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Foi assim que os mais poderosos ou os mais miseráveis fizeram de sua força ou de suas necessidades uma espécie de direito ao bem de outrem, equivalente, segundo eles, ao direito de propriedade, e o rompimento da igualdade foi acompanhado da mais terrível desordem. Foi assim que as usurpações dos ricos, a pilhagem dos pobres e as paixões desenfreadas de todos, sufocando a piedade natural e a voz ainda fraca da justiça, tornaram os homens avarentos, ambiciosos e maus. Havia, entre o direito do mais forte e o direito do primeiro ocupante, um conflito perpétuo, que só terminava por combates e mortes. A sociedade nascente deu ensejo ao mais horrível estado de guerra. O gênero humano, aviltado e desolado, não podendo mais voltar atrás nem renunciar às aquisições infelizes que fizera e trabalhando apenas para a sua vergonha por ter abusado das faculdades que o dignificam, viu-se ele próprio diante da ruína.

Não é possível que os homens não fizessem, enfim, reflexões sobre uma situação tão miserável e sobre as calamidades que os oprimiam. Os ricos, principalmente, logo devem ter percebido o quanto lhes era desvantajosa uma guerra perpétua cujas despesas só eles

pagavam, na qual o risco de vida era de todos e o risco dos bens só de alguns.[

de razões válidas para se justificar e de forças suficientes para se defender, esmagando com facilidade um indivíduo mas esmagado ele mesmo por grupos de bandidos, sozinho contra todos e não podendo, por causa dos ciúmes mútuos, unir-se com seus iguais contra inimigos unidos pela esperança comum da pilhagem, concebeu enfim o projeto mais ponderado que já teve o espírito humano: o de empregar a seu favor as forças daqueles mesmos que o atacavam, o de transformar seus adversários em seus defensores, inspirando-lhes outras formas de conduta e criando outras instituições que lhe fossem tão favoráveis quanto lhe era

contrário o direito natural.

Destituídos

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Tendo em vista, após expor aos vizinhos o horror de uma situação que armava todos uns contra os outros, que tornava suas posses tão onerosas quanto suas necessidades e na qual ninguém encontrava segurança nem na riqueza nem na pobreza, ele inventou facilmente razões especiosas para levá-los a seu objetivo. "Unamo-nos", disse a eles, "para proteger da opressão os fracos, conter os ambiciosos e garantir a cada um a posse do que lhe pertence. Instituamos regras de justiça e de paz às quais todos sejam obrigados a se conformar, sem excetuar ninguém, e que compensem de algum modo os caprichos da fortuna submetendo igualmente o poderoso e o fraco a deveres mútuos. Em suma, em vez de voltar nossas forças contra nós mesmos, reunamo-las num poder supremo que nos governe segundo leis sábias, que proteja e defenda todos os membros da associação, que afaste os inimigos comuns e que nos mantenha numa concórdia eterna".

Foi preciso muito menos do que o equivalente a esse discurso para empolgar homens grosseiros, fáceis de seduzir e, aliás, com muitas questões a resolver entre si para poderem dispensar árbitros, com muita avareza e ambição para poderem viver por muito tempo sem mestres. Todos correram ao encontro de seus grilhões acreditando assegurar suas liberdade, pois, embora tivessem suficiente razão para perceber as vantagens de um estabelecimento político, não tinham experiência suficiente para prever seus perigos, os mais capazes de pressentir os abusos eram precisamente os que contavam se aproveitar dessas vantagens, e os sábios mesmos viram que era preciso sacrificar uma parte de sua liberdade para a conservação da outra.

Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade, e das leis, que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, fizeram de uma habilidosa usurpação um direito irrevogável e, para o proveito de alguns ambiciosos, submeteram daí por diante todo o gênero

humano ao trabalho, à servidão e à miséria. [

Tendo o direito civil se tornado assim a regra

comum dos cidadãos, a lei da natureza só continuou existindo, entre as diversas sociedades, onde, sob o nome de direito das gentes, foi temperada por algumas convenções tácitas para tornar o convívio possível e suprir a comiseração natural.

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ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens,LPM, 2011, p. 93-96.