tornavam-se rubras como a púrpura, e os estudantes que o
vo de Deus pai e mestre, conduzindo todos com a maior prudência no caminho não perdiam de vista, comovidos derramavam lágrimas. Era para nós — conta
da virtude à prática exata da religião, mesmo nos pontos que pareciam insigni- uma testemunha — o sinal de que a conversa estava acabada, e retiravamo-

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nos dizendo um para o outro: “O padre Clemente sente outra vez alguma coisa magoado quando percebia algum deles entristecido.
extraordinária”. Os rapazes não se enganavam. O Servo de Deus sentia que ia Ele mesmo permitia-se algum gracejo inocente contribuindo assim, de sua
entrar em êxtase e, com grande humildade, despedia todos os que pudessem parte, para a hilaridade geral. Em Viena havia um senhor muito rico e religioso,
ser testemunhas desse prodígio. por nome Szecheny; esse conde húngaro era dono de uma vivenda magnífica,
No verão ou no outono, quando o tempo era bom e convidativo, o Servo de ou antes, de um castelo suntuoso, circundado de um elegante jardim e vistoso
Deus encurtava a leitura e saía com os seus rapazes pelas ruas da Cidade, parque. Uma das maiores alegrias do conde era receber a visita de S. Clemente
escolhendo para seus passeios os lugares mais movimentados de Viena. Em- e tê-lo consigo nas horas das refeições para assim se entreter com ele familiar-
bora Clemente andasse sempre com o hábito religioso, manto já usado e sapa- mente e ouvir os sábios e práticos ensinamentos, que abundavam dos lábios do
tos de sola grossa, nenhum dos estudantes se acanhava de sair com ele a Santo, que era seu Diretor espiritual e o educador dos seus filhos. Madlener, o
passeio. Às vezes detinham-se no meio das ruas, muito de indústria; os estu- discípulo predileto de Clemente, costumava acompanhá-lo nessas ocasiões;
dantes agrupavam-se ao redor dele a ouvir algum caso interessante. A curiosi- Madlener era panteísta e gostava de filosofar. Num desses passeios à casa do
dade atraía então para Clemente a multidão de transeuntes ou dos desocupa- conde Szecheny, o filósofo esquecendo-se da terra pôs-se a considerar as nu-
dos, aos quais o Servo de Deus não deixava de fazer algum sermão necessário vens pardacentas encasteladas no firmamento a forma figuras curiosas de ho-
ou útil. mens e animais, de castelos e cidades, sempre novas e interessantes, figuras
Quando das torres de Viena soava pela cidade o poético toque do Angelus, essas, que só Madlener via. Na próxima reunião dos rapazes Madlener não
os estudantes descobriam e, em plena rua, rezavam, silenciosos, as três Ave- pôde conter-se e pôs-se a descrever as belezas das nuvens do castelo do con-
Marias em louvor da Mãe de Deus. Não poucos dos que passavam recorda- de Szecheny; os estudantes riam-se a bandeiras despregadas da ingenuidade
vam-se então que eram católicos, imitavam o bom exemplo dado pelos rapazes do filósofo panteísta, com a aprovação de Clemente que não deixava de tomar
agrupados ao redor do Servo de Deus e habituavam-se a esse ato tão louvável, parte ativa na hilaridade geral. Quando no dia seguinte Madlener quis entrar e
que havia já desaparecido em Viena. abriu a porta, Clemente a sorrir-se com os estudantes saudou-o com a pergun-
Não era sem motivo que São Clemente gostava de reunir, à noite, os seus ta: “Então Madlener, no jardim do conde há nuvens bonitas, não é”? Essas pa-
rapazes: sabia que as horas noturnas são as mais perigosas para os jovens, lavras, que não ofendiam a Madlener, tornaram-se por algum tempo a sauda-
cujos corações inocentes facilmente se deixam perverter e ilaquear pelo inimi- ção com que era recebido o filósofo panteísta, que mais tarde se tornou um
go das almas; é por isso que o Santo em geral os detinha até a hora em que santo Redentorista.
deviam ir acomodar-se. Por causa da bondade de seu coração, muitas vezes uma única palavra do
Numa dessas reuniões desencadeou-se uma vez, horrível tempestade: os Santo era bastante para alegrar sincera e intimamente os jovens. Clemente
relâmpagos cruzavam-se nos ares, os trovões sucediam-se sem cessar, o tem- exercia sobre eles uma verdadeira fascinação, em que tudo nos permite ver um
poral era medonho ficando todos transidos de terror. Mesmo depois de cessada condão sobrenatural. Um dia, conta Werner, encontrei um grupo de rapazes
a tormenta via-se ainda o pavor estampado no rosto dos rapazes. São Clemen- que saíam da casa dele, os olhos a faiscar contentamento, o júbilo estampado
te não deixou passar a ocasião: fez a seus estudantes uma preleção sobre as no rosto; supondo que ele lhes houvesse dirigido algum discurso singular e
palavras de Jesus no Evangelho de S. Mateus (24,27): “Do modo como um extraordinário que os impressionasse, perguntei-lhes o que é que os fazia entu-
relâmpago sai do oriente e se mostra no ocidente, assim há de ser também a siasmar tanto. — “Ah! responderam eles, coisa tão linda que jamais temos ouvi-
vinda do Filho do Homem”. “Isso acontecerá, disse Clemente, no dia da nossa do na vida”. — “Mas que coisa disse hoje o Pe. Clemente?” Ah! ele disse: “Rapa-
morte, em que a nossa vida inteira há de patentear-se aos nossos olhos com a zes, sede bons e tende juízo”.
velocidade e claridade de relâmpago; a luz com que a veremos, será inteira- Além da convicção religiosa, procurava Clemente, de um modo todo espe-
mente outra, bem diversa daquela com que agora encaramos a vida, será a luz cial, implantar nos corações dos jovens o amor à bela virtude, muni-los para os
da eternidade”. A pregação foi tão forte e a ocasião tão asada, que nenhum dos combates renhidos, que a mocidade costuma travar com os inimigos da pureza.
estudantes se distraiu nem perdeu palavra alguma saída dos lábios do Servo A conversação com o Santo inspirava aos jovens compreensão e amor para a
de Deus. Terminada a alocução não houve quem não quisesse fazer sua confis- beleza dessa virtude angélica. João Pilat, um dos seus discípulos, disse: “Sem-
são geral. pre que ele me abraçava, sentia eu em mim o amor divino”. Os conselhos nesse
Entretanto nem todas as pregações de São Clemente eram graves como sentido eram mais do que abundantes; a cada passo Clemente falava da pure-
essa do trovão; isso seria naturalmente contraproducente porque os rapazes za como adorno da alma e fonte de paz e alegria espiritual; aconselhava a
gostam, em geral, de novidade e de expressões e expansões de alegria; aliás o recitação do terço nos passeios pelas ruas da cidade, proibia terminantemente
coração bondoso de São Clemente não lhe permitia tratar com aspereza os a leitura dos romances e poesias eróticas, chamava-lhes a atenção prevenindo-
seus caros estudantes que constituíam a sua coroa e a sua glória. “Há tempo os contra as más companhias que costumam ser um dos mais perigosos laços
para tudo, diz o Espírito Santo, para descansar e trabalhar, para chorar e rir”. O de Satanás, aconselhava a recepção devota e freqüente dos santos sacramen-
Servo de Deus gostava de ver seus rapazes alegres e contentes, e mostrava-se tos, maxime da santa comunhão. Com um empenho todo especial pedia aos

73
jovens que fugissem da ociosidade e procurassem estar sempre ocupados a aceitava as repreensões. Não obstante tudo isto São Clemente não se iludia a
exemplo de S. Jerônimo que dizia: “Semper ter diabolus occupatum inveniat” i. respeito do sr. Lobo. As Ursulinas que, do coro, assistiam às cerimônias da
é, o diabo deve encontrar-te sempre ocupado. Mormente quando tinha de tratar igreja, ao ouvirem a voz melodiosa e limpa que do meio dos estudantes ecoava
com sacerdotes novos ou com teólogos, acentuava ainda mais: “um padre novo sonora pelo templo, admiradas não puderam resistir à curiosidade e erguendo-
deve estar ocupado o dia inteiro, do contrário acabará mal”. O Servo de Deus se nas pontas dos pés puseram-se a olhar para baixo, a fim de descobrirem o
gostava quando os moços expunham, nas reuniões, suas opiniões, dúvidas, dono da voz que tão suave lhes deliciava os ouvidos.
desejos etc. Quando por acaso se originava entre eles alguma contenda ou Viram o sr. Lobo e encheram-se de admiração por ele, como outrora as
discussão mais forte, Clemente intervinha com toda calma e restabelecia a har- filhas de Judá que subiram aos muros encantadas pela formosura excepcional
monia abalada. de José, e foram ter com o Servo de Deus para lhe apresentarem os parabéns
O Santo, detestava a hipocrisia e não admitia, nem de leve, em seus rapa- pela bela e feliz aquisição do moço que edificava o povo com seu comporta-
zes; era difícil enganar o Santo, porque ele, no dizer de Werner, enxergava mento exemplar e com sua devoção sobrenatural. São Clemente franzindo o
através das paredes. rosto disse com laconismo: “Não o conservarei comigo”. Como as irmãs se
Entre os discípulos de Clemente não havia só santos, nem só estudantes mostrassem estupefatas com essa palavra que não esperavam, o Servo de
de boa vontade que aspiravam à perfeição: havia também alguns velhacos, mas Deus continuou: “Olhai bem para o rapaz, o rosto, os modos, tudo nele denota
isso não admira porquanto entre os doze Apóstolos também houve um traidor. um coração irrequieto”. O Santo desconfiava do moço que parecia sofrer êxta-
Ao número dos rapazes, que freqüentavam a casa do Santo, pertencia um que, ses contínuos e fingir exagerada piedade, e por fim não podendo já suportar-lhe
judeu de nascimento, se fez batizar na idade de dezessete anos. De inteligência a hipocrisia, disse-lhe sem rebuços: “Lobo, Lobo, és um velhaco e acabarás na
aguda e perspicaz, passou muitos meses em Constança, comensal de Talberg, forca”. O Servo de Deus enviou-o a Suíça para ser provado pelo Pe. Passerat,
pelo qual foi recomendado à Propaganda, que aceitou em Roma, com intuito de que não tardou expulsá-lo por seu mau comportamento. O rapaz tornou-se
o formar para missionário a trabalhar futuramente na conversão dos judeus. luterano, membro da sociedade bíblica da Inglaterra, percorreu a Ásia e a Amé-
José Lobo era o seu nome, e de lobo era seu procedimento, pois que o rica, procurando nas cinco partes do mundo as dez tribos de Israel; como po-
batismo não conseguiu convertê-lo em cordeiro de inocência e sinceridade. De rém não as encontrasse voltou para a Inglaterra, onde morreu na forca da here-
Roma mantinha correspondência secreta com os protestantes, seus amigos, sia.
defendendo a heresia, e ridicularizando os dogmas e os ritos da Santa Igreja. Uma vez deram a São Clemente, a guardar, um belo relógio despertador
Depois de ano e meio de experiências reconheceram os professores que o de grande valor. O Santo guardou-o com cuidado em um lugar separado e se-
rapaz não se prestava para a carreira sacerdotal e fecharam-lhe as portas do guro, pois que se tratava de um objeto alheio e de grande estima; porém mesmo
seminário. Fixando residência em Viena não tardou a sentir a fome que lhe assim, sem se saber como, o relógio desapareceu. São Clemente examinou
bateu à porta, horrível e desesperada; lembrou-se da generosidade de Cle- todos os cantos de sua pequena casa, mandou aos estudantes que o ajudas-
mente, escreveu-lhe pedindo auxílio e declarando o desejo ardente de ser ad- sem, e todos ao verem o Santo um tanto inquieto puseram-se prontamente à
mitido entre os zelosos filhos de Sto. Afonso. procura do despertador. Um aluno do ginásio que lá se achava, manifestou um
Movido de compaixão o Servo de Deus foi visitar o autor da carta para se interesse especial, e mais solícito que os outros remexeu tudo em busca do
convencer de tudo e tomar-lhe o pulso. No meio da palestra percebendo certas desertor, entrou por baixo da cama, inclinou-se em todos os cantos, vociferou
vacilações na fé e nas opiniões religiosas, o Servo de Deus procurou convencê- contra o malicioso que assim causara o transtorno da casa, o desgosto do San-
lo; o hipócrita ouviu tudo com o maior interesse e protestou querer sempre e em to, a perturbação da alegria geral. Qual não foi o espanto de todos quando o
toda parte viver como um filho obediente da Santa Igreja, pela qual estava pron- despertador disparou na algibeira do tal aluno do ginásio, traindo-o vergonho-
to a derramar o sangue e dar a vida. Embora não se sentisse bem na compa- samente! Todos ficaram perplexos, porque naquele canto ninguém o supunha
nhia do rapaz, Clemente o aceitou franqueando-lhe as portas da sua casa, em escondido.
atenção aos reiterados pedidos dos grandes amigos Werner, Madlener etc, e Clemente fitou-lhe um olhar de compaixão, mas também de repreensão
por deferência para com o Núncio Leardi e Cardeal Litta que o recomendaram por seu vergonhoso procedimento. O pobre rapaz esconjurando o relógio que
vivamente. batera, quando menos o devia fazer, tremendo como varo verde entregou a
O sr. José Lobo tornou-se em breve o mais piedoso dos estudantes; na Clemente o despertador, tomou o chapéu e retirou-se envergonhado e confun-
igreja não levantava os olhos curiosamente, conservava as mãos sempre pos- dido.
tas, permanecia imóvel qual estátua de mármore, ajoelhado no pavimento du- Como é fácil adivinhar, a reunião efetuada todas as noites na residência do
rante todo o tempo das funções religiosas, por mais que elas se prolongassem, Santo, não deixou de alarmar a polícia, cujas suspeitas cresciam dia a dia. Dois
só entretinha conversas espirituais, mostrando enfado e desaprovação quando desconhecidos que se diziam estrangeiros, apresentaram-se numa dessas reu-
alguém se lembrava de desviar o assunto para coisas mundanas; ao receber niões e encantaram os rapazes, um por sua simplicidade e fingida piedade,
humilhações de seu santo Mestre, baixava humilde a cabeça e calado e calmo outro pela narração maravilhosa de suas viagens. Só Clemente permaneceu

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frio e impassível. Deus lhe revelara tudo. Depois deles se retirarem disse aos
amigos: “Esses senhores moram em Viena, são emissários da polícia secreta”.
Como esse fato se repetisse muitas vezes, Clemente combinou uma senha
com os estudantes, era “Que há de novo?” Essa medida era necessária porque,
em geral, como os rapazes no momento da exaltação e do entusiasmo não
medem palavras, podiam talvez, inconscientes comprometer a sociedade toda
e perturbar a alegria geral.

CAPÍTULO XV
O bom pastor
Em procura do pecador — Magnífica prece — Interessante diálogo —
Frederico Schlegel convertido — Klinkowström e sua família — Os preconceitos
— Antônio Pilat renuncia a maçonaria — Schlosser e sua família aos pés do
Mestre — O temor da penitência na confissão.

Lemos no Evangelho do discípulo amado a belíssima parábola do bom


Pastor, que não é outro senão o divino Redentor, que conhece suas ovelhas e é
por elas conhecido. Repleto de amor promete dar e dá efetivamente sua vida
para salvar as ovelhas fiéis. Jesus porém afirma possuir ovelhas ingratas, que
abandonaram o aprisco; lastima sua ingratidão, mas declara-se pronto a traba-
lhar por elas: “importa que eu as arrebanhe, elas ouvirão a minha voz e haverá
um só rebanho e um só Pastor!” A exemplo de Jesus queria o Servo de Deus
ser um pastor zeloso das almas, trabalhar por elas, e reconduzi-las ao caminho
da verdade e da fé. O seu coração sangrava ao ver a multidão dos protestantes
e judeus que não pertenciam ao redil do Redentor. Do alto do púlpito exclamou
uma vez: “Oh! quem me dera receber de Deus a graça de converter os hereges
e incrédulos do mundo inteiro, em meus braços e sobre os meus ombros leva-
los-ia ao aprisco seguro da Santa Igreja Católica”. Essas palavras nos lábios de
Clemente, não eram apenas figuras retóricas ou belas frases, filhas de um en-
tusiasmo momentâneo, mas a expressão da pura realidade. Heróicos eram os
esforços que fazia continuamente pela conversão dos extraviados. Em todas as
ocasiões que se apresentavam, em todas as formas que a prudência lhe suge-
ria, falava o Santo da Igreja Católica, da sua instituição divina, das suas doutri-
nas consoladoras, dos seus sacramentos, da felicidade que se sente no seio da
Igreja; e tudo isto despejava-se de seus lábios com tamanha eloqüência e tão
profunda convicção, que dificilmente alguém poderia resistir à força de suas
palavras. Os protestantes e judeus sentiam prazer em assistir as suas reuniões,
em que o Santo usava de uma delicadeza extrema mostrando sempre compai-
xão para com os hereges; fustigava o erro, porém sempre com palavras bran-
das e delicadas. Como a conversão é uma graça que vem do céu e que só Deus
pode conceder, consagrava ao Senhor todo o seu apostolado, pedindo ao bom
Pastor que lhe desse as almas dos extraviados, movendo os seus corações e
iluminando as suas inteligências. A oração que Clemente rezava constante-
mente, era a seguinte: “Jesus meu Senhor e Redentor, do trono da vossa ma-
jestade e misericórdia, laçai sobre nós um olhar de bondade; Vós nos remistes
com o preciosíssimo sangue que derramastes no madeiro infame da cruz. O
vosso Pai celestial é também o nosso, pois que sois nosso irmão por vossa

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natureza humana. Deverão acaso perder-se eternamente tão inumeráveis al- de Deus infinitamente santo”. O protestante achou melhor calar-se, porque te-
mas? Se quiserdes, podeis salvar-nos; olhai para as lágrimas da santa Igreja, mia converter-se também, se continuasse a discussão.
vossa Esposa, reconduzi-lhe os filhos que apostataram da religião, difundi so- Seria difícil, para não dizer impossível enumerar nos moldes de uma sim-
bre os extraviados a luz celestial da fé, a única que pode nos salvar e santificar. ples biografia as conversões efetuadas por São Clemente nos anos que passou
Se os suspiros do meu amor não merecem ser atendidos por ser eu um mísero em Viena; entretanto para a glória do Santo e para edificação de todos coloca-
pecador, atendei a súplica da vossa santíssima Mãe, a Virgem poderosa e Mãe mos aqui algumas das mais notáveis.
de misericórdia, que por nós intercede; assim todos se converterão e louvar- O filho do bispo protestante de Hannover por nome Frederico Schlegel foi
vos-ão eternamente”. pelo pai, que desejava fazer fortuna, colocado no comércio, e para isso enviado
Deus recompensou o seu Servo concedendo-lhe conversões estupendas a Leipzig. — O rapaz inteligente não afeiçoando-se à profissão a que seu pai o
de inúmeras almas à Santa religião. Não passava, geralmente, uma semana destinara, fugiu para longe, e em Göttingen estudou humanidades, entrando
sem que Clemente trouxesse ao seio da Igreja protestantes, calvinistas, judeus em seguida para a universidade de Leipzig, onde se dedicou à filosofia, e pôs-
etc. As vezes bastava uma única palestra com o Santo para se operar uma se a escrever, e isto com uma fecundidade espantosa. Desejoso de mais ex-
conversão dessas. Ao Servo de Deus iam também pessoas que se diziam espí- pansão a seus vastos conhecimentos, foi a Berlim onde se relacionou com uma
ritos fortes, instruídas em muitas coisas, menos em religião, para com ele dis- judia de rara beleza e de dotes poéticos invejáveis, a qual aos 15 anos se unira
cutirem, apresentando dúvidas que supunham insolúveis; desejavam confundir em matrimônio a um judeu riquíssimo, banqueiro em Berlim por nome Simão
a Clemente, mas enganavam-se. Muitas vezes com a explicação de uma única Veith. Esse casamento foi infeliz para ambos, porque a poetisa, afeita aos vôos
palavra o Servo de Deus desfazia os sofismas, dissipava as dúvidas, solvia as da fantasia, não se habituou à convivência com um indivíduo frio e contador de
objeções, e, o que era ainda mais admirável, fazia as pessoas saírem converti- dinheiro.
das e reconciliadas com Deus. Entre muitos outros converteu o Servo de Deus A bela judia apaixonou-se pelo poeta Schlegel, que era também artista, e
um dos que se achavam a serviço da arquiduquesa Henriqueta, fazendo que sentiu-se correspondida, embora Frederico fosse oito anos mais novo, e ela já
ele em suas mãos abjurasse o protestantismo. O companheiro e comparsa do casada há vários anos. Sem mais preâmbulos tratou do divórcio e correu atrás
convertido indignou-se sobremaneira com esse ato, embora fosse um dos que de Frederico. Depois de viverem algum tempo juntos, foram a Paris onde a judia
sempre têm nos lábios palavras de filantropia e tolerância religiosa. Como bom passou ao luteranismo para agradar a Frederico, e recebeu no batismo o nome
protestante resolveu descompor o Santo em plena rua. E de fato, encontrando- de Dorotéia e casou-se luteranamente com Schlegel. De Paris dirigiram-se a
se pouco depois com o Servo de Deus, lançou-lhe em rosto publicamente o seu Colônia onde Frederico esperava uma colocação que, porém, nunca chegou a
procedimento, taxando-o de perturbador da ordem, zelote fanático, afirmando conseguir. Nesse meio tempo, os dois espíritos irrequietos dedicavam-se aos
que ninguém deve mudar de religião, mas permanecer até a morte naquela em estudos; percorreram a história e chegaram a conclusão de que a verdade não
que nasceu. O Santo recebeu toda aquela afronta com tranqüilidade a exemplo pode achar-se nem no judaísmo, nem no protestantismo, mas só na Igreja Ca-
de Jesus, esperando que o infeliz compreendesse a insensatez das suas pala- tólica; rezaram e imploraram as luzes do céu, e em 1808 na magnífica catedral
vras, pois que nada é mais natural do que a conversão, isto é o abandono do de Colônia abraçaram o catolicismo, ajoelhados ao pé do altar da Virgem: dois
erro e do vício para a recepção da verdade e a prática da virtude; foi para isso dias depois receberam a santa comunhão e casaram-se religiosamente com a
que Jesus desceu do céu, quis converter os judeus e os pagãos fazendo-os devida dispensa do Ordinário. Só então é que conseguiram a paz pela qual
abraçar a religião verdadeira, que ele nos trouxera do alto, do seio de Deus. tanto suspiravam, como escreve a própria Dorotéia em uma carta: “... nesse ano
Terminado o arrazoado do protestante, Clemente contentou-se em dizer-lhe: de 1808 derramei lágrimas de íntima gratidão por causa de minha tão grande,
“Mas então, porque é que Martinho Lutero não quis viver e morrer na fé em que nunca merecida felicidade”. Depois da conversão os dois esposos foram à Vie-
nasceu?” Embora embaraçado, o Luterano não quis dar a mão à palmatória e na onde Frederico encontrou a colocação desejada. Clemente foi logo escolhi-
puxou outra objeção como soem fazem os protestantes para dar certa aparên- do para Diretor espiritual de ambos. Desde então Clemente parecia ser um
cia de erudição e de grandeza. “Nós todos somos filhos de um mesmo pai que membro da família Schlegel; quando em 1809 Frederico teve de ir à guerra, o
está nos céus, sejamos deste ou daquele credo”. O Santo porém não lhe ficou nosso Santo foi o anjo consolador de Dorotéia no assédio e bombardeio da
devendo resposta e disse: “Quem tem um pai, deve ter também uma mãe: se cidade pelos franceses. Dorotéia teve dois filhos do primeiro matrimônio: Jonas
vós, luteranos, tendes a Deus por Pai, onde é que está a vossa mãe? nós cató- e Philippe, que se dedicaram respectivamente ao comércio e à pintura; ambos
licos temos por mãe a Santa Igreja Católica”. O Luterano era teimoso e deseja- eram judeus e desejavam abraçar a religião católica, praticada pela mãe, que
va mais uma resposta. “A veneração dos Santos, disse ele, é uma superstição idolatravam e cuja inteligência admiravam, mas o ambiente em que se achavam
católica”. — “Não é verdade, o sr. está enganado, entre Deus e os pecadores e a companhia que freqüentavam na Alemanha fizeram-lhes adiar sempre o
são necessários intercessores, e esses são para nós os Santos; assim como seu propósito. Desejosa de vê-los convertidos a mãe chamou-os a Viena, onde
necessitamos de intermediários junto dos grandes senhores da terra, assim os apresentou a S. Clemente que em poucos meses lhes desfez todas as dúvi-
também nós míseros e indignos pecadores precisamos de intercessores junto das, e os entusiasmou para a beleza divina da religião. Pediram o batismo que

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lhes foi conferido por Severoli, Núncio Apostólico de Viena. nada, não serve”. O doutor não se deu por achado, tornou-se mais eloqüente
Foi esse o dia mais belo, o dia em que Dorotéia com dificuldade pôde con- na esperança de converter o Santo para as suas idéias, mas debalde; Clemente
ter a veemência da alegria que lhe inundava a alma. São Clemente tornou-se o percebendo que a coisa ia muito além do genuíno sentir da Igreja, interrompeu-
Diretor espiritual de toda a família, porque esses dois se tornaram piedosos, o bruscamente, mas para não o ofender deu-lhe um abraço com a palavra ami-
dóceis e obedientes aproximando-se com freqüência dos santos Sacramentos. ga: “Não deixas de ser o meu Frederico”. Aborrecido com a interrupção e desa-
Clemente não os perdeu nunca de vista, nem mesmo quando mais tarde se pontado com o abraço, quis continuar, mas viu-se novamente interrompido por
mudaram para Roma; escreveu-lhes diversas cartas animando-os à perseve- Clemente que desviou a conversa para outro assunto. Desse episódio tiramos a
rança na prática da virtude. A relação íntima com a família e o interesse que o prova de que o amor do Santo, embora sincero, nada tinha de sentimental.
Santo por ela tomava, deduzem-se perfeitamente de uma carta de Dorotéia a Clemente também nos ensina com seu exemplo que em certas ocasiões é um
São Clemente: “... hoje, véspera da festa dos grandes Apóstolos, não posso crime permanecer calado; mesmo aos amigos e, às vezes, necessário dizer a
deixar de vos escrever uma palavra; não há uma festa de mais importância em verdade com bons modos, e desviá-los do mal, do erro e do vício.
que eu não sinta desejo de me achar aos pés do meu pai espiritual para lhe Em 1808 estavam reunidos num dos hotéis de Hamburgo diversos rapazes
ouvir os conselhos, os ensinamentos e as palavras de sabedoria... Abençoai o de várias nacionalidades na mais cordial alegria, divertindo-se aos sons de va-
meu filho que se abandonou inteiramente à vossa direção, porque ninguém, riados cânticos. Entre os rapazes, destacava-se um sueco, protestante, filho de
melhor do que vós, caro pai, sabe guiar-nos para Deus; de coração unidos um nobre cavalheiro, que o destinou à vida militar, na qual devia, de degrau em
peçamos a Deus, se digne inflamar o coração do rapaz e iluminar o seu espírito; degrau, ascender ao apogeu da glória em magníficos triunfos para o engrande-
Vós que conheceis todas as boas e más qualidades, bem como o gênio do meu cimento da Pátria. O rapaz, porém, mais se simpatizava com o pincel do que
filho, continuareis a guiá-lo e a dar-lhe conselhos; é disso que depende tudo; com a espada. Abandonando a carreira militar, dedicou-se à pintura em que
peço-vos, queirais amparar-nos com vossas orações, em que tanto confiamos”. não tardou a fazer rápidos progressos. O seu nome era Frederico Augusto
O que porém mais admira é que o próprio Frederico Schlegel, o grande Klinkowström; todos os anos, no verão, aproveitava-se das férias para visitar
literato, o meteoro da sua época, se deixou guiar por Clemente com a ingenui- um seu amigo em Hamburgo.
dade de uma criança. O Servo de Deus visitava-o diariamente, já por amizade Como facilmente se compreende, a alegria no hotel era grande, indescritível,
já porque em sua casa reuniam todas as mentalidades científicas de Viena e os rapazes cantavam e riam-se, comiam e bebiam sem preocupações de espé-
até das mais célebres cidades dos outros países. O grande cientista era verda- cie alguma. A companhia crescia na proporção das horas que escoavam, e
deiramente piedoso: rezava todos os dias, tinha água benta em seu quarto, o como nem todos os rapazes tinham a mesma educação esmerada, com cada
Crucifixo e um genuflexório onde se ajoelhava para as suas meditações diárias; copo excitava-se mais a conversa, que não tardou a descambar para o lado
quando pelas ruas de Viena via passar um sacerdote, abandonava a compa- sensual e livre. Klinkowström, nobre de caráter e sério em sua vida, detestava
nhia em que se achava e ia cumprimentar o ministro de Deus e beijar-lhe res- semelhantes abusos e sentia nojo de gracejos daquele teor; calou-se arrepen-
peitosamente a mão, em plena sem a menor sombra de respeito humano; e dido de haver entrado naquela casa; pensativo levanta-se e vai à janela para
ninguém tinha nada que dizer de Frederico Schlegel, porque não havia em Vie- descobrir a causa do barulho que chegava a seus ouvidos. — Qual não foi sua
na quem pudesse medir-se com ele em sabedoria ou em qualquer ramo de consternação quando viu uma meretriz entrar pela porta que ficava em frente à
ciência; Frederico escreveu muitas obras, mas nunca publicou nenhuma delas, janela. Chamada pelos estudantes ia ela aumentar a alegria dos rapazes.
senão depois de ouvir o parecer de Clemente, a quem constituíra juiz da Seminua aproximava-se ela dançando e sorrindo com a desenvoltura pró-
catolicidade dos seus escritos. pria de semelhante classe, de forma a endoidecer os pobres moços que não lhe
Uma vez havendo composto uma obra primorosa foi lê-la a seu santo Dire- regateavam palmas e aplausos. O nobre sueco horrorizou-se com aquela cena,
tor que a aprovou in totum; terminado a leitura Frederico lançou um olhar mas o que mais o impressionou foi a visão que teve no momento; um ancião
perscrutador ao Servo de Deus, como se quisesse ler na fisionomia do Santo a venerando, sacerdote católico, de batina preta e sobrepeliz branca, estola e
impressão do seu escrito; S. Clemente abraçou o amigo dizendo: “Bem, meu pluvial magníficos, olhou para ele sério e, levantando a mão direita, deu-lhe um
caro Frederico, muito bem, porém melhor é ainda amar Nosso Senhor de todo sinal com o dedo como que a preveni-lo contra o vício e a admoestá-lo a fugir do
o coração”. Essa amizade de Clemente não era nada sentimental, visava tão perigo. O sueco que nunca vira semelhante padre nem outro, que com ele se
somente o bem espiritual de Frederico, que embora sábio, tinha, como conver- parecesse, compreendeu o aviso, tomou o chapéu e retirou-se.
tido, opiniões singulares a respeito do cristianismo. Uma vez terminada que foi A impressão daquela aparição, porém, nunca mais se desfez de sua alma;
uma das composições que Frederico julgava excelente e magnífica, correu ao ao chegar em casa lançou na tela a figura majestosa e grave do sacerdote que
seu Diretor para lhe participar a alegria e fazê-lo também deliciar-se com o fruto lhe apareceu em Hamburgo. Depois de andar pelo mundo, e de ver muitas
tão belo do seu espírito; certo do triunfo esperava que Clemente abrisse os cidades, entre elas Paris e Roma, fixou sua residência definitiva em Viena, onde
braços para o amplexar com felicitações; mas não foi assim; durante a leitura o o príncipe Metternich lhe deu uma boa colocação; na capital da Áustria uniu-se
Santo meneava, por vez, a cabeça em sinal de desaprovação e repetia: “nada, em matrimônio com Luiza Mengershausen que conhecera em Paris. Em Viena

