Revista do Programa de PósGraduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará

O público e o privado

Dossiê Política, Comunicação e Cidadania

REITOR

Francisco de Assis Moura Araripe
VICE- R E I T O R

Antônio de Oliveira Gomes Neto
P R Ó - R E I T O R D E P ÓS - G R A D U A Ç Ã O E P E S Q U I S A

José Jackson Coelho Sampaio
CENTRO DE HUMANIDADES CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS

Marcos Antônio Paiva Colares
CONSELHO EDITORIAL EDITOR

Maria da Conceição Pio

João Tadeu de Andrade
CONSULTORES I N T E R N O S CONSULTORES EXTERNOS

João Bosco Feitosa dos Santos Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes Francisco Horácio da Silva Frota José Filomeno de Moraes Maria do Socorro Ferreira Osterne José Jackson Coelho Sampaio Maria Barbosa Dias Maria Celeste Magalhães Cordeiro Maria Helena de Paula Frota Sofia Lerche Vieira Ubiracy de Souza Braga Liduina Farias Almeida da Costa Maria Glauciria Mota Brasil Elba Braga Ramalho Francisca Rejane de Bezerra Andrade Gisafran Nazareno Mota Juca Francisco Josênio C. Parente

Manoel Domingos (UFC) Jawdat Abu-EI-Haj (UFC) Pedro Demo (UNB) Ronald Chilcote (University California) Mariano Fernandez Enguita (Universidad de Salamanca) Luiz Jorge Wernek Viana (IUPERJ) Mauricio Domingues (IUPERJ) Maria Alice Resende de Carvalho (IUPERJ) Adalberto Moreira Cardoso (IUPERJ) Paulo Filipe Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Lucilia Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Celi Scalon (IUPERJ)

P R O J E TO G R Á F I C O

Clarice Frota
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Cristiê Gomes Moreira - Nupes

ISSN 1519-5481

O Público e o privado. Fortaleza: UECE, 2003-. Semestral. Conteúdo: ano 7, n.14, Julho/Dezembro, 2009

1.Humanidades e Ciências Sociais

CDD 320.000

Correspondência A submissão de artigos deve ser feita através do endereço eletrônico revista@politicasuece. Campus do Itaperi.9003 .UECE.Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas Secretaria: Cristina Maria Pires de Medeiros Endereço eletrônico: politicasuece@gmail.politicasuece.com.politicasuece.com Políticas Públicas da UECE com diversas informações das atividades desenvolvidas. desde que relevantes para a área. Periódico semestral e temático.740. Correspondências via correio comum devem ser encaminhadas para: Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas .Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas Secretaria: Maria de Fátima Albuquerque de Araújo Souza Endereço eletrônico: politicaspublicasuece@gmail. A revista possui uma versão on line localizada na página www . Tem por objetivo divulgar artigos e comunicações resultados de pesquisas e estudos na área de políticas públicas. CEP: 60. Paranjana.com Tel/fax: (85) 3101-9880 . para a Editoria da Revista. recebendo também colaborações com temas diversos. 1700. Fortaleza – Ceará. Av.O público e o privado Revista do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará .com do Programa de Pós-Graduação em www.com Tel: (85) 3101-9887 .com revista@politicasuece.UECE.

nacionais e internacionais. reunindo pesquisadores de vários estados brasileiros e de outros países. Na edição número 09 foi organizado o dossiê retratando múltiplas abordagens em políticas culturais. resultando em parcerias e publicações coletivas.Com). mais uma vez agregando variedade de pontos de vista sobre assunto tão fundamental para a contemporaneidade. particularmente comunicação e cidadania. Esperamos que os artigos aqui reunidos promovam reflexões e intervenções. se desdobrando em outras produções acadêmicas. Agora. de pesquisadores destas temáticas. de nosso Programa de Pós-graduação. democracia.Com. contemplando outra área do Cult. em especial quando recém ocorreu no Brasil a I Conferência Nacional de Comunicação. a partir do Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas de Cultura e de Comunicação (Cult. É oportuno destacar que esta publicação é de notória atualidade. Conteúdos audiovisuais. João Tadeu de Andrade Editor Alexandre Barbalho Organizador do Dossiê . redes sociais e comunicação. Importante acrescentar que o debate acerca das políticas voltadas para os campos cultural e comunicacional se insere em redes mais amplas. Boa leitura.Editorial Esta edição 14 de O público e o privado volta-se mais uma vez para questões de política cultural. Comunicação e Cidadania". as políticas de comunicação. apresentamos o tema "Política. escola em um mundo cada vez mais digital e dinâmico são alguns dos ricos temas deste dossiê. comunicação pública.

Elza Ferreira Redes Sociais e usos da Internet por migrantes brasileiros na Espanha Daiani Ludmila Barth. Denise Cogo Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Paradigma digital: capitalismo. cultura e esfera pública César Ricardo Siqueira Bolaño. Albornoz 83 107 125 137 147 . Valério Cruz Brittos O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil Suzy dos Santos Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Alexandre Barbalho. Aportes y prácticas perversas Orlando Villalobos Finol Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Cida de Sousa Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Horácio Frota.Sumário 05 11 25 35 51 67 Editorial DOSSIÊ POLÍTICA. Ana Paula Freitas. Fabrício de Mattos A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro Anita Simis Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España Luis A. COMUNICAÇÃO E CIDADANIA El papel de los medios masivos en la vida ciudadana.

Erotilde Honório Silva RESENHA 193 Alexandre Barbalho. Textos Nômades: política. cultura e mídia Luzia Aparecida Ferreira-Lia .Sumário 165 Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão Luciana Lobo Miranda TEMAS LIVRES 157 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras Roberta Manuela Barros de Andrade.

culture and public sphere César Ricardo Siqueira Bolaño. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Digital Paradigm: capitalism. Ana Paula Freitas. COMMUNICA TION AND CITIZENSHIP POLITICS. COMMUNICATION DOSSIER 11 25 35 51 67 The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices Orlando Villalobos Finol Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota. Albornoz 83 107 125 137 147 . Fabrício de Mattos The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A. Valério Cruz Brittos The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho.Summary 05 Editorial POLITICS . Elza Ferreira Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth eDenise Cogo Communitarian and local communication in network: logics.

Summary
165
Language and subjectivity in the relationships > between school practices and television Luciana Lobo Miranda FREE THEMES

179 193

When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade, Erotilde Honório Silva REVIEWS

Luzia Aparecida Ferreira-Lia. Textos Nômades: política, cultura e mídia Alexandre Barbalho

(*) Orlando Villalobos Finol é Profesor - investigador de la Universidad del Zulia, Venezuela. Email: ovilla4748@yahoo.com.mx

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El papel de los medios masivos en la vida ciudadana:
Aportes y prácticas perversas The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices**

Orlando Villalobos Finol*

RESUMEN : Se parte por establecer que el espacio comunicacional, particularmente RESUMEN:

el que está referido a los medios masivos, simboliza la opción de ganar presencia en el ámbito ciudadano, si se favorece una relación diferente con la audiencia que incentive la participación ciudadana y genere la opción para el periodismo de ser un factor para el diálogo y no para la versión sesgada y limitada. Pero el efecto de los medios tiene resultados paradójicos, porque también desestimula lo ciudadano y es fuente de prácticas desinformadoras y contrarias a la creación de hilos asociativos. El trabajo se sustenta en una perspectiva epistémico cualitativa. En los resultados se exponen certezas y conjeturas acerca del problema de la ciudadanía desde una idea más amplia, que remite a la participación, al diálogo y la solidaridad; y se revisa el impacto de la labor de los medios en la construcción de ciudadanía.

Palabras clave: comunicación, ciudadanía, participación, tejido social.

I

ntroducción

Dos preguntas decisivas se pueden mencionar para justificar el presente artículo. La primera, ¿cómo construir ciudadanía, en nuestras ciudades? La segunda, ¿cómo aprovechar el valioso recurso comunicacional que está representado por el aparato de medios público (o estatales) y privados? A partir de allí se genera la revisión crítica de las posibilidades que ofrece el poderoso dispositivo técnico o tecnológico de que dispone el aparato mediático,
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

** El trabajo es resultado del desarrollo del proyeto de investigación: “Incidencia de la comunicación masiva en la participación ciudadana en Maracaibo”, que cuenta con la aprobación y el financiamiento del Consejo de Desarrollo Científico y

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Orlando Villalobos Finol

y desde luego de las posibilidades culturales y políticas que puede aportar la plataforma mediática, para superar la desigualdad social, la exclusión y las contradicciones que impiden el acceso a un código justo de ciudadanía, que se exprese en condiciones materiales (vivienda, salud, empleo) y socioculturales (educación, cultura, democracia, diversidad, identidad), que faciliten sociedades diferentes, capaces de revertir las condiciones de pobreza y de construir calidad de vida, ejercicio ciudadano pleno, cultura de paz y democracia. Ese es el debate que aquí se asume, en un esfuerzo por generar diálogo, reflexión teórica y mostrar otras opciones, diferentes a las conocidas. Cualquiera que se asome a nuestras ciudades encontrará una notoria conflictividad social, atizada por las precariedades de las condiciones de vida y por el cultivo de indicadores socioculturales desfavorables. El problema, entonces, es cómo revertir las condiciones actuales, cómo revisar la actuación del aparato mediático, para transformarlo; cómo crear vías para que sea posible el surgimiento y crecimiento de la vida ciudadana; cómo generar vías de inclusión social y derrotar su antitesis, la exclusión, que se traduce en precariedad, desempleo, deserción escolar, delincuencia y pérdida de la esperanza.

Justificación
El trabajo se sustenta en la perspectiva epistémica cualitativa. Se valora la subjetividad como forma de conocimiento. Para apoyar las reflexiones que se incluyen en el texto, se incorporan los testimonios de algunas fuentes claves entrevistadas, durante la investigación. El estudio se circunscribe al contexto de Maracaibo, una ciudad que reúne una serie de rasgos específicos: históricos, lingüísticos, culturales y comunicacionales. La ciudad resume un conjunto de características propias: su historia, su condición de ciudad-puerto y de ciudad-centro, sus particularidades económicas y culturales, el empleo del voseo (uso del vos, en Venezuela predomina el tú) en el habla, su condición de ciudad fronteriza con Colombia, y el signo distintivo que la convirtió, por mucho tiempo, en una región histórica solvente y autosuficiente.
Humanístico (Condes) de la Universidad del Zulia (VAC - Condes CH - CH - 0777-08)

Maracaibo tiene una integración espacial con permanencia en el tiempo; y tiene una condición de ciudad-puerto le permitió desde el siglo XIX comercializar sus productos con Europa y con otras regiones de América Latina y el Caribe. Según Cardozo (1985: 237), se puede definir como una región histórica

interesado en la promoción de los valores del consumo. por qué los hombres fuman cigarros. Las audiencias de los medios son tratadas como potenciales clientelas de los anunciantes. Esta idea los ha llevado a investigar porqué los bancos nos asustan. no ser. Abarcaba el extenso territorio de la cuenca hidrográfica del lago y tenía abundantes recursos naturales. de modo que puedan manipular más eficazmente hábitos y preferencias para ventaja suya. de factor clave para contribuir a generar una subjetividad que lo propicie. Esquemáticamente se puede mostrar de este modo: se coloca al ciudadano en el papel de espectador y se le niegan sus posibilidades como protagonista y actor. Arendt (1998: 43) analizó que.2009 . Prevalece el enfoque filosófico que se nutre del pensamiento liberal.Julho/Dezembro . que reduce el ciudadano a la condición de cliente. que se ofrece como posibilidad de acceder al estatus. En ese escenario.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 13 que a principios del siglo XIX. Packard (1982: 10) explica que surgen los persuasores o manipuladores de símbolos que exploran los hábitos ocultos de la gente para aumentar su capacidad para manejar y ganar nuestro consentimiento (…) estos investigadores buscan por supuesto los porqués de nuestra conducta. (…) por qué adquirimos un hogar. Importa tener. Se busca descubrir las debilidades o percepciones para influir de la manera más eficaz en el comportamiento de la gente. O público e o privado . consumidores Desde los medios masivos se favorece la disyunción entre ciudadanía y consumo. no importa la persona. Enfoque teórico Ciudadanos vs. “era ya el centro de la actividad económica y comunicaciones del occidente venezolano”. Importa tener.Nº 14 . los medios masivos surgen como la plataforma que está llamada a cumplir ese rol de agente catalizador. La publicidad hace el resto. Con motivo de la guerra de Vietnam. (…) por qué las amas de casa caen en trance hipnótico cuando entran en un supermercado. en la que se desplegaron campañas para persuadir al público norteamericano de la supuesta amenaza que ese país representaba. De tal modo que los medios masivos se convierten en la vía a través de la cual se promueve el consumo desmedido.

“No necesitan hechos. 2001) El aparato mediático se instrumentaliza. El mundo en que vivimos es un mundo humano. lo colectivo. Como se sabe EEUU fracasó en Vietnam. desestimulan lo ciudadano. la política es menospreciada y colocada como una actividad de segundo orden. o justamente por eso. La comunidad. o se les confina al rincón de lo secundario. sino en buena medida nuestra propia creación simbólico-vivencial. con lo que está afuera del lenguaje. con el misterio que opone resistencia a nuestras creaciones y a la vez es la condición de posibilidad de las mismas (Najmanovich. tenían una ´teoría´ y todos los datos que no encajaban en ésta era negados o ignorados” (Arendt. la solidaridad quedan en entredicho. Los solucionadores de problemas erraron porque confiaron demasiado en sus premisas y se olvidaron de la realidad. sino en el terreno de las relaciones públicas. pero en ese caso los persuasores intentaron crear la idea de la invencibilidad. son lo complementario. un mundo construido en nuestra interacción con lo real. se coloca al servicio de la lógica que estimula el consumismo. Lo ciudadano queda en segundo plano. el contexto pasivo. Quisieron engañar y terminaron autoengañados. Esa idea de la subjetividad sólo puede valorarse si se comprende que la realidad no es una simple abstracción. un mundo simbólico. ni información.. 1998: 48). no en el campo de batalla. Confiaron en sus propias teorías. que anticiparon una fe general y la victoria en la batalla por las mentes de los hombres. como fin en si mismo. Se .14 Orlando Villalobos Finol los engañadores empezaron engañándose a sí mismo (. Terminaron creyendo las imágenes que ellos habían elaborado. Se crea desinterés por el otro. una “espiritualidad”. Para que eso sea posible se propicia una subjetividad. Los medios masivos se ajustan a un guión previamente asignado por la sociedad de consumo. No son lo esencial.. Son fuente de una subjetividad propensa al consumo que se agota en si mismo. que le sirve de sustento. Los medios se orientan en esa dirección de agentes persuasores y al mismo tiempo. la cooperación. No hicieron distinción entre una hipótesis plausible y el hecho de que ésta debe ser confirmada.) se hallaban tan convencidos de la magnitud del éxito. y tan seguros de sus premisas psicológicas acerca de las ilimitadas posibilidades de manipulación de las personas.

Esta aspiración forma parte de una vieja bandera de lucha postulada. sino que emerge en la interacción multidimensional de los seres humanos con su ambiente.. pantallas táctiles. aldea o comunidad. de la participación de muchos. el medio masivo está llamado a favorecer la circulación del pensamiento y el derecho a la información. por cuanto no incluyen la multidimensionalidad de factores que generan las nuevas metáforas de lo complejo. diálogo.2009 . estilos de vida. cada vez más sofisticados o multiespecializados. la cultura. Wifi. juegos electrónicos. criterios. del que somos inseparables” (Najmanovich.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 15 instala un “programa” que dicta los valores. que la mayoría de las veces van en la dirección de favorecer el consumo que se agota en si mismo. Hasta hace poco una persona podía vivir en el mundo de su pueblo. mesas. como parte de la misión social y pública que les corresponde. los medios masivos están llamados a favorecer una democracia comunicacional. que responda a una lógica de empoderamiento del ciudadano. por ejemplo. ahora desde que nace interactúa con los medios masivos. una red de redes de lo que ya se ha hecho común denominar la sociedad civil. en el Informe Mcbride: La comunicación ya no debe considerarse sólo como un servicio incidental y su desarrollo no debe dejarse al azar (. requiere un comportamiento de los medios.Nº 14 . Esa orientación viene de la televisión y hoy día incluye el entorno tecnológico que nos arropa y nos acompaña en nuestras manos. el estilo de vida.Julho/Dezembro .) el objeto debe ser la utilización de las capacidades O público e o privado . bolsillos. los PC. que se traduce en pluralidad democrática. Se apoya en los teléfonos celulares. camas y sobre todo en la mente. 2001). Palm.. En otras palabras. justicia social y solidaridad. De allí la pertinencia de la interrogante. entendida como el ejercicio benefactor emancipatorio. En términos específicos. MP3. comprometido con esos propósitos. en el amplio arcoiris que ofrece Internet. y desde luego. La idea que favorece la expresión de ciudadanía. valores. unos valores. De tal manera que las explicaciones simples pueden ser cómodas pero insuficientes. los IPOD. que desde la cuna tratan de imponerle pautas. ¿qué noción de ciudadanía se promueve desde los medios masivos? Se entiende de este modo que hay una influencia que éstos ejercen y luego que desde la plataforma mediática se promueve o estimula una visión. Hoy se puede concluir que “el mundo que construimos no depende sólo de nosotros.

El relato liberal se escuda detrás de la fachada de la objetividad y de la imparcialidad para evitar explicar los acontecimientos en toda su amplitud y su complejidad. la armonización de la unidad en la diversidad. La ley de los contrarios le pide al periodista que entreviste a la parte y a la contraparte. Incluso los debates de opinión se montan sobre este modelo: el que defiende una idea y el que la ataca. NN) y las sociedades estén conscientes de sus derechos. en un espectáculo de noticias que van y vienen. desde una supuesta objetividad. Las raíces del problema están en un modelo informativo/periodístico que en lugar de promover el diálogo público y la participación.16 Orlando Villalobos Finol peculiares de cada forma de comunicación. En el llamado “debate público” sólo se visibiliza a protagonistas con alguna posición de poder. especialmente en la televisión. para que los hombres (y las mujeres. Ese debate se convierte.la narra. Se insiste en que las informaciones tienen dos lados: blanco y negro. No se incluyen los matices. y la promoción del crecimiento de individuos y comunidades en el marco más amplio del desarrollo nacional en un mundo interdependiente (McBride. en razón del ejercicio mediático. El rol de la ciudadanía se limita a “leer lo que hace el poder” (Miralles. opaco. No se trabaja con otros aspectos ni con otros actores. (Miralles. en tercera persona. y entonces la objetividad resultaría -¡cosa extraña!. Es decir. al periodismo existe para narrar lo que ocurre.de la bipolaridad y no de la proximidad a la realidad con todos sus matices. Aquellos están allá y el ciudadano aparece un lugar distante. invisible. descontextualizada. Rara vez se le concede la palabra al ciudadano. desde las interpersonales y tradicionales hasta las más modernas. 2001). desde una posición distante. Ese es el papel reservado a los debates. 1987: 211). 2001: 26) . reduce el ciudadano a la condición de espectador y de consumidor. Esta forma de periodismo tiene como sólida referencia el paradigma liberal que postula que unos hacen la historia y otros –el periodismo.

en dirección contraria a la del ciudadano. Estos ítems no están en el horario estelar. Entonces. responden a propósitos expresos de estimular el consumo. que admita que el periodismo es un actor y no solamente un relator de la vida social” (Miralles. valores y costumbres. comunitarios o mucho más cercanos a la vida complicada de la gente. Más allá de cualquier previsión teórica así ha ocurrido en los hechos. muchas veces. en la medida en que pueden influir en las pautas que rigen el comportamiento humano. dudas. Mucho puede debatirse sobre la influencia de los medios masivos. Para hacer el desmontaje este sistema tradicional se tiene que dar paso a un enfoque diferente que revalorice la presencia ciudadana. Los medios masivos o grandes medios. medios que expresan certezas. 2001: 10). pero no cabe duda que éstos constituyen escenarios de poder. la música que estimula el pensamiento y la cultura han quedado reducidos a pequeños espacios. que fomente agendas que propicien la participación. contradicciones. La reflexión. precariedades y esperanzas. los medios consiguen “independencia”. las ideas.2009 . de reproducir el estilo de vida que uniforma gustos. “que promueva la deliberación y la acción pública. O público e o privado . La segunda incluye a medios alternativos. La primera es la lógica de los grandes medios masivos. alimentados por capitales transnacionales. o de lo que podemos llamar las nociones e intereses del ciudadano promedio.Nº 14 . pero fundamentalmente en lo sociocultural. Por esa razón responden a una lógica que marcha. para tener espectadores y no actores. están para velar por otros intereses. La lógica hegemónica de los medios masivos En el ámbito de la comunicación se han desarrollado dos lógicas. en términos políticos. Son parte del relleno de la programación. sus puntos de vistas no aparecen representados. regionales. En vista de que es éste el desarrollo que han adquirido los medios. anotados en la dirección globalizadora. puede entenderse que se distancien cada vez más de la comunidad.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 17 En ese juego de ataque y contraataque la ciudadanía queda al margen.Julho/Dezembro . de fomentar la banalidad. coincidan o no con lo comunitario. la educación. El relato liberal de la ciudadanía encuentra su sistema de legitimación en el modelo informativo/periodístico que actúa para crear audiencias cautivas y pasivas.

La concentración de la propiedad de los medios se expresa en el control que ejercen los megagrupos mediáticos estadounidenses. The New Cork Times y Viacom. d. La privatización de las frecuencias.18 Orlando Villalobos Finol En la actualidad. Interactividad: creciente importancia de los “nuevos medios” electrónicos multimedios. que deriva de la madeja de relaciones que ocurre entre estos medios y los corporaciones transnacionales y nacionales. crea opinión pública y persuade a favor de la ideología conservadora (…) en vez de informar al ciudadano para dotarlo de una visión crítica y vigilante. Puede añadirse. (Gumucio. “Por influencia de las grandes empresas multinacionales ya no se discute la información como un hecho cultural y social sino como un hecho de mercado”. . más mensajes). 4. 2005. Pero además hay un plus. 1998: 440). 2. esos medios masivos muestran las siguientes características: 1. Hay concentración de la propiedad de los medios. Internacionalización: transmisión de la información y de la cultura a través de fronteras nacionales que antes cerradas o restringidas. Comercialización: se depende de la publicidad comercial y de los auspicios y hay cada vez menos un control público de los medios. que los medios constituyen una industria. El manejo de los medios hace que quienes tengan el dominio de éstos adquieran una capacidad de influir que se traduce en poder. el control mediático lo transforma en un consumidor pasivo de entretenimientyo y en espectador de la política por televisión (Carmona. el discurso dominante ofrece propaganda política. b. El crecimiento constante de la importancia industrial y económica de los medios masivos. Expansión: incremento del volumen de la producción mediática (más canales. que dominan los medios masivos en Estados Unidos y extienden su radio de acción hacia América Latina. citado por Beltrán). cuyo desarrollo se expresa en cuatro tendencias principales señaladas por McQuail (1998: 436-441) a. The Washington Post. 3. un extra que es que el nos interesa resaltar ahora. En ellos. AOL/Times Warner. c. en medio de una “correlativa reducción en el poder los gobiernos para regularla y controlarla” (McQuail. La ausencia de radio y televisión de servicio público. 2008: 70). en cuotas de poder. Entre estos megagrupos están: Walt Disney Company.

Si hablamos de medios técnicos está en los medios masivos. Recuperar la noción de que comunicación significa diálogo. Como eso requiere superar la lógica mediática predominante. soberanía. para construir comunidad. revitalizadoras de lo humano? ¿Acaso puede surgir y desarrollarse una noción diferente. que sea incluyente y corrija las perversiones generadas por la pobreza y la desigualdad. significa poner algo en común. tejido social. Esa nueva lógica está en la comunicación humana. entonces. ganar soberanía. entendida como concepto integral. complejo y difícil surgen una serie de interrogantes. derechos humanos y derechos de todos. tiene más pertinencia propiciar el desarrollo de corrientes contrahegemónicas capaces de revelar prácticas comunitarias y transformadoras (Villalobos. Comunicación y tejido comunitario Frente a ese panorama aleccionador. sean públicos. obedecen a un guión. 2008: 229). “vender” ideas y vender mercancías. Desde la óptica perversa la “realidad” y la “verdad” se construyen. No es potestad de ningún campo. De tal modo. ciudadanas. O público e o privado . que haga de los usuarios y usuarias personas conscientes. la cooperación y las acciones colectivas. un paradigma emancipatorio? Esta es la idea clave. que van de la mano del crecimiento vertiginoso de las tecnologías de la información y la comunicación. porque se trata de proponer otro poder ligado a lo ciudadano. encuentro. ¿Qué hacer para rescatar el sentido comunitario de la comunicación? ¿Cómo hacer para que la comunicación incluya y haga posible opciones democráticas. justicia. no sujetas de ningún reflejo condicionado. que en el caso de la influencia de los medios puede hacerse referencia de un paradigma que sea emancipatorio. Lo importante es persuadir.Julho/Dezembro .El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 19 Estas tendencias. Enarbolar la idea de levantar o construir una nueva hegemonía no es suficiente. y por esa vía se pueden añadir más sustantivos vitales y centrales: dignidad. para remar en la dirección de nuevos valores asociados a la solidaridad. privados o comunitarios. de los seres humanos y de la naturaleza.2009 . Emancipación es un sustantivo que refiere el acto de tomar conciencia.Nº 14 . es preciso propiciar tendencias y prácticas contrahegemónicas. favorecen el predominio de tendencias perversas. liberarse de la subordinación o sujeción. se impone la filosofía del tener por encima del ser. En lugar de otra hegemonía.

que tiene en El Zulia Ilustrado uno de sus mejores emblemas. En ese sentido. pero se quedan en eso. conviene observar que la comunicación incluye una pluralidad de prácticas y saberes. para comprender el valor efectivo de la comunicación se requiere de una visión que incorpore lo social. con intereses propios. y vínculos con una comunidad humana específica. como íconos. pero no para marchar junto a la comunidad. busca la verdad y no deja imponer los límites de determinados intereses. solvente y menos apegada a rígidas conceptualizaciones. Posteriormente. Aplicaciones. Lo local es un pretexto para ganar cobertura. amplia.20 Orlando Villalobos Finol Eso implica entender la comunicación a partir de aproximaciones teóricas que permitan un reconocimiento más amplio del contexto. Se utilizan los símbolos locales para exaltar una cierta condición marabina. específicos. convivencia. el paradigma emancipatorio reclama ver la comunicación desde una perspectiva de complejidad. sugiere una revisión exigente de cómo se constituyen el tejido social y el ejercicio de la ciudadanía. en la conformación de ciudadanía en Maracaibo. Han sido empleados muchas veces para defender intereses particulares. En síntesis. coloca de manifiesto que los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente. críticos. desde mediados del siglo pasado. al periodismo que se ejerce en Maracaibo consigue distintas tendencias y desarrollos. y no para cumplir la labor de medio de servicio público. Cuando uno se aproxima. diversa. a través de los relatos recabados. busque dilucidar la trama de relaciones que hacen posible la convivencia humana y se recupere la perspectiva que presente la comunicación como una acción dialógica. en la que participan sujetos activos. el lago o la gaita. queremos enteros”. económicos o políticos. que investiga. Más allá de las determinaciones instrumentalistas y de enfoques mecanicistas. interpreta e informa. interesada en contribuir a ofrecer una explicación crítica. o dicho de otro modo. que se quiere comprender y explicar. propone una visión diferente que tome en cuenta una demanda que viene de la ciudadanía y que fielmente se refleja en la frase recogida de un graffiti: “Basta de medios. y simplificadores. cobra vigencia un tipo de periodismo que sigue los moldes del periodismo industrial: 1. a la que se dice defender. la Chinita. A fines del siglo XIX y a principios de los XX predomina un periodismo cultural y literario. resultados y consideraciones mínimas La investigación sobre el impacto de la labor los medios masivos en la ciudad. en términos favorables para la comunidad. no reflejan un afán por favorecer el desarrollo de la región. Quiere llegar a .

Entonces ése es el tipo de discusión en los medios que tú después no ves”. 2. en los símbolos que identifican al marabino. Ciro : “La ciudad durante muchos años aprendió a pensar. donde los grandes intelectuales escribían…Yo ubiqué El Zulia Ilustrado. El imaginario colectivo. al principio.2009 3 1 Entrevista realizada el 20 de mayo de 2003 2 Panorama es un diario local de antigua data. Cabe la acotación siguiente. entonces se vuelve un periodismo brollero (intrascendente). bueno. según se desprende de los relatos de vida. La influencia que ejercen los medios es notoria. que una vez que ese periodismo ya no es formativo. incluso. de hacer cosas. Eso se puede determinar o comprobar un poco en expresiones populares. pero nada o casi nada que contar. es pautado u orientado desde los medios masivos. Francisco Eugenio Bustamante y toda esa gente defendía la tesis de que Colón debió ser para un puerto no un teatro. el periodismo del siglo XIX. ¿verdad?. al teatro Baralt lo iban a llamar Teatro Colón. porque Colón no tenía nada que ver con el teatro y pidieron que se le rindiera un homenaje a Baralt y consiguieron eso. primero. en las tradiciones que predominan e. en literatura en 1883. A los ciudadanos se les trata como meros consumidores a los que hay mucho que vender.Nº 14 . que además fue una exquisitez de publicación. Luce desproporcionado lo señalado por un entrevistado en el sentido de que “la ciudad durante muchos años aprendió a pensar. y ¿qué pasa?. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar. tal como Panorama2 se lo enseñó”. el primer periodismo fue un periodismo formativo (…) por eso se crea una conciencia de ser regionalista que tomó un peso específico y tomó una capacidad histórica. Mariana1: “Lo que pasa es que el periodismo. Los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente y se desaprovecha la potencialidad de lo local o regional. por ejemplo. ¿verdad?.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 21 amplias audiencias con informaciones de interés público y deja en lugar secundario la investigación y la interpretación. tal como Panorama se lo enseñó. y entonces algunos intelectuales se opusieron a eso. No obstante.Julho/Dezembro . o sea. para explicar el comportamiento social de la ciudad se requiere de la valoración del papel ejercido por los medios. sino la ciudad la que construye al periodismo y se transforma en otra cosa. También tuve oportunidad de ver una guerra de ésas porque. y no es que el periodismo construye la ciudad. entonces eso le daba a la gente una conciencia. había 16 revistas literarias especializadas en teatro. las defendían. yo no la puedo probar. peleaban por las cosas que les interesaban como comunidad. porque se va generando otro tipo de cosas. de alguna manera. O público e o privado . Fue fundado en 1914 3 Entrevista realizada el 4 de junio de 2003 . ése era más o menos el tono. y 3. esto es una hipótesis que yo tengo. En lugar de formar y multiplicar sus posibilidades culturales y educativas queda a merced de los intereses comerciales y políticos circunstanciales. si tú te pones a ver. que en ese tiempo hubo un sentimiento de reivindicar a Baralt y luego Dagnino.

y me iba a visitar. con conciencia plena de su responsabilidad social. Por tanto. por ejemplo. o sea. y así sucesivamente. La capacidad de decidir de los usuarios y usuarias. 4 Entrevista realizada el 14 de junio de 2003 5 Entrevista realizada el 7 de abril de 2008 Se asume la actividad periodística como un negocio del que se espera una rentabilidad y se hace poco o nada por convertirla en un servicio público. como parte de su patrimonio. . “Son simples agentes informadores y explotadores de la noticia”. 60 ó 70 años. Esa influencia es innegable. de acuerdo con los testimonios aquí expuestos. se puede demostrar. Los medios masivos influyen y el testimonio incluido lo revela. que el juego se perdió porque la culpa la tiene. porque El Impulso no vende más que Panorama”. Se dan casos como el de mi mamá. hay muchas personas mayores. algo sobre béisbol ¿no?. en las tradiciones que predominan e incluso en los símbolos que identifican al marabino. y en eso tienen que ver mucho los medios”. no utiliza otra hojilla que no sea la Gillette. se obvian las responsabilidades de información y de atención a la ciudadanía. eso lo leí en Panorama y eso es verdad. Pero esa influencia es limitada. aquí la gente no bebe otro café que no sea El Imperial. ‘no chico. que viajaba mucho a Caracas porque yo vivía allá.22 Orlando Villalobos Finol la credibilidad que tiene la gente con Panorama. hay en el consciente colectivo de las generaciones. El ejemplo de Ciro coloca de manifiesto que hay un imaginario colectivo de alguna manera pautado u orientado desde los medios masivos.. ´léelo en Panorama. sino de Gillette. una manera de pensar. En lo que se refiere al aporte de los medios impresos la percepción que prevalece no es favorable. de la mayonesa no se consume sino la Kraft. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar. sobre todo. y cuando llegaba allá decía: ‘Mijo comprame un Panorama que quiero leer el Panorama de Caracas’. y todavía una parte de los que tienen 40 años. Están discutiendo. Siempre hay una barrera infranqueable para los medios: la conciencia ciudadana. Eso es lo que demuestra que la gente asume lo que consume. es más. Entonces se ha aprendido. de creer y de valorar la ciudad que Panorama ha servido como el puente o la inyección de esa manera de pensar. que no creen en los hechos sino lo leen a través de Panorama. Lo que me estaba pidiendo era el diario El Nacional. allí ésta`. no habla de hojilla. La influencia que ejercen los medios es específica. léete Panorama pa´ que veáis’. y te dicen. los lectores de 50. dice Gastón5. y sigue siendo el periódico que más se vende en el occidente del país.. Gertrudis4: “Indudablemente que los medios han incidido bastante en la forma de ser de los marabinos. Por ejemplo.

sino lo que necesita”. 237-263 Carmona. ABSTRCT : ABSTRCT: 6 Entrevista realizada el 6 de febrero de 2008 Artigo Recebido: 08/08/2009 Aprovado: 20/10/2009 We begin by establishing that communicational space. Venezuela: Ministerio del Poder Popular para la Información y la Comunicación Gumucio-Dagron. Crisis de la república irme irme.Julho/Dezembro . The results offer wider certainties and conjectures in relation to this problema from the perspective of the common citizen. citado por BELTRAN. Él dice que a la gente no hay que darle lo que quiere. con responsabilidad social. Referencias república. siglo XIX”.com/both/temas/lramir) Mc QUAIL. Buenos Aires. Terrorismo Mediático. since they are a source of dis-informational practices and often contrary to the creation of associative links. en Encuentro Latinoamericano Vs. symbolizes the option of establishing presence in the citizenry environment. which favors a different relationship which the audience that promotes citizen participation and generates the option in which mass communication becomes an option for dialogue. Documento presentado en el III Congreso Panamericano de la Comunicación. ni los periodistas. and not simply another blind and/or limited version of reality. Firme CARDOZO. El interés por vender el producto periodístico se sobrepone al servicio público que se presta. Keywords: communication. Tierra F Vol. el papel que les corresponde en la creación de ciudadanía. Haciendo olas: historias de comunicación participativa para el cambio social. Los medios de público. But the effects of mass means of communication are paradoxical. This paper is based on a qualitative epistemological perspective. Los periódicos.Nº 14 . New York. Amorrortu Editores comunicación y el interés público O público e o privado . especially that refered to in mass means of communication. dialogue and solidarity. participation. Que una historia morbosa de muerte que es lo que gusta leer más a la gente no creo que ayude mucho. no me parece que ayude mucho a rescatar los valores de la gente. Buenos Aires. The Rockefeller Foundation.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 23 En el criterio de Celina periodista6. asumen plenamente. Denis (1998) La acción de los medios. Alfonso (2001). citizenry. and which reviews the impact of the effort of mass means of communication in the construction of citizenship. Germán (1985) “La región marabina. Yo creo que allí priva lo que dijo el colombiano Javier Restrepo. España: Taurus Arendt. “realmente no ayudan mucho porque el hecho de que sucesos sea la sección más leída. III. Hannah (1998).portalcomunicación. www. Ernesto (2008) “Los amos de la prensa en América Latina”.2009 . Luis Ramiro (2005) La comunicación para el desarrollo en Latinoamérica: un recuento de medio siglo. social fabric. which includes participation.

Septiembre 2001. Argentina: Ediciones Insumisos . MIRALLES. México: MaC BRIDE. La globalización indolente en América Latina Latina. opinión pública y agenda ciudadana. (2001) Periodismo. Utopía y Praxis Latinoamericana. y CHAVEZ. Denise (2001). 0. ance (1982) Las formas ocultas de la propaganda. “Pensar La Subjetividad”. Universidad de Zulia. Revista Internacional de filosofía Iberoamericana y Teoría Latinoamericana Social. . Sean et al (1987) Un solo mundo. V Pack Aires: Editorial Sudamericana VILLALOBOS FINOL. Bogotá: Grupo Editorial Norma ciudadana NAJMANOCICH. Venezuela. voces múltiples Fondo de Cultura Económica. R.24 Orlando Villalobos Finol múltiples. Año 6 N° 14. (2008) Medios masivos y globalización: ¿Cómo el campo de la subjetividad interviene en la disputa por el poder? En SALAZAR. Vance ackard. Buenos ard. A. Ana M.

O presente artigo reflete sobre as políticas públicas de comunicação e discute a comunicação para o desenvolvimento.2009 . Democratização.br 25 Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa* Resumo: As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. Palavras-chave: Comunicação. Desenvolvimento. não pode prescindir do direito à informação. Ocorre que. A implementação de políticas de comunicação que visem não apenas ao acesso ao consumo da informação. o que é fundamental para a construção da sociedade democrática. temos assistido ao desenvolvimento de um processo de concentração dos media que. mas possibilitem O público e o privado . E-mail: cida@ufc. O impacto positivo da comunicação pode ser sentido nos projetos de desenvolvimento. Devem visar não apenas o acesso ao consumo da informação mas. Sociedade. Políticas de Comunicação. I ntrodução A Comunicação é tema de indiscutível relevância no mundo contemporâneo. portanto. inviabiliza a democratização. ajudada pela omissão dos poderes públicos.Nº 14 . ao mesmo tempo em que historicamente se tem defendido este direito. possibilitar a participação da sociedade nas etapas de sua produção.(*) Cida de Sousa é Professora do Curso de Comunicação Social da UFC.Julho/Dezembro . sobretudo se pensarmos na possibilidade de consolidação de uma sociedade verdadeiramente democrática que.

políticos e econômicos vigentes. A dependência comunicacional começa a ser questionada. entendendo por sistema a totalidade das atividades de comunicação massiva ou não massiva” (BELTRÁN. Assim. com os processos sociais. visto que. Luiz Ramiro Beltrán define políticas de comunicação como “um conjunto de normas integradas e duradouras para reger a conduta de todo sistema de comunicação de um país. independentemente do compromisso dos governos com a democracia. o que não interessa aos dominantes (GOMES. citado por GOMES.: 1997). as políticas de comunicação expressam as relações que se estabelecem entre governos e veículos de comunicação de massa. definir políticas de comunicação é aproximar os campos político e jurídico do campo da .26 Cida de Sousa a participação da sociedade nas etapas de sua produção é fundamental para a construção da sociedade democrática. seguindo a mesma linha de pensamento. Outros estudiosos da comunicação. O contexto de desencanto com a política econômica marcado pela dependência da América Latina. O monopólio da comunicação. é somente no final da década de 1970 que se percebe a necessidade de uma nova ordem mundial para a comunicação. ou seja. De fato. Pensando o conceito de políticas de comunicação A discussão em torno das políticas de comunicação data do final dos anos de 1960. evitando que as discussões ganhem visibilidade. debater a comunicação é debater a própria estrutura social. todos os países têm sua política de comunicação. Assumem a defesa do modelo vigente e iniciam uma batalha silenciosa contra uma possível comunicação libertadora para a América Latina. comprometendo sua legitimação. Quando a Organização das Nações Unidas para a educação. 1997). desperta preocupação. Mas. a ciência e a cultura – UNESCO defende a necessidade do debate e recomenda a seus membros que estudem maneiras de formular políticas de comunicação. contribuindo para a internacionalização de elementos culturais e ratificando a força de grupos hegemônicos. os donos das grandes empresas de comunicação na América Latina iniciam uma campanha contra o debate e possíveis mudanças. reforçava a necessidade de se refletir sobre o tema. O Pensador boliviano. Neste ou em outro contexto. ressaltam princípios e normas que constituem o sistema de comunicação de cada país. herdeira das contradições dos grandes centros do mundo. Dessa forma. Postura de fácil compreensão se atentarmos para o fato de que a comunicação está relacionada com a ordem social. como Mauricio Antezana. de alguma forma mantêm as relações com o sistema de mídia existente.

Um outro equívoco que precisa ser desfeito diz respeito ao que é público e ao que é estatal. a inexistência de controle público. quase sempre apresentados como sinônimos. Assim. é preciso refletir sobre esse cenário em que os donos dos meios de comunicação pressionam políticos e governos a desestimular e até impedir o surgimento de meios alternativos. Devemos entendê-lo como o que é de todos e para todos. A comunicação pública é mais que isso. cabe a toda a sociedade ocupar seus espaços construindo uma cidadania plena.188).Nº 14 . limita. que orientam e definem ações. O caráter de classe dos meios de comunicação de massa. pelo Terceiro setor e pela sociedade em geral. a falta de um sistema não-comercial realmente forte para disputar audiência. p. Uma definição sempre contextualizada de políticas de comunicação deve concebê-la como um complexo de leis. Pode ser estatal e público não-estatal. Desfazer tal engano é imperativo para que a sociedade compreenda que “o espaço público é responsabilidade de todos e requer o engajamento e participação ampla da sociedade.2009 . conforme os espaços de discussão que se estabelecem na sociedade com suas representações. como as rádios comunitárias. Pressão que se expressa na forma da Lei 9. dada a sua própria natureza. pois. embora o governo se constitua num dos principais atores do espaço público. 2004. como dos próprios veículos de comunicação.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 27 comunicação. seu papel no processo de acumulação capitalista. que ao invés de contribuir para a democratização. Enfim. num espaço de cidadania” (Oliveira. O público e o privado . a fim de que tal espaço se transforme. que contemplam aspectos das realidades política. compreender que essa relação se vai estabelecendo num determinado chão histórico com todas as suas marcas como (no caso brasileiro) a concentração. Políticas Públicas de Comunicação A noção de comunicação pública como sendo simplesmente aquela praticada pelo governo é um equívoco. de fato. O espaço público não se restringe ao estatal. normas e recomendações. tanto de governo no campo da comunicação.612/ 98 que institui o Serviço de Radiodifusão Comunitária no País. Podem ser concebidas de forma mais democrática ou menos democrática. findam por interferir significativamente na implementação das políticas de comunicação dos governos. ela envolve toda a comunicação de interesse público que é praticada não apenas pelos governos. necessária para que se efetive a comunicação pública. É preciso. mas também por empresas.Julho/Dezembro . As políticas de comunicação estão diretamente ligadas ao sistema econômico e a tudo que ele representa. o monopólio exercido pelas corporações da mídia. econômica e cultural de um país.

Os líderes precisam dar maior prioridade à comunicação. proferido na cerimônia de abertura do Congresso. Nesse sentido. participação é uma palavra-chave. e quisermos ainda que os direitos sociais dos países pobres sejam reconhecidos e não esquecidos. Patrizia Sentinelli. deve construir condições para as ações dos governos dando visibilidade a elas. Comunicação e desenvolvimento local O desenvolvimento local é um caminho que leva à construção da cidadania. então Vice-Ministra dos Negócios Estrangeiros da Itália. Ela lembrou que se quisermos atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio. eliminar a pobreza econômica e financeira. em Roma o World Congresso on Comminication for Development (WCCD) ou Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento discutiu a importância desta área e fez recomendações sobre como aplicá-la em políticas de desenvolvimento. Essa mudança de postura representa maior transparência e um tratamento mais justo para todos. Cabe ao Estado promover políticas públicas de comunicação que respeitem as complexidades e pluralidades do corpo social visando à democracia. Em 2006. afirmou que a comunicação anda de mãos dadas com o desenvolvimento e está no âmago da dimensão social dos direitos.28 Cida de Sousa As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. O Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento finaliza seus trabalhos declarando que “Comunicação é Desenvolvimento” e demonstrando que a Comunicação para o Desenvolvimento é uma ferramenta essencial que precisa ser fortalecida na agenda global. Em seu discurso. Dar voz a todos e fazer com que essas vozes sejam ouvidas é tornar o desenvolvimento sustentável. deve ajudar a promover ações que impliquem em mudanças culturais e de atitudes na sociedade. a participação é inerente a natureza social do homem e não participar representa . A principal orientação aos mais de setecentos participantes de todo o mundo foi sintetizada na frase: “vão para casa e ouçam as pessoas”. ou seja. Comunicação e desenvolvimento Um país não poderá se desenvolver sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. precisamos reconhecer a importância da comunicação. fazer menos propaganda e promover mais engajamento. A própria comunicação deve ser pensada como ferramenta de gestão. mais diálogos participativos. Para Bordenave (1994).

imprescindível e se manifesta quando cada cidadão mobiliza suas iniciativas. provocando melhoria da qualidade de vida e mudanças na economia com o aumento da renda. graças ao caráter heterogêneo e plural de toda sociedade. que só se efetiva com a mobilização da sociedade explorando todas as suas potencialidades. que há sociedades cujos gestores não estão interessados em abrir espaços. forças e energias em torno de um projeto coletivo. respeitando e preservando a natureza e valorizando o local sem perder de vista o global. antes é preciso lembrar que este representa uma transformação nas bases econômica e social. em seu livro “Participação é Conquista” discute o lugar da participação na política social. As experiências vividas a partir desses conflitos permitem que todos aprendam a lidar com as contradições e diferenças. faz-se necessário reivindicar. é aquele que se dá a partir de iniciativas locais fazendo uso de suas potencialidades. Numa sociedade de democracia representativa. o desenvolvimento sustentável consiste em criar um modelo econômico que seja capaz de gerar riqueza e bem-estar ao mesmo tempo em que promove a harmonia social. o que pode levar a importantes parcerias e aliaças que aproximem a sociedade dos processos decisórios. a qualidade de vida superando as desigualdades sociais. Portanto. É um processo que se dá internamente. da Organização das Nações Unidas.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 29 uma frustração que só será resolvida numa sociedade que permita e facilite sua participação. no entanto. e conquistar a participação. Para ser sustentável deve garantir a conservação dos recursos naturais para as gerações futuras. é aquele que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de que as gerações futuras satisfaçam as suas próprias necessidades. O desenvolvimento local sustentável. lutar. então. destacando questões como emprego e renda. Nesse processo é comum a existência de conflitos.Nº 14 . Para entendermos o papel da comunicação no desenvolvimento local. Sabemos. Quando isso ocorre. Para a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. adotando ações que impeçam a destruição da natureza. A qualidade da participação é.Julho/Dezembro . a força da participação se manifesta a partir da possibilidade de influenciar nas decisões que serão O público e o privado . portanto. Demo (1988).2009 . visando o crescimento econômico justo. e os canais de participação na luta pela consolidação da democracia econômica e política.

Difícil. O que não ocorre sem uma vigilância efetiva da sociedade. As decisões politicas estarão mais próximas de serem democráticas. A comunicação é um direito e sua democratização é uma questão de cidadania. federações. em defesa dos homossexuais e outros). isso sim. de investir no caráter qualitativo. É condição sine qua non nos processos de desenvolvimento humano e social. mas não impossível. associações). de preservação da cultura e das artes. Isso significa que não basta facilitar e ampliar o acesso aos meios de comunicação. sejam corporativos (com os sindicatos. e ser ferrementa de educação pública. sejam temáticos (com os movimentos sociais em defesa do meio ambiente. É bom lembrar que uma das dimensões de representação política é a de poder representar. da participação das organizações não governamentais sem fins lucrativos (as ONG´s). trata-se. Estes são alguns dos aspectos de relevância no papel da comunicação na sociedade e seu desempenho é preponderante na construção do desenvolvimento. Mas. tornando os atores sociais sujeitos da produção de informação e conhecimento e não apenas meros e passivos receptores. Não se trata apenas de investimento quantitativo. e de todos os atores sociais. de ampliação do diálogo entre representantes da sociedade civil e poder público. . É necessário e urgente criar possibilidades de participação da sociedade na etapa de produção da comunicação. o que inviabiliza o desenvolviomento sustentável. é o poder de comunicar que precisa ser democratizado. a cultura política autoritária e excludente não será superada.30 Cida de Sousa tomadas por instâncias de autoridade estabelecida. Tarefa nem tão simples num pais marcado pelo fracasso das instituições representativas. para o desenvolvimento local sustentável. sejam comunitários (com as mais diversas associações comunitárias). Tarefa difícil no contexto da dinâmica do capitalismo globalizado que supervaloriza o caráter privado e tem os meios de comunicação social como uma força a favor do mercado. Isso significa tomar decisões que vinculam os representados como se eles mesmos as houvessem tomado. é preciso compreender que o desempenho desse papel está diretamente ligado a uma das mais importantes reivindicações no Brasil: a democratização da comunicação. sendo seu capital intelectual peça essencial para as organizações. uma decisão deve ser influenciada por todas as pessoas na mesma medida em que estas serãos afetadas. Fora desse cenário. O Papel da Comunicação A comunicação é um fator de organização social e tem como missão dar visibilidade a questões sociais. ser formadora de opinião. Daí a importância. E para merecer o crédito de democrática. Ou seja.

ou publicitária (publicidade enganosa é crime). exige respeito aos valores sociais da pessoa e decorre da cidadania e da dignidade da pessoa humana. · O princípio da veracidade da mensagem exige que a mensagem seja verdadeira e honesta. em sendo respeitados garantem aos veículos maior credibilidade.Julho/Dezembro . A propaganda governamental assim como a eleitoral devem respeitar o princípio da confiança. como na publicidade sublininar.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 31 Estratégias de Comunicação Antes de pensar sobre as estratégias de comunicação convém fazer referência a alguns princípios básicos da Comunicação Social que. Fica evidenciado que não é regra geral um compromisso rígido e resistente dos meios de comunicação de massa com os princípios básicos da O público e o privado . Uma informação pode levar a pessoa a tomada de decisões. não é compatível com a dignidade e a liberdade da pessoa. na produção e seleção de imagens no jornalismo e na publicidade. que deve ter resguardado seu direito de comunicação percebida conscientemente. Dentre os princípios constitucionais destaco aqui: · o princípio da dignidade da pessoa humana. dentre os quais destaco: · O princípio da confiança que deve estar presente na produção da mensagem. Há também os princípios extraconstitucionais da Comunicação Social. jornalística ou publicitária. seja ela governamental. · O princípio da transparência pelo qual a comunicação e todo seu processo deve ser transparente. os meios de comunicação social possibilitam o exercício do direito à informação. A manipulação da comunicação social. que impõe à Comunicação. bem como ao consumo e a mudança de atitude.Nº 14 . Pela notícia. · O princípio da função social. · O princípio do dever da informação que consiste em fazer conhecer como o poder estatal é exercido e como se manifesta o poder econômico. sendo inconteste a necessidade do respeito a esse princípio. que se edifica na Constituição Federal. ratificando sua importância na sociedade. noticiosa. o dever de respeitar a pessoa.2009 . não expondo sensacionalisticamente suas mazelas.

vemos que esta começa a faltar desde o processo de concessão de Rádio e TV. 2006). treinamento. A mobilização é uma importante estratégia para o desenvolvimento local. ação cooperativa e fortalecimento dos agentes e das capacidades de cada local” (WCCD. contudo manipulá-las. Soma-se a isso o desconhecimento dos prícipios e das leis que regem a Comunicação Social por uma significativa parcela da sociedade. Isso se constitui num sério problema cuja solução pode se dar a partir do processo de democratização. formado pelos meios de comunicação hoje. compartilhamento de conhecimento e de informação. visto que promove a inserção de pessoas da comunidade local nos processos de intervenção para o desenvolvimento. debate e participação. Historicamente têm sido autoritários e os poucos espaços que são abertos produzem um pseudo-poder de participação. No Brasil há uma visível necessidade de maior diálogo dos meios de comunicação com sociedade. Uma outra estratégia que deve ser posta em prática. Só a mobilização da sociedade por políticas democráticas de comunicação pode ampliar o acesso democrático aos meios e levar à formulação de um novo modelo de comunicação que respeite princípios e contribua para o desenvolvimento. valorização dos contextos culturais. . sem. a avaliação do ambiente sócio-político. As estratégias de comunicação voltadas para o desenvolvimento local sustentável devem perseguir a democratização dos meios de comunicação. porque se assim o fizer. por exemplo. quando sua função é mobilizar a sociedade em torno de questões de interesse público. sobre a transparência. “O fortalecimento das emissoras com essas características é um caminho corretivo para a situação do monopólio de propriedade e de divulgação de um pensamento único. de democratização da comunicação e da própria sociedade. ampliando o espaço público. no Brasil” (LAHNI. ela será autoritária e imposta” (PERUZZO. visto que pode proporcionar capacitação. mais uma vez. Elas são instrumentos de desenvolvimento local. “O grande desafio da comunicação ao mobilizar é tocar a emoção das pessoas. O documento elaborado no final dos trabalhos diz que os exemplos de estratégias bem sucedidas de superação da pobreza passam por modelos de comunicação que envolvem “diálogo. construção de mútuo entendimento. que tem sido usado para fazer barganha política. realizado em Roma. de forma incisiva é o fortalecimento das Rádios Comunitárias. Aqui. Quando pensamos. quero lembrar o Primeiro Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento. 1998).32 Cida de Sousa Comunicação Social. produção e distribuição de um conteúdo verdadeiramente democrático e plural. identificação das necessidades de desenvolvimento. 2008).

Juan Enrique Diaz. associações. The communication positive impact should been felt on the development projects. os movimentos sociais. a toda a sociedade. em especial. como foi dito antes.Julho/Dezembro . Cabe aos partidos políticos. preservando as identidades culturais. They should aim not only at information consume access but. As políticas de comunicação devem potencializar o uso das tecnologias de difusão em processos de desenvolvimento local. organizações nãogovernamentais. Society. Desenvolver estratégias para o controle social voltadas para diferentes temas. São Paulo. pois sua programação prioriza a comunidade. Politics of Communication. Referências BORDENAVE. como a Aids. to promote the society democratization. Nesta e em outras questões. assumir seu papel nessa luta. Considerações Finais Não basta que a sociedade e. 84 p. é preciso criar alternativas a ele. to enable the society participation on the production steps. A B S T R A C T : The public communication politics should been thought as work tools Artigo Recebido: 12. 1994. A comunicação é parceira na luta pela construção do desenvolvimento e. O Que é Participação. com a preservação das identidades. inclusive na perspectiva de prevenção do HIV/AIDS. conseqüentemente.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 33 A estratégia de fortalecimento da cultura local. O público e o privado . tem nas Rádios Comunitárias o espaço necessário para se desenvolver. Development. é o fortalecimento da luta pela democratização da comunicação a principal estratégia para o desenvolvimento. ampliando ainda mais a participação da comunicação no movimento social de luta contra a doença. visto que.. enfim.Nº 14 . este não se efetivará sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. sindicatos. Democratization. Mas. reconheçam e denunciem o oligopólio da mídia. inclusive avaliando seus resultados. para promover a melhoria da qualidade de vida da população. Brasiliense.2008 Aprovado: 20/12/2008 Keywords: Communication. na construção de um modelo econômico e social mais justo.11. which is basic to build a democratic society. é fundamental a participação da sociedade no trabalho de acompanhar as ações da gestão pública na execução das políticas públicas. As Rádios Comunitárias são um exemplo de que isso é possível.2009 . The present article reflects about the communication politics and discusses the communication for development.

