Revista do Programa de PósGraduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará

O público e o privado

Dossiê Política, Comunicação e Cidadania

REITOR

Francisco de Assis Moura Araripe
VICE- R E I T O R

Antônio de Oliveira Gomes Neto
P R Ó - R E I T O R D E P ÓS - G R A D U A Ç Ã O E P E S Q U I S A

José Jackson Coelho Sampaio
CENTRO DE HUMANIDADES CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS

Marcos Antônio Paiva Colares
CONSELHO EDITORIAL EDITOR

Maria da Conceição Pio

João Tadeu de Andrade
CONSULTORES I N T E R N O S CONSULTORES EXTERNOS

João Bosco Feitosa dos Santos Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes Francisco Horácio da Silva Frota José Filomeno de Moraes Maria do Socorro Ferreira Osterne José Jackson Coelho Sampaio Maria Barbosa Dias Maria Celeste Magalhães Cordeiro Maria Helena de Paula Frota Sofia Lerche Vieira Ubiracy de Souza Braga Liduina Farias Almeida da Costa Maria Glauciria Mota Brasil Elba Braga Ramalho Francisca Rejane de Bezerra Andrade Gisafran Nazareno Mota Juca Francisco Josênio C. Parente

Manoel Domingos (UFC) Jawdat Abu-EI-Haj (UFC) Pedro Demo (UNB) Ronald Chilcote (University California) Mariano Fernandez Enguita (Universidad de Salamanca) Luiz Jorge Wernek Viana (IUPERJ) Mauricio Domingues (IUPERJ) Maria Alice Resende de Carvalho (IUPERJ) Adalberto Moreira Cardoso (IUPERJ) Paulo Filipe Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Lucilia Monteiro (Universidade Nova Lisboa) Maria Celi Scalon (IUPERJ)

P R O J E TO G R Á F I C O

Clarice Frota
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Cristiê Gomes Moreira - Nupes

ISSN 1519-5481

O Público e o privado. Fortaleza: UECE, 2003-. Semestral. Conteúdo: ano 7, n.14, Julho/Dezembro, 2009

1.Humanidades e Ciências Sociais

CDD 320.000

com Tel/fax: (85) 3101-9880 .politicasuece. Campus do Itaperi.740.UECE. Correspondências via correio comum devem ser encaminhadas para: Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas . A revista possui uma versão on line localizada na página www .com Políticas Públicas da UECE com diversas informações das atividades desenvolvidas.Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas Secretaria: Cristina Maria Pires de Medeiros Endereço eletrônico: politicasuece@gmail.Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas Secretaria: Maria de Fátima Albuquerque de Araújo Souza Endereço eletrônico: politicaspublicasuece@gmail. recebendo também colaborações com temas diversos.com Tel: (85) 3101-9887 . desde que relevantes para a área.9003 .politicasuece.UECE. Fortaleza – Ceará. Paranjana. Tem por objetivo divulgar artigos e comunicações resultados de pesquisas e estudos na área de políticas públicas. Correspondência A submissão de artigos deve ser feita através do endereço eletrônico revista@politicasuece. Av. Periódico semestral e temático.com.O público e o privado Revista do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará . CEP: 60.com revista@politicasuece.com do Programa de Pós-Graduação em www. para a Editoria da Revista. 1700.

João Tadeu de Andrade Editor Alexandre Barbalho Organizador do Dossiê . em especial quando recém ocorreu no Brasil a I Conferência Nacional de Comunicação. democracia. de pesquisadores destas temáticas. Comunicação e Cidadania". Importante acrescentar que o debate acerca das políticas voltadas para os campos cultural e comunicacional se insere em redes mais amplas. de nosso Programa de Pós-graduação. apresentamos o tema "Política. escola em um mundo cada vez mais digital e dinâmico são alguns dos ricos temas deste dossiê. nacionais e internacionais. a partir do Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas de Cultura e de Comunicação (Cult. contemplando outra área do Cult.Editorial Esta edição 14 de O público e o privado volta-se mais uma vez para questões de política cultural. resultando em parcerias e publicações coletivas. Boa leitura. Conteúdos audiovisuais. Esperamos que os artigos aqui reunidos promovam reflexões e intervenções. particularmente comunicação e cidadania. reunindo pesquisadores de vários estados brasileiros e de outros países. É oportuno destacar que esta publicação é de notória atualidade. mais uma vez agregando variedade de pontos de vista sobre assunto tão fundamental para a contemporaneidade. comunicação pública.Com).Com. redes sociais e comunicação. Na edição número 09 foi organizado o dossiê retratando múltiplas abordagens em políticas culturais. Agora. as políticas de comunicação. se desdobrando em outras produções acadêmicas.

Sumário 05 11 25 35 51 67 Editorial DOSSIÊ POLÍTICA. Valério Cruz Brittos O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil Suzy dos Santos Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Alexandre Barbalho. Albornoz 83 107 125 137 147 . Ana Paula Freitas. Aportes y prácticas perversas Orlando Villalobos Finol Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Cida de Sousa Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Horácio Frota. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Paradigma digital: capitalismo. Denise Cogo Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. COMUNICAÇÃO E CIDADANIA El papel de los medios masivos en la vida ciudadana. cultura e esfera pública César Ricardo Siqueira Bolaño. Elza Ferreira Redes Sociais e usos da Internet por migrantes brasileiros na Espanha Daiani Ludmila Barth. Fabrício de Mattos A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro Anita Simis Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España Luis A.

Erotilde Honório Silva RESENHA 193 Alexandre Barbalho. Textos Nômades: política. cultura e mídia Luzia Aparecida Ferreira-Lia .Sumário 165 Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão Luciana Lobo Miranda TEMAS LIVRES 157 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras Roberta Manuela Barros de Andrade.

culture and public sphere César Ricardo Siqueira Bolaño. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda Digital Paradigm: capitalism. Valério Cruz Brittos The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho. COMMUNICATION DOSSIER 11 25 35 51 67 The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices Orlando Villalobos Finol Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota. Elza Ferreira Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth eDenise Cogo Communitarian and local communication in network: logics. COMMUNICA TION AND CITIZENSHIP POLITICS. Fabrício de Mattos The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A. Albornoz 83 107 125 137 147 . Ana Paula Freitas.Summary 05 Editorial POLITICS .

Summary
165
Language and subjectivity in the relationships > between school practices and television Luciana Lobo Miranda FREE THEMES

179 193

When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade, Erotilde Honório Silva REVIEWS

Luzia Aparecida Ferreira-Lia. Textos Nômades: política, cultura e mídia Alexandre Barbalho

(*) Orlando Villalobos Finol é Profesor - investigador de la Universidad del Zulia, Venezuela. Email: ovilla4748@yahoo.com.mx

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El papel de los medios masivos en la vida ciudadana:
Aportes y prácticas perversas The role of mass means of communication in citizen life: Contributions and perverse practices**

Orlando Villalobos Finol*

RESUMEN : Se parte por establecer que el espacio comunicacional, particularmente RESUMEN:

el que está referido a los medios masivos, simboliza la opción de ganar presencia en el ámbito ciudadano, si se favorece una relación diferente con la audiencia que incentive la participación ciudadana y genere la opción para el periodismo de ser un factor para el diálogo y no para la versión sesgada y limitada. Pero el efecto de los medios tiene resultados paradójicos, porque también desestimula lo ciudadano y es fuente de prácticas desinformadoras y contrarias a la creación de hilos asociativos. El trabajo se sustenta en una perspectiva epistémico cualitativa. En los resultados se exponen certezas y conjeturas acerca del problema de la ciudadanía desde una idea más amplia, que remite a la participación, al diálogo y la solidaridad; y se revisa el impacto de la labor de los medios en la construcción de ciudadanía.

Palabras clave: comunicación, ciudadanía, participación, tejido social.

I

ntroducción

Dos preguntas decisivas se pueden mencionar para justificar el presente artículo. La primera, ¿cómo construir ciudadanía, en nuestras ciudades? La segunda, ¿cómo aprovechar el valioso recurso comunicacional que está representado por el aparato de medios público (o estatales) y privados? A partir de allí se genera la revisión crítica de las posibilidades que ofrece el poderoso dispositivo técnico o tecnológico de que dispone el aparato mediático,
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

** El trabajo es resultado del desarrollo del proyeto de investigación: “Incidencia de la comunicación masiva en la participación ciudadana en Maracaibo”, que cuenta con la aprobación y el financiamiento del Consejo de Desarrollo Científico y

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Orlando Villalobos Finol

y desde luego de las posibilidades culturales y políticas que puede aportar la plataforma mediática, para superar la desigualdad social, la exclusión y las contradicciones que impiden el acceso a un código justo de ciudadanía, que se exprese en condiciones materiales (vivienda, salud, empleo) y socioculturales (educación, cultura, democracia, diversidad, identidad), que faciliten sociedades diferentes, capaces de revertir las condiciones de pobreza y de construir calidad de vida, ejercicio ciudadano pleno, cultura de paz y democracia. Ese es el debate que aquí se asume, en un esfuerzo por generar diálogo, reflexión teórica y mostrar otras opciones, diferentes a las conocidas. Cualquiera que se asome a nuestras ciudades encontrará una notoria conflictividad social, atizada por las precariedades de las condiciones de vida y por el cultivo de indicadores socioculturales desfavorables. El problema, entonces, es cómo revertir las condiciones actuales, cómo revisar la actuación del aparato mediático, para transformarlo; cómo crear vías para que sea posible el surgimiento y crecimiento de la vida ciudadana; cómo generar vías de inclusión social y derrotar su antitesis, la exclusión, que se traduce en precariedad, desempleo, deserción escolar, delincuencia y pérdida de la esperanza.

Justificación
El trabajo se sustenta en la perspectiva epistémica cualitativa. Se valora la subjetividad como forma de conocimiento. Para apoyar las reflexiones que se incluyen en el texto, se incorporan los testimonios de algunas fuentes claves entrevistadas, durante la investigación. El estudio se circunscribe al contexto de Maracaibo, una ciudad que reúne una serie de rasgos específicos: históricos, lingüísticos, culturales y comunicacionales. La ciudad resume un conjunto de características propias: su historia, su condición de ciudad-puerto y de ciudad-centro, sus particularidades económicas y culturales, el empleo del voseo (uso del vos, en Venezuela predomina el tú) en el habla, su condición de ciudad fronteriza con Colombia, y el signo distintivo que la convirtió, por mucho tiempo, en una región histórica solvente y autosuficiente.
Humanístico (Condes) de la Universidad del Zulia (VAC - Condes CH - CH - 0777-08)

Maracaibo tiene una integración espacial con permanencia en el tiempo; y tiene una condición de ciudad-puerto le permitió desde el siglo XIX comercializar sus productos con Europa y con otras regiones de América Latina y el Caribe. Según Cardozo (1985: 237), se puede definir como una región histórica

En ese escenario. Las audiencias de los medios son tratadas como potenciales clientelas de los anunciantes. de modo que puedan manipular más eficazmente hábitos y preferencias para ventaja suya. no importa la persona. Packard (1982: 10) explica que surgen los persuasores o manipuladores de símbolos que exploran los hábitos ocultos de la gente para aumentar su capacidad para manejar y ganar nuestro consentimiento (…) estos investigadores buscan por supuesto los porqués de nuestra conducta.Julho/Dezembro . Con motivo de la guerra de Vietnam. interesado en la promoción de los valores del consumo. (…) por qué las amas de casa caen en trance hipnótico cuando entran en un supermercado. Arendt (1998: 43) analizó que. Prevalece el enfoque filosófico que se nutre del pensamiento liberal. Esta idea los ha llevado a investigar porqué los bancos nos asustan. en la que se desplegaron campañas para persuadir al público norteamericano de la supuesta amenaza que ese país representaba. por qué los hombres fuman cigarros. Se busca descubrir las debilidades o percepciones para influir de la manera más eficaz en el comportamiento de la gente. La publicidad hace el resto.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 13 que a principios del siglo XIX. “era ya el centro de la actividad económica y comunicaciones del occidente venezolano”. los medios masivos surgen como la plataforma que está llamada a cumplir ese rol de agente catalizador.Nº 14 . que se ofrece como posibilidad de acceder al estatus. no ser.2009 . De tal modo que los medios masivos se convierten en la vía a través de la cual se promueve el consumo desmedido. Importa tener. que reduce el ciudadano a la condición de cliente. de factor clave para contribuir a generar una subjetividad que lo propicie. (…) por qué adquirimos un hogar. Importa tener. Abarcaba el extenso territorio de la cuenca hidrográfica del lago y tenía abundantes recursos naturales. Esquemáticamente se puede mostrar de este modo: se coloca al ciudadano en el papel de espectador y se le niegan sus posibilidades como protagonista y actor. Enfoque teórico Ciudadanos vs. O público e o privado . consumidores Desde los medios masivos se favorece la disyunción entre ciudadanía y consumo.

que le sirve de sustento.) se hallaban tan convencidos de la magnitud del éxito. lo colectivo. ni información. pero en ese caso los persuasores intentaron crear la idea de la invencibilidad. La comunidad. Los medios se orientan en esa dirección de agentes persuasores y al mismo tiempo. la cooperación. Se crea desinterés por el otro. Lo ciudadano queda en segundo plano. Los medios masivos se ajustan a un guión previamente asignado por la sociedad de consumo.14 Orlando Villalobos Finol los engañadores empezaron engañándose a sí mismo (. Confiaron en sus propias teorías. Como se sabe EEUU fracasó en Vietnam. No son lo esencial. Para que eso sea posible se propicia una subjetividad. y tan seguros de sus premisas psicológicas acerca de las ilimitadas posibilidades de manipulación de las personas. un mundo simbólico. Quisieron engañar y terminaron autoengañados. como fin en si mismo. Se . No hicieron distinción entre una hipótesis plausible y el hecho de que ésta debe ser confirmada. la política es menospreciada y colocada como una actividad de segundo orden. el contexto pasivo. son lo complementario. la solidaridad quedan en entredicho. 1998: 48). Los solucionadores de problemas erraron porque confiaron demasiado en sus premisas y se olvidaron de la realidad. que anticiparon una fe general y la victoria en la batalla por las mentes de los hombres.. sino en buena medida nuestra propia creación simbólico-vivencial. El mundo en que vivimos es un mundo humano. o justamente por eso. tenían una ´teoría´ y todos los datos que no encajaban en ésta era negados o ignorados” (Arendt. con lo que está afuera del lenguaje. Esa idea de la subjetividad sólo puede valorarse si se comprende que la realidad no es una simple abstracción. “No necesitan hechos.. desestimulan lo ciudadano. un mundo construido en nuestra interacción con lo real. sino en el terreno de las relaciones públicas. no en el campo de batalla. se coloca al servicio de la lógica que estimula el consumismo. Son fuente de una subjetividad propensa al consumo que se agota en si mismo. con el misterio que opone resistencia a nuestras creaciones y a la vez es la condición de posibilidad de las mismas (Najmanovich. Terminaron creyendo las imágenes que ellos habían elaborado. 2001) El aparato mediático se instrumentaliza. una “espiritualidad”. o se les confina al rincón de lo secundario.

Esa orientación viene de la televisión y hoy día incluye el entorno tecnológico que nos arropa y nos acompaña en nuestras manos.Julho/Dezembro . justicia social y solidaridad.. Hasta hace poco una persona podía vivir en el mundo de su pueblo. el estilo de vida. estilos de vida. Hoy se puede concluir que “el mundo que construimos no depende sólo de nosotros. una red de redes de lo que ya se ha hecho común denominar la sociedad civil. Wifi. que la mayoría de las veces van en la dirección de favorecer el consumo que se agota en si mismo. En términos específicos. requiere un comportamiento de los medios. aldea o comunidad. entendida como el ejercicio benefactor emancipatorio. por ejemplo. camas y sobre todo en la mente. criterios. En otras palabras. ahora desde que nace interactúa con los medios masivos. MP3.. Esta aspiración forma parte de una vieja bandera de lucha postulada.) el objeto debe ser la utilización de las capacidades O público e o privado . de la participación de muchos. juegos electrónicos. La idea que favorece la expresión de ciudadanía.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 15 instala un “programa” que dicta los valores. valores. De tal manera que las explicaciones simples pueden ser cómodas pero insuficientes. bolsillos. en el amplio arcoiris que ofrece Internet. Palm. Se apoya en los teléfonos celulares.2009 . que desde la cuna tratan de imponerle pautas. sino que emerge en la interacción multidimensional de los seres humanos con su ambiente. que se traduce en pluralidad democrática.Nº 14 . los IPOD. que responda a una lógica de empoderamiento del ciudadano. los medios masivos están llamados a favorecer una democracia comunicacional. pantallas táctiles. la cultura. comprometido con esos propósitos. del que somos inseparables” (Najmanovich. 2001). por cuanto no incluyen la multidimensionalidad de factores que generan las nuevas metáforas de lo complejo. unos valores. mesas. diálogo. y desde luego. en el Informe Mcbride: La comunicación ya no debe considerarse sólo como un servicio incidental y su desarrollo no debe dejarse al azar (. el medio masivo está llamado a favorecer la circulación del pensamiento y el derecho a la información. ¿qué noción de ciudadanía se promueve desde los medios masivos? Se entiende de este modo que hay una influencia que éstos ejercen y luego que desde la plataforma mediática se promueve o estimula una visión. cada vez más sofisticados o multiespecializados. los PC. De allí la pertinencia de la interrogante. como parte de la misión social y pública que les corresponde.

en un espectáculo de noticias que van y vienen. en tercera persona. 2001: 26) . Incluso los debates de opinión se montan sobre este modelo: el que defiende una idea y el que la ataca. 1987: 211). Las raíces del problema están en un modelo informativo/periodístico que en lugar de promover el diálogo público y la participación.la narra. desde una supuesta objetividad. 2001). En el llamado “debate público” sólo se visibiliza a protagonistas con alguna posición de poder. y la promoción del crecimiento de individuos y comunidades en el marco más amplio del desarrollo nacional en un mundo interdependiente (McBride. la armonización de la unidad en la diversidad. No se incluyen los matices. reduce el ciudadano a la condición de espectador y de consumidor. (Miralles. Ese debate se convierte. opaco. desde una posición distante. especialmente en la televisión. Es decir. Aquellos están allá y el ciudadano aparece un lugar distante. Ese es el papel reservado a los debates. para que los hombres (y las mujeres. El relato liberal se escuda detrás de la fachada de la objetividad y de la imparcialidad para evitar explicar los acontecimientos en toda su amplitud y su complejidad. Esta forma de periodismo tiene como sólida referencia el paradigma liberal que postula que unos hacen la historia y otros –el periodismo. y entonces la objetividad resultaría -¡cosa extraña!. descontextualizada. NN) y las sociedades estén conscientes de sus derechos. Se insiste en que las informaciones tienen dos lados: blanco y negro. invisible. en razón del ejercicio mediático. No se trabaja con otros aspectos ni con otros actores. al periodismo existe para narrar lo que ocurre.de la bipolaridad y no de la proximidad a la realidad con todos sus matices.16 Orlando Villalobos Finol peculiares de cada forma de comunicación. El rol de la ciudadanía se limita a “leer lo que hace el poder” (Miralles. La ley de los contrarios le pide al periodista que entreviste a la parte y a la contraparte. Rara vez se le concede la palabra al ciudadano. desde las interpersonales y tradicionales hasta las más modernas.

