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A Sociedade do Pássaro Negro

Por Fernando Medeiros

VOLUME 01

I - Talisa Underthenner

Talisa Underthenner brandia sua espada frente a besta com quase quatro
vezes seu tamanho. A criatura parecia uma aranha gigante. Oito olhos com um
brilho amarelo a observavam. Uma pessoa comum certamente ficaria paralisada de
medo frente a tal criatura, mas não Talisa. Seu manto negro escondia seus cabelos
vermelhos, sua armadura cobria as suaves curvas do seu corpo, mas seu olhar
agudo e objetivo não escondiam sua sede de sangue.
Qualquer outro estaria arruinado frente a tamanho perigo. Este foi o destino
dos demais membros de sua comitiva. A escolha de um caminho equivocado fez
perecer prematuramente a caravana. Só restara a jovem ruiva, num local
desolador, desafiando a morte. Mas sua morte estava longe daquele lugar. Seu
tumulo não seria naquela planície pedregosa e enevoada. Seu algoz não seria uma
criatura faminta lutando apenas pelo instinto de sobrevivência.
A besta atacou. Sua garra passou longe do corpo de Talisa. Esquiva perfeita. A
espada sibilou cortando o ar. O chiado seco se espalhou pelo vale. A fera mutilada
titubeou andando para trás. Talisa avançava. Puxou uma adaga de sua bainha. A
fera entendeu que agora não era mais o caçador, era a caça, e então avançou em
ataques sucessivos e desgovernados.
Para Talisa, não existia dificuldade em se desvencilhar dos ataques. Seus
reflexos aguçados pela emoção do combate faziam os golpes da criatura parecerem
estar em câmera lenta. A espada e a adaga passearam mais algumas vezes pelo ar.
A besta teimava em manter-se de pé.
O último golpe: Talisa esquivou-se de mais um ataque, rolou até embaixo do
inimigo, e gravou sua espada no ventre da criatura. O urro mais forte da noite
ecoou pelo vale. A espada foi removida. Talisa recuou. Viu o monstro cambalear em
cima de suas seis patas. Ele debruçou-se sobre as patas dianteiras e desabou. Os
olhos amarelos aos poucos se apagaram. Era o fim. Parecia o fim.
Talisa procurou ar tentando recuperar-se do esforço. Viu a fera jogada ao
chão, derrotada e finalmente cometeu seu único erro na batalha: deu as costas.
Alguns passos e então uma dor aguda e lancinante se espalhou pelo seu ombro.
Suas pernas fraquejaram, mas ela se esforçou para manter-se de pé. A besta
erguera-se sorrateiramente a suas costas e num último esforço antes de sua morte
de fato, golpeara Talisa com seu ferrão.
Nos olhos da jovem, o susto deu lugar a ira. Ela se desvencilhou do ferrão,
girou seu corpo num movimento ágil e golpeou com violência a besta. Na cabeça da
criatura surgiu um rasgo feito pela espada da jovem com tamanha fúria que
garantiria que aquela criatura jamais se levantaria de novo. E foi o que aconteceu.
Mais uma vez a besta desabou, e agora não causaria mais surpresas.
Um sangue esverdeado vertia da fera e sujava sua espada. Talisa sentiu a dor
mais forte. Deu as costas mais uma vez, sem medo de ser atacada novamente.
Andou alguns metros, mas não conseguiu ir longe. A vista se turvava, a dor
aumentava, as pernas fraquejavam, o sangue escorria por sua a roupa, por entre
sua armadura. Ela tombou de joelhos.
Algum tempo depois a dor começou a desaparecer, mas sua vista escurecia.
Caiu no chão. Seu belo rosto encontrou o chão frio de pedras. Estava prestes a
desmaiar, mas com sua visão nublada ainda pode enxergar adiante, pousando
sobre uma saliência nas pedras, uma ave que lhe era familiar. Um pássaro grande e
negro, vindo de áreas mais quentes que aquela, e que a algum tempo não via.

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Aquela ave tinha um nome e também um dono. Trazia sempre consigo um recado,
que para Talisa na maioria das vezes era ruim. Mas era algo que não podia ignorar.
A ave trazia presa em sua pata um pequeno bilhete amarrado em fita vermelha.
Talisa sabia o que havia escrito com letras bem desenhadas naquele pequeno
pedaço de papel amarelado. Era o nome de um lugar. Um lugar onde ela deveria
estar num futuro bem próximo. Isso foi a ultima coisa que Talisa Underthenner
pode ver antes do mundo ao seu redor torna-se completamente negro e silencioso.

