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A REFORMA DA IGREJA EM HARMONIA COM AS ESCRITURAS 1

A REFORMA DA IGREJA
EM HARMONIA COM AS ESCRITURAS
Johannes G. Vos

A reforma da igreja em harmo- verdadeiro progresso da reforma da


nia com as Escrituras está sempre igreja até ao tempo em que a confis-
incompleta na terra. Ecclesia refor- são foi elaborada.
mata reformanda est (“a igreja, tendo Nunca podemos considerar este
sido reformada, ainda precisa ser re- processo como completo em nossos
formada”). Isto resulta do fato de que próprios dias ou em qualquer ponto
as Escrituras são um padrão perfeito da História da Igreja na terra. Te-
e absoluto, enquanto a igreja, em mos sempre de esquecer as coisas que
qualquer ponto de sua história na ter- ficam para trás e avançar para as que
ra, ainda é imperfeita, envolvida em estão no futuro. Temos sempre de
pecado e erro. nos esforçar para conquistar aquilo
Este processo de reforma tem de para o que fomos conquistados por
ser contínuo até ao fim do mundo. Cristo. A doutrina da igreja, a ado-
Em nenhum ponto, a igreja pode ração, o governo, a disciplina, as
parar e dizer: “Cheguei ao final. Até atividades missionárias, as institui-
aqui e não mais adiante”. Somente ções educacionais, as publicações e
no céu a igreja triunfante poderá dizer a vida prática — todas estas coisas
isso. têm de ser progressivamente refor-
No processo de reforma, existem madas em harmonia com as Escritu-
certos estágios históricos e certos ras.
marcos de progresso alcançado. Por A reforma sempre tem sido uma
exemplo, os importantes credos e realização progressiva e, necessaria-
confissões históricas são tais marcos mente, tem de ser assim. Os zelosos
de progresso. A Confissão de Fé de tentam empreender a reforma de uma
Westminster, por exemplo, marca o única vez, mas apenas batem a cabe-
2 Fé para Hoje
ça contra um muro de pedras. Deus ciso para ser fiel à Palavra de Deus
age por meio de um processo histó- — uma lealdade verdadeiramente
rico — um processo contínuo e heróica e radical para com as Escri-
gradual. E temos de nos conformar turas.
à maneira de agir dEle. Essa autocrítica, por parte da
igreja, pode ser embaraçadora e do-
A REFORMA BÍBLICA DA IGREJA É
lorosa. Pode significar que a igreja,
O FRUTO DE SUBMISSÃO AO
assim como o Cristão, em O Pere-
E SPÍRITO S ANTO FALANDO NAS grino, escrito por John Bunyan, pode
ESCRITURAS. se achar na Campina do Caminho
Errado e ter de refazer seus passos,
Não se exige somente o avanço dolorosa e humildemente, até que
no estudo das Escrituras, um avanço esteja de volta ao Caminho do Rei.
que sobrepuja os marcos do passa- Essa autocrítica, por parte da igreja,
do, mas também uma auto-análise pode ser devastadora para os interes-
perscrutadora por parte da igreja. Os ses e projetos especiais de alguns
padrões secundários da igreja têm crentes ou grupos da igreja. Pode
sempre de ser sujeitados à avaliação demonstrar que certas características
e reavaliação, à luz das Escrituras. dos padrões, da vida ou do progra-
Isto está implícito em nossa confis- ma da igreja não estão em completa
são de que somente as Escrituras são harmonia com a Palavra de Deus; e,
infalíveis. Se esta confissão é verda- portanto, devem ser reconsiderados
deira, todas as outras coisas têm de e colocados em harmonia com as
ser constantemente examinadas e Escrituras.
reexaminadas pelas Escrituras. Por estas e outras razões simila-
Não somente os padrões oficiais res, a autocrítica, por parte da igre-
da igreja, mas também a sua vida, ja, é freqüentemente negligenciada
os seus programas, as suas ativida- e, muitas vezes, resistida com vigor.
des, as suas instituições e as suas Aqueles que a defendem ou procu-
publicações têm de passar pela ram vê-la realizada provavelmente
autocrítica perscrutadora com base serão vistos como extremistas, faná-
nas Escrituras. Estas coisas têm de ticos, entusiastas, visionários, cria-
ser testadas sempre à luz da Palavra dores de problemas e coisas seme-
de Deus. Essa autocrítica, por parte lhantes. No entanto, foi por meio
da igreja, é o correlativo do auto- dessa autocrítica que as reformas do
exame ao qual Deus, em sua Palavra, passado se realizaram. Homens como
exorta todo crente. Lutero, Calvino, Knox, Melville,
Essa autocrítica, por parte da Cameron e Renwick estavam preo-
igreja, é árdua. Exige esforço, inte- cupados apenas com a opinião de
ligência, aprendizado, sacrifício, Deus em sua Palavra. Eles não fo-
muita humildade, auto-renúncia e ram impedidos pelas opiniões e ati-
honestidade absoluta. Requer lealda- tudes adversas dos homens.
de às Escrituras, uma lealdade que Quando a igreja ousou realmen-
se dispõe a fazer tudo o que for pre- te contemplar-se no espelho da
A REFORMA DA IGREJA EM HARMONIA COM AS ESCRITURAS 3
Palavra de Deus, com sinceridade Deus realmente exige da igreja. Uma
mortal, ela esteve em seu máximo e vez que o status quo é pecaminoso,
influenciou o mundo. Ela seguiu ele nunca pode ser considerado com
adiante com novo ânimo e vigor. Por complacência; e, menos ainda, con-
outro lado, quando a igreja hesitou siderado como o ideal para a igreja.
ou se recusou a contemplar-se aten- É um pecado tornar absoluto o status
tamente no espelho da Palavra de quo.
Deus, ela se tornou fraca, estagna- Sempre precisamos nos arrepen-
da, decadente, ineficaz e sem der do status quo. Não importa o
influência. quão excelente ele seja, ainda é pe-
A autocrítica denominacional caminoso e precisamos nos arrepen-
constante, com base nas Escrituras, der dele. Considerá-lo com compla-
é um dever de toda igreja. Mas isto cência é um dos maiores pecados da
é realmente levado a sério? Quanto igreja contemporânea — um pecado
zelo, quanta preocupação — também que entristece o Espírito Santo, um
digo, quanta tolerância — existe hoje pecado que, com certeza, impede a
em relação à autocrítica? igreja de realizar seu verdadeiro e
Em toda igreja, existe uma ten- correto progresso de reformar-se
dência constante de considerar o pre- em harmonia com as Escrituras.
sente estado das coisas (o status quo) Uma igreja dominada por esta
como normal e correto. Assim, o idéia não pode avançar realmente.
que, na realidade, é um simples cos- Na verdade, ela pode até cair em de-
tume passa a ter a força e a influên- clínio e apostasia. No máximo, ela
cia de um princípio, enquanto os se moverá em círculo fixo, sempre
verdadeiros princípios chegam a ser retornando ao ponto do qual havia
considerados como se fossem meras partido.
convenções ou costumes humanos,
possuindo apenas autoridade resul- D EUS NOS CHAMA A BUSCAR A
tante de uso e de aprovação popular. REFORMA DA IGREJA EM NOSSOS
A sanção outorgada pelo uso é con- DIAS.
siderada como suficiente para esta-
belecer um assunto como legal, As igrejas, em sua maioria, se
correto ou necessário. E, de modo moveram em um círculo fixo atra-
inverso, a falta de uso é considerada vés de sua história passada. Podemos
como suficiente para provar que um dizer vigorosamente que elas têm se
assunto é errado ou impróprio. Este movido em um ciclo vicioso. O pa-
tipo de estagnação, esta atitude de drão tem sido este: uma dormência
considerar o status quo como nor- seguida por um avivamento, segui-
mal, fecha a porta contra todo o ver- do por uma dormência... O verda-
dadeiro progresso na reforma da deiro progresso ainda não se realizou.
igreja, visto que o status quo é sem- Parece que o melhor a ser feito é
pre pecaminoso. Sempre fica aquém descobrir como sair de um abismo
das exigências da Palavra de Deus. após outro. Nada é mais prevalecen-
É sempre menor do que aquilo que te do que este tipo de estagnação na
4 Fé para Hoje
igreja. Nada é mais difícil do que alguns, tudo seria ótimo.
conseguir realmente avaliar e refor- Seria ótimo realmente? O que
mar qualquer aspecto da estrutura e aconteceu? Não estamos naquela épo-
das atividades da igreja à luz da Pa- ca. Como podemos nos desculpar por
lavra de Deus. havermos falhado em ir além de nos-
O verdadeiro progresso signifi- sos antepassados no entendimento das
ca edificar sobre os alicerces estabe- Escrituras? Como podemos dizer que
lecidos no passado; mas não significa a reforma da igreja foi completada
ser dominado pelas mãos letais do erro em 1560, em 1638 ou, ainda, em
e das imperfeições do passado. Existe 1950? O que temos feito? Nosso ta-
somente um critério legítimo para lento foi escondido em um guarda-
avaliarmos o verdadeiro progresso; napo?
este critério é a própria Palavra de Não é difícil admitir que na
Deus. A verdadeira reforma da igre- igreja existem alguns males que pre-
ja é uma reforma alicerçada nas Es- cisam de correção. A tendência,
crituras. É uma reforma que ocorre porém, é dizermos que, se pudésse-
dentro dos limites das Escrituras, não mos apenas retornar aos fundamentos
uma reforma que vai além das Es- corretos de uma ou duas gerações
crituras. passadas, tudo seria como realmente
As instituições, as agências, as deve ser. O que mais alguém per-
publicações da igreja refletem opi- guntaria? Poderíamos manter aquela
niões diferentes, daquelas que ocor- posição por todo o tempo vindouro.
rem em nossos dias na igreja? Ou Mas isso não seria cumprir os deve-
elas têm de assumir sua posição junto res que Deus nos outorgou. Nossos
aos padrões oficiais da igreja e man- antepassados reformaram a igreja em
ter essa postura ao confrontar o pú- seu tempo; Deus nos chama a refor-
blico? Ou devem ser os pioneiros na má-la em nosso tempo. Não podemos
autocrítica denominacional com descansar em nossos lauréis. Temos
base nas Escrituras? Elas têm de de agir por nós mesmos, pela fé, ali-
abrir um novo caminho e seguir para cerçados na Palavra de Deus.
um novo território à luz da Palavra
de Deus? A VERDADEIRA REFORMA BUSCA A
Estas são perguntas sérias e difí- VERDADE E A HONRA DE D EUS
ceis. A tendência é deixá-las de lado ACIMA DE TODAS AS OUTRAS
e ignorá-las. Elas raramente são en- CONSIDERAÇÕES.
frentadas. A tendência é considerar-
mos o status quo como normal. Ou, Vivemos em uma era pragmáti-
se não pensamos assim sobre o status ca, impaciente com a verdade, bas-
quo do presente, consideramos como tante interessada em resultados
normais, em algum grau, as realiza- práticos. É uma época de impaciên-
ções do passado. Se pudéssemos tão- cia com aqueles que consideram a
somente retornar às coisas como elas verdade acima dos resultados. Nossa
eram nos “excelentes dias de outro- era quer resultados e está bastante
ra” e manter aquele padrão, dizem disposta a crer que figos nascem em
A REFORMA DA IGREJA EM HARMONIA COM AS ESCRITURAS 5
cardos, se é que pensa ver algum graça divina e sempre precisa ser
figo. reformado pela igreja, na terra. Esta
Quando alguém procura trazer atitude falha em compreender a
alguma característica da igreja ao verdade da afirmação de Agostinho:
julgamento crítico da Palavra de “Todo bem inferior envolve um
Deus, já ouvi a objeção de que o tem- elemento de pecado”.
po não é oportuno. “Você está cer- No fundo, esta aceitação com-
to”, alguns dizem, “mas este é o placente do status quo como normal
tempo oportuno para você trazer este procede de uma idéia errada a res-
assunto à baila?” Devemos compre- peito de Deus, uma idéia que falha
ender que a verdade é sempre opor- em reconhecer a santidade e a pure-
tuna e correta; e, se esperarmos um za de Deus, que falha em compreen-
tempo oportuno para a trazermos à der o absoluto caráter das Escrituras
baila, esse tempo pode nunca che- como o padrão da igreja.
gar. Essa época mais conveniente Colocar a honra e a verdade de
pode nunca chegar. Sempre haverá Deus em primeiro lugar, acima de
uma razão para sermos instados a não quaisquer outras considerações, exige
realizarmos a reforma da igreja em grande consagração moral. Neste
harmonia com as Escrituras. Deus é assunto, aquilo que é verdadeiro para
o Deus da verdade. Deus é luz, e não um indivíduo também é verdadeiro
há nEle treva nenhuma. Cristo é o para a igreja: quem perder a sua vida
Rei do reino da verdade. Para isto por amor a Cristo, esse a achará.
Ele veio ao mundo: para dar teste-
munho da verdade. Todo aquele que _____________
é nascido da verdade ouve a voz de Johannes G. Vos, filho de
Cristo. Geerhardus Vos, do Seminário
A excessiva prontidão de aceitar Princeton, foi pastor na Igreja
o status quo como normal é um dos Presbiteriana Reformada da Amé-
grandes obstáculos no caminho da rica do Norte e ensinou as Escri-
verdadeira reforma e progresso da turas na Faculdade Genebra,
igreja em nossos dias. Esta atitude é durante vários anos. Este artigo
pecaminosa porque está cega para a apareceu originalmente no jornal
verdadeira pecaminosidade do status Blue Banner Faith and Life, que ele
quo. Falha em reconhecer que o criou e editou. Embora tenha sido
status quo é algo do que sempre escrito em 1959, este artigo é tão
temos de nos arrepender, algo que relevante para a igreja contempo-
sempre precisa ser perdoado pela rânea como o foi naqueles dias.