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Klinkowström não tardou a relacionar-se com a família de Frederico Schlegel, silenciosas e cabisbaixas, sem coragem de comunicar uma à outra o que se
que embora católica, se afeiçoava ao protestante Klinkowström. Num domingo, lhes passava na alma. Em casa recomeçaram seus trabalhos costumados, até
além de ir a missa, como é obrigação de todo católico, Frederico quis também que uma interrompeu o silêncio: “Hoje tudo me enfastiou no templo; que modos
assistir à reza e levou consigo o amigo protestante, que o acompanhou com grosseiros tinham os fiéis ao aproximarem-se da ceia do Senhor, fiquei indigna-
gosto. Era um pouco tarde e, terminada a reza, o padre voltava já para a sacris- da!” Enquanto assim desabafavam seus corações, ouviram bater à porta; era
tia. Ao avistar o sacerdote Klinkowström abriu os olhos como que a perguntar, Clemente que ia curar as duas almas. Notando a mudança operada naquela
se estava a sonhar ou acordado; aquele padre era o mesmo que lhe aparecera casa, perguntou pela causa da tristeza inconcebível naquele dia de alegria, dia
em Hamburgo, o pluvial era da mesma cor, tinha os mesmos adornos e era do da ceia do Senhor, para a qual elas tanto se haviam preparado; as senhoras
mesmo feitio, fitou o rosto do sacerdote e reconheceu os mesmos traços, po- abriram os corações e não deixaram nada por contar. Foi para Clemente uma
rém um tanto mais amáveis. Ao sair da igreja o nobre sueco interessou-se pelo ocasião azada para falar da insipidez do protestantismo; discorreu com entusi-
sacerdote que acabava de presidir às funções, perguntou por seu nome e sua asmo e fogo e por fim acrescentou: “Se quiserdes a paz, fazei o que já vos tenho
residência. Frederico Schlegel, penitente de Clemente, deu naturalmente todas dito tantas vezes, despi as meias pretas9 e renunciai ao protestantismo”. As
as informações, fez-lhe as melhores referências a respeito do Santo, de sorte senhoras ficaram pensativas; a Igreja Católica com suas belas cerimônias agra-
que Klinkowström não se demorou em fazer-lhe uma visita na igreja dos Italia- dava-lhes deveras, mas encontravam um grande empecilho para a sua conver-
nos, em que ele então se achava. O protestante foi recebido com toda a amabi- são: era a confissão. Elisa, a mulher de Pilat, a sorrir, um tanto maliciosa levan-
lidade e delicadeza pelo Reitor da igreja que o cativou totalmente. Como essas tou a voz e acentuou: “Mas a confissão... a confissão!” ao que S. Clemente
visitas se reproduzissem muitas vezes, teve Clemente ocasião de falar-lhe so- respondeu: “A confissão não vos custará a cabeça; fica por minha conta”. Expe-
bre a Igreja Católica, que é a única arca de salvação, sobre a falsidade do rimentado na arte de dissipar temores, Clemente pôs-se a indagar delas as
Protestantismo e sobre a obrigação de pertencer à verdadeira Igreja de Jesus circunstâncias pormenorizadas da sua vida, as alegrias e as tristezas que hou-
Cristo. veram no mundo etc. Percebendo que o Servo de Deus se interessava por elas,
Klinkowström, temendo ofender sua esposa que o idolatrava, não teve co- contaram muito mais do que Clemente perguntara. Terminada a conversa o
ragem de dar o passo decisivo, mas de lá em diante deixou de freqüentar o Santo dirigindo-se à Elisa disse: “Que quer mais? a senhora já fez a sua confis-
templo protestante; sentia gosto especial pelo culto católico na igreja dos Servitas, são, pouca coisa falta ainda”. Foi água na fervura, a nobre dama caiu em si,
tomava porém cuidado em ocultar tudo isso à sua esposa. Como as mulheres reconheceu que suas dúvidas não passavam de preconceitos, estreiteza de
são em geral desconfiadas e finas nas suas observações, esta não tardou a idéias, orgulho herético; estudou ainda mais recebendo de Clemente instruções
perceber a mudança em seu marido e já o supunha católico. Cheia de malícia especiais, e poucas semanas depois foram as duas senhoras acolhidas no grê-
perguntou um dia a seu esposo, porque é que não freqüentava mais o culto mio da Igreja Católica. Luiza, a esposa de Klinkowström, tornou-se tão piedosa,
protestante, e porque ia todos os domingos ao templo católico. Surpreendido e que, na expressão de Clemente, poderia transportar montes em sua fé tão pro-
desapontado com a pergunta, procurou Klinkowström um pretexto qualquer, funda. A alegria de Klinkowström foi indizível; ao voltar do campo de batalha
que não lhe foi difícil encontrar: “É que amo a música, e esta lá na igreja dos abjurou, com prazer, o protestantismo nas mãos de seu amigo.
Servitas é celestial e quase divina”. Embora a mulher não acreditasse muito Elisa e Luiza tinham ainda uma irmã solteira, por nome Augusta que, ape-
nessas palavras do seu esposo, Klinkowström deu graças a Deus por haver sar de conhecer a falsidade do protestantismo e a sublimidade divina da Igreja
encontrado tão depressa uma desculpa tão verosímil. Clemente do seu lado Católica, não se animava a abandonar a sua religião por ser filha de um pastor
não insistia com o sueco, porque queria dar tempo ao tempo. Em 1813 rebentou protestante, cuja crença julgava dever seguir por ser ainda solteira. Sincera e
a grande guerra com os franceses e Klinkowström com seu cunhado João Pilat munida de boa vontade expôs toda a dificuldade a S. Clemente e mais algumas
teve de pegar em armas para defender a Pátria, ficando as duas jovens espo- coisas que a desanimavam. A primeira dificuldade que a abatia era o dever de,
sas a chorar a ausência dos maridos e a consolar-se mutuamente; nesses du- como católica, adorar o papa, porque ela só adorava Deus, Criador do céu e da
ros transes era Clemente o anjo consolador daquele lar. Embora protestantes, terra, e não podia prestar essa homenagem a uma criatura, como fazem os
essas duas senhoras passavam os dias na oração e prática das virtudes, para católicos segundo o catecismo.
que Deus se compadecesse dos seus maridos. Para a ceia de Quinta-feira San- Clemente sorriu-se, com toda paciência fê-la ver que, segundo o catecis-
ta prepararam-se com especial desvelo e cuidado e em chegando o grande dia, mo, nós só adoramos Deus e mais ninguém, pois que o contrário seria crime de
com todo o respeito se aproximaram do templo, executando a cerimônia do idolatria, e que por isso, se ela se fizesse católica, não precisaria adorar o papa,
ritual protestante; nas orações, porém, permaneceram frias não sentindo ale- mas respeitá-lo e obedecer-lhe como representante de N. Senhor. — Uma ou-
gria espiritual nem paz da alma. Nós católicos, compreendemos perfeitamente tra dificuldade impedia-lhe a entrada na Igreja Católica: não lhe era possível
a causa da aridez espiritual das duas senhoras, pois que os protestantes não gostar dos paramentos com que os padres celebram por terem a forma de
têm verdadeira comunhão, nem sacerdócio como nós o temos, consagrado a rabecão. O Servo de Deus revestiu-se ainda de paciência e respondeu, que
Deus por um sacramento especial. Entristecidas voltaram as duas para casa isso não tinha importância e que ela podia ser católica fervorosa e achar feios e

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até hediondos os paramentos, porque isso não era questão de religião, mas só política, merecendo ser encarregado pela cidade de Frankfurt de importantes
de sentimentos estéticos. Uma terceira dificuldade, a maior de todas, causava- negócios no congresso de Viena. O caráter de Schlosser era nobre, e seu cora-
lhe espanto, não podia compreender, como é que alguém pode rezar aos San- ção bondoso e amigo dos pobres e necessitados. Era protestante somente por
tos e implorar-lhes a proteção; achava que era uma ingratidão monstruosa para ter nascido e ser educado na heresia. Sua esposa, francesa e calvinista, levava
com Deus, depositar em outros e não nele a sua confiança. Na hora não quis o o belo nome de Sofia. Deus chamou-os à Igreja por caminhos bem diversos dos
Servo de Deus dar-lhe uma explicação completa e teológica sobre a veneração outros. Sofia notou logo com bastante dissabor que as pessoas, que a rodea-
dos Santos, contentou-se em dizer-lhe: “Se a senhora não quiser invocar os vam, não tinham verdadeira paz, nem encontravam alegria para o seu coração,
Santos, não os invoque; isso não impede que a senhora seja católica”. embora fossem abastadas e se pudessem conceder todos os gozos imagináveis.
Augusta estava satisfeita, não tinha já dúvidas em seu espírito: não preci- Compreendendo que a paz da alma não se compra com dinheiro nem se
sava adorar o papa, nem louvar os paramentos, nem rezar aos Santos, e podia aspira como o ar, por ser ela uma flor que só nasce no jardim do coração, pôs-
assim mesmo ser católica como suas duas irmãs. Em pouco tempo abjurou a se a refletir sobre a causa de ela não nascer nos corações protestantes. Frederico
heresia e, anos depois, entrou no convento das Visitandinas onde professou e também carecia dessa tranqüilidade íntima e de bom grado daria tudo para
morreu santamente. — Enquanto tudo isso se passava Pilat, achava-se na França consegui-la. Desanimada pôs-se Sofia a rezar e a freqüentar com mais assidui-
e ignorava o ocorrido em Viena. Ao voltar estranhou a mudança, mas não se dade o templo calvinista; porém debalde. Em Viena, na residência de Pilat, teve
perturbou; embora católico de batismo, pouco ou nada se incomodara com a ocasião de considerar a estranha visão que tanto procurava; lá foi-lhe dado
religião, nunca sofrera dor de cabeça nem reumatismo nos joelhos por causa contemplar um homem de cujos olhos transparecia a calma e a tranqüilidade
de orações demasiadas, nem dor de estômago por rigorosos jejuns; era um d’alma: era São Clemente, que sempre a sorrir possuía o condão de atrair os
desses que acham a religião boa para as mulheres que não têm o que fazer e corações com suas palavras serenas e seus modos delicados. Sofia pôs-se a
para as crianças que se deixam facilmente atemorizar, mas nunca para os ho- estudar aquele sacerdote católico e não tardou a descobrir que aquela paz era
mens, espíritos fortes, que só crêem o que vêem, e que não têm tempo a perder o efeito do amor de Deus e da dedicação à Santa Igreja; assistiu às pregações
nas igrejas, reuniões etc; achava que toda a religião é boa, contanto que se seja do Servo de Deus em Sta. Úrsula que lhe satisfizeram plenamente tanto pela
um homem honesto. Essa idéia que bebera na maçonaria, acompanhou-o sem- simplicidade do fraseado como pela profundeza da argumentação. Um dia ou-
pre, fazendo dele um adorador da humanidade e da vida cômoda. Sua esposa viu Clemente sobre o seu trema predileto: a Igreja Católica, sua beleza celeste,
tornou-se-lhe anjo da guarda e incansável apóstola. E Pilat a idolatrava! Supli- e glória admirável, salientando-a com a destreza de seu pincel de mestre e as
cou-lhe com lágrimas nos olhos, renunciasse à maçonaria que sob o manto da chamas da sua fé; na peroração disse o Santo: “Conhecem-na, porém, só aqueles
humanidade e filantropia, só tem por fim exterminar a Igreja, derrubar os altares que nela vivem e que têm a felicidade de ser seus filhos”. Sofia sentiu-se tocada
e os tronos e sobre as suas ruínas levantar o trono da revolução, pediu-lhe que da graça, foi ter com Clemente, levou-lhe também seu esposo, e depois de
se tornasse católico prático, para assim possuir a paz da alma. Aos pedidos instruídos foram recebidos os dois no mesmo dia, na Igreja Católica. Tornaram-
pessoais uniu orações fervorosas e por fim levou-o ao Santo para que o instru- se amigos do Servo de Deus, que muitas vezes os convidou ao café, servindo-
ísse e arrancasse das garras da maçonaria. Clemente não tardou a ouvi-lo de os por suas próprias mãos e entretendo-os familiarmente, de sorte que mais
confissão, tomou-lhe as insígnias da maçonaria: o avental, a colher, o diploma. tarde Sofia pôde afirmar, nunca ter tido horas tão felizes na vida como aquelas
Desde esse dia Antônio Pilat foi um dos mais assíduos penitentes de São Cle- que passaram em companhia de Clemente. O Santo sacrificava seu tempo aten-
mente, e isso não obstante a posição nobre que ocupava na qualidade de se- dendo a essa família, porque previa o grande bem espiritual que dos seus es-
cretário do príncipe Metternich. forços proviria às almas. E de fato, essa senhora tornou-se benemérita do culto
Para se fazer idéia da probidade de Pilat, basta ouvir o que escreveu dele religioso pelas inúmeras poesias sacras que traduziu do italiano, espanhol, por-
seu confessor depois de Clemente: “Para ir ao escritório, Antônio Pilat tinha de tuguês, francês, inglês etc. Essas poesias, belíssimas na forma, foram publicadas
passar perto da Bolsa; um dia chegou-se perto dele um cambista que lhe sus- por madame Schlosser em 7 volumes.
surrou alguma coisa ao ouvido. Prometeu-lhe enorme quantia, se, quando pas- Entre as muitas almas reconduzidas por São Clemente ao seio da Igreja
sasse no dia seguinte, lhe dissesse uma palavra ao ouvido, ainda que fosse só Católica, contava-se a esposa de Adam Müller, célebre filósofo, estadista con-
‘Bom dia’. Embora com essa única palavra pudesse ganhar uma boa fortuna, sumado, e homem de confiança de Metternich, que o encarregara de negócios
Pilat não a quis pronunciar para não concorrer para um manejo injusto. Com- e cargos importantíssimos. O próprio Adam Müller no meio de tantas honrarias
preendeu que o homem se queria servir da palavra, que ele, secretário do prín- conservou-se sempre humilde e deixou-se guiar em tudo como uma criança por
cipe Metternich, lhe diria com ar misterioso para lançar uma notícia de sensa- São Clemente, seu diretor espiritual. Sua esposa porém era luterana; ao ouvir
ção a assegurar assim o êxito de uma especulação arriscada”. as pregações e instruções do Servo de Deus começou a admirar a beleza da
Na casa de Pilat encontrou-se Clemente com um senhor muito conhecido Igreja e a compreender o erro do protestantismo, mas receava passar ao cato-
nas altas rodas sociais, por nome Frederico Schlosser, aparentado com o céle- licismo pelo temor de uma bagatela que lhe causava extraordinária impressão:
bre Goethe. Poliglota e poeta, escreveu numerosas obras sobre poesia, arte e temia a penitência que São Clemente lhe iria impor na confissão por ela se

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achar tanto tempo no luteranismo. Chegado o dia determinado para a recepção
desse sacramento, fez um esforço supremo, e confessou-se com todo o arre-
pendimento e sinceridade. Clemente, como de costume, pôs-se a dar-lhe con-
selhos e instruções para a sua vida prática; de tudo isso porém ela nada perce-
beu, tão preocupada estava com a penitência horrível que iria receber. Qual não
foi seu espanto, quando o confessor lhe deu uma penitência insignificante, tão CAPÍTULO XVI
pequena, que ela mesmo julgou pouca para tantos pecados e pediu uma maior.
Clemente porém lhe respondeu: “Aceite também por penitência aquilo que
N. Senhor lhe vai mandar”. Madame Müller levantou-se consolada; ao chegar
O sábio Diretor das Ursulinas
porém em casa foi acometida de uma dor de dentes tão aguda que lhe arrancou
lágrimas; lembrada das palavras do seu confessor, aceitou com gosto mais aquela Que é a Religiosa — Da chácara ao convento — Deus ilumina os confesso-
penitência, beijando a mão de Deus que a castigava. res — Reforma as Ursulinas — Os trabalhos das religiosas — A Religiosa tíbia
— A vontade de Deus — A obediência — A Religiosa nervosa — A vassoura
usada — A Irmã tentada — A bruaca velha — As armas da mulher.

Entre as pessoas que São Clemente conservava guardadas no fundo de


seu grande coração e com as quais mais se entretinha, eram as Ursulinas, sem
dúvida, as primeiras. E com razão, pois que via em cada uma das religiosas a
esposa, que Jesus se escolhera entre milhares, tirando-a do meio do mundo
sedutor, e introduzindo-a em sua casa e santuário.
Cada convento era, a seus olhos, um templo e cada alma uma pedra preci-
osa engastada nesse santuário.
É por essa razão que ele, sempre que passava por perto de um convento
de religiosas, inclinava duas vezes a cabeça: uma para saudar o Redentor ocul-
to no Santíssimo Sacramento, e outra, por respeito às esposas de Jesus que se
santificam no claustro. Das religiosas consagradas a Deus tinha mais estima do
que dos vasos sagrados. A Religiosa era, no seu modo de encarar, um ostensório
vivo, preparado pelo próprio Deus para nele habitar com suas virtudes e com
sua graça. A Religiosa é também uma heroína que possuiu força bastante para
desprezar o mundo com seus encantos, alegrias e esperanças, e levar uma
vida de pobreza, desprendimento e abnegação na casa de Deus. Clemente
tinha gosto especial em falar sobre a virgindade, consagrada a Deus por voto,
sua excelência e beleza angélica. “A vida claustral é uma graça assinalada,
dizia ele, e quem nesse ponto conheceu claramente a vontade de Deus, deve
segui-la mesmo contra a vontade dos pais ou parentes”. Para prova disso ale-
gava a palavra de Jesus à sua Mãe que, durante três dias o procurara chorosa
nas ruas de Jerusalém: “Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é do meu
Pai?” Falando a uma Religiosa disse um dia. “Não sabeis como sois felizes; na
hora da morte compreendereis o que é a graça da vocação, em cuja compara-
ção as grandezas da terra são um puro nada”.
Do alto do púlpito falava sempre com fogo sobre a vocação religiosa, que
era assunto desconhecido em outros púlpitos naquele tempo. Tendo de pregar,
um dia, na igreja das Visitandinas, depois de ler o que o catecismo romano diz
sobre os conselhos evangélicos, falou sobre a vida religiosa com tanta unção e
acerto que as religiosas choraram de consolação e comoção.
Todas as vezes que São Clemente percebia sinais certos de vocação em
uma alma, ajudava-a com seus conselhos e trabalhos para que com mais pres-

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sa e segurança, conseguisse entrar no convento e consagrar-se inteiramente a queima-roupa: “A senhora deve ser Visitandina, eu mesmo lhe arranjarei um
Deus. São inúmeras as almas que o Servo de Deus enviou aos conventos das lugar”. Essa palavra bastou para enchê-la de coragem; não temendo já as ame-
Ursulinas, Visitandinas, Carmelitas etc. etc. não só das classes populares, mas aças paternas, foi para onde Deus a queria e tornou-se uma piedosa e santa
ainda da alta aristocracia e até da nobreza. Quando se tratava de donzelas Religiosa na Visitação.
pobres, ele mesmo dava os passos necessários, arranjava-lhes o lugar e facili- Sempre que o Servo de Deus enviava alguma donzela ao convento, fazia
tava-lhes a entrada. recomendações especiais à Superiora para que velasse constantemente sobre
Uma donzela pobre dos arrabaldes mais afastados de Viena ia diariamente ela e a tornasse uma santa esposa de Jesus, guardando a inocência e a boa
da chácara ao centro da cidade onde, sobre uma mesinha, colocava os ovos, a vontade do coração. A uma que ia entrar no convento, deu o Santo uma carta
manteiga e a gordura, e lá ficava à espera de compradores. Fazia isso por ne- com os seguintes dizeres à Superiora: “O meu desejo é que esta donzela cres-
cessidade, pois que precisava ganhar a vida, mas o desejo ardente de seu ça sempre na inocência e piedade em que foi educada; que ela cultive em si
coração era entregar-se e consagrar-se inteiramente a Deus na vida religiosa; mesma a perfeição da sua sublime vocação, e depois procure implantar tam-
sentia uma santa inveja das Ursulinas que moravam lá perto, e suspirava por bém nas demais irmãs o mesmo zelo e os mesmos sentimentos, para assim
encontrar um Diretor espiritual prudente e caridoso, que a quisesse introduzir conduzi-las todas para Deus”. Em se tratando do convento das Ursulinas, Cle-
na casa de Deus. Aconteceu passar por ali um sacerdote venerando com um mente era incansável. Nos sete anos, que exerceu o cargo de Reitor da Igreja e
gorrinho na cabeça, grave, sério, sem olhar para ninguém; notava-se que era Diretor das Irmãs, reformou completamente esse jardim do Senhor. Em 1813 a
um Santo. A donzela, quando o viu, sentiu em sua alma uma voz que lhe dizia: disciplina regular achava-se quase toda em completa decadência devido às
“A esse deves manifestar o anhelo do teu coração, porque ele te levará ao circunstâncias desfavoráveis do tempo. Clemente bateu-se como um herói para
convento”. A coisa porém não era tão fácil. A vendedora de ovos nunca vira o restabelecer no claustro a antiga disciplina, e não descansou enquanto não
Santo, não sabia quem era aquele sacerdote, nem onde morava, nem para conseguiu introduzir no convento a observância regular. Como é natural isto
onde ia: a fisionomia do padre, porém, ficou bem impressa em sua memória. não se deu sem grandes dificuldades e declarada oposição daquelas irmãs,
Dois anos depois, na quinta-feira santa de 1818 foi a donzela, casualmente, que não queriam ouvir falar de reforma.
ouvir missa na Igreja de Sta. Úrsula. Exultou quando no altar viu o sacerdote Clemente não se intimidou com os obstáculos nem se alterou com as
que conhecera pela primeira vez há dois anos atrás; procurou-o depois no con- incriminações de algumas irmãs. Com paciência e caridade conseguiu ganhar
fessionário, abriu-lhe o coração e manifestou-lhe o seu desejo ardente. Cle- os corações de todas as religiosas para Nosso Senhor, e, no fim recebeu maio-
mente prometeu auxiliá-la, mas querendo primeiro certificar-se da sua voca- res provas de gratidão justamente daquelas que antes mais se declararam con-
ção, mandou-lhe mudar-se para a cidade, onde lhe arranjou um lugar, instruiu- tra ele.
a a um ano inteiro na vida religiosa, e convencendo-se que a moça era chama- Se uma ou outra vez usava de rigor, fazia-o tão somente por amor da ob-
da por Deus para o convento, fê-la entrar nas Visitandinas. servância regular.
Às vezes sucedia que alguma penitente do Santo, sentindo a voz de Deus Quanto mais santo é o estado a que Deus chama uma pessoa, maiores
que a chamava, não tinha coragem de participar a seu Diretor esse chamamen- são os deveres que lhe impõe. Na fronte da Religiosa, elevada à dignidade de
to divino; nesses casos Deus mesmo incumbia-se de revelar miraculosamente esposa do Rei dos reis, coloca uma coroa de espinhos, por vezes bem pene-
a seu Servo a vocação das penitentes. Um belo dia uma tal Teresa, ouvindo um trantes, sobre os seus ombros uma cruz pesada, tornando-a semelhante a Je-
sermão de São Clemente sentiu-se fortemente tocada da graça e do desejo de sus Cristo. A donzela não entra no convento para gozar ou levar uma vida cô-
entrar no convento das Ursulinas. moda, mas para se santificar e subir a montanha escabrosa da perfeição — e
Prelibando as doçuras da vida religiosa, ao chegar em casa ajoelhou-se isto não só de passagem, um ou outro dia, mas constantemente, sem tréguas,
aos pés de seu pai pedindo-lhe permissão de seguir a voz de Deus que a queria de dia e de noite. São Clemente, a personificação da energia, gostava de de-
para sua esposa. O pai era um daqueles que julgam serem os conventos uma senvolver esses temas e explicar essas verdades às suas religiosas. Ao dar o
espécie de hospício para as mulheres fanáticas e histéricas, um recolhimento hábito, uma vez, a quatro irmãs disse: “Uma Religiosa deve unir em si as duas
de pessoas imbecis ou asilo de mulheres sem préstimo; franziu sobr’olhos e irmãs Maria e Marta, isto é a oração e o trabalho; por amor dessas duas irmãs
declarou que, enquanto vivesse, não lhe daria a licença pedida. A donzela ca- Jesus ressuscitou a Lázaro; por meio da oração e do trabalho devem as Virgens
lou-se julgando haver cumprido o seu dever e nem mais cogitou em entrar no consagradas a Deus, contribuir para a ressurreição dos mortos pelo pecado,
convento. A sua consciência porém não emudeceu, a voz de Deus fazia-se isto é, dos pecadores, para a vida da graça, porque o Senhor, que ama as suas
ouvir sempre mais clara. Teresa não sabia o que fazer: se obedecer ao pai ou a Esposas, não deixará de atender as suas ardentes súplicas; mesmo entre os
Deus que a chamava; em vez de pedir conselho ao confessor expondo-lhe toda pagãos romanos eram as virgens alvo de honrarias, de sorte que o governo
a dificuldade, preferiu conservar-se calada. Deus porém não a desamparou; de chegava a perdoar a um criminoso pelo qual uma virgem intercedesse; quanto
modo sobrenatural iluminou o confessor a respeito da pobre donzela; — quan- mais valerão as súplicas de uma esposa de Jesus Cristo junto ao Altíssimo em
do esta foi ao confessionário, em lugar dos conselhos disse-lhe Clemente a favor dos pecadores”.

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A oração contínua, as meditações longas são um trabalho pesado, mor- tantos milhares de soldados que perfazem o número da metade do exército
mente no convento onde elas se repetem diariamente a vida inteira; e entretan- austríaco, quantos blasfemadores, profanadores sacrílegos dos lugares santos,
to a oração não é o único trabalho das religiosas; no convento Maria deve mui- ladrões, libertinos, hereges, perjuros, beberrões! e por isso também quantos
tas vezes ceder o lugar a Marta. Há religiosos que consomem o dia no confes- crimes e pecados, que reunidos num só muladar, talvez o tornassem mais alto
sionário a perdoar pecados, ou no púlpito a converter os pecadores, ou à secre- do que a Torre de Babel!... e entretanto o Servo de Deus tinha mais esperança
tária a cultivar as ciências, achando somente à tarde uma parcela de tempo na salvação deles do que na de dez religiosas tíbias! E quando em um convento
para lançarem um rápido olhar para sua própria alma. Quantas religiosas, de existem, ainda que poucas, religiosas tíbias, a comunidade inteira corre perigo
manhã até à noite, cansam-se nas aulas instruindo as crianças, ou velam a de ser infeccionada pelo espírito mundano, que a porá a perder. É certo que o
noite inteira à cabeceira dos doentes nos hospitais, a combater o sono e o mosteiro das Ursulinas não estava em decadência completa, mas também é
cansaço em seus membros entorpecidos pelas longas vigílias! quantas Espo- certo que lá penetraram, com o espírito da época, os bacilos do josefismo rela-
sas de Cristo por seus esforços heróicos e labutações aturadas em prol da xando a disciplina claustral.
humanidade sofredora, se têm lançado, na flor dos anos, aos braços da inexorável São Clemente que em uma de suas expressões fortes disse: “Eu tenho um
morte! E mesmo que uma Religiosa não tivesse de sujeitar-se a nenhum des- faro católico”, percebeu imediatamente o qual e descobriu sua origem e causa;
ses trabalhos físicos ou intelectuais, nunca poderia esquecer, sob pena de con- pôs-se a agir com energia pouco se incomodando com as palavras, por vezes
denação, o mais penoso de todos: o trabalho da santificação própria: domar as pesadas, que teve de ouvir dentro e fora do convento, e conseguiu restabelecer
paixões, combater os vícios, cultivar as virtudes. Esse trabalho aturado e peno- o antigo espírito, o amor a Jesus Cristo e a observância regular em todos os
so só pode ser feito por almas generosas e fortes, a quem Deus chamou a sua pontos.
casa. A vida claustral exige abnegação e pressupõe grande energia espiritual e Por meio de numerosas conferências ascéticas às religiosas, o Servo de
vigilância constante — não admira pois que uma ou outra alma, menos forte, se Deus procurava torná-las dignas do seu divino Esposo, e proporcionar-lhes ale-
sinta esmorecer e abandone seu Deus voltando-lhe as costas. Outras, cansa- grias e consolações em seu convento. Uma vez falando da vida humana, da sua
das do combate, permanecem, sim, no convento, mas o coração vaga pelo brevidade e importância para a salvação, instou com elas a que aproveitassem
mundo, caem na tibieza causando prazer a Satanás que em seus corações o tempo... “porque o tempo, disse ele, é um tesouro infinitamente precioso, um
deposita os germes das imperfeições, da impaciência, hipocrisia, inveja, ciú- bem inestimável; quem se aproveita bem do tempo, ganha o céu e o próprio
mes, murmurações, loquacidade, apego às coisas do mundo, ao amor próprio, Deus”. Embora seja o tempo uma criatura de Deus, que é o Senhor absoluto de
à vanglória etc. Embora o mundo não tenha direito de exprobrar coisa alguma a tudo o e se acha infinitamente acima de todo criado, Clemente punha o próprio
esses abusos que não o prejudicam, porquanto uma Religiosa tíbia é sempre Deus em paralelo como tempo dizendo às Ursulinas: “O tempo vale tanto como
melhor do que uma pecadora no mundo, todavia o Esposo divino contrista-se, o seu Autor divino, porque com ele podemos, por assim dizer, comprar o próprio
subtrai muitas vezes sua luz divina, retira seu braço, diminui as consolações Deus, se fizermos bom uso do tempo. Deus mesmo será a nossa recompensa
espirituais, das quais a Religiosa tíbia se torna indigna por suas imperfeições e no céu”.
infidelidades, e cheio de amargura lhe repete as palavras aterradoras: “Oxalá Homem eminentemente prático, não se perdia em teorias ou belas frases a
fosses quente ou fria!” (Ap 8,15). Abandonada pelo Esposo, a pobre Religiosa à que não corresponde realidade, e por isso explicava também às religiosas o
beira do precipício, sem luz divina, sem o auxílio do céu, facilmente resvala para modo de empregarem bem o tempo, e de usarem desse capital para dele per-
o abismo e precipita-se no pecado mortal. Nesse deplorável estado a mísera ceberem os maiores juros possíveis, coisa que não é difícil no convento. A or-
debate-se sem consolo, não tem as alegrias do mundo a que renunciou no dia dem do dia no claustro é a vontade de Deus, e executá-la com fidelidade é
da sua profissão, nem as consolações do céu, porque é infiel a seu Esposo. merecer copiosos juros de merecimentos e de virtudes, porque a vontade divi-
Como é triste uma Religiosa tíbia, suspensa entre o céu e a terra! Ela deve ser na deve ser sempre a norma da nossa vida, a única guia do nosso procedimen-
pobre, em virtude do voto, e nutre tantos desejos de possuir... deve ser pura, to; as religiosas não devem ter vontade própria por ser contrária à de Deus, que
porém não goza as carícias do amor divino... deve obedecer, e não sente o fogo fala interiormente à nossa alma, ou exteriormente pela boca dos Superiores,
do céu... deve rezar e não sente consolação! pobrezinha, deve abnegar-se, que são para nós os representantes de Deus. E como as religiosas a isto se
porém sem merecimentos, vive sem esperança e morre se ma graça de Deus! obrigam por um voto especial, o da obediência, Clemente repetia-lhes constan-
Toda essas verdades eram expostas por São Clemente com animação e temente: “Não sejais voluntariosas, mas obedecei sempre em tudo!” “Até a mor-
calor. No dia de sua nomeação para confessor das Ursulinas, foi felicitado por te, disse ele em outra ocasião, é mister obedecer; é preferível morrer a desobe-
um Barão, pela honrosa colocação obtida, na qual lhe era dado fazer tanto bem decer. Se a uma Religiosa fosse dado escolher entre a morte e a desobediência
às almas puras, às Esposas de Jesus Cristo. Clemente, porém, meneou a ca- a qualquer preceito do Superior, não deveria hesitar em sacrificar a própria
beça e respondeu com seriedade: “Vós me felicitais por um cargo que eu temo; vida, que é o melhor dos bens terrenos, para não ser infiel a Deus. A morte seria
quisera antes ouvir de confissão a metade do exército austríaco do que a dez um sacrifício e holocausto agradável ao Eterno, a desobediência porém um
religiosas tíbias”. Quanta verdade não encerra essa palavra! E de fato, entre pecado; ora é muito mais nobre sacrificar-se que pecar; a morte pela obediên-

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cia é um martírio que abre as portas do céu. Não terá dificuldade em obedecer nada mais acertado do que essa comparação. A vassoura, antes de colhida e
a Religiosa ao contemplar seu divino Esposo que não quis outro epitáfio sobre enfeixada, lá fora se elevava orgulhosa a receber as homenagens e os beijos
seu sepulcro senão a afirmação de que Ele foi obediente até à morte, sim até a dos zéfiros e os banhos de luz da aurora, e, depois de presa a um cabo, em um
morte da cruz”. canto atrás da porta, jaz sem o direito de permanecer no salão mais nobre; e lá
Como a hera entrançada à estaca cresce viçosa arrostando os furacões e no canto tem de esperar até que a última das empregadas a tire da sua prisão,
as tempestades, a alma obediente torna-se grande e forte, resistindo sem difi- porque a dona da casa se acanha de tocar nela com medo de se manchar; e
culdade aos vendavais das paixões, atirando-se, arrojada, para o alto da perfei- essa empregada dela não se serve para os mais nobres empregos, mas para
ção e cantando vitórias e mais vitórias, como o afirma o Espírito Santo; torna-se recolher o lixo, varrer as imundícias, e executar outros serviços semelhantes;
tão forte, que vence o coração de Deus, a fortaleza substancial. Um dia ordenou terminado o trabalho, a vassoura não recebe palavra de gratidão e reconheci-
Clemente a uma das Irmãs que rezasse uma Ave-Maria pela conversão de um mento, nem ninguém se lembra de lhe tributar louvores; a criada atira-a para o
pecador que parecia obstinado. A Religiosa, achando que uma Ave-Maria seria canto, onde antes se achava e ela não tem direito de se queixar, mas só de
pouca coisa para um efeito tão importante como é a conversão de um pecador, obedecer calada; quando já não pode mais prestar serviços, é lançada a um
ofereceu-se a recitar mais Ave-Marias naquela intenção. Clemente porém res- muladar ou atirada ao fogo. — Como a vassoura deve ser a noviça do convento,
pondeu-lhe: “As almas que pelo voto da obediência sacrificaram a vontade pró- por mais nobre e elevada que tenha sido no mundo a sua dignidade ou ascen-
pria, rezam com mais fruto, obedecendo, do que fazendo a sua vontade e se- dência sobre os outros; só assim poderá ser boa noviça e prestar para o con-
guindo os seus caprichos”. Quem faz a vontade de Deus merece ser por Ele vento. Clemente nessa comparação não quer que as religiosas sejam vis como
atendido mesmo que faça uma oração tão breve como é a Ave-Maria. as vassouras, mas que tenham intenção e desejo de ser tratadas como elas,
Em Sta. Úrsula havia uma irmã de bom coração, de muito bom espírito e, com toda a submissão e humildade; — somente com esse desprendimento da
em geral, de muito belas qualidades, mas geniosa, de sangue quente que não vontade e do amor próprio é que a alma se sentirá verdadeiramente feliz na
suportava a menor contradição nem opinião alguma contrária à sua; quando casa de Deus. “Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si próprio” disse o
contradita por alguém, desfazia-se em palavras pouco edificantes. Entre ela e divino Salvador. Isso naturalmente refere-se exclusivamente aos sentimentos e
uma outra Irmã levantou-se, um dia, forte discussão, onde as palavras jorravam disposições das noviças, porquanto às Superioras impõe Deus o gravíssimo
com eloqüência espantosa, tornando-se sempre mais altas e fortes. Nesse so- dever de tratar suas súditas com todo carinho e amor, de auxiliá-las com o
lene e animado bate-boca, entrou Clemente que não ficou nada edificado com desvelo de uma terna mãe, e de cuidar das suas necessidades temporais e
tais desabafos contrários à caridade. As duas interromperam instantaneamente espirituais.
a batalha envergonhando-se do Diretor espiritual, que depois de indagar a cau- Convencido dessa importante verdade, o Servo de Deus não cessava de
sa, dirigiu-se à Irmãzinha nervosa, fez-lhe um sermão em regra, dando-lhe de admoestar as Superioras a que estudassem seriamente as aptidões, o tempe-
penitência a proibição de comungar o dia seguinte, porque a ninguém é permi- ramento e as forças físicas e morais de cada Religiosa, e só então dessem as
tido receber Jesus com rancor e ódio no coração. A Irmã, longe de se irritar e suas ordens. É em vista disso que muitas vezes dizia às irmãs: “Como é fácil e
perturbar com a repreensão, aceitou humildemente o castigo, de olhos baixos, agradável obedecer, e quão difícil é mandar! a obediência dá plena segurança
sem proferir uma única palavra de queixa ou desculpa. O Santo edificado com a em todos os transes da vida; quem obedece não pode errar, mesmo que o
virtude heróica dirigiu um olhar complacente para a Irmã, perdoou-lhe tudo, Superior caia no erro e se engane”.
tirou a proibição que acabava de fazer, e em recompensa de sua obediência, Com a entrada no convento não cessam as dificuldades para a alma que
permitiu-lhe receber mais uma comunhão além das permitidas pela Regra. teme a Deus, pois que diz o Sábio: “Filho, quando entrares no serviço de Deus,
Clemente inculcava a obediência sobretudo às noviças, porque sabia que, tem-te firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação” (Eccl.
de pequenino se torce o pepino. 2. 1).
Aprouve-lhe dar uma vez às noviças o seguinte enigma em forma de per- Clemente tratava suas noviças com toda a brandura e delicadeza. Se acon-
gunta: “Qual é a melhor noviça?” As respostas foram certamente edificantes e tecia ver alguma delas entristecida ou cabisbaixa, procurava dissipar-lhe a tris-
belas: “A que mais reza” — “a que melhor cumpre sua Regra” — “a que vive teza e levantar-lhe o ânimo.
contente no convento” — “a que comunga muitas vezes” — “a que faz amiúde o Uma donzela, munida das melhores intenções abandonara o mundo e en-
exame de consciência” etc. Como nenhuma acertasse com a solução desejada, trara no convento das Ursulinas, para lá glorificar a Deus e salvar a sua alma. O
respondeu por elas o Servo de Deus: “A melhor noviça é aquela que, obedecen- inimigo de todo o bem pôs-se logo a sussurrar-lhe aos ouvidos toda a sorte de
do com humildade se sente feliz quando, qual vassoura usada, é lançada a um tentações contra a vocação. “Tu não és chamada por Deus à vida religiosa,
canto da casa”. dizia-lhe, nunca poderás suportar os rigores do convento; vivendo na casa de
A uma pessoa pouco entendida em vida espiritual isso parecerá talvez um Deus sem vocação expões-te ao perigo de condenação eterna; além disso não
rebaixamento ignóbil e indigno; ser o homem comparado a uma coisa tão vil és digna absolutamente de ser Esposa de Jesus Cristo por causa dos teus
como é a vassoura, que se usa nos mais baixos serviços da casa. Entretanto muitos pecados”. Do outro lado o inimigo pintou-lhe o mundo como um templo

