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A ÁGUA DA VIDA

Edgar Andrews

Preletor na 7ª Conferência Fiel em Portugal - 2007

M uitas igrejas reformadas so- Primeira, o próprio Cristo foi capa-


frem uma grave sequidão espiritual. citado pelo Espírito Santo em sua
No cenário atual, comparado com o proclamação do evangelho. Como
de cinqüenta anos atrás, há poucas Jesus descreveu o seu ministério
conversões a Cristo, pouca evidên- público? Citando Isaías 61.1-2: “O
cia de piedade pessoal e falta de Espírito do SENHOR Deus está sobre
entusiasmo por missões e evangelis- mim, porque o SENHOR me ungiu para
mo. O compromisso com Cristo e pregar boas-novas aos quebranta-
sua igreja está em baixa. O que po- dos...”
demos fazer?
CUMPRINDO A PROMESSA
Ao considerar o papel do Espí-
rito Santo na evangelização, surgem Por sua vez, os discípulos fo-
três perguntas: 1) Precisamos do Es- ram proibidos de pregar, até que
pírito Santo na evangelização? 2) recebessem a unção do Espírito (At
Devemos mencioná-Lo em nosso 1.4-5). Paulo recordou aos crentes
evangelismo? 3) Quais as atividades de Tessalônica: “O nosso evangelho
dEle na evangelização? não chegou até vós tão-somente em
A principal resposta à primeira palavra, mas, sobretudo, em poder,
destas perguntas encontra-se no no Espírito Santo e em plena con-
começo da era evangélica. João vicção” (1 Ts 1.5). Pedro resumiu o
Batista declarou: “Aquele, porém, que assunto quando se referiu àqueles
me enviou a batizar com água me “que, pelo Espírito Santo enviado do
disse: Aquele sobre quem vires descer céu, vos pregaram o evangelho” (1
e pousar o Espírito, esse é o que Pe 1.12). No Novo Testamento, esta
batiza com o Espírito Santo” (Jo é a única maneira pela qual o evan-
1.33; ver também Lc 3.16). gelho pode ser verdadeiramente
Há duas verdades distintas aqui. pregado.
2 Fé para Hoje
A segunda verdade é que João referiu ao Espírito Santo no Dia de
Batista define o ministério de Cristo Pentecostes. “Arrependei-vos, e cada
como a outorga do Espírito Santo um de vós seja batizado em nome de
sobre o seu povo. As palavras do Jesus Cristo para remissão dos
apóstolo João não são apenas uma vossos pecados, e recebereis o dom
predição referente ao Dia de Pente- do Espírito Santo” (At 2.38, ênfase
costes, são também uma afirmação acrescentada). E essa não foi uma
poderosa sobre a missão de Cristo “oferta limitada” que marcou o início
— “Cristo nos resgatou da maldição da Nova Aliança, visto que Pedro
da lei... para que a bênção de Abraão continuou: “Para vós outros é a
chegasse aos gentios, em Jesus Cris- promessa [do Espírito], para vossos
to, a fim de que recebêssemos, pela filhos e para todos os que ainda estão
fé, o Espírito prometido” (Gl 3.13- longe, isto é, para quantos o Senhor,
14, ênfase acrescentada). nosso Deus, chamar”.
Não podemos evangelizar sem Décadas mais tarde, Paulo ex-
o pleno envolvimento do Espírito pressou o interesse de que os discí-
Santo em cada etapa. pulos de Éfeso entendessem que uma
posse consciente do Espírito Santo
é necessária, para alguém desfrutar
FALANDO SOBRE
a segurança de salvação (At 19.1-
OESPÍRITO SANTO
6).
Nossa segunda pergunta é mui- O Novo Testamento apresenta
to interessante. Devemos mencionar o Espírito Santo como Aquele que dá
o Espírito Santo em nosso evange- o poder pelo qual o evangelho tem
lismo? de ser pregado e como a essência do
Reconhecendo que o Espírito dom do evangelho. Freqüentemente,
Santo é o cerne de todo evangelismo reconhecemos a primeira dessas
verdadeiro, devemos fazer menção verdades, mas raramente apreciamos
dEle quando nos dirigimos aos não- a segunda.
salvos? Os incrédulos precisam ouvir
sobre o Espírito Santo como parte
ESPERANDO NA
integral da pregação do evangelho?
OBRA DO ESPÍRITO
O Novo Testamento responde
“sim”. Quando Jesus se envolveu no Nossa pergunta final é: “Quais
evangelismo prático, Ele não hesitou as atividades dEle no evangelismo?”
em falar claramente sobre o Espírito Nossa resposta é importante porque
Santo. Jesus disse a Nicodemos que afeta profundamente nossas expec-
ele tinha de “nascer... do Espírito” e tativas, quando pregamos o evange-
ofereceu “a água viva” do Espírito lho de Cristo.
Santo à mulher samaritana, no poço As obras do Espírito no evan-
de Jacó, bem como às multidões gelismo são três. Primeira, confor-
reunidas na Festa dos Tabernáculos me já vimos, é dar poder à pregação
(Jo 3.5-7; 4.10; 7.37-39). do evangelho. Paulo testificou: “A mi-
Com a mesma clareza, Pedro se nha palavra e a minha pregação não
A ÁGUA DA VIDA 3
consistiram em linguagem persuasi- com que nos amou, e estando nós
va de sabedoria, mas em demonstra- mortos em nossos delitos, nos deu
ção do Espírito e de poder” (1 Co vida juntamente com Cristo, — pela
2.4). graça sois salvos” (Ef 2.4-5).
A segunda operação é convencer O propósito imediato do evan-
aqueles que estão mortos em delitos gelho não é reformar as pessoas ou
e pecados — convencê-los de que influenciar a sociedade. Tampouco é
são responsá- encher o audi-
veis por seus  tório da igreja.
próprios peca- O propósito do
dos, diante de Os incrédulos precisam evangelho é co-
Deus. O Senhor ouvir sobre o Espírito Santo municar vida
Jesus prometeu: como parte integral da espiritual a pe-
“Quando ele [o pregação do evangelho? cadores mortos
Espírito] vier, em ofensas e
convencerá o  pecados. Isto é
mundo do pe- algo que so-
cado, da justiça e do juízo: do peca- mente o Espírito Santo pode realizar;
do, porque não crêem em mim; da e Ele o faz de maneira soberana.
justiça, porque vou para o Pai, e não No nível humano, talvez veja-
me vereis mais; do juízo, porque o mos pouco da operação do Espírito
príncipe deste mundo já está julga- de Deus porque não a pedimos, nem
do” (Jo 16.8-11). esperamos vê-la. Se o Espírito de
Sem entrar nos detalhes desta Deus está entre nós, estejamos cer-
passagem, é claro que mentes cegas tos de que não impediremos a obra
por Satanás (2 Co 4.4) não serão que Ele veio realizar. Mas, se O en-
abertas pela persuasão ou pelo raci- tristecemos com o nosso baixo nível
ocínio humano. Uma obra espiritual de expectativa, Ele pode reter a sua
de convicção é necessária — um liberalidade por algum tempo. O ver-
abrir do coração para o evangelho. E dadeiro avivamento derrama “água
somente Deus, o Espírito Santo, pode sobre o sedento e torrentes, sobre a
realizar essa obra. terra seca”. Mas isso jaz no sobera-
no dom de Deus, e não podemos
fazê-lo acontecer.
RESSUSCITANDO OS MORTOS
Podemos realmente preparar o
A terceira operação do Espírito solo, por meio de oração e fidelidade
é, sem dúvida, trazer os mortos à pertinaz a Cristo. Mas, visto que os
vida! Ninguém pode ver ou entrar no sintomas da sequidão espiritual inclu-
reino de Deus, se não “nascer de em falta de oração e negligência, es-
novo” ou nascer do Espírito (Jo 3.1- tamos presos em um ciclo vicioso.
8). Paulo se regozijava nesta obra de Talvez tenha exagerado na figu-
regeneração do Espírito; ele disse: ra. Há exceções e lugares em que o
“Mas Deus, sendo rico em miseri- reino de Deus está avançando de
córdia, por causa do grande amor modo admirável — embora essas
4 Fé para Hoje
chamas de avivamento não sejam de Cristo e agradam os desejos car-
bem vistas por alguns, porque estão nais por misticismo, emoções e
acontecendo agora, e não no século “poder”.
XVIII. Mas esses acontecimentos
são a exceção, e não a regra. O que
EVITANDO OS PERIGOS
podemos fazer?
Um pouco de inquietação é com-
preensível. Um pastor carismático de
NEGLIGENCIANDO O ESPÍRITO
nossa cidade descreveu sua chama-
Existe algo que creio podemos da como “pregar o evangelho do
e devemos fazer. Devemos buscar Espírito Santo”. Mas é claro que o
uma maior consciência experimental Novo Testamento desconhece esse
do Espírito Santo e um entendimento tipo de evangelho — conhece so-
mais profundo do ensino bíblico a mente o evangelho de Cristo — pois
respeito da sua Pessoa e obra. a obra do Espírito é glorificar a Cris-
As igrejas reformadas, em ge- to. Como disse Jesus: “Ele me
ral, estão negligenciando estes aspec- glorificará, porque há de receber do
tos do evangelho e da vida cristã — que é meu e vo-lo há de anunciar”
sem dúvida porque tememos o de- (Jo 16.14).
clive escorregadio dos excessos ca- Creio que foi Charles Spurgeon
rismáticos. Mas um evangelho que quem disse: “Eu olhava para Cristo,
não tem lugar para o Espírito de Deus e a pomba da paz voava ao meu
não é o evangelho. Também não so- coração. Olhava para a pomba, e esta
mos verdadeiros filhos de Deus, se ia embora novamente”. Não ousamos
não somos “guiados pelo Espírito” tirar nossos olhos de Cristo, quer para
(Rm 8.14). encontrarmos a salvação, quer para
Estamos negligenciando o Espí- corrermos a carreira que nos está
rito Santo. Raramente pregamos proposta (Hb 12.2).
sobre a sua Pessoa e obra. Não é fei- Mas não devemos ir ao outro
ta qualquer menção a Ele em nosso extremo e ignorar o Espírito Santo,
evangelismo — em contraste nítido pois isto significa virar as costas ao
com a prática do Novo Testamento. Novo Testamento. Muitos crentes
Em meio a abundante literatura evan- ainda estão quase na condição de
gélica reformada, há poucos livros a Atos 19: “Nem mesmo ouvimos que
respeito do Espírito Santo, em nos- existe o Espírito Santo” (v. 2).
sos dias, e menos ainda a respeito de Você recorda que essas palavras
nosso relacionamento com a tercei- foram proferidas em resposta à per-
ra Pessoa do Deus triúno. gunta de Paulo: “Recebestes, porven-
O contrário é verdade no movi- tura, o Espírito Santo quando cres-
mento carismático. As prateleiras das tes?” Quantos evangelistas reforma-
livrarias evangélicas gemem sob o dos ousam fazer essa pergunta em
peso desses livros! Mas, em sua nossos dias? Sim, ela é tão relevante
maioria, não têm utilidade, porque hoje como sempre o foi.
fazem o leitor retirar a sua atenção
A IGREJA QUE DISCIPLINA
Jim Elliff

Na Conferência Fiel para Pastores e Líderes, em 2006, Jim


Elliff contou a história do adultério de seu próprio pai, para enfatizar
a necessidade de disciplina na igreja. Leia a história e descubra por
que Jim está tão convicto de que toda igreja deve exercer disciplina
sobre os membros que erram. Incluída como anexo desta revista,
acha-se uma declaração sobre a disciplina na igreja, escrita por Jim
Elliff e outros autores. Esta declaração tem sido usada por várias
igrejas e agora encontra-se disponível a países de língua portuguesa.
Cremos que esta declaração sobre a política de disciplina na
igreja é fiel à Bíblia e pode ser extremamente útil para qualquer
igreja. Se sua igreja não tem uma declaração sobre a disciplina,
talvez queira adotar esta apresentação bíblica como a sua posição.
Ou queira usá-la como fonte para escrever a sua própria. Acima de
tudo, oramos para que cada igreja que ainda não tem um plano de
ação referente à disciplina de seus membros adotem uma declaração
referente à disciplina na igreja, tão rápido quanto possível.