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A verdade de Deus sempre concorda consigo mesma.


Richard Sibbes
QUAL É A SUA FÉ?
C. H. Spurgeon

D evemos aprender do exemplo de Davi a prudência de


conservar armas provadas e eficazes. Muitos têm afirmado ser
improvável que Davi matou o gigante utilizando uma pedra.
Cumpre-nos usar os mais adequados instrumentos que pudermos
encontrar. No que diz respeito às pedras que Davi apanhou no ribeiro,
ele não as apanhou ao acaso. Davi as escolheu diligentemente,
selecionando pedras lisas que se encaixariam com perfeição em sua
funda, o tipo de pedra que ele imaginava serviria melhor ao seu
propósito. Davi não confiava em sua funda. Ele nos disse que
confiava no Senhor; todavia, saiu para confrontar o gigante com
sua funda, como se estivesse sentindo que a responsabilidade era
dele mesmo.
Esta é a verdadeira filosofia da vida de um crente. Você tem de
realizar boas obras tão zelosamente como se tivesse de ser salvo por
meio delas e tem de confiar nos méritos de Cristo como se não
tivesse feito nada. Esta mesma atitude deve manifestar-se na obra
de Deus: embora você tenha de trabalhar para Ele como se o
cumprimento de sua missão dependesse de você mesmo, precisa
entender com clareza e crer com firmeza que, afinal de contas, toda
a questão, desde o início até ao final, depende completamente de
Deus. Sem Ele, tudo o que você planejou ou realizou é inútil.
Deus nunca pretendeu que a fé nEle mesmo fosse sinônimo de
indolência. Se a obra depende completamente dEle, não há necessi-
dade de que Davi utilize a sua funda. Na realidade, não existe
necessidade nem mesmo do próprio Davi. Ele pode virar suas cos-
tas, no meio do campo de batalha, dizendo: “Deus realizará a sua
obra; Ele não precisa de mim”. Essa é a linguagem do fatalista; não
é a linguagem que expressa a maneira de agir daqueles que crêem
em Deus. Estes dizem: “Deus o quer; portanto, eu o farei”. Eles
não dizem: “Deus o quer; por isso, não há nada para eu fazer”.
Pelo contrário, eles afirmam: “Visto que Deus trabalha através de
mim, eu trabalharei por intermédio de sua boa mão sobre mim. Ele
concederá forças ao seu frágil servo e me utilizará como seu instru-
mento, que, sem Ele, não serve para nada”. Se você está disposto a
servir a Deus, ofereça-Lhe o seu melhor. Não poupe nenhum mús-
culo, nervo, habilidade ou esperteza que você pode dedicar ao
empreendimento. Não diga: “Qualquer coisa será proveitosa; Deus
pode abençoar minha deficiência tão bem quanto minha competên-
cia”. Sem dúvida, Ele pode, mas certamente não o fará.
APELO À ORAÇÃO EM FAVOR DOS PASTORES 7

APELO À ORAÇÃO
EM FAVOR DOS PASTORES
Gardiner Spring

A importância do ministério estão constantemente subindo ao seu


pastoral é tão grande, que somos Pai e ao Pai deles, ao seu Deus e ao
compelidos a rogar para ele um fa- Deus deles. Este jovem parece ouvir
vor especial. “Orai por nós” é uma a igreja dizendo: “Não podemos
súplica em que sentimos profundo entrar neste ministério sagrado, mas
interesse pessoal. “Orai por nós” — acompanharemos você com nossas
rogou o apóstolo em 1 Tessalonicen- orações”. Ele parece ouvir muitos
ses 5.25. “Orai por nós” é o eco pais crentes falando: “Não temos um
sincero de todo púlpito evangélico filho para enviar a esta vocação
neste país e no mundo. Se um ho- sagrada, mas você está indo e não
mem como Paulo pediu a bons deixará de ser o interesse de nossas
crentes rogarem por ele e se, com orações!”
seu elevado intelecto, sua eminente Muitas igrejas deste país têm
espiritualidade e sua comunhão ínti- desfrutado do sublime privilégio de
ma com Deus e o mundo invisível, enviar à seara espiritual um número
este santo homem precisava de en- considerável de amados jovens das
corajamento e estímulo para a sua famílias de sua membresia. Essas
obra, quem não dirá: “Irmãos, orai igrejas têm estabelecido a prática de
por nós, para que a palavra do Se- se reunirem (com uma extensão que
nhor se propague e seja glorificada”? é gratificante recordar) em cultos
(2 Ts 3.1.) especiais para confiar seus jovens aos
Para o jovem que está entrando cuidados e à fidelidade do Deus que
no ministério da reconciliação, é um cumpre a aliança. Quão convenien-
deleite pensar que, embora ele seja tes, em qualquer de seus aspectos,
indigno, milhares de orações em seu são esses cultos! Quão cheios de
favor, por parte dos filhos de Deus, encorajamento para o coração que
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treme ante a visão das responsabili- dar poder à pregação deles — fazer
dades do ofício sagrado! Quão essas coisas de um modo que se adap-
prazeroso é este estímulo espiritual tará a diferentes épocas, lugares,
para a mente quase pronta a sucum- ocasiões e pessoas, não se deixando
bir ao peso de sua própria fraqueza! desanimar pelas dificuldades, vencer
E quão inefavelmente precioso é o pelos inimigos ou fatigar-se do jugo
pensamento de que todos os que la- que tomaram sobre si mesmos, não
butam nesta obra grandiosa, jovens é uma tarefa simples!
ou velhos, são lembrados nas orações Se os crentes esperam ouvir ser-
das igrejas! mões enriquecedores da parte do
No coração de cada igreja, deve pastor de sua igreja, as orações deles
aprofundar-se o pensamento de que têm de supri-lo com os recursos
o seu pastor necessários.
será um ver-  Se os crentes
dadeiro mi- Quão inefavelmente precioso é o esperam ou-
nistro do e- vir sermões
vangelho à pensamento de que todos os que fiéis, as ora-
proporção labutam nesta obra grandiosa, ções deles
que as ora- jovens ou velhos, são lembrados têm de impe-
ções dela po- nas orações das igrejas! lir o pastor,
dem torná-lo mediante
um ministro  uma fiel e
dessa espécie. descompro-
Se nada, exceto a graça onipotente, metida manifestação da verdade, a
pode gerar um crente, nada menos recomendar-se a si mesmo à consci-
do que as orações das igrejas podem ência de todo homem, na presença
fazer de um homem um fiel e bem- de Deus (2 Co 4.2). Se o povo de
sucedido ministro do evangelho! Deus espera ouvir sermões podero-
Rogamos às igrejas que conside- sos e bem-sucedidos, as orações deles
rem, com maior determinação e têm de fazer com que o pastor se tor-
devoção, a grande obra à qual seus ne uma bênção para a alma dos
pastores se dedicam. Explicar dou- homens!
trinas e inculcar os deveres do Os crentes desejam que o pastor
verdadeiro cristianismo; defender a venha ao encontro deles na plenitu-
verdade contra toda a sutileza e ver- de da bênção do evangelho da paz,
satilidade do erro; manter no espírito com um coração insistente, olhos
deles mesmos o senso da presença de perscrutadores, língua ardente e ser-
Deus e das sanções morais reveladas mões regados com lágrimas e ora-
em sua Palavra; experimentar aque- ção? Se desejam isso, as suas orações
la profunda e amável impressão das devem incitar o pastor a orar; e as
coisas invisíveis e eternas (tão neces- lágrimas dos crentes devem inspirar
sárias para dar fervor à pregação), o coração sensível do pastor com os
bem como aquela vida e tolerância fortes anelos da afeição cristã. É em
consistentes que são essenciais para seu quarto de oração que os crentes
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desafiam seus amados pastores a aten- Nada proporciona aos crentes tão
tarem ao ministério que receberam grande interesse (da melhor qualida-
do Senhor Jesus (At 20.24). de) como o orar pelos pastores de suas
Quem e o que são realmente os igrejas. Quanto mais os crentes con-
ministros do evangelho? São homens fiarem a Deus os seus pastores, tanto
fracos, falíveis, pecadores, expos- mais os amarão e os respeitarão; tan-
tos a todas as armadilhas e a todos to mais atenderão, com alegria, ao
os tipos de tentação. E, devido ao ministério deles e tanto mais se be-
lugar de observação que ocupam, os neficiarão desse ministério. Os
pastores são alvo fácil para os dar- crentes sentirão maior interesse no
dos inflamados do Maligno. Eles ministério do seu pastor, se orarem
não são vítimas triviais que o gran- mais por ele. E os filhos dos crentes
de Adversário está procurando, sentirão interesse mais profundo tanto
quando deseja ferir e mutilar os no pastor quanto na pregação dele,
ministros de Cristo. Tal vítima é se ouvirem com regularidade súpli-
mais digna da atenção do reino das cas que confiam afetivamente o
trevas do que grande número de pastor ao trono da graça celestial.
homens comuns. Por esta mesma Os resultados da pregação do
razão, as tentações dos pastores são evangelho estão associados com as
provavelmente mais sutis e severas mais interessantes realidades do uni-
do que as enfrentadas pelos crentes verso. De fato, estes resultados
comuns. cumprem grande papel em afetar es-
Se o ardiloso Enganador falha em sas realidades. Onde o evangelho
destruir os pastores, ele se concentra pregado não tem livre curso e não é
astuciosamente em neutralizar a in- glorificado, ali também não ocorre
fluência deles, por meio de abafar o nenhuma exibição brilhante e majes-
fervor da piedade neles, levando-os tosa do Deus sempre bendito e
à negligência e fazendo tudo o que adorável. Essa maravilhosa exibição
pode para transformar a obra deles da natureza divina — esse desenvol-
em um fardo insuportável. Quão pe- vimento progressivo que é, em si
rigosa é a condição de um pastor cujo mesmo, tão desejável e, em suas con-
coração não é encorajado, que não seqüências, tão querido a toda mente
tem as mãos fortalecidas e não é sus- piedosa — nunca se manifesta com
tentado pelas orações do seu povo! tanta distinção impressionante e com
Não é somente em oração particular tanto fulgor dominante como quan-
e em seus próprios joelhos que o pas- do os ouvintes da verdade e da graça
tor encontra segurança e consolação, de Deus, proclamadas por lábios de
bem como pensamentos e regozijos barro, tornam visível a manifestação
que enobrecem, humilham, purifi- da grandiosa glória de Deus.
cam. Porém, quando os crentes Se o povo de Deus na terra ti-
buscam estas coisas em favor do pas- vesse mente tão pura como a dos an-
tor, este se torna um homem melhor jos ao redor do trono de Deus, eles
e mais feliz, um ministro mais útil acompanhariam, com grande interes-
do evangelho eterno! se, ansiedade e oração, o progresso
10 Fé para Hoje
e os labores dos humildes e fiéis e novas glórias ao Cordeiro que foi
embaixadores da cruz, enquanto es- morto!
tes proclamam o glorioso evangelho, Por conseguinte, em seu próprio
e veriam quanto os efeitos da prega- benefício e em benefício do amado e
ção deles revelam novas e permanen- respeitado ministro do evangelho,
tes manifestações da Divindade! Os este escritor roga por um interesse
efeitos da pregação dos pastores so- nas orações de todos aqueles que
bre a alma dos homens não são nada amam o Salvador e a alma dos ho-
menos do mens. Somos
que o aroma  despenseiros
de vida para
a vida, na-
Para o jovem que está entrando no da verdade
de Deus e,
queles que ministério da reconciliação, é um no entanto,
são salvos, e deleite pensar que, embora ele ficamos a-
o cheiro de seja indigno, milhares de orações quém deste
morte para a
morte, na-
em seu favor, por parte dos filhos glorioso ma. Os de-
te-

