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O LIBERALISMO COMO TRADIÇÃO – MACINTYRE E SUA CRÍTICA AO PROJETO ILUMINISTA

THE LIBERALISM AS TRADITION – MACINTYRE AND HIS CRITICS TO THE ILLUMINIST PROJECT Valéria de
THE LIBERALISM AS TRADITION – MACINTYRE AND HIS CRITICS TO
THE ILLUMINIST PROJECT
Valéria de Souza Arruda Dutra ∗
RESUMO
Esta comunicação trata de expor a concepção de Alasdair MacIntyre, um dos
principais protagonistas do movimento de reabilitação da Filosofia Prática,
desencadeado nas últimas décadas do século XX, concepção esta que se nutre da crítica
neo-aristotélica da modernidade e de uma conseqüente retomada da ética das virtudes.
O autor de Justiça de Quem? Qual Racionalidade? é um crítico ferrenho do
projeto iluminista moderno e portanto, um apaixonado defensor da ética clássica das
virtudes. O pensamento macintyreano se caracteriza pela apropriação das teorias morais
e políticas da Grécia Clássica.
PALAVRAS-CHAVES:
ÉTICA.
ILUMINISMO.
LIBERALISMO.
RACIONALIDADE
PRÁTICA.
TRADIÇÃO.
ABSTRACT

Graduada pela Faculdade de Direito de Conselheiro Lafaiete/MG (FDCL). No Mestrado em Teoria do Direito, oferecido pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), cursa a disciplina de Ética. É pós-graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto/MG (UFOP) e associada ao Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito (CONPEDI). E-mail: santasophiadodireito@yahoo.com.br

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This communication shows the Alasdair MacIntyre’s conception, one of the main protagonists of the movement of rehabilitation of the practical philosophy, unchained in the last decades of the century XX, conception this that is nurtured of the neo-Aristotelian critic of the modernity and of a consequent retaking of the ethics of the virtues.

The author of Whose Justice? Which Rationality? Is a strong critical of the Modern Illuminist
The author of Whose Justice? Which Rationality? Is a strong critical of the
Modern Illuminist Project and therefore a passionate defender of the classic ethics of
the virtues. The MacIntyre’s thought is characterized by the appropriation of the moral
and political theories Classic Greece.
KEY WORDS:
ETHICS. ILUMINISM. LIBERALISM. PRACTICAL RATIONALITY. TRADITION.
I.
INTRODUÇÃO

Alasdair MacIntyre nasceu na Escócia, em 1929. É professor de Filosofia na Vanderbilt University (EUA); autor de inúmeros livros, dentre os quais podemos destacar: Depois da Virtude (After Virtue) e Justiça de Quem? Qual Racionalidade? (Whose Justice? Which Rationality?), ambos traduzidos e publicados no Brasil. Ele é um dos representantes dos movimentos neo-aristotélico e neocomunitarista que visam a reabilitação da Filosofia Prática. Referidos movimentos foram desencadeados nas últimas décadas do século XX e se nutrem da retomada da ética das virtudes preconizada por Aristóteles. Quanto ao neocomunitarismo, Nicola Abbagnano, destaca no Dicionário Filosófico (verbete comunitarismo, p. 194) que em particular trata-se de uma doutrina ético-política que se opõe às tendências atomísticas, emotivistas e relativistas da ética moderna. Nesse sentido, o neocomunistarismo defende uma concepção solidarista e contextualista da moral, insistindo em realidades concretas e substanciais, como por exemplo, as virtudes, as tradições coletivas, as associações com finalidades várias etc.

