Dinheiro para bibliotecas

Lídio Lima
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Nº 01

O possível não alcançado
José Paulo Nobre

De corpo presente
Edinho da Barca

Para falar e escrever bem
Joseph Devlin

Para saltar aos olhos
Claudiomiro Machado Ferreira

Por que a revista BRAVO! acabou?
Armando Antenore

Revista Literária

Silêncio
LiteraturaArteCinemaMúsicaHumor
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Revista Literária Silêncio Nº01

EDITORIAL
“Porque Silêncio?”, você pode estar se perguntando. Se não está, deveria. A primeira coisa que nos vêm à mente é: “E por que não?”. Porém, podemos apresentar uma resposta mais apropriada. Pense por um instante. Qual foi a última vez que você se encontrou em meio ao inebriante silêncio que a tudo absorve e preenche? Em tempos em que a todo instante nos gritam aos ouvidos, não há pedra mais preciosa do que o silêncio, muito embora ele também possa ser ensurdecedor. Silêncio nos remete à paz, a um instante de reflexão. Sem ele como compreendermos as coisas mais complexas de nosso mundo, incluindo nós mesmos? Com essas idéias em mente resolvemos intitular nossa revista como “Silêncio”. Ao criarmos uma revista com a intenção de divulgar textos relacionados à arte, em suas inúmeras formas, “silêncio” é a única coisa que falta para ela tornar-se o que pretendemos que seja: Um momento de prazer e descanso para mentes fatigadas e famintas. Um oásis para quem convive com um deserto de ideias, uma cama quente para um viajante perdido, um instante de sossego para aquele que vive atormentado pelo infindável barulho de nossos dias. Isso é o que oferecemos agora. Esperamos que aproveitem... em silêncio. Os Editores

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SUMÁRIO
LITERATURA
Contos 13 Humor vítreo Adriane Bueno 14 Só uma fase Andréia Pires 15 Brilho Eron d'Inácio 17 A ausência da ausência Lídio Lima 19 Gato escaldado Maurício Pons 20 Passos perdidos Pedro Porciúncula 22 Perdidos na escuridão Robert Jonas Andrade Oliveira 25 Monumento ao homem vivo Rody Cáceres Poesias 27 De corpo presente Edinho da Barca 28 Versos brandos Jorge Pinho 31 O possível não alcançado José Paulo Nobre 32 Rumos Lúcia Castillo 33 A estrela Dalva e o peão Luiz Carlos Molina 34 Mordaça Luiz Sérgio Quintian 35 Distraída Márcia Gomes 36 Quando nos apaixonamos Lutiene Souza 37 Minha escola Caroline Sigalles Ferreira 38 Amor transcende o tempo Artigos Marcos Costa Filho 40 Por que a revista BRAVO! acabou? Armando Antenore 42 Para saltar aos olhos Claudiomiro Machado Ferreira 47 Laboratório de estímulo à criatividade – Biblioterapia Giselda Leirner 49 Dinheiro para bibliotecas Lídio Lima
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Revista Literária Silêncio

Nº01

CINEMA
A Paixão de Joana D’arc, de Carl Theodor Dreyer 50 Matheus Magalhães da Silva Uma das histórias mais tristes nos bastidores de Hollywood 53 Tiago Stechinni

DIREITOS AUTORAIS
Justiça usa Código Penal para combater crime virtual 54 Supremo Tribunal de Justiça O download de livros 57 Claudiomiro Machado Ferreira

TRADUÇÃO
Para Falar e Escrever Bem 61 Joseph Devlin

MÚSICA
O Silêncio 67 Arnaldo Antunes Silêncio 68 Heróis da Resistência As rimas mais usadas na úsica brasileira... ...e quem quiser compor um sucesso, faça isso: 69 Claudiomiro Machado Ferreira

FOTOGRAFIA
A arte de Wilson Fonseca 70

ARTES VISUAIS
Rosali Colares 72

HUMOR
77

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FRASES & CITAÇÕES
Corrupção no ECAD.
Os Replicantes, na música “Mentira”, de 1987.

Não vejo nada no Creative Commons que não esteja na lei [de Direitos Autorais] atual.
Cacá Diegues Cineasta

Ora, se você quiser se divertir invente suas próprias canções.
Renato Russo Músico

Na França autores recebem por livros emprestados em bibliotecas. O governo paga uma taxa e a associação de autores distribui os recursos entre autores.
Raquel Cozer Colunista da Folha

O que não pode ser falado deve ser passado em silêncio.
Autor desconhecido
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Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
Liev Tolstói Escritor

Qualquer um pode escrever um livro. Duro mesmo é ficar no sofá, sem escrever nada. Não escreva. Se realmente tiver de escrever trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés.
Diogo Mainardi, escritor

Não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói e Joyce – e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada.
António Lobo Antunes Escritor português

O escritor está sempre trabalhando em um livro, mesmo quando não está escrevendo.
Antonio Callado Escritor

Podemos simplesmente escrever um. Encher de vãs palavras muitas páginas E de mais confusão as prateleiras.
Caetano Veloso, Livros
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HUMOR VÍTREO
Adriane Bueno* ombos pretos a pairar sobre a abóboda medieval pensam ser corvos a espreita do cadáver do qual se aproxima o funeral. Garras afiadas em patas escuras, do gato preto, ser noturno, que se arrisca a desfilar a luz do sol, para ocultarse até que horas tétricas lhe permitam começar a carnificina. E o cadáver ali, no fúnebre caixão abismal. E os entes queridos do morto, que de suas faces deixam verter lágrimas, não sabem se choram a perda ou sufocam devido ao miasma produzido pelo calor infernal. Ah! Dores extremas açoitaram o pobre defunto que jaz próximo de baixar a sua última pousada. Quem tão atroz veleidade praticou, arrojando da vida um pai de família que ora está prestes a ser devorado por vermes impertinentes, estes seres malditos que todos temem? Andava o ora morto, antes vivo, por uma rua escura, retornando do labor diário que mal pagava as compras para saciar da

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família sua fome natural. Vinha cansado, arrastando os pés, depois de horas sem fim numa repartição pública obscura. Mas vinha em paz, dever cumprido, o parco salário no bolso... ia encontrar pouso e um certo descanso afinal. Entretanto, ao chegar ao escuro beco que levava a sua humilde pocilga familiar, algo lhe arremete brutalmente contra a parede de tijolos. Escorre sangue pela mesma, crânio partido, mas o trabalhador ainda respira. Uma sombra se projeta sobre o infeliz e lhe rasga a garganta... o pai de família expira, enquanto seus olhos arregalados absorvem a figura que ora se afasta cambaleando pela viela fria. No outro dia, vizinhos horrorizados chamam a polícia, a família desatina. As investigações nada deixam escapar, mas também nada conseguem provar. Sentenciam as autoridades: “Foi um bárbaro meliante... nenhuma pista mais há. O salário ficou, deve ter se assustado com alguém que estava a passar”.

E o morto foi transportado a sua casa, encomendado o caixão, realizado o velório. Lágrimas derramadas e, enfim, o enterro onde mulher e filhos, junto com os vizinhos sorumbáticos não conseguiam entender o crime praticado, nem a fácil desistência das autoridades em buscar o criminoso nefasto. Mas se algum deles fosse entendido ou respostas realmente desejassem encontrar, bastaria observar o humor vítreo dos olhos cadavéricos e encontrariam a última imagem que o falecido gravou em sua mente. Enquanto o funeral terminava, o circo de horrores que sempre permaneceu naquela gélida cidade e era sua atração principal, partia, levando em um de seus vagões a aberração que causara a cruel carnificina. Portanto, ponde-vos atentos leitores destas estranhas linhas. Vós não acreditareis jamais no que ora vos alucina.

*Advogada, já escreveu:

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Adriane Dias Bueno e Claudiomiro Machado Ferreira na 39ª Feira do Livro do Cassino/RS

SÓ UMA FASE
Andréia Pires* á meses que pelo menos duas vezes na semana Laurinha dava baile na madrugada. Em susto, levantavam mãe, pai, irmãos menores, cachorro latia na rua, cocota latia para o cachorro, luzes de toda a casa acesas. Não parava ninguém dormindo. O que foi, Laurinha? Sempre a primeira a chegar, a mãe tinha com a menina uma paciência eterna. É ele, mãe. O homem, aquele homem sem olhos, ele veio aqui de novo, mãezinha, não deixa ele me pegar, não. Não tem homem nenhum, filha. Isso que tu tens às vezes é pesadelo. Sonho ruim. É só imaginação. Não é real. Quer ver? Olha aqui com a mãe embaixo da cama, ó. Não tem nada, viu? Só uma meia suja tua, já falei que aí não é lugar. Volta a dormir, tá? Vou ficar contigo até pegares no sono de novo, canta com a mãe: mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei dizer... E assim foi até ultrapassar o limite do suportável. O pai não podia mais com aquela novela. Quando a Laura atravessava a noite dormindo, ele é quem acordava por qualquer ruído, sobressaltado, achando que era mais uma da guria. Os menores

H

desciam das camas e ficavam observando o chororô da irmã com olhos muito arregalados, consternados da situação. A mãe, incansável, curava cada surto da filha com uma ninada compreensiva, torcendo para que fosse a última. Leva no médico, benze, manda rezar uma missa para a alma do condenado, dá um cansaço durante o dia que vai dormir direto e reto. Os pais ouviam e tentavam todas as receitas que julgavam não fazer mal a ninguém. Mas a Laurinha se repetia, com algumas variações. Era ele e uma mulher malvada e descabelada. Ele e uns outros com machucados nas pernas. Ele e uma velha corcunda e fedorenta. Mas ele toda vez. Até que decidiram acreditar no pediatra: é só uma fase. Bem típica da infância, isso. Coisa de criança que precisa dividir atenção dos adultos com outras crianças. Vai passar. A senhora siga fazendo do seu jeito, mas não dê tanto ibope para as cenas. Trate naturalmente, mude de assunto. Vai ver como as crises da Laura vão rarear até sumirem por completo. Os pais seguiram exatamente as recomendações do profissional. Então, algum tempo depois,

repararam que a filha já não pedia mais socorro às três da manhã. Nem às três e quinze, nem às cinco e meia. Não mais. Todos passaram a viver o sono dos justos, dos trabalhadores, da família amorosa, dos céticos. Menos a Laura, que simplesmente entendeu a regra do jogo. Bastava abrir os olhos, respirar fundo e pensar firme que estava tudo bem, que ninguém sem carne e sem osso poderia fazer-lhe mal dentro ou fora do seu sono. No início doeu, mas com o tempo ela se habituou às companhias noturnas. Tentou dialogar, entender, espantar. Em vão. Chegaram outros, alguns foram embora. O homem, jamais. O pediatra acertou, de certa forma. Era só uma fase. Uma fase na infância, uma na adolescência, uma na maturidade, uma na velhice. E nas últimas linhas da vida até que foi bom. Quando a Laura foi viver no lar de idosos, levada pelos irmãos, velha e louca varrida, não estava só, afinal. Terminou os dias entre as flores do jardim da casa coletiva, cercada de amigos, tão cega quanto o mais antigo deles.

Claudiomiro Machado Ferreira e Andréia Pires

*Jornalista, mestre em História da Literatura, doutoranda em Escrita Criativa (PUCRS) e autora do livro de contos “De solas e asas”. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular, uma vez por mês com a revista SaRevista Silêncio – Nº01 – revistasilencio@hotmail.com 14 Revista Silêncio – Nº01 – revistasilencio@hotmail.com mizdat, e publica o que escreve no blog “De solas e asas.

BRILHO
Eron d’Inácio la estava sentada na poltrona, vestindo aquele vestido de cetim preto tão lindo e que lhe caia tão bem. Os dedos finos agitavam um cigarro aceso e suas pernas cruzadas mostravam os sapatos de couro preto e salto alto. A porta então se abriu e a figura de um homem maduro adentrou a sala, dentro do seu terno escuro. — Olá, papai – ela disse, com a voz arrastada. — Eu sabia que estaria aqui – ele disse, examinando a figura da filha. — Você sempre sabe das coisas antes, não? Muito esperto... Ela acompanhou a figura do pai caminhar em direção a sua mesa e sentar-se em sua cadeira. — Você precisa se controlar, Estela – o pai disse, tirando um charuto de dentro de uma caixa. — Eu não preciso de nada – ela disse, levantando-se da poltrona e soltando uma baforada de fumaça em direção ao teto – Aposto que você nunca achou que me veria nessa situação. Ela atravessou a sala e foi admirar a figura num espelho de corpo inteiro que ficava perto da porta. Aquele vestido lhe caía incrivelmente bem e ela estava elegantemente magra. Os cabelos loiros lhe caíam tão bem pelo lado dos seis pequenos e os anéis e pulseiras que ostentava nas mãos brilhavam enquanto ela agitava aquele cigarro aceso. — Você está tão... – o pai disse. — Divina? – ela completou. Claro que estava divina. Seus olhos brilhavam a luz do luar e os cabelos estavam tão bem penteados e tão sedosos. Ah, como

E

estava radiante e era tão bom saber que o pai sofria por vê-la naquela estado tão... tão... como seria a palavra? — Reluzente? — Reluzente... — Você tem ideia do que é se sentir incrivelmente bem, papai? – ela perguntou, ainda admirandose no espelho. — Faz tempo que não, filha. A vida tem sido um verdadeiro... — Inferno? – ela completou, — Você ainda não viu nada. – e riu. Estela então jogou o toco de cigarro no chão do escritório e puxou o maço de dentro do bolso. Com a ajuda de um isqueiro, acendeu outro cigarro e soprou a fumaça em direção ao teto. Ela então chegou perto da janela e, por alguns instantes, ficou admirando a lua lá fora, livre como um pássaro. A lua iluminava tudo e estava tão cheia e tão divina naquela noite. Reluzente também, diria. É... reluzente! — Você gosta de observar a lua, papai? – ela indagou – ou olhar a luz do sol... — Gosto, filha! E você? — Você sabe que eu não tive essa chance. Eles não me deixavam ver a rua! — E você sabe que não foi uma escol... — Aham – ela interrompeu – agora não importa. — Como saiu de lá? – o pai indagou, encarando-a por cima dos óculos. — Eles me deixaram sair e ela sorriu aquele sorriso fechado que ela dava quando queria ser sarcástica – ahh, tem algo que quero te mostrar.

Estela então mexeu na mesinha que estava ao seu lado e puxou uma adaga. A adaga que fora da mãe e que agora lhe pertencia, como um troféu e uma recompensa ao tudo que passara nas mãos do pai. A adaga reluzia em contato com a luz da lua. Os olhos de Estela também... — É engraçado como, se uma faca estiver bem afiada, você pode passar o dedo na lâmina e nada acontece – ela disse, deslizando a ponta do dedo indicador no fio da lâmina. — Mas é só você que fincar que se machuca – ela então cravou a ponta da adaga na ponta do dedo, fazendo com que um filete de sangue escorresse pelo dedo e pela sua mão. — Quer tentar agora, papai? Os olhos de Estela brilhavam mais agora. A faca na sua mão levantada brilhava como se mostrasse todo o brilho da sua vitória. O vestido preto, o cabelo arrumado e maquiagem perfeita a acompanhavam naquele que parecia ser seu dia de glória. Estava reluzente, como nunca estivera. O pai, do outro lado da mesa, tamborilava os dedos sobre o botão que chamaria os seguranças, pensando se aquilo valia a pena. Por cima dos óculos, via a figura magra de Estela perto da janela, encarando-o com os olhos fundos e por trás dos cabelos desgrenhados e sujos. Um cigarro imaginário pendia no canto esquerdo da boca e a mão esquerda segurava o uniforme do hospital sujo de terra e sangue... Estela então avançou dois passos à frente. E a lua brilhava...