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magnífico onde poderia servir a Deus com liberdade e amor, entregando-se às rará a saúde e prestará relevantíssimos serviços à comunidade”. A autoridade
doçuras e às delícias da vida no século que lhe seria um paraíso, mostrou-lhe a de Clemente foi decisiva e a noviça fez a profissão dos votos. A profecia de
incomparável beleza da liberdade, que nos dá direito de viver à vontade, os Clemente realizou-se à risca: Jacoba sobreviveu a todas as irmãs que naquela
encantos da vida familiar, os enlevos do matrimônio etc. Tentada dessa forma a época se achavam no convento; cinqüenta anos mais tarde festejou as bodas
pobre donzela sentiu saudades do mundo e asco da vida religiosa; lágrimas, de ouro de sua profissão religiosa com saúde perfeita e força invejável, embora
em torrentes, lavavam-lhe as faces encovadas, lágrimas de arrependimento de contasse então nada menos de 76 anos de idade!
haver entrado no convento. A única consolação que ainda lhe restava era a Os cuidados paternais de Clemente não se limitavam apenas ao convento
possibilidade de voltar ao mundo e aos seus encantos e divertimentos. A donzela das Ursulinas, estendiam-se em geral a todas as religiosas procurando suavi-
aprontou a roupa e todos os seus apetrechos, resolvida a voltar as costas a zar-lhes o jugo da vida claustral. A Irmã Jacoba, da qual acabamos de falar,
Jesus. Marcada a hora da saída, sentia na ância de partir a vagareza do relógio. nobre de nascimento, era extremamente nervosa e irascível. Ao voltar uma vez
Momentos antes de abandonar o convento apareceu Clemente a quem ela da escola achou-se exausta de forças e sentia necessidade de repouso no si-
não participara coisa alguma a respeito, aproximou-se dela e disse: “Francisca, lêncio da sua cela. Possuidora porém de grande força de vontade, venceu-se e
fica no convento, porque foi Deus quem te chamou”. A donzela tremeu vendo-se obedeceu à Regra que a chamava, e na capela diante de Jesus Sacramentado,
conhecida por seu confessor, a quem tudo ocultara; percebeu que o Servo de desabafou, em fervorosas preces, o seu coração. Inesperadamente chega a
Deus lia não só nos livros mas também nos corações, sentiu-se envergonhada Mestra das noviças e manda-a ao confessionário. Ah, isso era demais para a
e implorou o perdão. Pouco depois a postulante pediu e recebeu o hábito, e nobre baronesa que enfraquecida cai de nervosia e susto. Obediente e virtuo-
viveu uma vida santa e exemplar, atingindo a idade de oitenta anos, sem com- sa, faz um esforço sobre-humano, levanta-se e dirige-se ao confessionário, onde
preender jamais como é que o demônio a podia enganar daquela forma. declara suas culpas com a sinceridade de uma criança, mas não diz palavra
Havia em o convento uma Irmã por nome Jacoba, que entrara na Congre- sobre sua doença e fraqueza. Clemente que conhecia bem a penitente e ouvira
gação no mesmo dia em que o Servo de Deus tomara posse do cargo de con- quanto se passara na capela, quis dar-lhe uma boa lição de que nunca se es-
fessor das Irmãs. Sentia-se em extremo feliz no convento, donde não queria quecesse em sua vida; no fim da confissão acrescentou: “As mulheres têm um
sair por coisa nenhuma deste mundo. Satanás, que não ignorava isso, começou gosto especial de prorromper em suspiros e lamentações”.
a tratá-la por outra forma. Enfermidades fortes abateram o físico da pobre novi- A noviça meditou nas palavras do Santo e achou que realmente as mulhe-
ça, que enfraquecida e extremo temeu ser, por imprestável, expulsa do conven- res se servem das lágrimas e dos soluços como armas poderosas, para mover
to; a tristeza apoderou-se de sua alma, prostrando-a ainda mais que o corpo; os corações dos homens, para os dominar e para chamar sobre si a atenção de
sincera e franca, foi desabafar o coração junto do seu sábio Diretor espiritual todos. Jacoba sentiu-se envergonhada dessa fraqueza e dali por diante esfor-
que, o sorriso nos lábios, derramou em sua alma torturada o suave bálsamo de çou-se por sofrer calada e com calma por amor de Deus.
real consolação dizendo-lhe: “Farás a profissão religiosa, recuperarás a saúde O sonho dourado de Clemente era de transformar os corações das suas
e sobreviverás a muitas que agora estão de faces rosadas”. Essas palavras dirigidas em outros tantos jardins mimosos, onde brotassem e medrassem as
soaram doces e agradáveis aos ouvidos da boa noviça, que todavia não lhes mais belas flores das virtudes cristãs e religiosas. Além da obediência e humil-
deu muito crédito, por não terem nenhuma aparência de verdade. A noviça, de dade aprazia-se em inculcar-lhes o amor da cruz, que ele próprio pregava cons-
fato, continuou a guardar o leito, e a enfermidade se agravava na medida que se tantemente com o seu exemplo; costumava dizer: “Amar a Deus é um bem tão
aproximava o dia da profissão. Desconfiada a noviça manifestou novamente grande que não o poderemos descrever com palavras humanas, porém um
seus temores ao santo Diretor, declarando ter pouca esperança de recuperar a bem ainda maior é sofrer por amor de Jesus. Deus e os sofrimentos são bem-
saúde e permanecer na Congregação: O Santo, longe de se perturbar, disse- aventurança suprema”. Sempre que alguma Irmã conversa tinha de carregar
lhe ainda com mais energia:... “farás a profissão, e na idade de 28 anos estarás lenha, escada acima, Clemente mandava rezar: “Ó Jesus, permiti que eu vos
inteiramente curada e ficarás ainda uma bruaca velha”. A enferma necessitava ajude um pouco carregando convosco esta cruz pesada”.
da saúde aos 24 anos em que deveria professar, e o Santo só lhe prometia a A Irmã Thadéa nos deixou escritas as admoestações que o Servo de Deus
cura quatro anos mais tarde! costumava fazer às irmãs: “Amar a Deus é um bem indizível; o amor de Jesus
As irmãs conselheiras reuniram-se para tomar uma resolução definitiva a seja o motivo de todas as vossas boas ações; a vontade divina seja a vossa lei;
respeito de Jacoba e, a uma voz, declararam que o convento não é hospital, a honra e o contentamento divino o vosso alvo; nas tentações não percais a
mas casa de oração e trabalho, e já que a condição para alguém ser recebido paciência, mas alegrai-vos; atirai-vos nos braços da Providência; não murmureis
na Congregação é possuir não só boa vontade e nobre coração, mas também nunca contra as disposições divinas, mesmo que vos sintais interior e exterior-
saúde bastante para executar os pesados deveres da vida religiosa, decidiram mente abandonadas; a tristeza vem do inferno e oprime o coração”.
que a noviça Jacoba não podia fazer os votos, devendo voltar quanto antes para
casa. Antes porém da execução definitiva, a Superiora pediu o parecer de Cle-
mente, que disse sem mais preâmbulos: “Deixem-na fazer os votos, ela recupe-

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servação: “Duvido menos na Trindade de Deus do que na presença dessa ima-
gem”.
A fé inabalável de Clemente era superior a qualquer sentimento de dúvida;
esse era o plano da Providência, que o destinara a avivar a fé quase morta
naquele tempo no norte da Europa, e a fazê-la produzir abundantes frutos nas
CAPÍTULO XVII almas desorientadas pelo espírito da época. Uma só coisa tinha ele ante os
olhos e dentro do coração em seus numerosos trabalhos espirituais: Deus e a
Sua fé profunda eternidade. Todos os meios empregados na conversão e direção das almas,
Clemente os hauria da fonte límpida e copiosa da fé; embora acatasse os co-
nhecimentos humanos, dava preferência à ciência dos Santos e tinha especial
A fé profunda — O plano da Providência — O faro católico — O seu tesouro prazer em repetir as palavras do Salmo: Quoniam non novi literaturam, introibo
— O terço do Senhor — A boa intenção — Amor à Igreja — A Igreja na história in potentias Domini (Ps. 70, 16) isto é, porque não conheço a sabedoria dos
— Os incrédulos — Respeito humano — Um professor — Um professor perigo- livros, entrarei na força do Senhor. “Para mim tenho por incompreensível, dizia
so —Trabalho pela imprensa — A biblioteca popular. ele, o fato de um homem poder viver sem fé; um tal parece-me um peixe fora
d’água”.
O antigo padeiro de Tasswitz jamais se teria tornado o Apóstolo de Viena e Outros ouviram-no dizer: “Sou orgulhoso e vaidoso, sou um pobre pecador
o modelo de virtudes, se não tivesse possuído em grau heróico, e comunicado e nada aprendi, mas uma coisa eu tenho pela graça de Deus: sou católico até a
à toda sua vida, interior e exteriormente, aquela energia maravilhosa, que ou- medula dos ossos; não trocaria com ninguém a minha fé”. Segundo o atestado
trora transformara os pobres pescadores da Galiléia em colunas inabaláveis da de Madlener, para o Servo de Deus, as provas da religião tiradas da razão só
Igreja, tornando-os aptos para o apostolado e a conversão do mundo pagão tinham valor para os principiantes; para os mais adiantados julgava ele de maior
chafurdado na lama de todos os vícios. A fé, fundamento da verdadeira justiça e importância as provas históricas, que ele reconhecia sobretudo na existência
de todo edifício espiritual, achava-se profundamente arraigada no coração do da Igreja”.
Servo de Deus, a quem transformou em um facho luminoso; aparecendo no A simplicidade e humildade com que submetia sempre seu entendimento à
mundo Clemente iluminou-o dissipando as trevas do erro, e aqueceu-o ateando fé, não ficaram sem recompensa. Deus esclareceu-lhe tão profundamente o
o fogo divino nos corações frios e indiferentes. Ouçamos o que dele nos afirma- espírito, que ele ficou tendo das coisas espirituais e divinas a mais extraordiná-
ram com juramento as testemunhas que depuseram no processo da beatifica- ria intuição. Com grande humildade diz Clemente não haver aprendido nada,
ção: “A fé que animou Clemente, era mais firme do que o granito ou o ferro; em mas é fato que todos admiravam seus vastos conhecimentos; isso leva a crer
se tratando da fé ele não cedia nem um palmo”. — O cardeal Rauscher, um dos que Nosso Senhor o iluminou de modo sobrenatural dando-lhe a faculdade de
seus mais ilustres discípulos, diz que “ele abraçava com fé viva e inabalável instruir os homens mais inteligentes e sábios. Produtos literários e poéticos,
tudo quanto Deus revelou e a Igreja propõe para crer”. — “Não conheci jamais hipóteses científicas em qualquer ramo da ciência, especulação dogmática e
em minha vida, diz outro, homem algum que possuísse como ele, uma fé tão doutrinas da alta ascese ou de misticismo, ele os julgava e decidia com preste-
firme e inquebrantável; a fé essencialmente católica era então uma raridade, za espantosa e agudeza de espírito; como a gracejar, dizia ele possuir um “faro
mormente entre as pessoas instruídas; a literatura estava toda eivada de católico”, afirmação essa que não queria certamente indicar outra coisa senão
racionalismo e heresia; Clemente agradecia a Deus efusivamente, o grande a luz superior que recebia do céu.
benefício de nascer de pais católicos, sobre tudo de receber de sua querida Essa visão sobrenatural não era para Clemente apenas objeto de belas
mãe uma educação firmada na verdadeira religião e temor de Deus; sua fé era meditações, de êxtases suaves e de doçuras espirituais, mas ainda norma se-
tão inabalável que muitas vezes ele afirmava não esperar recompensa alguma gura e certa para a vida prática; o que o Servo de Deus via à luz da fé e reco-
pela fé, porque nunca teve de combater tentações contra ela”. nhecia grande, sublime e atraente, pairava-lhe constantemente aos olhos e era
A luz da fé, escreve a Ursulina Jacoba, guiava-o em todas as ações e era a o objeto dos seus pensamentos, desejos e saudades. Da sua fé íntima brota-
regra constante de todos os seus passos, pois que ele vivia da fé! No púlpito e vam indizível alegria na oração, contínuo recolhimento de espírito, respeito pro-
nas palestras com os amigos falava sempre e com especial ardor do grande fundo de todas as coisas divinas, numa palavra, todas as virtudes que caracte-
benefício da fé acrescentando amiudadas vezes: “A quem não possui fé viva, as rizam a vida orientada pela fé. Em São Clemente verificou-se a palavra de Je-
mais sublimes verdades da religião têm aparência de fábulas!” E enaltecendo o sus: “Onde está o vosso tesouro, ai se encontra também o vosso coração”; ora
grande mérito da fé: “se eu pudesse ver com os meus olhos as verdades da Deus era o tesouro de Clemente, que o conhecia pela luz sobrenatural, e por
religião, não lhes daria tanto crédito como a afirmação da Igreja, pois que esta isso era Ele o objeto dos seus pensamentos e das suas mais fervorosas súpli-
é infalível nesse ponto, ao passo que os meus olhos estão sujeitos a muitos cas. Mesmo nas mais movimentadas ruas de Viena e nas praças públicas, onde
erros”. Apontando uma vez para uma imagem pendurada na parede fez a ob- fervilhavam as multidões, o Santo conservava-se recolhido em Deus, enquanto

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que seus dedos desfiavam as contas do rosário, oculto debaixo do manto; em- magníficas e soberbas catedrais. Ora isto não se explica naturalmente, e nem
bora acompanhado de alguns dos seus confrades, falava pouco, a fim de poder se concebe senão por uma proteção toda singular de Deus; e essa proteção
rezar mais. Nos seus passeios obrigatórios gostava de recitar, como diz o car- não seria possível se não se tratasse da obra prima do Homem-Deus, do corpo
deal Rauscher, o terço do Senhor, isto é, 33 Padres-Nossos em louvor dos trinta místico de Jesus Cristo, isto é da Igreja. Tão profunda era a convicção de Cle-
e três anos que o Filho de Deus passou sobre a terra. mente que ele dizia: “Tirai-me tudo, mas não me priveis do tesouro precioso da
O seu espírito elevava-se, como que naturalmente, das coisas terrenas ao fé: é melhor perder a vida que naufragar na fé”.
Criador; era o resultado de sua união íntima com Deus; dessas alturas descia Quem conhece e avalia a fé viva e prática do Servo de Deus, compreende-
apenas quando a caridade para com o próximo o exigia. Nas cidades ou nas rá a compaixão que ele sentia dos seus patrícios de Viena, extraviados do cami-
roças, durante o verão ou o inverno, andava sempre de cabeça descoberta para nho da verdade, o zelo apostólico que o devorava e o impelia a procurar, sem
honrar assim a presença de Deus que via em toda parte. Sua constante união descanso, as almas abandonadas, a converter os hereges esclarecendo-lhes a
com Deus deduz-se facilmente do cuidado que tinha de renovar com freqüência inteligência. “Ah! que não devem acreditar os homens para não crerem nas
e com amor a boa intenção, que aconselhava também encarecidamente a to- verdades da fé! preferem crer as coisas mais absurdas para não se curvarem
dos. A cada passo ouvia-se-lhe dos lábios a oração predileta: “Tudo para a diante da revelação; acreditam que só eles têm a verdade; que toda a cristanda-
glória do meu Deus...” de há 19 séculos tateia nas trevas do erro; que em matéria de fé eles entendem
Amor filial consagrava o Servo de Deus à Santa Igreja Católica. Se ele mais do que os mais ilustrados e santos bispos e doutores da Igreja; que os
amava as almas e se esse amor era uma gota, a dedicação e o amor para com milhões de mártires eram fanáticos ignorantes; que Deus com seus milagres
a Igreja era um verdadeiro oceano, para onde corriam todas essas gotas de aprova o erro e a mentira sobre a terra; que Cristo foi um infeliz iludido ou um
amor; como dizia alguém: Se cada alma era para ele como uma pedra preciosa fino enganador, quando se declarou Filho de Deus, embora o mundo inteiro até
que o divino Arquiteto se escolheu e preparou, a Igreja Católica era o grande agora não tenha encontrado nele o mais leve defeito, mas só sabedoria e san-
templo do Eterno, repleto da Majestade divina e feito para a sua glória; se em tidade sobre-humana e até divina; que tudo se acaba com a morte, embora
cada alma contemplava uma jóia de valor inestimável, para cuja aquisição o sinta o homem uma sede insaciável da imortalidade; que o mundo é eterno,
Filho de Deus sofreu tantas dores e amarguras e para cujo resgate Ele derra- quando nele tudo envelhece e morre etc. etc. Ah! realmente, incredulidade e
mou seu sangue divino, a Igreja representava o diadema magnífico e adornar a superstição são duas irmãs gêmeas e inseparáveis, amparadas por hedionda
fronte augusta do Rei Eterno; se a alma é a imagem de Deus e destinada à ignorância”.
união admirável com o Infinito e à participação da sua grandeza e glória, a Clemente não podia compreender a possibilidade do respeito humano;
Igreja é o corpo místico de Cristo e por isso a manifestação divina, indizivelmente parecia-lhe impossível, uma pessoa estar convencida da verdade da fé e sentir
bela, da uma sabedoria sobremaneira digna de amor e veneração”. É sob esse vergonha dela na presença dos homens. O católico deve ufanar-se de sua fé,
prisma e debaixo da orientação desses princípios e dessa convicção que o louvar publicamente o Senhor, que lhe concedeu tão insigne favor, e em sinal
Servo de Deus encarava as almas, irmãs entre si e filhas da santa Madre Igreja, da sua profunda gratidão prestar sempre e aos olhos de todos o obséquio do
que as gera nas águas lustrais do batismo, as sustenta com o pão dos anjos e seu amor ao maior dos Benfeitores. Em suas pregações sobre a fé e sobre a
as conforta com a luz das verdades reveladas — é por meio da Igreja que Deus Igreja Clemente era simplesmente inexcedível, como já o temos visto em diver-
se vela nosso verdadeiro Pai”. As palavras e a doutrina da Igreja eram-lhe do- sos pontos desta obra.
ces e suaves como o mel, porque anunciadas por sua mãe; mais de uma vez Falava da fé às criancinhas, aos rapazes que o rodeavam, aos amigos que
ele mesmo declarou que não acreditaria nem nas Escrituras sagradas, se lhe o visitavam, aos pecadores que queria converter e em geral a todos que com
não fossem propostas pela Igreja. ele se relacionavam. No púlpito e no confessionário inculcava a fé como base
A demonstração clara e convincente da verdade da nossa santa religião de toda santidade e da vida devota. Como ele vivia da fé desejava que esta
não eram para ele os milagres operados por Deus ou as profecias realizadas no fosse também para os outros a alma da inteligência, a estrela polar da vida, a
decorrer dos tempos, mas a existência da Igreja. E de fato, depois de 1.900 fonte dos grandes ideais, das generosas abnegações e dos sublimes heroísmos.
anos, a Igreja construída sobre as ruínas e os destroços dos impérios, mais A fé é um dom de Deus, que o homem não pode merecer-se com todas as
firme do que todos os reinos do mundo, ainda hoje é cheia de vida e vigor suas boas obras; é por isso que S. Clemente orava e mandava orar muito pela
apesar das perseguições de inimigos poderosos, que procuram dar-lhe a morte conservação e propagação da fé.
e devastá-la a ferro e fogo, e apesar das inúmeras heresias excogitadas no Vai aqui uma oração que o Santo gostava de recitar e que pode ser útil aos
decorrer dos séculos e das mais negras calúnias contra sua doutrina sagrada. que talvez em sua casa ou família têm alguém que não crê ou não pratica a
Viu o sangue dos filhos regar os circos romanos por mais de trezentos anos e religião por não a conhecer convenientemente. É a seguinte:
quando todos a supunham agonizar, e Dioclesiano anunciava ao orbe estar “Ó meu Redentor, chegado será então o momento terrível, em que não
destruído o nome cristão sobre a terra, a Igreja preparava-se o maior triunfo no restarão mais do que poucos cristãos, animados do espírito de fé? o momento
império de Constantino, no qual a cruz gloriosa começou a cintilar no alto de em que, provocado pelos crimes, nos retirareis vossa proteção? as faltas e a

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vida criminosa de vossos filhos terão enfim impelido irrevogavelmente a vossa ciosos; querem banir Jesus Cristo da Europa, e não recuam diante de dificulda-
justiça para a vingança justiceira? Ó autor e consumador da nossa fé, nós Vos de alguma, contanto que consigam seu nefasto intento. Oxalá fôssemos nós
conjuramos na amargura dos nossos corações contritos e humilhados, não católicos animados do mesmo zelo pela Santa religião!” “Os alemães gostam
permitais que a bela luz da fé se extinga em nós. Lembrai-vos das vossas mise- de ler, repetia Clemente, mas não há nada que se lhes possa dar para a leitura”.
ricórdias e lançai um olhar de compaixão para a vinha que foi plantada pela Embora Clemente não escrevesse, pessoalmente, animava e encorajava os
vossa dextra, regada com o vosso sangue e com o de milhares de mártires, outros a que se dedicassem à grandiosa missão da imprensa. E os amigos do
com as lágrimas de tantos penitentes e com os suores e orações de tantos Servo de Deus escreviam nos mais importantes jornais da Áustria. Frederico
apóstolos, confessores e virgens. Ó divino Mediador, olhai para as almas fervo- Schlegel ideou a fundação de um órgão central católico para todas as esferas
rosas que se levantam puras até o vosso trono e vos rogam pela conservação da vida intelectual. Embora não desprezasse as revistas, novelas, hinos, poesi-
do precioso tesouro da fé; diferi, ó Deus justíssimo, o decreto da vossa reprova- as, dramas e semelhantes obras, Clemente dava a preferência aos escritos
ção, não escuteis as nossas blasfêmias, fixai o vosso olhar sobre o sangue ascéticos e dedicava-se com ardor à impressão e tradução de obras novas. Em
adorável que, derramado sobre a cruz para nossa salvação, intercede ainda São Beno esse trabalho constituiu uma parte importante do programa apresen-
cotidianamente por nós nos nossos altares; conservai-nos a verdadeira fé e o tado pelo Santo a seus padres; em Viena eram os seus amigos que se esforça-
amor à Santa Igreja, conservai-a pura e ilibada, guardai-nos na barca de Pedro vam para reformar a literatura frívola do tempo, e enriquecer a Alemanha e a
fiéis e obedientes a seus sucessores, vossos vigários na terra, a fim de que a Áustria de livros católicos e de piedade sólida. A pedido de São Clemente, Silbert
unidade da Igreja se conserve intacta, a santidade fomentada, e a Sé Apostóli- publicou mais de cem obras e traduziu para o alemão as melhores obras da
ca protegida, a Igreja dilatada para o bem das almas. Aflijam-nos muito embora França, Espanha e Itália; Veith editou 55 volumes de sermões e homilias com
as enfermidades, consumam-nos os pesares, acabrunhem-nos as desgraças, muitos outros volumes de tratados filosóficos, poesias, composições mistas etc.
mas conserve-se a santa fé, porque enriquecidos com esse dom precioso, su- O mais incansável porém foi o Dr. Francisco Schmid, amigo íntimo e confessor
portaremos de boa mente as dificuldades sem que coisa alguma possa pertur- do Santo, o qual não podendo pregar por fraqueza pulmonar, se dedicou à
bar nossa felicidade. Ó Jesus, autor da nossa fé, protegei, fortalecei e iluminai elaboração de livros de orações e piedade em alemão, latim, italiano, francês,
os governantes; humilhai e convertei os inimigos da vossa Santa Igreja; concedei inglês e grego enviando-os, quase sempre gratuitamente, a esses países para
a todos os reis, a todos os chefes cristãos, a todo o povo fiel a verdadeira unida- mais facilmente ganhar todos para Jesus Cristo; introduziu esses livros nos
de e concórdia; conservai-nos em vosso santo serviço no qual queremos viver e hospitais e nos quartéis, repartindo-os entre os enfermos e os militares.
morrer. Ó Jesus, por vós vivo, por vós quero morrer; quero ser vosso toda a São Clemente entusiasmado por esse zelo admirável não hesitou em ex-
minha vida, também na hora da minha morte. Assim seja” (300 dias de ind. Leão clamar: “Se em Viena houvesse apenas três Schmids, converter-se-ia a cidade
XIII, uma vez ao dia). inteira”.
Clemente conservava os olhos continuamente abertos para descobrir os Com o fim de tornar os livros mais acessíveis a todos, formou-se, a conse-
erros que pudessem danificar a fé, para os combater e extirpar. Em Praga havia lho do Santo, uma biblioteca popular em Viena. Para a Áustria começava então
um professor por nome Bernardo Balzano, que embora lente de religião, não uma nova era, era de renascimento espiritual, devido em grande parte, aos
passava de um racionalista refinado, que pervertia os pobres alunos educando- esforços de São Clemente. Os grandes artistas, os conhecidos mestres, os he-
os para o racionalismo e a incredulidade. Esse sr. lembrou-se de publicar uma róis da pena como Frederico Schlegel, Adam Müller, não publicavam suas obras
obra intitulada “Palestras edificantes para acadêmicos”, na qual expendia os monumentais sem antes receberem a aprovação do Servo de Deus. E o juízo
erros que vinha ensinando, a muito anos, do alto da cátedra. Clemente pediu de Clemente era pronto, rápido não só em matéria de teologia teórica e prática,
um exemplar, e percebendo o dano incalculável que o professor fazia às almas, mas também em assuntos profanos, como literatura, poesia e arte. Todo esse
foi incontinenti ter com um dos vigários de Viena, pedindo-lhe falar com o impe- movimento literário estava pois colocado nas mãos do Santo, que obrigava os
rador sobre aquele abuso em Praga. artistas e os sábios à oração e assim levava a Deus a arte e a ciência; Clemente
O monarca, católico de convicção, mandou examinar a obra, e depois de regava as raízes, e as folhas e flores vinham por si mesmas; e esse seu trabalho
proscrevê-la, baniu o seu autor do magistério público. foi decisivo para a reforma espiritual, a conservação e restauração da fé e o
Os tempos de São Clemente eram tempos maus de josefismo e de levantamento da vida moral.
jansenismo; a literatura toda estava eivada de erros e de falsas doutrinas que se
espalhavam entre o povo, arrancando a convicção católica ou pelo menos incul-
cando a dúvida. Para reformar a Europa era necessário não descurar da im-
prensa, dos bons livros, das boas revistas etc., que mais do que os sermões
penetram nos lares, desfazem as dúvidas, ensinam a verdade, animam a virtu-
de e fortalecem a fé. São Clemente não desconhecia a importância da impren-
sa. “Os maçons, dizia ele, trabalham, dia e noite difundindo os livros mais perni-

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rado lama e pó!” Devido à grande consideração em que era tido em Viena, e ao
considerável número de amigos, muitos dos quais ricos e generosos, Clemente
poderia possuir objetos preciosíssimos em grande número; o Santo porém não
os aceitava, não só por haver feito, como todo Religioso, o voto de pobreza, mas
sobretudo por dedicação a essa virtude que amava como sua esposa.
CAPÍTULO XVIII Tendo uma vez feito um favor de maior vulto a uma senhora, quis esta
mostrar-se grata para com o Servo de Deus e procurou em seu guarda-jóias o
O amante da pobreza que pudesse oferecer a seu benfeitor; entre outras preciosidades encontrou
uma cruz toda cravejada de diamantes, lembrança dos tempos antigos, e imedi-
atamente dirigiu-se ao Santo para lhe dar de presente. Clemente agradecendo-
Que são as riquezas — O tesouro nas mãos — A cruz de brilhante — O lhe a boa intenção e ótimo coração, recusou aceitar o presente por amor à
quarto do Santo — A roupa do Servo de Deus — O belo Vigário Geral — As pobreza. A nobre senhora porém não se deixando vencer em generosidade,
palavras de Jesus. pediu ao Santo não desprezasse a oferta feita de tão bom coração, e não a
desfeiteasse dessa forma, ao que o Servo de Deus respondeu: “Guardai-o para
A opinião de Clemente a respeito das fortunas e grandezas da terra, era os vossos pobres que terei nisto maior alegria e consolação”. Mas debalde;
bem diversa da dos filhos do século; a sua alma de escol não se prendia às sentindo-se desprezada a senhora pôs-se a chorar até que o Santo compadeci-
coisas vis do mundo, que afinal não passam de lama e podridão. Clemente do das suas lágrimas, aceitou a cruz de brilhantes, porém com a condição de a
procurava a pobreza como os mundanos a riqueza e o fausto; amava-a como colocar, como oferta, perto do altar do Sagrado Coração na igreja das Ursulinas.
outrora o pobrezinho de Assis. “Que valor, dizia ele, terá no fim do mundo o Uma prova do grande amor que Clemente consagrava à pobreza, possuimo-
ouro? certamente não valerá mais do que o vil estanho”. Queria dizer: no dia do la no mobiliário do quarto do Santo em Viena. Era o número 989 da rua que
juízo nenhuma riqueza terá valor perante Deus; com nenhum ouro ou prata se passava pela igreja das Ursulinas. Toda a residência do Santo consistia em um
poderá comprar o Juiz Eterno; e os ricos lá estarão como pobres mendigos se pequeno quarto que servia, ao mesmo tempo, de refeitório, dormitório, locutório
não se tiverem provido dos bens imortais e imperecíveis da graça. Uma das e capela; junto dele uma pequena alcova em que o Santo guardava seus livros
mais freqüentes exclamações do Santo era: “Meus irmãos, procuremos só o e algumas alfaias e coisas de dispensa; a cela que lhe servia de habitação não
céu”. Seguindo o conselho de Jesus: “não vos preocupeis; procurai o reino de era profanada pelo luxo dos mundanos; lá não se encontravam elegantes pintu-
Deus e a sua justiça, o resto Deus vô-lo dará de acréscimo” não se incomodava ras nem ricas tapeçarias; era pequena, sem aparência vistosa, caiada como
nem preocupava com as coisas terrenas, em se tratando da sua própria pes- qualquer quarto de camponês, desprovida dos ornatos que os grandes do mun-
soa. Deus que reveste os lírios dos campos, pensava ele, e alimenta as aves do do prezam; em vão lá se procurariam grandes molduras, suntuosos espelhos
céu, não me abandonará se eu nele depositar inteira confiança. Às irmãs costu- para a humana vaidade, macios divãs, reposteiros ou cortinados; ao contrário,
mava dizer: “O que a Religiosa tem é apenas um empréstimo, só Jesus é o seu tudo lá era simples: dois armários velhos servindo de guarda-roupa, um relógio
tesouro”. de parede, um leito duro com palhas por colchão, um velho sofá e perto dele um
O Servo de Deus amava tanto a pobreza, que só lhe dava o nome de “pri- genuflexório com um Crucifixo e uma imagem de Nossa Senhora das Dores ao
meira bem-aventurança”; tinha por certo ser ela o caminho mais seguro para o pé da cruz; no centro do quarto uma mesa comprida com umas cadeiras, nas
céu, como nô-lo mostrou o Filho de Deus desde a pobreza do presépio até a paredes alguns quadros de Santos: eis toda a mobília do Pe. Clemente; e todos
desnudação completa na cruz e o seu sepultamento em túmulo alheio. Assim esses trastes eram pobres, simples e velhos. A única riqueza que lá se encon-
disso sabia o Servo de Deus que o Senhor derrama maior soma de consola- trava era o asseio e a ordem em tudo. A batina e, em geral, toda a roupa do
ções sobre uma alma desprendida e desapegada das cousas da terra do que Santo era simples e sem a menor sombra de luxo; mormente a batina que
sobre as que se prendem voluntariamente, por laços desprezíveis, às ninharias usava, era tão estragada e sem cor, que todos se admiravam de não ser o
do mundo. Santo escarnecido e ludibriado pelos garotos de Viena, e de ao invés inspirar
Uma vez estava Clemente sentado entre os seus discípulos em palestra tanto respeito e chamar tanto a atenção de todos.
animada pela caridade cristã. Um deles, sacerdote, pôs-se a narrar com entusi- Durante o tempo que passou em Viena não usou senão hábito redentorista,
asmo, fogo e visível contentamento, que durante o dia tivera em suas mãos um embora isso não fosse costume naquela época, em que todos se vestiam à
ornato belíssimo, precioso, no valor de muitos contos de réis. Clemente, a seu secular. E se hoje os Redentoristas não usam fazenda fina em seus hábitos, a
grande pesar, percebeu que aquele sacerdote conservava o seu coração ape- batina de S. Clemente era ainda mais ordinária. Os sapatos pesados e de sola
gado àquele objeto de luxo; querendo dar-lhe uma lição proveitosa, disse: “Eu grossa nunca se recomendaram pelo lustro, embora estivessem bem assea-
também tive hoje em minhas mãos um tesouro infinitamente mais precioso do dos; não poucas vezes conservavam-se largo tempo rasgados por falta de di-
que esse ornato: Jesus no Santíssimo Sacramento! e o sr. gloria-se de ter segu- nheiro que, nas mãos de Clemente, era dos pobres; as meias ele mesmo as

