Você está na página 1de 8

AS IMAGENS DE RADAR NO SENSORIAMENTO REMOTO 1

INTRODUÇÃO

Tiago Gomes de Sousa 2

O Sensoriamento Remoto vem se desenvolvendo ao longo das ultimas décadas de

forma rápida e satisfatória para os cientistas que trabalham em todas as áreas abrangidas por essa tecnologia. Tal tecnologia foi desenvolvida no início dos anos 1960 e é uma das mais

bem sucedidas tecnologias de coleta automática de dados para o levantamento e monitoração dos recursos terrestres em escala global.

A definição mais conhecida dessa tecnologia é a que diz que o sensoriamento remoto é

uma técnica de obtenção de imagens dos objetos da superfície terrestre sem que haja um contato físico de qualquer espécie entre o sensor e o objeto. Esse conceito presume que haja uma certa distancia entre o aparelho imageador e o objeto a ser imageado (por isso é chamado de “remoto”), portanto, para que tal processo seja realizado, é preciso que não haja matéria que impeça a interação entre os dois aparelhos, que seja possível o transporte da informação obtida e que a interação seja expressada por uma forma de energia transmissível no espaço vazio. Sendo assim, o desenvolvimento da obtenção de imagens da superfície terrestre ocorre através da detecção e medição quantitativa das respostas das interações da radiação eletromagnética a única forma de energia capaz de se transportar pelo espaço com os materiais terrestres. Existe uma concepção errônea sobre o conteúdo produzido pelo sensoriamento remoto de que as imagens processadas são geradas apenas por satélites. Porém, desde o início do século XX, fotografias aéreas são utilizadas por cientistas para os mesmos diversos fins

que o que é considerado o sensoriamento remoto. Vale, ainda, ressaltar que tais fotografias se encaixam perfeitamente nos “pré-requisitos” citados acima para que ocorra a obtenção das imagens.

O sensoriamento remoto trabalha com dois tipos de sensores: os sensores óticos, que

obtêm imagens geradas pela reflexão dos alvos na faixa do visível do espectro

1 Texto apresentado como requisito de avaliação da disciplina Sensores de Microondas, ministrada pela Prof. Andrea Valente. 2 Aluno do segundo semestre do Curso Técnico em Geodésia e Cartografia, sob o numero de matricula

20121670045.

eletromagnético, e os sensores de micro-ondas, que obtêm imagens geradas pela reflexão dos alvos na faixa das micro-ondas.

A partir do que foi exposto acima, fica óbvio que, para entender o funcionamento da

tecnologia do sensoriamento remoto, é necessário que haja um entendimento, primeiramente,

da radiação eletromagnética e o espectro eletromagnético. Entretanto, o texto a seguir pretende trabalhar o entendimento das imagens geradas pelos sensores de micro-ondas mais especificamente.

O ESPECTRO ELETROMAGNÉTICO

O sensoriamento remoto e a fotogrametria baseiam-se na aquisição de informações

armazenadas pelos sensores e câmaras, que captam a radiação eletromagnética refletida por um objeto. A radiação emitida ou refletida por objetos da superfície física da Terra é transmitida aos sensores em forma de ondas eletromagnéticas. A informação recebida pelo sensor é codificada em termos de frequência, intensidade e polarização da onda. O conjunto de comprimentos de onda que compõem a radiação eletromagnética forma o espectro eletromagnético. Todas as ondas propagam-se a uma mesma velocidade de 3 x 108 m/s, a velocidade da luz. No caso dos sensores óticos, a fonte energética é o Sol, assim, esses sensores são chamados de passivos. O Sol origina as perturbações periódicas em forma de campos elétricos e magnéticos que são captados por esses sensores. Os sensores de micro-ondas, ao contrário dos óticos, possui uma fonte de emissão de pulsos de energia própria, não dependendo de condições naturais específicas para realizar seus trabalhos, sendo chamados de sensores ativos. O espectro eletromagnético é dividido em regiões onde o componente comprimento de onda possui características similares. O espectro eletromagnético se estende da região dos raios gama(γ) às micro-ondas. Abaixo uma representação gráfica:

Figura 01. O espectro eletromagnético

Abaixo uma representação gráfica: Figura 01. O espectro eletromagnético Fonte: MENESES, P.R; ALMEIDA, T. (2012)

Fonte: MENESES, P.R; ALMEIDA, T. (2012)

SENSORES DE MICRO-ONDAS

Como dito anteriormente, este trabalho pretende discorrer sobre os sensores de micro- ondas, portanto, vamos focar nesta faixa do espectro.

