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O mundo pagão (1.18-32)

Franklin Ferreira

“Para demonstrar a universalidade do pecado do homem e da sua culpa, Paulo divide a raça humana em
vários grupos específicos e passa a acusá-los, um a um. Em cada caso o procedimento é idêntico. Ele co-
meça trazendo à memória de cada grupo o fato de conhecerem a Deus e sua bondade. A seguir confronta-
os com um fato constrangedor: eles não estão vivendo de acordo com essa consciência do conhecimento
de Deus; pelo contrário, ignoram deliberadamente a Deus, contradizendo-o até, pelo fato de continuarem
vivendo em impiedade. São, portanto, culpados, indesculpavelmente culpados, diante de Deus. Ninguém
pode alegar inocência, já que ninguém pode alegar ignorância. Primeiro (1.18-32) ele retrata a sociedade
gentílica depravada em sua idolatria, imoralidade e comportamento anti-social. Depois (2.1-16) dirige-se
aos críticos moralistas (tanto gentios quanto judeus) que proclamam altos padrões éticos, aplicando-os a
todo mundo, menos a si mesmos. Em terceiro lugar (2.17-3.8), volta-se para os judeus presunçosos que se
gabam do seu conhecimento da lei de Deus, mas não a obedecem. Em quarto lugar (3.9-20), ele aborda
toda a raça humana e conclui que todos nós somos culpados e indesculpáveis diante de Deus” (John
Stott).

Gentios e judeus já se encontram sob a ira divina. Já estão condenados. A questão é de uma solenidade
grandiosa. Mas é justamente essa realidade escura e sombria que, dado o seu contraste, vai servir de pano
de fundo para realçar a luz do evangelho em todo o seu esplendor.

18: No verso 17, a justiça de Deus se revela no evangelho. Aqui, a ira de Deus se revela do céu, ou seja,
nos fatos da experiência humana. Schiller dizia que “a história do mundo é o juízo do mundo”.

Paulo: Não me envergonho do evangelho (16a).


Nós: Por que não, Paulo?
Paulo: Porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (16b).
Nós: Mas, como assim?
Paulo: Porque a justiça de Deus (isto é, a maneira como Deus justifica os pecadores) se
revela no evangelho (17).
Nós: Mas, qual a necessidade disso?
Paulo: Porque a ira de Deus é revelada no céu contra toda a impiedade e injustiça dos
homens que suprimem a verdade pela injustiça (18).
Nós: Mas, Paulo, como é que as pessoas suprimiram a verdade?
Paulo: Porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles ... Pois desde a cria-
ção do mundo os atributos invisíveis de Deus ... têm sido vistos claramente (19-20).

“Detêm a verdade pela injustiça”: “em sua impiedade estão sufocando a verdade [de Deus]” (F. F. Bru-
ce). “Ira”: o termo revela não a atitude emocional de Deus, mas sim as sensações do pecador que é puni-
do A ira é a manifestação escatológica do julgamento ou juízo de Deus (2.5; Ap 6.16ss) que já começou a
operar desde Cristo. “A idéia de que Deus é ira não é mais antropopática do que o pensamento de que
Deus é amor. A razão pela qual a idéia da ira divina está sempre sujeita a mal entendidos é que a ira entre
os homens é eticamente errada. E, contudo, mesmo entre os homens não falamos de ‘ira justa’?” (Emil
Brunner) “Seu objetivo é instruir-nos sobre onde a salvação deve ser buscada. Ele garante que só pode-
mos obtê-la por meio do evangelho, mas visto que a carne não se humilhará voluntariamente ao ponto de
atribuir louvor da salvação exclusivamente à graça divina, o apóstolo mostra que o mundo todo é culpado
de morte eterna” (Calvino).

19-20: A revelação geral é a base para o juízo de Deus (Sl 19.1ss), pois a criação manifesta aspectos do
Criador (“atributos invisíveis”, “eterno poder” e “natureza divina”). Não se trata de “panteísmo cristão” e
sim do reconhecimento do Autor por meio da obra criada. C. E. B. Cranfield: quem contempla uma obra
de artista está contemplando o artista mesmo, pois o artista se expressa em sua criação.

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Podemos falar de quatro maneiras da auto-revelação de Deus (se bem que, no decorrer do argumento,
Paulo não use consistentemente o vocabulário relativo à revelação). Por uma questão de clareza teológica,
podemos citar estas revelações divinas em ordem inversa à que é apresentada no texto:

1. Deus revela sua glória (se eterno poder e sua natureza divina) através de sua criação (1.19-20)
2. Ele revela sua ira contra o pecado daqueles que suprimem o conhecimento que têm a respeito do
Criador (1.18)
3. Ele revela sua justiça (a justa forma pela qual Deus justifica os pecadores diante dele) no evange-
lho (1.17)
4. Ele revela o seu poder nos crentes ao salvá-los (1.16)