II - Westan Notteel

Westan Notteel algumas vezes era valente como um guerreiro e em outras,


sorrateiro como um ladino. Hoje ele tentou ser sorrateiro. Apenas tentou. A sala
escura e cheia de antiguidades estranhas parecia um parque de diversões para
Westan. Seus olhos arregalados tentavam captar qualquer resquício de
luminosidade dentro do aposento para se guiar dentro das trevas. Sua audição
captava o menor ruído que pudesse ser produzido naquela bolha silenciosa que se
tornara aquela grande sala. Mas nenhum dos seus sentidos foi capaz de lhe salvar
do flagrante.
Agora Westan, em corrida desenfreada fugia de seu parque. Corria com uma
tropa de guardas Reais em seu encalço. Devia ter imaginado que aquilo era grande
demais para ele, mas maior ainda era sua cobiça. Tão grande que mesmo em
perigo, descoberto em pleno ato ilícito, ainda foi capaz de levar uma pequena
lembrançinha: uma gema pequena, que bem podia ser um rubi, uma safira, uma
esmeralda, como também uma pedra de vidro. Westan tinha dificuldades em
avaliar bens na completa escuridão, mas não podia ser culpado por isto.
O jovem Westan era leve como um cervo, e ao contrario dos seus
perseguidores não usava qualquer tipo de armadura. Carregava apenas sua adaga.
Único tipo de arma que ele podia orgulha-se em dizer que sabia manejar.
Conseguia manter uma certa distancia de seus persistentes perseguidores. Quando
começou a cansar, e a idéia de uma fria, pequena e suja sela nos calabouços do
castelo do rei apareceu em sua mente vislumbrou sua salvação. Uma ponte
estreita, feita de cordas e madeira bastante comprometida pelo tempo surgiu a sua
frente, como um presente de algum deus piedoso que achava que Westan deveria
viver um pouco mais.
Atravessou a ponte sem hesitar, e os guardas em perseguição o
acompanharam. Na metade da ponte perceberam o erro. Era tarde demais. Westan
na outra margem olhava em direção ao grupo de homens atabalhoados que tentava
desorganizadamente voltar pelo caminho pelo qual vieram. Caíram na armadilha
mais simples que se pode imaginar.
Westan pensou em deixá-los voltar. Não tinha uma tendência assassina. Não
gostava de ver morte, apesar de isso ser uma constante em sua vida. Porém, o
capitão da guarda o fez mudar de idéia. Estático no meio da ponte, sabendo-se
encurralado, o atarracado capitão gritou-lhe numa voz rouca “Se cortares esta
corda e eu por um milagre sobreviver a queda ladrãozinho, vou te buscar no mais
longínquo dos reinos e só retornarei com tua cabeça”. No rosto de Westan abriu-se
um sorriso malicioso. Seus olhos emanaram um desafio. Sua adaga deslizou pela
corda, que amarrada a um grosso tronco sustentava um lado da ponte. A corda foi
cortada e logo depois a outra rompeu num estalo alto. Os guardas do rei
despencaram desfiladeiro abaixo até encontrarem-se com as águas geladas e
caudalosas do rio.
A história de que vencera vinte homens do rei apenas com uma adaga seria
contada repetidas vezes por Westan Notteel nas varias tavernas pelas quais ainda
passaria. Ele ainda descansava do grande esforço da corrida, e preparava-se para
agradecer ao benevolente deus dos ladinos e trapaceiros quando avistou um
pássaro negro que voava sob sua cabeça.
Fazia tempo que não via aquela ave. Sabia que ela tinha um nome e também
um dono. Sabia também que amarrado com uma fita vermelha a uma de suas

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patas estaria um pequeno papel amarelado. O papel tinha uma mensagem e ele
sabia qual era. No bilhete estava escrito com uma letra bem desenhada o nome de
um local. Um lugar para onde Westan deveria ir em breve. A ave pousou num galho
próximo a ele. Westan deixou para agradecer aos deuses depois. O dia não tinha
sido de tanta sorte assim afinal.

III - Lurkus Irndzek

Lurkus Irndzek brandia seu machado com tamanha imponência que nenhum
dos vinte inimigos ousava avançar num ataque. Aos seus pés uma dezena de
guerreiros já tinham ido ao chão. O homem gigantesco era uma verdadeira
máquina de matar. Diziam as lendas que o lado que Lurkus tomava numa batalha
era sempre o vencedor, e isso era quase a verdade.
Sua barba espessa e sua cabeleira vasta tornavam ainda mais ameaçadora a
sua fisionomia. Vestia as roupas e acessórios tradicionais de sua tribo. Quando
partia ao ataque urrava avançando contra o inimigo, num misto de fúria e prazer. A
batalha era tudo que importava em sua vida e seu machado ornado com runas a
maneira e tradição do seu povo, era seu único amor. Seu corpo grande e pesado
movia-se em estranha leveza quando em combate. Era um guerreiro difícil de se
rivalizar.
Lurkus viajava com um grupo de mercadores que contratara seus serviços
como guarda-costas. Durante toda viajem nenhum sobressalto aconteceu. Lurkus
esperava ansioso para encontrar bandoleiros, saqueadores ou qualquer espécie de
criatura que fosse burra o suficiente para entrar em seu caminho. Que prazer
imenso: Lutar com as bestas que encontrasse no caminho e ainda ganhar dinheiro
com isso. Duas semanas de viagem e nada.
Numa noite em que a caravana acampou, Lurkus notou um certo
desentendimento entre os mercadores. A viajem continuou, mas os atritos iam
ficando cada vez mais sérios. Ofensas e insultos num bate boca. Uma faca
empunhada. Sangue e finalmente o caos. Os deuses escutaram as preces de Lurkus
Irndzek.
A caravana entrou em guerra. A viajem estava comprometida. Lurkus não
tinha a menor idéia de que partido tomar. Os outros mercenários contratados pelos
mercadores logo entraram na briga, tomando partido de seus contratantes.
Espadas empunhadas, corpos ao chão. Lurkus também queria diversão.
Foi então que decidiu que não tomaria partido nenhum. Deveria acabar com
aquela briga toda. Ele deveria matar todos. Seu machado derrubou muitos
oponentes. Toda a caravana se voltou contra ele. Os viajantes uniram-se
novamente quando viram a devastação causada por aquele homem. Agora todos
eram seus inimigos.
Era difícil perceber alguma expressão entre sua barba, mas se alguém
prestasse bastante atenção veria um sorriso de felicidade. Alguém dizia “O que
você está fazendo seu grande idiota!” ou “Nós não pagamos você para isso!”. Esses
eram os primeiros a serem atacados o que no caso de Lurkus também significa
“mortos”.
Lurkus não se esforçou demasiadamente para derrubar os que restaram de
pé. Seu machado foi impiedoso com todos que encontrou em seu caminho. Restava
agora somente uma pessoa, em pé a sua frente, olhos arregalados, pernas
tremulas. Era apenas uma criança. Exalava medo por todos os seus poros. A
grande figura de Lurkus, completamente sujo pelo sangue dos adversários; vestido
numa armadura leve, cinzenta e surrada; empunhado seu amado machado, fazia
sombra ao jovem que não teria mais que quinze invernos. Empunhava uma espada
curta, em instintiva posição de guarda. Lurkus deu um passo em direção ao jovem
que deixou sua espada ir ao chão mostrando completo pânico.
Foi então que Lurkus Irndzek avistou às costas do jovem uma ave grande e
negra que pousara na carruagem dos mercadores agora mortos. Ele reconhecera
imediatamente o pássaro. Sabia que aquela ave tinha um nome e também um