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Revista Literária Silêncio
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A AUSÊNCIA DA AUSÊNCIA
Lídio Lima* tarde para pensar como as coisas são ou com elas deviam ser. A mente cansada, o corpo ainda mais; no entanto, ainda há tempo para sondar meu espírito, esse por vezes exausto, por vezes perdido, às vezes quase à beira da morte, mas agora sereno. Nascemos sós, morremos sós, e em pouquíssimos instantes da vida deixamos de estar sozinhos. A existência humana é tão solitária que, ou se finge não ser só - como fazem quase todos - ou se encara de frente a solidão, aproveitando os poucos momentos em que ela se vai. Assim faço. O homem jamais se estende além de si mesmo, o corpo é sua prisão, a mente o simulacro que o contém, por mais que se abrace, se beije, se agarre, se entre. Muito raramente não estamos sós, e a solidão é bem maior entre as multidões. Ninguém trancado em seu quarto, ou em uma escura e fria cela, sentiu tamanha solidão quanto um homem em meio aos “alheios”. Jamais o sozinho se sente tão só quanto quando entre os muitos. Dentre os animais o homem é o mais temeroso. Ele teme e odeia a tudo que desconhece, inclusive outros homens, outras ideias e outras visões de mundo. Em quase todos os casos não compreende que o que ele realmente teme é a si mesmo ou aquilo que ele compreende ser “ele mesmo”. Teme sua fraqueza, sua ignorância, sua tacanhez de pensamentos, sua incapacidade de amar sem vícios de amores idos, seu temor pelo novo e sua estupefação diante do belo e do complexo. Esse é o caso do “homem médio”, a “besta humana” se orgulha dessas atitudes. Duas coisas jamais devíamos temer: a morte e a solidão; ambas

É

são inexoráveis e inerentes ao ser humano. De que serve temer o inevitável? Temê-las é temer a vida. O homem que as teme é tal qual um cego que temesse a escuridão. No entanto, não é sobre solidão que resolvi escrever hoje, ao contrário, venho escrever sobre os raros momentos em que ela se ausenta. Não digo os momentos de distração em que não a sentimos, mesmo ela estando ali, mas sim dos momentos em que ela realmente não está presente. No momento em que os espíritos se tocam, neste exato momento, damos o nome de amizade, e quando eles se abraçam, chamamos amor... A cidade escurece vagarosamente. Uma loja após a outra vai se fechando, as pessoas dirigem-se lentamente às suas casas, suas vidas, continuando suas rotinas. Eu também, como era de se esperar, sigo minha rotina. Passo após passo, vou em direção ao lugar que espero que sempre me espere. Assim como um animal marinho, que por vezes depois de muito tempo, há de emergir para respirar, assim eu também, imergido na mediocridade, no tédio e na ignorância, tenho sempre que possível ir lá para poder respirar. Chego no início da noite, fria e úmida, como quase todas por aqui; entro lentamente e calado. A primeira sensação que me assalta é o cheiro dos livros, eles têm aroma de distância, de onde não estive e ainda assim me são tão próximos e tão caros, após isso, vejo as pessoas e, por último, ouço suas vozes. Nessa noite apenas o livreiro e um amigo me esperavam, o livreiro, dono da loja, com seu semblante austero que se desmancha em sorriso quando os amigos chegam, corpo robusto, início de
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surdez que nos faz nunca saber se nos ouviu ou não; já nosso amigo tem sempre um ar perdido entre pensamentos ou goles, a calva coberta por um boné, por vezes distante, porém sempre alerta. Na verdade não me aguardavam, mas estando lá quando cheguei, para mim é como se me esperassem. Os livros nas estantes, os bancos junto ao balcão, as mesas vazias. A loja é mais longa que larga. Organização e entropia se misturam. Quem vê apenas o que os olhos podem ver jamais dará o valor devido a este lugar. Aqui onde repousam tantos espíritos, os ignorantes só enxergam livros entre paredes. Quantos dos que aqui chegam entendem que aqui descansam, nutrem-se e divertem-se os raros espíritos dos guerreiros que se negam em morrer? Morrer por uma causa é fácil, difícil é viver por ela. Aproximei-me junto ao balcão, as saudações são feitas, as mãos apertadas, pedi um cafezinho. Todos nós bebíamos. Eu, era um pequeno café, sóbrio, naquele dia estava doce, mas por vezes tão amargo quanto negro. O livreiro, era whisky, refinado, porém forte e com a necessidade de ser bebido aos poucos. Nosso amigo era vinho, muito incerto, dependendo da origem pode ser seco e nobre ou tinto e rústico. Dessa união semietílica forjou-se uma aliança de espíritos, dois antigos, outro um pouco mais jovem, num ciclo de aprende-ensina, apenas interrompido pelo sorver da bebida e pelo fim da noite que pouco a pouco se aproximava. Um homem que entre amigos não se abstrai do mundo, que não se esquece do “lá fora” nunca será feliz. Nenhum de nós era um erudito, eu o menos esclarecido, o aprendiz, o jovem lobo que vendo

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os mais velhos acuar a presa, por soberba quem sabe, também se mete a dar alguns ganidos. Nossa presa é a Verdade, por mais que saibamos que jamais vamos comêla, sequer abocanhá-la, apenas sentir seu cheiro ou a sensação de sua presença já nos alegra e inebria. Oscar Wilde conta em seu De Profundis que em um dos lugares mais singelos onde esteve, com a comida e bebida mais frugais, foi

onde teve suas melhores idéias, assim é aqui, lugar simples onde a mente, o coração e o espírito são quem se banqueteiam. Há momentos em que um homem se sente livre o suficiente para falar de sua vida, não para vangloriar-se, não para lamuriarse, mas sim porque se acha entre iguais. Esses momentos beiram o mágico. Nem mesmo o teor dos assuntos são de suma importância.

Seja discutindo sobre política, economia, literatura, cheiros ou o que quer que seja; o importante é que discutíamos sobre o ser humano e confiávamos uns nos outros o suficiente para sermos sinceros, o suficiente para podermos discordar sem medo. Quando podemos ser rústicos sem ser considerados grosseiros ou delicados sem parecer afetados.

*Repórter e produtor. Escreve no blog Philos Porque Quilo. Coordenador do Grupo do Trivium. Lídio Lima e Claudiomiro Machado Ferreira

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GATO ESCALDADO
Maurício Pons* rio que antigamente cortava uma cidade, hoje separa duas. Um lado da margem se emancipou do outro, anos atrás. Contudo, o fato é que aquele rio é uma dádiva da natureza, um presente de Deus. No forte do calor, os campings de Pedro Osório e Cerrito ficam lotados de barracas, muitas delas pertencentes a visitantes, famílias de outras cidades que aproveitam os finais de semana para passear e se refrescar nas águas calmas e límpidas do rio doce. A praia, como muitos a chamam, torna a estação do sol mais alegre, e seus quarenta graus centígrados menos insuportáveis. Quem poderia imaginar, sentado em sua cadeira de alumínio, com água correndo pelos tornozelos e lambaris cutucando nos pés, que aquele fio de rio, algum dia, invadiu as duas cidades deixando milhares de desabrigados? Quem apostaria ser possível aquele arroio, como outros o chamam, destruir casas, desmanchar ruas e derrubar pontes, isolando quinze mil pessoas do resto do Estado? Ouvi falar de três grandes cheias: 1959, 1983 e 1992. Esta última, dizem, foi a maior. Eu morava em Porto Alegre, mas assim que as águas baixaram eu fui ajudar na limpeza. A cena era de guerra. As

O

ruas se transformaram em imensos varais de roupas; as calçadas, depósitos de móveis, colchões e entulhos; as paredes de todas as casas eram de uma cor só: lama. Quem viveu isso na pele conhece bem os traumas que ficam mesmo depois que o rio volta ao seu curso normal. Hoje, dois dias de chuva ininterrupta deixam as ruas nervosas, com pessoas subindo e descendo para o camping para observar a evolução das águas, medindo com pauzinhos e pedrinhas o aumento do nível do rio. Contam que, em uma dessas ameaças, Hermeto e Inácio, amigos de pescarias, de causos e de copo, aproveitando a ausência das esposas, resolveram assar um pernil. Era o terceiro dia de chuva, e como o clima estava para manga comprida, compraram um garrafão de vinho. Barriga e cabeça cheias, deitaram para um cochilo, ambos dividindo a cama de casal – única na casa. — Melhor um de nós ficar acordado. Se o rio subir vai nos pegar dormindo – alertou Inácio. — Que subir que nada – resmungou Hermeto, – a água ainda tá lá embaixo. Durma tranquilo que, qualquer coisa, eu te chamo. Dizendo isso, ferrou no sono, roncando alto.

Para Inácio não foi tão simples. As paredes do quarto logo começaram a rodar feito carrossel. A cama girava violentamente. Resolveu usar o antigo truque de botar o pé no chão para ver se o quarto estabilizava. Assim que o fez, sentiu o pé mergulhar na água, molhando até a barra da calça. — Hermeto! Acorda, homem, que o rio está passando embaixo da cama. E saiu em disparada porta afora. Já na rua, nem sinal de água. Aliás, nem chovia mais e o sol já dava os ares da graça. Descobriuse depois que Inácio tinha enfiado o pé num penico cheio de xixi. 

*Blogueiro, colunista do Diário Popular. http://mauriciopons.blogspot.com.br Simão Bacamarte, de O Alienista – por Fábio Moon e Gabriel Bá

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PASSOS PERDIDOS
Pedro Porciúncula* stava escuro. Muito escuro. Patrícia havia se perdido naquela floresta. Escuridão total. Olhava para o céu. Não havia estrelas. Não havia Lua. Apenas o negro, o vazio, a imensidão do nada. Olhava para frente. Nada. Olhava para o chão. Nem os pés enxergava. Sabia que eles estavam ali, todavia. Sabia disso porque doíam. Perdera a noção do quanto andou por lá. Curiosamente não conseguia lembrar quando se perdeu, e nem como se perdeu. Recordava de estar ali, perdida. Entretanto, não era amnésia. Lembrava do seu nome, da sua idade, de como era quando tinha dez anos, quatorze anos, dezesseis e dezoito anos, de suas alegrias, sonhos, desejos... Enfim, tinha plena ciência de suas memórias. No entanto, não sabia onde estava ou para onde ia. Esbarrou em uma árvore. Levou as mãos ao rosto, tateando-o para se certificar de que tudo estava onde deveria estar. Sentou-se. Continuava com as mãos no rosto. Começou a chorar. Soluçava a pobre alma. Desespero e exaustão vertiam por aqueles lindos olhos castanhos, acompanhando as lágrimas. Após um tempo que não conseguia precisar, acalmou-se. O choro aliviara um pouco a alma. Concentrou-se para tentar acostumar os sentidos à escuridão. Percebeu que o lugar era mais macabro do que pensara. Tinha certeza de que se tratava de uma floresta – ou bosque –, pois lembrava de adentrá-la, daquela entrada macabra, onde as árvores formavam uma espécie de passagem, levando a um corredor sombrio, que a cada passo escurecia. Logo em seguida tentou fazer o caminho inverso, porém, não encontrou mais a saída.

E

Tendo essa certeza de que se encontrava em uma espécie de bosque, não conseguia escutar os sons da fauna. Na verdade os únicos sons que conseguia ouvir eram o do vento agitando as árvores, e os seus passos. Percebeu, assim que inspirou com força, que, gradualmente, seus sentidos estavam lhe falhando. O cheiro forte e penetrante do capim e da terra, agora não passavam de leves fragrâncias sentidas a uma distância considerável. Não sentia mais o contato de suas mãos em seu rosto. Sua boca, agora, era como um grande buraco recheado de nada. Nem a saliva sentia. Tocou sua língua. Ou, pelo menos, pensava ter feito isso. Nada. Silêncio. Silêncio... Silêncio... Não lembrava de jamais ter testemunhado tamanha ausência de ruídos, então, gritou a plenos pulmões. Ou pelo menos fez os movimentos... Ou não. Simplesmente não sabia se havia obtido êxito. Não sabia mais se estava sentada, se estava deitada ou de pé. O que lhe confirmava que ainda existia era sua capacidade de pensar. Tinha consciência. Tinha medo, pavor, desespero... Lembrou-se novamente de seus sonhos, de seus desejos... De suas ânsias... Novamente perdeu a noção do tempo. Com o que restou de sua existência, ordenou que suas pernas se movessem. Ainda não sabia se a ação tornou-se concreta ou se era apenas uma mera abstração de um sopro de ser. Talvez sim, talvez não. Não esbarrou em nada, pelo menos. Acreditava que andava. Já sem esperanças, as mágoas, arrependimentos... Tudo o que havia deixado de fazer, o que fez e jamais queria ter feito, passavam em sua mente como um filme. Pedia
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perdão, mas não obtinha resposta. Suplicava. Ainda sem resposta. Inimagináveis e imensuráveis momentos depois decidiu que “tanto fazia”. Havia fugido durante toda a vida daquilo tudo e, quando chegou ao ponto de implorar o perdão divino, ficara sem uma maldita resposta. Relembrou novamente seus sonhos e seus desejos. Agarrou-se ferrenhamente a eles. Sentiu que algo mudava dentro de si e ao seu redor. Continuava sem enxergar nada, mas o som... Os sons, melhor dizendo, voltavam lentamente. Sentiu um leve cheiro de terra molhada. Em seguida, o do capim. Dormência, O corpo todo estava dormente agora, formigava. Passos. Escutou passos. De todos as direções. Inclusive acima e abaixo de si. Ao seu redor, um luz começou a brilhar. Conseguia enxergar parcamente o que havia a sua frente. Apenas borrões que, aos poucos, tornavam-se nítidos. Visualizou uma silhueta a sua frente. Ela projetava uma sombra enorme no chão. A imagem dele e de tudo o que ele representa para si se formava em sua mente. Rápida e surrealmente a distância entre ele e ela aumentou, tornando-o apenas uma mancha em uma clareira ao longe. Patrícia começou a correr. Corria desesperadamente. Finalmente achou o caminho. Agora era um belo dia e, à medida que avançava, a floresta ia ficando para trás, o céu azul se tornava perceptível acima da copa das árvores. Todos os sons da fauna que aquele bosque podia conter também passaram a ser pronunciados, acompanhando o desesperador ruído do vento e dos passos.

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Via ele ao longe. Por mais rápido que corresse, a aproximação era lenta. Beirando a exaustão, lembrou-se novamente de seus sonhos e de seus desejos, principalmente do último: o de estar ao lado dele. Encontrou as energias necessárias e se pôs novamente a correr.

— Finalmente! Finalmente te alcancei! – Disse a garota exausta ao chegar perto do rapaz. Exausta e eufórica. — Que pena que chegasse só agora... – Ele respondeu. — Como assim? – Indaga sem entender o que se passava.

— É que eu preciso subir aquela colina agora. – E disparou a toda velocidade. Patrícia ficou ali. Parada. Sentindo as pernas tremerem. E sem olhar para trás, ele a abandonou, levando consigo todos os sonhos, desejos e memórias.

*Escritor. Criou blog Anarchy Ink www.anarchyink.blogapot.com.br Co-coordenador do projeto do livro dos “Poetas de Pijama da FURG”

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PERDIDOS NA ESCURIDÃO
Robert de Andrade* le me pegou a mão e pediu um cigarro, não usou palavras, mas fez um bico com os lábios e inspirou o ar. Busquei o último cigarro que havia no maço, coloquei na sua boca e acendi. Quando eu tinha onze anos e me pegou fumando suas guimbas, ele enfiou a mão no bolso e me deu um maço de cigarros novinho. Nossa casa não tinha móveis, nem reboco, nem cômodos. Dividíamos uma cama de casal que ficava entre o fogão e a geladeira. Antes daquela veia se romper e encher seu cérebro de sangue, ele era um homem ativo e firme. Acordava às cinco da manhã e se locomovia feito um gato no escuro para não me acordar. Ele nunca me abraçou, nunca fez nenhuma demonstração de carinho, mas sempre me senti seguro. Uma vez me disse que as histórias se repetiam e que para entender as coisas era só observar o que estava acontecendo, pois o que parecia ser novo era somente algo que estava se repetindo num tempo diferente, em um lugar diferente e com pessoas diferentes. Os cigarros dele tinham filtro vermelho e os meus, branco, era ele quem escolhia as marcas. Fumávamos vendo a novela das oito, depois comíamos o que tinha. Antes de sair para o trabalho, preparava duas garrafas de café, uma ele levava para o condomínio onde trabalhava e outra deixava para mim. Nos fins de semana ele vendia bilhetes da loteria, vendia sorte e vivia do azar. Nunca perguntou como eu estava indo na escola, nem o que eu queria ser quando crescesse. Eu queria ser ator de cinema, como John Wayne. O cinema tem uma tela grande e as personagens se tornam figuras gigantescas.