P ermita-me dizer-lhe por que a Este acontecimento nos deixou


disciplina na igreja é importante para arrasados. Não temos visto divórcio
mim. com freqüência em nossa extensa
família. Todos somos crentes, e
Alguns anos passados, meu pai, muitos de nós estamos no ministé-
um ministro do evangelho, deixou rio; e isso ocorre há quatro gerações.
minha mãe, por causa de adultério Quando meu pai trabalhava como um
com a sua secretária. Tenho a per- executivo da denominação, começou
missão dele para contar a história. Ele a aconselhar sua secretária a respei-
tem agora 89 anos de idade. to do casamento. Ela encontrou em
6 Fé para Hoje
meu pai o que não achava em seu futuro ministério, sua alegria e a
marido. Logo, surgiram as cumplici- certeza de sua própria salvação.
dades, e, em seguida, o adultério. Papai havia sido um tolo.
Meu pai fez o que nos dissera nunca Estamos agora a 25 anos daquele
deveríamos fazer: aconselhar uma tempo horrível. Felizmente, papai foi
pessoa do sexo oposto em uma sala restaurado à vitalidade cristã, embora
fechada. O adultério aconteceu qua- com cicatrizes. Seu arrependimento
tro meses antes de papai aposentar-se. fora verdadeiro e duradouro. Ele tem
Os quatro filhos se reuniram, procurado ajudar outros a evitar as
vindos de lugares distantes, na casa ações pecaminosas que cometera no
de papai, a fim rogar-lhe que se arre- passado. Recentemente, como um
pendesse. Ele pareceu arrepender-se homem idoso, ele falou a um grupo
naquela ocasião, mas logo recuou de de pastores batistas de um dos
seu arrependimento. Assim como a nossos estados: “Sou um testemunho
esposa de Ló, seu coração estava dis- de fracasso no ministério”. Mas
tante, embora ele reconhecesse que também lhes falou sobre a admirável
não havia nada da parte de mamãe graça de Deus.
que causasse o distanciamento. Ele Neste ano, nós, os quatro filhos,
não voltou atrás. Pelo contrário, di- levamos papai à viagem de sua vida.
vorciou-se de mamãe, casou-se com Viajamos a dez pequenas cidades,
a secretária e mudou para outra ci- para visitar todos os lugares memo-
dade. Seus anos de aposentadoria, ráveis da infância de papai. Fomos
que deveriam encher-se de ativida- ao lugar de sua conversão, sua cha-
des e viagens ministeriais, eram agora mada ao ministério, sua primeira
um sonho impossível. igreja, etc. Foi uma viagem que ja-
Dois anos depois, mamãe fale- mais esqueceremos. Sorrimos e
ceu. Ela morreu do mal de Alzheimer, choramos, tiramos fotos e contamos
cujos efeitos não foram percebidos histórias durante todo o percurso.
até depois do divórcio. Mamãe per- Um dia, tomamos uma estrada
manecera fiel, orava com fervor por velha que levava ao cemitério isola-
seu marido e se mostrava admiravel- do e quieto onde mamãe fora sepul-
mente perdoadora. Mas, falando com tada; o cemitério ficava a onze quilô-
moderação, o divórcio a arrasara; ela metros da familiar cidade sulina onde
nunca imaginara que isso poderia lhe mamãe crescera. Foi a primeira vez
acontecer. que papai viu a sepultura. Vinte anos
Antes de mamãe falecer, papai antes, ele se recusara a ir ao funeral,
se arrependeu verdadeiramente. Com para não criar problemas. Quando
lágrimas de angústia por suas ações, nos aproximamos da sepultura, seu
ele rogou o perdão da família e veio corpo convulsionou, com lágrimas,
ao leito de morte de mamãe, para enquanto se apoiava em nós. “Como
conversar, antes que ela morresse. posso ter feito o que fiz a esta mu-
Mas o dano já estava feito. Ele perdera lher tão amável?”, ele lamentou.
seu trabalho, sua reputação, sua Aquele foi um momento de angústia,
confiança, o respeito da família, seu mas também de alívio para todos nós.
A IGREJA QUE DISCIPLINA 7
Por que conto esta história vos e os jovens da igreja no caminho
pessoal? Na época do adultério, nossa de santidade e pureza do casamen-
família tentou convencer o pastor da to?
igreja de papai, uma das mais Qual é a verdade em tudo isso?
proeminentes na grande cidade onde A verdade é: a disciplina por parte da
meus pais moravam, a praticar a igreja é a ação mais benevolente que
disciplina eclesiástica em papai. pode ser praticada em relação a um
Esperávamos que, naquele período membro errante; e, quando essa
vulnerável, ele ouviria e mudaria de disciplina não é exercida, há uma
atitude, se a igreja exercesse esta flagrante desobediência a Deus.
prática bíblica restauradora. A igreja
se recusou a fazê-lo. Estou certo de
RESTAURANDO OS QUE CAEM
que a recusa se deu porque a igreja
não era acostumada a esse tipo de Sejamos práticos a respeito des-
ação, mas também por causa da te assunto importantíssimo. Toda a
posição de meu pai na igreja e na igreja precisa ter uma declaração con-
cidade. cernente à disciplina. Incluso nesta
Quando estávamos no carro, revista (ou disponível na Editora Fiel)
após a experiência no cemitério, fiz encontra-se um livrete sobre a dis-
esta pergunta: “Papai, insistimos com ciplina na igreja que pode ser adota-
sua igreja que o disciplinasse, quan- do, ou adaptado, para o seu uso. O
do você cometeu adultério. Eles não livrete chama-se “Disciplina Bíblica
o quiseram. Você acha que, se o ti- na Igreja”. É uma declaração refe-
vessem disciplinado, isso o teria im- rente à disciplina na igreja que eu e
pedido de abandonar mamãe?” outros pastores de nossa igreja pre-
Papai, que sempre admite a paramos.
culpa do seu pecado e não permite No passado, estive envolvido na
que ninguém mais tenha parte naquele redação de várias declarações simi-
pecado, fala com bastante humildade: lares. Mas esta é a mais clara e mais
“Acho que teria”. praticável apresentação desta doutri-
Agora, quero perguntar ao lei- na. Quando outras igrejas começaram
tor: a igreja que meus pais freqüen- a pedir cópias desta declaração, de-
tavam foi amável ao recusar discipli- cidimos colocá-la em forma de
ná-lo? Os membros daquela igreja livrete. Dr. Jay Adams a publicou em
estavam sendo graciosos e bondosos? seu novo Jornal de Ministério Mo-
Estavam fazendo o que era melhor derno, tornando-a mais acessível aos
para ele? leitores. Agora, a Editora Fiel a ofe-
Além disso, aquela igreja estava rece como uma ferramenta para sua
amando a Deus, quando não discipli- igreja.
nou meu pai? Estava seguindo a Jesus Não presumo que todos vocês
Cristo, o Cabeça da igreja? Estava considerarão esta declaração a me-
ajudando outras famílias? Estava aju- lhor para adotarem. No entanto, se
dando os crentes em toda a cidade? não encontrarem outra melhor ou não
Estava instruindo os filhos mais no- puderem redigir a de vocês mesmos,
8 Fé para Hoje
pensem em aceitá-la como o plano dientes ao Cabeça da igreja, Jesus
de disciplina de sua igreja. Cristo, que ordenou vocês fizessem
Quero sugerir que você obtenha isso.
para os líderes da igreja cópias deste Nossos antepassados não foram
livrete, atentando cuidadosamente a negligentes às suas responsabilidades
cada linha, examinando os versícu- de disciplinar, como o são muitas de
los citados e conversando sobre as nossas igrejas hoje. Desde os primei-
implicações e estratégia que a sua ros dias da obra batista nos Estados
igreja seguirá, quando o pecado en- Unidos até ao início dos anos 1800,
trar na membresia. Depois, conside- houve poucas exceções. O Dr. Greg
rem a possibilidade de reunir todos Wills, em seu livro Democratic Reli-
os homens para um tempo de estudo gion in the South (Religião Demo-
sobre a disciplina na igreja, usando crática no Sul — Oxford Press),
esta declaração. Por fim, poderiam afirma que no Estado da Geórgia, no
apresentá-la a todos os membros. E, Sul, 3 a 4% dos batistas passavam
no processo de tomar decisões, a por disciplina eclesiástica; e 1 a 2%
igreja poderia adotar esta declaração tinham de ser excluídos anualmente.
como a maneira de praticar a disci- Estes dados representam, de algum
plina na igreja. modo, o que ocorria em outras par-
Temos achado proveitoso que tes do país. Isto incluía disciplina
todos os novos membros de nossa sobre os que não freqüentavam re-
igreja leiam esta declaração de disci- gularmente a igreja. O resultado da
plina. Depois, no Pacto de Membre- diligência de nossos antepassados foi
sia de nossa igreja, acrescentamos um vigoroso contingente de igreja
estas palavras: submeto-me à disci- naquele período mais vibrante de tes-
plina da igreja e aceito com amor temunho e de crescimento exponen-
minha responsabilidade de participar cial.
da disciplina de outros membros, John L. Dagg, um dos líderes
conforme ensinado nas Escrituras. batistas, disse: “Quando a disciplina
Vocês podem entender minha abandona uma igreja, Cristo a aban-
preocupação em restaurar esta práti- dona juntamente com aquela”.
ca. Se vocês amam as pessoas e a É obrigação de líderes centrali-
Deus, farão isso. Se negligenciarem zados na Escrituras, como vocês,
a disciplina na igreja, serão desobe- restaurarem esta prática bíblica.

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Se meditamos nas promessas e levamos em


consideração Aquele que prometeu, experimentaremos
a doçura delas e obteremos o seu cumprimento.
Charles Spurgeon
(Extraído de Leituras Diárias, vol. 2, Editora Fiel, 2007)
A ORAÇÃO NA VIDA
E NO MINISTÉRIO DO PASTOR
Mark Dever

