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Frances Burnett

A PRINCESINHA

SARA Num desses tristes dias de inverno, em que o nevoeiro, amarelado e espesso, invade a tal ponto as ruas de Londres, que é preciso conservar acesos os focos elétricos e as lâmpadas dos estabelecimentos como durante a noite, uma carruagem avançava lentamente através das espaçosas ruas da grande cidade, transportando uma pequenina, muito aconchegada ao pai. Sentada à turca, com os pés sob o corpo, os seus olhos, profundos e sonhadores, iam contemplando quem passava. Causava impressão aquele olhar numa criança, como ela era ainda, visto que Sara Crewe tinha apenas sete anos. Mas, apesar de tão pouca idade, a vivacidade do seu pensamento era invulgar; sonhava, imaginava coisas extraordinárias, e a sua cabecinha estava cheia de interrogações que fazia a si própria, acerca das pessoas crescidas e do vasto mundo que era seu domínio. No momento em que começa a presente história, recordava ela a viagem que acabava de fazer, desde Bombaim até Londres, com o pai, o capitão Crewe. Revia o grande navio, os hindus que iam e vinham silenciosamente, as crianças que brincavam na ponte e algumas senhoras, ainda novas, mulheres de oficiais, que haviam procurado fazê-la falar e que se tinham divertido muito com as suas respostas inesperadas. Mas, o que Lhe parecia ainda bem mais extraordinário, era pensar que, depois de ter vivido sob o sol escaldante das Índias e, em seguida, num grande navio, em pleno oceano, se encontrava, agora, naquela carruagem desconhecida, que a

levava através de ruas onde o dia era tão escuro como a

noite. Isto parecia-lhe um prodígio e, instintivamente, chegava-se ainda mais ao pai.

- Papá - disse ela, com a sua vozita misteriosa. - Papá!

- Que é, filhinha? - respondeu o capitão Crewe, olhando carinhosamente para a pequenina, ao mesmo tempo que a aconchegava mais a si. - Em que pensa a minha Sarinha?

aproximando-se cada vez mais dele.

É

-

aqui

o

"lugar"?

chegamos -

murmurou Sara,

- Já, minha filha. Chegamos finalmente.

Pequenina como era, Sara sentiu perfeitamente toda a tristeza que palpitava na voz do pai. Parecia-lhe que havia já muitos, muitos anos, que ele começara a falar-lhe no "lugar” ,como ela dizia sempre. Não conhecera a mãe, que morrera quando ela tinha nascido, de forma que nunca sentira a sua falta. O pai, só por si, parecia-lhe ser toda a sua família - aquele papá tão novo, tão belo, que a animava quanto podia. Gostavam muito um do outro e brincavam constantemente os dois. Sara sabia que era rico, porque algumas pessoas, julgando que ela não compreendia, tinham-no dito na sua presença, acrescentando que, quando fosse crescida, seria, também, rica. Vivera sempre num magnífico bangalô (1), onde numerosos criados a saudavam respeitosamente, chamando-lhe "senhora" e deixando-lhe fazer tudo o que ela queria. Tivera todos os brinquedos possíveis, animais de toda a

espécie, uma aia (2) que a adorava, e compreendera, pouco a pouco, que ser rica era possuir tudo aquilo. A palavra riqueza não evocava nada mais para ela. Durante a sua curta existência apenas uma ligeira nuvem toldara o seu belo céu; era a idéia do "lugar" para onde o pai a levaria um dia.

O clima da Índia é mau para as crianças e, em geral, mandam-nas, o mais cedo possível, para a Inglaterra, quase sempre para um colégio. Sara tinha visto partir outras crianças e ouvira falar nas cartas que elas escreviam aos pais, lá de muito longe. Sabia que também havia de partir um dia e, embora algumas vezes se sentisse entusiasmada com as descrições que o pai costumava fazer-lhe da longa viagem no vapor e do país para onde a levaria, o seu coração sofria com a idéia de que tinha de separar-se dele. - E o papá não pode vir para o colégio comigo? - perguntara, quando tinha cinco anos. - Eu ajudava-o a estudar as suas lições. - Mas tu não vais ficar muito tempo separada de mim, Sarinha - respondia ele sempre. - Irás para uma casa muito bonita, onde encontrarás outras meninas e brincarás com elas. Mandar-te-ei livros bonitos e tu crescerás tão depressa, que te parecerá que passou apenas um ano quando te vires tão crescida e tão sábia, que já possas voltar, para tomar conta do teu papá:

(1) Casa do campo.(2) Ama. Esta idéia agradava-Lhe imenso. Governar a casa do pai, montar a cavalo com ele, presidir à mesa quando desses grandes jantares, conversarem os dois, ler os seus livros, era, para ela, a vida que sonhava. E se, para o merecer, fosse preciso ir-se embora, para esse "lugar", lá longe, na Inglaterra, muito bem: partiria. A promessa de encontrar outras meninas deixava-a indiferente. Os livros consolá-la- iam bem mais que as tais meninas. Preferia os livros a tudo o mais e passava o tempo a inventar belas histórias que contava a si própria. Às vezes, contava-as também ao pai, que as achava muito bonitas.

- Então papá, disse com doçura, se já chegamos, temos de nos resignar. Esta frase, tão estranha na boca de uma criança, fez rir o capitão Crewe, que beijou a filha. No fundo, embora procurasse cuidadosamente dissimular o seu desgosto, o capitão não se conformava com a separação. A sua Sarinha, tão original, tinha sido para ele uma verdadeira companheira e sentia, de antemão, a sensação de isolamento que

experimentaria quando, de regresso à Índia, entrasse em casa e não encontrasse a sua figurinha gentil, vestida de branco, para o receber, como dantes. Ao pensar isto, apertou-a mais e mais contra si, enquanto a carruagem chegava à praça silenciosa, onde se erguia o edifício que marcava o fim da viagem. Era uma grande casa cinzenta, exatamente semelhante a todas as outras casas construídas do mesmo lado, tendo apenas, como nota particular, sobre a porta de entrada, uma reluzente placa de cobre, onde, em letras pretas, estava gravada a seguinte inscrição: MISS MINCHIN, COLÉGIO DE MENINAS.

capitão, o mais

- Eis-nos chegados, alegremente que pôde. Ajudou-a a descer

subiram os

degraus de pedra e ele tocou a campainha. Muitas vezes, durante os tempos que se seguiram, Sara devia ter dito, de si para si, que a casa era parecida com a sua proprietária. Tinha um ar respeitável e estava convenientemente arranjada, mas a habitação era feia e o mobiliário de um aspecto agressivo; as próprias poltronas pareciam estofadas com pedras. No vestíbulo tudo era austero, tudo parecia frio à força de reluzir, mesmo as faces rubicundas da lua- cheia , que servia de mostrador ao grande

Sara

-

disse

o

do

carro;

em seguida,

relógio. O salão, onde introduziram o capitão e a filha, tinha um tapete com desenho geométrico e severo; as cadeiras eram todas em ângulos, e um maciço relógio de mármore esmagava com o seu peso o tampo do fogão, que era de mármore também. Sentada numa cadeira de acaju, de costas rígidas, Sara observava, com olhar penetrante, tudo que a cercava.

- Nada disto me agrada muito, papá - suspirou ela. - Mas

estou convencida de que os soldados, mesmo os mais valentes, não gostam de ir para a guerra

O capitão Crewe pôs-se a rir. Era novo, alegre, e nunca

se cansava das reflexões espontâneas da filha.

- Minha querida Sara - disse ele. - Que vai ser de mim,

quando não tiver mais ninguém para me falar com tanto juízo?

Porque ninguém é tão ajuizado como tu.

- Mas porque é que as coisas ajuizadas que eu digo o

fazem rir? - perguntou Sara. -Porque tu és muito engraçada quando as dizes - respondeu ele, continuando a rir. E, de repente, pegou-Lhe ao colo e beijou-a muito, ao mesmo tempo que deixava de rir e os seus olhos brilhavam como se estivessem cheios de lágrimas. Nesse mesmo instante, Miss Minchin entrou. E logo Sara achou que ela era parecida com a casa: grande, fria, respeitável e feia. Tinha uns grandes olhos, tão expressivos como os de uma carpa e, nos lábios um sorriso de comando.

Este sorriso acentuou-se mais quando Miss Minchin viu o

capitão e Sara. A senhora que a tinha posto em comunicação com o capitão Crewe contara-lhe várias coisas interessantes acerca dele e, entre elas, que era muito rico e estava disposto a gastar imenso dinheiro com a filha.

- É uma honra para mim ser encarregada da educação de

uma tão linda criança, que logo se vê ser muito inteligente - disse ela, pegando na mão de Sara e acariciando-a entre as suas. - Lady Meredith falou-me da sua notável precocidade. Uma criança inteligente é um verdadeiro tesouro numa casa como a minha. Sara ficou imóvel, com os olhos fixos em Miss Minchin. Como sempre, atravessavam-lhe o cérebro mil pensamentos diferentes.

- pequenina. - Eu não sou bonita. A neta do coronel Grange, a Isabel, é que é bonita: tem as faces cor-de-rosa, com duas covinhas, e cabelos loiros, compridos. Eu tenho cabelos

pretos, curtos, olhos verdes, e, para mais, sou magra e a minha pele não é branca. Sou uma das crianças mais feias que tenho visto. Miss Minchin começa por mentir.”

enganava-se, quando imaginava ser feia. Não se

parecia, certamente, com Isabel Grange, mas tinha um encanto estranho muito pessoal. Delgadinha e leve, alta para a sua idade, possuía uma fisionomia profundamente expressiva e cheia de vivacidade. Os seus cabelos eram negros, espessos e encaracolados nas pontas; os olhos, de um cinzento- esverdeado, eram admiráveis, com longas pestanas negras, cuja cor desagradava talvez a Sara, mas que muita gente apreciava. Apesar de tudo isto, estava convencidíssima da sua fealdade, e os elogios de Miss Minchin não produziram o efeito desejado

pensava a

eu

"Porque

diz

ela

que

sou bonita?

Sara

Se eu dissesse que ela é bonita, mentiria, e eu teria a certeza disso - pensava a pequenina. - Creio mesmo que sou tão feia no meu gênero como ela o é no seu. Porque mentiu?" Sara devia ter, mais tarde, a resposta a esta interrogação, ao descobrir que Miss Minchin repetia exatamente a mesma frase a todos os pais que lhe confiavam as

filhas. De pé, ao lado do pai, Sara ouvia-o conversar com Miss Minchin. As duas filhas de Lady Meredith haviam sido educadas naquele colégio, e o capitão Crewe decidira-se em virtude das boas informações recebidas. Internaria ali a filha, mas em condições especiais: queria que tivesse um quarto, e uma sala só para ela, uma carruagem, um poney e uma criada para substituir a aia que cuidava dela na Índia. - Quanto à sua instrução, estou tranqüilo - disse o capitão Crewe, sorrindo. -A grande dificuldade estará em impedir que aprenda demasiado depressa e tudo ao mesmo tempo. Passa a vida curvada sobre os livros. Não os lê, devora-os: é uma lobazinha! A sua fome de leitura reclama, sem cessar, novos livros e são livros para pessoas adultas que ela prefere, livros franceses ou alemães, tanto como ingleses, história, biografias, poesias, que sei eu! Tire-lhe esses livros, Miss Minchin, quando ela ler de mais! É preciso que passeie no parque, montada no poney ou, então, que vá comprar uma boneca nova. Gostava de a ver brincar mais vezes com bonecas.

- Papá - observou Sara - se eu for comprar uma boneca de

dois em dois ou de três em três dias, acabo por ter tantas, que não posso gostar de todas quanto devo. As bonecas devem ser como verdadeiras amiguinhas.Emily será a minha amiga. O capitão olhou para miss Minchin e miss Minchin olhou para o capitão.

- Quem é Emily - perguntou ela.

- Explica tu quem é, Sara - disse o pai.

Os seus olhos cinzento-esverdeados tinham uma expressão

doce e grave, quando respondeu:

- É uma boneca que eu ainda não tenho, uma boneca que o

papá me vai comprar. Iremos escolhê-la os dois. Chamar-se-á

Emily. Será a minha amiga, quando o papá se for embora; e é para lhe falar dele que eu a quero.

O sorriso parado de Miss Minchin teve, novamente, uma

expressão admirativa.

que

deliciosa criança.

- Sim -- disse o capitão, apertando a filha contra o

peito. - É o meu tesouro. Terá muito cuidado com ela, não é

verdade Miss Minchin?

pai enquanto ele esteve em

Londres. Saíram juntos, correram as lojas, compraram inúmeras coisas, muitas mais, certamente, do que precisavam; mas o capitão, novo e inexperiente, queria que a filha tivesse tudo quanto achava bonito e, também, tudo o que lhe agradava a ele, de maneira que, entre os dois, compraram um enxoval muitíssimo mais luxuoso do que era próprio para uma menina de sete anos. Tinha vestidos de veludo, guarnecidos a pele, vestidos de rendas e outros todos bordados; chapéus com soberbas penas de avestruz, casacos e golas de arminho, caixas cheias de luvas, de lenços, de meias de seda, e tudo isto em tal quantidade que, nos estabelecimentos, as empregadas diziam umas às outras, em voz baixa, indicando a pequenita de grandes olhos profundos:

-Deve ser uma princesa estrangeira, talvez a filha de algum rajá da Índia. E, finalmente, compraram Emily; mas foi preciso ir a

muitas lojas de brinquedos e verem muitas bonecas, antes de a descobrirem. -Eu queria que ela não se parecesse com uma boneca - explicou Sara. - Que ela tivesse o ar de me escutar, quando eu lhe falasse. O que é mais aborrecido, com as bonecas, é que elas nunca dão a idéia de ouvirem o que lhes dizemos.

- Que espírito tão original

-

disse

ela.

-

Oh

Sara

não

se

separou

do

Mostraram-lhe bonecas grandes e pequenas; bonecas com os

olhos pretos e olhos azuis, caracóis escuros e longos cabelos doirados; bonecas vestidas e outras por vestir.

- O papá compreende - dizia Sara - se a compro sem

vestidos, levá-la-emos à casa de uma costureira que lhe fará

tudo por medida. Os vestidos ficam sempre melhor quando são provados. Depois de muito procurar, decidiram os dois ir a pé para

verem melhor as montras(vitrines}, enquanto a carruagem os seguia lentamente. Haviam já passado dois ou três estabelecimentos, sem entrar, quando, ao aproximar- se de uma loja de aparência modesta, Sara estremeceu e apertou o braço do pai.

- Ó papá - exclamou ela - aqui está Emily!

A sua carinha tornára-se muito rosada e seus olhos acinzentados tiveram a mesma expressão de felicidade que teriam se houvesse reconhecido uma amiga muito querida.

- Ela está à nossa espera - continuou a pequenina. -

Entremos depressa.

- Ó meu Deus - disse o capitão, alegremente

- Quem nos apresentará a Sua Alteza?

- O papá apresenta-me a mim, e eu apresento o papá -

disse Sara. - Mas eu reconheci-a logo à primeira vista, e talvez ela me tivesse reconhecido também. A boneca tinha, realmente, um lindo olhar. Era de bom tamanho, transportava-se com facilidade. Possuía uma soberba

cabeleira castanha-dourada, toda encaracolada, grandes olhos azuis e pestanas espessas, mas pestanas verdadeiras e não apenas um simples traço de pincel sobre as pálpebras de porcelana.

- Não há dúvida, papá - disse Sara, que olhava para a

boneca, face a face. - Não há dúvida de que é a Emily!

Emily foi, pois, comprada e, em seguida, levada a uma casa de modas para crianças, onde encomendaram para ela um guarda-roupa tão suntuoso como o de Sara: vestidos de veludo e de musselina bordada, roupa guarnecida de rendas, luvas, peles e meias de seda.

- Quero que ela seja amimada - dizia Sara - porque eu

sou sua mãe, ao mesmo tempo em que ela é a minha amiguinha. Todas estas compras teriam divertido muito o capitão se

não fosse o triste pensamento que o preocupava cada dia mais:

não tardaria a ter de separar-se da sua querida companheirazinha, a quem tão carinhosamente amava. Uma vez, levantou-se a meio da noite e foi, docemente, contemplar Sara, que dormia com a boneca nos braços. Os seus cabelos negros e os cabelos doirados de Emily misturavam-se sobre a almofada; ambas possuíam lindas camisas de dormir, enfeitadas com renda, e admiráveis pestanas que Lhes ensombravam as faces mimosas. Emily tinha de tal forma o ar de uma verdadeira criança, que o capitão se sentia feliz de a ver ali, e suspirou profundamente. "Ó, minha Sarinha - pensava ele - nem tu imaginas, com certeza, a que ponto o teu papá vai sentir a tua falta!" No dia seguinte, Sara foi, definitivamente, confiada a Miss Minchin.

O paquete para a Índia partia no outro dia de manhã. O

capitão Crewe explicou a miss Minchin que os Srs. Barrow e Skipworth, que o representavam em Inglaterra, estavam à sua disposição no caso de ela precisar de qualquer esclarecimento ou conselho, e pagariam todas as despesas de Sara. Ele próprio escreveria duas vezes por semana à filha, a quem desejava que fossem proporcionados todos os prazeres que lhe apetecesse. -Sara é muito razoável e nunca pedirá nada que possa

ser-lhe prejudicial - explicou ele.

e

despediram-se. Sentada sobre os joelhos do pai, Sara segurava-lhe, com as duas mãos, a gola do casaco e olhava intensamente.

- Parece que queres aprender de cor como eu sou - disse ele, acariciando-lhe os cabelos.

assim

abraçados, dir-se-ia que não podiam separar-se um do outro. Quando a carruagem, que levava o capitão, se pôs em andamento, Sara, sentada no chão, junto da varanda da sua sala particular, com o queixo apoiado nas mãos, seguiu-a com

o olhar até que ela dobrou a esquina da praça. Emily estava também sentada ao lado da pequenina, que, de vez em quando, olhava para ela. E, quando Miss Amélia, irmã de Miss Minchin, recebeu ordem de ir ver o que fazia a nova educanda, encontrou a porta fechada. -

oz

delicada, mas um pouco nervosa. -Peço o favor de me deixarem ficar completamente só.

baixa, que

admirava imenso a irmã mais velha, de quem sentia certo medo. Tinha melhor coração do que Miss Minchin, mas por coisa alguma do mundo seria capaz de lhe desobedecer. Retirou-se agitadíssima e foi dizer à irmã:

- Nunca vi uma criança tão singular! Imagina que se

fechou à chave, por dentro, e que nem se ouve mexer.

Depois,

conduziu

a

filha

aos

seus

aposentos

Ela lançou-se-lhe nos

braços

e,

ao vê-los

Fechei

a

porta

-

explicou

de

dentro

uma

Miss Amélia

era

uma criatura gorducha e

- É preferível isso a gritar e a bater o pé no chão,

como fazem tantas outras - replicou Miss Minchin. -Amimada, como é, esperava eu que ela pusesse a casa em alvoroço. Porque, se há alguma criança que tenha sido escandalosamente estragada com mimo, é esta!

- Já lhe abri as malas e arrumei todas as suas coisas -

disse Miss Amélia. - Nunca vi nada semelhante: casacos com

viste os vestidos dela? Que te parece?

- Parece-me perfeitamente ridículo - respondeu secamente

Miss Minchin. - Mas tudo isso fará vista, quando Sara marchar à frente das outras alunas, ao domingo, para ir à missa. Na realidade, fizeram-lhe um enxoval de princesa! Lá em cima, fechada no quarto, Sara, sentada no chão, com Emily ao lado, não desfitava o olhar da esquina da praça onde o capitão havia desaparecido, sempre a enviar- lhe beijos, como se não tivesse coragem de terminar.

arminho e zibelina, toda a roupa guarnecida a rendas

UMA

Quando,

LIÇÃO DE FRANCÊS

na

manhã

seguinte, Sara entrou na aula,

firmaram-se nela muitos olhos curiosos. Todas as outras alunas, desde Lavínia Herbert, que com quase treze anos se considerava já uma senhora, até Lottie Legh, a benjamina, que contava apenas quatro, tinham conhecimento da sua chegada. Também sabiam que, a partir daquele dia, Sara era o ornamento e a glória do Colégio Minchin. Uma ou duas pequenas haviam, mesmo, tido a sorte de avistar a criada particular de Sara, chegada na véspera à noite. Era francesa e chamava-se Mariette. Lavínia, que tivera artes de passar em frente do quarto de Sara, quando a porta estava entreaberta, vira a criada

abrir uma caixa que certa loja de modas enviara.

- Que linda roupa - dizia ela, em voz baixa, à sua amiga

Jessie, fingindo que estava a estudar geografia. -Nunca vi tanta renda! Ouvi a miss Minchin dizer à irmã que tudo aquilo era disparatado para uma criança. A minha mãe também me costuma dizer que as crianças devem vestir-se com

simplicidade. Olha para Sara: as rendas aparecem-lhe por baixo do vestido!

- E tem meias de seda - segredou Jessie, que parecia não

levantar o nariz do atlas. - Que pés tão pequenos! Nunca vi pés assim!

- Oh - respondeu desdenhosamente Lavínia- é por causa do feitio especial das pantufas que ela usa. A minha mãe diz que um sapateiro habilidoso pode fazer

parecer pequenos mesmo os pés que sejam grandes. Eu cá não a acho nada bonita. Tem os olhos de uma cor esquisita. - Sim, não é bonita como se costuma ser - respondeu Jessie, percorrendo ràpidamente toda a classe com o olhar.Mas, quando se olha uma vez para ela, apetece olhar

Tem umas pestanas tão compridas E os olhos são quase

verdes! Sara conservava-se, muito ajuizadamente, no seu lugar, e esperava que lhe indicassem o que devia fazer. Tinham-na colocado mesmo ao lado de Miss Minchin. Os olhares que se fitavam nela não a embaraçavam absolutamente nada. Pelo contrário, divertiam-na e, por sua vez, olhava também para todas aquelas meninas com interesse. "Em que pensarão elas - perguntava Sara a si própria. Gostava de saber se elas gostam de miss Minchin, se as lições "

mais

lhe agradam e se alguma tem um papá parecido com o meu Tinha falado muito do pai a Emily, naquela manhã.

- Agora vai ele no mar - dissera ela. - Temos de ser

muito boas amigas e dizer tudo uma à outra. Olha para mim, Emily; nunca vi olhos tão bonitos como os teus. Mas gostava muito que pudesses falar! Sara tinha na cabecinha sonhos e idéias, de que seria já uma consolação convencer-se de que Emily era viva, ouvindo e compreendendo tudo quanto ela lhe pudesse dizer.

Quando Mariette

lhe

vestiu

o

vestido azul-escuro,

reservado para as horas de aula, e lhe pôs nos cabelos uma fita da mesma cor, a pequenina aproximou-se de Emily, sentou- a numa cadeira de palha e colocou-Lhe, diante, um livro aberto, dizendo:

- Podes ler durante a minha ausência. E vendo a criada

olhar para ela, surpreendida, Sara explicou-lhe, como se estivesse perfeitamente convencida do que dizia:

- Eu creio que as bonecas são capazes de fazer muitas

É muito possível

que Emily leia, fale e ande, mas só o fará quando estiver sozinha. Tu compreendes, se nós soubéssemos que as bonecas

podem fazer o mesmo que nós, obrigávamo-las a trabalhar. Foi por isso que elas tomaram, umas com as outras, o compromisso

Se tu ficares no meu quarto, Emily não

se mexerá donde está; se te fores embora, ela começará a ler ou irá à janela ver quem passa. Mas, logo que ouça passos na escada, voltará para a cadeira, para que a encontremos como a deixamos. "Que extraordinária criança!" - pensou Mariette. E, quando foi almoçar, contou às outras criadas tudo o que se passara com Sara. Sentia que se dedicaria a valer àquela pequenina tão original e inteligente, que a tratava com tão bonitas maneiras. Mariette já se encontrara ao serviço de outras crianças que estavam longe de ser assim delicadas. Sara tinha um modo

de guardar segredo

coisas, mas não querem que nós saibamos

encantador e meigo de dizer: "Fazes favor, Mariette.

Obrigada, Mariette".

- Agradece-me , explicava a criada às colegas ,como se eu fosse uma senhora. E acrescentava:

- Tem o ar de uma princesinha.

Em resumo: Mariette estava encantada com a sua patroa pequena e contentíssima com o seu novo lugar. Entretanto, na aula, depois de Sara e as outras alunas se terem observado à vontade, Miss Minchin bateu na secretária, com ar solene, e disse:

-Meninas: vou apresentar- lhes a sua nova companheira. Todas as pequenas se levantaram e Sara fez o mesmo.

- Espero - continuou Miss Minchin - que serão amáveis

para Sara Crewe; esta menina vem de muito longe, da Índia. Logo que terminem as aulas, travarão conhecimento com ela. As alunas cumprimentaram Sara, cerimoniosamente. Ela fez uma pequena reverência e em seguida todas retomaram os seus lugares, recomeçando a observação com o olhar.

- Sara - disse Miss Minchin, em tom doutoral, aproxime-

se.

A directora tinha pegado num livro, que ia folheando. A pequenina, delicadamente, foi até junto dela.

- Como o seu pai escolheu uma criada francesa para o seu serviço particular - começou Miss Minchin, concluo que ele deseja que a menina estude o francês, a fundo. Sara parecia um pouco embaraçada. -Eu penso que o papá escolheu esta criada porque julgou que me dava prazer com isso

- Receio - interrompeu Miss Minchin, com um sorriso

irônico,que a menina seja amimada de mais e que, por isso, esteja convencida de que tudo e todos pretendem apenas agradar-lhe. Mas neste caso, a minha convicção é que seu pai quer que a menina aprenda bem francês. Se Sara fosse mais velha, e se não estivesse tão habituada a ser, sempre, escrupulosamente bem educada,teria podido,em poucas palavras,desiludir Miss Minchin. Mas a pequenina sentia-se corar: Miss Minchin parecia

tão severa e autoritária, tão convencidda de que Sara não

sabia uma palavra de francês, que ela não ousou contrariá-la:

isso parecia-lhe uma grande indelicadeza

E a verdade,

afinal, era que o capitão Crewe, tendo casado com uma francesa, começara a falar francês com a filha desde muito

pequenina, de forma que esta falava aquela língua com a maior facilidade. Timidamente, Sara tentou ainda explicar:

-

Eu

eu não aprendi, pròpriamente, mas

Um

dos

maiores

desgostos

de Miss Minchin era,

exatamente, não saber falar francês e esforçava-se por dissimular cuidadosamente esta humilhante lacuna. Por essa

razão, não desejava discutir sobre tal assunto, que podia expô-la a perguntas embaraçosas, feitas pela nova aluna. - Basta - disse ela, secamente , se não aprendeu, é preciso aprender imediatamente. O professor, Sr. Dufarge, não tarda aí. Vá folheando este livro enquanto ele não chega.

seu

lugar, abriu o livro, fitou gravemente a primeira página, muito decidida a não rir, como teria feito qualquer menina

mal educada, mas, em todo o caso, era engraçado ver-se

condenada a soletrar, como qualquer principiante "le père"

conhecia

perfeitamente, havia já tanto tempo. Miss Minchin não deixava de a observar. - Parece descontente, Sara - disse ela -, e eu estou

aborrecida por ver que a menina não tem vontade de estudar francês.

-

- Pelo contrário, minha senhora, tenho vontade, mas

respondeu Sara, tentando novamente explicar-se. -Não diga sempre "mas" quando falam consigo ,exclamou Miss Minchin,não a deixando concluir. E ordenou:-Pegue no

Sara sentia

as

faces

escaldarem. Voltou

para

o

"la

mère"

"le

fils"

palavras que

ela

livro. Sara, com a maior obediência, recomeçou

com

aplicação "la fille", "le frère", "la soeur" Ao mesmo tempo ia pensando: "Talvez eu possa explicar- me, quando o Sr. Dufarge vier

francês chegou pouco

depois. Já não era novo; tinha um ar distinto e, mal fixou Sara, compreendeu logo que se tratava de uma criança invulgar

e sentiu, por ela, um vivo interesse.

a

ler,

Efetivamente, o professor de

-Tenho, então, uma nova

aluna,

não

é verdade?

-

perguntou ele. -O pai desta menina, o capitão Crewe, tem um grande

empenho em que ela comece a aprender francês - explicou Miss Minchin. Mas eu receio, que, por um capricho de criança, não esteja disposta a isso. - É pena - disse o professor, dirigindo-se, gentilmente,

à pequenita. E continuou:-Talvez que eu consiga convencê-la

quando principiarmos as lições, porque o francês é uma bela língua. Sara foi até junto do Sr. Dufarge. Começava a faltar-lhe a coragem, e ergueu para ele os seus grandes olhos suplicantes. Tinha a certeza de que o professor ia compreender imediatamente, e começou, com a maior simplicidade, a explicar tudo num francês correto e límpido:

Miss Minchin não tinha compreendido; o que ela queria dizer era que não tinha aprendido o francês nos livros, mas sim com

o pai e os amigos do pai, que lhe falavam sempre nessa

língua. Por isso, aprendera a ler e a escrever francês ao mesmo tempo que aprendera inglês. O pai gostava muito daquela língua porque a sua querida mamã, que ela não chegara a conhecer, era francesa. Tinha o maior prazer em aprender tudo

o que o Sr. Dufarge entendesse por bem ensinar-lhe, e o que

ela pretendera explicar a Miss Minchin era apenas, que já conhecia todas as palavras que vinham naquele livro. Ao dizer isto, Sara mostrou ao professor o livrinho que a diretora lhe havia dado. Ao ouvir falar tão corretamente, Miss Minchin estremeceu e pôs-se a olhar para ela por cima das lunetas, com ar de pessoa quase escandalizada. Quanto ao Sr. Dufarge, sorria com um sorriso de

verdadeira satisfação: ao escutar aquela voz fresquinha de criança falar nitidamente a sua língua natal, pareceu-lhe ter sido transportado, de repente, para a sua terra que, por vezes, nos dias sombrios e brumosos do inverno inglês, lhe

Mal a pequenina acabou, tomou-Lhe o

parecia tão distante

livro das mãos e envolveu-a num olhar de bondade e simpatia.