E

Nunca lhe perguntei quem era minha mãe, as faladeiras do bairro diziam que foi mulher da vida. Eu também não sabia porquê não o chamava de pai, mas ele cuidava de mim desde sempre e por isso devia ser meu pai. Ele não me chamava a atenção e me corrigia só com o olhar. Na manhã em que o sangue derramou dentro da sua cabeça, eu o encontrei caído ao lado da cama, sua boca espumava e os olhos estavam vidrados. O pessoal da ambulância não me deixou acompanhá-lo. Na porta de casa dezenas de vizinhos, aqueles que jamais nos cumprimentavam, se juntaram e, equilibrados na ponta dos pés, espichavam os olhos tentando descobrir o que tinha acontecido. Tentei seguir a ambulância com a minha bicicleta, mas só consegui chegar ao hospital meia hora depois. Os médicos não me deixaram vê-lo. Pela primeira vez disse para alguém que ele era o meu pai. Uma mulher me levou para uma sala e pediu para eu ter calma. Acendi um cigarro e fiquei observando os quadros com figuras da turma da Mônica que enfeitavam as paredes. “Quantos anos você tem?”, ela perguntou me olhando nos olhos. “Doze”. “Seu pai sabe que você fuma?” “O quê que aconteceu com ele?” “Uma veia rompeu no seu cérebro. Ele teve um derrame cerebral”. Depois que a cabeça dele se encheu de sangue, pensei que fosse ver tudo vermelho. Que iria ouvir vermelho, pensar vermelho e tudo passaria a ter cheiro de sangue. Ela
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disse que as sequelas seriam outras, mas era cedo para dizer. Ela me perguntou se eu queria ter outra família. Disse que se eu quisesse, arrumaria uma família legal para mim. “Não quero trocar de família, minha mãe tá viajando para a terra dela, quando ela chegar vai cuidar de tudo, ela sempre cuida de tudo.” “Então a sua mãe vive com vocês. É porque me foi passado que eram só você e seu pai”. “O dia que minha mãe viajou, as fofoqueiras lá do bairro perguntaram para ele onde ela estava indo. Ele falou que ela tinha ido embora. Mas é mentira, era só para elas pararem de perguntar.” No dia seguinte eu pude vêlo. Os médicos haviam cortado seu crânio. Ele não ia falar nunca mais e um lado do seu corpo ficaria paralisado para sempre. Fui visitá-lo todos os dias que ele esteve internado. Um dia ele voltou para casa. Os abutres dos vizinhos foram todos para a rua vê-lo chegar, mas depois ninguém veio visitá-lo. Minha mãe nunca voltou, eu contei a história para a mulher só para ela parar de querer me trocar de família, embora nas horas difíceis eu quisesse que uma mãe chegasse de algum lugar e cuidasse de tudo. Ele passou a andar arrastando o lado esquerdo do corpo, que ficou parcialmente paralisado. Mudei a televisão de lugar para que ele não precisasse se levantar da cama para assistir. Escrevi os horários dos remédios e colei na geladeira para eu me lembrar. Nunca mais voltei à escola. Ele não disse nada sobre isso, se bem que se dissesse alguma coisa, eu não entenderia. O derrame provavelmente aleijou a metade de sua

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língua também. Com o tempo, ele desistiu de tentar falar e calou-se para sempre. Acho que pressentiu que a qualquer momento eu lhe perguntaria sobre quem era minha mãe. O tempo consumiu os mantimentos e o pouco dinheiro que tinha. Eu juntava as guimbas e fazia cigarros com as folhas dos meus cadernos. Ele não conseguia riscar o fósforo, eu colocava o cigarro entre seus dedos e acendia. Um dia uma mulher bateu na porta de casa. Ela era alta e bonita. Era como sempre havia imaginado minha mãe. Corri para o banheiro e penteei o cabelo e procurei, em vão, uma camisa que não estivesse furada por traças. Ele tentou se levantar da cama, mas não teve forças. “Bom dia. É aqui que mora o senhor Eustáquio?” Não consegui responder. Minhas pernas tremiam feito vara verde, minha garganta apertou e meus olhos se encheram de lágrimas. Corri e a abracei. Quando senti seus braços envolverem meu corpo, o aperto que havia na minha garganta se verteu em choro. “Ainda bem que você voltou”, falei soluçando. “Calma, meu filho”. Ao ouvi-la me chamar de filho, senti-me à vontade para lhe chamar de mãe e foi nessa hora que ela me disse que estava acontecendo um equívoco. Conquanto eu soubesse o que significava a palavra “equívoco”, entendi que ela não era minha mãe. Parei de chorar e me recompus, não fiquei triste, porque eu já era triste, ou não fiquei mais triste do que eu já era. Ela aceitou minhas desculpas e perguntou se podia entrar. Ela segurou as mãos dele e tentou um diálogo. Eu disse que ele não falava mais. “Mas ouvir ele ouve, não ouve?”

“Ouve, sim senhora”. “Pois então Seu Eustáquio, o senhor não pode continuar fumando, tem que parar com isso. Nós queremos ajudar o senhor e o seu menino, mas o senhor também tem que se ajudar”. Ela me chamou para perto, disse que eu estava de parabéns por cuidar dele e que iria nos ajudar. Perguntou minha idade e se eu estava na escola. Ela contou que ele trabalhava sem carteira assinada e que por isso não teria direito a pensão. Perguntou também se eu tinha vontade e disposição para trabalhar no condomínio que ele trabalhava. Eu aceitei, mas tive que voltar para a escola e não poderia contar para ninguém que estava trabalhando. Segundo ela, era crime trabalhar, mas não entendi muito bem o que ela quis dizer com isso. Antes de ir embora, ela deixou uma cesta básica. Comecei a trabalhar na segunda-feira seguinte. Antes de sair, ainda no escuro, preparei o café e deixei alguns cigarros, que havia guardado para alguma emergência, sobre a pia. Às cinco e meia eu devia estar no condomínio. O porteiro me ensinou a separar papel, plástico e vidro do lixo, e distribuir entre as lixeiras da coleta seletiva. Na hora do almoço peguei minha bicicleta, corri para casa e lhe dei os remédios, ele havia fumado três cigarros, não sei como conseguiu acender, mas era bom saber que tinha conseguido. A síndica, aquela que pensei que fosse minha mãe, me adiantou um mês de salário. Comprei cigarros e café. E disse para ele que não precisava se preocupar com mais nada, que eu iria cuidar dele como ele tinha cuidado de mim. Aprendi a acordar na hora certa sem precisar de despertador. Nas pontas dos pés, como um gato, eu circulava pela casa. No escuro

eu achava tudo, às vezes eu me divertia preparando o café e arrumando as coisas com os olhos fechados. Eu fazia tudo para não acordá-lo, pois ele me parecia mais feliz quando estava dormindo. Com o tempo ele passou a dormir mais cedo e quando eu chegava da aula ele já estava na cama. Parei de assistir televisão à noite e aprendi a cozinhar no escuro, e a fazer tudo no escuro. Um dia, ao deitar a seu lado, percebi que ele estava frio, a respiração tinha parado e o coração também. A síndica cuidou do enterro, não havia quase ninguém no cemitério, mas acho que se pudesse escolher não iria querer que ninguém o visse morto. Depois que ele morreu, eu quebrei todas as lâmpadas da casa e vendi a televisão. Eu só conseguia ficar na casa se ela estivesse escura. A escuridão me fazia sentir como se ele estivesse deitado na cama e aceitar que minha mãe não voltaria. Era melhor a certeza da penumbra do que a incerteza da claridade. Continuei o meu trabalho e os meus estudos. Numa manhã, eu separava o lixo quando ouvi o choro de um neném no meio das caixas de papelão. Ele estava dentro de uma caixa de liquidificador. Não contei para ninguém, o levei para casa na hora do almoço e lhe dei leite com uma colher de sopa. Eu iria cuidar dele até ele crescer e poder cuidar de mim. E eu nunca mais iria tentar saber quem era minha mãe.

*Cursou Comunicação Social com ênfase em Produção editorial. Publicou contos e resenhas literárias em diversas antologias, sites e revistas. Publicou o romance OFF em Lisboa Portugal, pela Chiado Editora.
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MONUMENTO AO HOMEM VIVO
Rody Cáceres* odas as gavetas estavam abertas. E vazias. As lápides caídas, os mausoléus arrombados, a cidade em ruínas. Durante toda a madrugada caminhou só, sem sons de pássaros, ou carros. Nenhuma perturbação. A paz estéril de um mundo terminado. Tinha uma pá deitada no ombro, do tempo de coveiro, ainda enlodada de sua última escavação. Carregava a pá apenas para ter com quem conversar. Ela não respondia, ele também não esperava uma resposta, acostumara-se a não receber atenção das pessoas, pouco esperava dos objetos. Mas não era de todo ruim. A solidão tinha seus benefícios: ninguém reprovaria seus modos grosseiros, sua língua torpe, seu gosto pelo regar das árvores, sua flatulência volumosa e

T

seu hálito de pinga. E pinga sobrava. O estômago ardia de tanto álcool: Omeprazol gratuito em todas as farmácias! Numa de suas bebedeiras, acordou em um lugar novo, aparentemente distante de onde estava. A pinga e a pá desaparecidas, as paredes do estômago derretidas e não havia farmácia por perto. Na sua frente, um obelisco de mais de cinco metros de altura reluzia a luz solar que quase lhe cegava. O brilho vinha de uma placa de metal, onde uma epígrafe, um nome e uma data aturdiam os pensamentos do errante. Aproximou-se e leu: MONUMENTO ERGUIDO EM HOMENAGEM AO ÚLTIMO HOMEM DA TERRA, CONDENADO A VIVER EM PAZ. A data era a do seu aniversário, somente o dia e o mês. Rodeou o

obelisco em busca de um sinal. Gritava, ninguém respondia. Caiu sobre os joelhos, deu com os punhos no chão e chorou. Chorou como criança desesperada. Exausto, não se aguentava sobre as pernas. Sentou na areia fofa e trouxe os joelhos ao peito. Repousou o queixo no cume da rótula. Não era a pá que lhe sofria, muito menos a pinga ou o estômago em final de temporada. Não temia a solidão, doce companheira de passeios pelas madrugadas. Não temia a morte, sabia que não morreria. O inferno do último homem, e de todos os anteriores, era não saber quem o havia mencionado. Em tempos, a paz se transmutou em um martírio interminável...

*Escritor. Publicou: Para onde foram os heróis?

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DE CORPO PRESENTE
Edinho da barca No tempo Em que Luiz Eurico desapareceu Eu andava descalço na lua Catando pedaços de poesia em meu coração, Atravessava depressa a rua, Mais um porta-estandarte na contramão; Estranhava tua face, branca e nua, Espantar-se com uma nova invenção. No ano Em que Luiz Eurico desapareceu Uma granada explodiu em Berlim Espalhando estilhaços de vela acesa, A fome defendida em latim, A fé traduzida num resto de pão sobre a mesa; O mundo corre assim-assim Pra não afugentar a sua presa. No dia Em que Luiz Eurico desapareceu Não houve velório, discurso ou funeral, Apenas uma dor que consome e alucina, Não foi notícia em revista semanal, Afinal cada um carrega a sua sina Encantando a morte com a leveza habitual, Arrepiando a pele com carícia clandestina. De corpo presente Um velho idioma, uma rara linguagem; Se o corpo pressente Ninguém doma, ele flutua: vira miragem.

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VERSOS BRANDOS
Jorge Pinho Quero um instrumento Desses que se assovia tipo flauta Para tocar uma música nostálgica Que me transporte ao “Um”, O momento inicial. E não me importa se a estrada É de terra Em meio a lavoura de trigo E o trigo moído vire pão Feito a mão Nas mãos do padeiro. Quero voltar ao início de tudo. Quando os pais alimentavam E amavam seus filhos, Os homens protegiam seus lares, As mulheres respeitavam seus corpos... Escuta... Escuta a chuva caindo... Escuta o vento... Ah! Eu não faço parte desta guerra, Eu não sou soldado... E Deus ? Deus com isso! —Te vira, meu filho! Vocês criaram a modernidade, O carro, a televisão, telefone, Computador, A Ferrari, o marketing, A internet, o celular, Tornaram-se escravos do poder que não tinham E prisioneiros de vocês mesmo. Eu quero voltar ao “Um”, Ao primeiro momento inicial, Onde os dias eram longos E à noite Dormia-se o sono dos justos. Os amigos, ah! Os amigos Eram como uvas, em cacho, Sem sal, Sem adubo, Sem germicida, Pesticida, Se espremidos, eram sucos, Se envelhecidos, eram vinhos, Se vinagrados, conservavam Os pimentões, As azeitonas, Cebolas... Temperavam a carne e O alimento dos amigos, Dos amigos... Escuta! Eu não faço parte desta guerra, Onde o “não” Atinge só os fracos. Os que estão no abismo São os mais cruéis. Esquecem os abandonados, Marginalizam os esquecidos... Pois que eu esqueça!... Beijo virtual. Abraços Amores Sexo Tudo virtual
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(Panorama sócio-econômico, cultural, filosófico) Da pedra do reino Ou reino da pedra Do crack... Do Crack... Eu quero voltar Tudo do início. Sentir o perfume do jasmim, Sentir o sabor do mel, Ver as cores da flor do maracujá. Sentir na pele o pó Que da areia levanta. Sabe? Quero colocar meu destino num brechó... Não! Mundo de trapos e pulgas, Não! Vou colocar num bric a brac Para que fique cheirando a mofo E empoeirado Num canto qualquer. Eis aí, minha alma! Alma maldita! No covercash escondida! E não me deixa voltar Ao momento inicial E começar do “Um” Tudo de novo! Recomeçar! Recomeçar! MALDITA !

E as criancinhas, Edson? Ração Ração Ração De carne, Com legumes Cereais Vitaminas Cama, banho, tosa, Hotel, academia e os Cambal. Vida animal! E as criancinhas, Edson? Porque não fizeste nada Com que fizeram com as criancinhas? Certo! Nada! Nada! Só falasse, afinal Esta guerra não é tua. Não é minha também, não é? Deve ser de outro qualquer, É de ninguém... Escuta... Escuta a chuva caindo... Sente o cheiro de café Nesta manhã sombria. Posso ouvir os gritos dos loucos Soltos na rua, Posso ouvir o silêncio Dos livres, condenados a clausura.
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O POSSÍVEL NÃO ALCANÇADO
José Paulo Nobre
(Inspirado numa frase de Robert Mallet, escritor francês)

É dor aguda carregar o sonho protelado, acalentá-lo com essas liras do imedível... carregá-lo tal qual o lado mais sensível que há do lado de lá do nosso outro mundo... É dor voraz percebê-lo, bem tangível, mesmo na medida em que, ao ser sonhado, deixe em nós apenas o esperar ionizado que agoniza sem ir além de ser possível... Ah, compreensão devastadora, terrível, que não recupera meu sonho despedaçado e nem concede razão ou fala ao indizível... Constatação que só me faz inconformado: o que mais desespera, não é o impossível, porém, o possível que não foi alcançado...
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RUMOS
Lúcia Castillo Que posso dizer da vida, se esta vida me é incerta? Se ando por todos os cantos e em cada canto me desencanto? Se encontro com um poeta e ele diz que não estou certa? Digo apenas que são rumos que um dia me guiarão, para a paz infinita que encontro numa canção.