In Revista Adusp.org/RB95C2I950. São Paulo. Campinas. Direito da Comunicação Social. RJ. MORAES Denis de (Org. Por uma outra comunicação: mídia mundialização cultural e poder. SP: Editora Alínea. 2005. In MARQUES DE MELO. Comunicação. RAMOS. 1988. PERUZZO. SP: Umesp. J.). Cortez. Comunicação Social: filosofia. Direitos Sociais e Políticas Públicas. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. FERNANDES NETO.. 342 p. Participação é Conquista. Murilo César. 414 p. São Leopoldo: Ed. LAHNI. Nº 42. Vozes. Cláudia Regina. Pedro Gilberto. 201 p. Rádios Comunitárias: entre a comunicação democrática e a perseguição. 2004. Cecília Maria Krhling. São Paulo. Maria José da Costa(Org.Comunicado de Prensa Nº 2007/119/ DevComm. L. ética. 1998. Rio de Janeiro: Record. pp. Comunicação Pública. Unisinos. Guilherme. 2003. 1997. http://go. “Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação”. OLIVEIRA. 176 p.). política. 34-42. São Bernardo do Campo. Ed. .34 Cida de Sousa DEMO. 126 p. Comunicação nos Movimentos Sociais Populares: Participação na Construção da Cidadania. Pedro. Petrópolis. 2004.worldbank. GOMES. SATHER. 368 p.

Apenas homens maiores de idade e proprietários de terras. à igualdade perante á lei. desde que não fossem estrangeiros. que são os direitos civis.com. E-mail: elza_ferreira@terra. cemocratização da comunicação. que quer dizer cidade. comunicação pública. à liberdade. O argumento defendido é o da necessidade de engajamento dos movimentos sociais na luta pela democratização da comunicação com o entendimento de ser a informação um direito que. I ntrodução A palavra cidadania se origina no latim “civitas”. não se efetivará.Nº 14 .br 35 Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota Elza Ferreira* Resumo: O trabalho discorre sobre a comunicação pública como um debate novo no Brasil com o propósito de analisar sua importância na construção da cidadania. Apresenta a comunicação pública realizada nos períodos de cerceamento da liberdade . Ser cidadão é ter direito à vida. Os direitos políticos garantem aos cidadãos O público e o privado . não eram cidadãos. Palavras-chave: cidadania. E-mail: fhsf@uece.(*) Horácio Frota é Professor do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará. Foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer.br Elza Ferreira é Discente do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas -UECE. reduzindo assim a idéia de cidadania. estrangeiros e escravos não gozavam dos mesmos direitos. eram cidadãos.Julho/Dezembro .Estado Novo e Ditadura Militar e saúda como promissora a proposta do atual governo de estabelecer uma Política Nacional de Comunicação. já que mulheres. sem a participação ativa da sociedade. crianças. portanto. à propriedade. direito à informação.2009 .

portanto com a participação consciente e responsável do indivíduo na sociedade. A cidadania é a expressão concreta da democracia. participantes. pertencendo a uma sociedade organizada.36 Horácio Frota Elza Ferreira participar do destino da sociedade. A realização dos direitos que vai efetivar a cidadania exige que sejamos ativos. minorias nacionais. sexuais. ao trabalho justo. podemos dizer que no Brasil. Construir cidadania é também construir novas relações sociais e consciências. reivindicatórios de direitos que extrapolam meramente o direito político ou econômico. Percebe-se na banalização do vocábulo um instrumento de manutenção da estrutura de classe em nosso país. que se concede. É nesse contexto que se quer discutir a comunicação pública. o direito à educação. e passaram a estruturá-lo a partir dos direitos dos cidadãos. baseado nos deveres dos súditos. à saúde de qualidade. os direitos humanos. surge a cidadania como uma mercadoria que se implanta. etárias etc. a democracia. a despeito de permanecerem todas as desigualdades sociais. a cidadania está nos alicerces. civis e políticos. todos os tipos de lutas foram travados para que se ampliassem o conceito e a prática de cidadania. Relaciona-se. Como uma construção. socioeconômicas de seu país. crianças. estando sujeito a deveres que lhe são impostos. como resgatar algo que não se construiu? É a cidadania consentida. é sua materialização expressa na igualdade dos indivíduos perante a lei. que se doa. a palavra cidadania ganha alento e vira uma espécie de fetiche. estendendo-a. faz campanha de promoção e de resgate da cidadania. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais. A cidadania deve ser perpassada por temáticas como a solidariedade. aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva. no mundo ocidental. Face à emergência dos movimentos sociais. a ecologia. Desse momento em diante. um termo que embora pouco estudado no Brasil diz muito sobre a cidadania do ponto de . A classe dominante se apropria do discurso da cidadania. Ora. a ética. possuidora de virtudes mágicas de inclusão social. a uma velhice tranqüila. étnicas. Esses dois eventos romperam o princípio de legitimidade que vigia até então. É o poder do cidadão de exercer o conjunto de direitos e liberdades políticas. votar e ser votado. Após o longo período de cerceamento de direitos. Exercer a cidadania plena é ter direitos civis. zelando para que seus direitos não sejam violados. A cidadania instaura-se a partir dos processos de lutas que culminaram na independência dos Estados Unidos da América do Norte e na Revolução Francesa. para as mulheres. políticos e sociais. o Brasil reconstrói sua democracia.

numa época em que a comunicação ocupa espaços importantes na vida de todos. não há ainda uma definição exata sobre o tema e diferentes abordagens podem ser feitas. a comunicação enquanto produção de informação e de entretenimento está nas mãos de poucos grupos de grande poder econômico. 54 da CF. porém. e que a frase informação é poder mais do que nunca é realidade. então. segundo dados do Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação. Já o Art. No Brasil. 38 do Código Brasileiro de Telecomunicações. diferenciando-se da comunicação praticada pelo setor privado. No mundo todo. como sinônimo de comunicação estatal.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 37 vista dos direitos sociais. assim a Constituição Brasileira e o Código Brasileiro de Telecomunicações. a comunicação pública é a comunicação realizada por meio da radiodifusão pública. é a comunicação realizada pelo terceiro setor quando este se relaciona com o estado. impondo valores. com o mercado e com a sociedade. as rádios comunitárias. dentre as quais se destacam cinco possibilidades: comunicação pública é a comunicação que se dá na esfera pública entre o governante e a sociedade. a manipulação das informações pelo maior grupo de comunicação eletrônica do país fortaleceram o debate sobre a democratização dos meios de comunicação e a luta pelo fim do monopólio das comunicações.2009 O Art. legitimada pelo interesse geral e pela utilidade pública das mensagens. . não será o objeto do nosso foco que se limitará à comunicação pública entendendo que avançar nesse debate é uma contribuição fundamental para a construção da cidadania. A prodigalidade do primeiro governo civil na distribuição de concessões de emissoras de rádio e tevês como moeda de sustentação do governo. este. desrespeitandose.1 Dadas as limitações desse estudo. 1 As origens do debate sobre a Comunicação Pública A expressão comunicação pública surge no Brasil. advinda da Constituição de 1988 que instituiu os serviços de radiodifusão estatal. a sociedade começa a se organizar e debater a necessidade de democratização da comunicação. na década de 80. Com o fim do regime militar. hábitos e códigos à sociedade.Julho/Dezembro .Nº 14 . é a comunicação praticada pelo setor público e realizada pelo próprio governo. proliferando. embora a literatura sobre o tema não seja ainda das mais férteis. privada e pública. Lei 4117/62. O que é Comunicação Pública São múltiplos os sentidos atribuídos à expressão comunicação pública. letras a e b di item I proíbe que deputados e senadores mantenham contrato ou exerçam cargos funções ou empregos remunerados em empresas concessionárias de serviços públicos. em seu parágrafo único determina que aquele que estiver em gozo de imunidade parlamentar não pode exercer a função de diretor ou gerente de empresa concessionária de rádio ou televisão. sete grupos controlam 80% de toda a informação veiculada na mídia e 31% das concessões públicas de rádio e tevês estão nas mãos de políticos. A consolidação da democracia nos anos 90 representa o surgimento de novos atores e uma nova visão política de estado e da participação da sociedade civil. Por se tratar de estudos recentes. A O público e o privado .

não há ainda uma formulação acabada do que é comunicação pública. 1995). O francês Pierre Zémor. define comunicação pública como a comunicação formal que diz respeito à troca e a divisão de informações de utilidade pública. levar ao conhecimento. como lembra Brandão (2007. E é com estes autores que pretendemos trabalhar. existindo apenas uma tradução resumida da professora Elizabeth Pazito Brandão. a autora em suas pesquisas e análises sobre os múltiplos significados e acepções da comunicação pública 2 La Comunication Publique. sentimento de pertencer ao coletivo. detendo-nos na análise da comunicação pública como comunicação do estado e/ou governamental.38 Horácio Frota Elza Ferreira compreensão da expressão comunicação pública como mera comunicação estatal torna-se incompatível com a nova realidade fundamentada ainda na expansão dos meios de comunicação em razão das novas tecnologias A transformação da expressão comunicação pública em um conceito com novo significado. PUF. Uma das dificuldades do estudo da comunicação pública no Brasil é o número reduzido de pesquisadores e conseqüentemente as poucas fontes literárias. publicado em 1995 na França. de ouvir as demandas. de contribuir para assegurar a relação social. relacionando-as com as finalidades das instituições públicas: de informar. que ainda não é consensual. assim como a manutenção do liame social cuja responsabilidade incube as instituições públicas (ZÉMOR. com a comunicação científica. é resultado dessas mudanças ocorridas tanto no estado quanto na sociedade civil.15) uma característica de quase todos os autores da área é o cuidado extremo em citar o que a comunicação pública não é. principal estudioso do tema. Na Europa. Que sais-je? Paris 1995 . tanto as comportamentais quanto as da organização social. apesar de não se ter chegado a um acordo sobre o que ela é ou deveria ser. prestar conta e valorizar. e de acompanhar as mudanças. conduzindo o debate para o imbricamento que nos propomos de comunicação pública como um espaço de construção da cidadania. Para alcançarmos este objetivo deixaremos de analisar alguns significados tais como comunicação pública identificada com a comunicação organizacional. as interrogações e o debate público. Mesmo o livro de Zemor2. Col. O autor pontua quatro funções para a comunicação pública. as expectativas. Ao afirmar que a área é um conceito em processo de construção. Se ainda não é consenso o que é comunicação já há um consenso sobre o que não é. Por se tratar de uma área recente da comunicação. p. o conceito de comunicação pública começou a ser estudado também na década de 80. não se encontra disponível na língua portuguesa. tomada de consciência do cidadão enquanto ator. com a comunicação política e comunicação da sociedade civil organizada.

9) aquele que diz respeito a um processo comunicativo que se instaura entre o Estado. Um ponto comum de entendimento é. 61). já captado pela indiscrição de uma antena parabólica3. que.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 39 identificou cinco áreas diferentes de conhecimento e atividade profissional. ou uma comunicação imbuída de natureza publicitária em que não faltam as modernas técnicas de marketing persuasivo em detrimento do conteúdo educativo. no auge da primeira disputa presidencial entre Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. da transparência. o governo e a sociedade e que se propõe a ser um espaço privilegiado de negociação entre os interesses das diversas instâncias de poder constitutivos da vida pública no país. próprio das sociedades democráticas. O episódio foi identificado como um abuso da máquina administrativa para favorecer um candidato e levou à demissão do ministro Ricupero. E acusou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de ser “um covil do PT”. no entanto. em referência aos índices de inflação. o debate que se dá na esfera pública entre Estado. Ao observarmos o cenário brasileiro em que a comunicação pública. Para Brandão. 4) Comunicação pública identificada com comunicação política e 5) Comunicação pública identificada com estratégias de comunicação da sociedade civil organizada. Comunicação pública é. o que é bom a gente fatura. do estímulo a mobilização e ao engajamento da sociedade podemos cair em um pessimismo que seguramente não contribuirá para o longo processo que O público e o privado . o então ministro da Fazenda. p.2009 3 Na noite de 1 de setembro de 1994. Rubens Ricúpero. como bem defende Duarte: praticar comunicação pública implica assumir espírito público e privilegiar o interesse coletivo em detrimento de perspectivas pessoais e corporativas (DUARTE. Sem que os dois soubessem. provocando uma comoção nacional. uma comunicação de Estado na compreensão do Estado ideal. sobre temas de interesse coletivo. escandalizados.Julho/Dezembro . certos de que os microfones estavam desligados. Foi gravada por vários espectadores. instaura políticas públicas voltadas para a democratização da informação. aquele que atende aos requisitos modernos do direito de informar e de ser informado e que. não é permitido desconhecer que interesses governamentais nem sempre se coadunam com o interesse público este que deve ser o denominador comum da comunicação pública.Nº 14 . é feita muito mais como um jogo de manutenção do poder. o governo e a sociedade com o objetivo de informar para a construção da cidadania. 3) Comunicação pública identificada com comunicação do Estado e/ou governamental. estimulando o pluralismo e coibindo o domínio da informação por monopólios privados que produzem e vendem informação como mercadoria ou como espetáculo. A comunicação pública não é uma comunicação de governo posto que este tem caráter transitório. “Eu não tenho escrúpulos. conversavam animadamente sobre as manobras de Ricupero para promover Fernando Henrique. no conceito já explicitado. compreendida como comunicação de Estado. enquanto esperava para ser entrevistado no estúdio da TV Globo para o Jornal Nacional. definindo comunicação pública como o processo de comunicação que se instaura na esfera pública entre o Estado. Um processo de negociação através da comunicação. Para Matos. portanto. . confidenciou ao jornalista Carlos Monforte que vinha aproveitando do cargo para promover ativamente a candidatura de Fernando Henrique. 2007. governo e sociedade. (2007. a saber: 1) Comunicação pública identificada com os conhecimentos e técnicas da área de comunicação organizacional. além disso. enviaram fitas gravadas aos jornais. a conversa estava sendo transmitida via satélite e foi captada por antenas parabólicas em várias regiões do país. disse Ricupero. o que é ruim a gente esconde”. 2) Comunicação pública identificada com comunicação científica. Durante vários minutos. p. Além da transitoriedade dos governos. a comunicação pública é uma vertente da comunicação política.

Esta cultura dificulta ou impede a efetividade da cidadania que é construída a partir da nossa capacidade de organização. Após a redemocratização. esta é a essência da comunicação pública que devemos perseguir. Estatuto do Idoso. O cenário político do país exigiu uma transformação na natureza da comunicação pública que embora ainda tímida. o acesso à informação é um direito fundamental. Não são os estatutos legais que asseguram a efetividade dos direitos. Muitas vezes. Comunicação é um direito Aqui voltamos ao ponto inicial dessa reflexão. A informação é um bem público. Fomos educados para achar normal a injustiça. o Brasil construiu fortes instrumentos de defesa dos direitos das minorias. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões. e a própria Constituição. um conformismo ao aceitar como natural aquilo que é criminalmente discriminatório ou injusto. promulgada em 5 de outubro de 1988. com as amizades com quem detém poder. o Código do Consumidor. Temos uma legislação das mais avançadas na questão ambiental. Há uma subserviência entranhada nas relações sociais. explicada pelos estudiosos como originária do nosso passado escravocrata. Aliás. p. A discussão sobre a comunicação pública precisa de cada um de nós num processo de construção da cidadania. a querer resolvê-las com um jeitinho. Entretanto. ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. falta-nos a prática da cidadania. Na . o Brasil é conhecido como o País de leis que não são cumpridas. de intervenção social. portanto sua cidadania como defende Dallari. O que assegura a efetividade dos direitos é a nossa prática e a comunicação pública tem um importante papel a desempenhar na construção da cidadania. já desponta no horizonte. É uma resignação culturalmente impregnada e os que destoam desta matriz são rotulados de barraqueiros. exercendo. Como se direitos fossem concessões de quem tem poder àqueles desfavorecidos. Estatuto da Criança e do Adolescente. plebiscito e outros instrumentos. há uma negação absoluta de acesso aos direitos que estão nas leis sem que se registre nenhuma reação. estabeleceu formas de democracia direta fomentadoras da participação popular e de cidadania ativa como o referendo. ao contrario percebe-se uma aceitação. Dallari (1988. O acesso á informação é uma ferramenta indispensável a qualquer indivíduo para participar ativamente da vida e do governo do seu país.40 Horácio Frota Elza Ferreira precisamos encarar.14) conceitua cidadania como um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo.

Nº 14 . em exposição no III Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa da Comunicação. que reuniu os agentes da comunicação nas diversas áreas do Governo. porém bastante atuante. O Ministro Gushiken apresentou os princípios da comunicação pública. a SECOM. é latente a preocupação de que a comunicação não seja apenas o Órgão institucional. e marketing político. embora o Ministro Gushiken tenha em diversos momentos usado a expressão norte significando rumos a serem adotados na comunicação governamental. realizado em São Paulo. demonstrou a dificuldade de conceituar a comunicação pública no âmbito do Governo. e as agências de publicidade. Em 2005. sabendo debater (GUSHINKEN. infelizmente ainda pequeno. sintetizados em oito pontos. Política Nacional de Comunicação A comunicação ganha um novo significado no Governo que tomou posse em janeiro de 2003. A isto o ministro chama de pensamento estratégico e elaborado para a comunicação governamental: o que importa em matéria de comunicação é a totalidade dos agentes públicos desenvolvendo um diálogo com a sociedade. Ministro Luiz Gushiken. levando-se em conta a necessidade de manter a esperança depositada no novo governo. A unidade da comunicação e a transparência do Governo são apontadas como atributos importantes na comunicação para que o povo saiba reconhecer em cada ação do governo aquilo que está sendo feito. o primeiro Fórum teve como tema a Política Nacional de Comunicação. fez-se uma salada de componentes de educação cívica. 2003). O Fórum. contribuindo decisivamente para a qualificação da comunicação pública. Sinalizando este posicionamento o tema foi escolhido para inaugurar os Fóruns do Planalto. tem conseguido levar o debate para além dos muros da universidade. 5)0 promover o diálogo e a interatividade. sabendo esclarecer. É necessário destacar que considerável número desses pesquisadores atua profissionalmente em áreas governamentais. Inicialmente ainda confusa.Julho/Dezembro . educativo e de orientação social. propaganda política. promovidos pela Casa Civil. Realizado em 04 de setembro de 2003. um grupo de pesquisadores. 4) comunicação pública não deve se centrar na promoção pessoal dos agentes públicos. 2) É dever do Estado informar. 6) estímulo do O público e o privado .Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 41 área acadêmica. 1) o Cidadão tem direito à informação que é a base para o exercício da cidadania.2009 . sabendo informar. programa de discussão permanente de temas da agenda do governo. cujas diretrizes foram apresentadas pelo então Secretário Chefe da Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. 3) Zelo pelo conteúdo informativo. de políticas públicas e de práticas inovadoras na gestão pública.

o Departamento Oficial de Publicidade que em 1934 transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. a comunicação governamental esteve sob a orientação do Departamento de Imprensa e Propaganda4. em dezembro de 1939 transformou-se no DIP . a participação. direito fundamental para o exercício da cidadania. em 1931. um polvo com tentáculos nas áreas de radiodifusão. ao contrário. A informação é a primeira etapa do processo que tem como fim a transparência. Diz respeito ao processo e ambiente de informação e diálogo entre governo e os diversos atores sociais sobre temas de interesse coletivo. compromisso com a universalização do direito à informação. cinema. 8)comunicação pública tem de se basear na ética com qualidade comunicativa. coordenando. E valores que perpassam conceitos como respeito ao caráter público.42 Horácio Frota Elza Ferreira envolvimento do cidadão com as políticas públicas. É o Governo o responsável pela disponibilização e viabilização dos instrumentos que tornarão a comunicação pública efetiva e eficiente. Trabalhamos para universalizar o acesso à informação. empresa estatal de comunicação. transparência. Buscamos e veiculamos com objetividade informações sobre Estado. . Com uma estrutura altamente centralizada e uma concepção clara de subordinação das informações à ideologia estadonovista. Na Radiobrás. Já defendemos antes que a comunicação pública é uma comunicação de Estado não de governo. a mobilização. pela primeira vez em sua história foi definida missão: somos uma empresa pública de comunicação. A empresa criou também um conselho editorial. sendo pensada. imprensa e turismo. tiveram um viés de tutela. a cidadania ativa. à cidadania. teatro. o Governo criou. No Governo Getúlio Vargas. finalmente. criado por decreto presidencial para difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. 7) Serviços públicos têm de ser oferecidos com qualidade comunicativa. orientando mas principalmente censurando. debatida e elevada ao status de política pública. com a verdade e com a qualidade da informação. é necessário reconhecer que é a partir desse governo que o debate sobre comunicação pública ganha força. Antes do DIP. às diferenças. No Estado Novo. 4 Este é um país que vai pra frente Poucas vezes a comunicação foi pensada como política pública no âmbito dos governos brasileiros e quando isto aconteceu a sistematização produzida e o conjunto de leis estabelecido não teve como foco o cidadão e muito menos colaborou com a emancipação da sociedade. governo e vida nacional. Percebe-se em todas estas ações um avanço na compreensão e no exercício da comunicação governamental embora ainda não no patamar que se espera de uma administração guindada ao poder pelas forças populares e que mantém em seus quadros diversos militantes da causa de democratização da comunicação Entretanto. divulgação. no início de 1938º DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda e.

em forma de autocensura ou censura prévia. editado em 05 de dezembro de 1968. também de exibição obrigatória antes das sessões. sem a penetração e capilaridade do DIP . proprietária do jornal Correio da Manhã divulga sua posição de abandonar o jornal. prendeu e torturou jornalistas e quando mais suavemente atuou foi na manutenção da censura prévia com funcionários públicos absolutamente amestrados no papel de censores a bater cartão nas redações decidindo o que seria ou não publicado. financiada pelos contribuintes. fechou jornais. Legislativo e Judiciário. eficiência e objetivos: propaganda e censura. a empresária afirma que “a publicidade do Estado. incentivada sua difusão nas escolas. empastelou edições. Invadiu e destruiu oficinas gráficas. É um período negro que além da legislação repressiva e centralizadora recebida do Estado Novo criou novos instrumentos como a Lei de Segurança Nacional. documentários de curta metragem difundindo e glorificando feitos do governo.Nº 14 .2009 . Não informava. considerado nobre pela lógica da publicidade. e que divulga as ações dos Poderes Executivo. que permanece até hoje com transmissão obrigatória no mesmo horário. O radio viveu um período de expansão. A Agência Nacional garantia a uniformização das notícias distribuídas gratuitamente ou como matérias pagas e o Departamento de Censura assegurava o filtro que mantinha as empresas privadas sob controle. Emblemático desse período foi a criação do programa Voz do Brasil. No Cinema. a informação que chegaria à sociedade era aquela escolhida pelo governo naturalmente tendo como matriz a manipulação dos fatos na tentativa de dar um polimento à ditadura militar. estabelecimentos agrícolas. Além da censura política. no Governo Costa e Silva que se revelou um instrumento ditatorial muito mais poderoso que a própria censura no campo das comunicações. industriais e comerciais com o pretexto da promoção da cooperação entre os entes federados. os atos institucionais cujo símbolo maior é o AI-5. ou seja. Durante o regime militar foi criado o Sistema de Comunicação Social que. A principal marca do período é a censura e a perseguição indistintamente à pessoas físicas e jurídicas que pregassem ou defendessem a liberdade. foi criado o Cinejornal Brasileiro. atuou com a mesma ideologia. No editorial “Retirada” em que Niomar Muniz Sodré Bittencourt. outro instrumento eficaz dos regimes militares na sua política de comunicação foi a pressão econômica com a suspensão dos anúncios publicitários nos veículos contrários a ditadura e generosas verbas publicitárias aos alinhados com o pensamento verde-oliva. representando 36% do total do mercado O público e o privado . formava. Muitas outras mídias integravam a estrutura do DIP que não nos deteremos na análise porque não é esse o objetivo do estudo.Julho/Dezembro .Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 43 o DIP exerceu durante quase uma década o total controle sobre a comunicação e a vida cultural do país.

O Governo gastava milhões com publicidade procurando enaltecer a miscigenação. Em um estudo sobre a censura no Brasil. Isso explica porque na linha de cultura e entretenimento. que suspendeu o contrato de publicidade c o m Opinião porque aguardava um empréstimo do BNDE. a generosidade do povo brasileiro. Tal foi o caso da Editora José Olympio. empresas privadas que.. suspenderam a sua própria publicidade. Brasil. houve até efeitos secundários. centralizando os órgãos governamentais de propaganda. a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas. com o objetivo de “motivar a vontade coletiva para o esforço de desenvolvimento nacional”. mas não desejava que os anúncios saíssem publicados No rádio e na televisão. ainda no Governo Costa e Silva. Gláucio Ary Dillon Soares aponta também os efeitos colaterais da censura: Num país em que o Estado desempenha um papel econômico e financeiro fundamental.)” . inclusive. a censura agiu com mais repressão nas peças teatrais. É sob esse signo que floresceu o império das organizações Globo.. não necessariamente jornalistas. a idéia de um país forte e uma nação coesa. Internamente. para pagar o contrato já feito. ações do partido de oposição. ame-o ou deixe-o.44 Horácio Frota Elza Ferreira publicitário foi sonegada maciçamente a uma instituição com quase 70 anos de relevantes serviços(. o MDB. transformando-se em rede nacional. Ofereceu-se. publicações literárias como livros e revistas de cunho político que nas transmissões televisivas. ocupada por profissionais oriundos das forças armadas. isto é. . Foi a época do milagre brasileiro e as campanhas tinham um tom ufanista: este é um país que vai pra frente. Produziu-se então uma comunicação calcada em valores morais com apelos cívicos entrelaçados à ideologia do regime. diretamente coagidas ou simplesmente receosas da suspensão de negócios com o Estado. a censura alcançava além das matérias de cunho informativo sobre os movimentos sociais. o Regime Militar criou. Havia uma preocupação e cuidado dos militares no sentido de diferenciarem a AERP do DIP com o receio de que a associação criasse um desgaste maior junto à opinião pública já desencantada com a chamada gloriosa. que chegou a criar um departamento de autocensura alegando que o custo da contratação de altos funcionários aposentados do Serviço Nacional de Informação SNI era menor que o prejuízo econômico provocado pelos cortes ou a censura total nas produções. O colaboracionismo com a ditadura era premiado na forma de verbas publicitárias e concessões de canais de tevê e rádio. intelectuais e artistas que discordavam do regime além de personalidades consideradas “inimigas do Estado”.

recreativa e institucional. com o nome de Subsecretaria de Comunicação Institucional.2009 5 Decreto 6. Secretaria de Comunicação Social e incorpora a antiga Secretaria de Imprensa e Porta-Voz. inicio da redemocratização. não desprovida dos matizes ideológicos. O tema cidadania e justiça surge na comunicação pública. em contraponto ao ufanismo dos governos militares.6. retorna o nome inicial. que dentre outros. especialmente no Governo Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).Julho/Dezembro . O caráter da comunicação pública nos governos civis assume a estética do governante. não resistiu ao insucesso do plano cruzado – plano econômico que tentou controlar a inflação. de abril de 1979 6 Lei 10. Foi instituído o regimento interno da Secom. além de suas atribuições específicas de radiodifusão educativa.799 7 No Decreto nº 5. especialmente na mídia eletrônica.5 Em 2003.683.3.2006. 8 As últimas alterações foram efetuadas pela Medida Provisória nº 360. No Estado Novo. de 18. Em 2006.Nº 14 . na ditadura militar.2007. de 29. o DIP. A tentativa de uma comunicação diferenciada. foi criado um Plano de Comunicação Social que visava criar um distanciamento da comunicação do período ditatorial e uma identidade para o governo civil.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 45 Nem DIP nem AERP ou quando tudo isso mudar A redemocratização trouxe novos parâmetros para a comunicação pública no âmbito dos governos e exigências da sociedade que dia-a-dia avança em movimentos sociais organizados emergindo uma nova cidadania. de 28 de maio de 2003. nos governos civis a comunicação pública passa a adotar técnicas de marketing. entendido como um conjunto de ações e estratégias que visam aumentar a aceitação e fortalecer imagens com foco no mercado. execução e controle.849. A Assessoria Especial de Relações Públicas dos governos militares foi transformada em Secretária de Comunicação Social. da comunicação social de Governo. ainda no Governo do Presidente João Figueiredo. Logo no Governo Sarney. A partir daí predominou a técnica publicitária O público e o privado . incorporando a Empresa Brasileira de Notícias – Radiobrás. centralizando as ações de comunicação institucional do Governo e dando ao órgão a responsabilidade pelo assessoramento sobre gestão estratégica e pela formulação da concepção estratégica nacional. Mudanças na legislação foram atribuindo funções e responsabilidades à SECOM tais como coordenação. e Decreto nº 4.8 As mudanças na legislação são acompanhadas de um deslocamento na natureza da comunicação pública. .650. responsável pelas ações de planejamento. inclusive dos contratos de publicidade. com foco nos direitos de diversos segmentos. com a alteração na estrutura da presidência da Republica6. ou seja.7 a SECOM passou a integrar a estrutura da Secretaria-Geral da Presidência da República. a AERP. supervisão e gerenciamento da publicidade governamental da administração pública federal.

Da mobilização dos movimentos sociais emergirá um novo tratamento na comunicação pública estabelecendo parâmetros de exercício do direito que é a informação. onde a autoridade de turno exerce o direito de informar. afirmamos que muito já se avançou. debater e conceituar comunicação pública. realizado em 1997. Este viés se acentua no Governo Collor em que a marca do governo é a juventude e o dinamismo e a do Brasil é a de um país atrasado que precisa daquele presidente forte. sem a compreensão da informação no campo dos direitos sociais e uma luta permanente pelo seu exercício configurando-se um espaço de construção da cidadania. com autoridade. informação e serviços de utilidade para a sociedade. como estão fazendo pesquisadores e a própria academia. a existência de um sítio na internet com a divulgação de todos os gastos com o dinheiro público são transformações que ampliam o espaço da comunicação democrática. Entretanto é preciso que cada um de nós compreenda a informação como um direito e lutemos para que ele se efetive. construir referenciais teóricos de comunicação pública com foco no exercício da cidadania. definiu comunicação pública como “um conceito de comunicação comprometida com o exercício da democracia. documento conclusivo do Parlamento Nacional de Relações Pública. Concebendo comunicação pública como um processo. torná-la palpável e presente no dia-a-dia não é desafio somente dos profissionais de Comunicação ou dos Governos. alguns já disciplinados na legislação. Experiências como o orçamento participativo já bastante difundido no seio da sociedade embora adotado como uma decisão espontânea de alguns governos. A Carta de Atibaia. a criação de conselhos representativos de segmentos sociais. O direito de ser eficientemente informado não se efetivará sem uma mobilização dos movimentos sociais. A comunicação pública precisa assumir um foco diferente daquele dos veículos comerciais. disciplinar comunicação pública como o fez o governo são passos importantes no caminho que se quer trilhar. centrando-se em educação.46 Horácio Frota Elza Ferreira onde o governo e a administração aparecem como produtos. De forma sucinta. . mas onde também deve ser exigido o direito dos cidadãos de serem eficientemente informados”. Considerações Finais Materializar a Política nacional de Comunicação. Criar uma nova matriz nas relações com a sociedade. que vai conduzi-lo à modernidade do mundo globalizado. traçamos um quadro da comunicação pública no Brasil para reforçar nosso entendimento sobre o papel da Política Nacional de Comunicação e da importância da comunicação como espaço de construção da cidadania.

Entretanto. no bom jornalismo. torna-se impossível avaliar a correlação entre o planejado e o executado. deve-se mencionar a natureza do Conselho curador da TV Brasil que tem 15 representantes da sociedade civil entre seus 20 membros com o objetivo de fiscalizar a observância das finalidades da tevê pública e poderes. obviamente estes ataques têm relação direta com a volumosa verba publicitária governamental. conforme preconizada na Constituição de 88. 223. ou seja. livre de manipulações políticas ou governamentais. público e estatal.2009 9 Medida provisória 398. Tamanho despropósito só tem uma explicação: uma tevê pública com um orçamento adequado e com controle social.Nº 14 . no debate das questões nacionais. da Saúde. A criação da tevê pública é sem dúvida uma aspiração antiga dos movimentos organizados em torno da bandeira de democratização da comunicação. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão. com ênfase na informação artística. na expressão da pluralidade social. O público e o privado . Para que a iniciativa tenha conseqüência e se consolide como tevê pública. para destituir os seus diretores. a TV Brasil assim se expressa sobre seu objetivo: A TV Pública. o Presidente Lula demonstraria que estava disposto a cortar seus gastos correntes. observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado. Não é tudo. por meio de seu presidente Tasso Jereissati. o PSDB. a TV Brasil nasce com a proposta de se diferenciar da tevê comercial e da tevê governamental. cultural e científica. de 10 de outubro de 2007 criou EBC – Empresa Brasil de Comunicação Art. Justificou que. Em benefício do governo. permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens. é necessário que nos engajemos em sua defesa. cumprindo o papel de um canal com a sociedade é uma ameaça ao poder hegemônico dos grandes grupos privados de comunicação. da Assistência Social e o estabelecimento de novos marcos legais com a revogação da legislação retrograda do setor. como já se realizou Conferência da Cidade. o arquivamento ou o adiamento da implementação da EBC – Empresa Brasil de Comunicação para que os tucanos votassem a favor do imposto do cheque. A exemplo de outros países. dessa forma. Artigo Recebido: 14/05/2008 Aprovado: 20/07/2008 10 . inclusive. Com apenas cinco meses no ar. com participação direta da sociedade em sua gestão. Art. É oportuno lembrar que por ocasião da votação da continuidade da CPMF no Senado Federal. ainda não cobrindo todo o território nacional. conseqüentemente. Em seu sítio na internet. sua programação não obedecerá as regras do mercado e nem ás do poder político. cuidar para que assim seja é sem dúvida um bom exercício para iniciarmos o processo de participação que desaguará na efetivação do direito à informação como dever do Estado e. Devemos perseguir a realização da Conferencia Nacional de Comunicação.Julho/Dezembro . deve oferecer uma programação diferenciada da que é exibida pela TV comercial. exigiu ao Ministro Guido Mantega. 22310.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 47 O Governo criou em outubro de 20079 uma Tevê pública que tem sofrido violento bombardeio dos grandes grupos de comunicação. fortalecedor da cidadania.

Referências BORGES. Dalmo. (org) Os anos 90: política e sociedade no Brasil. Disponível em www. acesso em05 de fevereiro de 2008.org.br/casacivil/foruns.05.planalto. It presents the communication held in periods of restriction of freedom . right to information. Coluna de 31.10.2008 . São Paulo: Atlas. . Acesso em 13. Disponível em http:// www.gov.br. mercado. A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo. public communication. DALLARI. Ricardo Constante. A B S T R A C T : The work talks about the public communication as a new debate in Brazil with the aim of analyzing its importance in the construction of citizenship. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Eveline. The argument is defended the need for engagement of social movements in the struggle for democratization of communication with the understanding of the information is a right that without the active participation of society. 2003. Bernardo. Portal o Vermelho. 1994. democratisation of communication. José Murilo de. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) .br. Jorge. is not effective. CARVALHO.State and New Military Ditadura as promising and welcomes the proposal of the present government to establish a National Policy on Communication. São Paulo. DUARTE. Universidade Federal de São Carlos.1999. 4. Cidadania no Brasil: o longo caminho.48 Horácio Frota Elza Ferreira Keywords: citizenship. Disponível em www. Fóruns do Planalto. Acesso em: 02 fev. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. 194 f. 2007. Teresa Maria Frota. São Paulo: Brasiliense. sociedade e interesse público. Quem são os inimigos da TV Brasil.vermellho. Fortaleza: UFC.2007. (Org) Comunicação pública: estado. DAGNINO.1998. KUCINSKY. 1988. GUSHINKEN.ufscom. São Paulo: Moderna. 1994.Centro de Educação e Ciências Humanas. Ditadura militar e propaganda: a revista manchete durante o Governo Médici. O cidadão e o estado: a construção da cidadania brasileira.arqanalagoa. Direitos humanos e cidadania. A Política Nacional de Comunicação. São Paulo. MARTINS.2008 HAGUETTE. ed. Luiz. Altamiro.

Heloisa. 6. O público e o privado . Acesso em 05 fev.fafich.Nº 14 . 2003. Disponível em http//www. 1988. democracia e cidadania: o caso do legislativo. Gláucio Ary Dillon.br.ufmg. Censura durante o regime autoritário.2008.br. Luiz Martins da (Org) Comunicação pública: algumas abordagens Brasília – DF: Casa das Musas.org.2009 . SOARES.Julho/Dezembro .Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 49 MATOS. In XII ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓSGRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS. Comunicação pública. Acesso em 05 fev. SILVA. Anais eletrônicos. 1999. In XXI CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES – INTERCOM.2008. Disponível em HTTP// www. Anais eletrônicos.anpocs.

duas dimensões dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais no âmbito das redes sociais de brasileiros na Espanha.Nº 14 .Julho/Dezembro . nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de brasileiros em experiência migratória na Espanha. Palavras-chave: comunicação. realizado em Curitiba de 4 a 7 de setembro de 2009. Como resultados da pesquisa empírica.br. para análise. especialmente MSN. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. de autoria de Daiani . A partir de breve discussão conceitual sobre redes sociais. nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha. especialmente MSN. E-mail denisecogo@uol.com Denise Cogo é Professora Titular do Programa de PósGraduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e Pesquisadora Produtividade do CNPq. 1 A dissertação. redes sociais.com. 51 Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Epanha** Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth Denise Cogo* Resumo: Este artigo aborda os usos da internet. centrada nos estudos de recepção latino-americanos.(*) Daiani Ludmila Barth é Mestre em Ciências da Comunicação pela Unisinos. internet. E-mail: daianiludmila@gmail. internet e migrações transnacionais. destacamos. migrações transnacionais. Skype e Chat. Skype e chat Uol.2009 (**)Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Inercom). A pesquisa orienta-se por uma perspectiva qualitativa. O público e o privado . I ntrodução Esse trabalho traz os resultados de uma pesquisa de mestrado1 que teve como objetivo abordar as relações entre os usos da internet. e ancorada em uma abordagem metodológica baseada em etnografia da Internet.

permeável assim como comportar hierarquizações entre seus integrantes. internet e migrações transnacionais: itinerário conceitual da pesquisa Inicialmente. Como resultados da pesquisa empírica. Ao contrário. 2 Redes sociais. Nessa perspectiva. p. nesse artigo o percurso teórico-metodológico da pesquisa centrada nos usos sociais. migração transnacional e redes sociais” e foi defendida em março de 2009 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. a Matemática. destacamos. . esse sentido aprofundaria a sustentabilidade dessas redes sociais. vertente dos chamados estudos de recepção latinoamericanos. en particular a partir del sentimiento de que los intereses individuales están ligados a los intereses del grupo” (1996. e. para análise.redes sociais. nem sempre uma rede social tende a configurar a coesão social sugerida ou pressupor um profundo sentimento de solidariedade. Denise Cogo. a Psicologia. e em uma abordagem empírica baseada na etnografia da Internet. Na visão de Lozares. a (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil). compartilhamos da proposição de Resumimos brevemente aspectos da discussão conceitual desenvolvida de modo aprofundado na dissertação de mestrado.2 As redes sociais são fundamentais para a compreensão de fenômenos para diversas áreas de conhecimento. pode ser transitória. conseqüentemente. Dessa maneira. em um sistema de redes sociais. dentre as quais estão a Sociologia. intitulase “Brasileiras na Espanha: Internet.que foram centrais na formulação do problema e desenvolvimento da pesquisa. a vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e a constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. particularmente a partir do sentimento de que os interesses individuais estão ligados aos interesses do grupo”. duas dimensões que se tornam relevantes para o estudo dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica no contexto do trabalho de campo com migrantes transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais. composta por observação e entrevistas. fixos e inabaláveis. nos processos de vivência migratória transnacional. seria importante a construção de um sentimento de solidariedade e de coesão entre seus membros. a união entre seus membros as transformariam em processos coesos. Em grupos migrantes. através de usos específicos em redes sociais que abrangem a constituição de vínculos com familiares e amigos. 3 Tradução das autoras: “Identificação dos membros do grupo com o seu grupo. as redes sociais são compreendidas como “coesão subjetiva” e têm a função de “identificación de los miembros del grupo con los de su grupo. Entretanto. Internet e migrações transnacionais .52 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo retomamos. fluida. Ludmila Barth. nos preocupamos em resgatar brevemente três noções conceituais . sob a orientação da Profª Dra.15)3. a Antropologia. especificamente de brasileiros na Espanha.

Boase. A world wide web (www).2009 As experiências online e offline foram abordadas separadamente na pesquisa desde um ponto de vista de operacionalização do empírico. esta poderia ser considerada apenas como uma tendência. uma vez que se torna impossível demarcar quantitativamente as interações sociais individuais ou coletivas. os mesmos autores apontavam que a maioria das interações sociais na internet acontecia entre pessoas que já se conheciam anteriormente na vida offline. os processos de migração transnacional focalizados nesse trabalho. tendo como base. é importante não confundi-las Ao abordarem relacionamentos online e offline. . Ainda.Nº 14 . e. estruturada em nível global. Mozilla Firefox. portanto. à diversidade e à complementaridade. a web utiliza o protocolo HTTP (Hypertext Transfer Protocol). desde que disponham de acesso. também celulares. mas como práticas sociais foram compreendidas de modo inter-relacionado. Todos estes formam uma rede na qual qualquer um desses aparelhos pode se comunicar com outro. cujas informações trocadas são realizadas por uma variedade de linguagens conhecidas como protocolos. a internet não teria o poder de alterar significativamente as atividades rotineiras das pessoas. seria equivocado afirmar que houvesse a diminuição do interesse pela vida online.” No entendimento dos recursos online utilizados. mais abertas ao pluralismo. é necessário propor uma diferenciação entre internet e web. gráficos. em geral. sons e vídeos.Julho/Dezembro . Embora a Web seja a grande responsável pela popularização alcançada pela internet e. para transmitir informações e precisa de navegadores (browsers) tais como o Internet Explorer. uma vez que os migrantes estariam mais conectados por desejarem se relacionar com o que deixaram para trás. mas lembram que as pessoas continuam mantendo suas relações sociais fora dela. A Web é. mais recentemente. a partir de empresas de telefonia que comercializam o serviço. 33-34) quando define as redes sociais como “formas mais horizontalizadas de relacionamento. pagers e outros aparelhos como o iPhone. que podem conter textos. é uma dessas maneiras de acessar. Através dela.4 Em estudos anteriores. compartilhar e armazenar informações a partir da internet.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 53 Scherer-Warren (1999. para acessar documentos chamados de páginas web (homepages). No entanto. ou simplesmente web. p. para os usuários leigos os dois termos possam parecer sinônimos. milhões de computadores estão conectados. ao contrário do que se imaginava. ainda. Wellman (2006) reconhecem a internet como uma mídia de comunicação e informação. Estas páginas são ligadas umas as outras através de links. Haveria. por exemplo. apenas uma das maneiras pelas quais a informação pode ser disseminada pela Internet. para assim estarem conectados à grande rede internet. obtido. A internet é uma “rede de redes”. 4 Entretanto. Assim. a possibilidade de ocorrer o contrário O público e o privado . e o recentemente lançado Google Chrome.

7 Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) 7.midiamigra. a reflexão sobre configurações e reconfigurações de usos e vivências da internet no âmbito dos movimentos migratórios exige que consideremos que a internet vem se constituindo como um importante meio de busca de informações sobre a vida no exterior bem como visibilidade e sustentação de identidades no mundo digital. cito principalmente o site de relacionamentos Orkut. 2005). realizada como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Unisinos. Além disso. Outra questão a ser referida é que. a vivência da migração e sua reconfiguração no território europeu.5 Os usos de recursos da internet realizados no cotidiano dos migrantes podem abranger desde o contato com as pessoas mais próximas. Conforme o Ibope/NetRatings (março/2008). Esses usos geram e dinamizam contatos que também podem configurar redes sociais que comportam os mais variados níveis de organização e permanência. como amigos e a família. Acesso em: 25 set. A mudança geográfica constitutiva das migrações transnacionais significa não apenas uma mudança de localização e sim a construção de espaços simbólicos entre os lugares por onde o sujeito passa. se mostrou fundamental no decorrer da experiência transnacional. Ainda assim. a migração de brasileiros para a Espanha cresceu consideravelmente nos últimos anos. Daiani Ludmila Barth. ainda. em 2006. através de sites de relacionamentos6. 6 do exposto pelos autores. apesar de recente. Skype e chat Uol ferramentas que permitem a comunicação simultânea entre interlocutores . imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www. processos de aprendizados em torno dos idiomas e da cultura de cada local de migração. e a reconfiguração no território europeu na migração de retorno ao Brasil. vale mencionar que. chats. a cada 10 pessoas que acessam a Internet de casa. até a orientação para conseguir documentação. MSN e Skype. Ou seja. bem como na relação afetiva e emocional proporcionada através da vivência de estar online. as pessoas podem se conhecer offline e incorporarem este relacionamento também ao contexto online e mesmo manterem simultaneamente relacionamentos online e offline em seu cotidiano.ine.es/inebase>.a partir dos sentidos que os migrantes lhe atribuem e dos usos que fazem delas. vivenciados no cotidiano das transformações culturais da sociedade contemporânea. comportando um caráter interpessoal não mediado que atravessa a história das migrações. 7 usam o Orkut. que não é considerado uma ferramenta de comunicação simultânea.com. .br”. uma vez no exterior. Por fim. pela co-autora desse trabalho. trabalho ou. da Espanha. os brasileiros Neste exemplo. mas que tem sido muito utilizado pelos brasileiros. conforme nos dedicaremos a analisar posteriormente nesse trabalho. 2008. ou seja. (MEZZADRA. importa lembrar que essas redes não se limitam à comunicação mediada por computador. Essas reflexões nos conduzem a entender o MSN. a constituição de redes sociais. Disponível em: <http:/ /www. entre os próprios migrantes entrevistados em nossa pesquisa. no início dessa década. vive e constitui-se em processo constante e fluído de atribuição de sentidos.54 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo 5 São possíveis algumas pistas a partir do estudo “Internet. o uso cotidiano da internet tem sido preponderante na criação e manutenção de redes sociais entre migrantes transnacionais. Sua proposta configura-se na reflexão sobre usos da internet por um grupo de migrantes brasileiras a partir de três experiências em que as migrações se relacionam ao imaginário europeu: o projeto de migração para a Europa. no Brasil.

Desde essa perspectiva. ainda. de caráter qualititativo. 09. Há aqueles em condições financeiras favoráveis e aqueles em posições menos favoráveis.Nº 14 . nos valemos. no contexto dos quais. Os usos sociais favorecem a nossa análise sobre as diferentes abrangências da relação dos receptores com as tecnologias da comunicação em uma dimensão temporal e espacial mais ampla que não se limita ao momento da recepção. ficando atualmente cinco vezes maior do que no início da década. recebem ajuda de algum familiar radicado no Brasil. (2005. mais especificamente da etnografia na internet que contempla a possibilidade de nos apropriarmos e inserirmos em uma O público e o privado . alcançando mais de 80 mil em 2005. ver matéria da BBC Brasil.8 Outro fator importante é que. desde a crise econômica global desencadeada em 2007. mas abarca a compreensão dos processos de circulação dos sentidos produzidos. fazendo uso da conhecida estratégia da cama quente.. podemos distinguir modos de atuação da hegemonia e de mobilização da resistência assim como resgatar os processos de apropriação e réplica das classes subalternas. registra-se uma forte desigualdade econômica. Sobre isso.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 55 somavam 13. (JACKS. para sobreviver. e. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. segundo propõe Martín Barbero (1987). (COGO. em função principalmente do alto índice de desemprego do país. embora os processos mediáticos intervenham fundamentalmente na constituição e na conformação das interações. 8 . b b c . memórias e imaginários sociais.shtml>. nossa pesquisa. comparado aos 4 milhões 274 mil 821 estrangeiros que vivem na Espanha.] enquanto existem brasileiros que chegam a dividir sua própria cama. o contingente de brasileiros praticamente duplicou a cada ano. conferindo e negociando usos específicos em relação às mídias. conforme explica Cavalcanti: [. deve ser considerado o fato de que as estatísticas oficiais não registram a presença de migrantes clandestinos ou não regularizados. inclusive. está sendo registrado um crescente significativo de retorno de brasileiros da Espanha. ainda. Vale lembrar. nos orientamos pela percepção de que. c o . Mesmo representando um número pequeno.. os indivíduos são sujeitos ativos no processo de comunicação. u k / portuguese/multimedia/ 2009/05/090512_ abreespanha_ video. Usos da internet na construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais Em termos teórico-metodológicos. situa-se no contexto dos estudos de recepção latino-americanos. p. pensar a ação dos receptores nos espaços dos conflitos e de mestiçagens culturais. da etnografia como perspectiva de abordagem metodológica. 2008). No âmbito dos usos sociais.2009 Na leitura desses dados.730. Disponível em: <http:/ /www. com uma razoável conta bancária e. ainda. existem outros. Acesso em: 18 mai. A noção de usos sociais nos possibilita. no âmbito do coletivo de brasileiros em vivência transnacional no contexto espanhol. quando as ‘coisas apertam‘.Julho/Dezembro .10). 2008).

as que se apresentavam com nicks de mulheres abandonavam as salas quando começávamos o diálogo. uma vez que. Essa estratégia metodológica de encontro com os entrevistados reafirmou que a utilização de recursos online favorece o estudo das migrações transnacionais em virtude dessa presença relevante das redes sociais mediadas pela internet. Uma primeira etapa de realização da pesquisa empírica visando à construção do objeto de estudo esteve orientada por uma pesquisa exploratória através da realização de buscas no chat Uol. Quando contatávamos com nicknames femininos nos chats. em dimensão similar à descrita por Hine: The emergence of multi-sited ethnography. . não conseguíamos manter uma conversação. mesmo fazendo referência à pesquisa. mas que não dependem de um único entendimento sobre ela. mediada por diferentes usos da internet. pela própria experiência transnacional que. 61) Vale mencionar que. conceived of as an experiential. porém sem circunscrições a uma territorialidade geográfica concreta no que se refere à convivência entre pesquisador e sujeitos pesquisados. It offers up possibilities for designing a study which is based on the connections within and around the Internet and enabled by it but not reliant on any one understanding of it. encontramos apenas “brasileiros no Brasil” ao passo que. tivemos dificuldades no carregamento da página que ficava indisponível ao tentarmos entrar em uma das salas. Em geral. Essas dificuldades colaboraram para a abordagem empírica inicial ficasse limitada ao chat Uol. no Terra. especificamente na sala de bate-papo “Brasileiros no Exterior”. a própria inserção dos migrantes brasileiros em redes sociais.Espanha. 9 (2000. concebida como uma exploração experimental. p. no Terra-Brasil. 9 Tradução das autoras: “A emergência de uma etnografia multi-situada. Foram realizadas também incursões no contexto dos chats oferecidos pelo portal Terra Brasil e Terra-Espanha. is encouraging news for ethnography of the Internet.“. colaborou fundamentalmente para a localização dos entrevistados e realização das entrevistas. Isso amplia as possibilidades de desenhos metodológicos /ou/ de estudos baseados nas conexões internas e em torno da internet. Em ambas tentativas não obtivemos sucesso. é uma boa notícia para a etnografia da internet. muitas vezes. interativa e engajada de conectividade. mas também e. impõe uma distância geográfica entre pesquisadoras e os sujeitos migrantes pesquisados que limita o acesso presencial offline à realidade das migrações. a etnografia na internet nos exigiu adaptações das ferramentas clássicas de entrevistas e conversação a partir dos usos das “novas tecnologias”. Nesse sentido. é interessante mencionar as várias tentativas frustradas de conversarmos com mulheres. interactive and engaged exploration of connectivity.56 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo rede relacional situada no tempo e no espaço. que são viabilizadas por ela. Nestas entradas a campo. sobretudo. no processo da pesquisa.

estabelecendo-se em território espanhol. utilizamos um roteiro composto por questões organizadas em cinco blocos temáticos: (1) Identificação. o tempo de migração e o tempo de utilização e de acesso à Internet. estão o gênero. utilizamos a possibilidade “reservada” (ou seja. Um sexto entrevistado. adotamos outra estratégia: ao invés de esperar que um dos usuários disponíveis viesse conversar. na época da entrevista. Essa estratégia permitiu iniciar contato. e entrevistados no MSN. 3) Migração de retorno: brasileiros que viveram na Espanha. foi adicionado ao MSN.Nº 14 . .10 onde identificamos perfis de mulheres brasileiras na Espanha. (4) Internet Cidadania e (5) Migração transnacional.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 57 Nas últimas entradas a campo utilizando o chat. Para a realização das entrevistas.Julho/Dezembro . mas entrevistado O público e o privado . com ou sem pretensão de se estabelecerem naquele país. no esforço11 de diversificar as experiências de migração a serem focalizadas no estudo. procuramos outros modos de contato com brasileiros na Espanha. posteriormente. o r ku t . Dentre esses critérios. integrante das listas de grupos Yahoo. que. utilizamos uma comunidade desse grupo que foi criada no site de relacionamentos Orkut. Inicialmente. Acesso em: 20 set. estavam morando na Espanha. 11 Publicamos recados sobre a pesquisa nos perfis de quatro integrantes da comunidade. a partir da lista de discussão “brasileirosebrasileirasnaeuropa”. mas retornaram e se estabeleceram no Brasil. Realizamos sete entrevistas com migrantes brasileiros na Espanha. intitulada “Rede brasileiros no exterior”.aspx?uid= 8975712732970420281>. Uma quarta migrante foi contatada pelo Orkut e entrevistada através de e-mail. 08. Um quinto brasileiro foi contatado através de lista de discussão do Yahoo e entrevistado por e-mail. e que. encontrado no chat Uol. b r / Profile. o nível de escolaridade. apenas os dois interlocutores vêem a conversação). c o m . Três brasileiros foram encontrados pelo chat Uol. também se constituíram como critérios da amostra final de migrantes pesquisados no trabalho: 1) Migração com destino à Espanha: brasileiros que saíram do Brasil com destino prévio à Espanha e não residiram em outros países. Posteriormente. a idade. com a única mulher brasileira que integrou o grupo de entrevistados. (2) Usos de ferramentas de comunicação.2009 10 Disponível em: < h t t p : / / w w w. Essas três modalidades de migrações foram cruzadas ainda com outros critérios na perspectiva de diversificação da amostra de migrantes que nasceram no Brasil e estavam em vivência migratória na Espanha e com os quais fomos nos aproximando no decorrer da abordagem empírica. e enviando-a a todos os usuários. lançando a pergunta: “Alguém da Espanha?”. foi possível perceber três experiências distintas de migração. Ao longo do trabalho de campo. a partir do chat Uol. (3) Interações online/offline. Para além do chal Uol. 2) Migração de múltiplos trânsitos: brasileiros que saíram do Brasil e viveram em mais de um país.