Depois, dirigindo-se a Miss Minchin, disse:

ensinar-lhe. Fala francês como uma

francesa. Tem uma pronúncia perfeita!

- Pouco

terei

a

- Porque foi que a menina não me disse isso? -exclamou Miss Minchin, envergonhada.

- respondeu Sara, mas não fui

capaz

Miss Minchin sabia, perfeitamente, que a pequenina tentara explicar tudo e que, se o não fizera, a culpa fora apenas sua. Mas vendo que as outras alunas tinham compreendido o que se passara, sem perder nada daquela cena, e que Lavínia e Jessie sorriam por detrás dos livros, a diretora sentiu-se irritada ao máximo. - Silêncio -- gritou, dando uma pancada na secretária. Não quero ouvir ninguém a rir! Desde esse dia, nasceu na sua alma um rancor surdo contra a aluna de quem se mostrara, a principio, tão

- Eu

quis dizer

orgulhosa. HERMENGARDA No decorrer daquela manhã tão agitada, Sara reparara numa condiscípula da sua idade, cujos olhos, de um azul muito pálido, não se desfitavam dela. Era uma pequena gorda, com aparência de pouco inteligente, mas que possuía uma boquita redonda, sempre com um jeito de mimo. Usava os cabelos louros, muito claros, apertados em grossa trança, atada por uma fita; tinha enrolado a trança em volta do pescoço e com os cotovelos apoiados sobre a estante, ia mordiscando as pontas da fita, ao mesmo tempo que olhava para Sara, com espanto e admiração. Quando o Sr. Dufarge se dirigira a Sara, a pequenina estremecera e parecia um pouco ansiosa; mas, ao ouvi-la responder-lhe em francês, tornava-se vermelha de surpresa. Ela, que chorava tantas lágrimas amargas, ao verificar a inutilidade dos seus esforços para se lembrar da tradução francesa das palavras mãe ou pai, como não havia de considerar um verdadeiro prodígio a nova companheira, a quem não somente aquelas palavras como muitas outras pareciam familiares, e que sabia conjugar os verbos e misturá-los com os adjetivos, como se se tratasse de um simples passatempo? Absorvida pela contemplação de Sara, continuava a morder a fita com tal ardor, que chamou a atenção de Miss Minchin, a qual, satisfeita por ter encontrado um pretexto para desabafar a sua irritação, lhe ralhou severamente:

-Que significam esses modos, Miss Saint-John? Tire os cotovelos de cima da estante, a fita da boca, e ponha-se direita! A pobre Miss Saint-John estremeceu de novo; Lavínia e Jessie riam baixinho, olhando para ela, o que a fez corar ainda mais. As lágrimas quase saltavam dos seus pobres olhos

de criança sem defesa. Sara percebeu tudo imediatamente, pois não podia ver sofrer ninguém sem desejar imediatamente ir em seu auxílio. O pai costumava dizer:

"Se Sara fosse um rapaz e houvesse nascido uns anos mais cedo, teria percorrido o mundo, de espada na mão, para libertar os oprimidos e castigar os maus.” Não admira, portanto, que durante toda a manhã ela tivesse seguido com o olhar aquela sua nova companheira gorducha e triste. Viu logo que a outra tinha grande dificuldade em aprender as lições e que havia poucas

probabilidades de vir a ser a glória do colégio francês, em especial, foi quase uma tragédia

de miss Saint-John fazia sorrir o Sr. Dufarge, mesmo sem ele

A lição de A pronúncia

querer, e Lavínia, Jessie e as outras alunas troçavam ou olhavam-na com desdém. Sara era a única que se mantinha séria. Fazia de conta que não ouvia a sua desventurada

condiscípula que disse: "lé bon pang" em vez de "le bon paim"

e outras coisas neste gênero. Tinha muito amor-próprio e uma

noção muito viva da dignidade pessoal; por isso revoltava-se ao ouvir as risadas das outras, e ao ver a cara envergonhada

e aflita de miss Saint-John. "Isto não tem graça nenhuma - pensava ela, debruçando-se sobre o livro. - Não percebo por que motivo se riem assim". Depois da aula, quando as alunas se reuniram, em grupos, Sara foi procurar miss Saint-John. Ao vê-la sozinha e triste,

metida no vão de uma janela, dirigiu-se a ela e procurou um pretexto para conversarem. Disse-lhe apenas as palavras vulgares que qualquer menina da sua idade diz a outra naquelas circunstâncias, mas a sua voz possuía um som doce e afetuoso, ao qual ninguém podia ficar insensível. - Como se chama? - perguntou.

Para compreender o espanto de miss Saint-John, é preciso não esquecer que, nos colégios de meninas, uma "nova" é sempre, ao princípio, um ser um tanto misterioso; que todo o colégio, na véspera, à noite, falara da "nova" e repetira, a seu respeito, histórias mais ou menos contraditórias, até ao

momento em que o sono fizera calar a curiosidade geral. A chegada de uma aluna que tem carruagem, um "poney", uma criada particular, e que vem da Índia, não é um acontecimento banal. - Chamo-me Hermengarda Saint-John - respondeu a outra.

-E eu Sara Crewe. O seu nome é bonito e parece-se com os

que encontramos nos livros.

também gosto

do seu.

A infelicidade de Miss Saint-John era ter um pai

notàvelmente instruído e inteligente. Às vezes, esse fato parecia ser uma verdadeira calamidade. Um pai que aprendeu tudo quanto quis, fala sete ou oito línguas e tem uma vasta biblioteca, a qual se pode dizer que sabe de cor, espera, naturalmente, que a filha saiba, pelo menos, as suas lições quotidianas,e se lembre,quando mais não seja,de alguns fatos históricos,ou faça,sem erros,um ponto escrito de francês. Hermengarda era, pois, uma grave preocupação para o Sr. Saint-John, que não podia explicar a si próprio como uma filha sua era tão completamente desprovida de vivacidade intelectual e incapaz de triunfar fosse em que fosse.

A pobre pequena era, sem contradição possível, a pior

aluna do colégio. - No entanto, é preciso que ela chegue a aprender qualquer coisa! - dizia o pai a Miss Minchin.

Em conseqüência desta recomendação, Hermengarda passava

a maior parte do tempo a chorar ou a ser castigada. O pior

- Gosta dele ,balbuciou Hermengarda. Eu

era que, se conseguia aprender qualquer coisa, esquecia-a cinco minutos depois ou,a maioria dos casos, ficava sem compreender uma única palavra. Não admira, pois, que ela contemplasse Sara quase com respeito.

- Fala francês, não é verdade? - perguntou timidamente

miss Saint-John. Sara sentou-se num dos bancos do vão da janela, cruzou as pernas e, unindo as mãos sobre os joelhos, respondeu:

-Sei alguma coisa de francês porque ouvi sempre falar esta língua à minha volta. Se a menina estivesse no meu lugar, ter-lhe-ia acontecido a mesma coisa.

- Oh isso não! Eu não era capaz - exclamou Hermengarda. Nunca consegui aprender.

- Porquê ? perguntou Sara, com curiosidade.

Hermengarda abanou a cabeça, fazendo saltitar a trança sobre os ombros, e continuou:

- Não ouviu, há pouco, a minha lição? É sempre assim.

Não sou capaz de pronunciar bem as palavras. São muito difíceis Calou-se um momento: depois acrescentou, com um tom de respeito na voz:

- A menina é muito inteligente, não é?

Sara olhou, através do vidro, a praça umida, onde os pardais esvoaçavam sobre as grades enferrujadas e os ramos das árvores enegrecidas pela fuligem. Refletia. Ouvira dizer muitas vezes que era inteligente; perguntava agora a si

Por

própria se era verdade e como tinha isso acontecido fim, respondeu:

- Não sei. não sou capaz de lhe explicar

Vendo a expressão desapontada da bondosa carita de faces rechonchudas, Sara teve vontade de rir e mudou de conversa. - Gostavas de ver Emily? - perguntou ela à outra,

tratando-a familiarmente.

- Quem é Emily? - interrogou Hermengarda por sua vez.

- Vem ao meu quarto e verás - disse Sara, estendendo-lhe

a mão. Dirigiram-se as duas para a escada e, enquanto

atravessavam o vestíbulo, Hermengarda foi perguntando, já com mais familiaridade:

- É verdade que tu tens uma sala de recreio só para ti?

- É - respondeu Sara. - Meu pai recomendou isso a Miss

Minchin porque eu, para me distrair, invento histórias e conto-as a mim própria; não gosto que me ouçam. Quando penso

que está alguém a escutar, já não sinto prazer nenhum.

Tinham chegado ao corredor que conduzia ao quarto de Sara. Ao ouvir o que ela dissera, Hermengarda parou, como que sufocada, e exclamou:

- Tu inventas histórias?! Falas francês e inventas histórias? Isso é verdade? Sara olhava para ela, admirada, e apenas disse:

- Mas, inventar uma história é uma coisa muito fácil,

que qualquer pessoa pode fazer. Tu nunca experimentaste?

De súbito, apertou mais a mão da companheira e disse, baixando a voz:

- Aproximemo-nos da porta sem fazer barulho; eu vou

abrir de repente

Ao dizer isto, ria, mas lá bem no seu íntimo tinha uma secreta esperança que lhe fazia brilhar mais os olhos. Embora

não fizesse a mais leve idéia do que se tratava, Hermengarda notou a transformação da sua nova amiguinha e sentiu-se impressionada. Que seria? Fosse o que fosse, devia ser uma coisa importantíssima Por isso, seguira Sara; andando nos bicos dos pés e toda tremula de comoção.

Talvez a possamos surpreender.

Atingiram a porta sem fazer o menor ruído. Sara abriu bruscamente e, aos olhos das duas pequenas, surgiu o quarto, muito tranqüilo e bem arrumado, com um bom lume no fogão, a arder serenamente, e uma admirável boneca sentada a um canto da chaminé, na atitude de quem lia um livro atentamente.

- Oh! ela voltou para a cadeira antes que nós a

pudéssemos ver! - disse Sara, desapontada. É sempre assim! São mais rápidas do que um relâmpago

Os olhos de Hermengarda iam, pasmados, de Sara para a boneca e da boneca para Sara.

pequenina, cada vez mais

espantada.

- Está claro que sim - respondeu Sara. Pelo menos, estou

convencida disso, ou procuro convencer-me e, nesse caso, para

mim é como se fosse verdade. Tu nunca fizeste assim para acreditares em qualquer coisa?

- Ela anda?

- perguntou

a

- Não - declarou Hermengarda. - Explica-me como é.

Miss Saint-John estava de tal forma encantada com Sara, que olhava para ela sem prestar a menor atenção a Emily, e, no entanto, Emily era a mais linda boneca que ela até então tinha visto. - Sentemo-nos - disse Sara - Vou tentar ensinar-te. É tão fácil que, depois de começar, já não somos capazes de

parar e continuamos todos os dias

Emily apresento-te Hermengarda Saint-John. Hermengarda, apresento-te Emily. Gostarias de lhe pegar um bocadinho ao

colo?

tão

bonita! Sara pôs-lhe a boneca nos braços. Hermengarda nunca julgara poder viver uma hora tão agradável como a que passou ali, até ao momento em que a sineta as chamou de novo ao rés-

É delicioso. Escuta,

- Oh! Gostava

muito

-

disse

Hermengarda.

Ela

é

do-chão. Sara, sentada sobre o tapete, em frente do fogão, com os olhos brilhantes e as faces coradas, contou-lhe mil coisas maravilhosas. Falou-lhe da viagem que fizera e da Índia! Mas o que fascinava Hermengarda era tudo quanto a sua nova amiguinha inventava acerca das bonecas que, afirmava ela, andavam, falavam, e faziam tudo quanto queriam, quando ficavam sozinhas, escondendo ciosamente o seu poder e tornando-se imóveis, num abrir e fechar de olhos, logo que alguém entrava no quarto onde elas se encontravam.

- Compreendes - dizia Sara, com o ar mais sério deste

mundo. É uma espécie de magia.

E de repente, ao contar-lhe como descobrira Emily, Sara

mudou de expressão. Dir-se-ia que uma nuvem viera ensombrar a

claridade dos seus grandes olhos. Soltou um suspiro tão profundo, que mais parecia um gemido; depois cerrou muito os lábios, como num grande esforço de vontade. Hermengarda sentiu confusamente que, neste momento, se Sara fosse uma criança vulgar, teria chorado. Mas tal não sucedeu.

- Estás triste - perguntou timidamente miss Saint-John.

- Estou - respondeu Sara, após um minuto de silêncio. -E explicou:

- Mas não é no corpo

Depois, numa voz muito baixa, que ela queria manter firme,perguntou :

- Gostas muito do teu pai?

Os cantos da boca de Hermengarda contrairam-se. Ela compreendia perfeitamente que a sua dignidade de aluna de um colégio de primeira categoria não lhe permitia responder a verdade: nunca fizera a si própria semelhante pergunta e preferia tudo a passar dez minutos junto do pai. A pobre pequena estava seriamente embaraçada.

- Quase nunca o vejo - murmurou. – Ele assa a vida na

biblioteca, a ler. -Pois eu gosto do meu acima de tudo no undo - disse Sara. - Aqui tens a razão por que stou triste: é por ele haver partido.

Ao dizer isto, escondeu o rosto entre as mãos e icou imóvel.

"Desta

vez,

assustada.

vai

chorar

, pensou Hermengarda,

Mas não; Sara não verteu uma lágrima.Os Cabelos negros

cara,e ela mantinha-se na mesma

tombavam-lhe

sobre

a

imobilidade.Depois ,sem levantar a cabeça , foi dizendo:

E hei-de sê-lo! Precisamos

sempre de sofrer qualquer coisa na vida Pensa no que sofrem os soldados!O papá é um oldado. Se houver guerra, tem de suportar a fadiga, a sede e talvez ferimentos graves. Pois bem, tenho a certeza de que não diria uma única palavra para se lamentar. Nem uma! Hermengarda contemplava-a e experimentava or ela um vago sentimento de adoração. Sara era ão maravilhosamente diferente de todas as pessoas ue a rodeavam! Não tardou que erguesse a cabeça e sacudisse os cabelos sorrindo de forma estranha.Por fim disse:

-Se eu puder falar muito e contar-te tudo quanto passa pela cabeça fazendo de conta que acredito no que digo,

sentir-me-ei mais corajosa.Isto não faz esquecer, mas dá força. Sem saber por que, Hermengarda sentiu a garganta apertada e os olhos úmidos.

- Prometi-lhe ser corajosa.

- Lavínia e Jessie são amigas íntimas - disse

ela com voz alterada. - Seria tão bom se nós também o

fôssemos

Queres que eu seja tua amiga?

Tu és inteligente e eu sei, perfeitamente, que sou a

aluna mais estúpida do colégio,

mas

eu gosto

tanto de ti! - Ainda bem! Não imaginas como estou contente - exclamou

Sara. - Sim, vamos ser muito amigas. E, queres saber? - Ao dizer isto a expressão iluminou-se-Lhe. -Vou ajudar- te a estudar as lições de francês!

LOTTIE Se Sara fosse uma criança semelhante à maioria, a vida no Colégio de Miss Minchin, tal como estava organizada, teria sido perigosa para ela. Era tratada não como uma criança, mas como uma hóspeda de cerimônia, cuja presença honrava a casa. Se ela fosse caprichosa e altiva, tanta lisonja e mimo torná-la-iam insuportável. Se tivesse disposição para a preguiça, não teria feito nem aprendido absolutamente nada. No seu íntimo, Miss Minchin não gostava dela, mas era suficientemente prudente para fazer ou dizer qualquer coisa que pudesse desgostar tão preciosa aluna. Porque ela bem sabia que, se alguma vez Sara mandasse dizer ao pai que o colégio Lhe desagradava ou que se sentia ali infeliz, o capitão Crewe a viria buscar imediatamente. Miss Minchin chegara à conclusão de que a melhor maneira de conquistar a simpatia de uma criança é satisfazer-lhe todas as vontades, era elogiá-la e deixá-la fazer tudo quanto ela quiser. Em conseqüência disto, Sara era constantemente felicitada pela sua aplicação ao estudo, pelas suas boas maneiras, pela amabilidade com que tratava as condiscípulas e pela generosidade com que socorria os mendigos que Lhe pediam esmola; o mais simples dos seus atos era posto na lua, como

se costuma dizer, e se ela não fosse, de seu natural, ajuizada e prudente, tornar-se-ia bem depressa uma pequena vaidosa e antipática. Mas no seu cérebrozinho havia os mais sensatos pensamentos, sobre ela própria e sobre o destino que lhe coubera neste mundo. De vez em quando chegava mesmo a falar nisto a Hermengarda. - É o Destino que prepara tudo na vida - costumava dizer. - Eu, por exemplo, recebi todas as boas qualidades: gosto de estudar e aprendo fàcilmente o que me interessa; tenho um papá bom, belo e inteligente, que me dá tudo quanto eu quero. É possível, mesmo que, no fundo, eu não seja boa; mas quando se receberam todos os dons que eu recebi e toda a gente nos anima, como não havemos também de ser amáveis? Pergunto a mim própria se sou realmente uma menina gentil ou se, pelo contrário sou uma criança insuportável. - e, ao dizer isto, a sua fisionomia tomavaumaexpressão de grande perplexidade.Talvez que eu seja terrível e nunca ninguém o chegue a saber, simplesmente porque nunca tive uma contrariedade na vida! - Lavínia também não tem contrariedades replicou Hermengarda, em tom insistente - e Deus sabe como ela é desagradável! Sara coçou a ponta do narizinho com ar de quem reflete, e ficou a meditar sobre aquele problema. Por fim, disse:

- Talvez seja por ter crescido Ela tinha ouvido dizer a Miss Amélia que o rápido crescimento de Lavínia afetara a sua saúde , seu gênio e, caridosamente, aproveitara esta benévola explicação. A verdade, porém, é que Lavínia tinha imensos ciúmes de Sara. Até à vinda desta, fora ela a pessoa mais importante do

colégio. As condiscípulas obedeciam-lhe sempre, porque Lavínia era capaz de se mostrar odiosa, se lhe resistissem. Tiranizava as mais pequeninas e tomava grandes ares para com as outras da sua idade. Era bonita e as suas "toaletes" eram mais luxuosas do que as das outras, chamando a atenção quando saíam a passear, até ao momento em que apareceram os casacos de veludo, os regalos de peles, as plumas de avestruz de Sara, e em que esta foi colocada, por Miss Minchin, à frente das outras alunas. Lavinia sofrera com isso uma decepção enorme. Depois, à medida que o tempo ia passando, tornava-se evidente que Sara era, na realidade, superior, não porque se mostrasse desagradável mas, ao contrário, porque nunca o era. Jessie, sem querer, tinha excitado o furor da sua amiga intima, dizendo:

- É preciso fazer justiça a Sara Crewe. Não é vaidosa, e tem razão para o ser, como nenhuma de nós. Eu, por mim, penso que não resistiria à vaidade, se tivesse tantas coisas bonitas e fosse tão admirada como ela é. Chega a ser vergonha a maneira como Miss Minchin a põe em evidência quando vêm visitas ao colégio. "-Sara, tem de vir à sala contar coisas da Índia a M. me ”

- disse Lavinia, que imitava maravilhosamente

Musgrane

Miss Minchin. E continuou:-"A nossa Sarinha vai falar francês ”

foi no colégio que ela aprendeu francês. Nem precisou, para

A verdade é que não

com Lady Pitcin

Tem boa pronúncia

isso, de grande inteligência; ela própria diz que nunca estudou e aprendeu simplesmente ouvindo conversar o pai. Quanto a este, não acho que o facto de ser oficial da Índia baste para o tornar notável. - Mas - disse lentamente Jessie - ele matou tigres. Até matou aquele de que tiraram a pele que está no quarto de

Sara. É por isso que ela a estima tanto; deita-se-lhe em cima, acariciando a cabeça e fala-lhe, como se falasse a um gato.

- Sara passa o tempo a fazer maluquices - disse Lavínia,

com aspereza. - A mamã diz que esta mania que ela tem de inventar histórias é ridícula e, quando for crescida, não passará de uma excêntrica. Efetivamente, Sara ignorava a vaidade. Tinha uma almazinha afetuosa e partilhava generosamente com os outros os seus dons e os seus privilégios. As alunas menores, habituadas a ser censuradas e empurradas pelas mais velhas, sabiam que a única das suas condiscípulas que as não fazia chorar, era exatamente a mais invejada de todas. Sara tinha um coração maternal, e quando alguma caía ou esfolava os joelhos, encontrava sempre, junto dela, ajuda, consolações e algum bombom ou caramelo que tirava da algibeira do bibe(espécie de avental para crianças destinado a evitar que os vestidos se sujem). Nunca as repelia nem fazia alusões trocistas ao fato de serem ainda pequeninas. -Quando se tem quatro anos, têm-se quatro anos ,dissera ela, serenamente a Lavínia, num dia em que esta dera uma

bofetada a Lottie (que feia ação!), chamando-lhe empecilho. E continuara, com um olhar cheio de convicção - Mas no ano seguinte terá cinco, depois seis e só faltarão catorze anos para ter vinte!

- Meu Deus - exclamou Lavínia, trocista -, como tu sabes

fazer bem cálculos! Mas ninguém podia negar que dezasseis e quatro fazem vinte, e vinte anos era a idade com que as alunas mais audaciosas do Colégio Minchin sonhavam. Assim, as pequeninas adoravam Sara. Muitas vezes haviam já sido convidadas - elas que eram sempre desdenhadas! - a

tomar chá no seu quarto, a brincar com Emily, a lanchar, utilizando o serviço de chá de Emily, um de flores azuis e cujas

chávenas continham uma respeitável quantidade de chá muito doce. Nunca nenhuma das petizas vira um serviço de chá

de boneca tão bonito.

E, a partir desse dia, Sara foi considerada como uma rainha ou uma deusa, por todas as alunas da classe infantil.

Lottie Legh adorava-a a tal ponto que, se Sara não tivesse um coração maternal, ter-se-ia irritado com tantas manifestações de carinho. Lottie fora internada ali por um pai ainda muito novo e

frívolo, que achara ser aquela a melhor solução para a pequenina. A mãe morrera e, como desde a primeira hora da sua vida, fora considerada apenas como um bonito brinquedo, como

um macaquinho ou um cãozinho de luxo, tornara-se uma criatura

intolerável. Quando ela queria ou não queria qualquer coisa,

punha-se a berrar, e como apetecia sempre o que não podia ter, e não queria, nunca, o que lhe convinha, era raro que a sua voz estrídula não se ouvisse em qualquer canto da casa. Esta pobre criança descobrira, não se sabe como - ou ouvira, sem dúvida, dizê-lo a seu pai - que uma menina que não tem mãe, deve ser lamentada e amimada. Fizera desta descoberta uma arma de que se servia a propósito de tudo.

A primeira vez que Sara se ocupou dela, foi certa manhã

em que, passando em frente de um quarto, ouvira Miss Minchin

e Miss Amélia esforçando-se por fazer cessar a gritaria da criança, que, percebia-se perfeitamente, se recusava a ceder.

E recusava-se tão enérgicamente, que Miss Minchin era

obrigada a gritar também, num tom severo e autoritário, para

se fazer ouvir.

- Porque chora ela? - perguntava Miss Minchin.

- Oh Oh Oh - foi a resposta. - Não tenho mãezinha!

- Vamos, Lottie - dizia, já impaciente, Miss Amélia. -

Cala-te. Não chores mais, não chores mais!

- Oh! Oh! Oh - recomeçava Lottie, com toda a força dos

seus pulmões. -Eu já não tenho mãezinha! - O que ela precisava era de chicote - exclamou Miss Minchin. -Vais apanhar, demônio!

que

nunca. Miss Amélia sentiu lágrimas nos olhos. A voz de Miss Minchin tornou-se terrível. De repente, a diretora, impotente e indignada, saiu do quarto, deixando Miss Amélia a contas com a indisciplinada pequena. Sara parou no vestíbulo e perguntava a si própria se devia entrar; conhecia Lottie havia pouco tempo mas, apesar disso, pensava que talvez conseguisse consolá-la. Ao sair do quarto, Miss Minchin viu Sara e ficou um pouco contrariada com a idéia de que gritara talvez demasiadamente e fora bastante áspera, com prejuízo da sua própria autoridade. - Ah! A menina Sara está aqui - exclamou com um sorriso que pretendia ser amável. - Parei - explicou Sara ~- porque reconheci a voz de Lottie e pensei que, talvez, não tenho a certeza, eu pudesse acalmá-la. Dá licença que experimente, Miss Minchin?

- duvido respondeu secamente Miss Minchin, repuxando os lábios. Depois, vendo que Sara ficara um pouco admirada com

aquele acolhimento tão frio, mudou imediatamente de atitude e disse, num tom amável:

- É verdade que a menina tem habilidade para tudo! Tenho

Ao

ouvir isto,

Lottie

gritou com

mais

força

do

Se

for

capaz

disso, será quase um milagre

Mas

a certeza de que será bem sucedida. Entre!

E afastou-se para deixá-la passar.

Quando Sara entrou no quarto, Lottie, deitada no chão, gritava e batia com os pés no sobrado, com quanta força tinha. Junto dela, estava ajoelhada Miss Amélia, vermelha, a

transpirar, como se fosse a própria estátua da consternação. Procurava por todos os meios fazer com que a pequena sossegasse e passava, sem transição, da doçura à severidade.

- Pobre criança!- dizia ela. - Eu bem sei que não tens

mãe

Logo a seguir, em tom diferente, ordenava:

-Se não te calas, Lottie, és castigada! Pobre anjinho

Vamos, vamos

Sara aproximou-se tranquilamente. Não sabia ainda o que faria, mas estava convencida de que era preferível não dizer assim, ao acaso, tantas coisas contraditórias. - Miss Amélia - disse ela, em voz baixa. Miss Minchin

deu-me licença para eu ver se sou capaz de acalmá-la

Posso

experimentar? Miss Amélia lançou-lhe um olhar desesperado e balbuciou:

-Julga que será capaz? - Eu não sei - murmurou Sara. - Mas vou tentar, mesmo

assim

Miss Amélia levantou-se, ofegante; as perninhas de Lottie continuavam a agitar-se violentamente.

- Vá-se embora, devagarzinho - pediu Sara. Ficarei ao pé

dela.

- Oh Sara - choramingava Miss Amélia - Nunca tivemos uma

aluna tão difícil de aturar. Não podemos continuar a tê-la

aqui.

Mas, ao mesmo tempo em que falava, ia-se esquivando, satisfeita por ter encontrado uma boa desculpa para o fazer.

És feia, e má! Vais apanhar

Tu verás!

Sara, de pé, junto da pequena fúria, olhou para ela durante alguns momentos, sem falar. Depois, sentou-se no chão, ao lado da outra, e esperou. Além dos gritos raivosos de Lottie, não se ouvia mais nada no quarto. E a pequenina, habituada a ouvir as pessoas crescidas suplicarem-lhe que se calasse, ou ralharem-Lhe severamente durante os seus ataques de mau gênio, ameaçando-a e acarinhando-a, assustadas com os

seus caprichos, não compreendia

forças, bater com os pés no chão e verificar que a única pessoa presente parecia não lhe ligar a menor importância, era um fenômeno digno da sua atenção! Entreabriu os olhos, até então muito fechados, e viu quem estava junto dela: era apenas outra criança, exatamente aquela pequena que era dona de Emily e de tantas outras coisas lindas. Essa outra criança olhava para Lottie e parecia refletir profundamente. Lottie quis recomeçar a sua gritaria, mas a calma que reinava na sala e a serenidade da fisionomia de Sara impressionaram-na, e o seu primeiro grito não teve força nem convicção. - Eu-não-te-nho-mãe-zinha - recomeçou ela, numa voz bastante mais baixa. Sara continuou a olhar fixamente para Lottie, mas nos seus olhos havia uma expressão de simpatia. - Eu também não tenho mãe - disse ela. Esta resposta espantou a outra. Cessou de agitar as pernas e ficou imóvel, a olhar para Sara. Uma idéia nova basta, algumas vezes, para fazer calar uma criança que chora e que coisa alguma pudera até então acalmar. Deve dizer-se também que se Lottie detestava a autoritária Miss Minchin e a indulgente Miss Amélia, tinha, em compensação, um "fraco" por Sara, apesar de conhecê-la

Gritar com todas as suas

pouco. Não queria, ainda, ceder, mas os seus pensamentos

tomavam um novo rumo e, depois de um soluço amuado, perguntou:

- Onde está a tua mãe?

Sara não respondeu logo. Haviam-lhe dito que a mãe estava no Céu; meditara bastante sobre esse assunto e acabara por formar uma opinião muito sua.

- Está no Céu - disse, por fim. - Mas tenho a certeza que ela desce algumas vezes à Terra para me vir ver; eu é que não a vejo. Deve suceder o mesmo com a tua. Quem sabe se a tua mãe e a minha nos estão a ver neste momento? Talvez se encontrem aqui as duas, neste quarto Lottie ergueu-se bruscamente e olhou em volta de si. Era uma bonita criança de cabelos encaracolados e olhos redondos, que lembravam miosótis orvalhados. Mas, se a sua mamã ali estivera durante a meia hora que acabava de decorrer, não a tinha comparado a um anjo do Céu, com certeza Sara continuava a falar, e fazia-o com tal convicção, que Lottie escutava-a atentamente, mesmo sem querer. Haviam-lhe explicado que a mãe tinha umas grandes asas, e mostrado estampas onde se viam umas senhoras vestidas de branco, a quem chamavam anjos. Mas o que Sara contava parecia ser uma coisa verdadeira, como se falasse de um belo país onde viviam pessoas a valer.