queles que se de Deus, estão constantemente veres de nos-


perdem (2 subindo ao seu Pai e ao Pai deles, sa chamada
Co 2.15,16). ao seu Deus e ao Deus deles. recaem sobre
A mesma nós a cada
luz e motivos  semana. Ta-
que são os is deveres
meios de preparar alguns para o céu, sempre nos sobrevêm com diversas
quando são pervertidos e usados abu- exigências conflitantes. Às vezes,
sivamente, preparam outros para o esses deveres impõem exigências so-
inferno. bre todos os nossos pensamentos,
Oh! os pastores estão sempre as- exatamente quando temos perdido a
sumindo o púlpito a um custo muito capacidade de pensar. Às vezes, tais
elevado, não sendo precedidos, a- deveres exigem toda a intensidade e
companhados e seguidos por orações vigor de nossas afeições, quando so-
fervorosas das igrejas! Não devemos mos menos capazes de expressá-las.
nos admirar com o fato de que mui- Associadas com estas exigências,
tos púlpitos estejam sem poder e os existem a tristeza aflitiva e a ansie-
pastores se encontrem, freqüente- dade desanimadora, que exaurem
mente, desanimados, quando há tão nosso vigor, abatem nossa coragem
poucos a manter erguidas as mãos e desanimam nosso espírito.
deles. A conseqüência de negligen- Além de tudo isso, existem tan-
ciar este dever é vista e sentida no tos desapontamentos na obra do
declínio espiritual das igrejas e será pastor, que ele sente desesperada-
vista e sentida na eterna perdição dos mente a necessidade de simpatia e
homens. A conseqüência de ter este consolo das orações dos crentes fiéis
dever em alta estima seria o ajunta- dentre o povo de Deus! Às vezes,
mento de multidões no reino de Deus sentimos o nosso espírito estimulado
APELO À ORAÇÃO EM FAVOR DOS PASTORES 11
e nos dirigimos ao nosso povo reple- der é capaz de esmigalhar esses co-
tos da esperança de resgatá-los dos rações semelhantes a granito? Que
horrores eternos; e, em um momen- braço onipotente pode resgatar das
to infeliz de nossa autoconfiança, chamas eternas esses homens conde-
imaginamos inutilmente que a obra nados?” Ó igrejas compradas por
e o triunfo resultam de nós mesmos. sangue, os seus pastores necessitam
Somos dispostos a tempo e fora de de suas orações, suplicando a supre-
tempo (2 Tm 4.2); preparamo-nos ma grandeza daquele poder que Deus
para o conflito, polindo, em algu- manifestou em Cristo, ressuscitando-
mas ocasiões, nossas flechas, mas, O dos mortos (Ef 1.19,20).
em outras ocasiões, nós as deixamos Temos interesse em orar pelos
ásperas e embotadas. Vestimos nos- incrédulos, pela Escola Dominical e
sa armadura, entramos no campo de pela bênção de Deus sobre a distri-
batalha com a determinação de usar- buição de folhetos evangelísticos. Por
mos toda a nossa força e com a que, então, devemos esquecer o gran-
absoluta confiança de que temos de de instrumento designado por Deus
realizar a tarefa designada. Mas, que mesmo para a salvação de pessoas?
lição de auto-humilhação! Não po- Não haverá algum tipo de acordo de
demos converter uma única alma. oração em favor dos ministros do
“Nós vos tocamos flauta, e não evangelho? Se não houver uma su-
dançastes; entoamos lamentações, e gestão melhor, por que não pode
não pranteastes” (Mt 11.17). haver um entendimento geral entre
Ensinamos com tanta clareza e os homens crentes e suas famílias, a
freqüência os mandamentos divinos, fim de separarem um tempo, no do-
e os homens menosprezam a autori- mingo, para orarem por este assunto
dade de Deus. Falamos clara e repe- especial e sublime? Esta era uma prá-
tidamente sobre os juízos de Deus, e tica comum na família de meu
os homens desprezam a justiça de respeitável pai; e têm sido a de mi-
Deus. Pregamos amavelmente sobre nha própria família. Além disso, é
as promessas de Deus, e os homens um privilégio muito precioso.
não atentam à fidelidade dEle. Pro- A manhã do domingo é um tem-
clamamos o Filho amado de Deus, e po bastante apropriado. Esse minis-
os homens ameaçam pisoteá-Lo. Fa- tério de oração exerce a influência
lamos sobre a paciência e a longani- aprazível nos privilégios do santuá-
midade de Deus, mas a impenitência rio. “E será que, antes que clamem,
e a obstinação dos homens constitu- eu responderei; estando eles ainda
em provas contra todos eles. Arra- falando, eu os ouvirei” (Is 65.24).
zoamos e imploramos aos homens, Oh! que Deus se compraza em dar às
até que os obstáculos para a conver- igrejas o espírito de oração em favor
são deles parecem se tornar cada vez dos pastores — este seria o propósito
mais elevados por intermédio de cada de respondê-las. Ele atenderá ao de-
esforço que empreendemos para ven- samparado e não desprezará a sua
cê-los; até que, finalmente, caímos oração (Sl 102.17). Está escrito:
em desânimo e clamamos: “Que po- “Criará o SENHOR, sobre todo o mon-
12 Fé para Hoje
te de Sião e sobre todas as suas as- coração seja mais consagrado a Deus
sembléias, uma nuvem de dia e fu- e nossa vida se torne um exemplo
maça e resplendor de fogo chame- impressionante do evangelho que
jante de noite” (Is 4.5). Nem o altar pregamos; para que estejamos mais
será profanado, nem o incenso, me- completamente equipados para a obra
nos fragrante, se estas palavras de e o conflito, vestindo toda a arma-
esperança estiverem mais freqüente- dura de Deus; para que sejamos mais
mente nos lábios daqueles que o ofe- fiéis e mais sábios para ganhar almas
recem — “Vestirei de salvação os e disciplinemos nosso próprio cor-
seus sacerdotes, e de júbilo exulta- po, trazendo-o em sujeição, a fim de
rão os seus fiéis (Sl 132.16). que, havendo pregado aos outros,
E isto não é tudo! Os ministros não sejamos nós mesmos desqualifi-
do evangelho devem ser lembrados cados (1 Co 9.27).
todos os dias no altar doméstico. Quando volvemos nossos pensa-
“Não é algo insignificante”, disse um mentos e contemplamos ordenanças
escritor de nossa cidade, “que uma estéreis e um ministério infrutífero,
congregação tenha clamores diários, o coração se derrete em nosso ínti-
suplicando a bênção de Deus, pro- mo; e desejamos nos lançar aos pés
venientes de centenas de lares”. Que das igrejas, tendo o prazer de implo-
fonte de refrigério para um pastor! rar que sejamos lembrados em suas
A devoção familiar de oração, no orações. Se você já entrou na intimi-
condado de Kidderminster, sem dú- dade do Altíssimo e se aproximou do
vida alguma, fez de Richard Baxter coração dAquele que é amado por
um pastor melhor e um homem mais sua alma, suplique ardentemente que
feliz. É possível que ainda estejamos o poder dEle assista aqueles que fo-
colhendo os frutos de tais orações, ram ordenados ministros do evange-
nos livros O Descanso Eterno dos lho. Se você já se reclinou ao seio de
Santos (The Saints Everlasting Rest) Jesus, lembre-se de nós, por favor!
e Pensamentos de Moribundo (Dying Conte-Lhe seus desejos. Fale com
Thoughts), escritos por Baxter. Emanuel sobre o precioso sacrifício
Vocês, que fazem lembrado o e o maravilhoso amor dEle. Fale com
Senhor, não se mantenham em silên- Ele sobre o seu poder e a nossa fra-
cio, nem dêem a Ele descanso (Is queza, sobre a sua glória indescritível
62.6,7). Quando as igrejas pararem e a angústia eterna que se encontra
de orar em favor dos pastores, eles além do sepulcro. Com lágrimas de
não serão mais uma bênção para as solicitude, insista em seu apelo e
igrejas. Irmãos, orem por nós, para diga-Lhe que Ele entregou o tesouro
que sejamos guardados do pecado, de seu glorioso evangelho a vasos
andemos prudentemente, não como terrenos, a fim de que a excelência
néscios, e sim como sábios, remin- do poder seja toda de Deus!
do o tempo (Ef 5.16); para que nosso “Irmão, orai por nós. Amém!”