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dono. Sabia que amarrado por uma fita vermelha a sua pata estaria um pequeno
papel amarelado com um nome de um local para onde deveria ir.
Poucas coisas neste mundo poderiam causar receio aquele homem, e
certamente a visão daquela ave negra era uma delas. Ele era um homem de poucas
palavras, e foram poucos que ouviram sua voz rouca e possante falando algo além
de um urro de guerra. O jovem guerreiro foi um deles: “Vá embora agora antes que
mude de idéia. Corra!”. A criança correu. Correu sem se perguntar para onde, nem
porquê. Correu sem olhar ao menos para trás para ver novamente a figura de
Lurkus, mas aquela era uma imagem que não esqueceria jamais.

IV - Timir Yastiani

Timir Yastiani era diferente da maioria dos guerreiros que povoavam o mundo
em ao menos um detalhe. Enquanto os bravos guerreiros se aventuravam
brandindo suas espadas mundo afora, Timir aguardava sentado em sua cadeira,
que propositalmente havia sido entalhada numa rocha forte e robusta e que parecia
um trono digno de qualquer rei. Timir não era um rei, mas aquela pretensão nunca
lhe havia saído da mente mesmo depois de tantos anos de vida.
É verdade que ele já havia feito como os jovens, saindo em jornadas de
aprendizado. Se aventurando em busca de riqueza e fama. Mas aqueles eram
tempos passados. Agora Timir Yastiani permanecia quase todo seu tempo sentado
no seu trono.
Mas mesmo sem sair de seu lar, ele continuara a ser um guerreiro feroz. Seus
reflexos ainda eram rápidos, sua desenvoltura com suas espadas continuavam
impressionantes, seu instinto assassino permanecia afiado. Timir continuava a ser
um dos homens mais temidos da região.
A verdade é que durante todos os anos em que perambulou pelo mundo, ele
acumulou riquezas suficientes para realizar seu sonho. Ou pelo menos parte dele.
Em uma dessas andanças um dia ele encontrou um lugar. O lugar que para ele
parecia perfeito. Utilizou cada moeda que havia conseguido e transformou aquele
lugar no seu lar.
Timir projetou e construiu uma das mais intrincadas e perigosas masmorras
do reino. Uma aventura tentadora para os jovens aventureiros. Uma armadilha
perfeita. Os guerreiros se embrenhavam pelos túneis repletos de perigos
imaginados pela mente fértil e criativa de Timir. Aqueles que conseguiam chegar ao
final deparavam-se com um homem soturno, prostrado numa cadeira, entalhada
numa rocha num grande salão. Ele era o desfio final. Idéia genial - pensava Timir,
sempre que algum bravo aventureiro chegava a seu aposento, exausto e ferido.
Presa fácil, e que geralmente trazia algo de valor consigo.
Mas desta vez o jovem que lhe surgira à frente parecia que lhe causaria algum
trabalho. “Melhor”, pensava Timir, juntando o útil ao agradável. O embate se
prolongava demais, e Timir começou a hesitar. Não era uma batalha tão fácil
quanto imaginara, mas ele tinha cartas na manga. Desleal, mas inteligente, Timir
acionara a armadilha que cortou o garoto em dois. A lâmina escondida na parede
despencou sobre o pobre rapaz, que estava prestes a vencer Timir num embate
justo de esgrima. Foi um bom adversário, mas por sorte Timir estava preparado.
Cansado, Timir recostou-se novamente sobre seu trono. Buscava o ar pesado
e quente do lugar com dificuldade, foi quando viu algo que o fez estremecer.
Voando pela porta escura que ficava a sua frente, ele viu uma ave, estranha e
negra. Ela voou pelo salão a pousou próximo ao corpo dilacerado do jovem ao
chão. Aquela ave era conhecida de Timir. Ele sabia o que a trazia ali. Sabia que
amarrado a uma de suas patas estaria um pequeno bilhete com uma mensagem
que se resumia a um nome de um lugar. Timir deveria se prepara para deixar seu
lar novamente. Uma viagem sombria o aguardava. Era provável que essa fosse à
recompensa pela sua deslealdade com tantos inimigos que o desafiaram, pensava
ele.