A oração é um assunto que (ou as igrejas) fosse protegida da falsa


muitos de nós endossamos, mas, na doutrina e edificada na verdade. No
realidade, pensamos muito pouco final da epístola, no versículo 20,
sobre este assunto. Não estou falando lemos: “Orando no Espírito Santo”.
a respeito da oração em geral, e sim No Novo Testamento, há várias
da oração na vida e no ministério do passagens em que os crentes são
pastor. exortados a orar desta maneira. (Ver
Na única epístola que temos em Efésios 6.18; Tiago 5.16 e Romanos
mãos escrita por Judas, irmão de 8.26-27.) Por que isso? Deve haver
Jesus, achamos uma advertência fer- uma razão para que esse tipo de oração
vorosa contra os falsos ensinadores, seja tão freqüentemente mencionado
que estavam invadindo e iludindo a nas páginas do Novo Testamento.
igreja. Judas escreveu de modo sar- Isso deve nos sugerir algo sobre a
cástico a respeito deles. Após des- importância da oração.
crevê-los e rejeitá-los, ele contrasta, Esta oração no Espírito Santo
no versículo 20, o verdadeiro cris- não é um tipo especial de oração em
tão e os verdadeiros líderes da igreja línguas, ou êxtase particular, que al-
com os homens não-espirituais. guns crentes fazem ou não fazem.
“Vós, porém, amados, edifican- Pelo contrário, é o tipo especial de
do-vos na vossa fé santíssima, oran- oração que os verdadeiros crentes
do no Espírito Santo.” fazem e que os falsos ensinadores
A grande preocupação de Judas, não fazem. Isto significa orar de acor-
expressa nesta carta, era que a igreja do com a vontade do Espírito Santo
10 Fé para Hoje
e à luz do seu poder. É orar em har- qualquer outro pensamento, desejo ou
monia com o desejo expresso de esperança” (Luther’s Tabletalk, 18 de
Deus e com a verdade do evangelho. maio de 1532).
Esta maneira de orar contrasta-se
com os falsos ensinadores, que, de
A ORAÇÃO PARTICULAR
acordo com o versículo 19, não têm
o Espírito. Nossa vida de oração é impor-
A batalha contra o ensino falso, tante tanto em seu aspecto particular
contra as divisões e contra os peca- como no aspecto público. No aspec-
dos que aqueles crentes enfrentaram to particular, temos de vivenciar nos-
não podia ser vencida na força deles sa confiança em Deus, e muito disso
mesmos. Não podiam simplesmente procede da realidade da oração. Em
edificar a igreja com base em argu- tempos bons, nos humilhamos em
mentos. Deus mesmo tinha de estar oração, louvamos e agradecemos a
envolvido na edificação da igreja; Deus por tudo que está indo bem.
portanto, aqueles crentes precisavam Lembramos a nós mesmos que so-
invocar a ajuda e orientação de Deus, mos apenas servos indignos. Em
sua presença e poder com eles. O tempos difíceis, encorajamos a nós
cristianismo não é uma invenção da mesmos por meio da oração, recor-
mente; não é convencer a si mesmo dando que, em última análise, nos
por meio de argumentos ou de emo- tempos difíceis a obra é de Deus.
ções. Pelo contrário, o cristianismo Descobrimos que Deus nos ensina
é uma questão de viver genuína e re- por meio da oração. Em uma situa-
almente em Deus. Nós, os crentes, ção difícil, talvez comecemos a su-
não olhamos para o mundo usando plicar que Deus remova a provação.
óculos cor de rosa, ignorando a rea- Contudo, à medida que meditamos
lidade, imaginando que existe um ser mais no viver de Cristo, geralmente
supremo. Não! Vivemos da maneira nos volvemos à oração, rogando que
como vivemos porque estamos em Deus nos purifique por meio da pro-
comunhão com Deus, porque O co- vação. Somos doutrinados por meio
nhecemos e vivemos com Ele. dessas provações, enviadas com a
A oração nos focaliza em nossa permissão de nosso amado Pai ce-
dependência de Deus. Certa vez, o lestial. Essa foi a experiência de Pau-
cachorrinho de Martinho Lutero veio lo relatada em 2 Coríntios 12. Em
à mesa e esperava ansiosamente nossa própria vida, sabemos que
receber uma porção de comida da existem pecados obstinados, mem-
parte de seu dono. Ao ver seu bros da família que não se arrepen-
cãozinho implorando, com a boca dem, inquietações e cuidados com os
aberta e os olhos imóveis, Lutero quais gastaremos anos de oração,
disse: “Oh! Se eu pudesse orar da mas o resultado de nossa perseve-
mesma maneira como este cachorro rança nunca é que confiamos menos
espera pela comida! Todos os seus em Deus; pelo contrário, o resultado
pensamentos estão concentrados no é que passamos a amá-Lo mais e a
pedaço de carne. Ele não tem confiar mais nEle. Vemos o evange-
A ORAÇÃO NA VIDA E NO MINISTÉRIO DO PASTOR 11
lho e sua suficiência. Chegamos a ajuda a nos tornarmos os “principais
apreciar o que Deus nos tem dado, confiantes”, os principais glorifica-
em vez de nos preocuparmos com o dores de Deus, à medida que somos
que Ele não nos dá. Em que outro exemplos de lançar sobre o Senhor
lugar, além do quarto de oração par- os nossos cuidados e deixá-los ali.
ticular, aprendemos essas lições? Podemos ser exemplos de meditação
A oração confiante louva a Deus cuidadosa e prudente sobre a gran-
como fiel, digno, cuidadoso, inesti- deza de Deus, sobre os nossos
mável e bom. Sugere que Deus tem pecados e intercedermos pelos ou-
um relacionamento importante e au- tros e pelas necessidades de outras
têntico conosco. congregações. A
Reconhece que  oração pública re-
nosso ministério vela algo sobre o
procede dEle e gi- A oração pública nos ajuda coração do pas-
ra em torno dEle. a nos tornarmos os tor.
Mostra que O re- “principais confiantes”, E, naqueles
conhecemos co- tempos em que
mo o Grande
os principais estamos desani-
Pastor, que todo glorificadores de Deus, mados, irmãos,
rebanho que pas- à medida que somos vamos ao Senhor.
toreamos é o re- exemplos de lançar sobre o Um de meus li-
banho dEle e, co-
mo afirma a Car-
Senhor os nossos cuidados vros favoritos é a
autobiografia de
ta aos Hebreus, e deixá-los ali. John Bunyan, in-
que Lhe prestare-  titulada Grace
mos conta de ca- Abounding to the
da uma de suas ovelhas incluídas no Chief of Sinners (Graça Abundante
rebanho que pastoreamos. ao Principal dos Pecadores). Em cer-
to momento, Bunyan descreve as
tentativas de Satanás para desenco-
A ORAÇÃO PÚBLICA
rajá-lo quanto à oração. Eis o relato
A oração pública nos une em de Bunyan:
nossas congregações. Quando apre-
sentamos as necessidades diante do Ora, estando as Escrituras
Senhor, estamos buscando-O, para abertas diante de mim, e o pe-
confiar nEle e exultar na completa cado, à minha porta, aquele
dependência dEle. Quando oramos versículo de Lucas 18.1, jun-
em voz alta, diante da congregação, tamente com outras passagens,
nossos irmãos e irmãs ouvem algo a me encorajou a orar. Mas o
respeito de nosso sentimento de de- tentador apareceu novamente,
pendência de Deus, amando-O e sugerindo: “Nem a misericór-
regozijando-se nEle. Levamos o nos- dia de Deus, nem o sangue de
so povo a amar e descansar em Cristo dizem respeito a mim ou
Deus, nosso Pai. A oração pública nos podem ajudar-me em meu pe-
12 Fé para Hoje
cado. Por isso, será inútil ximo, crendo que Tu queres e
orar”. Apesar disso, eu pensei: podes? Ou honrarei a Satanás,
vou orar. Mas o tentador dis- crendo que Tu não podes e não
se: “Seu pecado é imperdoá- queres? Senhor, eu Te honrarei,
vel”. Eu pensei: Bem, vou orar. crendo que Tu queres e podes.
Ele disse: “Não há proveito nis-
so”. Mas eu disse: vou orar. Que Deus nos dê essa perseve-
Assim, saí para orar com Deus. rança em oração! Para edificarmos a
E, enquanto estava em oração, nós mesmos e aos outros na fé san-
disse: “Senhor, Satanás me fala tíssima, devemos, como pastores e
que nem a tua misericórdia nem ministros da Palavra, nos dedicar à
o sangue de Cristo são sufici- oração particular e pública, orando
entes para salvar minha alma. regularmente no Espírito.
Senhor, eu Te honrarei ao má-
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O amor de Cristo nos constrange a responder sim. Sentimos


tanto amor fluindo da morte de Cristo para nós, que descobrimos
nossa morte na morte dEle — nossa morte para todas as lealdades
rivais. Somos tão dominados (“constrangidos”) pelo amor de Cristo,
que o mundo desaparece, como que diante de olhos mortos. O
futuro abre um amplo campo de amor.
Um cristão é uma pessoa que vive sob o constrangimento do
amor de Cristo. O cristianismo não é meramente crer num conjunto
de doutrinas a respeito do amor de Cristo. É uma experiência de
ser constrangido por esse amor — passado, presente, futuro.
Veja como Charles Hodge expressou isso: “Um cristão é
alguém que reconhece a Jesus como o Cristo, o Filho do Deus
vivo, como Deus manifestado em carne, que nos amou e morreu
por nossa redenção. É também uma pessoa afetada por um senso
do amor deste Deus encarnado, a ponto de ser constrangida a
fazer da vontade de Cristo a norma de sua obediência e da glória
de Cristo o grande alvo em favor do qual ela vive”.
Como não viver por Aquele que morreu nossa morte, para
que vivamos por sua vida? Ser um cristão é ser constrangido pelo
amor de Cristo.

(Extraído de Uma Vida Voltada para Deus, John Piper,


Editora Fiel, São José dos Campos, SP, p. 51.)
CARNE FORTE PARA
OS MÚSCULOS DE MISSÕES 1

Pensamentos sobre o ministério de Adoniram Judson

John Piper

E stou cada vez mais conven- (um amor missionário intenso, hu-
cido de que um movimento profundo milde e reverente chamado calvinis-
e duradouro de missões precisará de mo). Judson escreveu uma liturgia
uma doutrina de salvação que tenha birmanesa e um credo que incluía as
raízes profundas. Em minhas férias, seguintes afirmações: “Deus, saben-
li algumas das memórias de Adoni- do desde o princípio que a humani-
ram Judson. Você recorda que ele foi dade cairia em pecado e seria
um Congregacional que se tornou arruinada, por sua misericórdia, es-
Batista. Judson foi à Birmânia em colheu alguns da raça e deu-lhes o
1812 e só retornou ao seu país de- seu Filho, para salvá-los do pecado e
pois de 33 anos. do inferno... Adoramos a Deus... que
Courtney Anderson conta a his- envia o Espírito Santo para capacitar
tória emocionante e romântica em aqueles que foram escolhidos antes
seu livro To The Golden Shore (Rumo da fundação do mundo e dados ao
à Praia Dourada). Mas, assim como Filho”.2
muitos biógrafos de missionários,
Anderson parece não saber o que O Breve Catecismo de Westmins-
motivava Judson. São as memórias ter, na Pergunta 20, atinge o âmago
que nos fazem ver as raízes teológi- da fé exercida por Judson e acende
cas. Hoje somos teologicamente su- o estopim de missões.
perficiais e, por isso, não podemos Pergunta: Deus deixou to-
imaginar quão apaixonados por dou- dos os homens a perecerem na
trinas eram os primeiros missionári- condenação do pecado e misé-
os. ria?
O que motivava Judson era, sim- Resposta: Deus, motivado
plesmente, um forte compromisso por seu beneplácito, desde toda
evangélico com a soberania da graça a eternidade, tendo escolhido um
14 Fé para Hoje
povo para a vida eterna, entrou judeus] e não somente pela nação,
em um pacto de graça, para li- mas também para reunir em um só
vrá-los da condição de pecado e corpo os filhos de Deus, que andam
miséria e trazê-los à condição de dispersos” (Jo 11.51-52). O clamor
salvos por meio de um Redentor da batalha de missões é: “O Senhor
(Ef 1.3-4; 2 Ts 2.13; Rm 8.29- tem outras ovelhas, não deste apris-
30; 5.21; 9.11-12; 11.5-7; At co. Ele as trará (um compromisso
13.48; Jr 31.33). de aliança!); elas ouvirão (um com-
promisso de graça) a voz dEle” (Jo
O termo “aliança da graça” está 10.16).
repleto de esperança agradável e Enquanto estava na Birmânia,
preciosa. Refere-se à decisão e ao Adoniram Judson pregou um sermão
juramento espontâneo de Deus para sobre João 10.1-18. Qual foi o obje-
empregar toda a sua onipotência, tivo de Judson? “Embora envolvidas
sabedoria e amor para resgatar seu no amor eletivo do Salvador, [as suas
povo do pecado e miséria. A aliança ovelhas] podem até vaguear nas mon-
é iniciada e realizada completamente tanhas obscuras do pecado.” Portan-
por Deus mesmo. E não pode falhar. to, o missionário tem de chamar a
“Farei com eles aliança eterna, todos com a mensagem de salvação,
segundo a qual não deixarei de lhes a fim de que, conforme disse Jud-
fazer o bem; e porei o meu temor no son, “o convite de misericórdia e
seu coração, para que nunca se amor, que penetra nos ouvidos e co-
apartem de mim” (Jr 32.40). ração apenas dos eleitos”, seja efi-
A aliança da graça é válida para caz.3
todos os que crêem. Todos os que Se desejamos ver homens seme-
quiserem podem vir e desfrutar desta lhantes a Adoniram Judson, William
salvação. E, sendo este querer uma Carey, John G. Paton, Henry Martyn
obra da graça soberana de Deus (Ef e Alexander Duff surgir entre nós,
2.5-8), aqueles que crerem e vierem outra vez, devemos beber a mesma
são os eleitos — eleitos em Cristo doutrina forte que os governou na
“antes da fundação do mundo” (Ef causa de missões.
1.4). A aliança foi selada no coração __________________
de Deus antes que o mundo existisse
(2 Tm 1.9). 1 Extraído de Uma Vida Voltada
para Deus, Editora Fiel, 2007, p.
Esta aliança da graça é o clamor
176.
de vitória sobre todos os conflitos no 2 Citado em NETTLES, Thomas J. By
campo missionário. A graça de Deus his grace and for his glory: a
triunfará. Ele tem um compromisso historical, theological, and
de aliança e de juramento para salvar practical study of the doctrines
todos os que estão predestinados para of grace in baptist life. Grand
a vida eterna, de cada tribo, língua, Rapids: Baker Book House, 1986.
povo e nação (At 13.48; Ap 5.9). “Je- p. 153.
sus estava para morrer pela nação [de 3 Ibid., 149.
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ADORAÇÃO NA SALA DO TRONO1
Robert L. Dickie