- Lá em cima há muitos campos, todos em flor

- dizia ela, abandonando-se à sua imaginação e falando

como se sonhasse. - São campos de lírios, e, quando passa sobre eles a brisa, esta fica toda perfumada. E, como a brisa sopra constantemente, respira-se sempre aquele delicioso perfume. As crianças brincam nos campos e colhem ramos de

lírios para fazer coroas. Todos os caminhos deste país brilham. E depois, ninguém se fatiga, mesmo que tenha andado muito, Quem quiser, pode voar. Há muros de pérolas e ouro em toda a volta da cidade, mas são baixinhos, que é para nos podermos debruçar, olhar para a Terra, cá em baixo, e enviar sorrisos e mensagens carinhosas às pessoas que estimamos. Fosse qual fosse a história que Sara tivesse começado, Lottie, certamente, não gritaria mais, e ter-se-ia deixado prender pelo encanto da narrativa, mas não se pode negar que esta história era mais bonita do que as outras. Entretanto, Lottie aproximara-se mais de Sara,ouviu-a até ao fim, sem perder uma só palavra. Quando acabou, pareceu-lhe que tinha sido muito pequena, e fez uma cara pouco tranqüilizadora.

não

tenho mamã neste colégio ! Sara sentiu o perigo e saiu do seu sonho. Pegou na mão gorducha de Lottie e puxou a pequenina para si, sorrindo-lhe

carinhosamente.

- Serei eu a tua mamã - disse ela. - Vamos divertir- nos a dizer que tu és minha filha. E Emily será tua irmã. Reapareceram nas faces de Lottie as suas engraçadas covinhas.

- Eu quero ir para esse país - gritou ela. Eu

- É verdade ? - perguntou.

- Com certeza - respondeu Sara, pondo-se de pé, num

salto. -Vamos prevenir Emily. Em seguida vou lavar-te a cara e pentear-te. Lottie concordou, alegremente, e pôs-se a pular ao lado de Sara, sem se lembrar já de que o "drama" que acabava de passar, começara, exatamente, porque ela recusara deixar-se lavar e pentear para o almoço, tornando-se forçoso recorrer à autoridade da majestosa Miss Minchin. A partir daquele dia, Sara passou a ser mãe adotiva.

BECKY O maior prestigio de Sara estava no dom que possuía de contar histórias e dar a tudo quanto dizia uma aparência de descrição maravilhosa. Era isto, mais ainda do que o seu luxo e a sua riqueza, que atraía para ela as condiscípulas; e era isto mesmo que mais inveja causava a Lavínia e a algumas outras pequenas, que não conseguiam, apesar de tudo, deixar de sentir o encanto do extraordinário talento de Sara. As pessoas que na infância tiveram alguém que lhes contasse, assim, histórias fantásticas, recordam durante toda a vida essas horas de deslumbramento, em que escutavam a voz que lhes ia falando de fadas, encantos e aventuras espantosas, que transportavam a sua imaginação infantil a um mundo maravilhoso. E evocava, muitas vezes, os grupos que formavam com outras crianças, conservando-se, durante horas, quietas e caladas, de olhos fitos na pessoa que contava. Sara, não somente sabia contar histórias, como gostava muito de o fazer. Quando, sentada no

meio

das condiscípulas, começava a inventar coisas maravilhosas, os seus olhos verdes pareciam maiores e mais brilhantes; as faces tornavam-se-lhe coradas e insensivelmente, começava a acompanhar com gestos as suas palavras. A voz, ora doce, ora forte, o corpo flexível, os movimentos expressivos das suas mãos tudo contribuía para dar relevo às passagens dramáticas ou românticas do seu conto. Por vezes,esquecia- se de que falava com outras crianças; via realmente fadas, vivia com os reis, as

rainhas e as formosas castelãs de quem ia contando as aventuras. Acontecia chegar ao fim da narrativa ofegante, exausta. Então, colocava a mãozinha no peito, sobre o coração, e sorria, como se estivesse troçando de si própria.

- Quando vos conto tudo isso - dizia ela parece-me que é verdade, que aconteceu assim, e esqueço-me do colégio, da aula e até de que me

Chego a convencer-me de que sou eu

própria, cada uma das personagens da história.

estão ouvindo.

É extraordinário!

Havia cerca de dois anos que Sara estava no colégio de Miss Minchin. Num dia de Inverno, enevoado e triste, quando

descia da carruagem, toda embrulhada no seu casaco de veludo guarnecido de peles, viu, debaixo da

pequenina, mal

arranjada, que espreitava para fora, através das grades, com o pescoço estendido e os olhos dilatados. A sua

escada da cave,

o

vulto

de

uma

carinha suja possuía uma expressão ao mesmo tempo

ardente e tímida,

E ela sorriu à criança, como sorria sempre a toda

a gente.

Mas a outra julgava, lhe era permitido

que chamou a atenção de Sara.

com certeza, que não

para

a

do

colégio. A sua cabeça desgrenhada desapareceu, como a de um diabinho que recolhe à sua caixa, e fugiu para a cozinha com tal precipitação, que, se não tivesse um ar tão miserável, Sara teria rido com vontade. Nesse mesmo dia, à noite, enquanto Sara contava uma das suas histórias, rodeada por um auditório atento, o mesmo

olhar

aluna mais rica

vulto, pequeno e triste, entrou na aula, transportando um balde de carvão demasiadamente pesado para as suas forças, e ajoelhou junto do fogão, para encher a fornalha e varrer as cinzas. Estava mais asseada do que à tarde, mas mostrava o mesmo ar assustado. Via-se que tinha medo de escutar ou olhar em volta de si. Colocou o carvão, bocado a bocado, com as mãos, para não fazer barulho, e sacudiu cuidadosamente as tenazes. Mas Sara compreendeu logo que aquilo que se estava passando na sala interessava vivamente a criadinha e que ela cumpria a sua obrigação devagar, na esperança de apanhar algumas palavras, aqui e acolá, da história que estava contando. Por isso, Sara levantou a voz e esforçou-se por falar bem distintamente:

"- As sereias nadavam docemente naquela água verde e clara como o cristal, levando atrás de si uma rede de pesca tecida com pérolas.” A princesa estava sentada sobre um rochedo todo branco e olhava para elas. Era a história maravilhosa de uma princesa amada por um tritão(nome de divindades marinhas) e que fora viver com ele nas deslumbrantes cavernas submarinas. A criadinha, de joelhos diante do fogão, varrera o chão uma vez, outra vez, e recomeçava a varrê-lo de novo, mas estava de tal forma absorvida a ouvir, que perdeu a noção da realidade. E, sem saber como, encontrou-se sentada sobre os calcanhares com a vassoura imóvel nas mãos. A voz de Sara transportava-se às grutas todas iluminadas de um azul muito pálido, com o chão coberto de areia dourada. Parecia-Lhe que, à sua volta, se balouçavam exóticas flores e ressoavam longínquos e estranhos concertos. A vassoura escapou-se-Lhe dos dedos calejados pelo trabalho e Lavínia Herbert voltou a cabeça.

- Esta rapariga está a ouvir a história

disse ela.

A pequena apanhou a vassoura e pôs-se em pé. Depois,

pegando no balde do chão, fugiu, como uma lebre assustada.

de

respondeu:

Sara sentiu dentro

si

uma surda

irritação e

-

Eu bem sabia que ela estava a ouvir. Mas que mal havia

nisso?

Lavínia

levantou

a

cabeça

com

uma

impertinência

elegante, e replicou:

 

-

Não

sei

se

a

tua

mãe

gostaria

de

te

ver

contar

histórias às criadas. A minha, sei eu, com certeza, que não

gostava.

- À minha mãe - exclamou Sara, com um olhar estranho. -

Estou certa de que isso lhe seria indiferente. Ela sabe, tão

bem como eu, que as histórias são para ser contadas a toda a gente.

- Eu julgava - continuou Lavínia, num tom severo - que a tua mãe tinha morrido.

- Então tu pensas que, pelo fato de ter morrido, ela já

não se preocupa comigo? - respondeu secamente Sara, que sabia

dar à sua voz um tom grave, quando queria.

- A mamã de Sara sabe tudo - murmurou Lottie - e a minha

também. Não falo de Sara, que é a minha mamã no colégio de

Miss Minchin, mas da outra

reluzentes e campos de lírios, que toda a gente pode colher.

Lá, onde ela está, há caminhos

Sim, senhora! É muito bonito - exclamou -

escandalizada.

tu

que

as

-

Então também inventas

histórias acerca do Paraíso?

são

verdadeiras? - perguntou Sara. - O que eu te posso afirmar - continuou ela, com uma veemência que não tinha nada de angelical - é que tu nunca o conseguirás saber, se não te

Lavinia,

-Como

sabes

minhas histórias não

tornares mais caridosa do que és agora. Vem comigo, Lottie. Ao dizer isto, saiu da sala, na esperança de encontrar ainda a criadinha, mas ela desaparecera sem deixar traço. -Quem é a pequenina que trata do fogão ? -perguntou ela, nessa mesma noite, a Mariette. Mariette deu-lhe muitas explicações. Quem era aquela pequena? Ah! bem podia Miss Sara fazer essa pergunta a quem quisesse. Era uma pobre abandonada que haviam admitido como ajudante de cozinheira, mas, na verdade, ela trabalhava em toda a parte, menos na cozinha. Era ela quem engraxava o calçado, limpava os fogões, subia e descia as escadas com grandes baldes de carvão, lavava o sobrado e os vidros, enfim, era o "pau mandado" de toda a gente. Tinha catorze anos, mas estava tão raquítica, que parecia ter apenas doze. Na verdade, a própria Mariette confessava ter pena dela. A pobre criança era de tal forma tímida que, se por acaso alguém se lhe dirigia, os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas, tão grande era o medo que sentia. - Como se chama? - perguntou Sara que, sentada junto da mesa, com o queixo apoiado nas mãos, não perdia uma única palavra de Mariette. Devia chamar-se Becky. Mariette ouvia todo o Pessoal dizer, "Vai fazer isto, vem cá, Becky, mais de cem vezes ao dia.

Sara ficou muito tempo a olhar para o lume e a pensar em Becky, mesmo depois de a criada se ter retirado, e inventou logo uma história, cuja heroína desgraçada era ela. Parecia- lhe que a pobrezinha nunca conseguira matar inteiramente a fome. Desejava ardentemente tornar a encontrá-la. Depois disso avistou- a várias vezes, mas Becky mostrava-se sempre tão assustada e

desejosa de não ser vista, que era verdadeiramente impossível falar-lhe. Mas, algumas semanas mais tarde, numa outra tarde igualmente brumosa, Sara, ao entrar na sua sala particular, encontrou-se em frente de um quadro comovedor. Na sua poltrona favorita, junto do lume que brilhava, Becky, com o nariz mascarrado, o avental sujo, a touca ao lado, caída sobre uma orelha, e um grande balde vazio a seu lado, dormia profundamente, vencida pela fadiga, que ultrapassara os limites de resistência das suas forças infantis. Tinham-na mandado preparar os quartos para a noite. Eram muitos, e ela andara o dia todo de um lado para outro, sem parar. Deixara para o fim os aposentos de Sara, tão diferentes dos outros quartos simples e nus, onde havia apenas o estritamente necessário, considerado suficiente para as alunas vulgares. Aos olhos da pobre criada, a sala de Sara era um salão luxuoso, quando, na realidade, não era mais do que uma divisão clara e alegre. Mas havia ali gravuras, livros, objetos curiosos trazidos da Índia e, além disso, um sofá e uma cadeira estofada. Havia também um bom lume, os cobres da chaminé a reluzir e, no meio de tudo isto, sentada numa cadeira proporcionada ao seu tamanho, Emily, como se fosse a deusa daquele lugar. Becky costumava guardar o quarto de Sara para o fim do seu dia de trabalho, porque a vista de todas aquelas coisas tão bonitas repousava-a, e também porque esperava sempre poder sentar-se, durante alguns minutos, na bela poltrona, olhar para tudo o

que a rodeava e pensar no maravilhoso destino daquela menina a quem tudo aquilo pertencia e que pelos dias de geada, passava embrulhada em soberbos casacos, que as pobres deserdadas da sorte, como ela, procuravam, ao menos, ver de longe, através das grades da cave. No referido dia, as suas pobres pernas fatigadas haviam experimentado um alívio tão grande, quando se sentara, que uma sensação de bem-estar a invadira inteiramente; entorpecida pelo reconfortante calor do fogão, com os olhos fixos nas brasas avermelhadas, e um vago sorriso nos lábios, a cabeça inclinara-se-lhe pouco a pouco, sem ela própria dar por isso, as pálpebras foram-se- lhe cerrando e, no fim, adormecera. Não havia ainda dez minutos que tinha adormecido, quando Sara entrou. O seu sono era tão profundo como o da "Bela Adormecida no Bosque! simplesmente, a pobre Becky estava longe de se parecer com a princesa do conto, pobre, feia, cansada como estava! Ao lado dela, Sara parecia uma criatura vinda de um mundo diferente. Regressava de uma lição de dança e, embora houvesse essa lição todas as semanas, o dia em que vinha o professor de baile era, para todas as alunas, um dia de contentamento. Exibiam-se, nessa ocasião, os vestidos mais bonitos, e como Sara dançava invulgarmente bem, dispensavam-lhe especial atenção, e Mariette recebera ordem de a vestir com a máxima elegância possível. Naquele dia trazia um vestido cor-de-rosa; Mariette comprara botões de rosas naturais e fizera uma coroa que entrelaçara nos seus cabelos negros e encaracolados. Sara acabava de aprender uma dança encantadora, no

decorrer da qual parecia uma grande borboleta a esvoaçar pela sala e, por isso, trazia o rosto afogueado de animação e prazer. Entrava no aposento, esboçando ainda alguns passos de dança, quando avistou Becky a dormir como um justo, com a touca tombada sobre a orelha - Oh! - exclamou Sara. - Pobre pequena ! Não teve um minuto, sequer, de irritação, ao ver a sua cómoda poltrona ocupada por aquela pessoa enfarruscada. Pelo contrário, estava encantada por encontrar a heroína da história que inventara e por ter, finalmente, ocasião de Lhe falar. Aproximou-se docemente e contemplou-a. Becky ressonava levemente. "Gostava que ela acordasse sòzinha - pensava Sara. - Contraria-me ter de a acordar; mas, se por acaso Miss Minchin a surpreende aqui, fica furiosa. Vou esperar um momentinho. " Sentou-se na borda da mesa, balouçando as pernas, tão esbeltas nas suas meias de seda cor-de-rosa, e perguntou a si própria o que devia fazer. Miss Amélia podia, muito bem, entrar de um momento para o outro, e Becky seria severamente repreendida. "Mas ela está tão fatigada! - -pensava Sara. - Tão terrivelmente fatigada!"Um bocado de carvão que caiu da fornalha, veio pôr fim à perplexidade de Sara. Becky estremeceu e abriu os olhos com um suspiro de pavor. Não dera por ter adormecido; havia apenas alguns instantes que estava

ali - pensava

confundida, na presença daquela maravilhosa menina, que

parecia uma fada cor-de-rosa, e olhava para ela com interesse, lá do alto da mesa onde se empoleirara. Pôs-se de pé, num pulo, e esforçou-se por colocar a

e

eis

que,

de

repente, se encontrava,

touca direita, na cabeça. As mãos tremiam- lhe. O que ela fizera! Deixar-se adormecer descaradamente na poltrona de uma das meninas do colégio! Iam pô-la na rua, sem Lhe pagar a soldada! E a pobre rapariga começou a soluçar. - Oh miss, miss, Peço-lhe perdão - balbuciava ela - Perdoe, miss! Sara saltou para o chão e veio até ao pé dela, dizendo- lhe, tão gentilmente como se falasse a uma das suas

condiscípulas:

- Não tenhas medo. Isto não tem importância.

- Eu não fazia tenção, juro, miss - protestava Becky. -

A culpa foi do calor do fogão e, também, porque eu estava

muito cansada

Sara sorriu, amigàvelmente, e pôs a mão sobre o ombro da

criadita. -Como não querias tu dormir se estavas tão fatigada? - disse ela. - Tu ainda não estás bem acordada!

A pobre Becky devorava Sara com os olhos. Nunca ninguém

lhe falara com tanta doçura. Estava habituada a ouvir ralhar,

a ser mandada e até, muitas vezes, a receber pontapés. E,

afinal, aquela menina, linda como os anjos, vestida de cor- de-rosa, dizia-Lhe que ela também tinha o direito de estar fatigada e, mesmo, de se deixar adormecer! A mão, tão delicada de Sara, pousava sobre o ombro de Becky, o que Lhe parecia verdadeiramente incrível. -A menina não está zangada? Não vai contar à senhora?

-Não direi nada, podes estar tranqüila! O coração de Sara sofria, ao verificar o terror que se estampara na cara mascarrada da criadita. Teve, mesmo, uma sensação de desgosto intolerável. Então, uma idéia, como só ela era capaz de ter, atravessou- lhe o espírito. E acariciou as faces de Becky.

Não foi por atrevimento!

- Na realidade; nós somos semelhantes! - exclamou Sara.

-Foi só por um puro acidente que tu não nasceste no meu lugar e eu no teu! Becky não compreendia. Estas considerações eram demasiado elevadas para o seu espírito; e depois

para ela, a palavra "acidente" significava, apenas, uma terrível calamidade, tal como: ser atropelada por uma carruagem, cair de uma escada e ser levada ao hospital.

- Um acidente, miss - murmurou ela, respeitosamente. -

Acha?

- Acho, sim - respondeu Sara, que a fitava com olhos sonhadores.

Depois, vendo que Becky não a compreendia, disse-Lhe noutro tom:

- Já acabaste o teu trabalho? Podes ficar aqui mais um

bocadinho? Becky sentiu-se, mais uma vez, sufocada, e perguntou:

- Eu Aqui?

Sara foi abrir a porta e espreitou para o corredor, deixando passar uns momentos para certificar-se se via ou ouvia qualquer coisa. - Não anda por aqui ninguém - explicou ela. -Tu já arranjaste todos os quartos, talvez possas demorar-te um pouco. Tenho a certeza de que havias de gostar de comer um bolo Os minutos que se seguiram foram, para Becky, como um sonho. Sara abriu um baú e deu-lhe uma grossa fatia de bolo, regalando-se de ver a pobre criada devorá-lo com avidez. Falou com ela, fez-lhe perguntas, e tudo isto com um ar tão alegre, que o pavor de Becky começou a acalmar-se a ponto de a pequenina se atrever - ela, a miserável Becky - a fazer perguntas a Sara.

- começou ela, olhando o vestido cor-

de-rosa com uma espécie de inveja - é o mais bonito que a menina tem?

- É um dos vestidos que eu costumo vestir para dançar - respondeu Sara. - Gosto muito dele. E tu? Becky conservou-se, durante alguns instantes, muda de admiração. Depois, respondeu em voz baixa, com respeito:

- Uma vez, vi uma princesa. Eu estava na rua tal, com muita gente que tinha ido ver as pessoas ricas entrarem na Ópera. Havia uma senhora para quem todos olhavam mais do que para os outros. E diziam: “É a princesa”. Era uma menina crescida toda de cor-de-rosa:

casaco, vestido, flores, tudo! Quando vi a miss sentada na mesa, julguei que era a princesa, porque é muito parecida com ela.

- Tenho pensado muitas vezes - disse Sara com a sua voz

musical - que gostava imenso de ser princesa. Queria saber o que elas pensam, o que elas sentem. Agora, vou imaginar que sou uma princesa. Becky continuava a não compreender as palavras de Sara, mas olhava para ela com os olhos fixos numa espécie de adoração. Sara saiu do seu sonho e fez uma nova pergunta a Becky:

- Esse vestido

-Estiveste a ouvir-me, naquela noite, lá em baixo, na aula?

- Estive - confessou a pequena, novamente

dominada por um vago terror. - Eu bem sei que não devia, mas era tão bonito! Não fui capaz de me dominar

- Até gostei que ouvisses - declarou Sara. -

Quando contamos histórias ficamos sempre contentes se

percebemos que gostam de nos ouvir. Querias saber a continuação?

Becky sentiu, outra vez, que Lhe faltava a respiração, e exclamou:

- Eu? Tal qual como se fosse uma aluna do

colégio? A linda história do príncipe e das sereias pequeninas que nadavam, a rir, com estrelas nos cabelos! Sara fez um sinal afirmativo, com a cabeça. Depois disse:

- Hoje, receio bem que já não tenhas tempo.

Mas diz-me a que horas vens arrumar o meu quarto que eu procurarei estar aqui e contar-te-ei um bocadinho todos os dias, até que a história acabe. É uma história muito comprida e muito bonita. E eu acrescento-lhe sempre qualquer coisa. Ai - suspirou Becky, com convicção. - Bem me importa, a mim, que o balde de carvão seja pesado ou que a cozinheira me atormente, quando eu puder pensar na história durante todo o dia!

- Podes muito bem fazer isso. Contar-te-ei a história do

princípio ao fim - disse Sara. Quando Becky voltou para a cozinha, não era a mesma que havia subido a escada, ajoujada sob o peso do carvão. Tinha uma fatia de bolo, na algibeira, vinha quentinha e refeita das canseiras do dia; mas não foram apenas o calor do lume e

o bolo que lhe haviam dado forças: fora, também, a presença de Sara. Depois de ela ter saído, Sara voltou para o seu lugar favorito, no canto da mesa. Pousou os pés numa cadeira, pôs os cotovelos nos joelhos e o queixo encostado às mãos.

uma verdadeira princesa -

pensava ela - poderia ser muito generosa para os pobres; mas, mesmo sendo princesa apenas na minha imaginação, posso inventar pequenas coisas que lhes dêem prazer, como fiz há bocado com

Becky. Ela sentia-se tão feliz como se eu lhe tivesse dado uma grande esmola. Vou passar a imaginar também que, fazer coisas pequenas, com intenção de tornar os pobres felizes, é ser generosa. Hoje fui muito generosa. “

"Se

eu fosse princesa

AS MINAS DE DIAMANTES

Pouco tempo depois do que acabamos de contar, Sara

recebeu notícias que excitaram não somente a sua curiosidade como a de todo o colégio, tornando-se o assunto de todas as conversas durante muitas semanas.

O capitão Crewe contava, numa das suas cartas, uma

história interessante:

Acabava de receber a visita inesperada de um dos seus antigos condiscípulos, que possuíam na Índia grandes terrenos, nos quais haviam sido descobertos diamantes. O

proprietário desses terrenos fizera a viagem para organizar a exploração das preciosas minas.

Se tudo corresse bem, como era natural, estavam na posse

de uma riqueza tão considerável, que só pensar nela lhe causava vertigens. E como tinha uma grande estima pelo capitão Crewe, seu amigo de infância, queria proporcionar-lhe

maneira de aumentar também a sua fortuna, tornando-o seu associado. Foi isto, pelo menos, o que Sara compreendeu, ao ler a carta do pai. Evidentemente, tanto ela como as condiscípulas teriam mostrado muito menos interesse se se tratasse de qualquer

outro objeto de negócios, por mais vantajoso que fosse. Mas, isto de "minas de diamantes" parecia-se tanto com as "Mil e Uma Noites" que ninguém podia ficar indiferente. Sara, encantada, fez logo a descrição dos túneis em labirinto, que desciam ao centro da terra, e de cavernas com as paredes, o teto e o solo coberto de gemas refulgentes, onde trabalhavam indígenas de pele bronzeada, munidos de pesadas picaretas. Hermengarda e Lottie escutavam-na,

deslumbradas, e exigiam que a descrição recomeçasse toda a noite. Tudo isto irritava prodigiosamente Lavínia, que logo começou a dizer a Jessie, em segredo, que não acreditava nas tais minas de diamantes.

- A minha mãe tem um anel com um diamante, que custou

muito caro. E, no entanto, esse diamante não é muito grande. Já vês que, se essas minas existissem, os donos seriam tão ricos, que se tornariam ridículos!

- É talvez a sorte que espera Sara com um riso trocista.

ser

ridícula!observou Lavínia em tom de desprezo.

respondeu a outra,

rica

para

-Ela

não

precisa

de

ser

mais

- Tu não a podes ver. - disse Jessie.

- Não é isso - replicou Lavínia com azedume - mas não

creio em minas cheias de diamantes. -A verdade é que a alguma parte os hão-de ir buscar - respondeu Jessie e perguntou - Sabes o que Gertrudes me

contou?

- Não, nem me interessa, se, por acaso, é qualquer coisa

a propósito dessa celebérrima Sara! -Pois é, justamente, acerca dela! Uma das suas novas manias é imaginar que é princesa: Não pensa noutra coisa, mesmo durante as aulas; diz que aquela idéia a ajuda a

estudar melhor as lições. E quis persuadir Hermengarda a

fazer o mesmo; mas a Hermengarda acha que é gorda de mais para ser princesa

- Hermengarda é muito gorda, e Sara é muito magra

disse Lavínia. Jessie riu novamente, com malícia, e continuou:

- Sara diz que, para ser princesa, não tem importância

ser bonita ou feia, rica ou pobre. O que importa são os nossos pensamentos e as nossas ações. -Naturalmente, ela imagina que poderia ser princesa mesmo que andasse a pedir esmola pelas ruas - respondeu Lavínia. - Nesse caso vamos tratá-la por Vossa Alteza. As aulas tinham terminado, naquele dia, e as duas amigas estavam sentadas na sala de estudo, em frente do fogão, gozando a hora mais agradável para todas as alunas - aquela em que dão por findos os seus trabalhos. Miss Minchin e Miss Amélia preparavam-se para tomar chá na sua salinha particular. Era o momento em que as alunas podiam conversar à vontade e fazer confidências, principalmente quando as mais pequenas se conservavam tranqüilas, em vez de questionarem e correrem ruidosamente de um lado para o outro, como costumavam fazer. Quando o barulho era maior as mais velhas intervinham, ralhavam, e davam- lhes o seu sopapo; porque estavam incumbidas de mantê-las na ordem e, se não o fizessem, miss Minchin e miss Amélia não tardariam a aparecer encurtando assim aquela deliciosa hora de liberdade. Lavinia falava ainda quando a porta se abriu e Sara entrou com Lottie, que se habituara a segui-la por toda a parte, como um cãozinho.

- Aí está èla, com essa insuportável garota - murmurou

-

Lavínia. - Visto que gosta tanto dela, porque a não guarda no seu quarto? Não tarda cinco minutos que a petiza não comece a gritar por qualquer coisa Lottie tivera, de repente, o desejo de ir brincar para a sala de estudo, e pedira a sua "mãe adotiva" que a acompanhasse. Correu a juntar-se a um grupo de petizas da sua idade, que brincava a um canto, e Sara acomodou-se num banco que estava no vão da janela, disposta a ler um livro que trouxera. Era uma história da Revolução Francesa, e não tardou que a descrição horrível dos prisioneiros da Bastilha - esses homens tanto tempo metidos em masmorras que, ao serem libertados, pareciam fantasmas, com a barba e o cabelo a esconder-lhes inteiramente o rosto - a absorvesse inteiramente. A imaginação de Sara levou- a tão ràpidamente para longe do Colégio Minchin, que Lhe foi deveras desagradável ser chamada à realidade por um grito agudo de Lottie. Nada era mais difícil para ela do que dominar a sua irritação, quando alguém a interrompia durante as horas da leitura. Todos aqueles que gostam de ler, decerto compreendem isto.

-É tal qual como se recebesse uma bofetada e sentisse um

desejo invencível de dar outra em paga

um dia, a Hermengarda. -É preciso que eu me domine ràpidamente, para não dizer palavras desagradáveis. Teve, na realidade, que fazer um grande e rápido esforço sobre si própria, quando, naquele dia, fechou o livro e saltou para o chão. Lottie divertia-se a escorregar sobre o pavimento encerado da sala e, depois de ter enervado Lavínia e Jessie com o barulho que fazia, acabara por cair, magoando-se num

- tinha Sara dito,

joelho. Agora, gritava e esperneava no meio de um grupo de

amigas e adversárias acarinhadas por umas e repreendida por outras.

- Cala-te, chorona! Cala-te imediatamente!- ordenou,

Lavinia.

- Eu não sou chorona - soluçava Lottie. Sara! Sara!

- Se ela não se cala, Miss Minchin ouve-a, com certeza!

- exclamou Jessie. - Vamos, Cala-te, Lottiezinha, se queres

um "penny"(moeda inglesa) novinho em folha.

- Não quero o teu "penny", - replicou Lottie. E como, ao

olhar para o joelho, visse uma gota de sangue, recomeçou a

chorar com toda a força.

da

pequenina, passando-lhe os braços em volta do pescoço.

- Vamos, Lottie, vamos - disse ela. - Que prometeste à tua Sara?

lavada em

lágrimas. Sara acariciava-a, mas falava-lhe num tom sério, que Lottie conhecia muito bem:

- E é verdade, minha querida Lottie, se continuares. Que me prometeste tu? Que foi? Lottie sabia perfeitamente o que tinha prometido. Por isso, preferia mudar de assunto.

tenho mãezinha - começou ela. Não tenho

mãezinha nenhuma!

Sara

precipitou-se na

sala

e

ajoelhou ao

- Chamaram-me

chorona

- gritava

Lottie,

- Eu

não

-

Tens,

sim.

Tens

uma mãezinha

-

disse

Sara,

alegremente. - Esqueces-te de que Sara é tua mamã? Já não queres que a Sara seja tua mamã? Lottie chegou-se muito para ela, a murmurar baixinho, palavras que ninguém entendia, com ar de consolação.

-

-Vem sentar-te

no

banco da janela,

ao

de

mim

continuou Sara - e contar-te-ei uma história.

- Contas - disse Lottie, com voz de mimo. Contas-me a história das minas de diamantes?

- As minas de diamantes - interrompeu Lavínia. -

dar-lhe uma

bofetada! Sara ergueu-se, de um salto. É preciso não

esquecer que ela fora bruscamente arrancada à leitura da história impressionante da Bastilha, e que lhe fora necessária uma forte dose de força de vontade para vir tomar o seu lugar junto da sua "filha adotiva". Sara não era um anjo e não tinha a menor simpatia por Lavínia. - Pois bem - exclamou ela com veemência. O meu desejo era dar-te uma bofetada, a ti. Mas não o farei - continuou dominando-se. - Ou antes, gostaria de te bater, mas não o quero fazer. Nós não somos duas garotas da rua e já temos idade para nos sabermos conduzir. A ocasião era ótima, e Lavínia não a quis perder. Por isso, respondeu:

- Ora essa, Alteza! Nós somos princesas, creio eu. Pelo

Insuportável

piegas!