sus puntos de vistas no aparecen representados. medios que expresan certezas. alimentados por capitales transnacionales. La lógica hegemónica de los medios masivos En el ámbito de la comunicación se han desarrollado dos lógicas. Entonces. 2001: 10). en la medida en que pueden influir en las pautas que rigen el comportamiento humano. Por esa razón responden a una lógica que marcha. pero fundamentalmente en lo sociocultural. pero no cabe duda que éstos constituyen escenarios de poder.2009 . en dirección contraria a la del ciudadano. La primera es la lógica de los grandes medios masivos. los medios consiguen “independencia”. están para velar por otros intereses. en términos políticos. Más allá de cualquier previsión teórica así ha ocurrido en los hechos. El relato liberal de la ciudadanía encuentra su sistema de legitimación en el modelo informativo/periodístico que actúa para crear audiencias cautivas y pasivas. regionales. O público e o privado . Son parte del relleno de la programación. para tener espectadores y no actores. Para hacer el desmontaje este sistema tradicional se tiene que dar paso a un enfoque diferente que revalorice la presencia ciudadana. La segunda incluye a medios alternativos. comunitarios o mucho más cercanos a la vida complicada de la gente. de fomentar la banalidad. Estos ítems no están en el horario estelar. Los medios masivos o grandes medios. Mucho puede debatirse sobre la influencia de los medios masivos. valores y costumbres.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 17 En ese juego de ataque y contraataque la ciudadanía queda al margen. la educación. o de lo que podemos llamar las nociones e intereses del ciudadano promedio. En vista de que es éste el desarrollo que han adquirido los medios. las ideas. puede entenderse que se distancien cada vez más de la comunidad.Julho/Dezembro . coincidan o no con lo comunitario. que admita que el periodismo es un actor y no solamente un relator de la vida social” (Miralles. La reflexión. muchas veces. contradicciones.Nº 14 . de reproducir el estilo de vida que uniforma gustos. “que promueva la deliberación y la acción pública. la música que estimula el pensamiento y la cultura han quedado reducidos a pequeños espacios. dudas. precariedades y esperanzas. que fomente agendas que propicien la participación. responden a propósitos expresos de estimular el consumo. anotados en la dirección globalizadora.

el control mediático lo transforma en un consumidor pasivo de entretenimientyo y en espectador de la política por televisión (Carmona. d.18 Orlando Villalobos Finol En la actualidad. un extra que es que el nos interesa resaltar ahora. 2. (Gumucio. Puede añadirse. más mensajes). el discurso dominante ofrece propaganda política. La privatización de las frecuencias. La concentración de la propiedad de los medios se expresa en el control que ejercen los megagrupos mediáticos estadounidenses. 2005. que los medios constituyen una industria. Hay concentración de la propiedad de los medios. c. The New Cork Times y Viacom. El crecimiento constante de la importancia industrial y económica de los medios masivos. 1998: 440). AOL/Times Warner. Entre estos megagrupos están: Walt Disney Company. 3. The Washington Post. En ellos. Pero además hay un plus. que dominan los medios masivos en Estados Unidos y extienden su radio de acción hacia América Latina. Internacionalización: transmisión de la información y de la cultura a través de fronteras nacionales que antes cerradas o restringidas. La ausencia de radio y televisión de servicio público. Comercialización: se depende de la publicidad comercial y de los auspicios y hay cada vez menos un control público de los medios. El manejo de los medios hace que quienes tengan el dominio de éstos adquieran una capacidad de influir que se traduce en poder. 4. “Por influencia de las grandes empresas multinacionales ya no se discute la información como un hecho cultural y social sino como un hecho de mercado”. citado por Beltrán). Interactividad: creciente importancia de los “nuevos medios” electrónicos multimedios. 2008: 70). b. crea opinión pública y persuade a favor de la ideología conservadora (…) en vez de informar al ciudadano para dotarlo de una visión crítica y vigilante. esos medios masivos muestran las siguientes características: 1. Expansión: incremento del volumen de la producción mediática (más canales. que deriva de la madeja de relaciones que ocurre entre estos medios y los corporaciones transnacionales y nacionales. . en medio de una “correlativa reducción en el poder los gobiernos para regularla y controlarla” (McQuail. en cuotas de poder. cuyo desarrollo se expresa en cuatro tendencias principales señaladas por McQuail (1998: 436-441) a.

ciudadanas. que sea incluyente y corrija las perversiones generadas por la pobreza y la desigualdad. ¿Qué hacer para rescatar el sentido comunitario de la comunicación? ¿Cómo hacer para que la comunicación incluya y haga posible opciones democráticas. que van de la mano del crecimiento vertiginoso de las tecnologías de la información y la comunicación. Como eso requiere superar la lógica mediática predominante. Emancipación es un sustantivo que refiere el acto de tomar conciencia. para remar en la dirección de nuevos valores asociados a la solidaridad. justicia.2009 . Recuperar la noción de que comunicación significa diálogo.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 19 Estas tendencias. privados o comunitarios. se impone la filosofía del tener por encima del ser. que haga de los usuarios y usuarias personas conscientes. sean públicos. En lugar de otra hegemonía. derechos humanos y derechos de todos. obedecen a un guión. Comunicación y tejido comunitario Frente a ese panorama aleccionador. liberarse de la subordinación o sujeción. 2008: 229). de los seres humanos y de la naturaleza. favorecen el predominio de tendencias perversas. O público e o privado . Si hablamos de medios técnicos está en los medios masivos. significa poner algo en común. “vender” ideas y vender mercancías. De tal modo. ganar soberanía. tiene más pertinencia propiciar el desarrollo de corrientes contrahegemónicas capaces de revelar prácticas comunitarias y transformadoras (Villalobos. y por esa vía se pueden añadir más sustantivos vitales y centrales: dignidad. Desde la óptica perversa la “realidad” y la “verdad” se construyen. encuentro. No es potestad de ningún campo. entonces. la cooperación y las acciones colectivas. es preciso propiciar tendencias y prácticas contrahegemónicas. tejido social.Julho/Dezembro . entendida como concepto integral. Esa nueva lógica está en la comunicación humana. complejo y difícil surgen una serie de interrogantes. para construir comunidad. revitalizadoras de lo humano? ¿Acaso puede surgir y desarrollarse una noción diferente. un paradigma emancipatorio? Esta es la idea clave. porque se trata de proponer otro poder ligado a lo ciudadano. Enarbolar la idea de levantar o construir una nueva hegemonía no es suficiente. no sujetas de ningún reflejo condicionado. que en el caso de la influencia de los medios puede hacerse referencia de un paradigma que sea emancipatorio. soberanía. Lo importante es persuadir.Nº 14 .

a la que se dice defender. pero no para marchar junto a la comunidad. cobra vigencia un tipo de periodismo que sigue los moldes del periodismo industrial: 1. que se quiere comprender y explicar. como íconos. conviene observar que la comunicación incluye una pluralidad de prácticas y saberes. Se utilizan los símbolos locales para exaltar una cierta condición marabina. específicos. Quiere llegar a . propone una visión diferente que tome en cuenta una demanda que viene de la ciudadanía y que fielmente se refleja en la frase recogida de un graffiti: “Basta de medios. Han sido empleados muchas veces para defender intereses particulares. coloca de manifiesto que los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente. en la conformación de ciudadanía en Maracaibo. A fines del siglo XIX y a principios de los XX predomina un periodismo cultural y literario. que tiene en El Zulia Ilustrado uno de sus mejores emblemas. y vínculos con una comunidad humana específica. resultados y consideraciones mínimas La investigación sobre el impacto de la labor los medios masivos en la ciudad. y no para cumplir la labor de medio de servicio público.20 Orlando Villalobos Finol Eso implica entender la comunicación a partir de aproximaciones teóricas que permitan un reconocimiento más amplio del contexto. interpreta e informa. la Chinita. Más allá de las determinaciones instrumentalistas y de enfoques mecanicistas. pero se quedan en eso. En ese sentido. Lo local es un pretexto para ganar cobertura. en términos favorables para la comunidad. o dicho de otro modo. y simplificadores. amplia. desde mediados del siglo pasado. económicos o políticos. el paradigma emancipatorio reclama ver la comunicación desde una perspectiva de complejidad. que investiga. en la que participan sujetos activos. Cuando uno se aproxima. el lago o la gaita. Aplicaciones. a través de los relatos recabados. diversa. sugiere una revisión exigente de cómo se constituyen el tejido social y el ejercicio de la ciudadanía. busca la verdad y no deja imponer los límites de determinados intereses. convivencia. queremos enteros”. con intereses propios. al periodismo que se ejerce en Maracaibo consigue distintas tendencias y desarrollos. Posteriormente. En síntesis. busque dilucidar la trama de relaciones que hacen posible la convivencia humana y se recupere la perspectiva que presente la comunicación como una acción dialógica. interesada en contribuir a ofrecer una explicación crítica. solvente y menos apegada a rígidas conceptualizaciones. para comprender el valor efectivo de la comunicación se requiere de una visión que incorpore lo social. no reflejan un afán por favorecer el desarrollo de la región. críticos.

al principio. incluso. y ¿qué pasa?. 2. y entonces algunos intelectuales se opusieron a eso. de hacer cosas. pero nada o casi nada que contar. de alguna manera. Los medios masivos no reflejan la ciudad o no la reflejan lo suficiente y se desaprovecha la potencialidad de lo local o regional. Cabe la acotación siguiente. Mariana1: “Lo que pasa es que el periodismo. La influencia que ejercen los medios es notoria. tal como Panorama se lo enseñó. por ejemplo. y no es que el periodismo construye la ciudad. Ciro : “La ciudad durante muchos años aprendió a pensar. Luce desproporcionado lo señalado por un entrevistado en el sentido de que “la ciudad durante muchos años aprendió a pensar. si tú te pones a ver. en los símbolos que identifican al marabino.Julho/Dezembro . en las tradiciones que predominan e. En lugar de formar y multiplicar sus posibilidades culturales y educativas queda a merced de los intereses comerciales y políticos circunstanciales. en literatura en 1883. al teatro Baralt lo iban a llamar Teatro Colón. primero. que además fue una exquisitez de publicación. porque se va generando otro tipo de cosas. No obstante. para explicar el comportamiento social de la ciudad se requiere de la valoración del papel ejercido por los medios. O público e o privado . sino la ciudad la que construye al periodismo y se transforma en otra cosa. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 21 amplias audiencias con informaciones de interés público y deja en lugar secundario la investigación y la interpretación. Entonces ése es el tipo de discusión en los medios que tú después no ves”. las defendían.2009 3 1 Entrevista realizada el 20 de mayo de 2003 2 Panorama es un diario local de antigua data. peleaban por las cosas que les interesaban como comunidad. entonces se vuelve un periodismo brollero (intrascendente). Fue fundado en 1914 3 Entrevista realizada el 4 de junio de 2003 . esto es una hipótesis que yo tengo. También tuve oportunidad de ver una guerra de ésas porque. o sea. y 3. el primer periodismo fue un periodismo formativo (…) por eso se crea una conciencia de ser regionalista que tomó un peso específico y tomó una capacidad histórica. bueno. ¿verdad?. Eso se puede determinar o comprobar un poco en expresiones populares.Nº 14 . ¿verdad?. donde los grandes intelectuales escribían…Yo ubiqué El Zulia Ilustrado. que una vez que ese periodismo ya no es formativo. El imaginario colectivo. había 16 revistas literarias especializadas en teatro. es pautado u orientado desde los medios masivos. según se desprende de los relatos de vida. el periodismo del siglo XIX. Francisco Eugenio Bustamante y toda esa gente defendía la tesis de que Colón debió ser para un puerto no un teatro. entonces eso le daba a la gente una conciencia. ése era más o menos el tono. que en ese tiempo hubo un sentimiento de reivindicar a Baralt y luego Dagnino. yo no la puedo probar. tal como Panorama2 se lo enseñó”. porque Colón no tenía nada que ver con el teatro y pidieron que se le rindiera un homenaje a Baralt y consiguieron eso. A los ciudadanos se les trata como meros consumidores a los que hay mucho que vender.

que el juego se perdió porque la culpa la tiene. Esa influencia es innegable. Lo que me estaba pidiendo era el diario El Nacional. y todavía una parte de los que tienen 40 años. hay en el consciente colectivo de las generaciones. allí ésta`. El ejemplo de Ciro coloca de manifiesto que hay un imaginario colectivo de alguna manera pautado u orientado desde los medios masivos. Están discutiendo. o sea. de la mayonesa no se consume sino la Kraft. con conciencia plena de su responsabilidad social. Pero esa influencia es limitada. se obvian las responsabilidades de información y de atención a la ciudadanía. hay muchas personas mayores. Eso es lo que demuestra que la gente asume lo que consume. Los medios masivos influyen y el testimonio incluido lo revela. y me iba a visitar. en las tradiciones que predominan e incluso en los símbolos que identifican al marabino. y te dicen. Por ejemplo. Se dan casos como el de mi mamá. “Son simples agentes informadores y explotadores de la noticia”. los lectores de 50. porque El Impulso no vende más que Panorama”. algo sobre béisbol ¿no?. y sigue siendo el periódico que más se vende en el occidente del país. Entonces se ha aprendido. de acuerdo con los testimonios aquí expuestos. se puede demostrar. y cuando llegaba allá decía: ‘Mijo comprame un Panorama que quiero leer el Panorama de Caracas’. dice Gastón5. Siempre hay una barrera infranqueable para los medios: la conciencia ciudadana. ´léelo en Panorama. no habla de hojilla. La capacidad de decidir de los usuarios y usuarias. 60 ó 70 años. léete Panorama pa´ que veáis’. sobre todo. es más. . sino de Gillette. eso lo leí en Panorama y eso es verdad. y así sucesivamente. que no creen en los hechos sino lo leen a través de Panorama.. 4 Entrevista realizada el 14 de junio de 2003 5 Entrevista realizada el 7 de abril de 2008 Se asume la actividad periodística como un negocio del que se espera una rentabilidad y se hace poco o nada por convertirla en un servicio público. por ejemplo. Por tanto. como parte de su patrimonio. Eso se refleja en el lenguaje y en la forma de pensar. que viajaba mucho a Caracas porque yo vivía allá. aquí la gente no bebe otro café que no sea El Imperial. y en eso tienen que ver mucho los medios”. En lo que se refiere al aporte de los medios impresos la percepción que prevalece no es favorable. una manera de pensar. de creer y de valorar la ciudad que Panorama ha servido como el puente o la inyección de esa manera de pensar.22 Orlando Villalobos Finol la credibilidad que tiene la gente con Panorama. ‘no chico. La influencia que ejercen los medios es específica.. Gertrudis4: “Indudablemente que los medios han incidido bastante en la forma de ser de los marabinos. no utiliza otra hojilla que no sea la Gillette.

237-263 Carmona. citizenry. España: Taurus Arendt. Los periódicos. The Rockefeller Foundation.com/both/temas/lramir) Mc QUAIL. citado por BELTRAN. “realmente no ayudan mucho porque el hecho de que sucesos sea la sección más leída. www. Buenos Aires. which favors a different relationship which the audience that promotes citizen participation and generates the option in which mass communication becomes an option for dialogue.Nº 14 . Germán (1985) “La región marabina. Referencias república. Que una historia morbosa de muerte que es lo que gusta leer más a la gente no creo que ayude mucho. and not simply another blind and/or limited version of reality. Buenos Aires. Hannah (1998). and which reviews the impact of the effort of mass means of communication in the construction of citizenship.2009 . El interés por vender el producto periodístico se sobrepone al servicio público que se presta. But the effects of mass means of communication are paradoxical. Amorrortu Editores comunicación y el interés público O público e o privado . New York.portalcomunicación. III. social fabric. Tierra F Vol. asumen plenamente. since they are a source of dis-informational practices and often contrary to the creation of associative links. siglo XIX”. sino lo que necesita”. Keywords: communication. participation. which includes participation. Yo creo que allí priva lo que dijo el colombiano Javier Restrepo. Crisis de la república irme irme. Ernesto (2008) “Los amos de la prensa en América Latina”. Venezuela: Ministerio del Poder Popular para la Información y la Comunicación Gumucio-Dagron. Él dice que a la gente no hay que darle lo que quiere. Firme CARDOZO. Luis Ramiro (2005) La comunicación para el desarrollo en Latinoamérica: un recuento de medio siglo. no me parece que ayude mucho a rescatar los valores de la gente. en Encuentro Latinoamericano Vs. dialogue and solidarity. This paper is based on a qualitative epistemological perspective. especially that refered to in mass means of communication. Documento presentado en el III Congreso Panamericano de la Comunicación. Haciendo olas: historias de comunicación participativa para el cambio social.El papel de los medios masivos en la vida ciudadana: Aportes y prácticas perversas 23 En el criterio de Celina periodista6.Julho/Dezembro . The results offer wider certainties and conjectures in relation to this problema from the perspective of the common citizen. Los medios de público. el papel que les corresponde en la creación de ciudadanía. symbolizes the option of establishing presence in the citizenry environment. Denis (1998) La acción de los medios. Terrorismo Mediático. Alfonso (2001). ABSTRCT : ABSTRCT: 6 Entrevista realizada el 6 de febrero de 2008 Artigo Recebido: 08/08/2009 Aprovado: 20/10/2009 We begin by establishing that communicational space. ni los periodistas. con responsabilidad social.

A. La globalización indolente en América Latina Latina. Vance ackard. Universidad de Zulia. MIRALLES. Argentina: Ediciones Insumisos .24 Orlando Villalobos Finol múltiples. Bogotá: Grupo Editorial Norma ciudadana NAJMANOCICH. Año 6 N° 14. Septiembre 2001. Denise (2001). voces múltiples Fondo de Cultura Económica. V Pack Aires: Editorial Sudamericana VILLALOBOS FINOL. (2001) Periodismo. Buenos ard. R. y CHAVEZ. 0. Venezuela. . Sean et al (1987) Un solo mundo. Utopía y Praxis Latinoamericana. (2008) Medios masivos y globalización: ¿Cómo el campo de la subjetividad interviene en la disputa por el poder? En SALAZAR. Revista Internacional de filosofía Iberoamericana y Teoría Latinoamericana Social. “Pensar La Subjetividad”. ance (1982) Las formas ocultas de la propaganda. opinión pública y agenda ciudadana. Ana M. México: MaC BRIDE.

ao mesmo tempo em que historicamente se tem defendido este direito.Julho/Dezembro . temos assistido ao desenvolvimento de um processo de concentração dos media que. sobretudo se pensarmos na possibilidade de consolidação de uma sociedade verdadeiramente democrática que. Sociedade. mas possibilitem O público e o privado . A implementação de políticas de comunicação que visem não apenas ao acesso ao consumo da informação. E-mail: cida@ufc. Desenvolvimento. Democratização.2009 . ajudada pela omissão dos poderes públicos. não pode prescindir do direito à informação.Nº 14 . O presente artigo reflete sobre as políticas públicas de comunicação e discute a comunicação para o desenvolvimento. o que é fundamental para a construção da sociedade democrática. Devem visar não apenas o acesso ao consumo da informação mas. possibilitar a participação da sociedade nas etapas de sua produção. Políticas de Comunicação. I ntrodução A Comunicação é tema de indiscutível relevância no mundo contemporâneo. Palavras-chave: Comunicação. inviabiliza a democratização. Ocorre que.(*) Cida de Sousa é Professora do Curso de Comunicação Social da UFC.br 25 Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social Policies of Communication and Democratic Society: the paper of the communication in the social development Cida de Sousa* Resumo: As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. portanto. O impacto positivo da comunicação pode ser sentido nos projetos de desenvolvimento.

é somente no final da década de 1970 que se percebe a necessidade de uma nova ordem mundial para a comunicação. seguindo a mesma linha de pensamento. Quando a Organização das Nações Unidas para a educação. A dependência comunicacional começa a ser questionada.26 Cida de Sousa a participação da sociedade nas etapas de sua produção é fundamental para a construção da sociedade democrática. Luiz Ramiro Beltrán define políticas de comunicação como “um conjunto de normas integradas e duradouras para reger a conduta de todo sistema de comunicação de um país.: 1997). comprometendo sua legitimação. ressaltam princípios e normas que constituem o sistema de comunicação de cada país. como Mauricio Antezana. independentemente do compromisso dos governos com a democracia. a ciência e a cultura – UNESCO defende a necessidade do debate e recomenda a seus membros que estudem maneiras de formular políticas de comunicação. Postura de fácil compreensão se atentarmos para o fato de que a comunicação está relacionada com a ordem social. herdeira das contradições dos grandes centros do mundo. O monopólio da comunicação. O Pensador boliviano. o que não interessa aos dominantes (GOMES. ou seja. De fato. Assumem a defesa do modelo vigente e iniciam uma batalha silenciosa contra uma possível comunicação libertadora para a América Latina. Outros estudiosos da comunicação. com os processos sociais. políticos e econômicos vigentes. evitando que as discussões ganhem visibilidade. desperta preocupação. debater a comunicação é debater a própria estrutura social. entendendo por sistema a totalidade das atividades de comunicação massiva ou não massiva” (BELTRÁN. Dessa forma. O contexto de desencanto com a política econômica marcado pela dependência da América Latina. as políticas de comunicação expressam as relações que se estabelecem entre governos e veículos de comunicação de massa. visto que. os donos das grandes empresas de comunicação na América Latina iniciam uma campanha contra o debate e possíveis mudanças. reforçava a necessidade de se refletir sobre o tema. contribuindo para a internacionalização de elementos culturais e ratificando a força de grupos hegemônicos. definir políticas de comunicação é aproximar os campos político e jurídico do campo da . citado por GOMES. 1997). de alguma forma mantêm as relações com o sistema de mídia existente. Mas. Neste ou em outro contexto. todos os países têm sua política de comunicação. Pensando o conceito de políticas de comunicação A discussão em torno das políticas de comunicação data do final dos anos de 1960. Assim.