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A ESTRELA DALVA E O PEÃO
Luiz Carlos Molina O moço novo, campeiro Sonhava com a Estrela Dalva, A mais linda flor do pago, Cheiro de rosa e orvalho Que alma lhe acalentava. A noite o moço mirava O céu bordado de estrelas E assobiava, cantava, Apreciando o universo, Pensando que o longe é perto, Brincando de namorar. Imaginava os detalhes Do corpo, da formosura, D’aquela bela figura, De menina, de mulher Que fazia nos seus sonhos O pensamento trotear. Era meados de setembro, A pampa toda no cio, A moça pra ele sorriu, No confirmar da intenção, E o peão se sentiu patrão Nas asas do coração. Se vestiu de joão-de-barro, Pra o rancho levantar, Pois tinha em sua consciência Que aquele rincão da querência Seria o palco perfeito Pra Estrela Dalva brilhar Do imaginário ao real, De amor cheirando a mato, Da vida que se costura Que nem um pano de renda No meu Rio Grande o altar.

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MORDAÇA
Quintian Tira esta mordaça, Abre a tua boca, Arranca do peito O teu grito mais rouco E lança sobre o Mundo Um pensamento louco. Arranca esta mordaça, Usa a tua voz, Abre o teu peito, Ergue os teus braços E canta, Canta uma canção de amor. Saca esta mordaça, Pega um punhal bem afiado, Corta, finas, sete tiras, Trança uma corda grossa E arranca, pelo pé, toda desgraça. Mordaça! Instrumento hediondo – Maltrata – Não corta, Não perfura, Não contunde, Mas produz um veneno Que confunde E um silêncio Que mata!

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DISTRAÍDA
Márcia Gomes Meus pensamentos viajam. Não faço mais nada. Me pego distraída pensando em você. Me vejo amarrada em pensamentos presa ao relento. Distraída deslizo em pedra de gelo. Estou fervendo, derretendo, distraída. Quero um gesto inocente, mas distraída me pego indecente. Escorre um desejo imploro pelo teu corpo junto ao meu... Te quero por inteiro.

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QUANDO NOS APAIXONAMOS
Lutiene Souza Quando nos apaixonamos Tudo parece um sonho Sem querer nos iludimos E ficamos fazendo planos Para o futuro ao lado de quem amamos Quando nos apaixonamos Tudo parece ser mágico Um pequeno gesto, uma palavra, Um simples “oi”, um elogio, Ou até mesmo um olhar Quando nos apaixonamos Tudo parece tão perfeito Não enxergamos maldade no outro Anulamos todos os defeitos da pessoa amada Pois, afinal, quem amamos É muito perfeito a nossos olhos Quando nos apaixonamos Tudo parece ser eterno Pois amar alguém faz bem Acreditamos cegamente em quem amamos E quando a ilusão acaba Enxergamos o quanto vale o amor E que decepção machuca Mas é inevitável

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MINHA ESCOLA
Caroline Sigalles Ferreira Chego na escola Encontro meus amigos, Converso com eles, Surgem muitos sorrisos. Até que enfim! Bateu o sinal Entro para a sala de aula, Uma falação para tudo quanto é lado! Quase não dá Para ter um aprendizado. Logo, logo, A professora já vem, Falando com gritaria Ninguém aprenderia. Então, tudo se acalma E vamos logo aprender E até guardar na memória Novas formas de escrever. Mas, agora tenho uma notícia boa para dizer Hoje tem aniversário Da minha escola, Com prazer! Ela faz 76 anos Tudo isso se passou Estudando aqui, Muita gente se formou! Parabéns pra você! Minha escola querida Que a muitos anos, É minha amiga! Nas férias, Tenho muita saudade, Da minha escola querida, Que me traz tanta felicidade! Um dia, Claro que vou me formar, Mas da minha escola Sempre vou lembrar!
Aluna da 5ª série da Escola Sagrado Coração de Jesus/Pedro Osório-RS – 2012

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AMOR TRANSCENDE O TEMPO
Marcos Costa Filho Célere, o tempo muda usos e costumes. No momento são comuns os “ficares”. Sabe-se lá o que pensar destes lumes, se deste modo também há os “amares”? E o amor que vezes brota com perfumes, num curto tempo, mas perfumando ares, até se firma não guardando queixumes, e de repente, enlaça na vida jovens pares. Amor antigo com respaldo no passado, acha estranho, diferente o amor nascente, dos tempos recentes, parece complicado. Pensando bem, o que rola nesta corrente, aflorando imediato fogo do ser apaixonado, assemelha-se à brasa outrora adolescente.

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Marcos Costa Filho e Claudiomiro Machado Ferreira na 38ª Feira do Livro do Cassino/RS

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POR QUE A REVISTA BRAVO! ACABOU?
Armando Antenore Abril S.A. divulgou hoje o fim da revista BRAVO! em todas as plataformas. A publicação – uma das únicas no País dedicada exclusivamente às artes, onde trabalhei entre agosto de 2005 e julho de 2013, como editorsênior e redator-chefe – nasceu em outubro de 1997. Estava, portanto, à beira de completar 16 anos. Foi criada numa pequena editora de São Paulo, a D’Ávila, já extinta, e migrou para o grupo Abril em janeiro de 2004. Quando chegou à seara dos Civita, desfrutava de prestígio, mas padecia de má saúde financeira. Não sei dizer quanto dava de prejuízo à época. Só sei que, na Abril, o quadro não se alterou substancialmente, mesmo quando o título adotou linha editorial um pouco mais pop, um pouco menos “cabeça” que a de origem. Com todos os defeitos que pudesse ter – e que realmente tinha, à semelhança de qualquer publicação –, BRAVO! não perdeu o respeito do meio cultural. Havia divergências de vários artistas e intelectuais em relação à revista. Os próprios jornalistas que passaram pela redação nem sempre concordavam 100% com a filosofia do título, ditada obviamente pelos donos. Uns o acusavam de conservador, outros de elitista, superficial ou condescendente demais. Mas havia também muita gente boa que gostava de nossas edições. O fato é que mesmo os opositores jamais recusaram sair nas páginas de BRAVO!. Quem trabalhava para a publicação raramente ouvia um “não” quando fazia pedidos de entrevista. Até Chico Buarque, famoso por se expor pouquíssimo

A

na mídia, topou protagonizar uma capa junto de Caetano Veloso (deixou-se fotografar, mas não abriu a boca, convém lembrar). Todos, de um modo geral, reconheciam que a publicação buscava primar pela seriedade. Mesmo assim, em termos comerciais, BRAVO! nunca gerou lucro – ao menos, não na Abril (como disse, desconheço os números da D’Ávila). A revista, embora contasse com o apoio da Lei Rouanet, operava no vermelho. Em bom português, dava prejuízo – ora de mihões, ora de milhares de reais. Por quê? Vejamos: 1) BRAVO! dispunha de poucos leitores? Sim e não. A revista contava com cerca de 20 mil assinantes e 8 mil compradores em bancas e supermercados. Vinte e oito mil pessoas, portanto, adquiriam a publicação mensalmente. Se levarmos em conta os parâmetros do mercado publicitário, cada exemplar tinha, em média, quatro leitores. Ou seja: uma edição atingia algo como 112 mil pessoas. No Facebook, a publicação contava com 53.600 seguidores e, no Google +, com 30.900. Eram índices desprezíveis? Depende. Em comparação com revistas de massa, a maioria editada pela própria Abril, os números de BRAVO! nem chegavam a fazer cócegas. Mas, considerando que o título se voltava para um nicho relativamente restrito, o da cultura mais sofisticada, as cifras não parecem tão ruins. Em geral, BRAVO! falava sobre manifestações artísticas que, embora se destacassem pela qualidade, não atraíam público quantitativamente significativo. A revista dedicava quatro, seis, oito páginas para fil40

mes como Tabu, do português Miguel Gomes, exposições como a retrospectiva de Waldemar Cordeiro no Itaú Cultural, livros como O Erotismo, de Georges Bataille, peças como A Dama do Mar, de Bob Wilson, e espetáculos de dança como Claraboia, de Morena Nascimento. Procure saber quantas pessoas viram tais filmes, mostras e espetáculos ou leram tais livros. Cinco mil, 10 mil, 20 mil? Como BRAVO! poderia ter zilhões de leitores se o universo que retratava não tem zilhões de consumidores? A publicação, por sua natureza, enfrentava o mesmo problema que amargam todos os artistas do País dispostos a correr na contramão dos blockbusters. 2) BRAVO! perdeu leitores em papel com o avanço das mídias digitais? Perdeu, seguindo uma tendência internacional. A perda, no entanto, não se revelou tão expressiva e ocorreu num ritmo menor que o de muitos títulos. 3) Era mais caro imprimir a BRAVO! do que outras revistas? Sim, bem mais caro, por causa de seu formato e de seu papel, ambos incomuns no mercado. 4) BRAVO! tinha poucos anúncios? Sim. Raramente, a publicação cumpria as metas da Abril nesse quesito. O motivo? Falhas internas à parte, os grandes anunciantes costumam demonstrar pequeno interesse por títulos dedicados à “alta cultura”. “O leitor de revistas do gênero, sendo mais crítico, tende a frear os impulsos consumistas”, explicam os publicitários, nem sempre com essas palavras. Pela mesma razão, tantos cantores, artistas visuais, produtores de teatro e bailarinos encon-

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tram sérias dificuldades para captar patrocínio. A soma de tais fatores tornava BRAVO! deficitária. Ao longo dos anos, tentaram-se diversas medidas para estancar o sangramento. O número de páginas da revista diminuiu de 114 para 98; as datas em que a publicação rodava na gráfica da Abril se alteraram algumas vezes com o intuito de reduzir os custos de impressão (é mais barato imprimir em certos dias do mês que em outros); a redação encolheu; os projetos gráfico e editorial sofreram ajustes; criaram-se ações de marketing pontuais na esperança de aumentar a receita publicitária. Cogitou-se, inclusive,

mudar o papel e o formato de BRAVO!. O publisher Roberto Civita (1936-2013), porém, sempre vetou a alteração. Acreditava que fazê-la descaracterizaria em excesso a revista. A Abril poderia ter insistido um pouco mais? Pecou por não descobrir jeitos inovadores de sustentar a publicação? É difícil responder – em especial, a segunda pergunta. A crise está instalada na imprensa de todo o mundo. Gregos e troianos dizem que a mídia tradicional precisa se reinventar. Eu também digo. Mas qual o caminho das pedras? Não sei. No máximo, posso arriscar uns palpites.

E seguir investigando, e seguir apostando. O mesmo vale para os empresários da comunicação. Gostaria que a edição de agosto não fosse a última de BRAVO!. Entristeço-me com o fim da publicação porque aprecio muitíssimo a arte. Filmes, livros, peças, músicas, instalações, pinturas, balés e quadrinhos me ensinaram mais sobre viver do que a própria vivência. No entanto, não bancarei o viúvo rancoroso. Não lamentarei a baixa escolaridade do brasileiro, o pragmatismo dos publicitários e dos patrões, o advento da revolução digital. Tampouco abdicarei de minhas responsabilidades frente aos erros e acertos da revista. Fiz e ainda faço parte do complexo jogo em que a mídia se insere. Procuro encará-lo com amor, senso crítico e serenidade. Nem sempre consigo, mas… De resto, queria agradecer tanto à Abril quanto a todos os leitores e profissionais (artistas, editores, repórteres, críticos, ensaístas, revisores, designers, ilustradores, fotógrafos, assessores de imprensa, executivos, vendedores, secretárias, motoristas e motoboys) que tornaram possível tão longa e inesquecível jornada.

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PARA SALTAR AOS OLHOS
Claudiomiro Machado Ferreira a Idade da Pedra as cavernas não eram somente um local de abrigo das intempéries e das feras. Com o tempo apareceu quem defenda que as figuras esculpidas ou pintadas nas paredes são orientações, como manuais de caça, apesar de não haver consenso entre os especialistas. Ao longo do desenvolvimento da escrita chegamos aos pergaminhos. Estes foram guardados em rolos, dos quais muitos se perderam e outros permaneceram vivos, sendo achados, entre outros lugares, no Mar Morto. Já na Idade Média, como era demorado escrever um, os livros eram caríssimos, um verdadeiro artigo de luxo, e em universidades chegaram a ser amarrados ou acorrentados para que não fossem danificados ou roubados. Uma das grandes viradas na história do livro aconteceu com Johannes Gutenberg (1398-1468) e sua adaptação da prensa que servia para produzir vinhos, criando a prensa tipográfica. Isso permitiu a popularização desse objeto tão cultuado por algumas pessoas. Mas para muitos os livros

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não são objetos sagrados, que precisam de um altar ou de um ritual a cada vez que são pegos para serem lidos. Há pessoas que se envolvem tremendamente com o conteúdo do livro a ponto de marcar, riscar e até despencar capas e páginas, para o desespero de muitos bibliotecários. Afinal, quem já não se apegou tanto a um livro a ponto de sentir saudades de certas personagens depois de uma leitura? Quem não dialogou, torceu ou odiou algumas delas? Quem já não se imaginou em alguma história que estava lendo? O professor Francisco Valdomiro Lorenz (1872-1957) ficou tão envolvido quando leu Zanoni (1842/1930), de Edward Bulwer Lytton (1803-1873), que se aventurou a escrever uma continuação. Escreveu no seu prefácio que ao concluir a tradução, uma extensa melancolia apoderou-se dele. As respostas às suas perguntas, num instante de tranquila concentração da sua mente, apresentaram-se aos seus olhos espirituais em quadros e visões. Nestes, ele reconheceu a solução para os problemas que havia analisado. O Filho de Zanoni (1931), felizmente, é um livro tão

bom quanto a obra original. Intervenções espirituais e divinas à parte, como disse Thomas Edison (1847-1931), muita gente deve ter precisado transpirar 99% enquanto procurava a solução para os seus trabalhos. Ou pelo menos sacrificou muitas noites de sono, e talvez litros de café, álcool ou pacotes de tabaco. A propósito, para muitos, estas são excelentes companhias quando se escreve em noites solitárias. Pelo menos essa é a primeira imagem que se tem de

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Charles Bukowski (1920-1994) em frente da sua máquina de escrever. Mesmo assim, quando se pensa no esforço que é preciso empreender para escrever algo, somos obrigados a concluir que valeu à pena, principalmente quando assistimos a filmes como O Nome da Rosa (The Name of the Rose, 1986), baseado no livro homônimo de Umberto Eco (1932). O amor e empenho do frade franciscano Guilherme de Baskerville em salvar uns poucos originais, de toda uma imensa biblioteca de livros raros guardados na torre que incendiou, demonstra esse apego quase filial que perpassa os séculos, mesmo hoje em dia sendo mais fácil adquirir novos exemplares do mesmo título. Outro apego surpreendente aos livros apresenta a personagem Nina, do desenho animado A Menina que Odiava Livros (The Girl Who Hated Books, 2006), adaptado da obra da indiana Manjusha Pawagi (1967- ). Depois que as personagens saem dos livros, quando o gato Max derruba uma pilha deles, a única forma de voltarem é quando ela lê o livro de cada um deles. Assim ela se reconcilia com a literatura e com seus pais, que aparentemente amam mais os livros do que à própria filha.

Não é só na literatura e nos desenhos animados que as personagens deixam suas histórias. No cinema, cada vez que Robin Williams (1951- ) joga uma etapa do Jumanji (Jumanji, 1995), um misterioso jogo de tabuleiro, uma parte da selva representada toma conta da realidade. Depois de entrar (literalmente) no jogo, passam-se décadas até que duas crianças o jogam de volta para o mundo real. Assim eles concluem o jogo e tudo volta ao normal. Tudo isso envolto em muita aventura de qualidade que proporciona bom humor.