O que foi possível perceber é que. sentado. ou não. ¿será que me está escribiendo una respuesta muy larga?12 (2003. face-a-face. constituindo-se na única abordagem em que foi contemplada a modalidade de migração de retorno. como o tipo de conexão que deve ser favorável para que a imagem possa ser transmitida com maior nitidez ou. Concorre. utilizada durante as entrevistas por MSN e Skype. sobre essas mesmas questões de espera da resposta do entrevistado no uso de chats em seus trabalhos etnográficos online: 12 Tradução das autoras: “E como ‘quem espera. a partir do acionamento de uma webcam. para isso. durante os segundos e. minutos de espera que pueden transcurrir desde que lanzas una pergunta hasta que recibes la respuesta. inclusive. p. os riscos da conexão ser interrompida por algum problema com os servidores utilizados. ¿le habrán llamado por teléfono? O. ainda. de tecnologias disponibilizadas pela internet no processo comunicacional na abordagem empírica através do uso da entrevista. Quando os entrevistados não mostravam sua imagem pela webcam. nos possibilitou refletir sobre semelhanças e diferenças na mediação. muitas vezes acoplada na parte superior do computador. E. ¿se la estará pensando?. uma última entrevista foi realizada pessoalmente. é inevitável que passem muitas coisas pela cabeça: será que entendeu a pergunta? Será que está pensando nela? Será que está conversando com outras pessoas reservadamente enquanto faz a entrevista comigo? Será que o telefone tocou? Ou. Este procedimento. por fim. Outra especificidade da abordagem dos entrevistados através da internet que observamos empiricamente é a atenção dispensada ao momento da entrevista. passavam um longo tempo sem responder às questões propostas. em Porto Alegre. maneiras de posicionar-se perante o outro. será que está escrevendo uma resposta muito longa?” Y como ‘quien espera desespera’. Até pelo fato de que a própria webcam. para que possa ser visto por seu interlocutor. que. incluso. não são possíveis de serem notados ou sequer vivenciados. que havia sido experimentado durante o processo exploratório da pesquisa.83) . desespera’. a questão das condições de acesso à internet. durante los segundos e. ainda. ¿será que está hablando con otras personas en otros ‘privados’ mientras está haciendo la entrevista conmigo?. causando até certo desconforto. Além das palavras. expressões. Marta Bertrán. es inevitable que nos pasen muchas cosas por nuestras cabezas: ¿habrá entendido la pregunta?. Além disso. a comunicação se favorece dos múltiplos sentidos e dimensões que aparecem envolvidos nos processos de interação entrevistador-entrevistado. minutos de espera que podem transcorrer desde que envias uma pergunta até que recebas uma resposta. não havíamos previsto realizar uma entrevista presencial. exige que o entrevistado fique em uma mesma posição. simplesmente. muitas vezes. no contato presencial offline. O que nos lembra o relato das pesquisadoras Elisenda Ardèvol.58 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo através do Skype. têm-se os gestos. simplesmente. offline. Blanca Callén e Carmen Pérez.

Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 59 Também não imaginávamos. na (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil). compreender os usos específicos que os migrantes fazem da internet relacionado às suas experiências migratórias. até a entrada em campo.6 anos crianças Serviços gerais 3 anos 6 meses Psicóloga 13 Por questões éticas. em função da preferência dos entrevistados. sintetizamos os perfis dos sete entrevistados 13: PERFIL DOS ENTREVIST ADOS ENTREVISTADOS N o m e Idade Migração Murilo 1 Migração Fábio 2 34 Onde mora Camarma de Esteruelas14 Barcelona Escola. as questões foram enviadas em blocos e levaram cerca de um mês para serem respondidas. a seguir. que teríamos que utilizar o e-mail para entrevistar dois dos imigrantes brasileiros na Espanha que compuseram nossa amostra. tivemos que nos adaptar ao uso dessa ferramenta que exige outro modo de estruturação de uma entrevista. posteriormente. Inicialmente. Para ambos os entrevistados. na vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e na constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. caracterizamos os migrantes entrevistados e apresentamos um breve mapa de seus acessos à internet no sentido de oferecer referências contextuais para.Estado ridade C i v i l Superior Casado Ocupação Biólogo Tempo de migração 14 anos 37 PósCasado graduação Migração Vicente 3 Elisa Silvia Raul Joana15 23 37 25 33 24 Madri Madri Madri Madri Porto Alegre Ensino médio Ensino médio Superior Superior Superior Solteiro Casada Solteira Solteiro Solteira Coordenador 3 anos de associação de migrantes brasileiros Empregado 2 anos em mercado Auxiliar 12 anos administrativo Cuidado de 2.Nº 14 .2009 . os nomes dos entrevistados foram alterados. a segunda dimensão de usos desenvolvida na nossa pesquisa em que a internet aparece como espaço de interação de migrantes brasileiros na Espanha através de seus usos na constituição de vínculos transnacionais com familiares e amigos. Entretanto. 15 Joana morou em Barcelona durante os seis meses em que viveu na Espanha.Julho/Dezembro . O público e o privado . No quadro abaixo. Os usos da internet em espaços de interação nas redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha Passamos a analisar. 14 Cidade situada a 35 km de Madri.

ja os chats é muita sacanagem. A afirmação de Raul. levando a supor. suas expressões faciais conforme o ambiente onde estavam no momento da entrevista. Raul. portanto. um trânsito por ambos recursos ou. e mais reduzida no Skype (para os entrevistados que conhecem o recurso). Já o Skype parece não ser tão difundido. a sexo pela internet. conforme o ambiente em se encontravam. ao se referir a essa modalidade de conversação na web. na opinião dos entrevistados. Durante as próprias entrevistas. só digitar. O MSN também foi apontado pelos entrevistados como recurso importante para a sociabilidade. é ilustrativo desse condicionamento do local de uso. traduzida em conhecer pessoas e conversar. assim como em manter os contatos já existentes. o MSN figura na preferência de contato online da maioria dos migrantes brasileiros entrevistados. por exemplo. O MSN posso selecionar as pessoas q quero conversar e q eu tenha confiança.60 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Na utilização de ferramentas de comunicação simultânea. Sílvia. a dimensão qualitativa de encontro com as pessoas com as quais os entrevistados mantêm contato freqüente. ta uma chatisse. no processo de procura por desconhecidos para a inclusão no MSN. ainda. tendo em vista. eu entro as vezes mas nem gosto mto. que o MSN parece se configurar como uma ferramenta de comunicação mais amigável para a escrita do que o Skype. os entrevistados podiam optar pelo uso de um ou outro. tem muita gente aqui”. foi possível vivenciar algumas dessas especificidades mencionadas por alguns dos entrevistados quando. o entrevistado preferia escrever a usar a voz. foi possível perceber. Assim. Isso não significa. principalmente. A quantidade de contatos é maior no MSN. Apesar de os dois programas terem o recurso da câmera web. 16 Nesta e em outras citações. sobretudo. num ambiente público. o fato do chat não possibilitar o uso da webcam. Dos sete entrevistados da nossa pesquisa. talvez o desconhecimento com relação aos recursos disponíveis através do Skype. a popularização do MSN entre brasileiros e. foi respeitada a grafia utilizada pelos entrevistados. A menor quantidade de contatos limita. Vicente e Silvia. quatro deles foram encontrados a partir do chat Uol: Murilo. 16 Em geral. nas entradas metodológicas realizadas no chat. contudo. ainda. . por exemplo. O número de pessoas online é o que diferencia o uso de cada recurso. foi necessário contornar as propostas ou sugestões ligadas. a afirmação do uso cotidiano desse recurso pelos quatro migrantes. Alguns entrevistados controlavam. e mentira”. afirmou: “akilo la. de que “não posso falar com você agora. possam contribuir para que o primeiro seja mais acessado do que o segundo. no decorrer da entrevista.

representadas. Skype e chat Uol. Nos estudos sobre migrações. falecimento e migração) e percepções de proximidade afetiva e emocional“. realizados por Wilding. embora nos locutórios que freqüenta sejam disponibilizados aparelhos telefônicos. a partir desta investigação. neste trabalho. amigos e conterrâneos. Nos vínculos mantidos com brasileiros no Brasil. não se sente à vontade para ligar para a família e conversar em voz alta. apenas Sílvia chegou a trocar informações acerca da Espanha com uma pessoa que classificou como “conhecido” e que já vivia naquele país europeu. possibilitando. família e transnacionalismo. Dentre elas. ganha destaque a questão da ausência de privacidade que os entrevistados relatam vivenciar nesses espaços de acesso coletivo a internet. shifting according to life-cycle events (including birth. as relações familiares são dinâmicas e fluídas. p. cada entrevistado tem sua história de interação pela internet no relacionamento com a família. Uma webcam foi adquirida para as sessões que reuniam a família aos domingos.2009 17 Tradução das autoras: “Em primeiro lugar. mudando de acordo com os acontecimentos do ciclo de vida (incluindo nascimento. A mãe de Joana teve que aprender a utilizar o MSN durante o tempo em que a filha esteve na Espanha. Novamente. contatos pessoais com parentes. mais O público e o privado . Os outros brasileiros entrevistados buscaram maneiras diferentes de obter informações sobre o destino e efetivar a migração. segundo os relatos dos entrevistados. Dentre os entrevistados.17 (2006. pelo MSN. e a internet.Julho/Dezembro . ganha preferência para os contatos. O caráter transnacional de dinamização dos relacionamentos familiares possibilitado pela condição de migrante é vivenciado pelo grupo de entrevistados tanto através do uso de ferramentas de comunicação online como de outras tecnologias anteriores à internet. o telefone é deixado de lado. o entrevistado lembrou que. hospedagem e assistência financeira no local de migração. muitas vezes. De acordo com a autora: “First. especialmente através do MSN e e-mail. Skype e chat Uol no planejamento dos projetos migratórios para o exterior. como o telefone.129) Com o advento de diferentes tecnologias de comunicação. a obtenção de informação sobre oportunidades de empregos. foram quase nulas as referências de utilização do MSN. foi possível constatar a preferência pela utilização de ferramentas de comunicação online. death and migration) and perceptions of affection and emotional closeness”. muitas vezes com a presença dos avós. A mãe e a irmã de Vicente também se conectam quase diariamente ao MSN para conversar com o filho.Nº 14 . Os usos da internet favorecem. uma das questões relevantes diz respeito às especificidades das reconfigurações das relações familiares produzidas pela experiência da migração.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 61 Por fim. family relationships are dynamic and fluid. Sobre essa questão. Na maioria das vezes. .

a convivência entre pessoas de diversas nacionalidades.62 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo uma vez. Possivelmente contribua para isso o atual posicionamento da Espanha como um dos maiores destinos de migrantes na Europa. o que a converte em um contexto nacional onde se potencializa. uma redução “qualitativa” dos amigos a partir do uso dessas ferramentas. uma comunicação não mediada: 18 É importante destacar que a Espanha tem uma constituição histórica híbrida determinada pela própria migração. uma de nossas entrevistadas. vamos para algum lugar. de forma crescente. ainda. Do grupo de entrevistados. Na formação de um vínculo afetivo mais estável. os dados levantados evidenciam uma maior relação dos entrevistados com os poucos amigos no Brasil e com as pessoas na mesma situação migrante na Espanha do que com a população local de espanhóis. o que se reflete na necessidade de hierarquização das amizades em função do tempo dispensado à internet. As conversas tanto formais quanto informais. vamos andar. Porque quando tu tem internet. Porém. conforme o relato dos entrevistados. com a população de espanhóis. privilegiando o contato cotidiano com quem está mais longe fisicamente em detrimento do que estão mais próximos. O que sugere. ocorrem desde uma perspectiva interpessoal não mediada pelas tecnologias. A maior parte dos entrevistados considerou ter maior proximidade com pessoas em situação similar de migração na Espanha. Ocorre também. vamos conhecer um lugar novo. a distância geográfica vivenciada pelos migrantes parece potencializar ou mesmo intensificar usos da internet. a convivência intercultural dos entrevistados merece uma reflexão. o MSN foi o mais lembrado. Quando a gente não tinha. tendo vivido. todos os entrevistados afirmaram se relacionar com a população local. assim. experiências massivas de emigração para outros países da Europa e América Latina.18 Além disso. atribuiu a falta acesso à internet em momentos de sua estadia na Espanha como um dos principais motivos de ter vivido o que podemos definir com uma “migração offline” e assim dispor de mais tempo para conhecer melhor a cidade onde residia e vivenciar. tu acaba ficando mais confortável . certo caráter de distanciamento entre esses migrantes brasileiros entrevistados e os espanhóis. o relacionamento parece ser mais formal. o que pôde ser constatado é que nenhum deles utiliza a internet para se comunicar com a população local. principalmente pelas interações vivenciadas em âmbito online e offline. Na vivência migratória na Espanha. quando existem. incluindo espanhóis e outros migrantes. Combinada com as relações familiares. inclusive. perguntávamos: ‘o que vamos fazer hoje à noite?’ Vamos sair. Joana. Nenhum deles mantem contato apenas com brasileiros.

com/ Main#Community. vários exemplos de associações podem ser encontrados no universo online21. Disponível em: http://www. entre seus organizadores. a própria relevância que tem assumido a internet na dinamização de experiências de caráter coletivo e organizativo dos migrantes. Disponível em: http:// brasilcatalunya. (COGO. E não deixava de ser interessante. os contatos são realizados regularmente por e-mail e telefone: 19 Disponível em <http://asociacioname.orkut.Julho/Dezembro .aspx? cmm=39812805. meio acomodada ali porque tu tinha que fazer aquilo. saúde. . Outra iniciativa similar é a do Coletivo Brasil-Catalunya -. c o m / Main#Community. e ainda a Rede de Brasileiros no Exterior. tais como. poder saber notícias daqui. Por fim. Em outra pesquisa. o que observamos entre a migração brasileira na Espanha. Acesso em 02 dez. participar de encontros de samba. 08 21 A nossa Associaçao esta voltada a passar informaçoes para as pessoas q querem montar seus negocios aqui. já observávamos o quanto.com> Acesso em: 20 nov. NEBE – Núcleo de E n t i d a d e s BrasilEspaña. blogspot. já q temos flexibilidade para todos os temas q vao surgindo das pessoas q entram em contato com a gente.aspx? cmm=46848406. lazer.aspx? cmm=40775085. Disponível em: http://www. onde atua uma de nossas entrevistadas.aspx? cmm=53795918. numa perspectiva de movimentos culturais.Brasil/ España.com/ Main#Community. 2007). o r ku t . a qual estou cadastrada. Associação Hispano Brasileira de Apoio aos Imigrantes em Espanha.2009 Somente no site de relacionamentos Orkut. Costuma organizar reuniões. não foge a certas características organizativas que demarcam a trajetória dos movimentos migratórios transnacionais na atualidade. existem vários exemplos: Associación de Mujeres Empreendedoras. tendo em vista.orkut.Asociación de Mujeres Emprendedoras . Elisa19. blogspot. Fábio lembra que dedica grande parte do seu tempo às atividades da associação. Disponível em: http:// w w w. Os acessos foram realizados em 02 dez. ao mesmo tempo em que realiza contatos regulares por e-mail. Esse é o exemplo da AME . Por ser um dos fundadores do Coletivo Brasil Catalunya.orkut. 08. poder falar com alguém do Brasil.com/. no que se refere ao caráter coletivo que assumem os usos da internet no contexto das redes sociais migrantes.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 63 em casa. em diversos âmbitos. tinha alguém com quem falar. que tem. a qual mantém também uma lista de discussão no Yahoo. se evidenciava a emergência da própria migração como sentido ou posição de pertencimento étnico e/ou cultural em que se ancoram as estratégias comunicativas no contexto das mídias impressas e/ou online produzidas pelos migrantes e suas organizações. porque mesmo fora. Assim como estas duas.com/ Main#Community. 08 20 Fábio é um dos organizadores do Coletivo Brasil Catalunya. outros de nossos entrevistados. Fábio 20. Disponível em: http://www. fazemos eventos e algunas reunioes sobre outros temas também. Associações e coletivos de migrantes têm atuado para suprir espaços não preenchidos pelo poder público na prestação de assistência e orientação aos migrantes. inclusive. Como associação onde atua Eliza ainda não conta com uma sede física própria. O público e o privado .Nº 14 . e que se orienta a incentivar o empreendedorismo de mulheres brasileiras na Espanha. educação (especialmente o aprendizado linguístico) ou ainda no apoio direto à obtenção de trabalho e de regularização jurídica por parte dos migrantes.

ca/~wellman/netlab/PUBLICATIONS/_frames. e a fabricação do “outro” imaginário.chass. WELLMANN. que se combinam com iniciativas offline.64 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Artigo Recebido: 09/09/2009 Aprovado: 20/11/2009 K ey W ords: Words: communication. Daiani L.72la entrevista semiestructurada en línea.. 3. 2006.es/athenea/num3/ardevol. 2003.br.php/relacoesinternacionais/ article/viewFile/282/270> Acesso em: 25 out. Athenea Digital 92. BARTH. 2006.> Acesso em: 25 out. ABSTRA CT : This article looks at internet uses by Brazilian Migrants in Spain (especially ABSTRACT CT: MSN.com. especially regarding so called social uses.. “Estrangeiros”. de 2008. “Imigrados”. internet. imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www. Cambridge hanbook of personal relationships. transnational migrations. et al. 108 f. CAVALCANTI. Being results of empirical research we highlighted two dimensions of social uses of the internet (in the field of transnational migrations) for analysis: (1) the internet as the research objective's enviroment and construction tool using an empirical approach to transnational migrations and (2) the internet as an area for interaction between transnational migrants with respect to Brazilians in Spain and their social networks Referências ARDÈVOL E. A presença brasileira no contexto da imigração na Espanha.pdf. A participação de ambos entrevistados em associações de brasileiros no país de migração evidencia a incidência das práticas online.uab. Monografia (Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo) – Centro de Ciências da Comunicação.br/index. Cambrigde: Cambridge University Press. Jeffrey. Leonardo. nos esforços de organização.midiamigra.publicacoesacademicas. nos sentimentos envolvidos nestes espaços associativos e no empenho no exercício da solidariedade aos migrantes transnacionais.htm Acesso em: 09 abril 2009.uniceub. “Imigrantes”. p.utoronto. Barry. 2006. Skype and chat Uol) by using construction and maintenance knowledge about these social networks. 709-723. Internet. 2008 . Disponível em: http://www. The research is based on qualitative perspectives and is centered on Latin-American reception studies. Etnografia virtualizada : la observación participante y Digital. It is sounded on an Internet ethnography methodological approach. BOASE. Personal relationships: on and off the Internet. (eds). p. social networks. São Leopoldo. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Disponível em: <http://antalya. Disponível em:<http:// www.

Disponível em: <http:// www. por/ n_aab_lec_1. Global Networks 6. São Paulo: Hucitec.php/ fronteiras/article/view/3156>.42/ojs/index. Recepción y usos sociales de los médios. apers: revista de LOZARES. OROZCO GÓMEZ. Cidadania sem fronteiras. De los medios a las mediaciones Gustavo Gilli. 2007. v. Ethnography. Disponível em: http://www. Madrid: Traficantes Sueños. Ações coletivas na era da globalização.73. Virtual Ethnography INSTITUTO Nacional de Estatísticas da Espanha. Raelene.144. Migrações contemporâneas como movimentos sociais: uma análise desde as mídias como instâncias de emergência da cidadania dos ronteiras – Estudos Midiáticos. Blackwell Publishing Ltd & Global Networks Partnership (2006). Acesso em: 09 de abril de 2009. Os estudos de recepção na América Latina: perspectivas nstituto de la ortal de la Comunicación Comunicación. Papers Sociologia. Argentina: Instituto Mexicano para el Desarrollo Comunitário/ Universidad Nacional de La Plata. p. O público e o privado . n. ‘V transnational contexts. London: Sage Publications Ltd. Instituto Portal teórico-metodológicas. 2009.125-142. 1987. Ilse.Nº 14 . Revista Anthropos – Jesus Martín Barbero – Comunicación y culturas em América Latina. P Comunicación (InCOM) de la UAB (Universidade Autônoma de Barcelona). Revista F p. 2008. Guillermo. 1996. Sandro. Disponível em: <http://200. Denise. México/ La Plata.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 65 COGO.asp?id_llico=48. 2008. 1999.64 . SCHERER-WARREN.es/inebase> Acesso em: 25 set.ine.Julho/Dezembro . Denise.portalcomunicacion. 2000. COGO. HINE.com/ . La Teoria de Redes Sociales. p. irtual’ intimacies? Families communicating across ‘Virtual’ WILDING. Mexico: MARTIN-BARBERO. nº 48. Guadalajara.189. La investigación en comunicación desde la perspectiva cualitativa.. 199-202. MEZZADRA.9.Acesso em: 10 de abril de 2009. mediaciones. 219. 1996. Fronteiras migrantes. Jesus. Nilda. 2.2009 . . ciudadanía y globalización. Carlos. São Leopoldo. Christine. 2005. Derecho de fuga: migraciones. JACKS.

orkut.com.aspx?cmm=46848406 http://www.orkut.com/Main#Community.ine.aspx?cmm=40775085 http://www.blogspot.aspx?uid=8975712732970420281 http://www. b b c . u k / p o r t u g u e s e / m u l t i m e d i a / 2 0 0 9 / 0 5 / 090512_abreespanha_video.aspx?cmm=39812805 http://www.shtml http://www.orkut.com/Main#Community. c o .com/Main#Community.es/inebase http://www.orkut.com h t t p : / / w w w.66 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Sites consultados http://brasilcatalunya.orkut.com/Main#Community.br/Profile.aspx?cmm=53795918 .

em ambientes digitais midiático-comunicacionais. das pessoas e grupos que participam de projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. no Agreste da Borborema-PB. midiografia dos telecentros e entrevista em profundidade. mídias digitais. pretendemos fazer o mapeamento das condições tecnológicas em multimídia dos telecentros da região. E-mail: jucianolacerda@yahoo. C ontextualização e problematização Em busca de avançar na produção de conhecimento sobre práticas comunicativas. 1 Uma das contribuições da pesquisa será a . Com isso. sistematizar a produção digital local e comunitária. Palavras-chave: comunicação comunitária em rede. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda* Resumo: Apresentamos neste texto uma proposta de investigação das lógicas. cidadania.br 67 Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB** Communitarian and local communication in network: logics. inclusão digital.Julho/Dezembro .Nº 14 . tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados. a perspectiva da pesquisaparticipante. telecentros comunitários.2009 (**) Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do IX Encontro dos Grupos/Núcleos de Pesquisa em Comunicação. como referencial metodológico. Adotamos. num modelo plural e flexível de webgrafia.com. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes produtores de comunicação e informação local e comunitária. região polarizada por Campina Grande-PB. evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.(*) Juciano de Sousa Lacerda é Professor e pesquisador do Departamento de Comunicação Social da UFRN. usos e apropriações comunitárias e locais das novas tecnologias da comunicação e das mídias digitais. das pessoas e grupos que participam de O público e o privado . pretendemos nesta pesquisa analisar as lógicas. em ambientes digitais midiáticocomunicacionais. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes1 produtores de comunicação e informação local e comunitária.

1998). podemos pensar a ambiência dos telecentros como um lugar de relação entre distintas semiosferas: espaço digital. espaço pessoal e espaço dos objetos técnicos (arquitetônico). por sua vez. MATTELART. desenvolvida por Milton Santos. 2006. o território (pais/estado) e o lugar. a partir das contribuições de Renato Ortiz. que não dá conta dos processos nos ambientes digitais. mesmo. O acesso à tríade computador-telefonia-provedor de acesso não pode ser visto como única política de inclusão digital (SILVEIRA & CASSINO. 1995. manifestas em três totalidades: o mundo. OPPENHEIM. Cicilia Peruzzo. 144). necessitaria tornar-se local para se realizar (PERUZZO. p. de fenômenos sociais agregados. especializações dentro desses espaços. 270). que em nossas pesquisas empíricas temos observado o processo das redes de comunicação digital em telecentros em diversas localidades: Curitiba-PR (2007). com suas gramáticas e modos de organização próprios. no processo de conhecimento mútuo e de inserção em um dado mundo cultural comum. com o paradigma global da Sociedade da Informação (CASTELLS. propõe o caráter relacional do local. 2002. na contigüidade. Nosso primeiro movimento será sistematizar o conceito tendo como ponto de partida proposições de Bruno Latour sobre a ActorNetwork-Theory (ANT) (SEGATA. 269-270). 2008. TREMBLAY. onde fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta. que provocam tanto uma aproximação entre distintos espaços culturais como a produção de distinções. 1998) distintas semiosferas culturais (LOTMAN.68 Juciano de Sousa Lacerda fundamentação teórica e aplicada do conceito de agente. p. Joinville-SC (2008) e. que só existe se visto em relação ao regional. p. 2006). No contexto da comunicação regional e da relação local-global. Desta forma. em que atuam ou se estabelecem fronteiras. até incompreensíveis se as observássemos somente em suas manifestações locais ou regionais. E seriam. 2007. 1996). são três os tipos de solidariedade. ao mesmo tempo em que o global. As redes garantem a realidade empírica do global (mundo). Em nossa visão. 2002. Na perspectiva das redes. baseados num acontecer solidário. pois há sempre o risco de colocar luz sobre a tecnologia de hardwares (equipamentos e estruturas) e softwares (programas) e deixar na sombra as condições humanas e sociais (WARSCHAUER. graças a ocorrência. na região Agreste da Borborema-PB. que não exclui a surpresa (SANTOS. a região de Campina Grande. 2005. a ambiência midiático-comunicacional2 dos telecentros precisa ser compreendia através das práticas locais de inclusão digital relacionadas com o panorama de políticas brasileiras e latino-americanas e. Desta forma. segundo ele. 2002). LATOUR. entre elas as redes de informação e do comércio. a inclusão digital não pode se resumir a conectar pessoas à rede mundial de computadores. nacional ou global. Milton Santos (2002) assevera que “cada vez mais as redes são globais”. Barcelona (Catalunha) (2006). que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo. Cada uma faz parte de um espaço de significação específico. É nessa perspectiva. como forma de avançar na polaridade emissor-receptor. A ambiência é um lugar que põe em relação (BATESON. agora. SCHAFF. na Paraíba. . mas ali se encontram numa fronteira que as põe em O lugar é a terceira totalidade. admite que “estas [redes locais/regionais] são também indispensáveis para entender como trabalham as redes à escala do mundo” (SANTOS. mas ganham uma dimensão única no local. Contudo. autor sobre qual temos nos debruçado no GrupCiber (PPGAS/UFSC). 2003). comprometem as fronteiras/contratos nos territórios. 2 projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. É essa dimensão única que buscamos captar em cada investigação nessas diversas localidades. 2004. no contexto das práticas políticas de inclusão digital.

O aspecto significativo é que o advento das mídias sociais. O uso do editor de textos correspondeu a 97 minutos (1. Ou seja. uma espécie de ecologia em rede (PISCITELLI. O tempo de permanência no Orkut nos três telecentros alcançou 2. e 760 minutos no Telêmaco Borba. compartilham experiências e opiniões no ambiente digital. seja segundo as normas vigentes ou em oposição a elas. Na webgrafia3 realizada durante o doutorado nos telecentros de CuritibaPR. na espacialidade digital dos três telecentros. Esse tipo de interação não acontece dentro das condições de produção tradicionais dos players da mídia impressa e eletrônica. 353). seguido de sites com temas sobre esportes. o que publicam e como se comunicam com outras pessoas em rede.2009 relação: o telecentro como ambiência midiático-comunicacional.409 minutos (42. o que fazem as pessoas e grupos em seu tempo cotidiano dedicado à internet em telecentros de acesso público gratuito? A compreensão dessas diversas singularidades das práticas locais nos possibilitará ir mais além. jogos on line. 4 Registramos 3. 2000). por mais que os gestores afirmem o contrário. meebo. Com o processo de convergência midiática. 11 e 26/10 e 01/11/2007. em que as pessoas se comunicam. 19 e 20/10/ 2007. algo mais que saber local”. O fenômeno também era semelhante em Barcelona (Espanha). nos dias 03. na mídia digital que o hospeda.48%).Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. Também são baixos os índices de leitura de conteúdos produzidos por instituições midiáticas tradicionais reconhecidas como a “velha mídia” (DIZARD. 2008) em termos de por onde navegam. correspondentes a 15 internautas (até 1h por cada um). como afirma Clifford Geertz: “Necessitamos. Telêmaco Borba (Faróis do Saber) e Vila Real (Paranavegar).71%). chat.07%). registramos diversos ambientes específicos ou categorias4 em que navegaram 136 internautas dos telecentros Aristides Vinholes. Abordamos os internautas nos telecentros investigados em Curitiba (LACERDA. no final. era voltado para a conversação digital via orkut.Nº 14 . da maior interatividade e o estabelecimento de uma intensa conversação digital. Estamos diante de um novo sistema midiático que engloba todas as formas de comunicação humana em um formato digital (PAVLIK. E acrescenta: “Precisamos descobrir uma maneira de fazer com que as várias manifestações desse saber se transformem em comentários uma das outras. naquele contexto. como uma semiosfera de intersecção.064 minutos de navegação no Aristides Vinholes. 2005) com forte caráter midiáticocomunicacional. 17. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 69 E no local. . Alejandro Piscitelli (2005) descreve características desse uso em termos de escrever. naquilo que a distingue da mídia tradicional: a possibilidade de o internauta expressar-se. nos dias 04. 2003). 2005).Julho/Dezembro .5 atuam diretamente sobre a lógica sobre O público e o privado .14% do tempo de permanência dos internautas observados na investigação. com proeminência das plataformas de mídias sociais (SPYER. com 54. ler e estudar na rede. Identificamos. acessam informações. 18. correspondente a 57 internautas (até 1h por pessoa). nos dias 13 e 14/10/2007. msn.63%). Os sites de buscas e pesquisas escolares chegaram a 456 minutos (8. 3 Abordaremos a proposta da Webgrafia na estratégia metodológica da pesquisa. em termos de permanência efetiva na espacialidade digital. etc. a internet se tornou uma incubadora de mídias (LEMOS. Paraná. p. softwares gestados para internet. 2001. Definimos como caráter midiático da internet.856 minutos no Vila Real. entretenimento e TV com 1. referentes a 64 internautas (até 30 min por pessoa). 2007). uma iluminando o que outra obscurece” (GEERTZ. o que lêem.553 minutos (27. 5 Identifiquei um amplo uso de ferramentas e interfaces conversacionais na ambiência digital dos telecentros de acesso público gratuito de Curitiba. que as condições tecnológicas dos telecentros não são propícias para se produzir conteúdos que ultrapassem as formas conversacionais. 1.

em grande parte não midiatizadas pelos grandes conglomerados produtores de conteúdo.70 Juciano de Sousa Lacerda a qual os profissionais. Caracterização das terras agrícolas paraibanas. a defesa de programas nacionais de telecentros de caráter governamental. a ampliação da conversação digital em que os participantes do diálogo interativo e produtivo se reconheçam como agentes do processo (para além das trocas textuais e icônicas em ambientes como Orkut. 2004: 53). Identificamos a conversação digital como um tipo de prática significativa em rede que problematiza as lógicas. visual. Esperança. In: ____. a fragilidade de se pensar um ethos midiático centrado na lógica do poder econômico. hipertextual. interação e comunicação local-cidadã. Queimadas. Análise de desempenho das culturas agrícolas da Paraíba . Texto completo em www. em grande parte contrahegemônicas. atencipando. Campina Grande. 2006) em plataformas de mídias sociais (SPYER. 6 É nessa perspectiva que problematizamos a experiência da região Agreste da Borborema-PB. MSN. pois não só reproduz. na fala dos entrevistados. Luiz Gonzaga de. quando possível. Meebo. Os internautas demonstraram a capacidade de reconhecer os problemas e possibilidades da digitalização. como possibilidade de identificar. em que condições o acesso e o uso de tecnologias de produção multimídia em telecentros de acesso público gratuito tornam possível a ampliação da conversação digital em termos de produção. é mister buscar desvendar/desvelar (HEIDEGGER. Lagoa Seca. em telecentros cuja tecnologia não possibilita outras formas de produção de conteúdo. Remígio e Solânea. Puxinanã. de que modos essa produção informativa/expressiva pode ser caracterizada como um tipo de agência cidadã ou contra-hegemônica? Quais as semelhanças e diferenças . 2006.net/libros/ 2006a/lgs. em que os interesses comerciais entram em conflito com os objetivos sociais e cuja contribuição não passa da conectividade e do conhecimento básico de informática. em empresas de mídia. 2005) de interesse/enfoque local ou comunitário (PERUZZO. 2007) da Internet. Pocinhos. Edición electrónica gratuita. correio eletrônico) em condições concretas de produção de informação (multimídia. textual. 2001) os fenômenos comunicacionais e midiáticos. estavam acostumados. 1984. podendo conduzir a uma perspectiva meramente consumista da informação (MENOU et al. A microrregião é composta por 12 municípios: Areial. produtores e produtos de interfaces digitais midiático-comunicacionais. a partir de experiências dos governos municipais e estaduais. A conversação digital é um tipo de agência significativa. TREMBLAY. Montadas. em aúdio ou audiovisual) cidadã ou contrahegemônica (HALL. chats. É importante destacar que o Brasil representou na América Latina. circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário? Em segundo lugar. eumed. mas produz lógicas de sociabilidade.6 em relação às experiências locais anteriormente investigadas. Fagundes. PASQUALI. Ou seja. Portanto. nas cidades em que há telecentros. Fonte: SOUSA. demonstraram. suas tendências. por estabelecer outras lógicas de interação. A dupla postura de fascínio e de crítica às tecnologias e sua relação com as organizações de mídia. Massaranduba. 2005. distintos das iniciativas de parceria público-privadas ou somente privadas.

org. Outros 57 pontos de inclusão digital (PIDs) são atendidos por diversos programas públicos e privados. Fagundes (2). vamos mapear e descrever as lógicas das condições de acesso e uso de tecnologias multimídia em telecentros de acesso público gratuito para produção. Pretendemos na pesquisa caracterizar os produtos e modos de produção informativa/expressiva realizados nos telecentros dos Pontos de Cultura e Casa Brasil do Agreste da Borborema-PB.8 Na região Agreste da Borborema-PB há dois Pontos de Cultura e duas Casa Brasil. sendo 41 deles sediados em escolas públicas de Campina Grande. 73 unidades em funcionamento no país. integrados a projetos culturais locais de maior amplitude. por fim. todos em Campina Grande. são 824 Pontos com apoio de verbas do Ministério da Cultura em todo o Brasil.br/]. cidade de referência do Agreste da Borborema-PB.ipso. com foco na comunidade estudantil. oficialmente reconhecidas. modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados. Acesso em 30/ 03/2009. 7 Percurso da investigação Não há um caminho já traçado entre um acontecimento ou fato concreto – que nos provoca – e sua transformação em objeto estruturado de uma pesquisa científica. em comparação com as demais localidades da microrregião atendidas por projetos de inclusão digital? E.casabrasil.br/ mapa/]. Para isso. vamos avaliar e comparar o modo como as diferenças e semelhanças entre as ambiências de telecentros sediadas em Campina Grande e nos municípios satélites operam significativamente sobre as vivências. Por fim. atualmente. Conferir seção “Unidades” no site do projeto Casa Brasil: [http://www. Hoje. mas como diz o poeta sevilhanoO público e o privado . circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário. Remígio (1) e Solânea (3). 8 . Acesso em 30/ 03/2009. Os outros 16 espaços são abertos para a comunidade em tempo integral e estão distribuídos nos municípios de Campina Grande (9 deles). tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados. Durante a pesquisa empírica do doutorado.2009 Conferir o Mapa das Redes de Pontos de Cultura no endereço eletrônico [http:// mapasdarede.Julho/Dezembro . O caminho se faz ao andar.Nº 14 . não era significativa a presença de telecentros voltados para a produção de conteúdos. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 71 entre a ambiência dos telecentros de acesso público gratuitos em Campina Grande.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. de que modo essas diferenças e semelhanças operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços destes telecentros? As perguntas se justificam pelas mutações do fenômeno dos telecentros nos últimos tempos. coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia tem. segundo dados do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Areial (1). a exemplo dos Pontos de Cultura ou do Casa Brasil. que ainda eram uma promessa. gov.7 O projeto interministerial Casa Brasil.

caminante. apontando o recorte empírico da investigação.paqtc. como “dimensão norteadora”. O recorte empírico dos telecentros do Agreste da Borborema O nosso recorte principal. 2008. no hay camino. “mapa”. que representam o artesanato articulado em torno da fabricação de um objeto de conhecimento. d) e a Casa Brasil UEPB. cuja gestão é da UEPB. definimos como primeira parte do recorte empírico da pesquisa quatro telecentros de Campina Grande-PB: a) o Ponto de Cultura Espaço CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte. ricamente estruturada (BACHELARD.net/ d e s t a q u e / machado. passaremos a detalhar o nosso percurso. Ou poderíamos atribuir metáforas para representar a dimensão metodológica da pesquisa. e nada mais. 121).72 Juciano de Sousa Lacerda madrilenho António Machado: “são teus rastros o caminho”. faz-se caminho ao andar. b) o Ponto de Redes Culturas Populares Empreendedoras . orienta. UFPB e UEPB. Portanto. os aspectos que situam o comunitário e o local como produção informativa. T r a d u ç ã o : “Caminhante. cuja gestão é da Prefeitura Municipal de Campina Grande. nove deles em Campina Grande e 7 em cidades da região. experimentações e procedimentos que vão dando feição ao objeto do conhecimento. “bússola”. definimos outros 16 telecentros do Agreste da Borborema-PB. atendendo aos objetivos da pesquisa. o caminho feito pela pesquisa na transformação de um fenômeno imediato em uma experiência construída. em distintos suportes multimídia. 2006: 125). Completando o recorte empírico.br/redeviva). encaminha os processos de construção da pesquisa. em todos os seus níveis. son tus huellas el camino.esenviseu. que vão se inscrevendo em lógicas atuantes na captura e fabricação pensada deste objeto (BONIN.Rede Viva de Culturas Populares Empreendedoras (www. c) a Casa Brasil Campina Grande. em parceria com a UFCG. operações. o tipo de postura investigativa e as estratégias e critérios de coleta e organização dos dados. Desta forma. 9 . para atender ao objetivo 3 da pesquisa: avaliar e comparar o modo como as “Caminante. Como propõe Jiani Bonin. p.” [ h t t p : / / ocanto.9 Esses rastros são o que poderíamos interpretar em Bachelard como o percurso metodológico. y nada más. é demarcado pelos telecentros de uso comunitário que possuem estrutura tecnológica para produção de informação local e comunitária. coordenado pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba. são teus rastros o caminho. caminhante. se hace camino al andar” .org. não há caminho.htm]. a metodologia pode ser pensada como dimensão que norteia. como instância corporificada em fazeres.

TIN – MDIC. O público e o privado . Pocinhos. Diante disso. Massaranduba.Nº 14 . Fagundes (2) 1 . Queimadas e Esperança.10 contudo no Mapa da Inclusão Digital do IBICT (http://inclusao. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 73 diferenças e semelhanças entre eses telecentros operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados. Programa/projeto GESAC. ainda. TIN – MDIC.Julho/Dezembro .Centro de Serviços Sócio-Educativos e Técnico-científicos para o desenvolvimento Comunitário. Os nove telecentros de Campina Grande são: 1) 31º Batalhão de Infantaria Motorizado. 3 – TIN Solânea. a partir das contribuições no campo da comunicação de Cicilia K. não farão parte da investigação neste momento. Programa/projeto Telecentros Comunitários Banco do Brasil. em Campina Grande outros 41 pontos de inclusão digital (PIDs) localizados em escolas públicas. Montadas. 4) Prefeitura Municipal de Campina Grande. 5) Fundação Sementes da Vida. Remígio (1) TIN Remígio. Programa/projeto GESAC. 7) Casa Brasil Orgulho da Gente (não consta no site do Casa Brasil).ibict. 6) Estação Digital Campina Grande. ficam fora do recorte desta investigação. portanto. Programa/ projeto. Programa/projeto TIN – MDIC. 2) 5ª Delegacia do Serviço Militar da 23ª CSM. 9) TIN Campina Grande/Amde. Há. Fundação Sistêmica-Somos Um.Programa/projeto. 2 – Telecentro Comunitário de Fagundes. Informação comunitária e local: cidadania e disputas hegemônicas 10 Neste segundo movimento de construção do percurso metodológico.2009 São eles Lagoa Seca. Puxinanã. focado justamente nessa característica específica de contexto de uso das tecnologias da informação e da comunicação: atender às escolas como foco principal para o ensinoaprendizagem e à comunidade. Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. nos fins de semana. Programa/projeto TIN – MDIC. Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. Da região Agreste da Borborema fazem parte outros 7 municípios. Programa/projeto GESAC. Programa/projeto TIN . distribuídos nos demais municípios da região Agreste da Borborema-PB são: Areial (1) TIN Areial . pretendemos fazer a distinção entre informação comunitária e local.br/) não há registros da existência de telecentros nestas cidades. . nos interessam para um próximo projeto de investigação. mas. 2 . 3) Telec.MDIC Os outro sete telecentros.Prefeitura Municipal de Fagundes. mas seu principal foco é atender às demandas de ensino-aprendizagem das escolas. Peruzzo (2006).Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. Solânea (3) -1 – Central das Associações Comunitárias de Solânea. por sua representatividade. Muitos deles abrem no fim de semana para o uso comunitário. Programa/projeto Estações Digitais Fundação Banco do Brasil. Programa/projeto: GESAC. Programa/projeto GESAC. 8) TIN Campina Grande.

2006. A ordem dominante ou hegemônica procura então manter seu sistema de valores e significados como válidos. no qual a pessoa se sente inserida e partilha sentidos. 1980). nas palavras de Stuart Hall. aptidões. Há. 2006. resistência. O primeiro movimento é a impossibilidade de delimitar fronteiras totalmente demarcadas entre práticas midiáticas locais e comunitárias. pois não havíamos trabalhado uma definição metodológica clara sobre como classificar os telecentros em locais ou comunitários. podendo representar forças emergentes de produção de informação. cidade etc) ou com segmentos e agrupamentos da sociedade (MARQUES DE MELO. Esse será um avanço em termos das investigações anteriores que realizamos. p.74 Juciano de Sousa Lacerda como recorte do tipo de produção informacional que analisaremos nos telecentros supracitados do Agreste da Borborema-PB. diante das condições locais de produção de informação e as relações de poder que se estabelecem. como “um espaço determinado. recuperação” (HALL. ou seja. . pretendemos considerar os telecentros selecionados para a pesquisa em seu caráter comunitário ou local. social e cultural (HALL. uma vez que é impossível um limite exato entre elas. 143). uma relação de consonância com a estruturas hegemônicas vigentes no mundo político. 2006. 2006. da mesma forma como é problemático estabelecer fronteiras claras entre as espacialidades comunitárias. 2006. cujo enfrentamento se realiza de diversas formas: “incorporação. não bastaria falar de coisas do lugar para um meio de comunicação ser considerado comunitário. No contexto acima apresentado. “Ela pressupõe a existência de elos mais profundos e não meros aglomerados humanos” (PERUZZO. É o espaço que lhe é familiar (. 145).) muito embora as demarcações territoriais não lhe sejam determinantes” (PERUZZO. enquanto permanece a disputa. tipos de públicos. tergiversação. “las rupturas culturales de hoy pueden recuperarse para apoyar el sistema de valores y significados que domine mañana” (1984). objetivos. segundo Peruzzo. a “luta cultural” com outras formas não-hegemônicas.. p. Muitas dessas práticas são contra-hegemônicas. A primeira. 2007). Tomamos aqui duas perspectivas como ponto de partida para essa distinção. p. 1984). interesses. uma tendência de a comunicação midiática local manter-se dentro da “ordem cultural dominante”.. em termos da compreensão do local. até mesmo a intersecção entre essas características. Já a comunidade não pode ser confundida com um território (bairro. Portanto. que serão melhor problematizadas durante o decorrer da pesquisa. PERUZZO. em seus modos de gestão. portanto. é preciso laços fortes entre os participantes em torno de um coletivo capaz de fazer a superação das amarras do individualismo. um lugar específico de uma região. locais e regionais (PERUZZO. negociação. Contudo. PAIVA. 144).

1996). que na perspectiva qualitativa sempre pode ser aperfeiçoado. 132). nossa implicação com o local e risco de tomarmos uma postura O público e o privado . práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 75 Postura investigativa. a necessidade de movimentos táticos no sentido de qualificar ainda mais os instrumentos de pesquisa em função do cotidiano concreto das pessoas que atuam nos telecentros selecionados. pois corre-se o risco de uma aplicação mecânica em campo. Numa observação participante. estratégias e critérios de coleta e organização dos dados O próximo movimento é explicitar o conjunto plurimetodológico de procedimentos que operacionalizamos para o registro. de modo sistemático. em Curitiba-PR (2007). na qual “o investigador social se implica directa y activamente en la vida cotidiana del grupo” (GARCÍA FERRANDO. Entendemos que a perspectiva qualitativa na observação direta e participante não é o lugar da informalidade. p. Desta forma. pois pode se transformar numa receita e perder seu caráter de experimentação (BONIN. em que tudo é válido. 91). que gera uma aparência de segurança. nossa postura é de que a metodologia da pesquisa participante é um artesanato intelectual (MILLS. E para poder identificá-las e interpretá-las é preciso “estar ao mesmo tempo em posição exterior para escutar e ser um participante das conversações naturais onde emergem as significações das rotinas dos participantes” (COULON. 2008). 1996. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania. p.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. pois importaria somente a “qualidade”. Qualidade necessita de disciplina e. as estratégias metodológicas aqui propostas são nosso ponto de partida. p. 1995. SANMARTÍN. Os procedimentos que vamos explicitar foram construídos e aplicados durante a pesquisa de doutorado. também. e depois. “No hay reglas de correspondencia que liguen teoría y objeto de la observación. sino maneras enormemente específicas de conducirse em la interacción social em cuyo seno se va desarrollar la observación participante” (GARCÍA FERRANDO. Temos consciência de que no cotidiano dos usos e apropriações dos telecentros configuram-se lógicas. 1975). 121). capaz de produzir novos conhecimentos no campo.Julho/Dezembro . organização. SANMARTÍN. em 2007. portanto é de experimentação criteriosa na perspectiva da observação direta participante. cabendo. no percurso. mas compromete os resultados (GARCÍA FERRANDO. 1996.Nº 14 . uma construção metodológica nunca está dada ou é definitiva. sistematização da investigação. Contudo.2009 . de flexibilidade. primeiramente de modo exploratório em Barcelona (Catalunha). SANMARTÍN. Na observação direta e participante. No contexto da investigação das práticas comunicacionais e midiáticas nos telecentros no Agreste da Borborema. é importante ter em claro as questões que se quer investigar. Nossa postura. mas o conjunto de procedimentos não precisa estar totalmente definido e fechado de antemão.

GASKELL & ALLUM. A natureza dos processos comunicacionais e midiáticos requer formulações plurimetodológicas no contato com a realidade empírica numa perspectiva investigativa. é preciso ter consciência crítica de si mesmo. midiografia do tempo/espaço dos telecentros e entrevista em profundidade com enfoque na história das práticas e vivências digitais do sujeitos da pesquisa. principalmente quando o comunitário e o local vivenciam as lógicas das tecnologias digitais de comunicação. “Uma cobertura adequada dos acontecimentos sociais exige muito mais métodos e dados: um pluralismo metodológico se origina como uma necessidade metodológica” (BAUER. Na pesquisa .76 Juciano de Sousa Lacerda militante é muito maior do que em outros métodos. classificar ou nos focar em determinados tipos de informação se constituem como “estratégias de navegação”. Diante disso. a partir de suas competências. “Com o fim de controlar o incontrolável. 2003: 18). Esse movimento operativo os torna co-produtores do conhecimento sobre sua própria comunicação e. Do ponto de vista da sistematização dos dados. dessa forma. que denominamos como webgrafia. desenvolvam uma capacidade de reflexividade e relatabilidade sobre suas práticas. partimos da metáfora elaborada por Todd Gitlin (2005) da “correnteza” ou do “dilúvio” midiático que inunda de informações nosso cotidiano. para que tenham um valor de cientificidade. Webgrafia da produção comunitária e local Para desenvolver a Webgrafia como procedimento metodológico. GASKELL & ALLUM. de que não somos “nativos” do grupo. com bom critério podem denominar-se ‘estilos’” (GITLIN. no jogo da observação. como pesquisadores. temos papéis distintos nas atividades cotidianas realizadas no telecentro. precisam de sujeitos que se comuniquem. ainda. O conjunto plurimetodológico de procedimentos está articulado em três eixos relacionados entre si. “definimos nossos favoritos. como o objeto comunicacional nos interpela em seus vários nuances.11 11 “Os processos de comunicação não acontecem por si só. do ponto de vista metodológico. classificamos as partes. Essas atividades de definir. cultivamos estratégias de navegação que. 2003: 138). Mas. registro. Interessa questionarmos sobre. somos vistos. experimentação. mas deve se constituir como imperativo. 2005: 146). “Cada pesquisa empírica demanda a estruturação de instrumentos técnicos de observação. 2003: 24). contribuem ativamente para os estudos ou formulações sobre a Comunicação enquanto lugar de produção de saberes” (LACERDA. quando se consolidam e se tornam habituais. é preciso que estes sujeitos. 2006: 286). mais do que reforçar o imaginário dualista entre perspectiva qualitativa (interpretativa) e quantitativa. Esse pluralismo não se confunde com dispersão ou efeito de cientificidade. nos centramos em determinados segmentos e fazemos o possível para ignorar o restante” (GITLIN. E para reduzir sua enormidade a uma escala humana de convivência cômoda com tanta informação. 2005: 146). teste e sistematização de informações” (MALDONADO. é preciso perceber que não há quantificação sem qualificação ou análise estatística sem interpretação (BAUER.

por parte dos agentes. de conversar que ouvimos na rua. O objetivo é captar nas significações produzidas nas entrevistas se há o reconhecimento. por fim. astúcias. fluxos. sem o registro perdem-se como possibilidade de levar a um raciocínio estruturado.Nº 14 . vivências e percepções dos internautas sobre sua agência produtiva face às ofertas e condições tecnológicas de produção dos telecentros. segundo os autores. E a sensação de poder descartar as não . Para narrar essas comparações e estabelecer um diálogo com os dados escritos. de consumidor a produtor de informações. número. bits e memória (não somente cartões de memória. em função da qualidade de softwares. tomando-as como um caderno de campo digital (ACHUTTI & HASSEN. tipos e configurações de computadores e equipamentos midiáticos acessíveis à população. Falamos em pixels. como ambiência midiática digital. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 77 de doutorado (2004-2008). A partir da construção de um novo instrumento que possa dar conta do registro sistemático das práticas e astúcias dos agentes na produção de informações comunitárias ou locais e de bens culturais. pela descrição detalhada. realizaremos o registro e a descrição do espaço informacional arquitetônico de cada telecentro. 12 Midiografia do espaço/tempo dos telecentros Com o que denominamos de midiografia do espaço/tempo dos telecentros temos como meta caracterizar. As câmeras fotográficas digitais garantiram consideráveis mudanças no trabalho de campo.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. filtros. Wright Mills (1975) indica a produção de um diário como parte do artesanato intelectual. No momento da observação mesma nos telecentros. pelo risco de perder um tempo precioso dos sujeitos da pesquisa ou para a observação. 2004: 278). 13 Entrevistas em Profundidade: histórias das práticas e vivências digitais Para fazer relações necessárias entre práticas. possibilidades e limites técnicos encontrados na espacialidade digital (ciberespaço) dos telecentros investigados. até mesmo sonhos. poder selecioná-las “no lugar” (ACHUTTI & HASSEN. durante a fase das entrevistas em profundidade. trabalharemos principalmente o mapeamento das estratégias de produção. acessos. a qualidade das acomodações. Nesta nova investigação. para chegar aos sentidos que elaboram sobres tais práticas. do sentido de cidadania e de O público e o privado . e. Talvez sua principal diferença em relação à fotografia convencional seja a possibilidade de se poder ver as fotografias “no lugar” e.Julho/Dezembro . dos seus ambientes digitais favoritos.2009 “O filme e a prata não são mais os elementos.12 Compararemos com os registros os tipos de ambiente. ao demorar em avaliando as “melhores” as fotos. mais importante ainda. produziremos imagens com câmera digital. Procuraremos identificar em um questionário pistas sobre hábitos. em intervalos de uma hora. a ambiência midiáticocomunicacional dos espaços dos telecentros. Ao mesmo tempo. práticas. certas impressões ou insights se produzem ou são provocados somente naquele contexto. rotinas.13 C. interdições. isso pode se converter num problema. compreendendo os períodos de sua experiência com a mídia tradicional e as mídias digitais. naquele momento (timing). minuto a minuto. a partir de um mapa em que registrávamos. a partir de anotações em dois tipos de diário de campo: textual e digital. plugins. inclusive para registrar “pensamentos marginais” advindos de pensamentos da vida diária. Como primeiro procedimento. nos limitamos à descrição das estratégias de navegação dos internautas. os ambientes por onde navegavam os internautas. 2004). mas a memória como suporte da identidade individual e coletiva). Esse instrumento foi aliado a um questionário breve sobre as preferências de navegação e sobre as atividades que realizavam no telecentro. optamos no enfoque da entrevista em profundidade pela linha da história das práticas e vivências digitais. estrutura tecnológica.