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V - Eowomilmar Redrallana

Eowomilmar Redrallana correu os olhos pela densa barreira que os troncos


dos pinheiros formavam a frente. Procurava um sinal, uma pista. Certamente
encontrou, pois em um instante se embrenhou por entre as árvores mata a dentro.
Corria com tamanha intimidade pela floresta, que nenhum galho ou outros
obstáculos quaisquer podiam lhe atrapalhar. Seus cabelos longos e negros, bem
como sua longa barba, faziam-no parecer mais velho do que realmente era. Tinha o
corpo esguio, os braços e as mãos longas e andava curvado.
Seguia um rastro invisível para a maioria das pessoas, mas Eowom era um
experiente caçador, e aquele era seu território. A nevoa tênue que cobria o vau por
onde ele agora passava deixava um ar lúgubre aquela manhã. Era assim a maioria
dos dias de Eowom. A espreita, com seu arco preparado para um tiro perfeito.
Às vezes Eowom esquecia os ensinamentos de seus mestres, que só caçavam
quando tinham fome, e fazia do seu trabalho sua diversão. Nem sempre abatia
suas presas para se alimentar. Escolhia às vezes algumas criaturas de carne
intragáveis, mas que lhe traziam algum desafio. A solidão da floresta ficava de
lado, quando todas as suas energias e seus pensamentos estavam voltados apenas
para sua caça.
Mas a floresta às vezes trazia surpresas. Algumas agradáveis, outras nem
tanto. Na maioria dos dias Eowom era o caçador, mas hoje ele seria a presa.
Entretido em decifrar as pistas deixadas por um cervo que lhe pareceu um
bom almoço hoje, Eowom não percebeu os dois olhos ávidos que o observavam
desde que entrara na floresta. Próximo a um leito de um rio calmo, escondido entre
arbustos e com seu arco e flecha armados, ele mirava o tranqüilo cervo que bebia
tranquilamente água. O animal nem sonhava que estaria prestes a sentir a eficácia
da pontaria de Eowom.
A situação exigia um tiro perfeito, e Eowom calmamente aguardava, puxando
a corda retesada do arco e mirando a cabeça do animal. Foi quando o cervo mexeu
bruscamente a cabeça. Pressentira um predador. Seus olhos buscavam a criatura a
sua espreita. Seus músculos se retesaram. E para surpresa de Eowom, as atenções
do cervo prestes a ser abatido não estavam voltadas em sua direção.
Finalmente Eowom pode sentir a sua esquerda uma sutil presença. Seus
ouvidos ficaram em alerta e puderam escutar entre os ruídos da floresta o som da
respiração de um animal. Com sua experiência podia prever o tamanho da criatura
e até sua distância. Os olhos do cervo confirmavam a presença. O animal as
margens do rio viu o predador, mas não correu. Sabia que não havia perigo para
ele ainda. Naquele momento a presa era outra. A presa era Eowomilmar.
Agachado atrás de um tronco, com seu arco ainda armado, tudo que Eowom
pode fazer foi girar seu corpo para a esquerda e rezar para que seu tiro fosse
perfeito. Muito mais prefeito do que acertar uma flecha num cervo bebendo água
num rio. Tinha que acertar um tiro numa besta atacando, e com seu corpo em
movimento. Dependia de seus reflexos, sua pontaria, sua agilidade e de muita
sorte.
Ele agradeceu a todos os deuses que conhecia, pois nenhum desses pré-
requisitos lhe faltou naquele instante. A flecha cravou-se no olho esquerdo do
imenso lagarto que se contorcia de dor ao lado de Eowom. De sua boca escorria
uma gosma venenosa fatal para qualquer criatura mesmo que fosse dez vezes
maior que Eowom.
Ofegante e suando frio ele olhava o lagarto agonizante e se perguntava como
se deixara ser tão imprudente a ponto de não perceber a aproximação do monstro.
Afastou-se do lugar e voltou-se novamente para o leito do rio onde estava o cervo
que lhe salvará a vida. O animal certamente seria poupado, pelo menos hoje. Os
olhos do cervo foram seus olhos por um instante, o suficiente para lhe salvar a
vida, mas quando se voltou para o lugar onde o cervo deveria estar, perguntou-se
se deveria ter sobrevivido mesmo.

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No lugar onde o cervo deveria estar Eowom viu outra criatura. Um pássaro
que lhe trouxe más lembranças. A ave negra pousara sobre o leito pedregoso e
parecia olhar em sua direção. Eowom sabia o que ela fazia aqui. Amarrado ao seu
pé, estaria um pequeno bilhete, escrito com uma bela letra e que trazia apenas o
nome de um lugar onde Eowom deveria estar dentro em breve. Eowom olhou
novamente o lagarto, agora paralisado pela morte. Da sua boca escorria a baba
venenosa que poderia ter-lo matada em instantes. Qual destino seria mais cruel,
perguntava-se o jovem.

VI - Daren Waynolt

Daren Waynolt depois de anos de batalhas sangrentas e muita morte,


recolhera-se na sua pequena fazenda nas terras do oeste. O lugar aprazível foi
transformado por Daren no seu paraíso pessoal. Vivia junto a sua mulher e seus
quatro filhos, tirando da terra seu alimento e vivendo uma vida quase pacifica.
Quase, por que as terras adquiridas por Daren ficavam muito próximas as
fronteiras. Um lugar desolado, onde as tribos Orcs gostavam de fazer incursões e
trazer o caos.
Para Daren Waynolt, orcs não eram problemas, depois de todas as aventuras
que passara, enfrentado criaturas que matariam outros homens só com o olhar.
Ele, as vezes nostálgico, lembrava os grandes perigos por que passara. Daren, um
líder nato, guiou seu grupo por entre as mais perigosas florestas. Aventurou-se por
montanhas geladas e desertos de sol escaldante. Uma vida verdadeiramente
emocionante, mas chegara a hora de parar.
Apaixonado por sua mulher e seus filhos, Daren deixou de lado os dias de
peregrinação em busca de aventura e se assentou em sua terra, onde hoje tentava
ser feliz. Mas, uma vez um aventureiro, sempre aventureiro.
Daren olhava ao longe, do alto da colina em que construira sua casa, a vasta
planície plantada de trigo. Orgulhara-se de seu trabalho. Era chegada a hora da
colheita. Daren fazia os preparativos, mas outros cobiçosos pelo fruto de seu
trabalho também.
Ao longe seu olhar aguçado pode divisar o grupo de orcs que se aproximava.
O ódio subiu a cabeça, mas sua experiência o fez ponderar. Sabia exatamente onde
intercepta-los e concluiu que o grupo de aproximadamente dez orcs poderia ser
combatido por ele.
Disparou em descida até sua casa. Os jovens e sua esposa haviam ido à
cidade próxima, em busca de mantimentos. Entrou correndo pela casa vazia.
Encontrou embaixo da cama o baú, no qual guardava com carinho e precaução sua
espada, estimada companheira de longa data que lhe salvará de vários perigos.
A arma, de beleza extraordinária não mostrava sinais de velhice, ao contrario
do dono. Os dias de fazendeiro de Daren tinham sido cruéis com ele, mais do que
os de aventura. Sua pele era queimada pelo sol. Seus músculos, enrijecidos pela
enxada. Seu corpo envelhecera rápido nos últimos anos. A barriga protuberante
indicava a sua vida alimentar farta e desregrada. Definitivamente não era mais o
mesmo, mas mesmo assim, sua inteligência, astúcia e técnica não foram
esquecidas. Os dez orcs não seriam um trabalho complicado para ele.
Desceu o caminho por entre a plantação, com a espada preparada. Escondeu-
se no matagal, as margens da estrada onde os inimigos apareceriam. O vento
soprava calmo, dando vida aos espantalhos espalhados pela plantação para
espantar aves inoportunas. Ouviu o barulho que anunciava a chegada do bando de
orcs. Os barulhentos inimigos logo contornaram a curva adiante e foram avistados
por Daren, que se mantinha escondido.
Uma tocaia de um homem só. Mas foi o suficiente. Quando os orcs passaram
por seu esconderijo, Daren os surpreendeu. Atônitos e desorganizados, foram
presas fáceis. Ouviu-se o clangor de espadas, mas logo silêncio. Dez orcs ao chão,
e um homem velho e cansado, que sentara sobre uma pedra, buscando fôlego.