612/ 98 que institui o Serviço de Radiodifusão Comunitária no País. quase sempre apresentados como sinônimos. embora o governo se constitua num dos principais atores do espaço público. Enfim. a falta de um sistema não-comercial realmente forte para disputar audiência. Devemos entendê-lo como o que é de todos e para todos. Políticas Públicas de Comunicação A noção de comunicação pública como sendo simplesmente aquela praticada pelo governo é um equívoco. pois. Podem ser concebidas de forma mais democrática ou menos democrática.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 27 comunicação. que contemplam aspectos das realidades política. p. Um outro equívoco que precisa ser desfeito diz respeito ao que é público e ao que é estatal.2009 . Desfazer tal engano é imperativo para que a sociedade compreenda que “o espaço público é responsabilidade de todos e requer o engajamento e participação ampla da sociedade. compreender que essa relação se vai estabelecendo num determinado chão histórico com todas as suas marcas como (no caso brasileiro) a concentração. econômica e cultural de um país. num espaço de cidadania” (Oliveira. tanto de governo no campo da comunicação. é preciso refletir sobre esse cenário em que os donos dos meios de comunicação pressionam políticos e governos a desestimular e até impedir o surgimento de meios alternativos. como as rádios comunitárias. necessária para que se efetive a comunicação pública.Nº 14 . conforme os espaços de discussão que se estabelecem na sociedade com suas representações. ela envolve toda a comunicação de interesse público que é praticada não apenas pelos governos.188). seu papel no processo de acumulação capitalista. de fato. como dos próprios veículos de comunicação. O público e o privado . pelo Terceiro setor e pela sociedade em geral. a inexistência de controle público.Julho/Dezembro . a fim de que tal espaço se transforme. limita. 2004. o monopólio exercido pelas corporações da mídia. que ao invés de contribuir para a democratização. findam por interferir significativamente na implementação das políticas de comunicação dos governos. que orientam e definem ações. O caráter de classe dos meios de comunicação de massa. As políticas de comunicação estão diretamente ligadas ao sistema econômico e a tudo que ele representa. O espaço público não se restringe ao estatal. Pressão que se expressa na forma da Lei 9. É preciso. Uma definição sempre contextualizada de políticas de comunicação deve concebê-la como um complexo de leis. Assim. cabe a toda a sociedade ocupar seus espaços construindo uma cidadania plena. A comunicação pública é mais que isso. normas e recomendações. Pode ser estatal e público não-estatal. dada a sua própria natureza. mas também por empresas.

Em 2006. Ela lembrou que se quisermos atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio. deve ajudar a promover ações que impliquem em mudanças culturais e de atitudes na sociedade. afirmou que a comunicação anda de mãos dadas com o desenvolvimento e está no âmago da dimensão social dos direitos. Em seu discurso. Dar voz a todos e fazer com que essas vozes sejam ouvidas é tornar o desenvolvimento sustentável. Essa mudança de postura representa maior transparência e um tratamento mais justo para todos. e quisermos ainda que os direitos sociais dos países pobres sejam reconhecidos e não esquecidos. Os líderes precisam dar maior prioridade à comunicação. Patrizia Sentinelli. fazer menos propaganda e promover mais engajamento. O Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento finaliza seus trabalhos declarando que “Comunicação é Desenvolvimento” e demonstrando que a Comunicação para o Desenvolvimento é uma ferramenta essencial que precisa ser fortalecida na agenda global. Cabe ao Estado promover políticas públicas de comunicação que respeitem as complexidades e pluralidades do corpo social visando à democracia. Para Bordenave (1994). Comunicação e desenvolvimento local O desenvolvimento local é um caminho que leva à construção da cidadania.28 Cida de Sousa As políticas públicas de comunicação devem ser pensadas como ferramentas no trabalho de promover a democratização da sociedade. A principal orientação aos mais de setecentos participantes de todo o mundo foi sintetizada na frase: “vão para casa e ouçam as pessoas”. a participação é inerente a natureza social do homem e não participar representa . Comunicação e desenvolvimento Um país não poderá se desenvolver sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. A própria comunicação deve ser pensada como ferramenta de gestão. participação é uma palavra-chave. Nesse sentido. precisamos reconhecer a importância da comunicação. mais diálogos participativos. proferido na cerimônia de abertura do Congresso. ou seja. eliminar a pobreza econômica e financeira. em Roma o World Congresso on Comminication for Development (WCCD) ou Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento discutiu a importância desta área e fez recomendações sobre como aplicá-la em políticas de desenvolvimento. então Vice-Ministra dos Negócios Estrangeiros da Itália. deve construir condições para as ações dos governos dando visibilidade a elas.

a força da participação se manifesta a partir da possibilidade de influenciar nas decisões que serão O público e o privado . Sabemos.Nº 14 . o que pode levar a importantes parcerias e aliaças que aproximem a sociedade dos processos decisórios. Quando isso ocorre. graças ao caráter heterogêneo e plural de toda sociedade. que há sociedades cujos gestores não estão interessados em abrir espaços. o desenvolvimento sustentável consiste em criar um modelo econômico que seja capaz de gerar riqueza e bem-estar ao mesmo tempo em que promove a harmonia social. é aquele que atende às necessidades presentes sem comprometer a possibilidade de que as gerações futuras satisfaçam as suas próprias necessidades. respeitando e preservando a natureza e valorizando o local sem perder de vista o global.Julho/Dezembro . imprescindível e se manifesta quando cada cidadão mobiliza suas iniciativas. As experiências vividas a partir desses conflitos permitem que todos aprendam a lidar com as contradições e diferenças. Portanto. faz-se necessário reivindicar. O desenvolvimento local sustentável. forças e energias em torno de um projeto coletivo. a qualidade de vida superando as desigualdades sociais. destacando questões como emprego e renda. e os canais de participação na luta pela consolidação da democracia econômica e política. que só se efetiva com a mobilização da sociedade explorando todas as suas potencialidades. e conquistar a participação. A qualidade da participação é.2009 . Para a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. visando o crescimento econômico justo. Nesse processo é comum a existência de conflitos. da Organização das Nações Unidas. então. Demo (1988). Numa sociedade de democracia representativa. lutar. provocando melhoria da qualidade de vida e mudanças na economia com o aumento da renda. Para ser sustentável deve garantir a conservação dos recursos naturais para as gerações futuras.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 29 uma frustração que só será resolvida numa sociedade que permita e facilite sua participação. antes é preciso lembrar que este representa uma transformação nas bases econômica e social. é aquele que se dá a partir de iniciativas locais fazendo uso de suas potencialidades. no entanto. portanto. adotando ações que impeçam a destruição da natureza. em seu livro “Participação é Conquista” discute o lugar da participação na política social. Para entendermos o papel da comunicação no desenvolvimento local. É um processo que se dá internamente.

da participação das organizações não governamentais sem fins lucrativos (as ONG´s).30 Cida de Sousa tomadas por instâncias de autoridade estabelecida. tornando os atores sociais sujeitos da produção de informação e conhecimento e não apenas meros e passivos receptores. isso sim. é o poder de comunicar que precisa ser democratizado. sejam temáticos (com os movimentos sociais em defesa do meio ambiente. mas não impossível. de preservação da cultura e das artes. de investir no caráter qualitativo. de ampliação do diálogo entre representantes da sociedade civil e poder público. . O Papel da Comunicação A comunicação é um fator de organização social e tem como missão dar visibilidade a questões sociais. é preciso compreender que o desempenho desse papel está diretamente ligado a uma das mais importantes reivindicações no Brasil: a democratização da comunicação. federações. Daí a importância. trata-se. sendo seu capital intelectual peça essencial para as organizações. a cultura política autoritária e excludente não será superada. Fora desse cenário. É necessário e urgente criar possibilidades de participação da sociedade na etapa de produção da comunicação. A comunicação é um direito e sua democratização é uma questão de cidadania. O que não ocorre sem uma vigilância efetiva da sociedade. sejam corporativos (com os sindicatos. uma decisão deve ser influenciada por todas as pessoas na mesma medida em que estas serãos afetadas. Tarefa difícil no contexto da dinâmica do capitalismo globalizado que supervaloriza o caráter privado e tem os meios de comunicação social como uma força a favor do mercado. ser formadora de opinião. e de todos os atores sociais. e ser ferrementa de educação pública. Isso significa tomar decisões que vinculam os representados como se eles mesmos as houvessem tomado. associações). É bom lembrar que uma das dimensões de representação política é a de poder representar. As decisões politicas estarão mais próximas de serem democráticas. em defesa dos homossexuais e outros). Difícil. É condição sine qua non nos processos de desenvolvimento humano e social. Ou seja. o que inviabiliza o desenvolviomento sustentável. Mas. Tarefa nem tão simples num pais marcado pelo fracasso das instituições representativas. para o desenvolvimento local sustentável. sejam comunitários (com as mais diversas associações comunitárias). Não se trata apenas de investimento quantitativo. Isso significa que não basta facilitar e ampliar o acesso aos meios de comunicação. E para merecer o crédito de democrática. Estes são alguns dos aspectos de relevância no papel da comunicação na sociedade e seu desempenho é preponderante na construção do desenvolvimento.

Fica evidenciado que não é regra geral um compromisso rígido e resistente dos meios de comunicação de massa com os princípios básicos da O público e o privado . · O princípio do dever da informação que consiste em fazer conhecer como o poder estatal é exercido e como se manifesta o poder econômico. os meios de comunicação social possibilitam o exercício do direito à informação. noticiosa. A propaganda governamental assim como a eleitoral devem respeitar o princípio da confiança. em sendo respeitados garantem aos veículos maior credibilidade. Pela notícia. sendo inconteste a necessidade do respeito a esse princípio. ou publicitária (publicidade enganosa é crime). não expondo sensacionalisticamente suas mazelas. que deve ter resguardado seu direito de comunicação percebida conscientemente.2009 . o dever de respeitar a pessoa. · O princípio da veracidade da mensagem exige que a mensagem seja verdadeira e honesta. exige respeito aos valores sociais da pessoa e decorre da cidadania e da dignidade da pessoa humana. seja ela governamental. · O princípio da função social. não é compatível com a dignidade e a liberdade da pessoa.Julho/Dezembro . · O princípio da transparência pelo qual a comunicação e todo seu processo deve ser transparente. jornalística ou publicitária.Nº 14 .Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 31 Estratégias de Comunicação Antes de pensar sobre as estratégias de comunicação convém fazer referência a alguns princípios básicos da Comunicação Social que. bem como ao consumo e a mudança de atitude. Dentre os princípios constitucionais destaco aqui: · o princípio da dignidade da pessoa humana. Há também os princípios extraconstitucionais da Comunicação Social. dentre os quais destaco: · O princípio da confiança que deve estar presente na produção da mensagem. na produção e seleção de imagens no jornalismo e na publicidade. que se edifica na Constituição Federal. como na publicidade sublininar. ratificando sua importância na sociedade. A manipulação da comunicação social. que impõe à Comunicação. Uma informação pode levar a pessoa a tomada de decisões.

quando sua função é mobilizar a sociedade em torno de questões de interesse público. As estratégias de comunicação voltadas para o desenvolvimento local sustentável devem perseguir a democratização dos meios de comunicação. de democratização da comunicação e da própria sociedade. sem. . ela será autoritária e imposta” (PERUZZO. O documento elaborado no final dos trabalhos diz que os exemplos de estratégias bem sucedidas de superação da pobreza passam por modelos de comunicação que envolvem “diálogo. a avaliação do ambiente sócio-político. quero lembrar o Primeiro Congresso Mundial sobre Comunicação para o Desenvolvimento. A mobilização é uma importante estratégia para o desenvolvimento local. visto que pode proporcionar capacitação. sobre a transparência. 2008). de forma incisiva é o fortalecimento das Rádios Comunitárias. Uma outra estratégia que deve ser posta em prática. identificação das necessidades de desenvolvimento. compartilhamento de conhecimento e de informação. Soma-se a isso o desconhecimento dos prícipios e das leis que regem a Comunicação Social por uma significativa parcela da sociedade. “O fortalecimento das emissoras com essas características é um caminho corretivo para a situação do monopólio de propriedade e de divulgação de um pensamento único. Quando pensamos. treinamento. contudo manipulá-las. mais uma vez. porque se assim o fizer. 1998). que tem sido usado para fazer barganha política. por exemplo. realizado em Roma. valorização dos contextos culturais. produção e distribuição de um conteúdo verdadeiramente democrático e plural. 2006). visto que promove a inserção de pessoas da comunidade local nos processos de intervenção para o desenvolvimento. debate e participação. no Brasil” (LAHNI. “O grande desafio da comunicação ao mobilizar é tocar a emoção das pessoas. ação cooperativa e fortalecimento dos agentes e das capacidades de cada local” (WCCD. vemos que esta começa a faltar desde o processo de concessão de Rádio e TV. construção de mútuo entendimento. No Brasil há uma visível necessidade de maior diálogo dos meios de comunicação com sociedade. ampliando o espaço público. Historicamente têm sido autoritários e os poucos espaços que são abertos produzem um pseudo-poder de participação. Só a mobilização da sociedade por políticas democráticas de comunicação pode ampliar o acesso democrático aos meios e levar à formulação de um novo modelo de comunicação que respeite princípios e contribua para o desenvolvimento. formado pelos meios de comunicação hoje. Isso se constitui num sério problema cuja solução pode se dar a partir do processo de democratização.32 Cida de Sousa Comunicação Social. Aqui. Elas são instrumentos de desenvolvimento local.

inclusive avaliando seus resultados. The present article reflects about the communication politics and discusses the communication for development. Considerações Finais Não basta que a sociedade e. As Rádios Comunitárias são um exemplo de que isso é possível. os movimentos sociais. a toda a sociedade. to enable the society participation on the production steps. assumir seu papel nessa luta. Mas. é o fortalecimento da luta pela democratização da comunicação a principal estratégia para o desenvolvimento.2008 Aprovado: 20/12/2008 Keywords: Communication. They should aim not only at information consume access but. associações. São Paulo. reconheçam e denunciem o oligopólio da mídia. Referências BORDENAVE. sindicatos. preservando as identidades culturais. como foi dito antes. Brasiliense. ampliando ainda mais a participação da comunicação no movimento social de luta contra a doença. em especial.11. Development. 84 p.Nº 14 . Cabe aos partidos políticos. para promover a melhoria da qualidade de vida da população. 1994. O Que é Participação. pois sua programação prioriza a comunidade. conseqüentemente. As políticas de comunicação devem potencializar o uso das tecnologias de difusão em processos de desenvolvimento local. Juan Enrique Diaz. organizações nãogovernamentais. enfim. com a preservação das identidades.Políticas de Comunicação e Sociedade Democrática: o papel da comunicação no desenvolvimento social 33 A estratégia de fortalecimento da cultura local. visto que. The communication positive impact should been felt on the development projects. O público e o privado . A comunicação é parceira na luta pela construção do desenvolvimento e. é fundamental a participação da sociedade no trabalho de acompanhar as ações da gestão pública na execução das políticas públicas. este não se efetivará sem que o acesso ao conhecimento e a informação seja democrático. inclusive na perspectiva de prevenção do HIV/AIDS. na construção de um modelo econômico e social mais justo. Society. A B S T R A C T : The public communication politics should been thought as work tools Artigo Recebido: 12. Desenvolver estratégias para o controle social voltadas para diferentes temas. which is basic to build a democratic society.Julho/Dezembro .2009 . Politics of Communication. é preciso criar alternativas a ele. Democratization. to promote the society democratization.. como a Aids. tem nas Rádios Comunitárias o espaço necessário para se desenvolver. Nesta e em outras questões.

Comunicação Pública. Comunicação Social: filosofia. São Paulo. Direito da Comunicação Social. Rádios Comunitárias: entre a comunicação democrática e a perseguição. Petrópolis. In MARQUES DE MELO. FERNANDES NETO. Unisinos. Pedro Gilberto.34 Cida de Sousa DEMO. Cecília Maria Krhling. OLIVEIRA. J. 126 p. Cláudia Regina. 368 p.worldbank. In Revista Adusp. Cortez. MORAES Denis de (Org. Comunicação. 2005. Rio de Janeiro: Record. 2004. RJ. PERUZZO. Direitos Sociais e Políticas Públicas. 2004. Guilherme. RAMOS. Nº 42. SATHER. pp. política.). 201 p. http://go.Comunicado de Prensa Nº 2007/119/ DevComm. 176 p. Campinas. Comunicação nos Movimentos Sociais Populares: Participação na Construção da Cidadania. Murilo César. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. LAHNI. Maria José da Costa(Org. 1988. 1997. SP: Editora Alínea. 34-42. 2003. 414 p. GOMES. 1998. Ed. Pedro. Participação é Conquista.org/RB95C2I950. 342 p..). L. “Direitos à Comunicação na Sociedade da Informação”. . São Paulo. São Leopoldo: Ed. ética. SP: Umesp. São Bernardo do Campo. Vozes. Por uma outra comunicação: mídia mundialização cultural e poder.

desde que não fossem estrangeiros. estrangeiros e escravos não gozavam dos mesmos direitos. direito à informação. à propriedade. Ser cidadão é ter direito à vida.2009 . cemocratização da comunicação. O argumento defendido é o da necessidade de engajamento dos movimentos sociais na luta pela democratização da comunicação com o entendimento de ser a informação um direito que. I ntrodução A palavra cidadania se origina no latim “civitas”. que são os direitos civis. já que mulheres. que quer dizer cidade. crianças. E-mail: fhsf@uece. não eram cidadãos. à liberdade. eram cidadãos.(*) Horácio Frota é Professor do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará. sem a participação ativa da sociedade. Apenas homens maiores de idade e proprietários de terras.Nº 14 .com. Apresenta a comunicação pública realizada nos períodos de cerceamento da liberdade .br Elza Ferreira é Discente do Mestrado Profissional em Planejamento e Políticas Públicas -UECE.Estado Novo e Ditadura Militar e saúda como promissora a proposta do atual governo de estabelecer uma Política Nacional de Comunicação.Julho/Dezembro . portanto.br 35 Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania Public Communication: An area of construction of Citizenship Horácio Frota Elza Ferreira* Resumo: O trabalho discorre sobre a comunicação pública como um debate novo no Brasil com o propósito de analisar sua importância na construção da cidadania. Os direitos políticos garantem aos cidadãos O público e o privado . não se efetivará. reduzindo assim a idéia de cidadania. comunicação pública. E-mail: elza_ferreira@terra. Foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. à igualdade perante á lei. Palavras-chave: cidadania.