Essa interação livropersonagem/ficção-realidade não fica só aí. No filme O Último Portal (The Ninth Gate, 1999), o especialista em livros raros interpretado por Johnny Depp (1963- ) recupera todas as ilustrações espalhadas ao longo de alguns exemplares do livro intitulado Os Nove Portais do Reino. Depois de concluída a sua tarefa, e ajudado, não se sabe ao certo se por um anjo ou demônio, ele adentra o Nono Portal. Ponto para Roman Polanski (1933- ), que dirigiu o filme, para o autor espanhol Arturo Pérez-Reverte (1951-), que escreveu o livro original intitulado El Club Dumas (1993), e para os roteiristas, que o adaptaram. Outros filmes como Coração de Tinta (Inkheart, 2008), com Brendan Fraser (1968- ), Um Faz de Conta que Acontece (Bedtime Stories, 2008), com Adam Sandler (1966- ), e Pagemaster - O Mestre da Fantasia (Pagemaster, 1994), com Macaulay Culkin (1980- ) e Christopher Lloyd (1938- ), abordam situações onde a ficção da história invade a realidade das personagens, com aventura e humor. Porém, quem quiser assistir um filme mais sério pode apostar no clássico Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451, 1966), dirigido por François Truffaut (1932-1984).

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Baseado na obra de Ray Bradbury (1920-2012), num futuro assustador pelo controle que as pessoas sofrem, ironicamente a tarefa dos bombeiros é procurar e queimar livros. A solução encontrada é decorar obras inteiras, fazendo com que certas pessoas virem verdadeiros livros ambulantes. O embrião da história foi o conto Bright Phoenix, iniciado em 1947 e publicado em 1963. O conto foi reformulado e transformado na novela The Fireman, que foi publicada em

1951. Em sua estrutura mais conhecida, Fahrenheit 451 foi publicado em 1953. Alguns acreditam que Bradbury tentou mudar o futuro alertando o que poderia vir a acontecer. Algo parecido como teria feito George Orwell (1903-1950) quando escreveu 1984 (Nineteen Eighty-Four, 1949). Muito diferente destas é a atitude da personagem de um dos episódios da série Além da Imaginação (The Twilight Zone, 1980), que tenta mudar apenas a

sua vida. Uma bibliotecária descobre que cada livro da biblioteca onde trabalha é a vida de uma pessoa. Para poder escrever um romance ela encontra o seu livro e tenta, a todo custo, modificar as condições que a impedem de realizar seu intento. Como cada alteração que ela faz reflete na vida de outras pessoas, à certa altura é necessária, novamente, uma interferência angelical para arrumar a confusão gerada. O certo é que nos dias de hoje, em tempos de internet, de manchetes de jornais e de revistas, as leituras estão cada vez mais rasas. Então, torna-se um excelente exercício mergulhar na história, de um livro ou de um filme adaptado, como os citados aqui, e permitir que ela salte das páginas onde foram escritas. Assim, permitiríamos que o livro cumpra o seu objetivo, simplesmente ser lido, ao invés de ser adorado, cultuado e guardado. Este, na verdade, é o desejo mais ardente e secreto dos livros: que aproveitemos a sua leitura.

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Giselda Leirner nasceu em São Paulo. Artista plástica e escritora, participou de várias mostras individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. É bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Filosofia da Religião. Publicou A Filha de Kafka (contos, Massao Ono, 1999 e Gallimard, 2005), Nas Águas do Mesmo Rio (romance, Ateliê, 2005), O Nono Mês (Ed. Perspectiva, 2008).
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LABORATÓRIO DE ESTÍMULO À CRIATIVIDADE – BIBLIOTERAPIA
Giselda Leirner
Fonte: Leitura, n.º 32, ano 32, Paulus, 2007.

heguei à biblioterapia por meio de uma experiência que tive com jovens adolescentes, ginasiais da periferia da cidade de São Paulo. Naquela época eu não sabia da existência de algo como cura pela leitura. Nas aulas, empiricamente, fui criando uma teoria, com resultados surpreendentes. Os jovens alunos se interessavam não só pela leitura dos textos em voz alta, como pela troca de ideias que surgiam. Eu lhes permitia interromper a leitura quando quisessem, nem que fosse para falar de algo que aparentemente nem sempre tinha relação imediata com a página ou o parágrafo lido. Lembranças, associações, comparações feitas com outras leituras. Às vezes, surgiam revelações pessoais, tais como o relato de experiências vividas em suas casas ou de problemas que afloravam conforme surgiam em suas mentes. Entusiasmados, passaram a trazer poemas, contos, anotações em páginas de diários elaborados fora do horário de aula. Quando fui obrigada a me afastar, criei uma atividade equivalente com um grupo de adultos composto de psicanalistas, professores, teólogos. O resultado foi igualmente rico em descobertas e foram adicionadas as contribuições de cada um para a interpretação do livro lido em classe, o que não só enriqueceu o conteúdo descoberto na leitura, como ampliou a análise sobre o tema escolhido. Foram trabalhados textos de Faulkner e Henry James. Acreditando na ocorrência do que Jung chamou de “sincroni-

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cidade”, de que as coisas vão acontecendo por alguma razão que a própria razão desconhece, caiu em minhas mãos o texto de um filósofo contemporâneo francês, intitulado Bibliotherapie. Investigando sobre o assunto, pude verificar que a palavra, mesmo desconhecida nos dicionários franceses, não era nova, e o método, muito semelhante ao desenvolvido por mim, estava sendo usado não só na França, como na Alemanha e Estados Unidos. A “Biblioterapia” é composta de dois termos de origem grega e , livro e terapia. Assim, a “biblioterapia” é a cura pela leitura. Esta definição, que parece simples, implica em um conjunto de questões complexas, tais como: “O que é um livro?”; “O que é a leitura?”; “O que é uma doença e que sentido dar à palavra terapia?”; e “Será somente a cura?”. Venho, cada vez mais, enriquecendo o meu trabalho, agora busco criar diálogos entre As mil e uma noites e Heráclito, entre Dom Quixote e a Cabala, entre os contos de Grimm e os do Rabino Nahman de Braslav, entre Kafka e o Talmud, entre Proust e Aristóteles, Joyce e Ricoeur, Lévinas e o baal Chem Tov, Freud e Philon de Alexandria... Como se vê, com tal conteúdo, não se trata de uma terapia no sentido comum, pois estamos lidando com textos literários e desenvolvendo conhecimentos a respeito dos livros analisados, encontrando significações que pretendem nos trazer novas perspectivas sobre o mundo e nós mesmos. E esse caminho em direção ao autoconhecimento resgata o sentido
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original de terapia: os primeiros terapeutas eram os filósofos, amantes da verdade mesmo que essa possa ser uma utopia dogmática –, e do “amor à sabedoria”. Freud, antes de utilizar a palavra psicanálise, usava a expressão “tratamento da alma”. Seguindo textos bíblicos, poderíamos também dizer que o visível é a voz tornada escrita. Entender a voz da transcendência é passar pela materialidade física do livro. Entender este “reencontro com o outro, portanto, se dá no grupo de leitura de um texto em voz alta na “companhia” dos seus autores. Dizia Descartes: “A leitura de todos os bons livros é como uma conversação com as pessoas mais honestas de séculos passados que foram seus autores”.

Existem bons livros, livros quaisquer e maus livros. Entre os bons existem os honestos, os inspiradores, os que comovem, os proféticos edificantes. Mas em minha linguagem existe uma outra categoria, aquela dos livros-há! Os livros-há! São aqueles que determinam na consciência do leitor uma mudança profunda. Eles dilatam uma sensibilidade de maneira tal que faz ver os objetos os mais familiares, como se fossem observados pela primeira vez. Os livroshá! galvanizam. Eles atingem o centro nervoso do ser, e o leitor recebe um choque quase físico. Um estremecimento de excitação o percorre da cabeça aos pés. Vernon Proxton

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(Sua biblioteca precisa de você.)

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DINHEIRO PARA BIBLIOTECAS
Gaúcho publica em revista de Universidade de São Paulo trabalho que ajudará bibliotecas públicas de todo o País a ter recursos financeiros próprios.
Lídio Lima er crescido em volta dos livros e ver a precariedade da biblioteca pública de seu município natal, Pedro Osório, fez com que Claudiomiro Machado Ferreira procurasse uma forma para que as bibliotecas públicas pudessem ter a sua independência financeira. Paciência e determinação são duas características desse assessor e consultor de direitos autorias e registro de obras literárias, não fosse assim teria desistido há muito tempo, pois do seu Estado teve muito pouco espaço para divulgar seu trabalho. A força para continuar veio das redes sociais e sites de compartilhamento. Começou publicando em seu próprio blog e nunca desistiu de enviar para todo órgão ou instituição afim com o objeto do texto. De nenhum deles obteve retorno. A surpresa veio do Blog do Galeno, antes mesmo de saber que Galeno Amorim é o atual presidente da Biblioteca Nacional, instituição que admira e sonha um dia conhecer, pois como ele mesmo diz: “Ela tem tudo a ver com meu trabalho”. Para seus clientes ele é taxativo na questão do registro no órgão e do uso da ficha catalográfica. Aspectos que, segundo ele, são fundamentais para, perante a lei, que um livro seja considerado como tal. Mas se engana quem pensa que esse envolvimento com os livros é recente. Desde cedo Claudiomiro viu-se envolvido por eles. De pequeno foi com a leitura. Mesmo afastando-se um pouco na adolescência, nunca os abandonou de vez. Já na fase adulta se viu

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mais envolvido que nunca. Participou de campanhas para revitalização da Biblioteca Municipal de Pedro Osório e da criação da Biblioteca de Cerrito, sendo que desta recebeu uma homenagem. Certa vez precisou de uma autorização especial do Secretário de Cultura de Pedro Osório para que pudesse frequentar a biblioteca à noite. Todavia, justamente pelo fato de estar tão ligado à batalha das bibliotecas por sobrevivência e por perceber que a luta é individual ou, no máximo, de um pequeno grupo de amantes da leitura que ele começou a pensar em uma forma das bibliotecas poderem suprir as suas próprias necessidades sem ter de contar apenas com doações, com a boa vontade de seus frequentadores e apoio esporádico de sua mantenedora. Parte do problema começou a ser resolvido quando teve conhecimento da lei federal nº10.753, de 2003, mais conhecida como “Lei do Livro”. O artigo 16 prevê que os municípios consignarão em seus respectivos orçamentos verbas às bibliotecas para a sua manutenção e aquisição de livros. Essa foi a porta de entrada, o começo do caminho por onde toda a elaboração do trabalho seria executada. Começada a pesquisa a primeira constatação foi que a lei é muito difundida na sua íntegra, mas o entendimento dela mesma é algo raro e fragmentado, mesmo por profissionais das áreas do Direito, Biblioteconomia e Administração. A todos esses profissionais Claudiomiro procurou, mas teve pouco sucesso. Ajuda imprescindível teve
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do contador aposentado que trabalhou na Prefeitura de São José do Norte, onde trabalha desde 2008. Justamente essa convivência com o poder público municipal e sua rotina, aliadas com sua persistência, dedicação e estudo fez com que ele concluísse o trabalho. Lendo livros de direito administrativo, entendendo como funciona a tramitação de processos e até mesmo com conversas com o Ministério Público, de onde teve a informação de que até então, ninguém havia questionado este aspecto da lei, o texto foi finalizado. O primeiro contato com a Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação foi feito em março de 2011. Desde então o trabalho passou por avaliações, modificações e adequações para poder ser publicado. A revista é uma publicação oficial de divulgação do Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, e tem avaliação B3, nacional, pela Qualis/Capes. A íntegra do trabalho pode ser acessada e lida no endereço http://www.sbu.unicamp.br/seer/oj s/index.php/sbu_rci na Seção Notícias e Informação. “O reconhecimento por parte de uma Universidade é uma grande conquista, mas é apenas mais uma das etapas desse projeto. Meu objetivo de conscientizar continua. Só começarei a ficar satisfeito quando as bibliotecas aplicarem os procedimentos e começarem a receber o que é seu por lei”, conclui.

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A PAIXÃO DE JOANA D’ARC, DE CARL THEODOR DREYER
Matheus Magalhães da Silva arl Dreyer foi um cineasta dinamarquês. Morto em 1968, Dreyer conseguiu, dentre 14 obras, ganhar o encômio de um dos melhores diretores de todos os tempos. Também pudera; é dele “A Paixão de Joana D’arc”, um dos mais importante filmes de todos os tempos. Apesar de alguns êxitos prévios como “Michael”, o corajoso longa que levou o tema do homossexualismo para as telas em 1924, foi com Jeanne D’arc que o diretor tomou o mundo de assalto, baseado nos papéis originais do julgamento da adolescente francesa que foi canonizada na época em que a obra foi lançada.

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Apesar da amálgama de sentimentos presente na história do julgamento da mártir francesa, o grande êxito de Dreyer veio da criação de uma linguagem tão puramente cinematográfica. Apesar de mudo, o filme conta com poucos intertítulos – as telas com os diálogos comuns à natureza desta era do cinema. Seu grande valor é estético e está inebriado na perfomance definitiva de Maria Falconetti, representando a sofrida Jeanne com uma pletora de expressões e lágrimas, muito bem documentadas pelos closes do mestre dinamarquês. Abrilhanta o elenco a presença do dramaturgo Antonin Artaud, homem inquieto que pro-

pôs uma revolução em seu meio com o Teatro da Crueldade. Filmado em apenas dois cenários, Jeanne D’arc não estiliza o julgamento, o cerne do roteiro. A estética das locações é acurada, fruto de estudos do diretor e sua equipe. Apesar de caros, Dreyer não fez questão de exibi-los, uma vez que o calvário de Falconetti e a fúria dos juízes católicos são a força motriz do roteiro. Ainda em uma análise técnica, o misé en sceneé próximo à perfeição, sendo corajosamente empurrado em direção à vanguarda, com enquadramentos onde a câmera fica abaixo dos personagens, capturando-os com semblantes ameaçadores ou,

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no caso de Jeanne, sempre de maneira cândida mas irreprímivel através dos closes fechados em seu rosto. Para enteder a importância do cinema de Dreyer, é preciso situar-se historicamente: fazia apena três anos que Sergei Einsenstein havia lançado O Encouraçado Potemkin, com a inacreditável e desafiadora sequência da escadaria de Odessa. Este desafio aos limites técnicos do cinema ainda estava em sua infância quando Dreyer utilizou-os para efeitos dramáticos em Jeanne D’arc. A perspectiva de um cinema que fugisse das convenções do teatro e passasse a ver na câmera um instrumento estético em si era subversiva e totalmente longínqua. Desta forma, o cinema que utilizava a imagem como instrumento narrativo e não apenas como meio foi obra de Dreyer e seu filme. O diretor flertou com o cristianismo na totalidade de sua obra. Apesar de não se interessar pela ortodoxia católica, assim como Roberto Rossellini e boa parte

do neorrealismo italiano – formado por seus admiradores – Dreyer via no misticismo um elemento narrativo de contato com a alma de seus personagens, bem como um catalizador da moral em seus roteiros. Em sua outra obra-prima “Ordet” (A Palavra), ele novamente trabalha com valores transcendentais aos do formalismo católico, através de um personagem que passa boa parte da trama sendo julgado como insano mas, ao fim, revela-se um emissário de Cristo, detentor do poder de conceder o milagre da ressurreição. A impossibilidade da crença no místico e sobrenatural por parte dos cristãos modernos devido à consonância aos valores e métodos empíricos da ciência, é o esteio para que Dreyer trabalhe a questão da fé em seu magnum opus, um dos mais belos filmes que já tive o prazer de assistir. A moral dos juízes em Jeanne D’arcé outro ponto interessante da trama. Em filmes como The Devils, de Ken Russel, o magistrado católico é corrupto e já possui o veredito antes mesmo de
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julgar o réu. Neste filme, apesar do ceticismo e hostilidade, os juízes sentem condolência e se constragem em penalizar a jovem. Suas súplicas para que ela renuncie ao herético discurso de ser uma enviada de Deus para expulsar os ingleses da França são rechaçadas pela fé irrestrita de Jeanne. Como Cristo, ela enfrenta seu momento de dúvida e se diz confundida pela ação do Diabo com o fim de evitar sua incineração para, logo em seguida, em uma epifania, descobrir em júbilo que o martírio era o destino que Deus quis para finalizar sua curta jornada. Para encerrar, deixo as palavras de Luis Buñuel que escreveu um artigo sobre o filme na época do lançamento. Para concluí-lo, o lendário diretor espanhol encapsula o sentimento que a técnica de Dreyer tão bem representa em sua obra: “Nós assistimos, uma a uma, suas pequenas lágrimas, que rolaram sobre nós. Uma lágrima sem cheiro – insípida – uma gota da mais pura primavera”. 

