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1.Introdução

Relações Internacionais

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Relações Internacionais

1ª Frequência

O estudo das relações internacionais é fundamental para se compreender o mundo em

que vivemos. Durante muitos anos, os assuntos internacionais ocuparam muito pouco espaço

no noticiário, no meio académico e menos ainda nas preocupações do dia-a-dia.

Os tempos mudaram e, hoje, dificilmente passamos um dia sem ouvir uma notícia internacional que, provavelmente, tenha algum impacto, ainda que indirecto, sobre nosso mundo imediato. As teorias das Relações Internacionais têm a finalidade de formular métodos

e conceitos que permitam compreender a natureza e o funcionamento do sistema

internacional, bem como explicar os fenómenos mais importantes que moldam a política

mundial.

1.1.A Sociedade Internacional

A sociedade internacional é o resultado da vontade dos sujeitos se juntarem e

colaborarem entre si para seguir um objectivo comum, mas que se mantêm separados apesar

de tudo o que fazem para se unir.

A sociedade internacional é poliárquica e nela o poder é, dominantemente, repartido

entre os Estados.

Na sociedade internacional as funções sociais estão definidas e interligadas, desenvolvendo-se complementarmente para salvaguardar a funcionalidade do modelo e a realização do seu bem comum privativo.

A sociedade

internacional

é

uma

organização

racional

do

poder

político,

um

instrumento burocrático e um sistema jurídico coerente.

Do processo evolutivo da sociedade internacional, levou-se à comunidade internacional, que teve o efeito de reforçar a necessidade de recorrer à interdisciplina, fazendo convergir técnicas e saberes estruturados em diferentes e anteriores conjunturas.

1.2.Conceito de Relações Internacionais

O estado de natureza trata de explicar a passagem da vida do Homem de uma situação

imaginada anterior à existência da sociedade para a situação, em que o conhecemos, de viver

sempre e apenas em sociedade.

A lei natural ou direito natural refere-se a um conjunto de leis a que os homens devem

obedecer pela natureza delas, ainda que não exista um poder que as imponha.

Alguns autores definem a disciplina das relações internacionais como sendo a que se ocupa das relações interestaduais, definição que outros afastam porque não abrange as relações, por cima das fronteiras dos Estados, entre grupos ideológicos ou de interesses que

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condicionam as relações interestaduais. Outros definem-na como a disciplina que estuda os factores e actividades que afectam a política exterior e o poder das unidades básicas.

As relações internacionais são o conjunto de relações entre entidades que não reconhecem um poder político superior, ainda que não sejam estaduais, somando-se as relações directas entre entidades formalmente dependentes de poderes políticos autónomos.

As relações internacionais consideram como agentes os Estados, as organizações internacionais, os poderes erráticos, as instituições espirituais e os indivíduos.

As relações internacionais contribuem para a compreensão, previsão, avaliação e controlo das relações entre os Estados e das condições da comunidade mundial.

1.3.Os Actores

1.3.1.O Estado

Até aos finais do séc. XIX e, ainda, nos princípios deste século a concepção dominante sobre os sujeitos do Direito Internacional era a de que só os Estados podiam ser sujeitos do Direito Internacional.

Os Estados são os sujeitos originários do Direito Internacional e os principais protagonistas e sujeitos das relações e do Direito internacionais, não é menos certo que disso não resulta que sejam os únicos titulares da personalidade jurídica internacional.

O Estado, mesmo sob o ponto de vista do Direito Internacional, deve ser perspectivado

como um fenómeno político e jurídico.

Poderemos dizer que o Estado é uma ordem social ou que é uma comunidade constituída por tal ordem. Esta ordem é uma ordem de coerção.

O Estado é uma superestrutura específica sempre determinada pelas relações sociais e

de produção, que tem como função geral assegurar a coesão e a unidade de uma formação social, de modo a garantir as condições de reprodução daquelas relações.

A relação do Estado com os demais níveis de uma dada formação social é uma relação

bem definida e caracterizada por graus e formas específicas de intervenção ou de não

intervenção de uns nas esferas próprias dos outros.

Sob o ponto de vista estrutural, o Estado é constituído por um conjunto de aparelhos que mais não são do que instituições onde o poder se materializa e se concentra para nelas prosseguir os objectivos que propõem realizar ou, se quisermos, para nelas exercer o seu domínio, aparelhos que podemos classificarem duas grandes categorias, a dos aparelhos repressivos e a dos aparelhos ideológicos.

Os aparelhos repressivos do Estado são constituídos pelo exército, a polícia, as prisões, outras instituições coercivas, certos ramos especializados do Governo e da Administração, etc., estes encontram-se fortemente centralizados e, consequentemente, a direcção dos mesmos é unificada e exercida pelo grupo que, no seio do bloco no poder, detém a hegemonia.

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Quanto aos aparelhos ideológicos da superestrutura estatal são a sociedade política e

a sociedade civil. O Estado “deve entender-se além além do aparelho governamental, também

o aparelho privado de hegemonia ou sociedade civil”, integrando assim nas estruturas estatais os aparelhos ideológicos. Estes aparelhos que são, entre outros, os meios de informação a

Igreja, a Escola, a Família, etc.

A concepção jurídica do Estado tem base em três elementos, o território, a população

e o poder político. A teoria jurídica do Estado “tem por objecto o conhecimento das regras que

emanam do Estado e que devem reger as suas instituições e funções, bem como o estudo das relações que existem entre os factos políticos reais e as regras de direito que devem servir

para julgar estes factos”, enquanto a teoria sociológica tem por objecto a análise das “condições sociais do Estado, a sua acção própria bem como os elementos particulares e as relações recíprocas entre estes”.

Uma corrente formalista e normativista nega toda e qualquer possibilidade de uma teoria sociológica do Estado. Nesta perspectiva define-se o Estado como “uma ordem juridicamente centralizada” que “apenas pode ser ordem de coerção”.

A teoria jurídica acabou por aceitar os três elementos, população, território e poder

político, que constituem o Estado.

1.3.2.As organizações Internacionais

O aparecimento das Organizações Internacionais e os efeitos que produziram na estrutura da sociedade e do Direito Internacional e a promoção do indivíduo à categoria de sujeito desse Direito constituíram um forte e decisivo revés para os defensores da clássica teoria dos sujeitos do Direito Internacional.

O Tribunal Internacional de Justiça admitiu a personalidade jurídica internacional das

Organizações Internacionais, desde que estas reunissem os requisitos nela indicados, ou seja, desde que estas possuíssem órgãos próprios, tivessem poderes para celebrar tratados, que os Estados Membros lhes reconhecessem capacidade jurídica e que estes Estados tivesse direitos

e obrigações para com a Organização.

Existem sujeitos que se encontram vinculados a actividades religiosas, a actividades assistenciais e a situações de beligerância.

A Soberana Ordem de Malta encontra-se subordinada à Igreja Católica sob o ponto de

vista religioso.

A Cruz Vermelha Internacional é fruto das iniciativas laicas de prestação serviços de

natureza assistencial.

Os beligerantes e os insurrectos são grupos organizados contra o governo de um

Estado.

1.3.3.Os indivíduos

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Vários autores entendem que a sociedade internacional é uma sociedade de Estados regida por normas do Direito Internacional que regulam directamente as relações interestaduais, sendo que o indivíduo não é destinatário directo dessas normas, mas são lhe aplicadas pelo direito interno, sendo que para esses o individuo não é sujeito do Direito Internacional. Outros entendem que a sociedade internacional é uma sociedade de indivíduos, sendo estes destinatários directos das normas do Direito Internacional.