a ética. surge a cidadania como uma mercadoria que se implanta. É nesse contexto que se quer discutir a comunicação pública. etárias etc. A cidadania deve ser perpassada por temáticas como a solidariedade. para as mulheres. o direito à educação. A classe dominante se apropria do discurso da cidadania. Após o longo período de cerceamento de direitos. portanto com a participação consciente e responsável do indivíduo na sociedade. A cidadania instaura-se a partir dos processos de lutas que culminaram na independência dos Estados Unidos da América do Norte e na Revolução Francesa. sexuais. Como uma construção. baseado nos deveres dos súditos. a democracia. Ora. à saúde de qualidade. a uma velhice tranqüila. o Brasil reconstrói sua democracia. socioeconômicas de seu país. É o poder do cidadão de exercer o conjunto de direitos e liberdades políticas. todos os tipos de lutas foram travados para que se ampliassem o conceito e a prática de cidadania. votar e ser votado. participantes. Percebe-se na banalização do vocábulo um instrumento de manutenção da estrutura de classe em nosso país. reivindicatórios de direitos que extrapolam meramente o direito político ou econômico. no mundo ocidental. ao trabalho justo.36 Horácio Frota Elza Ferreira participar do destino da sociedade. os direitos humanos. faz campanha de promoção e de resgate da cidadania. estendendo-a. zelando para que seus direitos não sejam violados. políticos e sociais. um termo que embora pouco estudado no Brasil diz muito sobre a cidadania do ponto de . estando sujeito a deveres que lhe são impostos. pertencendo a uma sociedade organizada. étnicas. a cidadania está nos alicerces. Desse momento em diante. Relaciona-se. minorias nacionais. Exercer a cidadania plena é ter direitos civis. Os direitos civis e políticos não asseguram a democracia sem os direitos sociais. Esses dois eventos romperam o princípio de legitimidade que vigia até então. possuidora de virtudes mágicas de inclusão social. crianças. podemos dizer que no Brasil. civis e políticos. e passaram a estruturá-lo a partir dos direitos dos cidadãos. Face à emergência dos movimentos sociais. a ecologia. é sua materialização expressa na igualdade dos indivíduos perante a lei. como resgatar algo que não se construiu? É a cidadania consentida. A realização dos direitos que vai efetivar a cidadania exige que sejamos ativos. A cidadania é a expressão concreta da democracia. que se doa. a despeito de permanecerem todas as desigualdades sociais. aqueles que garantem a participação do indivíduo na riqueza coletiva. que se concede. Construir cidadania é também construir novas relações sociais e consciências. a palavra cidadania ganha alento e vira uma espécie de fetiche.

não há ainda uma definição exata sobre o tema e diferentes abordagens podem ser feitas. . então. como sinônimo de comunicação estatal. Já o Art. Com o fim do regime militar. impondo valores. é a comunicação praticada pelo setor público e realizada pelo próprio governo. letras a e b di item I proíbe que deputados e senadores mantenham contrato ou exerçam cargos funções ou empregos remunerados em empresas concessionárias de serviços públicos. a manipulação das informações pelo maior grupo de comunicação eletrônica do país fortaleceram o debate sobre a democratização dos meios de comunicação e a luta pelo fim do monopólio das comunicações. a comunicação pública é a comunicação realizada por meio da radiodifusão pública. é a comunicação realizada pelo terceiro setor quando este se relaciona com o estado. 38 do Código Brasileiro de Telecomunicações. a comunicação enquanto produção de informação e de entretenimento está nas mãos de poucos grupos de grande poder econômico.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 37 vista dos direitos sociais. as rádios comunitárias. No Brasil. na década de 80. 1 As origens do debate sobre a Comunicação Pública A expressão comunicação pública surge no Brasil. segundo dados do Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação. não será o objeto do nosso foco que se limitará à comunicação pública entendendo que avançar nesse debate é uma contribuição fundamental para a construção da cidadania.2009 O Art.1 Dadas as limitações desse estudo. a sociedade começa a se organizar e debater a necessidade de democratização da comunicação. Por se tratar de estudos recentes. com o mercado e com a sociedade. A O público e o privado .Julho/Dezembro . porém. legitimada pelo interesse geral e pela utilidade pública das mensagens. 54 da CF. A prodigalidade do primeiro governo civil na distribuição de concessões de emissoras de rádio e tevês como moeda de sustentação do governo. desrespeitandose.Nº 14 . Lei 4117/62. embora a literatura sobre o tema não seja ainda das mais férteis. sete grupos controlam 80% de toda a informação veiculada na mídia e 31% das concessões públicas de rádio e tevês estão nas mãos de políticos. este. diferenciando-se da comunicação praticada pelo setor privado. privada e pública. dentre as quais se destacam cinco possibilidades: comunicação pública é a comunicação que se dá na esfera pública entre o governante e a sociedade. e que a frase informação é poder mais do que nunca é realidade. em seu parágrafo único determina que aquele que estiver em gozo de imunidade parlamentar não pode exercer a função de diretor ou gerente de empresa concessionária de rádio ou televisão. advinda da Constituição de 1988 que instituiu os serviços de radiodifusão estatal. numa época em que a comunicação ocupa espaços importantes na vida de todos. hábitos e códigos à sociedade. A consolidação da democracia nos anos 90 representa o surgimento de novos atores e uma nova visão política de estado e da participação da sociedade civil. proliferando. O que é Comunicação Pública São múltiplos os sentidos atribuídos à expressão comunicação pública. assim a Constituição Brasileira e o Código Brasileiro de Telecomunicações. No mundo todo.

é resultado dessas mudanças ocorridas tanto no estado quanto na sociedade civil. a autora em suas pesquisas e análises sobre os múltiplos significados e acepções da comunicação pública 2 La Comunication Publique. Mesmo o livro de Zemor2. com a comunicação científica. publicado em 1995 na França. as interrogações e o debate público. Que sais-je? Paris 1995 . O francês Pierre Zémor. como lembra Brandão (2007. tomada de consciência do cidadão enquanto ator. define comunicação pública como a comunicação formal que diz respeito à troca e a divisão de informações de utilidade pública. Ao afirmar que a área é um conceito em processo de construção. que ainda não é consensual. apesar de não se ter chegado a um acordo sobre o que ela é ou deveria ser. Col. de contribuir para assegurar a relação social. e de acompanhar as mudanças. Por se tratar de uma área recente da comunicação. de ouvir as demandas. o conceito de comunicação pública começou a ser estudado também na década de 80. existindo apenas uma tradução resumida da professora Elizabeth Pazito Brandão.15) uma característica de quase todos os autores da área é o cuidado extremo em citar o que a comunicação pública não é. prestar conta e valorizar. E é com estes autores que pretendemos trabalhar. Na Europa. p. conduzindo o debate para o imbricamento que nos propomos de comunicação pública como um espaço de construção da cidadania. com a comunicação política e comunicação da sociedade civil organizada. as expectativas. 1995). Uma das dificuldades do estudo da comunicação pública no Brasil é o número reduzido de pesquisadores e conseqüentemente as poucas fontes literárias. O autor pontua quatro funções para a comunicação pública. tanto as comportamentais quanto as da organização social. assim como a manutenção do liame social cuja responsabilidade incube as instituições públicas (ZÉMOR. detendo-nos na análise da comunicação pública como comunicação do estado e/ou governamental. principal estudioso do tema.38 Horácio Frota Elza Ferreira compreensão da expressão comunicação pública como mera comunicação estatal torna-se incompatível com a nova realidade fundamentada ainda na expansão dos meios de comunicação em razão das novas tecnologias A transformação da expressão comunicação pública em um conceito com novo significado. sentimento de pertencer ao coletivo. levar ao conhecimento. não há ainda uma formulação acabada do que é comunicação pública. relacionando-as com as finalidades das instituições públicas: de informar. Para alcançarmos este objetivo deixaremos de analisar alguns significados tais como comunicação pública identificada com a comunicação organizacional. PUF. Se ainda não é consenso o que é comunicação já há um consenso sobre o que não é. não se encontra disponível na língua portuguesa.

2) Comunicação pública identificada com comunicação científica. 4) Comunicação pública identificada com comunicação política e 5) Comunicação pública identificada com estratégias de comunicação da sociedade civil organizada. o governo e a sociedade e que se propõe a ser um espaço privilegiado de negociação entre os interesses das diversas instâncias de poder constitutivos da vida pública no país. que. a saber: 1) Comunicação pública identificada com os conhecimentos e técnicas da área de comunicação organizacional. enviaram fitas gravadas aos jornais. o que é bom a gente fatura.Nº 14 . Ao observarmos o cenário brasileiro em que a comunicação pública. disse Ricupero. Para Matos. compreendida como comunicação de Estado. o então ministro da Fazenda. aquele que atende aos requisitos modernos do direito de informar e de ser informado e que. Um ponto comum de entendimento é. 3) Comunicação pública identificada com comunicação do Estado e/ou governamental. Rubens Ricúpero. provocando uma comoção nacional. uma comunicação de Estado na compreensão do Estado ideal.9) aquele que diz respeito a um processo comunicativo que se instaura entre o Estado. no conceito já explicitado. a comunicação pública é uma vertente da comunicação política. p. “Eu não tenho escrúpulos. Um processo de negociação através da comunicação. (2007. . conversavam animadamente sobre as manobras de Ricupero para promover Fernando Henrique. escandalizados. 2007.2009 3 Na noite de 1 de setembro de 1994. em referência aos índices de inflação. além disso. enquanto esperava para ser entrevistado no estúdio da TV Globo para o Jornal Nacional. definindo comunicação pública como o processo de comunicação que se instaura na esfera pública entre o Estado. da transparência. Para Brandão. estimulando o pluralismo e coibindo o domínio da informação por monopólios privados que produzem e vendem informação como mercadoria ou como espetáculo. a conversa estava sendo transmitida via satélite e foi captada por antenas parabólicas em várias regiões do país. é feita muito mais como um jogo de manutenção do poder. confidenciou ao jornalista Carlos Monforte que vinha aproveitando do cargo para promover ativamente a candidatura de Fernando Henrique. Comunicação pública é. E acusou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de ser “um covil do PT”. o debate que se dá na esfera pública entre Estado. Além da transitoriedade dos governos.Julho/Dezembro . p.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 39 identificou cinco áreas diferentes de conhecimento e atividade profissional. Sem que os dois soubessem. Foi gravada por vários espectadores. o governo e a sociedade com o objetivo de informar para a construção da cidadania. no auge da primeira disputa presidencial entre Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. no entanto. o que é ruim a gente esconde”. como bem defende Duarte: praticar comunicação pública implica assumir espírito público e privilegiar o interesse coletivo em detrimento de perspectivas pessoais e corporativas (DUARTE. instaura políticas públicas voltadas para a democratização da informação. O episódio foi identificado como um abuso da máquina administrativa para favorecer um candidato e levou à demissão do ministro Ricupero. governo e sociedade. A comunicação pública não é uma comunicação de governo posto que este tem caráter transitório. já captado pela indiscrição de uma antena parabólica3. ou uma comunicação imbuída de natureza publicitária em que não faltam as modernas técnicas de marketing persuasivo em detrimento do conteúdo educativo. não é permitido desconhecer que interesses governamentais nem sempre se coadunam com o interesse público este que deve ser o denominador comum da comunicação pública. certos de que os microfones estavam desligados. 61). do estímulo a mobilização e ao engajamento da sociedade podemos cair em um pessimismo que seguramente não contribuirá para o longo processo que O público e o privado . próprio das sociedades democráticas. Durante vários minutos. portanto. sobre temas de interesse coletivo.

Estatuto do Idoso. A discussão sobre a comunicação pública precisa de cada um de nós num processo de construção da cidadania. A informação é um bem público. Há uma subserviência entranhada nas relações sociais. Aliás. esta é a essência da comunicação pública que devemos perseguir. o acesso à informação é um direito fundamental. Na . Comunicação é um direito Aqui voltamos ao ponto inicial dessa reflexão. O acesso á informação é uma ferramenta indispensável a qualquer indivíduo para participar ativamente da vida e do governo do seu país. promulgada em 5 de outubro de 1988. portanto sua cidadania como defende Dallari. Não são os estatutos legais que asseguram a efetividade dos direitos. estabeleceu formas de democracia direta fomentadoras da participação popular e de cidadania ativa como o referendo.40 Horácio Frota Elza Ferreira precisamos encarar. ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social. já desponta no horizonte. Dallari (1988. e a própria Constituição. O que assegura a efetividade dos direitos é a nossa prática e a comunicação pública tem um importante papel a desempenhar na construção da cidadania. o Brasil é conhecido como o País de leis que não são cumpridas. Temos uma legislação das mais avançadas na questão ambiental. explicada pelos estudiosos como originária do nosso passado escravocrata. exercendo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões. p. plebiscito e outros instrumentos. Esta cultura dificulta ou impede a efetividade da cidadania que é construída a partir da nossa capacidade de organização. Entretanto. um conformismo ao aceitar como natural aquilo que é criminalmente discriminatório ou injusto.14) conceitua cidadania como um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. a querer resolvê-las com um jeitinho. com as amizades com quem detém poder. de intervenção social. o Brasil construiu fortes instrumentos de defesa dos direitos das minorias. O cenário político do país exigiu uma transformação na natureza da comunicação pública que embora ainda tímida. há uma negação absoluta de acesso aos direitos que estão nas leis sem que se registre nenhuma reação. Fomos educados para achar normal a injustiça. É uma resignação culturalmente impregnada e os que destoam desta matriz são rotulados de barraqueiros. Como se direitos fossem concessões de quem tem poder àqueles desfavorecidos. Muitas vezes. falta-nos a prática da cidadania. Após a redemocratização. o Código do Consumidor. ao contrario percebe-se uma aceitação. Estatuto da Criança e do Adolescente.

e marketing político. infelizmente ainda pequeno. 6) estímulo do O público e o privado . realizado em São Paulo. 2) É dever do Estado informar. tem conseguido levar o debate para além dos muros da universidade. 2003). Realizado em 04 de setembro de 2003.Julho/Dezembro . em exposição no III Seminário Internacional Latino-Americano de Pesquisa da Comunicação. Política Nacional de Comunicação A comunicação ganha um novo significado no Governo que tomou posse em janeiro de 2003. contribuindo decisivamente para a qualificação da comunicação pública. porém bastante atuante. É necessário destacar que considerável número desses pesquisadores atua profissionalmente em áreas governamentais. e as agências de publicidade. é latente a preocupação de que a comunicação não seja apenas o Órgão institucional. Inicialmente ainda confusa. educativo e de orientação social. A unidade da comunicação e a transparência do Governo são apontadas como atributos importantes na comunicação para que o povo saiba reconhecer em cada ação do governo aquilo que está sendo feito.2009 . de políticas públicas e de práticas inovadoras na gestão pública. Sinalizando este posicionamento o tema foi escolhido para inaugurar os Fóruns do Planalto. O Ministro Gushiken apresentou os princípios da comunicação pública. propaganda política. sabendo informar. A isto o ministro chama de pensamento estratégico e elaborado para a comunicação governamental: o que importa em matéria de comunicação é a totalidade dos agentes públicos desenvolvendo um diálogo com a sociedade. embora o Ministro Gushiken tenha em diversos momentos usado a expressão norte significando rumos a serem adotados na comunicação governamental. o primeiro Fórum teve como tema a Política Nacional de Comunicação. sabendo debater (GUSHINKEN. 1) o Cidadão tem direito à informação que é a base para o exercício da cidadania. Ministro Luiz Gushiken. sabendo esclarecer.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 41 área acadêmica. programa de discussão permanente de temas da agenda do governo. cujas diretrizes foram apresentadas pelo então Secretário Chefe da Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. 3) Zelo pelo conteúdo informativo. O Fórum. sintetizados em oito pontos. um grupo de pesquisadores. Em 2005. que reuniu os agentes da comunicação nas diversas áreas do Governo. levando-se em conta a necessidade de manter a esperança depositada no novo governo.Nº 14 . promovidos pela Casa Civil. a SECOM. fez-se uma salada de componentes de educação cívica. 5)0 promover o diálogo e a interatividade. 4) comunicação pública não deve se centrar na promoção pessoal dos agentes públicos. demonstrou a dificuldade de conceituar a comunicação pública no âmbito do Governo.

7) Serviços públicos têm de ser oferecidos com qualidade comunicativa. finalmente.42 Horácio Frota Elza Ferreira envolvimento do cidadão com as políticas públicas. pela primeira vez em sua história foi definida missão: somos uma empresa pública de comunicação. Com uma estrutura altamente centralizada e uma concepção clara de subordinação das informações à ideologia estadonovista. sendo pensada. ao contrário. Diz respeito ao processo e ambiente de informação e diálogo entre governo e os diversos atores sociais sobre temas de interesse coletivo. cinema. Trabalhamos para universalizar o acesso à informação. Percebe-se em todas estas ações um avanço na compreensão e no exercício da comunicação governamental embora ainda não no patamar que se espera de uma administração guindada ao poder pelas forças populares e que mantém em seus quadros diversos militantes da causa de democratização da comunicação Entretanto. em 1931. um polvo com tentáculos nas áreas de radiodifusão. direito fundamental para o exercício da cidadania. debatida e elevada ao status de política pública. a cidadania ativa. . 8)comunicação pública tem de se basear na ética com qualidade comunicativa. Antes do DIP. tiveram um viés de tutela. orientando mas principalmente censurando. é necessário reconhecer que é a partir desse governo que o debate sobre comunicação pública ganha força. coordenando. com a verdade e com a qualidade da informação. governo e vida nacional. divulgação. Buscamos e veiculamos com objetividade informações sobre Estado. à cidadania. às diferenças. No Estado Novo. A informação é a primeira etapa do processo que tem como fim a transparência. a participação. a comunicação governamental esteve sob a orientação do Departamento de Imprensa e Propaganda4. empresa estatal de comunicação. compromisso com a universalização do direito à informação. no início de 1938º DPDC transformou-se no Departamento Nacional de Propaganda e. A empresa criou também um conselho editorial. E valores que perpassam conceitos como respeito ao caráter público. transparência. criado por decreto presidencial para difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. 4 Este é um país que vai pra frente Poucas vezes a comunicação foi pensada como política pública no âmbito dos governos brasileiros e quando isto aconteceu a sistematização produzida e o conjunto de leis estabelecido não teve como foco o cidadão e muito menos colaborou com a emancipação da sociedade. o Departamento Oficial de Publicidade que em 1934 transformou-se em Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Na Radiobrás. em dezembro de 1939 transformou-se no DIP . teatro. imprensa e turismo. É o Governo o responsável pela disponibilização e viabilização dos instrumentos que tornarão a comunicação pública efetiva e eficiente. o Governo criou. No Governo Getúlio Vargas. a mobilização. Já defendemos antes que a comunicação pública é uma comunicação de Estado não de governo.

financiada pelos contribuintes. estabelecimentos agrícolas.Nº 14 .Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 43 o DIP exerceu durante quase uma década o total controle sobre a comunicação e a vida cultural do país. a empresária afirma que “a publicidade do Estado. proprietária do jornal Correio da Manhã divulga sua posição de abandonar o jornal. documentários de curta metragem difundindo e glorificando feitos do governo. No editorial “Retirada” em que Niomar Muniz Sodré Bittencourt. os atos institucionais cujo símbolo maior é o AI-5. foi criado o Cinejornal Brasileiro. É um período negro que além da legislação repressiva e centralizadora recebida do Estado Novo criou novos instrumentos como a Lei de Segurança Nacional. empastelou edições. ou seja. representando 36% do total do mercado O público e o privado . Invadiu e destruiu oficinas gráficas.2009 . Durante o regime militar foi criado o Sistema de Comunicação Social que. eficiência e objetivos: propaganda e censura. e que divulga as ações dos Poderes Executivo. Legislativo e Judiciário. no Governo Costa e Silva que se revelou um instrumento ditatorial muito mais poderoso que a própria censura no campo das comunicações. atuou com a mesma ideologia.Julho/Dezembro . sem a penetração e capilaridade do DIP . Além da censura política. O radio viveu um período de expansão. Muitas outras mídias integravam a estrutura do DIP que não nos deteremos na análise porque não é esse o objetivo do estudo. industriais e comerciais com o pretexto da promoção da cooperação entre os entes federados. a informação que chegaria à sociedade era aquela escolhida pelo governo naturalmente tendo como matriz a manipulação dos fatos na tentativa de dar um polimento à ditadura militar. formava. A principal marca do período é a censura e a perseguição indistintamente à pessoas físicas e jurídicas que pregassem ou defendessem a liberdade. No Cinema. que permanece até hoje com transmissão obrigatória no mesmo horário. editado em 05 de dezembro de 1968. fechou jornais. incentivada sua difusão nas escolas. prendeu e torturou jornalistas e quando mais suavemente atuou foi na manutenção da censura prévia com funcionários públicos absolutamente amestrados no papel de censores a bater cartão nas redações decidindo o que seria ou não publicado. Emblemático desse período foi a criação do programa Voz do Brasil. Não informava. também de exibição obrigatória antes das sessões. em forma de autocensura ou censura prévia. outro instrumento eficaz dos regimes militares na sua política de comunicação foi a pressão econômica com a suspensão dos anúncios publicitários nos veículos contrários a ditadura e generosas verbas publicitárias aos alinhados com o pensamento verde-oliva. A Agência Nacional garantia a uniformização das notícias distribuídas gratuitamente ou como matérias pagas e o Departamento de Censura assegurava o filtro que mantinha as empresas privadas sob controle. considerado nobre pela lógica da publicidade.