Preletor na Conferência Fiel, Brasil - 2007

J esus Cristo, nosso Senhor, dis- existem milhões de pessoas que


se: “Os verdadeiros adoradores ado- mantêm opiniões corretas, talvez
rarão o Pai em espírito e em verdade; mais do que antes na história da
porque são estes que o Pai procura igreja. Contudo, pergunto-me se já
para seus adoradores” (Jo 4.23). Um houve um tempo quando a verdadeira
dos fatos mais admiráveis a respeito adoração espiritual esteve em nível
de Deus é que Ele está procurando tão baixo. Para grandes alas da igreja,
pessoas para adorarem seu Filho, a adoração se perdeu completamente,
Jesus Cristo. e seu lugar foi ocupado por aquela
Se você já se tornou um crente, coisa estranha chamada ‘programa’.
um dos propósitos primários de sua Esta palavra foi emprestada do teatro
salvação é que você adore com alegria e aplicada com péssima sabedoria ao
o Filho de Deus. Na vida cristã, não tipo de adoração pública que agora
existe nada mais importante do que passa por adoração entre nós”.
isso. Mas, infelizmente, encontramos A adoração bíblica e espiritual é
poucos crentes que entendem a o anelo da alma para ver a glória e a
natureza espiritual da adoração e que beleza de Jesus Cristo. Quando os
praticam essa adoração. Nesta altura, adoradores vêem a Cristo, têm o
devemos perguntar a nós mesmos: gozo de experimentar a presença
existe um verdadeiro espírito de dEle.
adoração em nossa igreja e em nosso A adoração está em seu ápice
coração? quando nossa alma se perde em
admiração da glória e majestade de
Deus. Muito do que passa hoje por
A PRESENÇA DE CRISTO
adoração não produz isso. Os cultos
A. W. Tozer escreveu: “Hoje vazios e superficiais que caracterizam
16 Fé para Hoje
a geração atual não produzem nem Deus está no centro da adoração
adoradores verdadeiros nem grandes espiritual. Nosso foco e atenção são
homens de Deus. direcionados imediatamente para Ele.
A adoração centralizada em Deus
significa apenas que a glória, a honra,
ENTENDENDO A ADORAÇÃO BÍBLICA
a majestade e a vontade de Deus são
Para entendermos a adoração a prioridade em nossos pensamentos
bíblica e compreendermos exatamen- e desejos.
te o que Deus, o Pai, está buscando Em nossos dias, a adoração está
de nós, precisamos examinar a ado- muito freqüentemente centralizada no
ração em seu nível mais puro. Quando homem e não em Deus. Todavia, meu
consideramos as Escrituras, encon- desejo e oração é que a igreja de Cristo
tramos muitos exemplos de pessoas descubra novamente a verdadeira
que adoraram a Deus. No entanto, a adoração — que a igreja redescubra
figura mais sublime e evidente é a que e volte-se à adoração bíblica na sala
João retrata no livro de Apocalipse. do trono.
Nos capítulos 4 e 5, o Senhor A. W. Tozer escreveu: “A histó-
abre a cortina e nos permite vislum- ria da humanidade provavelmente
brar o que eu chamo de “adoração mostrará que nenhuma pessoa jamais
na sala do trono”. Nestes dois capí- foi maior do que sua religião; e a his-
tulos, vemos realmente um culto de tória espiritual do homem demons-
adoração realizando-se no céu, na sala trará positivamente que nenhuma
do trono de Deus. Se temos de ado- religião tem sido maior do que a sua
rar a Deus biblicamente, devemos idéia a respeito de Deus. A adoração
estar certos de que nossa adoração é pura ou ignominiosa à medida que
na terra reflete o exemplo e a direção o adorador nutre pensamentos subli-
da adoração celestial. mes ou medíocres a respeito de Deus.
Há muitas lições nestes capítu- Por esta razão, o assunto mais
los, mas neste artigo podemos con- solene diante da igreja é sempre Deus
siderar apenas a primeira dessas mesmo, e o fato mais portentoso
lições, ou seja, a adoração espiritual sobre o homem não é o que ele...
está centralizada em Deus. pode dizer ou fazer, e sim o que ele,
no âmago de sua alma, percebe sobre
a natureza de Deus.”
ADORAÇÃO CENTRALIZADA
EM DEUS
_________________
Quando João vislumbra o culto
de adoração no céu, ele diz: “Imedia- 1 Este artigo introduz o tema que será
tamente, eu me achei em espírito, e abordado pelo Pr. Robert L. Dickie,
eis armado no céu um trono, e, no um dos preletores na 23ª Conferên-
trono, alguém sentado” (Ap 4.2). cia Fiel para Pastores e Líderes,
Bem no início, observamos que em outubro de 2007, no Brasil.

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MARTINHO LUTERO:
A TEOLOGIA DA CRUZ EM CONTRASTE
COM A TEOLOGIA DA GLÓRIA
Gilson Santos
Preletor da 7ª Conferência Fiel, em Portugal, 2007

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se


negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me.
Lucas 9.23

A partir da cruz de Cristo, de sua morte, temos a conciliação


resulta uma inversão de todos os objetiva entre Deus e o homem. E na
valores. Justamente o que é inferior comunhão com Cristo entra somente
no mundo, o que nada é, isto Deus quem participa de sua morte.
escolheu. Para o judeu Saulo de
Tarso, a cruz tinha sido uma grande “Nenhum personagem histó-
pedra de tropeço. Afinal, Cristo rico entendeu melhor e mais
crucificado é “escândalo para os profundamente o poder da cruz
judeus, loucura para os gentios” (1 que Martinho Lutero, o reforma-
Co 1.23). Porém, agora, para o dor do século XVI”, escreve
apóstolo Paulo a “palavra da cruz é Mark Shaw.1 E Alister McGrath,
loucura para os que se perdem, mas um teólogo de Oxford, definiu a
para nós, que somos salvos, poder teologia da cruz de Lutero como
de Deus” (1 Co 1.18). Para ele, Cristo “uma das compreensões mais
tornou-se “poder de Deus e sabedoria poderosas e radicais da natureza
de Deus. Porque a loucura de Deus da teologia cristã que a Igreja já
é mais sábia dos que os homens; e a conheceu”.2
fraqueza de Deus é mais forte do que
os homens” (1 Co 1.24-25). Na cruz Em abril de 1518, Martinho Lu-
de Cristo, temos a redenção. Através tero (1483-1546), em Heidelberg,
18 Fé para Hoje
contrapôs seus “Paradoxos” teológi- dia firmemente as realizações do pró-
cos como “teologia da cruz” (theo- prio homem e deixa Deus fazer tudo
logia crucis) à “teologia da glória” para efetivar e preservar a sua salva-
(theologia gloriae), isto é, à teologia ção.
eclesial dominante. Este episódio de Na doutrina de Martinho Lutero,
1518 tem sido descrito por Shaw a graça da justificação pela fé está
como um “sussurro silencioso e ig- rigorosamente orientada pelo Cristo
norado”; constitui-se, entretanto, um crucificado.
grande engano passar despercebido
por ele. No “Debate de Heidelberg”, Quem reconheceria que aque-
travou-se a discussão da indulgên- le que é visivelmente humilhado,
cia. Lutero contrastou a teologia da tentado, condenado e morto é,
cruz com a teologia oficial, diante de internamente e ao mesmo tem-
uma igreja que se tornara segura e po, sobremodo enaltecido, con-
saciada. Como exemplo dessa reali- solado, aceito e vivificado, não
dade, para financiar o seu projeto fosse o Espírito ensiná-lo pela fé?
mais extravagante, a basílica de São E quem admitiria que aquele que
Pedro em Roma (incluindo a Capela é visivelmente enaltecido, honra-
Sistina), Leão X (1475-1521), eleito do, fortificado e vivificado é in-
papa em 1513, resgatou a prática de ternamente rejeitado, despreza-
cobrar indulgências, o que, de algu- do, enfraquecido e morto de
ma maneira, precipitou a Reforma maneira tão miserável, se a sa-
Protestante. Em Heidelberg, distin- bedoria do Espírito não lhe ensi-
guindo entre o cristianismo evangé- nasse isso?4
lico bíblico e as corrupções medie-
vais, Lutero entendeu que a igreja Quando a “sabedoria da cruz”
medieval seguia o caminho da glória não é entendida, também a Escritura
ao invés do caminho da cruz. permanece um livro trancado, pois a
Para Lutero a cruz é a marca de cruz de Cristo é a única chave para
toda a teologia. “No Cristo crucifi- ela. A “sabedoria” humana se escan-
cado é que estão a verdadeira teologia daliza com a Palavra de Deus e se
e o verdadeiro conhecimento de irrita com a cruz de Cristo. Isto por-
Deus.”3 Conhecer a Deus pela cruz que a nossa sabedoria está apaixonada
é conhecer o nosso pecado e o amor por si própria, é como um doente que
redentor de Deus. Deus, na cruz, não quer que o médico o ajude. A
destrói todas as nossas idéias precon- nossa sabedoria é “sabedoria da car-
cebidas da glória divina. O perigo em ne”, que resiste à vontade de Deus.
potencial que a teologia da cruz vê A cruz é o juízo daquilo que os ho-
na sua antítese é que a teologia da mens se orgulham. A cruz é o juízo
glória levará o homem a alguma for- de toda glória humana, e a via crucis
ma de justiça pelas obras, à tendência significa, por isso, desistir de toda
de se fazer uma barganha com Deus glória humana. A cruz de Cristo con-
com base em realizações pessoais. Por testa violentamente o senso natural.
outro lado, a teologia da cruz repu- Para Lutero, a cruz de Cristo e
MARTINHO LUTERO: A TEOLOGIA DA CRUZ EM CONTRASTE... 19
a cruz do cristão são vistas em tante, a saber, a autonegação. Ela nos
conjunto; a cruz de Cristo e a cruz esvazia de nossa autoconfiança, para
do cristão formam uma unidade. O que possamos ter confiança em
teólogo da cruz não está posicionado Deus. Contudo, o sofrimento jamais
como espectador em relação à cruz deve tornar-se “boa obra”, e não en-
de Cristo, ma ele próprio é envolvido contra sua origem em idéias ascéti-
neste acontecimento. Por isso, ele cas. A cruz do cristão está em unida-
não foge dos sofrimentos, tal qual o de com a cruz de Cristo, e com isto
teólogo da glória, mas considera-os está excluída por si só toda a idéia de
tesouro valioso. Para Lutero, o mérito da pessoa, que pudesse ser
teólogo da glória “define que o tesou- obtido pelo sofrimento.
ro de Cristo Ao carregar-
são relaxações  mos nossa cruz,
e isenções de
Quando a “sabedoria da cruz” não fazemos
penas, sendo com isso nada
estas as piores não é entendida, também a especial, mas
coisas e as Escritura permanece um livro simplesmente
mais dignas de trancado, pois a cruz de Cristo demonstramos
ódio. O teólogo que estamos
é a única chave para ela.
da cruz, pelo em comunhão
contrário, [a-  com Cristo. E
firma que] o também nem
tesouro de Cristo são imposições e todo sofrimento pode reivindicar ser
obrigações de penas, sendo estas as discipulado da cruz. Que significa
melhores coisas e as mais dignas de isto: carregar a cruz de Cristo? “A
amor”.5 Assim, para a teologia da cruz de Cristo outra coisa não é ex-
cruz o sofrimento adquire significa- ceto o abandonar tudo e agarrar-se
do todo especial. Os cristãos têm que somente a Cristo pela fé do coração,
se tornar iguais a seu Mestre em tudo ou seja: abandonar tudo e crer – isso
e, por isto, têm de assumir a ignomí- é carregar a cruz de Cristo”.6
nia de Cristo. Cristo nos precedeu no Assim, a cruz torna-se sinal da
caminho que rejeita toda grandeza hu- filiação divina. O padrão da cruz se
mana. A glória do cristão consiste torna o padrão de toda a jornada
nesta “fraqueza e baixeza”. E sua cristã. Lutero expressa este conceito
baixeza se revela no ato de levar o ainda mais, nas seguintes palavras:
sofrimento. Visto que em meio à vida
de Cristo está erigida a cruz, a vida Por isso somos ensinados aqui
do cristão é discipulado e sofrimen- a crer contra a esperança na es-
to. Uma razão, diz Lutero, pela qual perança; esta sabedoria da cruz
as pessoas querem uma teologia da está hoje por demais oculta em
glória em vez de uma teologia da cruz mistério. Também para o céu não
é que elas “odeiam a cruz e o sofri- há outro caminho do que esta
mento”. Mas, à luz da cruz, o sofri- cruz de Cristo. Por isso é preci-
mento serve a um propósito impor- so precaver-se, para que a vida
20 Fé para Hoje
ativa com suas obras, e a vida gelho é um escândalo para o mundo.
contemplativa com suas especu- A exemplo de Cristo, vestimos a “for-
lações não nos seduzam. Ambas ma de servo”; renunciamos todo
são extremamente atrativas e orgulho, fama e honra diante do mun-
tranqüilas, e por isso também do e de nós mesmos, e nos deixamos
perigosas, até que sejam tempe- envolver na ignomínia de Cristo. Tor-
radas pela cruz e perturbadas nar-nos conformes com Cristo outra
pelas adversidades. A cruz, no coisa não significa do que experi-
entanto, é de todas as coisas a mentar o fato da cruz também em
mais segura. Bem-aventurado nossa vida. Somos pessoas confor-
quem entende.7 mes com Cristo quando a cruz não
permanece apenas um fato históri-
Em seu clímax, a vida sob a co, mas quando ela está erigida em
cruz se apresenta como “conformi- meio à nossa vida. Isto, não obstan-
dade com Cristo”. Assim, conforme te, é fruto da graça de Deus.
a teologia da cruz, a vida do cristão A cruz é, portanto, um parado-
nada mais é do que “ser crucificado xo: Deus rejeita os orgulhosos, mas
com Cristo”. O batismo não está ape- aos humildes concede a sua graça;
nas no começo da vida cristã, mas ele rejeita os heróis, mas derrama o
no ato do batismo temos o símbolo seu amor justificador aos fracassa-
de toda a vida cristã: um constante dos. Assim, a humildade é a virtude
morrer e ressuscitar com Cristo. “Ser básica da vida sob a cruz, do mesmo
crucificado com Cristo” realiza-se de modo como a soberba é o verdadei-
dois modos: no interior da pessoa pela ro e o maior pecado. Somente a fé
“mortificação” e no exterior pela ini- pode perceber essa realidade verda-
mizade do mundo. Porém, o concei- deira e paradoxal. A fé e a humildade
to luterano do morrer do velho estão intimamente relacionadas. A fé
homem precisa ser traçado com base ensina a humildade, pois a fé é “ne-
na doutrina da justificação. A morti- gação de nós mesmos”, total renún-
ficação não é obra meritória. Ela não cia e confiar na graça de Deus. Nesta
é pré-requisito para a fé que alcança negação de todos os direitos huma-
a graça, mas, inversamente, pressu- nos, a fé se identifica com a humil-
põe a fé. Lutero, neste sentido, não dade. Ostentar a própria humildade,
se gloria na sua cruz, mas se gloria como numa espiritualidade monásti-
na graça de Deus. A teologia da cruz, ca, não é humildade.
em Lutero, se encontra na mais agu- (...) ninguém se considera
da oposição a qualquer moralismo. humilde ou se gloria de sê-lo, a
De acordo com Lutero, ser cru- não ser o que é o mais orgulho-
cificado com Cristo revela-se ainda so. Somente Deus reconhece a
no fato de um verdadeiro cristão ter humildade, e também somente
de atrair necessariamente sobre si a ele a julga e revela, de sorte que
inimizade do mundo. A inimizade do a pessoa jamais tem menos cons-
mundo é sinal para a autenticidade ciência da humildade do que
do discipulado. Pois o próprio evan- justamente quando é humilde.8
MARTINHO LUTERO: A TEOLOGIA DA CRUZ EM CONTRASTE... 21
Por isso, a busca monástica por idéia de uma forma sofredora da igreja
humildade não faz nenhum sentido. criticamente contra o papado e para
O caminho da humildade não vai de julgamento da história da igreja. O
fora para dentro, mas de dentro para Cristo morto e ressurreto está traba-
fora. Não podemos apresentar nos- lhando em meio à fraqueza da Igreja,
sa humildade (“nulidade”) como mé- preparando-a para mostrar a sua for-
rito diante de Deus. Humildade é a ça. De modo similar, o Cristo morto
renúncia consciente a todas as quali- e ressurreto “julga a Igreja onde ela
dades humanas com as quais pode- se tornou orgulhosa e triunfante, ou
ríamos argumentar. Neste sentido, a segura e presunçosa, e a chama para
humildade tem que preceder à fé, voltar ao pé da cruz, onde lembra da
pertence ao ali- maneira miste-
cerce crítico riosa e secreta

