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L'OSSERVATORE ROMANO EDIÇÃO SEMANAL EM PORTUGUÊS

Unicuique suum Non praevalebunt


Ano XL, número 32 (2.068), sábado 8 de Agosto de 2009 Cidade do Vaticano Preço ; 1,00. Número atrasado ; 2,00

No Angelus de domingo 2 de Agosto, o Papa recorda a memória dos santos destes dias O Papa reza pelo fim
Bento XVI volta a reflectir da violência no Paquistão
sobre o Ano sacerdotal
O dom da vida de Paulo VI permanece na Igreja
meio-dia de 1 de Agosto à meia-noi-
te do dia 2 pode-se obter, sob as
condições habituais, a indulgência
plenária também para os defuntos,
visitando uma igreja paroquial ou
franciscana.
O que dizer de São João Maria
Vianney, que recordaremos a 4 de
Agosto? Proclamei o Ano sacerdotal
precisamente para comemorar o ses-
quicentenário da sua morte. Deste
pároco humilde, que constitui um
modelo de vida sacerdotal não ape-
nas para os párocos, mas para todos No Paquistão, as escolas e as universidades
os presbíteros, prometo falar na cate- cristãs ficaram fechadas por três dias em si-
quese da Audiência geral de quarta- nal de luto, a seguir a um ataque perpe-
feira próxima. Depois, no dia 7 de trado por extremistas islâmicos em Gojra,
Agosto, será a memória de São Cae- no Punjab, que provocou a morte de oito
tano de Thiene, que costumava re- pessoas, entre as quais quatro mulheres e
petir: «Não se purificam as almas uma criança.
com o amor sentimental, mas com o Profunda dor «pelo ataque insensato
amor dos factos». E no dia seguinte, contra a comunidade cristã de Gojra Ci-
8 de Agosto, a Igreja indicar-nos-á ty», que causou a «morte trágica de crian-
como modelo São Domingos, de ças, mulheres e homens inocentes», foi ex-
Recordando os santos, cuja memória é no ano de 1216, depois que teve pressa por Bento XVI numa mensagem –
celebrada nestes primeiros dias de uma visão, enquanto se encontrava quem foi escrito que «abria a boca
para falar com Deus na oração, ou assinada pelo Secretário de Estado, Car-
Agosto, Bento XVI voltou a falar sobre em oração na pequena igreja da deal Tarcisio Bertone – enviada ao Bispo
o Ano sacerdotal, durante o encontro Porciúncula. Jesus, aparecendo-lhe para falar de Deus». Enfim, não pos-
de Faisalabad, D. Joseph Coutts. Na men-
com os fiéis presentes no pátio do na sua glória, tendo à direita a Vir- so deixar de recordar também a
sagem, o Papa dirigiu um apelo a fim de
Palácio pontifício de Castel Gandolfo gem Maria e ao redor muitos Anjos, grande figura do Papa Montini,
que, «em nome de Deus, se renuncie a se-
para o Angelus. pediu-lhe que exprimisse um desejo, Paulo VI, de quem a 6 de Agosto se
guir o caminho da violência, que causa
e Francisco implorou um «perdão celebra o 31º aniversário da morte,
Queridos irmãos e irmãs tanto sofrimento, e que se empreenda a
amplo e generoso» para todos aque- ocorrida precisamente aqui em Cas-
senda da paz», enquanto recomenda forte-
Voltei há poucos dias do Vale de les que, «arrependendo-se e confes- tel Gandolfo. A sua vida, tão pro- mente ao Bispo que encoraje toda a comu-
Aosta e agora com profunda satisfa- sando», visitassem aquela igreja. De- fundamente sacerdotal e rica de nidade diocesana e todos os cristãos no Pa-
ção encontro-me no meio de vós, di- pois de receber a aprovação pontifí- muita humanidade, permanece na quistão, para que dêem continuidade aos
lectos amigos de Castel Gandolfo. Ao cia, o Santo não esperou qualquer Igreja um dom pelo qual devemos pródigos esforços em vista de contribuir
Bispo, ao pároco e à comunidade documento escrito, mas correu até dar graças a Deus. A Virgem Maria, para «construir uma sociedade que, com
paroquial, assim como às Autorida- Assis e, tendo chegado à Porciúncu- Mãe da Igreja, ajude todos os sacer- um profundo sentido de confiança nos va-
des civis e a todos os habitantes de la, anunciou a boa notícia: «Meus dotes a ser totalmente apaixonados lores humanos e religiosos, seja caracteriza-
Castel Gandolfo, juntamente com os irmãos, quero mandar todos vós pa- por Cristo, seguindo o exemplo des- da pelo respeito mútuo entre todos os seus
peregrinos e os veraneantes, renovo ra o Paraíso!». Desde então, do tes modelos de santidade sacerdotal. membros».
com afecto a minha saudação, unida
a um sincero agradecimento pela
vossa recepção sempre tão cordial.
Obrigado também pela vossa proxi-
midade espiritual, que muitos me Saudação do Santo Padre no concerto da Bayerisches Kammerorchester Bad Brückenau
demonstaram quando em Les Combes
me aconteceu o pequeno acidente no
pulso da mão direita. Nesta hora, tocamos o bem e o belo com o nosso coração
Caros irmãos e irmãs, o Ano sa-
cerdotal que estamos a celebrar «Toda a criação está repleta de celência, prezado Senhor Mayer, nos
constitui uma preciosa ocasião para promessas» ressaltou o Papa no final do ofereceu magistralmente.
aprofundar o valor da missão dos concerto em sua honra a 2 de Agosto, no Foi comovedor observar como, de
presbíteros na Igreja e no mundo. A pátio interno do Palácio pontifício de um pedaço de madeira, deste instru-
este propósito, da memória dos san- Castel Gandolfo. mento, flui todo um universo de músi-
tos que a Igreja nos propõe diaria- ca: o insondável e o jubiloso, o sério e
Ilustre Senhor Decano Kemmer o faceto, o grandioso e o humilde, o
mente vêm-nos pontos de reflexão Distintos músicos
úteis. Nestes primeiros dias do mês diálogo interior das melodias. Pensei:
Queridos amigos como é magnífico que num pequeno
de Agosto, por exemplo, recordamos
alguns deles que são verdadeiros mo- Hoje, pela primeira vez depois de pedaço criativo se esconde tal promes-
delos de espiritualidade e de dedica- um concerto tão bonito, não pude sa, que o mestre pode libertar. E isto
ção sacerdotal. Ontem foi a memória aplaudir com vigor. Portanto, estou significa que toda a criação está reple-
litúrgica de Santo Afonso Maria de ainda mais feliz por poder manifestar ta de promessas e que o homem recebe
Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, ao Senhor Albrecht Mayer e aos músi- o dom de folhear este livro de promes-
grande mestre de teologia moral e cos da Bayerisches Kammerorchester Bad sas, pelo menos por um pouco. Na mi-
modelo de virtudes cristãs e pasto- Brückenau o agradecimento e a admi- nha opinião, esta tarde convida-nos
rais, sempre atento às necessidades ração de todos os presentes. De igual não só a conservar as forças naturais
religiosas do povo. Hoje contempla- modo, agradeço ao Decano Kilian que nos ajudam a fazer sobressair as
mos em São Francisco de Assis o Kemmer as suas palavras de saudação, energias físicas, que são uma promessa
amor ardente pela salvação das al- bem como a todos aqueles que organi- da criação, mas também a conservar
mas, que cada sacerdote deve nutrir zaram e tornaram possível este concer- as promessas mais profundas que esta
constantemente: com efeito, celebra- to em Castel Gandolfo. Para nós, na- música €nos €indicou, €na €vigilância do
se o chamado «Perdão de Assis», turalmente, a grande fascinação desta
que ele obteve do Papa Honório III, tarde foi o som do oboé que Vossa Ex- CONTINUA NA PÁGINA 3
Quando se banaliza a vida