O Governo gastava milhões com publicidade procurando enaltecer a miscigenação. O colaboracionismo com a ditadura era premiado na forma de verbas publicitárias e concessões de canais de tevê e rádio. o Regime Militar criou. a AERP – Assessoria Especial de Relações Públicas. ações do partido de oposição. para pagar o contrato já feito. diretamente coagidas ou simplesmente receosas da suspensão de negócios com o Estado. não necessariamente jornalistas. que suspendeu o contrato de publicidade c o m Opinião porque aguardava um empréstimo do BNDE. Produziu-se então uma comunicação calcada em valores morais com apelos cívicos entrelaçados à ideologia do regime. Ofereceu-se. Tal foi o caso da Editora José Olympio. Internamente. Gláucio Ary Dillon Soares aponta também os efeitos colaterais da censura: Num país em que o Estado desempenha um papel econômico e financeiro fundamental. . a generosidade do povo brasileiro. o MDB. mas não desejava que os anúncios saíssem publicados No rádio e na televisão.)” . ocupada por profissionais oriundos das forças armadas. centralizando os órgãos governamentais de propaganda. a idéia de um país forte e uma nação coesa. transformando-se em rede nacional. isto é. ame-o ou deixe-o.. ainda no Governo Costa e Silva. Foi a época do milagre brasileiro e as campanhas tinham um tom ufanista: este é um país que vai pra frente. com o objetivo de “motivar a vontade coletiva para o esforço de desenvolvimento nacional”. Isso explica porque na linha de cultura e entretenimento. inclusive. publicações literárias como livros e revistas de cunho político que nas transmissões televisivas.44 Horácio Frota Elza Ferreira publicitário foi sonegada maciçamente a uma instituição com quase 70 anos de relevantes serviços(. É sob esse signo que floresceu o império das organizações Globo. a censura agiu com mais repressão nas peças teatrais. houve até efeitos secundários. Em um estudo sobre a censura no Brasil. intelectuais e artistas que discordavam do regime além de personalidades consideradas “inimigas do Estado”. a censura alcançava além das matérias de cunho informativo sobre os movimentos sociais. suspenderam a sua própria publicidade.. empresas privadas que. que chegou a criar um departamento de autocensura alegando que o custo da contratação de altos funcionários aposentados do Serviço Nacional de Informação SNI era menor que o prejuízo econômico provocado pelos cortes ou a censura total nas produções. Brasil. Havia uma preocupação e cuidado dos militares no sentido de diferenciarem a AERP do DIP com o receio de que a associação criasse um desgaste maior junto à opinião pública já desencantada com a chamada gloriosa.

2009 5 Decreto 6. de 28 de maio de 2003. responsável pelas ações de planejamento. foi criado um Plano de Comunicação Social que visava criar um distanciamento da comunicação do período ditatorial e uma identidade para o governo civil.683. em contraponto ao ufanismo dos governos militares. de 29. Secretaria de Comunicação Social e incorpora a antiga Secretaria de Imprensa e Porta-Voz. nos governos civis a comunicação pública passa a adotar técnicas de marketing. Foi instituído o regimento interno da Secom. A Assessoria Especial de Relações Públicas dos governos militares foi transformada em Secretária de Comunicação Social. inicio da redemocratização. centralizando as ações de comunicação institucional do Governo e dando ao órgão a responsabilidade pelo assessoramento sobre gestão estratégica e pela formulação da concepção estratégica nacional. ainda no Governo do Presidente João Figueiredo. na ditadura militar. A partir daí predominou a técnica publicitária O público e o privado . recreativa e institucional. especialmente no Governo Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Mudanças na legislação foram atribuindo funções e responsabilidades à SECOM tais como coordenação. O caráter da comunicação pública nos governos civis assume a estética do governante. o DIP.650.7 a SECOM passou a integrar a estrutura da Secretaria-Geral da Presidência da República. a AERP. não desprovida dos matizes ideológicos. com o nome de Subsecretaria de Comunicação Institucional.6. 8 As últimas alterações foram efetuadas pela Medida Provisória nº 360. Logo no Governo Sarney. que dentre outros. e Decreto nº 4. A tentativa de uma comunicação diferenciada. de abril de 1979 6 Lei 10.3. inclusive dos contratos de publicidade. No Estado Novo. entendido como um conjunto de ações e estratégias que visam aumentar a aceitação e fortalecer imagens com foco no mercado. especialmente na mídia eletrônica. não resistiu ao insucesso do plano cruzado – plano econômico que tentou controlar a inflação.849. ou seja. Em 2006. com a alteração na estrutura da presidência da Republica6.2007. O tema cidadania e justiça surge na comunicação pública.Nº 14 . execução e controle.8 As mudanças na legislação são acompanhadas de um deslocamento na natureza da comunicação pública.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 45 Nem DIP nem AERP ou quando tudo isso mudar A redemocratização trouxe novos parâmetros para a comunicação pública no âmbito dos governos e exigências da sociedade que dia-a-dia avança em movimentos sociais organizados emergindo uma nova cidadania.5 Em 2003.Julho/Dezembro . com foco nos direitos de diversos segmentos.2006. de 18. além de suas atribuições específicas de radiodifusão educativa. da comunicação social de Governo.799 7 No Decreto nº 5. supervisão e gerenciamento da publicidade governamental da administração pública federal. incorporando a Empresa Brasileira de Notícias – Radiobrás. retorna o nome inicial. .

documento conclusivo do Parlamento Nacional de Relações Pública. a existência de um sítio na internet com a divulgação de todos os gastos com o dinheiro público são transformações que ampliam o espaço da comunicação democrática. onde a autoridade de turno exerce o direito de informar. informação e serviços de utilidade para a sociedade. debater e conceituar comunicação pública. centrando-se em educação. que vai conduzi-lo à modernidade do mundo globalizado. disciplinar comunicação pública como o fez o governo são passos importantes no caminho que se quer trilhar. Entretanto é preciso que cada um de nós compreenda a informação como um direito e lutemos para que ele se efetive. definiu comunicação pública como “um conceito de comunicação comprometida com o exercício da democracia. realizado em 1997. construir referenciais teóricos de comunicação pública com foco no exercício da cidadania. como estão fazendo pesquisadores e a própria academia. . A Carta de Atibaia. Da mobilização dos movimentos sociais emergirá um novo tratamento na comunicação pública estabelecendo parâmetros de exercício do direito que é a informação. traçamos um quadro da comunicação pública no Brasil para reforçar nosso entendimento sobre o papel da Política Nacional de Comunicação e da importância da comunicação como espaço de construção da cidadania. Considerações Finais Materializar a Política nacional de Comunicação. A comunicação pública precisa assumir um foco diferente daquele dos veículos comerciais. torná-la palpável e presente no dia-a-dia não é desafio somente dos profissionais de Comunicação ou dos Governos. mas onde também deve ser exigido o direito dos cidadãos de serem eficientemente informados”. Este viés se acentua no Governo Collor em que a marca do governo é a juventude e o dinamismo e a do Brasil é a de um país atrasado que precisa daquele presidente forte. O direito de ser eficientemente informado não se efetivará sem uma mobilização dos movimentos sociais.46 Horácio Frota Elza Ferreira onde o governo e a administração aparecem como produtos. Concebendo comunicação pública como um processo. alguns já disciplinados na legislação. De forma sucinta. Experiências como o orçamento participativo já bastante difundido no seio da sociedade embora adotado como uma decisão espontânea de alguns governos. a criação de conselhos representativos de segmentos sociais. com autoridade. afirmamos que muito já se avançou. sem a compreensão da informação no campo dos direitos sociais e uma luta permanente pelo seu exercício configurando-se um espaço de construção da cidadania. Criar uma nova matriz nas relações com a sociedade.

2009 9 Medida provisória 398. obviamente estes ataques têm relação direta com a volumosa verba publicitária governamental. livre de manipulações políticas ou governamentais. para destituir os seus diretores. Artigo Recebido: 14/05/2008 Aprovado: 20/07/2008 10 . da Saúde. O público e o privado . cultural e científica. Para que a iniciativa tenha conseqüência e se consolide como tevê pública. como já se realizou Conferência da Cidade. dessa forma. Em seu sítio na internet. conforme preconizada na Constituição de 88. cumprindo o papel de um canal com a sociedade é uma ameaça ao poder hegemônico dos grandes grupos privados de comunicação. sua programação não obedecerá as regras do mercado e nem ás do poder político. o PSDB. Com apenas cinco meses no ar. é necessário que nos engajemos em sua defesa. A criação da tevê pública é sem dúvida uma aspiração antiga dos movimentos organizados em torno da bandeira de democratização da comunicação. 223. a TV Brasil nasce com a proposta de se diferenciar da tevê comercial e da tevê governamental. permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens. da Assistência Social e o estabelecimento de novos marcos legais com a revogação da legislação retrograda do setor. Justificou que. conseqüentemente.Nº 14 . torna-se impossível avaliar a correlação entre o planejado e o executado. É oportuno lembrar que por ocasião da votação da continuidade da CPMF no Senado Federal. o Presidente Lula demonstraria que estava disposto a cortar seus gastos correntes. ainda não cobrindo todo o território nacional.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 47 O Governo criou em outubro de 20079 uma Tevê pública que tem sofrido violento bombardeio dos grandes grupos de comunicação. inclusive. A exemplo de outros países. fortalecedor da cidadania. observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado. no bom jornalismo. a TV Brasil assim se expressa sobre seu objetivo: A TV Pública.Julho/Dezembro . público e estatal. por meio de seu presidente Tasso Jereissati. de 10 de outubro de 2007 criou EBC – Empresa Brasil de Comunicação Art. deve oferecer uma programação diferenciada da que é exibida pela TV comercial. Compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão. Não é tudo. 22310. deve-se mencionar a natureza do Conselho curador da TV Brasil que tem 15 representantes da sociedade civil entre seus 20 membros com o objetivo de fiscalizar a observância das finalidades da tevê pública e poderes. Tamanho despropósito só tem uma explicação: uma tevê pública com um orçamento adequado e com controle social. Entretanto. o arquivamento ou o adiamento da implementação da EBC – Empresa Brasil de Comunicação para que os tucanos votassem a favor do imposto do cheque. Art. exigiu ao Ministro Guido Mantega. na expressão da pluralidade social. no debate das questões nacionais. ou seja. Devemos perseguir a realização da Conferencia Nacional de Comunicação. cuidar para que assim seja é sem dúvida um bom exercício para iniciarmos o processo de participação que desaguará na efetivação do direito à informação como dever do Estado e. com participação direta da sociedade em sua gestão. com ênfase na informação artística. Em benefício do governo.

State and New Military Ditadura as promising and welcomes the proposal of the present government to establish a National Policy on Communication.1998. CARVALHO. mercado.br.1999.2008 . Direitos humanos e cidadania.br/casacivil/foruns. Coluna de 31. public communication. São Paulo: Moderna. O cidadão e o estado: a construção da cidadania brasileira. Disponível em www. DUARTE. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 1994.planalto.48 Horácio Frota Elza Ferreira Keywords: citizenship. 4. Fóruns do Planalto. DALLARI. KUCINSKY. 194 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) . The argument is defended the need for engagement of social movements in the struggle for democratization of communication with the understanding of the information is a right that without the active participation of society. Luiz. 1988.org. Referências BORGES. Dalmo. Teresa Maria Frota.10.ufscom. right to information. São Paulo. democratisation of communication. Acesso em 13. A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo. José Murilo de. São Paulo: Atlas. It presents the communication held in periods of restriction of freedom . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Quem são os inimigos da TV Brasil.gov.05. MARTINS. Fortaleza: UFC. DAGNINO. Portal o Vermelho. 2003. Disponível em www. acesso em05 de fevereiro de 2008.vermellho. 1994. Acesso em: 02 fev. sociedade e interesse público.arqanalagoa.2008 HAGUETTE.Centro de Educação e Ciências Humanas. Ditadura militar e propaganda: a revista manchete durante o Governo Médici. Altamiro. GUSHINKEN. Eveline. Ricardo Constante.2007. São Paulo: Brasiliense. 2007. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Bernardo. ed.br. Jorge. A Política Nacional de Comunicação. . is not effective. Disponível em http:// www. (Org) Comunicação pública: estado. Universidade Federal de São Carlos. A B S T R A C T : The work talks about the public communication as a new debate in Brazil with the aim of analyzing its importance in the construction of citizenship. (org) Os anos 90: política e sociedade no Brasil. São Paulo.

In XXI CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS INTERDISCIPLINARES – INTERCOM. SILVA.2008.org. 2003.2009 . O público e o privado . Disponível em HTTP// www. Disponível em http//www.Julho/Dezembro . In XII ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓSGRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS.ufmg. Comunicação pública. Anais eletrônicos. SOARES.anpocs.Nº 14 .2008. Anais eletrônicos. Gláucio Ary Dillon.Comunicação Pública: um espaço de construção da cidadania 49 MATOS. Censura durante o regime autoritário. 1988. Acesso em 05 fev. democracia e cidadania: o caso do legislativo.br. Luiz Martins da (Org) Comunicação pública: algumas abordagens Brasília – DF: Casa das Musas. Heloisa. 1999.fafich.br. 6. Acesso em 05 fev.

internet e migrações transnacionais. nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha. duas dimensões dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais no âmbito das redes sociais de brasileiros na Espanha. 51 Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Epanha** Social Networks and Internet use by brazilian migrants in Spain Daiani Ludmila Barth Denise Cogo* Resumo: Este artigo aborda os usos da internet. redes sociais. nas experiências de construção e manutenção de redes sociais de brasileiros em experiência migratória na Espanha. migrações transnacionais. especialmente MSN.2009 (**)Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Inercom). e ancorada em uma abordagem metodológica baseada em etnografia da Internet. Skype e Chat. Como resultados da pesquisa empírica. A partir de breve discussão conceitual sobre redes sociais. Skype e chat Uol. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. A pesquisa orienta-se por uma perspectiva qualitativa. de autoria de Daiani . realizado em Curitiba de 4 a 7 de setembro de 2009. internet. destacamos. E-mail: daianiludmila@gmail. especialmente MSN. Palavras-chave: comunicação.com Denise Cogo é Professora Titular do Programa de PósGraduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e Pesquisadora Produtividade do CNPq.(*) Daiani Ludmila Barth é Mestre em Ciências da Comunicação pela Unisinos. 1 A dissertação. I ntrodução Esse trabalho traz os resultados de uma pesquisa de mestrado1 que teve como objetivo abordar as relações entre os usos da internet. centrada nos estudos de recepção latino-americanos. O público e o privado .Nº 14 .com.br. para análise. E-mail denisecogo@uol.Julho/Dezembro .

2 Redes sociais. através de usos específicos em redes sociais que abrangem a constituição de vínculos com familiares e amigos. seria importante a construção de um sentimento de solidariedade e de coesão entre seus membros. nesse artigo o percurso teórico-metodológico da pesquisa centrada nos usos sociais. permeável assim como comportar hierarquizações entre seus integrantes. duas dimensões que se tornam relevantes para o estudo dos usos sociais da internet no âmbito das migrações transnacionais: (1) a internet como ambiente e ferramenta de construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica no contexto do trabalho de campo com migrantes transnacionais e (2) a internet como espaço de interação de migrantes transnacionais. compartilhamos da proposição de Resumimos brevemente aspectos da discussão conceitual desenvolvida de modo aprofundado na dissertação de mestrado. Ludmila Barth. nos preocupamos em resgatar brevemente três noções conceituais . as redes sociais são compreendidas como “coesão subjetiva” e têm a função de “identificación de los miembros del grupo con los de su grupo. nem sempre uma rede social tende a configurar a coesão social sugerida ou pressupor um profundo sentimento de solidariedade. especificamente de brasileiros na Espanha. para análise. a Psicologia. en particular a partir del sentimiento de que los intereses individuales están ligados a los intereses del grupo” (1996. p.que foram centrais na formulação do problema e desenvolvimento da pesquisa. Ao contrário. e. Nessa perspectiva.2 As redes sociais são fundamentais para a compreensão de fenômenos para diversas áreas de conhecimento. a Matemática. Internet e migrações transnacionais . conseqüentemente. internet e migrações transnacionais: itinerário conceitual da pesquisa Inicialmente. em um sistema de redes sociais.redes sociais. e em uma abordagem empírica baseada na etnografia da Internet. pode ser transitória. vertente dos chamados estudos de recepção latinoamericanos. Entretanto. . fixos e inabaláveis.15)3. migração transnacional e redes sociais” e foi defendida em março de 2009 no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. composta por observação e entrevistas. sob a orientação da Profª Dra. 3 Tradução das autoras: “Identificação dos membros do grupo com o seu grupo. a união entre seus membros as transformariam em processos coesos. nos processos de vivência migratória transnacional. fluida.52 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo retomamos. Na visão de Lozares. Como resultados da pesquisa empírica. intitulase “Brasileiras na Espanha: Internet. destacamos. a (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil). Dessa maneira. esse sentido aprofundaria a sustentabilidade dessas redes sociais. Denise Cogo. particularmente a partir do sentimento de que os interesses individuais estão ligados aos interesses do grupo”. a vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e a constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. Em grupos migrantes. a Antropologia. dentre as quais estão a Sociologia.

Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 53 Scherer-Warren (1999. e. para acessar documentos chamados de páginas web (homepages). A internet é uma “rede de redes”. é uma dessas maneiras de acessar. seria equivocado afirmar que houvesse a diminuição do interesse pela vida online. os processos de migração transnacional focalizados nesse trabalho.” No entendimento dos recursos online utilizados. a web utiliza o protocolo HTTP (Hypertext Transfer Protocol). gráficos.2009 As experiências online e offline foram abordadas separadamente na pesquisa desde um ponto de vista de operacionalização do empírico. 4 Entretanto. é importante não confundi-las Ao abordarem relacionamentos online e offline. . Através dela. ou simplesmente web. é necessário propor uma diferenciação entre internet e web. tendo como base. Todos estes formam uma rede na qual qualquer um desses aparelhos pode se comunicar com outro.Julho/Dezembro . No entanto. obtido. ao contrário do que se imaginava. Assim. os mesmos autores apontavam que a maioria das interações sociais na internet acontecia entre pessoas que já se conheciam anteriormente na vida offline. mas como práticas sociais foram compreendidas de modo inter-relacionado. a internet não teria o poder de alterar significativamente as atividades rotineiras das pessoas. sons e vídeos. p. uma vez que se torna impossível demarcar quantitativamente as interações sociais individuais ou coletivas. estruturada em nível global. Ainda. 33-34) quando define as redes sociais como “formas mais horizontalizadas de relacionamento. apenas uma das maneiras pelas quais a informação pode ser disseminada pela Internet. Embora a Web seja a grande responsável pela popularização alcançada pela internet e. que podem conter textos. mais abertas ao pluralismo. para assim estarem conectados à grande rede internet. mais recentemente. para transmitir informações e precisa de navegadores (browsers) tais como o Internet Explorer. também celulares. Boase.4 Em estudos anteriores. milhões de computadores estão conectados.Nº 14 . pagers e outros aparelhos como o iPhone. a partir de empresas de telefonia que comercializam o serviço. uma vez que os migrantes estariam mais conectados por desejarem se relacionar com o que deixaram para trás. ainda. e o recentemente lançado Google Chrome. desde que disponham de acesso. a possibilidade de ocorrer o contrário O público e o privado . A world wide web (www). esta poderia ser considerada apenas como uma tendência. Wellman (2006) reconhecem a internet como uma mídia de comunicação e informação. portanto. Haveria. em geral. A Web é. mas lembram que as pessoas continuam mantendo suas relações sociais fora dela. cujas informações trocadas são realizadas por uma variedade de linguagens conhecidas como protocolos. Mozilla Firefox. compartilhar e armazenar informações a partir da internet. Estas páginas são ligadas umas as outras através de links. à diversidade e à complementaridade. para os usuários leigos os dois termos possam parecer sinônimos. por exemplo.