da fé. Justifi- que Deus tra-
cação pela fé Ser crucificado com Cristo balha no mun-
só poderá acon- revela-se ainda no fato de um do”.10
tecer onde hou- A teologia
ver sido posto
verdadeiro cristão ter de atrair da cruz conhe-
este alicerce. necessariamente sobre si a ce a Deus no
Neste sentido, inimizade do mundo. próprio lugar
humildade, tal onde Ele se

como a fé, não ocultou – na
é uma virtude. cruz, com os
É a renúncia de toda virtude; é saber seus sofrimentos, todos eles consi-
que não podemos subsistir perante derados fraqueza e loucura pela teo-
Deus com nossa virtude. “Humilda- logia da glória. Deus é conhecido e
de nada mais é do que o auto-reco- compreendido não na força, mas na
nhecimento perfeito, que encerra a fraqueza, não numa demonstração
fé justificante.”9 Este conceito lute- impressionante de majestade e poder,
rano de humildade não se compara mas na exibição de um amor que se
em nada ao sentido católico-sinergis- dispõe a sofrer a fim de converter o
ta. Todo sinergismo está excluído. homem para si: “Sendo justificados
Por conseguinte, Lutero conta gratuitamente, por sua graça, medi-
a cruz e o sofrimento entre os sinais ante a redenção que há em Cristo
particulares da igreja (nota ecclesi- Jesus, a quem Deus propôs, no seu
ae). Faz parte da natureza da igreja sangue, como propiciação, mediante
encontrar-se ela no sofrimento; uma a fé, para manifestar a sua justiça”
igreja da qual não se pode afirmar isso (Rm 3.24-25). No momento em que
é uma igreja que se tornou infiel à a proclamação eclesial deixa de ser
sua destinação. A Igreja pode ser se- uma pedra de tropeço para o povo,
duzida pela teologia da glória e se isto é sinal de que ela traiu o evange-
transformar em uma religião de boas lho. No escândalo, porém, é que está
obras e análises dos desempenhos o “poder do evangelho”. A adoração
dos fiéis. Lutero usou, portanto, a ou pregação que faz as pessoas sen-
22 Fé para Hoje
tirem-se bem consigo mesmas, ou Martinho Lutero.
satisfeitas com suas palavras e pen- 2. McGRATH, Alister. Luther´s The-
samentos arrogantes sobre Deus, é ology of the Cross. Oxford: Black-
uma adoração da glória que condena well, 1985, p.1.
nossa alma e nos separa de Deus. 3. LUTERO, Martinho. Obras Seleci-
Quando a igreja perde sua cruz, “tro- onadas. Vol. 1. São Leopoldo e
cando-a pelo aplauso desta era ou a Porto Alegre: Sinodal, 1987, p. 50.
medida de sucesso deste mundo, 4. LUTERO, IV, 439, 19-24 apud
acaba se deparando com um futuro EBELING, Gerhard. O Pensamento
pouco promissor”, escreve Shaw.11 de Lutero. São Leopoldo: Sinodal,
A cruz de Cristo continua sendo 1986, p. 83.
ofensiva, como foi na época em que 5. LUTERO, Martinho. Obras Seleci-
os primeiros cristãos começaram a onadas, Vol. 1, p. 55-198, extraído
falar dela como o caminho de Deus das Explicações sobre o valor das
para a salvação. E nossa função, indulgências, de 1518, I, 614, 17ss.
como a de João Batista, é apontar para 6. Extratos da posição luterana por
Jesus Cristo crucificado – “Olhem o LOEWENICH, Walther Von. A
cordeiro de Deus!” E hoje, nesta era Teologia da Cruz de Lutero. São
antropocêntrica e narcisista, a Igreja Leopoldo: Sinodal, 1987, p. 119.
deve prosseguir dizendo ao homem: 7. LUTERO, V, 84, 39ss, apud LOE-
A si mesmo se negue, e dia a dia tome WENICH, op. cit., p. 120.
a sua cruz, e siga a Cristo. 8. LUTERO, VII, 560, 7ss, apud
LOEWENICH, op. cit., p.133.
________________ 9. LOEWENICH, op. cit., p.131.
1. SHAW, Mark. Uma Lição sobre a 10. McGRATH, op. cit., p. 181.
Verdade: A Teologia da Cruz de 11. SHAW, op. cit., p. 18.

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O pensamento de deleite no cristianismo é tão estranho


para muitas pessoas, que duas palavras do vocabulário delas
têm de permanecer separadas uma da outra: “santidade” e
“deleite”. Mas os crentes que conhecem a Cristo entendem que
deleite e fé estão unidos de tal modo que as portas do inferno
não podem prevalecer para separá-las. Aqueles que amam a
Deus com todo o seu coração descobrem que os caminhos dEle
“são caminhos deliciosos, e todas a suas veredas, paz” (Pv
3.17).
(Extraído de Leituras Diárias, vol. 2,
C. H. Spurgeon, Editora Fiel, 2006.)
O PLANO DE DEUS
PARA A AGENDA GAY
John MacArthur

S e você tem visto os títulos de nam com veemência o pecado? A


manchetes de jornais nos últimos Bíblia nos exorta a um equilíbrio en-
anos, talvez tenha observado o incrí- tre o que as pessoas consideram duas
vel aumento do interesse por afirmar reações opostas — condenação e
a homossexualidade. Quer esteja no compaixão. De fato, essas duas ati-
âmago de um escândalo religioso, de tudes juntas são elementos essenci-
corrupção política, de legislação ra- ais do amor bíblico, do qual os
dical e da redefinição do casamento, homossexuais necessitam desespera-
o interesse homossexual tem carac- damente.
terizado a América. Isso é uma
Os defensores do homossexua-
indicação do sucesso da agenda gay.
lismo têm sido notavelmente eficazes
Mas, infelizmente, quando as pesso-
em promover suas interpretações dis-
as se recusam a reconhecer a
torcidas de passagens da Bíblia.
pecaminosidade do homossexualis-
Quando você pergunta a um homos-
mo — chamando o mal bem e o bem,
sexual o que a Bíblia diz a respeito da
mal (Is 5.20), elas o fazem em pre-
homossexualidade — e muitos deles
juízo de muitas almas e, talvez, de si
o sabem — percebe que eles absor-
mesmas.
veram um interpretação que não é
Como você deve reagir ao su- somente distorcida, mas também
cesso da agenda gay? Deve aceitar a completamente irracional. Os argu-
tendência recente em direção à tole- mentos a favor dos homossexuais
rância? Ou ficar ao lado daqueles que extraídos da Bíblia são nuvens de
excluem os homossexuais e conde- fumaça — à medida que nos aproxi-
24 Fé para Hoje
mamos deles, vemos com clareza o compassivo para os homossexuais,
que está por trás. o seu primeiro amor é ao Senhor e à
Deus condena a homossexuali- exaltação da justiça dEle. Os homos-
dade, e isto é muito evidente. Ele se sexuais se mantêm em rebeldia
opõe à homossexualidade em todas desafiante contra a vontade de seu
as épocas. Criador, que, desde o princípio, “os
fez homem e mulher” (Mt 19.4).
Na época dos patriarcas Não se deixe intimidar pelos de-
(Gn 19.1-28) fensores do homossexualismo e por
Na época da Lei de Moisés sua argumentação fútil — os argu-
(Lv 18.22; 20.13) mentos deles não têm conteúdo. Os
Na época dos Profetas homossexuais e os que defendem
(Ez 16.46-50) esse pecado estão comprometidos
Na época do Novo Testa- fundamentalmente em transtornar a
mento soberania de Cristo neste mundo.
(Rm 1.18-27; Mas a rebelião deles é inútil, visto que
1 Co 6.9-10; Jd 70-8) o Espírito Santo afirma: “Ou não sa-
beis que os injustos não herdarão o
Por que Deus condena a homos- reino de Deus? Não vos enganeis:
sexualidade? Porque ela transtorna o nem impuros, nem idólatras, nem
plano fundamental de Deus para as adúlteros, nem efeminados, nem so-
relações humanas — um plano que domitas, nem ladrões, nem avaren-
retrata o relacionamento entre um tos, nem bêbados, nem maldizentes,
homem e uma mulher (Gn 2.18-25; nem roubadores herdarão o reino de
Mt 19.4-6; Ef 5.22-33). Deus” (1 Co 6.9-10; cf. Gl 5.19-21).