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remendava por suas próprias mãos. Alguém que lhe perguntou, porque não
dava a consertar a roupa rasgada ao alfaiate, respondeu a sorrir: “O padre deve
entender de tudo no governo da casa”.
Durante os sete anos que esteve em Viena, como confessor das Ursulinas,
só teve um hábito, que quase já não possuía um palmo de pano que não fosse
remendado. Só uma vez vestiu uma batina nova; foi esse um dia de festa para
as irmãs que espantadas exclamaram alto: “Que milagre! o nosso Pai espiritual
com uma batina nova!” No tempo do inverno usava sobre o hábito um manto de
pano escuro, que recebeu em Varsóvia uns quinze anos atrás. No verão a capa
O Anjo de pureza
era de pano pouco mais leve, porém ordinário como o outro. O chapéu velho e
usado não destoava do resto; sendo de notar que o uso de andar de chapéu A virtude angélica — As portas da impureza — As mulheres santas —
nas ruas Clemente não o conhecia, a não ser no tempo de chuva... Para se Laconismo santo — A mortificação e a pureza — O cardápio de cada dia — Sua
defender do frio, mesmo no mais rigoroso inverno, o Servo de Deus nunca usou bebida usual — Necessárias explicações.
luvas; relógio de algibeira ele tinha por coisa desnecessária, visto haver tantos
relógios nas torres de Viena, que marcavam com exatidão o tempo. Às vezes o Entre todas as virtudes praticadas por Clemente, a mais mimosa foi a pure-
Servo de Deus olhava para o seu uniforme usado e quase sem cor, e ao arran- za, a inocência de coração. Em seus discípulos não admitia nem sombra de
car um ou outro pedaço da batina rasgada em qualquer parte dizia a sorrir: impureza ou moleza efeminada. “Permanecei puros e castos” era o estribilho de
“Que belo vigário geral!” Embora Clemente pronunciasse essa palavra por gra- muitas conferências e alocuções. O Servo de Deus tinha a pureza como a con-
cejo e fina ironia, não fazia senão dizer a verdade, pois que a verdadeira beleza dição necessária para a fé e a vida cristã. E de fato a impureza tem sido sempre
não consiste tanto nos atavios externos, nos adornos principescos, nas jóias ou uma das causas da incredulidade não só de indivíduos, mas até de reinos e
na seda, no enfeite do corpo, mas sim na nobreza do coração e na formosura nações inteiras, porquanto a fé é como uma luz finíssima que se extingue facil-
da alma. Não passa de uma tolice infantil ligar importância à beleza do traje e ao mente ao contato com o ar impuro impregnado de nojentos miasmas exalados
adereço do corpo; os espíritos superiores, embora sempre asseados como o da podridão dos cadáveres. O impuro, não podendo suportar os remorsos da
exige a sociedade, não se prendem a essas bagatelas, mas cuidam da virtude, consciência, quisera que Deus não existisse, procura abafar a voz importuna
preocupam-se com a beleza incomparavelmente superior da inteligência, e muito que lhe exprobra sua indignidade e baixeza, e foge de quanto lhe possa fazer
mais ainda com a formosura sobrenatural da alma. A beleza física e o adorno lembrar a virtude que não quer praticar. A impureza enerva o coração e enfra-
do corpo nem sempre dependem de nós, ao passo que a formosura da alma quece a alma, que, presa à lama, não tem força de levar uma vida cristã, que é
está em nossas mãos e em poder de cada um. Deus não olha para o exterior como a coroa de todas as virtudes, e por isso, não conseguindo dominar-se, a
mas para a alma tão somente. Jesus deu-nos o mais belo exemplo do completo alma cai, ou antes precipita-se de abismo em abismo. O impuro não compreen-
desapego das vaidades e futilidades da vida, abraçando voluntariamente a po- de as coisas do céu, não sente alegria na religião nem pode respirar o ambiente
breza, nascendo em uma estalagem, vivendo como um pobre artífice numa puro que conserva a saúde da alma e a faz alcandorar-se às mais elevadas
pequena e insignificante oficina em Nazaré e morrendo desprovido de tudo no alturas da grandeza sobrenatural. É por essas razões que o Servo de Deus
alto da cruz. Clemente olhava para Jesus Cristo, que era o seu ideal supremo, e invectivava o vício impuro mais do que qualquer outro. “É ele, dizia, que lança
nele encontrava o motivo do seu amor à pobreza. “Beati pauperes, bem-aventu- no inferno a maior parte dos jovens”; e acrescentava: “Almas virgens são irmãs
rados os pobres”, disse Jesus e acrescentou ainda em outro lugar: “Vae divitibus, dos anjos”. Conhecendo que o vício contrário à bela virtude oferece à alma os
ai dos ricos, pois é mais fácil um camelo passar pelo vão de uma agulha do que mais renhidos combates, às palavras unia também os esforços práticos e ne-
um rico entrar no reino dos céus”. “Se alguém quer ser perfeito, vá, venda o que cessários para preservar a juventude desse grande mal: conselhos, avisos, exem-
tem, dê-o de esmola aos pobres, depois venha e siga-me”. “Não vos ajunteis plos, boa companhia, tudo isso ele empregava com solicitude para o bem da
riquezas sobre a terra, onde os ladrões as furtam e a traça as roe; acumulai-vos mocidade. Quando se despedia de algum jovem, o último conselho era sempre:
tesouros no céu”. Todas essas palavras da Verdade Eterna, Clemente as guar- “Guardai a pureza do coração e a retidão da intenção”.
dava em seu coração, fazendo delas suas meditações e tomando-as por guia Clemente amava a infância, porque via a pureza estampada na alma e no
da sua vida desprendida das ninharias do mundo. rosto da criança, que ainda não conhece o ardor do vício e os ataques da con-
cupiscência; a inocência tinha para ele um atrativo todo singular. Sobretudo
CAPÍTULO XIX com o exemplo é que o Servo de Deus fazia as mais belas pregações sobre a
pureza. Sua alma santa era como um lírio viçoso, que despregando-se da sor-
didez da terra, subia, atirava-se para o alto; em toda a sua vida de setenta anos
jamais deixou cair ou macular-se uma só pétala desse lírio cândido; conservou

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intacta, até a morte, a inocência batismal. Por mais curiosos que fossem os Davi, Salomão, Holofernes e tantos outros, e por isso evitava o mais possível
vienenses, não puderam descobrir a menos sombra de culpa ou de suspeita a qualquer aproximação com as suas penitentes; com elas era sempre breve evi-
respeito da virtude de Clemente; ao contrário, todo o exterior do Servo de Deus, tando qualquer conversa desnecessária. Ao falar com senhoras, nunca lhes
mormente os olhos, pareciam desprender de si raios fulgurantes de virtudes, olhava o rosto, fitava o chão ou fechava os olhos de sorte que nenhuma mulher
obrigando todos a admirar e a amar a pureza; quando abraçava a um jovem, pôde saber a cor de seus olhos. Um dos seus discípulos afirmou que o Servo de
uma como faísca de pureza ia ferir o coração do moço que se sentia impelido Deus olhava para dentro e não para fora como os outros; era uma expressão
ao amor e à prática da virtude angélica. forte que diz tudo: Clemente olhava mais com os olhos do espírito, com as
Sendo essa virtude um tesouro precioso, inúmeros são os que o preten- vistas em Deus, do que com os olhos carnais. Afirmam os seus estudantes que
dem roubar às almas, que para guardá-lo necessitam às vezes impor os maio- Clemente não conhecia a nenhuma de suas penitentes, nem sequer as irmãs,
res sacrifícios e praticar rasgos de heroísmos. O nosso corpo propende natural- pela fisionomia, mas só pela voz.
mente para o lodo, é feito de barro e para a terra pende; os cinco sentidos, que São Clemente refreava os sentidos e mortificava o corpo para subjugá-los
o põe e contato com o mundo externo, são um perigo para a bela virtude. A e obrigá-los à escravidão gloriosa da alma; aceitava das mãos de Deus, com
fantasia e o coração são as duas portas por onde entra geralmente a morte e a ânimo alegre, todas as inclemências do tempo, enfermidades ou dissabores;
ruína dessa virtude; a primeira porta ainda mais se abre pelas más leituras, alegrava-se, interiormente, sempre que recebia dos homens alguma afronta ou
figuras indecorosas, cinemas sem moral, teatros sem respeito, bailes livres, injúria, para assim se mortificar, pois que as mortificações que Deus nos man-
onde a promiscuidade dos sexos, a música lasciva, os olhares curiosos, trajes da, sem as procurarmos, são as mais úteis e proveitosas para as nossas almas,
inconvenientes excitam as paixões. S. Clemente era inexorável na proibição dos e mais próprias para nos conservarem na humildade e na prática das demais
romances, das poesias amorosas, dos divertimentos ilícitos, que depositam na virtudes.
alma os bacilos deletérios da impureza. Pela segunda porta — o coração — Durante muitos anos foi ele confessor das Ursulinas, e diversas vezes teve
entra o amor com as manifestações de afeto, carinho, galanteios etc. Clemente, de ficar esperando, longo tempo, na antecâmara, onde não havia nenhuma
o defensor intrépido da virtude angélica, com língua de fogo e ardor de serafim cadeira, e o Santo nunca se queixou disso, nem o disse a ninguém; quando se
interditava a todos as amizades suspeitas e perigosas, mormente em se tratan- cansava muito por causa das contínuas visitas aos doentes, esperava sentado
do de pessoas de outro sexo. Gostava de citar o exemplo do velho patriarca Jó, no chão, onde uma vez o surpreenderam. Não tinha piedade do corpo, açoita-
que não obstante sua avançada idade, sua grande e experimentada virtude, va-o mais vezes por semana e, para maior penitência, atava às pontas da disci-
sua vida matrimonial, tremia diante do perigo e, como ele mesmo afirma, che- plina pontinhas de ferro, que lhe dilaceravam o corpo e arrancavam sangue.
gou a fazer um pacto com seus olhos de nunca fixá-los em uma donzela. Cle- Desse instrumento de martírio servia-se para abater o corpo e assim com mais
mente não queria que os seus discípulos se entretivessem com mulheres, e segurança guardar o tesouro da virgindade. Qual preciosa relíquia conserva-se
repetia muitas vezes aos jovens: “As senhoras piedosas, encomendai-as ao essa disciplina no convento dos Redentoristas em Viena. O Servo de Deus usa-
Senhor”. Nesse ponto o Servo de Deus não conhecia condescendência, e mui- va quase sempre, um cilício agudo que lhe feria o corpo não lhe permitindo
tas vezes mostrava-se indelicado. nenhum descanso. A respeito de tudo isso o Santo guardava a mais completa
Uma vez estava ele, à noite, a trabalhar em seu aposento particular, quan- reserva, não querendo que alguém percebesse a austeridade da sua vida; fugia
do alguém bate à porta; vai abri-la e dá com uma senhora que lhe pede mandar da ostentação e dos louvores humanos procurando nessas mortificações so-
um padre novo a um dos arrabaldes ouvir a confissão de uma mulher enferma. mente a glória de Deus e a santificação da sua própria alma. Embora de nature-
Ao ponderar as duas palavras do pedido: padre novo e mulher enferma, za robusta, em um clima frio, Clemente alimentava-se mui parcamente, arran-
franziu os sobr’olhos e com serenidade disse à senhora: “Aqui não há padre cando a admiração de todos que não chegavam a compreender como é que ele
novo para eu mandá-lo”, e bateu a porta no rosto da senhora que ousara fazer- podia viver com tão pouco e trabalhar tanto! Nunca tomou café nem coisa algu-
lhe semelhante pedido. ma de manhã em toda a sua vida, a não ser nos últimos anos por preceito
Nas palestras íntimas com os seus discípulos era em extremo rigoroso, médico e a pedido dos amigos que se compadeciam da grande debilidade em
aconselhando-os a fugirem de todo e qualquer agrado das mulheres. “As mu- que se achava, mas isso mesmo nunca antes das 10 horas; do confessionário
lheres são sempre mulheres, dizia ele; enquanto não se desfizerem de todo o onde ficava desde as 3 horas da madrugada, levantava-se às 10 horas e cele-
feminismo como uma Santa Teresa e outras santas mulheres, são sempre peri- brava a santa missa, na qual fazia sempre uma breve pregação; só depois é
gosas”. Ele até era de opinião que uma mulher nunca se tornará santa, enquan- que, nos últimos anos, ia tomar um pouco de caldo com alguma leve mistura.
to não se despojar de tudo que é mulheril. “Todas as mulheres santas, afirmava Na hora das refeições não se sentava à mesa, como os outros, a fazer-se servir
ele, possuíam um espírito masculino e robusto; todas as mulheres que não de assados e iguarias delicadas, mas com o pranto em uma das mãos e a
depuserem o ser efeminado são repugnantes para mim”. colher na outra, andava pelo quarto a tomar os restos de uma comida qualquer
Clemente conhecia a fraqueza humana comprovada nos fatos tristes da de farinha com um minguado pedaço de carne fria, ou, às vezes, apenas a
história e da experiência; conhecia a queda de homens como Adão, Ruben, sopa. Com isso contentava-se até à noite, em que não tomava mais que ao

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meio-dia.
Aos sábados abstinha-se de todo e qualquer alimento até à noitinha, em
louvor da Santíssima Virgem; a sua única bebida era a água fresca. “Olha, disse
ele uma vez a um de seus padres, o missionário deve ser mortificado, porque
do contrário não dará conta do recado; até a idade de 40 anos eu não provei
uma gota de vinho”. Só nos últimos três anos de vida é que tomava, à noite, um
pequeno cálix de vinho quando voltava muito cansado e extenuado de alguma
visita aos doentes ou aos pobres de Viena. Nessas ocasiões levantava os olhos
ao céu em sinal de gratidão para com Deus e dizia: “O vinho é um dom de Deus
O Coração bondoso
para restabelecer as forças aos velhos”. O gosto da cerveja o Santo não chegou
a conhecer nos setenta anos da sua vida. Quando convidado a outras casas Os princípios mundanos — Humildade necessária — O defensor dos opri-
para as refeições, nunca louvava as comidas, como geralmente se faz, nem midos — O coração grato — Deogratias — Louvores humanos — Humildade de
procurava adular o cozinheiro; comia pouco deixando intactos os pratos delica- fato — Oculta os dons sobrenaturais — Humilhações na vida — O blasfemador
dos e de luxo. arrependido — O perdão generoso.
Não queremos terminar estes capítulo, sem dar aos leitores uma explica-
ção necessária. As expressões fortes que conhecemos de São Clemente a res- Não há coisa tão desprezível aos olhos dos mundanos como a humildade.
peito do sexo feminino, como as já mencionadas e outras como esta: “Dou gra- Outrora humildade era sinônimo de baixeza e vileza — aos pagãos modernos é
ças a Deus que não sou mulher nem tenho mulher” não denotam, absolutamen- ela um atentado contra a razão humana, uma indignidade para o homem. Com
te, aversão do Santo ao sexo feminino e às suas excelentes qualidades. Seria os princípios do mundo contrasta a idéia da virtude cristã. A humildade como
um engano pensar assim. Para compreendermos bem essas expressões deve- virtude é o conhecimento efetivo da completa sujeição da criatura ao Criador e
mos ter ante os olhos o fim pedagógico delas; foram dirigidas geralmente a das imperfeições, fraquezas e pecaminosidade do nosso ser. Para que a humil-
estudantes ou a jovens clérigos. Além disso São Clemente queria acentuar, dade seja uma virtude cristã, deve conter não só o reconhecimento do nosso
com elas, as fraquezas do caráter feminino, que podem ser um perigo tanto nada, mas ainda a aceitação voluntária desse reconhecimento, e a sua aplica-
para a mulher como para o homem. Mas quem é que ignora os grandes elogios, ção à vida. Essa virtude brilhou de modo heróico em todos os Santos que pro-
a ilimitada admiração que ele tinha e exprimia a respeito dos grandes vultos curaram imitar a Jesus que disse: “Aprendei de mim que sou humilde de cora-
femininos de Viena, que se impunham por suas excelsas virtudes e profunda ção”. Modelo consumado dessa virtude era o nosso São Clemente.
piedade? É certo que no trato com senhoras ele era bem mais retraído do que Esquecido de quanto fizera em Varsóvia e em Viena dizia com convicção:
quando lidava com homens ou rapazes. E justamente esse retraimento, em vez “Nada posso fazer; o pouco que trabalhei e consegui, foi Deus quem fez por
que se manifestava a sua ilibada pureza, é que atraía irresistivelmente para mim; não passo de indigno instrumento nas mãos de Deus”. Sempre que lhe
Deus as senhoras santas e piedosas, infiltrando-lhes ilimita da confiança no acontecia algum mau resultado atribuía-o a seus pecados e à sua inabilidade:
Santo. “Oh! se em toda a minha vida eu tivesse correspondido à graça, dizia ele, quan-
to bem não teria Deus operado por meu intermédio!” Isso não era só amplifica-
CAPÍTULO XX ção retórica ou frase vazia nos lábios de Clemente, mas pura convicção pesso-
al, embora saibamos ser isso simplesmente fruto da sua profunda humildade.
Clemente era de natureza irascível, possuía um temperamento fogoso que logo
fazia o sangue ferver nas veias; o Santo porém vencia-se, domava o seu natu-
ral, e mesmo que a alma sentisse os ímpetos furibundos de uma cólera violen-
ta, não perdia o equilíbrio conservando-se tranqüilo no meio das tempestades,
e até nessas horas críticas, muitas vezes, o sorriso enflorava-lhe os lábios, como
se nenhuma luta sentisse interiormente. Nos momentos mais difíceis, nos com-
bates mais renhidos, percebendo que a força resistente se lhe esgotava, levan-
tava os olhos ao céu pedindo a proteção d’Aquele que estendia seus braços e
as ondas encapeladas e revoltosas se acalmavam. “A mortificação da carne,
dizia ele, não é absolutamente necessária à salvação, nem é tão difícil, mas a
repressão interna da própria vontade e do amor próprio é penosa, e não obstante,
imprescindível para a aquisição das virtudes cristãs”. O Servo de Deus longe de
se entristecer com o seu temperamento ríspido e colérico, conformava-se com

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a vontade divina e dizia: “Agradeço a Deus diariamente por me ter deixado essa Quando Clemente não tinha na ocasião coisa alguma para dar em retorno
irascibilidade: ela conserva em mim a humildade e me preserva do orgulho”. O de algum favor recebido, dizia de coração um “Deus lhe pague”, que aliás nunca
quanto apreciava a humildade já o vimos em outro lugar, quando explicava às dispensava; comovia-se ao contar a história de S. Félix de Cantalício, que como
noviças de Sta. Úrsula a grande arte de agradar a Deus. “A humildade, dizia, é pobre capuchinho, não tendo nada para retribuir aos amigos, dizia sempre ao
a raiz de toda a virtude”. Em suas pregações e conferências gostava de comen- receber algum presente: “Deo gratias”, isto é, Deus lhe pague, o que lhe valeu o
tar a palavra de Sto. Agostinho: “A humildade é a mãe, a educadora, a compa- significativo nome de Frei Deogratias que o povo lhe deu. Quando Deus mesmo
nheira e o complemento das outras virtudes; mesmo as mais estupendas obras paga, a recompensa é infinitamente maior do que quando nós retribuímos; é
são sem valor, se não procederem da humildade e não forem por ela guiadas”. essa a simples razão por que o Servo de Deus não podia simpatizar-se com a
“Sede humildes, exortava a todos, porque do contrário a palavra de Deus será expressão: “Muito obrigado”.
para vós como uma fábula”. Por ser humilde Clemente não se envergonhava de Clemente sentia-se verdadeira e sinceramente incomodado quando perce-
reconhecer e confessar as suas faltas, e com toda a devoção rezava: “Perdoai bia haver causado involuntariamente a qualquer pessoa alguma ofensa ou des-
as nossas dívidas...” A tempestade interna desencadeava em sua alma foi, uma gosto. Numa ocasião alguém o informou de o haver procurado muitas vezes
vez, tão violenta, que não pôde evitar em seu exterior uns leves movimentos de sem conseguir encontrá-lo; Clemente disse sentido: “Sinto-me envergonhado
ira, que bem mostravam o que lhe ia na alma. Humilhado e confundido disse na de tê-lo feito assim dar essas caminhadas; mas Deus tê-las-á contado e escrito
presença de todos: “Sim, sim, eu sou um pobre coitado”. no livro da vida para a recompensa”. Clemente era frio para os louvores huma-
Essa grande humildade fazia-lhe desculpar as faltas nos outros. Quando nos. “Que são as palavras humanas?” perguntava ele, e respondia: “São ape-
alguém, esquecendo-se da caridade devida ao próximo, se punha a criticar ou nas uma pressão passageira do ar”. Ao ouvir algum elogio feito a seus mereci-
censurar a outrem em presença do Servo de Deus, este constituía advogado do mentos, ou a seus trabalhos, interrompia imediatamente o panegirista com as
ofendido ou injuriado. Uma vez caiu a conversa sobre os santinhos que se dis- palavras: “Acabe com isso; a gente só louva as crianças e os loucos”. Por vezes
tribuíam às crianças, os quais não eram artísticos nem bem feitos; os entendi- sentia até asco dos encômios que lhe faziam. “Quem me louva, açouta-me”
dos na estética indignaram-se com os santinhos e criticaram o autor, que rebai- dizia ele servindo-se das palavras que aprendera na escola do mártir Sto. Inácio
xavam e deprimiam sob o ponto de vista. São Clemente cheio de compaixão de Antioquia. Por uma longa experiência da vida conhecia a falsidade dos lou-
observou: “Não levem isso a mal; o pobrezinho fez o que pôde, teve a melhor vores pronunciados por lábios humanos: “Alguns beijaram-me os vestígios dos
vontade de agradar e isso basta”. Uma outra vez um médico pôs-se a descom- pés, e três vezes mais atiraram sobre mim a lama da estrada; na medida que
por uma família, que nada de mal lhe havia feito: possuía ela em casa um uns me louvavam, outros me enchiam de apodos e injúrias”. — Clemente mani-
altarzinho e nas paredes da casa belos quadros de Santos, em vez de tantas festava não só por palavras, mas também por obra a sua profunda e verdadeira
figuras indecentes, más e indignas que se encontram infelizmente em tantas humildade. Embora sacerdote acatado pelos mais finos representantes da aris-
casas para escândalo das famílias e dos visitantes; o médico desgostou-se com tocracia de sua terra, embora Vigário geral da Congregação Redentorista, ser-
a pouca arte dos quadros, e pôs-se a censurar com acrimônia o pobre do pintor, via a todos com a maior prontidão, lavava com suas próprias mãos os meninos
a quem não queria consentir o prazer de se dedicar à arte da pintura, afirmando órfãos, ia à cozinha, acendia a estufa nas celas dos confrades, costurava as
serem as suas obras um abuso e uma afronta à humanidade. O Servo de Deus, suas vezes, procurava os pobres e com eles se entretinha familiarmente; com
sempre bondoso, chamou-o à parte e repreendeu-o com brandura censurando os ricos e grandes do século só ia ter em se tratando de ganhá-los para Deus;
o seu juízo tão severo, com as palavras: “Cuidado com o que dizes; não convém na igreja ajoelhava-se ao lado dos pobres, cuja piedade o encantava; e fugia da
magoar um homem em coisas que lhe causam prazer”. haute volée repetindo a miudo: “Os pobres procuram a igreja por devoção e
Ele porém julgava-se muito mau, e admirava-se de que Deus o pudesse amor de Deus, que adoram e saúdam já desde o romper da manhã”. Quando
suportar prodigalizando-lhe tantos favores e graças, e, o coração nos lábios, algum neo-presbítero cantava sua primeira missa, Clemente gostava de servir
agradecia ao Senhor sua grande generosidade e pedia aos amigos agradeces- ao altar, e em geral nas missas solenes servia de subdiácono que é o ofício de
sem a Deus em seu lugar, acrescentando: “Sempre que agradecemos a Deus, menor saliência. “A humildade é a saudade de servir; a alma que, livre do amor
alcançamos dele novos favores”. próprio, procura em tudo estar submissa e servir, ajudar e alegrar os outros, é
Também para com os homens era Clemente extremamente grato por qual- verdadeiramente humilde”. Com essas palavras Clemente, sem o saber, des-
quer serviço ou favor recebido. Em sinal de gratidão distribuía tercinhos, santinhos crevia a sua própria vida, e desenhava o seu retrato.
e semelhantes coisas, que todos aceitavam com prazer por serem presentes de O Santo, em geral, evitava falar de si mesmo, mormente quando o assunto
um Santo e dádiva de um coração bondoso que não possuía coisas mais preci- podia reverter em louvor ou glória para ele; calava-se e nada dizia aos outros,
osas ou luxuosas para dar; às crianças que lhe faziam algum pequeno favor, quando recebia alguma visita honrosa, ou quando era alvo de parabéns ou
davam os seus recados, ou cumpriam as suas ordens, presenteava com maçãs felicitações merecidas. — Embora desde 1793 ele fosse Vigário geral, isto é,
ou outras frutas, bem como com um abracinho cheio de carinhos e ternura que possuísse o primeiro posto na Congregação depois do Reitor-mor em Roma,
alegrava o coração infantil. muitas pessoas, mesmo entre as mais íntimas, o ignoravam completamente,

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chegando a sabe-lo só depois da morte do Santo. Ocultava com cuidado as dinheiro para gastar, tomou o carro do correio, onde por acaso teve de fazer
graças singulares que Deus lhe concedia com tanta profusão, e disfarçava os companhia a um Senhor desconhecido. Como todos sabem, é agradável, em
mais estupendos milagres que operava. Uma vez disse a Madlener, um dos viagem, mormente longa, ter um companheiro com o qual se possa trocar idéi-
seus prediletos: “Meu caro Madlener, comigo vão muitos segredos ao túmulo, as e passar menos aborrecido o tempo — mas nessa ocasião não se deu o
quiser t’os contar, mas não sabes guardar segredos”. mesmo com o Servo de Deus, porque o seu companheiro era lavado em todas
A esposa de Klinkowström tinha um filho, que era ídolo da mãe; mas Deus as águas, e de religião e piedade ou antes de educação e filantropia não pos-
parecia tê-lo reservado para o céu em seus tenros anos; as escrófulas apodera- suía nem a mais rudimentar noção. Embora jovem achava-se já envelhecido
ram-se da criança, tendo por conseqüência a tuberculose, e o pequeno ema- pelo vício, todo cheio de sensualidade e de ódio ao sacerdócio. No princípio
greceu que mais parecia um cadáver do que um ser vivo. Clemente, que se lançou para o Santo, que se sentara em frente, um olhar sinistro, que bem
dava muitíssimo com a família, foi visitá-la para colher notícias a respeito do mostrava a ira de que estava possuído; não tardou a abrir a boca imunda para
pequeno. A mãe desconsolada, debulhada em lágrimas, apresentou a criança expectorar sua bílis. Quanto mais falava, tanto mais eloqüente e violento se
ao Santo: era só pele e osso, o corpinho já frio, os olhos vidrados, voltados para tornava; vendo que o Santo não reagia, indignou-se, desatou em blasfêmias
um lado, as lágrimas maternas que caiam, a fio, sobre o rosto do pequeno, não horrorosas contra Deus e todo mundo, mormente contra Clemente, que deseja-
conseguiam aquecê-lo. Clemente olha o menino e com um sorriso nos lábios, va ver estraçalhado, picado e reduzido a sabão.
bate-lhe mansamente com a mão na face, faz-lhe na fronte um sinal da cruz e Ao ouvir as blasfêmias o Servo de Deus estremeceu e pediu-lhe que ces-
diz à mãe: “Isso não é nada; hoje à tarde o pequeno terá fome e pedirá de sasse tamanha ofensa contra Deus, porém debalde, a cólera do companheiro
comer”. E rapidamente dá uma volta firmando-se no salto do sapato, e retira-se. aumentava-se a cada palavra que o Santo proferia. Percebendo serem os seus
À tarde o sangue apareceu nas faces do pequeno que pediu alimento, e conser- conselhos improfícuos, o Servo de Deus calou-se e pôs-se a rezar pelo infeliz,
vou dai por diante o seu apetite. A mãe, quase não acreditando em seus própri- continuando por muito tempo sentado em frente do blasfemador.
os olhos, chorou, porém, de contentamento e amor. O pequeno cresceu com Ao chegarem ao primeiro restaurante, o jovem senhor sentiu o estômago
saúde e atingiu uma idade bem avançada. vazio e conseqüentemente apetite devorador e sede ainda maior. Quis levantar-
Clemente era ávido dos sofrimentos e das humilhações, como os outros o se, mas o corpo, apodrecido pelos vícios, não teve força para erguer-se. São
são das honras e grandezas humanas. Muitas vezes convidado às refeições por Clemente, vendo a dificuldade do infeliz, esquece-se das injúrias recebidas,
pessoas nobres ou altamente colocadas, aceitava o convite não pela honra que toma-o em seus braços, ajuda-o a descer conduzindo-o em seguida ao restau-
lhe podia advir disso, mas pela ocasião que se lhe oferecia de sofrer um pouco rante com todo o cuidado. Terminada a refeição Clemente torna a tomá-lo em
por Nosso Senhor. Nessas ocasiões era, às vezes, posposto e deixado de lado; seus braços e transporta-o ao carro tratando-o como uma mãe desvelada. O
muitos dos que o conheciam e veneravam, envergonhavam-se do manto usado blasfemador sentiu-se confundido, reconheceu o papel feio que acabava de
e velho, dos sapatos rotos, da batina remendada, das maneiras não muito finas fazer, admirou a delicadeza, caridade e santidade daquele sacerdote, cujos lá-
e da linguagem, às vezes, incorreta; muitos padres não lhe prestavam a aten- bios só se moviam para a oração, pediu perdão com toda a humildade dizendo:
ção devida, deixando-o só e sem entretenimento. Isso era um achado para São “Se tivesse conhecido, a mais tempo, um sacerdote como vós, nunca teria caí-
Clemente, que em tudo se queria tornar semelhante ao divino Mestre, que em do em tão mísero estado”.
sua vida mortal foi desprezado, preterido e até injuriado por amor de nossas Quando Clemente praticava atos heróicos de caridade e paciência como
almas. Executava em si e em sua vida aquilo que tantas vezes pregava às esse, não se preocupava tanto com a fragilidade humana, mas visava tão so-
Ursulinas: “Sede humildes e convencei-vos que ninguém vos faz injúrias; só mente a alma imortal criada à imagem e semelhança de Deus. O Servo de
assim podereis suportar com resignação, e até com alegria todo o desprezo Deus amava os inimigos e os perseguidores e chegava a dizer: “Os inimigos
pelo amor de Deus”. Só esse é o caminho reto e verdadeiro da humildade: “A devem ser tidos na conta de benfeitores, porque nos auxiliam a ganhar o céu”.
humildade é a verdade; falar e agir com humildade é bom, porém só quando E de fato eles nos dão ocasião para a prática das mais belas virtudes como da
nisso há sinceridade, porque diz a Escritura que alguns se humilham astuta- paciência, mansidão, confiança em Deus, submissão à vontade divina e mag-
mente ficando o coração repleto de orgulho; o sinal mais certo e mais seguro da nanimidade, virtudes essas que não existiriam se não fossem os inimigos ou os
verdadeira humildade tem aquele que aceita e suporta as humilhações com mal-entendidos sobre a terra. Clemente tinha inimigos gratuitos que o odiavam
paciência, amor e alegria. entranhavelmente, desejavam destruir a sua obra e impedir a execução dos
São Clemente atingiu tão alto grau de desprendimento de si próprio que seus planos; o Santo porém nunca se queixou nem deixou escapar a menor
pôde dizer com verdade: “Ser louvado ou censurado tem para mim o mesmo palavra de murmuração ou de desgosto contra os seus perseguidores. Ao con-
valor; só somos aquilo que valemos diante de Deus”. trário conservava-se sempre alegre e sorridente no meio das tempestades in-
Na medida da sua humildade crescia o seu amor também para com os ternas, que se moviam em seu coração, e das externas que se desencadeavam
inimigos, isto é, para com aqueles que o desprezavam e cobriam de injúrias. contra ele. Uma Ursulina mostrando-se uma vez compadecida com o Santo por
Tendo uma vez de fazer uma viagem Clemente, que não possuía muito causa das muitas perseguições, de que era alvo, dirigiu-se a ele para lhe abrir o

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coração. Em seguida, desejando edificar-se com as palavras do Santo, pergun-
tou-lhe se não sentia algum rancor no seu coração. A sorrir-se Clemente levan-
tou a mão para o alto dizendo: “Eis, minha mão não está manchada de sangue
nem nunca o derramou”.
A sua única vingança consistia em rezar pelos inimigos afim de os ganhar
para Nosso Senhor. No número desses adversários achava-se um sacerdote CAPÍTULO XXI
que o detestava e não perdia vasa em denegri-lo e caluniá-lo, fazendo tudo para
vê-lo expulso de Viena. Clemente sabia disso, e para mostrar que não guardava
daquilo nenhum ressentimento, todos os domingos ia assistir-lhe a pregação
Amor ao clero e à Congregação
para dela haurir proveito para a sua alma; louvava-o em toda a parte salientan-
do e enaltecendo-lhe as boas qualidades e desculpando qualquer falta ou defei- Amor ao Papa, aos Bispos e Sacerdotes — As pupilas de Deus — O sacer-
to que o dito padre pudesse ter cometido. dote francês — Redentorista até a medula dos ossos — Cache-nez de seda —
Do púlpito o Servo de Deus não se cansava de recomendar o amor aos Exemplos de severidade e brandura — Enérgico protesto — Difusão da Con-
inimigos e o perdão das injúrias, e com o Evangelho na mão, repetia constante- gregação — Fundação na Valachia — Saudades da Polônia.
mente que ninguém deve ir acomodar-se, à noite, sem antes perdoar de cora-
ção a quem o ofendeu. “Perdoai e ser-vos-à perdoado”, dizia ele com suas AMOR AO CLERO! — É impossível amar a Esposa mística de Jesus Cris-
palavras e seu exemplo. Uma vez voltava o Santo da Igreja das Ursulinas para to, a Santa Igreja, sem se sentir animado de santa veneração para com os seus
casa, os olhos semicerrados, todo reconcentrado nas suas meditações. No ou- ministros, a saber: o Papa, os Bispos e os Sacerdotes. Quantas vezes não disse
tro lado da rua, na mesma direção, ia um par de noivos, de braços dados, o Servo de Deus do alto do púlpito: “Quem não honra e venera o Papa, não
palestrando com animação fora do comum; falavam do Santo e tão alto que ele honra nem venera nossa mãe, a Santa Igreja; quem não obedece às ordens e
os ouvia; lançavam-lhe de quando em vez olhares sarcásticos, permitindo-se aos preceitos do Sumo Pontífice, é um filho indigno da Igreja; quem não reza
graçolas, ditos picantes e até ofensivos. Na intenção de magoarem o Servo de por seu pai, é um filho desnaturado, e quem não ora pelas intenções do Santo
Deus, que não os ofendera, puseram-se a insultá-lo, dando-lhe os nomes de Padre, é um mau cristão”.
“santo taumaturgo” “ligoriano”, desfazendo-se em risadas, e até em gargalha- Ele mesmo sentia-se animado de profundo respeito e sincero amor para
das por causa desses nomes, que eles nem compreendiam. O Santo fez como com o Papa, que sabia revestido da dignidade suprema no mundo, o represen-
se não ouvisse aqueles gracejos, sentindo sincera compaixão dos pobrezinhos. tante de Deus sobre a terra, o rochedo sobre o qual Jesus edificou a sua Igreja,
Aconteceu que no meio das risadas e dos vitupérios a senhoria deixou cair o o Pastor dos pastores, o pai espiritual de todos os milhões de católicos que
lenço, sem o perceber. Clemente que casualmente vira aquilo, foi até o lugar existem, o possuidor das chaves do reino dos céus, o oráculo do Espírito Santo,
onde estava o lenço, levantou-o do chão e andando um pouco mais depressa que o protege e ampara contra os erros, sempre que ele se apresenta como
alcançou a dona, a quem entregou o objeto perdido. Envergonhada a senhori- pastor supremo da cristandade a ensinar uma doutrina de fé ou de moral. Sen-
nha nem sabia para onde olhar, e o seu muito digno companheiro não ficou tia orgulho santo por poder dar-lhe o nome de pai e declarar-se filho obediente
menos perplexo. Uma única palavra lhes veio aos lábios: “Queira perdoar-nos, e humilde da Santa Sé. As saudades que sentia do Papa, levaram-no, mais
padre”. vezes, a Roma; quando não podia ir pessoalmente, escrevia-lhe cartas infor-
mando-o dos acontecimentos tristes ou alegres da religião na Europa, maxime
na Áustria.
Ao falar da pessoa augusta do Pontífice usava sempre as expressões mais
respeitosas, os termos mais reverentes, como se falasse de um Santo, ou do
próprio Jesus Cristo. Uma vez foi-lhe dada a honra de receber do Santo Padre
Pio VII um rosário da Ss. Virgem; Clemente conservou-o, toda a sua vida, qual
relíquia preciosa, que o acompanhava em toda a parte. Dando uma vez pela
falta do precioso tesouro ficou inconsolável, rezou e mandou as Ursulinas rezar
a Sto. Antônio que costuma achar coisas perdidas. Quando uma das Irmãs en-
controu o rosário, Clemente exultou de contentamento; porque aquele terço
não lhe recordava somente sua Mãe celestial, mas também a pessoa do repre-
sentante de Jesus sobre a terra.
Ao Núncio Apostólico de Viena tributava o Santo toda a veneração e res-
peito, porque nele via incorporada a pessoa do Santo Padre em sua Pátria. Os