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Olhando a arma cravada na terra, bem no meio do caminho, Daren meditava.
Os corpos dos orcs ao chão fizeram aflorar lembranças de sua juventude. Lagrimas
rolaram do rosto do homem austero que largara o mundo que vivera em toda sua
juventude e dedicara-se exclusivamente a família. O vento ainda soprava
suavemente, agitando a plantação e trazendo alento ou mais desespero a vida de
Daren, pois ao longe ele pode ver a aproximação de uma ave negra.
A certeza de que aquele pássaro não era um corvo ou outra ave qualquer foi
certificada quando o animal pousou sobre um espantalho, sem a menor cerimônia.
As pernas de Daren tremiam, com aquela visão. Ele lembrava exatamente que
pássaro era aquele. Sabia que ele trazia uma mensagem. A vida de Daren mais
uma vez dava uma guinada. Para o bem ou para o mal, ele devia partir.
Quando a bela esposa de Daren Waynolt e seus três filhos chegaram a casa,
não o encontraram. Vasculharam toda a vasta propriedade e se preocuparam
quando acharam os corpos de dez orcs mortos. Mas a preocupação foi maior
quando encontraram o bilhete deixado em cima de uma mesa: “Uma vez
aventureiro, sempre aventureiro. Desculpem-me! Daren.”.

VII – Tale Mensen

Tale Mensen achava agradável o cheiro suave das terras do sul. Era algo
como o cheiro da maresia vindo das praias próximas misturado com o cheiro da
relva baixinha que transformava o bosque num imenso tapete verde rodeado por
algumas frondosas árvores. Talvez um dia fizesse até uma canção sobre isso, mas
hoje seu alaúde descansava silencioso sobre a grama. Além do mais, para um
fugitivo da justiça qualquer lugar longe das autoridades policiais era divinamente
bem perfumado.
A jogatina o tinha deixado em maus lençóis e vez por outra tinha que usar de
artifícios ilícitos para saldar suas dividas. O problema é que tudo foi ficando
complicado. Muitos credores, muitas dividas, muitas trapaças e no fim, obviamente,
muitos guardas no seu encalço. Foi parar ai. Nas estranhas e quentes terras do sul.
Mas especificamente, neste relvado a luz da lua, e por Deus, que linda e perfumada
donzela tinha em seus braços.
A luz da lua a pobre dama não pode resistir. Ele lhe falou coisas belas ao
ouvido. Cantou-lhe canções de amor. Primoroso maestro das palavras. Agora
faziam amor naquele cenário paradisíaco. Ele em dissimulada avidez e ela
derretendo-se em prazer. Nada mais que normal um casal de jovens descobrindo
os mistérios do amor, não tivesse ele o caráter que tinha, e não fosse ela a filha de
quem era. A filha de que era... Pois bem... Entre gemidos de prazer ele pensava em
como desposar a filha do Barão Algerian seria benéfico para sua carreira. Entraria
na vida de fidalgo pela porta de trás, mas entraria, e isso é o que importava. Isso
era o que pensava, mas os Deuses tinham outros planos para ele.
Continuavam naquele entrelace carnal e talvez esse tivesse sido seu erro.
Não pelo fato em si, porém mais pela promessa que fizera quando aquele maldito
Dragão Vermelho atravessou seu caminho há cinco anos atrás. Eram um destemido
grupo de aventureiros, mas um Dragão Vermelho conhecido carinhosamente como
Flagelo de Fogo, definitivamente era demais. Enquanto a urina descia
descontroladamente pelas vestes e ele tremia feito uma criança prestes a levar
uma surra, prometera a todos os Deuses que se escapasse vivo adotaria uma vida
de moderação. Viraria monge celibatário. Com uma sorte incrível, saiu vivo e sem
nenhum arranhão. Depois, achou que tinha exagerado um pouco. O tal dragão nem
era tão grande assim. E lá se ia a promessa por água abaixo. Esquecera que os
Deuses tinham uma determinação e prazer curiosos de castigar os pobres mortais
ainda nesta terra.
Chegavam ao clímax. A senhorita tentava agarrar-se a qualquer tufo de
grama que sua mão alcançasse, contorcendo-se em prazer. Os olhinhos da moça
brilhavam em exultante alegria. Foi quando por um instante ele avistou algo

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estranho. Empoleirada numa árvore um pouco distante estava uma soturna ave
negra. Podia ser um pássaro qualquer, mas não era. Mesmo a aquela distância Tale
reconheceu o pássaro.
- O que foi meu amor? Não pare, por favor!!
- ...
- Não entendo... O que aconteceu? Por que...
- ...
- Querido...
- ...
Ele sentou-se desconsolado. O olhar baixo. A cara emburrada.
- Você não precisa explicar. Isso acontece com todo homem... Blá Blá Blá Blá
Blá...
Ele não escutava mais a pobre e insatisfeita senhorita. Sabia que aquela ave
negra trazia uma mensagem. Amarrada a sua pata com uma fita vermelha um
papel escrito em uma letra bonita trazia uma mensagem. Um lugar para onde
deveria seguir em breve. Seu sonho de ascensão social se esvaia aqui. Uma
aventura tenebrosa surgira. Os deuses certamente estavam com raiva dele. E ao
que parecia muita raiva. Do pequeno bosque próximo Tale escutou vozes:
- Ele está ali. Vamos pegar o desgraçado! Você não vai desonrar a minha
família seu bastardo!
Vestiu as roupas, pegou o alaúde e partiu em disparada sem ao menos olhar
para trás.
-Querido! Não vá embora! Isso acontece...