“confiante e cético em relação à sua experiência” (1975: 213). region polarized for Campina Grande City. distante do calor da hora. digital medias. pode fazer perder imagens que. relacionadas às políticas públicas de inclusão digital. in mediatic-communications digital environments. 2000. teria um valor para a pesquisa ou como registro histórico. de forma que as narrativas possam contemplar os diferentes matizes. no contexto do paradigma da Sociedade da Informação. retomadas. of the people and groups that participate of public and gratuitous projects of digital inclusion. uma vez que se trata uma pesquisa participante. in a plural and flexible model of webgraphy. digital inclusion. ampliar a discussão das políticas públicas de comunicação. ao tomar nota sobre si. esperamos contribuir para o pensamento desenvolvido no campo da comunicação regional em torno do uso das mídias digitais/sociais em práticas de cidadania e da democratização da informação e da produção cultural. com idas e vindas. a partir dos telecentros. a articulação da entrevista em profundidade com o diário de campo textual é fundamental também como espaço de pensarse do pesquisador. mas de médio prazo.14 mas como método inspirador e auto-reflexivo para se pensar e apropriar-se do processo de entrevista em profundidade. b) no âmbito da comunicação regional. mediagraphyof the telecenters and interview in depth. Por fim. We adopt. as methodological referential. paralelo a outros registros etnográficos de imersão na vida da população investigada (GALINDO CÁCERES. the perspective of the research-participant. Principais contríbuições da pesquisa Com os resultados da pesquisa. de capacitação em informática básica) e do lugar onde se localizam (Campina Grande. With this. in the Agreste of the Borborema-PB. Não se trata de uma proposta metodológica de história de vida como concebida strictu sensu e consolidada na etnografia. Com isso. Mesmo se tratando de uma entrevista em profundidade. em vários momentos. Que envolve processos de exploração. Artigo Recebido: 04/08/2009 Aprovado: 10/10/2009 ação contra-hegemônica em suas práticas de produção comunicativa e expressão cultural na Internet. num processo temporal longo e intenso. p. telecenters communitarian experiences that characterize the condition of producing agents of communication and communitarian local information and. a sua “efetivação exige um considerável esforço do pesquisado. cidades periféricas do Agreste da Borborema). we intend to . 1998: 371-375). 15 14 Mills adverte que o pesquisador tem que ser. citizenship. portanto deve ser efetuada quando as condições de amadurecimento da inter-relação pesquisador-pesquisado alcancem um nível bom de produtividade e criação” (MALDONADO. ABSTRA CT : We present in this text a proposal of inquiry of the logics. definiremos um grupo significativo que represente as especificidades encontradas em campo. ao mesmo tempo. A partir do grupo de pessoas que participarem mais ativamente da fase da webgrafia e midiografia. a teorização sobre o local e o comunitário na perspectiva das novas tecnologias da comunicação e mídias digitais. Para fortalecer o aspecto participante. descrição e análise de fundo das histórias de vida.78 Juciano de Sousa Lacerda classificadas. pretendemos fortalecer: a) no campo da comunicação a teorização sobre as plataformas digitais de mídias sociais com enfoque local e comunitário. practical and ABSTRACT CT: K ey W ords: Words: communitarian communication network. em campo. em função das diferentes modalidades de telecentros (de produção de conteúdo multimídia. e essa ambigüidade o mantém vigilante sobre suas próprias práticas de pesquisa de campo. Neste aspecto. 6). a inspiração metodológica de “confiança ambígua”15 nos faz ver o desafio de construir uma relação de intensidade com os entrevistados num período de tempo relativamente curto. de acesso a conteúdos e troca de mensagens. enquanto aplica os procedimentos de pesquisa.

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Nº 14 . permite uma ampla subsunção do trabalho intelectual.br 83 Paradigma digital: capitalismo. E-mail: val. fruto da revolução micro-eletrônica. na base de considerações sobre cultura e esfera pública. além de avançar na discussão sobre a democratização das comunicações. construída pelos principais países capitalistas. na perspectiva da Economia Política da Comunicação.Julho/Dezembro . seguindo a perspectiva de Marx a respeito das duas primeiras revoluções industriais. de maneira que as tecnologias da informação e da comunicação adquirem um protagonismo crucial no processo. I ntrodução A atual reestruturação capitalista.com. Economia Política. que arrasta praticamente o mundo todo na direção de um novo O público e o privado . In: III C O L Ó Q U I O .(*) Valério Cruz Brittos é Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação UNISINOS.1 Por toda parte fala-se de uma sociedade da informação. onde se pode encontrar. E-mail: bolano@ufs. cultura e esfera pública aradigm: Digital P Paradigm: capitalism. Palavras-chave: convergência. Neste texto faz-se a opção de apresentar o estado da arte dos debates sobre internet. regulação. César. culture and public sphere Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño* Resumo: Este artigo condensa uma parte do marco teórico desenvolvido pelos autores para análise da TV digital.bri@terra. paralela a uma intelectualização geral de todos os processos de trabalho. foi formulada inicialmente por BOLAÑO.br César Ricardo Siqueira Bolaño é Professor na UFS e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UnB. de modo que a relação entre trabalho manual e intelectual tende a alterar-se. um exame mais extenso da história do desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil e no mundo. ademais. comunicação. Comunicação e Globalização. convergência e seus impactos sobre a economia das telecomunicações e da televisão. economia política. tecnologia.2009 1 A idéia de subsunção do trabalho intelectual como característica fundamental da terceira revolução industrial. o que está relacionado com transformações profundas no modo de produção.

1999. ante isso.3 Assim. Godefroy. depois na comutação. Rio de Janeiro. Aracaju.fr/biblio/ ecotel. são oferecidas oportunidades de transformação radicais “nos setores fornecedores de meios (telecomunicações. Phan e N’Guyen bem resumiram a problemática.)”.pdf>. levando a sua reestruturação geral. a digitalização da comutação facilita a separação das funções de administração e controle das chamadas e de transporte da informação ou comunicação. abre-se um paradigma novo. Denis. acabando por constituir um novo paradigma tecnológico. 11. como as fibras óticas. op. modificando modos de vida. mais recentemente. Uma análise mais extensa. cit. 1995. n. Disponível em: <http:/ /www-eco. 1995. de teledifusão”. dez. Trabalho intelectual. mas se. p. em condições similares às dele”. com a digitalização da informação. sendo seu ritmo de desenvolvimento dependente do rendimento dos semicondutores. edição escrita e musical etc. Nesta direção. (Org. 3 2 Impactos sobre a economia das telecomunicações No que se refere à economia das telecomunicações – beneficiada também por outras inovações. aprofundando brutalmente a tendência de expansão de uma cultura global. especialmente a radiodifusão e a internet. mas de um canal semáforo específico. O operador que conservar o monopólio em tal caso de prestação. evidenciando o fato de que a constituição do mercado competitivo depende de dois elementos que podem ser tomados como duas condições sine qua non: tecnologia e regulação. N’GUYEN. 1999. “a concepção modular das funções de comutação. N’GUYEN. de modo que.2 BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Godefroy. relações sociais de todo tipo. Economie des Télécommunications et de l’Iternet l’Iternet. com a invenção do transístor. 24. Anais. os satélites ou a telefonia móvel –. se traduziu. a sinalização entre comutadores não é mais efetuada através do próprio canal da conversação. desencadeada em 1948. Acesso em: 14 dez. A revolução da micro-eletrônica. encontra-se em BOLAÑO. . o que permite uma gestão mais econômica das redes. cujo exemplo mais acabado são as indústrias culturais. destacando que. valores. São Paulo: EDUC. 2002.enstbretagne. nos 70 –. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política olítica.. em um processo progressivo de digitalização – primeiro na transmissão. César. nos anos 50 e 60. 24. a separação entre transporte e sinalização podem permitir à concorrência ter acesso aos recursos de rede do operador. tem sua vantagem competitiva reforçada. contrariamente. Aracaju. cujo resultado será diferente em regime de concorrência ou de monopólio. enfim. nas telecomunicações. p..). César. PHAN. Denis. de forma que todo esse processo é traduzível pelo desenvolvimento progressivo de uma convergência funcional “entre as redes informáticas de telecomunicações e. comunicação e capitalismo.84 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño padrão de acumulação de capital. a questão das normas de interconexão torna-se absolutamente central na economia das telecomunicações e toda uma teoria e prática a respeito se desenvolve para embasar as ações das autoridades. considerando as citadas conseqüências mais gerais do fenômeno. for instaurada a disputa entre capitais no setor. por exemplo. 53-78. Texto republicado em BOLAÑO.. “associado às técnicas informáticas que constituem o seu suporte genérico”. informática) ou produtores de conteúdos (audiovisual. PHAN. p. especificamente capitalista. Globalização e Regionalização das Comunicações Comunicações.

quarto maior operador de rede de longa distância. de operação das redes e o protocolo TCP/IP permitem uma gestão completamente descentralizada dos fluxos de informação. N’GUYEN. cultura e esfera pública 85 A digitalização permite. O modo assíncrono. “no caso da oferta global para os grandes clientes multinacionais [.Nº 14 . a comunicação entre computadores através das redes de telecomunicações. sem o qual o promissor comércio eletrônico encontra uma barreira fundamental –. que adotam uma estratégia de nicho. dirigindo-se a um público específico. Aracaju: Editora UFS. BOLAÑO César.. portanto. os usuários podem controlar o valor agregado associado à circulação de informação. Phan e N’Guyen dividem os operadores de telecomunicações em três grupos: os históricos (AT&T. além do fato de funcionar em meio heterogêneo. CASTAÑEDA. por outro lado. Marcos. o principal operador pesado concorrente direto da AT&T. Não interessa entrar aqui nas especificidades da economia da internet.. de inteligência centralizada.4 das telecomunicações ou nos detalhes dos diferentes avanços tecnológicos que vêm sendo introduzidos no setor. vide HERCOVICI. segundo o conceito defendido pelos informáticos. a Telecom USA. oferecendo serviços especializados. Godefroy. dandolhes em certos casos vantagens competitivas importantes. o importante a ressaltar é que o sucesso do protocolo TCP/IP deve-se. op. reduzindo-se os operadores de rede à condição de simples fornecedores de capacidades de transmissão. Alain. extremamente eficaz porque fundado na otimização das filas de espera nos roteadores. em custos de entrada extremamente elevados) e os leves. atrás da AT&T. Com isso. Economia Política da internet internet. as RBOCs norte-americanas e os herdeiros das infra-estruturas dos antigos monopólios públicos da Europa e do resto do mundo).. 2007. 6 No caso da Worldcom. promovendo uma revolução na transmissão de dados. com uma infraestrutura mínima e custos de entrada relativamente baixos. Denis. que já havia adquirido. cujo auge é o desenvolvimento da internet. 5 4 PHAN. cit. com a da MCI. da própria MCI e da Sprint.6 O fato é que essa combinação de uma estrutura de custos vantajosa com uma oferta focalizada tornam muito eficientes os operadores leves. resumir o panorama dos agentes do setor em nível mundial após a reestruturação dos anos 80 e 90 do século XX. um operador leve como Equant . incorrendo. em 1998.Julho/Dezembro . o que reduz enormemente o custo das chamadas. Deixando de lado o problema da segurança que essa gestão descentralizada acarreta – exigindo esforços muito importantes de desenvolvimento de sistemas de codificação.Paradigma digital: capitalismo. . VASCONCELOS Daniel.]. por oposição ao modelo convencional das telecomuicações. precisamente a essa descentralização e à localização da inteligência na periferia da rede. Será útil. ela iniciou suas operações como operador leve e acabou realizando uma série de aquisições que culminaram. podendo ameaçar o negócio tradicional da telefonia vocal assim que as dificuldades técnicas que prejudicam a qualidade desse tipo de comunicação estiverem resolvidas. por pacotes. os pesados (concorrentes diretos dos primeiros em todos os segmentos.5 O caso da norte-americana Worldcom ilustra a possibilidade de passagem da terceira para a segunda categoria através de um movimento de fusão ou aquisição. por outro lado..2009 A esse respeito. mostrou-se mais reativo e competitivo que as mega-alianças O público e o privado . Assim. em 1990.

formada por AT&T. entre Sprint. 8 9 O ponto fraco dessa estratégia de especialização dos operadores leves para ganhar as fatias mais saborosas do mercado dos operadores históricos é que estes podem “identificar mais facilmente a ameaça e ajustar a reação ao segmento de mercado atacado. pois o objetivo é fundamentalmente o de preservar a carteira de grandes clientes. a internacionalização de um operador histórico o levará. KDD e Singapore Telecom. constituindo-se uma espécie de concorrência cruzada. a aliança. uma de internacionalização global. comparativamente com a estratégia dos entrantes pesados.8 Em todo caso.. Comcast e Cox e. ser um entrante pesado no mercado interno do primeiro.. exercendo assim seu papel tradicional de operador dominante em um contexto novo. oferecendo soluções integradas às multinacionais. Ibid. p. chegou a criar. Ibid. uma filial comum. entre Bell South. 81-82. Eles esperam que o operador histórico não procure responder de forma muito bruta a essa entrada massiva.. entrando em mercados externos (através. O mesmo raciocínio pode ser utilizado para o caso da internacionalização dos operadores leves. em 1994. o audiovisual9 ou a internet. p. no mais das vezes. Neste caso. A outra aliança global. de fato. que pode levar a acordos de não beligerância.] custaria ao antigo monopólio uma forte queda dos seus lucros ou uma reação da agência de regulação.. em 1993. vale citar a aquisição. p. ao contrário.. de forma semelhante. numa perspectiva.7 7 Ibid. apesar de uma pressão concorrencial mais forte devido ao papel de challenger que ocupa a filial comum”. Mas este tipo de estratégia internacional das grandes operadoras de telecomunicações acabou não funcionando e as quatro alianças globais se dissolveram – segundo Phan e N’Guyen. basicamente também defensiva. em 1995. p. Phan e N’Guyen definem quatro estratégias adotadas pelos operadores históricos face à nova concorrência: uma defensiva (comercial ou organizacional) sobre o mercado doméstico. uma ofensiva. finalmente. sem questionar necessariamente toda a sua estrutura tarifária”. que tenderiam a investir em empresas congêneres. Ameritech. porque “o poder de mercado dos clientes. por proximidade cultural. 80. e. 80. Alianças multinacionais fundadas sobre a complementaridade dos parceiros. Por outro lado. por exemplo. por sua vez. como no caso das fracassadas alianças globais mencionadas acima. como a telefonia celular. 80. pois uma baixa drástica de todas as tarifas [. Unisource (KPN/Swuisscom/Telia) ou Concert (BT/MCI)”. de internacionalização multi-doméstica. TCI. da aquisição de empresas privatizadas no Terceiro Mundo) para oferecer seu produto tradicional em posição de quasemonopólio. Ibid. de 25% do capital da Time Warner pela US West. que pode. com a Unisource (que adquiriu também parte da Worldpartners). enquanto as dificuldades inter-culturais dos parceiros não tornaram a filial muito reativa”. Worldpartners. que se revela no montante dos investimentos irreversíveis que fazem para a instalação das suas redes. a investir em um operador pesado para afrontar o operador histórico local. uma estratégia de multinacionalização de atividades novas. “funcionam bem.. ameaçada pela ação dos operadores leves. SBC e Disney. a homogeneidade das ofertas e a agressividade dos operadores ‘leves’ desbastaram as margens. a capacidade de resposta do operador histórico aos operadores leves torna-se mais difícil se ele estiver sendo atacado em diferentes frentes. Ibid. a Uniworld.86 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño de operadores históricos que foram Global One (France Télécom/Deutsche Telekom/Sprint). poder-se-iam citar contra-exemplos. Em ambos os casos. os quais: perseguem uma política agressiva. .

com suas variações de vídeo próximo por demanda (near video on demand). Presente y futuro de la television digital digital. discutir a problemática tecno-econômica da televisão. Gaëtan. com diversos graus de “interatividade” e “convergência”. O sistema televisivo a pagamento. 2007. mas não necessariamente condicionadas por eles. In: ______. 24. a partir dos anos 80. aumentando a rentabilidade e a remuneração da produção. In: LACROIX. reduzindo a importância absoluta de indicadores como a maximização e fidelização permanente da audiência. TREMBLAY. p. portanto. que vai da pay TV ou televisão por assinatura.. por fim.). op. Aumenta. São Paulo: Paulus. constituindo-se na “mudança mais importante sem dúvida do audiovisual depois da própria expansão da televisão e o desenvolvimento do vídeo doméstico. ademais. 10 É o surgimento da televisão por assinatura. Madrid: Edipo.Paradigma digital: capitalismo. que permitirá uma mudança econômica e financeira. está a tendência de aproximação da TV ao modelo O público e o privado . telecomunicações e informática. de modalidades de pagamento e estratégias financeiras e mercantis. nos diferentes mercados da chamada convergência entre audiovisual. ao re-introduzir a exclusão pelos preços. como um novo desafio para os atores hegemônicos. 13 12 11 10 Não obstante. encurta o ciclo financeiro da TV convencional. Sainte-Foy: Presses de l’Université du Québec. esfera pública e movimentos estruturantes. neste ponto.13 Entre essas mudanças. A televisão brasileira na era digital digital: exclusão. Jean-Guy. Torna-se interessante. MONZONCILLO. La televisión digital: referencias básicas. Valério. 1995.). revolucionada efetivamente com a introdução dos sistemas pagos. estas características genéricas hão de matizar-se seriamente em uma escala de transformações. 21-32. Categorias claramente econômicas. situando a TV digital no interior da linha evolutiva da indústria do audiovisual. possibilitadas certamente pelas tecnologias e os suportes. BRITTOS. Enrique. nos EUA. à televisão “interativa” ou o vídeo por demanda. . BUSTAMANTE. segundo Bustamante. passando pela pay per view ou televisão de produto. p. capaz de provocar profundas alterações na relação entre oferta e demanda. José María Álvarez (Orgs.2009 BUSTAMANTE. com notáveis conseqüências sobre a economia do audiovisual”. à semelhança da internet. cultura e esfera pública 87 Incidências sobre a economia da televisão A TV digital terrestre se apresenta. nos anos 70 (excetuando-se experiências pouco exitosas anteriores) e na Europa e no resto do mundo. portanto. com uma retração da lógica publicitária da velha TV aberta. o que leva a uma maior estabilidade da indústria audiovisual. Enrique. p. TREMBLAY. La théorie des industries culturelles face aux progrès de la numérisation et de la convergence.Nº 14 . César.11 A pay TV – o modelo convencional da televisão segmentada conhecido – introduz pela primeira vez no televisual uma lógica de club. a capacidade de escolha do telespectadorcliente e a especialização do consumo. de uma transformação profunda na esfera econômica apenas “muito relativamente” relacionada com a inovação tecnológica: Ver BOLAÑO. Gaëtan (Orgs. 1999. Trata-se. 25. cit.Julho/Dezembro .12 ou de distinção. Les autoroutes de l’information l’information: un produit de la convergence.

ZALLO. se re-transmite um filme de êxito a cada dez minutos. o near video on demand é uma técnica de programação de menor caráter interativo. – as possibilidades de convergência e de desenvolvimento da multimídia.. Ramon. da BUSTAMANTE. de forma que uma quantidade limitada de produtos sempre está começando.88 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño HUET. o consumidor deve previamente já ser assinante de um dos pacotes disponibilizados pela operadora. a situação histórica de desenvolvimento da regulação e das infra-estruturas nacionais de transmissão. Alain.16 cujo impacto sobre o consumo e a economia do audiovisual ainda não se verificou. p. René. aprofundando tendências já existentes. vantagens de precedência etc. apesar de permitir. segundo os diferentes suportes. 26. a pay TV constitui uma transição em direção a um modelo “abstrato e perfeito” de vídeo-serviços. Economia da cultura e da comunicação comunicação. Enrique. intérprete. e ainda que os produtos isolados sigam situados no tempo constrangendo o consumo do espectador. L’ i n d u s t r i a l i s a t i o n de l’áudiovisuel l’áudiovisuel: des programmes pour les nouveaux médias. Paris: Aubier. este consegue uma maior responsabilidade na auto-programação e paga já pelo conteúdo (ou o tempo) que consome. HERSCOVICI. inclusive no Brasil. ao reduzir os custos de transmissão e permitir uma oferta maior de canais e serviços e uma maior fragmentação do consumo. ION. Em todo caso.17 ainda não permite ao telespectador uma resposta à seleção simultânea e no mesmo suporte: Na pay per view a programação foi eliminada como macromontagem de programas. MIÈGE.18 A digitalização é uma inovação técnica que amplia – de forma assimétrica. 24. que é a parte básica do funcionamento e da oferta da televisão interativa. Economía de la Comunicación y la Cultura Cultura. uma recepção muito rápida do programa escolhido.. . PERON. cada um em um horário diferente. 16 Para adquirir essas atrações em separado. mas não sem um processo anterior de desregulamentação. vídeo por demanda) – um serviço interativo em alto grau. ao decidir. que utiliza vários canais para distribuir um mesmo filme. Crenoble: PUG. e a contra-programação não é possível. o qual. Madrid: Akal. mas o emissor elege ainda os programas e seleciona os de êxito majoritário para uma difusão de maior periodicidade. cit. 1995. determina o horário específico para receber a atração –. Bernard. agrupados a partir de informações como título. como filme. Bernard.14 Não obstante. 1986. ligado a estratégias econômicas e políticas globais. evento ou temporada de um acontecimento (um torneio esportivo. Armel. no qual filmes digitalizados. Com a televisão digital e o sistema de video on demand (VOD. em curtos intervalos de tempo. 17 Mais difundido. esporte. Jean-Michel. com forte apelo de venda. vídeo próximo por demanda). por exemplo) –. há uma reviravolta completa do velho paradigma da cultura de onda. de Almeida. por um produto isolado que tem seu preço específico. gênero. Capitalisme et I n d u s t r i e s C u l t u r e l l e s . 18 Ibid. pagar para ver) –15 um sistema de oferta de conteúdo audiovisual por produto específico. Alain. segundo a classificação amplamente aceita pela Economia da Comunicação e da Cultura. Jacques. 1978. 15 14 editorial de organização das indústrias culturais. Esse sistema. SALAÜN. UFES. op. diretor e sinopse. em alguns casos. PAJON. no chamado near video on demand (NVOD. 1988. prenunciado pelos modelos de pay per view (PPV. p. com o assinante pagando por escolha. Patrick. LEFEBVRE. MIÈGE. Vitória: Fundação Ceciliano A. mas aproximado. como quando. são colocados à escolha do cliente.

naturalmente dominado por “poucos grupos gigantescos (Time-Warner-Turner. e uma brutal concentração. com garantia. fazendo abstração dos debates clássicos sobre serviço público e universalização. juntamente com “a capacidade de sua ‘edição’ em pacotes segmentados para os diversos mercados.21 A importância dos conteúdos citados. em segundo lugar. Murdoch. vídeojogos. p. garantindo um máximo de pluralismo e a viabilização econômica e sociológica das mensagens inovadoras e minoritárias.2009 19 20 21 22 Ibid.Julho/Dezembro . 30. o setor será. a espetacularização e a comercialização. 28. que marcam. que chegaria. mas isto implica um amplo conhecimento do mercado (carteira de clientes) e um saber fazer notável no marketing”. a se constituir segundo um modelo editorial puro. entretanto. Disney. Ibid. Ibid. faz aumentar “geometricamente seu valor estratégico revelando o crasso erro de quem se preocupa unicamente com as redes e as infraestruturas”. ao menos teoricamente. p.20 Como o controle simultâneo desses elementos básicos supõe investimentos milionários e riscos enormes. Na prática. Mesmo reconhecendo a dificuldade em se fazer generalizações a partir dessas experiências ainda amplamente minoritárias no panorama televisivo mundial. de redes de cabo potentes ou de abundantes concessões hertzianas).Paradigma digital: capitalismo. cultura e esfera pública 89 televisão convencional. marcado pela consolidação da TV segmentada convencional. tele-compras). da presença de canais indispensáveis. p. a conversão de uma economia de oferta em outra regida pela demanda. Do ponto de vista da estrutura empresarial. que se orientam prioritariamente para a função divertimento. Kirch. 30. p. 30. centralização e transnacionalização do capital...Nº 14 . disponíveis através de transponders múltiplos no satélite.22 O público e o privado . o dos chamados vídeo-serviços. em segundo lugar. Bertelsmann. foi observada nas experiências já em curso a onipresença de determinado tipo de conteúdos. a concorrência está centrada no “controle de uma sólida e atrativa carteira de direitos de programas em gêneros” bastante específicos. .19 de modo que se renovaria a liberdade de criação e expressão.. chave para a amortização dos investimentos a curto e médio prazo (filmes. assim. esportes de massa. que compete ainda com a velha televisão de massa. colocando dúvidas sobre a transparência e o pluralismo que o novo sistema poderia ensejar. definitivamente.. o sistema audiovisual digital segue quatro tendências observáveis. em que a maior proximidade entre emissor e receptor e a cessão da função de programação para este último estariam ligadas à “restituição da proporcionalidade entre consumo e remuneração do audiovisual com o reequilíbrio conseguinte da economia do audiovisual em benefício da produção”. previamente dispondo. como esportes de massas e filmes-acontecimento. Ibid. Canal Plus-Nethold) que tendem a concentrar-se mais fortemente mediante fusões ou alianças intra ou intercontinentais (como Sky ou Galaxy na América Latina)”.

p. trata-se de uma vitória da comunicação de massa sobre a comunicação interativa ou individual. José María Álvarez (Orgs. La televisión del siglo XXI: será o no será! In: BUSTAMANTE. E n r i q u e .). a experiência mostra que a pura e simples substituição do financiamento publicitário pelo pagamento direto por parte do usuário não passa de um mito. Em todo o caso. vide LAFRANCE. p. Jean Paul. com a publicidade adequando-se aos mercados hiper-segmentados. aumento da integração vertical entre difusão e produção etc. In: BUSTAMANTE. MONZONCILLO. Nicholas. sempre que a legislação nacional e os recursos permitam. .). José María Álvarez (Orgs. da Intel). p. inflação de custos. Problematizando a convergência As características da economia da comunicação convencional. MONZONCILLO. Madrid: Edipo.90 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño implicando em elevação de preços. Estrutura da economia dos meios Variáveis Tecnologia de produção Essa integração pode se dar através do aparelho de TV (WebTV) ou do computador (como no projeto Intercast. As experiências de integração entre televisão e internet23 são uma tendência efetiva. O normal é uma mistura dessas duas formas de financiamento. são sumarizadas no quadro 1. 297-314. 23 Imprensa Imprensa Papel Editor Estrada Trem Filme Película Câmera Película Produtor Projetor Disco Rádio/TV Telecomunicações Telefone Cabo de cobre PTT Rede Aparelhagem Câmera de de gravação gravação DiscoVinil Fita Editor Estrada Trem Nenhuma Nenhuma Ondas Difusor Suporte de transmissão Sistema de produção Tecnologia de distribuição Emissor/ Receptor Regulador Serviço público Regulação Concorrência Autorização Liberdade Ideologia Cultura de imprensa nacional Regulador Serviço universal Fonte: GARNHAM. Presente y futuro de la television digital digital. Finalmente. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. 283-295. as novas redes digitalizadas podem transportar tanto sinais de TV como outros serviços de telecomunicações. dados os interesses convergentes dos diferentes agentes principais envolvidos. Enrique. Presente y futuro de la television digital digital. 1999. indústria eletro-eletrônica. reforço da posição dos intermediários de direitos. operadores de telecomunicações e redes de televisão. Madrid: Edipo. 300. amplamente conhecida no campo. A esse respeito. as empresas do setor são levadas a abarcar as diferentes possibilidades. 1999. Q uadro 1. Em terceiro. informáticos.

Nº 14 . 2) desenvolvimento de produtos multimídia ou convergência de novas formas de meios de comunicação (armazenamento controlado por computador. de fazer uma clara distinção entre os meios e seus respectivos mercados. ao financiamento público ou ao controle dos dados sobre os consumidores.25 O público e o privado . José María Álvarez. as conseqüências do tele-trabalho podem ser o problema e Microsoft. o principal agente global”. as barreiras técnicas entre essas indústrias”. 5) convergência de mercados domésticos e comerciais – neste caso. manipulação e visualização de combinações de texto. p. . 301. Madrid: Edipo. nova concorrência inter-setorial. banda larga e comutado). El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación.2009 GARNHAM. p. até os canais de distribuição. 3) convergência dos modos de consumo dos meios (entre os de sentido único e os interativos.).. In: BUSTAMANTE. fundada puramente na tecnologia. o que põe em relevo as questões relativas ao controle do acesso. comutados e não comutados). novos meios. desde a produção e a definição dos gêneros. o que se vê embaralhado com as novas possibilidades de convergência. tornando possível a entrada de novos agentes em cada setor. No caso da regulamentação. aos direitos de autor e ao desenvolvimento de novos gêneros midiáticos. “a penetração do computador pessoal pode ser o estímulo tecnológico. 1999. 25 24 Ibid.24 Isto repercute em todos os níveis do sistema. Nicholas. MONZONCILLO. sons e imagens móveis e fixas) – neste caso. Presente y futuro de la television digital digital. o que envolve “o conflito entre o operador de telecomunicações e os modelos informáticos de desenho e controle da rede e a concorrência entre operador de telecomunicações. Quanto ao concernente à convergência. (Orgs.Paradigma digital: capitalismo. as questões centrais são aquelas ligadas à convergência entre o audiovisual e as indústrias editoriais. internet pode ser o modelo do futuro. exigindo inclusive mudanças na legislação. ao menos potencialmente. à publicidade. 4) convergência dos modos de financiamento no sentido do pagamento pelo usuário por acesso.Julho/Dezembro . E n r i q u e . 297-314. companhias de cabo e difusores pelo controle do acesso às residências e às empresas”. os modos de consumo e os mercados. as normas sobre propriedade cruzada de meios de comunicação dependem da possibilidade. por exemplo. p. Garnham distingue entre: 1) Convergência de rede ou de canais técnicos de distribuição (num sistema comum de cabo digital. cultura e esfera pública 91 Segundo Garnham. 301. “a incidência da digitalização neste sistema de meios de comunicação herdados vai romper.

sem a qual. esse cenário ampliaria a capacidade de escolha do usuário e a diversidade. tornando-se um exemplo de natureza híbrida e não propriamente de convergência de redes ou de indústrias. não obstante. numa perspectiva pessimista. as redes de telecomunicações se transformaram em extensos sistemas informáticos de distribuição. Ibid. Numa visão otimista.92 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Cada um desses processos seguirá sendo diferente. devido a sua maior capacidade financeira. mas fornecidos em redes competidoras. enquanto que. a vantagem seria dos operadores de telecomunicações. É possível.. “alcançar o desenvolvimento de um grande mercado para os produtos e os serviços multimídia. Mas importantes barreiras tecnológicas ainda impedem uma convergência uniforme: 26 27 28 Ibid. se verão aptos a oferecer serviços de telefonia comutada a seus clientes – pelo controle do enlace fixo local que provavelmente continuará tendo características de monopólio natural. . Paralelamente. que utiliza efetivamente a rede de telecomunicações. mas permitirá ainda a oferta de uma série de novos serviços interativos de entretenimento e informação – vídeo-jogos. isso poderia incrementar o controle monopolista da informação. Ibid. e cresceu a partir de uma cultura informática e não de telecomunicações”. 70 e 80 fracassaram as tentativas de integração de redes. tele-compras e outros sequer imaginados que substituirão possivelmente os serviços tradicionais de sentido único por serviços interativos. não convergentes ou. de fato. o que sugere prudência na análise das promessas atuais. Garnham se refere à internet. pagos pelo usuário em função do uso efetivo. lembrando que. o que levará.28 O resultado dependerá em grande parte da ação das entidades de regulação. por sua vez. todos eles. não apenas à distribuição de todos os serviços de tele-difusão e telecomunicação através da mesma rede. em um terminal informático multimídia. se bem que. p. a fragmentação social e a decadência da esfera pública. nos próximos 10 anos. uma rede convergente monopolística que ofereça uma série de formas de meios de comunicação não convergentes”. O primeiro argumento de Garnham para demonstrar o irrealismo desse cenário é de ordem técnica: o autor parte do pressuposto de que. em alguns casos. o isolamento. enquanto reconhece continuar a telefonia vocal sendo o motor do sistema.26 Nos anos 60. por exemplo. fora do controle dos operadores de telecomunicações. p. se incrementará a concorrência entre operadores de telecomunicações – que poderão oferecer vídeo – e de tele-distribuição – que. ela se baseia principalmente “na capacidade informática instalada.. de forma alternativa. 301. 304.27 O cenário da convergência comumente apresentado é assim resumido: uma rede de banda larga comutada oferecendo todos os serviços eletrônicos para os lares e empresas.

O público e o privado . reduzindo o problema da escassez de freqüências e barateando esse tipo de transmissão. não a transmissão. por outro lado.29 Em segundo lugar. Com a queda progressiva dos custos de transmissão em relação aos custos de prestação de um serviço.30 o que vem sendo procurado através da oferta de video a la carte pelos operadores de telecomunicações que entram no mercado audiovisual. 306. os editores de tele-vendas. p. “Certamente.Paradigma digital: capitalismo. de modo que não se deve esperar que um canal de distribuição venha a dominar o mercado. Não há dúvida de que dito crescimento se verá freado quando os usuários tiverem que pagar. seguem sendo o principal elemento de custo na implantação de uma rede. o elemento determinante da estrutura de mercado de uma rede em convergência dificilmente seria dado por vantagens de custo na rede. o problema para os operadores de telecomunicações consiste em contar com serviços que gerem ingressos suficientes para explicar os custos de melhora das prestações da rede.. se se amplia a interatividade da internet em banda larga. 305. Não obstante. a manterá. cultura e esfera pública 93 Não está claro que tenha sentido fundir redes desenhadas em grande medida para o oferecimento de serviços de televisão em sentido único com redes desenhadas para otimizar a oferta de serviços de banda estreita. A digitalização da transmissão hertziana.2009 29 30 Ibid. Para justificar as conexões domésticas à banda larga é preciso dispor de um fluxo de ingressos notável”.. os fabricantes de vídeo-jogos. nem as instalações de comutação. as emissoras. mesmo que os problemas técnicos sejam resolvidos.Julho/Dezembro . como a forma de maior eficiência de custos para se atingir audiências economicamente viáveis. especialmente de um serviço audiovisual. num futuro previsível.Nº 14 . . as barreiras econômicas à convergência continuam sendo notáveis. comutados e de ida e volta. quanto à capacidade de comutação atual. p. Seu rápido crescimento já está dando lugar a problemas de capacidade. O software que se precisa para dita comutação é de tal complexidade que nada se sabe ainda sobre se pode fazer funcionar com a confiança que requer uma rede de telecomunicações pública. Os exemplos de convergência existentes são basicamente exemplos de condução compartilhada. Ibid. entra-se no campo do desconhecido. dado que a engenharia civil. dando crescente vantagem competitiva para as empresas cinematográficas. O poder econômico se desloca cada vez mais da distribuição – que pode encontrar sempre mecanismos alternativos – para o controle da propriedade intelectual.

Mas em realidade só uma parte desses recursos iria para o operador da rede e a maior parte iria. basicamente dirigidos a empresas clientes. baseados na infra-estrutura técnica e do parque de computadores pessoais nos mercados profissionais e de teletrabalho. este é muito sensível ao preço e se vê muito limitado pela renda disponível. como agora. Ibid. Estes serviços competirão pelo mercado tanto com as lojas de vídeo como com outros canais de cinema por assinatura”. Implica a criação constante de novos protótipos e a venda dos mesmos em um mercado doméstico muito incerto. Ao mesmo tempo. neste caso. mesmo “que este mercado se desloque totalmente à rede dos operadores de telecomunicações. O mercado audiovisual é bastante distinto. sobre a base de cálculos de probabilidades e economias de escala.33 Regulação e poder global A estes três tipos de barreiras soma-se aquela relativa ao problema da regulação. as pautas de inversão. aos titulares de direitos. garantindo uma estrita separação entre suporte e conteúdo (à qual se oporão os operadores de rede).94 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 31 32 Ibid. O mais provável é o desenvolvimento de novos produtos e serviços multimídia “a partir de indústrias especializadas do software informático e de edição. o controle dos direitos e marketing”.. é preciso reforçar os meios para contra-restar a tendência ao aumento da concentração do controle dos conteúdos (contra. 306. no sentido da melhoria da qualidade de vida e da eficácia dos sistemas de saúde. são muito distintas das que distinguem o mercado do entretenimento doméstico e da infor- Se for verdade que o consumo doméstico de vídeo nos EUA demonstra a existência de um mercado potencial importante para tal. os interesses dos titulares de direitos) e dirigir esforços no sentido de garantir o uso social das tecnologias da informação e da comunicação. p. p. 307. que envolve uma contradição básica entre a pressão por flexibilizar as normas de propriedade cruzada dos meios de comunicação34 e aquela para incrementar o nível da concorrência na produção de programas. Assim. ou reforçar-se no caso da telefonia fixa local –. a importância da confiança do serviço em comparação com o próprio preço). Ibid. as prestações exigidas etc.. protegendo e ampliando a diversidade informativa e cultural. manejando. participação política . é completamente marginal em comparação com os ingressos da telefonia. os fluxos de quantidades de bits não diferenciados e faturando ditos serviços. de maneira que. “Os operadores de telecomunicações estão acostumados a tratar com a venda de uma série reduzida de serviços normalizados.. que busque otimizar tanto o desenvolvimento como o acesso às redes – cujas características de monopólio natural tendem a manter-se.31 Uma terceira barreira para a convergência estaria no “tremendo abismo existente entre as culturas dos operadores de telecomunicações e o setor de programas audiovisuais”. o consumo médio atual de cinema por esse meio nos domicílios assinantes (um filme por ano) é desalentador. educação. Isto remete à necessidade de uma regulação forte.. em um mercado cuja elasticidade de preços não é muito elevada. É provável que tenham uma incidência mínima nas telecomunicações existentes ou nas indústrias de programação audiovisual”. acompanhada de uma política de serviço universal clara.32 Esta particularidade torna difícil combinar as habilidades distintas de uns e outros e associar as estruturas adequadas dentro de uma mesma organização corporativa. 307 Essas diferenças se vêm reforçadas pelos diferentes mercados dos quais as indústrias dependem: “a relação entre comprador e vendedor no mercado de empresas ao qual se dirigem em grande medida as telecomunicações (por exemplo. economicamente avançada e sustentável. p. Os problemas consistem na coordenação de uma mão de obra criativa.

. O problema de criar uma estrutura corporativa viável que sirva para ambos mercados com a mesma eficácia pode muito bem resultar insuperável”. visando a injeção de capital estrangeiro. que impeça as empresas de imprensa produzir películas e programas de televisão. não deveria permitir-se utilizar a chegada do multimídia.. Portugal e Brasil. 307 33 34 Ibid. O objetivo maior parece ter sido colocar uma operação rápida em movimento acerca do tema “sociedade da informação”. as regras que limitam a propriedade transversal dos meios não impedem a criação de projetos multimídia. O significado desse movimento para a reestruturação das relações de hegemonia no setor de telecomunicações foi apresentado de forma cristalina pelos autores do O público e o privado .] Acertadamente (para o contexto americano). p.. o programa será comandado pelos ministérios respectivos ligados à área econômica.. quando os EUA passaram a pressionar o resto do mundo para a abertura dos mercados nacionais de telecomunicações.2009 Vale citar a defesa que o autor faz da necessidade de se manter os mecanismos que impedem a propriedade transversal de meios. França e Japão. Mais recentemente. Não se romperão se se deixa o desenvolvimento exclusivamente em mãos do mercado que parcialmente as criou. sociais e políticas e estão profundamente arraigadas. 307 No caso dos EUA. claramente o foco das ações na fase de decolagem da NII [.Nº 14 ... só põem fronteiras ao poder oligopolista sobre canais de distribuição normalmente competitivos. Ibid. Não há nada.Paradigma digital: capitalismo. cultura e esfera pública 95 etc. Por outro lado. conseguir economias de escala e de envergadura [. por exemplo. deixou-se a prototipagem de aplicações para a livre iniciativa de pesquisadores e empreendedores.] Por uma parte.. por exemplo: mação. como sabemos. com o projeto Global Information Infra-structure (GII). na área de infra-estruturas.36 Essa estratégia nacional.] sem maior preocupação com a qualidade de pesquisa. o que reforça a tendência instaurada em 1984. difusão etc. questionados sobre a base de uma perigosa confusão entre multimeios e trans-meios por parte dos defensores de empresas que “são já trans-mídia no sentido de que exercem sua atividade em diversos meios. na Europa. a tecnologia em si mesma tem pouco que oferecer [. o que.] com gerações anteriores da tecnologia..35 Pois a digitalização é um dos sustentáculos da retomada da hegemonia norteamericana.. enquanto cada país buscaria uma estratégia própria no nível da infra-estrutura. que leva todos os países do mundo a implantar ambiciosos e caros programas de reestruturação das suas infra-estruturas nacionais de comunicação. Pretendem que esta integração horizontal lhes permita.. Em minha opinião. o bloco pôs prioridade em aplicações [. A hegemonia norte-americana na área traduz-se nas diferentes ênfases que os programas terão naquele país e na União Européia. na aceleração do processo de privatização de empresas de telecomunicações. enquanto que na Espanha. de tal sorte que aplicações (e temas associados. a iniciativa será encabeçada pelos Ministérios de Ciência e Tecnologia. Nos EUA. p. Canadá. tais como legislação. só existe um controle sobre os canais de distribuição hertziana.] foi em infra-estrutura [.Julho/Dezembro .. traduzir-se-á. por exemplo. a tendência é ainda mais clara [. as vantagens econômicas dessas sinergias estão longe de serem demonstradas..) fossem tratados em nível de bloco. Em curto prazo.. .. não depende da tecnologia: muitas dessas melhoras prometidas poderiam ter sido postas em prática faz anos [... através de sinergias.] No caso da União Européia..] As barreiras são econômicas.

Quadro 2.993 592 337 255 -4. como argumento contra a pluralidade desejável das fontes de informação e diversão”. 35 36 Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil. . Já no caso da União Européia.416 Ibid. op.070 2. ainda que a ênfase permaneça nas aplicações. Ibid.744 1997 5. p. entre as principais motivações que levaram a União Européia a recomendar a privatização de empresas estatais da área em seus países membros. Na área de telecomunicações. Acesso em: 20 maio 2003. na origem. tal diretriz foi colocada em prioridade secundária.357 3. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOerde LOGIA. desde 1992 e. 37 Uma das principais diretrizes que nortearam tanto a política de telecomunicações como a de informática no Brasil. referente a incentivos à informática –. 95. 94.pdf no Brasil >. “o esforço foi estruturado na origem. a iniciativa foi estruturada. cit. de 23 de outubro de 1991. m c t .37 No caso do Brasil. Disponível em : <http://www. a partir de 1997. foi a ênfase em domínio tecnológico e na produção de equipamentos e software no país.662 1. Disponível em: <http:/ / w w w. Tal necessidade está.br/Temas/Socinfo/Livro_Verde/ca03..287 553 329 224 -4. desde pelo menos a década de 70.] dentro do qual há um componente de P&D e de infra-estrutura de redes para educação e pesquisa”.gov.248.. os autores do Livro Verde brasileiro consideram “bastante provável que qualidade de P&D nos temas selecionados tenha critérios mais rígidos agora do que no quadriênio 1994/98.008 3. sobretudo. Informática e telecomunicações Brasil. 2004. 313.464 383 289 93 -3. Acesso em: 5 out. Fonte: MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Em todo caso. Brasil: Balança comercial – informática e telecomunicações (em US$ milhões) Variáveis Importações Computadores e periféricos Telecomunicações Exportações Computadores e periféricos Telecomunicações Déficit 1996 4. p..126 2. No primeiro caso. 314. p.96 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño em suas diversas modalidades.. p. como demonstra o quadro 2.mct..br>. o documento defende a geração de tecnologias locais – apoiando explicitamente a Lei 8. quando a iniciativa européia decolou”. Ibid. os modelos adotados em relação à P&D variam entre os EUA e a UE. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA.. como um mega-programa de ações políticas [. por exemplo. como um mega-programa de pesquisa dentro do qual se inseriu um componente de articulação de aplicações e de difusão para o setor privado/ governamental.015 1. 94. não somente no Brasil como em todo o mundo. 109.. devido à necessidade de acelerar ações de países rumo à sociedade da informação através da desregulamentação e liberalização dos mercados de telecomunicações. ao longo da década de 90. g o v. p.804 1998 5. p. tendo em vista a contínua e progressiva deterioração da balança comercial do setor. ao analisar a política brasileira de telecomunicações e informática: Ibid. Livro V Verde da Sociedade da Informação no Brasil Brasil. No programa 1999/2002 da União Européia.

o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação se insere na sociedade de modo determinado historicamente. cada vez mais. n. Na nova esfera pública que emerge na confluência entre reorganização do capitalismo. mudanças no processo inovativo. La génesis de la esfera publica global. Caracas.Julho/Dezembro . p. O público e o privado . cultura e esfera pública 97 A própria expansão do uso das tecnologias da informação e da comunicação no país tende a agravar ainda mais essa situação. são limitados pela força e controle dos capitais. mas principalmente pela definição das políticas nacionais de comunicação. incorporando as contradições inerentes à esfera pública burguesa. Nueva Sociedad Sociedad. esfera pública e mudança social As mudanças estruturais do capitalismo iniciadas no final do século XX referem-se ao conjunto da sociedade global. Os elementos potencialmente contrários à lógica capitalista. ainda que problemática divulgação de idéias não-hegemônicas. É nesse processo contraditório que se situam as alternativas democráticas de uma comunicação popular organizada a partir dos movimentos sociais. sendo pautada. em especial no campo das comunicações.. 88-95. da pluralidade no tratamento da informação. Tecnologia. refletindo-se também nos movimentos dos agentes não-hegemônicos. onde a mídia em geral – afetada profundamente em seu trabalho e em seus negócios pela introdução do paradigma da digitalização – exerce um importante papel. César. . 110. e a conseqüente criação de um ambiente propício à inovação.2009 38 39 Ibid. não se limitando à economia e à política. pelo princípio econômico da exclusão pelos preços. que apontam para a possibilidade de práticas de comunicação mais democráticas. articulação dos movimentos sociais em redes virtuais. 1997. envolvendo o desenvolvimento de elementos que poderão ser importantes para um pleno exercício da cidadania. como o aperfeiçoamento de certas tecnologias educacionais.Nº 14 . por outro lado.38 as quais levariam. a conseqüente. propugnando por “iniciativas judiciosamente planejadas de substituição de importação de itens de alta densidade tecnológica”. jan. interessadas no mercado latino-americano no seu conjunto. política tecnológica e domínio neoliberal.Paradigma digital: capitalismo. tudo isto dependendo não apenas da ampliação do número de canais e meios de comunicação por força do desenvolvimento tecnológico simplesmente. Ver BOLAÑO. mais ou menos permeáveis às pressões de grupos de interesse hegemônicos ou contra-hegemônicos. sistemas de governo eletrônico. p. Elas afetam diretamente a esfera pública.39 Assim. certas tendências de reforço da diversidade cultural. 147. tendo em vista a instalação de grandes empresas dos setores de informática e telecomunicações. novos lugares são perifericamente articulados. da disponibilização de conteúdos locais. a abrir a opção estratégica para o Brasil de posicionar-se como exportador na área./fev.

tecnologias como o cinema. ocorre um movimento de concentração oligopolista que afasta o sistema do ideal liberal dos seus primeiros ideólogos. não são capazes de perceber a dinâmica massificação/ diferenciação. Neste sentido. como vem sendo feito no Brasil. A implantação da televisão digital terrestre deve ser vista nesses termos. A atual digitalização geral. O debate em torno da TDT pode ser entendido como uma oportunidade fundamental para a democratização dos meios de comunicação e a inclusão digital. é preciso decidir o modelo de esfera pública a implantar. antes de discutir o modelo de negócio mais adequado ao meio. quanto políticos e nas formas de sociabilidade. excessivamente fixados no momento. O fato é que. através de satélites. inerente ao desenvolvimento da cultura de massas. permitida pelo deslocamento instantâneo de enormes montantes de recursos financeiros e de informações indispensáveis à realização dos negócios. desde o século XIX. Fica claro que os recursos da técnica têm aproximado compradores e vendedores ou investidores e instituições financeiras. O avanço tecnológico está na base da atual reestruturação econômica. como ícone impulsionador da venda de jornais – incrementaram o consumo. bem como na organização dos fluxos de informação. a tecnologia e os novos meios geram impactos. cabos e ligações de fibra ótica. reduzindo distâncias. Mas também o mundo da produção de bens e serviços materiais se vê afetado pelo desenvolvimento conjunto dos sistemas de transporte e dos meios de comunicação que impulsionam uma homogeneização dos padrões de consumo e dos modos de vida. também pode servir à concretização de uma comunicação popular libertadora. tanto no setor financeiro quanto no produtivo. também característico da situação atual. marcada pela crescente interdependência de mercados. da segmentação e da fragmentação. muitas vezes imperceptível àqueles que.98 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Na nova esfera pública globalizada. articulando democracia e cidadania e testando e construindo potencialidades de liberação. por imposição de necessidades internas ao processo de acumulação do capital em suas diferentes fases de desenvolvimento. o rádio e a televisão – e a fotografia. Ao longo do século XX. tanto econômicos. . fruto da revolução micro-eletrônica e destinada precipuamente a facilitar a circulação da informação mercadoria. fundamental para vencer os limites à expansão do capital e da cultura ligada aos ditames do consumo. atingindo o espaço público. mas tal papel é muito melhor desempenhado pela internet e sistemas audiovisuais que incorporam aparatos capazes de captar imagens e áudio remotos.

forjada com a derrocada do poder feudal e o desenvolvimento do capitalismo mercantil do século XVI.41 O marco tecnológico contemporâneo comporta um enorme potencial que não pode ser desprezado pelos setores populares.2009 40 CHESNAIS.Nº 14 . A mundialização do capital capital. Não se trata de uma valorização excessiva dos palcos comunicacionais. François. há muito já não O público e o privado . é a ampliação dos lugares mercadológicos. um efetivo avanço democrático. como em algumas experiências alternativas. 1996. na qual se fundamenta a esfera pública burguesa. o que remete à necessidade do empreendimento de ações em direção à utilização e recriação da mídia. Com a expansão das relações econômicas de mercado surge a esfera do “social” que impede as limitações da dominação feudal e torna necessárias formas de autoridade administrativa. 169.Paradigma digital: capitalismo. 41 HABERMAS. cultura e esfera pública 99 A questão tecnológica. então. com a ajuda de seus Estados. Mudança estrutural da esfera pública pública. São Paulo: Xamã. mas de um reconhecimento de que as instituições legais. Jürgen. significa inicialmente apenas o deslocamento dos momentos de produção social e de poder político conjugados na tipologia das formas de dominação da Idade Média avançada. não pode ficar à mercê de voluntarismos. social e econômica sem precedentes. assim. p. A partir dos dispositivos técnicos. 1984. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. não é a fundamental.40 A técnica pode ser re-funcionalizada. A separação radical entre ambas as esferas. mas. 35. com a internet e a TV digital. ao reduzir o poder do Estado sobre a sociedade: A esfera pública burguesa desenvolveu-se no campo de tensões entre Estado e sociedade. no tocante à intensidade do trabalho e à precariedade do emprego” permitiu “aos grupos americanos e europeus a possibilidade de constituir. necessariamente na definição dos rumos que serão dados às redes de comunicação. p. requer intervenção estatal. constitui-se alguma condição de base para o surgimento ou a reestruturação da esfera pública que garante a legitimidade do sistema de dominação.Julho/Dezembro . para o autor. zonas de baixos salários e de reduzida proteção social”. justamente num momento de expansão do caráter excludente do capitalismo. Isso evidencia a contradição inerente àquilo que Habermas chama de esfera pública burguesa. ligadas à esfera pública. centradas nos parlamentos. Sua constituição representa. Chesnais lembra que a resultante da combinação “das novas tecnologias e das modificações impostas à classe operária. uma organização política. no entanto. Economia e política se articulam. justaposto aos confrontos que se dão nas diversas arenas sociais. . mas de tal modo que ela mesma se torna parte do setor privado. O que ocorre. para seu uso como instrumento do espaço público. pois define um embate no espaço dito virtual.

ao incorporar demandas de setores antes não representados. Eptic On Line LineRevista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación.. ele próprio. um sistema de canalização fantástico. p. a esfera pública habermasiana nunca incorporou toda a sociedade. Como a ágora grega. BRECHT. ou seja. O que a afasta do ideal liberal não é seu caráter parcial. 194. um espaço público parcial. há uma formalização da discussão. princípio com longa tradição no pensamento político e social ocidental.eptic. a contraditoriedade intrínseca ao desenvolvimento tecnológico. com. Se a parcialidade da esfera pública é inerente à própria condição do capitalismo. por sua vez. representa.42 Isso certamente degrada a proposta original de um lugar de conversação racional. Além disto. acerca de sua atividade e da legitimidade de sua atuação. Acesso em: 22 mar. converter os informes dos . 5. não permitisse somente ouvir a radioescuta.100 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño protegem os cidadãos contra o Estado. na medida em que reflete as desigualdades do sistema em que está inserida. como um todo. v.br>. apenas radicaliza uma tendência que lhe é inerente. que desatrela a sociedade civil. Brecht apresentava a questão com toda clareza. tanto do Estado como da racionalidade econômica capitalista. mediante o radio. 43 Ou. n. presente nas bordas da forma publicidade dominante. 2003. Essa lógica contraditória. op. nesse modo de produção. inerente ao capitalismo e à esfera pública burguesa. Teorias de la radio. A tarefa da radiodifusão. num primeiro momento não há porque imaginar que a simples inovação tecnológica vá representar sua ampliação. Mas a contradição fundamental está posta já desde o início. Disponível em: <http://www. tornando-se “o consenso na questão” gradativamente supérfluo devido ao “consenso no procedimento”. voltado para a formação de uma opinião pública livre. maio-ago. desde os debates filosóficos da Grécia clássica. ademais. ao apontar que “o rádio seria o mais fabuloso aparato de comunicação imaginável da vida pública. portanto. mas também recebesse. Berttold. 2. tem que organizar a maneira de pedir informações. questões fundamentais são definidas como problemas de etiqueta. e não isolar. O Fórum Social Mundial é um exemplo atual dessa separação. mas pôr-se em comunicação com ele”. Já nos anos 30 do século XX. o seria se não somente transmitisse. Subjaz uma necessidade de retorno à distinção entre público e privado. assim. não se esgota em transmitir estas informações. cit. em outro trecho: 42 HABERMAS. se manifesta. mas o crescente domínio que sobre ela exercem os interesses privados que o liberalismo. replicando. Jürgen. ao contrário. Aracaju. 43 mas é parte destas obrigações da autoridade suprema informar regularmente a nação. constituindo-se. na estrutura dos meios de comunicação. A massificação. enquanto os conflitos que resultam “em polêmica pública são desviados para o nível de atritos pessoais”. Com a indústria cultural. segundo Habermas. 2003. senão também fazer falar.