O indivíduo só pode ser sujeito do Direito Internacional se for por este Direito

considerado destinatário directo e imediato das suas normas. O individuo tem um duplo estatuto, à defesa dos seus direitos, o indivíduo é um sujeito menor, isto é, um sujeito a quem

não ser reconhece, na maior parte dos casos capacidade de agir em defesa dos seus direitos, e aos deveres, já goza de um estatuto de plena capacidade nos termos do qual pode ser directamente responsabilizado pelos seus actos ilícitos.

Apesar de actualmente inúmeras normas do Direito Internacional terem como destinatário indivíduo, estes só muito excepcionalmente podem prevalecer directamente dessas normas, por ainda caber ao Estado a tutela dos direitos e/ou dos interesses dos indivíduos, bem como a obrigação de lhes fazer respeitar as regras do Direito Internacional. Significa isso que o indivíduo encontra-se geralmente mediatizado pelo Estado.

Contudo, actualmente, a tendência é no sentido de afastar essa mediação estatal, por forma a transformar o indivíduo em sujeito directo e imediato das normas do Direito Internacional.

1.4.Relações internacionais e politicas internacionais

1.4.1.As relações económicas internacionais

Com o desenvolvimento económico das nações, as relações comerciais tornaram-se mais complexas, evoluindo para um novo tipo de natureza plurifacetada a que podemos, genericamente chamar de relações económicas internacionais e em que se incluem as relações comerciais, industriais, financeiras, etc.

1.4.2.A guerra

As relações internacionais foram desde sempre perturbadas por guerras, o que levou à

necessidade de existência de normas sobre o uso da força. Com a I Grande Guerra, a acção bélica vem pôr a nu os nefastos efeitos da guerra sobre os povos e sobre as relações entre estes, o que vai gerar a consciência da necessidade da paz e de se encontrar instituições

capazes de garantir a cooperação entre os povos e os Estados.

A ideia das Organizações Internacionais de natureza política e de carácter geral e

universal começa a despontar, e assume, de imediato, grande relevância internacional, acabando por dar origem à primeira Organização dessa natureza, a Sociedade das Nações.

1.4.3.A consciência e a aceitação por diversos povos dos princípios jurídicos

fundamentais

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No direito internacional existem vários princípios gerais e fundamentais, que acabam por ser comuns a diversos sistemas jurídicos dos vários Estados e, por isso mesmo, estão introduzidos na consciência jurídica dos povos de tal forma que estes aceitam-nos como parte integrante da Ordem Jurídica Internacional.

1.5.Debates fundadores das relações internacionais

A apresentação convencional da origem e da evolução da disciplina de Relações Internacionais situa os primeiros passos para a formação da disciplina no período imediatamente posterior à tragédia da Primeira Guerra Mundial e nos rastros de destruição que ela havia deixado. O primeiro departamento de Relações Internacionais foi criado em 1917, na universidade escocesa de Aberystwyth, com uma preocupação normativa, o estudo da questão da guerra e, mais precisamente, com a finalidade de livrar a humanidade de suas consequências nefastas.

Edward Hallett Carr afirmou que a preocupação normativa dos primeiros académicos da área de Relações Internacionais acabou por cegá-los. Segundo Carr, foi tal preocupação que obrigou esses primeiros académicos a pensarem em termos do dever ser do mundo, em vez de estudar como o mundo realmente funcionava. Carr chamou de utópicos ou idealistas, em problemas ético-morais, impediu-os de elaborar instrumentos analíticos que permitissem perceber os sinais anunciadores da proximidade da Segunda Guerra Mundial.

Carr definiu outro grupo como os realistas, que estudavam como o mundo realmente era e que defendia uma visão menos utopia e mais sintonizada com as dimensões do poder e do interesse que permeiam a política internacional. A caracterização feita por Carr era de um confronto entre idealistas e realistas ficou conhecida como o primeiro grande debate da teoria das Relações Internacionais. Era um debate ontológico em que as partes eram o dever ser dos idealistas e o ser dos realistas. O primeiro grupo queria estudar como mudar o mundo para torná-lo mais pacífico, enquanto o segundo grupo queria estudar os meios à disposição dos Estados para que pudessem garantir a sua sobrevivência.

O início da Segunda Guerra Mundial enfatizou a vitória da lógica da sobrevivência, acabou dando razão aos realista e enterrando os idealistas. O realismo saiu desse primeiro grande debate, como o grande vencedor, e a publicação do livro de Hans Morgenthau em 1948, A política entre as nações, e a sua enorme influência nas décadas seguintes vieram confirmar essa supremacia.

Com a revolução behaviorista nas ciências sociais, a critica que passou a ser feita à área das Relações Internacionais deixou de ser ontológica e tornou-se metodológica. No segundo grande debate da área os realistas científicos defendiam maior rigor científico e maior influência dos métodos das ciências exatas. Criticavam a falta de diálogo com outrasáreas de conhecimento científico.

Esses realistas científicos defendiam a importação de métodos e conceitos de outras áreas, das ciências exactas em particular, como a cibernética e a biologia, um uso mais intensivo de métodos quantitativos para o estudo das Relações Internacionais.

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A Guerra Fira deu impulso à crítica científica. A disciplina de Relações Internacionais passou a aceitar um maior rigor científico, assim como a adoptar metodologias transparentes e falsificáveis, sem abrir mão dos avanços ocorridos dentro da área a partir dos estudos mais tradicionais do realismo clássico.

No final da década de 1960 e no decorrer da década de 1970, vários desafios se impuseram ao realismo como teoria dominante das Relações Internacionais, eles tinham duas origens, a evolução da política internacional e a evolução da própria disciplina.

Na área académica, o surgimento de novos atores não estatais na política internacional, como empresas multinacionais e organizações internacionais governamentais e não governamentais, levou ao questionamento de premissas básicas do realismo. Assim, surgiram críticas à separação entre política doméstica e política internacional, bem como à divisão entre high e low politics, e à primazia da primeira em relação à segunda. Esses ataques levaram o realismo a uma crise aguda.

Lapid publicou um artigo no qual falava na existência de um terceiro debate que estava ocorrendo entre grupos racionalistas, a que Lapid designou de positivistas, e reflexivistas, a que Lapid chamou de pós-positivisttas. Lapid definiu o terceiro debate em termos ontológicos. Estava-se de volta aos termos do primeiro debate. Waever apontou que o debate actual pode ser dividido em duas partes, por um lado, o debate entre realistas e liberais e, de outro lado, o debate entre positivistas e pós-positivistas.

No final da década de 1980 também surgiu o construtivismo, uma contribuição que acabou sendo reconhecida como importante no decorrer da década de 1990, e que trouxe a influência de debates que estavam ocorrendo em outras ciências sociais para as Relações Internacionais.

1.6.Descrição geral das teorias das relações internacionais

A produção teórica nas Relações internacionais passou a levar em consideração influências e a entrar em debate com outras áreas de conhecimento. Assim, abriu-se o leque muito reduzido das influências recebidas pela disciplina e que eram exclusivas das disciplinas de História e de Economia, para abarcar áreas como a sociologia, a literatura, a filosofia política e a geografia.

Há duas grandes tradições da teoria internacional, o realismo e o liberalismo. Cada uma delas contem uma diversidade de perspectivas sobre as relações internacionais,muitas conflituantes entre si. Das duas grandes tradições, o liberalismo tem sido a mais bem sucedida nesse esforço, ainda que no mundo pós 11 de Setembro algumas vertentes do realismo tenham recobrado algum fôlego.

Há a contribuição do marxismo, muitas vezes desconsiderado pelos manuais convencionais da disciplina por não desenvolver uma teoria das Relações Internacionais propriamente dita. A herança marxista, que enseja a análise das relações sociais em sua totalidade, rejeitando a separação entre economia e política, produziu enfoques que procuram integrar a dinâmica do capitalismo mundial ao estudo do funcionamento do sistema internacional.