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O presente trabalho tem como objetivo expor a visão macintyreana, marcada principalmente pelo ataque frontal ao projeto iluminista de justificação da moralidade. Referido projeto, segundo MacIntyre, pretendia estabelecer um conceito de racionalidade independente do contexto histórico e social e de qualquer compreensão finalista (teleológica) da natureza humana. Além deste fenômeno que contribuiu tenazmente para o fracasso do projeto iluminista, projeto este, marcado pela negação das tradições de pensamento e da rejeição do thelos humano, destacam-se também o predomínio da doutrina emotivista na cultura contemporânea e a juridificação das relações sociais; uma vez que a modernidade é incapaz de atingir um consenso racional e de resolver seus conflitos no interior do espaço público e por isso apela às regras e aos procedimentos de seu sistema jurídico. Todo este conjunto, segundo MacIntyre simboliza o fracasso da Filosofia Moral Moderna e Contemporânea. Contudo, o autor de Justiça de Quem? Qual Racionalidade? propõe a reformulação da tradição aristotélica com vistas a tornar inteligíveis e racionais nossas atitudes e engajamentos morais e sociais. Ele explica que a sociedade liberal moderna e individualista rejeita qualquer tradição, mas ela própria se configura como uma tradição de pensamento, uma vez que é tão excludente quanto qualquer tradição fechada em torno de seus próprios padrões de racionalidade. Depois da Virtude é uma obra que antecede Justiça de Quem? Qual Racionalidade? e que dedica significativa parte de seu conteúdo a atacar frontalmente a modernidade e o projeto iluminista de justificação da moralidade. Na primeira obra, MacIntyre destaca que a ética contemporânea encontra-se num estado de grave desordem, sendo que a linguagem dessa ética se configura como uma coleção incoerente de fragmentos desordenados herdados de épocas e contextos passados. Portanto, é uma linguagem que reflete o caos epistemológico moderno e contemporâneo. Embasados na análise de Luiz Bernardo Leite Araújo, na obra Dicionário de Filosofia do Direito, somos levados a compreender que para MacIntyre, nossa cultura é marcada por discordâncias morais muito profundas e que dão ensejos a debates intermináveis. Trata-se de um debate moral inconcluso, marcado por questionamentos

e que dão ensejos a debates intermináveis. Trata-se de um debate mo ral inconcluso, marcado por

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relativos à justiça das guerras, ao direito ao aborto e à eutanásia, à natureza da liberdade, bem como pela disputa de doutrinas e políticas influentes como o kantismo, o utilitarismo, o liberalismo, as modernas teorias da justiça (como a justiça social de Rawls, por exemplo), o liberalismo proprietarista de Nozick etc.

II. O INDIVIDUALISMO LIBERAL OU A TRADIÇÃO ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES? Na obra Justiça de Quem?
II. O INDIVIDUALISMO LIBERAL OU A TRADIÇÃO ARISTOTÉLICA
DAS VIRTUDES?
Na obra Justiça de Quem? Qual Racionalidade?, o autor, de maneira sutil, nos
convida a escolher racionalmente entre duas concepções diametralmente opostas: o
individualismo liberal e a tradição aristotélica das virtudes e, para tanto MacIntyre se
dedica a estudar quatro tradições de pensamento; quais sejam:
1. O aristotelismo;
2. A tradição agostiniana complementada pelo tomismo;
3. A filosofia moral escocesa e
4. O liberalismo.

O autor explica que cada uma dessas quatro tradições é parte do substrato histórico de nossa própria cultura. Cada uma delas traz consigo um tipo distinto de visão da racionalidade prática e conseqüentemente, da justiça. Além disso, cada uma dessas tradições entrou em relação de antagonismo, aliança ou síntese entre si. Nesse sentido, a visão aristotélica da racionalidade prática e da justiça emerge dos conflitos da pólis grega. Com Agostinho e Tomás de Aquino, a visão aristotélica foi adaptada aos contextos sócio-cultural e religioso, nos quais referidos teóricos se encontravam inseridos. Na Escócia renascentista do século XVII ocorre uma nova simbiose, gerando uma tradição que no ápice de sua realização foi, segundo MacIntyre, subvertida por Hume. Finalmente, com o liberalismo moderno, surge a idéia de corte com toda e qualquer tradição, relegando os princípios da virtude

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aristotélica e acolhendo a idéia da formulação de regras externas para o controle da sociedade. Outro ponto importante para se refletir é que hoje, nossa posição histórica nos permite observar e diferenciar com clareza as diversas tradições e, assim, optar por aquela que melhor apresenta um corpo teórico capaz de nos conduzir a uma racionalidade prática e conseqüentemente à experiência da justiça na vida em sociedade.