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Revista Silêncio – Nº01 – revistasilencio@hotmail.com Sylvester Stallone

UMA DAS HISTÓRIAS MAIS TRISTES NOS BASTIDORES DE HOLLYWOOD
Tiago Stechinni eu nome é Sylvester Stallone. Um lutador em todos os sentidos da palavra. Nasceu com uma paralisia facial, o que lhe rendeu apelidos e bullying na infância. Em um ponto de sua vida estava tão pobre que roubou as poucas jóias que sua mulher tinha e as vendeu. As coisas ficaram tão ruins que ele acabou morando na rua. Sim, ele dormiu na estação de ônibus de Nova York por 3 dias. Incapaz de pagar aluguel ou comprar comida. O fundo do poço chegou quando ele teve de vender seu cachorro em uma loja de bebidas para um estranho qualquer, pois não tinha dinheiro para alimentá-lo mais. Ele o vendeu por $25, entregou seu cachorro e saiu chorando. Duas semanas depois ele viu uma luta de boxe entre Mohammed Ali e Chuck Wepner e essa luta o inspirou a escrever o roteiro de ROCKY. Ele escreveu o roteiro durante 20 horas seguidas!

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Tentou vendê-lo e recebeu a oferta de $125,000, mas tinha apenas UM PEDIDO. Ele queria ESTRELAR no filme como o personagem principal ROCKY, mas o estúdio disse NÃO. Eles queriam uma “estrela” de verdade. Disseram que ele “tinha um rosto engraçado e falava engraçado”. Ele saiu com seu roteiro. Depois de algumas semanas o estúdio o ofereceu $250,000, ele recusou, então ofereceram $350,000, e ele ainda recusou. Queriam o seu filme mas não o queriam. Ele disse NÃO! “Eu tenho que estar nesse filme”. Depois de um tempo o estúdio concordou em lhe dar $35,000 pelo roteiro e o deixaram estrelar o filme. O resto entrou para a história do cinema. O filme GANHOU prêmios de MELHOR FILME, MELHOR DIREÇÃO, MELHOR EDIÇÃO e o prestigioso OSCAR de MELHOR FILME. Ele ainda foi nomeado como ME-

LHOR ATOR! O filme ROCKY entrou para o s registros americanos da indústria de cinema como um dos maiores filmes até então feitos. E você sabe a primeira coisa que ele fez com os $35,000? COMPROU DE VOLTA O CACHORRO QUE HAVIA VENDIDO. Ficou parado na loja por 3 dias até que o homem voltasse com seu cachorro. O homem se recusou a vendê-lo mesmo por $100, Stallone então ofereceu $500, ele recusou. Ele então ofereceu $1.000. Acredite ou não Stallone teve de pagar $15.000 pelo mesmo cachorro que ele vendera por $25. O mesmo Stallone que morou na rua, que vendeu seu cachorro, pois não podia alimentá-lo, é um dos maiores ícones do cinema mundial hoje.

Não ter dinheiro é ruim, MUITO RUIM. A vida não será fácil. Oportunidades passarão por você ser um ninguém. Pessoas vão querer seu produto e não VOCÊ. É um mundo cruel. Se você ainda não é famoso, ou rico, ou bem conectado você vai achar ainda mais difícil. Portas se fecharão . Pessoas roubarão sua glória e esmagarão sua esperança. Você vai se esforçar, se esforçar e nada acontecerá. Então desolado, quebrado, pobre, você aceitará trabalhos que não o completam por sobrevivência. Quem sabe pode até acabar dormindo na rua. Mas NUNCA deixem que destruam seu sonho. Seja o que for que aconteça CONTINUE SONHANDO, mesmo quando esmagarem sua esperança CONTINUE SONHANDO, mesmo quando te deixarem sozinho CONTINUE SONHANDO. Ninguém sabe do que você é capaz a não ser você mesmo. Enquanto você estiver vivo, a sua história ainda não acabou. Sylvester Stallone

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JUSTIÇA USA CÓDIGO PENAL PARA COMBATER CRIME VIRTUAL
Coordenadoria de Editoria e Imprensa rimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação), furtos, extorsão, ameaças, violação de direitos autorais, pedofilia, estelionato, fraudes com cartão de crédito, desvio de dinheiro de contas bancárias. A lista de crimes cometidos por meio eletrônico é extensa e sua prática tem aumentado geometricamente com a universalização da internet. Levantamento realizado por especialistas em Direito da internet mostra que atualmente (23/11/2008) existem mais de 17 mil decisões judiciais envolvendo problemas virtuais; em 2002 eram apenas 400. A internet ainda é tida por muitos como um território livre, sem lei e sem punição. Mas a realidade não é bem assim: diariamente, o Judiciário vem coibindo a sensação de impunidade que reina no ambiente virtual e combatendo a criminalidade cibernética com a aplicação do Código Penal, do Código Civil e de legislações específicas como a Lei nº9.296 – que trata das interceptações de comunicação em sistemas de telefonia, informática e telemática – e a Lei nº9.609 – que dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programas de computador. Na ausência de uma legislação específica para crimes eletrônicos, os tribunais brasileiros estão enfrentando e punindo internautas, crakers e hackers que utilizam a rede mundial de computadores como instrumento para a prática de crimes. Grande parte dos magistrados, advogados e consultores jurídicos considera que cerca de 95% dos delitos cometidos eletronicamente já estão tipificados

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no Código Penal brasileiro por caracterizar crimes comuns praticados por meio da internet. Os outros 5% para os quais faltaria enquadramento jurídico abrangem transgressões que só existem no mundo virtual, como a distribuição de vírus eletrônico, cavalos-detróia e worm (verme, em português). Para essa maioria, a internet não é um campo novo de atuação, mas apenas um novo caminho para a realização de delitos já praticados no mundo real, bastando apenas que as leis sejam adaptadas para os crimes eletrônicos. E é isso que a Justiça vem fazendo. Adaptando e empregando vários dispositivos do Código Penal no combate ao crime digital. E a lista também é extensa: insultar a honra de alguém (calúnia – artigo138), espalhar boatos eletrônicos sobre pessoas (difamação – artigo 139), insultar pessoas considerando suas características ou utilizar apelidos grosseiros (injúria – artigo 140), ameaçar alguém
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(ameaça – artigo 147), utilizar dados da conta bancária de outrem para desvio ou saque de dinheiro (furto – artigo 155), comentar, em chats, e-mails e outros, de forma negativa, sobre raças, religiões e etnias (preconceito ou discriminação – artigo 20 da Lei nº7.716/89), enviar, trocar fotos de crianças nuas (pedofilia – artigo 247 da Lei nº8.069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA). No caso das legislações específicas, as mais aplicadas são as seguintes: usar logomarca de empresa sem autorização do titular, no todo ou em parte, ou imitá-la de modo que possa induzir à confusão (crime contra a propriedade industrial – artigo 195 da Lei nº9.279/96), monitoramento não avisado previamente (interceptação de comunicações de informática – artigo 10 da Lei nº9.296/96) e usar cópia de software sem licença (crimes contra software “Pirataria” – artigo 12 da Lei nº9.609/98).

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Consolidando dispositivos O STJ, como guardião e uniformizador da legislação infraconstitucional, vem consolidando a aplicação desses dispositivos em diversos julgados. Nos casos de pedofilia, por exemplo, o STJ já firmou o entendimento de que os crimes de pedofilia e divulgação de pornografia infantil por meios eletrônicos estão descritos no artigo 241 da Lei nº8.069/90 (apresentar, produzir, vender, fornecer, divulgar ou publicar, por qualquer meio de comunicação, inclusive pela rede mundial de computadores ou internet, fotografias ou imagens com pornografia ou cenas de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente), e previstos em convenção internacional da qual o Brasil é signatário. Mais do que isso: a Corte concluiu que, por si só, o envio de fotos pornográficas pela internet (e-mail) já constitui crime. Com base no artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os ministros da Quinta Turma do STJ cassaram um habeas-corpus concedido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) que determinava o trancamento de uma ação penal sob o argumento de que o ECA definiria como crime apenas a “publicação” – e não a mera “divulgação” – de imagens de sexo explícito ou pornográficas de crianças ou adolescentes. Em outro caso julgado, a Turma manteve a condenação de um publicitário que participou e filmou cenas eróticas envolvendo crianças e adolescentes. Ele foi denunciado pelo Ministério Públi-

co de Rondônia com base no artigo 241 do ECA, nos artigos 71 e 29 do Código Penal (crime continuado e em concurso de agentes) e por corrupção de menores (Lei nº2.252/54: constitui crime, punido com a pena de reclusão de um a quatro anos e multa, corromper ou facilitar a corrupção de pessoa menor de 18 anos, com ela praticando, infração penal ou induzindo-a a praticá-la). Os casos de furto e estelionato virtual também já foram devidamente enquadrados pela Corte. A Terceira Seção do STJ consolidou o entendimento de que a apropriação de valores de contacorrente mediante transferência bancária fraudulenta via internet sem o consentimento do correntista configura furto qualificado por fraude, pois, nesse caso, a fraude é utilizada para burlar o sistema de proteção e vigilância do banco sobre os valores mantidos sob sua guarda. Também decidiu que a competência para julgar esse tipo de crime é do juízo do local da consumação do delito de furto, que se dá no local onde o bem é subtraído da vítima. Em outra decisão, relatada pelo ministro Felix Fischer, a Quinta Turma do STJ definiu claramente que, mesmo no ambiente virtual, o furto – “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel” (artigo 155 do Código Penal) – mediante fraude não se confunde com o estelionato – “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento” (artigo 171 do Código Penal) – já que no

furto a fraude é utilizada para burlar a vigilância da vítima e, no estelionato, o objetivo é obter consentimento da vítima e iludi-la para que entregue voluntariamente o bem. Crimes contra a honra Em uma ação envolvendo os chamados crimes contra a honra praticados pela internet, o desembargador convocado Carlos Fernando Mathias de Souza manteve a decisão da Justiça gaúcha que condenou um homem a pagar à exnamorada indenização por danos morais no valor de R$ 30 mil por ter divulgado, pela internet, mensagens chamando-a de garota de programa. No recurso julgado, a ex-namorada alegou que, após a falsa publicação de e-mails com seus dados pessoais junto com uma fotografia de mulher em posições eróticas, ela passou pelo constrangimento de receber convites por telefone para fazer programas sexuais. Em outro julgado, a Quarta Turma do STJ determinou que o site Yahoo! Brasil retirasse do ar página com conteúdo inverídico sobre uma mulher que ofereceria programas sexuais. A empresa alegou que o site citado foi criado por um usuário com a utilização de um serviço oferecido pela controladora americana Yahoo! Inc., portanto caberia a essa empresa o cumprimento da determinação judicial. Em seu voto, o relator do processo, ministro Fernando Gonçalves, sustentou que a Yahoo! Brasil pertence ao mesmo grupo econômico e apresenta-se aos con-

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sumidores utilizando a mesma logomarca da empresa americana e, ao acessar o endereço trazido nas razões do recurso como sendo da Yahoo! Inc. – www.yahoo.com –, abre-se, na realidade, a página da Yahoo! Brasil. Diante desses fatos, o ministro conclui que o consumidor não distingue com clareza as divisas entre a empresa americana e sua correspondente nacional. A Terceira Turma decidiu que ação de indenização por danos morais pode ser ajuizada em nome do proprietário de empresa vítima de mensagens difamatórias em comunidades do site de relacionamentos Orkut. O tribunal considerou legítima a ação proposta por um empresário de Minas Gerais contra duas pessoas que teriam difamado o seu negócio de criação de avestruzes, causando-lhe sérios prejuízos. Segundo a relatora, ministra Nancy Andrighi, as mensagens divulgadas na internet não foram ofensivas somente ao empresário e a seu filho, mas também ao seu comércio de aves. Atrás das grades Aplicando os dispositivos do Código Penal, o STJ vem negando habeas-corpus a acusados e condenados por diversas modali-

dades de crimes eletrônicos. Entre vários casos julgados, a Corte manteve a prisão do hacker Otávio Oliveira Bandetini, condenado a 10 anos e 11 meses de reclusão por retirar irregularmente cerca de R$ 2 milhões de contas bancárias de terceiros via internet; negou o relaxamento da prisão preventiva de um tatuador denunciado por divulgar fotos pornográficas de crianças e adolescentes na internet; de um acusado preso em operação da Polícia Federal por participar de um esquema de furto de contas bancárias; de um hacker preso pelos crimes de furto mediante fraude, formação de quadrilha, violação de sigilo bancário e interceptação telemática ilegal; e de um técnico em informática de Santa Catarina acusado de manipular emails para incriminar colegas de trabalho. O Tribunal também enfrentou a questão da ausência de fronteira física no chamado ciberespaço ao entender que, se o crime tem efeitos em território nacional, deve-se aplicar a lei brasileira. No caso julgado, um acusado de pedofilia alegou que as fotos pornográficas envolvendo crianças e adolescentes foram obtidas no sítio da internet do Kazaa, um programa internacional de armazenamento e
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compartilhamento de arquivos eletrônicos sediado fora do Brasil. A Corte entendeu que, como o resultado e a execução ocorreram em território nacional, o fato de os arquivos terem sido obtidos no Kazaa, com sede no estrangeiro, seria irrelevante para a ação. O Poder Legislativo ainda não concluiu a votação do projeto de lei que visa adequar a legislação brasileira aos crimes cometidos na internet e punir de forma mais rígida essas irregularidades. O projeto, que já foi aprovado pelo Senado, define os crimes na internet, amplia as penas para os infratores e determina que os provedores armazenem os dados de conexão de seus usuários por até três anos, entre outros pontos. Enquanto a lei que vai tipificar a prática de crimes como phishing (roubo de senhas), pornografia infantil, calúnia e difamação via web, clonagem de cartões de banco e celulares, difusão de vírus e invasão de sites não é aprovada no Congresso Nacional, o Poder Judiciário continuará enquadrando os criminosos virtuais nas leis vigentes no mundo real, adaptandoas à realidade dos crimes cometidos na internet.