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Fruto da influência do marxismo ocidental na reflexão da área, a teoria crítica incorporou as análises do carácter conservador das ciências positivas formuladas pelos pensadores da Escola de Frankfurt para fundamentar seu ataque à epistemologia objectivista dos paradigmas dominantes da disciplina.

O construtivismo, talvez seja, hoje a corrente cuja influência mais cresce na área. É fruto da importação de abordagens da teoria social para as Relações Internacionais, o construtivismo destacou-se por introduzir nas análises o papel das ideias, das regras e das instituições como factores determinantes para a compreensão da natureza da anarquia e do comportamento dos Estados e dos demais agentes da política mundial.

2.Teoria Realista

No estudo das Relações Internacionais, 1 o realismo impõe-se como a visão de mundo dominante entre analistas e tomadores de decisões. O realismo não é um só, e reduzir sua expressão a três ou quatro elementos equivale a ignorar essa diversidade que faz sua força.

Ao longo do século XX, a área acadêmica de Relações Internacionais foi adquirindo contornos e características teóricas e conceituais independentes em relação às demais Ciências Sociais. Vários autores destacaram o internacional em autores como Maquiavel e Hobbes. Alguns foram buscar se havia algo parecido com o que se chama hoje de internacional entre os filósofos da Grécia Antiga e encontraram algo em Tucídides.

Pensadores como Tucídides, Maquiavel e Hobbes deram as premissas e princípios do realismo do século XX. Assim, conceitos como a sobrevivência, o poder, a auto-ajuda e o estado de natureza têm um destaque particular na leitura que os realistas fazem desses pensadores clássicos.

Tucídides é considerado o primeiro autor a tratar de um assunto central ao estudo das Relações Internacionais, a guerra. Os realistas consideram que uma das principais heranças de Tucídides é que, “em um mundo onde os poderosos fazem o que têm o poder de fazer e os fracos aceitam o que têm que aceitar”, 2 o medo de não sobreviver, o medo de deixar de existir, leva os Estados a iniciarem e se engajarem em guerras. Com esse tipo de leitura de Tucídides, os realistas destacam dois conceitos: o que veio a se chamar, mais tarde, de anarquia internacional, devido à falta de uma autoridade legítima e soberana ao nível internacional e o correlato medo de não sobreviver

Maquiavel deu enfase à sobrevivência do Estado como actor. O príncipe sem estado perde toda a sua relevância. Para sobreviver, o poder é necessário, e o uso da balança do poder, assim como de alianças, é crucial para lidar com o desafio de segurança. Maquiavel queria lidar com o mundo real, e não com o mundo como deveria ser. Os realistas caracterizam a visão de Maquiavel de relações entre as cidades-Estado como desprovida de qualquer carácter moral ou ético. Para Maquiavel, a moralidade que orienta as acções do individuo não se aplica nem deveria orientar as acções do principe.

De Hobbes, os realistas destacaram o conceito de estado de natureza que comparam com o estado de anarquia no sistema internacional. Para os realistas, a falta de um soberano que tenha o monopólio do uso legítimo da força nas relações internacionais é comparável ao

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estado de natureza de Hobbes. A leitura que os realistas fazem destes três pensadores, Tucídides, Maquiavel e Hobbes, destaca os elementos de sobrevivência, poder, medo e anarquia internacional que representam as premissas centrais do realismo nas Relações Internacionais.

2.1.As premissas comuns ao pensamento realista

Das tradições herdadas de Tucídides, Maquiavel e Hobbes, algumas premissas podem ser consideradas comuns a todos os realistas. Essas premissas são a centralidade do Estado, que tem por objetivo central sua sobrevivência, a função do poder para garantir essa sobrevivência, seja de maneira independente (auto-ajuda), seja por meio de alianças, e a resultante anarquia internacional.

2.1.1.Estado

Na visão dos realistas, o Estado é o ator central das relações internacionais. O Estado nas Relações Internacionais teria duas funções precisas, manter a paz dentro das suas fronteiras e a segurança dos seus cidadãos em relação a agressões externas.

Para os realistas, os indivíduos e os grupos de indivíduos que atuam nas relações internacionais fazem-no em prol e em benefício dos Estados que representam.

Os realistas consideram que o Estado é um ator unitário e racional, o que significa que o Estado age de maneira uniforme e homogênea e em defesa do interesse nacional.

O Estado convive com uma dupla realidade: uma interna, em que é soberano e tem a autoridade e a legitimidade de impor decisões e diretrizes, e uma outra realidade externa, em que está ausente qualquer autoridade que tenha a legitimidade de tomar e impor decisões.

A anarquia é o conceito definidor do realismo nas relações internacionais. O que se entende por anarquia é a ausência de uma autoridade suprema, legítima e indiscutível que possa ditar as regras, interpretá-las, implementá-las e castigar quem não as obedece. Não existe nas relações internacionais um único soberano que tenha o monopólio do uso legítimo da força. O que existe nas relações internacionais é a coexistência entre múltiplos soberanos que não podem abdicar do uso legítimo da força em favor de nenhuma terceira parte.

Para os realistas, a conseqüência da existência da anarquia nas relações internacionais é a mesma que a conseqüência da existência do estado de natureza para Hobbes:

desconfiança permanente entre todos, a sobrevivência como único objetivo possível ou, no mínimo, como o objetivo que define todos os demais, e a segurança como um bem de soma zero, isto é, a segurança de um só pode ser atingida em detrimento da falta de segurança dos outros, e vice- versa.

2.1.2.Sobrevivência

Para os realistas, o interesse nacional é a sobrevivência do Estado e sua permanência como ator. Nas relações internacionais, os realistas consideram que a segurança dos indivíduos só é mantida uma vez que a segurança do Estado do qual faz parte é mantida. Ao se garantir a sobrevivência do Estado, se garante também a sobrevivência do indivíduo.

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Maquiavel,

ao

definir

a

obrigação

do

príncipe

como

a

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luta

pela

sobrevivência,

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submeteu todos os demais fins e objetivos deste príncipe a essa luta pela sobrevivência.

2.1.3.Poder

Os realistas consideram o poder como o elemento central da sua análise das relações internacionais. Várias definições de poder coexistem nas Relações Internacionais. Enquanto alguns autores definem o poder como a soma das capacidades do Estado em termos políticos, militares, económicos e tecnológicos. Outros estabelecem uma definição de poder em termos relativos, ao definirem o poder de um Estado não em relação às suas capacidades intrínsecas, mas em comparação com os demais Estados com os quais compete. Waltiz afirma que o poder é a capacidade de influenciar o sistema internacional mais do que ser influenciado por ele.

Ligado ao conceito de poder encontra-se o conceito de balança/equilíbrio de poder. Para os realistas nas relações internacionais, o poder é central. A balança de poder não significa necessariamente que a distribuição do poder seja equilibrada entre os vários Estados. Algumas definições de balança de poder caracterizam-na em termos de equilíbrio enquanto outras a caracterizam pela falta de equilíbrio e a tentativa de estabelecê-lo.

Morgenthau define a balança de poder como o fruto de uma política escolhida e adoptada por estadistas que tomam decisões específicas no plano externo. Waltz vê a balança de poder como algo inerente a qualquer sistema internacional.

Os autores realistas divergem quanto à estabilidade de balança de poder, alguns afirmam que a distribuição bipolar é mais estável devido ao congelamento do poder que resulta dela. Outros afirmam que a distribuição multipolar é mais estável por introduzir um grau maior de flexibilidade na condução da politica internacional.

2.1.4. Auto-ajuda

Como resultado da anarquia internacional, os Estados têm, então, a obrigação de lutar por sua sobrevivência e de utilizar todos os mecanismos de poder que lhes são disponíveis. Um princípio cardeal do realismo nas relações internacionais é a auto-ajuda, ou seja, que nenhum Estado pode contar com outro para defender os seus interesses e a sua sobrevivência. Cada Estado só pode contar de maneira integral e completa com suas próprias capacidades para se defender e permanecer como ator nas relações internacionais.