Existe uma triste tendência que, pouco a pouco, se está impondo nalguns aspectos da
cultura contemporânea: a banalização. Desde a vida até à morte, tudo parece submetido
a um mero processo simplificativo que tende a encerrar cada coisa numa esfera privada
sem alguma referência às outras. Deste modo, contudo, a consciência adormece e torna-
se progressivamente incapaz de emitir um juízo sério e verídico.

A aplicação da pílula ru4-86 como técnica abortiva foi uma solução para remediar a
recuperação de capitais investidos após a verificação da falência da experimentação que
fora prefixada. Já este pormenor "banal" diz muito sobre a finalidade de algumas
pesquisas que são realizadas nos laboratórios. Esquecer que a ciência e a pesquisa
tecnológica devem ter como primeira finalidade promover a vida e a sua qualidade
significa um inevitável deslize, com a consequência de colocar em primeiro lugar a sede
do lucro e não a salvaguarda da natureza. Os anúncios sobre a neutralidade da ciência
ressoam nalguns momentos especiais com o único fim de dar valor a um produto mais
que de recordar a importância fundamental que a pesquisa representa. Não podemos ser
cúmplices dessas situações, denunciadas com coragem por Bento XVI na sua última
encíclica Caritas in veritate, quando é a vida humana que está em jogo.