Então, por que as interpretações Então, qual a resposta de Deus


homossexuais das Escrituras têm à agenda homossexual? O julgamento
sido tão bem-sucedidas em persuadir certo e final. Afirmar qualquer outra
inúmeras pessoas? A resposta é coisa, além disso, é adulterar a
simples: as pessoas se deixam verdade de Deus e enganar aqueles
convencer. Visto que a Bíblia é tão que estão em perigo.
clara a respeito deste assunto, os
pecadores têm resistido à razão e Quando você interage com ho-
aceitado o erro, a fim de acalmarem mossexuais e seus simpatizantes,
a consciência que os acusa (Rm tem de afirmar a condenação bíbli-
2.14-16). Conforme disse Jesus: “Os ca. Você não está procurando lançar
homens amaram mais as trevas do condenação sobre os homossexuais,
que a luz; porque as suas obras eram está tentando trazer convicção, de
más” (Jo 3.19-20). modo que eles se convertam do pe-
Se você é um crente, não deve cado e recebam a esperança da sal-
comprometer o que a Bíblia diz a res- vação para todos nós, pecadores. E
peito da homossexualidade — jamais. isso acontece por meio da fé no Se-
Não importa o quanto você deseja ser nhor Jesus Cristo. Os homossexuais
O PLANO DE DEUS PARA A AGENDA GAY 25
precisam de salvação. Não precisam Jesus Cristo e no Espírito do nosso
de cura — o homossexualismo não Deus” (1 Co 6.11).
é uma doença. Eles não carecem de O plano de Deus para muitos
terapia — o homossexualismo não é homossexuais é a salvação. Nos dias
uma condição psicológica. Os ho- de Paulo, havia ex-homossexuais na
mossexuais precisam de perdão, por- igreja de Corinto, assim como, em
que a homossexualidade é um peca- nossos dias, existem muitos ex-ho-
do. mossexuais em minha igreja e em
Não sei como aconteceu, mas igrejas fiéis ao redor do mundo. Eles
algumas décadas atrás alguém rotu- ainda lutam contra a tentação homos-
lou os homossexuais com o incorreto sexual? Com certeza. Que crente não
vocábulo “gay”. Gay, no inglês, sig- luta contra os pecados de sua vida
nificava uma pessoa feliz, mas posso anterior? Até o grande apóstolo Pau-
assegurar-lhe: os homossexuais não lo reconheceu essa luta (Rm 7.14-
são pessoas felizes. Eles procuram 25). No entanto, ex-homossexuais
felicidade seguindo prazeres destru- assentam-se nos bancos de igrejas
tivos. Esta é a razão por que Romanos bíblicas em todo o mundo e louvam
1.26 chama o desejo homossexual de o Senhor, ao lado de ex-fornicado-
“paixão infame”. É uma concupis- res, ex-idólatras, ex-adúlteros, ex-la-
cência que destrói o corpo, corrompe drões, ex-avarentos, ex-beberrões,
os relacionamentos e traz sofrimen- ex-injuriadores e ex-defraudadores.
to perpétuo à alma — e o seu fim é a Lembrem-se: alguns de vocês eram
morte (Rm 7.5). Os homossexuais assim.
estão experimentando o juízo de Deus
(Rm 1.24, 26, 28) e, por isso, são Qual deve ser a nossa resposta
infelizes — muito, muito infelizes. à agenda homossexual? Oferecer-lhe
1 Coríntios 6 é bem claro a uma resposta bíblica — confrontá-
respeito das conseqüências eternas la com a verdade das Escrituras, que
que sobrevirão àqueles que praticam condena a homossexualidade e pro-
a homossexualidade — mas existem mete castigo eterno para todos os que
boas-novas. Não importa o tipo de a praticam. Qual deve ser a nossa
pecado, quer seja homossexualidade, resposta ao homossexual? Oferecer-
quer seja outra prática, Deus oferece lhe uma resposta bíblica — confron-
perdão, salvação e esperança da vida tá-lo com a verdade das Escrituras,
eterna àqueles que se arrependem e que o condena como pecador e lhe
aceitam o evangelho. Depois de mostra a esperança da salvação, por
identificar os homossexuais como meio do arrependimento e da fé em
pessoas que não “herdarão o reino Jesus Cristo. Permaneçam fiéis ao
de Deus”, Paulo disse: “Tais fostes Senhor, quando reagirem à homos-
alguns de vós; mas vós vos lavastes, sexualidade, honrando a Palavra de
mas fostes santificados, mas fostes Deus e deixando com Ele os resulta-
justificados em o nome do Senhor dos.
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MOSTRAR ÀS CRIANÇAS
O QUE É MAIS IMPORTANTE
Tedd Tripp

Preletor na Conferência Fiel, Brasil - 2007

V ivemos em um tempo perigo- do é valorizado acima de todas as


so. O evangelismo moderno reduziu coisas. Deus é glorificado quando é
a mensagem e o propósito do evan- considerado um tesouro. Deus é glo-
gelho. Muito do cristianismo evan- rificado quando é o nosso bem mais
gélico se focaliza em levar as pessoas valioso. Deus é glorificado quando é
a fazerem a oração do pecador, de nossa fonte de deleite. Deus é glori-
modo que sejam asseguradas de que ficado quando você mostra que Ele
irão ao céu. O âmago do evangelho é é o Ser mais maravilhoso e todo-su-
a glória de Deus. Ele é tão zeloso de ficiente no universo. O âmago do
sua própria glória (Is 42.8), que en- evangelho é a glória de Deus.
viou seu único Filho para redimir
Considere o Salmo 96:
pessoas corrompidas, indignas e pe-
cadoras. O Filho era tão zeloso de Cantai ao SENHOR um cântico
sua própria glória, que orou expres- novo, cantai ao SENHOR, todas
sando o desejo de que seus discípu- as terras. Cantai ao SENHOR,
los vissem a sua glória (Jo 17.24). A bendizei o seu nome; proclamai
glória de Deus moveu o seu coração a sua salvação, dia após dia.
a escolher um povo (Rm 9.23). O Anunciai entre as nações a sua
âmago do evangelho é a glória de glória, entre todos os povos, as
Deus. suas maravilhas.

O propósito de Deus em esten- Observe que a proclamação da


der sua graça às pessoas caídas é a salvação é uma proclamação da glória
sua glória. Deus é glorificado quan- de Deus. Ele é tremendo; portanto,
MOSTRAR ÀS CRIANÇAS O QUE É MAIS IMPORTANTE 27
deve ser grandemente louvado. Deve deu tudo o que tinha. O tesouro o
ser temido acima de todos os deuses. deslumbrou.
Esplendor, glória e majestade lhe Assim é o reino dos céus. Até
pertencem. Ele reina. Deus é glorioso, que nossos filhos vejam a glória de
cheio de esplendor e majestade. Deus, na face de Jesus cristo; até que
Deus não existe para o homem; vejam que Ele é o Lírio dos Vales, a
o homem existe para Deus. O Brilhante Estrela da Manhã, o Único
evangelho de Jesus restaura o que é totalmente desejável; até que
homem caído, corrompido, para que vejam e entendam que Ele é digno de
este seja um verdadeiro adorador de abandonarmos tudo e que nada em
Deus. Estas verdades confirmam-se toda a terra é mais importante do que
a si mesmas para os seus filhos. O conhecer e amar a Jesus, eles jamais
Deus da Bíblia, o trino Deus, é o O conhecerão, O amarão e O servi-
único, o supremo objeto de nossa rão. Podem até ser membros de
adoração. igreja, ser cooperadores no acampa-
Lembra-se da parábola do rei- mento de adolescentes, ou participar
no, em Mateus 13.44? “O reino dos de viagens missionárias, mas, se não
céus é semelhante a um tesouro ocul- forem convencidos de que Cristo é
to no campo, o qual certo homem, o tesouro, jamais O conhecerão ver-
tendo-o achado, escondeu. E, trans- dadeiramente.
bordante de alegria, vai, vende tudo Você não pode superestimar a
o que tem e compra aquele campo.” importância de mostrar aos seus
Recorda o que o homem fez, ao filhos a glória de Deus. Se os seus
encontrar o tesouro? Ele o escondeu filhos não sabem quem é Deus, como
novamente. Transbordante de alegria, Ele pensa, o que Ele sente e por que
ele foi e vendeu tudo, para comprar faz o que faz, não terão qualquer
aquele campo e possuir o tesouro. motivo para encontrar gozo nEle,
Ele não vendeu tudo motivado por nenhuma razão para celebrar a sua
um senso de obrigação. Você pode bondade abundante, nenhuma base
imaginá-lo achando o tesouro e di- para achar satisfação nEle. Deleite em
zendo a si mesmo: você não sabia Deus não pode ocorrer em um vácuo
que eu acharia um tesouro naquele intelectual. Seu cuidado em mostrar
campo? Odeio quando isto acontece e revelar as maravilhas do glorioso
comigo! Agora, terei de vender to- ser de Deus é crucial para seus filhos.
dos os meus bens, de modo que Regozijo em Deus é o fruto do que
possa comprar aquele campo idiota você sabe ser verdadeiro a respeito
e possuir aquele tesouro”. É ilógico dEle. O calor espiritual do gozo,
pensar que ele se desfez de tudo por deleite e admiração na face de Deus
um senso de dever. Motivado por um não pode acontecer em um vácuo
profundo senso de alegria, ele ven- conceitual.

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POR QUE PRECISAMOS
DOS PURITANOS1
J. I. Packer