Ou seja. Esses usos geram e dinamizam contatos que também podem configurar redes sociais que comportam os mais variados níveis de organização e permanência. processos de aprendizados em torno dos idiomas e da cultura de cada local de migração. a cada 10 pessoas que acessam a Internet de casa. vivenciados no cotidiano das transformações culturais da sociedade contemporânea. pela co-autora desse trabalho. a migração de brasileiros para a Espanha cresceu consideravelmente nos últimos anos. chats. o uso cotidiano da internet tem sido preponderante na criação e manutenção de redes sociais entre migrantes transnacionais. Por fim. 6 do exposto pelos autores. e a reconfiguração no território europeu na migração de retorno ao Brasil. até a orientação para conseguir documentação. vale mencionar que. Skype e chat Uol ferramentas que permitem a comunicação simultânea entre interlocutores . as pessoas podem se conhecer offline e incorporarem este relacionamento também ao contexto online e mesmo manterem simultaneamente relacionamentos online e offline em seu cotidiano. MSN e Skype. importa lembrar que essas redes não se limitam à comunicação mediada por computador. comportando um caráter interpessoal não mediado que atravessa a história das migrações.54 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo 5 São possíveis algumas pistas a partir do estudo “Internet. a vivência da migração e sua reconfiguração no território europeu. como amigos e a família. os brasileiros Neste exemplo. se mostrou fundamental no decorrer da experiência transnacional. a reflexão sobre configurações e reconfigurações de usos e vivências da internet no âmbito dos movimentos migratórios exige que consideremos que a internet vem se constituindo como um importante meio de busca de informações sobre a vida no exterior bem como visibilidade e sustentação de identidades no mundo digital.5 Os usos de recursos da internet realizados no cotidiano dos migrantes podem abranger desde o contato com as pessoas mais próximas. ainda. da Espanha.midiamigra. através de sites de relacionamentos6. realizada como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Unisinos. 2005). uma vez no exterior. Conforme o Ibope/NetRatings (março/2008). 7 usam o Orkut. De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) 7. no Brasil.com. Acesso em: 25 set. mas que tem sido muito utilizado pelos brasileiros. Além disso. que não é considerado uma ferramenta de comunicação simultânea. Ainda assim. Disponível em: <http:/ /www. Outra questão a ser referida é que. bem como na relação afetiva e emocional proporcionada através da vivência de estar online.ine. a constituição de redes sociais.br”. Daiani Ludmila Barth. Sua proposta configura-se na reflexão sobre usos da internet por um grupo de migrantes brasileiras a partir de três experiências em que as migrações se relacionam ao imaginário europeu: o projeto de migração para a Europa. conforme nos dedicaremos a analisar posteriormente nesse trabalho. apesar de recente. vive e constitui-se em processo constante e fluído de atribuição de sentidos. (MEZZADRA. imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www. .a partir dos sentidos que os migrantes lhe atribuem e dos usos que fazem delas. 2008. trabalho ou. ou seja. em 2006. entre os próprios migrantes entrevistados em nossa pesquisa.es/inebase>. no início dessa década. A mudança geográfica constitutiva das migrações transnacionais significa não apenas uma mudança de localização e sim a construção de espaços simbólicos entre os lugares por onde o sujeito passa. 7 Dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). Essas reflexões nos conduzem a entender o MSN. cito principalmente o site de relacionamentos Orkut.

com uma razoável conta bancária e. no âmbito do coletivo de brasileiros em vivência transnacional no contexto espanhol. Desde essa perspectiva. A noção de usos sociais nos possibilita. ainda.8 Outro fator importante é que. 2008). embora os processos mediáticos intervenham fundamentalmente na constituição e na conformação das interações. ver matéria da BBC Brasil. existem outros. Há aqueles em condições financeiras favoráveis e aqueles em posições menos favoráveis. quando as ‘coisas apertam‘. memórias e imaginários sociais. situa-se no contexto dos estudos de recepção latino-americanos.. os indivíduos são sujeitos ativos no processo de comunicação. conforme explica Cavalcanti: [. 09. p. em função principalmente do alto índice de desemprego do país. e. Os usos sociais favorecem a nossa análise sobre as diferentes abrangências da relação dos receptores com as tecnologias da comunicação em uma dimensão temporal e espacial mais ampla que não se limita ao momento da recepção. u k / portuguese/multimedia/ 2009/05/090512_ abreespanha_ video. de caráter qualititativo. (JACKS. Vale lembrar. alcançando mais de 80 mil em 2005. pensar a ação dos receptores nos espaços dos conflitos e de mestiçagens culturais. da etnografia como perspectiva de abordagem metodológica. ainda. (2005..730. 2008). no contexto dos quais. conferindo e negociando usos específicos em relação às mídias.Julho/Dezembro . Sobre isso. segundo propõe Martín Barbero (1987). nos valemos. o contingente de brasileiros praticamente duplicou a cada ano. ainda. Disponível em: <http:/ /www. inclusive. nos orientamos pela percepção de que. Acesso em: 18 mai.Nº 14 . c o . mas abarca a compreensão dos processos de circulação dos sentidos produzidos.10). nossa pesquisa. está sendo registrado um crescente significativo de retorno de brasileiros da Espanha. (COGO. ficando atualmente cinco vezes maior do que no início da década. desde a crise econômica global desencadeada em 2007. b b c . comparado aos 4 milhões 274 mil 821 estrangeiros que vivem na Espanha. podemos distinguir modos de atuação da hegemonia e de mobilização da resistência assim como resgatar os processos de apropriação e réplica das classes subalternas. especialmente na vertente dos chamados usos sociais. No âmbito dos usos sociais. registra-se uma forte desigualdade econômica.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 55 somavam 13. mais especificamente da etnografia na internet que contempla a possibilidade de nos apropriarmos e inserirmos em uma O público e o privado . recebem ajuda de algum familiar radicado no Brasil.2009 Na leitura desses dados. Usos da internet na construção do objeto da pesquisa e abordagem empírica das migrações transnacionais Em termos teórico-metodológicos. 8 .] enquanto existem brasileiros que chegam a dividir sua própria cama. deve ser considerado o fato de que as estatísticas oficiais não registram a presença de migrantes clandestinos ou não regularizados. Mesmo representando um número pequeno.shtml>. fazendo uso da conhecida estratégia da cama quente. para sobreviver.

Em geral. p. Uma primeira etapa de realização da pesquisa empírica visando à construção do objeto de estudo esteve orientada por uma pesquisa exploratória através da realização de buscas no chat Uol. tivemos dificuldades no carregamento da página que ficava indisponível ao tentarmos entrar em uma das salas. muitas vezes. encontramos apenas “brasileiros no Brasil” ao passo que. sobretudo. Nesse sentido. que são viabilizadas por ela. is encouraging news for ethnography of the Internet. Em ambas tentativas não obtivemos sucesso. mas que não dependem de um único entendimento sobre ela. 9 Tradução das autoras: “A emergência de uma etnografia multi-situada. . 9 (2000. Essa estratégia metodológica de encontro com os entrevistados reafirmou que a utilização de recursos online favorece o estudo das migrações transnacionais em virtude dessa presença relevante das redes sociais mediadas pela internet. em dimensão similar à descrita por Hine: The emergence of multi-sited ethnography. 61) Vale mencionar que. Quando contatávamos com nicknames femininos nos chats. especificamente na sala de bate-papo “Brasileiros no Exterior”. Foram realizadas também incursões no contexto dos chats oferecidos pelo portal Terra Brasil e Terra-Espanha. a própria inserção dos migrantes brasileiros em redes sociais. conceived of as an experiential. uma vez que. colaborou fundamentalmente para a localização dos entrevistados e realização das entrevistas. a etnografia na internet nos exigiu adaptações das ferramentas clássicas de entrevistas e conversação a partir dos usos das “novas tecnologias”. Isso amplia as possibilidades de desenhos metodológicos /ou/ de estudos baseados nas conexões internas e em torno da internet. no Terra. é interessante mencionar as várias tentativas frustradas de conversarmos com mulheres. interactive and engaged exploration of connectivity. mesmo fazendo referência à pesquisa. porém sem circunscrições a uma territorialidade geográfica concreta no que se refere à convivência entre pesquisador e sujeitos pesquisados.Espanha. é uma boa notícia para a etnografia da internet. mas também e. pela própria experiência transnacional que. Nestas entradas a campo. as que se apresentavam com nicks de mulheres abandonavam as salas quando começávamos o diálogo. It offers up possibilities for designing a study which is based on the connections within and around the Internet and enabled by it but not reliant on any one understanding of it. concebida como uma exploração experimental. mediada por diferentes usos da internet. no processo da pesquisa. não conseguíamos manter uma conversação. no Terra-Brasil.56 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo rede relacional situada no tempo e no espaço. Essas dificuldades colaboraram para a abordagem empírica inicial ficasse limitada ao chat Uol. interativa e engajada de conectividade.“. impõe uma distância geográfica entre pesquisadoras e os sujeitos migrantes pesquisados que limita o acesso presencial offline à realidade das migrações.

Julho/Dezembro . Posteriormente. lançando a pergunta: “Alguém da Espanha?”. adotamos outra estratégia: ao invés de esperar que um dos usuários disponíveis viesse conversar. estabelecendo-se em território espanhol.aspx?uid= 8975712732970420281>. integrante das listas de grupos Yahoo. foi possível perceber três experiências distintas de migração. mas entrevistado O público e o privado . 11 Publicamos recados sobre a pesquisa nos perfis de quatro integrantes da comunidade. Inicialmente. o r ku t . b r / Profile. (3) Interações online/offline.10 onde identificamos perfis de mulheres brasileiras na Espanha. Acesso em: 20 set. a idade.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 57 Nas últimas entradas a campo utilizando o chat. estão o gênero. encontrado no chat Uol. apenas os dois interlocutores vêem a conversação). também se constituíram como critérios da amostra final de migrantes pesquisados no trabalho: 1) Migração com destino à Espanha: brasileiros que saíram do Brasil com destino prévio à Espanha e não residiram em outros países. mas retornaram e se estabeleceram no Brasil. Dentre esses critérios. Para além do chal Uol. e que. na época da entrevista. Realizamos sete entrevistas com migrantes brasileiros na Espanha. posteriormente. .Nº 14 . no esforço11 de diversificar as experiências de migração a serem focalizadas no estudo. estavam morando na Espanha. foi adicionado ao MSN.2009 10 Disponível em: < h t t p : / / w w w. utilizamos um roteiro composto por questões organizadas em cinco blocos temáticos: (1) Identificação. Um quinto brasileiro foi contatado através de lista de discussão do Yahoo e entrevistado por e-mail. c o m . Essas três modalidades de migrações foram cruzadas ainda com outros critérios na perspectiva de diversificação da amostra de migrantes que nasceram no Brasil e estavam em vivência migratória na Espanha e com os quais fomos nos aproximando no decorrer da abordagem empírica. utilizamos a possibilidade “reservada” (ou seja. (2) Usos de ferramentas de comunicação. que. Três brasileiros foram encontrados pelo chat Uol. com ou sem pretensão de se estabelecerem naquele país. Um sexto entrevistado. procuramos outros modos de contato com brasileiros na Espanha. o tempo de migração e o tempo de utilização e de acesso à Internet. utilizamos uma comunidade desse grupo que foi criada no site de relacionamentos Orkut. Ao longo do trabalho de campo. Essa estratégia permitiu iniciar contato. (4) Internet Cidadania e (5) Migração transnacional. a partir do chat Uol. o nível de escolaridade. 08. Para a realização das entrevistas. a partir da lista de discussão “brasileirosebrasileirasnaeuropa”. Uma quarta migrante foi contatada pelo Orkut e entrevistada através de e-mail. 2) Migração de múltiplos trânsitos: brasileiros que saíram do Brasil e viveram em mais de um país. intitulada “Rede brasileiros no exterior”. com a única mulher brasileira que integrou o grupo de entrevistados. e enviando-a a todos os usuários. 3) Migração de retorno: brasileiros que viveram na Espanha. e entrevistados no MSN.

Este procedimento. para que possa ser visto por seu interlocutor. os riscos da conexão ser interrompida por algum problema com os servidores utilizados. sobre essas mesmas questões de espera da resposta do entrevistado no uso de chats em seus trabalhos etnográficos online: 12 Tradução das autoras: “E como ‘quem espera. Quando os entrevistados não mostravam sua imagem pela webcam. no contato presencial offline. causando até certo desconforto. Além disso. uma última entrevista foi realizada pessoalmente. exige que o entrevistado fique em uma mesma posição. utilizada durante as entrevistas por MSN e Skype. Outra especificidade da abordagem dos entrevistados através da internet que observamos empiricamente é a atenção dispensada ao momento da entrevista. Concorre. Até pelo fato de que a própria webcam. maneiras de posicionar-se perante o outro. ¿será que está hablando con otras personas en otros ‘privados’ mientras está haciendo la entrevista conmigo?. muitas vezes acoplada na parte superior do computador. ainda. durante los segundos e. es inevitable que nos pasen muchas cosas por nuestras cabezas: ¿habrá entendido la pregunta?. Marta Bertrán. p. ainda. ¿se la estará pensando?. inclusive. em Porto Alegre. nos possibilitou refletir sobre semelhanças e diferenças na mediação. é inevitável que passem muitas coisas pela cabeça: será que entendeu a pergunta? Será que está pensando nela? Será que está conversando com outras pessoas reservadamente enquanto faz a entrevista comigo? Será que o telefone tocou? Ou. passavam um longo tempo sem responder às questões propostas. O que nos lembra o relato das pesquisadoras Elisenda Ardèvol. não havíamos previsto realizar uma entrevista presencial. minutos de espera que podem transcorrer desde que envias uma pergunta até que recebas uma resposta. face-a-face. minutos de espera que pueden transcurrir desde que lanzas una pergunta hasta que recibes la respuesta. Blanca Callén e Carmen Pérez. para isso. têm-se os gestos. como o tipo de conexão que deve ser favorável para que a imagem possa ser transmitida com maior nitidez ou. ¿le habrán llamado por teléfono? O. desespera’. não são possíveis de serem notados ou sequer vivenciados. a questão das condições de acesso à internet. simplesmente. a partir do acionamento de uma webcam. incluso. que havia sido experimentado durante o processo exploratório da pesquisa. por fim. E. Além das palavras. de tecnologias disponibilizadas pela internet no processo comunicacional na abordagem empírica através do uso da entrevista. a comunicação se favorece dos múltiplos sentidos e dimensões que aparecem envolvidos nos processos de interação entrevistador-entrevistado. simplesmente. ¿será que me está escribiendo una respuesta muy larga?12 (2003. será que está escrevendo uma resposta muito longa?” Y como ‘quien espera desespera’. O que foi possível perceber é que. ou não. expressões.58 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo através do Skype.83) . constituindo-se na única abordagem em que foi contemplada a modalidade de migração de retorno. offline. sentado. que. durante os segundos e. muitas vezes.

Nº 14 .Julho/Dezembro . posteriormente. na vivência com migrantes e não migrantes no país de migração (Espanha) e na constituição de experiências de caráter organizativo e coletivo de apoio às migrações transnacionais. a segunda dimensão de usos desenvolvida na nossa pesquisa em que a internet aparece como espaço de interação de migrantes brasileiros na Espanha através de seus usos na constituição de vínculos transnacionais com familiares e amigos. 14 Cidade situada a 35 km de Madri. Inicialmente. na (re) atualização de contatos com o país de nascimento (Brasil). 15 Joana morou em Barcelona durante os seis meses em que viveu na Espanha. sintetizamos os perfis dos sete entrevistados 13: PERFIL DOS ENTREVIST ADOS ENTREVISTADOS N o m e Idade Migração Murilo 1 Migração Fábio 2 34 Onde mora Camarma de Esteruelas14 Barcelona Escola. a seguir. compreender os usos específicos que os migrantes fazem da internet relacionado às suas experiências migratórias. caracterizamos os migrantes entrevistados e apresentamos um breve mapa de seus acessos à internet no sentido de oferecer referências contextuais para. os nomes dos entrevistados foram alterados. Os usos da internet em espaços de interação nas redes sociais de migrantes brasileiros na Espanha Passamos a analisar.6 anos crianças Serviços gerais 3 anos 6 meses Psicóloga 13 Por questões éticas. em função da preferência dos entrevistados.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 59 Também não imaginávamos. Entretanto. que teríamos que utilizar o e-mail para entrevistar dois dos imigrantes brasileiros na Espanha que compuseram nossa amostra. as questões foram enviadas em blocos e levaram cerca de um mês para serem respondidas. até a entrada em campo. tivemos que nos adaptar ao uso dessa ferramenta que exige outro modo de estruturação de uma entrevista.2009 .Estado ridade C i v i l Superior Casado Ocupação Biólogo Tempo de migração 14 anos 37 PósCasado graduação Migração Vicente 3 Elisa Silvia Raul Joana15 23 37 25 33 24 Madri Madri Madri Madri Porto Alegre Ensino médio Ensino médio Superior Superior Superior Solteiro Casada Solteira Solteiro Solteira Coordenador 3 anos de associação de migrantes brasileiros Empregado 2 anos em mercado Auxiliar 12 anos administrativo Cuidado de 2. No quadro abaixo. O público e o privado . Para ambos os entrevistados.

por exemplo. a afirmação do uso cotidiano desse recurso pelos quatro migrantes. ao se referir a essa modalidade de conversação na web. nas entradas metodológicas realizadas no chat. foi necessário contornar as propostas ou sugestões ligadas. o MSN figura na preferência de contato online da maioria dos migrantes brasileiros entrevistados. é ilustrativo desse condicionamento do local de uso. e mentira”. no processo de procura por desconhecidos para a inclusão no MSN. tendo em vista. 16 Em geral. um trânsito por ambos recursos ou. talvez o desconhecimento com relação aos recursos disponíveis através do Skype. Raul. principalmente. O número de pessoas online é o que diferencia o uso de cada recurso. Dos sete entrevistados da nossa pesquisa. O MSN também foi apontado pelos entrevistados como recurso importante para a sociabilidade. foi possível perceber. Vicente e Silvia. levando a supor. Apesar de os dois programas terem o recurso da câmera web. só digitar. possam contribuir para que o primeiro seja mais acessado do que o segundo. 16 Nesta e em outras citações. na opinião dos entrevistados. A menor quantidade de contatos limita. ainda. contudo. A quantidade de contatos é maior no MSN. Assim. e mais reduzida no Skype (para os entrevistados que conhecem o recurso). ja os chats é muita sacanagem. Isso não significa. Já o Skype parece não ser tão difundido. suas expressões faciais conforme o ambiente onde estavam no momento da entrevista. O MSN posso selecionar as pessoas q quero conversar e q eu tenha confiança. de que “não posso falar com você agora. A afirmação de Raul. a dimensão qualitativa de encontro com as pessoas com as quais os entrevistados mantêm contato freqüente. a sexo pela internet. o entrevistado preferia escrever a usar a voz. por exemplo. Alguns entrevistados controlavam. no decorrer da entrevista. Sílvia. afirmou: “akilo la. que o MSN parece se configurar como uma ferramenta de comunicação mais amigável para a escrita do que o Skype. portanto. o fato do chat não possibilitar o uso da webcam.60 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Na utilização de ferramentas de comunicação simultânea. assim como em manter os contatos já existentes. quatro deles foram encontrados a partir do chat Uol: Murilo. sobretudo. os entrevistados podiam optar pelo uso de um ou outro. . num ambiente público. a popularização do MSN entre brasileiros e. ainda. ta uma chatisse. foi respeitada a grafia utilizada pelos entrevistados. conforme o ambiente em se encontravam. Durante as próprias entrevistas. tem muita gente aqui”. eu entro as vezes mas nem gosto mto. foi possível vivenciar algumas dessas especificidades mencionadas por alguns dos entrevistados quando. traduzida em conhecer pessoas e conversar.