São. para que a TV digital. Conceber outra televisão. o cinema ou o jornal possam cumprir um papel de espaço público inclusivo têm que inverter sua lógica atual. enquanto dinâmica incorporadora. envolve deixar de encarar os meios como ativos materiais e imateriais e vê-los como parte bastante significativa do que pode vir a ser um espaço público democrático. ainda. o único caminho para a maior parte dos cidadãos orientar-se e informar-se sobre o mundo. mas construída socialmente. Se consideram isto utópico.Julho/Dezembro . a esfera pública viabilizada pela tecnologia contemporânea. Isto porque a lógica subjacente ao desenvolvimento da internet é a mesma daquela relativa à implantação da televisão segmentada. A idéia de uma contradição inerente à esfera pública no capitalismo é central nesta concepção. Só ela pode organizar grandemente as conversas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo. a um tempo. ou uma internet que remonte às utopias projetadas nos seus inícios. lhes rogo reflexão sobre porque é utópico. no campo da política. segue restrita a setores cultos e relativamente ricos. Berttold. a televisão aberta. a internet. permanecendo. o que permite explicitar.Paradigma digital: capitalismo. São eles os pauteiros da sociedade. mas mais diretamente vinculada a Marx e à discussão sobre a atual reestruturação capitalista. as disputas das cidades. O público e o privado . próxima da concepção original de Habermas. O espaço público. à disposição de todos e voltada para a participação multicultural. segue como uma meta a ser alcançada.2009 44 BRECHT. mas o palco em que a realidade social é. construída e representada. na privatização da esfera pública.44 Ou seja. por oposição à TV de massa: a da exclusão pelos preços. do ponto de vista da economia.Nº 14 . A radiodifusão tem que fazer possível o intercâmbio. os debates sobre aumento do preço do pão. que não é determinada tecnologicamente. o que obriga os diferentes agentes a adaptar-se a seus ditames para poder participar da arena política. que se traduz. . op. cultura e esfera pública 101 governantes em respostas às perguntas dos governados. a sua evolução no sentido do refinamento dos instrumentos de dominação e as possibilidades liberadoras que lhe são próprias. cit. de forma semelhante ao que ocorria com a esfera pública burguesa clássica do século XIX. retoma-se a idéia de constituição de uma esfera pública global. O papel do Estado Assim. Não são as indústrias culturais simples mediadoras complementares de um debate travado externamente. ao mesmo tempo. o rádio. Com o desenvolvimento das tecnologias midiáticas viabilizadoras da interconexão mundial de certos segmentos sociais.

que prevalecerá. projetada como negócio nos discursos pós-modernos. como se observa. que se afigura mais hegemônico que nunca no seio do pilar da regulação. sob “a égide do princípio do mercado. portanto. A esfera pública poderia ser aquele lócus. totalmente válido o paradigma da cultura de massas. quando surge a Indústria Cultural e a cultura de massas. os quais não só desresponsabilizam a mídia. no limite. invertendo-se o processo original.102 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño para a imensa maioria da população mundial. em que este era o ente que deveria justamente ser controlado e submetido às leis daquele fórum democrático. A crítica da razão indolente indolente: contra o desperdício da experiência. dado que produz um excesso de sentido que invade o princípio do Estado e o princípio da comunidade. ver HERCOVICI. como chegam a celebrar seus conteúdos. que acabariam por esterilizar o seu potencial crítico e transformador. mas toda uma política de incorporação das massas. por exemplo. 2007. Por isso. em que se forjam as lutas políticas de nosso tempo.46 Fica clara. a inviabilidade de se construir uma esfera pública popular e dialógica longe do processo de discussão acerca das macromudanças econômicas e sociais. incluindo a socialização do capital cultural. mas restrito. assim. da esfera pública original. BOLAÑO César. Aracaju: Editora UFS. não só os proprietários. propõem agora. Economia Política da internet internet. decorrentes da interatividade e do trabalho em rede. na organização do Fórum Social Mundial. em um aspecto fundamental. não apenas sua autonomia em relação ao Estado. Boaventura de Sousa. o que exige não apenas a disponibilização da infra-estrutura. 143. 46 45 . CASTAÑEDA. no seu trabalho dos anos 60. são inegáveis as possibilidades de efetivos avanços democráticos que o novo meio oferece. Alain. mas também o Sobre o tema. estudada por Habermas. A situação atual pode ser identificada. na passagem do capitalismo concorrencial ao monopolista. para além de seu protótipo do século XVIII. não é o Estado o único antagonista na luta dos movimentos sociais por espaço público verdadeiramente democrático que. durante o século XX. tendendo a dominá-los de forma muito mais profunda do que anteriormente”. Porto: Afrontamento. bem como a impossibilidade de fazê-lo sem uma ação do Estado. p. elegendo a produção de sentido como fator único a ser contabilizado no jogo comunicacional. A reestruturação atual repõe em grande medida o caráter crítico. Marcos. no sentido progressista. SANTOS. Não obstante. VASCONCELOS Daniel. Isto implicaria a superação do conceito burguês original de esfera pública. segundo o autor. sem o qual a democratização e o ideal de autonomia dos sujeitos não poderiam se realizar. com aquele momento de passagem da esfera pública burguesa clássica para o sistema de manipulação das consciências. capaz de incorporar todos os cidadãos.45 o que passa por uma reorientação do modo de pensar a comunicação. de modo que se renova a luta pela eliminação das fronteiras que excluem a maioria da população mundial. A luta agora é pelo acesso aos novos meios interativos. 2000. o que já estava posto no momento da sua mudança estrutural.

que ganha expressão e muitas vezes lugar na mídia. 1978. pode. por exemplo. por exemplo.Julho/Dezembro . após o fim da ditadura Vargas. cuja origem de classe e condição de instrumento de dominação são conhecidos. Sendo assim. por sua vez. está posta. são demonstração de um nível de articulação de setores da cidadania no nível mundial. dominado hoje essencialmente. submetidos muitas vezes a governos que ainda combatem qualquer arremedo de sociedade civil no âmbito dos países que controlam. sem qualquer relação com os (fracos) mecanismos institucionais que compõem a espinha dorsal do Império. incluindo apenas. senão que solidários. 290-291. Eli Diniz. deve ainda ser entendido como lócus da luta de classes e. parcelas irrisórias de cidadãos de alguns países. Isto não significa que o Estado seja um agente neutro.Paradigma digital: capitalismo. observa que o alargamento da esfera de ação estatal e a consolidação do setor privado da economia não foram percebidos como objetivos contraditórios. apoiados muitas vezes em organizações não-governamentais (ONG) e fóruns internacionais. que é interventor ou absenteísta. nessas condições. não é a digitalização que resolverá o problema da construção de uma esfera pública democrática e popular. Eli. nesse sentido. no grau que seria exigido. a partir da pressão social.Nº 14 .47 Mas esse mesmo Estado. mas sobrepõemO público e o privado . promover medidas tendentes a viabilizar a construção de um espaço público democrático. conforme os interesses dos capitais. espaço também de ação visando à transformação social. prevalecem hoje os espaços públicos que não conseguem ser aglutinadores. cultura e esfera pública 103 controle do próprio mercado. um fenômeno ainda mais excludente do que suas manifestações no plano nacional. Nisso convergiam os defensores do sistema autoritário e as lideranças empresariais. ainda no processo de industrialização. estudando a relação entre Estado e empresários no período inicial da industrialização brasileira. A esfera pública global é. como ocorreu no Brasil. os quais se puderem superar o risco de voltar-se apenas para a micropolítica. Considerações conclusivas A idéia de uma sociedade civil mundial é. na construção da sociedade industrial. representam uma possibilidade concreta de democratização da esfera pública global. por interesses oligopolistas. Empresário. portanto. 47 . pois se trata basicamente de uma ficção. nesse sentido. Em todo caso. Mas os novos movimentos sociais. e de modo informal. questionável.2009 DINIZ. Estado e capitalismo no Brasil Brasil: 1930/1945. O controle do mercado exige a regulamentação estatal. p. enquanto que a imensa maioria da população mundial permanece presa aos mecanismos cada vez mais inócuos dos Estados nacionais. Rio de Janeiro: Paz e Terra. A “participação de agentes oriundos de localidades subalternas”. O Estado mesmo.

48 ou ricos e pobres. 1999. Anais. São Paulo: Paulus. Valério.104 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 48 BRITTOS. p. São Leopoldo. n. Valério. São Leopoldo. comunicação e capitalismo. jan. Aracaju. BRECHT. Globalização e Regionalização das Comunicações São Paulo: EDUC./fev. ABSTRA CT : ABSTRACT CT: This article condenses some of the theoretical framework developed by the authors for analysis of digital TV.br>. where is possible to find. Aracaju. 2. on the considerations about culture and public sphere. 2001. and advance the discussion about the democratization of communications.). digital: _____. Revista da olítica olítica. Trabalho intelectual. La génesis de la esfera publica global. 88-95. como a globalização. moreover. _____. political economy. Berttold. Assim. Teorias de la radio. 198. 147. Acesso em: 22 mar. pois o problema da exclusão não se circunscreve em fenômenos específicos. 2003. dez. 2007. maio-ago. mas é inerente ao capitalismo. from the perspective of political economy of communication. 5. regulation. This text makes the option to present the state of the art of debate on the Internet. 1995. ed. BRITTOS. _____. In: III COLÓQUIO BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Comunicações. se as diferenças “entre nações dominantes e dominadas”.. Política Sociedade Brasileira de Economia P 53-78. 2003. a more extensive history of the development of this technology in Brazil and the world. que construa novas formas de organização das entidades produtoras. Referências BOLAÑO. Economia Política. Comunicação e Globalização. para que a mídia fuja da mera produção de mercadorias e se aproxime do ideal da ágora grega universalizada. n. 2.. Disponível em: <http://www.com. 11. _____. é preciso um amplo movimento. 2. p. Artigo Recebido: 26/05/2009 Aprovado: 18/07/2009 K ey W ords: Words: convergence. cabo: Recepção e TV a cabo a força da cultura local. Caracas. esfera pública e movimentos estruturantes. A televisão brasileira na era digital exclusão. Nueva Sociedad Sociedad. César. 2001. programadoras e distribuidoras de fluxos comunicacionais.eptic. n. convergence and its impact on the economics of telecommunications and television. Eptic On Line Line-Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación. 1997. ed. Rio de Janeiro. Recepção e TV a cabo cabo: a força da cultura local. communication. BRITTOS. Valério. technology. v. 2002. p. 1995. Aracaju. . (Org.

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2000. Denis. Godefroy. Acesso em: 14 dez.106 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño PHAN. Economía de la Comunicación y la Cultura Akal. 1988. N’GUYEN. Jean-Guy. Gaëtan. 1995.fr/biblio/ et de l’Iternet ecotel.). Les autoroutes de l’information l’information: un produit de la convergence. SANTOS. Disponível em: <www-eco. Economie des Télécommunications l’Iternet. La théorie des industries culturelles face aux progrès de la numérisation et de la convergence. .pdf>. Gaëtan (Orgs. TREMBLAY. Porto: Afrontamento.enst-bretagne. TREMBLAY. Ramon. Cultura. In: LACROIX. A crítica da razão indolente indolente: contra o desperdício da experiência. Boaventura de Sousa. Sainte-Foy: Presses de l’Université du Québec. 1999. Madrid: ZALLO.

Lord Brian Hutton. Do outro lado.(*) Suzy dos Santos é Professora do Programa de Pós-Graduação e da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: suzysantos@ufrj. nos ambientes da produção e da distribuição de conteúdo televisivo. H O caso acabou envolvendo o suicídio da fonte da BBC. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. a BBC. e um inquérito público no qual o relatório do juiz. televisão. absolveu o Governo pela responsabilidade no suicídio e O público e o privado . o relatório governamental sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. e o primeiro-ministro Tony Blair. É possível dividir esta atuação em duas funções. Palavras-chave: estado. retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo.Nº 14 .Julho/Dezembro . Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. o Governo acusou a BBC de ser parcial e não investigar corretamente a informação. após a divulgação de seu nome pelo Governo. Segundo reportagem exibida no programa de rádio Today. á alguns anos teve ampla visibilidade uma longa batalha entre a TV pública britânica. em que atua apenas como distribuidor. publicado em setembro de 2002. trazia dados propositalmente exagerados. uma segunda.br 107 O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos* Resumo: Este artigo pretende analisar a atuação do Estado brasileiro como proprietário de meios de comunicação. gerando programação para canais específicos e. comunicação.2009 .

aqui. Ramos afirmava que: 1 Criada pelo Requerimento nº 470. nem seus condicionantes. Na história da televisão brasileira nem há episódio onde uma emissora educativa tenha questionado com tanta intensidade o Estado nem vivência. de 1995. e principalmente. ainda que relativa. informação sobre os interesses e o funcionamento dos meios de comunicação. escravo. em qualquer época. p. 53). O conflito entre Governo e BBC abalou a imagem das duas instituições e causou as demissões de altos funcionários da companhia pública de radiodifusão e da assessoria de imprensa do Primeiro-Ministro. as mais transparentes. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo. de todas as instituições sociais (Simon. a privação. têm o dever de estar.108 Suzy dos Santos condenou a BBC por ter divulgado uma informação com base em única fonte. constituidores principais da esfera pública contemporânea. Lá. Inclusive. Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. Pois eles. nosso liberalismo estabelece um limite claro para seu avanço democrático: o limite da escravidão. das comprovações de plágio no dossiê do serviço de inteligência britânico até a divulgação do ‘relatório Hutton’. juntamente com as organizações estatais – e eu friso – entre as mais públicas. . o que pretendemos é nos focar na complexa e fragmentada estrutura existente até então. pode ser quase tão cruel. em 28 de janeiro de 2004. a polêmica tem servido de pano de fundo para nova discussão sobre a condução e a manutenção da independência das empresas públicas de radiodifusão. tal qual no século XIX. 1998. Em depoimento à Comissão Especial do Senado. no País”1. pois um homem privado da informação continua a ser. de debate tão amplo sobre a própria televisão. Hoje ainda. pois escravo é todo aquele que não pode se apresentar diante do outro como verdadeiro cidadão. de algum modo. E cidadania não há sem acesso à informação. em fevereiro de 2003 pelo Channel 4. o povo era privado da sua liberdade no sentido mais absoluto. Desde a divulgação. Não é nosso objetivo discutir aqui a Empresa Brasil de Comunicação. Murilo César Ramos aponta a ausência de visibilidade no cenário televisivo sobre as questões relativas ao próprio negócio como uma barreira à prática de cidadania no país. a Comissão elaborou um vasto relatório contendo proposições para o setor. “Destinada a Analisar a Programação de Rádio e TV.

Antônio Carlos Magalhães2. além de ‘sócio’ da TVE. o apresentador do programa. o senador Antonio Carlos Magalhães era na época ‘proprietário’ também da afiliada regional da emissora na Bahia. O jornalista alegou. embora o projeto em curso seja convertê-la em rede pública.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 109 O exemplo mais próximo de programação televisiva como a requerida pelo autor é o Observatório da Imprensa exibido pela Rede Pública de Televisão. [.2009 Intitulado Memória das Trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães.. Alberto Dines. . Nas palavras de Dines: a TVE tem dono. 2 Ampliando o recurso figurado de Dines. Fernando Barbosa Lima. estatais e privadas sem caráter comercial.Julho/Dezembro . 2001. portanto.] E o governo federal vive uma crise política protagonizada justamente pelo senador ACM (teoricamente aliado e. da IstoÉ em Brasília.. uma das grandes figuras do telejornalismo brasileiro. traduziu recentemente a expressiva dependência da televisão pública às índoles políticas locais e regionais. é possível alegar que. autor de um livro-denúncia contra o senador. Os outros oito recusaram sob os mais variados pretextos. falecido em julho de 2007. cancelou a edição do programa que entrevistaria João Carlos Teixeira Gomes. apenas um aceitou. que a exibição do programa poderia ser usada para prejudicar o então presidente da TVE-Rede Brasil. um dos poucos – talvez o único – capazes de tirar a televisão educativa da crise em que se encontra. é do governo federal. vinculado à Secretaria O público e o privado . o livro foi lançado em janeiro de 2001. Em fevereiro de 2001. que integra as emissoras públicas.Nº 14 . pela Geração Editorial. O Executivo paga e manda [. o que evidentemente eliminaria qualquer possibilidade de isenção com uma saraivada de críticas ao senador durante uma hora de programa.] Acresce ainda que o programa coincidiria com o início da gestão do novo presidente da TVE. o jornalista Fernando Barbosa Lima. Mais: a TVE da Bahia (um feudo do senador ACM) ao longo daquela terça-feira deu sucessivos indícios de que não retransmitiria o ‘Observatório’. [Em linha]).. porém. “sócio” da TVE). O próprio programa. Tales Faria.. Acresce que dos nove comentaristas políticos convidados para participar do programa. A TV Educativa integra o IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. dentre outros motivos. ele mesmo uma vítima das perseguições de ACM. criando um “imbróglio” político que respingaria no presidente recémempossado (Dines.

pelos mesmos autores. os episódios de atrelagem da TV Educativa a uma elite política regional foi pouco questionado. como também na divulgação da convicção de que era indissolúvel o casamento entre eficiência tecnológica e os valores morais de justiça. . p. p. ainda são escassas no país as estações públicas que não estão diretamente condicionadas aos poderes públicos. em junho. editada. 1995). Nos dois episódios. 1043). o programa Vitrine. Os serviços de telecomunicações. p. a Indústria Cultural. No entanto. Utilizamos aqui a versão apresentada no segundo volume da coletânea The Political Economy of Media. De maneira adversa à idéia de TV pública independente. com uma entrevista do autor de Memória das Trevas. a TV educativa baiana deixou de retransmitir outros dois programas que continham acusações contra Antônio Carlos Magalhães: o programa Opinião Brasil. e. não reflete a felicidade ‘até que a morte os separe’: A referência da primeira publicação do texto é: MURDOCK.110 Suzy dos Santos de Cultura e Turismo do Estado. no que se refere ao provimento de conteúdo (radiodifusão) e ao tráfego de informações (telefonia/transmissão de dados).. Como não há. substantial inequalities are generated that undermine the nominal universality of citizenship (Murdock. p. igualdade e bem público (Mosco. quando transmitia uma entrevista ao vivo com Andrei Meireles. 3 Whenever access to the communications and information resources required for full citizenship depends upon purchasing power (as expressed directly through customer payments or indirectly through the unequal distribution of advertising subsidies to production). por ser ‘arranjado’. 100-115. (1989). Information poverty and political inequality: citizenship in the Age of Privatized Communications. No mesmo 2001 em que ocorreu a suspensão da entrevista no Observatório da Imprensa. n. 3. 34). este casamento. As diferentes naturezas dos serviços fizeram com que a telefonia fosse regulada prioritariamente em relação à distribuição/transporte de informações e a radiodifusão em relação ao conteúdo. 39. 1996. tiveram papel fundamental não apenas na criação de uma indústria totalmente nova. 180-195. GOLDING. em 1997. Tanto o rádio quanto. 1996. Golding. a justificativa dada pela TV Educativa da Bahia foi a de que problemas técnicos tiraram o sinal do ar. 1997b. Richeri. v. posteriormente. e sua programação foi fortemente influenciada pelo Senador nos longos períodos em que seus aliados estiveram nos cargos centrais do governo estadual. a televisão. G. a necessária autocrítica do setor nem políticas públicas que incluam o controle do conteúdo transmitido pelas estações educativas. P. no país. Journal of Communication Communication. 1990. cresceram e foram regulados sob lógicas e instâncias normativas distintas (Garnham. o jornalista da revista Istoé co-autor da reportagem que continha a declaração do Senador sobre sua participação em uma violação do painel de votos do Senado. em 24 de janeiro.

Como sustenta Othon Jambeiro: Histórica e universalmente.Nº 14 . exceto nos EUA. prevenir excessiva concentração de poder. licenciar freqüências de rádio e TV.o cinema.2009 . em seguida a TV .Julho/Dezembro . no qual o Estado assume as funções de proprietário. salvo em períodos de guerra ou convulsão social. depois o rádio. Ainda segundo Jambeiro. estes serviços usualmente estão incluídos dentro de um setor único.particularmente nas democracias liberais da Europa ocidental e nos Estados Unidos garantir formas de competição econômica suficiente para frustrar o estabelecimento de monopólios (1997. controle de preços (tarifas não discriminatórias). Na radiodifusão.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 111 Os serviços de telefonia e transmissão de dados se consagraram historicamente como monopólio estatal. promotor ou regulador. muitas vezes para permitir que se pudesse continuar a policiar e controlar a mídia. estatal ou comercial. Os sistemas regulatórios evoluíram em seguida para evitar danos morais. Apesar das distinções no mercado e na natureza da regulação. regular a relação trabalhista entre empregados e proprietários dos meios. interconexão. além dos políticos. Esta regulação incluía critérios culturais e econômicos. o controle destes serviços era regido especialmente por um enfoque geopolítico e de segurança do Estado. p. os sistemas regulatórios desenvolvidos para governar a indústria da TV têm derivado diretamente dos instrumentos legais e aparatos burocráticos que os estados-nações criaram para tratar com a Imprensa. 148). Encarado como questão estratégica nas políticas de desenvolvimento do século XX. estando baseada em princípios diversos das telecomunicações e mais próximos à lógica aplicada anteriormente à imprensa. e sua estrutura regulatória foi desenvolvida em relação à estrutura física. e . O público e o privado .aqueles instrumentos e aparatos foram consequentemente adaptados. genericamente chamado de comunicações. com base em três princípios genéricos: acesso universal (common carriage). O conteúdo das transmissões era considerado uma transação privada e jamais foi controlado. tanto a distribuição quanto o conteúdo eram fortemente controlados pelos Estados fosse nos modelos público. Na medida em que novas tecnologias deram origem a novos meios de comunicação de massa . e.

finalmente.112 Suzy dos Santos Ele é Estado Proprietário. 2000. e concede incentivos e subvenções. É possível dividir esta atuação em duas funções. a maioria das geradoras federais e estaduais se diferencia da idéia de TV Pública como instituições independentes dos governos e do mercado tanto na forma . à bibliotecas. como dependiam dos aparatos estatais. dos Estados. A infraestrutura de telecomunicações possibilitou tecnicamente a constituição destas redes mas. é parcela considerável da distribuição de programação televisiva. 23). retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. Tão recorrente quanto a queixa é a exigüidade das situações onde o jornalismo das estatais cumpre seu papel de watchdog alertando os telespectadores quanto aos abusos dos poderes locais. Esta corriqueira relação de amor e ódio tem ancestralidade na Rádio Nacional de Getúlio Vargas. por exemplo. em que atua apenas como distribuidor. centros de documentação. a participação da União. porque traça as estratégias públicas para o desenvolvimento do setor. gerando programação para canais específicos e. “Síndrome de Estocolmo” das TVs Estatais: os conflitos no Estado Produtor Não raro ouve-se de dirigentes de TVs estatais queixas sobre a atuação dos governos frente às instituições de radiodifusão. tal qual definido por Jambeiro (2000). E. e berço nos governos militares. ao espectro eletromagnético e às emissoras de rádio e TV que explora diretamente. esses canais estiveram sempre submetidos às injunções políticas e econômicas dos poderes onde estavam localizados. do período posterior a 1964. nos anos 30. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. Apesar de ser ator preferencial na expedição de outorgas para a prestação de serviços de radiodifusão. faz inversões de infra-estrutura. é Estado Regulador. do Distrito Federal e dos Municípios como proprietários. regionais ou nacionais. p. uma segunda. A tentativa de estabelecer uma rede estatal nacional de televisão educativa encontrou no próprio Estado seu maior complicador. no caso da televisão. na sua função de fixar regras claras de instalação e operação. a participação do Estado como produtor terminou por ser pouco expressiva e fragmentada. Embora seja pouco discutida a atuação estatal no cenário brasileiro de radiodifusão. É também Estado Promotor. no que se refere. Como mencionado anteriormente. que eliminem as incertezas e desequilíbrios (Jambeiro.

o fundador da instituição. tal qual nas emissoras estatais. nem nas instituições estatais de radiodifusão. a TV Cultura não pode ser considerada no mesmo rol das fundações privadas que vêm ganhando espaço.2009 . Por outro lado.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 113 de controle quanto no financiamento. inicialmente indicados pela fundadora. a Fundação Padre Anchieta já nasceu com administração independente do governo estadual inspirada nos moldes da BBC. Assim. por não traduzir um modelo de televisão cujo financiamento esteja vinculado a normas que proporcionem a sua independência em relação ao Estado.Fundação Cultural Piratini. Uma TV pública formada no auge do autoritarismo militar não poderia ser totalmente independente do Estado. nos últimos anos. eleito em votação direta e secreta (Fundação Padre Anchieta. após seu falecimento. gestora da TV Cultura-SP . Renata Crespi da Silva Prado. A TV Cultura é o único caso da Rede Pública de Televisão no país em que a estrutura administrativa é desvinculada dos poderes executivos nacional. Juridicamente impedidas de veicular publicidade estas emissoras dependem exclusivamente do aparato estatal para a sua sobrevivência. indicados pelo próprio conselho. eleitos pelos próprios conselheiros vitalícios. A principal exceção ao controle direto do Estado é a Fundação Padre Anchieta . Dentre as televisões tradicionalmente definidas como estatais. a dependência direta das verbas públicas fez com que a TV Cultura estivesse sujeita aos ‘humores’ dos Governos em questão. 21 membros eletivos. Criada em 1967. 20 membros natos: representantes de instituições educativas e culturais públicas e privadas cujos mandatos são coincidentes ao período em que os titulares permanecem nos cargos. [Em linha]). o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta é composto por 46 conselheiros assim distribuídos: um membro emérito. estadual ou municipal. sendo obrigatória a renovação anual de um terço dos membros. um representante dos funcionários da Fundação. e a Rede Minas de Televisão . A contradição na implantação do modelo de TV pública está exatamente no período desta criação.Fundação TV Minas Cultural O público e o privado .Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativa. Por ser administrada por um conselho que inclui diversas representações da sociedade. três membros vitalícios. Não tendo seus membros indicados pelo poder público.Nº 14 . dois exemplos que também se aproximam da idéia de gestão pública são a TVE-RS .Julho/Dezembro . e. Ela configura uma espécie singular de fronteira entre estas classificações. a TV Cultura também não se insere nas definições de radiodifusão pública. O mandato é de três anos reelegível por mais três.

como instituições de ensino e entidades de classe. e assegurar a possibilidade de expressão e confronto de diversas correntes de opinião”(TVE. a revista Istoé dizia que a retransmissora da Rede Globo recebeu R$ 200 mil para ceder sua programação às retransmissoras estatais (ISTOÉ.114 Suzy dos Santos e Educativa. 2007 online). definido pela Lei Nº 10. as duas publicações tratam do mesmo contrato. vinculada à Secretaria Especial de Promoção Social do Estado. O estatuto da Fundação Piratini.535. a rara situação de cessão da estrutura estatal de radiodifusão para um canal comercial chama atenção. mas igualmente incisivo. A transmissão de conteúdo distinto do comercial também não está garantida nas TVs estatais brasileiras. revelada por Elvira Lobato. Embora com uma diferença de três anos entre si. proíbe à Fundação “utilizar. retransmissora da Rede Globo. afirmou que o acordo consistia em uma permuta pela qual o governo recebia 30 minutos mensais de espaço publicitário na grade da TV Liberal (LOBATO. por pelo menos 25 anos. A Folha de São Paulo e a Istoé4 mostraram funções distintas no acordo. ambos com expressiva circulação no território nacional. Ambas estão vinculadas às Secretarias de Estado da Cultura e condicionadas a indicação de membros dos Conselhos Curadores pelos governadores dos estados onde se inscrevem. classe ou religião” (Rede Minas. garante que os serviços da Fundação “funcionarão de modo a salvaguardar sua independência perante o Governo Estadual e demais Poderes Públicos. . na composição dos conselhos gestores destas fundações. Outro dispositivo é relativo à coibição do uso político-partidário das emissoras. ouve-se falar da comercialização de espaços publicitários em algumas emissoras ou de programas sensacionalistas em outras. 3º §§ 3º e 4º). Um primeiro dispositivo que as distingue das demais empresas estatais de radiodifusão é a presença de representantes de esferas distintas da estatal. Um pouco menos elaborado. no Pará. sob qualquer forma. a programação de televisão cultural ou educativa com fins político-partidários ou divulgar idéias que incentivem preconceitos de raça. de 30 de março de 1994. estabelece a promoção da liberdade de expressão e a proibição da censura (Art. O Artigo sexto. pode ser 4 A Folha de São Paulo é jornal diário e a ISTOÉ semanário. Enquanto a coluna de Elvira Lobato. De tempos em tempos. publicada no jornal diário. 2007 online. 1997). alugou. tal qual ocorre na Fundação Padre Anchieta. 2000). aprovado pelo Decreto 53.502. parágrafo único. sua rede de retransmissoras no estado para a TV Liberal. de 08 de agosto de 1995. Mas. os estatutos destas fundações trazem dispositivos que buscam assegurar a independência ideológica. o Estatuto da Fundação TV Minas. Também a proximidade entre Estado e mercado de televisão comercial é tradição no Brasil. A Funtelpa – Fundação de Telecomunicações do Pará. A permuta. Contudo.

a situação de ausência de controle dos canais estatais deve-se também à sua pequena expressão na totalidade do sistema televisivo. As TVs operadas por governos estaduais estão distribuídas conforme a figura a seguir. em detrimento da TV Cultura do estado também vinculada à Funtelpa. uma no Rio de Janeiro. como um ato político de integração social afirmando que “um dos objetivos do Estado é integrar a população através dos meios de comunicação de massa.8% do total de outorgas do país. O público e o privado . o Governo Federal também é operador de oito retransmissoras em estados diversos e dos canais. Através de repetidoras de televisão. notícia de qualquer observação da Anatel ou do Ministério sobre o caso. No âmbito federal são seis geradoras de televisão aberta: três em Brasília-DF . que proporciona a transmissão via satélite da imagem da quase totalidade de nossos 143 (cento e quarenta e três) municípios através dos sinais da TV Liberal (Secretaria da Fazenda. por força de convênios passou a executar a despesa com pagamento de publicidade e publicações do governo estadual. e. a TVE Maranhão com seis retransmissoras próprias. o governo estadual justificou a parceria com a TV Liberal. possuindo também sob sua responsabilidade a operacionalização do sistema digital de televisão. As geradoras e retransmissoras vinculadas às administrações Federal e Estaduais não ultrapassam 6. como a televisão”5. podendo para tal realiza-lo diretamente ou por delegação. assim como. em 1997. a TVE – Rede Brasil.TV Câmara. uma em Natal. TV Senado e TV Nacional. espalhadas por vários municípios do Estado. Além destes.Julho/Dezembro . O convênio chegou a ser objeto de uma ação popular. de 1998. por assinatura. também. uma em São Luis-MA. . a TV Cultura com duas retransmissoras próprias. Não se tem.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 115 confirmada no Balanço de Promoção Social da Secretaria da Fazenda do Pará. onde se afirma que A Funtelpa é responsável também pela implantação e funcionamento do Sistema Estadual de Repetidoras e Retransmissoras de Sinais de Televisão – SIERT em todo o Estado. 1998 [em linha]). Além das políticas públicas confusas. 2000).2009 5 Trecho da defesa da Funtelpa citado por Elvira Lobato (LOBATO.Nº 14 . Segundo Elvira Lobato. a Funtelpa exerce a gerência direta de manutenção de 76 (setenta e seis) retransmissoras de televisão. TV Justiça e NBR.

6 Embora seja possível observar. as discussões recentes sobre televisão pública estão excessivamente voltadas ao financiamento dessas TVs. de 28 de fevereiro de 1967) mas um dispositivo facilitador foi o Art. que liberou a publicidade institucional sob a forma de patrocínio (apoio cultural). de maio de 1998. 2007. .116 Suzy dos Santos Ilustração 1: Distribuição nacional das TVs de Governos Estaduais6 Os canais educativos brasileiros tiveram sempre uma média de audiência pequena.-Lei nº236. Há canais que extrapolam este limite mas como sem a publicidade estariam condenados à extinção. A legislação em vigor proíbe essa forma de financiamento (Art. Agência Nacional das Telecomunicações. tecnologias ultrapassadas e financiamento insuficiente. no cerne do ambiente estatal. Fonte: Ministério das Comunicações. Dec. 19 da Lei 9. vários episódios recentes em que tem transparecido o interesse em buscar alternativas para fortalecer uma televisão pública nacional.637. entrando dentro da lógica dos canais particulares. esses canais passaram a trabalhar com patrocínio e mesmo com publicidade. 13º. a Justiça não dá prosseguimento a processos intentados por canais particulares ou por multas de órgãos de controle. Mais recentemente.

“deve-se levar sempre em consideração a importância das injunções políticas que influenciam fortemente a estrutura econômica dos meios de comunicação de massa no Brasil e que sempre atuaram no sentido de manutenção das posições dominantes” (Bolaño.854.600 de 25 de abril.064. de 08 de outubro de 1979. Tanto as retransmissoras educativas quanto as O público e o privado . 2. estas chamadas retransmissoras mistas foram extintas pelo Dec. O Ministério pode.Nº 14 . de 15 de maio. Como era previsível. de 1989. 81. . a qualquer momento. geradas por elas próprias. o governo voltou atrás antes do prazo extinguir. logo após. maestro? As parcas notas do Estado Distribuidor O bem sucedido projeto dos governos militares de fazer a televisão chegar a todos os pontos do país transformou o Estado em importante distribuidor destes sinais.Julho/Dezembro .291 e. 1999. Qual é a música. Este serviço teve alterações significativas em 19887. 87. estabeleceram uma nova categoria. O serviço de retransmissão de TV é o primordial facilitador deste objetivo. em até 15% do total. O Dec. 7 Os permissionários ganharam uma sobrevida. [Em linha]). a retransmissão de televisão não se insere no mesmo processo de licitações previsto para a radiodifusão.451 (09/ 05/2000). a Portaria 93. nada isonômica. normas complementares foram sendo expedidas através dos seguintes decretos: nº 84. de 12 de julho de 1980. Como conta o editorial da revista Tela Viva. Regulamentada pela primeira vez em 1978.que poderiam inserir programação local.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 117 A formação de uma rede pública complementar às estatais e privadas somente pode ser pensada como uma política pública mais global. porém.593.educativas e em fronteiras de desenvolvimento do país . especialmente nas localidades onde o interesse comercial em explorar radiodifusão de sons e imagens é inexistente. com a publicação do Decreto nº 3. em pouco tempo começaram a aparecer fundações e associações controladas por vereadores e deputados em várias partes do país. cancelar as permissões ou mantê-las ad infinitum sem ser necessário que elas passem por qualquer processo de avaliação do serviço como requisito para a renovação das outorgas. pelo Dec. As permissões são concedidas diretamente por portarias do Ministério das Comunicações e têm caráter precário.074.2009 Nesse ínterim. Estas permissionárias tinham o prazo de dois anos para adaptarem-se às novas regras. as retransmissoras mistas . nº 84. Em 1998. Esta alteração agregou um atrativo político ao serviço de retransmissão educativa. de 31 de março de 1982. 96. com prazo indeterminado para a extinção.

Agência Nacional de Telecomunicações: 2006. Lembro que ambas não precisaram enfrentar a tramitação no Congresso (e atualmente os processos licitatórios) obrigatória para uma concessão comercial. A participação das prefeituras municipais neste serviço é representativa. onde já existem emissoras comerciais. os atuais permissionários ganharão sem concorrência a freqüência que ocupam no espectro (FALGETANO. Ao todo são 3.676 têm retransmissoras outorgadas às prefeituras.118 Suzy dos Santos microgeradoras poderão funcionar nas mesmas condições atuais até que uma geradora se instale na mesma praça ou poderão solicitar a transferência do canal para o Plano Básico de TV. E aí mora a grande distorção. 59 5 1 1 66 43 33 47 55 AC AL AM AP BA CE E S G O MA MG MS MT PA P B P E PI PR RJ RN RO RR RS SC S E SP TO .341 outorgas de retransmissoras nas mãos de prefeituras. 1. 2000). Segundo os dados oficiais. Como a legislação aplicável aos serviços de radiodifusão educativa não prevê o lançamento de editais para a concessão dos canais. A maioria das RTVs educativas está instalada em regiões de alta densidade populacional. pois as permissões foram dadas pelo Ministério das Comunicações. poderão transformar-se em geradoras. Ilustração 2: Distribuição das outorgas de retransmissoras das prefeituras municipais8 800 437 400 375 152 8 161 112 136 162 159 68 19 21 1 4 14 10 Fontes: Ministério das Comunicações. dos 5. isto é.561 municípios brasileiros.

Mato Grosso do Sul. Uma delas retrata um exemplo de como as elites políticas regionais fazem uso das RTVs em períodos eleitorais: 9 Nas eleições de 1994.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 119 Dentre as 3. BRENER. em entrevista ao jornal Correio Braziliense. “a chance de uma emissora dessas ser punida por causa do conteúdo de sua programação é próxima a zero” (COSTA. oito permissões. Rio Grande do Sul. Como declarou. deputado Walter Pinheiro (PT/BA). Na série de reportagens. Amazonas. reproduzidas na versão em rede do Observatório da Imprensa. Embora efetivamente a maioria das RTVs seja usada apenas para fazer chegar o sinal das grandes redes às pequenas cidades do país. Sylvio Costa e Jayme Brener detalham algumas situações nas quais o poder federal beneficia prefeituras dos partidos aliados. 1997). Maranhão. Mas não é possível afirmar que apenas 6. o ex-presidente e atual senador José Sarney (PMDB-AP). Roraima. as prefeituras desligam os equipamentos de transmissão quando as geradoras estão exibindo programação que prejudica os interesses locais. a governadora Roseana Sarney (PFL) e o senador Epitacio Cafeteira (PPB) disputavam o segundo turno quando o pai de Roseana. três. Por não ser candidato no Maranhão. Pará. um pronunciamento . um dos membros titulares da Comissão de Ciência e Tecnologia. Terno claro e com a mesma expressão grave com que falava à nação em cadeia nacional ao tempo em que era presidente. .de caráter inequivocamente eleitoral .2009 As retransmissoras educativas estão distribuídas entre onze estados: São Paulo e Rio de Janeiro. algumas prefeituras fazem das retransmissoras seus porta-vozes sem serem incomodadas pelo poder federal.Julho/Dezembro . então.veiculado em todo o estado pelas repetidoras em poder das prefeituras. Goiás e Piauí. Mato Grosso e Paraíba.341 permissões de retransmissão concedidas à prefeituras apenas 389 são de caráter educativo e 168 encontram-se na área onde são permitidas as estações retransmissoras mistas10. quatro. Gravou. impossível de precisar. foi protagonista de uma curiosa operação montada para ajudar a filha. Rondônia e Tocantins. cinco. o senador usa o pronunciamento para explicar O público e o privado . ou. ou as prefeituras fazem doações de terrenos a retransmissoras educativas ou mistas controladas por aliados dos prefeitos. que atua na ilegalidade. Amparadas pelo parco conhecimento público de suas limitações e pelas dificuldades operacionais da Anatel para fiscalizar todo este rol de estações. 10 Estas retransmissoras são permitidas na região da Amazônia Legal que engloba: Acre. Comunicação e Informática – CCTCI da Câmara dos Deputados. Minas Gerais e Paraná. o único espaço reservado pela legislação para a propaganda eleitoral.18% do total de retransmissoras das prefeituras geram programação própria. uma prefeitura permissionária de retransmissora educativa em cada. há uma parcela. ainda. Amapá. Alagoas. Mato Grosso.Nº 14 . duas. Sarney não podia participar do horário político gratuito.

cuja duração foi de 2 minutos e 45 segundos. Vai contar com a minha ajuda. o dublador Pablo interpretaria uma espécie de canção afônica. o de Cafeteira. Se a pergunta “o que as prefeituras municipais exibem em suas retransmissoras?” fosse feita no game show musical de Silvio Santos11. Sendo responsáveis pela cobertura de 30. às prefeituras para estabelecer acordos de retransmissão ou financiamentos para a instalação de retransmissoras vinculadas a estas igrejas. denuncia a irregularidade ao alertar que a fala do ex-presidente. a ausência de identificação clara dos canais retransmitidos impossibilita. . de propriedade do líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. BRENER. determinar os índices exatos de abrangência das redes nacionais. O destaque fica por conta das redes religiosas onde são freqüentes as referências às parcerias entre prefeituras e igrejas. O segundo. nunca na propaganda eleitoral do TER” (COSTA. deveria ser exibida “em horário de telejornal. O primeiro.14% do território nacional e por 34. há também a dificuldade em saber quais são e como são escolhidos os canais que as prefeituras retransmitem. que dá título a este tópico. Os esforços em demonstrar transparência nas ações estatais parecem condicionados pelo bordão “uma nota. Para além do uso eleitoreiro. cuja cópia foi obtida pelo Correio Braziliense. vai contar com a ajuda de Fernando Henrique. com autorização da geradora. ligada à Igreja Católica. estes dados jamais foram tornados públicos. por exemplo. Embora exista a exigência de que as operadoras do serviço de retransmissão entreguem ao poder concedente a indicação do canal a ser retransmitido.13% das retransmissoras de TV no país. o de Roseana. E conclui: “Peço ao Maranhão que me ajude a continuar ajudando o Maranhão”. maestro Zezinho” e. Fazendo uma busca em sites de prefeituras e jornais de pequenas cidades. 11 Um dos programas mais antigos e de maior audiência exibidos pelo canal SBT o Qual é a música? constitui-se de um jogo de advinhação musical apresentado pelo empresário Silvio Santos . neste caso. “Roseana”. “tem um programa de governo definido. continuou Sarney. ou da RIT – Rede Internacional de Televisão. seria “o quadradinho da velha politicagem e do ódio”. o jogador estaria em sérios apuros para continuar no programa. vai fazer um governo de união pela paz”. 1997). A própria fita de vídeo repassada às prefeituras. o do “programa da concórdia”.120 Suzy dos Santos aos eleitores que eles deveriam optar entre “dois quadradinhos”. é comum encontrar referências sobre visitas de comissões da Rede Vida.

além de traduzir uma fatia maior de audiência para este canal. Uma analogia com as vestes humanas diria que. Apesar de não retransmitir a rede católica. Praticamente todas as redes nacionais. Em São José do Rio Pardo a situação é diferente. indicam prefeituras como afiliadas. sim. O esforço necessário para precisar qual o real alcance dos canais comerciais. em junho de 2003 (TV CANÇÃO. a ausência de revisão das outorgas já concedidas e a persistência das práticas clientelistas no âmbito estatal fazem com que as iniciativas de desnudamento sejam tímidas.Julho/Dezembro . Esta relação de continuidade política fez com que as políticas públicas e privadas de comunicação de massa jamais fossem efetivamente desnudadas do denso véu que as cobriu ao longo de seu desenvolvimento. diz respeito ao fato de que a retirada do Estado das operações de serviços de comunicações não ocorreu na televisão da mesma forma sistemática que ocorreu nas telecomunicações em meados dos anos 90. a divulgação de algumas listas de acionistas ou a adoção de processo licitatório para a concessão dos serviços principais. 2003).2009 12 Embora a Rede Record seja vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus e tenha programação religiosa na sua grade.Rede Vida. não há geradoras. 2003) que também indicou à prefeitura o pedido de verba para a instalação do equipamento transmissor (CÂMARA. apenas três permissões de retransmissão. exceto a Rede Globo. a obtenção da outorga é creditada à atuação do vereador Fábio Augusto Porto Junqueira (PSDB) (GAZETA. por exemplo. Rede Mulher e TV Canção Nova – que concorrem com cinco canais comerciais e um não identificado que é retransmitido pela Prefeitura. Outro aspecto que merece ser destacado. Em Vargem Grande do Sul. algumas tentativas. . como. neste estudo ela é considerada um canal comercial. significa também minimizar os custos da geradora na implantação de retransmissoras próprias.Nº 14 . registradas em nome da prefeitura. Ligeiras Conclusões A recente transição para um modelo democrático de Estado teve como característica fundamental a manutenção das elites políticas já estabelecidas em todo o país. A adesão de uma prefeitura à afiliação de um canal específico. Embora o processo de privatização do sistema de telefonia tenha O público e o privado . quase vinte anos após a volta da democracia. Das três permissões da cidade. a primeira a ser inaugurada foi do canal católico. Porém. não religioso. por exemplo. as redes católicas têm forte ligação com as prefeituras municipais. há três outorgas ligadas a canais religiosos12 . educativos ou religiosos fatalmente encontra na ausência de transparência das outorgas seu maior obstáculo. a televisão brasileira mal conseguiu exibir suas canelas em público. 2002).O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 121 No estado de São Paulo. Houve.

sp. com gestão desvinculada do poder político. Além da atuação como retransmissor.htm>. C. estas outorgas têm possibilidade de geração de conteúdo e o controle sobre elas é praticamente inexistente como também é inexistente a definição dos critérios que pautam a escolha dos canais a ser retransmitidos. tanto na esfera federal quanto estadual. [Em linha]. nos poucos canais estatais existentes é visível a persistência do Estado como produtor de conteúdo televisivo em oposição à idéia de transformação destes canais em canais públicos.gov. Ata da 35ª Sessão Ordinária. CÂMARA Municipal de São José do Rio Pardo.ull. tanto nos domínios federais quanto estaduais. 2005]. mantendo-se apenas como regulador e. [Em linha]. como ocorre com a TV Cultura de São Paulo. [Em linha]. 2003]. atinge mais de 30% dos municípios brasileiros. poderiam representar um diferencial qualitativo na programação televisiva. também. the State acts like producer. [consultado em 24 nov. a televisão aberta ainda depende fundamentalmente das Prefeituras Municipais para atingir as regiões menos interessantes ao mercado em termos econômicos. Conforme foi apontado. Por um lado. A retransmissão dos canais televisivos pelas prefeituras.es/ publicaciones/latina/a1999hmy/98cesar. the discussion on the independence conditions in the existent state-owned broadcasting stations can play some light about this process. não chegam a 10% do total. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES (ANATEL). [consultado em 11 dez. estes canais.anatel. Words: communication.br>. . [consultado em 19 out.camarasjriopardo. In a moment in which the Brazilian government begins to execute a plan of a strengthened state-owned TV . Disponível em: <http://site. por sua natureza educativa e não comercial. BOLAÑO. the State acts only like distributor. br/servlet/navSrvt?cmd=ultimaata>.n. ABSTRA CT : This article intends to analyze the acting of the Brazilian State like ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 23/01/2008 Aprovado: 20/03/2008 Key W ords: state. por outro lado. as geradoras de televisão por ele operadas. 17. media owner. In: Revista Latina de Comunicación Social. in the environments of the production and of the distribution of television content. 2002. Disponível em: <http://www. 2005]. Embora historicamente tenham pouco alcance também em termos de audiência. Disponível em: <http://www.gov. television. producing planning for specific channels and 2. 26 nov. mai. It is possible to divide this acting in two functions: 1. retransmitting planning of the already existent nets in towns of difficult access. A Economia Política da televisão brasileira. Estado saiu da operacionalização da telefonia e serviços conexos. (1999).122 Suzy dos Santos produzido uma profunda rearticulação nas comunicações nacionais.

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colocamse sob nossos olhos as relações de poder que permeiam a comunicação e a cultura. Palavras-chave: políticas de comunicação. e sim de um contrato. a TV Liberal.(*) Alexandre Barbalho é Professor do PPG em Políticas Públicas da UECE . e a Fundação de Telecomunicações do Pará. assim.br 125 Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos* Resumo: O presente artigo discute a relação entre políticas de comunicação.com. FUNTELPA. tendo como ponto focal as relações de desenvolvimento e integração regional. espaços públicos. democracia e espaço público na Amazônia.com. assim como os desafios para a construção da democracia na Amazônia contemporânea.com Ana Paula Freitas e Fabrício de Mattos são mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Sociedade da UECE. o que se observa é que. I 1 ntrodução O presente artigo sugere uma análise de um “convênio”1 firmado entre o Estado e uma grande empresa privada de telecomunicações. pois muitos dos atores envolvidos neste debate afirmam que não se trata de um convênio. Percebemos. fsdemattos@yahoo. E-mail: anapaula.Julho/Dezembro . a partir do estudo de caso do "convênio" entre uma grande empresa de telecomunicações do Estado do Pará. afirma que “No instrumento propriamente dito. amazônia. E-mail: alexandrebarbalho@hotmail. por serem os campos formadores dos imaginários sociais em nossa sociedade. foi .freitas@gmail. e aprofundando a intersecção entre eles. O relatório de maio de 2007 da Comissão de Inquérito Administrativo que analisou o caso. democracia. visando problematizar as relações de poder inerentes aos campos da comunicação e da cultura.Nº 14 . os campos da comunicação e da cultura como os campos protagonistas das relações de poder na contemporaneidade. cultura. O público e o privado . Ao analisar este caso.2009 Não desconhecemos a relação polêmica que a palavra “convênio” traz a este caso.

DAGNINO. em 1977. e a disponibilizar horário para a divulgação de assuntos de interesse do Governo do Estado. et al. Este primeiro contrato consistia num pagamento mensal que a Fundação de Telecomunicações do Pará (FUNTELPA). (PINHEIRO. é necessário desenvolver uma crítica a esse tipo de política de comunicação. já que as disputas políticas atualmente acontecem muito mais no plano simbólico e.. Essa lógica está baseada numa relação de clientelismo e favorecimento de uma parte da elite amazônica. consequentemente. que restringe a participação democrática no campo midiático. pela utilização de seus retransmissores em algumas localidades do interior do estado. Por este motivo. composta de empresários de comunicação e governantes.126 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Pensando sob a perspectiva de uma construção permanente da democracia2. pautando a circularidade dos significados nas lógicas dos mercados econômico e político. e as possíveis disputas de interpretação. firmado um contrato. Não se trata apenas de debater ou quantificar os prejuízos causados aos cofres públicos. na estruturação das dinâmicas culturais do Estado do Pará. é fácil perceber a lógica que norteou a política de comunicação do Estado do Pará entre os anos 1997 a 2006. 2 Apresentando o caso O caso apresentado aqui se inicia há mais de trinta anos. quando o Governo do Estado do Pará firma pela primeira vez um contrato com a empresa TV Liberal Ltda. com a denominação de convênio. ver a discussão de A L V A R E Z . comprometia-se a veicular a programação educativa da Funtelpa. descontínua e desigual. em que a empresa privada veiculava parcialmente sua programação. o que não encontra respaldo legal” (CARNEIRO. cultural. ESCOBAR (2000). sustentamos que as políticas de comunicação devem atuar a favor da construção de espaços públicos3 os mais ampliados possíveis. a palavra será sempre usada entre aspas. p. mas de observar questões mais complexas. afiliada da Rede Globo de Televisão no Pará. num processo hegemônico imbricado e mais complexo do que prevê o senso comum. e objetivando a manutenção do poder de uma elite local. Uma vez que a sociedade contemporânea é ambientada e estruturada pelo campo comunicacional. Ao ler os termos do “convênio”. 2007) . pela manhã. como o próprio desenvolvimento do processo democrático e como este tipo de política interfere na criação de espaços públicos. 3 Sobre a ampliação dos espaços públicos. demonstrados sucintamente na apresentação que segue. portanto. pois Sobre o conceito de democracia ver BOBBIO (2000). 2007. assim como a concepção de democracia como uma construção permanente. 7). na circulação de significados simbólicos e. Este posicionamento resulta na análise de políticas de caráter exclusivista. recebia da TV Liberal.

Em contrapartida pela utilização de suas retransmissoras de TV´s (. O público e o privado . finalmente. os vínculos entre as políticas de comunicação dos governos e a empresa. enquanto que os termos “RECEPTORA e RETRANSMISSORA” referem-se à Funtelpa. produzida. 27 de outubro de 1997. ao final do governo Jatene. referente às obrigações das partes.Nº 14 ..) através do serviço LIBSAT. prorrogou o convênio por mais 12 meses. de problemas gerais do Pará e de suas soluções possíveis. Ao final de 19974. 4 IV . percebe-se as premissas que dão sustentação à implementação do ‘convênio’: a lógica de integração do estado permeada por uma idéia de desenvolvimento econômico e cultural. a TV LIBERAL assegura à FUNTELPA a veiculação em todas as localidades aonde chegue sua programação (. de segunda à sábado. assumido por Ana Júlia Carepa. pela GERADORA5 e transmitida para todo Estado (. no primeiro intervalo comercial regional do Fantástico. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ.Julho/Dezembro . membro do Partido dos Trabalhadores (PT) no início de 2007.. mas queremos nos ater a uma mudança mais relevante.) do interior do estado. grifos nossos) Na segunda Cláusula do documento. no governo de Almir Gabriel. A cláusula primeira do documento publicado em 27 de outubro de 1997 no Diário Oficial do Estado do Pará. o contrato anterior foi reformulado. que aconteceu em 1997. em contrapartida. também do PSDB. O último aditivo. No período entre 1998 e 2006. 5 O termo “GERADORA” se refere à Tv Liberal. Pode-se questionar. via inserções propostas. visando a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações. sendo uma no primeiro intervalo comercial regional do Jornal Nacional..).. que abrange o segundo mandato de Almir Gabriel e o mandato de Simão Jatene. de assuntos concernentes aos objetivos e ao desempenho da Administração Estadual. neste trecho do texto. o texto prevê que a TV Liberal deveria. inclusive com o acompanhamento. 4. abrangendo o primeiro ano do mandato do novo governo do Estado do Pará. de duas inserções diárias de 90 (noventa) segundos cada. p.. desde este primeiro contrato. de numerosos temas de utilidade pública e conveniência para esta Unidade Federativa e seus jurisdicionados. a TV Liberal pagava também uma porcentagem de 1% de sua arrecadação publicitária veiculada nas cidades da região em que utilizasse os retransmissores da Funtelpa. . uma aos domingos. Além disso.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 127 Além disso.2009 O “convênio” foi firmado durante o primeiro mandato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).. foram publicados 14 aditivos ao “convênio”. recebendo o nome de “convênio”. Caderno 1. de reivindicações dos variados segmentos sociais e. ceder inserções de propaganda institucional em sua programação diária ao Governo do Estado do Pará. refere-se ao objeto e ao objetivo do “convênio”: O presente convênio tem por objeto a recepção pela FUNTELPA da programação local/regional.