Deter-se somente na análise da relação de custos e benefícios para introduzir no


mercado a ru4-86 é uma posição semelhante à de Pilatos, sobre a qual se deve reflectir a
fim de não cair inclusive noutras formas de hipocrisia. Deve até existir uma autoridade
capaz de considerar os graves riscos aos quais as mulheres se submetem no momento
em que recorrem a este fármaco. Como podemos evitar o facto de que foram verificados
demasiados casos de morte após a ingestão deste medicamento? Como não considerar
os aspectos éticos que esta pílula apresenta? Como não dar importância ao impacto que
terá nas jovens gerações de moças que recorrerão cada vez mais facilmente a este uso?
As interrogações não são óbvias e exigem uma resposta que forneça argumentos para
que não se repitam os lugares-comuns. Os sofismas, neste caso, podem servir para uma
forma de satisfação pessoal, mas não convencem sobre a dramaticidade da situação que
deve ser enfrentada. Inútil tergiversação. A ru-486 é uma técnica abortiva porque tende
a suprimir o embrião que se implantou no útero da mãe. Que o recurso ao uso desta
pílula é menos traumático que se submeter à operação ainda deve ser demonstrado. O
primeiro trauma nasce no momento em que não se quer aceitar a gravidez e é
exactamente aqui que se deve intervir para ajudar a mulher a compreender o valor da
vida nascente. O embrião não é um amontoado de células nem um pouco de bolor,
como alguém teve a coragem de o definir; é vida humana verdadeira e plena. Suprimi-la
é uma responsabilidade que ninguém se pode permitir assumir sem conhecer
profundamente as suas consequências.
A ingestão da ru-486, portanto, não torna o aborto menos traumático; ao contrário,
encerra-o ainda mais na solidão do íntimo da mulher e prolonga-o no tempo. É
necessário repetir que quantos a usarem estarão a realizar um acto abortivo directo e
deliberado; devem conhecer as consequências canónicas das quais irão ao encontro, mas
sobretudo devem estar conscientes da gravidade objectiva do próprio gesto. O aborto é
um mal em si mesmo porque suprime uma vida humana; esta vida, embora seja visível
só através de uma máquina, possui a mesma dignidade reservada a todas as pessoas. O
respeito devido ao embrião não pode ser menor do que o reservado a cada um que
caminha pela rua e pede para ser escutado pelo que é: uma pessoa.

A Igreja nunca pode assistir passivamente ao que acontece na sociedade. É chamada a


tornar sempre presente o anúncio de vida que, no decorrer dos séculos, lhe permite ser
sinal tangível do respeito pela dignidade da pessoa. O caminho que deve ser percorrido
torna-se mais árduo em determinados momentos porque é difícil fazer compreender que
a via a seguir para que o primado da ética seja mantido não é fornecer com muita
tranquilidade uma pílula, mas formar consciências. Esta tarefa é árdua, pois inclui não
só o empenho em primeira pessoa, mas a capacidade de se fazer escutar e de ser
credível. A nossa oposição a todas as técnicas abortivas serve para afirmar cada dia o
"sim" à vida com tudo o que ela contém. Isto significa reafirmar o nosso apelo à
urgência educativa para que os jovens compreendam a importância de fazer próprios os
valores que permanecem como património de cultura e de identidade pessoal. Jamais
poderemos compreender a beleza que a vida contém desde o seu primeiro instante, no
qual se faz sentir presente no ventre de uma mãe, até ao momento extremo em que
deverá deixar este mundo.

Por este motivo, diante da superficialidade frequentemente ameaçadora, permanece


invariável o compromisso pela formação, a fim de estimular dia após dia o empenho a
viver a sexualidade, a afectividade e o amor com alegria e não com preocupação,
ansiedade e angústia.

Rino Fisichella - Arcebispo Presidente da Pontifícia Academia para a Vida

(Nota: a palavra ‘fadigoso’ publicada na versão em língua portuguesa no penúltimo


parágrafo foi alterada para ‘árduo’ pelo autor do blogue)