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A CARTA DE MEU PAI QUE MARCOU A MINHA VIDA 13

A CARTA DE MEU PAI


QUE MARCOU A MINHA VIDA

Q uando recebi esta carta, era o início de 1944. Eu tinha dezesseis


anos e estava a 5.000 quilômetros de casa, estudando em uma escola
preparatória cristã. Normalmente, as cartas que vinham de casa eram
escritas por minha mãe, mas daquela vez foi meu pai quem datilografou
a carta de duas páginas. Foi preparada em resposta a uma observação
que eu tinha feito em carta anterior. Tendo aprendido, em casa, por
exemplo e preceito, que o crente deve evitar a influência contaminante
dos cinemas, estranhei o fato de que muitos de meus amigos criados em
lares cristãos iam com freqüência ao cinema, nas noites de sexta-feira.
Minha carta a meu pai foi um desafio à posição que eu aprendera a ter
enquanto estava em casa.
Não sei o que aconteceu com o original da carta que marcou a
minha vida; porém, anos depois que meu pai faleceu, encontrei entre
seus escritos a cópia que está reproduzida aqui. Naquela hora, minha
mãe compartilhou comigo que ela e meu pai haviam jejuado e orado por
dois dias, antes de ele escrever para mim. Mesmo tendo perdido a
carta, a sua mensagem permanece comigo até hoje. Eis a carta de meu
pai:

Querido filho, “Não vos ponhais em jugo desi-


Alguns perguntam: “Por que o gual com os incrédulos; porquanto
crente não deve freqüentar o cine- que sociedade pode haver entre a jus-
ma?” Visto que não havia tais coisas tiça e a iniqüidade? Ou que comu-
no tempo de Cristo, ou de Paulo, nhão, da luz com as trevas?... Por
não existe, portanto, nenhuma exor- isso, retirai-vos do meio deles, se-
tação direta contra essas coisas. parai-vos, diz o Senhor; não toqueis
Todavia, as seguintes passagens bí- em coisas impuras” (2 Coríntios
blicas podem ser consideradas: 6.14,17).
Muitos crentes e até pastores
“E não vos conformeis com este assistem a filmes. Isso justifica a nossa
século, mas transformai-vos pela re- atitude de assistir filmes?
novação da vossa mente, para que
experimenteis qual seja a boa, agra- “Porque não ousamos classifi-
dável e perfeita vontade de Deus” car-nos ou comparar-nos com alguns
(Romanos 12.2). que se louvam a si mesmos; mas eles,
14 Fé para Hoje
medindo-se consigo mesmos e com- homens, conforme os rudimentos do
parando-se consigo mesmos, revelam mundo e não segundo Cristo”
insensatez” (2 Coríntios 10.12). (Colossenses 2.6-8).
“Julgai todas as coisas, retende “Se fostes ressuscitados junta-
o que é bom; abstende-vos de toda mente com Cristo, buscai as coisas
forma de mal” (1 Tessalonicenses lá do alto, onde Cristo vive, assen-
5.21,22). tado à direita de Deus. Pensai nas
“É bom não comer carne, nem coisas lá do alto, não nas que são aqui
beber vinho, nem fazer qualquer da terra... E tudo o que fizerdes, seja
outra coisa com que teu irmão venha em palavra, seja em ação, fazei-o em
a tropeçar [ou se ofender ou se nome do Senhor Jesus, dando por ele
enfraquecer]” (Romanos 14.21). graças a Deus Pai” (Colossenses
“Por isso, se a comida serve de 3.1,2,17).
escândalo a meu irmão, nunca mais “Quanto aos moços, de igual
comerei carne, para que não venha modo, exorta-os para que, em todas
a escandalizá-lo” (1 Coríntios as coisas, sejam criteriosos. Torna-
8.13). te, pessoalmente, padrão de boas
“Rogo-vos, pois, eu, o prisio- obras. No ensino, mostra integrida-
neiro no Senhor, que andeis de modo de, reverência, linguagem sadia e
digno da vocação a que fostes cha- irrepreensível, para que o adversá-
mados... Isto, portanto, digo e no rio seja envergonhado, não tendo
Senhor testifico que não mais andeis indignidade nenhuma que dizer a
como também andam os gentios, na nosso respeito” (Tito 2.6-8).
vaidade dos seus próprios pensamen- “Não ameis o mundo nem as
tos... “Nem deis lugar ao diabo” coisas que há no mundo. Se alguém
(Efésios 4.1,17,27). amar o mundo, o amor do Pai não
“Pois, outrora, éreis trevas, po- está nele; porque tudo que há no
rém, agora, sois luz no Senhor; andai mundo, a concupiscência da carne,
como filhos da luz... E não sejais a concupiscência dos olhos e a
cúmplices nas obras infrutíferas das soberba da vida, não procede do Pai,
trevas; antes, porém, reprovai-as... mas procede do mundo” (1 João
Portanto, vede prudentemente como 2.15,16).
andais, não como néscios, e sim “Sujeitai-vos, portanto, a Deus;
como sábios, remindo o tempo, por- mas resisti ao diabo, e ele fugirá de
que os dias são maus” (Efésios vós. Chegai-vos a Deus, e ele se
5.8,11,15,16). chegará a vós outros. Purificai as
“Ora, como recebestes Cristo mãos, pecadores; vós que sois de
Jesus, o Senhor, assim andai nele, ânimo dobre, limpai o coração”
nele radicados, e edificados, e con- (Tiago 4.7,8).
firmados na fé, tal como fostes ins- “Amados, exorto-vos, como pe-
truídos, crescendo em ações de regrinos e forasteiros que sois, a vos
graças. Cuidado que ninguém vos absterdes das paixões carnais, que
venha a enredar com sua filosofia e fazem guerra contra a alma” (1
vãs sutilezas, conforme a tradição dos Pedro 2.11).
A CARTA DE MEU PAI QUE MARCOU A MINHA VIDA 15
“Por isso, cingindo o vosso en- “Digo, porém: andai no Espírito e
tendimento, sede sóbrios e esperai jamais satisfareis à concupiscência da
inteiramente na graça que vos está carne. Porque a carne milita contra
sendo trazida na revelação de Jesus o Espírito, e o Espírito, contra a car-
Cristo. Como filhos da obediência, ne, porque são opostos entre si; para
não vos amoldeis às paixões que que não façais o que, porventura, seja
tínheis anteriormente na vossa igno- do vosso querer... Se vivemos no
rância; pelo contrário, segundo é Espírito, andemos também no Espí-
santo aquele que vos chamou, tornai- rito” (Gálatas 5.16,17,25).
vos santos também vós mesmos em “Assim brilhe também a vossa
todo o vosso procedimento” (1 Pedro luz diante dos homens, para que ve-
1.13-15). jam as vossas boas obras e glorifiquem
“Resolveu Daniel, firmemente, a vosso Pai que está nos céus” (Ma-
não contaminar-se com as finas teus 5.16).
iguarias do rei, nem com o vinho que “E não nos deixes cair em tenta-
ele bebia; então, pediu ao chefe dos ção; mas livra-nos do mal” (Mateus
eunucos que lhe permitisse não 6.13).
contaminar-se... No fim dos dez Alguns dizem: “Mas existem fil-
dias, a sua aparência era melhor; mes excelentes”.
estavam eles mais robustos do que
todos os jovens que comiam das finas Tiago escreveu: “Acaso, pode a
iguarias do rei” (Daniel 1.8,15). fonte jorrar do mesmo lugar o que é
doce e o que é amargoso? Acaso,
Quais os que têm melhor apa- meus irmãos, pode a figueira produ-
rência e são mais robustos em sua zir azeitonas ou a videira, figos?
alma, os crentes que vão ao cinema Tampouco fonte de água salgada
ou aqueles que não fazem isso? pode dar água doce” (3.11,12).

Com amor,
seu pai
Durante os sessenta anos seguintes, tenho verificado que os princí-
pios bíblicos listados aqui não somente responderam a este questiona-
mento, como também têm dado direcionamento em outras áreas da minha
vida.
Ricardo Denham

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Sei muito bem que há muitas dificuldades no caminho de


um jovem. Admito-o inteiramente. Mas, sempre há dificul-
dades no caminho certo. O caminho para o céu é sempre
estreito, tanto para o jovem quanto para o velho.
(Extraído do livro "Uma Palavra aos Moços",
J. C. Ryle, Editora Fiel, pág. 46)
16 Fé para Hoje

FALANDO SOBRE
CRESCIMENTO NA GRAÇA
J. C. Ryle

Q uando falo sobre crescimento na graça, nem por um momento


estou dizendo que os benefícios de um crente em Cristo podem cres-
cer; não estou dizendo que o crente pode crescer em sua posição, segu-
rança ou aceitação diante de Deus; que o crente pode ser mais justifica-
do, mais perdoado, mais redimido e desfrutar de maior paz com Deus
do que desde o primeiro momento em que ele creu. Afirmo categorica-
mente: a justificação de um crente é uma obra completa, perfeita, con-
sumada; e o mais fraco dos crentes (embora ele não o saiba, nem o
sinta) está tão completamente justificado quanto o mais forte deles.
Declaro com firmeza: a nossa eleição, chamada e posição em Cristo
não admitem qualquer progresso, aumento ou diminuição. Se alguém
pensa que, por crescimento na graça, estou querendo dizer crescimento
na justificação, está completamente enganado a respeito do assunto que
estou considerando. Estou pronto a morrer na fogueira (se Deus me
assistir), por causa da gloriosa verdade de que, no assunto da justifica-
ção diante de Deus, todo crente está completo em Cristo (Cl 2.10).
Nada pode ser acrescentado à justificação do crente, desde o momento
em que ele crê, e nada pode ser removido.
Quando eu falo sobre crescimento na graça, estou me referindo
somente ao crescimento em grau, tamanho, força, vigor e poder das
graças que o Espírito Santo implanta no coração de um crente. Estou
dizendo categoricamente que todas aquelas graças admitem crescimen-
to, progresso e aumento. Estou declarando com firmeza que o
arrependimento, a fé, o amor, a esperança, a humildade, o zelo, a
coragem e outras virtudes semelhantes podem ser maiores ou menores,
fortes ou fracas, vigorosas ou débeis e podem variar muito em um
mesmo crente, em diferentes épocas de sua vida. Quando eu falo sobre
um crente que está crescendo na graça, estou dizendo apenas isto: os
sentimentos dele em relação ao pecado estão se tornando mais profun-
dos; a sua fé, mais forte; a sua esperança, mais brilhante; o seu amor,
mais abrangente; sua disposição espiritual, mais sensível. Este crente
sente mais o poder da piedade em seu próprio coração; manifesta mais
piedade em sua vida; está progredindo de força em força, de fé em fé,
de graça em graça. Deixo que outros descrevam a condição de tal cren-
te, utilizando as palavras que lhe forem agradáveis. Eu mesmo penso
que a melhor e mais verdadeira descrição de tal crente é esta: ele está
crescendo na graça!
CONTROVÉRSIA 17