VIII – Na Taverna da Raposa Arpoada

Fazia tempo que não vinham à cidade grande. Tudo estava mudado. Nada de
guardas inoportunos nas ruas. Muita fumaça. As prostitutas e os ladrõezinhos
infestavam os becos escuros. Um cheiro repugnante de carneiro assado se
espalhava por todo lado. Sarjetas imundas e prédios caindo aos pedaços. Um lugar
onde o único refúgio descente para os aventureiros era a Taverna da Raposa
Arpoada, definitivamente não estava bem.
O lugar era mal iluminado e barulhento. A todo instante um grupo de
aventureiros mal cheirosos escancarava a porta entrando ruidosamente com um
companheiro ferido mortalmente em alguma aventura idiota em busca de ouro. O
Taverneiro gordo, carrancudo e mal-educado servia em pratos sujos uma gosma
cinzenta e espessa dizendo que era comida. E ainda cobrava os olhos da cara.
Vários grupos de aventureiros se reuniam naquele lugar vindo de todas as
partes do continente, e até de lugares mais distantes ainda. Figuras estranhas
falando línguas estranhas e planejando aventuras estranhas enchiam o lugar. Em
pé, num canto da taverna, uma ladina, um guerreiro com uma espada maior que
ele e uma feiticeira das florestas e seu lobo branco mal encarado conversavam
reservadamente. Sentados em uma mesa adiante, um careca de armadura
brilhante que usava um mangual bem ameaçador e um mago que se esforçava
para parecer o mais sombrio possível riam de alguma coisa que um gnomo
fumando um cachimbo estranho lhes contara.
No meio de toda essa balburdia, em uma mesa mais isolada, um outro
grupo se reunia. Cinco homens e uma mulher dispostos ao redor da mesa redonda
olhavam com atenção um envelope amarelado. Lacrando o envelope, um selo
negro onde estava desenhado rusticamente um pássaro.
- Vamos abrir essa coisa logo! Não agüento mais esperar. – sussurrou Westan.
- Calma seu idiota! Daren ainda não chegou! Vamos esperar mais um pouco. –
retrucou Talissa.
- Idiota? Como você ousa...
- Qual o problema idiota? Vai me dizer que estou errada?
Westan já segurava o cabo da adaga, quando Daren surgiu à porta.

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- Boa noite senhores e senhoras. Vejo que não perderam o costume. Guarde a
adaga seu idiota. Você sabe o que acontece se um de nós morrer, não sabe? E por
Deus, se não fosse por isso, sua cabeça já estaria muito longe do seu corpo.
Westan guardou a arma, com a cara emburrada e Talissa relaxou a
expressão tentado esquecer quantas vezes já pensara em botar tudo a perder só
para ter o gostinho de enfiar suas espadas na barriga daquele estúpido.
Daren puxou uma cadeira e juntou-se ao grupo. A tensão e o silêncio
voltaram a tomar a mesa. Olhavam o envelope com uma mistura de tristeza e
curiosidade em seus rostos.
- E então? Faz quase cinco anos, heim? O que trás esse destemido e abençoado
grupo de aventureiros novamente a essa espelunca? – falou Daren com uma
forçada ironia.
O grupo devolveu-lhe o sorriso sem graça.
- Esperávamos por você. Vamos! Abra!
Daren pegou o envelope com cuidado, como se pegasse um antigo
pergaminho prestes a se desfazer em poeira. Quantas vezes já havia feito aquilo?
Incontáveis, certamente. Olhares atenciosos acompanhavam seus movimentos.
Abriu o envelope com cuidado depois abriu o selo com mais cuidado ainda. Tirou do
envelope uma folha tão amarela quanto. Abriu-a e leu.
- E então? Desembucha logo homem!
- Que porcaria é essa? Não entendi nada!!
- Como??

IX – A Sociedade do Pássaro Negro

- Se esse imbecil usasse seu alude com metade da destreza com a qual
maneja seu sabre, ai sim, estaríamos ouvindo música. – sussurrou Westan, para o
calado Lurkus entretido em lustrar mais uma vez seu imenso machado.
Recostado num canto, Tale se esforçava numa canção que acabara de
compor, falando sobre um grupo de aventureiros rumando numa missão insólita.
Hoje, incrivelmente, todos concordavam com Westan. Não era mesmo um bom dia
para Tale e a música era um completo fiasco. Junte-se a isso o sol escaldante e a
comida intragável de Daren. O grupo estava especialmente irritado, e estavam
apenas no terceiro dia de viajem.
Um pássaro negro gralhou sobre o acampamento deles. Voou rasante e
pousou sobre a pedra próxima a Timir.
- Pássaro desgraçado! Juro que se um dia isso terminar vou matar todas as
aves negras do mundo! – praguejou Timir.
- Calma! A culpa não é da ave.
- Não é mesmo. Ela não forçou ninguém a assinar aquele papel.
- Arf! Somos um bando de ignóbeis mesmo. Assinar um contrato com nosso
próprio sangue com certeza não podia dar numa coisa boa! Maldita hora...
- Você esqueceu que na época estávamos sem muitas opções, não é Westan?
- Sem opções? Nós não tínhamos nenhuma opção!
- E esse negócio de anel... Bem que meu amigo Halfling me avisou. Esse
negócio de botar anel no dedo sem antes identificar é um problema. Ele mesmo se
meteu numa baita encrenca! Teve que viajar meio mundo pra destruir um tal anel
ai. Coisa complicadíssima!
Nesta hora, todos quase que simultaneamente olharam para suas mãos
direitas. Perdido entre muitos outros anéis, como era de costume entre os
aventureiros, no dedo médio de cada um estava um discreto anel escurecido pelo
tempo. Tinha um entalhe rústico que lembrava um pássaro. Não esconderam o
desanimo e a tristeza. Um silêncio bastante conhecido pairou sobre o
acampamento.
- Daren! Você pode ler a carta novamente? – pediu Eowom.
- De novo! Já li e reli mil vezes...