A

minha

vontade era

menos, uma de nós duas. Que glória para Miss Minchin contar uma princesa entre as suas alunas! Sara deu um passo para Lavínia, como se quisesse

esbofeteá-la, e talvez esse pensamento lhe atravessasse o cérebro. A sua inocente mania de imaginar os mais extraordinários sonhos, era a sua felicidade. Nunca falara nisso às companheiras de quem não gostava. Aquela recente idéia de se imaginar princesa era um

ponto delicado, no qual ela não queria que

ninguém tocasse. Guardava ciosamente o seu segredo, e

Sara

eis que Lavínia troçava dele diante de todo o colégio sentiu o sangue subir-lhe ao rosto. Mas conseguiu vencer-se. Quando se é princesa, não

é próprio deixar-se dominar pela cólera. A sua mão

tombou e

ela ficou imóvel durante alguns segundos.

Depois, começou a falar numa voz novamente firme e segura; levantou um pouco a cabeça e todas as outras pequenas escutaram:

- É verdade: às vezes, imagino que sou uma princesa, a fim de chegar a conduzir-me como se o fosse realmente. Lavínia não sabia que dizer. Muitas vezes já verificara que Lhe faltavam os argumentos quando discutia com Sara. A verdadeira razão disto era as alunas tomarem sempre uma atitude de aprovação, quando a outra falava. Naquela tarde, Lavínia viu todas olharem para Sara com um interesse enorme. Gostavam de histórias de princesas e esperavam que ela lhes contasse uma; como se obedecessem todas ao mesmo desejo, aproximaram-se dela. Por isso, o último comentário ne Lavinia não teve o melhor êxito - Espero - disse ela - que não te esqueças de nós quando subires ao trono - Com certeza que não - respondeu Sara. E sem acrescentar mais nada, ficou imóvel, olhando fixamente para Lavínia, até que a outra resolveu retirar-se, pelo braço de Jessie. A partir desse dia, as alunas que invejavam Sara, começaram a chamar-lhe "Princesa", quando queriam metê-la a ridículo; ao passo que as outras, que a estimavam, lhe davam esse tratamento como prova de afeição. As admiradoras de Sara estavam encantadas com o

esplendor daquele título e com a originalidade que lhe dera causa; até Miss Minchin, que fora posta ao corrente do que se passava, contava aquela anedota às visitas que recebia, como se estivesse persuadida de que tal fato dava um certo brilho aristocrático ao seu colégio. Quanto a Becky, achava este título de princesa o mais natural possível. As suas relações com Sara, iniciadas naquele dia de chuva e frio, em que Becky se deixara

adormecer na poltrona do seu quarto, tinham progredido muito. Diga-se, desde já, que Miss Minchin e Miss Amélia não estavam perfeitamente

Tinham notado que Sara se mostrava

extremamente bondosa para com a criadita mas ignoravam totalmente os minutos encantadores e, ao mesmo tempo, arriscados, em que Becky, depois de ter preparado os quartos com surpreendente rapidez, chegava à salinha de Sara e punha no chão com um suspiro de alivio, o balde de carvão. Então Sara contava-Lhe um capítulo de alguma história maravilhosa; certos produtos alimentares, dos mais apetitosos, saíam do seu baú, e Becky fazia-lhes

informadas disso

honra

com eles, mais tarde, na solidão das águas-furtadas

onde dormia.

- Mas tenho que ter cautela, quando como

dissera ela, um dia-, porque, se deixo cair migalhas, as

ou metia-os na algibeira, para se regalar

ratazanas vêm apanhá-las

- As ratazanas!- exclamou Sara, horrorizada.

- No teu quarto há ratazanas?

com a maior

calma. - Há sempre ratazanas e ratos nos sótãos. A gente acostuma-se depressa ao barulho que

- Um regimento delas

- respondeu Becky,

eles fazem, a correr de um lado para o outro. Eu já estou de tal forma habituada, que só

dou por isso quando passam por cima do meu travesseiro.

- Ui!- exclamou Sara.

- Nós habituamo-nos a tudo

- Se a menina tivesse nascido como eu, sucedia-lhe o mesmo. Gosto mais dos ratos que das pessoas fingidas

- replicou Becky.

-Também eu - concordou Sara - por que julgo que os ratos sempre se podem apanhar, enquanto que uma pessoa hipócrita não me parece fácil Havia dias em que Becky não se atrevia a ficar mais do que uns breves minutos naquele lindo quarto tão quentinho; nesses dias as duas amigas trocavam apenas algumas palavras e metiam ràpidamente um pacotinho na algibeira, à moda antiga, que Becky usava debaixo do vestido, presa à cintura por um nastro(fita estreita de algodão ou de linho) vermelho. Sara descobrira, assim, mais um interesse na sua existência: procurar e descobrir coisas boas, alimentares e saborosas, que pudessem meter-se num pequeno pacote. Sempre que saía a pé ou de carruagem, inspecionava, com o olhar, todas as montras de restaurantes e pastelarias. No dia em que teve a idéia de trazer dois ou três pastéis de carne, sentiu que fizera uma verdadeira descoberta. Os olhos de Becky brilharam, à vista dos pastéis. - Oh, miss - murmurou ela. - Isto é bom e alimenta. O que alimenta é melhor. Os bolos são deliciosos, isso é

A

verdade, mas derretem-se na boca, não se sentem passar menina compreende? Ao passo que isto, enche o estômago.

- Meu Deus - disse Sara, lentamente. - Eu penso que ter

o estômago cheio de mais não é lá muito bom, mas acredito que te dê satisfação. Becky ficou, efetivamente, contentíssima com os pastéis de carne e bem assim com os sanduíches de fiambre e os pãezinhos com mortadela que Sara lhe passara a comprar, regularmente. Pouco a pouco, a criadita começou a sentir-se menos fatigada e a não ter fome, e o balde do carvão parecia- lhe menos pesado. De resto, o balde podia pesar muito ou pouco; a cozinheira podia estar de péssimo humor; o trabalho podia ser penoso e excessivo; a idéia dos momentos que passaria junto de Sara, na sua confortável salinha, dava coragem a Becky para suportar tudo. Na realidade, a presença de Sara, mesmo sem as gulodices que costumava dar-lhe, bastava para reconfortar a pobre pequena. Quando tinham apenas o tempo indispensável para trocar algumas palavras eram sempre palavras carinhosas, que aqueciam o coração; e quando era possível Becky demorar- se mais, havia sempre uma história, ou uma conversa divertida, que ela recordava depois, ao serão, e revivia na memória, quando estava deitada, lá em cima, nas águas-furtadas. Sara, que obedecia apenas às suas tendências, porque era naturalmente boa e generosa, estava longe de supor o que representava para Becky o papel de fada benéfica que desempenhava junto da pobrezita. Quando se é dotada de uma alma terna e compadecida, as mãos abrem-se, por si, e o coração também. E se algumas vezes as mãos estão vazias, o coração, se é inesgotável e pode dar sempre coisas belas, boas e doces: consolações, conforto, alegria - e a alegria é, muitas vezes, o mais eficaz de todos os dons. Becky nunca, na sua breve e miserável existência,

soubera o que era rir. Foi Sara quem a ensinou, e ria também

com ela. E, sem que o suspeitasse, uma gargalhada espontânea fazia tão bem a Becky como um bolo ou um pastel de carne.

Algum tempo antes de Sara completar onze

anos,

recebeu ela uma carta do pai, que não parecia escrita com a boa disposição habitual. Dizia que estava fatigado e que se sentia esmagado pelo trabalho e pelas preocupações que lhe causavam as famosas e grandes minas de diamantes. "Vê tu, minha Sarinha - dizia ele -, o teu papá não é, positivamente, um homem de negócios; os planos, os relatórios e o resto dão-lhe cabo da cabeça.” O teu papá não percebe nada disto e tudo Lhe parece fantástico. Tenho febre e passo uma parte da noite às voltas, e a outra parte a debater-me com pesadelos. "Se a "minha senhorazinha" aqui estivesse, tenho certeza de que ela me daria, com o seu ar grave, um bom conselho. Não é verdade, minha senhora?" Uma das brincadeiras favoritas do capitão Crewe era chamar "senhorazinha" à filha, por causa do seu ar sério, que lhe dava o aspecto de uma criança de outro tempo. Nessa carta contava-lhe também o pai tudo o que preparava para festejar o aniversário do nascimento da sua querida menina. Entre outras coisas encomendara, em Paris,

uma nova boneca, cujo enxoval seria uma verdadeira maravilha.

A resposta de Sara a esta carta, em que o pai lhe

a

perguntava se a boneca seria bem recebida, era uma obra-prima de diplomacia. "Começo a estar muito crescida “- escreveu ela

- e não terei, nunca mais, outra boneca. Esta será a

última, e esta idéia é muito grave. Se eu soubesse fazer versos, estou certa de que um poema, sobre "a última boneca",

seria lindo. Mas não sou capaz de compor poesia! experimentei e ri com vontade! O que escrevi não se parecia absolutamente

nada com Coleridge ou Shakespeare

lugar de Emily, mas serei muito amiga da "nova boneca" e tenho a certeza de que todo o colégio rejubilará com ela. As

alunas gostam todas de bonecas, embora as "grandes" (as que vão quase nos quinze anos) afirmem que já não têm idade para isso. “

O capitão Crewe tinha uma terrível dor de cabeça quando

leu esta carta, lá longe, na sua casa de campo. Diante dele, sobre a mesa, amontoavam-se cartas e papéis, que o enchiam de receio e ansiedade; apesar disso, riu como há muito tempo não

ria.

"Oh - pensava ele - à medida que vai crescendo, a minha Sara vai-se tornando ainda mais espirituosa. Permita Deus que este negócio se faça e me deixe livre, para ir beijá-la! Quanto daria eu, meu Deus, para ter os seus bracinhos em volta do meu pescoço, neste momento!"

Ninguém tomará, nunca, o

O aniversário de Sara devia ser celebrado com

uma grande festa no colégio. A sala de estudo seria suntuosamente decorada. Ali se abririam, com grande solenidade, as caixas que continham os presentes. No salão de miss Minchin, servir-se-ia um lanche magnífico. Quando o grande dia chegou, todas as alunas estavam numa agitação indescritível. A manhã passou-se

sem elas próprias saberem como, tantos eram os preparativos. Ornamentaram a sala de estudo com festões de

azevinho, tiraram as estantes e os bancos vermelhos foram dispostos em volta da sala, encostados

à parede, e dissimulados com cobertas vermelhas.

Quando Sara entrou na sua sala particular encontrou em cima da mesa um estranho pacote; mal

feito, embrulhado num papel cinzento, grosseiro. Compreendeu que se tratava de um presente

e adivinhou imediatamente donde vinha. Abriu o

embrulho com ternura: continha uma pregadeira para alfinetes, feita de flanela vermelha, já um pouco desbotada, e sobre a almofada, desenhada por alfinnetes de cabeça preta, havia estas palavras: "Um aniversário feliz"

- Oh!- exclamou Sara, comovida. - Que trabalho que ela

teve! Estou tão contente

chorar. De repente, a sua fisionomia teve uma expressão de profunda surpresa. Debaixo da pregadeira havia um cartão de visita com um nome impresso em caracteres bem legíveis: "Miss Amélia Minchin". Sara voltava e tornava a voltar o cartão, entre os dedos nervosos. "Miss Amélia - pensava ela. - Que quer isto dizer?" Mas, naquele instante, ouviu a porta abrir-se docemente e viu a cabeça de Becky a espreitar: No

tenho quase, vontade de

que

seu rosto havia um sorriso bom, feliz, e ela entrou arrastando os pés e torcendo nervosamente as mãos.

- Gostou, Miss Sara - perguntou ela.

- Gostei muito - respondeu Sára. - Querida Becky, que fez sozinha esta linda pregadeira! Becky fungou, alegremente; os seus olhos estavam brilhantes de felicidade.

- Só tem a flanela, e a flanela já não é nova; mas eu

queria oferecer-lhe qualquer coisa e lá consegui fazer isto,

às escondidas, de noite. Eu bem sabia que seria difícil a

menina imaginar que era uma pregadeira de cetim cor-de-rosa,

com alfinetes de diamantes

era assim, enquanto a ia fazendo. O cartão de visita

- acrescentou ela, com hesitação - creio que não fiz mal

Miss Amélia tinha-o

deitado fora. Eu não tenho cartões com o meu nome e não é próprio oferecer um presente sem lhe juntar um cartão. Foi

por isso que pus o de Miss Amélia. Sara saltou-Lhe ao pescoço e beijou-a nas duas faces. Sem saber bem por que, sentia a garganta apertada. - Oh Becky - exclamou, com um riso tremulo. - Gosto muito de ti, sabes? Gosto muito de ti!

em tirá-lo do cesto dos papéis. Acha

Eu própria quis acreditar que

- Oh Miss Sara - murmurou Becky. - Mil vezes obrigada,

mas isto não tem importância: a flanela está um pouco usada

a flanela até já

AINDA A MINA DE DIAMANTES

aula

ornamentada com azevinho. Miss Minchin, ostentando o seu melhor vestido de seda, conduziu-a pela mão. Seguiu-se um criado com uma caixa que continha a última boneca ; uma criada de quarto vinha logo após, carregada com uma segunda caixa, e Becky, com um avental lavado e uma touca nova, fechava a marcha com um terceiro pacote.

Sara teria preferido mil vezes entrar com simplicidade, mas Miss Minchin chamara-a a sua sala particular e comunicara-lhe o seu desejo.

- É um grande dia - declarou ela - e deve ser celebrado

como convém. De maneira que Sara fez a sua aparição à frente de uma

Foi com toda

a

solenidade que Sara

entrou na

espécie de cortejo, sentindo-se confusa ao ver as alunas mais crescidas tocarem nos braços umas das outras, e as menores agitarem-se alegremente nas cadeiras.

- Silêncio, meninas - disse Miss Minchin, porque se

levantara um murmúrio geral. - James, ponha a outra caixa

numa cadeira. Becky! Este último nome foi pronunciado de uma forma breve e severa, porque Becky, contagiada pela agitação geral,

esquecera-se completamente do que fazia, e sorria para Lottie, que saltitava de alegria, impaciente.

A dura voz de Miss Minchin surpreendeu-a a tal ponto

que, por pouco, não deixou cair o embrulho. Para pedir

desculpa, fez uma pequena reverência, tão desajeitada, que Lavínia e Jessie começaram a rir baixinho.

- Tu não estás aqui para olhar para estas meninas -

continuou Miss Minchin. - Que esperas? Vamos, põe aí a caixa! Becky obedeceu com uma precipitação angustiosa, e

dirigiu-se apressadamente para a porta.

- Podem retirar-se - ordenou Miss Minchin aos criados,

com um gesto breve. Becky desviou-se respeitosamente, para que os outros

passassem. Mas não pôde deixar de lançar um olhar de pena para a caixa que estava em cima da mesa. Via-se um bocado de cetim entre as dobras do papel de seda.

- Miss Minchin - disse, sùbitamente, Sara. Becky não pode ficar?

Era preciso ter audácia para fazer semelhante pergunta a Miss Minchin. A diretora estremeceu. Depois, pôs a luneta e olhou para a sua "brilhante aluna" com ar de reprovação. - Becky - exclamou ela. - Oh! Minha querida Sara

A pequena deu um passo na direção de Miss Minchin, e

disse:

-Desejo que fique, porque também há de gostar de ver os meus presentes. Ela também é criança. Miss Minchin estava sufocada. Os seus olhos iam de Sara para a criadita e desta para Sara. - Minha querida menina - continuou ela. Becky é ajudante de cozinheira. As ajudantes de

cozinheira

Evidentemente que nunca lhe tinha ocorrido semelhante idéia. As ajudantes de cozinheira eram, para ela, máquinas de lavar louça e de deitar carvão na fornalha, nada mais. - Mas Becky é uma criança - afirmou Sara, tranquilamente. - Eu sei que isto a divertirá. Tenha a bondade de permitir que ela fique, em honra do meu aniversário. Miss Minchin logo respondeu, com ar muito digno:

- Visto que me faz esse pedido como um favor pessoal, pode ficar. Rebeca, agradece a miss Sara a sua bondade. Becky tinha-se concentrado, no limiar da porta torcendo a ponta do avental, ao mesmo tempo ansiosa e encantada.

Avançou fazendo uma reverência; e, enquanto agradecia, em frases curtas e hesitantes, os seus olhos trocaram com os de Sara um longo olhar carinhoso.

obrigada, miss! Estou-lhe muito

- reconhecida, miss! Eu tinha um grande desejo de ver a boneca,

miss, isso é verdade! Muito obrigada, miss! E também muito obrigada à senhora - disse, com uma reverência assustada; e, dirigindo-se a miss Minchin, acrescentou - Muito obrigada por me ter permitido aqui ficar. Miss Minchin fez, de novo, com a mão, um gesto breve, desta vez na direção do canto mais próximo da porta.

claro

não são Crianças.

Oh!

Mil vezes

- Fica ali - ordenou ela. - Não te ponhas muito perto

das meninas. Becky obedeceu, com o coração a pulsar de alegria. Pouco lhe importava o lugar que lhe destinavam, desde o momento que lhe permitiam ficar ali, durante a festa que ia realizar-

se.Nem sequer ficou perturbada quando Miss Minchin, depois de tossir ruidosamente, retomou a palavra:

- Meninas - anunciou ela. - Tenho uma coisa para lhes dizer.

- Vai fazer um discurso - murmurou uma das

mais crescidas. -Quem me dera já que ela chegue

ao fim.

Sara sentiu-se pouco à vontade.

a sua festa, Miss Mínchin ia, com certeza, falar dela.

E era agora muito desagradável estar ali, de pé numa aula, a ouvir um discurso em sua honra.

- Todas sabem que a nossa querida Sara faz

hoje onze anos - começou ela.

- Oh, querida Sara - murmurou Lavinia ironicamente.

- Muitas das meninas também já fizeram onze anos; mas os dias do aniversário de Sara são um

pouco diferentes dos das outras meninas.

ela for crescida herdará uma grande fortuna, que

será seu dever gastar útil e generosamente.

Visto que era

Quando

- As minas de diamantes - troçou Jessie em

voz baixa. Sara não a ouviu; mas, enquanto os seus olhos

verdes não se desfitavam de Miss Minchin, sentia as

faces tornarem-se-lhe vermelhas.

Todas as vezes

Sara

que Miss Minchin falava de dinheiro,

experimentava por ela um verdadeiro sentimento de aversão; e

toda a gente sabe que detestar as pessoas crescidas é uma

falta de respeito.

- Quando o seu excelente pai, o capitão Crewe,

ma confiou - prosseguiu Miss Minchin - disse-me, em ar de brincadeira: "Receio que a minha filha

venha a ser, um dia, terrivelmente rica

”.

E eu

respondi-Lhe: "Ela receberá, na minha casa, uma educação, digna da menina mais rica do mundo!”. Ora, Sara tornou-se a nossa aluna mais brilhante; a maneira como ela fala francês e dança honra o colégio. Tem maneiras tão delicadas, que vós mesmas lhe chamais "Princesa Sara". Oferecendo-vos esta recepção, Sara dá-vos uma prova de grande amabilidade. Espero que saibais

apreciar a sua generosidade, dizendo alto, todas ao mesmo tempo: "Obrigada, Sara". As alunas levantaram-se imediatamente, e, como no dia longínquo da chegada de miss Crewe ao colégio, disseram todas a uma:

- Obrigada, Sara!

Lottie saltava e mexia-se sem parar, no seu banquinho. Sara parecia intimidada: Fez uma reverência graciosa às

condiscípulas e disse:

-Eu é que lhes agradeço o terem vindo à minha festa.

- Muito bem! Muito bem, Sara - aprovou miss Minchin. - É

o que fazem as verdadeiras princesas, quando o seu povo as aclama. Lavinia (e isto foi dito num tom glacial), parece-me que a menina fez troça. Se tem ciúmes da sua condiscípula,

podia, ao menos, exprimir os seus sentimentos de uma forma

mais elegante

que se divirtam à sua vontade. Apenas Miss Minchin saiu da aula, toda a disciplina e boa compostura, mantidas até então, desapareceram. Os bancos foram abandonados em tumulto, e todas as alunas, grandes e

Agora, minhas filhas, vou deixá-las, para

pequenas, se precipitaram para os presentes. Sara inclinou-se sobre uma das caixas, com ar de quem está maravilhada.

- São livros, tenho a certeza! - disse ela. E, levantou-

se um murmúrio de desapontamento, e Hermengarda parecia consternada.

- Então o teu papá manda-te livros como presente de aniversário? Nesse caso é tão terrível como o meu. Não os abras, Sara.

- Eu adoro os livros - respondeu Sara, rindo. Mas a sua

atenção voltou-se para a caixa maior. Quando de lá tirou a "Última Boneca", foi uma aparição tão bela, que todas as outras alunas soltaram

gritos de alegria e recuaram, contendo a respiração, para melhor admirarem aquela maravilha.

- É quase do tamanho da Lottie - murmurou uma. Lottie batia as palmas, saltava e ria.

-Tem um vestido de baile e um abafo(agasalho) de noite forrado de arminho - observou Lavinia.

- Aqui está a mala da roupa - declarou Sara.

- Vamos abri-la para ver o enxoval.

Sentou-se no chão e deu volta à chave. As outras pequenas comprimiam-se à sua roda, soltando exclamações, enquanto ela examinava, um a um, os vários compartimentos da mala, e retirava o seu conteúdo. Nunca houvera, no colégio, uma excitação assim. Sara ia mostrando: golas de renda e meias de seda; um cofre com um colar e um diadema que pareciam feitos de brilhantes verdadeiros; um casaco de lontra e um regalo igual; vestidos de baile, de passeio, de visitas; chapéus, roupões e leques.

Lavínia e Jessie esqueceram-se de que já eram muito crescidas para se interessarem por bonecas e

soltavam, como as outras, gritos de entusiasmo, pegando nos objetos para melhor os examinarem.

- Imaginemos - disse Sara, enquanto punha

um grande chapéu de veludo , sorridente e impassível proprietária de todas aquelas riquezas , imaginemos que ela compreende o que nós dizemos e que está toda contente por se sentir admirada.

- Tu estás sempre disposta a imaginar qualquer coisa - exclamou Lavínia, com ar superior.

- Bem sei - replicou Sara, serenamente. - Mas

isso distrai-me. Não há nada mais agradável do que fazer suposições. Tem-se, quase, a impressão de se ser uma fada. Quando se acredita em qualquer coisa com todas as nossas forças, é como se fosse verdade.

-É muito bom sonhar assim, quando se tem tudo o que tu tens - disse ainda Lavinia. - Mas poderias, por acaso, fazer o mesmo, se fosses uma pobre mendiga e vivesses num sótão? Sara deixou de arranjar as plumas do chapéu e tomou uma atitude pensativa.

- Creio que podia - respondeu ela, por fim.

- É, sobretudo, quando se é pobre, que se tem

necessidade de inventar e imaginar constantemente qualquer

Mas, na realidade, talvez seja menos fácil Mais tarde, Sara devia pensar muitas vezes que

- coisa estranha! - foi justamente no momento em que ela

acabava de pronunciar aquela frase, que Miss Amélia entrou na

sala.

coisa

- Sara!- disse a irmã da diretora. - O procurador de seu

pai, Sr. Barrow, pede para falar com Miss Minchin, e como

deseja que a conversa seja particular e o lanche está preparado na nossa sala, era preferível as meninas irem lanchar já, a fim de que a minha irmã possa receber aqui a visita. Um lanche é uma coisa que nunca se recusa, e muitos olhos brilharam mais intensamente ao ouvir estas palavras. Miss Amélia mandou que se colocassem em forma e tomou a dianteira do cortejo, levando Sara pela mão. A soberba boneca ficou sozinha, em cima da poltrona, com os seus esplendores dispersos em volta: vestidos, casacos e roupa espalhados sobre os móveis. Becky, que não era admitida ao lanche, cometeu a grande indiscrição de se demorar ainda meio minuto, para lançar um derradeiro olhar a todas aquelas maravilhas. Miss Amélia ordenara-lhe que voltasse ao seu trabalho, mas ela ficou para levantar do chão, primeiro, um regalo, depois um casaquinho, e enquanto contemplava aqueles objetos com verdadeiro respeito, ouviu a voz de miss Minchin, no vestíbulo. Cheia de terror, com a idéia de ser apanhada em flagrante delito de desobediência, precipitou-se para debaixo da mesa, que estava coberta por um grande pano, que chegava quase ao chão. Miss Minchin entrou, seguida por um senhor baixinho, seco, e nariz pontiagudo, que se mostrava um tanto perturbado. A própria Miss Minchin parecia ansiosa e olhava para o senhor baixinho com ar intrigado. Sentou-se, digna e hirta, indicando-lhe, com a mão, uma cadeira. - Sente-se, Sr. Barrow - disse ela.

O Sr. Barrow não obedeceu imediatamente a

esta intimação. A sua atenção estava presa à uma Boneca e às magnificências espalhadas à sua volta. Pôs a luneta e contemplou tudo com evidente reprovação. A boneca, muito direita na sua cadeira, parecia fitá-lo com

desdenhosa indiferença.

- Quando se pensa no que tudo isto deve ter

custado - observou brevemente o Sr. Barrow. Tecidos esplêndidos, um enxoval encomendado a uma modista de Paris! Este homem esbanja o dinheiro Miss Minchin sentiu-se ofendida com aquela crítica severa, feita ao seu melhor cliente. Na verdade,

ninguém, nem mesmo o procurador do capitão tinha o direito de se permitir semelhante atrevimento.

- Desculpe-me - disse ela, secamente -, mas

não compreendo o que quer dizer.

- Semelhantes presentes - prosseguiu Barrow no mesmo tom

- para uma criança de onze anos

é pura extravagância!

A atitude de Miss Minchin tornou-se ainda mais

rígida.

- O capitão Crewe é imensamente rico - tornou ela. - Só as minas de diamantes Barrow voltou-se bruscamente para ela e exclamou:

- As minas de diamantes não existem! Nunca existiram!

- Como? Que significam essas palavras.

- Pelo menos - respondeu ele, secamente - era melhor que nunca as tivesse tido!

- Não tem minas de diamantes - proferiu Miss Minchin,

encostando- se ao espaldar da cadeira, com a sensação de que um sonho maravilhoso acabava de se desfazer -Ah! As minas de diamantes são, na maioria dos casos,

uma origen de ruína e não de riqueza

- declarou Barrow. - Quando um homem não sabe nada de

negócios devia defender-se, como do fogo, das minas de diamantes, de ouro, ou de qualquer outra coisa, a que os amigos, que se dizem íntimos pretendem associá-lo. O defunto

capitão Crewe Miss Minchin soltou um grito.

- O defunto capitão Crewe - articulou, com dificuldade.

- O defunto! O senhor não veio anunciar-me que o capitão

- respondeu

Barrow, com a voz brusca ,e eu estou aqui para lhe participar. Foi vitimado pelas febres e pelos tormentos que

passava por causa dos negócios. As febres não o teriam, talvez, aniquilado, se não estivesse tão esgotado de

energias, e os cuidados não o teriam, talvez, morto, sem as

Mas, enfim, morreu e eu fui encarregado de lhe

participar a sua morte.

febres

O

capitão Crewe morreu, minha senhora

Miss Minchin recaiu sobre a cadeira, esmagada por um surdo pavor.

- Donde lhe vinham os cuidados - perguntou ela.

- Da famosa mina de diamantes - replicou Barrow -, do

"excelente" amigo que o arrastou para esse negócio e para a ruína que se lhe seguiu. Miss Minchin estava lívida.

-

A ruína! - pronunciou ela, com esforço. - Perdeu tudo. O capitão Crewe era muito rico.

O

tal amigo, que tinha comprometido na mina toda

a sua fortuna pessoal, persuadiu-o a fazer o mesmo. Depois, naturalmente, este "excelente amigo", um

dia, desapareceu. O capitão Crewe já estava doente quando recebeu a notícia desse desaparecimento.

O golpe foi demasiado forte para ele. Morreu em

pleno delírio, chamando pela filha, a quem não deixa um centavo. Miss Minchin compreendia, finalmente. nunca experimentara tão terrível decepção. A sua mais brilhante aluna, o seu cliente mais rico - tudo perdido! Parecia-lhe ser vítima de um roubo, como se

a explorassem, e que o capitão, Sara e Barrow eram

todos igualmente culpados.

- Quer, então, convencer-me - exclamou ela

- de que Sara não herdará nada e que, em vez de uma herdeira rica, eu tenho, agora, no meu colégio, uma menina pobre?

Barrow, cheio de sagacidade, compreendeu que era prudente salvar, ali mesmo, a sua responsabilidade.

- assim mesmo - afirmou ele. - Sara fica

sem recursos. Já nos informamos: não lhe conhecemos um parente nem um único amigo íntimo. É a

senhora, quem terá de ocupar-se dela. Miss Minchin correu para a porta. Dir-se-ia que

o seu primeiro movimento foi ir suspender a festa cujos ecos alegres e bastante ruidosos chegavam até ali.

- É monstruoso! - exclamou. - Neste mesmo

instante, está ela na minha sala, vestida de sedas e

rendas, dando uma recepção à minha custa!

- À sua custa, sem dúvida, minha senhora

repetiu

tranquilamente Barrow. - O Banco Baron e Skipworth não tem nada mais que ver com este assunto. Nunca houve ruína mais rápida e completa. O capitão Crewe morreu sem liquidar a nossa última conta, que era das mais importantes. Miss Minchin voltou para trás. A sua indignação era cada vez maior. A situação tornava-se ainda pior do que ela imaginava.

- E dizer - gritou - que eu tinha tanta confiança nele,

a ponto de fazer toda a espécie de despesas, verdadeiramente loucas, com esta garota! Fui eu quem pagou esta ridícula boneca e o seu extravagante enxoval. O capitão queria que todos os desejos da filha fossem satisfeitos. Tem uma

carruagem alugada ao mês, uma criada de quarto, e fui eu quem pagou tudo isso, depois que recebi o último cheque. Barrow não tinha nenhum motivo que o levasse a prolongar a sua visita para ouvir as recriminações de Miss Minchin. Fizera a comunicação de que estava encarregado, salvaguardara

a responsabilidade da sua casa e, além disso, não sentia a

menor simpatia por aquela diretora de colégio transformada em

fúria.

-

Que hei de fazer agora? - continuava Miss Minchin, que

parecia esperar que Barrow a livrasse de dificuldades. - Que hei de fazer agora?