III. O INDIVIDUALISMO LIBERAL O liberalismo como tradição A moralidade pré-moderna foi progressivamente rompida com
III. O INDIVIDUALISMO LIBERAL
O liberalismo como tradição
A moralidade pré-moderna foi progressivamente rompida com a rejeição do
teleologismo, com a separação radical entre fatos e valores, deixando o homem
desprovido de seu thelos, ou seja, o indivíduo perdeu seu conceito funcional na
comunidade na qual ele se encontra inserido. Tal situação, conforme esclarece
MacIntyre, se configura com o abandono da tradição aristotélica das virtudes e justifica
o fracasso da Filosofia Moral Moderna e Contemporânea.
A sociedade liberal moderna e individualista rejeita qualquer tradição. Contudo,

ela não deixa de ser uma tradição. Conforme esclarece MacIntyre, o liberalismo tem como supremo bem a manutenção de sua estrutura e assim, ele é tão excludente quanto qualquer outra tradição fechada em torno de seus padrões de racionalidade. No liberalismo, aqueles que não se adéquam ao sistema, são excluídos (marginalizados), marginalização esta caracterizada pelo desemprego, pela miséria e por desigualdades sociais muito fortes. Indivíduos e grupos somente possuem valor enquanto são úteis ao processo mantenedor da engrenagem econômica, nesse sentido eles são vistos como meras peças descartáveis do binômio produção & consumo. Para o raciocínio liberal, somente a idéia de ser racional já é algo suficientemente justo. Assim, MacIntyre, conforme ressalta Araújo Leite, compreende o papel da justiça na sociedade liberal como um debate inacabado sobre as concepções do justo. E o debate nunca se conclui, justamente pelo fato de que tal sociedade se alimenta dele para formular suas concepções de justiça. Daí a imensa pluralidade de tais

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concepções e racionalidades. Por esse motivo, se faz necessária a montagem de um aparato legal positivado e ao qual são entregues as soluções dos inúmeros conflitos públicos. Nessa sociedade, os filósofos são confinados na seara acadêmica e o espaço dos debates é aberto aos advogados, considerados por MacIntyre como o “clero” do liberalismo. A idéia central da razão prática liberal preconiza que cada indivíduo é livre para escolher o bem que lhe agrada perseguir, mas não podendo, porém, incorporar esse bem na vida pública. Contudo, essa vida pública está diretamente ligada à instituição do Estado Moderno e ao desenvolvimento da economia de mercado e, estes, por suas vezes, destruíram, paulatinamente, as estruturas comunitárias de outrora (portadoras de uma concepção teleológica do ser humano). O liberalismo ao retirar da arena pública as noções de bem de cada indivíduo, constituiu uma ordem própria denominada por MacIntyre como o Eu Desfigurado. Um Eu Desfigurado que a psicanálise (fruto também desse liberalismo) tenta justificar, mas em vão, pois o homem distante de seu thelos tende a caminhar para o caos e viver em constante conflito; gerando insatisfação pessoal, violência e guerras. Com o não acolhimento de preceitos éticos pelo Estado, restou à religião o manuseio dessas regras morais, mas assim como a psicanálise, ela também demonstra sua inabilidade no trato de assuntos intimamente ligados ao thelos humano. Portanto, na arena pública liberal o que é permitido é somente a expressão de preferências de indivíduos e grupos. O “eu quero” é dissociado de qualificações oriundas da razão prática e transformado em mera expressão do desejo individual (emotivismo). Numa síntese, podemos dizer que convivemos atualmente com uma pluralidade de justiças e racionalidades rivais. Conforme explana MacIntyre, existem concepções de justiça que consideram central o conceito de mérito. Outras apelam para os direitos humanos inalienáveis. Há ainda aquelas que enxergam a justiça como um contrato social, como é o caso da Teoria da Justiça de John Ralws e há também concepções de justiça baseadas num padrão de utilidade, como a defendida por Jeremy Bentham. Por outro lado, ser racional para um determinado grupo é agir baseado em cálculos de custos e benefícios para si mesmos. Para outros, ser racional na prática é agir sob restrições tais, que qualquer pessoa racional não concede nenhum privilégio

ser racional na prática é agir sob restrições tais, que qualquer pe ssoa racional não concede