C ONTROVÉRSIA
Uma carta escrita por John Newton

V isto que você está envolvido que esta cota de malha foi extraída
em controvérsia e que o seu amor do grande manual dado ao soldado
pela verdade está unido a um entusi- cristão, a Palavra de Deus.
asmo natural de temperamento, um Estou certo de que você não es-
amigo me deixou apreensivo a seu pera qualquer desculpa por minha
respeito. Você está do lado mais for- liberdade; por isso, não oferecerei
te, porque a verdade é poderosa e tem nenhuma. Por amor ao método, re-
de prevalecer. Assim, mesmo uma duzirei meu conselho a três assuntos:
pessoa de habilidades inferiores pode o seu adversário, o público e você
entrar na batalha confiante na vitó- mesmo.
ria. Quanto ao seu oponente, desejo
Por essa razão, não estou ansio- que, antes de começar a escrever con-
so pelo acontecimento da batalha. tra ele e durante todo o tempo em
Mas desejo que você seja mais do que que estiver preparando a sua respos-
vencedor e triunfe, não somente so- ta, você o confie, por meio da oração
bre o seu adversário, como também sincera, ao ensino e à bênção do Se-
sobre você mesmo. Se você não pode nhor. Esta atitude terá a tendência
ser vencido, pode ser ferido. A fim imediata de conciliar seu coração ao
de preservá-lo de tais feridas, que lhe amor e à compaixão por seu adver-
poderiam dar motivo de chorar por sário; e tal disposição exercerá boa
suas conquistas, quero presenteá-lo influência sobre tudo o que você es-
com algumas considerações, que, crever.
devidamente atendidas, lhe servirão Se você acha que seu adversário
de cota de malha, um tipo de arma- é um crente, embora esteja grande-
dura do qual você não precisará mente errado no assunto debatido
queixar-se, como o fez Davi em re- entre vocês, as palavras de Davi a
lação à armadura de Saul, a qual era Joabe, a respeito de Absalão, lhe são
incômoda e inútil. Você perceberá bastante aplicáveis: “Tratai com
18 Fé para Hoje
brandura... por amor de mim” (2 Sm moderação. Se aqueles que diferem
18.5). O Senhor ama e tolera o seu de nós têm capacidade de mudar a si
oponente; portanto, você não deve mesmos, podem abrir seus próprios
menosprezá-lo ou tratá-lo com aspe- olhos e amolecer seus próprios
reza. O Senhor tolera igualmente a corações, então, nós podemos, com
você e espera que demonstre ternura menor incoerência, ser ofendidos
para com os outros, motivado pelo pela obstinação deles. Contudo, se
senso de perdão de que você mesmo cremos no contrário disso, nosso
tanto necessita. dever é não contender, mas instruir,
Em breve, vocês se encontrarão com mansidão, aqueles que se opõem,
no céu. Ali, ele lhe será mais queri- “na expectativa de que Deus lhes
do do que o amigo mais íntimo que conceda... o arrependimento para
você tem agora neste mundo. Em conhecerem plenamente a verdade”
seus pensamentos, antecipe aquele (2 Tm 2.25).
tempo. E, embora você julgue ne- Se você escrever com o desejo
cessário opor-se aos erros dele, de ser um instrumento de corrigir
encare-o pessoalmente como um ir- erros, é claro que terá cautela para
mão, com quem você será feliz, em não ser uma pedra de tropeço no
Cristo, para sempre. Mas, se você o caminho dos cegos, nem utilizar
considera uma pessoa não-converti- expressões que podem incendiar as
da, em um estado de inimizade contra paixões deles, confirmá-los em seus
Deus e a graça dEle (esta é uma su- preconceitos e, por meio disso,
posição que, sem boas evidências, tornar mais impraticável (do ponto
você não deve se mostrar disposto a de vista humano) o convencimento
admitir), ele é mais um objeto de sua deles.
compaixão do que de sua ira. Por meio da página impressa,
Infelizmente, “ele não sabe o que você apela ao público; e seus leitores
está fazendo”. Mas você sabe quem podem ser classificados em três
o tornou diferente. Se Deus, em seu grupos. Primeiramente, aqueles que
soberano prazer, assim o tivesse discordam de você em princípio.
determinado, você poderia ser o que Sobre estes posso reportar-lhe o que
o seu adversário é agora; e ele, em já disse antes. Embora você tenha em
seu lugar, estaria defendendo o vista, principalmente, um único
evangelho. Por natureza, vocês eram indivíduo, há muitos com opinião
igualmente cegos. Se você atentar a idêntica à dele; portanto, a mesma
este fato, não censurará nem odiará argumentação poderá atingir uma só
o seu oponente, porque o Senhor se pessoa ou milhares.
agradou em abrir os seus olhos e não Também haverá muitos que da-
os olhos dele. rão pouquíssima consideração ao
De todas as pessoas que se cristianismo, bem como à idéia de
envolvem em controvérsia, nós, que pertencerem a um sistema religioso
somos chamados calvinistas, estamos estabelecido, e que estão engajados
especialmente obrigados, por nossos na luta em favor daqueles sentimen-
princípios, a exercer gentileza e tos que são, no mínimo, repugnantes
CONTROVÉRSIA 19
às boas opiniões que os homens na- espirituais; são argumentos extraídos
turalmente possuem a respeito de si corretamente das Escrituras, bem
mesmos. Estes são incompetentes como da experiência, e reforçados
para julgar doutrinas, mas podem por uma aplicação compassiva, ca-
formular uma opinião tolerável a res- paz de convencer nossos leitores.
peito do espírito de um escritor. Eles Estes argumentos (quer convençamos
sabem que mansidão, humildade e os leitores, quer não) mostram que
amor são as características do tem- almejamos o bem da alma deles e
peramento de um crente. E, embora estamos contendendo tão-somente
tais leitores por amor à
finjam con-  verdade. Se
siderar as De todas as pessoas que se pudermos
doutrinas da convencê-
graça como
envolvem em controvérsia, nós, los de que
meras opini- que somos chamados calvinistas, agimos com
ões e especu- estamos especialmente obrigados, estes moti-
lações que, por nossos princípios, a exercer vos, nosso
supondo fos- objetivo está
sem adotadas
gentileza e moderação. parcialmente
por eles, não  alcançado.
teriam qual- Eles se mos-
quer influência saudável sobre seu trarão mais dispostos a ponderar, com
comportamento, eles sempre espera- calma, aquilo que lhes oferecemos.
ram de nós, que professamos estes E, se ainda discordarem de nossas
princípios, que tais disposições cor- opiniões, serão constrangidos a apro-
respondam com os preceitos do evan- var nossas intenções.
gelho. Eles discernem imediatamente Você encontrará uma terceira
quando nos afastamos de tal espíri- classe de leitores, que, pensando
to, considerando isso um motivo para como nós, aprovarão prontamente o
justificar o menosprezo deles para que você dirá e, talvez, serão esta-
com os nossos argumentos. belecidos e firmados em seus pontos
A máxima das Escrituras: “A ira de vista sobre as doutrinas das Escri-
do homem não produz a justiça de turas, por meio de uma elucidação
Deus” (Tg 1.20) é confirmada pela clara e magistral do assunto. Você
observação diária. Se tornamos pode ser um instrumento para a edi-
amargo o nosso zelo, por utilizarmos ficação deles, se a lei da bondade,
expressões de ira, injúria, zombaria, bem como a da verdade, regularem
podemos pensar que estamos fazendo sua caneta, pois, de outro modo,
um serviço à causa da verdade, você lhes causará danos.
quando, na realidade, estamos apenas Existe um princípio do “eu” que
lhe trazendo descrédito. nos leva a desprezar todos aqueles que
As armas de nossa milícia, que discordam de nós. E geralmente nos
sozinhas podem destruir as fortale- encontramos sob a influência deste
zas do erro, não são carnais e sim princípio, quando pensamos estar
20 Fé para Hoje
apenas mostrando um zelo conveni- nossos adversários ao ridículo e, por
ente na causa do Senhor. Creio conseqüência, bajular as nossas
prontamente que os principais argu- opiniões superiores.
mentos do arminianismo surgem do Controvérsias, em sua maioria,
orgulho humano — e são nutridos por são administradas de modo a favore-
tal orgulho. Todavia, devo me ale- cer, e não a reprimir, esta disposição
grar se o contrário sempre foi errada. Portanto, falando de modo
verdadeiro. Também creio que acei- geral, as controvérsias produzem
tar o que é chamado de doutrinas pouquíssimo bem. Elas provocam
calvinistas consiste em um sinal in- aqueles aos quais deveriam conven-
falível de uma mentalidade humilde. cer e envaidecem aqueles que elas
Tenho conhecido alguns armini- deveriam edificar. Espero que seu
anos — ou seja, pessoas que, por falta empreendimento tenha o sabor de um
de mais iluminação, têm se mostra- espírito de humildade e seja um meio
do receosas de abraçar as doutrinas de promovê-la em outros.
da graça gratuita — que têm dado Isto me leva, em último lugar, a
evidências de que seus corações es- considerar nosso interesse em seu atu-
tavam em profunda humildade diante al empreendimento. Parece um ser-
do Senhor. E temo que haja calvi- viço louvável defender a fé que uma
nistas que, enquanto tomam como vez foi entregue aos santos. Somos
prova de sua humildade o fato de que ordenados a batalhar diligentemente
estão dispostos a degradar, em pala- por esta fé e convencer os que se
vras, a criatura e dar toda a glória da opõem. Se tais defesas foram conve-
salvação ao Senhor, desconhecem o nientes e oportunas em tempos pas-
tipo de espírito que possuem. sados, parecem que elas também o
Aquilo que nos faz ter confiança são em nossos dias, quando erros
de que, em nós mesmos, somos abundam por todos os lados e cada
comparativamente sábios ou bons, a verdade do evangelho é negada de
ponto de tratar com desprezo aqueles modo direto ou apresentada de modo
que não subscrevem nossas doutrinas grotesco.
ou seguem o nosso grupo, é uma Além disso, encontramos poucos
prova e um fruto do espírito de justiça escritores de controvérsia que não têm
própria. A justiça própria pode se sido claramente prejudicados por ela
alimentar de doutrinas, bem como de — ou por desenvolverem um senso
obras. Um homem pode ter o coração de importância pessoal, ou por ab-
de um fariseu, enquanto a sua mente sorverem um espírito de contenção
está repleta de conceitos ortodoxos irada, ou por afastarem insensivel-
sobre a indignidade da criatura e as mente sua atenção das coisas que
riquezas da graça gratuita. Sim, eu constituem o alimento e a sustenta-
poderia acrescentar: os melhores dos ção imediata da vida de fé e gastarem
homens não estão completamente seu tempo e forças em assuntos que,
livres deste fermento. Por isso, eles em sua maioria, são apenas de valor
estão propensos a se satisfazerem com secundário. Isto nos mostra que, se
apresentações que podem levar os o serviço é louvável, ele é também
CONTROVÉRSIA 21
perigoso. Que benefício um homem pois para isto mesmo fostes chama-
pode ter em ganhar a sua causa, si- dos” (1 Pe 3.9).
lenciar o adversário, se, ao mesmo A sabedoria que vem do alto não
tempo, ele perde aquele espírito de é somente pura, mas também pacífi-
humildade e contrição que deleita o ca e cordial. A falta destas qualida-
Senhor e conta com a promessa de des, à semelhança da mosca morta
sua presença? em uma vasilha de ungüento, estra-
Sem dúvida alguma, o seu alvo gará o sabor e a eficácia de nossos
é bom, mas você tem necessidade de labores. Se agirmos com espírito er-
vigilância e oração, pois Satanás es- rado, traremos pouca glória para
tará à sua mão direita para opor-se a Deus, faremos pouco bem ao nosso
você. Ele tentará destruir suas opi- próximo e não obteremos nem des-
niões. E, embora você se levante em canso nem honra para nós mesmos.
defesa da causa de Deus, ela pode Se você puder se contentar com
tornar-se sua própria causa, se você o expressar a sua opinião e, assim,
não estiver olhando continuamente conquistar o sorriso de seu oponen-
para o Senhor, a fim de ser guarda- te, isto será uma tarefa fácil. Mas
do e alertado por Ele, naquelas espero que você tenha outro alvo
disposições que são incoerentes com mais nobre e que, estando sensível à
a verdadeira paz de espírito; isto cer- solene importância das verdades do
tamente obstruirá a comunhão com evangelho e à compaixão pelas al-
Deus. Esteja alerta contra o permitir mas dos homens, você preferirá ser
que alguma coisa pessoal entre no um meio de remover preconceitos em
debate. Se você acha que foi injuria- uma única ocasião a obter os aplau-
do, terá a oportunidade de mostrar sos inúteis de milhares. Portanto, vá
que é um discípulo de Cristo, pois em frente, no nome e na força do
Ele, “quando ultrajado, não revidava Senhor dos Exércitos, falando a ver-
com ultraje; quando maltratado, não dade em amor. E que o próprio
fazia ameaças” (1 Pe 2.23). Este é o Senhor dê em muitos corações um
nosso padrão; por isso, temos de es- testemunho de que você é ensinado
crever e falar por Deus, “não pagando por Ele e favorecido com a unção do
mal por mal ou injúria por injúria; Espírito Santo.
antes, pelo contrário, bendizendo,