2.2.Os realistas que marcaram a evolução

2.2.1.Os anos de formação

As Relações Internacionais, em geral, e o realismo, em particular, podem ser claramente separados em períodos pré e pós-Morgenthau. Hans Morgenthau foi quem organizou e deu consistência ao realismo como abordagem teórica das relações internacionais. Morgenhtau estabeleceu seis princípios básicos que, segundo ele, eram fundamentais para analisar e lidar com as relações internacionais.

No primeiro principiou afirmou que a politica, assim como a sociedade, é governada por leis objectivas que reflectem a natureza humana. Por lei, entende-se uma repetição

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consistente dos eventos, enquanto pela objectividade, entende-se o caracter imutável dos fenómenos da política. Portanto, para entender, analisar e lidar com a politica, é necessário referir-se à natureza humana, isto é, ao que há de mais profundo e mais imutável no ser humano.

No segundo principio, Morgenthau definiu os interesses em termos de poder, propondo, assim, fazer teoria na perspectiva do estadista. Morgenthau afirmou que todos os Estados têm o mesmo objectivo, o poder. Morgenthau começou a afirmar a autonomia da esfera politica em relação às demais esferas sociais, e elevou racionalidade ao instrumento central do processo político.

No terceiro principio destaca-se o poder como um conceito universalmente definido, mas cuja expressão varia no tempo e no espaço. Isto é, a expressão do poder varia com o contexto e o lugar nos quais este poder é exercido.

No quarto princípio estabelece-se a importâncias dos princípios morais como guias da acção política, mas afirma que os princípios morais devem ser subordinados aos interesses da acção politica. Para Morgenthau o limite dos princípios morais é a prudência, ao observar princípios morais, o estadista tem de ter claro que a segurança e os interesses do Estado que governa não estão ameaçados.

No quinto afirma que os princípios morais não são universais, mas sim particulares. Os princípios morais de um Estado não devem nem podem ser considerados princípios morais universais, expansíveis para o resto da humanidade.

No sexto princípio reafirma a autonomia da esfera politica em relação às demais esferas, como a política, a jurídica ou a religiosa. Morgenthau reconhece a legitimidade de se pensar os fenómenos sociais de várias maneiras, mas afirma que a política estuda fenómenos específicos e que a tornam total e legitimamente autónoma em relação às demais esferas sociais.

2.2.2.O realismo clássico e seus críticos

Um dos principais pensadores foi um contemporâneo e conterrâneo de Morgenthau foi John Herz. Herz definiu as relações internacionais como obedecendo a leis gerais e que regem todas as relações dentro de grupos. Para Herz, questões como a supremacia, o poder e a sobrevivência caracterizam não apenas as relações entre Estados, mas também as relações entre gangues urbanos ou mesmo as relações entre animais. Herz sustentava as suas convicções sobre a necessidade de haver um projecto transformador da realidade, projecto que não aceitasse políticas de status quo, principalmente quando preservassem injustiças.

Segundo Herz, o Dilema de Segurança verifica-se quando um Estado quer garantir a sua própria segurança, mas acaba sendo percebido como uma ameaça para os demais Estados.

A revolução behaviorista que varreu o desenvolvimento das ciências sociais nos Estados Unidos no decorrer da década de 1970 atingiu também a disciplina das relações internacionais. Autores como Talcott Parsons e Morton Kaplan impulsionaram essa revolução nas ciências sociais em geral e nas relações internacionais em particular. As teorias tinham por

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pressuposto central a objectividade do observador, o que se traduzia numa enfase cada vez maior na sistematização do uso de análises quantitativas.

Podem ser destacadas três consequências da disciplina. Uma maior influência dos métodos quantitativos na análise das relações internacionais. Passou-se a buscar modelos em áreas como a cibernética e a biologia para desenvolver o conhecimento sobre as relações internacionais, e alguns passaram a raciocinar na área das relações internacionais em termos de sistemas e subsistemas e influências uni ou bidirecionais. A terceira consequência trata-se do debate sobre níveis de análise.

Tanto Raymond Aron, como Martin Wight, desconfiava da excessiva cientificidade que os seus colegas norte-americanos imprimiam à disciplina e pregava, ao contrário, o estudo da história como fonte essencial para entender a política internacional. Aron afirma que a distinção entre as sociedades nacionais e a sociedade internacional é que, nas nacionais, os valores, as leis e o poder são centralizados, enquanto, na sociedade internacional, os valores, as leis e o poder são altamente descentralizados. Na sociedade internacional os Estados não são guiados por normas e leis, mas sim pelos seus interesses próprios. Para ele, a guerra e a diplomacia são dois exercícios que materializam as relações internacionais, e os dois agentes que representam os Estados são os diplomatas e os militares.

As guerras travadas por ideias e glória não têm um fim objectivo, a única saída aceitável é o triunfo.

Wight sugeriu que todo o pensamento teórico nas relações internacionais decorre de uma das três tradições fundadas por Maquiavel, Grotius e Kant, que Wight denominou respectivamente do realismo, racionalismo e revolucionarismo. Bull entende as relações internacionais como uma luta permanente de todos contra todos. O que caracteriza as relações internacionais para o realista é a desconfiança generalizada e permanente, de onde decorre a permanente luta por sobrevivência por parte de todos os Estados. Com isso, cada Estado só pode contar com as suas próprias capacidades para garantir a sua sobrevivência, e as amizades e alianças nas relações internacionais só podem ser passageiras e relativas a interesses comuns específicos.

Wight define os revolucionários como os herdeiros do pensamento kantiano nas relações internacionais. Para eles a desconfiança e a luta pela sobrevivência caraterizam as relações internacionais. Kant e seus herdeiros consideram que não é possível garantir a segurança de alguns em detrimentos dos demais e que só é possível garantir a segurança de um quando a segurança de todos é garantida.

Wight definiu Hugo Grotius e seus herdeiros nas relações internacionais como uma tradição intermediária, um compromisso entre o realismo de uns e a utopia dos outros. A existência de um conjunto de regaras e normas organizadas na forma do Direito Internacional é o que permite aos Estados conviverem sem alcançar a paz, mas também sem se encontrar em um estado permanente de desconfiança e insegurança.

Para Wight, todas as contribuições teóricas nas relações internacionais são simples variantes em torno de uma dessas três tradições de pensamento em torno das relações

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internacionais. Segundo ele, o que existe são teorias particulares das relações internacionais, impregnadas dos valores e interesses dos lugares em que tais teorias são produzidas.

3.A teoria liberal

O liberalismo é um dos paradigmas dominantes na teoria das relações internacionais e

sua influência cresceu muito após o fim da Guerra Fria.

3.1.A tradição liberal na teoria politica internacional

O liberalismo é uma grande tradição do pensamento ocidental que deu origem a teorias sobre o lugar do indivíduo na sociedade, sobre a natureza do Estado e sobre a legitimidade das instituições de governo. O pensamento liberal também produziu teorias sobre a organização da economia, em particular sobre a operação de mercados em que produtores individuais actuam livremente na busca de lucro. Só se pode falar em teorias liberais de RI a partir do século XX, mais especificamente, após a Primeira Guerra Mundial. A tradição liberal caracterizava-se pela preocupação com as relações entre indivíduo, sociedade e governo no âmbito doméstico.

Sabemos que a preocupação central dessa tradição é com a liberdade do individuo. Trata-se de uma preocupação essencialmente moderna, herdeira do Iluminismo, que afirma que os seres humanos são capazes, por intermédio do uso da razão, de definir seu destino de maneira autónoma. Os chamados direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade passariam a representar o fundamento filosófico mais importante das teorias liberais modernas, em especial aquelas que defendiam a ideia do contrato social.