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particular aos interesses próprios. Há outro grupo que defende a idéia de que agir racionalmente é alcançar o último e verdadeiro bem dos seres humanos. Existem

também os liberais que defendem que ser racional é adotar uma atitude de imparcialidade, abstraindo-se
também os liberais que defendem que ser racional é adotar uma atitude de
imparcialidade, abstraindo-se de qualquer tradição de pensamento e, portanto, de todas
as particularidades da relação social.
É nesse quadro plural que nos encontramos e segundo MacIntyre toda essa
complexidade é resultado do projeto mal sucedido do Iluminismo e de seus frutos, como
o liberalismo econômico do século XIX e o liberalismo político do século XX.
A principal aspiração do Iluminismo foi a de prover o debate público por
intermédio da aplicação de padrões e métodos de justificação racionais, capazes de
explicar o que seria justo ou injusto, racional ou irracional etc. Nesse sentido, o
Iluminismo que tanto preconizava a liberdade, apresentou a proposta de abolição das
regras morais. Contudo, o Estado passou a interferir, de certa forma, na vida privada dos
indivíduos, por intermédio da introdução de regras heterônomas, devidamente
positivadas. Tal empreitada objetivava que a razão tomasse o lugar da autoridade e da
tradição.
Portanto, face ao exposto, podemos concluir que o Iluminismo provocou
inúmeras mudanças na vida dos indivíduos. E então, podemos nos perguntar: do que o
Iluminismo nos privou? Segundo o Professor MacIntyre, o Iluminismo nos privou de
uma concepção da pesquisa racional incorporada numa tradição.
MacIntyre diz que é importante que tenhamos claramente algumas considerações
fundamentais para que compreendamos que o conceito de um tipo de pesquisa
racional é inseparável da tradição social e intelectual na qual está incorporado. Ele
explica:
1. Justificar é narrar como o argumento chegou ao ponto em que está e,
portanto, o conceito de justificação racional que melhor se conforma ao
tipo de pesquisa é aquele que é essencialmente histórico. Assim, aqueles
que se dedicam a construir teorias dentro desta tradição de pesquisa e
justificação, buscam fornecer teorias dentro de uma estrutura cujas teses
têm o estatuto de “primeiros princípios”;

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2. Há, porém, justificações que se preocupam somente em desenvolver investigações preocupadas com questões atemporais, ou seja, a preocupação está relacionada com quem disse ou escreveu o quê, que tipos de argumentos foram aduzidos a favor ou contra certas posições, quem influenciou quem; nada mais que isso.

3. Outras justificações racionais destacam que doutrinas, teses e argumentos devem ser compreendidos em termos
3. Outras justificações racionais destacam que doutrinas, teses e argumentos
devem ser compreendidos em termos de contexto histórico e nesse
sentido, a racionalidade teórica ou prática se configuraria como um
conceito com uma história. Portanto, a diversidade de tradições de
pesquisa indica que há racionalidades e não apenas uma única
racionalidade e, conseqüentemente, há justiças e não uma única forma
de justiça. Fica claro, que há, portanto, uma pluralidade de tradições
de pesquisa e, cada uma é portadora de um modo específico de
justificação racional. Contudo, tal diversidade não implica que as
diferenças entre tradições rivais não possam ser racionalmente
solucionadas. Segundo MacIntyre, o problema da diversidade não é
abolido sob o ponto de vista das tradições de pesquisa racional, mas
transformado de maneira a viabilizar a sua solução.

Neste ponto do trabalho, somos obrigados a questionar: se o homem não mais deveria ser considerado em seu aspecto teleológico, ou seja, se a moral do indivíduo deveria ser realmente descartada, de que forma esse homem seria controlado? Bem, o Iluminismo e seus predecessores concluíram que apenas a regra formal seria suficiente para controlar o homem em suas relações sociais. Isto é um ledo engano, conforme destaca MacIntyre, pois para ele a exclusão de regras morais (internas/autônomas) e sua substituição por regras externas (heterônomas) aliado a uma racionalidade independente do contexto histórico e social e de qualquer compreensão finalista (teleológica) do homem, conduziram à construção de tantas controvérsias e debates insolúveis. A negação das tradições de pensamento e a rejeição do princípio teleológico do homem pelo Iluminismo coadunaram para o predomínio da doutrina emotivista na cultura contemporânea. O emotivismo trata-se de uma teoria ética que tem como

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precursores Nietzsche, Wittgenstein, Russel, Carnap, Ayer e Steveson. Segundo a mesma, todos os juízos de valor e morais representam meras expressões de preferências pessoais do indivíduo e que, portanto, não são nem falsos e nem verdadeiros. Assim, segundo o emotivismo, os preceitos morais são desprovidos de matriz cognitiva e racional. Nesse sentido, os emotivistas defendem que a linguagem moral está disponível apenas para um uso puramente emotivo e particular, longe da esfera pública. Portanto, além da negação do princípio teleológico humano e da propagação de idéias relativas ao emotivismo, MacIntyre ressalta outro fenômeno, fruto do projeto iluminista e tão presente na cultura contemporânea, que é a juridificação das relações sociais.