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bispos eram-lhe como anjos de Deus, verdadeiros príncipes, elevados a essa pecados que cometera em sua vida.
dignidade pelo Sacramento da ordem, que eles possuem em toda a plenitude; Amor é Congregação. Entre todas as coisas da terra o que lhe ficava mais
de coração e com alegria executava pontualmente as suas determinações e perto do coração, a receber as suas cálidas pulsações, era, sem dúvida, a Con-
ordens, que considerava a expressão da vontade divina. Ao encontrar-se casu- gregação. Clemente era Redentorista e gloriava-se dessa honra; pela Congre-
almente com algum sacerdote saudava-o, onde quer que fosse, com todo o gação estava pronto a dar seu sangue e sua vida. Não se esquecia jamais do
respeito e atenção. Dos padres só falava como convém a ministros de Deus; momento em que, pobre padeiro de Viena, fora em Roma recebido no noviciado
não consentia que em sua presença alguém faltasse à reverência devida ao de São Julião, onde se preparou para a vida, emitindo, depois do noviciado, os
caráter e à dignidade sacerdotal. Sempre que algum sacerdote aparecia na santos votos que o prenderam para sempre à Congregação. Em Roma bebera,
igreja para celebrar, Clemente ia-lhe ao encontro, recebia-o com demonstra- em largos tragos, o espírito de Sto. Afonso, que não é outro senão o espírito de
ções de contentamento, ajudando-o, em pessoa, a paramentar-se para o Santo oração e de amor ardente a Jesus e a Virgem Santíssima. A Congregação ficou
Sacrifício. Aos padres gostava de dar o nome tão lindo quão significativo que sendo sua mãe espiritual, e as santas Regras, o livro santo, que lhe interpretava
encontrara na Escritura Sagrada: “pupilas de Deus”. E realmente esse nome a vontade divina , o código pelo qual seria julgado um dia pelo Juiz eterno.
quadra admiravelmente com o sacerdote, quando encarado à luz da fé. Como a Lia e decorava esse complexo de leis e avisos, observava-os com o maior
pupila dos olhos, embora pequenina, pode abranger um mundo de coisas que escrúpulo, não só nos pontos capitais e de maior importância, mas em todos os
nele se refletem, e exerce uma força admirável sobre homens, que se deixam pormenores e no espírito, com que foram confeccionados. Embora nos últimos
prender, muitas vezes, por um olhar, diante do qual tremem ou choram, assim o anos da vida não pudesse residir em um convento propriamente dito, mas só
padre é, diante de Deus, uma pobre criatura, mas possui uma força sobre- em uma casa particular, nunca deixou de observar o horário prescrito pela Re-
humana, leva em suas mãos o Criador dos céus e da terra, com uma palavra gra, mesmo nos dias de maior trabalho e ocupação. Com seus Superiores em
faz baixar do céu o Filho de Deus, encerrando-o em uma hóstia, e com a mes- Roma entretinha a mais exata correspondência epistolar, pondo-os sempre ao
ma facilidade restitui a graça e a amizade de Deus ao coração arrependido. O par de tudo quanto se passava na Áustria e na Suíça, ou consultando-os a
sacerdócio é uma maravilha do poder e bondade de Deus. O homem preza a respeito dos mais importantes projetos. Isso é tanto mais admirável, quanto
menina dos seus olhos mais do que todas as riquezas terrenas; assim Deus mais difíceis eram as circunstâncias do tempo, em que o josefismo procurava
ama os seus ministros e quer vê-los amados e obedecidos por todos. “Quem impedir toda e qualquer comunicação com Roma.
vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza”. Não permite que Quanto à observância regular era ele de uma exatidão admirável. Aos
alguém os maltrate ou ofenda “Nolite tangere Christos meos”, isto é, “não toqueis Redentoristas é proibido, pela Regra, o uso da seda, por ser esta objeto de luxo
os meus sacerdotes”, e raras vezes deixa sem castigo, já neste mundo, a quem e não ficar bem a um simples Religioso. Aconteceu ficar Clemente atacado na
ofende a pessoa do padre, que lhe é consagrado. laringe de um incômodo, proveniente dos esforços feitos na pregação da pala-
Mesmo quando um ou outro sacerdote, por fragilidade humana, se desvia- vra de Deus. Embora vítima de dores atrozes por causa dessa enfermidade,
ra do cumprimento do dever, tornando-se talvez uma pupila inflamada, ou enco- nem por isso deixava de pregar oferecendo esses sofrimentos a Nosso Senhor
berta por densa catarata, Clemente o venerava e pedia a Deus, se dignasse pela conversão dos pecadores. Uma nobre senhora de Viena, notando que a
iluminá-lo e convertê-lo. Em 1816 apareceu no quarto do Santo um indivíduo voz lhe saia com dificuldade, teve compaixão e comprou-lhe um cache-nez de
maltrapilho, que dava aparência de um vagabundo de botas rotas, calças esqu- seda, para o defender do frio e da constipação. Clemente meneou a cabeça, a
álidas, paletó esburacado, chapéu amarrotado: era um sacerdote francês, que, sorrir, e disse: “Minha filha, a um Redentorista não é permitido o uso de objetos
seduzido pelos revolucionários, prestara o juramento à constituinte francesa, o de seda”. Notando que a pobre senhora se entristecera com essa palavra, não
que o papa proibira sob pena de suspensão. Pobre sacerdote! esperava gran- querendo magoá-la, acrescentou: “Se a senhora deseja obsequiar-me e faz
des coisas da revolução, talvez uma colocação rendosa no novo governo, uma questão disso, eu aceito um cache-nez de lã”. Em outro lugar desta obra temos
vida flauteada como lhe tinha sido prometido. Mas o contrário se dera. Despre- já considerado o Santo como Superior, e visto o seu zelo pela observância
zado pelos seus e atormentado pelos remorsos da consciência, o pobrezinho regular entre os confrades, mormente em se tratando do amor à pobreza, que é
não teve sossego desde aquele dia infeliz; peregrinava de um lugar para o outro a essência da vida religiosa. Clemente não deixava de repreender qualquer
sem descanso e definhava a olhos vistos. Não suportando mais a vida em sua defeito ou falta contra a santa obediência. O Pe. Sabelli era um tanto voluntario-
pátria, dirigiu-se ao Núncio Apostólico de Viena, a quem, arrependido, narrou so, e não poucas vezes gostava de seguir a sua opinião com prejuízo da obser-
sua triste história, a página negra da sua vida, pedindo remédio para seus gran- vância e da ordem; estando ele um dia já paramentado para começar a missa,
des males. O Núncio compadeceu-se do infeliz e enviou-o a Clemente, a quem o Santo, querendo provar-lhe a obediência, entrou na sacristia e sem outros
dera poder de o absolver da excomunhão em que incorrera. O Servo de Deus preâmbulos mandou-o desparamentar-se. Sabelli que estava então de bom
recebeu-o com amor, hospedou-o, matou-lhe a fome, cortou-lhe os cabelos, humor, tirou os paramentos sem nem franzir a fronte em sinal de desaprovação.
fez-lhe a tonsura e pregou-lhe durante uns dias o santo retiro preparatório para O Santo ficou satisfeito com a obediência do padre e permitiu-lhe celebrar. Em
a execução da sentença, que era a absolvição da excomunhão e o perdão dos outra ocasião mandou chamar à sacristia o padre Martinho Stark, que estava

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ouvindo confissões na igreja. Como perto do confessionário se achava ainda sua diocese os padres Redentoristas que tanto se distinguiam pelo bom espíri-
uma pessoa esperando a sua vez, Martinho não obedeceu prontamente e aten- to e amor ao trabalho. Ponderando os motivos apresentados pelo bispo e consi-
deu mais aquele último penitente. São Clemente esperou-o com paciência, na derando, que em Bucareste havia muitos mil alemães desprovidos de socorro
sacristia; quando o súdito chegou, perguntou-lhe secamente: “Onde é que ficou espiritual, sem nem um padre sequer, que lhes pudesse quebrar o pão da pala-
tanto tempo?” O padre deu a explicação que julgava justificar o seu procedi- vra divina, em iminente perigo de se tornarem luteranos ou calvinistas mandou
mento, ao que o santo acrescentou com certo azedume: “Isso o Sr. não fez para o Servo de Deus três de seus padres e um irmão leigo, que começassem lá
Deus, mas para o demônio”. Uma outra vez, esse mesmo padre, não se sabe uma fundação. Com a sua bênção deu-lhes os necessários conselhos e instru-
bem por que, não chegou a tempo como devia; São Clemente desejando cha- ções, e mais uma boa soma de dinheiro, que lhes deveria facilitar o trabalho nos
mar-lhe a atenção e fornecer-lhe uma bela ocasião de se humilhar, mandou-o primeiros anos. São Clemente achava-se animado da mais fagueira esperança
ajoelhar-se e passou-lhe uma tremenda descompostura, de sorte que o padre pela nova fundação, chegando a escrever a um amigo: “A seara é grande, lá
tremia como se tivesse chegado para ele a hora do juízo. Dr. Madlener achava- existem gregos cismáticos e seitas de todas as nações, que é preciso conduzir
se presente, e ao ouvir semelhante trovoada, encheu-se de compaixão e pôs- ao redil da Igreja de Cristo; a Ásia não dista muito de lá”. Uma outra vez desaba-
se a desculpá-lo; o Santo, fitando-lhe os olhos, disse com laconismo: “Isso não fou o seu coração no de seu amigo Frederico Schlosser escrevendo-lhe: “Buca-
é da sua conta, o sr. não entende nada disso; por ele não, o sr., mas eu tenho de reste é o escoadouro de todas as nações; muitos moços — até de 18 anos —
prestar contas a Deus”. não sabem nem a que religião pertencem, porque não há instrução religiosa
São Clemente procedia dessa forma, não para se mostrar grande ou fazer nas escolas; nas povoações rurais as igrejas estão caindo por não haver quem
sentir sua autoridade, mas única e exclusivamente em prol da Congregação e delas se compadeça”. As primeiras notícias eram em extremo consoladoras; os
da observância regular. Se, às vezes, parecia um trovão de severidade, logo em triunfos dos seus padres e da Congregação enchiam seu nobre coração de
seguida se transformava em cordeiro de mansidão e bondade personificada, de alegria e satisfação. Após o recebimento dessas novas escreveu a um seu ami-
sorte que ninguém levava a mal essa sua energia e firmeza. Clemente não go: “O bom Pe. José faz milagres naquela terra selvagem, prega em alemão; e,
queria caracteres efeminados na Congregação, padres sem energia e incapa- em caso de necessidade ouve confissões também em valacho; essa cidade
zes de ação firme, mas só homens de resolução e força de vontade, heróis na (Bucareste) é o valhacoito de todos os foragidos, uma mata virgem por onde
observância regular, caracteres lídimos e amantes da virtude e do trabalho. correm todas as feras; lá reina a mais crassa ignorância em coisas do céu... os
Mesmo a seus Superiores em Roma escrevia, com respeito sim, mas com pais só tratam de dar de comer a seus filhos e de trabalhar; o bom Pe. José
franqueza, quando se tratava da observância regular. Aconteceu que na Itália precisa correr de um lado para o outro, pedindo aos pais que permitam aos
alguns padres Redentoristas, sentindo demasiado o rigor da pobreza e não filhos freqüentarem a escola, que lá erigiu em casa alugada, e Deus tem-se
querendo romper de vez com a Regra, encontraram um meio termo, decretan- servido dele para operar uma transformação maravilhosa de costumes”. Notíci-
do que cada padre pudesse ter algum dinheiro, à sua disposição, na gaveta do as tristes e alarmantes, porém, não tardaram também a chegar aos ouvidos do
Reitor; isso chegou a ser aprovado por um Capítulo Geral. O Santo, compreen- Vigário Geral da Congregação em Viena. Ao ouvir que os seus caros confrades
dendo que isto era inteiramente incompatível com o voto de pobreza, emitido na eram perseguidos injustamente pelos sacerdotes cismáticos, e que se acha-
Congregação, escreveu a Roma protestando contra semelhante determinação, vam reduzidos à maior miséria, não tendo teto sob que se abrigassem, por o
“que dizia ele, é prejudicial ao voto de pobreza, multiplica os desgostos, prepara bispo não haver sustentado sua palavra nem cumprido o trato, Clemente cho-
a ruína completa da Congregação pelos inúmeros abusos e perturbações da rou, arrependido de haver causado, embora involuntariamente, esses desgos-
ordem, a qual se abre a porta com esse decreto”. tos e sofrimentos a seus confrades.
Consolidando interiormente o bom espírito dos seus padres e preparando- Confiando sempre na Providência que tudo governa, deixou seus padres
os para a prática de todas as virtudes religiosas, pensava Clemente em engran- na Valachia, esperançoso de que melhorassem as condições de vida, e afinal,
decer a sua querida Congregação e difundi-la pelo mundo inteiro para a maior se encontrasse um lugar favorável ao desenvolvimento da Congregação. — Em
glória de Deus e para o bem das almas. Concebeu os mais arrojados planos, 1818 um dos padres da nova fundação foi a Viena ter com o Santo e dar-lhe as
percorreu, a pé, em viagens de fundação, numerosos países da Europa, son- necessárias informações.
dou inúmeros lugares, onde pudesse encontrar um ponto tranqüilo para o de- É fácil imaginar-se o interesse com que Clemente o recebeu; tornava a ver
senvolvimento da Congregação e para a fundação de novos conventos. o seu querido José Forthuber, jovem de seus trinta anos, bela e robusta figura,
A Alemanha, a Áustria, a França, a Suíça, a Rússia fizeram parte de seus adornada de uma barba longa e espessa que mais ainda o recomendava. As
projetos, porém em parte alguma viu luzir esperança de resultado para os seus narrações dos trabalhos empreendidos animaram a Clemente, mormente quando
planos; volveu seu pensamento para a América, e tinha já destacado dois pa- ouviu que em toda a parte os missionários eram recebidos como anjos do céu.
dres para início da fundação nessa terra nova, onde se aspiravam as auras “Quando os missionários chegam a um povoado qualquer, conta o Pe. José,
risonhas da liberdade religiosa, quando apareceu em Viena Mons. Ercolani, e se alojam em algum albergue ou casa de pau a pique coberta de sapé, onde
bispo da Valachia, e pediu ao Santo, desistisse da América e mandasse para a homens e animais habitam conjuntamente, ouvem, ainda à noite, as confissões

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dos homens, e no outro dia de manhã, depois de enxotados da habitação os
animais e feito o necessário e possível asseio, levantam um altar provisório,
confessam as mulheres e, em seguida, celebram a missa e distribuem a comu-
nhão. Depois dão aula de catecismo aos presentes, visitamos doentes, põem
em ordem os diversos negócios e decidem todos os litígios, porque nessa terra
os padres devem ser tudo, até juízes”.
Não obstante tudo isso, o Servo de Deus estava pouco resolvido a deixar
os seus padres partir novamente para a Valachia; temia que o excesso de traba-
lhos arruinasse os seus caros confrades. Como, porém, os jovens redentoristas
No combate com os maçons
se sentiam com força e coragem, sedentos das almas abandonadas e sem
nenhum receio ou medo das perseguições, que são geralmente inevitáveis nos Sabelli imprudente — A causa da perseguição — As acusações — Aqui
grandes empreendimentos, deixou-os partir provisoriamente; porém, o seu co- não é bom estar... — É cidadão austríaco — A busca na residência — A intimação
ração se enchia de sérias apreensões e lhe dizia que aquela fundação não — A palavra do monarca — Esperanças desfeitas.
havia de durar muito tempo. E de fato, já em 1821, um ano depois da morte do
Santo, o Pe. Passerat, que lhe sucedeu no governo da Congregação transalpina, O crepúsculo da vida de Clemente foi bem diverso do que se imaginara;
recolheu para Viena os padres, que o tomaram depois direções diversas. não foi o céu tranqüilo, repleto de bonança como nos meses inolvidáveis passa-
Clemente, no meio de tantos trabalhos e preocupações, não podia esque- dos nos poéticos e arrebatadores bosques do Tívoli, mas a tempestade furiosa
cer-se de sua querida Polônia, onde experimentara tantas consolações, onde dos derradeiros anos de São Beno. Um ano antes da morte, cansado já e alque-
encetara sua vida apostólica; nutria ainda esperança de fundar na Polônia con- brado pelos trabalhos exaustivos de um ativo apostolado, por pouco não foi
ventos da Congregação. “Dai-me os cânticos polacos tão simples, e na sua expulso da sua pátria, como outrora de São Beno. A Providência, que queria
simplicidade mais lindos do que os que aqui se cantam”, gostava de repetir fazê-lo passar grandes tribulações, nos últimos momentos interveio ainda, não
freqüentemente. Queria essa fundação, de cuja conveniência e possibilidade se só permitindo-lhe passar seus últimos dias na Pátria, que tanto amava, mas
convencera não obstante as guerras e as revoluções que dilaceravam esse também realizando, de um momento para o outro, o sonho que o afagava nos
pobre país. No congresso de Viena deu para isso os passos necessários, po- dias do seu noviciado. O que parecia impossível, realizou-se: a Áustria josefista
rém, sem resultado. Para lá enviou seu grande amigo Zacharias Werner, a pes- abriu, em par, as portas à Congregação. Mas não precipitemos os fatos.
soa mais competente para esse negócio por seus conhecimentos como por Ocasião imediata para os últimos desgostos do Servo de Deus, deu-a o Pe.
suas virtudes, com o fim de sondar o terreno e ver, se se poderia conseguir Sabelli, que São Clemente denominava “a cruz da casa”. Aborrecido e contrari-
algum resultado favorável. As negociações pareciam bem encaminhadas e o ado, Sabelli dirigiu-se ocultamente a Roma, pedindo transferência para um dos
Pe. Martinho Stark pôde escrever a Roma: “As coisas vão bem na Alemanha: conventos da Itália, a qual lhe foi naturalmente concedida. Mas a viagem? era-
também na Polônia acabam de nos oferecer um convento, e o Pe. Clemente já lhe necessário obter o passaporte e o governo austríaco fazia as maiores difi-
aceitou a proposta; parece que no verão deste ano ele mesmo irá à Polônia”. culdades em conceder passaportes para a Itália. Devido a esses obstáculos
Circunstâncias imprevistas vieram desfazer as belas esperanças do Santo. O Sabelli recebeu ordem de se dirigir ao convento de Valsainte na Suíça. Ao tratar
plano que São Clemente se propusera de operar grandes coisas por Deus e de do passaporte para lá, parece que o bom do padre, sem o pensar, comunicou à
imolar a sua vida pela religião, transparecia certamente de todas as suas ações polícia o fato de ele pertencer a uma Congregação não aprovada na Áustria
e em todas as frases da sua existência, mas sobretudo e de um modo particular bem como a sua transferência por ordem dos Superiores de Roma, a Valsainte.
dos esforços sobre-humanos pela consolidação interna e externa da Congre- Desde esse dia a polícia abriu ainda mais os olhos para observar o confessor
gação; por ela sacrificou os 34 anos do seu trabalhoso apostolado, passados das Ursulinas, de quem Sabelli era súdito.
em Varsóvia, em Viena e em outros lugares onde procurara estabelecer a Congre- Procuraram um motivo, ou um pretexto para o acusar, porém não o encon-
gação Redentorista. Embora o céu não lhe tivesse querido conceder a doce conso- traram. Os maçons queriam ver-se livres daquele sacerdotes molesto, que re-
lação de ver, com seus próprios olhos, o fruto abençoado da sua operosa atividade, volucionava pacificamente a cidade de Viena. Que ele se sentasse no confessi-
conseguiu, graças aos seus ingentes esforços, a aprovação da sua Congregação, onário e se interessasse pelos pobres e pelos enfermos, ainda passava; tam-
a formação dos primeiros Redentoristas transalpinos, a difusão da Congregação bém perdoavam-lhe o levar à Igreja os protestantes, pois que se tratava quase
em diversos países da Europa e da América. O sonho dourado da sua vida era, só de estrangeiros que os vienenses desprezavam, mas a influência exercida
enviar a todas as partes do globo, uma legião de operários evangélicos, e ele o sobre os jovens, maxime sobre os acadêmicos, não podiam os maçons permitir.
realizou maravilhosamente. Os cinco mil Redentoristas do mundo veneram-no não O modo de pregar do Servo de Deus era suspeito, mas o seu auditório consistia
só como confrade, mas também como seu segundo Fundador. em grande parte de gente simples sem perigo algum para os maçons. O que
eles não podiam absolutamente perdoar era, que o espírito de São Clemente
CAPÍTULO XXII
97
começava a invadir a universidade, em cujo corpo docente encontrava já três res sentados ao redor da mesa formavam o tribunal; o Arcebispo, ancião vene-
grandes amigos e admiradores, a saber: o professor do Antigo Testamento, o da rando e amigo de Clemente, não tinha força para impedir as exigências do seu
teologia dogmática e o do Novo Testamento; eram justamente essas as matéri- Cabido. Clemente teve de comparecer e, não obstante sua dignidade sacerdo-
as mais importantes da universidade. Dois dentre eles, imitando o modo de tal e a inocência da sua vida, deve permanecer em pé diante de seus juízes. O
pregar do Santo, procuravam corrigir a pregação usual em Viena e instruir apos- interrogatório começou com todas as formalidades de um tribunal.
tolicamente o povo. Alguns dos alunos do Servo de Deus, dia a dia, enchiam-se “Qual o seu nome? onde nasceu? donde vem? a que religião pertence?” A
de mais coragem na universidade protestante, às vezes, contra os professores esta última interrogação Clemente sentiu-se ofendido e respondeu com calma
em plena preleção; formavam um como partido sempre crescente na universi- sim, porém com toda a expressão do tratamento indigno: “Ora essa? todo o
dade. O próprio São Clemente não ignorava que com isso havia de crescer mundo sabe que eu sou um padre católico!” A isso naturalmente seguiu uma
também a ira dos adversários. Ele escreveu, um ano antes, à família Schlosser. forte repreensão. Percebendo a ira e a indignação com que procediam contra
“A graça divina age sobretudo nos jovens, que se dedicam ao estudo das ciên- ele, Clemente inclinou-se respeitosa e cortesmente diante dos juízes dizendo:
cias. Se alguém pudesse e quisesse, efetuaria logo aqui uma grande mudança “Aqui não é bom estar; retiro-me”, e serenamente foi saindo pela porta fora.
na mocidade estudiosa; os estudantes já sentem asco das doutrinas ensinadas Ninguém esperava por aquilo e o tribunal viu-se repentinamente privado do seu
na universidade. Já tenho sido acusado muitas vezes de desencaminhar os réu. O velho e nobre Arcebispo, longe de se desgostar, aprovou o procedimento
rapazes”. do Santo dizendo: “Ele procedeu bem indo-se embora, fez como os Apóstolos;
Os maçons sentiam as forças que se levantavam cheias de vida, e temiam sacudiu a poeira dos seus sapatos”. Essa expressão compreende-se facilmen-
pelo futuro; recorreram à polícia, acusando a Clemente de virar a cabeça dos te, considerando-se que aquele julgamento não procedera da autoridade ecle-
estudantes. A universidade de Viena era o foco da iluminação intelectual; catolizar siástica, mas fora imposto pela polícia contra a vontade do digno Arcebispo,
a universidade seria o mesmo que desfechar o golpe de morte aos hereges. que naqueles tempos lutuosos não podia agir contra a força bruta do governo.
A coisa era pois do maior interesse e dai a luta; uma série de atas públicas Os capitulares de sentimentos religiosos olharam-se reciprocamente e ri-
bem mostraram, que na Áustria se trabalhava para fechar a boca ao Servo de ram-se, não do ancião que com tão bela resposta se retirara, mas da situação
Deus e, se possível, expatriá-lo para longe. cômica em que ficaram colocados. As pesquisas sobre o desaparecimento da
É interessante ouvir as acusações feitas contra o pobre sacerdote que não menina ficaram sem efeito.
possuía outra arma senão a oração e a boa vontade. Em 1817 aparecem as Nos meses seguintes permaneceu Clemente debaixo da vigilância da polí-
seguintes acusações contra a sua pregação: “Esse homem velho não condiz cia. O Santo, embora não se deixasse intimidar por coisa alguma, achou mais
mais como tempo; é necessário afastá-lo do púlpito e mandar espiões para prudente pôr-se de sobreaviso. Clemente era perseguido até por parte do clero.
escutarem as pregações”. Mas porque tudo isto? as acusações são motivadas: — O perigo era grande, mas ninguém tinha coragem de agir abertamente con-
“Clemente apoia-se com as duas mãos sobre o púlpito, abaixa muito cabeça tra ele devido à amizade que gozava junto do Arcebispo e da cotação e estima
para seus ouvintes... subitamente levanta-se e inclina-se para trás, grita, às em que era tido por homens de peso e valor público como Pilat, secretário de
vezes, desumanamente e bate com as mãos no púlpito”. Apresentaram essas Metternich, Adam Müller, Frederico Schlegel, arquiduque Maximiliano, barão
acusações ao Arcebispo, que era um grande amigo pessoal de Clemente, e que Penkler e semelhantes.
para combater a pregação da moda em Viena publicara uma circular, louvando Os maçons recorreram ao conde Saurau. chanceler da corte da Boêmia e
o procedimento e o modo de pregar do Servo de Deus. — Os inimigos não se Morávia, e josefino consumado, denunciando-lhe Clemente como fanático, es-
cansaram. Acusaram-no de não observar as leis do império, mormente na liturgia, pião de Roma, o qual punha os italianos ao par de tudo quanto se passava em
pois que se atrevia a fazer procissões proibidas, excitava o povo às romarias, Viena. Saurau encheu-se de cólera, foi ter com o Monarca, pedindo-lhe ou an-
espalhava entre as massas escritos supersticiosos de indulgências, recomen- tes exigindo a expatriação de Clemente, que era um verdadeiro perigo para a
dava o rosário, a freqüente recepção dos Sacramentos, o culto das imagens, nação. O Imperador, porém, respondeu-lhe com o laconismo que lhe era pró-
livros de piedade etc, relacionava-se demais com os Núncios, combatia os pro- prio: “Isso não, não posso expatriá-lo, porque ele é cidadão austríaco”.
fessores liberais de teologia, correspondia-se com Roma, procurava iludir os Desfeita a primeira tentativa, era necessário achar um ponto legal, sobre o
jovens a saírem da Pátria para entrarem em conventos estrangeiros. Um fato qual eles se pudessem apoiar para se apoderar da pessoa do humilde
merece especial menção por sua originalidade. Redentorista. Como não encontrassem pretexto algum por mais que indagas-
Um belo dia desapareceu de Viena a filha de um senhor muito conhecido; a sem dos conhecidos e amigos de Clemente, lembraram-se das palavras de
suspeita recaiu imediatamente sobre o Servo de Deus, que nada tinha que ver Sabelli que acabava de ser transferido para a Suíça por ordem dos Superiores
com o caso. A polícia interveio e Clemente teve que comparecer perante o tribu- em Roma. Numa busca na residência de Clemente talvez pudessem descobrir
nal eclesiástico para responder sobre isso e mais outras acusações. qualquer motivo de fundada acusação.
O consistório compunha-se de pessoas sem fé como Gruber, cônego e Em janeiro de 1819 apareceram inesperadamente três homens na resi-
diretor da faculdade de filosofia, e de outros sem religião como ele. Os capitula- dência do Santo numa hora, em que ainda se achava ocupado na Igreja de Sta.