Para os liberais, a busca, por indivíduos livres, da realização dos seus interesses produz um resultado social positivo.A ideia central é que as sociedades bem-ordenadas tendem a ser auto-reguladas, ou seja, são capazes de corrigir, por meio de instituições e processos inerentes a sua organização, desequilíbrios, ineficiências e crises que ameacem a sua existência e reprodução.

Os liberais afirma que as organizações politicas modernas asseguram condições para o progresso continuo e inevitável das sociedades humanas.

Os Governantes ambiciosos encontram nas guerras o melhor pretexto para aumentar impostos, restringir a livre expressão de posições contrárias, colocar oposicionistas sob suspeita, aumentar gastos militares, concentrar poder pessoal, etc. Kant afirmava ser a guerra “o exporte dos reis”, pois eles praticavam-na quase como um passatempo inerente ao exercício da sua função, sem considerações maiores sobre as suas consequências para os súbditos, que eram chamados a contribuir com sangue e dinheiro para o esforço da guerra.

O sistema internacional pode ser mudado de forma a tornar se menos conflituoso e

mais cooperativo através do livre-comércio, a democracia e as instituições internacionais.

3.1.1.O livre-comércio

A ideia de que o livro-comércio contribui para a promoção da paz entre as nações é

uma das mais antigas da tradição liberal. O filósofo francês Montesquieu já afirmava que “a

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paz é o efeito natural do comércio”, uma vez que gera uma relação de mútua dependência e interesses comuns entre as nações. Da mesma forma, Kante acreditava que a intensificação das trocas entre países contribuiria para o desenvolvimento do princípio da hospitalidade. Os pensadores ingleses Jeremy Bentham, John Stuart Mill e Richard Cobden também coincidiam na defesa das vantagens económicas e políticas do comércio internacional. Para eles, a expansão do comércio faria com que a troca passasse a representar o principal padrão de relacionamento entre países, substituindo progressivamente a guerra.

Os pensadores liberais do século XIX afirmavam haver uma incompatibilidade profunda entre o comércio e a guerra. Os conflitos armados prejudicavam muito a actividade económica doméstica, mas faziam com que o comércio internacional quase cessasse. Para os autores o comércio é necessário e vantajoso para o bem-estar das nações, uma vez que explora a complementaridade de economias mais bem dotadas de recursos naturais e mão-de- obra em sectores diferentes. Existe, assim, um interesse material concreto que explica a preferência de indivíduos e grupos sociais pela paz. A guerra seria favorecida por aquelas pessoas ou grupos que, contrariando os interesses gerais da sociedade, usam o Estado para aumentar o seu poder económico.

Os liberais argumentavam que o comércio criava laços entre as nações que reduziriam sua propensão a adoptar políticas agressivas contra os parceiros. Kant dizia que o intercâmbio comercial cumpriria uma função civilizadora nas relações internacionais, estimulando o contacto e a tolerância entre as culturas diferentes, estabelecendo canais de comunicação, aumentando as áreas de interesse comum e promovendo a cooperação para garantir a contínua expansão dos mercados mundiais.

3.1.2.A democracia

A segunda ideia forte do liberalismo acerca das possibilidades de mudança do sistema internacional em uma direcção mais pacífica é bastante conhecida e debatida nos dias de hoje. Trata-se de uma relação entre a democracia e a paz. A ideia básica é que os Estados democráticos tendem a manter relações pacíficas entre si e que, à medida que o número de países governados de forma democrática crescesse, uma espécie de zona estável da paz e prosperidade se formaria. A origem dessa ideia está na obra de Kant. Os princípios que regem as repúblicas modernas incluem a protecção dos direitos individuais, o estado de direito, a legitimidade do governo com base na representação e no consenso, a transparência e a publicidade nas decisões do Estado.

Para Kant, a origem das guerras estava, fundamentalmente, nas formas do governo imperfeitas. Em Estados dinásticos absolutistas, o monarca não devia qualquer satisfação a seus súbditos por decisões de politica externa. As suas ambições territoriais quase sempre se confundiam com interesses pessoais e feudais, sem consideração pelas consequências de aventuras militares sobre o bem-estar do próprio Estado e da população em geral, sobre quem recaiam os maiores custos das guerras. De acordo com Kant, nas repúblicas em que o poder estivesse baseado na representação de interesses colectivos, qualquer decisão de ir à guerra seria muito mais difícil. Se o governo fosse exercido em nome da cidadania, ou da maioria dela, uma iniciativa que colocasse em risco as vidas e o património desses cidadãos deveria ser objecto de ampla discussão e de uma justificativa racional e legítima.

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Os liberais argumentam que a opinião pública é um factor determinante na definição

de uma politica externa racional e moderada. Para os liberais, a manifestação da opinião pública é um elemento crucial para tornar a politica externa de um Estado mais pacífica. A base desse argumento está na crença dos pensadores dessa tradição na razão, ou seja, na capacidade de os seres humanos decidirem racionalmente sobre o que é melhor para a

sociedade em seu conjunto.

No plano internacional, a opinião pública também contribui para reduzir conflitos. Isso ocorre porque permite que os Estados tenham uma visão mais clara e transparente do processo de tomada de decisão dos seus vizinhos.

3.1.3.As instituições

O século passado é o único na história da humanidade no que diz respeito à

multiplicação de instituições internacionais e a sua presença irreversível na política mundial.

Do ponto de vista da tradição liberal não se pode esquecer que a preocupação com a formação de estruturas internacionais que, de algum modo, permitissem organizar as relações internacionais de maneira mais racional esteve presente desde o século XVIII.

Foi durante o “século das luzes” que começou a firmar-se a noção de que homens e mulheres fazem parte de uma comunidade mais ampla, que abrange o conjunto da humanidade. O cosmopolitismo de autores como Vattel, Montesquieu e Kant baseava-se na convicção iluminista de que os seres humanos são racionais e, portanto, iguais em sua capacidade de descobrir e buscar os seus interesses e o bem comum. Neste sentido, todo o individuo tinha obrigações e interesses em relação a sua próprio Estado, mas tinhas-os, igualmente, para com o resto da humanidade.

Os autores desse período buscam argumentos para restringir as guerras e defender a

cooperação entre Estados para o bem comum de uma sociedade internacional em formação.

O jurista holandês Hugo Grotius exerceu grande influência sobre a teoria das relações internacionais em função da sua defesa do conceito de sociedade internacional. Grotius sustentava que todo o Estado estava sujeito ao Direito Natural, sobre o qual, por sua vez, estava assentado o Direito das Nações. Para ele, o Direito Natural consistia em princípios morais gerais acessíveis a todo ser humano por meio da razão e do senso comum. Todas as pessoas eram portadoras dos mesmos direitos naturais que garantiam a vida, a propriedade e o direito à autodefesa.

O Direito das Nações, por outro lado, é necessariamente baseado no Direito Natural, mas resulta da vontade dos Estados em estabelecer regras de convivência baseadas no consenso. As leis da guerra e da paz deveriam reflectir os postulados morais do Direito Natural.

Grotius sugeriu que a lealdade à humanidade e ao Estado pode ser complementar e que os sujeitos principais do Direito das Nações são os Estados. Apesar de concordar com a ideia de sociedade universal, não defendia a formação de instituições supranacionais para promover a paz e resolver conflitos. Os Estados deveriam ser capazes de fazê-lo individualmente ou por meio de aliança ou tratados.

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Para os expoentes da tradição liberal, a solução para reduzir os conflitos internacionais não é a formação de um governo mundial. Os liberais acreditam que boas instituições são necessárias e imprescindíveis para garantir a liberdade e o bem-estar da sociedade.