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As Escrituras nos ensinam a melhor forma de viver,


a forma mais nobre de sofrer,
e a forma mais confortável de morrer.
John Flavel
22 Fé para Hoje

A MOR E LETIVO
Robert Murray M’Cheyne

Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos


escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o
vosso fruto permaneça.
João 15.16

E sta é uma afirmação sobremo- versículo na ordem em que são


do humilhante e, ao mesmo tempo, expressas.
bastante abençoadora para o verda-
deiro discípulo de Jesus. Foi muito 1. OS HOMENS NÃO ESCOLHEM NA-
humilhante para os discípulos ouvi- TURALMENTE A CRISTO — “Não fostes
rem que não haviam escolhido a Cris- vós que me escolhestes a mim”. Isto
to. As necessidades de vocês são era verdade a respeito dos apóstolos;
tantas, e seus corações, tão endure- também é verdade a respeito de to-
cidos, que vocês não me escolheram. dos os que crerão em Jesus, até o final
Mas, apesar disso, foi extremamen- do mundo. “Não fostes vós que me
te reconfortante para os discípulos escolhestes a mim.” O ouvido natu-
saberem que Cristo os havia escolhi- ral é tão surdo, que não pode ouvir;
do — “Não fostes vós que me esco- os olhos naturais, tão cegos, que não
lhestes a mim; pelo contrário, eu vos podem ver a Cristo. Em certo senti-
escolhi a vós outros”. Isto lhes mos- do, é verdade que todo verdadeiro
trou que Cristo os amou antes de eles discípulo escolhe a Cristo; mas isto
O amarem — Ele os amou quando acontece somente quando Deus abre
ainda estavam mortos em pecados. os olhos da pessoa, para que ela veja
Em seguida, Jesus mostrou aos dis- a Jesus; quando Deus outorga vigor
cípulos que seria o amor que os tor- ao braço ressequido, para que ele
naria santos: “Não fostes vós que me abrace a Cristo.
escolhestes a mim; pelo contrário, eu O significado das palavras de
vos escolhi a vós outros e vos desig- Jesus era: “Vocês nunca me teriam
nei para que vades e deis fruto, e o escolhido, se eu não os tivesse
vosso fruto permaneça”. escolhido”. É verdade que, quando
Consideremos as verdades deste Deus abre o coração do pecador, este
AMOR ELETIVO 23
escolhe a Cristo e a ninguém mais, responde: “Amo o pecado, amo os
somente a Cristo. É verdade que um meus prazeres”. Por conseguinte,
coração vivificado pelo Espírito você nunca pode chegar a um acor-
sempre escolhe a Cristo, a ninguém do com o Senhor Jesus. “Não fostes
mais, somente a Cristo, e por Ele vós que me escolhestes a mim.”
renunciará o mundo inteiro. Embora eu tenha morrido em favor
Irmãos, este versículo nos ensi- de vocês, não me escolheram. Te-
na que todo pecador despertado se nho lhes falado por muitos anos, mas,
mostra disposto a seguir a Cristo, apesar disso, vocês não me escolhe-
mas não antes de ser tornado dispos- ram. Tenho lhes dado a Bíblia, para
to. Aqueles que dentre vocês foram instruí-los, e ainda assim vocês não
despertados, não escolheram a Cris- me escolheram. Irmão, esta acusa-
to. Se um médico viesse à sua casa e ção lhe sobrevirá no Dia do Juízo:
dissesse que viera para curá-lo de sua “Eu o teria vestido com a minha obe-
enfermidade, e se você sentisse que diência, mas você não o quis”.
não estava doente, diria ao médico:
“Não preciso de você; procure o vi- 2. CRISTO ESCOLHEU SEUS PRÓ-
zinho”. Esta é a maneira como você PRIOS DISCÍPULOS. “Eu vos escolhi a
age para com o Senhor Jesus: Ele lhe vós outros”. O Senhor Jesus contem-
oferece a cura, mas você Lhe diz que plou os seus discípulos com um
não está enfermo; Ele se oferece para divino olhar de misericórdia, dizen-
cobrir, com a obediência dEle mes- do-lhes: “Eu vos escolhi a vós
mo, a nudez de sua alma, mas você outros”. Todos aqueles que Jesus traz
responde: “Não preciso dessa rou- à glória, Ele os escolheu.
pa”.
Outra razão por que você não O tempo em que Ele escolheu os
escolhe a Cristo é esta: você não vê discípulos. Observamos que foi an-
qualquer beleza nEle. “E como raiz tes de eles crerem — “Não fostes vós
de uma terra seca; não tinha aparên- que me escolhestes a mim; pelo con-
cia nem formosura” (Is 53.2). Você trário, eu vos escolhi a vós outros”.
não vê qualquer beleza na pessoa de Isto equivale a: “Fui eu que comecei
Cristo, nenhuma beleza na obediên- a lidar com vocês, não foram vocês
cia dEle, nenhuma glória na sua que começaram a lidar comigo”.
cruz. Você não O vê e, por isso, não Você perceberá isto em Atos 18.9 e
O escolhe. 10: “Teve Paulo durante a noite uma
Outra razão por que você não visão em que o Senhor lhe disse: Não
escolhe a Cristo é esta: não quer que temas; pelo contrário, fala e não te
Ele o torne santo. “Lhe porás o nome cales; porquanto eu estou contigo, e
de Jesus, porque ele salvará o seu ninguém ousará fazer-te mal, pois
povo dos pecados deles” (Mt 1.21). tenho muito povo nesta cidade”.
Mas você ama o pecado, ama os seus Nesta ocasião, Paulo estava em
prazeres. Por isso, quando o Filho Corinto, a cidade mais lasciva e
de Deus se aproxima e lhe diz: “Eu ímpia do mundo antigo. Os coríntios
o salvarei dos seus pecados”, você se davam a banquetes e à detestável
24 Fé para Hoje
idolatria, mas Cristo disse ao após- sêmani. Ó irmão, você conhece este
tolo: “Tenho muito povo nesta cida- amor?
de”. Eles não tinham escolhido a Agora falemos sobre a razão
Cristo; Ele, porém, os escolheu. deste amor. “Não fostes vós que me
Aqueles coríntios não se haviam ar- escolhestes a mim; pelo contrário, eu
rependido ainda, mas Cristo fixou vos escolhi a vós outros” (Jo 15.16).
seus olhos sobre eles. Isto mostra cla- Esta é uma pergunta natural: por que
ramente que Cristo escolhe os seus Ele me escolheu? Respondo que a
discípulos antes que estes O busquem. razão por que Ele escolheu você foi
Além disso, Cristo os escolheu o beneplácito da vontade dEle mes-
desde o princípio — “devemos sem- mo. Você pode ver isto ilustrado em
pre dar graças a Deus por vós, irmãos Marcos 3.13: “Depois, subiu ao
amados pelo Senhor, porque Deus monte e chamou os que ele mesmo
vos escolheu desde o princípio para quis, e vieram para junto dele”. Ha-
a salvação, pela santificação do Es- via uma grande multidão ao redor de
pírito e fé na verdade” (2 Ts 2.13); Jesus; Ele chamou alguns, mas não
“assim como nos escolheu, nele, an- chamou a todos. A razão apresenta-
tes da fundação do mundo, para da é esta: “Chamou os que ele mes-
sermos santos e irrepreensíveis pe- mo quis”. Não há qualquer razão na
rante ele; e em amor” (Ef 1.4). criatura; a razão está nEle, que es-
Portanto, irmãos, foi antes da fun- colhe. Você verá isto em Malaquias
dação do mundo que Cristo escolheu 1.2 e 3: “Eu vos tenho amado, diz o
os seus próprios discípulos, quando SENHOR; mas vós dizeis: Em que nos
não havia sol, nem lua; quando não tens amado? Não foi Esaú irmão de
havia mar, nem terra — foi no prin- Jacó? — disse o SENHOR; todavia,
cípio. Ele podia dizer com certeza: amei a Jacó, porém aborreci a Esaú”.
“Não fostes vós que me escolhestes Eles não eram filhos da mesma mãe?
a mim”. Antes que os homens amas- Apesar disso, “amei a Jacó e aborre-
sem uns aos outros, ou que os anjos ci a Esaú”. A única razão apresenta-
se amassem mutuamente, Cristo es- da é esta: “Terei misericórdia de
colheu os seus próprios discípulos. quem eu tiver misericórdia” (Êx
Agora sei o que significam as pala- 33.19). Você também pode ver isto
vras de Paulo, quando ele disse: “A em Romanos 9.15 e 16. A única ra-
fim de poderdes compreender, com zão que a Bíblia nos oferece para
todos os santos, qual é a largura, e o explicar porque Cristo nos amou (e
comprimento, e a altura, e a profun- se você estudar até à sua morte, não
didade e conhecer o amor de Cristo, encontrará outra) é esta: “Terei mi-
que excede todo entendimento” (Ef sericórdia de quem me aprouver ter
3.18-19). misericórdia”. Isto é evidente de to-
Agora não fico surpreso com a dos aqueles que Cristo escolhe.
morte de Cristo. Foi uma expressão A Bíblia nos fala sobre duas gran-
de amor tão grande que transbordou des apostasias: uma, no céu; outra,
os diques que o retinham, um amor na terra. A primeira, no céu: Lúci-
que irrompeu no Calvário e no Get- fer, a estrela da manhã, pecou por
AMOR ELETIVO 25
orgulho, e Deus o lançou no infer- um justo, existem algumas pessoas
no, bem como todos aqueles que que são mais virtuosas do que ou-
acompanharam a Lúcifer em seu pe- tras. Todavia, Cristo disse que pu-
cado. A segunda apostasia, na terra: blicanos e meretrizes entram no reino
Adão pecou e, por isso, foi expulso de Deus, enquanto os fariseus são
do Paraíso. Tanto Adão como Lúci- deixados do lado de fora. “Ó pro-
fer mereciam a condenação. Deus fundidade da riqueza, tanto da sabe-
tinha um propósito de amor. Em fa- doria como do conhecimento de
vor de quem existia este propósito? Deus! Quão insondáveis são os seus
Talvez os anjos apelaram pelos ou- juízos, e quão inescrutáveis, os seus
tros anjos que eram seus companhei- caminhos!” (Rm 11.33) Por que o
ros. Mas Cristo os deixou de lado e Senhor Jesus escolheu os mais ímpi-
morreu em favor do homem. Por que os? Eis a única razão que encontrei
Ele morreu em favor do homem? A na Bíblia: “Terei misericórdia de
resposta é: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia
quem me aprouver ter misericórdia”. e compadecer-me-ei de quem me
Isto também é evidente nas pessoas aprouver ter compaixão” (Rm 9.15).
que Cristo escolhe. Talvez você pen-
se que Cristo deveria escolher os ri- Cristo escolhe alguns dos que O
cos, mas o que disse Tiago? “Não buscam e não outros. Houve um jo-
escolheu Deus os que para o mundo vem rico que veio a Cristo e pergun-
são pobres, para serem ricos em fé e tou-Lhe: “Bom Mestre, que farei
herdeiros do reino que ele prometeu para herdar a vida eterna?” (Mc
aos que o amam?” (2.5) 10.17) Este jovem foi sincero, mas
Você também pode imaginar que um obstáculo surgiu entre eles, e o
Cristo deveria escolher os nobres; jovem recuou. Uma mulher pecado-
eles não têm os preconceitos que os ra veio aos pés de Jesus, chorando.
pobres têm. Mas, o que nos dizem Ela também foi sincera, e Cristo lhe
as Escrituras? “Não foram chamados disse: “Perdoados são os teus peca-
muitos sábios segundo a carne, nem dos” (Lc 7.48). O que causou a di-
muitos poderosos” (1 Co 1.26). Ou ferença? “Terei misericórdia de quem
talvez você pense que Cristo deveria me aprouver ter misericórdia.” O
escolher os eruditos. A Bíblia está Senhor Jesus “chamou os que ele
escrita em linguagem difícil; suas mesmo quis”. Ó meu irmão, humi-
doutrinas são árduas à compreensão; lhe-se ante a soberania de Deus. Se
apesar disso, veja o que Cristo disse: Ele decidiu ter compaixão, Ele terá
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu compaixão.
e da terra, porque ocultaste estas
coisas aos sábios e instruídos e as 3. APRESENTO O TERCEIRO E
revelaste aos pequeninos” (Mt ÚLTIMO PONTO: “Eu... vos designei
11.25). para que vades e deis fruto, e o vosso
Ainda, você pode imaginar que fruto permaneça” (Jo 15.16). Cristo
Cristo deveria escolher pessoas cheias escolhe não somente aqueles que
de virtudes. Embora não haja nem serão salvos, mas também a maneira
26 Fé para Hoje
como isso acontecerá. Escolhe não você vive em impiedade, você não
somente o começo e o fim, mas será salvo. Outros talvez digam: “Se
também o meio. “Deus vos escolheu eu não sou um eleito, não serei salvo,
desde o princípio para a salvação, viverei como eu quiser”. Se você é
pela santificação do Espírito e fé na ou não eleito, eu não sei. Eu sei isto:
verdade” (2 Ts 2.13). “Assim como se você crer em Cristo, será salvo.
nos escolheu, nele, antes da fundação Quero perguntar-lhe: você já
do mundo, para sermos santos e creu em Jesus? Está portando a
irrepreensíveis perante ele; e em imagem de Cristo? Então, você é um
amor...” (Ef 1.4). E lemos em eleito e será salvo. Todavia, existem
Romanos 8: “E aos que predestinou, muitos que ainda não creram em
a esses também chamou; e aos que Cristo e não têm uma vida santa.
chamou, a esses também justificou; Então, não importa o que vocês
e aos que justificou, a esses também pensam agora, descobrirão ser
glorificou” (v. 30). A salvação é verdade que estão entre aqueles que
como uma corrente de ouro que une foram deixados de fora.
o céu à terra. Dois elos estão nas Oh! meu irmão, aqueles que ne-
mãos de Deus — a eleição e a gam a eleição negam que Deus pode
salvação final. Mas alguns dos elos ter misericórdia! Esta é uma doce
estão na terra — a conversão, a verdade: Deus pode ter misericórdia.
adoção, etc. Irmãos, Cristo nunca No seu coração endurecido não exis-
escolhe um homem para crer e ser te nada capaz de impedir que Deus
imediatamente transportado à glória. tenha misericórdia de você. Tome
Ah! meu irmão, como isto remove posse desta verdade no coração: Deus
todas as objeções levantadas contra a pode ter misericórdia. “Não fostes
santa doutrina da eleição! Alguns vós que me escolhestes a mim; pelo
talvez digam: “Se sou eleito, serei contrário, eu vos escolhi a vós ou-
salvo, viverei como quiser”. Não, se tros.”