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Úrsula; no quarto de Clemente achava-se somente o professor Dr. Madlener, Congregação introduzida na Áustria.
seu discípulo predileto, que recebeu os três, a saber: o professor do direito Sendo a expatriação um direito imperial, era para isso necessária a licença
canônico no Theresianum, o ex-beneditino Braig, vice-diretor dos estudos, e um do monarca, e por isso toda a história foi levada ao conhecimento do Imperador,
outro sacerdote, relator do governo austríaco; com eles foi também um ajudan- que declarou por intermédio de seu chanceler, que a expatriação só poderia se
te ou secretário. concedida a pedido de Clemente, a quem deu liberdade de fazer o que bem
Esperaram que o Santo chegasse, mandaram Madlener ausentar-se e fe- entendesse. O chanceler, que estava inteiramente de acordo com os inimigos
charam a porta. Quatro horas inteiras ficou lá a comissão inspecionando tudo, do Santo, participou ao Arcebispo o decreto, como tratando de uma ordem do
remexendo todas as gavetas, abrindo os armários, revistando todas as cartas monarca que exilava o Servo de Deus.
— mas não acharam coisa alguma em que se estribar para as suas acusações. Chamado pelo Arcebispo, Clemente compreendeu que não devia nem po-
Desesperados de suas pesquisas interrogaram o Santo, que não negou ser dia calar-se ocultando a verdade, narrou-lhe todo o ocorrido. Enquanto isso se
Redentorista, e como tal, súdito de um Superior na Itália. “Ipsi audivimus passava, de Santa Úrsula chegou ao palácio arquiepiscopal um pedido insis-
blasphemiam”. Os senhores estavam contentes, não era necessário mais nada; tente pela conservação do Santo como Reitor da igreja. O Arcebispo foi ter com
exclamaram: “A ordem não é reconhecida na Áustria, e superiores estrangeiros o Imperador declarando-lhe que com Clemente perderia o melhor sacerdote da
são proibidos pela lei; ele deve ou renunciar à Ordem ou abandonar a Áustria”. sua diocese, e o Monarca, ciente do ocorrido, confirmou a permanência do
Procederam ao protocolo, e, terminada a revista, chamaram a Clemente Santo... que não obstante ficou intimamente amargurado com o procedimento
que em seu genuflexório rezava o rosário da Virgem, suplicando a sua proteção de seus adversários. “O Pe. Clemente está tão desgostoso e contrariado, escre-
para aquela hora tão sinistra. Seguiu-se o interrogatório e a intimação, feitos a veu um dos padres a Passerat, e tão aborrecido em Viena, que já por esse
São Clemente por Braig, o ex-beneditino. motivo se decidiu fazer sua viagem em maio”. Mas para onde? O Servo de Deus
— O Senhor deve renunciar a sua Ordem ou abandonar os Estados austrí- estava ainda indeciso, se para Friburgo ou para Roma. Nesse interim entregou-
acos. se Clemente a seus trabalhos habituais. O jejum da quaresma enfraqueceu-o
— A minha Ordem não renuncio, respondeu Clemente. devido ao aumento do trabalho pela saída de Sabelli; adoeceu tão gravemente
— O senhor pode secularizar-se. que o Pe. Martinho, ao participar a Passerat a doença do Santo acrescentou
— Nunca o farei. recear muito pela vida dele. Felizmente pôde resistir devido a sua forte e robus-
— Então abandone a Áustria. ta constituição. Depois dessa doença recebeu o Santo a visita de uma senhora,
— Antes isso. que muito se congratulou pelo restabelecimento do Servo de Deus, que a sorrir
— Mas para onde vai? exclamou: “Ora muito bem, como são bons os meus amigos, que nem sequer
— Para a América, somente peço que se adie a viagem para depois do me desejam o a posse do céu”, e acrescentou em tom solene: “Desta vez eu
inverno por causa da minha avançada idade (Clemente tinha então 68 anos). quisera morrer, ah! seria esse o meu maior prazer; mas Deus não o quis, está
Por fim o Santo teve de escrever tudo, de próprio punho, e prometer que bom assim”.
abandonaria a sua Pátria. A primeira metade do ano 1819 foi para o nosso Santo uma das épocas
Depois de obedecer à comissão e assinar à sua expatriação, o Santo per- mais penosas da sua vida; em toda a parte, para onde dirigia seus olhares, via
guntou, se tinha mais alguma coisa a fazer, ao que responderam negativamen- esperanças desmoronadas, planos abatidos, cuidados prementes, dificuldades
te. e contrariedades.
— Ainda resta uma coisa, disse o Santo. É que Deus o preparava para o último e decisivo combate...
— Qual? perguntou curioso o primeiro comissário.
Levantando o dedo para o alto Clemente exclamou:
— O juízo final.
Toda essa farsa não passava de uma detestável intriga; os comissários não
tinham sido delegados por ninguém, nem pelo consistório nem pela polícia. O
presidente do juízo de apelação declarou ser tudo isso uma vil e ilegal usurpação
do poder.
Os comissários retiraram-se pouco antes do almoço. Clemente, como de
costume, deu o sinal para o exame particular e as ladainhas. À mesa, na palidez
do rosto do Servo de Deus suspeitaram alguma coisa de anormal, mas de seus
lábios não conseguiram arrancar palavra alguma; só depois da morte de Cle-
mente é que os discípulos souberam o que se passara dentro das portas fecha-
das. O Santo via aniquilada a esperança que há tempo, nutria de ver a sua

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les uma carta ao Santo, pedindo-lhe apresentar à corte as Regras da sua Con-
gregação, e indicar o modo como se poderia introduzir também na Áustria o
Instituto do napolitano Afonso de Ligório. É fácil compreender a alegria e a con-
solação de Clemente, grato em tudo aquilo ao dedo da Providência. Salutem ex
inimicis nostris. — O que ele não conseguira diretamente com seus trabalhos e
CAPÍTULO XXIII sofrimentos, desgostos e cuidados, obteve-o por meio dos inimigos que o per-
seguiam. Grande Clemente! por ele interessaram-se os maiores poderes sobre
A Congregação na Áustria a terra: o Papa e o Imperador!
Sem mais detença pôs-se o Santo ao trabalho, compôs o Memorandum,
em que expôs com prudência o fim da Congregação. Como a palavra “missão”
O Imperador visita o Papa — O memorandum — Começa com os jovens — era detestada em Viena e facilmente irritaria os nervos dos burocratas, Clemen-
Eu não o verei — Previsões — Resignação. te suprimiu-a escrevendo simplesmente que a Congregação se ocupava em
ministrar a instrução aos ignorantes e o socorro espiritual aos necessitados,
A questão referente a São Clemente ficou indecisa, mas a vigilância polici- sendo assim útil à Igreja e ao Estado.
al continuou. Tentaram conseguir do arquiduque Maximiliano a expatriação de O Imperador ao voltar de Roma, mandou chamar o Servo de Deus para
Clemente, porém debalde; esse grande amigo do Santo disse em resposta: uma audiência especial, ficando agradavelmente impressionado com a aparên-
“Viena não precisa só de um Clemente; seria para desejar que houvesse lá cia enérgica, firme e jovial do nobre ancião, a quem tratou com benevolência; o
ainda seis outros homens como ele para reformar a religião”. Entretanto o Núncio Monarca deu-lhe permissão de fazer mais algum pedido; Clemente somente
Apostólico, Mons. Leardi, partiu para Roma a fim de informar o papa Pio VII acrescentou o desejo de obter a Igreja de N. Sra. da Escada em Viena para a
sobre o estado da Igreja na Áustria, e narrou ao Sumo Pontífice as persegui- Congregação, e a permissão de se poder interessar pelos Boêmios da Capital
ções de que estava sendo alvo o Pe. Clemente, tido pelos maus como espião com um culto especial na língua deles.
romano. Pouco depois chegou a Roma também o Imperador que foi congratu- Esse pediu encheu todas as medidas dos desejos do Imperador.
lar-se pessoalmente com o Papa pela libertação que acabava de conseguir da A 29 de outubro de 1819 o Santo apresentou o Memorandum com a Regra,
escravidão francesa. Com fina diplomacia soube Pio VII interceder por São Cle- que o Monarca entregou a uma comissão especial, composta de amigos do
mente, dando a sua Majestade os parabéns pelos sacerdotes zelosos que pos- Santo e de pessoas da confiança do Imperador. Tudo parecia sorrir esperanço-
suía em Viena, mormente por Clemente, “homem verdadeiramente apostólico, samente ao Santo, mas a coisa não deixava de ter suas dificuldades devido às
adorno do clero e coluna da Igreja”. Como o Papa não ignorava que o maior circunstâncias desfavoráveis da época e ao fato de exigir tempo demasiado
crime, atribuído a São Clemente, era a sua dedicação e amor à Santa Sé, men- longo para pôr o novo Instituto em acordo com as leis vigentes.
cionou o que Clemente muitas vezes dissera a Muzzi, auditor da nunciatura: Enquanto a comissão gastava tempo em examinar a Regra, os bons e os
“Vós, romanos, não sabeis tratar os alemães; entre eles poderíeis conseguir maus trabalhavam, todos com a certeza da vitória; os amigos de Clemente não
muito mais, se os compreendêsseis e os soubésseis tratar”. Essa observação perderam vasa de agir ativamente em prol da Congregação dando as melhores
agradou imensamente ao Imperador; a palavra do Papa causou-lhe impressão informações sobre ela, fazendo-lhe as mais lisonjeiras referências e, mais que
e a sinceridade do Servo de Deus mais ainda. Ao retirar-se da audiência, havida tudo pedindo a Deus com fervorosas orações pelo feliz resultado das negocia-
com o Chefe da cristandade, o Monarca narrou tudo a seu confessor, Pe. Darnaut, ções. Os maus não desistiram, embora se sentissem bem humilhados e não se
e ao capelão Pe. Job, que o acompanharam a Roma e acrescentou com majes- atrevessem a contrariar abertamente os desejos do Imperador; procuravam pro-
tosa benevolência: “Ofenderam e magoaram o bom Pe. Clemente, estou senti- telar o andamento da revisão esperando do tempo o arrefecimento do entusias-
do com isso, se eu soubesse como reparar tanto desgosto a ele causado...!” mo do Monarca, ou algum caso imprevisto que desfizesse os planos. O Servo
Darnaut conhecia e estimava profundamente o Servo de Deus, e desde há de Deus não duvidava da aprovação, contava até com o resultado consolador e
muito ouvira que ele não tinha maior desejo do que conseguir um lugar seguro dispunha as coisas para não haver retardamento de espécie alguma, quando
para a Congregação na Áustria, e por isso pôde dizer ao Monarca: “O Pe. Cle- chegasse o decreto imperial. O Santo tinha apenas consigo o Pe. Martinho Stark,
mente só tem um desejo: o de ver a Congregação aprovada na sua Pátria; se V. jovem de seus 33 anos, confiava porém no zelo dos seus discípulos, com os
Majestade realizasse esse seu desejo, ele ficaria inteiramente satisfeito”. quais queria dar início à sua grande obra. Alguns dentre eles eram teólogos,
A 26 de abril o Imperador partiu para o Sul em visita a Nápoles, onde pro- outros já haviam terminado os estudos, e outros até já haviam recebido o
vavelmente se informou sobre a Congregação Redentorista que lá tivera o seu presbiterado, exercendo o cargo de coadjutores para passar o tempo, até a
berço, e sobre o grande fundador dela, Sto. Afonso de Ligório. Que o Imperador admissão no Instituto. Nesse interim Clemente dedicou-se ainda com mais ca-
se interessou vivamente pelo pobre perseguido de Viena deduz-se do fato de rinho à formação esmerada dos seus jovens, que eram para ele o futuro da
ter ele, no meio das festas e outras manifestações de regozijo, escrito de Nápo- Congregação, e sentia-se feliz por encontrar em todos a maior boa vontade.

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Aos jovens poupava paternalmente, como vemos do caso narrado por Pajalich. do com um amigo médico disse: “Enquanto eu viver, nada se fará, mas depois
Uma vez, escreveu ele, o Servo de Deus humilhou publicamente, não sei por da minha morte conventos se erguerão”. Entretendo-se outra vez com a Irmã
que motivo, a um dos seus confrades; um penitente e discípulo de Clemente, Jacoba que lhe expunha suas dúvidas interiores etc. afirmou o Santo: “Primeiro
“Dr. Madlener”, estranhou a severidade com que o Santo tratava seus congre- é preciso que eu morra, só depois é que a Congregação se difundirá”. A uma
gados, e atreveu-se a perguntar-lhe, porque é que não procedia com a mesma outra irmã, falando familiarmente sobre o futuro da sua Ordem na Áustria e
severidade, mas antes com tanto carinho, para com os outros penitentes e dis- sobre o bem imenso que os Padres Redentoristas haviam de operar pela glória
cípulos, ao que o Santo respondeu: “Vós ainda não me pertenceis e por isso de Deus e o bem das almas imortais e abandonadas naqueles tempos tão
não terei de prestar a Deus contas tão rigorosas de vós, como por ele que é tristes, o Servo de Deus assegurou “que o Imperador não haveria de assinar o
meu súdito”. Isso está inteiramente de acordo com o que ele uma vez disse a decreto aprovando a Congregação na Áustria, enquanto ele não tivesse dado
um dos seus estudantes e futuros Redentoristas: “Quando estivermos uma vez sua alma ao Criador”. Expressões idênticas empregou o Servo de Deus em
no nosso posto, deveremos começar seriamente a fazer penitência e a santifi- diversas ocasiões, de sorte que podemos afirmar, sem medo de erro, que Deus
car-nos antes de pregar aos outros”; e em outra ocasião: “É preciso começar lhe manifestara essa disposição da sua vontade.
com os jovens, porque com os velhos pouco se poderá fazer”. Essas repetidas De um lado exultava o Servo de Deus prevendo o futuro da obra, pela qual
expressões do Santo mostram o desejo que nutria de abrir em breve o novicia- se batera, garantido e seguro, do outro sentia, humanamente falando, o golpe
do para ensinar aos jovens todas as virtudes e introduzi-los e consolidá-los na da Providência, que assim o provava e privava da maior consolação dos seus
vida interior do convento. trabalhos. O Servo de Deus, porém, resignou-se com a vontade santíssima do
Não menos se preocupava o Santo com o lado material, isto é, com a Altíssimo, e em certo ponto sentia-se mesmo consolado, conforme se externou
aquisição do necessário à comunidade a instalar-se confortavelmente no novo uma vez: “Devo morrer antes que a Congregação se propague, então poderei
convento. “Quando a Congregação estiver aprovada na Áustria, disse ele, man- fazer mais para os meus junto do trono de Deus do que agora em vida”.
darei o Pe. Martinho para a Suíça, porque ele ainda não presta para Superio- Como é próprio dos Santos, esquivar-se à vista dos homens, para que toda
res”. Em outra ocasião afirmou que chamaria o Pe. José Passerat, homem san- a glória, nas grandes obras, recaia sobre o Autor de todo o bem, que é Deus,
to e excelente Diretor de almas. Num dos seus armários, na gaveta mais larga e Clemente, prevendo a grandeza da Congregação, desejava com toda a humil-
funda, havia grande quantidade de doces, pacotes de café etc. que lhe tinham dade desaparecer do cenário da vida. Manifestou esse seu desejo com as pala-
sido ofertados por alguns amigos; apontando para esses objetos, tão agradá- vras: “Grande honra se me está preparando dentro em breve, prefiro morrer já,
veis ao paladar, disse a um dos seus discípulos: “Isso tudo é para os nossos antes que isso se realize”.
confrades em N. Sra. da Escada”.
Entretanto a aprovação diferia-se mais do que se supunha, e Clemente
percebia que Deus, provavelmente, não lhe queria conceder a alegria de intro-
duzir a Congregação na Áustria; o que ele semeara a custo de abundantes
suores, outros deveriam colher. Como outrora Moisés só pôde avistar de longe
a terra da promissão sem ter o prazer de levar lá o povo que dirigira e governara
quarenta anos na travessia do deserto, repartindo com ele alegrias e dores,
assim Clemente antegozava, sim, a aprovação da sua Ordem, mas percebia
também que não seria ele o escolhido por Deus para organizar o primeiro novi-
ciado e introduzir firme e definitivamente, além dos Alpes, a Congregação que
tanto amava.
Teria Clemente sentido no princípio esse duro golpe da Providência? Uma
Irmã Ursulina contava que, quando no convento deram ao Servo de Deus os
parabéns pelo decreto imperial, que em breve garantiria legalmente a subsis-
tência da Congregação na Áustria, ele suspirando exclamou: “Mas eu não o
verei”, disse-o com precisão, embora se esperasse a cada momento a aprova-
ção, e Clemente não apresentasse propriamente nenhum sintoma de enfermi-
dade grave. Os discípulos do Santo, as irmãs e, em geral, os amigos tinham a
convicção certa de que Clemente viveria pelo menos ainda uns anos, pois que
Deus não o podia tirar no momento em que ele mais necessário parecia ser à
Congregação. O Servo de Deus, porém, era inabalável nas suas palavras, fala-
va como profeta que contempla e conhece o futuro. Uma outra vez, conversan-

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enfermeiro, subindo e descendo constantemente as escadas para atender ao
padre enfermo e ao povo que o reclamava.
A um amigo disse uma vez o Santo referindo-se à enfermidade do Pe.
Martinho Stark: “Não sei qual de nós está mais doente!” É escusado dizer que o
trabalho de Clemente se duplicou com a doença do seu auxiliar.
CAPÍTULO XXIV A 4 de março, sábado, achavam-se, à noite, reunidos os discípulos no quarto
do Santo, para a conferência; Clemente ouviu-os de confissão; depois desse
Suspirando pelo céu serviço começou a sentir o peso da enfermidade que o levaria ao túmulo. Nesse
estado de prostração mandou ainda fazer a leitura, à mesa, com as observa-
ções que costumava entremear ao texto, porquanto o seu espírito conservava-
O cortejo das Virgens — Sempre a trabalhar — O auxiliar enfermo — Des- se vivo e fresco como nos outros dias.
graça é só o pecado — Missa por uma benfeitora — Bela profecia — Recebe a Durante a leitura dessa tarde, por exemplo, perguntou aos discípulos, qual
extrema-unção — Obediência edificante — Vou para o meu retiro — Morte san- o motivo porque no Antigo Testamento não se imolavam os peixes a Javé; como
ta — Na câmara ardente — Sepultamento magnífico. ninguém soubesse responder, ele mesmo disse: “É porque o peixe não tem voz
para anunciar os louvores de Deus”, e tirou logo a conclusão, que para ele era
Na igreja dos Minoritas o Servo do Deus estava uma vez a ouvir confissões sempre a coisa principal: “... os homens devem com mais razão louvar a Deus,
e a reconciliar os pecadores com Deus. Terminado o trabalho restava ainda no porque não possuem só a voz, mas também o entendimento, e esses louvores
templo apenas um homem que viu abrir-se, subitamente, a porta da igreja e manifestam-se sobretudo na oração em comum”. Os discípulos, notando a fra-
entrar um cortejo de virgens em uniforme branco, todo adereçado de ricas flo- queza física do Santo, quiseram ausentar-se um pouco mais cedo, mas ele os
res, empunhando magníficas guirlandas, que agitavam no compasso, e assim deteve dizendo: “Pouco se me dá, que eu vá dormir mais tarde”.
caminharam até perto de Clemente que se achava sentado no confessionário; No dia seguinte, 3.º domingo da quaresma, o Santo fez ainda um esforço e
quando as Virgens passaram, o Servo de Deus inclinou-se profundamente com pregou pela última vez em sua vida; tomou por tema as contas, que cada um
as palavras: “Sim, eu vou logo”, e elas desapareceram. Admirado de tão estra- deve prestar a Deus, de todas as suas ações, dos favores e graças recebidas;
nha cena o homem aproximou-se do Santo perguntando-lhe, qual a significa- uma sentença calou profundamente no ânimo de todos impressionando-os for-
ção daquilo. “Fique quieto, disse Clemente, e não o conte a ninguém”. — temente: “Se durante toda a minha vida eu tivesse sempre correspondido à
Já havia algum tempo que Clemente se achava mal, o seu estado, porém, graça, quanto bem Deus não poderia ter operado por mim!” Foi essa a sua
piorou consideravelmente no inverno de 1820. Embora atacado de fortes e vio- palavra de despedida do alto do púlpito. Nesse dia e nos dois que se seguiram,
lentas dores hemorroidais não cedia, atirando-se sempre ao trabalho; a febre o Santo trabalhou como se nada houvesse de anormal; apesar do frio extraordi-
tornou-se tão aguda que o pulso acusava 150 pulsações por minuto; no delírio nário ia de manhã à igreja dos Minoritas e depois à das Ursulinas, ouvia as
Clemente recitava trechos inteiros dos Santos Padres, passagens da Sagrada confissões, recebia as visitas, fazia, à noite, as reuniões e entretinha os rapa-
Escritura, sem omitir uma única palavra nas citações. Passada a crise Clemen- zes.
te continuava seus trabalhos. No caminho que ia da sua residência a Santa No dia 8, quarta-feira, celebrou pela última vez em Sta. Úrsula, e das 9 às
Úrsula, encontravam-se por vezes, copiosas gotas de sangue; na igreja, embo- 11 horas ouviu as confissões das religiosas. Antes de retirar-se chamou a Irmã
ra sofresse dores atrozes, permanecia sentado no confessionário para não in- Thadéa e disse-lhe: “Reze bastante por mim, que estou muito doente”, e deixou
comodar as irmãs. Os discípulos, tendo ante os olhos a constituição robusta e a o convento para nunca mais voltar. “Em seguida, conta a Irmã, olhei para ele
energia indomável do Santo, julgaram-no fora de qualquer perigo; Clemente, com o coração repassado de dor e pus-me a chorar, pois que não podia famili-
porém, não se iludia sobre a proximidade de seu fim; a quem dizia que a vida arizar-me com a idéia de que não o tornaria a ver; aquelas palavras eram as da
lhe era necessária e que por isso ele não podia morrer, respondia com laconismo: despedida; o Servo de Deus parecia um cadáver, e a minha consternação tor-
“Deus não precisa de ninguém!” Entretanto o Santo definhava dia a dia; diminu- nou-se tanto maior, quando me recordei do que, há um mês atrás, ele me ga-
íram-se as forças, mas não cessaram os trabalhos, que se lhe tornaram uma rantira que morreria brevemente... Pedi então ao Santo que me permitisse orar
segunda natureza. de modo especial pela cura do Pe. Martinho. “Sim, sim, disse ele, o Pe. Martinho
Deus sabe provar as almas, e quando as quer fazer passar pelo crisol das sara logo, mas eu morrerei em breve”. Eu então continuei: “pedirei a Deus se
tribulações não envia apenas uma cruz, mas uma multidão delas a oprimir o digne conceder a V. Revma ainda muitos anos de vida e saúde”, ao que ele
corpo e a alma. Enquanto Clemente gemia ao peso da enfermidade, enviou respondeu: “Não se faça a nossa vontade, mas a de Deus assim na terra como
Deus uma doença grave ao Pe. Martinho Stark, único auxiliar de Clemente em no céu”; mas, continuei, seria para nós grande desgraça, se tivéssemos de
que a igreja das Ursulinas; como em casa não havia empregados e nem irmãos perder a V. Revma., e ele: — “Desgraça é só o pecado”.
leigos que o pudessem assistir, o pobre Clemente teve que fazer o papel de Para o dia 9 estava marcada na igreja dos Italianos uma missa solene de

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Requiém pela princesa Jablonowska, que o Santo venerava como benfeitora po de mãos postas, com o rosto voltado para o lado da parede, para maior
generosa do convento de S. Beno em Varsóvia; em homenagem a essa insigne recolhimento. Antes da sua morte teve o Santo algumas horas de sossego, e
benfeitora Clemente fez um esforço heróico e foi a pé a dita igreja e cantou o satisfeito pôs-se a cantar o seu hino predileto: “Tudo para a glória de Deus”. Ao
Requiem; abateu-se, porém, de tal modo, que necessitou de um carro para entrar o Santo em agonia, que durou 2 horas, o seu rosto, aliás tranqüilo e
voltar à sua residência. sereno, cobriu-se de palidez dando sinais de indizíveis dores; Clemente pela
Entretanto Pe. Martinho sentia-se melhor e achava-se já fora de perigo; o veemência da dor erguia do leito quase continuamente, procurando alívio. Aquele
próprio Pe. Clemente parecia restabelecer-se e recuperar as forças... mas infe- espetáculo enchia de consternação e de compaixão os assistentes, que amar-
lizmente eram só aparências; o estado não tardou a agravar-se espantosamen- gurados viam o Santo sofrer indizivelmente sem poderem aliviá-lo. Madlener na
te desde a missa da princesa Jablonowska. O Servo de Deus jazia em seu leito certeza de que aqueles movimentos, longe de dar ao Santo algum alívio, servi-
de dores, longe dos seus confrades e quase fora da Congregação; o único am apenas para aumentar os seus sofrimentos, aproximando-se do leito disse-
confrade que o acompanhava estava guardando o leito, e ele sem um criado ou lhe aos ouvidos: “Pe. Clemente, por obediência fique sossegado na cama”. O
Irmão leigo que o assistisse! Os amigos, discípulos e penitentes do Santo não Santo obedeceu como uma criança; chamaram o confessor e, momentos de-
lhe podiam prestar seus serviços, por se acharem também ocupados fora. O pois, a tranqüilidade estampou-se novamente no rosto do Servo de Deus, cujos
Servo de Deus pouco se entretinha com os homens, porque se conservava lábios se puseram outra vez em movimento para a oração.
sempre recolhido em oração aos pés de Jesus Crucificado, a quem oferecia as Chegou enfim o dia 15 de março. — Nesse dia sucedeu em Viena um fato
dores e sofrimentos, que o acabrunhavam. singular. A família Biringer, cujo pai falecera há tempo, era dirigida do Santo,
Foi numa dessas ocasiões que um dos discípulos do Santo, pensando no que a socorrera em muitos casos difíceis; a mãe mandou sua filha perguntar
futuro da Congregação, expôs ao Servo de Deus as ingentes dificuldades que pela saúde do Santo; enquanto esta executava as ordens da mãe, teve a viúva
haveriam de ter para construir os conventos, devido à grande falta de recursos uma visão clara: o Servo de Deus apareceu-lhe, sentou-se como de costume
materiais; o Santo olhando para ele disse com gravidade: “Quereis edificar igre- no sofá, queixou-se da falta de fé no mundo, mormente entre os funcionários e
jas e construir conventos, e não tendes força para combater e refrear as pai- pessoas altamente colocadas, acrescentando três vezes: “vou para o meu reti-
xões; tende paciência, Deus nos dará bastante conventos; pobre eu fui a Varsó- ro” e desapareceu.
via, onde não encontrei morada nem recurso de qualidade alguma; um ano No correr da manhã reuniram-se diversos discípulos do Servo de Deus em
depois, possuía já tanto dinheiro que me foi possível distribuir diariamente es- sua residência; o Santo silencioso rezava de mãos postas. Chegou o meio-dia,
molas aos pobres e matar a fome aos necessitados; — enquanto eu estiver e de todas as torres de Viena começaram os sinos a soar festivamente o Angelus
vivo, não tereis conventos, mas depois da minha morte, te-los-eis em abundân- Domini. Clemente fez um esforço para recolher as forças e disse aos presentes:
cia”. Foi por essa época, que tomando a mão de Madlener, seu discípulo predi- “Rezai, estão batendo o Angelus”. Enquanto os presentes ajoelhados sauda-
leto, lhe disse “que consigo levava ao túmulo muitos segredos, que quisera co- vam a Mãe de Deus, Clemente expirou placidamente para saudar no céu sua
municar-lh’os, mas não o fazia porque Madlener não podia guardar segredos”. inesquecível e estremecida Mãe. No momento da morte um leve sorriso veio
As Ursulinas tinham uma empregada muito boa e fiel, por nome Mariana; estampar-se em seu rosto, antes convulsionado pelo excesso da dor.
mandaram-na a S. Clemente para se informar do estado de sua saúde; quando Providência divina! — Nesse mesmo dia à tarde o Imperador assinou o
a pobrezinha viu o Servo de Deus em tão triste estado e em perigo de vida, decreto permitindo e aprovando a Congregação para a Áustria. Realizou-se
desatou em pratos: “Mariana não chores, disse, em breve me acompanharás”. com pontualidade a profecia do Santo.
A empregada era robusta e não apresentava nenhum vestígio de enfermidade, A impressão da morte de Clemente nos assistentes foi diversa: uns chora-
e não obstante — poucos dias depois era um cadáver. vam, outros enchiam-se de uma santa alegria. As irmãs Ursulinas, reunidos
Durante a última enfermidade o Servo de Deus recebeu relativamente pou- para a refeição, ao ouvirem a notícia da morte do Servo de Deus, chorosas
cas visitas; os amigos supunham que a enfermidade não fosse de morte e por abandonaram o refeitório e dirigiram-se à igreja a fim de rezar pelo santo con-
isso não o queriam molestar; somente os penitentes, que desejavam algum fessor. Os discípulos, que não contavam com aquele desfecho rápido, ficaram
conselho particular, iam ter com ele; mesmo no leito o Santo os reconciliava perplexos e confusos.
com Deus. O Núncio Leardi por sua vez escreveu a Gonsalvi: “O bom Pe. Clemente
Aos 13 de março o Dr. Veith achou conveniente dar-lhe a extrema-unção; o passou, ao meio-dia, à eternidade; todos os bons estão consternados com a
Pe. Madlener, depois de muito hesitar, aproximou-se de Clemente com a per- perda dessa coluna da boa causa; ele é simplesmente insubstituível”.
gunta: “V. Revma. quer receber o seu Deus?” ao que o Santo respondeu corri- Aprontaram o quarto vazio do coadjutor no primeiro andar térreo e expuse-
gindo a expressão pouco dogmática: “A santa comunhão? sim, sim”. Chama- ram o corpo do Santo, vestido do hábito redentorista com uma bela estola roxa,
ram o confessor, e durante a absolvição Clemente delirou, um pouco, repetindo em que estavam ricamente bordados os instrumentos da paixão e a imagem de
as palavras da absolvição, como se ele fosse o confessor e não o penitente. A Nossa Senhora das Dores. O rosto do Santo, que recuperara sua cor natural e
comunhão o Santo a recebeu com tocante devoção, permanecendo longo tem- os traços de serenidade com o sorriso admirável nos lábios, causava a todos a

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melhor e mais santa impressão. A notícia da morte de Clemente espalhou-se em movimento. Os discípulos de Clemente, futuros Redentoristas, pegaram as
com a rapidez do relâmpago para tristeza dos bons e contentamento dos maus. alças do caixão, que carregaram com profundo respeito e devoção, acompa-
No dia seguinte uma multidão imensa, na expressão do Pe. Rinn, veio visitar o nhados por outros que empunhavam velas. Coisa admirável! ninguém havia
corpo do Santo, pois que todos queriam beijar-lhe as mãos pela última vez e convidado o povo, e a multidão apareceu empunhando velas acesas; uma mul-
receber por relíquia algum objeto que lhe tivesse pertencido. A condessa tidão incalculável, no maior recolhimento, formando a guarda de honra do cadá-
Szecheny osculava, entre lágrimas, as mãos do Santo, não podendo ausentar- ver! Não sendo Sta. Úrsula igreja matriz, devia o préstito dirigir-se à catedral de
se de perto do seu antigo Diretor espiritual, que tanto a confortara em seus Sto. Estevam. Era tocante e emocionante aquele cena! a multidão se desfazia
sofrimentos e angústias. Quando alguém se lembrou de avisá-la que tivesse em prantos e, às vezes, soluçava; senhoras com os filhinhos nos braços chora-
cuidado para não contrair, por contágio, a moléstia do Santo (supunham que ele vam como crianças. Em frente ao convento das Ursulinas fez-se uma segunda
tivesse sofrido o tifo abdominal), a condessa respondeu: “Não tenho medo por- encomendação entre as lágrimas das Irmãs que pranteavam seu pai espiritual
que os Santos não infeccionam a ninguém”. O desejo de levar relíquias do San- e insigne benfeitor; nas exéquias revezaram-se o Pe. Zacharias Werner e o Pe.
to era tamanho, que foi mister vigiar o caixão, porque uns cortavam pedaços da Schmid, confessor do Santo. A tarde era magnífica, o ar tranqüilo, o ruído habi-
batina e do cabelo, outros levavam fragmentos quebrados ao caixão, enquanto tual dos carros de praça cessara naquelas ruas, por onde ia passar o préstito
que outros limpavam a casa levando tudo o que sabiam ter pertencido ao Servo fúnebre até a catedral. Reinava silêncio profundo, em que tanto mais se ouviam
de Deus. A voz geral que se faziam ouvir em Viena era: “Temos um Santo no os dobres, as marchas fúnebres e os sons plangentes da banda musical bem
céu”. como os hinos e as orações, entrecortadas de soluços, que se elevavam ao céu
No dia seguinte iam ser entregues à terra os despojos mortais do grande pelo falecido. Era um verdadeiro triunfo; o préstito movia-se vagaroso por causa
Apóstolo de Viena. Como a morte fora simples e assistida apenas pelos amigos da multidão de povo e dos inúmeros carros que acompanhavam o cadáver.
do Santo, supunha-se que da mesma simplicidade se revestiria também o seu Obstupefação geral causou o fato de se achar aberta, em par, a porta prin-
sepultamento. Encarregado dos funerais era o Pe. Martinho que, adoentado cipal de Sto. Estevam, a qual nunca se abre por ocasião dos enterros, a não ser
ainda, se achava distante na fazenda de um nobre senhor; dos estranhos ne- que se trate de pessoas altamente colocadas, ou de muita influência na socie-
nhum se lembrou disso. A um ou outro que perguntava pelo enterro, respondia- dade, mediante o pagamento de cem florins de prata. E ninguém sabia quem
se que tudo seria feito com simplicidade. Uns dias antes havia o Pe. Martinho tinha aberto, ainda mais que o capelão havia dado ordens terminantes em con-
interrogado ao Santo, que é que se deveria fazer caso ele viesse falecer, ao que trário. Ao chegar o préstito em o largo de Sto. Estevam começou a escurecer;
o Santo respondeu: “Fique sossegado, Deus há de providenciar”. E aquela pa- isso só servir para dar ao enterro o aspecto de triunfo; as milhares de pessoas
lavra foi uma profecia. “Naquela quinta-feira, escreve Pajalich, houve um certo que enchiam a vastíssima praça e as ruas vizinhas, empunhavam velas, que
sossego, do meio-dia às 2 horas, sem que pessoa alguma se lembrasse do acesas, formavam um como mar de luzes ondulantes no meio da multidão. Era
sepultamento; parece que o padre Martinho dera ordem de se fazer tudo do uma coisa nunca vista! donde aquelas velas? quem tivera a idéia de comprá-las
modo mais simples e oculto possível... Mas Deus providenciou para que o en- todas? ninguém o poderia dizer. A catedral gigantesca ficou apinhada; depois
terro se tornasse pomposo. Os admiradores do Servo de Deus sentiram um do Libera-me o Pe. Zacharias Werner com o coração comovido e a voz a tremer
desejo irresistível de contribuir para o realce do sepultamento do Apóstolo de cantou a absolvição e as orações prescritas. Por ser já noite fechada, os restos
Viena. mortais do Santo foram depositados no necrotério por aquela noite.
Desde as 2 horas começaram a chegar homens e mais homens, vindos de Viena jamais vira enterro tão comovente e magnífico como aquele; foi uma
todas as direções para a Igreja de Sta. Úrsula, onde agradeceram ao Senhor os verdadeira apoteose em que tomou parte a Capital da Áustria em sua quase
inúmeros benefícios recebidos por intermédio do falecido; pouco depois apare- totalidade, e o que é mais admirável ainda, tudo isto sem convite algum. No dia
ceu na residência de Clemente um caixão de madeira consistente, destinado seguinte o corpo foi levado ao cemitério de Enzersdorf, ao cargo dos Padres
ao Santo; era presente do conde Szecheny. Na medida que se aproximava a Franciscanos. Sobre o túmulo humilde de Clemente colocaram simples epitáfio:
hora do enterro crescia o número de penitentes, amigos e admiradores que lhe “Fidelis servus et prudens, isto é, Servo fiel e prudente”.
vinham prestar as últimas honras. Chegada a hora do préstito fúnebre as duas Nesse dia apareceu uma notícia sobre o Servo de Deus, publicada pelo
ruas que conduzem a Sta. Úrsula, achavam-se apinhadas de povo; da mesma célebre cientista Adam Müller no mais afamado órgão de imprensa vienense,
forma chegou grande número de sacerdotes, e enfim precedidos da cruz apa- nos termos seguintes: “A 15 de março de 1820 faleceu aqui, pelo meio-dia, na
receram em nobre cortejo os clérigos e padres do seminário arquiepiscopal, idade de 69 anos o R. Pe. Clemente Maria Hofbauer, Vigário geral da Congrega-
sem que para isso tivessem recebido ordem ou permissão; atrás dessa procis- ção do Santíssimo Redentor, fundada pelo bem-aventurado Afonso de Ligório,
são caminhava o célebre Zacharias Werner de pluvial rico ao lado de numerosa e confessor do convento das Ursulinas. A atividade fecunda e estupenda, que
assistência. Pobres e ricos, nobres e plebeus, pessoas de todos os estados e só ele pôde desenvolver em circunstâncias difíceis e posições arriscadas, con-
posição, até soldados, compareceram ao acompanhamento do cadáver. Termi- firmam-nos os muros de São Beno em Varsóvia, além dos milhares de testemu-
nadas as orações prescritas e entoado o Miserere, pôs-se o magnífico préstito nhas que ele alimentou, vestiu e conduziu a Deus por meio de uma vida cristã.

104
Dissolvida lá a Congregação pelo dominador dos franceses (Napoleão)
dirigiu-se ele a sua Pátria onde viveu desde 1808 em Viena. Os frutos de sua
vida ativa, verdadeiramente apostólica, os pósteros os hão de colher. Nobres e
plebeus, sábios e ignorantes deploram a perda irreparável do seu pai e guia, e
mesmo os mais afastados, que só o conheciam de nome, sentem-lhe a morte,
porque com ele esmoronou-se mais uma coluna da fé e da religião, e por isso, CAPÍTULO XXV
também da Pátria. Só o pensamento de que ele continua a viver no gozo infini-
tamente grande, pode mitigar a amargura causada por seu passamento”.
Retrato do Servo de Deus
Testemunho de um dos discípulos — do Dr. Veith — do cônego Greif — de
um amigo do Santo — de Jacoba de Welschenau — de Luiza Pilat — de um ex-
jesuíta — do cardeal Rauscher.