O hipismo é conhecido como entanto, ainda era ao que se via como


esporte de reis. O esporte do “atira- um forma estranha, furiosa e feia de
lama”, porém, possui mais ampla religião protestante. Na Inglaterra, o
adesão. Ridicularizar os Puritanos,em sentimento antipuritano disparou no
particular, há muito é passatempo tempo da Restauração e tem fluído
popular nos dois lados do Atlântico,e livremente desde então; na América
a imagem que a maioria das pessoas do Norte edificou-se lentamente,
tem do Puritanismo ainda contém após os dias de Jonathan Edwards,
bastante da deformadora sujeira que para atingir seu zênite há cem anos
necessita ser raspada. atrás na Nova Inglaterra pós-Purita-
“Puritano”, como um nome, era, na.
de fato, lama desde o começo. Cu- No último meio século, porém,
nhado cedo, nos anos 1560, sempre estudiosos têm limpado a lama meti-
foi um palavra satírica e ofensiva, culosamente. E, como os afrescos
subentendendo mau humor, censu- de Michelangelo na Capela Sistina têm
ra, presunção e certa medida de cores pouco familiares depois que os
hipocrisia, acima e além da sua im- restauradores removeram o verniz
plicação básica de descontentamento, escuro, assim a imagem convencio-
motivado pela religião, para com aqui- nal dos Puritanos foi radicalmente
lo que era visto como a laodicense e recuperada, ao menos para os infor-
comprometedora Igreja da Inglater- mados. (Aliás, o conhecimento hoje
ra, de Elizabeth. Mais tarde, a palavra viaja devagar em certas regiões.)
ganhou a conotação política adicio- Ensinados por Perry Miller, William
nal de ser contra a monarquia Stuart Haller, Marshall Knappen, Percy
e a favor de algum tipo de republica- Scholes, Edmund Morgan e uma sé-
nismo; sua primeira referência, no rie de pesquisadores mais recentes,
POR QUE PRECISAMOS DOS PURITANOS 29
pessoas bem informadas agora reco- Os Puritanos, em contraste, como
nhecem que os Puritanos típicos não um corpo eram gigantes. Eram gran-
eram homens selvagens, ferozes e des almas servindo a um grande Deus.
monstruosos fanáticos religiosos, e Neles, a paixão sóbria e a terna com-
extremistas sociais, mas sóbrios, paixão combinavam. Visionários e
conscienciosos, cidadãos de cultu- práticos, idealistas e também realis-
ra, pessoas de princípio, decididas e tas, dirigidos por objetivos e metódi-
disciplinadas, excepcionais nas vir- cos, eram grandes crentes, grandes
tudes domésticas e sem grandes esperançosos, grandes realizadores e
defeitos, exceto a tendência de usar grandes sofredores.
muitas palavras ao dizer qualquer Mas seus sofrimentos, de am-
coisa importante, a Deus ou ao ho- bos os lados do oceano (na velha
mem. Afinal está sendo consertado Inglaterra pelas autoridades e na Nova
o engano. Inglaterra pelo clima), os tempera-
Mas, mesmo assim, a sugestão ram e amadureceram até que ganha-
de que necessitamos dos Puritanos ram uma estatura nada menos do que
— nós, ocidentais do final do século heróica. Conforto e luxo, tais como
vinte, com toda nossa sofisticação e nossa afluência hoje nos traz, não
maestria de técnica tanto no campo levam à maturidade; dureza e luta,
secular como no sagrado — poderá sim, e as batalhas dos Puritanos con-
erguer algumas sobrancelhas. Resiste tra os desertos evangélico e climáti-
a crença de que os Puritanos, mes- co onde Deus os colocou produziram
mo se fossem de fato cidadãos uma virilidade de caráter, inviolável e
responsáveis, eram ao mesmo tem- invencível, erguendo-se acima de de-
po cômicos e patéticos, sendo sânimo e temores, para os quais os
ingênuos e supersticiosos, super-es- verdadeiros precedentes e modelos
crupulosos, mestres em detalhes e são homens como Moisés e Neemi-
incapazes ou relutantes em relaxa- as, Pedro, depois do Pentecoste, e o
rem. Pergunta-se: O que estes zelotes apóstolo Paulo.
nos poderiam dar do que precisamos? A guerra espiritual fez dos Puri-
A resposta é, em uma palavra, tanos o que eles foram. Eles aceita-
maturidade. A maturidade é uma com- ram o antagonismo como seu cha-
posição de sabedoria, boa vontade, mado, vendo a si mesmos como os
maleabilidade e criatividade. Os Pu- soldados peregrinos do seu Senhor,
ritanos exemplificavam a maturida- exatamente como na alegoria de
de; nós não. Um líder bem viajado, Bunyan, sem esperarem poder avan-
um americano nativo, declarou que çar um só passo sem oposição de uma
o protestantismo norte-americano— espécie ou outra. John Geree, no seu
centrado no homem, manipulativo, folheto “O Caráter de um Velho Pu-
orientado pelo sucesso, auto-indul- ritano Inglês ou Inconformista”
gente e sentimental como é, patente- (1646), afirma: “Toda sua vida ele a
mente — mede cinco mil quilômetros tinha como uma guerra onde Cristo
de largura e um centímetro de pro- era seu capitão; suas armas: orações
fundidade. Somos anões espirituais. e lágrimas. A cruz, seu estandarte; e
30 Fé para Hoje
sua palavra [lema], Vincit qui patitur campos, nas rodovias e sebes,
[o que sofre, conquista]”.2 eles escreveram e pregaram como
Os Puritanos perderam, em cer- homens de autoridade. Embora
ta medida, toda batalha pública em mortos, pelos seus escritos eles
que lutaram. Aqueles que ficaram na ainda falam; uma unção peculiar
Inglaterra não mudaram a igreja da lhes atende nesta mesma hora...3
Inglaterra como esperavam fazer,
nem reavivaram mais do que uma Estas palavras vêm do prefácio
minoria dos seus partidários e even- de uma reedição dos trabalhos de
tualmente foram conduzidos para Bunyan que surgiu em 1767; mas a
fora do anglicanismo por meio de unção continua, a autoridade ainda é
calculada pressão sobre suas cons- sentida, e a amadurecida sabedoria
ciências. Aqueles que atravessaram permanece empolgante, como todos
o Atlântico falharam em estabelecer os modernos leitores do Puritanismo
Nova Jerusalém na Nova Inglaterra; cedo descobrem por si mesmos.
durante os primeiros cinqüenta anos Através do legado desta literatura, os
suas pequenas colônias mal sobrevi- Puritanos podem nos ajudar hoje na
veram, segurando-se por um fio. Mas direção da maturidade que eles
a vitória moral e a espiritual que os conheceram e que precisamos.
Puritanos conquistaram permanecen- De que maneiras podemos fa-
do dóceis, pacíficos, pacientes, obe- zer isto? Deixe-me sugerir alguns
dientes e esperançosos sob contínuas pontos específicos. Primeiro, há li-
e aparentemente intoleráveis pressões ções para nós na integração das suas
e frustrações, dão-lhes lugar de alta vidas diárias. Como seu cristianismo
honra no “hall” de fama dos crentes, era totalmente abrangente, assim o
onde Hebreus 11 é a primeira galeria. seu viver era uma unidade. Hoje, cha-
Foi desta constante experiência de maríamos o seu estilo de vida de “ho-
forno que forjou-se sua maturidade, lístico”: toda conscientização, ativi-
e sua sabedoria relativa ao discipula- dade e prazer, todo “emprego das
do foi refinada. George Whitefield, o criaturas” e desenvolvimento de po-
evangelista, escreveu sobre eles deres pessoais e criatividade, integra-
como se segue: vam-se na única finalidade de honrar
a Deus, apreciando todos os seus
Ministros nunca escrevem ou dons e tomando tudo em “santidade
pregam tão bem como quando de- ao Senhor’’. Para eles não havia
baixo da cruz; o Espírito de Cristo disjunção entre o sagrado e o secu-
e de glória paira então sobre eles. lar; toda a criação, até onde conheci-
Foi isto sem dúvida que fez dos am, era sagrada, e todas as ativida-
Puritanos... as lâmpadas ardentes des, de qualquer tipo, deviam ser
e brilhantes. Quando expulsos pelo santificadas, ou seja, feitas para a
sombrio Ato Bartolomeu (o Ato de glória de Deus. Assim, no seu ardor
Uniformidade de 1662) e removi- elevado aos céus, os Puritanos tor-
dos dos seus respectivos cargos naram-se homens e mulheres de or-
para irem pregar em celeiros e nos dem, sóbrios e simples, de oração,
POR QUE PRECISAMOS DOS PURITANOS 31
decididos, práticos. Viam a vida a Palavra de instrução de Deus sobre
como um todo, integravam a con- relacionamento divino-humano, bus-
templação com a ação, culto com tra- cavam viver, e aqui também eram
balho, labor com descanso, amor a conscienciosamente metódicos. Re-
Deus com amor ao próximo e a si conhecendo-se como criaturas de
mesmo, a identidade pessoal com a pensamento, afeição e vontade, e sa-
social e um amplo espectro de res- bendo que o caminho de Deus até o
ponsabilidades relacionadas umas coração (a vontade) é via cabeça hu-
com as outras, de forma totalmente mana (a mente), os Puritanos prati-
consciente e pensada. cavam meditação, discursiva e siste-
Nessa minuciosidade eram ex- mática, em toda a amplitude da ver-
tremos, diga-se, muito mais rigoro- dade bíblica, conforme a viam apli-
sos do que so- cando-se a eles
mos, mas ao  mesmos. A
misturar toda a meditação Pu-
variedade de A maturidade é uma ritana na Escri-
deveres cris- composição de sabedoria, tura se modela-
tãos expostos boa vontade, maleabilidade va pelo sermão
na Escritura Puritano; na
eram extrema-
e criatividade. meditação o
mente equili-  Puritano bus-
brados. Viviam caria sondar e
com “método” (diríamos, com uma desafiar seu coração, guiar suas afei-
regra de vida), planejando e dividin- ções para odiar o pecado, amar a jus-
do seu tempo com cuidado, nem tiça e encorajar a si mesmo com as
tanto para afastar as coisas ruins promessas de Deus, assim como pre-
como para ter certeza de incluir to- gadores Puritanos o fariam do púlpi-
das as coisas boas e importantes — to. Esta piedade racional, resoluta e
sabedoria necessária, tanto naquela apaixonada era consciente sem to-
época como agora, para pessoas mar-se obsessiva, dirigida pela lei
ocupadas! Nós hoje que tendemos a sem cair no legalismo, e expressiva
viver vidas sem planejamento, ao da liberdade cristã sem vergonhosos
acaso, em uma série de comparti- deslizes para a licenciosidade. Os Pu-
mentos incomunicantes e que, ritanos sabiam que a Escritura é a re-
portanto, nos sentimos sufocados e gra inalterada da santidade, e eles
distraídos a maior parte do tempo, nunca se permitiram esquecer disto.
poderíamos aprender muito com os Conhecendo também a desones-
Puritanos nesse ponto. tidade e a falsidade dos corações hu-
Em segundo lugar, há lições manos decaídos, cultivavam humil-
para nós na qualidade de sua experi- dade e auto-suspeita como atitudes
ência espiritual. Na comunhão dos constantes, examinando-se regular-
Puritanos com Deus, assim como mente em busca dos pontos ocultos
Jesus era central, a Sagrada Escritu- e males internos furtivos. Por isso
ra era suprema. Pela Escritura, como não poderiam ser chamados de mór-
32 Fé para Hoje
bidos ou introspectivos; pelo contrá- do, embora alguns relutantemente
rio, descobriram a disciplina do auto- tenham-se tornado tal; todos eles,
exame pela Escritura (não é o mes- entretanto, desejavam ser agentes
mo que introspecção, notemos), se- eficazes de mudança para Deus onde
guida da disciplina da confissão e do quer que se exigisse mudança. As-
abandono do pecado e renovação da sim Cromwell e seu exército fizeram
gratidão a Cristo pela sua misericór- longas e fortes orações antes de cada
dia perdoadora como fonte de gran- batalha, e pregadores pronunciaram
de gozo e paz interiores. Hoje nós que extensas e fortes orações particula-
sabemos à nossa custa que temos res sempre antes de se aventurarem
mentes não esclarecidas, afeições no púlpito, e leigos proferiram lon-
incontroladas e vontades instáveis no gas e fortes orações antes de enfren-
que se refere a servir a Deus e que tarem qualquer assunto de importân-
freqüentemente nos vemos subjuga- cia (casamento, negócios, investi-
dos por um romanticismo emocional, mentos maiores ou qualquer outra
irracional, disfarçado de superespiri- coisa).
tualidade, nos beneficiaríamos mui- Hoje, porém, os cristãos ociden-
to do exemplo dos Puritanos neste tais se vêem em geral sem paixão,
ponto também. passivos, e, teme-se, sem oração.
Em terceiro lugar, há lições para Cultivando um sistema que envolve
nós na sua paixão pela ação eficaz. a piedade pessoal num casulo pietis-
Embora os Puritanos, como o resto ta, deixam os assuntos públicos se-
da raça humana, tivessem seus so- guirem seu próprio curso e nem es-
nhos do que poderiam e deveriam peram, nem, na maioria, buscam
ser, não eram definitivamente o tipo influenciar além do seu próprio cír-
de gente que denominaríamos “so- culo cristão. Enquanto os Puritanos
nhadores”! Não tinham tempo para oraram e lutaram por uma Inglaterra
o ócio do preguiçoso ou da pessoa e uma Nova Inglaterra santas — sen-
passiva que deixa para os outros o tindo que onde o privilégio é negli-
mudar o mundo. Foram homens de genciado e a infidelidade reina, o juí-
ação no modelo puro reformado — zo nacional está sob ameaça — os
ativistas de cruzada sem qualquer cristãos modernos alegremente se
autoconfiança; trabalhadores para acomodam com a convencional res-
Deus que dependiam sumamente de peitabilidade social e, tendo feito as-
que Deus trabalhasse neles e através sim, não olham além. Claro, é óbvio
deles e que sempre davam a Deus a que a esta altura também os Purita-
glória por qualquer coisa que faziam, nos têm muita coisa para nos ensi-
e que em retrospecto lhes parecia nar.
correta; homens bem dotados que Em quarto lugar, há lições para
oravam com afinco para que Deus nós no seu programa para a estabili-
os capacitasse a usar seus poderes, dade da família. Não seria demais
não para a auto-exibição, mas para a dizer que os Puritanos criaram a fa-
glória dEle. Nenhum deles queria ser mília cristã no mundo de língua
revolucionário na igreja ou no Esta- inglesa. A ética Puritana do casamento
POR QUE PRECISAMOS DOS PURITANOS 33
consistia em primeiro se procurar um esforçou-se para tornar sua família
parceiro não por quem se fosse per- numa igreja”, escreveu Geree, “.. .lu-
didamente apaixonado no momento, tando para que os que nascessem
mas a quem se pudesse amar conti- nela, pudessem nascer novamente em
nuamente como seu melhor amigo Deus.” Numa era em que a vida em
por toda a vida e proceder com a aju- família tornou-se árida mesmo entre
da de Deus a fazer exatamente isso. os cristãos, com cônjuges covardes
A ética Puritana de criação de filhos tomando o curso da separação em
era treinar as crianças no caminho vez do trabalho no seu relacionamen-
em que deveriam seguir, cuidar dos to, e pais narcisistas estragando seus
seus corpos e almas juntos e educá- filhos materialmente enquanto os ne-
los para a vida adulta sóbria, santa e gligenciam espiritualmente, há, mais
socialmente útil. A ética Puritana da uma vez, muito o que se aprender
vida no lar baseava-se em manter a com os caminhos bem diferentes dos
ordem, a cortesia e o culto em famí- Puritanos.
lia. Em quinto lugar, há lições para
Boa vontade, paciência, consis- se aprender com o seu senso de va-
tência e uma atitude encorajadora lor humano. Crendo num grande
eram vistas como as virtudes domés- Deus (o Deus da Escritura, não di-
ticas essenciais. Numa era de des- minuído nem domesticado), eles ga-
confortos rotineiros, medicina rudi- nharam um vívido senso da grandeza
mentar sem anestésicos, freqüentes das questões morais, da eternidade e
lutos (a maioria das famílias perdia da alma humana. O sentimento de
tantos filhos quantos criava), uma Hamlet “Que obra é o homem!” é um
média de longevidade um pouco abai- sentimento muito Puritano; a mara-
xo dos trinta e dificuldade econômi- vilha da individualidade humana era
ca para quase todos, salvo príncipes algo que sentiam pungentemente.
mercantes e pequenos proprietários Embora, sob a influência da sua he-
fidalgos, a vida familiar era uma es- rança medieval, que lhes dizia que o
cola para o caráter em todos os sen- erro não tem direitos, não conseguis-
tidos. A fortaleza com que os sem em todos os casos respeitar
Puritanos resistiam à bem conhecida aqueles que se diferenciavam deles
tentação de aliviar a pressão do mun- publicamente, sua apreciação pela
do através da violência no lar e luta- dignidade humana como criatura feita
vam para honrar a Deus apesar de para ser amiga de Deus era intensa,
tudo, merece grande elogio. Em casa e também o era seu senso da beleza
os Puritanos mostravam-se maduros, e nobreza da santidade humana. Atu-
aceitando as dificuldades e decepções almente, no formigueiro urbano co-
realisticamente como vindas de Deus letivo onde vive a maioria de nós, o
e recusando-se a desanimar ou amar- senso da significação eterna indivi-
gurar-se com qualquer uma delas. dual se acha muito desgastado, e o
Também era em casa, em primeira espírito Puritano é neste ponto um
instância, que o leigo Puritano prati- corretivo do qual podemos nos be-
cava o evangelismo e ministério. “Ele neficiar imensamente.
34 Fé para Hoje
Em sexto lugar, há lições para vida de cada um. Nesta mesma li-
se aprender com o ideal de renova- nha, o ideal para a igreja era que
ção da igreja com os Puritanos. Na através de clérigos “reformados”
verdade, “renovação” não era uma cada congregação na sua totalidade
palavra que eles usavam; eles fala- viesse a tornar-se “reformada” — tra-
vam apenas de “reformação” e zida, sim, pela graça de Deus a um
“reforma”, palavras que sugerem às estado que chamaríamos de reaviva-
nossas mentes do século vinte uma mento sem desordem, de forma a
preocupação que se limita ao aspec- tornar-se verdadeira e completamente
to exterior da ortodoxia, ordem, convertida, teologicamente ortodoxa
formas de cul- e saudável, es-
to e códigos  piritualmente
disciplinares da alerta e espe-
igreja. Mas Boa vontade, paciência, rançosa, em
quando os Pu- consistência e uma atitude termos de ca-
ritanos prega- encorajadora eram vistas como ráter, sábia e
ram publica-
ram e oraram
as virtudes domésticas essenciais. madura, etica-
mente empre-
pela “reforma-  endedora e
ção”, tinham obediente, hu-
em mente nada menos do que isso, milde mas alegremente certa de sua
mas de fato muito mais. salvação. Este era em geral o alvo que
Na página de título da edição o ministério pastoral Puritano visa-
original de The Reformed Pastor (tra- va, tanto em paróquias inglesas quan-
duzido para o português sob o título to nas igrejas “reunidas” do tipo con-
“O Pastor Aprovado” — PES) de gregacional que se multiplicaram em
Richard Baxter, a palavra “Reforma- meados do século dezessete.
do” foi impressa com um tipo de letra A preocupação dos Puritanos
bem maior do que as outras; e não pelo despertamento espiritual em co-
se precisa ler muito para descobrir munidades se nos escapa até certo
que, para Baxter, um pastor “Refor- ponto por seu institucionalismo. Ten-
mado” não era alguém que fazia demos a pensar no ardor de reaviva-
campanha pelo calvinismo, mas al- mento como sempre impondo-se
guém cujo ministério como pregador, sobre a ordem estabelecida, enquan-
professor, catequista e modelo para to os Puritanos visualizavam a “re-
o seu povo demonstrasse ser ele, forma” a nível congregacional vindo
como se diria, “reavivado” ou “re- em estilo disciplinado através de pre-
novado”. A essência deste tipo de gação, catequismo e fiel trabalho es-
“reforma” era um enriquecimento da piritual da parte do pastor. O clerica-
compreensão da verdade de Deus, lismo, com sua supressão da inicia-
um despertar das afeições dirigidas a tiva leiga, era sem dúvida uma
Deus, um aumento do ardor da de- limitação Puritana, que voltou-se con-
voção e mais amor, alegria e firmeza tra eles quando o ciúme leigo final-
de objetivo cristão no chamado e na mente veio à tona com o exército de
POR QUE PRECISAMOS DOS PURITANOS 35
Cromwell, no quacrismo e no vasto enham, entre outros, a visão da Es-
submundo sectarista dos tempos da critura como o “princípio regulador”
Comunidade Britânica. O outro lado de culto e ordem ministerial que in-
da moeda, porém, era a nobreza do cendiou Thomas Cartwright, o
perfil do pastor que os Puritanos de- abrangente interesse ético que atin-
senvolveram — pregador do evan- giu seu apogeu na monumental Chris-
gelho e professor da Bíblia, pastor e tian Directory, de Richard Baxter, e
médico de almas, catequista e con- a preocupação em popularizar e to-
selheiro, treinador e disciplinador, mar prático, sem perder a profundi-
tudo em um só. Dos ideais e objeti- dade, tão evidente em William Perkins
vos Puritanos para a vida da igreja, e que tão poderosamente influenciou
os quais eram inquestionável e per- seus sucessores.
manentemente certos, e dos seus O Dr. Ryken também sabe que,
padrões para o clero, os quais eram além de ser um movimento pela re-
desafiadora e inquisitivamente eleva- forma da igreja, renovação pastoral,
dos, ainda há muito que os cristãos e reavivamento espiritual, o Purita-
modernos podem e devem levar a nismo era uma visão de mundo, uma
sério. Estas são apenas algumas das filosofia cristã total, em termos inte-
maneiras mais óbvias como os Puri- lectuais, um medievalismo protestan-
tanos nos podem ajudar nestes dias. tizado e atualizado, e em termos de
Em conclusão, elogiaria os ca- espiritualidade um tipo de monasti-
pítulos do Professor Ryken [autor de cismo fora do claustro e dos votos
Santos no Mundo], que estas obser- monásticos. Sua apresentação da vi-
vações introduzem, como uma deta- são e do estilo de vida Puritanos é
lhada apresentação da perspectiva perspicaz e exata. Esta obra [Santos
Puritana. Tendo lido vastamente a no Mundo] deveria conquistar novo
recente erudição Puritana, ele sabe o respeito pelos Puritanos e criar um
que está dizendo. Ele sabe, como o novo interesse em explorar a grande
sabem a maioria dos estudantes mo- massa de literatura teológica e devo-
dernos, que o Puritanismo como uma cional que eles nos deixaram, para
atitude distinguidora começou com descobrir as profundidades da sua
William Tyndale, contemporâneo de percepção bíblica e espiritual. Se ti-
Lutero, uma geração antes de ser ver este efeito, eu pessoalmente, que
cunhada a palavra “Puritano”, e foi devo mais aos escritos Puritanos do
até o final do século dezessete, vári- que a qualquer outra teologia que te-
as décadas depois que o termo “Pu- nha lido, ficarei transbordante de ale-
ritano” havia caído do uso comum. gria.
Ele sabe que na formação do Purita- __________
nismo entrou o biblicismo reforma- 1 Este texto é a Apresentação do livro
dor de Tyndale, a piedade de coração Santos no Mundo, Leland Ryken,
que rompeu a superfície com John Editora Fiel, 1992.
2 Citado de Wakefield, Puritan Devo-
Bradford, a paixão pela competência tion, p. x.
pastoral exemplificada por John Ho- 3 George Whitefield, Works (Londres,
oper, Edward Dering, e Richard Gre- 1771), 4:306-7.
CARTA DE UM LEITOR