A faixa de micro-ondas é dividida em bandas, designadas por letras, que estão

representadas na figura 02. Os sensores que operam nesta faixa possuem a grande vantagem de poderem adquirir dados independentemente da iluminação solar e de serem pouco influenciados pelas condições atmosféricas. Esta característica é particularmente interessante para regiões tropicais, onde sensores ópticos sofrem grande restrição devido à alta probabilidade de ocorrência de nuvens.

Figura 02. Faixa das micro-ondas

de ocorrência de nuvens. Figura 02. Faixa das micro-ondas Fonte: DUTRA et al. (2003) Os radares

Fonte: DUTRA et al. (2003)

Os radares imageadores compreendem os sistemas de antena rotatória e os de visada

lateral (SLAR - Side Looking Airborne Radar). A definição de SLAR engloba dois tipos de radar: o de abertura real (RAR - Real Aperture Radar) e o de abertura sintética (SAR- Synthetic Aperture Radar.). Os processos de formação das imagens ópticas e de radar são muito distintos, assim como as características apresentadas por cada uma delas, tendo em vista que os sensores detectam informações diferentes. DUTRA et al. (2003), ao discorrer sobre as imagens de radar utiliza um exemplo para explicitar as diferenças entre imagens ópticas e de radar, iremos reproduzi-lo aqui:

Na figura abaixo é mostrada uma imagem óptica do sensor TM-Landsat (composição colorida, com a banda 5 colocada no canal vermelho, a banda 4 no canal verde e a banda 3 no canal azul - 5R, 4G e 3B) adquirida em 29 de maio de 1993 e uma imagem SAR do satélite JERS-1 (banda L e polarização HH) obtida em 26 de junho de 1993, a fim de se evidenciar as diferenças na formação e entre as características de ambas. Na imagem do TM-Landsat, observa-se a influência das condições atmosféricas (nuvens) acarretando a perda de informação das áreas sob as nuvens e sob suas sombras. Já na imagem do JERS-1,

não se nota a influência de nuvens e de suas sombras, porém quando esta imagem é comparada à imagem do TM-Landsat, ela é, de modo geral, visualmente menos rica em informação e detalhes, o que dificulta a interpretação visual desta imagem.

Figura 03. Comparação entre imagens de satélite e radar

Figura 03. Comparação entre imagens de satélite e radar Fonte: DUTRA et al. (2003) Consideradas as

Fonte: DUTRA et al. (2003)

Consideradas as significativas diferenças entre imagens ópticas e de radar, principalmente no que concerne ao comportamento dos dados, muitas das técnicas utilizadas no processamento de imagens ópticas não se adequam perfeitamente às imagens de radar. Portanto, para a extração de informações das imagens de radar se faz necessário o desenvolvimento de ferramentas (técnicas) específicas para a análise dos dados provenientes de radar, tais como filtros, segmentadores, classificadores, entre outras. Durante a formação de imagens , o mecanismo se resume em enviar, num intervalo de tempo programado, sucessivos pulsos de onda eletromagnética na direção do objeto, à medida que a plataforma se desloca. Como a velocidade de propagação do pulso é conhecida (velocidade da luz, 3 x 108 m.s-1 ou 300.000 km/s), medindo-se o tempo de chegada do pulso de retorno refletido do alvo, calcula-se a distância do alvo à antena e é, então, registrada a sua posição no terreno. Para cada pulso registrado é medido a sua intensidade. Para emitir esses pulsos de radiação eletromagnética, os radares de sensoriamento remoto utilizam uma pequena antena retangular, que é fixada na lateral da aeronave ou do satélite e que é apontada lateralmente em relação à direção da trajetória. Por isso, são chamados de radares de visada lateral e a imagem é oblíqua. A seguir, a o esquema busca representar como ocorre a obtenção da imagem:

Figura 04. Obtenção de imagens de radar Fonte: MENESES, P. R.; ALMEIDA, T. (2012)

imagens de radar Fonte: MENESES, P. R.; ALMEIDA, T. (2012) GEOMETRIA DE IMAGEM Uma das características

GEOMETRIA DE IMAGEM

Uma das características importantes na formação da imagem é a geometria da mesma. Tal característica possui seus próprios parâmetros. São eles: direção de azimute, direção de visada, ângulos de depressão, ângulo de visada e ângulos de incidência local (Figura 05).

Figura 05. Elementos geométricos da imagem

(Figura 05). Figura 05. Elementos geométricos da imagem Fonte: MENESES, P.R.; ALMEIDA, T. (2012)  Direção

Fonte: MENESES, P.R.; ALMEIDA, T. (2012)

Direção de azimute: É a direção de voo da plataforma, chamada de direção azimutal. O pulso de radar é enviado ortogonalmente à direção azimutal de voo, iluminando uma área no terreno na forma de um lóbulo. Ao longo do lóbulo, a área inicial mais próxima à antena denomina-se de near range (alcance próximo) e a área mais distante é denominada de far range (alcance distante).