Diversos amigos e admiradores de Clemente têm-nos descrito o Servo de


Deus tanto no seu físico como em sua vida íntima, no seu modo de agir e no
seu caráter másculo. Quanto ao exterior descreve-nos um dos seus primeiros
discípulos: “O Servo de Deus era de tamanho regular, de constituição forte e
boa estatura; fortes eram sobretudo os ombros e o peito; o pescoço era um
tanto curto, a cabeça redonda e bem formada, o rosto antes redondo que oval.
Embora cheio de dignidade eram sempre amável e sorridente. Nunca o vi rir,
mas sempre sorrir-se levemente, os olhos ele os tinha sempre semicerrados;
quando porém falava com entusiasmo de alguma verdade da fé, via-se um como
resplendor irradiar-se deles; andava sempre reto, inclinando apenas a cabeça.
Embora se alimentasse pouco e se sobrecarregasse de muitos e pesados tra-
balhos, não era magro. Homem enérgico não manifestava nenhum vestígio de
orgulho. Andava sempre com o hábito da ordem, no verão usava um manto
preto e leve, debaixo do qual escondia o terço, que lhe não saía da mão. No
inverno vestia um manto azulado. À cabeça ele tinha sempre coberta por um
gorro, mesmo quando andava pelas ruas. Os cabelos do Servo de Deus eram
escuros e, nos últimos tempos da sua vida, um tanto grisalhos”.
O retrato do seu caráter descreve-o admiravelmente o Dr. Veith, grande
amigo do Santo e preclaro médico e cientista do seu tempo. “Ao Servo de Deus
tenho antes os meus olhos, agora depois de 44 anos, tão vivo e fiel como nos
dias da sua vida mortal, homem extremamente amável, manso, simples, humil-
de, prudente, profundamente arraigado na caridade, ardendo em amor de Deus
e do próximo, inabalável como um rochedo em sua fé, extraordinariamente com-
passivo, esquecido de si e ávido da glória divina, verdadeiro apóstolo, procuran-
do ser tudo para todos e possuidor das riquezas da graça. Não duvido colocá-lo
ao lado de São Filippe de Nery e de São Vicente de Paulo. Tive sempre a con-
vicção de que ele praticou as virtudes cristãs em grau heróico no emprego de
todas as energias com extraordinária abnegação própria, com a maior pureza
de intenção, ânimo inquebrantável tanto nos trabalhos como nos sofrimentos
suportados por Nosso Senhor e pela Igreja, com aquela comiseração denomi-
nada na Escritura viscera misericordiae. Que ele praticava todas essas virtudes
posso atestar ao menos quanto aos últimos anos de sua vida”.
Um outro amigo do Santo, cônego Greif escreve: “Clemente era um homem

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segundo o coração de Deus, cheio de simplicidade e amor, um modelo de virtu-
des para todos; conhecia a arte de atrair todos os corações e de tratá-los se-
gundo as propensões de cada um. Qual pastor vigilante corria atrás das almas
para convertê-las; a sua caridade desarmava os próprios inimigos. Não tinha
em conta alguma a sua pessoa; distribuía tudo o que tinha: essa era a sua vida”.
Eu admirei nele, escreve outro, a agudeza da inteligência, a sobriedade do
espírito, a oração contínua, a firmeza inabalável, a sede de perfeição, a gentile-
za de trato tanto com os nobres e ricos como com os pobres, a grande prudên-
cia, a sincera gratidão pelos benefícios recebidos, a inquebrantável intrepidez
O Santo na glória
nas perseguições, a modéstia nas palavras e ações, a delicada brandura e
mansidão em instruir e repreender, a inesgotável caridade para com os pobres, Declaração de João Pilat — de Zacharias Werner — das Irmãs Ursulinas.
a extraordinária temperança, o cuidado pela conservação da pureza de cora-
ção, a prudência na direção das almas, a atividade abençoada pelo céu, o amor No capítulo anterior vimos a descrição dos traços físicos do Santo e da
e a dedicação à Santa Sé, a vigilância pela pureza da doutrina católica, a fé viva formosura de sua alma que foi heróica na prática das virtudes teologais e mo-
e constância inabalável, o amor de Deus e do próximo, pronto a qualquer sacri- rais. Ora uma vida tão exemplar e virtudes tão heróicas não podiam ficar sem a
fício, a resignação da sua vontade em todos os sofrimentos físicos ou morais, a merecida recompensa. Aprouve a Deus manifestar-nos um raio da glória, que
fortaleza em todas as contrariedades de vida, a fidelidade imutável em o exercí- goza S. Clemente no céu, como vemos nas três declarações abaixo, feitas sob
cio de todas as virtudes até o fim da sua vida”. juramento por pessoas incapazes de engano.
Uma outra testemunha, Jacoba de Welschenau, que conhecia muito bem o A primeira declaração procede de João Pilat, moço correto e inteligente,
Servo de Deus, escreve: “Ele nunca se mostrava enfadado nem entristecido, nomeado preceptor dos alunos no colégio nobre fundado por Klinkowström,
nem exageradamente alegre; nos traços do seu rosto podia-se ler a paz interior que já conhecemos de outro lugar desta biografia. Demos-lhe a palavra: “Era
e a união com Deus”. pouco depois da morte de Clemente... eu morava então no instituto de
“Da sua fisionomia”, escreve Luiza Pilat, “irradiava-se a pureza da alma e a Klinkowström. Já de há muito tempo tinha resolvido não só deixar o emprego
paz, fruto da santa alegria que provinha da sua íntima união com Deus; em seu das finanças, mas consagrar-me inteiramente ao serviço de Deus no sacerdó-
rosto estampava-se uma seriedade amável, pacata jovialidade, paz não pertur- cio. Educado no espírito do Pe. Clemente procurei levar uma vida verdadeira-
bada por nenhuma paixão, e um perfeito recolhimento de espírito”. mente cristã e piedosa e consagrar-me a Deus no sacerdócio. Contra esse
Todos esses testemunhos, depostos por pessoas inteiramente fidedignas, plano de me enfileirar entre os levitas do Senhor, só encontrei oposição no
foram extraídos do processo de beatificação do Servo de Deus. As pessoas, Governo que me fazia as maiores dificuldades por eu não haver cursado filoso-
que depuseram no processo, não unânimes em chamá-lo “serafim”, anjo de fia na universidade de Viena, mas só privadamente na Hungria. Essa má vonta-
consolação e de paz, apóstolo infatigável e ardoroso, bom odor de Cristo pelas de da faculdade filosófica abateu-me tanto que quase sucumbi; julguei dever
acrisoladas virtudes, mártir da liberdade da Igreja, pai dos pobres, modelo de desistir do intento de me tornar Redentorista. Justamente naqueles dias o Pe.
virtudes etc. Passerat chegou a Viena. Numa daquelas tardes estava eu ajoelhado perto do
Um ex-jesuíta, que logo depois da morte do Servo de Deus, publicou em meu leito a fazer a minha meditação costumada, para a qual me servia do livro
Augsburgo uma história eclesiástica, fala de Clemente com os maiores elogios; do Pe. Crasset, se me não engano; na minha frente achava-se um quadro de
denomina-o “homem apostólico, trabalhador incansável na vinha do Senhor, São José com o menino Jesus no braço. Sei com toda a certeza que naquele
pregador da penitência”; afirma que a sua atividade em Viena era a de um momento não me lembrei do Pe. Clemente, nem de Santo Afonso e muito me-
grande apóstolo, tornando-se o refúgio dos pecadores e modelo de penitência, nos do Pe. Passerat: os olhos conservei-os fixos no quadro de São José. Posso
convertendo milhares de pessoas, conduzindo outras tantas à perfeição, sendo ainda declarar que nunca em minha vida me deixei alucinar nem física, nem
um outro João Batista, munido de força especial para operar conversões estu-
moralmente, pois tenho uma aversão natural a toda a sorte de visões.
pendas e converter os pecadores mais obstinados”. — Clemente era despreza-
do e até perseguido por muitos, acrescenta o historiador, mas herói de virtudes, Nessa disposição corporal e física vi repentinamente o seguinte: Na minha
amava o desprezo sem jamais descerrar seus lábios para a queixa, procurava frente achava-se Santo Afonso em sua figura característica, circundado de uma
só a glória de Deus e o bem das almas; luzia como uma estrela de primeira luz branda e celestial; lançou para mim um olhar de bondade.
grandeza no meio das trevas, combatia constantemente a impiedade do sécu- A seu lado reconheci o Pe. Clemente que também me olhava, estava todo
lo”. O cardeal Rauscher, encarando o Santo em seu papel providencial, afirma transfigurado, irradiando a mesma luz celestial como o santo Fundador. Sem
ter sido São Clemente o restaurador da vida da Igreja na Áustria: “O Pe. Cle- proferir palavra, parecia que ambos me apontavam o Pe. Passerat que se mos-
mente tornou possível a conclusão da concordata e deu uma nova e melhor trava à esquerda de Sto. Afonso; em seguida vi como misteriosa e espiritual-
direção ao espírito do tempo”. mente o Pe. Passerat se transformou na pessoa do santo Fundador.

CAPÍTULO XXVI 106


Sem mais detença veio-me o pensamento de que Deus me dava a enten- o povo, leva Nosso Senhora aos moribundos em suas casas, aconselha a ou-
der que no céu S. Clemente goza a mesma glória como Santo Afonso, e que tros padres que façam o mesmo: é isso que santifica a gente’. Com sorriso nos
cuida ainda agora dos seus filhos, enviando-me, os dois, para o Pe. Passerat, lábios disse Clemente, ‘agora fui eu que tomei’, e olhando para a Irmã acres-
que com certeza desfaria todos os obstáculos à minha entrada na Congrega- centou:: ‘Eu te ajudarei a morrer e te levarei ao céu’, ao que Sebastiana repli-
ção. E de fato assim foi. O Pe. Passerat foi comigo ao Imperador, que com gran- cou: ‘Pois bem, quando eu morrer tomarei V. Revma. pela palavra’. Muitos anos
de bondade, baixou o decreto declarando válidos os meus estudos, para eu me depois da morte do Servo de Deus, estava a Irmã Sebastiana em seu leito de
tornar um dos filhos espirituais do Pe. Clemente. Já lá se foram 40 anos desde dores; lembrando-se da promessa de Clemente invocou-o pedindo-lhe auxílio.
então, e essa visão ainda me paira tão viva ante os olhos, que dela me lembro Num dado momento prorrompe nas palavras: “o padre Clemente! o Pe. Cle-
como se fosse ontem”. mente! o Pe. Clemente!” e expirou deixando estampada no rosto a tranqüilidade
Isso narra com juramento o Pe. Pilat, que, devido a essa aparição entrou na dos justos.
Congregação professando em 1823; ordenado dois anos depois foi a Lisboa e à
Bélgica; em Bruxelas foi o confessor de Leão XIII, então Núncio Apostólico dos
Países Baixos, o qual duas vezes por semana ia ao convento dos Redentoristas.
Uma segunda manifestação da sua glória no céu, fê-la Clemente a seu
grande amigo, o Pe. Zacharias Werner, que a narrou ao povo do alto do púlpito,
como nô-lo transmitiu, com juramento, a Irmã Thadéa de Sta. Úrsula: “Era o
primeiro domingo do advento de 1822; Zacharias Werner deu início a seu ser-
mão em nossa igreja com as palavra que ainda retenho na memória com toda a
exatidão: ‘Já não viverei muito tempo, porque o Pe. Clemente m’o disse. Estava
eu deitado depois da oração da noite, quando subitamente vi o quarto aclarado
por uma luz mais viva que a do sol, e no meio do resplendor contemplei o Pe.
Clemente, meu pai, amigo e mestre; tinha em suas mãos um lírio, um ramo de
oliveira e uma palma, apostrofou-me com as palavras: Zacharias vem, vem,
vem logo, e desapareceu em seguida. Essa aparição não é fantástica, pois eu
não estava dormindo; é tão certo que vi o Pe. Clemente, como é certo que vivo
e aqui estou na igreja na presença do meu Deus no Santíssimo Sacramento.
Desde essa hora senti-me fraco e sei, sem dúvida alguma, que morrerei em
breve’. E de fato sucedeu tudo quanto Zacharias Werner afirmou; morreu pou-
cas semanas depois, se me não engano, depois da festa da epifania de 1823”.
Todos consideram típica essa aparição, mormente por causa dos três sím-
bolos: o lírio representa a pureza virginal do Santo, jamais manchada com o
labéu da culpa; o ramo de oliveira é o símbolo da paz interior, que gozava cons-
tantemente, e dos trabalhos que empreendeu pela paz da Igreja e do mundo; a
palma simboliza o martírio que suportou, à vida inteira, pela difusão da religião
e da fé.
O Servo de Deus queria, com isso, preparar o seu amigo para o último
combate e para a despedida deste mundo. Zacharias Werner morreu como um
Santo, conforme as palavras de Bruner: “Werner sabia de antemão que se apro-
ximava a sua dissolução, pois que a tuberculose já se lhe apoderara dos pul-
mões; morreu e foi sepultado ao lado de seu amigo e mestre São Clemente.
Mais um fato desse gênero encontramo-lo no convento de Santa Úrsula.
“No nosso convento, assim escrevem, tínhamos uma Irmã conversa muito pie-
dosa, por nome Sebastiana, que edificava a todas com a sua vida exemplar. O
Pe. Clemente estimava-a também por causa de sua sincera e profunda pieda-
de, e uma vez, gracejando, chegou até a dar-lhe o apelido de ‘Santa’. Ela, po-
rém, protestou logo com delicadeza dizendo: ‘Quem sou eu? um vermezinho
miserável, — V. Revma. sim, converte grandes pecadores, batiza judeus, ensina

107
predição do Servo de Deus realizou-se à risca.
A uma senhora da sua amizade, que mostrava muito medo de perder seus
filhinhos, disse o Servo de Deus: “A senhora não perderá nenhum dos seus
filhos”, e de fato, ela morreu pouco tempo depois deixando viva toda a sua
prole.
CAPÍTULO XXVII Um outro milagre de Clemente com meios tão insignificantes pôde conse-
guir resultados tão extraordinários. Um jovem libertino entrando, uma vez, na
O bondoso Taumaturgo igreja das Ursulinas, que se achava repleta de povo, maliciosamente foi abrindo
caminho por entre o povo, para da frente melhor ver as mulheres e as moças.
Nesse mesmo instante Clemente ia com o Santíssimo da capela lateral
As profecias do Santo — Conversões miraculosas — Protege nas voca- para a capela-mor, a cabeça inclinada segundo o seu costume; ao chegar perto
ções — Em grande falta de recursos — Mesmo em negócio de cozinha — O do moço lançou-lhe um olhar semelhante ao que Jesus lançou a Pedro no átrio
padroeiro dos enfermos: Ignez Fiath — Livra da morte — Paralisia e trismo — da casa de Caifás; o rapaz não pôde resistir, e saiu desfeito em lágrimas de
Chlorose complicado — Hidropisia — Tumores perigosos — Dores de garganta arrependimento. Bastava, por vezes, fitar energicamente as pessoas para lhes
— Artrite — Varizes — Hemorragia — Escrofulas — Artroflogose — Reumatis- infiltrar a fé. O seu olhar tinha um quê de extraordinário e indefinível.
mo — Peritonite. Depois da sua morte o Servo de Deus não se esqueceu dos amigos e
devotos. São inúmeros os favores e as graças que Deus tem operado por sua
No decorrer desta biografia temos tido ocasião de apreciar diversos e estu- intercessão.
pendos milagres que Deus operou por meio do seu Servo. Clemente não era Em todos os transes difíceis da vida, em todas as amarguras, o Santo tem
desses Santos que brincavam com os milagres como v. g. um S. Geraldo, cuja manifestado a força do seu braço, o poder que goza junto do Altíssimo. Para o
vida já era em si mesma uma maravilha do céu. A humildade sincera e profunda aumento da nossa confiança em seu poder e bondade, citemos apenas alguns
de Clemente fazia-o fugir de tudo quanto pudesse dar na vista, e — feito o favores obtidos por novenas, devoções e orações a ele feitas.
milagre — sabia disfarçá-lo com engenho e arte.
O leitor lembra-se ainda do ocorrido com a Irmã Jacoba, Ursulina, que por ***
ser muito doentia, temia ser expulsa do noviciado por inútil; Clemente, porém,
com a maior convicção e firmeza afirmou-lhe que faria os votos religiosos, sara- Protege nas vocações: Um jovem piedoso desejava ardentemente entrar
ria e sobreviveria a muitas que tinham então as faces rosadas. Poucos dias na Congregação Redentorista, pois que se sentia chamado por Deus ao estado
antes da profissão a Irmã caiu novamente enferma; quiseram expulsá-la, Cle- religioso, e ardia em desejos de pregar missões, converter os pecadores, tor-
mente porém disse com clareza: “Tu farás profissão, quando tiveres 28 anos de nar-se um apóstolo a exemplo de Jesus, que passou os três anos de sua vida
idade sararás e ficarás ainda uma bruaca velha”. A essa palavra a noviça foi pública a pregar e a doutrinar as massas. Ser Redentorista era o ideal da sua
aceita; dentre as Ursulinas foi ela uma das três que viveram até a época da vida, mas na realização dessa sua nobre aspiração encontrava a mais declara-
beatificação do Servo de Deus. da oposição dos pais e irmãos; fez o possível para convencer os seus; vendo,
Vimos também como a comida se aumentava e multiplicava em suas mãos; porém, que eram baldados os seus esforços, lembrou-se de São Clemente e
muitos amigos do Santo contam isto com todos os pormenores. fez-lhe uma novena. Poucas semanas depois, sem que ele tornasse a insistir,
O leitor não terá ainda esquecido o caso miraculoso, narrado pelo Dr. Veith, os parentes inteiramente mudados em sua opinião, deram unanimemente o
que longe de ser crédulo era conhecido como cético, explicando tudo de modo consentimento para a sua entrada no convento. José Horny — assim se chama-
natural e humano. “Na casa de um dos amigos de Clemente reinava tristeza va ele — entrou para a Congregação, onde, depois de trabalhar dezoito anos,
inconsolável por causa da doença mortal de um dos filhos da casa, o menino faleceu santamente.
Afonso; tinha um ano de idade e já se achava frio, de cor cadavérica, inclinado
sobre os joelhos da inconsolável mãe; o médico, depois de examinar a criança, ***
não sabia outra prognose senão que à noite ela seria cadáver. Inesperadamen-
te entra Clemente que sabia da amargura da família. A pobre mãe corre para Em grande falta de recursos — achavam-se uma vez as duas irmãs Ana e
ele desesperada, mostrando-lhe, entre prantos, o filhinho desenganado do Rosalina Biringer, como nos conta uma delas: “Estávamos em grandes apuros;
médico. Clemente, porém, diz-lhe tranqüilamente: “Não é nada, não é nada; era preciso pagar o aluguel do quarto, o tempo urgia, e nós não tínhamos o
hoje à tarde a criança terá fome e comerá”; em seguida deu uma leve pancadinha dinheiro necessário nem de quem tomá-lo emprestado. Subitamente veio-nos a
na face da criança e virou-se para o outro lado apoiando-se no salto do sapato, lembrança de invocar o Pe. Clemente, fazer-lhe uma visita à seu túmulo e expor
o que costumava fazer em semelhantes ocasiões para desviar a atenção. A as nossas necessidades. Fomos ao seu sepulcro, abrimos-lhe o nosso coração,

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lembrando-lhe que tínhamos sido suas filhas espirituais e rogando Favores semelhantes contam-se aos milhares, mormente em Viena, onde
encarecidamente o seu socorro. Consoladas e cheias de esperança voltamos se conhecia bem a bondade proverbial do Pe. Clemente Maria Hofbauer. Ora é
para a casa, e — ó milagre — já no dia seguinte recebemos uma carta que um operário que procura trabalho, ora um rapaz que procura colocação, ora
absolutamente não esperávamos, e onde se lia: “Talvez as senhores precisem uma professora que deseja uma cadeira etc etc. etc.
do dinheiro que vai junto para o pagamento do aluguel”. Eram justamente os Todavia existem ainda sinais mais estupendos e extraordinários, que mos-
cinqüenta florins que faltaram para se inteirar a conta. tram o poder e a força do valimento do nosso Santo junto de Deus.

*** ***

Mesmo em os negócios de cozinha tem-se implorado o auxílio de Clemen- O padroeiro dos enfermos. O primeiro e principal depoente no processo de
te. Embora não sejam milagres, mas simples favores, mostram a grande confi- beatificação do Pe. Clemente declara: “A cura da pequena baronesa Ignez Fiath
ança que os devotos depositam na proteção do bondoso Pe. Clemente, que causou grande sensação, dando muito que falar em Viena; também em Praga
ajuda até em coisas pequenas e insignificantes. ocuparam-se pormenorizadamente do fato sem nenhuma contestação.
Eram justamente passadas sete semanas depois da morte de Clemente; Ignez Fiath, filha de um conhecido barão húngaro, vivia desde 1863 no
aproximava-se a festa do Sagrado Coração de Jesus, que naquele ano de 1820 instituto das Visitandinas em Viena. Adoecendo por ocasião da festa de Natal foi
caiu no dia 9 de junho. Querendo a Superiora das Ursulinas, que suas súditas recolhida à enfermaria. No exame o médico verificou uma úlcera e pequenas
celebrassem essa festa também no refeitório, mandou que a cozinheira se es- feridas na região inguinal; as feridas desapareceram, mas as dores localiza-
forçasse por alegrar e contentar as irmãs apresentando-lhes alguma coisa es- ram-se nas pernas e nos joelhos, de sorte que a menina andava só com muita
pecial, não faltando a sopa de bolos de farinha, prato muito apreciado pelos dificuldade, manquejando por não poder levantar, sem grande esforço, o pé
vienenses. A cozinheira, que não era outra senão a Irmã Thadéa, fez o possível, esquerdo; já no ano anterior havia ela sentido semelhantes dores em casa, ao
mas debalde, justamente naquele dia nada lhe saia bem, nomeadamente os cair dentro de um valo, que queria atravessar de um salto; as dores da perna
bolos que não queriam formar-se. A pobre cozinheira quase perdeu a cabeça; esquerda aumentavam-se dia a dia. O médico da casa consultou o célebre ci-
por fim lembrou-se do Pe. Clemente; ajoelhou-se na cozinha e rezou um Padre rurgião Dr. Schuh, que declarou temer um resultado mau caso não desapare-
Nosso com as palavras: “Pe. Clemente, agora é tempo de me valerdes, não cessem as dores no prazo de três semanas mediante repouso absoluto, com-
consigo nada hoje na cozinha”. Levantou-se e, daquele momento em diante pressas de água fria e homeopáticas doses de ferro carbônico. Pouco depois foi
tudo lhe correu às mil maravilhas. A Superiora durante a refeição chamou a consultado também o célebre homeopata Dr. Fleischmann. Já o fato de se reu-
cozinheira ao refeitório — caso virgem no convento — e perguntou-lhe como é nirem para a consulta três tão abalizados médicos, mostra a gravidade do caso.
que conseguira preparar tão apetitosa refeição, ao que Thadéa respondeu: “Ah! Os doutores mandaram que a menina tentasse caminhar um pouco, mas
hoje foi o Pe. Clemente que cozinhou!” As irmãs sorriram-se ao ouvirem o que as dores tornaram-se horríveis. Prescreveram novamente repouso absoluto, e
se passara na cozinha. O mais curioso é que a comida preparada em porção verificaram inflamações nas juntas. Em lugar do ferro carbônico receitaram
costumada, apesar de repetidos os pratos por todas as irmãs, sobrou em gran- beladona e prescreveram banhos quentes com sal de ossos.
de quantidade, podendo ser servida também ao jantar. Entretanto o pé virava-se todo para fora; não havia dúvida, formara-se a
Também com as Visitandinas deu-se um caso semelhante. A cozinheira coxalgia.
ficou uma vez bastante incomodada com a fumaça que não queria absoluta- A 5 de fevereiro de 1864 — uma sexta-feira — levaram a pequena ao ba-
mente sair pela chaminé. No desespero invocou o Pe. Clemente, que lhe des- nho, do qual saiu quase morta. Nesse mesmo dia Ignez começou uma novena
pertou uma lembrança singular: a de examinar, se talvez na parede houvesse com as outras meninas em louvor do Pe. Clemente, cuja relíquia a pequena
uma outra chaminé; bate na parede que responde com um som oco; abrem-na conservava junto ao leito.
e encontram uma outra chaminé, da qual não tinham conhecimento nem as Até domingo ao meio-dia ainda não se notara na enferma melhora alguma,
irmãs mais idosas do convento; desde então a fumaça nunca mais molestou a porém, nesse mesmo dia à tarde, 7 de fevereiro, Ignez sentiu que se podia
pobre cozinheira. mover sem dor.
Caso semelhante deu-se no convento do Bom Pastor em Viterbo. A praga Em chegando a enfermeira a pequena baronesa declarou que estava cura-
da fumaça era tal, que quase cegava as irmãs. Fizeram-se as possíveis repara- da, pôs-se em pé, e como não lhe permitissem levantar-se, andou sobre o leito
ções na chaminé, porém, debalde. Por acaso achava-se no convento uma Irmã, e saltou de contente não sentindo dor alguma.
que mais de uma vez, experimentara de modo maravilhoso o valimento do Ser- Na manhã seguinte ninguém a pôde reter na cama, levantou-se... e quando
vo de Deus; invocou-o com grande confiança, pendurando a imagem de Cle- a viram caminhar exclamaram estupefatos: “Milagre, milagre!” Nesse mesmo
mente ao lado de fora da chaminé, e incontinenti a ordem estava restabelecida: dia o médico examinou a menina e verificou que estava completamente curada,
a fumaça encontrou o caminho para fora sem ser necessário outro expediente. e declarou a um Padre Redentorista, que nem o melhor remédio do mundo

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poderia operar aquela cura em tão curto espaço de tempo. A cura foi radial e mesmo nos sofrimentos; até a idade de 13 anos fui forte e sacudida; dessa
duradoura. Esse acontecimento causou enorme sensação; a própria Imperatriz idade em diante comecei a vomitar sangue; aos 17 anos sofri convulsões horrí-
Carolina Augusta foi ao convento das Visitandinas para ver a pequena barone- veis de sorte que quatro homens não me podiam segurar nessas ocasiões;
sa; o mesmo fez também o Núncio Apostólico. Esse milagre foi examinado e para isso era bastante um susto, um barulho, uma surpresa. Os médicos verifi-
aprovado para a beatificação do Servo de Deus. caram que a minha doença provinha da inflamação da espinha dorsal e pres-
creveram-me sangrias, sanguessugas etc., que me proporcionaram certo alí-
*** vio, mas me enfraqueceram consideravelmente, obrigando-me a guardar o leito
muitas vezes. Em 1844 estive dez semanas no hospital de Linz. A 2 de fevereiro
Livra da morte. Maria Hofmann, senhora de seus 40 anos, casada, mãe de a fraqueza me fez perder os sentidos, e dois dias depois, para cúmulo de infeli-
onze filhos, tinha de sujeitar-se aos mais pesados e rudes trabalhos para a cidade, sobreveio-me o trismo, os lábios separaram-se-me com violência, fican-
sustentação dos seus. Caindo gravemente doente foi recolhida ao hospital; do os dentes cerrados; não recebia então alimentação alguma a não ser um
munida de sólida piedade a enferma, embora atacada de dores agudas, não pouco de sopa pelo vão dos dois dentes da frente. Perdi completamente a fala.
dava o menor sinal de impaciência. A hérnia, que a pobre senhora padecia, Dai por diante ia de mal a pior. Na idade de 32 anos tive uma forte hemorragia
teimava em não admitir cura; por isso o médico a enviou ao hospital sem espe- que me paralisou o pé esquerdo; pouco depois fui atacada de inflamação intes-
rança alguma. Passados 12 anos a pobre mulher ainda sofria sem alívio; era tinal, que me causou dores indizíveis; os remédios acalmaram as dores, mas
necessária uma operação, mas os médicos não a queriam fazer devido ao adi- conservaram-me no leito, onde me não pude mover; pelo corpo todo espalhou-
antado da enfermidade. No hospital ninguém contava com a cura da senhora, se um tumor em extremo doloroso. Nesse estado miserável, fizeram-me a san-
que tinha ainda contra si a idade avançada de 52 anos, entretanto os médicos e gria que não deu resultado, porque o sangue não correu, o braço direito entor-
as enfermeiras tentaram o possível. A enferma vomitava constantemente não peceu completamente. Esse estado durou um ano inteiro, pelo que os médicos
retendo alimento algum no estômago; no 5.º dia declarou-se a cólica ilíaca, e na me desenganaram, declarando incurável a minha enfermidade. Resolvi então
manhã seguinte apareceu a inflamação. À noite, como o caso era desesperado, recorrer ao céu, lembrei-me da Santíssima Virgem prometendo uma romaria a
um dos médicos chamados à última hora, perguntou-lhe se não queria ser ope- seu Santuário de Schmolln, e manifestei essa minha promessa a um Padre
rada; a mãe lembrando-se dos seus filhinhos que necessitavam dela, subme- Redentorista, que me aconselhou dirigir-me primeiro com uma novena ao Pe.
teu-se de boa vontade e resignada à vontade de Deus; preparou-se tudo para a Clemente, para poder depois, com saúde, fazer a romaria prometida; e ele tinha
operação. No dia destinado à operação, chegou a ela, de manhã, uma Irmã, razão. Fiz a novena com toda a confiança; no oitava dia fiquei completamente
contou-lhe o milagre operado pelo Pe. Clemente no convento das Visitandinas, sã, levantei-me e a pé fui visitar o meu Diretor espiritual, que morava numa
e perguntou, se não queria também experimentar a intercessão do bondoso distância de cinco quartos de hora e voltei, também a pé, sem maior novidade;
Santo; a senhora naturalmente anuiu prometendo uma novena ao Pe. Clemen- dias depois fui a Schmolln, andando dez horas a pé; a voz voltou-me também
te; as pessoas presentes acompanharam-na na recitação dos 9 Padres Nossos com a mesma força de outrora. Oh! como sou grata ao Pe. Clemente! os médi-
e do Credo. Essa boa conselheira era a primeira das enfermeiras, em cujo quar- cos todos afirmaram que minha cura foi um verdadeiro milagre!
to se faziam quase todas as operações; lá estava pendurado um quadro do
Santo. Ao chegarem os médicos tentaram mais uma vez empurrar para dentro ***
a hérnia, porém debalde. “Corri, diz a enfermeira que narra o fato, e trouxe um
pano; ao chegar notei que a ruptura estava completamente mole e ouvi um Clorose complicado. A condessa Ana Maria, Visitandina, conta o milagre
ruído coo se despejasse água de uma garrafa, e num instante a hérnia estava seguinte: “Aloísia, filha do conde Adam Revicky da Hungria, era alta, porém de
fechada; apalpei o lugar da ruptura, e não encontrando vestígio algum do mal natureza franzina, professou no convento da Visitação, sendo em seguida no-
exclamei: “São Clemente valeu”. Os médicos abanaram a cabeça, não sabendo meada professora no Instituto. Por causa da sua constituição fraca sofria muito
o que dizer em tal circunstância. Um católico, Dr. Lervinsky, contentou-se em a neo-professa, sendo necessário poupá-la o mais possível, e atender a seu
dizer “Isto é milagre”. A enferma afirmou não sentir mais dor alguma e pediu de temperamento melancólico. Desde a profissão a Irmã começou a definhar a
comer, levantando-se em seguida. Essa cura deu-se de manhã, quando a ope- olhos vistos; parecia atacada da tuberculose acompanhada de horríveis dores
ração devia ser feita à tarde. Esse milagre foi examinado e aprovado no proces- de cabeça e asma tão declarada, que quase não podia andar; além disso sofria
so de beatificação. fastio e insônia. Incapaz de qualquer serviço na comunidade, tinha a certeza de
uma morte prematura, lamentando só não haver prestado nenhum serviço à
*** Ordem em que professara. Embora tratada por um bom médico, não apresenta-
va melhoras de qualidade alguma. Sem esperança da terra, a pobre neo-pro-
Paralisia e trismo. Ana Berger, curada miraculosamente pelo Santo, conta fessa lembrou-se do Pe. Clemente. Invocou-o e começou em seu louvor uma
o fato do modo seguinte: “Sou de constituição bastante forte e de natural alegre novena de três Ave-Marias e Gloria Patri, levando ao peito uma relíquia do cai-

110
xão em que foi sepultado o Santo. Pelo fim da novena, durante a meditação, que na véspera se tivesse dado crise alguma para a melhora. O Dr. Eichhorn,
Aloísia sentiu-se animada de uma nova vida, embora nos dias anteriores não se quando, no dia seguinte, viu a menina andar e correr sem empecilho, ficou
tivesse manifestado nenhum sinal de melhora nem alívio. Levantou-se comple- admiradíssimo e reconhecendo que aquilo só se poderia dar por um milagre,
tamente forte, tornou-se uma das mais laboriosas no convento, cantando sem- exclamou: “Com certeza tornastes a invocar o Pe. Clemente”. A enferma, cujo
pre com voz estentórica, quando preciso; desde então nunca mais encontrou tio era inteiramente descrente, recebeu deste uma visita poucos dias antes de
dificuldade nos trabalhos da comunidade. Coisas que nunca conseguira fazer se operar miraculosamente a cura; vendo ele que a menina estava curada tão
em sua vida, executa-as agora com a maior facilidade; lava roupas horas e repentinamente, exclamou: “Isto é realmente um milagre e ninguém me conven-
horas a fio, e imediatamente depois canta no coro ou dá aulas às meninas”. cerá do contrário, porque eu mesmo o vi com os meus olhos”. Desde essa
ocasião a família toda, cheia de gratidão, consagrou devoção e amor ao Servo
*** de Deus.
Uma Irmã conversa do convento da Visitação lesou a mão direita numa
Hidropisia. Demos também aqui a palavra à testemunha jurada: “Um tal lâmina de ferro; tomando aquilo por um ferimento insignificante não se medicou
Vicente Felber de seus 23 anos, solteiro, contraiu a moléstia hidropisia em con- como devia; à tarde, porém, começou a sentir dores agudas e a noite inteira
seqüência da qual se inflamou o peito de forma a não permitir-lhe a respiração; passou sentada no leito sem poder conciliar o sonho, devido à veemência das
a moléstia não tardou a difundir-se por todo o corpo. Tão assustadoras foram as dores; na manhã seguinte formou-se na mão inflamada um tumor de mau cará-
proporções tomadas pela enfermidade, que os médicos aconselharam a imedi- ter, que crescia a todo o instante, não permitindo à Irmã nenhum movimento
ata recepção dos últimos sacramentos; o especialista chamado na ocasião, com o braço. O médico declarou, que o mal era um extremo perigoso, e temeu
examinou o doente e depois de um diagnóstico, que parecia exatíssimo, recei- uma periostite, sendo então necessária a operação, prescreveu uns ungüentos
tou um remédio que não produziu efeito. Apareceram umas manchas na região que nenhum alívio proporcionaram. Vendo que a enferma sofria horrivelmente,
estomacal, que começaram logo a gangrenar. Em vista disso o especialista não entre gemidos e suspiros disse-lhe uma Irmã: “Porque é que te não serves da
dava ao doente mais de dois dias de vida. Nessa situação desesperada, em que relíquia do Pe. Clemente? ele te valerá”. A enferma tomou a relíquia, mas tam-
a medicina humana o desamparava condenando-o à morte, o enfermo lem- bém os ungüentos, porém, sem alívio algum até às 6 horas da tarde.
brou-se do Pe. Clemente, pendurou ao pescoço uma relíquia do Santo e com a Quase no desespero lançou fora os ungüentos, invocou o Servo de Deus e
Irmã começou uma novena ao grande amigo dos doentes. Já depois do primei- as dores desapareceram como por encanto. No dia seguinte não havia nem dor
ro dia da novena, viu em sonho o Santo que o abençoava derramando um pó nem tumor, mas só uma pequena mancha vermelha que se mostrava no lugar
sobre ele; ao acordar sentiu-se muito melhor, podendo respirar com facilidade; da antiga ferida.
depois de três dias tornou a ver São Clemente em sonho; desta vez o Santo
despejou água sobre ele; ao acordar percebeu que a hidropisia tinha cedido, a ***
água escorria com presteza enchendo diariamente quatro vasos, apresentando
sempre cor diversa, sem que o médico soubesse dar a isso explicação. No fim Dores de garganta. Foi no dia de Nossa Senhora das Candeias de 1862
da novena a hidropisia estava completamente curada. que se operou o seguinte milagre: A senhora Josefa Dallinger, que há oito anos
sofria fortes dores de garganta, sentiu formarem-se-lhe no céu da boca tumo-
*** res que se transformaram em cárie. Várias vezes foi necessário arrancar peda-
ços de ossos com grande perigo de ela morrer sufocada; o mal agravou-se
Tumores perigosos. Adelia Hennlein, aluna do colégio da Visitação, levou tanto que a pobre senhora não pôde mais tomar alimento de qualidade alguma.
uma queda no pavimento do corredor, e em conseqüência viu formar-se um A conselho do seu confessor fez uma novena a São Clemente e mandou dizer
tumor no joelho direito. O médico, depois de examinar a menina, verificou que a uma missa. O dia 2 de fevereiro era justamente o terceiro dia da novena; e a
ferida, embora não fosse perigosa, requeria tempo para se fechar e teria por enferma, sem aplicar remédio algum, ficou repentinamente livre das dores e da
conseqüência a debilidade natural do joelho. Aplicaram compressas frias com enfermidade, levantou-se curada, não deixando a doença nenhum vestígio de
arnica e certas fricções que hoje já não se conhecem. A pobre menina teve de sua passagem.
guardar o leito, pois que lhe não era possível dar um passo sem sentir dores
agudas. Como a pequena piorava dia a dia, a Superiora do colégio mandou-lhe ***
fazer uma novena ao Pe. Clemente, colocou-lhe perto do leito um quadro do
Servo de Deus com uma relíquia da sua batina; durante a novena a enfermida- Artrite. O Pe. Pilat narra, sob juramento, que na França em Boulogne sur
de não cedeu e os remédios aplicados não produziram resultado algum. No Mer, uma Irmã da Congregação de São José sofria desesperadamente de artri-
último dia, porém, quando a pequena acordou de manhã, percebeu que os te; depois de aplicar, em vão, todos os medicamentos conhecidos da ciência
tumores e as dores haviam desaparecido; estava completamente curada , sem humana, recorreu ao Servo de Deus com uma novena que terminou justamente