ORAÇÃO DE LUTERO EM SUA ORDENAÇÃO


Ó Senhor Deus, Tu me fizeste um pastor e mestre na
igreja. Tu vês quão incapaz eu sou para cumprir adequadamente
este grande e responsável ofício. Se eu não tivesse a tua ajuda e
orientação, há muito tempo eu o teria arruinado. Por isso, eu
Te invoco. Oh! quão alegremente desejo render-me e consagrar
o coração e lábios a este ministério! Desejo ensinar a igreja.
Também desejo aprender a tua palavra, desejo tê-la como minha
companheira permanente e meditar nela fervorosamente. Usa-
me como teu instrumento, em teu serviço. Não me abandones;
pois, deixado sozinho, certamente trarei este ofício à destruição.
Amém!
A CRUZ E O “EU”? 27

A CRUZ E O “EU”
Arthur W. Pink

Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a
si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.
Mateus 16.24

Antes de abordarmos o tema des- solene e impressionante. O Senhor


te versículo, desejamos fazer algumas Jesus acabara de anunciar aos seus
considerações sobre os seus termos. apóstolos, pela primeira vez, a apro-
“Se alguém” — o termo utilizado ximação de sua morte de humilhação
refere-se a todos os que desejam unir- (v. 21). Pedro, admirado, disse-Lhe:
se ao grupo dos seguidores de Cristo “Tem compaixão de ti, Senhor” (v.
e alistar-se sob a bandeira dEle. “Se 22). Estas palavras expressaram a
alguém quer” — o grego é muito política da mentalidade carnal. O
enfático, significando não somente caminho do mundo é a satisfação e a
a anuência da vontade, mas também preservação do “eu”. “Poupa-te a ti
o propósito completo do coração, mesmo” é a síntese da filosofia do
uma resolução determinada. “Vir mundo. Mas a doutrina de Cristo não
após mim” — como um servo sujei- é “salva-te a ti mesmo”, e sim sacri-
to a seu Senhor, um aluno, ao seu fica-te a ti mesmo. Cristo discerniu
Mestre, um soldado, ao seu Capi- no conselho de Pedro uma tentação
tão. “Negue” — o vocábulo grego da parte de Satanás (v. 23) e, imedi-
significa negue-se completamente. atamente, a repeliu. Jesus disse a
Negue-se a si mesmo — a sua natu- Pedro não somente que Ele tinha de
reza pecaminosa e corrupta. “Tome” ir a Jerusalém e morrer ali, mas tam-
— não quer dizer leve ou suporte bém que todos os que desejassem
passivamente, e sim assuma volun- tornar-se seguidores dEle tinham de
tariamente, adote ativamente. “A sua tomar a sua cruz (v. 24). Existia um
cruz” — que é desprezada pelo mun- imperativo tanto em um caso como
do, odiada pela carne, mas, apesar no outro. Como instrumento de me-
disso, é a marca distintiva de um diação, a cruz de Cristo permanece
verdadeiro crente. “E siga-me” — única; todavia, como um elemento
viva como Cristo viveu, para a gló- de experiência, ela tem de ser com-
ria de Deus. partilhada por todos os que entram
O contexto imediato é ainda mais na vida.
28 Fé para Hoje
O que é um “cristão”? Alguém resolução de seguir nosso próprio
que possui membresia em uma igreja caminho (Is 53.6). O grande e único
na terra? Não. Alguém que afirma alvo, objetivo e tarefa colocados di-
um credo ortodoxo? Não. Alguém ante do cristão é seguir a Cristo:
que adota certo modo de conduta? seguir o exemplo que Ele nos dei-
Não. Então, o que é um cristão? É xou (1 Pe 2.21); e Ele não agradou
alguém que renunciou o “eu” e a Si mesmo (Rm 15.3). Existem di-
recebeu a Cristo Jesus como Senhor ficuldades no caminho, obstáculos na
(Cl 2.6). O verdadeiro cristão é jornada, dos quais o principal é o
alguém que tomou sobre si o jugo de “eu”. Portanto, ele tem de ser “ne-
Cristo e aprende dEle, que é “manso gado”. Este é o primeiro passo em
e humilde de coração” (Mt 11.29). direção a seguir a Cristo.
O verdadeiro cristão é alguém que O que significa negar comple-
foi chamado à comunhão do Filho tamente a si mesmo? Primeiramente,
de Deus, “Jesus Cristo, nosso significa o completo repúdio de sua
Senhor” (1 Co 1.9): comunhão em própria bondade: cessar de confiar
sua obediência e sofrimento agora; em quaisquer de nossas obras para
em sua recompensa e glória no futuro recomendar-nos a Deus. Significa
eterno. Não existe tal coisa como o uma aceitação irrestrita do veredito
pertencer a Cristo e viver para divino de que todos os nossos me-
satisfazer o “eu”. Não se engane lhores feitos são “como trapo da
nesse ponto. “Qualquer que não imundícia” (Is 64.6). Foi neste pon-
tomar a sua cruz e vier após mim não to que Israel falhou, “porquanto,
pode ser meu discípulo” (Lc 14.27) desconhecendo a justiça de Deus e
— disse o Senhor Jesus. E declarou procurando estabelecer a sua própria,
novamente: “Aquele que [em vez de não se sujeitaram à que vem de Deus”
negar-se a si mesmo] me negar diante (Rm 10.3). Esta afirmativa deve ser
dos homens [e não para os homens contrastada com a declaração de Pau-
— é a conduta, o andar que está em lo: “E ser achado nele, não tendo
foco nestas palavras], também eu o justiça própria” (Fp 3.9).
negarei diante de meu Pai, que está Negar completamente a si mes-
nos céus” (Mt 10.33). mo significa renunciar de todo a sua
A vida cristã tem início com um própria sabedoria. Ninguém pode
ato de auto-renúncia, sendo continu- entrar no reino de Deus, se não se
ada por automortificação (Rm 8.13). tornar como uma “criança” (Mt
A primeira pergunta de Saulo de 18.3). “Ai dos que são sábios a seus
Tarso, quando Cristo o deteve, foi próprios olhos e prudentes em seu
esta: “Que farei, Senhor?” (At próprio conceito!” (Is 5.21.) “Incul-
22.10.) A vida cristã é comparada a cando-se por sábios, tornaram-se
uma corrida, e o atleta é chamado a loucos” (Rm 1.22). Quando o Espí-
desembaraçar-se “de todo peso e do rito Santo aplica o evangelho com
pecado que tenazmente... assedia” poder em uma alma, Ele o faz “para
(Hb 12.1) — ou seja, o pecado que destruir fortalezas, anulando... so-
está no amor ao “eu”, o desejo e a fismas e toda altivez que se levante
A CRUZ E O “EU”? 29
contra o conhecimento de Deus, e em vós o mesmo sentimento que hou-
levando cativo todo pensamento à ve também em Cristo Jesus”; e isto
obediência de Cristo” (2 Co 10.4,5). é definido nos versículos seguintes
Um lema sábio que todo cristão deve como auto-renúncia. Renunciar a
adotar é: “Não te estribes no teu pró- nossa própria vontade é o reconheci-
prio entendimento” (Pv 3.5). mento prático de que não somos de
Negar completamente a si mes- nós mesmos e de que fomos “com-
mo significa renunciar suas pró- prados por preço” (1 Co 6.20); é
prias forças: não ter qualquer confi- dizermos juntamente com Cristo:
ança na car- “Não seja o
ne (Fp 3.3).  que eu que-
Significa ro, e sim o
prostrar o
Como instrumento de mediação,
que tu que-
coração à a cruz de Cristo permanece res” (Mc
afirmativa única; todavia, como um elemento 14.36).
deCristo: de experiência, ela tem de ser Negar
“Sem mim completa-
nada podeis
compartilhada por todos
mente a si
fazer” (Jo os que entram na vida. mesmo sig-
15.5). Foi  nifica re-
neste ponto nunciar as
que Pedro falhou (Mt 26.33). “A so- suas próprias concupiscências ou de-
berba precede a ruína, e a altivez do sejos carnais. “O ego de um homem
espírito, a queda” (Pv 16.18). Quão é um pacote de ídolos” (Thomas
necessário é que estejamos sempre Manton), e esses ídolos têm de ser
atentos! “Aquele, pois, que pensa repudiados. Os não-crentes amam a
estar em pé veja que não caia” (1 Co si mesmos (2 Tm 3.2 – ARC). Toda-
10.12). O segredo do vigor espiritu- via, alguém que foi regenerado pelo
al se encontra em reconhecermos Espírito diz, assim como Jó: “Sou
nossa fraqueza pessoal (ver Is 40.29; indigno... Por isso, me abomino”
2 Co 12.9). Sejamos, pois, fortes “na (40.4; 42.6). A respeito dos não-
graça que está em Cristo Jesus” (2 crentes, a Bíblia afirma: “Todos eles
Tm 2.1). buscam o que é seu próprio, não o
Negar completamente a si mes- que é de Cristo Jesus” (Fp 2.21).
mo significa renunciar de todo a sua Mas, a respeito dos santos de Deus,
própria vontade. A linguagem de está escrito: “Eles... mesmo em face
uma pessoa não-salva é: “Não que- da morte, não amaram a própria
remos que este reine sobre nós” (Lc vida” (Ap 12.11). A graça de Deus
19.14). A atitude de um verdadeiro está nos educando “para que, rene-
cristão é: “Para mim, o viver é Cris- gadas a impiedade e as paixões mun-
to” (Fp 1.21) — honrar, agradar e danas, vivamos, no presente século,
servir a Ele. Renunciar a nossa pró- sensata, justa e piedosamente” (Tt
pria vontade significa dar atenção à 2.12).
exortação de Filipenses 2.5: “Tende Este negar a si mesmo que Cris-
30 Fé para Hoje
to exige dos seus seguidores é total. que faz a distinção entre um verda-
Não há qualquer restrição, quaisquer deiro seguidor de Cristo e os religi-