A visão kantiana da paz nas Relações Internacionais significava criar uma estrutura

supranacional e fortalecer o Direito Internacional como mecanismo de solucionar controvérsias pacificamente e, se possível, expandir a zona de paz para outras regiões do

sistema internacional.

Encontramos fortes traços de sua concepção de sistema internacional na construção da Liga das Nações.

Foi no século XIX que surgiu as primeiras organizações funcionais voltadas para a cooperação em áreas técnicas, como saúde e comunicações. Essa é considerada a época de outro do Direito Internacional.

Autores como Jeremy Bentham e John Stuart Mill defenderam o estabelecimento de tribunais internacionais capazes de interpretar a lei e, eventualmente, proferir decisões como um passo indispensável para se alcançar uma ordem internacional pacífica e estável.

Foi preciso a Primeira Guerra Mundial para que os membros da sociedade internacional decidissem investir na criação de uma organização internacional de carácter permanente, com a função de garantir a segurança colectiva e individual dos Estados.

A Liga das Nações foi criada em 1919, na qual as potências vencedoras negociaram os

acordos que ordenariam o sistema internacional após a guerra.

O presidente americano acreditava que nações livres e democráticas teriam de

submeter as suas políticas externas ao aval da opinião pública que rejeitaria a guerra. A Liga teria como tarefa tornar transparentes as práticas diplomáticas e expor ao tribunal da opinião pública mundial os eventuais desígnios belicosos de países agressores.

A liga deve ser vista como um passo determinante na consolidação da ideia de

organização internacional como um elemento indispensável às relações internacionais.

3.2.Funcionalismo e interdependência

O realismo propunha-se a explicar a politica internacional como ela realmente é, e não

como deveria ser. Nesse sentido, o liberalismo era acusado de basear as suas análises em conceitos mais preocupados com a reorganização do sistema internacional de acordo com certos valores e postulados morais do que com uma compreensão objectiva dos interesses, forças e tendências que causaram os acontecimentos dramáticos que mudaram o mundo na

primeira metade do século XX.

O funcionalismo representa a tentativa liberal de fundamentar os seus modelos

teóricos em um método baseado na observação científica da realidade. Desacreditados pela catástrofe da Segunda Guerra Mundial, os liberais, contudo, continuaram acreditando que as suas teses centrais eram verdadeiras, ainda que aceitassem, em certa medida, que as suas teorias haviam sido desmentidas pela realidade. Mudaram o seu modo de estudo e agora,

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tratava-se de fazer como os realistas, “ver a realidade como ela é”, mas, diferente deles, mostrar os elementos que reforçam a possibilidade de cooperação.

O objectivo principal dos funcionalistas era estudar o funcionamento das organizações

internacionais e analisar como a criação de agências especializadas no tratamento de questões específicas das relações entre Estados poderia conduzir, gradualmente, ao aprofundamento da

cooperação.

O lema dos funcionalistas era peace by pieces, em referência à sua convicção de que a

paz tão ansiada pelos liberais seria atingida por meio da formação de redes de organismos internacionais que, cada vez mais, assumiriam funções que os governos nacionais não poderiam desempenhar sozinhos. Essas redes fortaleceriam a ideia de que somente a cooperação ofereceria a resposta aos problemas colocados pela maior integração da economia

mundial.

O pensamento de autores funcionalistas como David Mitrany é característico da tradição liberal em vários aspectos. Tinha-se optimismo quanto às possibilidades de construção de uma paz duradoura baseada na cooperação. A sua confiança quanto ao progresso das relações internacionais baseava-se no pressuposto utilitarista de que os indivíduos buscam sempre maximizar benefícios materiais em busca da felicidade.

O processo de ampliação gradual dos processos racionais da organização das políticas

públicas em âmbito internacional foi chamado pelos funcionalistas de efeito de transbordamento. Esse efeito verifica-se quando o sucesso de uma determinada forma de realização eficiente de uma tarefa ou função se transfere para uma outra área, incentivando a

cooperação intergovernamental em sectores antes submetidos à esfera do Estado nacional.

Ernest Haas percebeu com clareza as deficiências da abordagem que ajudou a formular e partiu para a revisão do funcionalismo. O neofuncionalismo é, talvez, a contribuição mais importante para a teoria das relações internacionais, aplicado ao fenómeno da integração regional. Hass incorpora a dimensão política ausente no funcionalismo. Para ele, a integração continua a ser um processo de transferência de competências dos Estados para as instituições supranacionais, mas não se pode confiar que a racionalidade técnica garanta a sua continuidade.

Hass acrescenta um componente importante ao modelo funcionalista, os valores. Para que as elites burocráticas e governamentais se empenhassem na construção e na ampliação de instituições internacionais eficazes, era preciso que estivessem convencidas tanto nos benefícios materiais resultantes da integração quanto da sua importância no contexto de uma visão do mundo que acredita ser a cooperação na interdependência a melhor forma de organizar as relações internacionais pacificamente.

Nos anos 70 foi criada uma nova abordagem teórica liberal. O panorama da política internacional nos anos 70 fazia crer que a ordem mundial do pós-guerra estava em transformação e que as mudanças indicavam um declínio relativo da influência das duas superpotências em questões importantes das relações internacionais.

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As economias nacionais estavam mais interligadas pelo avanço nas comunicações, pela intensificação de transacções financeiras, pelo crescimento no volume do comércio, pela actuação de empresas multinacionais em diferentes mercados simultaneamente, pela influência recíproca de movimentos culturais e ideologias, etc. Isso significava que os acontecimentos que ocorriam num país tinham efeitos concretos sobre outros países.

A interdependência é mais claramente percebida nas relações económicas, mas aplica-

se a outras esferas da política internacional.

Na interdependência todos os actores envolvidos são atingidos, em maior ou menor medida, por efeitos de acontecimentos ocorridos fora das suas fronteiras e decididos por outros governos ou pessoas.

Distinguem-se dois tipos de efeitos produzidos pela interdependência, a sensibilidade e a vulnerabilidade. A sensibilidade é o indicador do impacto, medido em termos de custos, que uma ocorrência em um país tem sobre a sociedade de outro, sendo que quanto maior a interdependência, maior a sensibilidade. A vulnerabilidade mede o custo das alternativas disponíveis para fazer frente diante do impacto externo, sendo que será alta quanto mais alto for o custo das iniciativas necessárias para fazer frente ao efeito gerado pela interdependência.

A interdependência tem três características centrais, a existência de múltiplos canais

de comunicação e negociação, a agenda múltipla e a utilidade decrescente do uso da força.

Ao propor o modelo da interdependência complexa, Keohane e Nye estão, na verdade, afirmando que o realismo estaria ultrapassado por não conseguir explicar, adequadamente, as mudanças na politica mundial.

Para Keohan e Nye, a interdependência pode ser fonte de conflitos.

Os teóricos da interdependência propunham encarar as organizações como resultado de escolhas feitas elos Estados. A função das organizações não seria a de suprir a redução da presença do Estado no exercício de um número cada vez maior de tarefas, como afirmavam os teóricos funcionalistas, mas resolver problemas que os formuladores de políticas reconhecem depender da cooperação de outros Estados.

Para Keohane e Nye, as organizações internacionais serviriam para reduzir os custos da interdependência e criar condições favoráveis à cooperação, vista como o meio mais eficaz para lidar com os conflitos gerados pelos novos padrões das relações internacionais.

3.3.O novo liberalismo institucional e a crítica ao neo-realismo

O neo-realismo, na formulação rigorosa de Kenneth Waltz, passou a ocupar a condição

de nova ortodoxia que manteria até os anos 90. As teses do modelo da interdependência complexa perderam espaço. Os temas económicos continuavam subordinados, numa hierarquia, aos imperativos da segurança. O uso da força continuava a ser opção real, até mesmo entre as superpotências. O estado continuava a ser o actor principal na política

mundial, controlando, quando necessário, os movimentos dos demais actores privados.