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O DOWNLOAD DE LIVROS
Claudiomiro Machado Ferreira e tempos em tempos precisamos nos deparar com a realidade, mesmo que ela seja virtual. Um fato do qual não podemos fugir é o de milhares de sites disponibilizarem no mundo virtual livros digitados ou digitalizados. Vários deles o fazem gratuitamente, mas também há os que cobram pelo download. Direta ou indiretamente essa prática atinge de forma negativa a todos. Os mais prejudicados acabam sendo as editoras e os autores. Não há como negar: todo site que libera, para download, livros sem autorização dos detentores dos direitos patrimoniais comete um ato ilícito, ou seja, uma ação contrária à lei e que resulta dano a outrem. Um grande esforço para combater a prática do download ilegal tem sido feito pela Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos, ABDR. Segundo o site Aristoteles Atheniense Advogados, só em 2010, no mês de fevereiro, foram localizados 2.203 links que ofereciam download ilegal de livros na internet. Destes, 2.151 foram retirados do ar depois de serem detectados pela entidade. De todos os links registrados no mês, 2.144 foram localizados após buscas da ABDR, outros 59 foram denunciados. Desde que começou a fiscalização em agosto de 2009, setembro de 2010 havia sido o mês recorde, com 3.914 links detectados. De janeiro a junho de 2010, 24.365 mil sites para download ilegal de livros no Brasil foram identificados, com 92,4% deles (22.524 mil) sendo removidos. Esta ação resultou da campanha Combate à Pirataria Digital, que teve seu próprio departamento instalado na segunda metade de 2009, resultado de uma

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parceria entre a ABDR e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, SNEL. Uma das alegações de quem defende a disponibilização e o download de livros na internet se baseia em uma corrente que advém dos Estados Socialistas, que adotaram a ideia de que o Direito Autoral era um direito da coletividade. Se nenhuma criação é em verdade original e sofre ou sofreu alguma influência, então, o resultado da criação deveria pertencer ao meio, ou seja, à coletividade. Sendo de todos, deveria retornar a todos. Esse conceito foi reavivado e tem em Lawrence Lessig, criador das licenças Creative Commons, seu maior expoente na atualidade. Já a Cultura Livre é um movimento social que se baseia na liberdade de distribuir, modificar trabalhos e obras criativas. No Brasil a Cultura Livre tem como seu difusor a Fundação Getúlio Vargas, FGV. Creative Commons, por sua vez, é uma organização não governamental sem fins lucrativos voltada a expandir a quantidade de obras criativas disponíveis, através de licenças que permitem a cópia e compartilhamento com menos restrições. Os mais sinceros apenas dizem que não querem pagar e que não estão nem aí para os autores ou editoras. Querem apenas ter acesso e ler. Não se importam com os aspectos que envolvem a produção literária como um todo. Infelizmente muitos têm distorcido os conceitos de Lessig e do movimento Cultura livre para seus propósitos. Desses aspectos que envolvem a produção literária podemos citar os esforços dos autores em pesquisar e produzir, os custos das gráficas, das editoras e das distri57

buidoras e os ganhos (lícitos) advindos da venda dos livros. Ganhos estes que em vários casos são usados para custear ações assistenciais, como é o caso de várias instituições espíritas que sobrevivem dos direitos patrimoniais de livros cujos direitos foram a elas doados. Uma destas instituições é o Grupo Espírita Emmanuel, GEEM, que de tão prejudicada por downloads ilegais de seus livros, obrigou-se a divulgar um Comunicado cujo título é Violação de Direitos Autorais, onde lamenta o ocorrido, descreve as dificuldades de manter sua produção e chama a atenção para o uso que faz dos recursos das obras que edita. Analisando a questão do GEEM, o Prof. Jáder Sampaio levantou importantes considerações sobre a disponibilização e download de livros espíritas em particular e que se aplicam a livros em geral. Em seu blog Espiritismo Comentado Sampaio considera sete aspectos. Destes, destacamos como o mais importante o perigo de uma obra mal digitada. Sampaio é uma dessas pessoas que publicou um livro (Voluntários, Ed. UNIFRAN/EME, 248p, R$ 28,00) e doou os direitos para uma instituição, daí entende-se o apoio que dá ao GEEM. Como aspectos legais inquestionáveis podemos destacar a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais. Nela temos o conceito do termo contrafação, ou seja, a reprodução não autorizada (sem definir se física ou digital); que são obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente

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no futuro; e, que depende de autorização prévia e expressa do autor a utilização da obra, para reprodução e distribuição (novamente sem fazer alusão ao suporte, se físico ou digital). Já do Código Penal podemos destacar os artigos que tratam dos crimes contra a propriedade imaterial e intelectual. Do artigo 184 ao 186 estão descritas as ações e penas para quem violar os direitos dos autor, sejam reprodução, depósito ou oferecimento ao público. As penas podem ser de detenção ou reclusão e podem variar, dentro destas, de 03 (três) meses a 4 (anos). A aplicação de multa também é prevista neste código. Quem considerar exagerada a penalidade para o download pode analisar o magnífico texto de Valdomiro Soares, Os Perigosos Rumos da Pirataria, publicado no Jornal do Comércio, de Porto Alegre, em 1º de agosto de 2012, e disponível para leitura on-line no

endereço eletrônico http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.p hp?codn=99894. Nele são expostos todos os prejuízos que a pirataria proporciona. Entre estes estão os prejuízos financeiros, qualitativos e de desemprego. Segundo Soares a Polícia Internacional, Interpol, definiu a pirataria como o Crime do Século, pois esta movimenta cifras superiores ao tráfico de drogas, entre US$ 500 e US$ 600 bilhões anualmente. Se o consumidor de drogas sustenta todo o tráfico atrás de si, o violador individual de direitos autorais, também. O conceito de Crime Menor ou de Crime de Pequena Monta não pode ser aplicado nesses casos, pois receptação de roubo e apropriação indébita também tem punições já previstas. Assim, defendemos penalidades para todos esses casos, apesar do consultor jurídico da ABDR, Dalízio Barros, afirmar em uma reportagem de um portal de notícias que o usuário não é

punido se baixa um livro digital ilegal, mas sim quem o publicou na web. Defensores que somos dos Direitos Autorais em sua integralidade apoiamos o GEEM, mas acreditamos que ele deve ir além, validamos o que diz o Prof. Sampaio e convocamos a todos, autores ou não, para que denunciem os casos de disponibilização de livros. Para isso a ABDR disponibiliza os endereços eletrônicos copyrigth01@abdr.org.br e copyrigh02@abdr.org.br, mas as denúncias também podem ser feitas através do formulário on-line acessível em http://www.abdr.org.br/site/denunc ie.asp. O fornecimento de dados pessoais não é obrigatório e a ajuda prestada será muito valiosa, pois como afirma a própria ABDR, “o respeito ao direito autoral é fundamental para ampliar a cultura, a educação e a circulação do conhecimento de um país.”

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PARA FALAR E ESCREVER BEM
Como Escrever, O que Escrever, Bons Discursos e Oradores.
Joseph Devlin, M.A.*
Tradução: Claudiomiro Machado Ferreira**

egras de gramática e retórica são boas quando usadas no lugar certo. Essas diretrizes devem ser aplicadas com o objetivo de expressar pensamentos e ideias de forma adequada. E estas devem ser expressas com sentido e significado claros e de uma maneira agradável e aceitável. Entretanto, não se faz um escritor ou autor com regras prontas e instantâneas. A aplicação de leis naturais é tarefa da velha Mãe Natureza e nada pode tomar seu lugar. Se a natureza não dotou uma pessoa com determinadas faculdades, elas não surgirão naturalmente. Ela não terá nada para dizer. Se uma pessoa não tem nada para dizer, ela não poderá dizê-lo. O nada não consegue produzir algo. O autor deve ter pensamentos e ideias antes, para depois colocar no papel. E essas veem naturalmente e pelo meio em que vive e são desenvolvidas e fortalecidas pelo estudo. Há uma antiga citação latina a respeito do poeta que diz: “Poeta nascitur non fit”, a tradução é: “O poeta nasce poeta, não se faz poeta.” Em muitos aspectos o mesmo se aplica ao autor. Algumas pessoas são muito cultas, tanto quanto um livro permite, mesmo assim não conseguem se expressar de uma forma aceitável. Seu conhecimento é como ouro trancado em um cofre, onde não tem valor para si próprio ou para o resto do mundo. A melhor maneira de aprender a escrever é sentar e escrever, da mesma forma que a melhor maneira de aprender a andar de bicicleta é montar em uma e pedalar. Primeiro escreva sobre coisas simples, assuntos que são

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familiares para você. Tente, por exemplo, em ensaio sobre um gato. Diga algo original sobre ele. Não diga: “Ele é muito travesso quando jovem, mas torna-se sério à medida que envelhece.” Isso já foi dito milhares de vezes antes. Diga o que você viu seu gato fazer, como ele caça um rato no sótão e o que fez depois de pegá-lo. Temas familiares sempre são os melhores para quem está começando. Não tente descrever uma cena de um lugar se você nunca esteve lá e não conhece nada do país. Não procure assuntos, há milhares à sua volta. Descreva o que viu ontem – um incêndio, um cavalo em disparada, uma briga de cães na rua e seja original na sua descrição. Imite os melhores escritores em seu estilo, mas não exatamente em suas palavras. Desista do caminho que já foi trilhado, tente um caminho novo. Faça você mesmo sua trilha. Saiba sobre o que vai escrever e escreva sobre o que você sabe. Esta é uma regra de ouro que você deve seguir. E para conhecer você deve estudar. O mundo é um livro aberto e todos que nele vivem, devem lê-lo. A Natureza é um grande número de páginas que estão abertas, tanto para o camponês quanto para o nobre. Estude os modos e os tempos da Natureza, porque eles são vastamente mais importantes do que os da Gramática. Livros didáticos podem ser mais fáceis, já que são mais técnicos, mas, no final das contas, são somente teoria e não prática. A maior alegoria escrita em inglês, na verdade em qualquer idioma, foi escrita por um ignorante, suposto ignorante, um funileiro cha-

mado John Bunyan.1 Shakespeare não foi culto no sentido em que conhecemos o termo nos dias de hoje, no entanto, nenhum homem jamais viveu ou provavelmente viverá que o igualou ou igualará na manifestação do pensamento. Ele simplesmente leu o livro da natureza e o interpretou do ponto de vista de sua própria e impressionante genialidade. Não pense que é preciso uma formação escolar para ter sucesso como um escritor. Longe disso. Alguns de nossos teóricos são maçantes, ineficientes, monótonos e parasitas na sociedade, não só sem importância para o mundo, mas até para eles mesmos. Se uma pessoa for muito enfeitada ela pode tornar-se sem atrativos para outro ponto de vista. Como regra geral, enfeites servem, mas são de pouca utilidade. Quem conhece de tudo um pouco, acaba por não conhecer nada. Isto pode parecer paradoxal, mas, no entanto, a experiência prova que é verdade. Se você tem poucos recursos isto não é um problema, mas uma vantagem. A falta de recursos é um incentivo para esforçar-se, não uma desvantagem.2 É melhor nascer com um cérebro bom e ativo do que receber as coisas sem ter de fazer esforço. Elas acabam por perder o valor. Se o mundo dependesse de amuletos de sorte, já teria acabado muito tempo atrás. Dos poços da pobreza, das arenas do sofrimento, dos casebres
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O autor refere-se a “O Peregrino”. (Nota do Tradutor) 2 A este respeito, ver o filme Pergunte ao pó, de 2006. Roteiro e direção de Robert Towne, com Colin Farrell e Salma Hayk. Baseado no romance de 1939 escrito por John Fante. (Nota do Tradutor)

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da negligência, dos barracos da obscuridade, dos becos e dos caminhos da opressão, dos sótãos e porões escuros, de intermináveis e penosos trabalhos surgiram homens e mulheres que fizeram história. Eles tornaram o mundo mais esclarecido, melhor, mais elevado e mais sagrado pela sua própria existência nele. Fizeram do mundo um lugar melhor para viver e respeitável para morrer. Homens e mulheres que fizeram isto por iniciativa própria e assim santificaram essa atividade com sua presença. Em muitos casos fizeram isso dando seu próprio sangue. Falta de recursos é uma graça, não uma desgraça. É uma benção das mãos de Deus se aceita de boa vontade. Em vez de atrasar, tem elevado a literatura em todas as épocas. Homero era um mendigo cego que declamava parte de suas poesias por esmolas. O velho e grande Sócrates, o oráculo da sabedoria, enquanto ensinava os jovens de Atenas, muitas vezes ficava sem comer porque não tinha recursos para isso. O divino Dante não era nada mais do que um mendigo, um morador de rua sem casa, sem amigos, que vagava pela Itália enquanto compunha seus cantos imortais. Milton, que em sua cegueira “viu o lugar onde os anjos tem medo de ir”, era muito pobre quando escreveu sua maior criação, “Paraíso Perdido”. Shakespeare ficava alegre ao cuidar e lavar os cavalos dos frequentadores do Teatro Cavalo Branco por umas poucas moedas para poder comprar comida. Burns criou seus poemas imortais enquanto guiava um arado. O pobre Heinrich Heine, menosprezado e pobre, de seu “colchão cripta3“, com seu sofrimento, em Paris, adicionou louros literários à coroa de flores da Alema3

Em 1848 Heine adoeceu devido à sífilis e passou a sofrer de paralisia, passando os oito últimos anos de sua vida em um colchão, que chamou de “colchão-cripta”, em alemão: Matratzengruft. (Nota do Tradutor)

nha, sua terra natal. Na América, Elihu Burritt enquanto trabalhava na bigorna, estudou e aprendeu vários idiomas e tornou-se o leão literário de sua época e de seu país. Em outras áreas, ainda tratando de esforço, a pobreza foi um estímulo para a ação. Napoleão nasceu na obscuridade, filho de um simples escrivão em uma atrasada ilha da Córsega. Abraham Lincoln, glória e orgulho da América, o homem que combateu a escravidão, nasceu em uma casa rústica na afastada Ohio. Assim também foi com James A. Garfield. Ulysses Grant veio de um curtume para tornar-se um dos maiores generais do mundo. Thomas A. Edison começou como vendedor de jornal em uma estrada de ferro. Os exemplos dessas pessoas são incentivos para a ação. A pobreza impulsionou-os a ir adiante em vez de fazê-los desistir. Então, se você é pobre, faça das suas circunstâncias um meio para atingir um fim. Seja ambicioso, mantenha um objetivo e aplique toda a sua energia para alcançá-lo. Contase uma história de Thomas Carlyle. Do dia em que ele alcançou a mais alta honra que o mundo erudito poderia conferir-lhe quando foi eleito Reitor da Universidade de Edinburgh. Depois do seu discurso de investidura, caminhando pelos corredores, ele encontrou um estudante aparentemente absorto em seu estudo. Com sua forma áspera, brusca e peculiar o Sábio de Chelsea perguntou ao jovem: — Para quê você está estudando? — Não sei. – Respondeu o jovem. — Você não sabe? – Trovejou Carlyle. — Jovem, você é um tolo. Então ele aplicou uma veemente repreensão: — Meu rapaz, quando tinha a sua idade eu trabalhava, vivia na pobreza na pequena cidade de Ecclefechan, nos campos de Dumfrieshire, onde, em todo o
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local, somente o Sacerdote e eu sabíamos ler a Bíblia. Mesmo pobre e ignorante como eu era, na minha imaginação via uma cadeira esperando por mim na Galeria da Fama. Dia e noite, noite e dia eu estudava. Até que cheguei a este cargo hoje de Reitor da Universidade de Edinburgh. Um outro escocês, Robert Buchanan, o famoso escritor foi de Londres para Glasgow com nada mais do que meia coroa no seu bolso. “Aqui vamos nós”, disse ele, “para uma sepultura na Abadia de Westminster”. Ele não era mais do que um estudante, mas sua ambição levou-o e ele tornou-se um dos grandes leões literários da principal cidade do mundo. Henry M. Stanley era um órfão cujo nome real era John Rowlands. Ele foi educado em um orfanato de Welsh, mas era ambicioso, assim ele tornou-se um grande explorador, um grande escritor, vindo a ser membro do Parlamento e Cavaleiro do rei da Inglaterra. Ambicione ter sucesso e você será bem sucedido. Risque a palavra “fracasso” do seu dicionário. Não admita isso. Lembre-se: “Na batalha ardente da vida/somente vence/Quem todo dia marcha adiante/e nunca diz: fracassei.”4 Deixe cada obstáculo que você encontrar ser nada mais do que um degrau no caminho do progresso contínuo para o sucesso. Ainda que circunstâncias desagradáveis cerquem você, decida por superá-las. Bunyan escreveu “O Peregrino” na prisão de Bedford com pedaços de papel de embrulho enquanto passava a pão e água. O infeliz gênio americano, Edgar Allan Poe, escreveu “O Corvo”, a mais maravilhosa concepção e o mais artístico poema de toda a literatura inglesa em uma pequena casa na região de Fordham, Nova Iorque, enquanto
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Tradução em versos livres, sem regularidade métrica, do poema Nunca diga Fracassei, autoria desconhecida. (Nota do Tradutor)