- Não há nada a fazer - disse ele, guardando a luneta na

algibeira. - O capitão Crewe morreu, a filha ficou sem família e sem fortuna. A senhora é a única pessoa que tem responsabilidade desta criança.

- Ela não me é nada, e eu recuso-me, absolutamente, a assumir essa responsabilidade. Miss Minchin estava lívida de furor. Barrow dirigiu-se para a porta.

- Não posso remediar coisa alguma - disse ele, ainda,

com indiferença. - E repetiu - A nossa casa fica absolutamente alheia a este triste caso, que nós lamentamos mais do que é possível dizer.

- Se o senhor imagina que vai lançar-me, assim sem mais

nem menos, esta criança nos braços, engana-se - declarou miss Minchin, com a voz abafada pela raiva. - Fui roubada, explorada! pô-la-ei na rua!

Se ela não tivesse perdido completamente o domínio sobre si própria, a sua hipocrisia habitual tê-la-ia impedido de pronunciar semelhante frase. Mas vendo-se com o encargo de tomar conta de uma pequena amimada, por quem sentira, sempre, certa antipatia, não se pudera conter. Barrow, sem se perturbar, continuava a aproximar-se da porta.

- No seu lugar, eu não faria nada disso, minha

senhora - disse ele, com grande fleuma. - Isso não causará bom efeito. Não faltarão logo as más línguas a censurar o seu colégio. Toda a gente dirá que

a senhora abandonou uma das suas alunas por ela ter ficado sem família e sem dinheiro.

Ele bem sabia o que dizia

que miss Minchin era muito interesseira e bastante esperta para compreender que o bom senso lhe não permitia cometer uma ação que lançaria publicamente

sobre ela, uma acusação de desumanidade.

E também sabia

- Fará muito melhor se a conservar consigo e

lhe arranjar uma ocupação - acrescentou. - Parece

que ela é muito inteligente. Poderá, quando crescer, prestar-lhe serviços preciosos.

- Não é preciso crescer. Poderá prestar-mos

imediatamente - exclamou miss Minchin.

- Estou certo de que a senhora saberá tirar da

situação todo o partido possível - disse Barrow, com

um sorriso irônico. - Não tenho dúvida alguma

sobre isso! Até à vista, minha senhora! Cumprimentou e saiu. Miss Minchin ficou, durante alguns segundos, a olhar furiosamente para

a

O

que ele dissera era a pura verdade, ela bem o sabia.

Não lhe restava outro recurso. A aluna que fora a glória do colégio, passara a não ser mais do que uma indigente. E todo o dinheiro que Miss Minchin adiantara estava perdido para sempre. Enquanto ela estava ali, acabrunhada com a idéia da injustiça que a viera ferir, um ruído de vozes chegava até aos seus ouvidos. A isso, pelo menos, podia ela pôr termo imediatamente. Mas naquele mesmo instante, a porta abriu-se e apareceu Miss Amélia, que recuou, ao ver a fisionomia alterada da irmã.

- Que aconteceu - perguntou ela.

Com uma voz cheia de furor concentrado, Miss Minchin respondeu com outra pergunta:

- Onde está Sara Crewe?

- Sara - balbuciou Miss Amélia, desconcertada. - Mas

naturalmente

está na tua sala, com as outras alunas.

- Tem ela, por acaso, um vestido preto no seu suntuoso

guarda-roupa - perguntou Miss Minchin, com ironia.

- Um vestido preto - balbuciou, de novo, miss Amélia. -

Um vestido preto?

-Ela tem vestidos de todas as cores. Pergunto-te se não tem um preto. Miss Amélia começou a fazer-se pálida e disse:

quero dizer, sim mas está muito curto. É um

vestido velho, de veludo, e ela cresceu tanto, que já o não pode vestir. -Vai dizer-lhe que tire esse absurdo vestido de seda cor-de-rosa, e que vista o preto, esteja ele como estiver. O veludo e os enfeites acabaram para ela. Era de mais. Miss Amélia levantou as mãos ao céu e Começou a choramingar:

- Não

- Oh minha irmã! Oh minha irmã! Mas que sucedeu

Miss Minchin não esteve com rodeios. Disse secamente:

-O capitão Crewe morreu, sem deixar um centavo. E nós temos de ficar com esta pequena

caprichosa e adulada a nosso cargo. Miss Amélia deixou-se cair pesadamente sobre a cadeira mais próxima.

-Gastamos, para lhe satisfazer todas as fantasias, somas enormes, de que nunca mais seremos reembolsadas. Manda parar, imediatamente, esta ridícula festa, e diz a Sara que mude de vestido, sem demora.

- Eu - exclamou Miss Amélia, sufocada. É

indispensável

que eu

- Neste mesmo instante! Ou queres ficar aqui a olhar para mim, como uma parva? Vai A pobre Miss Amélia estava habituada a ser tratada assim. Reconhecia que a sua inteligência era das mais medíocres, e que as pessoas da sua espécie são, em geral, encarregadas de todas as missões desagradáveis, tal como entrar numa sala repleta de raparigas que se divertem, a dizer à rainha da festa que, de repente, passou a ser uma pobre pequena sem família e sem dinheiro, e que deve, sem tardar, ir vestir um vestido preto, usado e curto.

Mas era forçoso executar a ordem que recebera, visto o momento não ser, evidentemente, propício a objeções. Enxugou os olhos, esfregando-os a ponto de ficarem vermelhos, depois saiu da sala sem dizer mais uma palavra. Quando a irmã estava naquele estado de irritação, o mais prudente era obedecer sem

abrir a boca. Miss Minchin ia e vinha através do quarto falando sozinha sem mesmo dar por isso. Durante o ano que acabava de decorrer, fizera, a propósito daquelas minas de diamantes, os mais extraordinários

projetos. Não é proibido às diretoras de colégio fazerem fortuna, comprando ações, com a ajuda e conselho de um

E agora, em vez de lucros, ela tinha

de suportar uma importante perda, sem compensação possível.

- A princesa Sara - dizia ela. - Sim, não há dúvida, a

proprietário de minas

princesa! Como uma rainha é que ela foi adulada Passava, nesse momento, junto da mesa e, de repente,

estremeceu: dir-se-ia que debaixo da cobertura vinha um prolongado soluço.

- Quem está aí? - perguntou ela, numa voz irritada.

Ouvindo um segundo soluço, miss Minchin baixou-se e levantou a ponta do pano.

- Que audácia - gritou ela. - Como te atreveste tu? Sai

daqui imediatamente! A pobre Becky apareceu e pôs-se a andar de gatas, com a touca à banda e a cara vermelha, congestionada à força de deter os soluços. -Desculpe, minha senhora! Não é ninguém, sou eu

- explicou ela. - Bem sei que não devia ter ficado aqui, mas estava a olhar para a boneca e, quando a minha senhora entrou, eu tive tanto medo, que me escondi debaixo da mesa.

- E deixaste-te ficar lá, a escutar! - disse severamente Miss Minchin.

- Oh não, minha senhora - protestou Becky, multiplicando

as reverências. - Eu não queria escutar, minha senhora, mas não podia deixar de ouvir Parecia que, naquele momento, Becky chegara a esquecer a

presença de tão terrível patroa. E desatou a chorar.

- Oh minha senhora - soluçava ela -, eu bem sei que vou

tenho

ser despedida, mas tenho tanta pena da menina Sara

tanta pena!

- Sai daqui - ordenou miss Minchin. Becky, com o rosto

lavado em lágrimas, fez mais uma reverência.

-Sim, minha senhora, saio imediatamente - disse ela a

tremer -, mas

vai agora fazer a menina Sara, sem criada? Ela sempre foi

oh! minha

senhora

Trabalharei com todas as

minhas forças, se a minha senhora me deixar ajudá-la, agora que ela é pobre. Oh! (e as lágrimas eram cada vez mais abundantes) pobre menina Sara, a quem chamavam princesa! Miss Minchin sentiu-se novamente dominada pela cólera. Só lhe faltava que aquela reles ajudante de cozinheira se

pusesse ao lado da outra, daquela Sara que, no seu íntimo, ela sempre detestara - sentia-o agora mais do que nunca. Era de mais! E bateu com o pé no chão.

- Não! Mil vezes não - respondeu ela. Sara há-de servir-

se a si própria e às outras. Sai daqui, e cala-te, senão ponho-te na rua. Becky pôs o avental na cabeça e fugiu. Desceu a quatro e quatro as escadas de serviço, para a cozinha, e lá, sentada entre cadeiras e panelas, chorou como se lhe arrancassem o

coração.

- É como nas histórias - soluçava ela - a pobre princesa

foi abandonada, sozinha, na rua. Miss Minchin nunca fora tão fria e tão cruel, como quando Sara, que mandara chamar, entrou no seu escritório, algumas horas mais tarde.

depois de arrumar a cozinha

rica, está habituada a ter quem a sirva

eu queria só perguntar à minha senhora: que

Se

se me desse licença, eu fazia o serviço dela,

A pobre pequena tinha a impressão de que a festa do seu

aniversário não passara de um sonho, em que ela tomara parte, no lugar de outra criança, havia já muito tempo. Todos os traços da festa tinham desaparecido; os festões de azevinho haviam sido tirados; os bancos e as estantes

estavam de novo no seu lugar habitual. Todos os vestígios do belo lanche haviam sido cuidadosamente retirados da sala de Miss Minchin,

e a própria Miss Minchin vestira o seu vestido de todos

os dias. As alunas receberam ordem de fazer o mesmo, e estavam agora reunidas na sala de

estudo, formando grupos excitados e falando todas ao mesmo tempo.

- Diz a Sara que venha falar-me - ordenou Miss Minchin à

irmã. - E faz-lhe compreender que não quero lágrimas nem cenas desagradáveis. - Tu não fazes idéia!- respondeu Miss Amélia. - É a criança mais singular que eu tenho conhecido. Não soltou um grito! Lembras-te que sucedeu o mesmo, quando o pai se foi embora? Pois bem: quando, há pouco, eu Lhe disse o que tinha acontecido, ficou imóvel, a olhar para mim, sem dizer uma única palavra. Apenas os olhos pareciam maiores e a carinha se lhe tornou muito pálida. Quando acabei, ficou com o olhar fixo, durante alguns segundos, depois o queixo começou a tremer-lhe e fugiu para a escada. A maior parte das outras alunas principiou a chorar, mas ela parecia não as ouvir e mostrava-se indiferente a tudo, menos ao que eu dizia. Não posso explicar-te a impressão que este silêncio me fez! Quando se anunciam estas coisas, esperamos sempre que nos digam, ao menos, uma palavra, seja ela qual for. Mas ninguém, além de Sara, soube, nunca, o que se passou no seu quarto, depois que ela ali entrou e se fechou à chave,

por dentro. Na realidade, a própria Sara nunca conseguia recordar-se bem do que se passara. Lembrava-se apenas de ter

andado para trás e para diante, repetindo, sem parar, com uma voz que não parecia a sua:

- O meu papá morreu! O meu papá morreu!

Uma das vezes, parou diante da cadeira onde estava Emily

e gritou, desesperadamente:

- Ouves bem, Emily! Ouves? O meu papá morreu! Morreu lá longe, muito longe, na Índia! Quando Sara entrou no escritório de miss Minchin, estava desfigurada, com grandes olheiras rochas,

pisadas, e os lábios muito cerrados, como se não

quisesse deixar adivinhar a ninguém a sua dor.

Não

era, já, a linda borboleta cor-de-rosa, que ia de um presente para o outro, na sala de estudo, toda decorada com verdura. Era uma pequena aparição estranha

e dolorosa. Enfiara o vestido preto, velho, que já tinha posto de parte, sem o auxílio de Mariette. Esse

vestido era muito curto e muito estreito.

Sara pareciam, assim, mais altas e extremamente magras. Como não tinha fita preta, os cabelos espessos e

curtos caíam-lhe sobre o rosto, fazendo ressaltar ainda mais

a sua palidez.

As pernas de

Trazia debaixo do

braço a sua querida Emily a quem envolvera num

bocado de tule preto.

- Ponha a boneca em qualquer parte - disse

Miss Minchin. - Que necessidade tinha de a trazer para

aqui?

- Não - respondeu Sara. - Conservá-la-ei

comigo. É tudo o que me resta.

E foi o papá quem

ma deu. Miss Minchin experimentava sempre uma espécie de timidez quando falava com Sara; e, sem saber explicar porquê, sentiu-se pouco à vontade. Sara falara-lhe com uma dignidade glacial e Miss Minchin não encontrou palavras para lhe responder. Talvez a consciência a acusasse de estar procedendo com uma crueldade revoltante.

- Não terá tempo para brincar com bonecas!

observou ela. - Tem de trabalhar e aprender a tornar-se útil. Sara, com os seus grandes olhos fixos na diretora, não

respondeu uma só palavra.

- Tudo mudou - continuou Miss Minchin. Creio que Miss Amélia Lhe explicou

- Sim- respondeu Sara. - Sei que o meu pai

morreu, que não deixou dinheiro, e que sou muito pobre.

- Pior do que isso! A menina não tem nada, absolutamente

nada, nem parentes, nem casa, nem ninguém que se preocupe consigo! - disse Miss Minchin, que se encolerizava cada vez mais, à medida que ia falando. Um estremecimento percorreu a carinha magra e pálida de Sara, mas nem uma única palavra saiu dos seus lábios. -Então?! Porque está a menina a olhar para mim dessa maneira? - exclamou àsperamente Miss Minchin. É tão estúpida,

que não me compreende? Digo-lhe que está absolutamente só no mundo e que ninguém está disposto a fazer qualquer coisa por si a não ser que eu consinta em conservá-la aqui por caridade.

- Compreendi muito bem - respondeu Sara, baixinho. - Compreendi tudo.

Adivinhava-se que a pobre rapariga procurava, com toda a sua energia, sufocar os soluços.

- Esta boneca - gritou Miss Minchin, fitando o magnífico

brinquedo que estava junto dela -, Esta ridícula boneca, com o seu extravagante enxoval, fui eu que a paguei com o meu

dinheiro. Sara voltou a cabeça naquela direção. A "Última Boneca" "

- murmurou ela. - A "última Boneca" Sentia-se na sua vozita uma profunda e inexprimível tristeza.

- A "Última" bem o pode dizer - afirmou Miss Minchin. -

já não é sua, não lhe pertence, como, de resto, tudo quanto

era seu:

- Está muito bem. Pode guardá-la - respondeu Sara. - Não tenho nenhum empenho nela. Se a pequenina chorasse e soluçasse, se ela se tivesse mostrado aterrorizada, Miss Minchin ter-se-ia

mostrado, talvez, mais conciliadora. Mas, gostando acima de tudo, de dominar, sentia-se desafiada por aquele rostozinho pálido e por aquela voz fina, mas altiva.

- Não tome os seus grandes ares - replicou ela. - Os

tempos mudaram. O papel de princesa acabou. Não se trata mais de carruagem, nem de criada particular. Vou suprimir tudo isso. A menina usará os vestidos velhos, porque os outros são luxuosos de mais para a atual situação. Presentemente, não é mais do que Becky. Precisa de trabalhar para ganhar a vida.

Com grande surpresa sua, Miss Minchin viu brilhar um

rápido clarão nos olhos da pequenina, um clarão de alívio.

- Poderei trabalhar? - perguntou ela. - Nesse caso, se

posso trabalhar, será menos doloroso. Que devo eu fazer? - Tudo o que lhe mandem - respondeu a diretora. - A menina é inteligente e compreende ràpidamente o que lhe

explicam. Se conseguir tornar-se útil, consentirei que fique no colégio. Como fala bem francês, pode dar lição às alunas mais novas.

- Que bom! - exclamou Sara. - Não desejo outra coisa!

Deixe-me ensinar as pequeninas! Gosto tanto delas e elas

gostam tanto de mim

- Não diga disparates! Pouco importa que elas gostem de

si ou não - interrompeu Miss Minchin. E continuou - Terá,

além disso, outras ocupações. fará as compras, trabalhará tanto na cozinha como na classe infantil. E se eu não estiver satisfeita, mandá-la-ei embora. Não se esqueça! Agora pode retirar-se. Sara não se mexeu. No seu cérebro agitavam-se graves e singulares pensamentos. Por fim, dirigiu-se para a porta.

- Então? - exclamou Miss Minchin. - É assim que me

agradece? Sara parou. Os pensamentos afluíam-lhe, cada vez mais

tumultuosos.

- Que tenho

eu que agradecer-lhe? - perguntou ela,

lentamente. - A bondade com que a trato - respondeu miss Minchin. - O lar que lhe ofereço! Sara deu uns passos para a diretora. O seu peito magrinho ergueu-se, e a sua voz deixou de ser a voz de uma criança, quando disse, com profunda amargura:

-A senhora não é bondosa! Nem a sua casa é um lar!

E saiu da sala, enquanto Miss Minchin, muda de raiva, a seguia com o olhar. Sara subiu as escadas lentamente; estava ofegante, e apertava Emily de encontro ao coração, com quanta força tinha. "Quem me dera que Emily pudesse falar! - dizia ela

consigo própria. - Oh! se ela falasse!" Pensava em refugiar-se no seu quarto e deitar-se sobre a pele do tigre, encostar a carinha à grande cabeça da fera e contemplar o lume, entregando-se aos seus pensamentos dolorosos. Mas, no momento em que chegava ao patamar, Miss

Amélia saiu do quarto, puxou a porta e parou, com ar embaraçado. No fundo estava envergonhada com as ordens que a irmã tinha dado.

- Não pode entrar mais aqui - disse ela.

- Não posso entrar? - repetiu Sara, recuando, ligeiramente. - Já não é o seu quarto - explicou Miss Amélia,

tornando-se corada. Sùbitamente, fez-se luz no espírito de

inicio da mudança anunciada por Miss Minchin.

- Onde é o meu quarto - perguntou ela, pedindo a Deus, interiormente, que a sua voz não tremesse.

Sara:

era

o

- Dormirá nas águas-furtadas, ao lado de Becky.

Sara compreendeu. Becky tinha-Lhe explicado onde dormia. Voltou-se e subiu mais dois andares. O último era estreito, íngreme, e estava coberto por um tapete ordinário, todo esburacado. Sara teve a impressão de deixar, para sempre, o mundo onde vivera aquela outra pequena adulada e amimada que ela fora, e na qual se não reconhecia. A criança vestida de veludo preto, já coçado, que subia a escada do sótão, não

tinha nada de comum com a outra, bafejada pela sorte.

e dolorosa

sensação de pavor. Depois entrou, fechou a porta, encostou-se

à parede e olhou em volta de si. Sim, na verdade era outro mundo! O sótão, caiado de branco, tinha o teto em desvão. As

Quando abriu

a

porta,

teve

uma rápida

paredes, sujas e úmidas, estavam esburacadas. Havia uma grade ferrugenta no fogão, um velho leito de ferro, com um colchão duro e um cobertor desbotado. Como mobiliário, todos os móveis partidos ou fora de uso que havia em casa. Sob a trapeira, que deixava apenas ver um pequeno retângulo de céu cinzento e triste, via-se um banco estofado, muito velho. Sara sentou-se ali. Não chorava. Pôs Emily nos joelhos, encostou a cara à da boneca, passou-lhe os braços em volta do

corpo e ficou assim, com a cabeça confundida com o véu negro da sua insensível companheira sem dizer uma palavra nem fazer um movimento.

E eis que, no meio daquele silêncio mortal, alguém bateu

à porta, umas pancadas tão humildes e tímidas, que Sara não as ouviu. A sua atenção só despertou quando, espreitando pela porta que entreabrira, apareceu uma cara, toda suja de lágrimas e pó de carvão. Era Becky, que, à força de chorar e de limpar o rosto com o avental de linhagem, se tornara irreconhecível.

- Oh! Miss - murmurou ela. - Dá licença quer que eu entre e fique um bocadinho ao pé de Sara ergueu a cabeça e olhou para Becky. Queria sorrir- lhe, mas não podia. E de repente, graças à carinhosa piedade de que os olhos de Becky estavam cheios, o seu coração desoprimiu-se, a sua carinha de criança prematuramente envelhecida desanuviou-se. Sara levou as mãos aos olhos e deixou escapar um soluço. - Oh Becky - disse ela. - Eu disse-te um dia que nós éramos semelhantes, que éramos duas crianças, nada mais que duas crianças. Vês agora que é verdade? Não há nenhuma diferença. A princesa já não existe. Becky correu para ela, pegou-lhe na mão e, apertando-a de encontro ao peito, ajoelhou junto de Sara, a chorar de

ternura e compaixão.

- Sim, existe sempre uma diferença - exclamou ela, com

voz entrecortada de soluços. -Aconteça o que acontecer, seja

o que for, a menina será sempre uma princesa. Nada, ninguém neste mundo poderá fazê-la diferente.

NO Sótão Sara nunca mais poderia esquecer a primeira noite que passou no sótão. Viveu ali horas de dor e desespero grandes de mais para a sua idade, e das quais nunca falou a ninguém. Nenhuma das pessoas que, então, a cercavam, a compreendeu. Felizmente para ela, durante essa noite horrível, enquanto os

seus grandes olhos se conservavam muito abertos na escuridão,

o seu espírito distraía-se, de quando em quando, apesar de

tudo, impressionado pelo que havia de estranho naquele lugar, ao mesmo tempo que uma espécie de angústia física Lhe recordava o mundo exterior.

Sem isso, a sua alminha não teria suportado tão horrível sofrimento. Enquanto as horas passavam lentamente, ela esquecia que

tinha fome, que tinha frio, esquecia pelo menos a implacável

realidade:

- O meu papá morreu - repetiu ela, baixinho. - O meu

papá morreu! Só muito mais tarde é que ela deu conta de se ter voltado e tornado a voltar, em vão, no péssimo colchão, para

ver se encontrava um sitio um pouco menos duro; a escuridão parecia-Lhe medonha, o vento uivava no telhado, dando-lhe a impressão de uma voz que se lamentava alto. Mas havia ainda uma coisa pior: certos ruídos, corridas, gritinhos que sentia, no teto e no rodapé. Graças à explicação de Becky, sabia o que era: os ratos e ratazanas

que lutavam e se perseguiam. Uma ou duas vezes mesmo, ouviu patas pequenas, arranhadas de unhas, correrem no sobrado e, muito tempo depois, ao recordar esta noite pavorosa, lembrava-se de se ter sentado no leito, ao ouvir o primeiro ruído, e de, em seguida, esconder a cabeça debaixo do cobertor, a tremer de medo. De um momento para o outro, sem transição, a sua vida transformara-se completamente.

- De que servem meias palavras! - dissera Miss Minchin à

irmã. -É preciso que ela saiba imediatamente o que a espera. Mariette partira no dia seguinte. Quando Sara ao passar

em frente da sua antiga sala, lançou, pela porta, um rápido

olhar, viu que não estava ali nada do que lhe pertencera, e que um leito, colocado ao fundo, transformara a sala num quarto para outra aluna. Ao descer para o primeiro almoço, verificou que o seu lugar, ao lado de Miss Minchin, estava ocupado por Lavínia. Miss Minchin disse-lhe, friamente:

- Para começar, Sara, vigie o almoço das menores. Faça

com que elas se portem convenientemente e não estraguem a

comida. Devia ter chegado mais cedo. Olhe a Lottie já entornou a chávena

Depois, cada dia trazia a Sara

um pouco mais de trabalho. Ensinava francês às mais novinhas, fazia-lhes repetir as lições, e era esta a parte mais fácil da sua tarefa. Bem depressa

perceberam que podiam utilizá-la para tudo, obrigá-la a fazer recados a qualquer hora e por qualquer tempo, encarregá-la de todo o trabalho que as outras não faziam. A cozinheira e as criadas de quartos regularam a sua atitude pela de Miss Minchin, experimentando, no fundo, certa satisfação em se fazerem servir pela "pequena" diante da

Era apenas o principio

qual, durante tanto tempo, toda a gente se inclinara. Eram criaturas vulgares, que não possuíam bom caráter e achavam cômodo ter alguém a quem mandar, e sobre quem pudessem lançar a culpa de todas as faltas e negligências. Durante os dois primeiros meses, Sara esperou que a boa vontade e aplicação que mostrava, o silêncio com que ouvia todas as reprimendas, ainda as mais injustas, acabariam por tornar menos ásperos àqueles que tão duramente a tratavam. No íntimo da sua alminha altiva e nobre, queria provar-lhes que procurava ganhar a vida e que não aceitava esmolas. Mas o tempo passava e ninguém se humanizava; quanto mais ela trabalhava, mais as criadas de quarto se tornavam autoritárias e exigentes, e mais a cozinheira, sempre rabugenta, lhe ralhava. Se ela não fosse tão novinha, Miss Minchin confiar-Lhe- ia uma das aulas, o que lhe teria permitido suprimir um dos professores e realizar, assim, uma apreciável economia. Mas, enquanto Sara fosse e parecesse uma criança, era preferível empregá-la como uma espécie de rapariga de recados ou criada para todo o serviço. Um "groom" vulgar não seria tão inteligente nem tão merecedor de confiança. Ao passo que Sara podia encarregar-se de recados difíceis e, mesmo, delicados. Era ela quem ia pagar as contas e, ao mesmo tempo, varria e limpava o pó na perfeição, e sabia arrumar tudo cuidadosamente. Ninguém se preocupou mais com os seus estudos. Ninguém Lhe ensinou mais nada. Apenas, ao serão, depois de longos e fatigantes dias cheios de trabalho, de idas e vindas, a autorizavam - quase com pena! - a entrar numa das aulas desertas, escolher alguns livros e estudar sozinha, conforme podia, antes de se deitar. "Se não recordo tudo o que aprendi - pensava ela -,

acabarei por não saber nada. Sou quase uma criada e, se me torno uma criada ignorante, serei como a pobre Becky. Quem sabe se eu não acabarei por esquecer tudo, falar incorretamente e não me lembrar, sequer, do nome das seis mulheres de Henrique VIII!" Um dos aspectos mais curiosos da sua nova existência era a mudança de situação, em relação às suas antigas condiscipulas. Fora quase uma soberana e, agora, era como se não existisse Absorvida pelo trabalho, Sara mal tinha ocasião de lhes falar, mas compreendera que miss Minchin preferia que ela vivesse inteiramente à parte das pensionistas. - É inútil que se misture com as alunas - dissera miss Minchin. - As raparigas deixam-se sempre impressionar pelas situações patéticas, e se Sara começa a imaginar um romance, de que seria heroína, podiam tomá-la como vítima e isso causaria má impressão entre a nossa clientela. É melhor que viva, à parte, uma vida mais em conformidade com a sua situação atual. Ofereci-lhe um abrigo, e já fiz muito, porque não tenho obrigação alguma para com ela. Sara era bastante orgulhosa para tentar manter relações com as companheiras que, muito abertamente, se mostravam embaraçadas, quando lhe falavam. A maior parte das alunas de Miss Minchin não sabia o que era generosidade. Estavam habituadas à riqueza, à vida despreocupada, ao conforto. E como os vestidos de Sara se iam estragando e ficavam fora de moda; como os seus sapatos iam ficando rotos e ela ia fazer recados, a correr, à mercearia e onde calhava, com uma cesta no braço, quando a cozinheira tinha pressa, parecia àquelas meninas que, ao falar à sua antiga condiscípula, se dirigiam a uma criada de primeira categoria.

- Quando me lembro de que ela era a princesa da mina de

diamantes - dizia Lavínia. - Agora tem o ar de um espantalho de pardais! Cada vez está mais esquisita! Nunca gostei dela, mas acho inadmissível a maneira como olha para nós, como se quisesse adivinhar os nossos pensamentos.

- É assim mesmo - observou Sara, sem hesitar, quando lhe

foram contar isto. - A minha intenção, quando olho para certas pessoas, é justamente adivinhar o que elas pensam e

refletir, em seguida, sobre aquilo que descobri Para dizer a verdade, vigiando Lavínia, evitara, mais de uma vez, ter grandes aborrecimentos, porque aquela procurava, por todas as formas, fazer partidas a toda a gente e ficaria radiante se pudesse fazer passar um mau bocado à ex-glória do colégio. Sara, pelo contrário, não fazia partidas a ninguém nem se metia na vida dos outros. Trabalhava como uma escrava, indo aonde a mandavam, mesmo debaixo de chuva, carregada de embrulhos e cestos; lutava contra a preguiça e a distração das pequeninas, durante a lição de francês. O aspecto do seu vestuário era cada vez mais miserável, a ponto de, um dia, Miss Minchin lhe dizer que, dali em diante, comeria na cozinha. Ninguém se preocupava com ela; o seu coração sofria mais, mas a sua altivez não cedia e ninguém lhe ouvia, nunca, uma lamentação, por mais pequena que fosse. "Os soldados não se lamentam - dizia ela, de si para si, com os dentes muito cerrados. - Eu também nunca me lamentarei. Imaginarei que estou na guerra.”

seu heroísmo, esta criança teria

sucumbido sob o peso do abandono atroz em que vivia, se não tivesse três amigas a ampará-la moralmente. A primeira - diga-se desde já - era Becky. Durante a

Apesar

de

todo

o

primeira noite passada no sótão, Sara sentira um grande conforto ao pensar que, do outro lado da parede, estava uma criança, pequena e desprezada como ela, a quem os ratos também assustavam. Este sentimento aumentou ainda mais nas noites seguintes. Becky e ela não tinham ocasião de falar uma com a outra durante o dia. Cada uma tinha o seu trabalho e seriam acusadas de empregar mal o tempo se fossem surpreendidas em flagrante delito de conversa - Não faça caso - dissera- Lhe Becky, na primeira manhã. -Não faça caso, se eu não for bastante delicada para com a menina. É que, se o fosse, ralhariam comigo. “Mas a menina

bem sabe que eu estou sempre pronta a dizer-lhe “muito obrigada”, “se faz favor” e desculpe-me”. O que não posso é perder tempo

De

manhã cedo,

Becky

entrava no quarto

de

Sara;

abotoava-lhe o vestido e ajudava-a em tudo o que podia, antes de ir acender o lume. E à noite, Sara ouvia sempre, na sua porta, as pancadinhas tímidas com que a sua "criada de quarto" anunciava que estava pronta a prestar-lhe todos os serviços possíveis. Durante as primeiras semanas do seu grande desgosto, Sara sentia-se demasiadamente abatida para poder conversar, e as duas pequenas viram-se poucas vezes. O coração delicado de Becky compreendia que, quando se é infeliz, é agradável estar só.