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Keohane procedeu a uma revisão que aceitava dois princípios realistas. Os Estados continuam sendo os actores mais importantes da política internacional e deve ser considerado como actor unitário. O sistema internacional é anárquico e as acções dos Estados são explicados a partir desse princípio organizador da estrutura do sistema.

O foco agora recairia sobre o Estado, concebido como um actor racional interessado em maximizar o seu bem-estar. A segunda concessão importante implica o abandono da reivindicação mais ousada de que a interdependência complexa representaria uma mudança estrutura da política mundial, impondo uma nova lógica no seu funcionamento, distinta daquela característica do sistema anárquico.

Os autores liberais, agora denominados neoliberais reconheceram que o contexto da anarquia é determinante para explicar o carácter das relações internacionais. Os neoliberais decidiram travar o debate teórico no mesmo campo dos neo-realistas. Os neoliberais concordavam com que a anarquia gera incertezas e inseguranças, mas divergiam quanto a concluir que a consequência é a adopção de estratégias de sobrevivência cujo o resultado é a competição pelo poder.

Há situações em que os Estados podem ter interesses comuns e nas quais o resultado pode ser a cooperação, e não o conflito. Para os neoliberais, Estados soberanos são, assim como para os neorealistas, atores egoístas , ou seja, orientados para a realização dos seus interesses individuais. Na anarquia os estados não conseguem realizar ao máximo os seus interesses justamente porque não têm informação suficiente sobre como os demais Estados reagirão às suas acções.

Sabe-se que é da natureza dos sistemas, especialmente sistemas complexos como o internacional, vincular os seus componentes em um ambiente de interacção estratégica. Nenhum actor consegue, sozinho, garantir a concretização dos seus objectivos simplesmente aplicando uma determinada estratégia.

Para os neo-realistas o comportamento dos Estados explica-se a partir da sua posição na distribuição de capacidades no sistema. Mudar o posicionamento de um Estado é difícil porque depende de um aumento nas suas capacidades que, num ambiente competitivo, será normalmente compensado pelos esforços das demais unidades.

Na anarquia descrita pelos neoliberais, o problema está, na maioria das vezes, em como mudar o contexto da interacção entre os Estados de modo que possam identificar interesses comuns. O argumento neoliberal é que o contexto da interacção estratégica pode mudar por meio da formação de instituições, que desempenham três funções básicas para a formação das preferências dos actores. Aumento do fluxo de informações, permitindo maior transparência acerca das intenções, interesses e preferências dos Estados, contribuindo para a redução da incerteza que caracteriza o ambiente anárquico. Permissão do controlo do cumprimento dos compromissos. Instituições que mudam as expectativas dos actores a respeito da solidez dos acordos ao longo do tempo.

Os liberais conseguiram apresentar uma visão alternativa ao cepticismo neo-realista com relação ao papel das instituições na <política mundial. Ao contrário de serem apenas um

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reflexo dos interesses dos mais poderosos, as instituições têm influência própria sobre as acções estatais na medida em que afectam os seus incentivos e os custos e na medida em que ajudam na compreensão do papel, dos interesses e das motivações dos Estados.

4.A teoria marxista

4.1.Marx e as Relações Internacionais

Marx não fez uma contribuição significativa para uma teoria das relações internacionais, nem dedicou interesse particular pelo desenvolvimento do capitalismo a nível internacional.

Marx tinha clareza do alcance global do capitalismo e do seu movimento expansionista

e universalizante, da sua força modernizadora e civilizadora. Para Marx, o capitalismo

representava uma força histórica que se generalizava em todo o mundo, tornando-se o modo de produção dominante. A sua expansão seria contra-arrestada pelas suas próprias contradições, que o levariam à estagnação e à sua suspensão por um novo modo social de produção. Para Marx, as tendência à estagnação, à concentração do capital e à queda da taxa

de lucro conduzem o capitalismo ao declínio como sistema económico global.

Marx presta uma contribuição fundamental para o desenvolvimento de uma visão crítica das relações internacionais se se considerar alguns dos pontos centrais da sua teoria. A concepção da história como um processo governado por contradições e antagonismos associados à forma de organização da produção material dos bens necessários à reprodução das sociedades humanas, faz com que se olhe para as relações humanas como um produto da sua própria acção, e não como resultado de forças da natureza que não se pode controlar.

Marx

demonstrou

que

a

produção

da

exploração de uma classe por outra.

riqueza

no

capitalismo

era

baseada

na

A função primordial do Estado seria a de assegurar a estabilidade da ordem capitalista, ou seja, garantir que os trabalhadores continuassem vendendo a sua força de trabalho no mercado e comportando-se como cidadãos respeitadores da lei.

Outro conceito importante é o da alienação. Marx acreditava que a emancipação dos seres humanos só poderia ser alcançada se se desmascarasse a natureza artificial das estruturas que limitavam a liberdade. A alienação significa que ideias, regras e estruturas resultantes de práticas sociais assumem um carácter objectivo, passando a ser tratadas como realidades exteriores à acção humana e, consequentemente, fora do seu controlo.

Marx apoiou a fundação e a organização da associação internacional dos Trabalhadores, em 1864, que fracassou nas revoluções de 1848. No sentido, do carácter internacional da luta de classes, a organização internacional do proletariado era essencial ao sucesso das lutas nacionais para a conquista do poder.

Existem três elementos importantes da teoria política de Marx, a necessidade de organizar as classes trabalhadoras em escala nacional, formando partidos políticos para conquistar o poder, a centralidade da solidariedade internacional para as lutas dos

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trabalhadores, dada a dimensão internacional da contra-revolução e o factor crucial do envolvimento das classes trabalhadoras nos “mistérios da política internacional”.

A arena política na qual a luta pela emancipação ocorreria estava situada na fronteira

entre o Estado-nação e o âmbito internacional. Marx acreditava que a luta de classes se internacionalizaria na medida em que a exploração do trabalho era um problema social

envolvendo “todos os países em que a sociedade moderna existe”.

No manifesto comunista, Marx analisou o alcance global do modo de produção capitalista e concluiu que a burguesia era uma classe internacional. Uma vez que a mobilidade do capital a tornava capaz de “aninhar-se em qualquer lugar, estabelecer-se em qualquer lugar, criar vínculos em qualquer lugar”. Por outro lado, o manifesto também afirmava que o proletariado moderno era uma classe sem pátria.

O internacionalismo do Manifesto representa o núcleo teórico da perspectiva marxista

da luta de classes no plano internacional. As organizações socialistas deveriam criar as condições para elaborar uma estratégia propriamente internacional, que deveria funcionar como uma espécie de partido internacional do proletariado, assumindo uma liderança à medida que construísse uma identidade de classe comum que se tornasse a base para a solidariedade internacional.

A universalidade dos valores burgueses perdeu-se para uma estrutura ideológica e

politica que representava as necessidades de desenvolvimento do capitalismo. O Estado capitalista moderno estimulava o nacionalismo e o patriotismo como estratégias de divisão do proletariado, ao mesmo tempo em que criava as condições para uma nova fase de acumulação

em escala global.

Marx nega a possibilidade de tomada, pura e simples, do aparelho de Estado burgues, pois ele seria incompatível com o governo dos trabalhadores e daria continuidade ao antagonismo entre as nações.

4.2.Lenin e o imperialismo: uma visão marxista das relações internacionais

Lenin formulou o que mais se aproxima de uma teoria marxista das relações internacionais. Lenin soube construir uma teoria política cujo o objectivo era o de situar o processo revolucionário russo no contexto internacional e lançar as bases cientificas para uma estratégia revolucionária que deveria ser internacional.