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estava na mais horrível situação de necessidade. Durante toda sua curta e maravilhosamente brilhante carreira, o pobre Poe nunca ganhou um dólar que pudesse dizer que era seu próprio. Isso, porém, é culpa e desgraça dele próprio e é um mau exemplo. Miguel de Cervantes Saavedra ficou três meses em uma cadeia em Sevilha, na Espanha, por causa de dívidas. Foi na prisão que começou a escrever Dom Quixote. Marco Polo, ao retornar da China, comandou uma esquadra veneziana na guerra contra Gênova. Capturado, passou pelo menos um ano no cárcere. Ditou As Viagens de Marco Polo para um companheiro de cela. Graciliano Ramos ficou nove meses preso, entre 1936 e 1937, por motivos políticos. Mas seu livro Memórias do Cárcere, relatando os dias de cadeia, só seria publicado no ano de sua morte, em 1953. Voltaire, entre 1717 e 1718, passou onze meses na Bastilha, a famosa prisão francesa, por escrever poemas contra a monarquia. Ali, traçou as primeiras linhas do poema épico Henriade.5 Não pense que é necessário o conhecimento de uma biblioteca inteira para ter sucesso como escritor. Uma grande quantidade de livros só atrapalha. Conheça poucos, mas bons livros. Conheça-os bem e terá tudo o que é necessário. Um grande especialista disse uma vez: “Tenha cuidado com o homem que conhece bem apenas um livro”, o que significa que o homem de um livro é um mestre. Há quem diga que um conhecimento profundo só da Bíblia já fará qualquer pessoa um mestre da literatura. Certo é que a Bíblia e Shakespeare são um resumo da essência do conhecimento.6 Shakespeare reuniu
5

DOMINGUES, Luiz Carlos. Zero Hora, Porto Alegre, RS. 26 janeiro 2011. Almanaque Gaúcho, p 66. Escrevendo no Xadrez. Adaptado. (Nota do Tradutor) 6 Thomas C. Foster em seu trabalho “Para ler literatura como um professor”, diz no título do capítulo 6: “Quando estiver em

tudo que veio antes dele. Plantou as sementes para todos que virão depois. Foi o grande oceano intelectual cujas ondas banharam os continentes de todo pensamento. Livros são baratos hoje em dia. Os mais importantes trabalhos, graças às editoras e gráficas, estão ao alcance de todos, e quanto mais você ler, melhor, desde que sejam dignos de ler. Às vezes a pessoa ingere veneno sem saber, como no caso de certos alimentos, e é muito difícil livrar-se de seus efeitos. Então, tenha cuidado com o que você escolhe para ler. Se não pude ter uma grande biblioteca, e como foi dito, isto não é necessário, selecione uns poucos livros dos grandes trabalhos de alguns mestres, assimile-os e compreenda-os de forma que sejam um auxílio em seu aprendizado literário. Seu cérebro é um depósito, não o ocupe com coisas que não vai usar. Ocupe-o com o que é proveitoso. Separe somente o que tem valor e utilidade. O que você pode usar para aquilo que você precisa naquele momento. Como para ser um bom autor é necessário estudar os melhores autores, da mesma forma é necessário estudar os melhores oradores para falar com propriedade e estilo. Para falar corretamente você deve imitar os mestres do discurso falado. Escute os melhores interlocutores e como eles se expressam. Ouça as principais palestras, discursos e sermões. Não é necessário imitar as formas de elocução. É a naturalidade, não a interpretação, que faz o orador. Não é como um orador se expressa, mas a linguagem e a maneira que ele a usa que devem despertar interesse. Você escuta os oradores da atualidade? Houve mestres no passado, mas suas línguas estão caladas no pó do túmulo e agora só podemos ler o que eles falaram. Você pode,
dúvida, é de Shakespeare.” e no título do capítulo 7, continua: “... ou da Bíblia.”. (Nota do Tradutor)
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porém, ouvir os vivos. Para muitos de nós, as vozes ainda falam das sepulturas, nas vozes que ouvimos quando inflamadas com a divina essência do discurso. Talvez você tenha se impressionado com o entusiasmo das palavras de Beecher e Talmage. Ambos estimularam o espírito humano e converteram milhares de pessoas a viver o Evangelho. Ambos foram mestres das palavras. Espalharam as belezas da retórica no santuário da eloquência e distribuíram verdadeiros buquês aos seus ouvintes que ficavam avidamente dominados por Talmage, enriquecendo seus depósitos de informação. Ambos eram eruditos e filósofos, ainda assim passaram longe de sobrepujar Spurgeon, um simples homem do povo com pouca ou nenhuma instrução, no moderno sentido da palavra. Spurgeon, através de seus discursos, atraiu milhares de pessoas a seu Tabernáculo. Protestantes e católicos, turcos, judeus e muçulmanos corriam para ouvir e prestar atenção, hipnotizados por sua linguagem. Assim também foi Dwight L. Moody, o maior evangelista que o mundo jamais conheceu. Moody, não era um homem de estudos. Ele começou a vida como vendedor de sapatos em Chicago, mesmo assim, não há homem que tenha existido que tenha atraído tantos ouvintes e os fascinado com a encanto de seu discurso. “Ele tinha um magnetismo pessoal.”, alguns poderão pensar, mas não foi nada disso. Foram as inflamadas palavras que pronunciava para aqueles homens. Era a forma, a maneira, a força com que usava as palavras que juntava e atraía as multidões para escutá-lo. Magnetismo ou aparência pessoal não são fatores essenciais para o sucesso. Na verdade, até na questão física alguns deles eram limitados. Spurgeon era um homem baixo e gordo, Moody parecia um fazendeiro, Talmage, com sua grande capa, era um dos homens

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mais desalinhados e só Beecher era aceitável no que diz respeito a comportamento refinado e gentil. A aparência física não é, como muitos pensam, o principal para despertar o interesse de um público. Daniel O'Connell, o tribuno irlandês, era um homem simples, feio, desajeitado, rude, mesmo assim suas palavras atraíam um grande número de pessoas e lhe valeram a hostilidade do Parlamento Britânico. Ele era um mestre da eloquência e soube exatamente o que dizer para cativar aqueles que o ouviam. Em quase todas as ocasiões são as palavras bem colocadas que contam. Não importa quão refinada a pessoa seja em outros aspectos. Se ela usa palavras de forma errada e se expressa de uma forma inadequada com a construção das frases, irá afastar quem a ouve. Entretanto, quem usa as palavras corretamente e emprega a linguagem em harmonia com as regras e diretrizes do bom discurso, deixa-o sempre simples, atraindo e tendo influência sobre quem o ouve. O bom e correto orador, está sempre pronto a controlar a atenção. As portas estarão abertas para ele e ficarão fechadas para outros não equipados com a capacidade de se expressar. Quem fala bem e é dedicado não fica sem trabalho. É necessário em quase todas as áreas da vida e do conhecimento humano. O mundo precisa de alguém assim a todo instante. Há uma busca constante por bons interlocutores, por aqueles que são capazes de atrair o público e convencer outras pessoas pela força da sua linguagem. Uma pessoa pode ser capaz, educada, refinada e de caráter irrepreensível, apesar disso, se não for capaz de se expressar, de expor sua opinião de forma agradável e apropriada, ficará para trás enquanto outra, com muito menos habilidade, terá a oportunidade de tomar à frente se der forma às suas ideias em palavras e falar bem.

Pode-se, de novo, dizer que a natureza, não a arte, faz do homem um orador fluente. Em boa parte isso pode ser verdade, mas é a arte que faz dele um bom orador. É a prática que leva à fluência. É possível para qualquer um tornarse um bom orador se, além disso, perseverar, se esforçar e tiver cuidado. Correndo o risco de ser repetitivo, um bom aviso deve ser aqui enfatizado: Ouça os melhores oradores e anote cuidadosamente as palavras que mais impressionarem você. Carregue um bloco de notas e escreva as palavras, frases e sentenças que são de alguma forma destacáveis ou fora do uso comum. Se não entender o exato sentido de uma palavra, ouça e procure no dicionário. Há muitas palavras, chamadas sinônimos, que tem quase o mesmo significado, no entanto, quando examinadas, elas expressam diferentes nuanças de sentido e em alguns casos, em vez de estarem relacionadas, são muito divergentes. Tenha cuidado com essas palavras, encontre seu exato sentido e aprenda a usá-las de forma correta. Por fim, esteja aberto às críticas, não se ressinta com elas,

especialmente peça que as façam e olhe para elas como amigas que apontam suas deficiências para que você possa saná-las.

Tradução do capítulo X, Suggestions: How to Write, What to Write, Correct Speaking and Speakers, 10ª Edição, 2004. *Autor do livro How to Speak and Write Correctly, de onde este capítulo foi extraído, disponível em http://www.gutenberg.net. Todos os livros deste site são de Domínio Público. **Servidor público. Publicou a tradução “História da Liberdade de Pensamento” pela Editora da UFPel/RS, escreveu o livro “Figuras & Vícios de Linguagem” e o texto “As Bibliotecas Públicas Municipais e a Administração Pública Direta”, publicado na Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, RDBCI, da UNICAMP, e apresentado no I Seminário de Estudos Literários de Pelotas/RS. Ministra palestras, presta consultoria e assessoria na área de Direitos Autorais e Registro de Obras. Edita livros para terceiros e o blog “Direitos Autorais e Registro de Obras”. E-mail: claudiomiromafe@ig.com.br, Blog: http://direitosautoraiseregistrodeobras.blo gspot.com.

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O SILÊNCIO
Arnaldo Antunes / Carlinhos Brown antes de existir computador existia tevê antes de existir tevê existia luz elétrica antes de existir luz elétrica existia bicicleta antes de existir bicicleta existia enciclopédia antes de existir enciclopédia existia alfabeto antes de existir alfabeto existia a voz antes de existir a voz existia o silêncio o silêncio foi a primeira coisa que existiu um silêncio que ninguém ouviu astro pelo céu em movimento e o som do gelo derretendo o barulho do cabelo em crescimento e a música do vento e a matéria em decomposição a barriga digerindo o pão explosão de semente sob o chão diamante nascendo do carvão homem pedra planta bicho flor luz elétrica tevê computador batedeira, liquidificador vamos ouvir esse silêncio meu amor amplificado no amplificador do estetoscópio do doutor no lado esquerdo do peito, esse tambor

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SILÊNCIO
Heróis da Resistência Eu costumo sorrir demais E fingir que eu posso tudo Ninguém sabe o que eu sou capaz Pra conquistar o mundo Eu não posso perder meu tempo Com alguém que eu não preciso E se agente se amar um dia Pensa bem, o que é que eu ganho com isso Mas quando a noite chega E eu não tenho mais pra quem fingir Só eu sei o que isso dói Eu te vejo sorrir demais E esse olhar que pode tudo E eu nem sei se acho graça ou não Porque eu sei, eu sei que lá no fundo Sempre que a noite chega E você não tem pra quem fingir Sempre que a noite chega Você queria tanto Alguém igual a mim E a gente acaba a noite sempre assim Bebendo orgulho e solidão Chorando em frente a televisão Mantendo silêncio Pra ninguém ouvir Pra ninguém ouvir Shh... Esse mundo é cruel demais Mais você é mais que o mundo Seu dinheiro, poder e fama Você acha que te protegem de tudo Mas quando a noite chega E ninguém tem mais pra quem fingir Mas quando a noite chega Você tem tanto medo Você é tão igual a mim E a gente acaba a noite sempre assim Bebendo orgulho e solidão Chorando em frente a televisão Mantendo silêncio, oh E a gente acaba a noite sempre assim Bebendo orgulho e solidão Chorando em frente a televisão Mantendo silêncio, oh.. Pra ninguém ouvir Pra ninguém ouvir Pra ninguém ouvir Sofrendo em silêncio pra ninguém ouvir.

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AS RIMAS MAIS USADAS NA MÚSICA BRASILEIRA...
Claudiomiro Machado Ferreira estudo mais amplo sobre as rimas mais usadas foi realizado por um repórter que escreve sobre a matéria. Em seu trabalho de conclusão de curso - o tão conhecido TCC - de jornalismo Gustavo Martins analisou as 500 músicas mais tocadas nas rádios do Brasil entre os anos de 2001 e 2005. Para um estudo mais aprofundado de todo o

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conjunto de músicas nacionais seria necessário analisar cerca de 2 milhões de músicas. A média de rimas delas é de 6 em cada uma. O autor do trabalho elaborou uma tabela com as 6 mais repetidas. Uma breve análise mostra que as músicas românticas são as que mais usam esse recurso: de 3.073 rimas pesquisadas, 87% falam de amor. A rima que mais apa-

receu foi: “assim/mim”. Duas explicações seriam porque é um par de palavras bastante comum e porque a música de amor mais popular quase sempre é uma conversa entre quem canta e a pessoa amada. Segundo Martins não é por acaso que a palavra mais usada em todas as combinações de rimas que ele analisou é “você”.

...E QUEM QUISER COMPOR UM SUCESSO, FAÇA ISSO:
se letras repetitivas e batidas altas. Segundo a Revista Superinteressante uma pesquisa da Universidade de Cincinnati, nos EUA, mostrou que algumas melodias causam uma “comichão” no cérebro, e, por isso, são mais facilmente assimiladas. As músicas YMCA e Macarena, por exemplo, teriam propriedades parecidas com a histamina, proteína liberada pelo organismo quando somos picados por algum inseto, que se comunica com os neurônios, criando assim, a sensação de “coceira”. Para saber se a música que você fez será um sucesso, basta perguntar ao computador, brinca a Revista. Um software foi criado, o Hit Song Science, analisa ritmo, harmonia e cadência e dá nota para a canção. Os criadores do programa garantem que mesmo com estilos diferentes, cantores de sucesso apresentam as mesmas características. Segundo experiências a famosa banda irlandesa U2 e o famoso compositor Beethoven teriam recebido as mesmas notas. O jeito é tentar para ver, ou ouvir...
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FOTOGRAFIA
A ARTE DE WILSON FONSECA

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Poeta e fotógrafo. Há 4 anos desenvolveu o projeto “Abstração Digital”, que já expôs diversas vezes. Contatos: fonseca1949@gmail.com ou pelo telefone 53 9977-4271.
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ARTES VISUAIS
ROSALI COLARES
Cartunista, caricaturista e estudante de Artes Blog: humorzerocartum.blogspot.com.br

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Annibale Carraci ( Itália, 1560-1609) Pintor barroco e criador do termo caricatura.

Virginia Woolf

The Beatles

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“As Artes Liberais ensinam como viver; elas treinam uma pessoa a erguer-se acima de seu ambiente natural para viver uma vida intelectual e racional, e, portanto, a viver uma vida conquistando a verdade.”
Autora do livro O Trivium
Informações pelo e-mail: grupodotrivium@gmail.com

Miriam Joseph

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HUMOR
Autoria desconhecida Redação feita por uma aluna do curso de Letras da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco Recife), que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa: ra a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperati-

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vo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
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Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um

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superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesó-

clise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando

em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

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VIDA DE BIBLIOTECÁRIO

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LIVROS, LEITORES & AUTORES

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CARICATURA

José Saramago – Fonte: Internet, autoria desconhecida.

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