O número dois do trio era Hermengarda. Mas passou algum tempo antes que ela cumprisse a sua missão. Quando Sara retomou, a pouco e pouco, o gosto pela vida, percebeu que se esquecera completamente de Hermengarda. Haviam sido boas amigas, nas Sara tivera sempre a impressão de ser muito mais velha do que a sua companheira.

Hermengarda era, sem dúvida, uma boa pequena, mas de inteligência acanhada. Dedicara-se a Sara como uma pobre criatura que tem necessidade de ser amparada; pedia-lhe que lhe explicasse as lições e bebia as suas palavras, não se cansando de a ouvir contar histórias. Mas, ela, coitadinha, era incapaz de contar fosse o que fosse; ignorava tudo, tinha horror aos livros. Era uma daquelas pessoas insignificantes, que se esquecem nas horas de grande sofrimento e Sara tinha- se esquecido dela mais fàcilmente ainda pelo fato de Hermengarda, no momento da catástrofe, se encontrar em casa, onde permaneceu durante algumas semanas. Foi apenas pouco depois do seu regresso ao colégio que Hermengarda encontrou Sara, quando esta se dirigia à rouparia com os braços carregados de roupa pois já a tinham ensinado a coser e a remendar. Sara estava pálida - não parecia a mesma e trazia um vestido velho que mal lhe cobria as pernas muito magras. Hermengarda não foi capaz de lhe dizer uma só palavra. Não ignorava nada do que sucedera, mas nunca imaginava ver Sara assim tão pobre, tão diferente, transformada quase em criada. Ficou impressionadíssima , apesar disso não soube fazer mais nada senão dar uma gargalhada nervosa e dizer, maquinalmente:

- Oh Sara, és tu? - Certamente, sou eu - respondeu Sara. De súbito, atravessou-lhe o cérebro um pensamento que a fez corar. Trazia uma grande rima de roupa nos braços e apoiava o queixo sobre ela, para segurá-la melhor. Nos seus grandes olhos, tão tristes, passou uma sombra, que fez perder a cabeça à pobre Hermengarda. Pareceu-lhe que Sara era uma outra criança, que ela nunca tinha conhecido. Estava comovidíssima com uma tão

grande desgraça e pelo fato de Sara ser obrigada a trabalhar, tal como Becky.

- Oh - balbuciou ela. - Como estás tu?

- Vou vivendo - respondeu Sara. - E tu?

- respondeu Hermengarda, muito

embaraçada. E, nervosamente, procurou uma frase um pouco

afetuosa. - Tu

ofegante. Naquele instante Sara foi injusta. Seu coração ferido revoltou-se, e ela pensou que era preferível deixarem-na em paz a dizerem-lhe semelhantes disparates. -Julgas então que eu não posso ser muito feliz - replicou ela. E, sem acrescentar uma palavra, afastou-se de Hermengarda. Mais tarde, Sara devia pensar que a sua desgraça lhe fizera perder a memória, pois só assim ela se esquecera de

que a gorducha Hermengarda não era responsável pelas tolices que dizia. A pobre pequena sempre fora desastrada e, quando o não queria ser, ainda era pior Sara, entretanto, com o coração a sangrar, pensava:

Não tinha

nenhum desejo de me falar. Ela sabe que ninguém me fala. "

- Mas

eu estou boa

tu és muito infeliz ? - perguntou ela,

" Hermengarda não é melhor do que as outras

Assim se ergueu

entre elas uma barreira invisível.

Quando, por acaso, se encontravam, Sara voltava a cabeça e Hermengarda sentia-se tão comprometida, que não era capaz de

falar. Às vezes trocavam um rápido sinal de cabeça e nada mais. Mas, quase sempre, faziam de conta que não se conheciam. "Se ela prefere não me falar - pensava Sara ,eu por mim, nada lhe direi; é isto mesmo que Miss Minchin deseja."

Efetivamente, esta atitude correspondia em absoluto ao que Miss Minchin desejava, e as duas crianças acabaram por não se ver mais. Durante esse período, todos verificaram que Hermengarda estava mais parvinha do que nunca, e tinha um ar triste e desgraçado.

Passava horas no vão de uma janela,

vagamente para a rua, sem proferir palavra.

Jessie, um dia, parou junto dela, a olhar, surpreendida.

a olhar

- Porque choras tu, Hermengarda? - perguntou ela.

- Eu não estou a chorar - respondeu a outra em voz sumida. -Não estás a chorar? Então de quem é essa grande lágrima que te vem a rebolar pelo nariz? não querem lá ver - exclamou Jessie.

- Pois bem, é verdade - confessou Hermengarda - tenho um

desgosto

com isso. E, voltando as costas a Jessie, tirou o lenço da algibeira, sem disfarce, e cobriu a cara com ele. Na noite desse mesmo dia, Sara foi para o quarto mais tarde do que era costume. Tivera muito que fazer, ainda depois da hora das alunas se deitarem, e em seguida estivera a estudar na aula deserta. Ao chegar ao patamar; ficou surpreendida por ver a luz brilhar por debaixo da porta.

"Ninguém aqui vem a não ser eu” - pensava ela. - Quem teria acendido a luz? “Efetivamente, alguém entrara no quarto, com uma vela acesa. Com uma camisa de noite vestida, e embrulhada no xale vermelho, esse alguém estava sentado no

mas ninguém tem nada

velho banco desbotado: Sara reconheceu Hermengarda. - Hermengarda - exclamou ela, quase assustada. - Vais ser castigada! Hermengarda levantou-se, cambaleando, por que tinha calçado pantufas muito largas. Os seus olhos e as suas faces estavam vermelhos e inchados.

- Bem sei, mas não me importo - respondeu

ela. - Oh Sara! Peço-te que digas que mal te fiz

eu? Porque não és já minha amiga? As suas palavras eram tão afetuosas, tão simples, faziam lembrar tanto a Hermengarda de outro tempo, quando ela lhe propusera serem "amigas íntimas", que Sara sentiu a garganta apertar-se-lhe um pouco. Com aquelas palavras, Hermengarda desfazia toda a aparência de crueldade da sua atitude.

- Gosto muito de ti - disse Sara. - Mas eu

julgava

tu compreendes, tudo mudou tanto para

mim

que eu julgava que tu também já não eras

a mesma.

Hermengarda abriu muito os olhos ainda cheios de lágrimas.

- Mas

ela. -Não me querias falar. Eu não sabia o que havia de fazer. Tu é que estavas diferente, quando eu voltei.

Sara refletiu um momento e compreendeu o seu erro.

- Eu mudei, é certo - explicou ela - mas não

no sentido em que tu julgas. Miss Minchin não quer que eu fale com as alunas, e a maior parte delas não tem vontade nenhuma de me falar. Pensei que

tu é que não és a mesma - exclamou

tu eras como elas e, por isso, procurei evitar-te. - Oh Sara - gemeu Hermengarda, num tom de censura. Depois, olharam-se e lançaram-se nos braços uma da outra. A cabeça de cabelos pretos demorou-se

um pouco sobre o ombro coberto pelo xale vermelho. A verdade é que, ao julgar que também Hermengarda a abandonava, Sara sentira-se mais só do que nunca. Em seguida, sentaram-se no chão, ao lado uma da outra:

Sara com os braços em volta dos joelhos, Hermengarda embrulhada no seu xale. Hermengarda fitava a carinha original e os grandes olhos da amiga, com uma espécie de adoração.

- Eu não podia mais - disse ela. - Tenho a certeza,

Sara, de que tu podes muito bem passar sem mim; mas eu é que não posso passar sem ti. Sentia que ia morrer. Hoje, quando estava a chorar, com a a cabeça debaixo da roupa, lembrei-me,

de repente, de subir até ao teu quarto, para te pedir que tornemos a ser boas amigas.

- Vales mais do que eu - disse Sara. - Eu teria sido

demasiado orgulhosa para fazer isso. Vê, Hermengarda, chegou para mim o tempo da provação, e tem-me mostrado que eu não

Talvez fosse

por isso - disse ela, curvando a cabeça - que a provação me foi enviada -Eu cá não vejo onde possa estar a utilidade das

sou boa nem generosa

Eu tinha a certeza

provações - afirmou Hermengarda com energia.

- Para falar francamente, eu também não - concordou

Sara. - Mas penso que tudo tem um lado bom, mesmo quando nós

o não vemos. A própria Miss Minchin

perdeu a convicção) tenha o seu lado bom!

(aqui a voz de Sara

Sim, a própria Miss Minchin talvez

Hermengarda inspecionava o quarto com o olhar. Estava cheia de curiosidade tímida.

- Sara! - perguntou ela. - Julgas que podes habituar-te

a viver aqui? Sara olhou também. - Se eu conseguir convencer-me de que isto é muito melhor do que parece, sou capaz - respondeu ela. - Ou, então, se eu imaginar que isto é um lugar histórico.

Falava lentamente. A sua imaginação despertava de um longo sono, porque depois da sua grande infelicidade, sentira-se incapaz de imaginar ou inventar fosse o que fosse.

- Muitas pessoas - continuou ela - viveram em lugares

piores do que este. Lembras-te do conde de Monte Cristo nas masmorras do castelo D’If? E os prisioneiros da Bastilha?

- A Bastilha - repetiu Hermengarda, como que fascinada.

Lembrava-se das histórias da Revolução Francesa que, contadas por Sara, com uma grande expressão dramática, se

tinham fixado na sua memória. Ninguém, além de Sara, conseguira, nunca, semelhante prodígio Pouco a pouco, brilhava nos olhos de Sara o antigo ardor.

- Sim - disse ela, como se falasse consigo própria. -

Este sótão é perfeito para imaginar um romance. Eu sou um dos

prisioneiros da Bastilha. Há anos que estou encarcerada aqui; toda a gente me esqueceu. Miss Minchin é o carcereiro, e

Becky

da cela vizinha.

(os olhos brilharam-lhe mais), Becky é o prisioneiro

Olhou para Hermengarda; a verdadeira Sara reaparecia.

- Aqui está o que eu vou imaginar - continuou ela - e

será uma grande consolação. Hermengarda sentiu-se, ao mesmo tempo, contente e um pouco assustada.

- licença que eu venha ter contigo, à noite, quando todos estiverem deitados? Dir-me-ás o que tiveres inventado durante o dia, e nós seremos ainda mais amigas íntimas do que dantes.

- Pois sim - aprovou Sara. - É na adversidade que se

pediu ela. Dás-me

Hás

de

contar-me tudo,

sim?

-

conhecem os amigos: a minha infelicidade provou-me quanto tu és boa!

RODILARD Lottie era o terceiro membro do trio consolador. Era ainda muito pequena para compreender o que é a desgraça, e a transformação da vida da sua "mamã adotiva" lançara-a na mais profunda perplexidade. Haviam-lhe dito que Sara tivera grandes infelicidades, mas ela não podia explicar a si própria por que razão Sara mudara tanto, e porque usava um vestido preto, velho, feio, e por que motivo tomava conta das mais novinhas, em vez de ocupar o melhor lugar na sala de estudos, como antigamente. As mais pequeninas tinham ficado espantadas e não se fartavam de dizer segredinhos, ao descobrir que Sara não ocupava já o quarto, onde, durante tanto tempo, reinara Emily. Mas o que atormentava principalmente Lottie eram as respostas breves de Sara, sempre que ela lhe perguntava qualquer coisa. Quando se tem sete anos, é preciso que os mistérios sejam claramente explicados, para que possam ser compreendidos.

- Então, tu agora és muito pobre, Sara - perguntava

Lottie, baixinho, a primeira vez que a sua grande amiga foi

dar lição à classe infantil. - És tão pobre como os mendigos da rua? E, ao dizer isto, metia a mãozinha gorda entre

os dedos esguios de Sara, e os olhos tornavam-se-lhe maiores, cheios de lágrimas.

- Eu não quero que tu sejas pobrezinha como

os mendigos Estava quase a chorar, e Sara apressou-se a consolá-la,

dizendo-lhe, corajosamente:

-Os mendigos não têm casa para se abrigar! e tu bem vês que eu tenho uma.

- Onde moras tu? - continuou Lottie. - Está

uma nova aluna no teu quarto, e o quarto, agora, já não é tão bonito

- Deram-me outro - respondeu Sara.

- Também é bonito? - insistiu Lottie. - Eu

queria vê-lo

- Cala-te - ordenou Sara -, Miss Minchin está

a olhar para nós e ela vai ralhar-me se tu continuas

a falar comigo.

Já tinha compreendido que a tornava responsável por todas as desobediências ao regulamento. Se as petizas estavam distraídas, faladoras ou irrequietas, Sara era sempre a culpada Mas Lottie era uma pessoazinha muito decidida. Sara não queria dizer onde era o seu quarto? Pois bem! Ela saberia descobri-lo sozinha. Falou nisto às amigas, andou em volta das "grandes" a ver se surpreendia as suas conversas;

e, depois de ouvir algumas frases que elas,

inconscientemente, tinham deixado escapar, Lottie decidiu-se,

um dia, a partir para uma viagem de exploração

de ter subido umas escadas, de cuja existência nunca suspeitara, chegou, finalmente ao sótão. Lá, encontrou duas portas, próximas uma

E, depois

da outra e, ao abrir uma ao acaso, descobriu a sua querida Sara, em pé, em cima de uma velha mesa! espreitar para fora, por uma trapeira.

a

- Sara - gritou ela, consternada. - Mamã Sara!

Não podia acreditar: o sótão era tão feio e parecia tão

longe de tudo, que Lottie tinha a impressão de haver subido centenas de degraus. Ao ouvir a sua voz, Sara voltou-se e ficou, por sua vez,

Se

consternada também. Que iria acontecer, Santo Deus

Lottie começava a chorar e alguém a ouvia, estavam perdidas, as duas. Sara saltou abaixo da mesa e precipitou-se para a

criança.

- Não chores, Lottie não faças barulho - suplicou ela -

se não ralham comigo, e eu já ouvi ralhar muito durante todo

o dia. Isto não é um quarto feio, Lottie.

- Achas? - disse Lottie, com dificuldade. E, olhando em

redor de si, a pequenina mordia os lábios. Era chorona e

cheia de mimo, mas gostava tanto de Sara que, por ternura por

ela, estava disposta a fazer o possível para não chorar

depois, refletindo melhor, pensou que podia muito bem ser que

todos os lugares fossem bonitos, desde que Sara lá vivesse.

E

- E porque é que não é feio ? - perguntou ela, em voz

baixa. Sara apertou-a muito ao peito e tentou rir. Sentia um grande conforto no contato daquele corpinho de criança doce e quente. O dia fora mau. Era com olhos vermelhos e ardentes

que ela espreitava pela janela.

-Daqui vê-se muita coisa que não se pode ver lá de baixo

- explicou ela.

- Que coisas - perguntou Lottie, com aquela curiosidade

que Sara sabia tão bem excitar, mesmo nas pessoas muito mais

velhas.

-As chaminés, com o fumo, tão bonito, que sobe para o céu fazendo caracóis e grinaldas; os pardalitos que saltitam, conversando uns com os outros, como se fossem pessoas; as janelas dos outros sótãos, onde aparecem, a todo o instante, cabeças de pessoas que não conhecemos, de forma que podemos divertir-nos a adivinhar de quem serão. Sentimo-nos tão alto, tão alto, que chegamos a convencer-nos de que habitamos um mundo diferente.

- Oh! Eu gostava tanto de ver- implorou Lottie. - Ajuda-

me a subir, se fazes favor! Sara pegou-lhe ao colo e as duas, empoleiradas na velha

mesa e encostadas à trapeira, olharam para fora. Quem nunca lançou um olhar sobre os telhados não faz a menor idéia do espetáculo que eles ofereciam às duas crianças. Em toda a volta, os telhados de ardósia desciam suavemente, alongando-se até às goteiras. Os pardais, sentindo-se em sua casa, saltavam

e pipilavam sem o menor receio. Dois vieram pousar

na chaminé vizinha e, ali, tiveram uma forte questão Até que um deu ao outro uma valente bicada, obrigando-o a levantar vôo. A janela do sótão mais próximo estava fechada, porque a casa não era habitada. -Eu gostava que houvesse alguém naquela

casa - disse Sara - porque, se vivesse outra criança naquele sótão, poderíamos, conversar de janela para janela e, mesmo, com alguma coragem, passar pelo telhado e visitarmo-nos uma à outra.

O céu parecia muito mais perto do que visto

da rua, a tal ponto que Lottie estava encantada.

Ali naquela fresta, rodeada de canos de chaminés,

tudo o que se passava lá em baixo parecia irreal. Esqueciam a existência de Miss Minchin, de Miss

Amélia,

das aulas,

dos livros

e

o

rodar

das

carruagens da praça parecia um ruído vindo do outro

mundo.

- Oh Sara ! - exclamou Lottie, aconchegando-se muito ao braço protetor da sua grande amiga.

- Eu gosto muito deste sótão, imenso! É bem mais

bonito do que lá em baixo! - Olha para aquele passarito - murmurou Sara. -Que pena não ter migalhinhas para lhe deitar!

- Mas tenho eu - respondeu Lottie, com um gritinho de

alegria. - Tenho no meu bolso um bocadinho de pão doce, que

comprei ontem com o meu dinheiro. Ao vê-las atirar-lhe com migalhas, o pardalito voou para

uma chaminé.

Evidentemente, não tinha nenhum amigo ali, nos telhados,

e

confiança

que Sara o chamava imitando o seu pipilar, como se ela própria fosse um passarinho, pensou que se enganara e que não se tratava de uma armadilha, mas sim de um amável convite. Curvou a cabecita, lá do alto do seu poleiro, e olhou para as migalhinhas de pão com os olhos brilhantes e espertos. Lottie dificilmente se conservava quieta.

inesperadas

Mas vendo que Lottie não fazia um movimento e

lhe inspiravam

aquelas

migalhas

não

-

Virá? Não virá? Que dizes?

- murmurou ela, muito

baixo.

-

Parece que tem um grande desejo de vir

- respondeu Sara, ainda mais baixo. - Está a ver se

atreve-se ou não

Sim

vai decidir-se

Lá vem ele.

O pardalito descera da chaminé e vinha aproximando-se

aos pulinhos,mas, a três passos das migalhas, parou e tornou a pôr a cabecita de lado, como se perguntasse a si próprio se Sara e Lottie não iriam transformar-se em grandes gatos, que saltariam sobre ele. Por fim, convencido de que as duas meninas eram menos terríveis do que podiam parecer, avançou mais e mais, aos pulinhos tímidos, até que, tendo apanhado com o bico, mais rápido do que um relâmpago, uma grande migalha, voou, levando consigo o belo petisco, e foi refugiar-se do outro lado da chaminé.

Não tarda a vir

- Agora já perdeu o medo - disse Sara. buscar mais

O pardalito não só voltou, como trouxe um

amigo. O amigo, por sua vez, foi buscar o pai, e os três comeram regaladamente, soltando muitos pios alegres, e parando, de instante a instante, para observarem Lottie e Sara.

O contentamento de Lottie era tão grande, que a

ave a fez esquecer a deplorável impressão que o quarto de Sara lhe havia causado. A tal ponto que, ao descerem da mesa, Sara pôde mostrar-Lhe todas as belezas do seu novo domicílio, e das quais nem sequer ela própria tinha ainda suspeitado a existência.

- Vês? - dizia Sara. - Este quarto é, ao mesmo

tempo, tão pequeno e tão alto, que parece um ninho colocado numa árvore. O teto, que desce muito de lado, é engraçado! Quando estamos deste lado, mal podemos ficar de pé! Quando amanhece, vejo

o céu do meu leito, através da janela quadrada, aberta

no teto: é tal qual como se fosse a própria luz encaixilhada. Se está um dia de sol, vejo flutuar nuvenzinhas cor-de-rosa e parece-me que posso, até toca- las com os dedos. Quando chove, ouve-se

o ruído que fazem as gotas de chuva a cair: dir-se-ia que conversam gentilmente conosco. À noite, há as estrelas; podemos entreter-nos a contar quantas se vêem pelo quadrado da janela. Não fazes idéia da quantidade que é. E, olha agora para esta grade, um pouco ferrugenta, do fogão. Se estivesse bem limpa

e reluzente, e houvesse lá dentro um bom lume, como

seria agradável

Vês? É um belo quartozinho, este.

Sara ia e vinha, no pequeno espaço do aposento com Lottie pela mão e acompanhando cada palavra com um gesto, à medida que descrevia todas as maravilhas que ia descobrindo para si própria e para Lottie. Esta acreditava sempre em tudo quanto Sara lhe contava. - Vês? - continuava Sara. - Podia-se cobrir o sobrado com um tapete da Índia, espesso e macio, de linda cor azul; neste canto, ficaria um pequeno divã com muitas almofadas, para nos recostarmos: por cima uma prateleira de livros, que estariam ali, mesmo à mão. Diante do fogão, um tapetezinho de pele; e nas paredes, panos preciosos e quadros; era preciso que fossem pequenos, mas isso não impedia que fossem bonitos. Aqui, instalar-se-ia um candeeiro com quebra-luz cor-de-rosa; no meio do quarto, uma mesa com um serviço de chá; em chaleira de cobre redonda e reluzente, cantaria a água, sobre o lume. Quanto ao leito, seria inteiramente diferente: um bom colchão, uma linda

colcha de seda adamascada

nós conseguíssemos que os passarinhos fossem tão nossos amigos, que viessem bater com o bico na vidraça, para lhes abrirmos a janela e eles entrarem

- Oh Sara! - exclamou Lottie. - Como eu gostava de morar

aqui!

Enfim, seria soberbo. E talvez

Quando Sara, depois de convencer Lottie a ir-se embora e de tê-la acompanhado até à escada, entrou novamente no quarto, parou no meio do cubículo onde dormia, e olhou em volta. A sua imaginação tinha-se acalmado; o seu entusiasmo desaparecera. O leito apareceu-lhe tal como era: duro e coberto com um miserável cobertor. O gesso das paredes caía aos bocados; nem um farrapo de tapete dissimulava o sobrado ordinário e para se sentar,

tinha ùnicamente o velho banco desconjuntado e sem um pé. Sara sentou-se e deixou tombar a cabeça nas mãos. A curta visita de Lottie conseguira, apenas, tornar-lhe a solidão mais amarga-tal como sucede aos prisioneiros, que sentem mais vivamente o peso do cativeiro quando a porta da prisão se fecha sobre os visitantes.

"Estou num canto perdido

- disse ela consigo mesma. -

O canto mais triste do Universo.” Estava ela entregue a estas reflexões quando lhe pareceu ouvir um pequeno ruído. Ergueu a cabeça e valeu-lhe não ser medrosa pois, de contrário, teria dado um salto no banco. Não longe dela, encontrava-se um grande rato sentado nas patas traseiras, farejando o ar com muito interesse. Alguns bocaditos do pão doce que Lottie trouxera tinham caído no chão, e o rato, atraído por aquele maná inesperado, saira do seu buraco. Parecia-se de tal maneira com um gnomo de bigodes grisalhos, que Sara ficou imóvel, sem saber o que fazia. O rato olhava para ela com olhos brilhantes, tal como uma pessoa que fizesse uma pergunta e esperasse a resposta. Evidentemente, o animalzito não estava certo de ser bem recebido, e a

sua atitude fez nascer no espírito de Sara mil pensamentos como só ela tinha. "Na realidade, é muito triste ser rato” - pensava. -Toda a gente detesta os ratos e, quando algum aparece, todos fogem e gritam: -"Que horrível bicho ! " Eu, por mim, não gostaria nada que ao ver-me, alguém gritasse: - "Que horrível Sara!" ou que me preparassem ratoeiras, disfarçadas num petisco. Ser passarinho é muito diferente. Mas ninguém se lembrou de perguntar a este rato, quando nasceu, se preferia ser pássaro. Ninguém lhe perguntou:

"Que preferes tu ser?" Continuava tão quieta, que o rato ia tomando coragem. Tinha medo, mas tal como fizera o pardal dizia lá consigo que Sara não era um animal pronto

a saltar sobre ele. O pobre rato tinha muita fome.

A sua família, composta da senhora rata e de numerosa

ninhada, vivia na parede e andava com pouca sorte, naqueles últimos tempos: não havia maneira de encontrar nada para comer nem para roer. Os ratinhos choravam, e o pai sentia-se disposto a arriscar

a vida por aquelas apetitosas migalhas de pão doce.

Resolveu-se, finalmente, a pôr as quatro patas no chão.

- Vem, vem - dizia-lhe Sara. - Eu não sou uma ratoeira.

Vem comer o pão, pobre bichinho. Os prisioneiros da Bastilha tornaram-se amigos dos ratos da prisão. E se eu tentasse tornar-te meu amigo? Compreenderão os animais o que Lhes dizem? Ninguém sabe, mas há uma coisa certa: é que entendem muita coisa. Talvez exista uma linguagem universal que não é feita de palavras e que é compreendida por todos os seres que vivem no vasto mundo. Talvez haja, na Natureza, uma voz que fala sem fazer o

menor ruído Seja como for, o rato, a partir daquele minuto, compreendeu que se encontrava em segurança. Adivinhou que aquela menina, sentada no banco vermelho, não procuraria afugentá-lo com gritos selvagens, não lhe atiraria terríveis objetos que o assustariam ou fariam com que regressasse ao seu buraco mutilado e coxo. E ele era, na realidade, um belo rato, que não tinha a menor má intenção. Ao erguer-se nas patas traseiras, com os olhos fixos em Sara, esperava que ela o compreendesse e não começasse imediatamente a detestá-lo. E quando a voz misteriosa da Natureza o tranqüilizou, aproximou-se devagarzinho das migalhas e começou a comer. Olhava sempre para Sara, exatamente como os pardais haviam feito, com uma expressão tão suplicante, que a pequenina sentiu-se entristecer. Observava-a sem fazer o menor movimento. Havia uma migalha muito maior do que as outras, um verdadeiro bocado de pão, que tentava o pobre animal; mas era preciso aproximar-se muito do banco, e mestre rato sentiu-se ainda um pouco intimidado. "Ele quer levar aquele bocado à família - pensava Sara. - Não me mexerei. Talvez seja capaz de vi-lo buscar. " Estava de tal maneira imóvel, que nem respirava. O rato, insensivelmente, tinha-se aproximado, comendo os bocadinhos mais pequeninos; depois, parou, farejou o ar com seu focinho pontiagudo, sempre a olhar para Sara, e depois, com a mesma rapidez do pardal, correu para o bocado de pão, apanhou-o e desapareceu, como um relâmpago, numa pequena fenda da parede. -Eu tinha a certeza de que o bicho queria levar aquele bocado aos filhos - disse Sara em voz alta. - Creio que vou arranjar um amigo.

Cerca de oito dias depois, uma noite em que Hermengarda pudera ir, de fugida, até ao sótão, ficou surpreendida ao ver que Sara não respondia, imediatamente, à pancadinha discreta com que era seu costume anunciar-se. O silêncio era mesmo tão absoluto, que Hermengarda julgou que a sua amiga já estivesse

a dormir. Mas, com grande surpresa, a pequena ouviu Sara rir- se baixinho, ao mesmo tempo em que parecia falar afetuosamente a alguém. - Toma - dizia ela. – Pega-lhe depressa e volta a correr, para casa, Rodilard! Vai depressa ter com a tua

mulher!

Quase ao mesmo tempo, Sara abriu a porta e deu com Hermengarda, muito assustada.

- Com quem falavas tu, Sara? - balbuciou Hermengarda.

Sara fê-la entrar, cautelosamente, mas tinha o ar de quem acabava de passar uns momentos agradáveis. -Dir-te-ei, se me prometeres não ter medo e

não gritar - respondeu ela. Hermengarda por pouco não soltou imediatamente um grito, mas conseguiu dominar-se. Percorreu o quarto com o olhar e não viu ninguém. Mas Sara falara a uma pessoa, com certeza. Uma vaga ideia de fantasmas atravessou-lhe o espírito.

- É alguma coisa que me vai assustar? - perguntou ela, com hesitação.

- Há pessoas que têm medo - respondeu Sara.

- Eu própria assustei-me, a primeira vez, mas agora já

não.

- Não é

um fantasma - disse Hermengarda com os dentes

a

bater.

-

Oh, não - exclamou Sara, soltando uma gargalhada. - É

o

meu rato.

Hermengarda precipitou-se sobre o leito, puxando a

camisa para os pés e escondendo os braços no xale. Não gritava, mas estava sufocada de medo.

- Oh Oh - dizia ela, com voz estrangulada.

- Um rato! Um rato!

- Eu bem sabia que terias medo - replicou Sara. - Mas não é motivo para isso. Estou quase a domesticá-lo. Ele começa a conhecer-me e vem quando eu o chamo. Tens medo de o

ver?

Depois do seu primeiro encontro com o rato, e graças aos restos que trazia da cozinha, esta estranha amizade tinha feito grandes progressos, e Sara acabara por esquecer, a

pouco e pouco, o verdadeiro estado civil do seu companheiro. Primeiro, Hermengarda só pensou em se aninhar sobre o leito e esconder os pés, cuidadosamente, sob o cobertor. Mas

a história do primeiro encontro de Sara com Rodilard excitou

a tal ponto a sua curiosidade, que ela acabou por se debruçar nos pés do leito, para ver melhor a amiga, ajoelhada muito perto da fenda do rodapé.

não vai sair de repente e saltar sobre a cama?

- Ele

- perguntou.

- Que ideia - respondeu Sara. - É tão bem educado como

nós. É tal qual uma pessoa. Vais ver. Pôs-se então a assobiar muito baixinho; para ouvi-la, era necessário que o silêncio fosse absoluto. Sara estava tão absorvida como se quisesse fazer um feitiço ou pronunciasse

palavras mágicas. Por fim ,respondendo ao chamamento, apareceu no buraco uma cabecinha de olhos muito vivos e grandes bigodes. Sara tinha na mão umas côdeas de pão, que deixou cair, e Rodilard saiu tranquilamente e veio comê-las. Depois, avistando um bocado maior do que os outros, pegou-lhe com os dentes e levou-o para casa, com um ar de pessoa muito

ocupada.