exceções — “Nada disponhais para a osos mundanos.
carne no tocante às suas concupiscên- Ora, em o Novo Testamento a
cias” (Rm 13.14). Este negar a si “cruz” representa realidades defini-
mesmo tem de ser contínuo e não das. Primeiramente, a cruz expressa
ocasional — “Se alguém quer vir o ódio do mundo. O Filho de Deus
após mim, a si mesmo se negue, dia não veio para julgar, e sim para sal-
a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc var; não veio para castigar, e sim para
9.23). Tem de ser espontâneo, não redimir. Ele veio ao mundo “cheio
forçado; realizado com alegria e não de graça e de verdade”. O Filho de
com relutância — “Tudo quanto Deus sempre estava à disposição dos
fizerdes, fazei-o de todo o coração, outros: ministrando aos necessitados,
como para o Senhor e não para ho- alimentando os famintos, curando os
mens” (Cl 3.23). Oh! quão perver- enfermos, libertando os possessos de
samente tem sido abaixado o padrão espíritos malignos, ressuscitando
que Deus colocou diante de nós! mortos. Ele era cheio de compaixão
Como este padrão condena a negli- — manso como um cordeiro, total-
gência, a satisfação carnal e a vida mente sem pecado. O Filho de Deus
mundana de muitos que se declaram trouxe consigo boas-novas de gran-
(inutilmente) “cristãos”! de alegria. Ele buscou os perdidos,
“Tome a sua cruz.” Isto se refe- pregou aos pobres, mas não despre-
re à cruz não como um objeto de fé, zou os ricos; e perdoou pecadores.
e sim como uma experiência na alma. De que modo Cristo foi recebido?
Os benefícios legais do Calvário são Que boas-vindas os homens Lhe ofe-
recebidos por meio de crer, quando receram? Os homens O desprezaram
a culpa do pecado é cancelada, mas e rejeitaram (Is 53.3). Ele disse:
as virtudes experimentais da cruz de “Odiaram-me sem motivo” (Jo
Cristo são desfrutadas apenas quan- 15.25). Os homens sentiram sede do
do somos conformados, de modo sangue de Jesus. Nenhuma morte
prático, “com ele na sua morte” (Fp comum lhes satisfaria. Exigiram que
3.10). É somente quando aplicamos Jesus fosse crucificado. Por conse-
a cruz, diariamente, ao nosso viver guinte, a cruz foi a manifestação do
e regulamos nosso comportamento ódio inveterado do mundo para com
pelos princípios dela, que a cruz se o Cristo de Deus.
torna eficaz sobre o poder do pecado O mundo não se alterou, assim
que habita em nós. Não pode haver como o etíope ainda não mudou a
ressurreição onde não há morte; não sua pele e o leopardo, as suas man-
pode haver um andar prático, “em chas. O mundo e Cristo ainda estão
novidade de vida”, enquanto não le- em antagonismo. Por isso, a Bíblia
vamos “no corpo o morrer de Jesus” afirma: “Aquele, pois, que quiser ser
(2 Co 4.10). A cruz é a insígnia, a amigo do mundo constitui-se inimi-
evidência do discipulado cristão. É go de Deus” (Tg 4.4). É impossível
a cruz de Cristo e não o credo dEle andarmos com Cristo e gozarmos de
A CRUZ E O “EU”? 31
comunhão com Ele, enquanto não mo sentimento que houve também
tivermos nos separado do mundo. em Cristo Jesus”. Nas palavras se-
Andar com Cristo envolve necessa- guintes, vemos o Amado do Pai as-
riamente compartilhar de sua humi- sumindo a forma de um servo e
lhação — “Saiamos, pois, a ele, fora “tornando-se obediente até à morte
do arraial, levando o seu vitupério” e morte de cruz”.
(Hb 13.13). Foi isso o que Moisés Ora, a obediência de Cristo tem
fez (ver Hb 11.24-26). Quanto mais de ser a obediência do cristão — vo-
intimamente eu estiver andando com luntária, alegre, irrestrita, contínua.
Cristo, tanto mais incorretamente Se esta obediência envolve vergonha
serei compreendido (1 Jo 3.2), tanto e sofrimento, menosprezo e perdas,
mais serei ridicularizado (Jó 12.4) e não devemos vacilar; pelo contrário,
odiado pelo mundo (Jo 15.19). Não temos de fazer o nosso “rosto como
cometa erro neste ponto: é totalmen- um seixo” (Is 50.7). A cruz é mais
te impossível ser amigo do mundo e do que um objeto da fé do cristão, é
andar com Cristo. Portanto, tomar a insígnia do discipulado, o princí-
a cruz significa que eu desprezo vo- pio pelo qual a vida do crente deve
luntariamente a amizade do mundo, ser regulada. A cruz significa entre-
recusando conformar-me com ele ga e dedicação a Deus — “Rogo-vos,
(Rm 12.2). Que me importa a car- pois, irmãos, pelas misericórdias de
ranca do mundo, se estou desfrutan- Deus, que apresenteis o vosso corpo
do do sorriso do Salvador? por sacrifício vivo, santo e agradá-
Tomar a cruz significa uma vida vel a Deus, que é o vosso culto
de sujeição voluntária a Deus. No racional” (Rm 12.1).
que concerne à atitude de homens A cruz representa sofrimento e
ímpios, a morte de Cristo foi um sacrifício vicários. Cristo entregou
assassinato. Mas, no que se refere à sua própria vida em favor de outros;
atitude do próprio Senhor Jesus, a sua e os seguidores dEle são chamados a
morte foi um sacrifício espontâneo, fazerem espontaneamente o mesmo
uma oferta de Si mesmo a Deus. Foi — “Devemos dar nossa vida pelos
também um ato de obediência a irmãos” (1 Jo 3.16). Esta é a lógica
Deus. Ele mesmo disse: “Ninguém inevitável do Calvário. Somos cha-
a tira de mim [a vida dEle]; pelo mados a seguir o exemplo de Cristo,
contrário, eu espontaneamente a dou. à comunhão de seus sofrimentos, a
Tenho autoridade para a entregar e sermos cooperadores em sua obra.
também para reavê-la” (Jo 10.18). Assim como Cristo “a si mesmo se
E por que Ele a entregou espontane- esvaziou” (Fp 2.7), assim também
amente? As próximas palavras do devemos nos esvaziar. Cristo “não
Senhor Jesus nos dizem: “Este man- veio para ser servido, mas para ser-
dato recebi de meu Pai”. A cruz foi vir” (Mt 20.28); temos de agir da
a suprema demonstração da obedi- mesma maneira. Assim como Cristo
ência de Cristo. Nisto, Ele é nosso “não se agradou a si mesmo” (Rm
exemplo. Citamos novamente Fili- 15.3), assim também não devemos
penses 2.5: “Tende em vós o mes- agradar a nós mesmos. Como o Se-
32 Fé para Hoje
nhor Jesus sempre pensou nos outros, como Paulo, devemos ser capazes de
assim devemos nos lembrar “dos en- afirmar: “Em nada considero a vida
carcerados, como se presos com eles; preciosa para mim mesmo” (At
dos que sofrem maus tratos”, como 20.24). A “vida” de satisfação do
se fôssemos nós mesmos os maltra- “eu” neste mundo é perdida na eter-
tados (Hb 13.3). nidade. A vida que sacrifica os inte-
“Quem quiser salvar a sua vida resses do “eu” e se rende a Cristo,
perdê-la-á; e quem perder a vida por essa vida será achada novamente e
minha causa achá-la-á” (Mt 16.25). preservada em toda eternidade.
Palavras quase idênticas a estas se Um jovem que concluíra a uni-
encontram também em Mateus 10. versidade e tinha perspectivas bri-
39, Marcos 8.35, Lucas 9.24; 17.33, lhantes respondeu à chamada de
João 12.25. Esta repetição certamen- Cristo para uma vida de serviço para
te é um argumento em favor da pro- Ele na Índia, entre as classes mais
funda importância de prestarmos pobres. Seus amigos exclamaram:
atenção e atendermos às palavras de “Que tragédia! Uma vida desperdi-
Cristo. Ele morreu para que vivês- çada!” Sim, foi uma vida “perdida”
semos (Jo 12.24); devemos agir de para este mundo, mas “achada” no
modo semelhante (Jo 12.25). Assim mundo por vir.

T odo comerciante sábio atualizará periodicamente as suas con-


tas, examinará seu inventário e descobrirá se seu negócio está
prosperando ou regredindo. Todo homem sábio, no reino de Deus,
clamará: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-
me e conhece os meus pensamentos” (Sl 139.23). O crente sábio
separará tempo para examinar seu próprio coração, a fim de des-
cobrir se as coisas estão corretas entre a sua alma e Deus. O
Deus a quem adoramos é um grande perscrutador de corações.
Os crentes mais velhos devem considerar bem os fundamen-
tos de sua fé, pois cabelos brancos podem esconder corações
ímpios. Os crentes novos não devem menosprezar esta palavra de
advertência, pois o vigor da juventude pode estar unido com podri-
dão de hipocrisia. O inimigo continua a semear joio no meio do
trigo. Não tenho o alvo de lançar dúvidas e temores em sua men-
te; todavia, espero que o forte vento do auto-exame os expulse de
seu coração. É somente a segurança carnal que desejamos aniqui-
lar; não é a confiança em si mesma, e sim a confiança na carne,
que pretendemos aniquilar. Não é a paz, e sim a falsa paz que
desejamos destruir. O precioso sangue de Cristo não foi derrama-
do para fazer de você um hipócrita, mas para que almas sinceras
proclamem os louvores dEle.
(Extraído de “Leituras Diárias”, C. H. Spurgeon, Vol. 1, Editora Fiel)