Direção de visada (alcance ou range): A direção de visada ou direção de alcance é a direção de iluminação ao longo da qual o pulso de radar se propaga e é um parâmetro

importante no imageamento dos sensores de radar de visada lateral. É importante para

se ter uma melhor detecção do alvo, porque há uma relação direta entre a direção que

o alvo está orientado no terreno, tal como a orientação de cristas ou alinhamentos de relevo, e a direção lateral que o pulso é emitido. A regra básica para se ter um melhor imageamento e um melhor contraste dos alvos é dirigir o pulso numa direção mais ortogonal possível à orientação dos alvos.

Ângulo de depressão (γ): É o ângulo formado entre a linha de horizonte de voo e a linha que define a direção de visada. Note que na Figura 4.8 o ângulo de depressão varia do near range para o far range, mas geralmente considera-se como valor o ângulo médio de depressão.

Ângulo de visada (ϕ): É o complemento do ângulo de depressão. É medido entre a linha vertical projetada da antena à superfície do terreno e a linha de visada.

Ângulo de incidência local (θ): É o ângulo formado entre o pulso de radar e a vertical ao plano da superfície no ponto onde o pulso toca o terreno. Sendo assim, é dependente da declividade do terreno, não sendo um ângulo de valor fixo.

RUÍDO (SPECKLE)

Porém, apesar da qualidade das imagens de radar ser maior do que as imagens de sensores ópticos, também é possível encontrar problemas nesse tipo de imagem. Um dos problemas mais comuns é o chamado ruído Speckle.

O Speckle é um ruído peculiar às imagens de radar, que aparece na forma de pontos

brancos em áreas escuras ou pontos escuros em áreas brancas (Figura 06 e Figura 07). Embora sua origem ainda seja alvo de debates, a explicação mais aceita é a que se trata de interferências construtivas ou destrutivas das ondas refletidas por objetos muito próximos e que interagem ao retornar ao sensor.

Figura 06. Representação dos tipos de interferência

ao retornar ao sensor. Figura 06. Representação dos tipos de interferência Fonte: MENESES, P. R.; ALMEIDA,

Fonte: MENESES, P. R.; ALMEIDA, T. (2012)

Figura 07. Exemplo de imagem com interferência

Figura 07. Exemplo de imagem com interferência FONTE: MENESES, P. R.; ALMEIDA, T. (2012) Para eliminar

FONTE: MENESES, P. R.; ALMEIDA, T. (2012)

Para eliminar estes ruídos, dois processos podem ser realizados: a filtragem ou o processamento multi-looks. Existem vários tipos de filtros passíveis de aplicação, que foram desenvolvidos ao longo dos anos, com a intenção de reduzir a quantidade de ruídos nas imagens e não perder muitas características e informações dos alvos. Já o processamento multi-look é equivalente a aplicação de um filtro que permite a passagem de baixas frequências que, além de reduzir o ruído speckle, reduz também informações relacionadas à textura. Dessa forma a utilização de filtros adaptativos são as mais comuns para a correção do speckle, uma vez que buscam preservar a textura enquanto reduzem o ruído em questão.

CONCLUSÃO

O Sensoriamento Remoto é um recurso essencial um país com dimensões continentais como o Brasil, com uma grande riqueza ambiental e mineral, com dificuldades de transporte e comunicação nas áreas mais remotas. O uso dos sensores de micro-ondas trás a possibilidade de acompanhamento de ações ilegais e a classificação ecológica e geológica de grandes áreas a um custo por área relativamente baixo (se comparado aos meios convencionais) e um tempo de aquisição relativamente pequeno. Desse ponto de vista da economicidade, as vantagens aumentam se considerarmos que para trabalhos envolvendo grandes áreas o número de imagens a serem adquiridas será bastante grande e a possibilidade de descontos implicará em uma maior redução de custos.

Também é conveniente lembrar que tais sensores possuem complexidade e qualidade superiores aos sensores ópticos.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ANTUNES, A. F. B. Fundamentos de Sensoriamento Remoto em ambiente de Geoprocessamento. Curitiba: UFPR, 2009. MENESES, P.R.; ALMEIDA, T. Introdução ao processamento de imagens de Sensoriamento Remoto. Brasília: Editora da UNB, 2012. RIOS, L. Processamento de Imagens de Radar Orbital. Disponível em <http://pt.scribd.com/doc/108324453/20/Ruido-Speckle> acessado em 23/06/2013. DUTRA et al. Processamento de Imagens de Radar de Abertura Sintética Princípios e Aplicações. in Anais do IV Workshop em Tratamento de Imagens, NPDI/DCC/ICEx/UFMG, p. 4-13, Belo Horizonte, Junho de 2003.