é . assegura à FUNTELPA. (.) a divulgação em sua programação local/ regional de. VIII – A produção de todo o material a ser veiculado. a integração de todos os segmentos da sociedade.128 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos além de uma inserção de segunda a sexta feira. nos intervalos comerciais de sua programação. aos esforços dirigidos ao desenvolvimento do Estado. que compete à Geradora. uma inserção no primeiro intervalo comercial regional do Globo Rural. 15 (quinze) minutos semanais de temas que promovam a valorização das atividades econômicas. com a duração de 30 (trinta) segundos cada. artísticas. no vasto território paraense. alusivas à utilização do serviço LIBSAT. com exceção do previsto no item V. sendo 02 (duas) no horário matutino. por este instrumento. como veículo para informar a comunidade sobre atividades e matérias de interesse do Pará. 02 (duas) no vespertino e 02 (duas) no noturno. no mínimo. culturais e científicas do Estado do Pará.) Estas inserções também são pertinentes a Mensagens Institucionais do Governo do Estado. 06 (seis) mensagens institucionais do Governo do Estado. com o objetivo de integrá-lo. V – A TV LIBERAL. distribuídos em inserções nos intervalos comerciais da programação. em Convênio com a FUNTELPA. igualmente. sobre as atividades da administração e a divulgação de matérias de interesse do Pará e serão inseridas igualmente na área de cobertura da TV Liberal Canal 7 de Belém... contendo chamadas relativas às veiculações da Funtelpa previstas no Convênio.. assegura à FUNTELPA. a veiculação de mais 03 (três) inserções diárias de 15(quinze) segundos cada. colimando. 25 (vinte e cinco) minutos adicionais de espaço publicitário. também assegura à FUNTELPA (. VI – A TV LIBERAL. no primeiro intervalo comercial regional do Globo Ciência e aos domingos..) §3º .. (. no mínimo. no horário de 19:00 às 22:30 horas.. preservando e estimulando o desenvolvimento da economia e da cultura paraense. via moderno dispositivo de comunicação. mensalmente.A TV LIBERAL LTDA. VII – A Geradora se compromete a divulgar.

(CARNEIRO.(. p.Julho/Dezembro . p. notícias do Estado. que seriam: Em contrapartida pelos serviços técnicos de disponibilização de sua estação terrena. incluindo cobertura de eventos. o valor mensal de R$ 200. instalação e manutenção dos equipamentos de recepção e especialmente.) Produção de todo o material a ser veiculado. NETO.Nº 14 .Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 129 de responsabilidade exclusiva da FUNTELPA. Instalação e prestação de assistência técnica as suas expensas. 4) O público e o privado . que compete à TV LIBERAL. aos equipamentos de recepção do serviço LIBSAT.2009 6 Segundo o relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007). de sinais de radiodifusão de sons e imagens em áudio e vídeo.097. a partir de 1 de outubro de 1997.00 (duzentos mil reais) atualizado anualmente pelo IGP (Índice Geral de Preços)6. LUNA. para divulgação pela Funtelpa de toda a Programação Local/Regional da Geradora. a fatura de pagamento que data de janeiro de 2007. . noventa e sete reais e quarenta e sete centavos). 4 de maio de 2007. (idem. correspondia à R$ 461. sem qualquer ônus para a TV LIBERAL. 3) O “convênio” descreve ainda as obrigações da FUNTELPA. (Up Link) do segmento espacial do satélite Brasil Sat B1. a FUNTELPA pagará a TV Liberal. Caderno 1. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ. nas retransmissoras da Funtelpa. também fazem parte das obrigações da TV LIBERAL: Fornecimento ao sistema integrado estadual de retransmissão de televisão no Pará. analisando os termos do “convênio”. pelas inserções de que tratam as cláusulas IV VI e VII deste convênio. de sua propriedade. grifos nossos) Segundo o Relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007). da Região e dos Municípios. fornecimento. com exceção do previsto no item V. jornalismo. dentro dos prazos e das normas praticadas pela TV LIBERAL. utilizando seus equipamentos e processos exclusivos (LIBSAT). ibidem. em Belém.47 (quatrocentos e sessenta e um mil. com qualidade técnica satisfatória e compatível com o sistema e formato utilizado pela Geradora. devendo..000.. 27 de outubro de 1997. através de suas estações no interior. ser entregue a esta.

percebida como uma “fronteira em movimento”8. isso significa gastos com água. o governo afirma que até junho de 2008 serão retomadas as retransmissoras do interior do Pará.) sem correção. a Funtelpa arcava. diárias para as equipes de manutenção da capital visando conserto dessas retransmissoras.000. segundo as informações disponibilizadas pelo Governo do Estado do Pará7. enquanto que a programação veiculada em 78 municípios (dos 143 que compõe o estado) foi e será gerada pela TV Liberal até pelo menos junho de 2008. a região Amazônica foi alvo de políticas públicas que a consideravam como área estratégica para o desenvolvimento econômico e a manutenção da soberania nacional. a programação da FUNTELPA alcançava apenas a região metropolitana da capital paraense.00 (cinco milhões de reais). e ainda arca. posteriormente. foi o montante de R$35.12 (trinta e cinco milhões. em 1959. luz.) o valor total pago a TV Liberal durante o prazo de vigência do convênio. Além do valor pago diretamente a TV Liberal. no período dos governos militares (1964-1985). Anatel etc.... Propomos iniciar este debate analisando como a ideologia da “integração” atua para respaldar os processos de colonialismo interno. 2007. implementados recentemente no território amazônico. (. A idéia de “integração” pautou e ainda pauta a construção do imaginário coletivo sobre a região. p.806.050. com todas as despesas relativas às Retransmissoras de TV do interior que estão nas mãos da TV Liberal. Belém. é necessário pensar sobre os vários processos complementares que conformam a realidade da região amazônica. cinqüenta mil. 8 Sobre o conceito de fronteira em movimento ver VELHO (1979).130 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Até janeiro de 2007. da rodovia Belém-Brasília e. As Políticas de comunicação sob a ótica da integração Para compreender a lógica de uma política de comunicação como esta. que o valor estimado dos gastos indiretos com o convênio giram em torno de R$5. pela diretoria. A partir da inauguração. somando-se o pagamento mensal efetuado pela FUNTELPA a TV LIBERAL aos gastos relativos à manutenção das estações retransmissoras de TV – que são de responsabilidade da Funtelpa – chega-se a mais de quarenta milhões de reais em gastos do Estado com este “convênio”: (. veiculadas pela agencia de noticias do estado. . oitocentos e seis reais e doze centavos). Segundo 7 Em matérias jornalísticas recentes. Nos foi informado. a Agência Pará.000. (CARNEIRO et al. 4-5) Dessa forma. pessoal..

destinando a maior parte de sua programação aos programas da emissora nacional.110 km de um sistema de comunicação por microondas. . em que a empresa pagava ao Estado pelo “aluguel” de seus retransmissores. mas também por meio da implementação de um sistema de transmissão televisivas e telefônicas. 2006. Faz isso partindo de uma lógica neoliberal.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 131 Fábio Horácio-Castro (2006). permitindo que o protagonista que dinamiza essa nova integração. Além disso. pode-se afirmar também que muitos programas veiculados pela TV Liberal fazem circular significados que reiteram certa identidade amazônica. Completando este quadro. nos âmbitos da cultura e da comunicação. franqueados à rede Globo de Televisão. (CASTRO. em três anos. mantendo uma relação de tutela e clientelismo com a empresa.2009 9 Trata-se da distinção que não existe nas línguas latinas. Ver a esse respeito ORTIZ (2008). seja uma empresa privada. delegando ao mercado esta função. Em cinco anos.Nº 14 . p. num sentido distinto: o de relações de poder inerentes e imbricadas às políticas governamentais9. que continuava usando os retransmissores estatais.Julho/Dezembro . portanto diferente dos desenvolvimentistas e militares. e. para além da simples gestão administrativa que o termo “política de comunicação” implica. foram construídas cerca de 12 mil km de estradas e. ainda utilizando dos termos de uma “integração do estado” o Governo do Pará inverte os papéis do “convênio”. Queremos por em relevância a política. É sabido que as retransmissoras da Rede Globo de Televisão produzem e transmitem pouca produção local.5) É neste período que é situado o primeiro “convênio” feito entre o Governo do Estado do Pará e a TV LIBERAL. privilegiada pelo regime militar e que assim. ou seja. a TV Liberal tem a maior parte de sua produção voltada à região metropolitana de Belém. entre as várias estratégias de integração da Amazônia. entre politics e policy. foram implantados 5. mas reconfigura o processo de colonialismo interno no estado. Com isso queremos inferir que sempre existe uma relação outra. tornando-se ele próprio o locatário dos serviços dessa empresa privada. BARBALHO (2008). Em 1997. mote da campanha O público e o privado . empreendeu um projeto de padronização da linguagem e dos valores culturais através de sua programação. como existe no inglês. no entanto. conhecida como “paraensismo”. Nossa hipótese consiste em pensar que o Governo do Estado do Pará não apenas inverte a lógica da integração. porém. onde está seu centro de produção jornalística e publicitária. estava a implantação de redes de integração espacial: Sobretudo através da construção de estradas.

mídia e identidade cultural nacional ver o conceito de ‘Moderna Tradição Brasileira’ ORTIZ (1989). assim como são predominantes na formação das esferas públicas e da cidadania. Ou seja. difundidos pela retransmissora.10 A partir do debate acima. através dos meios de comunicação de massa e das indústrias culturais11. já podemos elaborar uma questão: numa sociedade em que os significados simbólicos circulam. principalmente. é bastante razoável concluir que. todos estes fatores acabam tornando mais contraditória e problemática esta suposta “integração”. além de possuir a máquina administrativa do Estado. também é razoável pensar num certo ‘monopólio de significados’. . as pessoas que não tinham disponibilidade de comprar uma antena parabólica recebiam apenas o sinal da empresa. tinha também uma contínua campanha publicitária durante quase 10 anos. em muitos municípios e localidades do estado do Pará. até que ponto a construção da democracia e do espaço público é afetada por uma política que delega o campo comunicacional. A relação de proximidade entre a principal rede de televisão do estado do Pará e o grupo político que compunha o governo do estado ainda proporcionava mais um privilégio: a larga vantagem que este possuía em relação aos outros grupos políticos. Num trabalho recente sobre a importância de legislar sobre as indústrias culturais e as empresas de comunicação. Néstor García Canclini (2001) afirma que os meios de comunicação são os principais formadores dos imaginários sociais na contemporaneidade. 11 Sobre o conceito de indústrias culturais ver BARBALHO (2008). Enfim. é necessário articular as demandas sociais com os aparatos comunicacionais presentes no entorno social: 10 Sobre a relação entre integração nacional. para além de uma visão estadista ou protecionista de cultura. Sendo assim. Para um aprofundamento na dialética da integração da Amazônia ao território nacional e as irrupções identitárias desta região ver o conceito de ‘Moderna Tradição Amazônica’ CASTRO (2006). que tinham várias inserções diárias (garantidas nos termos do “convênio”) na programação da Tv Liberal. Democracia. ao mercado. principal campo estratégico de construção de imaginários sociais. além de outros veículos utilizados.132 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos cultural dos governos do PSDB no período em que vigorou o “convênio”. espaço público e comunicação: intersecções Partindo das informações presentes no texto do “convênio”. durante esse período. porque. sob a ideologia de “integração e desenvolvimento”? É este debate que pretendemos seguir. Essa campanha cultural era veiculada pela propaganda institucional. que afirmam que apenas a TV Liberal dispunha da tecnologia necessária para a transmissão via satélite de sua programação. como informação e entretenimento audiovisual.

y que dicha articulación no se decide tanto en ‘el modo de producción’ como en las ‘condiciones de circulación’. p.). no es tanto la producción de sentido sino en su circulación donde se juegan proyetos de vida. Como situa Martín Hopenhayn: El campo decisivo de lucha en la articulacion entre cultura y política se da cada vez más en la industria cultural. En otras palabras. autoafirmación.Julho/Dezembro . e não na sua restrição e monopolização a partir da circularidade de um único discurso midiático. se agrava la brecha entre los informados y los entretidos al disminuir la responsabilidad del Estado por el destino público y la accesibilidad de los productos culturales. que realmente visasse “a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações”. sobre todo de las innovaciones tecnológicas y artísticas (CANCLINI. la cultura deviene política (HOPENHAYN. derechos. mucho más que en la producción. No se trata de que exclusivamente el Estado se ocupe de todo esto. apesar da construção permanente da democracia ser um processo descontínuo e desigual.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 133 Si el sentido de la cultura se forma también en la circulacion y recepción de los productos simbólicos (. 72 apud BARBALHO. quiénes decidirán lo que entra o no en la agenda pública. p 8) Assim. deveria ser pautada na possibilidade de ampliação e no aprofundamento de espaços públicos alternativos. p. 109) O público e o privado . uma política de comunicação eficiente. visiones de mundo y sensibilidades. 2008. La privatización creciente de la producción y difusión de bienes simbólicos está ensanchando la grieta entre los consumos de elites y de masas. sino de averiguar cómo coordinarlos para que todos participemos de modo más democrático en la selección de lo que va a circular o no. Um posicionamento de viés mais democrático tenderia a pensar a mídia como um espaço que deve ser disputado. En la circulación. partindo de pressupostos de politização da cultura. que reverberariam do e no tecido social. de identidades. estéticas y valores.Nº 14 .2009 . En tanto la tecnologia facilita la circulación transnacional. de quiénes y con qué recursos se relacionarán com la cultura.. En el campo de la circulación hoy dia se desarolla uma lucha tenaz. ni de volver a oponerlo a las empresas privadas.. molecular y reticular por apropriarse de espacios comunicativos a fin de plantear demandas. 2001. 2001.

and also the challenges for the construction of democracy in the contemporary Amazon. A consideração dessa dimensão implica desde logo uma redefinição daquilo que é normalmente visto como o terreno da política e das relações de poder a serem transformadas. mesmo que seja por uma reutilização das velhas argumentações inseridas do binômio “desenvolvimento e integração”: uma região sem cidades. and the Fundação de Telecomunicações do Pará. the TV LIBERAL. Along the analysis of the case. fundamentalmente. podemos pensar neste “convênio” como uma mostra de como reverbera no tecido social latinoamericano esse autoritarismo social. sua eliminação constitui um desafio fundamental para a efetiva democratização da sociedade. recorrentemente. p. FUNTELPA. it stands out the relations of power that permeate both communication and culture. também consituinte das bases das relações de poder em sua sociedade. no caso da Amazônia.104-105) Partindo dessas considerações. é um espaço restrito e de certa maneira direcionado. ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 06/03/2009 Aprovado: 10/05/2009 K ey W ords: Words: communication policies. democracy and public sphere in the Amazon. uma vivência de isolamento e exclusão. democracy. onde as leis dos mercados econômico e político passam a ser os reguladores sociais. constituído desde a colonização e baseado na experiência da dominação e da violência. significa uma ampliação e aprofundamento da concepção de democracia. ABSTRA CT : This article discusses the connections between communication policies. Observa-se que. Nesse sentido.134 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Portanto. . Acrescentando a essas relações sociais. de modo a incluir o conjunto das práticas sociais e culturais. amazon. o espaço público/midiático (que é um dos espaços públicos possíveis) que se desenvolve com esse tipo de política. E. culture. taking the case of the "agreement" between a telecommunication corporation of the State of Pará. Essa relação corresponde. public sphere. em larga medida. a região é tratada simplesmente como objeto de lucro e interesses privados. 1994. (AGNINO. tanto nas politicas públicas quanto na lógica do mercado. a um exemplo paraense do que Evelina Dagnino (1994) conceitua como autoritarismo social: O autoritarismo social engendra formas de sociabilidade numa cultura autoritária de exclusão que subjaz ao conjunto das práticas sociais e reproduz a desigualdade nas relações sociais em todos os seus níveis. uma concepção de democracia que transcede o nível institucional formal e se debruça sobre o conjunto das relações sociais permeadas pelo autoritarismo social e não apenas pela exclusão política no sentido estrito. sem homens e sem mulheres.

Comissão de Inquérito administrativo instituída pela portaria nº 049 de 07 de março de 2007.Nº 14 . 1988. O público e o privado . 2008. N. eorganizações ganizações identitárias na Amazônia brasileira Papers do Laboratório de Sociomorfologia. Cultura e desenvolvimento Ano I n° 1. CANCLINI.br/ downloads/RELATORIO_FUNTELPA.ufba. Porque legislar sobre industrias culturales. UFPA. _________..2009 . Rio de Janeiro: Paz e Terra.pdf . ORTIZ. Acesso em 03 de abril de 2008.Julho/Dezembro .php . LUNA.portalseer. ESCOBAR. DIÁRIO OFICIAL DO EST ARÁ.br/index. Belém. 2006.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 135 Referências ALVAREZ. São Paulo: Brasiliense. In Revista Nueva Sociedad. R eor brasileira. Futuro da Democracia: uma defesa das R egras do Jogo. BARBALHO. A. PARÁ ESTADO ARÁ ADO DO P Caderno 1. Belo Horizonte: UFMG. Disponível em http://www.php/pculturais/article/view/ 2618 Acesso em 21 de julho de 2008. 1994.cholonautas. 2001. Disponível em: http://www..gov. R elatório da Comissão Processante Processante. 2008. NETO. cultura e mídia. DAGNINO. São Paulo: Brasiliense. 2000. S. In Políticas Culturais em Revista. México: Septiembre-Octubre. Anos 90: política e sociedade no Brasil. Textos nômades: Política. E. CASTRO..edu.R. E. Acesso em 21 de julho de 2008. A. M. desenvolvimento. Disponível em http://www.pa. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil. DAGNINO. CARNEIRO. Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos.pe/biblioteca. A. F. Regras BOBBIO.. N.). 2000. R. (orgs. 27 de outubro de 1997. A moderna tradição brasileira.

campesinato: um estudo VELHO. O. Capitalismo autoritário e campesinato comparativo a partir da fronteira em movimento. São Paulo: DIFEL. 1979.terra. A.asp Acesso em 30 de maio de 2008. pode acabar Disponível em: In:Caros Amigos on line.136 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Funtelpa PINHEIRO. .br/nova/novas_2007_01_10. acabar. Tv Liberal:Mamata de 30 milhões com a F untelpa .com. http:// carosamigos.

já apontada no passado como reserva de mercado. principalmente como meio de entretenimento. com a informática no início de sua introdução. Palavras-chave: cinema brasileiro.2009 N . mas também como indústria que emprega considerável número de pessoas. cota de tela. o destaque é o produto audiovisual.Julho/Dezembro . desde o econômico até o educativo. como ocorreu. o Brasil ainda não tem uma produção estável e permanente que seja auto-sustentável. E-mail: anitasimis@gmail. as sociedades contemporâneas. No entanto. o presente trabalho busca analisar um dos instrumentos um dos instrumentos mais antigos e mais utilizados para proteger e assim fomentar a produção audiovisual nacional: a obrigatoriedade de exibição. por exemplo. Inserido neste contexto. hoje é habitualmente divulgada como cota de tela. obrigatoriedade de exibição.com. este trabalho analisa um dos instrumentos mais utilizados para alavancar a produção cinematográfica no Brasil. uma expressão imprecisa já que não reserva a totalidade do mercado para a exibição do filme nacional. a produção de bens culturais vem assumindo um papel determinante em diversos âmbitos. a chamada cota de tela. O público e o privado . Neste sentido. 137 A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis* Resumo: Procurando contribuir para alargar o campo dos estudos sobre a política cultural voltada para a produção audiovisual.Araraquara.Nº 14 .(*) Anita Simis é Professora do PPG em Sociologia da UNESP . Essa imposição. no caso do cinema.

já durante os anos 20. exibição. 1997. um para cada programa exibido nas salas de cinema. Referimonos à campanha liderada por Ademar Gonzaga e Pedro Lima. cerca de três meses antes de eclodir o confronto entre paulistas e o governo provisório de Getúlio. como disse Paulo Emílio S. antes dispersos pelo País. cujas reivindicações incluíam. . sem mediações e centralizadora. reivindicada desde os anos 20. Examinando-se o conjunto de seus artigos. importação ou ainda de exportação de obras cinematográficas. locação.240. isto é.1 Assim. Concebida como uma forma de coibir os abusos do mercado traduzidos pela má vontade dos exibidores e a ganância das companhias cinematográficas estrangeiras que procuravam impedir a entrada de novos concorrentes. alterada para a exibição compulsória de um filme brasileiro por mês. Paratodos e Cinearte que. o Decreto também diminuiu as taxas alfandegárias sobre o filme impresso. mas com uma redução 30% menor que a do filme virgem e centralizou a censura. o Decreto. afora ter estabelecido uma taxa alfandegária que facilitava a importação do filme virgem.138 Anita Simis Foi por meio de publicações como Selecta. pela primeira vez. iniciaram os contatos entre si. SIMIS. procuro mostrar como este decreto estava relacionado a um projeto para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica . fornecendo informações. “um marco a partir do qual já se pode falar de um movimento de cinema brasileiro”. 12. O decreto é ilustrativo de todas as intenções da política oficial e contém também os germes de grande parte das medidas introduzidas ao longo dos anos posteriores. essa legislação só foi efetivamente testada. e explicito porque esta via não foi trilhada pelos cineastas (Cf. reprodução. Vejamos como isso ocorreu. 1 Em outros trabalhos. foi baixado o Decreto 21. 2008). estimulando o diálogo e delineando assim. além da isenção de taxas alfandegárias para o filme virgem. Seus artigos sintetizam conveniências de vários setores. abrangendo um leque amplo de medidas. passou a ser exigida efetivamente durante o governo de Getúlio Vargas. a organização de programas com um filme nacional e um estrangeiro (estes obtidos em troca dos nossos). da forma como o Estado interveio nas atividades cinematográficas. cujo sentido interventor era trazer os conflitos expressos para uma solução disciplinadora. p. 2 Entre outras medidas.2 No entanto. comercialização. 54). tratando desde o cinema educativo até o cinema comercial. pois só entrou em crise no final dos anos 80. sejam elas de produção. os cineastas. da censura até a estruturação de órgãos estatais. Em 1932. permuta. Gomes (1980. instituiu a obrigatoriedade de exibição para os filmes educativos. a partir de 1934. depreendemos tratar-se de uma medida de caráter sistêmico que constituiu a base de um padrão ideológico e político da relação Estado/Sociedade e que perdurou por anos. agora ampliando-se a exigência para a exibição de um filme de curta metragem (e não apenas um filme educativo) em cada programa. venda. em seu art. Esta última.estável e permanente –. posteriormente. tornava-se a oportunidade de provar que o cinema nacional venceria pela qualidade e pela exigência das platéias. uma “tomada de consciência cinematográfica nacional”. pela primeira vez.

De fato. D. o número de empresas existentes havia triplicado.Nº 14 . a não ser a diferença de um para dez na taxação alfandegária imposta aos filmes virgens em relação aos filmes impressos. No entanto. Dois anos depois. as cópias dos 600 filmes produzidos multiplicaram-se por três. enquanto que seu principal concorrente. no período compreendido entre 1935 e 1939 houve um crescimento ascendente da produção de filmes nacionais (de 486 para 789). punição que compreendia a identificação das autoridades competentes para impô-las e arrecadá-las. apenas um terço das salas então existentes cumpriam o Decreto. pois para atender à exigência era necessário apresentar oito filmes por semana. Mas. Certamente o entusiasmo motivou iniciantes a entrarem na atividade. muitas delas semelhantes às atuais. com a obrigatoriedade de exibição para os filmes ressurge um clima de euforia. prejudicando a arrecadação com que contavam os produtores que passaram então a reivindicar que houvessem multas aos infratores.B. Era o princípio da formação da burocracia e da instituição de diversas medidas legislativas que procuraram combater às fraudes. Entre as diversas dificuldades encontradas. Constituiu-se.F. perdeu posições. já que os exibidores O público e o privado . tendo em vista que até 1939 não havia nenhuma outra medida legislativa de incentivo à produção cinematográfica. a Distribuidora de Filmes Brasileiros. uma distribuidora. Ora. encontramos a campanha veiculada na imprensa contra a obrigatoriedade de exibição. então. Quatro meses depois que a medida entrou em vigor. mas o grosso da produção se concentrou em algumas empresas. a obrigatoriedade de exibição para os filmes foi em grande medida responsável pela salvação da produção cinematográfica nacional. rebaixando os preços. tão cariocas quanto a sede do governo federal. toda esta efervescência também resultou em algo nem sempre suficientemente assinalado: o crescimento da produção do curta-metragem favoreceu a produção de filmes de longa metragem ainda que em números inferiores aos de anos anteriores (chegando ao máximo de 13 em 1940) pois também é preciso lembrar que trata-se de um período em que o cinema falado trouxe novas barreiras para o desenvolvimento do nosso cinema.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 139 Pelos dados numéricos obtidos em fontes oficiais.Julho/Dezembro . significativamente.2009 . o filme americano. estes resultados positivos e todo este empenho não foram suficientes para consolidar uma indústria cinematográfica nacional que pudesse competir com o produto estrangeiro. foram lançados no mercado cerca de 100 complementos com 330 cópias produzidas por 19 empresas. chegando em 1939 a indicar uma cifra menor que a de 1937 (de 1349 passou para 1496). com três cópias cada um. Além disso. para evitar que a fiscalização ficasse prejudicada e para que não houvesse concorrência entre as distribuidoras.

cuja exibição passou a ser exigida pelo DIP . e ainda co-produziu longas com outras produtoras. os cineastas se depararam com novas mudanças. Em 1940. bem aparelhada e com estúdios. mas que já havia produzido sucessos como Moleque Tião (1943). Por outro lado. sucessor do DIP . Ao mesmo tempo instituíram-se ainda os percentuais de locação e distribuição dos filmes de curta e longa metragem (nem sempre cumpridos) e igualou-se o prazo de permanência da exibição dos filmes nacionais e estrangeiros. a Atlântida. realizados a partir de 1938. um dos seis em 1937. duas se destacam: a Brasil Vita Filmes. estava a Cinédia. por exemplo. Inconfidência Mineira. e do SIA. se as influências patrimonialistas e as concessões pleiteadas. que se arrastou de 1936 a 1948. A medida favorecia uma empresa criada apenas alguns anos antes. a introdução da obrigatoriedade de exibição para o longa metragem. Foi com o Departamento de Informação e Propaganda –DIP. se abriu um 3 Os filmes oficiais compreendiam filmes do INCE. média e longa metragem de ficção ou não ficção) podemos notar que ela se manteve no mesmo ritmo dos anos anteriores. cinco dos oito em 1938 e três dos sete em 1939. No outro extremo.140 Anita Simis articularam novas formas de escapar do controle. Depois. seja agregando o mesmo complemento a várias casas de diversões. mas em seguida. quando foi de fato cumprida. e o início do Estado Novo. Do que foi exposto. a obrigatoriedade de exibição da longa metragem pode ter influído no salto ocorrido em 1940.que. a partir de 1946 nota-se o crescimento da produção de filmes de longa metragem. Com o golpe de 1937. antes mesmo da criação oficial do DIP . é preciso ter em conta que. De acordo com os dados. que havia produzido apenas três filmes de longa metragem antes da obrigatoriedade: Onde a Terra Acaba (1933). ocorreu em dezembro de 1945 -. seja dificultando a fiscalização ao exibir o filme ao final da sessão. não conseguiu manter seus estúdios trabalhando com continuidade. de um lado. ao menos nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. 4 . Favela dos Meus Amores (1935) e Cidade-Mulher (1936). Mas. produzindo apenas Argila (1940). É Proibido Sonhar (1943). considerando-se o volume total da produção (filmes de curta. do Ministério da Educação. determinada pelo Departamento Nacional de Informações. Com certeza. este crescimento se deu por conta da extensão da obrigatoriedade de exibição do longa-metragem de um para três filmes ao ano . Mais que uma conquista. Rua sem Sol (1954) e Rico Ri À Toa (1957). Certamente esta produção se refere mais aos filmes de curta metragem levando em conta que algumas empresas privadas trabalharam inclusive para atender às encomendas oficiais. e por isso mesmo rigorosamente cumprida. Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) ou Não Adianta Chorar (1945) e contava com uma produção de três a quatro filmes ao ano. tal medida (Decreto-lei 1949/39) foi instituída quando os curtas independentes ganharam um novo competidor no espaço destinado à exibição compulsória: os filmes oficiais3. de outro legitimaram e fortaleceram um modelo de intervenção estatal. chegando até a diminuir a produção de longa-metragens.que pela primeira vez se estipulou a obrigatoriedade de exibição para os filmes de longa metragem. Entre as empresas que produziram filmes de longa metragem neste período. além dos filmes do DIP. a Cinédia produz apenas Pureza. foi responsável pela produção de quatro longasmetragens de um total de sete em 1936. há uma perda considerável4. de sete para 13 filmes. atenderam às pressões das principais empresas cariocas. Com o fim da ditadura Vargas. do Ministério da Agricultura.

as propostas do setor produtor para romper com a crise visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação e foi assim que se formulou um novo critério para a proteção à produção nacional: a reserva de mercado proporcional. 6 Referimo-nos ao trabalho chamado “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”.Julho/Dezembro . Tal crescimento também estava estreitamente ligado ao avanço da Atlântida. mas não chegaram a recuperar as empresas. prejudicando muitas vezes o produto nacional que batia recordes de bilheteria. Se é certo que esse declínio provocou reflexão e pesquisa sobre a economia do cinema. e. tal qual a cota de tela para o curta. aumento que. os dois dígitos vão sendo paulatinamente num crescendo até atingirem 31 filmes em 1952. concluindo que o principal fator de crise era o preço dos ingressos cobrados naquele momento. como a transformação do filme nacional -com grandes expectativas de bilheteria. Na verdade. O mesmo ocorreu com os percentuais fixos de locação. por outro lado. gerou um número maior de filmes produzidos e empurrou em 1950 a obrigatoriedade de 3 filmes de longa metragem por ano para 6. posteriormente a Vera Cruz. embora estas últimas tenham vivenciado uma crise prematuramente. A ampliação da reserva de mercado para a exibição de longas com a modificação do critério que regulava a reserva de mercado. ainda que a exigência para a exibição de filmes não tenha proporcionado um ambiente tão propício para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica estável e permanente. não conseguiu romper com o sistema de lote. obrigando-o a adquirir um lote deles e a renda do lote. a mudança em 1952. . antes do Decreto 4. que continuou impedindo que filmes nacionais de sucesso se mantivessem em cartaz e ainda acarretou em distorções. Com isso se em 1945 tínhamos oito. como o relatório da Comissão Municipal de Cinema (1955)6. era dividida por igual entre todos os filmes. já que o produtor não raro negociava com o exibidor um percentual menor para obter a exibição de seu filme. Assim. em 1945. redigido por Jacques Deheizelin.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 141 espaço para o produto nacional.064/42. Com isso. Essa conquista foi ainda completada com a exigência de um representante do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica para colaborar na fiscalização e explica. de um filme de longa metragem para cada oito estrangeiros para um filme de longa metragem para cada oito programas de filmes estrangeiros. Maristela. foi fruto das pressões das empresas mais ativas Cinédia e Atlântida. por sua vez. uma seqüência de outros decretos reafirmaram a obrigatoriedade de exibição e deram algum alento para a continuidade. se o cinema tem um programa O público e o privado . e Multifilmes. a famosa “lei 8X1” de 1951. as medidas tomadas amenizaram a situação.Nº 14 . Mas. bem como ao surgimento da Vera Cruz e suas primas Maristela e Multifilmes. como vimos aumentou-se de um para três o número de filmes de longa-metragem exigidos para serem exibidos nas salas de cinema.em cabeça-de-lote5.2009 5 O sistema de lote impedia o exibidor de escolher os filmes de longa metragem isoladamente.

2. e também corresponde no mínimo a 42 dias de exibição. 1. foi estipulada a cota de filmes nacionais para a televisão: um para cada dois estrangeiros (Decreto 50450). 56 dias por ano. em 1961. a partir do governo Collor. em 1959. 3. a ser estipulada pela proporcionalidade. Concine n. se tem dois. nem o ano e fixa em 140 dias a quota para salas que funcionam os 7 dias da semana.140 Na verdade a proporcionalidade e as várias portarias a ela relacionadas refletem as várias pressões contra e a favor da obrigatoriedade de exibição e as formas de fiscalizá-la e significa mais um paliativo. 84. 4. para 28. em 1969. que em 1962 foi prorrogado pelo Decreto 446 e. Podemos dizer que o critério da proporcionalidade não chegou a aumentar a cota de tela e ainda gerou críticas ainda mais incisivas. seis filmes deveriam ser nacionais. em 1975. em 1970. alterada para um filme nacional por semana na televisão que não exceder 50% do preço médio de filmes para a TV (Decreto 697). A partir da Resolução Concine n. e finalmente. a Res. 7 Outras quatro resoluções reiteram os 140 dias para o período de 1980 a 1983. a obrigatoriedade de exibição nas salas de cinema foi paulatinamente aumentando o número de dias. Apenas o critério é alterado: a obrigatoriedade de exibição de seis filmes ao ano. 2008b). verifica-se uma queda: em 1992 a obrigatoriedade cai de 140 dias/ano para 42 dias/ano. ainda hoje utilizado. uma moeda de troca (Getúlio Vargas atendia uma das reivindicações mais solicitadas e assim conseguia amenizar as críticas e a oposição em relação ao projeto que encomendara a Alberto Cavalcanti: o projeto do Instituto Nacional de Cinema) que um dispositivo partícipe de uma política sistêmica.142 Anita Simis semanal. 12. . passa. finalmente. é fixado o critério. 18 e assim por diante. 4. Em 1963. 63. entravam os filmes de curta metragem com a exigência de 28 dias por ano. 84 e depois 98. críticas que argumentavam ser uma proteção que antecede a uma produção de filmes significativa e de qualidade. baseando-nos na cronologia da legislação. de 22/10/19768). em 1973. 8 Se avançarmos nossa análise sobre as medidas de imposição da exibição de filmes que foram tomadas ao longo do tempo. art. 35 dias por ano (esta só vai ser revogada pela Res. 171 já não especifica a programação. consultar outro trabalho onde apresento uma retrospectiva das principais resoluções e observações sobre todo processo da chamada Lei do Curta ( SIMIS. /62. foi de 42 dias. se tem três. que se traduz em 42 dias de exibição.Atualm. É interessante notar que não houve diferença substancial em termos do número de dias de exibição compulsória dos filmes nacionais entre 1950 e 1963. em 1994. até 1963. 112. em 1971. do número fixo de dias de exibição por ano. 4. em 1973. Em 1988. Parece haver um lapso na legislação sobre o período de 1984 a 1987. em 1951.a partir de 1963. em 1978. que. de 1950. podemos resumir assim a temática: 1. sobre a cota de tela do curta. 133 e depois 1407. depois.

realizada por Alfredo Palácios no início dos anos 60 e seguida de Cidade Aberta e Águias de Ouro. após termos produzido. ou local de exibição geminados ou não. sobe para 49 dias. notada pelos cineastas brasileiros como uma nova janela para se desenvolver. e a partir de então ela irá oscilar para cima e para baixo e em função do número de salas: em 1996. portanto ainda sob o regime militar. é o que efetivamente passou a vigorar em 2008. .A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 143 5. em 2003. Esse resumo sugere algumas observações interessantes: 1. a primeira centena. em 2000 baixa para 28. mesmo sem prever financiamento. 10 Para o ano de 2004 ficou fixado em sessenta e três dias por sala. embora já respirando o ar da democracia. a partir de 1968. Com o desaparecimento de diversos mecanismos e instituições na área O público e o privado . 35 dias (para uma sala) por ano9. Talvez não seja exagero afirmar que. que durante o período do regime militar a obrigatoriedade para filmes nacionais alcançou o seu ponto máximo: 140 dias por ano nas salas que mudassem sua programação de uma a três vezes por semana e funcionassem sete dias por semana. espaço. 11 Esclarecemos que as datas aqui se referem à data da legislação. foi a prevalência da ideologia neoliberal que refletiu na política cinematográfica e temos um novo ciclo. Assim. analisando o ritmo da produção neste período. o que foi estipulado em 2007.2009 9 O Decreto fixa o número de dias por ano em que deverão ser exibidos filmes nacionais nos cinemas de acordo com o número de salas das empresas cinematográficas. a cota de tela certamente contribuiu para incentivar uma produção de mais de meia centena de filmes e sem dúvida chegou aos 140 dias. em 2004. em 2002. estipula-se filmes de longa metragem por 63 dias por ano10. o mesmo que foi estipulado em 200711. a produção não parece ter avançado depois disso. localizados em um mesmo complexo e pertencentes à mesma empresa.Nº 14 . segundo consta de seu registro na Agência Nacional do Cinema . portanto. Assim. ou seja. em 1978. que o filme na televisão já era uma realidade que avançava e. a partir do governo Collor. volta-se para 2 filmes de longa metragem por 28 dias (para uma sala) por ano. Neste período outras formas de intervenção se articularam. novamente 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano e em 2006. No entanto. sobe para 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano. neste mesmo ano. embora os reflexos dessas medidas no cinema nacional sejam difíceis de avaliar. 2. em 1997. podemos afirmar que a obrigatoriedade de exibição é fruto e ao mesmo tempo agente (até porque em diversos momentos forçaram o seu aumento). a legislação para esta modalidade tenha incentivado a produção da primeira série de filmes para a TV da América Latina: Vigilante Rodoviário.Julho/Dezembro . 3. principalmente os financiamentos realizados primeiro com o Instituto Nacional de Cinema e depois com a Embrafilme.

em cada caso). SIMIS. que em 2006 eram obrigados a exibir pelo menos 35 dias de filme nacional por ano. Posteriormente. em 2007 foram obrigados a passar filmes brasileiros por só 28 dias. os filmes brasileiros passaram a ter menos espaço nos cinemas menores e ganharam nos complexos com mais salas. espaços ou locais de exibição comercial geminados ou não. Os de duas salas. para 126) e quatro salas (de 224.144 Anita Simis cultural e cinematográfica. Nos cinemas entre cinco e oito salas. por exemplo. certamente concluiria que ela contribuiu para a sobrevivência da produção nacional na medida em que garantiu a exibição dos seus filmes. aumentando a intervenção do Estado e. Assim. Uma avaliação genérica sobre a reserva de mercado. Paulo Emílio Sales Gomes (1981. inúmeras salas deixaram de cumprir a obrigatoriedade de exibição. no total. cinemas de apenas uma sala. Em 2006. sob diversos governos e regimes. por meio de recursos impetrados.287) tinha razão quando afirmava que o produtor “se interessa por uma legislação de amparo ao cinema . desde sua criação em 1948 (Cf. os complexos exibidores formados por salas. p. 441 e 448. as cotas permaneceram as mesmas (280. este expediente foi usado no Brasil durante anos. ela sobe um pouco: 49 dias em 1997. agora passaram que exibi-las por 70 dias ao todo (35 em cada). 378. mas tornou a legislação cada vez mais complexa. A redução valeu também para os cinemas com três (de 147. Foi também utilizado em diversos países e por isso mesmo curiosamente constituiu-se na única exceção entre os dispositivos constantes no GATT. por exemplo. Em 2000 há uma alteração na legislação em decorrência das profundas transformações do setor exibidor. especialmente nos períodos ditatoriais. 1999). o que correspondia a 42 dias em cada). foram abertas 546 salas Multiplex no Brasil. por isso mesmo muitas vezes fortalecendo posições e atores autoritários. com diferentes modalidades e ainda o é. isto é. embora sob diferentes modalidades. para 196). antes obrigados a projetar produções nacionais por 84 dias (somadas ambas as salas. A partir de então. em 2007. as cotas representaram cerca de 14% do mercado para filmes nacionais. existentes sob o mesmo teto e pertencentes à mesma empresa: entre 1997 e 2003. a obrigatoriedade recuou para um número de dias muito inferior e mesmo assim. FSP Filme nacional perde dias de exibição em cinema pequeno 30/12/06 Conclusão Chamada de reserva de mercado. obrigatoriedade de exibição ou cota de tela (ou ainda cota de projeção).

1981. ou seja. RJ: Paz e Terra. deslocando a grande disputa entre cineastas e o tradicional exibidor das salas de cinema para os produtores de conteúdo audiovisual e os programadores de mídias. sem estarem inseridas em um projeto integrador.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 145 nacional mas não passa por sua cabeça que o objetivo final possa ser o de colocar os filmes brasileiros em pé de igualdade com os estrangeiros. Artigo Recebido: 10/11/2008 Aprovado: 05/12/2008 politics turned to the audiovisual production. outros atores irão compor o cenário. nos outros governos as medidas visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação.2009 . Mesmo assim. com prioridades e metas claramente definidas.12 É possível inclusive identificar desde já que se as formas de como reservar parte do tempo de exibição de filmes nos cinemas foram mudando ao longo dos anos e incorporaram sempre novas fórmulas para exigir que fossem cumpridas. exhibition obligation. percebe-se que se com Vargas o cinema estava inserido num projeto mais geral.240/32). que impõe cotas de programação nacional aos canais de TV paga e obriga as operadoras a oferecer mais canais de conteúdo nacional. que seja o resultado de um diagnóstico da atual situação do audiovisual. não havia uma projeto para o desenvolvimento da indústria cinematográfica e a cota de tela era apenas um dispositivo emergencial. Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura de São Paulo. Cinema Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme. 1980. GOMES. this work analyses one of the most used instruments to increase the cinematographic production in Brazil. Paulo Emílio Sales. fica a questão: é uma disputa que irá fortalecer nossa produção audiovisual. comparando-se o período da política implementada por Getúlio Vargas (Decreto 21. Referências COMISSÃO Municipal de Cinema. Paulo Emílio Sales. dificilmente irão contribuir para o desenvolvimento de produtoras de audiovisual fortes e estáveis. Neste sentido. the so called screen quota. ainda em seu primeiro período democrático. São Paulo. “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”. por mais sedutoras que possam parecer.Nº 14 . diversificado conteúdos e empregando um contingente expressivo de trabalhadores? ABSTRA CT : Trying to contribute to enlarge the field of studies about the cultural ABSTRACT CT: 12 Ver sobre o Projeto de Lei 29/2007. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. GOMES. O público e o privado . com diversos outros períodos. vol.2.” Assim. K ey W ords: Words: brazilian cinema. 1955 (mimeo).Julho/Dezembro . mesmo as medidas que hoje tem proposto novas cotas em novas mídias. Crítica de Cinema no Suplemento Literário Literário. especialmente a televisão aberta ou por assinatura. do deputado Jorge Bittar. screen quota.

Araraquara. olítica olítica. 1999. Anita. Disponível em www. . 1. n. Estado e cinema no Brasil 2008a. . 1997. O GATT e o Cinema Brasileiro. 103-9.politicasculturaisemrevita. 2008. In: Revista SIMIS. Revista SIMIS.br. p.146 Anita Simis Brasil.ufa. In: Políticas Culturais em R evista no. Concine 1976-1990. Curitiba: Departamento de Ciências Sociais da Política de Sociologia e P UFPR. evista. SIMIS. . Anita. Annablume. ano I. Anita. nº 9. p. 1. São Paulo. 2ª edição. 2008b. vol. Cenários . Cinema e cineastas em tempo de Getúlio Vargas.75 a 80. Anita.Revista do Grupo SIMIS. de Estudos Interdisciplinares Sobre Cultura e Desenvolvimento. Acesso em: 20 ago. 1.

2009 (** (**)Este trabajo se ha realizado en el ámbito y con la ayuda del proyecto Cultura. Albornoz* Resumen: El presente artículo propone. sociedad y televisión en España (19562006).Nº 14 . I ntroducción Uno de los debates actuales en el campo de las ciencias sociales tiene como eje los potenciales efectos nocivos de algunos contenidos audiovisuales. A modo de conclusión. Una primera versión de este artículo fue presentada al 1er.Julho/Dezembro . especialmente aquellos dirigidos a niños y adolescentes.(*) Luis A. Las distintas sociedades han establecido diferentes O público e o privado . considerando la realidad española. sistemas de clasificación. E-mail: lalbornoz@falternativas. como películas cinematográficas. 147 Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España** An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A. Dirección General de Investigación 2006/ 03962/001. esboza una serie de reflexiones acerca de los retos y las perspectivas que hoy en día plantean los sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales tanto para los organismos estatales y los agentes de las industrias culturales como para distintas organizaciones de la sociedad civil involucradas. Albornoz é Profesor da Universidad Carlos III de Madrid. autoregulación. considerados como los colectivos más vulnerables de la población1. Ante este panorama emerge con fuerza la demanda de indicadores claros y objetivos que ayuden a conocer qué tipos de productos audiovisuales son los más adecuados para los diferentes grupos de edades. programas de televisión o videojuegos. políticas públicas.org. un recorrido por los sistemas nacionales de clasificación de contenidos audiovisuales que en la actualidad afectan al consumo de un gran número de productos culturales. Ministerio de Educación y Ciencia. Palabras-chave: Audiovisual. Congreso Nacional de .

148 Luis A. se han ensayado nuevos sistemas de clasificación. . Ahora bien.). Universidad de Sevilla. Al respecto ver los trabajos que desde 1998 vienen editando las investigadoras Cecilia von Felitzen y Ulla Carlsson en el Centro Internacional de Intercambio de Información sobre Niños. Sony Pictures. sector privado y sociedad civil. ¿deben ser las propias empresas productoras y distribuidoras?. en el marco de las democracias capitalistas. Universal y Warner Bros.gu. 7-11 y 11-16 las que se corresponden con la capacidad de realizar tareas mentales” (Shor. los criterios de calificación de las obras audiovisuales no se encuentran armonizados. Disney. que complementan la clasificación por franjas de edades. que aglutina a los principales estudios (Paramount. en un contexto caracterizado por un crecimiento de la oferta audiovisual y la multiplicación de canales/soportes de acceso a ésta. es la clasificación de contenidos por franjas etarias basada en criterios de índole psicopedagógica referidos al desarrollo evolutivo de los niños2.nordicom. la arista política del debate pasa por determinar quién o quiénes tienen el deber y la responsabilidad social de establecer las relaciones entre determinados productos audiovisuales y determinadas franjas de edades: ¿son los poderes públicos?. 17 de noviembre de 2006. son los principales agentes privado-comerciales los encargados de establecer sus propios criterios y de auto-cumplirlos voluntariamente. En los últimos años.se/ clearinghouse. en los países que integran la Unión Europea la calificación de las obras audiovisuales corre por cuenta de organismos estatales3. Jóvenes y Medios de Comunicación (con el apoyo de la U N E S C O ) : www. 20th Century Fox. programas de televisión (y spots publicitarios) y videojuegos / juegos de PC. como los denominados “pictogramas de temática”. 2006 : 33). En el caso español. en el segundo. o diversos dispositivos de identificación de usuarios para poder utilizar dispositivos electrónicos. el sistema audiovisual cuenta con sus propios sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales -los cuales implican distintos tipos de relaciones entre Estado. comunicación y cultura”. “La mayoría de los investigadores sigue un modelo de desarrollo piagetiano. 2 1 mecanismos de defensa que tienen por finalidad ofrecer una guía a los responsables de los menores (padres y/o tutores) sobre las características de los productos audiovisuales en circulación. Si en el primer caso el Estado dicta las reglas de juego. El más común de éstos. el cual distingue distintas etapas para las edades 3-7. lo cual puede generar importantes obstáculos a la Las películas cinematográficas: control estatal Mientras que en Estados Unidos la clasificación de largometrajes y cortos cinematográficos corre por cuenta de la propia industria a través de la patronal Motion Picture Association of America (MPAA).php?portal=publ. 3 Si bien la mayoría de los Estados posee nociones similares sobre conceptos como pornografía o incitación a la violencia. Albornoz ULEPICC-España “Pensamiento crítico.que atañen básicamente a tres tipos de productos: películas cinematográficas. controla su cumplimiento y sanciona a los infractores. ¿es posible que recaiga en grupos sociales significativos o colectivos profesionales? Así cada sociedad se ha dotado de diferentes mecanismos donde la regulación y la auto-regulación del sector se manifiestan como los principales.

entre siete y diez. a través de una comisión encargada de dicho menester conformada por representantes de asociaciones de padres. Cultura y Deporte de España con apoyo de la Comisión Europea).com/media/docs/ 68218096. Para todos los públicos.2009 circulación de algunas las películas. de fomento y promoción de la cinematografía y el sector audiovisual audiovisual. se recomendó: “se debería estudiar la adopción de sistemas análogos de calificación para el cine. entre otros elementos. Para que una obra sea calificada debe presentarse al ICAAA una solicitud junto con una copia de la película (en el caso de aquellas películas no habladas en alguna de las lenguas oficiales -castellano. La calificación de las obras cinematográficas. el DVD y la televisión. organismo dependiente del Ministerio de Cultura. y los ministerios de O público e o privado . celebrado en mayo de 2002 en Sevilla. al mecanismo poco transparente de elección de los responsables de calificar la producción cinematográfica (la cual es presidida por el responsable del ICAA y sus vocales. Película X (No aptas para menores de edad debido a su carácter pornográfico y/o al empleo de imágenes violentas. . Existe una comisión encargada con carácter exclusivo. Estás obras sólo pueden exhibirse en salas X). No recomendada para menores de 7 años de edad.Nº 14 .doc. No recomendada para menores de 18 años de edad. distribuidores y exhibidores que la protección de la defensa de los niños y jóvenes.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 149 En España cualquier película antes de su exhibición pública (incluyendo las promociones) debe ser calificada obligatoriamente. la Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas.debe incluirse la traducción de los diálogos). se está estudiando la promulgación de una nueva normativa -reemplazaría la actual Ley 15/2001.Julho/Dezembro . eusquera o gallego. que aplica el sistema siguiente Sistema de clasificación por edades a las películas cinematográficas u obras audiovisuales: Especialmente recomendada para la infancia. tiene validez en todo el territorio español. del mundo audiovisual. Actualmente (finales de octubre de 2006). catalán. de 9 de julio. apuntaría a reestructurar la calificación de películas por edades. psicólogos. Así en las conclusiones del s e m i n a r i o “Seguimiento de la Comunicación sobre el futuro de la i n d u s t r i a cinematográfica y audiovisual” (Ministerio de Educación. principalmente.que. La actuación de la Comisión de Calificación ha recibido críticas diversas de grupos conservadores debido. regida según el Real Decreto 81/1997.mediacat. Una Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas que pertenece al Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA). asume esta tarea. Ver en la Web: www. educadores. que respetando sus diferencias culturales otorguen una seguridad a la circulación de obras y películas”. son nombrados por el Ministerio de Cultura) y a la sospecha de que a la hora de calificar muchas películas pesan más los criterios económicos que favorecen a productores. No recomendada para menores de 13 años de edad.

en manos del Partido Socialista Obrero Español (PSOE). debemos señalar que desde 1994 rige en territorio español un horario de protección al menor -contemplado en la Directiva europea de Televisión sin Fronteras6. En medio de una amplia polémica por la calidad de los programas emitidos por los operadores hertzianos de ámbito nacional. los c a m b i o s injustificados en los contenidos de las parrillas. tiene la competencia de controlar el contenido de las e m i s i o n e s televisivas. Internet. En primer término.150 Luis A. los contenidos televisivos dedicados a niños y adolescentes son una permanente preocupación de expertos. investigadores y Administraciones relacionadas con la televisión. A diferencia de lo que ocurre en la industria cinematográfica. Dicha plural comisión tendría a su cargo la calificación de “todas las obras audiovisuales que vayan a ser emitidas o exhibidas en salas. Durante 2004 la Secretaría abrió 147 expedientes por infracción de la legislación vigente en cuestiones relacionadas con los contenidos. la infancia y la educación.que abarca una franja horaria que se extiende desde las 6:00 horas de la mañana hasta las 22:00 horas de la noche. la regulación de los contenidos televisivos en España está. Asuntos Sociales.000. más allá de las 00:00 horas”7. Veo TV. elaborado por el Instituto Oficial de Radio y Televisión (IORTV) de Radiotelevisión Española (RTVE) y la Dirección General de las Familias y la Infancia. de los cuales 34 se transformaron en multas por un total de 3. durante 2005 abrió 107 expedientes que acabaron con 25 multas por un total de 3. Los expedientes tuvieron sus orígenes en la emisión excesiva de publicidad. Antena 3 de Televisión y Sogecable) el “Acuerdo para el fomento de la autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia”8. en marzo de 2005 entró en vigor el “Código de Autorregulación sobre contenidos Televisivos e Infancia”10 que. del Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. Gestevisión Telecinco. y Net TV) y las televisiones públicas de ámbito regional. Cultura. Albornoz Ver Borja Hermoso: “El Gobierno pretende financiar el cine español gravando el El americano”.000 niños y niñas ven televisión después de las 22:00 horas. y unos 200. en manos de los propios licenciatarios. La Secretaría de Estado de Telecomunicaciones y para la Sociedad de la Información. La Sexta). fuera del horario protegido. Madrid. establece: . parcialmente5. Sin embargo. profesionales. A éste se sumaron durante 2006 las nuevas televisiones hertzianas nacionales (Gestora de Inversiones Audiovisuales La Sexta. Como consecuencia de la firma de este acuerdo. agrupadas en la Federación de Organismos de Radio y Televisión Autonómicos (FORTA)9. así como la Oficina de Defensor del Menor y los consejos audiovisuales.4 millones de euros. 5 4 Educación. Justicia. etcétera”4. televisión. en resumidos términos. firmó un acuerdo con las principales compañías de televisión (Televisión Española. el pasado 9 de diciembre de 2004 el actual Gobierno español. Mundo. dependiente del Ministerio de Industria.7 millones de euros. 7 de octubre de 2006. videojuegos. la existencia de tal franja no garantiza la pretendida protección ya que “cerca de 800. Turismo y Comercio. la emisión Los programas de televisión: la apuesta por la autorregulación Como señala el informe “Programación infantil en televisión: orientaciones y contenidos prioritarios” (2005).

los informativos y la publicidad”. La transposición española se realiza a través de la Ley 25/ 1994. reglamentarias y administrativas de los Estados miembros relativas al ejercicio de actividades de radiodifusión t e l e v i s i v a .2009 de publicidad encubierta o perjudicial a menores. tríptico publicado por el Instituto de RTVE y el Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. en multitud de regulaciones diversas: sobre la protección de la infancia y la juventud. sobre publicidad. del Consejo de la Comunidad Europea. No recomendados para menores de 7 años de edad (NR 7). elaborada teniendo en consideración las calificaciones por edades otorgadas por el ICAA a las películas cinematográficas (en especial las no recomendadas para los menores de 13 años de edad): Especialmente recomendadas para la infancia. incluso desarrolle los principios del código estableciendo mayores exigencias. etc. “Infancia y c o n t e n i d o s audiovisuales. fundamentalmente. A fin de evaluar el cumplimiento del Código se han puesto en funcionamiento dos órganos: un Comité de Autorregulación compuesto por operadores. 6 Directiva 89/552/ CEE del Consejo. en normas que ya se encuentran en vigor. sobre la coordinación de determinadas disposiciones l e g a l e s . No recomendados para menores de 18 años de edad (NR 18). 2006). las cadenas se comprometen a poner especial cuidado en la aparición de los menores en los programas de entretenimiento. O público e o privado . Normas de señalización de las emisiones televisivas.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 151 Una tipología de programación compuesta por cinco categorías de programas. Mediante la suscripción al código. de 3 de octubre.”. Desde el preámbulo del Código de Autorregulación se subraya que el mismo es sólo una suerte de común denominador de mínimos iluminado por normativas en uso: “La adopción de este código no impide que cada operador mantenga su propia línea editorial o normas deontológicas internas. Se fijan unas guías o principios inspirados. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (Madrid.Nº 14 . Una diferencia entre “público infantil” (menores de 13 años de edad) y “público juvenil”. dirigido a los padres y/o tutores de menores de edad. domingos y festivos nacionales. No recomendados para menores de 13 años de edad (NR 13). Estas franjas horarias abarcan los siguientes días y horarios: lunes a viernes. las televisiones se comprometieron a “respetar unos principios de protección de los menores en la programación que se emite durante el horario señalado evitando la emisión de determinados contenidos y fomentando el control de de los padres para facilitar una selección crítica de los programas. y el exceso de interrupciones durante la emisión de programas. sobre la protección de la salud y del derecho al honor.rtve. Para todos los públicos. modificada por la Ley 22/1999.Julho/Dezembro . y establece una “franjas de protección reforzadas” para el primero en las cuales no pueden emitirse programas calificados como no recomendados para menores de 13 años de edad. o que.es/oficial/ 7 . modificada por la Directiva 97/36/CE. de 9:00 a 12:00 horas. de 8:00 a 9:00 horas y de 17:00 a 22:00 horas. Disponible en la Web: www. y sábados. pero de manera dispersa. Adicionalmente.