Uma webcam foi adquirida para as sessões que reuniam a família aos domingos. death and migration) and perceptions of affection and emotional closeness”. embora nos locutórios que freqüenta sejam disponibilizados aparelhos telefônicos. hospedagem e assistência financeira no local de migração. representadas.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 61 Por fim. família e transnacionalismo. como o telefone. Na maioria das vezes. muitas vezes com a presença dos avós. amigos e conterrâneos. possibilitando. . realizados por Wilding. Dentre elas. foram quase nulas as referências de utilização do MSN. Os outros brasileiros entrevistados buscaram maneiras diferentes de obter informações sobre o destino e efetivar a migração. O caráter transnacional de dinamização dos relacionamentos familiares possibilitado pela condição de migrante é vivenciado pelo grupo de entrevistados tanto através do uso de ferramentas de comunicação online como de outras tecnologias anteriores à internet. as relações familiares são dinâmicas e fluídas. falecimento e migração) e percepções de proximidade afetiva e emocional“. Skype e chat Uol no planejamento dos projetos migratórios para o exterior.2009 17 Tradução das autoras: “Em primeiro lugar. mudando de acordo com os acontecimentos do ciclo de vida (incluindo nascimento. De acordo com a autora: “First. p. o entrevistado lembrou que.Julho/Dezembro . apenas Sílvia chegou a trocar informações acerca da Espanha com uma pessoa que classificou como “conhecido” e que já vivia naquele país europeu. e a internet.Nº 14 . Novamente. foi possível constatar a preferência pela utilização de ferramentas de comunicação online. A mãe e a irmã de Vicente também se conectam quase diariamente ao MSN para conversar com o filho. mais O público e o privado . a partir desta investigação. cada entrevistado tem sua história de interação pela internet no relacionamento com a família. contatos pessoais com parentes. shifting according to life-cycle events (including birth. A mãe de Joana teve que aprender a utilizar o MSN durante o tempo em que a filha esteve na Espanha. Os usos da internet favorecem. Nos vínculos mantidos com brasileiros no Brasil.17 (2006. ganha destaque a questão da ausência de privacidade que os entrevistados relatam vivenciar nesses espaços de acesso coletivo a internet. a obtenção de informação sobre oportunidades de empregos. family relationships are dynamic and fluid. pelo MSN. não se sente à vontade para ligar para a família e conversar em voz alta. Nos estudos sobre migrações. ganha preferência para os contatos. Skype e chat Uol. segundo os relatos dos entrevistados. o telefone é deixado de lado. Dentre os entrevistados. muitas vezes. Sobre essa questão. uma das questões relevantes diz respeito às especificidades das reconfigurações das relações familiares produzidas pela experiência da migração.129) Com o advento de diferentes tecnologias de comunicação. especialmente através do MSN e e-mail. neste trabalho.

Porque quando tu tem internet. vamos para algum lugar. Ocorre também. A maior parte dos entrevistados considerou ter maior proximidade com pessoas em situação similar de migração na Espanha. o que a converte em um contexto nacional onde se potencializa. ocorrem desde uma perspectiva interpessoal não mediada pelas tecnologias. privilegiando o contato cotidiano com quem está mais longe fisicamente em detrimento do que estão mais próximos.62 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo uma vez. a convivência entre pessoas de diversas nacionalidades. Combinada com as relações familiares. certo caráter de distanciamento entre esses migrantes brasileiros entrevistados e os espanhóis. de forma crescente. ainda. a convivência intercultural dos entrevistados merece uma reflexão. Quando a gente não tinha. assim. Do grupo de entrevistados. o MSN foi o mais lembrado. vamos andar. Na vivência migratória na Espanha. Joana. a distância geográfica vivenciada pelos migrantes parece potencializar ou mesmo intensificar usos da internet.18 Além disso. principalmente pelas interações vivenciadas em âmbito online e offline. incluindo espanhóis e outros migrantes. vamos conhecer um lugar novo. experiências massivas de emigração para outros países da Europa e América Latina. Possivelmente contribua para isso o atual posicionamento da Espanha como um dos maiores destinos de migrantes na Europa. uma de nossas entrevistadas. uma comunicação não mediada: 18 É importante destacar que a Espanha tem uma constituição histórica híbrida determinada pela própria migração. Porém. com a população de espanhóis. o que se reflete na necessidade de hierarquização das amizades em função do tempo dispensado à internet. conforme o relato dos entrevistados. perguntávamos: ‘o que vamos fazer hoje à noite?’ Vamos sair. tendo vivido. os dados levantados evidenciam uma maior relação dos entrevistados com os poucos amigos no Brasil e com as pessoas na mesma situação migrante na Espanha do que com a população local de espanhóis. quando existem. todos os entrevistados afirmaram se relacionar com a população local. tu acaba ficando mais confortável . uma redução “qualitativa” dos amigos a partir do uso dessas ferramentas. o relacionamento parece ser mais formal. atribuiu a falta acesso à internet em momentos de sua estadia na Espanha como um dos principais motivos de ter vivido o que podemos definir com uma “migração offline” e assim dispor de mais tempo para conhecer melhor a cidade onde residia e vivenciar. inclusive. Na formação de um vínculo afetivo mais estável. o que pôde ser constatado é que nenhum deles utiliza a internet para se comunicar com a população local. O que sugere. As conversas tanto formais quanto informais. Nenhum deles mantem contato apenas com brasileiros.

08 20 Fábio é um dos organizadores do Coletivo Brasil Catalunya. Outra iniciativa similar é a do Coletivo Brasil-Catalunya -. educação (especialmente o aprendizado linguístico) ou ainda no apoio direto à obtenção de trabalho e de regularização jurídica por parte dos migrantes. Associação Hispano Brasileira de Apoio aos Imigrantes em Espanha. a própria relevância que tem assumido a internet na dinamização de experiências de caráter coletivo e organizativo dos migrantes. tinha alguém com quem falar.com/.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 63 em casa.orkut. Disponível em: http://www. fazemos eventos e algunas reunioes sobre outros temas também. já observávamos o quanto. não foge a certas características organizativas que demarcam a trajetória dos movimentos migratórios transnacionais na atualidade. Por fim. Disponível em: http://www. outros de nossos entrevistados. Fábio 20. . Acesso em 02 dez. Costuma organizar reuniões. entre seus organizadores. Por ser um dos fundadores do Coletivo Brasil Catalunya. a qual estou cadastrada. Em outra pesquisa. poder saber notícias daqui.orkut. Disponível em: http://www. numa perspectiva de movimentos culturais. 08. o r ku t . tendo em vista. poder falar com alguém do Brasil.orkut.Asociación de Mujeres Emprendedoras . no que se refere ao caráter coletivo que assumem os usos da internet no contexto das redes sociais migrantes.2009 Somente no site de relacionamentos Orkut.aspx? cmm=46848406.Nº 14 . já q temos flexibilidade para todos os temas q vao surgindo das pessoas q entram em contato com a gente.com> Acesso em: 20 nov.Brasil/ España.Julho/Dezembro . Fábio lembra que dedica grande parte do seu tempo às atividades da associação. Esse é o exemplo da AME . blogspot. em diversos âmbitos. Associações e coletivos de migrantes têm atuado para suprir espaços não preenchidos pelo poder público na prestação de assistência e orientação aos migrantes. blogspot. os contatos são realizados regularmente por e-mail e telefone: 19 Disponível em <http://asociacioname. participar de encontros de samba. NEBE – Núcleo de E n t i d a d e s BrasilEspaña. existem vários exemplos: Associación de Mujeres Empreendedoras.aspx? cmm=53795918.com/ Main#Community.com/ Main#Community. se evidenciava a emergência da própria migração como sentido ou posição de pertencimento étnico e/ou cultural em que se ancoram as estratégias comunicativas no contexto das mídias impressas e/ou online produzidas pelos migrantes e suas organizações. e ainda a Rede de Brasileiros no Exterior. O público e o privado .com/ Main#Community. Disponível em: http:// brasilcatalunya. lazer. porque mesmo fora. Os acessos foram realizados em 02 dez. onde atua uma de nossas entrevistadas. inclusive. E não deixava de ser interessante. saúde. meio acomodada ali porque tu tinha que fazer aquilo. Assim como estas duas. Como associação onde atua Eliza ainda não conta com uma sede física própria. Elisa19. e que se orienta a incentivar o empreendedorismo de mulheres brasileiras na Espanha. a qual mantém também uma lista de discussão no Yahoo. 08 21 A nossa Associaçao esta voltada a passar informaçoes para as pessoas q querem montar seus negocios aqui.aspx? cmm=40775085. Disponível em: http:// w w w. 2007). vários exemplos de associações podem ser encontrados no universo online21. (COGO. tais como. que tem.aspx? cmm=39812805. ao mesmo tempo em que realiza contatos regulares por e-mail. o que observamos entre a migração brasileira na Espanha. c o m / Main#Community.

São Leopoldo. Disponível em: <http://antalya. 2006. et al. BARTH. 2003. The research is based on qualitative perspectives and is centered on Latin-American reception studies. Cambridge hanbook of personal relationships. 2006. Internet. Athenea Digital 92. Being results of empirical research we highlighted two dimensions of social uses of the internet (in the field of transnational migrations) for analysis: (1) the internet as the research objective's enviroment and construction tool using an empirical approach to transnational migrations and (2) the internet as an area for interaction between transnational migrants with respect to Brazilians in Spain and their social networks Referências ARDÈVOL E. CAVALCANTI.pdf.es/athenea/num3/ardevol.. WELLMANN. Disponível em: http://www. Disponível em:<http:// www.72la entrevista semiestructurada en línea. “Imigrados”. Jeffrey.php/relacoesinternacionais/ article/viewFile/282/270> Acesso em: 25 out. Barry. p. BOASE. Monografia (Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo) – Centro de Ciências da Comunicação.chass. A presença brasileira no contexto da imigração na Espanha. Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. transnational migrations. “Estrangeiros”.utoronto. p. Skype and chat Uol) by using construction and maintenance knowledge about these social networks.br.uniceub. nos esforços de organização.> Acesso em: 25 out. It is sounded on an Internet ethnography methodological approach. 709-723.htm Acesso em: 09 abril 2009. 108 f. 2008 . nos sentimentos envolvidos nestes espaços associativos e no empenho no exercício da solidariedade aos migrantes transnacionais.publicacoesacademicas.uab. “Imigrantes”. 2006. imaginário e migrantes brasileiras: o sonho de morar na Europa visto do site www.com. Cambrigde: Cambridge University Press. que se combinam com iniciativas offline. e a fabricação do “outro” imaginário.ca/~wellman/netlab/PUBLICATIONS/_frames. Personal relationships: on and off the Internet. Leonardo. internet. Daiani L. de 2008. (eds). social networks. ABSTRA CT : This article looks at internet uses by Brazilian Migrants in Spain (especially ABSTRACT CT: MSN.64 Daiani Ludmila Barth Denise Cogo Artigo Recebido: 09/09/2009 Aprovado: 20/11/2009 K ey W ords: Words: communication.midiamigra. A participação de ambos entrevistados em associações de brasileiros no país de migração evidencia a incidência das práticas online. 3. especially regarding so called social uses.br/index. Etnografia virtualizada : la observación participante y Digital..

42/ojs/index. London: Sage Publications Ltd.Nº 14 .64 . COGO. São Paulo: Hucitec. 219. Revista F p. Christine. Ações coletivas na era da globalização. 2. Fronteiras migrantes. Argentina: Instituto Mexicano para el Desarrollo Comunitário/ Universidad Nacional de La Plata. ‘V transnational contexts. 199-202. SCHERER-WARREN.es/inebase> Acesso em: 25 set.9. 2008. Disponível em: http://www.ine. 2000. La Teoria de Redes Sociales. Ilse. Denise. São Leopoldo.2009 .189. n. Migrações contemporâneas como movimentos sociais: uma análise desde as mídias como instâncias de emergência da cidadania dos ronteiras – Estudos Midiáticos.php/ fronteiras/article/view/3156>. por/ n_aab_lec_1.com/ . Global Networks 6. Revista Anthropos – Jesus Martín Barbero – Comunicación y culturas em América Latina. nº 48.125-142.Acesso em: 10 de abril de 2009. Jesus. Instituto Portal teórico-metodológicas. Ethnography. 2008. apers: revista de LOZARES.portalcomunicacion. Recepción y usos sociales de los médios. Os estudos de recepção na América Latina: perspectivas nstituto de la ortal de la Comunicación Comunicación. Madrid: Traficantes Sueños. Blackwell Publishing Ltd & Global Networks Partnership (2006). . Disponível em: <http://200. Cidadania sem fronteiras. O público e o privado . HINE. JACKS. MEZZADRA.73.. 1987. México/ La Plata. Derecho de fuga: migraciones. Mexico: MARTIN-BARBERO. 2009. 2005. p. Disponível em: <http:// www. Raelene.Redes Sociais e usos da internet por migrantes brasileiros na Espanha 65 COGO. Carlos. 1996. irtual’ intimacies? Families communicating across ‘Virtual’ WILDING. OROZCO GÓMEZ. De los medios a las mediaciones Gustavo Gilli. 2007. p. Virtual Ethnography INSTITUTO Nacional de Estatísticas da Espanha. Denise. Acesso em: 09 de abril de 2009. La investigación en comunicación desde la perspectiva cualitativa.asp?id_llico=48. 1999. 1996. v. P Comunicación (InCOM) de la UAB (Universidade Autônoma de Barcelona). Nilda. Sandro.Julho/Dezembro . Papers Sociologia. Guillermo. Guadalajara. ciudadanía y globalización. mediaciones.144.

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Julho/Dezembro . tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados. mídias digitais. no Agreste da Borborema-PB. Palavras-chave: comunicação comunitária em rede. practices and experiences of sociability and populations in telecenters in Agreste of the Borborema-PB Juciano de Sousa Lacerda* Resumo: Apresentamos neste texto uma proposta de investigação das lógicas. E-mail: jucianolacerda@yahoo. 1 Uma das contribuições da pesquisa será a . das pessoas e grupos que participam de projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. sistematizar a produção digital local e comunitária.(*) Juciano de Sousa Lacerda é Professor e pesquisador do Departamento de Comunicação Social da UFRN. cidadania.2009 (**) Trabalho apresentado no GP Comunicação para a Cidadania do IX Encontro dos Grupos/Núcleos de Pesquisa em Comunicação. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes produtores de comunicação e informação local e comunitária. C ontextualização e problematização Em busca de avançar na produção de conhecimento sobre práticas comunicativas. midiografia dos telecentros e entrevista em profundidade. a perspectiva da pesquisaparticipante. região polarizada por Campina Grande-PB. como referencial metodológico. usos e apropriações comunitárias e locais das novas tecnologias da comunicação e das mídias digitais.Nº 14 . pretendemos fazer o mapeamento das condições tecnológicas em multimídia dos telecentros da região. Com isso. em ambientes digitais midiáticocomunicacionais. telecentros comunitários.com. práticas e vivências que caracterizam a condição de agentes1 produtores de comunicação e informação local e comunitária. evento componente do XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. das pessoas e grupos que participam de O público e o privado . Adotamos. inclusão digital. pretendemos nesta pesquisa analisar as lógicas. em ambientes digitais midiático-comunicacionais. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB** Communitarian and local communication in network: logics.br 67 Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. num modelo plural e flexível de webgrafia.

2006). a partir das contribuições de Renato Ortiz. necessitaria tornar-se local para se realizar (PERUZZO. graças a ocorrência. que provocam tanto uma aproximação entre distintos espaços culturais como a produção de distinções. mesmo. Desta forma. ao mesmo tempo em que o global. Cada uma faz parte de um espaço de significação específico. a inclusão digital não pode se resumir a conectar pessoas à rede mundial de computadores. admite que “estas [redes locais/regionais] são também indispensáveis para entender como trabalham as redes à escala do mundo” (SANTOS. OPPENHEIM. em que atuam ou se estabelecem fronteiras.68 Juciano de Sousa Lacerda fundamentação teórica e aplicada do conceito de agente. 1998). 1996). na contigüidade. por sua vez. 269-270). 1995. A ambiência é um lugar que põe em relação (BATESON. com o paradigma global da Sociedade da Informação (CASTELLS. na região Agreste da Borborema-PB. LATOUR. Contudo. que não exclui a surpresa (SANTOS. como forma de avançar na polaridade emissor-receptor. É nessa perspectiva. 2006. que não dá conta dos processos nos ambientes digitais. 2 projetos de inclusão digital públicos e gratuitos. 2002). No contexto da comunicação regional e da relação local-global. espaço pessoal e espaço dos objetos técnicos (arquitetônico). Milton Santos (2002) assevera que “cada vez mais as redes são globais”. que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo. na Paraíba. Barcelona (Catalunha) (2006). a ambiência midiático-comunicacional2 dos telecentros precisa ser compreendia através das práticas locais de inclusão digital relacionadas com o panorama de políticas brasileiras e latino-americanas e. 144). mas ali se encontram numa fronteira que as põe em O lugar é a terceira totalidade. p. Cicilia Peruzzo. 2007. O acesso à tríade computador-telefonia-provedor de acesso não pode ser visto como única política de inclusão digital (SILVEIRA & CASSINO. 2008. que em nossas pesquisas empíricas temos observado o processo das redes de comunicação digital em telecentros em diversas localidades: Curitiba-PR (2007). 2002. desenvolvida por Milton Santos. 270). a região de Campina Grande. autor sobre qual temos nos debruçado no GrupCiber (PPGAS/UFSC). Nosso primeiro movimento será sistematizar o conceito tendo como ponto de partida proposições de Bruno Latour sobre a ActorNetwork-Theory (ANT) (SEGATA. TREMBLAY. Joinville-SC (2008) e. 2003). no processo de conhecimento mútuo e de inserção em um dado mundo cultural comum. É essa dimensão única que buscamos captar em cada investigação nessas diversas localidades. com suas gramáticas e modos de organização próprios. comprometem as fronteiras/contratos nos territórios. MATTELART. baseados num acontecer solidário. E seriam. As redes garantem a realidade empírica do global (mundo). Em nossa visão. SCHAFF. nacional ou global. Na perspectiva das redes. podemos pensar a ambiência dos telecentros como um lugar de relação entre distintas semiosferas: espaço digital. 2004. 2005. propõe o caráter relacional do local. o território (pais/estado) e o lugar. que só existe se visto em relação ao regional. segundo ele. agora. no contexto das práticas políticas de inclusão digital. mas ganham uma dimensão única no local. Desta forma. especializações dentro desses espaços. até incompreensíveis se as observássemos somente em suas manifestações locais ou regionais. manifestas em três totalidades: o mundo. . de fenômenos sociais agregados. 1998) distintas semiosferas culturais (LOTMAN. 2002. onde fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta. pois há sempre o risco de colocar luz sobre a tecnologia de hardwares (equipamentos e estruturas) e softwares (programas) e deixar na sombra as condições humanas e sociais (WARSCHAUER. p. entre elas as redes de informação e do comércio. são três os tipos de solidariedade. p.

naquele contexto. meebo.Nº 14 . 2007).2009 relação: o telecentro como ambiência midiático-comunicacional.5 atuam diretamente sobre a lógica sobre O público e o privado . O uso do editor de textos correspondeu a 97 minutos (1.48%). por mais que os gestores afirmem o contrário. 18. acessam informações.553 minutos (27. naquilo que a distingue da mídia tradicional: a possibilidade de o internauta expressar-se. 11 e 26/10 e 01/11/2007. etc. era voltado para a conversação digital via orkut. com 54.71%). em que as pessoas se comunicam. Paraná. softwares gestados para internet. ler e estudar na rede. seguido de sites com temas sobre esportes. nos dias 13 e 14/10/2007. o que fazem as pessoas e grupos em seu tempo cotidiano dedicado à internet em telecentros de acesso público gratuito? A compreensão dessas diversas singularidades das práticas locais nos possibilitará ir mais além. uma iluminando o que outra obscurece” (GEERTZ. referentes a 64 internautas (até 30 min por pessoa). compartilham experiências e opiniões no ambiente digital. Definimos como caráter midiático da internet. Estamos diante de um novo sistema midiático que engloba todas as formas de comunicação humana em um formato digital (PAVLIK. em termos de permanência efetiva na espacialidade digital. jogos on line. da maior interatividade e o estabelecimento de uma intensa conversação digital. 2005) com forte caráter midiáticocomunicacional. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 69 E no local. 4 Registramos 3. correspondente a 57 internautas (até 1h por pessoa). registramos diversos ambientes específicos ou categorias4 em que navegaram 136 internautas dos telecentros Aristides Vinholes. 17. O fenômeno também era semelhante em Barcelona (Espanha). 353). Telêmaco Borba (Faróis do Saber) e Vila Real (Paranavegar).856 minutos no Vila Real. Ou seja. 19 e 20/10/ 2007. Também são baixos os índices de leitura de conteúdos produzidos por instituições midiáticas tradicionais reconhecidas como a “velha mídia” (DIZARD. 2001. Esse tipo de interação não acontece dentro das condições de produção tradicionais dos players da mídia impressa e eletrônica. E acrescenta: “Precisamos descobrir uma maneira de fazer com que as várias manifestações desse saber se transformem em comentários uma das outras. o que lêem. 2008) em termos de por onde navegam.409 minutos (42. O aspecto significativo é que o advento das mídias sociais. Os sites de buscas e pesquisas escolares chegaram a 456 minutos (8.63%). 1. o que publicam e como se comunicam com outras pessoas em rede. 2005).Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. no final. e 760 minutos no Telêmaco Borba. nos dias 03. O tempo de permanência no Orkut nos três telecentros alcançou 2. seja segundo as normas vigentes ou em oposição a elas. a internet se tornou uma incubadora de mídias (LEMOS. chat. na mídia digital que o hospeda. uma espécie de ecologia em rede (PISCITELLI. Abordamos os internautas nos telecentros investigados em Curitiba (LACERDA. 2003). Na webgrafia3 realizada durante o doutorado nos telecentros de CuritibaPR. p. como uma semiosfera de intersecção. que as condições tecnológicas dos telecentros não são propícias para se produzir conteúdos que ultrapassem as formas conversacionais. 5 Identifiquei um amplo uso de ferramentas e interfaces conversacionais na ambiência digital dos telecentros de acesso público gratuito de Curitiba.Julho/Dezembro . 3 Abordaremos a proposta da Webgrafia na estratégia metodológica da pesquisa.14% do tempo de permanência dos internautas observados na investigação.064 minutos de navegação no Aristides Vinholes. como afirma Clifford Geertz: “Necessitamos. correspondentes a 15 internautas (até 1h por cada um). Alejandro Piscitelli (2005) descreve características desse uso em termos de escrever. entretenimento e TV com 1. Com o processo de convergência midiática. msn. algo mais que saber local”. nos dias 04. . na espacialidade digital dos três telecentros.07%). 2000). Identificamos. com proeminência das plataformas de mídias sociais (SPYER.