- Vê como é gentil - exclamou Sara. - Come os bocadinhos

pequenos e leva os maiores à mulher e aos filhos. Muitas vezes ouço-os soltar gritinhos de alegria. Cada um tem uma forma diferente de gritar. Sei reconhecer, muito bem, se é o

pai, a mãe ou os pequeninos. Hermengarda pôs-se a rir.

- Oh! Sara! - disse ela. - Tu és extraordinária Mas és

boa!

- Bem sei que sou extraordinária - respondeu Sara, alegremente. - E também sei que procuro ser boa. Esfregou a testa com a sua mãozinha morena, e os olhos encheram-se-lhe de ternura. - O papá estava sempre a fazer-me arreliar - continuou

ela - mas eu gostava tanto! Chamava-me original, mas ficava encantado quando eu inventava as coisas mais extravagantes

Estou mesmo

Não posso deixar de imaginar e inventar

convencida de que, sem isso, não poderia viver Calou-se um instante, e olhou em volta. Depois concluiu, em voz baixa:

-Não poderia viver

principalmente aqui.

Hermengarda estava, como sempre, suspensa das palavras de Sara.

- Quando tu falas - disse ela - parece que tudo quanto

contas é verdade. Falas de Rodilard como se ele fosse uma pessoa a valer.

- Mas é, realmente, uma pessoa - respondeu Sara. - Tem

fome, tem medo, tal como nós. Têm família, como os homens. Quem nos diz que não pensa como nós pensamos? Os seus olhos são inteligentes. Foi por isso que lhe dei um nome. Sara sentara-se no chão, na sua atitude favorita, com os braços em volta dos joelhos.

- Para mais - continuou ela - é um rato da Bastilha, que

me foi enviado para que eu tenha um amigo. Não me custa nada

arranjar pão seco, porque a cozinheira deita muito fora. E o Rodilard não precisa de mais nada.

- Então, continuamos na Bastilha? - disse Hermengarda, com vivacidade. -Ainda imaginas que estás lá?

- Imagino - respondeu Sara. - Às vezes quero imaginar

que estou noutro lugar, mas é mais fácil supor que estou na

Bastilha, principalmente quando faz frio.

Naquele

momento, Hermengarda saltou para o chão,

assustada com um ruido que acabava de ouvir. Dir-se-iam duas

pancadas muito nitidas, dadas do outro lado da parede.

- Que é isto - exclamou ela.

Sara respondeu, num tom dramático:

- É o prisioneiro da cela vizinha

- Becky! - disse Hermengarda, contentíssima.

- Exatamente!- respondeu Sara. – Escuta.As duas pancadas

querem dizer: "Estás lá, prisioneiro»?" Sara, por sua vez, bateu três pancadas na parede, como se respondesse.

- Isto - explicou ela - significa "Estou cá e tudo corre

bem".

Quatro pancadas soaram do lado de lá.

- E isto - continuou Sara - traduz-se assim "Nesse caso,

companheiro de desgraça, durmamos tranqüilos! Boa noite!" A carinha de Hermengarda tinha uma expressão radiante.

- Oh Sara - disse ela. - É como nas histórias.

- Mas é, realmente, uma história - respondeu Sara. - A

vida de toda a gente é uma história a tua, a minha, a de Miss

Minchin E, tornando a sentar-se, continuou a dar livre curso à sua imaginação, de tal maneira que Hermengarda esqueceu que

estava fora do regulamento

voltar, com

passos cautelosos, para o quarto donde desertara havia tanto tempo.

preciso que Sara Lhe

e

foi

a

lembrasse

a

urgência

de

deixar

Bastilha e

O CAVALHEIRO DA ÍNDIA As peregrinações de Hermengarda e Lottie ao sótão eram muito arriscadas. Nunca tinham a certeza de encontrar Sara no seu quarto, e podia muito bem acontecer encontrarem Miss Amélia, numa das rondas silenciosas, quando já eram horas de todas dormirem. Por isso, as suas visitas eram raras e a vida de Sara cada vez mais triste. Sentia-se ainda mais só quando estava no rés-do-chão do que no sótão. Lá em baixo ninguém lhe dirigia a palavra e, quando ia pelas ruas, carregada de embrulhos ou de cestos, quando lutava, contra o vento, que lhe arrancava o velho chapéu, ou sentia a chuva repassar, lentamente, os sapatos rotos, sentia-se mais abandonada ainda, no meio de desconhecidos que passavam por ela indiferentes. No tempo em que era a princesa Sara e saía de carruagem, acompanhada por Mariette, com a sua carinha tão bonita e original, os seus abafos suntuosos e chapéus elegantes, chamava, muitas vezes, a atenção dos transeuntes. Uma menina bonita, bem vestida, desperta sempre interesse e admiração. Mas as pequeninas mal vestidas passam despercebidas e ninguém pensa em sorrir-lhes. Assim, já não olhavam para Sara, agora que ela percorria apressadamente as ruas cheias de gente. Crescera muito e, como do seu riquíssimo enxoval apenas lhe havia deixado os vestidos mais usados, Sara compreendia que devia ter um aspecto lamentável, com as roupas justas e as saias muito curtas.

Miss Minchin tinha disposto, como entendera,de todo o seu vestuário, e contava que Sara usasse até ao último fio as pobres roupas que ela "generosamente" lhe concedera. Algumas vezes, Sara parava diante das montras com espelhos, e ria alto, ao ver a sua figura;outras vezes,porém corava até à raiz dos cabelos e mordia os lábios, voltando-se rapidamente. À noite, quando passava em frente de janelas bem iluminadas, gostava de olhar para dentro das casas aquecidas e confortáveis, e inventava histórias acerca dos seus habitantes, que ela via agrupados junto do fogão ou sentados em redor da mesa. Isto a divertia muito. Havia, assim, na praça onde ficava o colégio de Miss Minchin, várias famílias de quem ela fizera, pela imaginação, verdadeiros amigos. Uma delas agradava-lhe particularmente. Chamava-lhe a "Grande Família", não porque as pessoas que a compunham fossem exageradamente altas, mas porque eram muito numerosas. Nesta "Grande Família" havia oito crianças, um papá esbelto e vigoroso, uma mamã fresca e robusta, uma avó de cabelos brancos e faces rosadas e um grande número de criados. Agora, via os pequeninos sair com criadas bem vestidas; logo, subiam para a carruagem, com a mãe; mais tarde, quando o pai chegava, vinham todos esperá-lo, precipitando-se para o beijar, tirar-lhe o sobretudo e esvaziar-lhe as algibeiras; ou, então, juntavam-se ao pé das janelas da "nursery"(aposentos reservados às crianças) e empurravam-se, alegremente, a fim de olhar para fora. Numa palavra, pareciam sempre agradàvelmente ocupados, como sucede, em geral, numa grande família. Sara gostava muito deles e batizara-os, a todos, com nomes românticos, tirados dos seus livros preferidos: elas

eram Eldelberta, Violeta, Liliana, Rosalinda e Verónica; aos rapazes chamava Vivian, Guy e Heitor. Uma vez por outra, em lugar de dizer a "Grande Família", chamava-lhes "os Montmorency". Certa noite, aconteceu uma coisa muito engraçada, embora, pensando bem, não houvesse motivo para rir. Alguns dos Montmorency deviam ir a um baile infantil e, justamente quando Sara passava em frente da porta, saiam eles para entrar na carruagem. Verónica e Rosalinda, com vestidos de tule bordado, subiram primeiro, e Guy, que tinha cinco anos, subiu depois. Era um amor o rapazinho, corado, de olhos azuis e com uma linda cabecinha redonda, toda encaracolada. Sara esqueceu-se do cesto que transportava, do casaco velho que a cobria e de tudo o mais, para parar e admirar, durante um minuto, aquela criança encantadora. A festa do Natal estava próxima, e tinham contado aos pequenos Montmorency muitas histórias de crianças pobres que, não tendo mãe nem pai para acarinhá-las, nunca recebiam presentes e sofriam frio e fome. Em todas estas histórias havia sempre meninos e meninas felizes e amimados, que encontravam, por acaso, as crianças pobres, e se apressavam a dividir com elas o seu dinheiro e os seus brinquedos. Às vezes levavam-nas, mesmo, a jantar com eles nas suas casas. Naquela tarde, Guy tinha-se comovido até às lágrimas com uma história deste gênero e ardia em desejos de encontrar uma daquelas crianças desgraçadas, para lhe dar um xelim (Moeda inglesa) novinho que possuía; estava convencido de que, com um xelim tão reluzente, a criança pobre nunca mais precisaria de nada. Quando saiu com as irmãs, para o baile, levava a bela moeda de prata no bolso das calças à maruja e,justamente ao chegar à carruagem, viu Sara com o seu vestido muito usado e o cesto já velho, parada no passeio úmido, a olhar para ele

com uma espécie de avidez. Guy pensou logo que ela talvez não comesse havia muito tempo. Era pequenino de mais para compreender a dor que feria o coração de Sara, ao pensar na doce vida familiar daquela criança, e a alegria que sentiria se o pudesse abraçar e beijar com todas as suas forças. Só viu uma coisa: que era muito magra, tinha os olhos pisados e um vestido feio. Meteu imediatamente a mão na algibeira, tirou o xelim e aproximou-se de Sara com um sorriso gentil.

- Toma, pobre pequena! - disse ele. – Aqui tens o meu

xelim novo. É para ti! Sara estremeceu e, pela primeira vez, compreendeu que se

parecia realmente com as crianças pobres que, noutro tempo, paravam para a ver descer da carruagem. Então, era ela quem distribuía moedas. Corou e empalideceu violentamente e, durante um segundo, julgou que não teria coragem de aceitar o xelim de Guy.

- Oh Não ! - exclamou ela. – Não! Muito obrigada! Não

posso aceitar. A sua voz parecia-se tão pouco com a dos pequenos mendigos vulgares, e a sua atitude era tão perfeitamente a de uma criança bem educada, que Verónica (que na realidade se chamava Janet) e Rosalinda (cujo verdadeiro nome era Nora) se debruçaram para escutar. Mas Guy não queria desistir de ser generoso. Colocou a moeda na mão de Sara. -Sim, minha pobre menina, deve aceitar - disse ele, com energia. Poderá pagar o jantar, porque o xelim está inteiro! Havia tanta candura e bondade no seu rostozinho honesto, e era tão fácil adivinhar que uma recusa o deixaria desolado, que Sara compreendeu que era preciso aceitar, sob pena de ser cruel. Dominando o seu orgulho, com as faces em fogo, disse:

-Muito obrigada. O menino é bom, muito bom e gentil!E enquanto ele subia, contentíssimo, para a carruagem, ela afastou-se, procurando sorrir, embora o coração lhe batesse desordenadamente e os seus olhos estivessem rasos de lágrimas. Sabia muito bem que estava pobremente vestida mas, até então, nunca pensara que a pudessem tomar por uma mendiga!

A carruagem dos Montmorency pôs-se em andamento e, já

dentro, as três crianças que a ocupavam conversavam animadamente. - Oh! Donald (era este o verdadeiro nome de Guy), porque deste tu o teu xelim a esta pequenina?- perguntou Janet, num tom de censura. - Tenho a certeza de que não é uma pedinte. -É possível que seja, mas, na verdade, não tem o ar nem as maneiras dos mendigos - disse Nora.

- E depois, ela não pediu nada - continuou Janet. - Eu

até estava com medo que ela se zangasse. Tu compreendes, Donald, ninguém gosta de ser tomado como pedinte, quando não é.

- Ela não ficou zangada - retorquiu Donald um pouco

perturbado, mas não convencido. Riu-se para mim e disse que era um menino muito bom e gentil. E é verdade! - concluiu ele, com vigor:Dei o meu xelim novinho, todo inteiro.Janet e Nora trocaram um olhar. - Uma verdadeira mendiga não teria falado assim - afirmou Janet.Teria dito "Muito obrigada; meu bom senhor e

teria feito uma reverência.” Sem que Sara pudesse suspeitar, os membros da "Grande Família", a partir desse dia, começaram a dispensar-lhe o mesmo interesse que ela lhes dispensava a eles. As cortinas das janelas levantavam-se, quando ela passava, e à noite, junto do fogão, discutia-se a seu respeito.

- Serve de criada no Colégio de Miss Minchin- dizia Janet.Deve ser órfã. Ninguém parece ocupar-se dela. Mas, embora use vestidos rotos, não é uma mendiga. Em consequência disto, Sara passou a ser conhecida, entre as crianças, pela "pequenina que não é mendiga" - nome bastante longo e que os mais novinhos pronunciavam a seu modo, de uma forma pitoresca. Sara conseguiu furar o xelim de um lado ao outro, mesmo ao meio; enfiou-lhe um bocado de fita estreita e trazia-o pendurado ao pescoço. A sua afeição pela "Grande Família" tornou-se maior depois deste incidente como, de resto, sucedia com tudo, fosse o que fosse a que pudesse afeiçoar- se. Estimava Becky cada vez mais, e esperava, com impaciência, as duas manhãs de cada semana em que dava lição de francês às alunas mais novinhas. As pequeninas gostavam muito de Sara; todas queriam estar mais perto dela e dar-lhe a mão. Senti-las muito perto de si, confortava o coração da pobre criança. Tinha conseguido domesticar de tal maneira os pardais, que, mal subia à mesa e aparecia na trapeira,assobiando docemente, ouvia logo um rumor de asas e um pipilar alegre. Um bando de passarinhos precipitava-se para o telhado, para vir "conversar" com a sua amiguinha e fazer honra às migalhas que ela lhes deitava. Quanto a Rodilard, tinha tanta confiança nela que, de tempos a tempos, fazia-se acompanhar da esposa e por um ou dois dos filhos. Sara falava-lhe, qualquer pessoa iria jurar que ele a compreendia. Sara experimentava agora um sentimento um tanto complexo por Emily que, insensível a todas as suas vicissitudes, fitava sempre as pessoas e as coisas com o mesmo olhar indiferente. Esse sentimento nascera numa hora de grande desespero. Sara tinha querido acreditar, ou, pelo menos,

fingia acreditar, que Emily a compreendia e partilhava os seus desgostos. Custava-lhe confessar a si própria que a sua única companheira não sentia nem ouvia coisa alguma. De tempos a tempos, colocava a boneca em cima da mesa, sentava- se no banco, em frente dela, e imaginava tantas coisas, que, a pouco e pouco, a sua fisionomia exprimia uma espécie de pavor, principalmente quando, ao anoitecer, o silêncio era apenas perturbado pelos guinchos e corridas da família

Rodilard. Sara queria persuadir-se de que Emily era uma espécie de fada benéfica que velava por ela. Algumas vezes, quando a sua imaginação estava mais excitada, a pequenina falava à boneca quase com a certeza de que ela ia responder-lhe. Mas Emily ficava sempre impassível. - Apesar de tudo - dizia Sara, para se consolar - eu própria não respondo, muitas vezes, quando me falam. Quando as pessoas dizem disparates, o melhor que há a fazer é não responder nem uma palavra e olhar para elas, enquanto fazemos, intimamente, reflexões. É um bom sistema, que exaspera Miss Minchin e que assusta um pouco Miss Amélia e a todas as "grandes". Quando não nos encolerizamos, os outros compreendem logo que somos os mais fortes, visto que conseguimos dominar-nos, ao passo que eles não, e dizem coisas estúpidas de que se arrependem em seguida. A cólera é uma grande força; mas o sentimento que ajuda a dominar-nos, é ainda mais forte. Nada é melhor do que não responder aos nossos inimigos. Eu quase nunca lhes respondo. Pode ser que

Emily vá ainda mais longe

mesmo aos

amigos. Guarda tudo no coração! Mas, apesar de toda a boa vontade de Sara, estes argumentos não a satisfaziam inteiramente. Quando, depois de um longo dia de trabalho, passado a correr de um lado para o

Não responde nem

outro, à chuva e ao frio, ela entrava, toda molhada, com fome, o corpo transido e as pernas trôpegas; quando não havia recebido como agradecimento senão más palavras e maus olhares; quando a cozinheira tinha sido grosseira e Miss Minchin detestável, e as alunas riam, disfarçadamente, ao ver o seu vestido muito curto e os sapatos rotos, então, o coração torturado e desolado de Sara recusava deixar-se consolar diante do rosto impassível de Emily. - Eu morro, tenho a certeza - murmurava ela. Os grandes olhos de Emily fitavam a parede, vagamente. - Não posso suportar mais esta vida - dizia a pobre criança, toda tremula. Tenho frio, estou encharcada, morro de fome. Andei todo o dia sem parar e ralharam-me desde manhã à noite. E porque não foi possível encontrar o que a cozinheira queria, privaram-me de jantar. Na rua, riem-se de mim porque os meus sapatos estão tão velhos, que me fazem escorregar e cair. Fiquei toda coberta de lama. E riem-se! Ouves-me? Olhava sempre para os olhos de vidro e para a cara de porcelana. O desespero apoderou-se dela. Com uma pancada seca da sua mãozinha empurrou Emily; Emily caiu no chão e Sara, que nunca chorava, rompeu num aflitivo soluçar. - Não passas de uma boneca - gritava ela nervosamente. - Não ouves, não tens coração, não snntes nada! Não passas de uma boneca! -Emily estava no chão, com as pernas dobradas sobre a cabeça, mas conservava-se calma e imperturbável. Sara escondeu a cabeça nos braços. Na parede os ratos perseguiam- se, a chiar: certamente Rodilard estava castigando algum dos filhos. Pouco a pouco, as lágrimas de Sara secaram. Era tão pouco extraordinário abandonar-se assim que ela própria estava surpreendida. Não tardou a erguer a cabeça e a

olhar para Emily, que parecia olhá-la também e, na realidade, Sara julgou ver uma expressão de simpatia nos seus olhos azuis. Cheia de remorsos, levantou a boneca. Os seus lábios sorriram - Tu não podes ser de outra maneira - murmurou ela, com um suspiro de resignação - tal como Lavínia e Jessie não podem mudar o seu estúpido cérebro. Nós não somos todos iguais! E, depois de ter beijado a boneca e de lhe haver arranjado as roupas, foi colocá-la na cadeira. -Sara desejava ardentemente que a casa vizinha tivesse

habitantes. A trapeira do sótão dessa casa ficava muito perto da sua, e parecia-lhe que seria uma grande consolação para si, ver, um dia, aquela janela abrir-se e aparecer uma cabeça na estreita abertura. "Se fosse uma cara bondosa e sorridente “- pensava ela - eu poderia dizer-Lhe "Bons dias ” E, depois disso, aconteceriam, talvez, muitas coisas

Mas é provável que ali ficassem apenas

instalados os criados.” Certa manhã em que regressava a casa o mais depressa que podia, depois de ter corrido, da mercearia para o talho, do talho para a padaria e da padaria para outros sítios onde a mandaram, ela viu, com grande satisfação, que, durante a sua ausência uma carroça de mudanças tinha parado em frente da casa pegada. As grandes portas de entrada estavam abertas de par em par, e alguns homens, de mangas arregaçadas, iam e vinham carregados de móveis e grandes embrulhos. "Até que enfim!” - disse ela para consigo. A casa foi alugada! Agora, espero que hei-de ver, muito brevemente, uma cara simpática na trapeira vizinha da minha!"

agradáveis

de

espectadores que se entretinham a observar os homens que faziam a mudança. Parecia-lhe que, se pudesse lançar um olhar sobre o mobiliário, faria mais fàcilmente uma idéia dos novos locatários.

"As mesas e as cadeiras de Miss Minchm parecem-se com ela - pensara Sara. - Isso me deu logo na vista, quando cheguei, e, no entanto, era ainda bem pequena! Disse-o ao papá e ele riu, mas era de minha opinião. Tenho a certeza de que a "Grande Família" tem boas poltronas, sofás confortáveis, e já notei que o papel das paredes, com flores cor-de-rosa, se harmoniza maravilhosamente com o seu caráter tão alegre. Tudo o que está naquela casa é atraente e agradável como eles." No mesmo dia, um pouco mais tarde, tornou a sair para ir buscar salsa, e, ao chegar à rua, o coração bateu-lhe com mais força. No passeio estavam alguns móveis e, entre eles,

uma mesa de madeira de teca( nome de um gênero de árvores da Índia), admiràvelmente esculpida, com duas cadeiras iguais e um biombo coberto com um rico bordado oriental. A vista daqueles objetos quase fez desfalecer a pobre criança.

Índia, havia móveis

idênticos! E entre as coisas de que Miss Minchin se tinha apoderado, havia, justamente, uma secretária de teca oferecida a Sara pelo pai. "São belos móveis!” - pensou ela. - Móveis suntuosos. Devem pertencer a uma família rica e distinta. As carroças de mudança sucederam-se sem interrupção, durante todo o dia, e Sara teve, por várias vezes, ocasião de ver o que elas transportavam. Pôde assim, convencer-se de que não se enganava, ao supor que os seus novos vizinhos eram muito ricos. Todo o mobiliário era soberbo e a maior parte

Sentia,

quase,

desejo

de

se

juntar

ao

grupo

Na

casa

paterna,

lá longe,

na

dos móveis orientais. Sara viu sair das carroças tapetes espessos e, por fim, um magnífico Buda, num nicho de incomparável beleza. - Certamente - observou Sara - alguns dos membros desta família viveram na Índia. Gostam das lindas coisas orientais.

Pensarei que são meus amigos, mesmo que

não veja ninguém na trapeira. À noite, à hora em que recebia o leite (pois nenhuma

tarefa lhe era poupada), Sara ficou ainda mais satisfeita. O papá da "Grande Família" atravessou a praça e subiu os degraus da entrada do palacete novamente aberto, com o à- vontade de alguém que está em sua casa e tenciona subir muitas vezes aquelas escadas. Demorou-se lá dentro muito tempo e, de vez em quando, vinha dar ordens aos homens da mudança. Evidentemente, devia ser amigo íntimo dos novos locatários.

- "Grande Família" virão brincar com elas, e quem sabe se não subirão ao sótão, para se divertirem?” Naquela noite, Becky, depois de acabar a sua tarefa, veio ter com a sua companheira de infortúnio e deu-Lhe notícias:É um senhor indiano que vem viver aqui para o lado - disse ela. - Não sei se é preto ou amarelo, mas é mesmo hindu, muito rico e decente; o papá da "Grande Família" é o seu procurador. O tal senhor teve toda a sorte de desgostos e, por isso, é que está doente e triste. Oh miss, ele adora ídolos! É, com certeza, um pagão. Eu vi um deus de madeira dourada, que levaram lá para casa. É preciso que alguém lhe leve um livro de orações.Sara não pôde deixar de rir. - Becky - explicou ela - o senhor aqui do lado com certeza que não adora essa estátua. Muitas pessoas têm outras semelhantes porque são objetos de arte. O meu pai tinha uma

Estou bem contente

"Se houver crianças

calculou Sara

-

as

da

"

magnífica, e posso afirmar-te que não a adorava. Mas Becky preferia pensar que o novo vizinho era pagão; era mais palpitante do que se ele fosse prosaicamente à igreja próxima, como toda a gente. Nessa noite, Sara ficou, durante muito tempo, a imaginar

como seria o famoso vizinho, a mulher, se por acaso a tinha, e os filhos se existissem. Compreendeu que Becky desejava que fossem todos pretos, com grandes turbantes e, principalmente, pagãos.

- Nunca vivi perto dos pagãos - confessara a criadita. -

Gostava de saber como eles vivem. Passaram-se bastantes semanas sem que a sua curiosidade fosse satisfeita; souberam, então que o novo habitante da casa vizinha não possuía mulher, nem filhos, nem família; que era muito doente e tinha um desgosto misterioso que parecia matá-lo lentamente. Um dia, parou uma carruagem diante da casa; o pai da "Grande Família" apeou-se, seguido por uma enfermeira, com a sua bata branca. Dois criados aproximaram-se, e viu-se sair da carruagem, amparado por eles, um homem de pele amarelada, olhos desvairados, e cujo corpo, de esquelética magreza, desaparecia sob os abafos de peles. Os criados levaram-no quase em braços até a casa, onde o chefe da "Grande-Família" o seguiu com ar ansioso. Pouco depois, chegou o carro do médico, e este, por sua vez, entrou também. - Sara, há um senhor amarelo que habita aqui ao lado -

murmurou Lottie, durante a lição de francês. - Parece-te que seja chinês? Dizem que os Chineses têm a pele amarela.

- Não, não é chinês - respondeu Sara, brevemente. - É um

senhor que está muito doente. Vamos, Lottie, voltemos ao tema. Como se diz: Não, senhor, eu não tenho o canivete do meu irmão!

E

Foi

assim

horizonte de Sara.

que o cavalheiro

da

Índia apareceu no

RAM DASS Embora fosse muito sombria e triste, a praça onde estava situado o Colégio Minchin tinha, por vezes, lindos poentes. Viam-se apenas parcialmente por entre chaminés, sobre os telhados. Da cozinha não se via nada, além de uma claridade

dourada ou rosada, que aquecia as paredes durante alguns segundos, ou um reflexo esbraseado nos vidros da janela. Entretanto, havia no colégio um único lugar donde se podia admirar à vontade todo o esplendor do pôr-do-sol - as grandes nuvens de ouro que apareciam no poente e outras de púrpura, bordadas a prata, ou ainda aquelas, muito pequeninas, que, às vezes, atravessavam o céu, como se fosse um bando de pombas. Esse lugar donde se podiam contemplar todas estas maravilhas

e respirar um ar mais fresco, era a janela do sótão. Quando a praça começava a escurecer e as árvores se transformavam como por encanto, Sara sabia que se preparava a magia celeste; e se lhe era possível sair da cozinha nesse momento, subia as escadas, a correr, trepava para a mesa e debruçando-se tanto quanto podia na trapeira, aspirava amplamente o ar e olhava em volta de si. Era como se o céu e a paisagem dos telhados lhe pertencessem; a maior parte das outras janelas estavam fechadas, e se algumas estavam semiabertas para deixar entrar

o ar, não aparecia lá ninguém. Ela ficava ali, admirando ora a bela cúpula azul, que parecia tão próxima, ora a maravilha do poente e das nuvens que se aglomeravam e se dissolviam passando do carmim ao cor- de-rosa, do lilás ao cinzento, ou formando cadeias de montanhas, separadas por lagos cor de turquesa, de jade ou de

âmbar. Promontórios sombrios avançando em mares luminosos e pontes lançadas sobre margens mágicas. Sara chegava a convencer-se de que, por um pouco, poderia atingir aquelas regiões encantadas e passear ali até ao momento em que as nuvens a envolvessem e a levassem Nunca vira nada tão bonito como o quadro que contemplava na sua trapeira enquanto os passarinhos saltitavam à sua volta, nas ardósias dos telhados. E tinha a certeza de que naqueles momentos, eles próprios, subjugados pelo esplendor do espetáculo, punham maior doçura no seu pipilar. Poucos dias depois do cavalheiro da Índia se ter instalado na sua nova habitação, houve um desses fins de dias

maravilhosos; e como, por feliz coincidência, o trabalho estava feito e ninguém a encarregara de qualquer tarefa ou recado urgente, Sara pôde escapar-se mais cedo que de costume e subir ao seu quarto. Trepou à mesa e pôs-se à janela. Era deslumbrante. Havia no poente uma verdadeira maré alta de ouro em fusão; e as silhuetas pequeninas dos pardais recortavam-se, escuras, sobre um céu de topázio líquido. - É o mais belo dos crepúsculos – murmurou ela. - É tão belo, que chego, quase, a ter medo, como se estivesse para

acontecer alguma coisa extraordinária

Sinto-me sempre

assustada

Voltou a cabeça, bruscamente; parecia-lhe ter ouvido um ruído ali mesmo ao pé - um ruído estranho, como se fosse um gritinho agudo e tremulo, que dava a impressão de vir da trapeira vizinha. Sara viu, então, que não era só ela a admirar o céu! Uma cabeça e uns ombros haviam surgido na outra janela, mas não pertenciam nem a outra menina, nem a uma criada; e Sara, com o coração a bater fortemente, reconheceu a tez morena, os olhos brilhantes e o turbante de

quando o céu tem um tal esplendor

imaculada brancura dos indígenas do Industão.

ela

imediatamente. O grito que chamara a sua atenção fora dado por um macaquinho que o índio segurava nos braços, com mil cautelas, e que se aconchegava carinhosamente a ele.

O índio, por sua vez, olhava para Sara, e ela teve a impressão de que os seus olhos estavam tristes e que o afastamento do país natal o fazia sofrer cruelmente. Ele

devia ter sede de luz e calor, e fora essa razão por que viera, como ela, admirar o sol, que tão raramente via na brumosa Inglaterra. Sara olhou para o índio durante um minuto, depois lhe sorriu. Sabia, por experiência própria, como um sorriso, mesmo vindo de um desconhecido, pode ser reconfortante. O sorriso de Sara reconfortou-o, incontestavelmente, porque a sua fisionomia animou-se e, por sua vez, ele respondeu-lhe com um tão belo sorriso, que os seus dentes, muito brancos, iluminaram-lhe o rosto como um clarão.

de simpatia, aqueciam

sempre a alma dos que se sentiam cansados e tristes. Foi, sem dúvida, nesse momento, que o índio largou o macaquinho. Este, malicioso como todos os da sua espécie e, provàvelmente, excitado pela própria vista de Sara, fugiu ao dono, abalou pelo telhado que atravessou numa corrida, saltou para o ombro da pequenina e de lá para o sótão. Uma gargalhada de Sara acolheu este alto feito. Mas era preciso

entregar o fugitivo ao dono. Como havia de ser? O macaco deixar-se-ia apanhar por Sara, ou procuraria fugir, perdendo- se no labirinto dos telhados? Isso é que era aborrecido O animal pertencia, certamente, ao cavalheiro da Índia, que devia gostar muito dele! Sara voltou-se para o "lasca", encantada com a idéia de

"Um

"lascar!”(marinheiro

indígena)pensou

Os olhos

de

Sara, tão cheios

se lembrar ainda do dialeto hindu, que aprendera com o pai. Podia, assim, fazer-se compreender. - Parece-lhe que ele se deixará apanhar? - perguntou

ela.