111
no dia 15 de março, aniversário da morte do Santo; o que os meios humanos ***
não puderam conseguir, conseguio-o a devoção e a invocação do Servo de
Deus. A Irmã no fim da novena estava completamente restabelecida, sem re- Hemorragia. Em Roma no convento do Bom Pastor, achava-se no novicia-
médio especial. do uma donzela por nome Maria, que havia um ano, sofria hemorragia muito
forte, que a enfraquecera a ponto de não poder mais subir as escadas do con-
*** vento. A pobre noviça estava já lívida e pálida como a cera; embora a Mestra de
noviças a estimasse sobremaneira por causa das suas muitas e grandes habi-
Manquejava a pobre Catarina, menina de oito anos, desde a procissão da lidades e profunda piedade, declarou, que a donzela não podia continuar no
festa do Corpo de Deus. O defeito passou de um pé para o outro ficando a noviciado, visto não haver remédio que desse esperança de estancar o mal.
pequena impossibilitada de caminhar; foi-lhe forçoso guardar o leito. As pernas Como a noviça desejasse ardentemente unir-se a seu divino Esposo pelos san-
inflamaram-se por cima dos joelhos e viraram-se, um pouco, para trás; o pé tos votos religiosos, o confessor aconselhou-lhe uma novena a São Clemente,
esquerdo, pela contração dos nervos, ficou mais curto do que o outro, e o que é dando-lhe uma estampa com uma relíquia do caixão do Santo. A noviça come-
ainda pior, a menina gritava de dor que fazia pena. Não consultaram nenhum çou a novena, sendo atendida imediatamente; em poucos dias restabeleceu-se
médico, porque os escassos recursos, de que dispunham, não davam para isso. completamente e as suas faces tornaram-se rosadas; o que é mais admirável
Ouvindo falar de um curador por nome Bauer, os pais levaram-lhe a menina ainda, nunca mais recaiu na antiga enfermidade. Desde essa ocasião consa-
com indizíveis dificuldades. Depois de lhe dar um ungüento para esfregar e um grou a mais sincera devoção a seu insigne Benfeitor.
pó para tomar, o tal curador prometeu aos pais que a menina havia de sarar,
contanto que cada dia rezassem durante a aplicação do remédio 5 Padre-Nos- ***
sos a Jesus padecente. Os pais não rezaram essas orações, porque durante a
fricção a menina gritava que cortava o coração. A mãe esfregou o ungüento por Escrófulas. A menina Maria Assumpta Vanini sofria escrófulas, que se ma-
todo o corpo, porque todo ele estava dolorido, porém debalde. Alguns dias de- nifestavam de diversos modos; às vezes inflamavam-se-lhe as amígdalas, ou-
pois a menina estende os braços e os pés e ouve um estalo no corpo. Assusta- tras vezes apareciam tumores pelo corpo inteiro, sobretudo o joelho esquerdo
da pergunta-lhe a mãe: “Catarina que tens?” ao que a menina respondeu: “Ma- inflamava-se muito e supurava. Aparecendo por fim a cárie, o médico assisten-
mãe, estou boa, não sinto dor nenhuma, quero levantar-me”. Meia hora depois te, Dr. Ignacio Greco, desenganou-a declarando, por escrito, que o mal era incu-
apareceu o pai, e como de costume ia já perguntar pelo estado da filha, quando rável. Levada a Roma, recebeu do seu confessor uma estampa e uma relíquia
a mãe, fora de si de contentamento, lhe cortou a palavra contando-lhe o ocorri- do Servo de Deus, em cujo louvor começou uma novena. Em poucos dias, sem
do. O pai exclamou: “Louvado seja Deus, foram atendidas as minhas súplicas, outro medicamento, a pequena sarou completamente.
há meia hora estive junto ao túmulo do Pe. Clemente pedindo pela menina”. No
dia seguinte a pequena continuou a freqüentar a escola. ***

*** Antroflogose, isto é inflamação das juntas. No Instituto das Irmãs de


Vöklabruck na Áustria, uma empregada por nome Eva estava sendo atormenta-
Varizes. A costureira Madalena Kunz sofria varizes no pé esquerdo, havia da, desde há muito, por tumores no joelho, que os médicos diagnosticaram de
já 26 anos. Em agosto de 1862 pela acumulação do sangue as veias rebenta- antroflogose reumática crônica. O joelho contraiu-se tanto que só as pontas dos
ram por dentro. Os médicos examinaram a paciente e verificaram o perigo de dedos podiam tocar o chão; além disso o pé inchara-se todo tornando dolorido
vida. Chamaram um especialista da Universidade, o qual declarou incurável o o corpo inteiro. Essa enfermidade é impertinente, cura-se raramente e só de-
mal por o sangue já se haver espalhado pelo interior do corpo, mas assim mes- pois de muito tempo. Já havia sete meses que a pobrezinha gemia sem espe-
mo prescreveu compressas frias e repouso absoluto para os pés, porém debal- rança alguma de cura, não obstante os esforços e a boa vontade dos médicos.
de, as dores tornaram-se sempre mais agudas. No auge da dor a enferma, Desesperada, por fim, dos socorros humanos, começou Eva uma novena ao
desiludida do poder humano, lembrou-se do bondoso Pe. Clemente; começou Servo de Deus, que sempre foi o protetor dos pobres e enfermos. Já antes de
uma novena, rezando cada dia 9 Padre Nossos e Gloria Patri, com a promessa terminá-la, a empregada ficou completamente curada, podendo sem dificulda-
de ir em romaria ao cemitério, onde o Servo de Deus se achava sepultado e de des fazer os seus trabalhos costumados.
lhe adornar o túmulo. Já no primeiro dia da novena a costureira começou a
experimentar sensíveis melhoras, e no último dia estava completamente cura- ***
da. Cumpriu sua promessa indo a pé quatro horas de caminho até Enzersdorf e
voltando no mesmo dia. Reumatismo. Uma senhora de 67 anos, chamada Madalena, sofria reuma-
tismo agudo, havia já dois anos, no braço esquerdo, que pela violência da dor

112
se havia curvado, impossibilitando-a de trabalhar. Essa senhora idosa foi tão ouvindo suas lamentações e gemidos, disse-lhe com clareza: “Mesmo que eu
infeliz que, ao entrar um dia em casa, levou uma queda desastrada na escada, caísse do céu, não a poderia curar, pois que tirado, uma vez, o nervo eu não o
quebrando-se o braço que ficou preso ao corpo somente pela pele e pela pouca poderei repor”. Para a convencer da insensibilidade completa do médico intro-
carne que ainda restava. Chamaram o cirurgião, que em vista da avançada duziu uma agulho do dedo até o cotovelo, sem que a enferma tivesse a menor
idade da senhora declarou impossível uma cura em regra. Tentou porém o pos- sensação de dor. Francisca teve um sonho, pareceu-lhe estar ajoelhada diante
sível, foi nada menos de trinta e duas vezes à residência da enferma sem toda- da imagem da Virgem Santíssima em atitude de súplica, e pedia que lhe restitu-
via conseguir resultado algum. Como essa senhora conhecera pessoalmente o ísse a saúde, mas a Virgem parecia dizer-lhe: “Não precisas que eu te cure,
Pe. Clemente e duas vezes se reconciliara com ele na ausência do seu confes- porque tens um Santo que te pode valer, vai ter com o teu confessor, pede-lhe
sor ordinário, invocou com confiança o seu auxílio e começou em seu louvor uma relíquia e faze a oração”. No dia seguinte contou o sonho a seu confessor,
uma novena, colocando a relíquia do seu caixão sobre o lugar dolorido. Durante que lhe deu uma relíquia do Pe. Clemente e a 12 de dezembro de 1876 come-
a novena o braço ficou completamente curado. A fratura e o reumatismo desa- çou a novena depois de afixar a relíquia do Servo de Deus sobre o braço; já no
pareceram de uma vez para sempre, deixando no coração da anciã o mais quarto dia da novena sentiu entrar-lhe no braço uma vida nova, pôde movê-lo,
profundo sentimento de gratidão para com seu insigne Benfeitor. levantá-lo e dai a poucos dias até erguer pesos consideráveis. No cotovelo,
donde extraíram as três lascas de osso, notava-se um vácuo qualquer, mas a
*** chaga estava curada e o braço direito tornara-se tão forte como o esquerdo.
Milhares de casos semelhantes, verdadeiros milagres operados pela invo-
Peritonite e parto difícil. A senhora Maria Hofbauer sentia sempre dores cação devota de São Clemente e pelo uso das suas relíquias, poderiam aqui
atrozes por ocasião do parto; no último recebera até os sacramentos dos mori- ser alegados e descritos com todos os pormenores para a edificação dos leito-
bundos. Já de há sete meses estava ela em estado interessante quando sobre- res. Bastam, porém, os que aqui deixamos descritos para moverem os cora-
veio a peritonite, que a deixou sem movimento e sem esperança de salvação. O ções dos brasileiros e dos que nesta terra hospitaleira procuraram um torrão
médico, a parteira e todos os que a conheciam, contavam certo com a morte da amigo, e invocaram com devoção e confiança o grande taumaturgo nas suas
padecente. Depois de empregar todos os recursos humanos a seu alcance, necessidades corporais e espirituais, merecendo assim sua valiosa proteção.
desamparada pela medicina, pediu conselho a seu pai espiritual que lhe apon- Cada um que ler estas linhas, experimente em suas dificuldades o poder e a
tou o grande amigo dos doentes, cujo coração se sacrificara tantas vezes para bondade de São Clemente, o humilde e operoso Redentorista, e procure imitar
não ver ninguém padecer; aconselhou-a fazer uma novena ao Pe. Clemente, as suas virtudes consumadas. São Clemente tem valido a todos indistintamen-
dando-lhe uma relíquia do Servo de Deus. Tão grande foi a sua fé e a sua te, a moços e velhos, a ricos e pobres, a seculares e a religiosos, a casados e
confiança ao começar a novena, que deixou de lado todos os remédios. E — solteiros, a homens e mulheres; e se os favores concedidos pelo Santo têm sido
coisa estupenda — o seu estado foi melhorando dia a dia, e depois de catorze mais numerosos para as mulheres do que para os homens, não se atribua isto
dias já pôde ir trabalhar com os seus na colheita do trigo; teve, a seu tempo, um ao pouco amor de Clemente aos homens, mas só ao fato de que, em geral, as
parto muito feliz, o mais feliz de toda sua vida conjugal, não sendo preciso, para mulheres tem mais piedade e mais confiança no poder de Deus e da religião. O
ele, nem sequer chamar a parteira, que habitava a casa contígua à da parturi- contrário poderíamos esperar do Santo que, como temos visto em sua vida,
ente. trabalhava indefesamente de preferência para os homens, consagrava sua vida
aos moços e aos meninos abandonados. O nosso desejo é ver os homens,
*** espíritos fortes, agrupados ao redor da imagem do grande São Clemente, que
é o Santo da fé prática, o defensor da religião, que deve entusiasmar os homens
Fraturou um braço. Num dos conventos das Elisabetinas na Áustria uma todos da nossa Pátria.
donzela de 22 anos de idade, por nome Francisca, tendo de pregar na parede
um quadro um tanto pesado, caiu desastradamente rolando pela escada e le- ***
sando o cotovelo do braço direito. O médico julgou tratar-se apenas duma
deslocação do osso, mas não, tardou a descobrir que havia fraturação do braço.
Um mês depois a moça foi levada a Viena, onde os médicos julgaram necessá-
rio proceder à operação para a extração de umas lascas de osso. Feita a opera-
ção sobreveio uma febre fortíssima apesar das unções, fricções, compressas
etc.; o braço ficou amortecido, imóvel, insensível e a chaga não se cicatrizou.
Para as necessárias sensações no braço foram empregadas ondas elétricas,
porém debalde. Em vista de tudo isso os médicos deram o caso por perdido,
ainda mais que na operação foram cortados os nervos. No hospital, o médico,

113
Alguns axiomas aconselhados pelo Santo
dos pela intenção com que as fizemos. “Examinarei Sião com tochas e Jerusa-
1. Ao entrar ou sair de casa, ao levar algum objeto de um quarto ao outro, lém com lanternas”.
faça-se sempre a boa intenção, tudo depende dela; por uma boa intenção até 14. É sempre bom fazer alguma pequena mortificação, porém oportuna-
as coisas mais insignificantes tornam-se grandes diante de Deus. mente e sem coação; gosto de ver alguma coisa, não me deterei nela, sinto
2. Depois da queda original, o homem é imensamente mais feliz do que prazer em alguma comida, tomarei uma garrafa menos e pronto.
antes dela; por Jesus Cristo ele conseguiu direito sobre o próprio Deus, que lhe 15. A tristeza é nociva ao corpo e à alma; não presta para nada.
pertence. Por isso canta a Igreja: “Ó culpa feliz de Adão!” Os anjos do céu admi- 16. Ninguém se esforce demais para ter sempre a intenção mais perfeita;
ram os homens, que revestiram da sua carne o próprio Deus, e ter-lhes-iam faça-a de manhã do melhor modo possível; e ponha-se a trabalhar sem preocu-
inveja, se isso não repugnasse a sua natureza. Se Satanás tivesse podido su- pações, como uma criança que anda sossegada o seu caminho até encontrar
por que Deus salvaria o homem por um milagre tão espantoso, não teria tenta- algum empecilho — só então é que grita por sua mãe. Deus mesmo nos dará os
do a Adão. meios de avançarmos na perfeição se o quiser.
3. Procuremos em todas as coisas agradar só a Deus; é bom tudo quanto 17. Devemos tratar com Deus como uma criança com sua mãe.
fazemos por Deus. 18. No púlpito é preciso derrubar, com força, as nozes e no confessionário,
4. Para baixo rola a pedra facilmente, para cima só com trabalho se leva. colhê-las com vagar e calma.
5. Quem observa as coisas pequenas na vida espiritual, em breve se torna 19. Não permaneças sem temos por causa dos pecados perdoados; os
perfeito; muitos gostariam de executar coisas maravilhosas e sensacionais, e pensamentos que nos causaram a queda podem voltar facilmente; o hábito
desprezam as coisas insignificantes quem despreza as coisas pequenas não é deu-lhes grande força sobre nós; se lhes dermos inteiro consentimento teremos
digno das grandes. feito no pensamento o mesmo pecado como outrora na ação.
6. Se os Santos pudessem sentir arrependimento no céu, tê-lo-iam por não Caminhemos com prudência porque levamos um tesouro em vasos frá-
haverem aproveitado mais da fonte inesgotável dos méritos de Jesus Cristo. geis.
Santa Teresa apareceu um dia a uma das suas religiosas e afirmou-lhe que 20. Devemos imprimir-nos profundamente a Paixão de Nosso Senhor; de-
com gosto suportaria todas as penas dos mártires até o dia do juízo final, se pois da comunhão e da missa, não pode haver para nós devoção mais útil do
pudesse aumentar no céu a sua glória o quanto corresponde ao merecimento que essa meditação, que nos mostra o valor da alma humana, e nos convida a
de uma Ave Maria. santificar-nos. Façamos isto sempre com calma, como quando pensamos em
7. Quem julga ter caído, humilhe-se diante de Deus, peça perdão e conti- um amigo ou em um prado sorridente e verde.
nue tranqüilo; os nossos defeitos devem conservar-nos humildes, não pusilâni- 21. Quando Satanás tentou a Jesus não sabia ser Ele o Filho de Deus; isso
mes. só ficou sabendo quando Jesus expirou na cruz; todavia reconheceu em Jesus
8. Com sua morte dolorosa Jesus nos quis remir e prestar satisfação tão um homem que antes nunca vira, sem pecado e imperfeições; e começou a
copiosa, a fim de nos mostrar o excesso do seu amor, pois que nos ama com temer que Ele fosse talvez o Messias prometido, mas em seu orgulho não pôde
caridade eterna. Deus não pôde fazer mais do que fez para salvar o homem, e capacitar-se de que o humilde filho do carpinteiro, que trabalhava até cansar-se
todos os condenados deverão confessar que se perderam por própria culpa. na sujeição completa a Maria e a José, pudesse ser o Filho de Deus. Satanás é
9. Na oração devemos ser como os judeus ao construírem os muros de mais prudente do que todos os homens, sabe e compreende tudo menos a
Jerusalém: ter a espada em uma das mãos e a trolha na outra. humildade e a obediência.
10. Para se conseguir a santidade, o melhor meio é lançar-se, como uma 22. A todo o instante celebram-se missas no universo; uma única missa
pedra, no oceano da vontade divina, e como uma bola deixar-se jogar por Deus seria suficiente para remir mil mundos e esvaziar o inferno, se pudesse ser
segundo a sua vontade. oferecida pelos condenados; até a própria morte de Jesus teria sido desneces-
11. Os maus pensamentos devemos compará-los a uma folha que cai, ou a sária, se antes dela pudesse ser oferecido esse sacrifício augustíssimo dos
uma mulher que grita: não nos incomodar nem deter-nos neles, caminhar sem nossos altares; todos os que se acham na amizade de Deus tornam-se partici-
lhes ligar importância: eis o nosso dever. pantes de todas as missas, e com elas, de todos os merecimentos de Jesus
12. A graça divina não pode ser forçada, tudo deve ser feito com mansidão; Cristo.
a Mãe divina sofreu mais do que todos os mártires e entretanto permaneceu 23. O mundo existe por causa dos eleitos; os maus são os instrumentos de
sempre tranqüila e serena. que Deus se serve para provar e purificar os bons.
13. No momento da morte haveremos de ver o que fizemos, falamos, pen- 24. Deus não precisa de ninguém. — Louvor se dá somente às crianças e
samos, e o que poderíamos ter feito, falado e pensado, se tivéssemos aos loucos; podem os homens louvar-nos ou censurar-nos; por isso não fica-
correspondido à graça; veremos quais os efeitos causados aos outros por nos- mos nem melhores nem piores diante de Deus.
sas palavras e obras; mesmo nas nossas próprias ações boas seremos julga- 25. Nunca nos será lícito expor-nos ao perigo de pecar mortalmente, mes-
mo que com isso pudéssemos despovoar o inferno e salvar o mundo inteiro.

114
26. Se virmos as ruas regurgitar de povo, lembremo-nos do rumor das ruas
de Jerusalém, no momento em que Jesus foi arrastado ao palácio de Pilatos ou
Herodes.
27. É melhor que se fale com Deus do pecador, do que de Deus com o
pecador.
28. Deus não necessita da nossa adoração e do nosso serviço, mas nós CAPÍTULO XXVIII
precisamos de Deus.
29. Todas as criaturas foram feitas por causa do homem, o homem só para
Deus.
Na memória da Congregação
e da Igreja
As reuniões dos rapazes — Os primeiros noviços — Atividade do Pe.
Passerat — Difusão da Congregação — A província do Rio — A província de S.
Paulo — Aparecida, Campinas, Penha, Perdões, Araraquara, Cachoeira —
Quadro sinótico.

A morte de Clemente causou impressão profunda em todos os que conhe-


ciam os seus trabalhos e a significação e importância da sua atividade para a
sua terra natal, e em geral para a Santa Igreja. Sebastião Job terminava um
curso de retiro espiritual às irmãs da Visitação no dia em que se realizou o
sepultamento de Clemente. Na alocução final admoestou as religiosas a que
pedissem ao Senhor, se dignasse mandar operários à sua vinha..., “pois que
ontem — disse — o Senhor nos fez passar por uma dura provação tirando-nos
o Apóstolo de Viena, a coluna da nossa diocese”.
Ao receber a notícia do passamento de Clemente o Imperador exclamou:
“Isto é duplamente doloroso para mim e meu povo, bem como para toda a cris-
tandade, porque ele era a coluna da Igreja”.
Depois da morte do Mestre, os discípulos agruparam-se ao redor de
Madlener, amigo e confidente de Clemente, que o estimava por seu caráter
franco e resoluto, por sua piedade esclarecida, por sua formação intelectual e
por sua energia prudente. As reuniões dos moços continuavam como dantes na
casa de Madlener, e depois na residência de Darnaut, capelão imperial, que se
edificou sobremaneira com o bom espírito que reinava entre aqueles jovens,
formados na escola de São Clemente.
No princípio temeu-se pela Congregação, porque o decreto imperial visava
um favor pessoal ao Pe. Clemente; felizmente esse temor logo desapareceu por
uma declaração autêntica do Monarca que mostrava vivo interesse pela pros-
peridade da Congregação a que pertencera Clemente, e à qual queriam per-
tencer tão distintos jovens. Com permissão imperial 32 apresentaram seus no-
mes para o começo do noviciado: 9 coadjutores, 15 teólogos, quase todos for-
mados em jurisprudência, medicina etc., 1 estudante de filosofia, 3 funcionários
públicos, 1 oficial e 3 operários.
No sábado de Pentecostes, que esse ano caiu a 19 de maio, devia come-
çar o noviciado; como a residência oferecida pelo Imperador ainda não se acha-
va ultimada, os Padres Franciscanos cederam parte do seu convento para se
instalar provisoriamente a nascente comunidade redentorista. Os primeiros 6

115
noviços entraram como candidatos; dias depois o Pe. Martinho, devidamente filhas da casa-mãe de Viena, autorizada em 1820.
autorizado pelo Superior Geral, deu o hábito provisório aos noviços, pois que o As províncias da Itália tem sido incansáveis em a pregação de numerosas
noviciado começou propriamente a 2 de agosto, que é o dia do Santo Fundador. missões, de abençoados retiros frutificados pelas virtudes acrisoladas dos mis-
O Pe. Martinho escreveu ao Pe. Passerat que se achava ainda na Suíça: “... Os sionários e dos demais sacerdotes que, dentro dos claustros, vivem na prática
nossos noviços são humildes, obedientes e piedosos, mostram muito amor e das mais heróicas virtudes, observando, com religioso escrúpulo os menores
afeição à Congregação, de modo a servirem de modelo a qualquer Redentorista pontos da santa Regra, como desejava o grande Fundador Santo Afonso. Mas
mais velho; Deus recompense ao nosso querido Pai todos os seus trabalhos e essas Províncias não saíram da Itália nem propagaram, fora dela, a Congrega-
esforços pela Congregação; a ele devemos esta obra; mesmo que ele estivesse ção. Somente uma tentativa foi feita pelos padres italianos em 1853, a de abrir
agora vivo, a coisa não poderia ir melhor... V. Revma. com certeza se alegrará na América do Sul uma residência, que pouco durou, porque dos três padres
em ver esses seus bons filhinhos”. que vieram, um faleceu afogado num rio, dois meses depois, outro foi consumi-
Entretanto o Superior Geral nomeara o Pe. Passerat para suceder a São do por uma febre perniciosa e o terceiro foi expulso a viva força. — Os
Clemente no cargo de Vigário Geral da Congregação transalpina. Felizmente Redentoristas da Itália têm desenvolvido a Congregação na sua Pátria, mas
essa nomeação não encontrou nenhum obstáculo por parte do Governo. Só em não fora dela.
dezembro é que puderam entrar em sua residência própria. Eram então 15 A Congregação transalpina, porém, bebeu o temperamento de São Cle-
noviços sob a direção do Pe. Passerat, que passaram a Nossa Senhora da mente e herdou dele o desejo ardente de espalhar, o mais possível, os seus
Escada. conventos e de penetrar em todos os países. Humanamente falando, se não
Bem depressa desenvolveu-se a comunidade de Viena, pois que os fôra a Providência que mandou São Clemente a Roma fazendo-o entrar, como
Redentoristas, até então desconhecidos do povo, caíram na simpatia geral. Um que por milagre, na Congregação, os Redentoristas talvez existissem apenas
ano depois a casa nova já contava 40 religiosos. Sete anos mais tarde Viena na Itália e não abarcassem o mundo como o vemos agora. Para que o leitor
mandou seus padres para Lisboa, Mautern, Innsbruck, Alsacia e Suíça. Como possa fazer uma idéia da expansibilidade da Congregação transalpina, e admi-
as leis austríacas muito embaraçavam a Congregação impedindo a comunica- rar a grande obra do Santo, cuja vida vimos descrevendo, pomos aqui um qua-
ção com Roma, o Pe. Passerat, que sentia a premente necessidade de entrar dro do desenvolvimento da Congregação transalpina, segundo o último catálo-
em contato com a Congregação-mãe, mandou a Nápoles o Pe. Springer, para go de 1927.
que estudasse, nas diversas residências redentoristas, o espírito e os usos da
Congregação. Para o Capítulo Geral de 1832 em Nápoles já foi possível ao Pe. ***
Passerat mandar seis padres transalpinos.
A Congregação desenvolveu-se rapidamente, abençoada por seu segundo A Província Austríaca, da qual todas as outras saíram: depois das muitas
fundador, São Clemente Maria, que do alto do céu olhava para a sua obra pre- divisões possui ainda 12 casas com numerosos missionários.
dileta, a obra principal da sua vida. O Pe. Passerat governou a parte transalpina A Província Belga possui 31 casas: 12 na Bélgica, 3 nas Antilhas, 10 no
da Congregação quase trinta anos, viu realizada a profecia de Clemente, de Congo, 2 no Canadá-rutheno, e 4 na Galícia polaca.
que a Congregação se espalharia pelo mundo. Nos primeiros anos de seu go- A Província de Baltimore — na América do Norte — uma das maiores da
verno o Pe. Passerat introduziu a Congregação na Bélgica, Holanda, América Congregação, possui 29 casas sendo: 23 nos Estados Unidos e 6 nas Antilhas.
do Norte, Baviera, Inglaterra e França. A Província de Lion possui 22 casas: 15 na França, 5 no Chile e 2 no Peru.
Em 1848 Passerat depôs o seu pesado cargo; pouco depois foi abolido o A Província Bávara possui 15 asas: 9 na Baviera, 6 no Brasil.
vigariado geral transalpino, sendo a Congregação dividida em Províncias, go- A Província Holandesa possui 15 casas: 8 na Holanda, 2 no Suriname —
vernadas por superiores provinciais, que dependem direta e imediatamente ao Guiana Holandesa — e 6 no Brasil.
Reitor-mor, que desde 1855 fixou sua residência em Roma. A Província Rhenana possui 20 casas: 15 na Prússia e 5 na Argentina.
Em poucos anos a Congregação estendeu os ramos vigorosos ainda mais A Província Inglesa possui 9 casas e não tem Vice-Província.
longe, para a Irlanda, Escócia, Espanha, Austrália. Ultimamente fundaram-se A Província de São Luiz — na América do Norte — 22 casas: 16 nos Esta-
casas na Dinamarca, Índia Ocidental, México, Congo Belga, África Meridional e dos Unidos e 6 na Oaklandia.
Filipinas. No último ano da guerra mundial fundou-se no Canadá uma segunda A Província Irlandesa possui 7 casas: 5 na Irlanda e 2 nas Filipinas.
Província, e nas Antilhas uma segunda Vice-Província. Em 1918 — justamente A Província Parisiense possui 21 casas: 14 na França e 7 na Colômbia.
110 anos depois da expulsão — entraram os Redentoristas outra vez em Varsó- A Província Espanhola possui 25 casas: 14 na Espanha, 9 no México e 2
via. Há atualmente na Congregação Redentorista 21 Províncias e 15 Vice-Pro- na Venezuela.
víncias com 310 residências e mais de 5.000 religiosos. A Província de Praga possui 16 casas — não tem Vice-Província.
Com exceção das casas que pertencem às Províncias romana, napolitana A Província Polaca possui 6 casas — não tem Vice-Província.
e siciliana, todas devem a sua origem ao apostolado de S. Clemente. São todas A Província Alsaciana possui 11 casas: 9 na Alsacia-Lorena e 2 na Bolívia.

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A Província do Canadá possui 8 casas com uma Vice-Província em Annam. desejosos de aumentar suas fileiras com sacerdotes nacionais, abriram uma
A Província de Toronto possui 11 casas sem Vice-Província. casa em Congonhas do Campo, onde se acha a escola apostólica; recente-
A Vice-Província autônoma de Zwittau possui 4 casas. mente fundaram a casa de Campos, no Estado do Rio.
A Província da Austrália, há pouco tempo separada da Província Irlandesa, No mesmo ano em que os Padres da Província Holandesa chegaram ao
possui 7 casa. Brasil, dois distintíssimos representantes do episcopado brasileiro fizeram em
Quando em 1904 a “Vida de S. Clemente”, escrita pelo Pe. Saint-Omer, foi Roma a vista ad limina.
traduzida em português, a Congregação contava com 14 Províncias com 160 Como eram bispos segundo o coração de Deus e queriam sinceramente o
casas e 3.000 membros. — Vinte anos depois subiu o número a 21 Províncias, bem espiritual das suas ovelhas, insistiram com o Superior Geral dos
310 casas e cerca de 5.300 religiosos. Redentoristas, para que se dignasse enviar alguns dos seus súditos para as
Há poucos meses realizou-se também um dos mais ardentes votos de Sto. suas respectivas dioceses na Terra de Santa Cruz. Eram eles: D. Joaquim
Afonso e de São Clemente: a Província Canadense atravessou os mares e fun- Arcoverde, então bispo-coadjutor de S. Paulo, e D. Eduardo Duarte Silva, bispo
dou uma nova Vice-Província em Annam, com esperanças de penetrar ainda de Goiás. A Província Bávara gemia sob o peso da perseguição do Kulturkampf10;
mais longe no interior da Ásia. comendo de há muito o pão do exílio e sem esperança de voltar tão cedo para
a cara Pátria. O Superior Geral dirigiu-se ao Provincial, expondo-lhe o pedido
No Brasil dos srs. bispos, mostrando a necessidade e a conveniência de atendê-los e
aconselhando-os a mandar alguns dos seus padres, os mais intrépidos e ani-
Até fins do século passado o Brasil permanecia fechado à Congregação mados, para que, transpondo o Oceano, fossem quebrar o pão da palavra divi-
Redentorista, enquanto que as outras repúblicas sul-americanas já de há muito na aos filhos da Santa Cruz e propagar a Congregação nessa terra rica e futurosa.
sentiam o fogo do zelo apostólico dos filhos de Sto. Afonso. Os missionários bávaros receberam a insinuação do Superior Geral como uma
A primeira Província que se moveu, além dos Alpes, para a América do Sul ordem vinda do céu; resolutos despendem-se da Europa, para sempre, e confi-
foi a holandesa que em 1866 se dirigiu a Guiana Holandesa e fundou residênci- ados na Providência e na proteção de Santo Afonso e São Clemente, aprontam
as no Suriname. Catorze anos mais tarde, dez denodados Redentoristas fran- sua modesta bagagem, e em companhia do Sr. D. Eduardo, partem para o Novo
ceses penetraram o Pacífico e instalaram-se em Cuenca e Riobamba, e poucos Mundo. Eram seis padres e sete irmãos, destinados às duas futuras asas de
anos depois da morte do inesquecível Garcia Moreno, procuraram um seguro e Campinas de Goiás e de Aparecida do Norte no Estado de São Paulo. Depois
garantido abrigo nas hospitaleiras terras do Chile. de visitarem o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, cuja bênção implora-
Em 1883 os padres da Província Rhenana entraram em Buenos Aires e no ram para o futuro apostolado, embarcaram-se em Bordeaux a 5 de outubro de
ano seguinte, a Província de Paris enviou os seus missionários para a Colôm- 1894.
bia, levando-lhe as bênçãos da Redenção. Embora repletos de otimismo, o coração, o coração trepidava-lhes dentro
O Brasil, a maior das repúblicas sul-americanas, consagrado desde o seu do peito na longa e arriscada travessia de mares, nunca dantes navegados por
descobrimento ao mistério sublime da cruz, ainda estava por receber os filhos eles. A 29 do mesmo mês de outubro formaram em Aparecida a pequena co-
do Redentor, os Redentoristas. É certo que já em 1844 e outra vez em 1857 o munidade, destinada a tornar-se grande, bem grande pelo número de confrades
exmo. sr. D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana, se dirigiu por cartas ao e pelo apostolado que deveriam exercer sobre não pequena parte do Brasil. A
Superior Geral dos Redentoristas, pedindo missionários para a sua vasta diocese; pedido do Exmo. Sr. Bispo de S. Paulo e com a devida permissão do Superior
não pôde porém ser aten