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- Pode ser que tenhamos alguma idéia do que se trata agora! E aquela última
frase é bastante intrigante...
- Pois bem... Lá vai:

À Sociedade do Pássaro Negro

Prezados Senhores(as),

Viajando através da Cordilheira de Hojat, passando ao norte da Floresta


Fulgurante está seu caminho. Vocês irão encontrar uma estrada bem conservada
usada comumente por mercadores que liga a cidade de Efrain até os vilarejos do
Norte. Seguindo a estrada a pouco mais de três dias a cavalo, passarão por um
marco facilmente identificável. Trata-se de uma torre de guarda abandonada. Neste
ponto, vocês estarão nas fronteiras com as terras das tribos Uark. Provavelmente
não terão problemas com os Uark, pois já tomei minhas providências. Sigam a
trilha que leva para o norte. É fácil perder-se na Floresta de Pedra, por isso, sejam
cautelosos. Num bosque que a trilha interceptara está o lar de uma anciã feiticeira.
Ela está de posse de algo que me pertence e vocês sabem do que se trata. Tragam-
no para mim de qualquer maneira, não importando as conseqüências. Como de
costume, me reservo no direito de não participar dessa emocionante aventura com
os senhores(as). Partam com meus sinceros votos de boa sorte.

P.S.: Cuidado com o Idrish.

T.L.

- Do jeito que ele fala, as vezes até parece que é bom.


- Parece...
- Um cara que nos manda andar quilômetros pra encontrar uma velha no meio
do mato não é nada bom rapaz.
- E esse negócio de Idrish? Que porcaria é essa?
- Quem sabe... Eee... Começou a ladainha de novo!
Tale dedilhava seu alaúde. Uma nova canção surgira em sua mente. O
pássaro preto, que descansava tranquilamente em sua pedra, não agüentou a
cantoria e vou pra longe!

X – A velha anciã

Atravessaram a Cordilheira de Hojat sem muita dificuldade. No dia seguinte


estavam na Floresta Fulgurante, e que esplendorosa visão ao entardecer. De uma
pequena colina eles viam o por do Sol que transformava a floresta de árvores com
a folhagem avermelhada numa imensa e coruscante planície flamejante. Era uma
imagem esplendorosa.
Seguiram viajem. Logo encontraram o marco. Embrenharam-se pela trilha e
alguns quilômetros adiante finalmente chagaram a Floresta de Pedra. A região
vulcânica era inóspita e parecia desabitada. Nunca haviam colocado os pés
naquelas terras.
- Nunca pensei por que era chamada assim. Floresta de Pedra. Um nome
apropriado. - falou Daren consigo mesmo.
A natureza caprichosamente esculpiu as rochas cinzentas em um formato que
lembrava árvores. O caminho pedregoso não era difícil de percorrer. Não havia
nenhuma forma de vida. Parecia difícil acreditar que uma velha conseguiria chamar
aquele lugar de lar. Finalmente avistaram um casebre adiante. Nada de mais. Uma
casa simples de madeira. Da chaminé subia uma coluna de fumaça.

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Aproximaram-se cuidadosos. Em anos de andanças em aventuras aprenderam
a estar preparados para tudo. Na verdade para quase tudo. Daren parou o grupo
atrás de uma rocha, próximo a entrada principal do casebre.
- Vamos traçar uma estratégia. Cercar e invadir. Sabe lá Deus o que é que
existe dentro dessa casa!
- É verdade! Ele não nos mandaria aqui se fosse uma simples velhinha.
- Ok! Então Timir e Westan vão pela direita. Talisa e Lurkus, pela esquerda.
Eu, Tale e Eowom vamos invadir pela porta principal. Vocês entram pelas janelas
laterais. Eowom! Você pode escutar alguém lá dentro?
Eowomilmar Rendralana aguçou sua apurada audição e realmente escutou
algo. Algo que todos puderam escutar também.
- Meus filhos! Já chegaram? Não os esperava tão cedo! Entrem. Deixei um
chazinho no fogareiro para vocês e acabei de tirar uma fornalha de biscoitinho.
Vamos lanchar! Entrem! Entrem!
Todos levantaram num pulo com o susto. Olharam estupefatos para a entrada
do casebre. Uma velha parada a porta segurando uma vassoura sorria com sua
boca desdentada na direção deles.