Uma expressão de espanto e, ao mesmo tempo, de

satisfação, se estampou no rosto trigueiro; parecia, ao pobre homem, que os seus deuses intervinham, em pessoa, e que aquela voz tão doce, descia diretamente do céu. Sara compreendeu que ele já convivera com europeus. O índio desfez-se em agradecimentos respeitosos: o macaquinho era muito gentil e nunca mordia, mas dificilmente deixava alguém aproximar-se dele. Saltava de um lado para outro, mais rápido que um relâmpago. Era muito desobediente. Conhecia-o como se ele fosse seu filho e conseguia, algumas vezes, fazer-se obedecer, mas não sempre. Se a jovem senhora lho permitisse, Ram Dass atravessava o telhado, entrava pela

Mas aquele

pedido era uma grande audácia da sua parte e, naturalmente, a jovem senhora recusaria Sara, porém, consentiu imediatamente. - Não se demore - disse ela. - O macaco salta de um lado para outro, como se tivesse medo. Ram Dass, com a agilidade de um gato, passou ràpidamente de uma janela para a outra. Escorregou na trapeira e caiu de pé, sem fazer o menor barulho; saudou profundamente Sara e depois, tendo fechado a janela, como precaução, começou a

perseguir o fugitivo. A perseguição não demorou muito tempo.

O macaco, que parecia muito divertido, não tardou a saltar

para o ombro de Ram Dass; uma vez empoleirado ali, sentou-se

a guinchar, e passou o bracinho magro em volta do pescoço do seu guarda. Ram Dass agradeceu respeitosamente a Sara. Ela bem tinha

janela e agarraria o atrevido animalzinho

compreendido que o índio notara, logo à primeira vista, o aspecto miserável do quarto, mas fazia de conta que não vira coisa alguma e continuava a falar-lhe como se ela fosse a filha de um rajá. Os poucos minutos que durou ainda a sua visita, depois de ter apanhado o macaquito, foram consagrados a exprimir a Sara o seu reconhecimento e dedicação. Aquele maroto - dizia ele, acariciando o macaco - não era tão mau como parecia, e o dono, que estava doente, divertia-se com ele algumas vezes. Ficaria contrariadíssimo se o seu animal favorito se perdesse. Depois, Ram Dass fez ainda uma reverência e foi-se embora, pela janela e pelo telhado, com a mesma ligeireza que o próprio macaco. Quando ele partiu, Sara ficou algum tempo a sonhar, de pé, no meio do quarto. A vista do vestuário do índio, as suas maneiras respeitosas, tudo acordara nela recordações muito queridas e dolorosas. Como era estranho pensar que ela própria, Sara, a "vitima expiatória, a quem a cozinheira dirigira palavras grosseiras uma hora antes, vivia, há poucos anos ainda, rodeada por servidores semelhantes a Ram Dass que a saudavam quando ela passava e cujas frontes se inclinavam quase até ao chão, quando ela lhes falava. Era verdadeiramente um sonho;

um sonho lindo, que não recomeçaria mais

Como fora

possível produzir-se na sua vida tal transformação? Adivinhava perfeitamente o futuro que Miss Minchin lhe preparava. Enquanto não tivesse a idade necessária para ser professora, utilizá-la-iam como criada, exigindo-lhe, ao mesmo tempo, que não esquecesse nada do que tinha aprendido e que, milagrosamente, aumentasse ainda os seus conhecimentos. Passava a maior parte dos serões a estudar e, de longe em longe, submetiam-na a uma espécie de exame; se este não fosse inteiramente satisfatório, isso lhe valeria ser severamente

repreendida. No fundo, Miss Minchin sabia muito bem que Sara tinha um tão grande desejo de se instruir, que era inútil dar-Lhe mestres: os livros bastavam; tinha a certeza de que ela assimilaria todo o seu conteúdo e que, dentro de alguns anos, poderia começar a ensinar. E, então, encarregá-la-iam de todos os trabalhos da aula, como a encarregavam, agora, de todo o serviço da casa. Dar-lhe-iam vestuário um pouco mais decente, mas Sara sabia que seria sempre feio e que ela teria sempre o ar de uma criada. Eis o que a esperava no futuro, e Sara pensava em tudo isto, de pé e silenciosa, no meio da sua água-furtada. Depois veio-lhe um pensamento, que lhe fez corar um pouco as faces e brilhar mais os olhos.O seu corpinho delgado endireitou-se e ergueu a cabeça. "Suceda o que suceder - pensou -, há qualquer coisa que não pode mudar. Eu ando esfarrapada, coberta de andrajos, mas na minha alma e no meu coração sou sempre uma princesa. Não teria grande merecimento em proceder como uma princesa, se andasse vestida de ouro; tenho muito mais, sendo como sou atualmente. Maria Antonieta, por exemplo,quando estava na prisão, com um pobre vestido preto, remendado, e os cabelos todos brancos quando todos a insultavam e lhe chamavam a viúva, era ainda mais rainha do que no tempo em que vivia feliz e alegre no meio da sua corte. É nesse tempo de martírio que eu mais a admiro. As multidões que rugiam, não lhe faziam medo; ela era mais forte que toda essa gente, mesmo quando lhe cortaram a cabeça. " Este pensamento não era novo para Sara e já a havia consolado muitas vezes; nesses dias, a pequenina ia e vinha pela casa, com um ar misterioso que Miss Minchin não sabia explicar e que a irritava, por que tinha a impressão de que Sara vivia, interiormente, uma vida que a elevava acima de

todos os que a cercavam. Dir-se-ia que, nessas ocasiões a pequena não ouvia as más palavras que lhe dirigiam ou, pelo menos, que essas palavras não a impressionavam. Por vezes, no meio de uma repreensão dura e cruel, Miss Minchin sentia fixar-se nela aquele olhar que não era de uma criança e parecia iluminado por um sorriso de altivez. Miss Minchin estava longe de imaginar que, nesses momentos, Sara dizia consigo própria:

insultas uma princesa e que, se eu

quisesse, podia mandar-te para o cadafalso com um simples gesto da minha mão. Mas eu poupo-te, unicamente porque sou

uma princesa e tu

tu não passas de uma pobre criatura

estúpida, vulgar e má, incapaz de proceder de outra forma." Esta dupla existência imaginária era, para Sara, não somente uma distração, mas também um verdadeiro conforto e, mesmo, um preservativo moral, porque, enquanto o seu espírito estava assim ocupado, a baixeza e maldade dos que a rodeavam não exerciam nela influência alguma. - Uma princesa é sempre bem educada.

E quando as criadas, regulando o seu procedimento pelo

de Miss Minchim, lhe davam ordens insolentemente, Sara erguia a cabeça e respondia-lhes com uma cortesia singular, a tal ponto, que elas, esquecendo as suas próprias palavras, grosseiras e más, calavam-se e ficavam a olhar, sem compreender.

- Tem uns ares e umas maneiras como se chegasse agora

mesmo de Buckingham Palace (palácio real de Londres), esta garota - dizia, às vezes, a cozinheira, em voz baixa.

- Eu não a poupo, mas reconheço que ela é sempre bem

"Quer

ter a bondade?

a

E diz, estas bonitas frases a propósito de

"Tu ignoras que

educada. Nunca se esquece de dizer: "Se faz favor

incomodo?

”.

”,"Peço-lhe

desculpa

”,

”,

"Não

tudo, na cozinha, como se lhe não custasse nada! No dia seguinte àquele em que travara conhecimento com Ram Dass, estava Sara na aula, com as suas alunas. A lição terminara e ela reunia os livros de exercícios de francês, pensando nos vários trabalhos que muitas pessoas de sangue real tinham sido forçadas a fazer, escondidas sob qualquer disfarce: Alfredo, o Grande, entre outros, que deixou queimar os bolos e recebeu uma bofetada da mulher do vaqueiro. Que

susto devia ter tido esta mulher, quando soube quem era a pessoa que ela esbofeteara! E Miss Minchin, que pensaria ela, se descobrisse que a pobre Sara, cujos pés andavam quase de

fora, era uma princesa verdadeira?

da pequena brilhavam com um fulgor estranho, que exasperava a diretora. Era de mais; Miss Minchin não pôde conter-se e, como estava muito perto de Sara, fez, sem o saber, o mesmo que a mulher do vaqueiro: esbofeteou-a. Sara estremeceu; a bofetada fê-la despertar do sonho e, durante um segundo, o seu coração deixou de bater. Depois, involuntáriamente, soltou uma gargalhada breve.

A esta idéia, os olhos

- De que te ris, impertinente - exclamou Miss Minchin.

Foram precisos alguns momentos para Sara se dominar e

lembrar-se de que era uma princesa. As suas faces estavam vermelhas e ela sentia como que uma queimadura no lugar onde lhe tinham batido.

- Estou a refletir! - respondeu ela.

- Pede-me perdão imediatamente - ordenou Miss Minchin.

Sara teve um segundo de hesitação. -Peço-lhe perdão de ter rido, porque foi, talvez, uma indelicadeza - respondeu ela , mas não me desculparei de refletir. - Como te atreves tu a refletir?! - interrogou Miss Minchin. - Em que refletes tu?

de

Lavínia. Todas as alunas tinham levantado a cabeça; divertiam-se sempre quando Miss Minchin ralhava com Sara, porque esta nunca mostrava medo e as suas respostas eram sempre extraordinárias. E naquele dia, também não parecia assustada, embora estivesse vermelha e os olhos lhe brilhassem mais do que nunca. - Pensava - respondeu Sara, delicadamente - no que aconteceria se eu fosse uma princesa e a senhora me tivesse esbofeteado. Pensava também que, se eu o fosse, na realidade, poderia dizer e fazer não importa o quê, porque a senhora não se atreveria a levantar, para mim, nem a ponta de um dedo. E imaginava que surpresa e que susto a senhora teria, se descobrisse de repente Sara vivia tão completamente o seu sonho e falava com tal convicção, que a própria Miss Minchin se sentiu impressionada. Aquela mulher de inteligência acanhada acabava de perguntar a si própria se a ingênua Sara não escondia algum poder misterioso. - O quê? - gritou ela. - Se eu descobrisse o quê? - Que eu sou realmente uma princesa - disse Sara com a maior calma - e que posso fazer tudo quanto quiser.

Os cinqüenta pares de olhos fixos nesta cena abriram-se desmedidamente.Lavinia debruçou-se sobre a estante para não perder nada. - Sobe imediatamente para o teu quarto - exclamou Miss Minchin, quase sem poder falar. Saiam da aula vamos, meninas, continuem a estudar! Sara fez uma pequena reverência. - Desculpe-me ter rido, se fui incorreta disse ela.Depois saiu, deixando Miss Minchin a debater-se contra

Jessie sufocou uma

gargalhada e

tocou

no braço

uma fúria impotente, e as alunas a segredar por detrás dos cadernos.

fisionomia

extraordinária?-disse Jessie, incapaz de se dominar por mais tempo. -Pois bem, Eu não ficaria surpreendida se ela fosse

uma pessoa importante.E imaginem, se fosse verdade

-Viram

a

cara

dela?

Viram

aquela

DO OUTRO LADO DA PAREDE Quando se habita uma casa, metida entre outras casas, é engraçado procurar adivinhar o que fazem e o que dizem os vizinhos, que se encontram tão perto, do outro lado da parede. Sara gostava muito desta distração e perguntava

frequentemente a si própria o que lhe esconderia a parede que separava o colégio de Miss Minchin da casa do cavalheiro da Índia. Sabia que a sala de estudo ficava ao lado da biblioteca do misterioso vizinho e desejava, às vezes, que a parede fosse bem espessa, para que o barulho que as alunas faziam depois das aulas não o incomodasse demasiado.

- Interessa-me cada vez mais - dizia ela a Hermengarda.

- Contraria-me a idéia de que o nosso barulho o fatiga.

Decidi que ele será meu amigo. Não é impossível, embora nunca nos falemos. Sonho com ele, penso nele, tenho pena dele e, assim, tornamo-nos quase parentes. Afirmo-te que estou inquieta quando vejo o médico vir duas vezes por dia.

- Eu não tenho muitos parentes - observou Hermengarda,

com ar pensativo - e estou bem contente por isso, porque os que tenho não me agradam. As minhas duas tias só sabem dizer- me: "Meu Deus, Hermengarda , como estás gorda! Comes doces de mais!" Quanto ao meu tio, esse passa o tempo a perguntar-me:

"Em que data subiu ao trono Eduardo III?” ou então "Quem foi que morreu com uma indigestão de lampreia?".Sara começou a rir.

-As pessoas com quem nunca falamos não podem fazer-nos perguntas dessas - disse ela. Mas tenho a certeza de que o cavalheiro da Índia, mesmo que te conhecesse intimamente, não te perguntaria nada disso. Eu, por mim, gosto muito dele. Sara sentia-se ligada aos membros da "Grande Família” porque eles pareciam muito felizes; mas o que a atraia para o cavalheiro da Índia era o seu ar triste e sofredor. Via-se que não estava ainda refeito de uma grave doença. Na cozinha, onde, como é costume, as criadas conseguiam saber tudo por meios ocultos, o novo vizinho era muito discutido. Não era hindu, mas sim inglês, e vivera muito tempo nas Índias. Tivera um tão grande revés de fortuna, que se julgava arruinado e desonrado para sempre. O abalo fora tão forte, que ia morrendo de uma febre cerebral. Depois disso nunca mais tivera saúde nem alegria, embora a roda caprichosa da fortuna desandasse, e a grande riqueza que julgava perdida, voltasse intacta ao seu poder. A causa de tantos desgostos

tinham sido umas minas. - Parece que eram minas de diamantes - contava a cozinheira. -As minas são pouco seguras, principalmente as de

diamantes

acrescentando - Sobre isto já tivemos provas "Ele sofreu como o pai? - pensava Sara. -Esteve doente como ele, mas não morreu ” Tudo isto a fazia interessar cada vez mais pelo vizinho. Quando ia fazer compras, ao cair da noite sentia-se feliz porque dizia, de si para si: - “Talvez os cortinados ainda não estejam corridos e eu possa avistar o meu amigo ” Quando a praça se encontrava deserta, parava em frente da casa e, encostada às grades, dizia-lhe baixinho " Boa noite". "Como não pode ouvir-me - imaginava ela - talvez possa, ao menos, sentir que penso nele. Quem sabe se os pensamentos

- e, ao falar assim, olhava de lado para Sara,

afetuosos atravessam as paredes, as portas e as janelas! Pode ser que tu, meu amigo da Índia, te sintas um pouco reconfortado, sem saber por que, enquanto eu estou aqui, ao frio, a desejar-te boa noite e melhoras para a tua saúde. Tenho tanta pena de ti - Falava com uma voz muito doce e profunda. - Gostava que tivesses uma "senhorazinha" para te acarinhar, como eu acarinhava o papá quando ele tinha dor de cabeça. Gostaria de ser eu mesma a tua "senhorazinha", meu

pobre amigo

Afastava-se, sentindo-se, ela própria, consolada. Sara estava convencida de que a sua ardente simpatia chegaria, de uma

forma ou de outra, até ao doente, quando ele estava sozinho,

sentado na sua cômoda poltrona, junto do lume, todo envolvido num longo roupão e quase sempre com a cabeça apoiada na mão, olhando vagamente para as chamas. A pequena tinha a impressão de que os sofrimentos daquele homem eram causados não somente pelas provações já passadas, mas também por um grande desgosto atual. "Se não fosse assim - pensava ela - não estaria tão abatido e triste, visto ter recuperado toda a sua fortuna e saber que se curará de todo, com o tempo. Tenho a certeza de que há qualquer outra coisa". Se havia, realmente, outra coisa - e sobre esse ponto as criadas não tinham conseguido saber nada, Sara estava

persuadida

Montmorency, como ela lhe chamava) sabia tudo. O Sr.Montmorency vinha visitar muitas vezes o cavalheiro da Índia, e a Sra.Montmorency e as crianças também, embora menos frequentemente. O doente parecia ter predileção pelas duas mais velhas, Janet e Nora, aquelas que se tinham indignado quando o seu irmãozinho Donald dera o xelim a Sara. Era evidente que ele gostava muito de crianças e talvez,

Boa

noite! Boa

noite!

Deus

te

guarde"

de

que

o

pai

da

"Grande-Familia" (o Sr.

particularmente, das meninas. Janet e Nora retribuiram-lhe a afeição e esperavam sempre com impaciência as tardes em que lhes era permitido atravessar a praça e ir visitar o seu velho amigo, como duas meninas bem educadas. Estas visitas eram sempre curtas, como verdadeiras visitas de cerimônia, porque ele estava doente.

- Coitado! - explicava Janet. - Diz sempre que o

alegramos. Nós procuramos alegrá-lo suavemente. Janet era a mais velha e dirigia o ranchinho de irmãos e irmãs. Era ela quem decidia se podiam pedir ao cavalheiro da Índia que lhes contasse alguma história bonita do país das florestas e dos tigres; era ela quem dava conta do momento preciso em que ele começava a sentir-se fatigado, ou compreendia ter chegado o momento de se retirarem na ponta dos pés e irem dizer a Ram Dass que voltasse para junto do patrão. Todas as irmãzinhas adoravam Ram Dass e lamentavam vivamente que a sua absoluta ignorância da língua inglesa as privasse de tantas histórias maravilhosas que ele poderia contar-lhes. O cavalheiro da Índia chamava-se, na realidade, Carrisford; e Janet tinha contado ao Sr. Carrisford o seu encontro com a "pequena que não era mendiga". Esta história interessara-o imenso, e o seu interesse aumentara ainda quando ele teve conhecimento, pelo fiel Ram Dass, da fuga do seu macaco favorito. Ram Dass fizera-lhe uma descrição impressionante do sótão miserável, das paredes esburacadas,

da grelha do fogão, toda ferrugenta, e do catre que fazia as vezes de leito.

- Carmichael - dissera o Sr. Carrisford ao pai da

"Grande Família", pergunto a mim próprio quantas mansardas semelhantes se encontrarão nas casas desta praça, e quantas desgraçadas criaditas, ainda crianças, dormem em camas como

aquela, enquanto eu me volto, e torno a voltar, sobre as minhas almofadas de sumaúma, esmagado pelo peso desta fortuna, que, na sua maior parte, me não pertence. - Meu caro amigo - respondeu alegremente Carmichael-, quanto mais depressa deixar de se atormentar assim, mais depressa melhorará. Mesmo que possuísse todos os tesouros da Índia não poderia remediar todas as misérias deste mundo e, admitindo mesmo que chegava a mobiliar confortàvelmente todas as mansardas desta praça, isso não passaria de uma gota de água no oceano. Carrisford, com os olhos fixos no belo fogo que ardia no fogão, mordeu os dedos, nervosamente. - Parece-lhe - disse ele, lentamente , parece-lhe possível que a outra criança em que eu penso de noite e dia, esteja reduzida a uma existência tão miserável como a dessa pobre pequenina aqui ao lado? Carmichael olhava para ele com pena; sabia que não havia nada pior para a saúde física e moral do seu amigo do que principiar a encarar sob esse novo aspecto aquele assunto, muito íntimo, em que falava sempre com ele. -Se a pequena pensionista de Madame Pascal, em Paris, é a criança que procura - disse ele com calma, parece ter sido confiada a pessoas capazes de a tratarem e amimarem; adotaram-na por ela ter sido a companheira querida da filhinha que perderam. Não têm mais filhos, e Madame Pascal disse-me que eram uns russos muito ricos. - E a miserável nem sequer sabia para onde a levaram! - exclamou Carrisford. Carmichael ergueu ligeiramente os ombros e respondeu:

- É uma mulher superficial, mas honesta, que está encantada com a idéia de se desembaraçar, assim, da criança a quem a morte do pai deixara totalmente sem recursos. As

mulheres deste gênero não se preocupam com o futuro das pobres crianças que poderiam vir a ser, para elas, um pesado

fardo. Quanto aos pais adotivos, devem ter partido sem deixar vestígios.

Mas o senhor diz sempre: "se a criança é a que eu ”

Não tem a certeza. Creio que havia uma diferença

de nome Madame Pascal pronunciou Carewe, em lugar de Crewe, mas

talvez fosse simples engano. Todos os outros sinais condiziam exatamente: uma menina sem mãe, internada no colégio pelo pai, oficial da Índia, morto sùbitamente, depois de ficar arruinado. Carmichael parou, de repente, como se uma nova idéia lhe atravessasse o espírito.

- Tem a certeza de que a criança foi internada num

colégio em Paris? Julga, realmente, que foi em Paris? -Não tenho a certeza de coisa alguma, meu amigo! Não conheci a criança nem a mãe. Ralph Crewe e eu fomos excelentes condiscipulos, mas nunca mais nos vimos desde a nossa saída do colégio, até ao dia em que nos encontramos novamente na Índia. Eu estava muito absorvido por este negócio das minas; ele, também, sentiu-se tentado, desde o primeiro momento, e o futuro parecia-nos tão brilhante, que perdemos um pouco a cabeça. Não falávamos de outra coisa! Eu apenas sabia que a filha de Ralph estava num colégio, em qualquer parte, e já nem me recordo a propósito de que foi

procuro

-

que ele me falou nisso. Excitava-se, ao falar, como lhe sucedia sempre que revolvia a lembrança da catástrofe passada. Carniichael olhava para ele com ansiedade; queria fazer-lhe algumas perguntas indispensáveis mas, para isso, era preciso muita calma e prudência.

-Tem razões para supor que o colégio era em Paris e não em qualquer outra parte? - perguntou ele. -Tenho. A mãe da pequenina era francesa e ouvi dizer que ela desejara sempre que a filha fosse educada em Paris. Parece-me, portanto, verossímil que a levassem para lá.

- Efetivamente-aprovou Carmichael- é mais que provável.

O cavalheiro da Índia curvou-se e bateu na testa com a mão esguia e magra. - Carmichael! - exclamou ele. - É preciso que eu a encontre. Se é viva, está, com certeza, em qualquer parte. Se não tem família nem fortuna, é por minha culpa. Como quer o senhor que eu me cure, com semelhante peso na consciência?

Esta surpresa teatral do negócio das minas realizou os nossos

Ralph anda

sonhos mais insensatos

talvez a pedir esmola pelas ruas!

- Não! Não - disse Carmichael. - Acalme-se e console-se

com a idéia de que no dia em que a encontrar, terá uma

e

a

filha do pobre

fortuna principesca para lhe entregar.

- Porque não tive a coragem de reagir quando o horizonte

se nublou - prosseguiu Carrisford, com nervosismo crescente.

-

Estou certo de que teria tido mais sangue-frio se fosse só

o

meu dinheiro e não o de outrem que estivesse em perigo.

Aquele pobre Crewe tinha comprometido tudo quanto possuía,até

ao último "penny". Confiava em mim e era-me muito dedicado. Morreu convencido de que eu, Tom Carrisford, o tinha

arruinado

me deve ter desprezado!

eu que jogava o críquete com ele em Eton. Como

- O senhor é muito severo para consigo próprio.

-Eu não me acuso pelo fato de a empresa ter estado prestes a falir, mas sim por ter perdido a coragem. Fugir como um ladrão, como um escroque, porque não me atrevia a aparecer diante do meu amigo e dizer-lhe que o tinha

arruinado, a ele e à filha! O bom Carmichael passou afetuosamente a mão sobre oombro do doente. - O senhor fugiu porque a razão se lhe perturbou momentâneamente, em conseqüência das torturas morais que

sofreu. Se não fosse isso, teria feito face, corajosamente, à má fortuna. Dois dias após a sua fuga, o senhor estava num hospital, amarrado ao leito por meio de correias, com uma febre cerebral violentíssima, em pleno delírio. Não se esqueça disto. Carrisford deixou pender a cabeça nas mãos.

- Ah Grande Deus, é verdade - murmurou ele. - Estava

louco de vergonha e horror. Na noite em que fugi de casa, parecia-me estar cercado de monstros que rugiam e me apontavam com a mão.

- Isso explica tudo - disse Carmichael. - Um homem que

está nesse estado não pode raciocinar normalmente. Carrisford abanou a cabeça:

-Quando eu tive novamente consciência dos meus atos, o pobre Crewe estava morto e enterrado. E eu tinha esquecido tudo, até a filha dele! Só mais

tarde é que a lembrança dessa criança surgiu na minha memória, mas de forma indistinta como envolta em nevoeiro. Parou e, passando a mão pela fronte, prosseguiu:

- Mesmo presentemente, a impressão que tenho é ainda

vaga, quando tento recordar-me de tudo o que sabia acerca dela. Certamente, Crewe disse-me em que colégio a internara. Não lhe parece? -Pode ser que ele não lhe tenha dito nada de concreto. Julgo até que o senhor ignora o nome exato da pequena. -Ele tratava-a sempre por um curioso nome que lhe havia dado. Quando falava da filha, dizia: a "senhorazinha". Mas

aquelas malditas minas tinham-se apoderado de nós a tal

ponto, que não falávamos de outra coisa. Se ele nomeou o

colégio

- Vamos! Vamos - disse Carmichael. - Verá que havemos de encontrar essa criança. Continuaremos a procurar os bons russos de madame Pascal. Ela tinha uma vaga idéia de que habitavam em Moscovo. É talvez uma pista interessante. Irei a Moscovo. -Ah! Se eu pudesse viajar, acompanhá-lo-ia!- exclamou Carrisford. - Mas não presto para mais nada senão para viver envolto em peles e a contemplar o lume. Quando olho para ele um momento, julgo logo ver surgir a fisionomia tão alegre de

Crewe; olha para mim, como se quisesse perguntar-me qualquer coisa. As vezes sonho com ele enquanto durmo e, então, faz-me uma pergunta, mas em voz alta. Sabe que pergunta é, Carmichael?

- Meu Deus! Como hei-de saber? - respondeu Carmichael, comovido.

- Diz-me sempre: "Tom, velho camarada Tom, onde está a

"senhorazinha"? Carrisford calou-se bruscamente e apertou a mão de Carmichael.

- Quero poder responder-lhe finalmente. Quero! Ajude-me

a procurá-la. Suplico-lhe: procure-a! Ora, nessa mesma noite, do outro lado da parede, Sara conversava com Rodilard, que tinha vindo buscar a ceia da família. -Na verdade, é muito difícil, hoje, ser princesa - dizia ela. - Mais difícil do que habitualmente! À medida que o tempo vai arrefecendo e as ruas estão mais lamacentas, é cada vez mais difícil. Quando Lavínia troçou do meu vestido cheio de nódoas, no momento em que eu atravessava a sala, veio-me

esqueci-me. E nunca mais me lembrarei

aos lábios uma boa resposta, mas dominei-me a tempo. Não se

responde a semelhante gente, quando se é uma princesa

é preciso morder a língua

Fazia bastante frio, esta tarde, Rodilard. E a noite vai ser mais fria ainda.

Bruscamente, Sara escondeu a cabeça entre os braços, como costumava fazer nas suas horas de isolamento. - Oh! Papá - murmurou ela. - Como vai longe o tempo em que eu era a tua "senhorazinha"! E aqui está o que se passou, naquela noite, de cada lado da parede

Mas

e eu mordi a minha, asseguro-te!

UMA VAGABUNDA Naquele ano, o Inverno foi muito rigoroso. Em certos dias Sara enterrava-se na neve até aos artelhos, quando ia fazer recados. Outras vezes - o que ainda era pior- a neve, derretendo-se, misturava-se com a lama, formando um horrível

lodo, viscoso e glacial; ou então o nevoeiro era tão cerrado, que os candeeiros das ruas ficavam acesos durante todo o dia,

e Londres tinha o aspecto daquela tarde, já longínqua, em que

Sara atravessara, de carruagem, as grandes ruas da cidade, com a cabeça apoiada no ombro do pai. Nesses dias, a casa da "Grande Família" parecia, mais do que nunca, confortável e acolhedora e, pela janela da biblioteca, onde se encontrava o cavalheiro da Índia, distinguia-se o clarão da chaminé, avivando ainda mais as magníficas cores dos panos que recobriam as paredes. O quarto de Sara era também mais frio e lúgubre do que nunca. Tinham acabado as madrugadas radiosas, os poentes maravilhosos, e as próprias estrelas dir-se-ia que haviam desaparecido para sempre. Grossas nuvens cinzentas ou amareladas passavam tão baixo, que pareciam tocar a trapeira, desfazendo-se, muitas

vezes, em chuva torrencial. Às quatro horas, mesmo quando não havia nevoeiro, era noite. Se, por acaso, Sara tinha de subir ao sótão, era preciso acender uma vela. Aquele tempo influíra na disposição das criadas e Becky era maltratada como uma verdadeira escrava.

- Sem a menina -- dizia ela a Sara, com a voz rouca, uma

noite em que entrara no quarto da sua companheira-, sem a menina e sem tudo o que costuma contar-me, tenho a certeza de

que morreria. Não acha que as histórias da Bastilha parecem cada vez mais verdadeiras? A senhora parece-se cada vez mais com o chefe dos carcereiros; chego a julgar que lhe vejo as grandes chaves, de que a menina costuma falar, penduradas à cinta. Quanto à cozinheira é perfeitamente um carcereiro. Conte-me qualquer coisa: por exemplo, fale- me da passagem subterrânea que devemos abrir nas paredes da prisão. -Vou contar-te outra coisa que nos reconfortará mais - respondeu Sara, com os dentes a bater de frio. -Vai buscar o teu cobertor, embrulha-te nele, que eu farei o mesmo; encostar-nos-emos muito uma à outra, em cima da minha cama, e eu falar-te-ei da floresta tropical, donde veio o macaco do cavalheiro da Índia. "Quando o vejo sentado em cima da mesa, junto da janela, olhando para fora com uns olhos muito tristes, tenho a certeza de que ele pensa na floresta, onde saltava de coqueiro em coqueiro, pendurando-se pela cauda. Gostava de saber quem o apanhou e se deixou lá longe uma família que sustentava, com os cocos que apanhava.”

- Tem razão; esta história é mais reconfortante- disse

Becky, agradecida , mas a própria Bastilha reconforta, quando é a menina que fala nela. Porque nos faz mudar de pensamentos - observou Sara, muito embrulhada no velho cobertor, só com a carinha de fora. - Já notei isto: quando o corpo sofre, é

preciso forçar o espírito a ocupar-se de qualquer outra coisa. - E a menina consegue isso?-murmurou Beckv, olhando-a com admiração. Sara franziu as sobrancelhas durante um momento, depois respondeu corajosamente:

- Algumas vezes, sim, outras não. Mas quando o consigo, sinto-me imediatamente melhor. E creio que se pode conseguir