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i o r t v / tripticoinfancia.pdf (consultado el 20.X.2006).
8

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ Te x t o s / A c u e r d o / Acuerdo.htm.
9

productores de contenidos y periodistas, cuya misión es emitir dictámenes relativos a las dudas o quejas que puedan plantearse; y una Comisión Mixta de Seguimiento integrada por ocho miembros representantes de los canales de televisión, productoras, periodistas y asociaciones de padres, de telespectadores y de protección de la infancia y la juventud. Esta última Comisión ha puesto, en marcha, entre otras iniciativas, el sitio web TVInfancia.es (www.tvinfancia.es) donde los telespectadores pueden encauzar sus reclamaciones. A falta de un organismo regulador independiente en materia audiovisual 11 que vele por el cumplimiento del Código, la responsabilidad cae en los televidentes. El pasado mes de junio de 2006 la Comisión Mixta de Seguimiento dio a conocer su primer informe -de carácter obligatorio, anual y público- en relación al cumplimiento del Código. En el mismo se indica que el Comité de Autorregulación recibió un total de 124 quejas por la difusión de contenidos potencialmente perjudiciales para menores; se trató, principalmente de imágenes violentas, amenazas, empleo de lenguaje inapropiado y discriminación por razones de sexo. GRÁFICO 1: RECLAMACIONES SOBRE TV POR TEMAS

La auto-regulación de contenidos no es nueva en el panorama español; ésta registra su primer antecedente en el año 1993 cuando los operadores de televisión firmaron un primer acuerdo destinado a salvaguardar la infancia y la juventud de contenidos potencialmente nocivos.
10

17% 40%

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ T e x t o s / CodigoAutorregulacion/ Codigo.htm.
11

Comportamientos sociales Violencia Sexo 23% Temática conflictiva

20%

Cuya creación ha sido sugerida tanto por el Consejo de E u r o p a (Recomendación 23 del año 2000) como por el Consejo para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado en su Informe (febrero de 2005).

Fuente: Comisión Mixta de Seguimiento del Código de Autorregulación de Contenidos Televisivos e Infancia, Madrid, junio de 2006. Todos los porcentajes se han redondeado al entero más próximo.

Del total de 124 quejas recibidas, la gran mayoría de éstas (el 87,9 por ciento) fue dirigida contra las emisoras privado-comerciales Tele 5 y Antena 3. Sin

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

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embargo el Comité sólo estimó doce (seis a cada una de las emisoras nombradas), es decir un 10,6 por ciento… a todas luces un porcentaje muy bajo. Tanto los representantes de agrupaciones de espectadores, como la Asociación de Usuarios de la Comunicación (AUC) o la Agrupación de Telespectadores y Radioyentes (ATR), como los defensores del Pueblo o del Menor de la Comunidad de Madrid coincidieron en calificar de “decepcionante” el resultado de la aplicación del Código de autorregulación. Así, por ejemplo, el tercer informe presentado por la ATR12 establece que a excepción de La 2, de Televisión Española (TVE), el resto de las señales no han modificado su programación con la finalidad de cumplir con el Código. Asimismo, en relación al sitio TVInfancia.es el informe concluye que “una página web que podría haberse convertido en una eficaz plataforma para el diálogo social (…) ha resultado ser un instrumento poco actualizado, poco visitado y, de momento, ineficaz como cauce para canalizar las reclamaciones sobre niveles de cumplimiento del Código. No existen de momento datos en la web de las quejas planteadas y las resoluciones emitidas por el Comité”.

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Los videojuegos: la escala europea
Otro frente polémico que ha impulsado la necesidad de contar con un sistema de clasificación es el abierto por los videojuegos, gran puerta de acceso a la producción multimedia para la nueva generación. Consiente de las numerosas críticas que despertaron entre padres y educadores el contenido violento de varios de los videojuegos más vendidos, el primer impulso de clasificación de contenidos provino del sector privado. En abril de 2001 la Asociación de Española de Distribuidores y Editores de Software de Entretenimiento (AEDESE) impulsó un Código de Autorregulación, con el apoyo de las Administraciones Públicas de Consumo y Protección del menor. Sin embargo, como consecuencia de la integración económico-jurídica de los países miembros de la Unión Europea, las distintas reglamentaciones sectoriales de carácter nacional están siendo modificadas y “armonizadas” a nivel continental. Así, con la participación de gobiernos, empresas creadoras y distribuidoras, se ha impulsado la creación de una catalogación a nivel europeo: el código PEGI13. Se trata del primer sistema a escala europea, gestionado por miembros de la industria junto al Instituto Holandés de Clasificación de Material Audiovisual (NICAM), en establecer una clasificación por edades para los videojuegos y los juegos de
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

ATR-Villanueva: “III Informe ATRVillanueva. Seguimiento del Código de Autorregulación (firmado el 9 de diciembre de 2004). Horario de protección reforzada de la infancia”, Madrid, 15 de junio de 2006. Este informe da cuenta del trabajo de campo realizado a partir del visionado de la programación emitida por seis televisiones de ámbito nacional (TVE 1, La 2, Antena 3, Cuatro, Tele 5 y La Sexta ) y una de ámbito autonómico (TeleMadrid) de lunes a viernes entre el 6 y el 31 de marzo de 2006 entre las 17:00 y las 20:00 horas. Disponible en la Web: w w w . a t r. o r g . e s / d o w n l o a d s / III_INFORME_ATR.pdf.
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PEGI son las siglas correspondientes a Pan European Game Information (Información Paneuropea sobre Juegos). Ver en la Web: www.pegi.info/ pegi/index.do.

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ordenador14 cuya finalidad es proporcionar a padres, compradores y consumidores online “una mayor confianza al saber que el contenido del juego es apropiado para un grupo específico de edad”15. El sistema PEGI, vigente en 27 países europeos (IEAB, 2006), entre los que se cuenta España, es más complejo que los vigentes en el territorio español para las películas cinematográficas y los programas de televisión. Se trata de una doble catalogación: por franjas etarias y por tipos de contenidos a través de “pictogramas de temática” (cinco categorías teniendo en consideración el contenido didáctico, agresivo o violento del videojuego): a) Clasificaciones por edades: es señalada mediante un pictograma que contiene un número y el signo +, indicando que el videojuego sólo es apto para personas mayores de una determinada edad. Los pictogramas son los siguientes:

Las clasificaciones del PEGI se aplican también a los productos vendidos a través de la red Internet, jugados o descargados en un entorno de juego online, o que estén incluidos en los discos de revistas.
15

14

b) Clasificación por tipos de contenidos: diferentes pictogramas advierten que el videojuego contiene una o varias de las siguientes temáticas:

Lenguaje soez soez. El juego contiene palabras malsonantes.

Asimismo, las clasificaciones del PEGI “tienen la finalidad de establecer una recomendación sobre el contenido del producto y sobre su idoneidad de visión pero no valoran su jugabilidad o accesibilidad”.

Discriminación Discriminación. El juego contiene escenas o argumentos que pueden favorecer la discriminación, entre sexos, entre razas o entre religiones. Drogas Drogas. Por ejemplo, el juego contiene escenas en las que se habla de drogas, se usan drogas o se hace apología de las drogas. Miedo Miedo. El juego contiene escenas de miedo que pueden asustar al menor.

Violencia Los pictogramas temáticos vienen a complementar la clasificación por franjas etarias. Sony. 06.2009 16 Sin embargo solamente un dos por ciento de los programas comprados fueron desarrollados en España (Carlos G. Según AI la clasificación del Código PEGI con frecuencia es poco rigurosa y confusa. Madrid. iolencia. 2006) o que se constate que “los puntos de ventas de videojuegos no disponen de medidas para controlar el acceso de los menores a contenidos no adecuados para su edad” (AI. el hecho que una reciente encuesta realizada en España demuestre que un 33 por ciento de los menores juega con videojuegos clasificados para mayores de 18 años de edad y que un 15 por ciento desconoce la clasificación de los juegos que utiliza (IORTV/MTAS.2006). Abajo: “Los videojuegos se acercan a los adultos y a las chicas”.Nº 14 . Vivendi. Atari. es decir que un videojuego para 16+ clasificado como violento será más violento que uno con la misma clasificación para 12+. FX Interactive. . Microsoft. nos hace reflexionar acerca de la efectividad final del empleo del Código PEGI. ya que éstos (puede tener uno o más de uno por cada videojuego) siempre están en función de la edad. Nokia y Take Two Interactive. Proein.com. 2007).pueden contener índices de edades o pictogramas de temática diferente a los anteriores. En España. Ubisoft. Electronic Arts. se han adherido al sistema PEGI. En palabras de Estaban Beltrán. CincoDías. los principales fabricantes y distribuidores (agente de primordial importancia en países importadores) de videojuegos: Planeta Interactive. Virgin Play.Julho/Dezembro . El juego contiene escenas violentas.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 155 Sexo Sexo. conversaciones sobre sexo o apología del sexo. Ahora bien. cuarto mercado europeo de videojuegos y consolas que en 2005 facturó unos mil millones de euros16. El juego contiene escenas de sexo.VI. ya que la información suministrada por los iconos no es suficiente para conocer el contenido del producto. director de AI España: “Basar la protección de los menores frente a contenidos que banalizan las violaciones de los O público e o privado . Asimismo algunos videojuegos exitosos con varias secuelas estrategia empleada por numerosas empresas de la industria del sector. Activision. en 2003. Ante esta situación el capítulo español de Amnistía Internacional (AI) viene exponiendo reiteradamente su preocupación por la desprotección de la infancia y denuncia que el Gobierno delega la protección de los menores en las empresas privadas de videojuegos.

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derechos humanos exclusivamente en un código de libre adhesión por parte de las empresas de software de entretenimiento es una dejación de responsabilidad por parte del Estado. Las empresas que lucran, legítimamente, en el mercado del videojuego no pueden ni deben ser a la vez garantes de los derechos de los niños y niñas” (AI, 2007). A nivel europeo, el actual Comisario responsable de Justicia, Libertad y Seguridad de la UE, Franco Frattini, expresaba a finales de 2006, que si bien la influencia en los menores de imágenes violentas varía en función de una multiplicidad de factores (el bien estar del niño, el nivel educativo y de desarrollo mental, el nivel económico de la familia, la presencia activa de los padres o tutores, etc.), éste es un problema de Salud Pública. Es preciso, en palabras de Frattini, complementar la información suministrada a los consumidores por el Código PEGI con la educación acerca de los medios de comunicación (media literacy) y las soluciones técnicas que impidan el acceso indiscriminado a cualquier tipo de contenidos.

Las nuevas redes digitales: el caso de la telefonía 3-G
Las nuevas redes digitales (como la red Internet o las redes de telefonía celular) junto a los terminales móviles (consolas, ipod, agendas electrónicas) son canales y soportes para la difusión y visionado de productos audiovisuales de todo tipo. Si tomamos en consideración a la telefonía móvil, por ejemplo, encontramos que la tercera generación de aparatos receptores (3G) no sólo permite la navegación a través de Internet sino que admite la descarga de programas, el intercambio de correo electrónico o la mensajería instantánea. Ante las posibilidades brindadas por las redes y soportes digitales, tradicionales y nuevos proveedores de contenidos se posicionan. Así, la industria erótico-pornográfica ha encontrado un novedoso y lucrativo canal de distribución. El informe “Mobile to Adult–Personal Services, Third Edition” (septiembre de 2006), de la consultora Juniper Research, estima que durante el presente año las ventas mundiales de contenidos distribuidos a través de las redes y dispositivos móviles alcanzarán los 1.400 millones de dólares y que en 2011 superarán los 3.300 millones de dólares (una media anual de crecimiento del 19 por ciento). Frente a este inquietante escenario las propias firmas industriales y los gobiernos de una minoría de países han comenzado a crear e implementar medidas tendentes a impedir que algunos contenidos estén al alcance de cualquier usuario.

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

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Así, por ejemplo, del lado corporativo podemos señalar la iniciativa del Independent Mobile Classification Body (IMCB / www.imcb.org.uk), asociación conformada por los operadores de telefonía móvil británicos (Orange, O2, T-Mobile, Virgin Mobile, Vodafone y 3). Ésta, a principios de 2004, desarrolló un código de prácticas17 que incluye la categoría “Adulto”, la cual incluye pornografía dura (hardcore) y blanda (softcore), apuestas online, violencia, juegos, salas de chat y algunos servicios premium de mensajes cortos. Por el lado de las actuaciones de los poderes públicos, podemos referirnos a la acción del gobierno de Israel, país que cuenta con 6,3 millones de usuarios de telefonía móvil, lo cual representa una penetración de la telefonía celular del 95 por ciento. Desde finales de 2004, el Ministerio de Comunicaciones de este país obliga a los operadores que prestan servicios en su territorio a que éstos exijan a sus clientes la introducción de un código para poder acceder a servicios para adultos. La situación en España, país que cuenta con más líneas de teléfonos móviles que habitantes18, no parece ser diferente. Proveedores de contenidos, como por ejemplo Olemovil.com (www.olemovil.com), ofertan en sitios web y medios impresos, vídeos (“Video strippers y más…”), juegos (“Susana Reche, sexy poker), videollamadas (“se lo montan con la música en cada llamada”) o gemitonos (el teléfono suena con los gemidos de un/a chico/a o pareja) de carácter erótico o pornográfico. Las opciones para los vídeos sexualmente explícitos van desde el visionado único (streaming) a la descarga en el terminal. Un estudio realizado por la asociación Protégeles entre dos mil niños y niñas madrileños de 7 a 11 años de edad reveló que un 9 por ciento de los menores que dispone de teléfono móvil recibió imágenes pornográficas en su terminal. Asimismo el estudio expone: “Es cada día más frecuente la recepción de mensajes de publicidad de todo tipo a través del teléfono móvil. Son especialmente preocupantes aquellos que incitan a los menores a participar en concursos y juegos de azar tipo ‘casino’. Respecto a esta cuestión, el 72 por ciento de los menores afirma haber recibido SMS invitándole a participar en sorteos o juegos de azar” 19. Ante las inquietudes que despierta la posibilidad que los menores de edad accedan a contenidos nocivos o ilegales a través de la telefonía móvil, los principales operadores han entrado en negociaciones con empresas que crean dispositivos capaces de filtrar contenidos indeseados al permitir la recepción sólo de mensajes que provengan de emisores que se encuentran en la lista de contactos del usuario, establecer restricciones horarias para el uso del terminal y filtrar imágenes según su categoría20.
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“UK Code of Practice for the SelfRegulation of New Forms of Content on Mobiles”, 19 de enero de 2004. Disponible en la Web: w w w . t mobilepressoffice.co.uk/ company/contentcode.pdf. El informe “Estadísticas del sector-IV trimestre de 2006” dado a conocer por la Comisión del Mercado de las Telecomunicaciones informó la existencia de 46,2 millones de líneas de telefonía móvil para una población cercana a los 44 millones de habitantes (tasa de penetración: 103,4 por ciento). “Seguridad infantil y costumbres de los menores en el empleo de la telefonía móvil”, Madrid, 2004. Disponible en la Web: www.protegeles.com/ telefonia.doc.
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En este sentido la firma de seguridad informática Optenet anuncia que “dichos sistemas están ya desarrollados y se están generalizando en países como

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Reflexiones Finales
A continuación ofrecemos una serie de reflexiones acerca de los vigentes sistemas de clasificación de productos audiovisuales en España: - Falta de coordinación entre los sistemas de calificación Al principio fue el cine, luego la radio, décadas después la televisión… hoy son las nuevas redes y soportes digitales que permiten la distribución, intercambio y visionado de contenidos audiovisuales y multimedia. Frente a este escenario novedoso y altamente complejo (mayor número de agentes, de productos audiovisuales disponibles y de canales y dispositivos de recepción) distintos sectores sociales plantean la necesidad de contar con un marco integral de regulación tendente a resguardar los sectores más vulnerables de la ciudadanía.
Francia o Gran Bretaña donde los sistemas que se ofrecen a los padres incluyen la posibilidad no sólo de impedir la descarga de fotografías pornográficas sino también la posibilidad de restringir la salida y entrada de SMS o MMS en función de las horas o los días rechazar los SMS indeseables o impedir la realización de compras y votaciones en concurso” (Natalia Gómez del Pozuelo: “Fomentar el uso correcto del móvil es cosa de todos”, Madrid, 28.VII.2006. Disponible en la Web: www.optenet.com/es/ detalles.asp?c=1&idn=3; consultado el 20.X.2006).

El caso español muestra claramente la existencia de diferentes sistemas de calificación de la producción audiovisual que no se encuentran del todo coordinados entre sí. Sin embargo, sí existe conciencia por parte de los responsables políticos de la importancia de actuar coordinadamente frente a un problema común: el propio preámbulo del “Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia” se señala que “es deseable que los (diferentes) sistemas de clasificación de contenidos por edades sean más homogéneos y coherentes entre sí”. Una política pública que contemple la integridad del complejo audiovisual debería estar orientada a dotar a los diferentes sistemas de clasificación de contenidos operativos de una coherencia interna. En este sentido debemos señalar la existencia de un proyecto interuniversitario e interdisciplinario, liderado por la psicóloga Victoria Tur (Universidad de Alicante) y financiado por el Ministerio de Educación y Ciencia y por Fondos Europeos de Desarrollo Regional (FEDER), cuyo objetivo es crear un código similar al existente para los videojuegos destinado a los programas televisivos, indicando si éstos albergan imágenes violentas, conductas sexuales inapropiadas o lenguaje soez, entre otros parámetros. Por otra parte, el estudio de la reglamentación que afecta a los productos audiovisuales muestra la coexistencia de distintos niveles o ámbitos de actuación: el local / regional (la existencia de, por ejemplo, operadores de televisión autonómicos o de consejos del audiovisual regionales), el nacional y el supranacional (Unión Europea). Esta dispersión de la autoridad que en las últimas décadas afecta al Estado Español tiene directa

Ministerio de Cultura) Programas de televisión Auto-regulación: acuerdo entre el Gobierno nacional y los principales licenciatarios públicos y privados de ámbito nacional y regional (RTVE.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 159 relación. O público e o privado . FORTA.2009 . fabricantes de videoconsolas (Playstation 2. Miedo. con la incorporación a la UE y. falta de una oferta educativa amplia Fuente: elaboración propia. Sexo. a nivel interno.Nº 14 . NR 7.Real Decreto 81/ 1997: Calificación de películas por franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia (ERI). NR 13.Horario de protección reforzada (por días y franjas horarias) Crítica: poca efectividad del mecanismo . NR 18.Directiva 89/552/CEETelevisión Sin Fronteras: horario de protección al menor (6:00 a 22:00 horas). 12+. 7+. Discriminación. Todos los públicos.Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia (vigencia: desde III. NR 18. Adhesión voluntaria Cumplimiento obligatorio. Película X Crítica: opacidad del mecanismo .2005): Calificación de programas franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia. miembros de la ISFE. NR 13. UTECA) Videojuegos y juegos para PC Auto-regulación: principales editores y desarrollo de juegos de juegos. Violencia) Crítica: mecanismo poco riguroso y confuso. Drogas. con procesos de descentralización que han reforzado los poderes de la comunidades autonómicas (ver cuadro 1). imposición de sanciones . Todos los públicos.Código PEGI: Doble sistema de calificación por franjas etarias (3+.Julho/Dezembro . Xbox y Nintendo) Nivel: supranacional (UE) Adhesión voluntaria Nivel: nacional Nivel: supranacional (UE) / nacional / regional. NR 7. a nivel externo. Cuadro 1: Sistemas de calificación de productos audiovisuales en España Largometrajes y cortometrajes cinematográficos Regulación estatal: Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas (ICAA. . 16+ y 18+) e pictogramas de temática (Lenguaje soez.

realizada únicamente por los mismos que producen. El código que suscribieron en 1993 las cadenas públicas y privadas con el Ministerio de Educación y los correspondientes departamentos autonómicos no dio los frutos esperados. Tampoco iniciativas individuales de los operadores privados. Hoy. como el catálogo de 21 puntos elaborado por los gestores de Tele 5. para evitar la emisión de contenidos que puedan vulnerar los derechos de los menores.Límites de la auto-regulación En los últimos lustros la preeminencia de la corriente neoliberal ha dado lugar a procesos de desregulación e internacionalización de los distintos sectores económicos. signado por un carácter marcadamente comercial. Y de la mano de auto-regulación se ha remarcado constantemente que la responsabilidad última por lo que ven los niños es de los padres y/o tutores. En el caso del paisaje audiovisual español. será inevitablemente interesada y parcial. el pluralismo.160 Luis A. económicos o religiosos particulares. la experiencia de la auto-regulación se ha dado en el terreno televisivo. sostiene que “una auto-regulación corporativa. . Ejemplo de esto último es el “Decálogo de buenas prácticas” editado por el Instituto de RTVE junto al Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (IORTV/MTAS. actual vicepresidenta del Consejo Audiovisual de Cataluña. Y entienden que la misión de controlar la emisión de contenidos televisivos debe recaer en una autoridad que no responda a intereses políticos. en octubre de 2004. Albornoz . frente a un mayor protagonismo de los agentes económicos consagró a la auto-regulación como el mecanismo de control por excelencia ante aquellos comportamientos socialmente no deseados. sino que las dificultades que conlleva interpretar hasta qué punto un programa televisivo está yendo más allá de lo aceptable hacen más sensato y prudente confiar la evaluación de los contenidos a agentes externos y con una pluralidad de puntos de vista”. escogen o realizan la programación. pasado más de un año de funcionamiento del Código de Autorregulación. La preconizada minimización de la actuación del Estado. se alzan muchas voces críticas que plantean la insuficiencia de la autoregulación a la hora de defender el interés general (la libertad de expresión. la diversidad cultural o la protección de los consumidores). 2006) en el cual se aconseja a padres y madres “acompañar a los hijos frente a las pantalla” o “hablar con los hijos sobre el programa de televisión que han visto y los videojuegos que les gustan”. No sólo eso. Victoria Camps (2006).

Hace más de cinco años que el Consejo de Europa (Recomendación 23/2000) y el Comité de Ministros (20/XII/2000) instaron a los gobiernos de los países miembros de la UE a “instaurar. para ver cómo se les puede proteger ante posibles peligros. . las voces críticas de diferentes instituciones y asociaciones (Defensor del Menor de la Comunidad de Madrid.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 161 La figura de un Consejo Nacional del Audiovisual surge como la respuesta más contundente a las dudas que plantean las insuficiencias de la autoregulación. al tiempo que reclaman la intervención tanto de los ministerios de Cultura y de Sanidad y Consumo a nivel nacional como de las Comunidades Autónomas. no conoce fronteras geográficas. entre el 25 de julio y el 16 de octubre de 2006.Julho/Dezembro . un 70 por ciento de los jóvenes de entre 12 y 13 años de edad. Los proveedores de contenidos y servicios se han multiplicado y la convergencia tecnológica permite el acceso a éstos a través de redes de radiodifusión o de telecomunicaciones.Nº 14 . Teniendo en consideración que el uso de teléfonos móviles entre niños y jóvenes ha crecido espectacularmente en el continente europeo (según una encuesta Eurobarómetro. desde ordenadores portátiles o teléfonos móviles 3 G. esto se traduce en organismos reguladores que no dependan del gobierno de turno ni de los operadores. y un 23 por ciento de los niños entre 8 y 9 años de edad posee un teléfono móvil). Comisaria para la Sociedad de la Información y los Medios de Comunicación: “(…) la protección de los menores en cuanto a comunicación móvil es responsabilidad de todas las partes interesadas: la industria. Según Viviane Reding. por ejemplo. la Comisión Europea realizó una consulta pública. realizada en mayo de 2006. En este sentido no sólo se habla de sistemas de calificación sino también del empleo de filtros y mecanismos de verificación de edades para determinados contenidos/servicios. las miradas se dirigen a los operadores de las redes. Ante la dificultad de controlar y sancionar a un amplísimo universo productor y difusor de contenidos y servicios.Los desafíos de las redes digitales Las nuevas redes digitales plantean desafíos de gran escala: la red Internet. si no lo han hecho ya. Asociación de Usuarios de la Comunicación o Amnistía Internacional España) revelan las insuficiencias del vigente sistema de auto-regulación de escala continental.2009 . por ejemplo. que ofrece una amplia oferta audiovisual a la cual se accede. En relación con el mercado de los videojuegos. las asociaciones O público e o privado . autoridades independientes de regulación del sector de la radiodifusión”.

ABSTRA CT : The present article proposes.162 Luis A. 129-138. comunicado de prensa. As conclusion. Cuanto más eficiente sea la autorregulación. like cinematographic movies. BRUCE. COMISIÓN EUROPEA (2006): “Consultation Paper. BUCCI. the national systems of classification of audio-visual contents that at present they affect to the consumption of a big number of cultural products. como los códigos de conducta para servicios SMS o Premium. IN Classificação Indicativa no Brasil.eu. Jesús y otros (coords. Juniper Research. que nos revelan un cuadro heterogéneo. menos necesaria será la intervención estatal”. IN SALINAS. Brasilia: Ministerio de Justicia. considering the Spanish reality.juniperresearch. p. Comisión Europea. Madrid: AI España. Disponible en la Web: www. Albornoz para la seguridad infantil y los organismos públicos. Disponible en la Web: http:// europa.com/pdfs/ whitepaper_madult3. public politics. redes .int/information_society/activities/sip/docs/public_consultation/ sip_public_consultation_2006_en. classification systems. Desafios e Perspectivas. Basingstoke (Hampshire). La gran mayoría de los países miembros de la UE aún no cuenta con marcos regulatorios y/o auto-regulatorios específicos tendentes a brindar seguridad a de los menores de edad en su uso de teléfonos móviles.pdf. Eugênio y KEHL. autoregulation.pdf. a trip for ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 31/10/2008 Aprovado: 20/12/2008 K ey W ords: Words: Audio-visual. Third Edition. Bibliografía Amnistía Internacional España – AI (4 de enero de 2007): “Aumenta el consumo de videojuegos mientras el Gobierno deja a los menores en manos de las empresas”. Maria Rita (2006): Deve o Estado classificar IN: indicativamente o entretenimento a que o público tem acesso?. Child Safety and Mobile Phone Services”. White Paper. Redes de comunicación. IN: CALVO. Estrasburgo: Dirección General para la Sociedad de la Información y los Medios. Gibson (septiembre de 2006): Mobile to Adult – Personal Services. television programs or video games.): Edutec 95. Sin embargo el tema está siendo debatido en varios países y hay iniciativas en marcha. Ana María (1996): Videojuegos: del juego al medio didáctico. it outlines a series of reflections about the challenges and the perspectives that nowadays raise the classification systems of audio-visual contents both for the state organisms and the agents of the cultural industries and for different involved organizations of the civil society.

2009 . Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales.rtve. Mallorca: Servicio de Publicaciones de la Universidad de las Islas Baleares. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (tríptico). núm. Juliet B. CAMPS.pdf. The New York Times.Julho/Dezembro . Madrid: Instituto Oficial de Radio y Televisión / Dirección General de las Familias y la Infancia. Matt y MARRIOTT. Libertad y Seguridad. Madrid. Institut d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona. Disponible en la Web: www. FRATTINI. p. Can IN: Cecilia Von FEILITZEN y Ulla CARLSSON Children Be Protected? IN O público e o privado .) (2006): Regulation. Disponible en la Web: www. Victoria (julio-septiembre de 2006): “Del Senado a la experiencia del Consejo Audiovisual de Cataluña”. Ulla (ed. Parlamento Europeo. Young People and Harmful Media Content in the Digital Age. IORTV/MTAS (2006): “Infancia y contenidos audiovisuales. Youth and Media. Miguel (del) y ROMÁN BLAS. NORDICOM / Göteborg University. Barcelona: Proyecte Educatiu de Ciutat Barcelona. Empowerment.pdf. 331-340. Estrasburgo: Comisario europeo de Justicia. Michel (17 de septiembre de 2005): “Ring Tones. Telos.Nº 14 . Cameras.rtve. Göteborg: The International Clearinghouse on Children. Madrid: Fundación Telefónica de España.) (2005): Programación infantil de televisión: orientaciones y contenidos prioritarios. (2006): When Childhood Gets Commercialized. CARLSSON. Mariano (ed. CONSEJO para la Reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado (febrero de 2005): Informe para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado.es/oficial/iortv/guia_infantil.es/oficial/iortv/tripticoinfancia. RÍO ÁLVAREZ. INSTITUT d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona – IEAB (octubre de 2006): ¿Quién pone las reglas del juego?. 68. Franco (13 de diciembre de 2006): “Déclaration sur les jeux violents”. RICHTEL. Awareness. Madrid: Instituto Oficial de Radiodifusión y Televisión (IORTV) / Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (MTAS).Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 163 de aprendizaje. Now This: Sex Is Latest Cellphone Feature”. SCHOR.

27-47. Jóvenes y Medios de Comunicación / NORDICOM Universidad de Gotemburgo. . Manuel (2003): Los videojuegos.): In the Service of Young People? Studies and Reflections on Media in the Digital Age. p. Gotemburgo: Centro Internacional de Intercambio de Información sobre Niños. TEJEIRO SALGUERO. Qué son y cómo nos afectan. Ricardo y PEREGRINA DEL RÍO.164 Luis A. Barcelona: Ariel. Albornoz (ed.

(*) Luciana Lobo Miranda é Professora do PPG em Psicologia da UFC e coordenadora do Projeto de extensão TVEZ: Educação para o uso crítico da mídia. E-mail: lobo.lu@uol.com.br

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Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão
Language and subjectivity in the relationships between school practices and television

Luciana Lobo Miranda*

RESUMO: Em tempos de cultura midiática, onde os objetos culturais, as relações

sociais e a subjetividade encontram-se necessariamente atravessadas pela tecnologia audiovisual, é comum o debate a respeito do declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. O presente trabalho pretende articular a discussão conceitual acerca da linguagem da televisão com base em autores como, Pierre Bourdieu e Rosa Bueno Fischer dentre outros, e a experiência na coordenação de curso de extensão universitária "Diálogos Escolares Contemporâneos" realizado com professores da rede pública municipal de Fortaleza, Maranguape e Maracanau. A partir do conceito de discurso de Michel Foucault, o presente trabalho discute a televisão como um campo de subjetivação presente no cotidiano escolar, onde se destaca o fato de tanto a escola quanto a mídia se destinarem a "modos de educar" distintos e muitas vezes conflitantes entre si. Por outro lado, em ambas, a despeito da veiculação de um ideal de cidadania e criticidade, suas práticas cotidianas apontam para uma propensão à passividade seja do espectador, do aluno ou do próprio professor (com relação à gestão e às políticas públicas educacionais).

Palavras-chave: discurso, modo de subjetivação, escola, televisão.

cultura midíatica contemporânea, sob forte influxo da tecnologia audiovisual, com sua onipresença na nossa vida cultural e psíquica, parece-nos pautar o debate sobre o declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela

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hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. Na tentativa de compreender a relação entre escola, televisão e os modos de subjetivação na contemporaneidade, faremos, no primeiro momento, uma discussão a respeito da TV como um dispositivo audiovisual engendrado na confluência de um “modo de ver” já existente. Em seguida abordaremos a TV enquanto aparato discursivo e dispositivo pedagógico, para, por fim, pensar as possibilidades da educação formal (escolar) neste contexto. Para tal nos valeremos da experiência como pesquisadora e coordenadora de projeto de extensão na área de mídia-educação.

A Construção de uma TV Nossa de Cada Dia
Embora as primeiras experiências da televisão ocorreram nos anos 1936 e 1941 na Grã-Bretanha e nos EUA, respectivamente, ela somente começa a se firmar como fenômeno de massa no pós-guerra, a despeito da opinião da imprensa desses países, bem como de analistas de mercado afirmando que tal veículo não suscitaria o interesse das camadas populares (BRIGGS e BURKE, 2004). Com os custos de sua fabricação barateada, e a incorporação do modelo de programas de rádio, entre 1947 e 1952, a televisão saltou a produção de aparelhos de 178 mil para 15 milhões, atraindo cada vez os mais setores populares. No Brasil, no dia 03 de abril de 1950, a TV tem sua pré-estréia e em 18 de setembro é inaugurada oficialmente pela TV Difusora em São Paulo, seguindo o modelo norte-americano de exploração comercial. A difusão inicial restrita começa a se modificar com a importação de 220 aparelhos por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o “Chatô” (GUARESCHI e BIZ, 2005). Nos anos seguintes surgem várias canais de televisão, tais como TV Paulista (1952), a TV Record e TV Rio(1955), TV Excelsior (1960, cassada durante a ditadura militar). A TV Globo Rio inaugurada em 1965 já nasce grande devido ao forte investimento de capital humano e financeiro estrangeiro. Aos poucos vai se constituindo como uma corporação, engendrando o “padrão Globo de qualidade” que nos dias atuais chega a deter mais da metade da audiência nacional e 53% do mercado publicitário, (GUARESCHI e BIZ, 2005). No contexto brasileiro, mesmo sendo uma concessão pública, ela encontrase concentrada nas mãos de alguns grupos político-econômicos. Esta concentração se configura na forma horizontal (poucos grupos controlam a

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televisão aberta e paga); vertical (canais de TV aberta comercializam seus programas para outros paises); propriedade cruzada (ampliação do monopólio através da posse de outros meios como por exemplo jornais e revistas, provedor de internet); e monopólio em cruz (em nível regional há a reprodução de propriedade cruzada bem como a instalação de repetidoras dos seus sinais) (LIMA in GUARESCHI E BIZ, 2005)1. No entanto, seus avanços corporativos nunca foram ausentes de crítica em relação aos efeitos à subjetividade. Em meados dos anos 1950, a televisão passa a gerar grande expectativa tanto com relação ao possível prejuízo à inteligência das pessoas, quanto às possibilidades educacionais decorrentes de seu uso para esse fim. No livro “Uma história Social da Mídia” Burke e Briggs (2002), trazem à luz a polêmica:

Havia pouco consenso sobre o significado da televisão: era o ‘olho universal’, mas o arquiteto Frank Lloyd Wright chamou-a de ‘chicletes’ para os olhos. A crítica era maior nos Estados Unidos, onde a ênfase nas redes de televisão e rádio centrava-se em entretenimento estereotipado, levando Newton Minow, presidente da FCC em 1961 (...), a dizer que a televisão em rede era uma vasta ‘terra inútil’. Em Londres, Milton Schulman, que fazia vigorosas críticas de certos programas em jornais, chamou a televisão britânica de ‘a menos pior do mundo’, mas também observou, como Lloyd Wright, que, ‘para muito as pessoas, o ato de ficar fixado na tela’ tinha se tornado ‘mais um habito do que um ato discriminatório consciente’. Para Schulman, a televisão era ‘o olho voraz’. Para outros, era o ‘olho do mal’, mal occhio, destruindo não somente os indivíduos que a assistiam, mas todo o contexto social. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.244, grifos dos autores)
Quanto sua função educativa os autores afirmam:

1

Educar, não entreter, esse permanecia o objetivo prioritário para alguns dos primeiros defensores da televisão contra as acusações de que ela exercia uma influência inevitavelmente corruptora da sociedade e da cultura, e de que levava os espectadores a gastar mais tempo com ela do que com outras atividades. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.252).
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Segundo Guareschi e Biz (2005) “Seis das principais redes privadas nacionais (Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV!, CNT) estão vinculadas, entre canais próprios e afiliadas, que representam 263 das 332 emissoras brasileiras de TV” (p.84), duas delas exorbitando o número de emissoras próprias permitidas pela lei.

daí a pouco. que vivemos a representar no imenso tablado do planeta. telespectador. haja vista a presença deste meio em . Talvez o jornal do futuro seja uma aplicação dessa descoberta. de todas as cenas alegres ou tristes. a grande aceitação deste novo dispositivo audiovisual deve-se em parte pelo fato das massas já terem um “olhar educado” para o modelo broadcasting de difusão da imagem eletrônica. uma combinação de fonógrafo e cinematógrafo: Diante do aparelho. os seus gestos. numa progressão pasmosa. 2004. certamente seu modelo broadcasting foi se fazendo cada vez mais presente em nosso cotidiano. como reproduz. a um só tempo. justamente porque pouca gente pode consagrar o dia todo.27 e 28) Mesmo corroborando com a idéia de que a televisão não inaugura propriamente um novo processo. à ansiedade. Da pintura renascentista. em um minuto. pelos físicos franceses Gaumon e Decaux. Mesmo antes de existir efetivamente a TV já tinha o seu lugar imaginário. a figura do orador.. Já os homens de hoje são forçados a pensar e executar. a impressão auditiva e visual dos acontecimentos. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro. a expressão da sua face. dando. instantâneas e multiplicadas – seja o jornal falado. das festas.29). Desta maneira Bucci (ib. o que os avós pensavam e executavam em uma hora. desta interminável e complicada comédia. Vejamos então o texto visionário escrito pelo poeta Olavo Bilac em 1904 que narra a invenção do cronófono. 2004.. e de rufos de febre no sangue. uma pessoa pronuncia um discurso e. dos desastres.168 Luciana Lobo Miranda Entre o entretenimento e a educação. mas também de algo que ele. BRIGGS e BURKE. não somente repete todas as suas frases. à leitura de cem páginas sobre o mesmo assunto. a sua fisionomia. das catástrofes. já estava demandando antes” (p. intensificando fluxos de um “modo de ver” que foi se constituindo ao longo dos anos. A atividade humana aumenta. Talvez o jornal do futuro – para atender à pressa. No Brasil seu alcance cobre quase todo o território nacional. (BILAC apud BUCCI. à exigência furiosa de informações completas. passando pela fotografia e pelo cinema. e ilustrado com projeções animatográficas. a mobilidade dos seus olhos e dos lábios.) defende que “aquilo que o telespectador vê na tela emerge não apenas da tela em si. O livro está morrendo. ou ainda uma hora toda. p. a televisão nasce na confluência de um “modo de ver” que já havia sido “inaugurado” (BUCCI in BUCCI e KEHL. 2004). sérias ou fúteis. sobre a tela branca.

A nossa hipótese consiste em pensar que a intensa circulação de discursos presentes na televisão. os quais se constituem sempre como prática. tendo crianças e jovens como público preferencial que chega a passar em média mais de quatro horas por dia diante da tela2. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a” (p. teledramatúrgico. 3 As relações de poder em Foucault (1995) compreendem a possibilidade de reação. constrói-se no interior dessas mesmas práticas. ou atuais. Dispositivo pedagógico e modo de subjetivação A televisão tem se afirmado cada vez mais como um discurso. institucional e social (as práticas discursivas são inseparáveis de uma série de regras. 57% das crianças brasileiras ficam mais de 3 horas assistindo TV . o discurso pode ser entendido como um conjunto de enunciados de um determinado campo do saber. ficaram em média quatro horas e 25 minutos. Uma ação sobre a ação. crianças e jovens entre 4 e 17 anos. Assim por exemplo. Assim. psicológico. Só há relação de poder mediante sujeitos ativos. como também são alterados. Foucault afirma que o discurso é prática justamente porque os discursos não só nos constituem. nos subjetivam. seja interna. Fonte: Castro in Folha de São Paulo. que existem propriamente como prática discursiva. na sua relação com os modos de subjetivação na contemporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação.2009 Segundo o Instituto Ipsos. quando a publicidade diz “você é o que você aparenta”. 4 Para Foucault (1995) não existe sujeito a priori.Nº 14 . Faz-se então necessária uma análise da televisão. etc) acaba por configurá-la como um campo discursivo de grande alcance. enquanto os dados do Ibope afirmam que. Fala-se então em discurso pedagógico. que envolvem relações de poder3. pensar e sentir o mundo. 2 Televisão: Discurso. quanto aqueles engendrados em seu fazer diário (discurso jornalístico. só perdendo para o fogão (mas ganhando da geladeira) em número total de aparelhos (PNAD. higiênico-assistencialista dentre outros). Ele também não se opõe à prática.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 169 93% dos lares brasileiros (nove entre dez). No entanto para Foucault (1998) não há discurso sem exclusão. pois não se pode falar qualquer coisa em qualquer lugar). ou melhor. publicitário. tanto de ordem exterior (discurso jurídico. constituindo como modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade4. em funções de práticas sociais muito concretas. . lutas políticas). pois todos são constituídos de uma série de enunciados. como acontecimento histórico. de liberdade. responsável por modos de ver. oratória. discurso científico. frases e enunciações. futuras e presentes” (p.Julho/Dezembro . normas. modos de exercício do poder. 2006). O discurso é ele mesmo uma prática. A exclusão externa compreende ao longo da história a interdição (a palavra proibida. ela não está apenas dizendo. seja externa. Para Foucault (1986. científico.235). discurso feminista. mas que age sobre sua própria ação. mas efetivamente ela engendra e produz práticas/ marcas em nosso corpo. sobre ações eventuais. por dia. nos dizem o que dizer.243). Foucault as define como “um modo de ação sobre a ação que age direta ou indiretamente sobre os outros. formas de comunicação. Ele é constituído num “campo de relação que pode ser estabelecer como sujeito a alguém pelo controle e dependência e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento. em setembro de 2004. 17 de outubro de 2004. 1998) o discurso não se confunde com a fala. O público e o privado . político.

Para pensar os mecanismos de exclusão presentes no discurso da TV articularemos o conceito de exclusão presente no conceito de discurso em Foucault. na cobertura jornalística feita pela televisão. por que causam transtornos aos usuários? etc”. (FOUCAULT. e que passam como ato mesmo que os pronunciou. como conseqüências de uma descoberta. às vezes. uma espécie de desnivelamento entre os discursos: os discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas. o discurso do senso comum (comentário) pode ser conduzido ao discurso científico. que hierarquiza os discursos. ou seja. Segundo Bourdieu (1997) grosso modo. a mídia. numa mesma reportagem. Para Foucault é este último que tem se tornado mais forte em nossa sociedade apregoada pela ciência: “as grandes mutações científicas podem talvez ser lidas. ao comentário e outros a certa permanência.49) e outras que estão para explicar “para proferir um metadiscurso” (p. . 1998. há sempre algumas pessoas que estão para se explicar (“por que vocês fazem isso. a exemplo dos textos religiosos.16) Há também a exclusão interna. no entanto. muito regularmente nas sociedades. devidamente aprofundado. os discursos que. e os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que retomam. uns ligados ao dia a dia. para finalmente retornar ao senso comum. literários e científicos: Em suma. pode-se supor que há. Assim podemos pensar que os especialistas estão para referendar uma “vontade de verdade”. indefinidamente. para além de sua formulação. dando-lhes um tratamento científico. são ditos. É também recorrente o uso de especialistas para corroborar matérias jornalísticas. que por sua vez pode deslocar-se ao jurídico.170 Luciana Lobo Miranda a separação (segregação da loucura) e a oposição “verdadeiro” ou “falso” (vontade de verdade).49). e especificamente a TV. Em um programa de variedades. numa extensa cadeia discursiva em que nada pode ser. p. mas podem também ser lidas como a aparição de novas formas na vontade de verdade” (p.22). jurídicos. permanecem ditos e estão por dizer. com o conceito de campo jornalístico formulado pelo sociólogo Pierre Bourdieu em seu livro “sobre a Televisão” (1997). Conforme afirmamos. os transformam ou falam deles. parece fazer a “ligação” entre estes mais variados discursos. uma revista eletrônica. a exemplo do Fantástico da TV Globo. (p.

pois. nossos animadores de debates. e quem ao preencher um tempo precioso na TV. veicular e consumir TV. há de se considerar ainda o simultâneo reforço de controles e igualmente de O público e o privado . jornais. rádio. elevá-lo ao quadrado.. pensa a mídia enquanto um dispositivo pedagógico. p. os porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa. sem ter que forçar muito. tais práticas vêm acompanhadas de uma produção e veiculação de saberes sobre os próprios sujeitos e seus modos confessados e aprendidos de ser e estar na cultura em que vivem. o tempo é algo extremamente raro na televisão.64). Ela evita polêmicas em nome da audiência. Nossos apresentadores de jornais televisivos. “Está perfeitamente ajustada às estruturas mentais do público” (p. Informações omnibus – para todo mundo.65) Outro mecanismo de exclusão presente no discurso televisivo deve-se ao fato dela ocultar mostrando. (p. em que o sujeito é chamado a falar sobre si mesmo e se reconhecer a partir de sua sexualidade. o dispositivo pedagógico é descrito como: . que dizem “o que se deve pensar” sobre o que chamam de “os problemas da sociedade”. numa determinada sociedade e num certo cenário social e político).Nº 14 . ela serve também para potencializá-lo. de produzir. discursos) e ao mesmo tempo não discursivo (uma vez que está em jogo nesse aparato uma complexa trama de práticas. 2006). 1997.Julho/Dezembro .Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 171 Da mesma forma que enfatizamos que a TV se instaura num processo já existente. revistas. à revelação permanente de si. as agressões nos subúrbios ou a violência na escola.. voltando a Bourdieu (1997).um aparato discursivo (já que nele se produzem saberes.. notícias de variedades.2009 . deixam de mostrar acontecimentos: “Ora. a TV é essencialmente conservadora. Certamente. nossos comentaristas esportivos tornaram-se pequenos diretores da consciência que se fazem.23) Em consonância com o pensamento foucaultiano Fischer (2002. a partir do qual haveria uma incitação ao discurso sobre “si mesmo”.. Fundamentada no conceito de dispositivo sexualidade. é que essas coisas tão fúteis são de fato muito importante na medida em que ocultam coisas preciosas” (BOURDIEU. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas fúteis. fatos que não devem chocar.

seus filhos. De um lado a escola. e que estão vivos. A ampliação da rede informal de educação através do crescimento do terceiro setor e dos meios de comunicação de massa. dentre outros. atualmente. em seus mais diversos dispositivos. locus tradicional de transmissão de saber voltado ao passado. para fortalecimento do Estado Nação (Foucault 1977). num constante borramento de fronteiras do que outrora se chamou de público e privado. ela se encontra cada vez mais destinada à “educação” das pessoas. Por outro lado a educação parece transbordar para todos os lados. principal elemento do receituário neoliberal. sua separação idade/ série. reconfigurando assim o espaço escolar. em seu corpo. através da vigilância hierárquica e da sanção normalizadora. atuando como um modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade. No entanto. para o sujeito consumidor. Televisão e escola: encontro possível? Na história moderna. onde. do sujeito cidadão. é voltado para a atualidade.o exame. e da combinação entre ambas . o indivíduo é pensado e cooptado em sua força produtiva. tais como. Desta forma a televisão acabou por ser fazer pedagógica. cujo conteúdo. A partir do século XVII.172 Luciana Lobo Miranda resistências. a excessiva velocidade dos fluxos e relações sociais. na maioria das vezes. em acordo com determinadas estratégias de poder e saber. com sua rotina. como satisfazer o seu (sua) parceiro(a). para a promoção do impacto e do emocional. guiado pela lógica da razão. seja de como cuidar da casa. mostra uma realidade em que a disciplina é incapaz de dar conta. no contexto europeu. para o privilégio do agora e do . mas de disciplinarização dos corpos. a mídia. etc. O Estado mínimo. para a velocidade. este lugar parece não ser mais o mesmo. do telos.3) O espectador é constantemente interpelado a produzir opinião sobre os mais diversos assuntos. como educar seu cachorro. a exacerbação de uma cultura individualista e de intolerância ao outro. isto é. De outro. a escola transformou-se em um lugar não apenas de transmissão do conhecimento. a entrada das chamadas “novas tecnologias da informação” no campo educacional e o questionamento de suas próprias práticas cotidianas. trouxe à tona uma querela entre dois entes. da durabilidade. a escola tem ocupado um lugar central na transmissão do legado cultural e na formação do sujeito. insistentemente presentes nesses processos de publicização da vida privada e de pedagogização midiática (p.

como território privilegiado de produção de subjetividade na con- . O projeto é coordenado pela Profa. com o próprio salário. projetos. p. spots. com apoio das três secretarias municipais de educação. tendem a rechaçálas. através de ações integradas em escolas da rede pública de Forta. Preocupados com inúmeras avaliações. Inês Silva. Sampaio e por mim. câmeras fotográfica e de vídeo e mesa de O público e o privado . com ênfase na televisão. como estabelecer um diálogo entre o discurso televisivo e o educacional? Em outro texto afirmamos: 5 A escola como lugar legitimado de produção e circulação de saber. no planejamento. viabilizada com a implantação de um Laboratório de Comunicação Educativa (LACE) equipado com computador. é lógico. cujo objetivo é promover a educação para o uso crítico das mídias. relatórios. objetivamos compreender a mídia. A colaboração dos integrantes do TVEZ consistiu tanto na fase diagnóstica. 2007. com base na análise de publicações de livros brasileiros entre 1998 e 2008. (MIRANDA. V. O TVEZ conta com uma bolsa de extensão da UFC. Maracanaú e Maranguape. mesmo não desconsiderando as implicações midíaticas no cotidiano escolar (vistas muitas vezes de forma maniqueísta. internet. Dra. as escolas. Já no âmbito da pesquisa. não pode se eximir do debate acerca da relação subjetividade e mídia na contemporaneidade. 199) Em atividades desenvolvidas no âmbito da pesquisa e da extensão temos procurado trabalhar este campo de possibilidade da escola. 2004). como professores podem se propor a investigar com os jovens como eles significam aquilo que vêem. Neste trabalho será privilegiado o trabalho de extensão do projeto TVEZ5.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 173 efêmero (VIVARTA. A ação compreleza. além de orientar na graduação e no mestrado monografias e dissertações ligadas ao tema “Subjetividade.2009 O TVEZ é um projeto de extensão interdepartamental. com a participação de estudantes de comunicação e de psicologia da UFC. atualmente encontra-se no segundo ano de Iniciação Científica a pesquisa “’Entulho imagético’ ou tesouro educacional? Uma Análise da relação subjetividade e mídia no cotidiano escolar” com apoio da FUNCAP e da UFC. No intuito de pensar a inserção da televisão no cotidiano escolar e a possibilidade da problematização de seu discurso. tais como vídeos. que versem sobre a possibilidade do uso da televisão/ vídeo no cotidiano educacional. ende tanto a discussão quanto a apropriação das mídias no cotidiano escolar.Julho/Dezembro . Arraigadas em modelos tradicionais. além. como responsáveis pela má formação de valores e costumes na infância e na juventude). fanzines e jornal escolar. blogs. mídia e educação”. O PCE consiste numa metodologia de ensino-aprendizagem por meio da arte e da comunicação. ou mesmo esvaziadas de pensamento crítico acerca de seu fazer pedagógico. quanto na facilitação dos cursos.Nº 14 . voltados para profissionais de educação. Diante deste “quadro”. com foco no processo dialógico educador-educando e que lança mão de uma estrutura tecnológica de produção autônoma de mídias educativas. Neste. como lugar de discussão e apropriação da mídia em seu cotidiano. impressora. abordaremos o trabalho realizado no TVEZ em parceria com a ONG de Fortaleza ENCINE6. que visou à implementação de um Projeto de Comunicação Educativa (PCE) em três escolas da rede pública nos municípios de Fortaleza. escutam ou lêem? Como trazer estas reflexões para o próprio cotidiano educacional? São temas que precisam ser problematizados por todos aqueles que fazem a escola.

dois materiais foram preparados. eis um dos argumentos da defesa: “mas aí vem a questão. pois sentiam falta de algumas falas que haviam sido cortadas. veiculado as tardes de domingo na TVC. A ENCINE é também responsável pelo programa Megafone. deveriam preparar um corpo argumentativo com relação à defesa ou à acusação da televisão brasileira. muitos se mostravam surpresos pelo vídeo e comentavam a sua qualidade técnica. No entanto. No inicio. dentre outros. a fim de problematizar a televisão enquanto discurso. A gente tem que considerar que [a TV] é um recurso pedagógico sim. Atualmente é Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e conta com o apoio da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal. O julgamento foi devidamente gravado. Os professores. o PCE compreende um espaço para a escola pensar o seu próprio cotidiano. com participação efetiva de representantes do corpo discente. passamos um vídeo editado com cenas do julgamento. manual de classificação educativa. culturais e informativas. além do fato de se verem. professores refletiram sobre a inserção da TV como modo de subjetivação presente em seu cotidiano bem como sua relação com a escola7. teve carga horária de 120 horas. propusemos um debate. simulamos um julgamento. A título de exemplo.174 Luciana Lobo Miranda temporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação. voltado para os discentes do ensino fundamental segundo ciclo. após a fase diagnóstica das escolas iniciou-se o trabalho de formação de docentes e discentes. A formação docente “Diálogos Escolares Contemporâneos” (DEC) teve carga horária de 60 horas e o curso de Arte Comunicadores Sociais (ARCOS). Dissemos então que tínhamos uma segunda surpresa e o outro vídeo foi apresentado. Em uma aula do DEC. um recurso educativo” A acusação lê o artigo 221 da Constituição Federal “’A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: Preferência a finalidades educativas. um docente comentou. divididos em duas equipes. A idéia é promover a auto-gestão do LACE. com os piores momentos da acusação. O que estas crianças têm em casa? Onde estão os livros? Será que a escola tem livros? A casa tem livros? Que contexto é esse que a gente quer para essa criança.. feito por jovens. Estatuto da Criança e do Adolescente. Para além de uma capacitação técnica. promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divul- . 6 A ONG ENCINE desenvolve ao longo dos últimos 10 anos experiências na área de audiovisual com jovens oriundos das classes populares. meio sem jeito – afinal como tecer crítica a algo feito por especialistas? .. sem qualquer explicação prévia. 7 desenho. cujo réu era a televisão brasileira. iniciou-se o “julgamento”. Após uma hora de preparo e com os “advogados” devidamente constituídos. permanecia a fala do jurado que melhor referendasse a intencionalidade de cada vídeo. No término da exibição do primeiro vídeo. Juiz e o corpo jurado ficaram a cargo da equipe da ENCINE e do TVEZ. Com falas que argumentavam ora a favor ora contra a qualidade da TV brasileira. mesclados aos melhores momentos da defesa. Propositalmente. outros concordaram enfatizando o caráter “tendencioso” do vídeo. No encontro seguinte. artísticas. O segundo mesclava imagens usualmente consideradas “apelativas” com os piores momentos da defesa e os melhores momentos da acusação. se ela sair do único recurso que ela tem. Ao final. com base no material que compreendia: legislação.que sentira falta de algumas falas. um que continha cenas de programas de TV considerados de boa qualidade e educativos. após alguns comentários iniciais. Assim.

pois implica a articulação do uso e produção da mídia como instrumentos de ensino-aprendizagem. que buscam estratégias para tornar a escola o ambiente positivo de aprendizagem. ou mesmo excluir modos de subjetivação que escapam aos seus modelos instituídos. indagamos aos docentes o porquê de termos feito dois vídeos. O público e o privado . em que algumas vozes são privilegiadas em detrimento de outras. as práticas pedagógicas. transbordam inúmeros discursos. A escola também é um lugar de transformação e de resistência. alunos e funcionários que tentam não se acomodar. quanto com a própria escola. a uma reflexão tanto sobre a comunicação cotidiana (sua produção e seus meios de propagação). Malgrado o empenho explícito isolado daqueles que fazem o seu cotidiano. artística e jornalística. escola e mídia. num campo de luta onde também resistências são possíveis. Política. Desta forma. Televisão e escola: disciplina e resistência As práticas discursivas cotidianas presentes tanto no discurso televisivo quanto no discurso educacional tendem a classificar. estes dois loci de modos de subjetivação. pois deve compreender a abertura para a criação. estética e política. A inserção da televisão ou de qualquer outro dispositivo midiático deve ser pensado na interação de três perspectivas. normalmente são reguladoras da negação do outro enquanto co-criador de conhecimento. Pedagógica. Regionalização da produção cultural. professores. em última instância. com base no mesmo julgamento em que todos se encontravam presentes.Julho/Dezembro . por exemplo. especificamente do telejornalismo. Por fim foi discutida a possibilidade de inserção a respeito da televisão no cotidiano das escolas em questão. apesar de todas as condições adversas.. pela polifonia de diversos lugares enunciativos que fazem parte dos sujeitos que os constituem e os produzem. No entanto.2009 gação. pois a discussão do uso da mídia no cotidiano escolar levaria. também se encontram marcados pelas inúmeras vozes. explorando outras linguagens não usuais na mídia comercial. Vemos diariamente em seu cotidiano. Com base numa vivência coletiva e portanto heterogênea. Artigo Recebido: 22/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 .’ Na realidade o que nós temos são filmes de violência sendo apresentados no horário em que crianças estão acordadas”.Nº 14 .Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 175 Após a exibição do segundo material. abordamos os discursos presentes na televisão. O trabalho apresentado compreende uma possibilidade onde se possa pensar a diversidade das situações concretas vividas tanto na relação com a televisão. capturar. quanto sobre a própria escola. a saber: pedagógica. qualquer experiência de mídia no campo educacional deve auxiliar na produção de novos modos de educar no cotidiano escolar. Estética.. seja na mídia. para o campo do sensível. Na produção subjetiva contemporânea engendrada seja no cotidiano escolar. conforme percentuais estabelecidos por lei. Discutimos assim a não neutralidade do discurso televisivo.