XI – Chazinho com biscoitos

Os sete aventureiros estavam acomodados confortavelmente em banquinhos


em volta da lareira. Tomavam chá e comiam os fabulosos bolinhos que a velha
preparara. Ninguém se lembrou de se perguntar onde a anciã podia ter conseguido
madeira para alimentar o fogo, ou mesmo de que eram os biscoitinhos. A verdade é
que estavam ótimos, e depois de uma longa viajem aquilo era mais do que
merecido.
Finalmente Daren lembrou-se do que haviam ido fazer naquele inóspito lugar.
- Minha senhora. Não gostaríamos de importuná-la, mas...
- Então não me importunem, ora!
- Er... Mas é que viemos aqui em uma missão.
- Bem... Então que os Deuses abençoem sua jornada!
- Er... Mas é que ela tem haver com a senhora...
- Então que os Deuses me abençoem. Vamos lá! Digam logo do que se trata.
- A senhora possui algo valioso que temos que levar. – falou Talisa.
- Nada disso! Ninguém vai levar o retrato do meu amado Jeten. Que os
Deuses o tenham meu amor. – resmungou a velha.
- Não se trata disso minha senhora. Não queremos levar o retrato do finado
Jeten, sejam quais propriedades mágicas ele possa ter. O que queremos é bem
mais simples. – falou impaciente Timir.
- É! Queremos A Moeda! – falou Westan.
- Moeda? Moeda? Que moeda? Ah! A Moeda... Claro! – falou a velha, puxando
sua algibeira de onde tirou uma moeda prateada.
- A senhora nos daria A Moeda? – perguntou ingenuamente Daren.
- Claro que não!
Todos se olharam confusos, sem saber o que dizer. A velhinha continuou.
- Bem. Eu posso trocá-la por algo.
Um sorriso se abriu no rosto dos sete aventureiros. Parecia que pela primeira
vez uma aventura acabaria se derramamento de sangue.
- E o que a senhora deseja em troca? – perguntou Talisa.
- Sabe minha filha... Depois que o velho Jeten morreu eu fiquei tão solitária.
Faz tanto tempo que não... Sabe como é, né? Eu não... Você me entende?
Talisa, meio sem graça, tinha entendido a velhinha.
- A senhora quer um namorado?
- É!
Um sorriso malicioso se desenhou no rosto da jovem guerreira.
- Não será difícil de arranjar, não é rapazes?

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XII – O Idrish

Os Deuses eram sábios e aquela difícil escolha seria tirada no palitinho.


Certamente o mais apto seria escolhido. Eles formaram um circulo para lançar a
sorte. A velha, que não disfarçava seu contentamento, esperava ansiosa num canto
junto com Talisa. Cada um puxou seu respectivo palito. O maior era o escolhido.
Westan ficou pálido olhando o tamanho enorme do palito que segurava enquanto os
outros davam graças aos Deuses.
- Vamos lá Westan! Não pode ser tão ruim assim! Hehehe! – sussurrou Tale.
- Vamos homem! Coragem! Honre com suas responsabilidades! – instigou
Daren.
O pobre Westan era uma tristeza só. Talisa passou por ele sem se esforçar por
conter o sorriso. Era muito melhor do que enfiar uma espada na barriga dele!
- Adeus minha senhora! Espero que nos vejamos novamente. Foi um ótimo
negócio!
- Até breve meus filhos.
Saíram da casa deixando Westan para trás sem o menor remorso. Tinham a
moeda e voltariam a trilha de volta ao mundo civilizado, ou quase isso.
Dentro da casa, Westan sentou-se desconsolado num banco pensando no que
teria pela frente. A velhinha se aproximou. Tinha um pequeno frasco vermelho em
sua mão e um sorriso estampado no rosto.
- Westan. É esse seu nome não é filho? Você sabe que eu sou uma feiticeira,
não sabe? Não uma grande feiticeira, mas durante todos esses anos da minha vida
me especializei em um certo tipo de feitiçaria e acabei por desenvolver uma poção
bastante proveitosa.
Abriu o frasco e bebeu todo seu conteúdo.
- É uma poção da juventude. Dura umas quatro horas. Então vamos ao que
interessa!
Westan, estupefato, viu a velhinha transformar-se na morena mais bela que
já tinha visto! Fizeram amor durante todas às quatro horas em que a poção fez
efeito. Mais tarde, esgotado com o esforço físico, Westan abraçado com a velhinha
que já havia retornado ao estado original, perguntou-lhe carinhosamente ao
ouvido.
- Meu amor! Diga-me uma coisa. Quando nós chegamos aqui você disse que
já nos esperava. Como sabia que viríamos?
- Ah querido! Foi o Idrish que contou!
Longe da casa, ainda na trilha da Floresta de Pedra, os seis aventureiros que
haviam deixado Westan para trás caminhavam felizes e distraídos pelo seu caminho
pedregoso. Conversavam sem compromisso, aliviados com a tarefa cumprida. Fora
até bem fácil. Só Eowomilmar estava calado e parecia pensativo.
- O que foi Eowom? Está com pena de Westan? Não me diga que queria ter
ficado lá, no lugar dele? – brincou Timir, e todos riram.
- Não é isso. É que estava me lembrando da carta. E aquele negócio de
Idrish...
- É! Estranho! Devíamos ter perguntado a velhinha.
- Não! Não é mais necessário. Eu já sei o que é.
- Sabe?
Todos voltaram a atenção para Eowomilmar.
- É. Sei. É uma palavra de um dialeto globinóide.
- E o que significa?
- Dragão...
Neste exato momento uma sombra encobriu o luar. Um urro medonho ecoou
na planície. Todos pararam bruscamente. Um cheiro de fumaça e enxofre tomou o
lugar. O sorriso se evaporou de seus rostos e um arrepio frio subiu-lhes a espinha.
O Flagelo de Fogo pousou pesadamente no caminho a frente. O imenso Dragão

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Vermelho os olhava de soslaio com seus intensos olhos escarlates. Suas escamas
vermelho-escuras brilhavam sob a luz pálida do luar. Tale urinou nas calças e Timir
não conseguia controlar a tremedeira das pernas. O Dragão falou com sua voz
potente e rouca:
- Olá bravos guerreiros. Que felicidade encontra-los por essas paragens.
Realmente deve ter sido vontade dos Deuses. Já que nos encontramos
ocasionalmente aqui, acho que poderíamos tratar de alguns assuntos que deixamos
pendentes no nosso último encontro. Acho que vocês ainda se lembram, não?
Lembram! Lembram! Certamente vocês lembram que arruinaram o meu covil e
enterraram todo o meu tesouro e depois fugiram como ratos. Hora do acerto de
contas.
- Talisa! Por acaso você ainda tem aquele pergaminho de teleporte com você?
Hora de usá-lo! Rápido! – falou Daren, antes de entrar em completo pânico.

FIM

O autor

Fernando Medeiros

Nem escritor, nem história


Nem curva, nem reta
Um ponto visto de longe
Perdido no horizonte
É imagem, é silêncio, é ilusão.

E-mail: fernando.emedeiros@gmail.com
Home Page: http://tavernadaraposaarpoada.blogspot.com

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