DEUS, O ESTILISTA
Antes de ler o livro da Editora Fiel intitulado Deus, o Estilista, pensava
que o mundo tinha mudado e eu continuava atrasado em muitas coisas e,
especialmente, em relação à moda. Por muitas vezes, eu e minha esposa
chegamos a comentar que ficamos parados no tempo e como tem sido
difícil encontrar roupas nas lojas que não estejam dentro dos padrões da
moda atual.
Fiquei de certa forma aliviado ao perceber que não estou sozinho
neste pensamento.
No livro Deus, o Estilista, o escritor aborda o assunto da vestimenta,
começando com a definição de "modéstia"; ele continua mencionando o
significado da própria palavra, mostrando também como Deus vestiu Adão
e Eva, logo após a Queda. Com clareza e com base bíblica, ele mostra
como Deus, sendo o Estilista, cobriu a nudez do casal e, ao contrário disto,
no decorrer dos tempos, como Satanás tem feito de tudo para descobri-los
e expô-los a nudez e vergonha. O autor ainda mostra, dentro da história,
como os anos foram passando e como, no decorrer do tempo, homens e
mulheres foram encurtando as suas vestimentas, em função da moda.
Infelizmente, muitas igrejas têm se conformado com a mente do mundo e
têm tomado a sua forma, inclusive na área da moda. Enfatiza também
como os meios de comunicação, tais como televisão e cinema, têm sido
instrumentos para a propagação de roupas indecentes.
Concluindo, ele chama a atenção da mulher, utilizando a ilustração da
"vela" que pode incendiar a "pólvora", a qual ele coloca como sendo os
homens. As mulheres devem ter o cuidado para não serem pedra de tropeço
para os homens, com a falta de modéstia, vestindo roupas que mostram
partes do corpo que deveriam ficar cobertas. Por outro lado, também
chama a atenção do homem, dando o exemplo de que, assim como Adão
não rejeitou o pecado e consentiu com Eva no mesmo pecado, ele é
responsável e deve ensinar a mulher e aos filhos sobre a modéstia. Creio
que este livro ajudará muitas pessoas nas igrejas a voltarem e olharem
para a santidade, ensinando o povo de Deus a vestir-se de forma mais
decente.
Pr. Joneri Gonçalves de Lima
Realeza, PR.