O homem desprovido de seu thelos, não reconhece seu verdadeiro papel na comunidade na qual
O homem desprovido de seu thelos, não reconhece seu verdadeiro papel na
comunidade na qual se encontra inserido. Tal fato é fruto do não desenvolvimento de
virtudes. Incapaz de desenvolvê-las, uma vez que foi criado numa tradição que insiste
em negar a existência delas, o homem se vê em constante conflito.
Ele não possui regras internas, somente há regras externas (heterônomas) a
controlá-lo. Contudo, há momentos em que ele se rebela face essas regras externas, pois
os interesses particulares recebem maior relevo diante do coletivo. Daí, ele rompe seu
contrato com as regras heterônomas e essa atitude o leva ao conflito, conflito este que
deve ser pacificado pelo poder estatal, por intermédio da justiça formal (institucional).
Assim, MacIntyre nos leva a compreender, conforme destaca Leite Araújo, que a
modernidade é incapaz de atingir um consenso racional e de resolver seus problemas no
interior do espaço público. E, nesse sentido apela às regras e aos procedimentos de seu
sistema jurídico.
A inexistência de um thelos humano gera relações sociais eivadas de constantes

desentendimentos que não se resolvem e cujas partes desprovidas de soluções extrajudiciais acabam recorrendo à intervenção estatal, culminando com a propagação diária de milhares de ações nos tribunais. O homem desprovido de regra moral (interna/autônoma) diante da regra externa pode violar esta última e não se sentir incomodado por isto. Ele pode não reconhecer a regra externa e se entregar a barbárie, pois sua educação não se baseou na conformação interna de virtudes que o levassem a possuir condutas éticas em sua vida. A regra

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meramente externa não tem compromisso com a formação daquilo que denominamos caráter e assim, desejos e instintos não são suficientemente domados e esse homem em sociedade permanece na infância. Pelo exposto, a retórica pluralista do liberalismo tem a função de ocultar a profundidade dos conflitos. E a justiça formal, acaba desempenhando um papel de mera pacificadora em virtude da inexistência de princípios éticos compartilhados, revelando assim, segundo MacIntyre uma política que propaga por outros meios uma constante guerra civil.

IV. A TRADIÇÃO ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES Aqui é importante destacar que para Aristóteles, o homem
IV. A TRADIÇÃO ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES
Aqui é importante destacar que para Aristóteles, o homem é um ente que possui
uma finalidade, possui um thelos. Portanto, o homem possui uma função na pólis e ele,
somente descobre tal função, quando trabalha em si mesmo as virtudes.
O homem é um ser que precisa sair do estado bruto, que precisa dominar suas
paixões e somente consegue esse domínio a partir do momento em que se dedica a
desenvolver suas virtudes, seguindo o caminho do meio-termo.
Toda esta racionalidade teórica de Aristóteles compõe a função teleológica,
finalista do homem. Ao colocar essa racionalidade teórica em prática, ou seja, quando o
homem opta por uma vida baseada nessa razão e vivencia essas regras morais, ele
pratica uma ética, ou seja, adota uma racionalidade prática.
Nesse sentido, importa destacar a diferença entre racionalidade teórica e prática.
A primeira entende-se como a condição pela qual se atribui o predicado racional aos
enunciados em geral. A racionalidade prática se traduz como a condição pela qual o
indivíduo denomina racionais as ações que ele mesmo pratica. Assim, a racionalidade
prática está intimamente ligada à práxis das ações humanas.
MacIntyre frisa que por intermédio dessa racionalidade prática, o homem é
capaz de desenvolver a justiça e para que possamos compreender o que se traduz como
justiça, devemos primeiramente aprender o que a racionalidade exige de nós na prática.

