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Micro-conto Abismo I – O Alimento da Dor

Por Antônio Augusto Shaftiel


Autor dos romances: Entre Anjos e Demônios, Assassino de Almas, Busca por Sangue e Príncipe da
destruição.
Autor dos RPGs: Jyhad: Guerra Santa e Abismo.

A série micro-contos do Abismo faz parte de uma série de histórias curtas sobre a ambientação do
RPG Abismo, em que os heróis devem lutar contra criaturas servas de deuses malignos e cultos que se
espalham pela Terra. O objetivo aqui é narrar algumas das situações difíceis dessa luta, que nunca pára graças
à boa vontade dos heróis. No entanto, apenas os mais fortes sobrevivem a essas provações.

O Alimento da Dor

O bisturi tocou a pele pálida, encostando pacientemente na coxa do homem deitado na maca.
Começou a cortar vagarosamente e o sangue escorreu, brotando do corpo fragilizado. A lâmina escorregou
pela pele, afundando cada vez mais e estendendo o corte. A Lâmina foi afundando e afundando, enquanto
isso, o homem deitado começava a gritar ainda de olhos fechados.
Ele acordou sobressaltado. Tentou mexer os braços e as pernas, mas logo percebeu que estava preso.
Ainda estava preso! Há quanto tempo estava ali? Ele sabia cada segundo e cada minuto. Havia um relógio
pregado no teto. Deitado na maca, ele via os segundos passarem e o visor digital da data mudar. Fora três
dias, seis horas, quinze minutos e agora uns treze segundos. Ah, o décimo terceiro segundo. Era sempre nesse
que ele acordava? Por quê? Porque estava gritando. Gritava por impulso, antes que seu cérebro percebesse o
que estava fazendo. Simplesmente gritava e chorava. Pedia por sua mãe, por seu pai, por Deus e o que mais
fosse. Ainda havia um resquício de sua fé que sobrevivera à dor.
Gritou mais uma vez, pois a incisão continuava. Não! Não era uma maldita incisão, mas uma fatia do
seu corpo que era cortada aos poucos enquanto ele gritava e pedia por ajuda. O corte chegara ao alto da coxa.
Podia sentir que a lâmina estava tocando o osso e agora começava a girar para fazer o caminho inverso e
cortar mais. Ele gritava. As lágrimas escorriam por seu rosto. Pedia para que o deixassem morrer. As pessoas
na sala não ouviam, apenas o observavam em meio á penumbra. Uma delas esticou o indicador e tocou o
sangue. Levou-o à boca e experimentou. Sorriu para um mulher ao lado e ela tentou fazer o mesmo. O homem
da incisão, com as mãos sujas, bateu na mão dela como quem impede uma criança de tocar em um doce antes
de ficar pronto.
A vítima gritava impotente enquanto um pedaço da sua coxa direita era retirado, do mesmo modo
que ocorrera a panturrilha esquerda e o peito direito. Eles retiraram a refeição e foram partilhar em seu
arremedo de eucaristia, naquela perversão que a vítima esperava que Deus punisse logo, quanto antes melhor,
mesmo que fosse depois de ele finalmente morrer, outro presente divino que esperava. Ficou sozinho, com o
ferimento sangrando. Mas a morte não viria.
Uma mão fria tocou sua virilha no que seria um gesto libidinoso, se não fossem os dedos que
terminavam em pequenas bocas de cobra. A mão se fechou sobre sua coxa e pequenas presas injetaram o
veneno. Seu sangue ferveu e ele gritou ainda mais.
- Meu Deus, me ajuda!
A criatura acabara de injeta ro veneno que o faria sofrer pelas próximas horas e impedir que morresse
pela ferida. Ela andou até ele e tocou sua cabeça carinhosamente. As línguas ofídicas dos dedos roçaram em
sua orelha. Então veio o hálito frio dela.
- Chama teu deus precioso. Ele está gritando tanto quanto você agora...
Ele queria não ter mais razão para ouvir aquelas provocações. Queria não ter mais consciência para
entender o que acontecia, porém sua mente estava tão sã quando quanto fora capturado. Ele ouvia todas as
provocações e sua fé se erodia. E cada vez que sentia que perdia um pouco mais de fé, o veneno doía mais e o
mantinha vivo por mais tempo. Então ele voltava a ter fé, achando que era a resposta, para então sofrer toda
aquela dor de novo e chorar e gritar. Eles queria ouvir seus pedidos e seus apelos. E odne estavam os anjos
nessa hora?

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