Sobre a televisão. Jorge Zahar. Referências BOURDIEU. Rio de Janeiro. Superligados na TV. RABINOW. social relations and subjectivity ABSTRACT CT: are intertwined with audiovisual technology. São Paulo (SP). when cultural objects. 2002 __________________________ . O sujeito e o poder. The present work intends to articulate the conceptual discussion about television language based in authors like Pierre Bourdieu and Rosa Bueno Fischer among others and the experience in coordinating the extension university course "Contemporary School Dialogs". school. _________________. Hubert.176 Luciana Lobo Miranda K ey W ords: Words: discourse. Educação e Pesquisa.uaemex. television. 1986. it is common to hear about the decline of written word. Rio de janeiro: Forense Universitária.pdf. Peter. _________________ . 1995. 151-162. 1. Disponível em redalyc. Videologias: Ensaios sobreTelevisão. 17/10/2004. therefore. On the other hand images are easily available and. Maria Rita. we intend to discuss television as a subjectivity field present in the school routine. Michel. the student or the teacher himself (concerning public educational practices). p. Rosa Maria Bueno. . BUCCI. CASTRO. 2004. in spite of the broadcasting of an ideal of citizenship and criticism. Arqueologia do Saber. O Dispositivo Pedagógico da Mídia: Modos de Educar na (e pela) TV. 2004. their everyday practices point more to passive approach. could be of great help in long distance education. 1997. BRIGGS. be it on the part of the spectator. São Paulo. Starting with Michel Foucault's concept of discourse. Pierre. v. In: DREYFUS. Contemporary society is marked by the collapse of texts and the omnipresence of images. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Maranguape and Maracanau. Uma história Social da Mídia: De Gutenberg à internet. Folha Ilustrada In Folha de São Paulo. uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Belo Horizonte: 2006 FOUCAULT . Petrópolis. emphasizing that both the school and the media are ways of teaching. subjectivity. Rio de Janeiro. In both of them. Eugênio KEHL. n. The school system seems to balance between the resistance to image as a possible producer of knowledge and its availability. Televisão e Educação: Fruir e Pensar a TV. Asa e BURKE.. ABSTRA CT : The media age. Michel Foucault. carried through with teachers of the municipal public system of Fortaleza. 1977. Vozes.mx/redalyc/pdf/298/ 29828111. FISCHER. Paul. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. 3º ed. 28. 2ª ed. though very different and sometimes conflicting ones. Forense. D.

Mídia.shtm VIVARTA.Nº 14 . São Paulo: Cortez. Remoto Controle: linguagem. RJ : Vozes. O público e o privado . SP: Loyola. g o v.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 177 _________________ . Pedrinho e BIZ. 2005. 1998 GUARESCHI..2009 . Veet. A Ordem do Discurso.Petrópolis. i b g e . educação e cidadania: tudo o que você deve saber sobre mídia. b r / h o m e / e s t a t i s t i c a / p o p u l a c a o / trabalhoerendimento/pnad2006/default. (2004). conteúdo e participação nos programas de televisão para adolescentes. P N A D h t t p : / / w w w.Julho/Dezembro . Osvaldo A.

produzida pela Rede Globo de Televisão.Julho/Dezembro .com. televisão. Este trabalho tem. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). permissão ou autorização de canais de radiodifusão ou de televisões abertas aos projetos O público e o privado . a mídia vai construindo. o termo tenta dar conta de um amplo conjunto de ações que vão desde a concessão. E-mail: manubarros@secrel. que em tese.2009 P . Erotilde Honório Silva é Professora Titular da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). participação e inclusão social.br. traçar uma série de marcos regulatórios. a pretensão de analisar o MS apresentado na telenovela Laços de Família (2000-2001). E-mail: eroh@unifor. tentado Palavras-chave: políticas de comunicação. suas próprias políticas de comunicação. ao longo do tempo.br. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). 179 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva* RESUMO: As políticas públicas de comunicação têm. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). a partir da perspectiva de sua audiência. merchandizing social. pois. à revelia dos órgãos públicos. Em meio ao debate aberto na sociedade civil sobre educação.(*) Roberta Manuela Barros de Andrade é Professora Adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. enquanto o poder público procura fornecer diretrizes ao sistema de comunicação. Mas. procura afinar o sistema midiático aos direitos e às demandas da sociedade civil. a televisão brasileira promove políticas que orientam a sua programação a fim de alçá-la à categoria de empresa cidadã. olíticas de Comunicação em tempos de TV Brasileira: a criação do Merchandising Social Ao nos referirmos às políticas públicas de comunicação.Nº 14 .

na contramão das expectativas do que essas instituições desejam divulgar. mas também. está presente um debate generalizado sobre democracia. a Rede Globo de Televisão se destaca não só pelo seu pioneirismo na área. trabalhado a sua imagem por meio de programas sociais desenvolvidos pela empresa ou em parceria como Criança Esperança. 1 . do MS em suas telenovelas2. numa clara tentativa de alavancar audiências. surgida em meados dos anos noventa do século passado. participação. Mas foi graças à inovação do MS. Assim. priorizando programas de maior audiência. algumas vezes. neles incluindo os discursos ditos “educativos”. estima-se que 8779 ações de MS foram produzidas na ficção seriada brasileira produzida pela Rede Globo de Televisão. Obviamente que ações que têm como princípio a construção de uma imagem pública positiva da Rede Globo não surgem somente a partir do MS. constroem outros significados para as concepções de democracia. em tese. participação. pela quantidade. entre campanhas próprias e de terceiros (Herkenhoff. que tal imagem se . equidade de gênero. no Brasil. .180 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de lei que debatem os marcos regulatórios tanto das televisões pagas quanto os do ciberespaço. não desprezível. Brasil 500 e Amigos da Escola. A veiculação de campanhas de utilidade pública é tradição na emissora. em moda. O que une todas essas ações é a noção de que se trata de medidas a serem tomadas pelo poder público com a finalidade. Segundo Schiavo (2004). inclusão social e educação que não estão presentes nem nos discursos oficiais nem nas mesas redondas e fóruns que tentam conjugar a visão da academia sobre o assunto e as demandas da sociedade civil organizada1. inclusão social e educação. usada pelas emissoras para dar credibilidade social a seus produtos de entretenimento. direito das crianças e dos adolescentes. entre 1991 e 2004. prevenção e abuso de drogas. atenta ao debate existente na sociedade civil e nos órgãos públicos sobre participação. enquanto o poder público tenta mapear o sistema de comunicação brasileiro. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). Por detrás dessas orientações normativas. cidadania. sexualidade. Martin-Barbero (2000) em reflexão sobre as políticas públicas colombianas para os meios de comunicação afirma que existe uma esquizofrenia entre o que pensa o poder público sobre o papel da mídia na sociedade colombiana e o real impacto da televisão nas transformações sociais neste país. Só em 2003. inclusão social e educação no Brasil. Ação Global. em linhas gerais. inserido em sua narrativa ficcional de maior sucesso. versando sobre os mais diferentes temas como direitos humanos. Nesta prática. Globo e Universidade. dando-lhe determinadas diretrizes. incorporando o discurso moderno da responsabilidade social. ao longo dos últimos trinta e cinco anos. alardeando o que denomina de forma genérica de “seu papel social”.as telenovelas-. 2 Mas. Para MartinBarbero. a mídia vai construindo suas próprias políticas de comunicação. desemprego. A televisão brasileira. O MS é. respeito aos idosos e desenvolvimento social sustentável. uma estratégia de comunicação. dados apontam que foram 320 mil inserções em todo o país. A Rede Globo tem. de sintonizar o sistema de comunicação com os direitos e demandas da sociedade civil. traça políticas próprias que orientam a sua grade de programação. 2000). o que pode ser detectado claramente pelas políticas públicas para a comunicação na Colômbia. Globo Serviço. lá os meios não são percebidos pelo poder público como criadores de cultura apenas como transmissores ou difusores de práticas sociais. saúde reprodutiva.

violência doméstica) ou a doenças psíquicas. células-chave para a discussão sobre as políticas de comunicação? A fim de construirmos pistas para esta reflexão esse trabalho se propõe a realizar uma análise do Merchandising Social apresentado na telenovela Laços de Família. garantindo à Rede Globo o título. uma vez que está relacionado a doenças incuráveis ou com percentual mínimo de cura. hoje. a traumas (ciúme excessivo. A Rede Globo incorporou esse conceito. torna-se O público e o privado . usando o MS como instrumento para a construção de sua imagem como uma empresa-cidadã. A repercussão social em termos de audiência é. Nesta pesquisa. nas rodas oficiais. frequentemente. além do que. o que nos perguntamos então é: apesar das óbvias intenções desta emissora em alavancar audiência. garantida pelo MS.Julho/Dezembro . dantes assunto restrito às revistas médicas especializadas. Portanto. o MS auxilia as telenovelas da emissora a saírem das páginas das revistas de fofocas e passarem a agendar as discussões sociais que perpassam a grande imprensa. em todos os horários de veiculação das novelas globais.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 181 sedimenta com maior força em sua audiência. A leucemia.Nº 14 . Neste sentido é imprescindível para as empresas de comunicação divulgarem para a sua audiência os variados elementos dos quais lançam mão ao desenvolverem sua cota de responsabilidade social. de repercussão importante na família e na sociedade.2009 . O termo responsabilidade social é definido por Herkenhoff (2000) como o reconhecimento e assunção pelos cidadãos. no horário das 20h. comportamentos e práticas positivas que contribuem para o bem comum. assim. entre maio de 2000 e fevereiro de 2001. Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. produzida pela Rede Globo de Televisão. selecionamos como objeto de estudo a telenovela Laços de Família porque o MS ali inserido foi uma das discussões de maior impacto na mídia impressa e televisiva já realizada em torno de uma temática social. Nessa perspectiva. de empresa com responsabilidade social. individualmente e em conjunto. Não é à toa. como essa política de comunicação tem contribuído para um debate mais profundo sobre educação. a responsabilidade social concretiza-se por meio da adoção de atitudes. que a emissora incorporou essa estratégia de comunicação em sua teledramaturgia. apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. dos seus deveres para com a comunidade em que vivem e a sociedade em geral. O MS está presente. Este conceito se fundamenta no princípio de que as ações individuais têm impacto na vida da coletividade. participação e inclusão social.

de que o MS tem repercussões no social em termos de mudanças diretas e lineares no comportamento social do brasileiro no que diz respeito a ações sociais efetivas. No Disque Saúde. Em Santa Catarina. O Hemocentro de Ribeirão Preto (SP) verificou também um aumento de cadastros de doadores no primeiro semestre de 2002 (período final da novela). foi realizadas entrevistas estruturadas com ex-portadores de leucemia. No Instituto Nacional do Câncer (Inca) que registra potenciais doadores de medula. as inscrições mensais passaram. Entrementes. somente em janeiro (no auge da novela). que foram audiência ativa da citada novela em seu período de veiculação. o número de consultas sobre a leucemia passou de 871 para 2427 no mesmo período. nível de escolarização e faixa etária semelhantes à da personagem vítima da doença na trama5 refletem sobre o MS.tipo de câncer que compromete os glóbulos brancos (leucócitos) do organismo. afetando sua função e velocidade de crescimento. Não se trata de um projeto contínuo. entre 25 e 30 anos de idade.182 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva 3 . e. no segundo semestre do mesmo ano. o interesse pela doação de sangue e órgãos. No Rio Grande do Sul. os telefonemas para a Secretaria de Saúde pedindo informação sobre a doença aumentaram de 1 para 10 chamadas por dia. em especial da medula óssea em função do drama abordado na novela em questão3. jovem que se descobre portadora da doença na trama. de dez para cento e quarenta e nove e no Registro Nacional dos Doadores de Medula Óssea (Redome) subiram de vinte para novecentas inscrições mensais durante a abordagem da temática por esta ficção seriada. não leva a um efetivo processo de mudança social.o número de cadastros chegou a uma média de 30 por semana. o seu efeito termina ao acabar a novela. a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Celso Ramos registrou de 20 a 30 pedidos por dia (de cadastro). no auge da novela. Nesse sentido é que para compreendermos algumas dimensões da repercussão social deste MS. esse número caiu para a média de dois semanais. o que nos chama a atenção é o fato de que. a partir de um recorte específico. O argumento centrou-se nas informações sobre a doença ao mesmo tempo em que promoveu uma campanha de doação de medula baseada na experiência da personagem Camila. ex-portadores de leucemia. após seis meses de sua veiculação. Tomamos como ponto central dessa discussão a forma como mulheres espectadoras fidelizadas às novelas globais e particularmente da telenovela em questão. No Instituto Estadual de Hematologia (HemoRio). de classe social. apregoada pelos departamentos de marketing da emissora. assumido pelas políticas de governo. o impacto de tal política de comunicação esteja muito mais na pauta temporária do debate público. retornou aos níveis anteriores nos principais órgãos responsáveis pela coleta dessas informações4. ocorreu o que chamamos de “efeito Camila” que se materializou no aumento do interesse pela doação de sangue e órgãos. durante o período de veiculação da novela. Os . apesar do um aumento significativo durante a emissão da novela. . 4 capa das maiores revistas jornalísticas do País e tema constante nas páginas dos jornais impressos e nas chamadas dos telejornais durante o período de veiculação da novela. Mas. Cremos que um tal viés de análise é profícuo na medida em que tal pesquisa de recepção nos ajuda a entender como efetivamente as políticas de comunicação projetadas pelos próprios meios repercutem no social. Telenovela e Sociedade A Novela Laços de Família apresentou como ponto central de seu enredo a leucemia . de nível universitário. naturalmente. dando-lhe significados em seu cotidiano. O que nos leva a pensar que talvez. chega- Merchandising Social. Tal dado nos ajuda a desmistificar a noção. Atrelada à novela.

fenabb. garantindo. as personagens. típica da práxis incorporada pelos profissionais do campo. que tem como função básica alavancar a audiência de uma dada ficção seriada. ao mesmo tempo em que procura construir uma imagem da emissora de empresa cidadã. Informações retiradas do site oficial da Federação das AABB/ Cidadania acessado em 15 de fevereiro de 2009. As informações veiculadas por personagens relacionados à temática posta em discussão lembram. que é inserido na narrativa centrado em um discurso claramente pedagógico. não raro. usual nas telenovelas brasileiras como pano de fundo das tramas. ressaltamos que tal estratégia de comunicação. chegando. o discurso jornalístico pelo seu apelo a uma linguagem objetiva. 2000). em parte. O árduo e extenso trabalho de campo realizado por Ana Giovana Lima Leandro forneceu o material que permitiu fazer as análises que se seguem. Esse discurso. só aparece na teledramaturgia brasileira de forma clara a partir dos anos noventa do século passado. Amparadas por esse discurso. quase sempre.Nº 14 . se choca com a linguagem folhetinesca. sempre carregadas de forte teor emocional. a inserção intencional. No entanto. em momentos diferentes da narrativa incorporou a essa temática a lógica de argumentação do que se convencionou chamar de Merchandising Social.br).Julho/Dezembro .org. de cunho essencialmente educativo. distante dos apelos emocionais que a temática destila em outros momentos da estória. e muito próximo de uma retórica baseada nos princípios da racionalidade moderna. numa óbvia tentativa de elevar a audiência das telenovelas que havia sofrido uma substancial perda de pontos no ibope (cerca de 20%) nesta década (Borelli e Priolli. construindo uma inserção que aparece. são “suspensas” dos conflitos emocionais da narrativa para repassarem informações que os autores julgam pertinentes para esclarecer a questão posta em debate. quase sempre. 5 . um discurso “socialmente engajado” que não faz parte necessariamente da função melodramática da trama. a se criar um verdadeiro monólogo entre a personagem-pedagoga e o telespectador-aluno. o sentido de verossimilhança das tramas. (www. clara e direta. que.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 183 sofrimentos em vários níveis diferentes ocasionados pela aquisição da doença por uma personagem da trama foi o mote da narrativa. muitas vezes. assim. pela sua existência na trama. em linhas gerais. descolada da trama. se o MS nem sempre repercute. em um aumento substancial de audiência em uma novela específica (uma vez que se tornaram corriqueiros em todas as telenovelas da emissora). não deve ser confundida com o merchandising social. A abordagem de questões sociais em uma telenovela é um elemento constante nos enredos teleficcionais brasileiros desde os anos setenta do século passado. sistemática. No entanto. não pode ser confundida com a apresentação do contexto social contemporâneo. Merchandising Social é. O MS é. em determinados momentos. .2009 ram 154 pessoas querendo se cadastrar como doadoras quando o número em dezembro do mesmo ano não chegou a dez por mês. Esse discurso. em termos de reflexão O público e o privado . estruturada e com propósitos educativos bem definidos de questões sociais na produção teleficcional brasileira. Entrementes.

A novela revela em minúcias o início do tratamento de quimioterapia. todos os horários de veiculação das novelas globais. O transplante da medula óssea é a alternativa para a sua cura Na novela em questão. baseado na quimioterapia. engravidando do pai de Camila. Helena.Por amor (1997). A ideia central de Laços de Família é o sacrifício. recém-casada. Segundo Lima e Camacho (2001). criam seus próprios merchandisings sociais. universitária. que tem como objetivo central inserir tal proposta nas telenovelas da emissora. em vários níveis diferentes.Manoel Carlos). criando uma deficiência de glóbulos vermelhos.Silvio de Abreu) e no aumento da procura por tratamento ou serviços de apoio (alcoolismo. exibido no dia 11 de dezembro . apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. seguido da queda de cabelo e da resolução melodramática da personagem de raspar. os MS são projetados por departamentos específicos da emissora. Helena.184 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva acadêmica. de acordo com o perfil das personagens que aparecem na sinopse da novela. ao sofrer um aborto espontâneo. do qual estava separada há anos. Nesse caso. uma vez que nos permite avaliar como essa política de comunicação da emissora tem repercutido no social. O tratamento para esta disfunção é muito doloroso. descobre. Em geral. Como afirma Motter (2003). provoca desmaios. os profissionais especializados na área de marketing social trabalham em harmonia com estes autores que já levantaram em suas próprias sinopses a oportunidade de abordar esta ou aquela temática na trama. ser portadora de leucemia mielóide aguda6. renunciando a um homem que também se torna objeto de amor de Camila. no capítulo em que Camila teve sua cabeça raspada devido à doença. Na trama. Estas células não apresentam as funções normais dos glóbulos brancos. em sintonia com as Organizações Não Governamentais. já grávida da lua de mel. em segunda instância. O MS perpassa. existem autores como Manoel Carlos e Glória Perez que. a cabeça. Camila era uma jovem de 21 anos. para com a doação do futuro irmão. plaquetas e glóbulos brancos. de uma mãe por uma filha. mas verificáveis principalmente pelas mudanças de atitude reveladas em depoimentos como os de famílias que se reconciliam com os filhos (homossexualidade masculina. Além disso.existiram dois casos de leucemia: o da personagem principal da trama –Camila– que conseguiu se recuperar graças à uma doação de medula de um irmão que viera ao mundo justamente com o propósito de lhe salvar a vida e o de Marcela– personagem secundária da trama que não sobreviveu à doença. a mãe de Camila. é um excelente ponto de partida. 6 . a vida da filha. se sacrifica mais uma vez.Laços de Família. se sacrifica pela filha. em geral. hoje. No entanto.A leucemia mielóide é um dos quatro tipos conhecidos de leucemia e se caracteriza pelo crescimento descontrolado e exagerado das células indiferenciadas chamadas de blastos. fraqueza e queda de cabelo. no uso de MS nem sempre expressas pelos índices de audiência. que ao voltar. pesquisas apontam determinadas repercussões sociais. Em primeira instância. por fim. salvar por meio de um transplante de medula. existe um bloqueio na fabricação das células normais.A próxima vitima (1995).

a informação é essencial tanto para a formação do discurso político como na própria ação política. pela primeira vez. Hoje. desenvolvimento e cura da doença. quatro residem em São Paulo e uma no Rio Grande do Sul. Nesse sentido. Elas acreditavam que o MS é “algo inserido dentro da novela que tenta mover a sociedade para o lado social”. inclusive. segundo elas. esclarecendo e instruindo as pessoas. e ambos são cruciais tanto para o desenvolvimento econômico quanto para os processos de democratização no âmbito da cultura e da política. A repercussão do MS desta novela foi tamanha que em 2001. tivemos a pretensão de analisar o entendimento de como se forma a crença na intervenção das telenovelas nos parâmetros de acesso ao tratamento da doença e na diminuição do preconceito relativo à leucemia na sociedade como um todo. exceto com uma das entrevistadas que residia em Fortaleza. a informação não é acessada pela grande maioria da população brasileira. As imagens da personagem raspando a cabeça foram.S. Para tal.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 185 de 2000. As entrevistas foram realizadas via internet. 79% dos televisores estavam sintonizados na novela. seu papel positivo na sociedade ocorre porque. um dos prêmios de responsabilidade social mais conceituados internacionalmente. uma empresa não européia foi a ganhadora do prêmio. “daí muita gente pega essas informações”. mesmo disponível.Julho/Dezembro . traz uma reflexão sobre o tema abordado.2009 . foi aplicada entrevistas estruturadas. por e-mail. efeitos sociais e educação cidadã Todas as entrevistadas perceberam o MS como uma propaganda inserida no interior das novelas que retratava uma questão social. Na era digital. não temos dúvida de que a informação tem um papel fundamental na produção do conhecimento. jovens ex-portadoras de leucemia pertencentes à classe média brasileira. o que os educadores mais lamentam é o fato de que. Das restantes. o MS é muito importante. Merchandising Social. A grande quantidade de perguntas dizia respeito ao fato de necessitarmos de uma série de informações sobre a descoberta. a Rede Globo de Televisão é agraciada com o BitC Awards for Excellence. O público e o privado . posteriormente. usadas para uma campanha real de doação de órgãos. na qual as informações proliferam em todos os lugares. Para elas. O destaque do evento é que. composta de 33 perguntas. afirmou J. chegando a atingir um pico de audiência de 61 pontos. No grupo social selecionado para esta pesquisa.Nº 14 . e faz parte da cultura do brasileiro assistir a novelas.

cada um tem suas atividades e não vai parar para ajudar”. afirmou M. que deve acontecer à revelia do livro. Vivemos. “O MS tem pouca durabilidade. da escola ou da igreja nesse processo.186 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva O uso da internet para fins de socialização7 em detrimento de busca de informações é confirmado nas pesquisas dos estudiosos da área. Entrementes. Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre o fato de que as audiências percebem os meios de comunicação. e não questionam o papel da família. 7 . pois. J. No entanto. “A novela desmistificou muita coisa sobre a doença.R. Para elas. M. apenas 33% das entrevistadas acreditam que o MS ajuda em relação ao aumento da doação de órgãos e medula. Desta forma.R contou que conheceu um “menino pela internet que quando soube que ela foi portadora de leucemia não quis conhecê-la por medo de pegar a doença”.S ressaltou que “quando a novela comenta um problema como esse é como se tivesse acabado de surgir. a cultura não parece ter nada a ver com os processos educativos.Blogs. . o que é um absurdo”.mas. nas palavras de Barbero (2000). como se nunca tivesse existido. orkuts e twiters são espaços virtuais que promovem a interação social. todas as entrevistadas consideraram que o interesse das pessoas sobre a doença e seu possível engajamento “só dura o tempo da novela”. as informações oriundas do MS são seu resíduo necessário. mais bem elaborada a fim de que a temática fique “marcada” na vida das pessoas. Todas citaram o fato de que é necessário conscientizar as pessoas em relação às doações voluntárias. em especial no que se refere ao preconceito”. são absorvidas em paralelo aos desdobramentos da trama. Trata-se de formular soluções mágicas para os problemas da educação. o diferencial do MS em relação a outras estratégias de comunicação é que informações sobre as mais diferentes temáticas. como agentes solitários de mudança do social. assim. como se a mídia fosse uma instituição social autônoma e soberana em relação à sociedade maior. não necessariamente a troca de informações ou de conhecimentos. Elas acreditavam que o efeito é insuficiente a não ser que se tenha uma campanha mais contínua. e em diversos níveis. Aqui. e principalmente as telenovelas. cabe aos meios de comunicação de massa educar ao povo brasileiro. instituições sociais tradicionalmente detentores dos saberes. Todas acreditavam que o MS tem um papel positivo na sociedade. as pessoas lembram-se do assunto na hora. que dependem de uma campanha contínua e mais bem elaborada da mídia. da escola e da família. Se a procura de informações não é a motivação central dos fãs das telenovelas. mas dificilmente alguém ajuda. em um ambiente educacional difuso e descentrado no qual o MS se destaca como uma estratégia de comunicação que se faz valer à revelia da escola e do livro.

para elas. parecia ser bem maior do que o físico. que algumas de suas informações eram equivocadas. a novela revelava apenas o tratamento que era dado a quem tinha dinheiro para realizá-lo. A diminuição do preconceito não implica em uma reviravolta imediata no comportamento social dos indivíduos. Todas as entrevistadas iniciaram seu tratamento em hospitais públicos. É inegável que o MS proporciona uma discussão pública sobre o assunto. “Naquela época. Das entrevistadas. uma vez que “para Camila. sabia muito pouco sobre ela. A totalidade das entrevistadas afirma que o autor havia retratado o sofrimento de Camila em condições privilegiadas. 67% afirmaram que o sofrimento mostrado na novela é real. Neste caso.2009 . Das depoentes. Entretanto. já separada. enquanto que 33% afirmaram que “foi um absurdo a forma como colocaram a leucemia na novela”. afirmaram ter descoberto. 67% afirmaram que o seu dia-a-dia como portadoras não era igual ao de Camila porque ela “era muito mimada e sendo ela de classe social alta. afirmou J. As jovens portadoras de leucemia. mas que nem sempre acontece de forma pertinente.Nº 14 . o sofrimento social inerente a tal situação de precariedade pública. Aquelas que tiveram leucemia durante a novela afirmaram que as pessoas ficaram mais curiosas para saber se era assim que acontecia. o que era uma representação distinta da realidade das classes populares no Brasil que “dão atenção (os familiares e amigos) mas não 24 horas porque afinal todos têm suas vidas para cuidar”. Todas acreditaram ainda que o atendimento dado à Camila (de primeira qualidade) não se repetia para o povo brasileiro que sofre com a precariedade dos hospitais e que o fato da mãe. uma política de comunicação conjuntural e imediatista.H. tudo era perfeito. voltar ao antigo relacionamento e engravidar para salvar a filha “é coisa de novela mesmo”.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 187 Nessa perspectiva. cujos frutos ainda são bastante nebulosos. em vários níveis. ou esclarecimento sobre uma determinada temática não resulta necessariamente em uma ação social consequente. O MS demonstra ser. assim. mas equivocou-se algumas vezes”. depois da emissão da novela. observa-se que o processo de informação e. em hospital particular.diz C. se elas sofriam tudo aquilo que a Camila passava. Então a novela foi uma fonte de informação. Nenhuma das entrevistadas modificou sua percepção sobre a doença depois da novela. a carência dos desassistidos. apenas uma deu continuidade a ele. como eu ainda não tinha a doença. Assim.S. todos podiam largar o trabalho para ficar com ela o tempo todo no hospital”. 33% das entrevistadas não viam uma sintonia entre a realidade e a ficção porque afirmavam que a novela só mostrava o viés de quem possuía acesso aos hospitais e tratamentos adequados. “Eu não passei O público e o privado .Julho/Dezembro . as coisas eram mostradas da forma mais fácil”.

por conseguinte. paradoxalmente. conscientizando os telespectadores sobre o drama vivido na ficção. 83% afirmaram que quando se descobriram portadoras automaticamente lembravam da novela. quanto à contribuição da novela ao aumento ou à diminuição do preconceito relativo à doença. enquanto 33% defenderam a ideia de que o acento nos recursos audiovisuais e melodramáticos se fazia necessário para “chamar a atenção das pessoas” sobre a doença.F. é esta mesma intensa carga emotiva que proporciona o engajamento emocional das audiências e. 83% das entrevistadas disseram que a novela diminuiu o preconceito porque sensibilizou. ou que sofrem muito. típica do gênero. pois. magras e feias. fazendo com que muitas informações acabem desaparecendo da temática ou mesmo se afastem da realidade devido ao teor de exagero que a telenovela necessita ter para fidelizar sua audiência. Assim. Aqui. . A telenovela mostra não só aspectos de uma realidade pertinente a uma classe social privilegiada. Nenhuma das entrevistadas acreditou que a novela tenha chocado. O fato do MS está embutido em uma narrativa de teor melodramático acaba por desfigurar o discurso pedagógico incrustado no MS. ainda que algumas cenas tenham sido marcantes como a da personagem Camila cortando os cabelos. Das depoentes. Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre a relação entre MS e a estrutura folhetinesca. vemos como as experiências imediatas dos indivíduos moldam suas visões de mundo. apenas 33% lembraram de que outra personagem portadora de leucemia na novela havia morrido devido à doença. mas. os closes) criavam uma atmosfera mais pesada em relação à doença o que levaram-nas a concluir que “a novela deveria ter dramatizado menos e explicado mais”. sua fidelidade ao gênero em questão. Nenhuma delas precisou de doador e apenas uma teve que raspar a cabeça. Como a novela retratou o caso de uma leucemia aguda incutiu na sociedade a ideia de que todas as pessoas que tem leucemia estão predestinadas à morte. recordavam do sofrimento da personagem e se perguntavam quem seria o doador delas e se ficariam carecas. outros. nem tanto. 67% pensavam que os recursos televisivos (o som. As jovens entrevistas gostariam de ter nos MS “mais informação e menos dramatização”. também recorta do real apenas os aspectos da doença que podem contribuir para a exacerbação da estrutura dramática. O problema. é que existem vários tipos de leucemia. no entanto.188 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva pela metade do sofrimento de Camila”. ficando desesperadas. afirmou C. No entanto. no entanto. o que não é regra geral. garantindo a eficácia do MS como política de comunicação. o que não aconteceu com elas. segundo elas. uns mais agressivos.

em especial. ao mesmo tempo. mas. 87 % das entrevistadas consideraram o MS realizado em Laços de Família positivo e importante e na medida do possível bem explorado.S. uma vontade de ajudar mostrando mesmo os problemas de nosso país”. A sua repercussão social é inegável como demonstra os dados fornecidos por esse trabalho. Em relação ao MS. enquanto a outra metade pensou que o MS ajudou o tema a se tornar conhecido. “mais dentro de nossa realidade”. que o MS esclarece e incentiva à participação. mas que poder-se-ia ter diminuído o glamour e a ilusão que a “novela passa sobre a doença”. O público e o privado . Essa visão das audiências sobre o impacto do MS sobre a sociedade brasileira. podemos verificar que o MS é compreendido pelas entrevistadas como uma ferramenta de esclarecimento e discussão social importante para a sociedade brasileira. o MS parece ser uma estratégia de comunicação inserida na ficção seriada que tem se mostrado eficaz tanto no aumento da audiência bem como na produção de uma imagem positiva da Rede Globo de Televisão como uma empresa de responsabilidade social. Durante a pesquisa de campo. metade das entrevistadas acreditou que sim. mais leve e com menos enfoque”. a pesquisa de campo realizada com uma audiência seleta de Laços de Família revelou alguns aspectos interessantes da questão que devem ser ressaltados. a grande maioria concebe o MS como um instrumento mercadológico usado pela Globo a fim de atrair audiências. “fingir ter participação social”. o autor deveria. No mais. não dá conta da necessidade das pessoas ajudarem efetivamente com doações. no entanto.Julho/Dezembro . ainda que se destaque o seu papel de educador social. “aumentar a audiência”. Enquanto isso. No entanto. diz J. cria mitos que não deveriam existir”. mas.2009 . Nessa perspectiva. acreditam que a Rede Globo faz MS para atrair a audiência (porque a população se envolve com o sofrimento das personagens). no que diz respeito a seu papel como educador social. assim.Nº 14 . em especial no que diz respeito à diminuição do preconceito em relação a algumas temáticas sociais. coloca em xeque a linha de pesquisa em comunicação (corrente nos anos 70 e início dos anos 80 do século XX) denominada de “Educação para os Meios”.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 189 Quanto ao incentivo à participação dos telespectadores na doação de órgãos. ter abordado “coisas mais reais”. Todas acreditam que a Rede Globo faz MS em suas telenovelas para “criar uma imagem de boazinha”. mas há também um “lado cultural da emissora. e por último “esclarecer sobre o assunto”. Ao final. 17% acreditaram que o tema com abordagem mais real deveria ser objeto jornalístico porque “se for para ser tratado em uma novela deve ser com uma perspectiva mais positiva. todas acreditavam que “ele serve para esclarecer a população.

O MS.190 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de caráter denuncista. Termo que se refere à produção intelectual global da Escola de Frankfurt. indícios de repercussão crítica do MS em uma audiência seleta. como qualquer outro tipo de estratégia de comunicação. apesar das boas intenções dos teóricos a ela vinculados. . Os dados fornecidos por instituições na área de saúde comprovam um grande declínio do interesse mostrado pela população pela doença após o término da novela. Todas as jovens entrevistadas acreditam muito mais na eficácia do MS como ferramenta de informação/esclarecimento do que como estímulo à participação social como o engajamento das audiências em torno das causas discutidas. como reprodutores ideológicos do status quo (Lopes. por meio de cursos ministrados por um bom número de instituições sociais. Aqui. de forma geral. ao mesmo tempo em que propunham a criação de meios de informação alternativos aos da ordem dominante. Entrementes. Referiram ainda que o MS recaiu em alguns equívocos. Todas as entrevistadas revelaram a compreensão de um MS cujo efeito social é temporário. os resultados dessa pesquisa com as audiências (assim como muitas outras ao longo dos anos noventa) demonstram que as audiências tem uma visão muito própria dos meios de comunicação. Entrementes. as entrevistadas. pelo menos. 1996). tendo uma boa concepção de suas contradições internas. em especial. Tratava-se. retratou a leucemia a partir da perspectiva de uma classe social privilegiada. 8 . em sua totalidade. de um processo educativo mais voltado para a doutrinação do que para o fazer crítico que propunham. O grupo estudado ressalta o fato de que o MS de Laços de Família. que vinculada aos idearios da Teoria Crítica8. há uma distinção clara entre “estar esclarecido” e “participar socialmente”. tentava-se construir uma pedagogia para os meios. apesar de associar as repercussões da doença a um universo de classe média alta. apesar de pretender mostrar um discurso “universal” sobre dado tema. Destacamos. Está claro para essas audiências que o “efeito Camila” só “dura o tempo da novela”. que ajudasse. aqui. para as audiências. na parcialidade da qual o discurso jornalístico pretende há séculos se eximir. demonstra o poder do MS em estabelecer um diálogo com a sociedade. recai. Ao mesmo tempo. Para as entrevistadas. concebia os meios de comunicação. acreditam que as informações passadas sobre a doença em si são pertinentes. preenchendo as audiências com informações que dificilmente teriam acesso ou interesse em acessar se não se tratasse de um discurso engajado no interior de uma trama global. quando associou a leucemia (que se revela em quatro níveis diferentes) a apenas uma de suas manifestações. desconsiderando as condições materiais de existência das classes sociais menos favorecidas. as audiências a terem uma leitura crítica destes. No entanto.

One of the most important handspikes of the senders to reach such goal has been the introduction in its soap operas the Social Merchandizing (SM). O público e o privado . cria-se. Pedro Lozano. 1985. In way to the debate opened in the civil society on education. S. ABSTRA CT : The public politics of communication have. durante certo período de tempo. Referências BARROS FILHO. A agenda midiática pressupõe uma pauta recíproca entre as empresas de comunicação ( Wolf.Julho/Dezembro . television. A partir daí. Barros Filhos e Bortolozzi. durante a veiculação da novela. São Paulo: Summus.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 191 não se pode negar que o primeiro passo para a participação social passa pela prática informacional. traz à esfera pública temas que só circulavam na sociedade ou em espaços acadêmicos ou em campos especializados. São Paulo: Editora Moderna. 2001 BORELLI. the Brazilian television promotes politics that guide its programming in order to put it into the category of company citizen. But. então. the pretension to analyze the SM presented in the soap opera "Laços de Família" (2000-2001). a pautar o menu cotidiano de assuntos da mídia. Clóvis. the media goes constructing. ABSTRACT CT: 9 . temporariamente. G (ccords). uma agenda social. 1993). from the perspective of its hearing. pelos meios de difusão como importante para a discussão social. ampliadas para segmentos sociais diversos. cujo principal mérito é a capacidade de gerar conversas cotidianas. 2000.H. participation and social inclusion. Nenhum jornal ou programa de entrevista traz uma discussão tão interessada por parte das audiências de assuntos que em outras esferas midiáticas seriam objeto de curiosidade de poucos. Artigo Recebido: O5/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 attemped to trace a regulatory landmark series. uma agenda midiática que produzirá. passa. Mas. produced for the Net Globe of Television. É inegável que o MS ocasiona uma agenda midiática9. A telenovela. BORTOLOZZI. Such approach if bases on the fact of that the communication politics only can responsibly be evaluated from concrete objects by means of which these politics acquire social visibility. therefore. Social merchandising. A Deusa ferida. Nesse sentido. se estas conversas podem vir a ser o alicerce de processos educativos e participatórios maiores.2009 . Ética na comunicação: da informação ao receptor. podem nos ajudar a esclarecer melhor a questão. 2001. that in thesis. throughout the time.Nº 14 . to the default of the public agencies. O MS. while the public power search to supply lines of direction to the communication system. This work has. it looks to sharpen the media system to the rights and the demands of the civil society. PRIOLLI. A agenda midiática pode ser definida como o elenco temático selecionado. com o poder de agendamento que possui. somente pesquisas mais apuradas. servindo de pauta para a elaboração de matérias jornalísticas tanto impressas como audiovisuais. via MS. K ey W ords: Words: communication politics.S. its proper politics of communication. De Fleur e BallRokeach. As discussões sobre as temáticas sociais abordadas de forma pedagógica nas telenovelas saem do âmbito das revistas de fofoca e penetram na imprensa “séria”. a inserção do MS nos enredos das telenovelas brasileiras tem pautado as telenovelas brasileiras fora de seus próprios termos.

IN: Comunicação & Educação. n. Maria Immacolata Vassalo.ci/ np14/NP14SHIAVO. . Maria Lourdes. Comunicação e Educação. MARTIN-BABERO. João Batista.org.2000. Desafios culturais da Comunicação à cultura IN: Comunicação & Educação.192 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva DE FLEUR. Jesus. Merchandising Social: as telenovelas e a construção da cidadania apresentado em 2002 no XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação disponível em http://www. LOPES. Porto: Editorial Presença. jan/abr. 2000. SCHIAVO.intercom. Marcio Luiz.54-60. (6). 2000. Telenovela e Educação: um processo interativo. S. Rio de Janeiro: Zahar. 1985. WOLF. p. Mauro. São Paulo. 1996. Pesquisa de recepção e educação para os meios. A cidadania. Manaus: Valer.17. 1993 HERKENHOFF. maio/agos.br/papers/xxv. Teoria da comunicação de massa. (18). São Paulo. Teorias da comunicação. Melvin L.mai/ago.pdf. MOTTER. e BALL-ROKEACH.

São textos policulturamidiaticamente pensados. Isto porque. cultura e mídias é o resultado das reflexões efetuadas por Barbalho entre os anos de 2000 e 2006. temos a certeza de que nos apossamos das chaves que o autor transfere para abrirmos as enormes portas que dão acesso aos meandros da cultura. E-mail: liafera@usp. Do primeiro ao O público e o privado . Estado Autoritário Brasileiro e Cultura Nacional. e das veredas deste seu nomadismo temos como frutos novas idéias com as quais não só nos alimentamos mas que também temos a possibilidade de embasar saberes que sustentarão outros pensares para a política. Embora já tenham sido publicados separadamente.Nº 14 . Políticas de Cultura. Do Real ao Surreal. Cidadania. Políticas de identidade. a cada momento de sua leitura. Trata-se de texto límpido e envolvente que. Entendo assim que após a leitura do livro o que nos fica é a lucidez.Julho/Dezembro . Política e Economia da Cultura. Textos cuidadosamente escolhidos: Por um Conceito de Política Cultura. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil. foi a junção dos mesmos que acabou criando o que esta tão bem apontado no prefácio de Durval Muniz a de Albuquerque Júnior intitulado de "As Energias da Embriaguez". Mídia e Identidade. Estado. Especialista em Política e Gestão Cultural. O livro dividido em nove capítulos perfaz um total de 130 páginas. demonstram que o pensamento do autor caminhou sim. nos faz pensar: que seria isto exatamente o que eu gostaria de falar.(*) Luzia Aparecida Ferreira-Lia é Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. cultura e mídia. melhor dizendo. Textos Nômades: política. cultura e mídia. Alexandre.br 193 Resenha Luzia Aparecida Ferreira-Lia* BARBALHO. Minorias e Mídia: Ou Algumas Questões que as Minorias Propõem ao Liberalismo. muitas vezes a cultura se encontra inacessível até mesmo aos pesquisadores da temática. escondida em pequenos cômodos. O Jogo das Diferenças e Idéias sobre uma Política Cultural para o Século XXI.2009 Artigo Recebido: 04/11/2009 Aprovado: 01/12/2009 . 2008 O livro Textos nômades: política.

após um preâmbulo onde trata especificamente do Partido Comunista Brasileiro. isto além de facilitar a leitura tornou suas reflexões didáticas. que cumpre assim a função da prática universitária de tornar os saberes acessíveis a um maior número de pessoas. ao deixar algumas idéias para ser pensada sobre qual a política cultural seria a ideal para o século XXI. contudo. deixar o seu pensar mais ampliado em questões. Debord. por se útil aos estudantes desde o primeiro ano do segundo grau até últimos anos dos cursos de pós-graduação das universidades. No capítulo nono. ora pela indústria cultural. Isto permite percebe que Barbalho possui o domínio da questão cultural devido a facilidade com a qual transita entre os vários teóricos. R?diger. propositadamente. sobre a identidade. A política e economia da cultura é tratada no capítulo mais denso do livro no qual o autor elabora um diálogo a partir de suas leituras de Jameson. Prosseguindo em suas reflexões vai tecendo um discurso bastante lógico e de fácil entendimento sem. da Escola Francesa. É também nele que generosamente o autor permite ao leitor apossar-se da temática cultural. Morin. Neste capítulo. O autor parte das primeiras tentativas de esboçar conceitos de política cultural no pós-guerra. Assim. o privado e a cultura. de Zallo e de Alan Hercovici. onde existem desconstruções-construções ladeadas. No restante do livro o autor. insere o leitor no cenário da política e cultura brasileira. cultura e mídia é apresentado de forma decodificada pelo estudioso Barbalho. tema abordado com extrema clareza pelos diálogos que no suscitam. confundindo muitas vezes o público. de maneira . Isto torna possível o entendimento das contradições deste período conturbado no qual Getúlio Vargas é presidente. Roncagliolo. Isto se deve ao cuidado do autor em escrever. Adorno e Horkeheimer. ora pela política. principalmente no que diz respeito a questões fundamentais para que se tenha o entendimento requerido pelos estudiosos da área. O tema recorrente política. ao beber na fonte de seus conhecimentos. ao tratar da temática cultural e de suas implicações de modo coerente e aprofundado. Baudrillard. cultura e mídia da Coleção Banco do Nordeste do Brasil é um livro que deve estar presente em todas as bibliotecas das escolas brasileiras. somadas a dos teóricos da Escola de Frankfurt. demonstrando que a temática é um debate contemporâneo. Textos Nômades: política. mais especificamente de Bolaños.194 oitavo o autor efetuou subdivisões nos textos. por exemplo. ele abre um espaço para nossa própria reflexão sobre a temática.

Demócrito Rocha. também é professor adjunto do curso de História e dos Programas de Pós-Graduações em Políticas Públicas e Sociedade na Universidade Federal do Ceará. Suas experiências são nas áreas de Comunicação e Estudos Culturais. Comunicação e cultura das minorias (com Raquel Paiva . promovendo seu desenvolvimentos intelectual. 2008) e coorganizador de: Letras ao sol. onde também realiza doutorado em Sociologia.Paulus. desta forma.UFBA. concluídos em 1997. É autor de vários livros: Relações entre Estado e cultura no Brasil. minorias. Demócrito Rocha. contracultura e cultura brasileira. assuntos tão complexos e. cultura. Alexandre de Almeida Barbalho é formado pela Universidade Estadual do Ceará onde cursou licenciatura em História no início da década de 1990. Atualmente. com ênfase em Políticas de Comunicação e Cultura. cultura e mídia (Fund. trabalhando com os seguintes temas: política cultural. É organizador de Brasil. nesta mesma Universidade.Fund. fez bacharelado em Ciências Sociais e seu mestrado em Sociologia. 2005) e Políticas Culturais no Brasil (com Albino Rubim . mídia.195 simples. 1998). Antologia comentada da literatura cearense (com Oswald Barroso . estado. acaba entregando ao leitor um texto palatável. 2005). Posteriormente. que se constitui em um instrumento facilitador ao permitir acesso a informações primordiais para amplas camadas sociais. O público e o privado . 2007). Cultura e imprensa alternativa (UECE.Nº 14 . Seu doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas foi realizado na Universidade Federal da Bahia e concluído em 2004. Cultura e política (A Casa.Julho/Dezembro . 2003). além de ser ocupar a função de professor em Comunicação. em 1993. brasis: Identidades. Lívio Xavier. editado pela Universidade de Ijuí em 1998. A modernização da cultura (UFC. 2000).2009 .

temas livres e resenhas. Tais seções devem apresentar títulos e eventualmente subtítulos. A aprovação dos textos será efetuada mediante o exame do Conselho Editorial e de pareceristas ad hoc levando-se em conta a adequação à linha editorial da Revista. A Revista está estruturada em 4 seções: editorial. 4. passando. incluindo notas e referências. Os Artigos devem ser inéditos. Os artigos publicados na Revista devem ser encaminhados com autorização dos respectivos autores. importantes para a . 5. são de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es). bem como o conteúdo e relevância das contribuições.000 caracteres (sem espaço). 2. titulação). Metodologia.200 caracteres (sem espaço). 2. 4. endereço para correspondência e endereço eletrônico. O texto pode ser estruturado (não obrigatoriamente) observando-se as seguintes partes: Introdução. fonte das citações e revisão ortográfica. resumos e palavras-chave na língua original e em inglês. na fonte Times New Roman. Resenhas são textos concisos comentando publicações recentes de interesse de O Público e o privado.196 O Público e o privado SUBMISSÃO DE AR TIGOS ARTIGOS Instruções nstruções Gerais 1. São aceitos textos em português. espanhol. O resumo deve ser seguido por uma lista de 2 a 5 palavras-chave. Formato do artigo 1. digitados em espaço duplo. corpo 12. artigos. orientação teórica. devendo sumariar objetivos. resultado de pesquisas empíricas e/ou de estudos conceituais acerca de assunto da edição temática. 3. O Editorial é de responsabilidade do editor e/ou organizador(es). identificando autores (nome completo. formatados em processadores de texto compatíveis com o sistema Windows ou Macintosh . Discussão e Conclusões. em sintonia com a linha editorial do Periódico. métodos de pesquisa. O Resumo deve ser auto-contido. inglês e francês. devem ser acompanhadas da informação de autorização do Comitê de Ética. resultados e conclusões do trabalho. a serem de propriedade da Revista. Enviar à Revista os originais em arquivo eletrônico para o endereço revista@ politicasuece. 3. em qualquer meio de divulgação. Em Temas livres são reservados assuntos diversos. espanhol e francês devem apresentar títulos. 6. em processador Word ou em outro compatível. ficando proibida a reprodução total ou parcial. resumos e palavras-chave na língua original e em português. sem a autorização prévia deste Periódico. Artigos em inglês devem conter títulos.5 cm. instituições a que pertencem.com. relacionado ao campo das políticas públicas. margens de 2. conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (MS) e de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial.com politicasuece. após aprovação. assim como exatidão. O título do artigo deve dar uma idéia precisa do conteúdo do trabalho e ser o mais curto possível. se for o caso. Resultados. 5. Conceitos e opiniões expressos nos diversos artigos. não excedendo o tamanho de 1. O artigo deve apresentar no máximo 40. Textos em português. Questões éticas relativas a pesquisas com seres humanos.

listadas em folha separada ao final do texto. gráfico. (org. Horizontes Antropológicos.2. Pessoa e dor no Ocidente. Não deve ser deixada uma tabela ou figura sozinha numa página onde ainda há espaço remanescente de pelo menos cinco linhas de texto. Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. 2. (Tese de Doutorado). Devem ser evitadas linhas órfãs (linha única em um parágrafo ou no início ou fim de página). 6. devem ser em ordem alfabética.5 Artigo em formato eletrônico: CARROLL.197 indexação do artigo. . 5. 7. tecnologias em saúde e medicina : perspectiva antropológica. referência imediata. Outros Elementos do T e xto Te 1. São Paulo: Ed. Livro: FURTADO. se necessário. Deverão conter nome do(s) autor(es). 1. Alice´s Adventures in Wonderland [online]. numerada e deve conter. 1994.). fonte ou autoria. 3. acompanhado de key words. Aqueles elementos gráficos não incorporados ao texto em formato eletrônico não poderão ser processados e o artigo será devolvido a (os) seu(s) autor(es). Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG.4. 1. com o mesmo limite de tamanho.500 caracteres (sem espaço). Lewis.1. Celso. tabela. 2008. [cited 10 February 1995].3. 1. gráficos. Salvador: EDUFBA.6. 1975.). 1.eu. gráficos. ISBN 0681006447. devendo estar em formato eletrônico.Recomenda-se o sistema autor-ano para citações bibliográficas. Germany: WindSpiel. Arthur J. Para ênfase no corpo do texto deve ser utilizado. Cultura. tabelas.1. outubro de 1998. editora e data. Nov. título. Ricardo. Dortmund. Quadros. devidamente legendados. As referências. Fontes matemáticas ou outras fontes diferentes das utilizadas nos estilos descritos acima deverão ser integradas ao texto e cópias dos arquivos dessas fontes deverão ser fornecidas juntamente com o arquivo do texto original. Ano 4. Desempregados do Brasil. Available from : http:// www. Texinfo ed. A. Deve ser inserida uma linha em branco entre o quadro. o tipo itálico. As Resenhas devem contemplar informes breves sobre livros publicados nos últimos 2 anos. 4. 1. A formação econômica do Brasil. 1984. Tese acadêmica: DINIZ. In: ANTUNES. Nacional. por autor. M. Direito internacional público e o estado moderno. D. mapa e fotografia e o texto procedente. As legendas de quadros. Referências Bibliográficas 1. Artigo em periódico: DUARTE. local (cidade) da publicação. n. tabelas.html. Carlos (org. São Paulo: Boitempo. preferencialmente. em no máximo 2. 2. 9. conforme os exemplos abaixo listados: 1. mapas e fotografias devem obedecer às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).germany.net/books/carroll/ alice. O abstract deve ser uma versão em inglês do resumo em português. 2006. mapas e fotografias devem se integrar ao arquivo do texto. Artigo em coletânea: POCHMANN.Coletânia: CAROSO. Luiz F. A legenda deve ser centralizada.

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