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Conforme já foi dito, segundo a ética grega clássica, a natureza humana em seu estado bruto é movida por desejos e paixões não instruídos. Contudo, o homem pode ser conduzido ao controle dessas paixões e desejos e assim, identificar o propósito de sua existência, o verdadeiro motivo e finalidade de sua vida na comunidade (princípio teleológico). Mas para que o homem desperte para isso, há um conjunto de preceitos éticos que o auxiliam a transpor o estado bruto ao outro lado de sua natureza humana, caracterizada pelo refinamento de suas atitudes e pelo bom relacionamento para com os demais seres humanos e não-humanos. Para melhor exemplificar a proposta grega, consideremos os impulsos, desejos e paixões como cavalos selvagens a conduzir a carruagem de maneira desgovernada. Esta é uma situação que representa o estágio bruto da natureza humana. Contudo, se esse homem passa a desenvolver uma determinada virtude, tal iniciativa simboliza a domesticação de um dos cavalos que conduz desgovernadamente a carruagem. Se esse mesmo indivíduo desenvolve outra virtude, é mais um cavalo domado e assim sucessivamente, até que a carruagem prossegue sua “viagem” devidamente controlada, com rumo certo, com propósito e objetivo definidos. A simbologia deste quadro nos remete à vida boa definida por Aristóteles como uma vida de acordo com a virtude, ou seja, com a concepção teleológica do homem (a finalidade da existência humana – qual é o propósito de minha existência? O que devo fazer para cumprir este propósito? Como identificar este propósito?). E o que são as virtudes éticas? Segundo Aristóteles, as virtudes são excelências do caráter que permitem aos indivíduos visarem seu fim. Elas são uma parte essencial na realização desse fim visado. Na obra Ética a Nicômaco (I, 13, 1102 b 16), Aristóteles destaca que são as virtudes que correspondem à parte apetitiva da alma, quando esta é moderada e guiada pela razão. Nesse sentido, as virtudes consistem no meio-termo entre dois extremos, dos quais um é vicioso por excesso e o outro o é por deficiência (EN, II, 6, 1107 a 1). Dentre as virtudes éticas preconizadas por Aristóteles; ressaltamos a coragem, a temperança, a liberalidade, a magnanimidade, a mansidão, a franqueza e a justiça. Segundo Aristóteles, esta última é a maior de todas.

a magnanimidad e, a mansidão, a franqueza e a justiça. Segundo Aristóteles, esta última é a

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V. CONSIDERAÇÕES FINAIS Concluímos que a proposta de MacIntyre é retomar a tradição Aristotélica das
V. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluímos que a proposta de MacIntyre é retomar a tradição Aristotélica das
virtudes com vistas a tornar racionais e inteligíveis nossas atitudes e engajamentos
morais e sociais.
A moralidade pré-moderna foi progressivamente rompida com a rejeição do
teleologismo, com a separação radical entre fatos e valores, deixando o homem
desprovido de seu thelos e nesse sentido, o indivíduo deixa de ter um conceito funcional
na comunidade.
Tal situação se configura como o abandono da tradição aristotélica das virtudes e
justifica o fracasso da Filosofia Moral Moderna e Contemporânea. Referido fracasso é
fruto, segundo MacIntyre de um malfadado projeto iluminista que teve como base a não
observância de um esquema conceitual presente na ética grega clássica:
1. A natureza humana tal como é, em estado bruto é movida por paixões e
desejos não instruídos;
2. Apesar disso, o homem pode ser instruído para controlar as paixões e
desejos e, assim, identificar o propósito de sua existência, o verdadeiro
fim de sua vida (teleologia);
3. Há um conjunto de preceitos éticos que auxiliam o homem a passar do
estado bruto ao outro lado da natureza humana: um lado mais refinado e
no qual o homem encontra a justificativa para a própria existência.
A vida boa, conforme Aristóteles é a vida de acordo com a virtude e isto tem
haver com a concepção teleológica do homem. Por aí, somos capazes de compreender
que as virtudes são excelências do caráter que permitem aos indivíduos visarem seu fim
e sendo elas uma parte essencial na realização desse fim visado. Para Aristóteles a

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finalidade da natureza humana é a felicidade e a ela chegamos por meio de práticas virtuosas. A ética das virtudes aristotélicas exige uma contrapartida que é a moralidade das leis, pois a feitura e aplicação das leis só são possíveis para aqueles que possuem entronizados em si mesmos, a virtude da justiça.

VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. ARAÚJO,
VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite in. Dicionário de Filosofia do Direito. São Lourenço,
RS: UNISINOS, 2007.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2006.
MACINTYRE, Alasdair. Justiça de Quem? Qual Racionalidade? São Paulo: Edições
Loyola, 1991.
MACINTYRE, Alasdair. Depois da Virtude. Bauru, SP: EDUSC, 2001.