“Já que Romanos 1.19-20 é, no Novo Testamento, uma das principais passagens que tratam da ‘revelação
geral’ de Deus, talvez seja melhor explicar brevemente em que a revelação ‘geral’ difere da revelação
‘especial’. A auto-revelação de Deus através ‘das coisas criadas’ tem quatro características básicas. Pri-
meiro, ela é ‘universal’ ou ‘geral’ porque se destina a todo mundo e em todos os lugares. Nisso ela se
opõe à ‘especial’, que é dada a pessoas específicas em lugares específicos, através de Cristo e dos autores
bíblicos. Em segundo lugar, ela é ‘natural’ porque se deu através da ordem natural. Nisso ela se opõe à
‘sobrenatural’, que envolve a encarnação do Filho e a inspiração das Escrituras. Em terceiro lugar, ela é
‘contínua’, pois vem desde a criação do mundo e continua dia após dia, noite após noite [Sl 19.2], ao con-
trário da ‘final’, que é completa em Cristo e nas Escrituras. E, finalmente, ela é ‘criacional’, revelando a
glória de Deus através da criação, no que se opõe à revelação ‘salvadora’, que manifesta a graça de Deus
em Cristo” (John Stott).

20-23: A rejeição do conhecimento de Deus:

criação Î glória de Deus

rejeição de Deus Î idolatria

Essa rejeição de Deus tem como fundamento a sabedoria humana (1.22; 1Co 1.21). 21: “Nem lhe deram
graças”. Um dos sintomas do afastamento de Deus é a incapacidade de reconhecer nele a autoria das bên-
çãos. Tornam-se esses arrogantes e autônomos. Seu coração se obscurece.

22: Distante de Deus, o homem tem a tendência de se achar sábio, sem perceber sua loucura. “Portanto, a
arrogância que é condenada aqui consiste em que, quando os homens deviam humildemente dar glória a
Deus, procuram ser sábios a seus próprios olhos e reduziram Deus ao nível de sua própria condição mise-
rável”.

23: Da adoração do Deus eterno, passam a servir a objetos, astros, e até mesmo a répteis, e não se dão
conta do ridículo dessa situação. Acham que isso é sabedoria. A Justiça de Deus revela-se na condenação
do pecador que não é capaz de reconhecê-lo como Deus (21), que não lhe dá graças (21) e que prefere
adorar ao réptil (23), um “fantasma mitológico” (Livro de Sabedoria 14.12: “Porque a idéia de fazer ído-
los foi o principio da fornicação, e a sua invenção foi a corrupção da vida”).

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24-27: A reação de Deus: “Deus os entregou” é o refrão aqui (1.24, 26, 28). “Entregou”: Afastou-se, dei-
xou que os fatos sigam seu curso. C. S. Lewis disse uma vez que “os perdidos gozam para sempre da hor-
rível liberdade que sempre pediram, e, portanto, estão escravizados por si mesmos”. “O Senhor entrega os
homens às conseqüências daquilo que eles escolheram para si mesmos” (Irving Jensen). Deus permitiu
que o pagão idólatra siga o “seu” caminho a fim de que veja a futilidade de sua existência sem Deus – é
isso mesmo que é a “manifestação da ira de Deus”. Esse julgamento de Deus é baseado na perversão da
verdade (ordem e propósitos) de Deus (1.25 – “trocaram”). Portanto, a associação estreita entre idolatria e
imoralidade sexual – filósofos gregos enalteciam a pederastia como o tipo de relacionamento ideal; tem-
plos e divindades pagãs eram dedicados à prostituição e homossexualismo como forma de culto (cf.
mesma ênfase paulina em Cidade de Deus e Confissões, de Santo Agostinho, História Eclesiástica, de
Eusébio de Cesaréia e a Epístola a Diogneto).

28-32: “Disposição mental reprovável” – uma mente desqualificada, debilitada e corrompida, totalmente
inadequada como guia para decisões morais. Há um jogo de palavras no original: “como não acharam
adequado aceitar o conhecimento de Deus, Deus os entregou à uma disposição mental inadequada” (C. K.
Barrett). Os vv. que dão uma lista, parcial, mas específica, de pecados (Gl 5.19-21; Ef 4.31ss; Cl 3.5-9).
A lista ilustra a quebra de toda a lei, como também a seriedade com que o apóstolo via o pecado. “Os
homens se precipitaram totalmente numa licenciosidade desordenada do mal, e ao apagar toda e qualquer
distinção entre o bem e o mal, aprovaram, tanto em si mesmos quanto em outros, aquelas coisas que sabi-
am provocar desprazer em Deus, as quais serão condenadas por seu justo juízo” (Calvino). Deus já falou
a todas as pessoas (Sl 19.1-6; At 17.26-27). Mesmo aqueles que nunca ouviram o evangelho tem a reve-
lação de Deus no mundo e na natureza humana. Esta revelação torna os homens indesculpáveis. Deus não
vai condenar pessoas porque rejeitam o evangelho que eles nunca ouviram, mas porque deliberadamente
ignoram a verdade que eles vêem no mundo e porque quebram a lei moral dentro de seus corações.

Revelação Î Interpretação
Ð Ð
Clara Distorcida Î Condenação

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“Este quadro sombrio e penoso do mundo pagão... é uma figura da degradação em que a humanidade
se afunda quando desviada da verdade de Deus e não mais constrangida pela sua graça. Ela foi dada como
a razão pela qual Paulo se gloriava no evangelho e desejava vê-lo proclamado em Roma. A descrição
deveria levar todos os leitores cristãos de hoje a apressarem a pregação do evangelho como a única espe-
rança da humanidade” (Charles R. Erdman).

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