Lenin aponta a contradição entre as nações capitalistas como determinantes para desencadear o processo revolucionário que levaria à queda do capitalismo.

Lenin preocupava-se em explicar duas questões fundamentais à reconstrução do movimento comunista internacional, as limitações da teoria marxista no que se referia à afirmação de uma tendência do capitalismo a sofrer crises sempre mais graves e de difícil superação e a adesão do proletariado aos exércitos nacionais no quadro da carnificina da guerra interimperalista.

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A primeira questão encontrava a resposta na própria dinâmica do imperialismo. Para

enfrentar as crises de superprodução e a tendência à queda taxa de lucro, resultante da acumulação de excedentes e da concentração do capital, o capital monopolista busca novos mercados nos quais o lucro será maior.

Para Lenin, a internacionalização do capitalismo por meio da expansão colonial das potências imperialistas levaria ao conflito e à guerra.

A teoria do imperialismo de Lênin tornou-se a mais influente obra política para o

movimento comunista internacional no século XX. Lenin formulou uma teoria da politica internacional, ou seja, uma teoria que quer dar conta do comportamento, das estratégias e das acções de actores no terreno especifico do sistema internacional. Lenin introduziu na abordagem marxista do capitalismo a consideração dos Estados nacionais como actores do

sistema internacional, em substituição às classes sociais.

Para Lenin, a luta de classes assume uma nova forma, manifestando-se por intermédio do conflito entre Estados nacionais, que ele classifica como “oprimidos” e “opressores”.

4.3.Visões da periferia: as teorias da dependência

As teorias da dependência não constituem um corpo teórico homogéneo. Celso Furtado filia-se no pensamento keynesiano. Por outro lado, muitos expoentes do dependentismo consideraram as teorias formuladas na CEPAL insuficientes para explicar o subdesenvolvimento e fizeram recurso ao marxismo-leninismo, como André Gunder-Frank, Theotónio dos Santos e Samir Amin.

A assertiva mais importante dos dependendistas acerca da dinâmica do capitalismo

mundial aponta o subdesenvolvimento como produto do desenvolvimento das forças produtivas globais, ou melhor, das economias dos países do centro capitalista. Para Celso Furtado o esforço de modernização por meio da industrialização substitutiva é incapaz de tirar a periferia do atraso e da dependência. Impossibilitados de apropriar-se do excedente produzido localmente, os países pobres nunca teriam os recursos necessários para o seu desenvolvimento e não conseguiriam reduzir o gap (económico, tecnológico, militar) que os

separa dos países ricos e os condena à dependência.

Para os marxistas-dependentistas, o desenvolvimento nacional autónomo e sustentado somente poderia ser alcançado por meio de transformações nas relações de dominação que geravam a dependência, ou seja, por meio da luta anti-imperialista.

Os dependentistas estiveram muito mais preocupados com os aspectos económicos da dependência do que propriamente com uma teoria de política internacional. A dependência é essencialmente um facto económico, fruto do movimento de expansão do capital monopolista. A análise dependentista concentra-se na natureza e na dinâmica do sistema capitalista mundial e que os sujeitos dessa dinâmica são a burguesia internacional e as grandes empresas multinacionais, as relações entre países mais desenvolvidos e aqueles mais pobres são pautadas pelas suas relações económicas.

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Os dependentistas marxistas divergem da visão de Lenin sobre o imperialismo na

questão específica dos efeitos da expansão capitalista sobre as economias coloniais. Os dependentistas devotam pouco empenho à pesquisa sobre as formas do Estado nos países do Terceiro Mundo, preocupando-se muito mais com a análise dos mecanismos de exploração

dos países pobres pelas potências hegemónicas.

As teorias da dependência preocuparam-se, fundamentalmente, com o problema do

desenvolvimento desigual e as formas como a desigualdade se manifesta na economia

internacional.

Para Samir Amin as lutas de libertação nacional assumem claramente um carácter anti- imperialista, transformando-se na manifestação da luta de classes no plano internacional. Amin assimila a teoria do intercâmbio desigual de Arghiri Emanuel, que significa, simplesmente, transferência de valor da periferia para o centro, e, com base nessa noção, constrói a sua teoria do “desenvolvimento desigual”, uma combinação mais explícita de marxismo e nacionalismo terceiro mundialista.

A formulação de Teotónio dos Santos esclarece o ponto de vista dos dependentistas marxistas ao mesmo tempo em que reafirma as limitações da sua teoria, o aumento das contradições do imperialismo, tanto a nível imperialista, ou na relação com os Estados nacionais, como no aspecto financeiro, tem efeitos directos sobre as economias e sociedades dependentes, havendo dois agentes principais que disputam a hegemonia e a orientação das decisões imediatas, a grande empresa internacional e o capitalismo de Estado, sendo que a maior ou menor importância relativa de um ou do outro sector determinará diferentes regimes políticos.

4.4.O estruturalismo marxista de Wallerstein

O marxismo encontra uma outra vertente de pensamento sobre as relações

internacionais na obra de Immanuel Wallerstein. A sua teoria do sistema-mundo tem em comum com as teoria da dependência a preocupação com o desenvolvimento desigual que caracteriza o capitalismo global e as estruturas de dominação decorrentes dele. Wallerstein trata o sistema internacional como uma única estrutura integrada, económica e politicamente, sob a lógica da acumulação capitalista. Esse sistema-mundo é regido por leis de movimento que levam à exploração das economias pobres pelas economias centrais. Ao optar pela abordagem sistémica, Wallerstein passa a concentrar a sua atenção nas características estruturais do sistema-mundo devida ao processo de acumulação de capital se organizar no

tempo e no espaço.

Entende-se as oscilações do poder no sistema internacional como uma função da dinâmica do movimento do capital a nível global.

Os estados podem situar-se em três áreas possíveis, o centro, a semiperiferia e a

periferia. O centro concentra as actividades económicas mais intensivas em capital, mais complexas e sofisticadas tecnologicamente e que agregam mais valor. A periferia caracteriza- se por se especializar na produção de bens primários de baixo valor agregado e intensivas em mão-de-obra e por serem os Estados fracos, pouco institucionalizados e frequentemente

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autoritários ou ditatoriais. A semiperiferia tem um papel intermediário e combina traços do centro e da periferia. Os países dessa área registram um certo nível de industrialização, ainda que restrita a bens de consumo não duráveis e a produtos tecnologicamente menos sofisticados que já não produzidos no centro.

As três áreas do sistema mundial capitalista formam uma hierarquia de poder tanto económico quanto politico. Os países do centro exercem a sua dominação sobre a semiperiferia e a periferia seja por meio de força ou das alianças com as burguesias locais dependentes do mercado mundial. A semiperiferia desempenha um papel importante porque representa a possibilidade de ascensão dos países pobres a um patamar mais elevado de renda, via industrialização. Para Wallerstein, a existência da semiperiferia demonstra que a tese dependentista de que a distância entre ricos e pobres sempre aumentará não é necessariamente verdadeira. Os ciclos de crescimento são interrompidos por períodos de crise, normalmente de redução do ritmo de crescimento económico e, concomitantemente, declínio da hegemonia da potencia dominante. Os momentos de crise são propícios para que

as potências emergentes reivindiquem maiores espaços de poder nas relações internacionais e maior participação nos fluxos de investimentos.

Wallerstein reconhece a importância do Estado na mediação entre o espaço doméstico

e o sistema-mundo, seja para avançar os interesses das classes dominantes em sua

competição com outros grupos nacionais seja para reduzir as contradições decorrentes da luta de classes. Wallerstein insistiu que os conflitos de classe atravessam as fronteiras estatais, assumindo características semelhantes nas respectivas áreas do sistema e não se configurando como conflitos entre Estados.

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