A conversação digital é um tipo de agência significativa. É importante destacar que o Brasil representou na América Latina. A dupla postura de fascínio e de crítica às tecnologias e sua relação com as organizações de mídia. MSN. a fragilidade de se pensar um ethos midiático centrado na lógica do poder econômico. em que os interesses comerciais entram em conflito com os objetivos sociais e cuja contribuição não passa da conectividade e do conhecimento básico de informática. visual. demonstraram. 2004: 53). em empresas de mídia. Lagoa Seca. Esperança. suas tendências. Pocinhos.6 em relação às experiências locais anteriormente investigadas. Caracterização das terras agrícolas paraibanas. Luiz Gonzaga de. como possibilidade de identificar. Montadas. circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário? Em segundo lugar.70 Juciano de Sousa Lacerda a qual os profissionais. na fala dos entrevistados. 2001) os fenômenos comunicacionais e midiáticos. estavam acostumados. 2005. 6 É nessa perspectiva que problematizamos a experiência da região Agreste da Borborema-PB. atencipando. 2006. de que modos essa produção informativa/expressiva pode ser caracterizada como um tipo de agência cidadã ou contra-hegemônica? Quais as semelhanças e diferenças . A microrregião é composta por 12 municípios: Areial. Fagundes. pois não só reproduz. distintos das iniciativas de parceria público-privadas ou somente privadas. Texto completo em www. 2005) de interesse/enfoque local ou comunitário (PERUZZO. Análise de desempenho das culturas agrícolas da Paraíba . em telecentros cuja tecnologia não possibilita outras formas de produção de conteúdo. em aúdio ou audiovisual) cidadã ou contrahegemônica (HALL. Campina Grande. é mister buscar desvendar/desvelar (HEIDEGGER. Ou seja. em que condições o acesso e o uso de tecnologias de produção multimídia em telecentros de acesso público gratuito tornam possível a ampliação da conversação digital em termos de produção. In: ____. Meebo. em grande parte contrahegemônicas. TREMBLAY. podendo conduzir a uma perspectiva meramente consumista da informação (MENOU et al. 1984. correio eletrônico) em condições concretas de produção de informação (multimídia. hipertextual. Edición electrónica gratuita. quando possível. Portanto. Remígio e Solânea. interação e comunicação local-cidadã. a defesa de programas nacionais de telecentros de caráter governamental. Identificamos a conversação digital como um tipo de prática significativa em rede que problematiza as lógicas. mas produz lógicas de sociabilidade. Os internautas demonstraram a capacidade de reconhecer os problemas e possibilidades da digitalização. a ampliação da conversação digital em que os participantes do diálogo interativo e produtivo se reconheçam como agentes do processo (para além das trocas textuais e icônicas em ambientes como Orkut. nas cidades em que há telecentros. Massaranduba. em grande parte não midiatizadas pelos grandes conglomerados produtores de conteúdo. 2007) da Internet. eumed. Fonte: SOUSA. por estabelecer outras lógicas de interação. textual. Queimadas. produtores e produtos de interfaces digitais midiático-comunicacionais.net/libros/ 2006a/lgs. PASQUALI. chats. 2006) em plataformas de mídias sociais (SPYER. a partir de experiências dos governos municipais e estaduais. Puxinanã.

em comparação com as demais localidades da microrregião atendidas por projetos de inclusão digital? E.2009 Conferir o Mapa das Redes de Pontos de Cultura no endereço eletrônico [http:// mapasdarede. gov. segundo dados do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos.ipso. Hoje. Outros 57 pontos de inclusão digital (PIDs) são atendidos por diversos programas públicos e privados. Acesso em 30/ 03/2009. vamos mapear e descrever as lógicas das condições de acesso e uso de tecnologias multimídia em telecentros de acesso público gratuito para produção. 8 . Os outros 16 espaços são abertos para a comunidade em tempo integral e estão distribuídos nos municípios de Campina Grande (9 deles). Por fim. circulação e troca de produtos culturais ou informativos de interesse local ou comunitário.br/ mapa/]. atualmente.casabrasil. 7 Percurso da investigação Não há um caminho já traçado entre um acontecimento ou fato concreto – que nos provoca – e sua transformação em objeto estruturado de uma pesquisa científica. sendo 41 deles sediados em escolas públicas de Campina Grande. de que modo essas diferenças e semelhanças operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços destes telecentros? As perguntas se justificam pelas mutações do fenômeno dos telecentros nos últimos tempos. não era significativa a presença de telecentros voltados para a produção de conteúdos. cidade de referência do Agreste da Borborema-PB. 73 unidades em funcionamento no país. com foco na comunidade estudantil. que ainda eram uma promessa. vamos avaliar e comparar o modo como as diferenças e semelhanças entre as ambiências de telecentros sediadas em Campina Grande e nos municípios satélites operam significativamente sobre as vivências.Nº 14 . todos em Campina Grande. Fagundes (2). Acesso em 30/ 03/2009. Conferir seção “Unidades” no site do projeto Casa Brasil: [http://www.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. Para isso. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 71 entre a ambiência dos telecentros de acesso público gratuitos em Campina Grande.8 Na região Agreste da Borborema-PB há dois Pontos de Cultura e duas Casa Brasil. modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados.Julho/Dezembro . a exemplo dos Pontos de Cultura ou do Casa Brasil. integrados a projetos culturais locais de maior amplitude. coordenado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia tem. tendo em vista identificar tipos de agência cidadã ou contra-hegemônica em seus modelos e resultados. Areial (1). Durante a pesquisa empírica do doutorado.org. O caminho se faz ao andar.7 O projeto interministerial Casa Brasil.br/]. mas como diz o poeta sevilhanoO público e o privado . por fim. Remígio (1) e Solânea (3). são 824 Pontos com apoio de verbas do Ministério da Cultura em todo o Brasil. Pretendemos na pesquisa caracterizar os produtos e modos de produção informativa/expressiva realizados nos telecentros dos Pontos de Cultura e Casa Brasil do Agreste da Borborema-PB. oficialmente reconhecidas.

atendendo aos objetivos da pesquisa. não há caminho.paqtc. definimos outros 16 telecentros do Agreste da Borborema-PB. Como propõe Jiani Bonin.9 Esses rastros são o que poderíamos interpretar em Bachelard como o percurso metodológico. coordenado pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba. encaminha os processos de construção da pesquisa. os aspectos que situam o comunitário e o local como produção informativa. c) a Casa Brasil Campina Grande. em distintos suportes multimídia. são teus rastros o caminho. que representam o artesanato articulado em torno da fabricação de um objeto de conhecimento. caminante. b) o Ponto de Redes Culturas Populares Empreendedoras . o caminho feito pela pesquisa na transformação de um fenômeno imediato em uma experiência construída.esenviseu.72 Juciano de Sousa Lacerda madrilenho António Machado: “são teus rastros o caminho”. Ou poderíamos atribuir metáforas para representar a dimensão metodológica da pesquisa.br/redeviva). para atender ao objetivo 3 da pesquisa: avaliar e comparar o modo como as “Caminante.Rede Viva de Culturas Populares Empreendedoras (www. “bússola”. 121). definimos como primeira parte do recorte empírico da pesquisa quatro telecentros de Campina Grande-PB: a) o Ponto de Cultura Espaço CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte. como instância corporificada em fazeres.” [ h t t p : / / ocanto. em parceria com a UFCG. é demarcado pelos telecentros de uso comunitário que possuem estrutura tecnológica para produção de informação local e comunitária. y nada más. no hay camino. T r a d u ç ã o : “Caminhante. cuja gestão é da UEPB. nove deles em Campina Grande e 7 em cidades da região. 9 . o tipo de postura investigativa e as estratégias e critérios de coleta e organização dos dados. 2006: 125). cuja gestão é da Prefeitura Municipal de Campina Grande. Portanto. em todos os seus níveis. orienta. experimentações e procedimentos que vão dando feição ao objeto do conhecimento. “mapa”. a metodologia pode ser pensada como dimensão que norteia. d) e a Casa Brasil UEPB.net/ d e s t a q u e / machado. passaremos a detalhar o nosso percurso. 2008. que vão se inscrevendo em lógicas atuantes na captura e fabricação pensada deste objeto (BONIN. O recorte empírico dos telecentros do Agreste da Borborema O nosso recorte principal. faz-se caminho ao andar. UFPB e UEPB. se hace camino al andar” . p. como “dimensão norteadora”.org. operações.htm]. son tus huellas el camino. Desta forma. caminhante. apontando o recorte empírico da investigação. e nada mais. ricamente estruturada (BACHELARD. Completando o recorte empírico.

2) 5ª Delegacia do Serviço Militar da 23ª CSM. . Da região Agreste da Borborema fazem parte outros 7 municípios. mas seu principal foco é atender às demandas de ensino-aprendizagem das escolas. Pocinhos. Os nove telecentros de Campina Grande são: 1) 31º Batalhão de Infantaria Motorizado. Programa/projeto GESAC.Julho/Dezembro . ainda. Programa/projeto TIN . Queimadas e Esperança. 4) Prefeitura Municipal de Campina Grande. ficam fora do recorte desta investigação. Informação comunitária e local: cidadania e disputas hegemônicas 10 Neste segundo movimento de construção do percurso metodológico. Programa/projeto TIN – MDIC.Centro de Serviços Sócio-Educativos e Técnico-científicos para o desenvolvimento Comunitário.ibict.br/) não há registros da existência de telecentros nestas cidades. Puxinanã. TIN – MDIC.Programa/projeto. 6) Estação Digital Campina Grande.10 contudo no Mapa da Inclusão Digital do IBICT (http://inclusao. Diante disso. Programa/projeto TIN – MDIC. 7) Casa Brasil Orgulho da Gente (não consta no site do Casa Brasil). 3) Telec.2009 São eles Lagoa Seca. a partir das contribuições no campo da comunicação de Cicilia K. Programa/projeto GESAC. portanto. Programa/projeto GESAC. Programa/projeto: GESAC. em Campina Grande outros 41 pontos de inclusão digital (PIDs) localizados em escolas públicas. Massaranduba. focado justamente nessa característica específica de contexto de uso das tecnologias da informação e da comunicação: atender às escolas como foco principal para o ensinoaprendizagem e à comunidade. 8) TIN Campina Grande. pretendemos fazer a distinção entre informação comunitária e local. Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. O público e o privado .Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. nos fins de semana.Prefeitura Municipal de Fagundes. por sua representatividade. Fagundes (2) 1 . nos interessam para um próximo projeto de investigação. Programa/projeto Ação Digital Nordeste – RITS. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 73 diferenças e semelhanças entre eses telecentros operam significativamente sobre os modos de uso e apropriação das pessoas que usufruem dos serviços e tecnologias ofertados. Programa/projeto GESAC. Há. TIN – MDIC. distribuídos nos demais municípios da região Agreste da Borborema-PB são: Areial (1) TIN Areial . Programa/ projeto.MDIC Os outro sete telecentros. Peruzzo (2006). 2 . Solânea (3) -1 – Central das Associações Comunitárias de Solânea. 2 – Telecentro Comunitário de Fagundes. Programa/projeto Telecentros Comunitários Banco do Brasil. Fundação Sistêmica-Somos Um. 3 – TIN Solânea. 9) TIN Campina Grande/Amde. não farão parte da investigação neste momento. 5) Fundação Sementes da Vida. Remígio (1) TIN Remígio. mas. Montadas. Programa/projeto Estações Digitais Fundação Banco do Brasil.Nº 14 . Muitos deles abrem no fim de semana para o uso comunitário.

negociação. pretendemos considerar os telecentros selecionados para a pesquisa em seu caráter comunitário ou local. cujo enfrentamento se realiza de diversas formas: “incorporação. “Ela pressupõe a existência de elos mais profundos e não meros aglomerados humanos” (PERUZZO. resistência. Portanto.. diante das condições locais de produção de informação e as relações de poder que se estabelecem. uma relação de consonância com a estruturas hegemônicas vigentes no mundo político.74 Juciano de Sousa Lacerda como recorte do tipo de produção informacional que analisaremos nos telecentros supracitados do Agreste da Borborema-PB. O primeiro movimento é a impossibilidade de delimitar fronteiras totalmente demarcadas entre práticas midiáticas locais e comunitárias. p. em seus modos de gestão. 143). Já a comunidade não pode ser confundida com um território (bairro. uma tendência de a comunicação midiática local manter-se dentro da “ordem cultural dominante”. não bastaria falar de coisas do lugar para um meio de comunicação ser considerado comunitário. um lugar específico de uma região. é preciso laços fortes entre os participantes em torno de um coletivo capaz de fazer a superação das amarras do individualismo. como “um espaço determinado.) muito embora as demarcações territoriais não lhe sejam determinantes” (PERUZZO. que serão melhor problematizadas durante o decorrer da pesquisa. interesses. locais e regionais (PERUZZO. cidade etc) ou com segmentos e agrupamentos da sociedade (MARQUES DE MELO. 1980). Muitas dessas práticas são contra-hegemônicas. Contudo. portanto. Esse será um avanço em termos das investigações anteriores que realizamos. nas palavras de Stuart Hall. A primeira. em termos da compreensão do local. 2006. 2006. uma vez que é impossível um limite exato entre elas. pois não havíamos trabalhado uma definição metodológica clara sobre como classificar os telecentros em locais ou comunitários. 144). 2006. Há. no qual a pessoa se sente inserida e partilha sentidos. podendo representar forças emergentes de produção de informação. até mesmo a intersecção entre essas características. 145). PERUZZO. aptidões. É o espaço que lhe é familiar (. a “luta cultural” com outras formas não-hegemônicas. 2007). p. “las rupturas culturales de hoy pueden recuperarse para apoyar el sistema de valores y significados que domine mañana” (1984). enquanto permanece a disputa. recuperação” (HALL. tergiversação. A ordem dominante ou hegemônica procura então manter seu sistema de valores e significados como válidos. ou seja. No contexto acima apresentado. social e cultural (HALL. PAIVA. p. . tipos de públicos. 2006. da mesma forma como é problemático estabelecer fronteiras claras entre as espacialidades comunitárias. Tomamos aqui duas perspectivas como ponto de partida para essa distinção.. 1984). segundo Peruzzo. 2006. objetivos.

132). 2008). E para poder identificá-las e interpretá-las é preciso “estar ao mesmo tempo em posição exterior para escutar e ser um participante das conversações naturais onde emergem as significações das rotinas dos participantes” (COULON. 1975). 121). portanto é de experimentação criteriosa na perspectiva da observação direta participante. Desta forma. 91). de flexibilidade. em Curitiba-PR (2007). Numa observação participante. também. de modo sistemático. Qualidade necessita de disciplina e. no percurso.Nº 14 .Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. a necessidade de movimentos táticos no sentido de qualificar ainda mais os instrumentos de pesquisa em função do cotidiano concreto das pessoas que atuam nos telecentros selecionados. pois importaria somente a “qualidade”. sistematização da investigação. que na perspectiva qualitativa sempre pode ser aperfeiçoado. nossa postura é de que a metodologia da pesquisa participante é um artesanato intelectual (MILLS. Os procedimentos que vamos explicitar foram construídos e aplicados durante a pesquisa de doutorado. p.Julho/Dezembro . p. em 2007. mas compromete os resultados (GARCÍA FERRANDO. Na observação direta e participante. p. Nossa postura. No contexto da investigação das práticas comunicacionais e midiáticas nos telecentros no Agreste da Borborema. as estratégias metodológicas aqui propostas são nosso ponto de partida. na qual “o investigador social se implica directa y activamente en la vida cotidiana del grupo” (GARCÍA FERRANDO. 1995. Contudo. capaz de produzir novos conhecimentos no campo. Entendemos que a perspectiva qualitativa na observação direta e participante não é o lugar da informalidade. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 75 Postura investigativa. pois corre-se o risco de uma aplicação mecânica em campo.2009 . cabendo. é importante ter em claro as questões que se quer investigar. 1996. 1996). 1996. pois pode se transformar numa receita e perder seu caráter de experimentação (BONIN. primeiramente de modo exploratório em Barcelona (Catalunha). SANMARTÍN. e depois. práticas e vivências de sociabilidade e cidadania. sino maneras enormemente específicas de conducirse em la interacción social em cuyo seno se va desarrollar la observación participante” (GARCÍA FERRANDO. que gera uma aparência de segurança. Temos consciência de que no cotidiano dos usos e apropriações dos telecentros configuram-se lógicas. nossa implicação com o local e risco de tomarmos uma postura O público e o privado . uma construção metodológica nunca está dada ou é definitiva. estratégias e critérios de coleta e organização dos dados O próximo movimento é explicitar o conjunto plurimetodológico de procedimentos que operacionalizamos para o registro. organização. SANMARTÍN. mas o conjunto de procedimentos não precisa estar totalmente definido e fechado de antemão. SANMARTÍN. em que tudo é válido. “No hay reglas de correspondencia que liguen teoría y objeto de la observación.

partimos da metáfora elaborada por Todd Gitlin (2005) da “correnteza” ou do “dilúvio” midiático que inunda de informações nosso cotidiano. “Uma cobertura adequada dos acontecimentos sociais exige muito mais métodos e dados: um pluralismo metodológico se origina como uma necessidade metodológica” (BAUER. Diante disso. precisam de sujeitos que se comuniquem. 2003: 18). ainda. que denominamos como webgrafia. com bom critério podem denominar-se ‘estilos’” (GITLIN. somos vistos. é preciso ter consciência crítica de si mesmo. midiografia do tempo/espaço dos telecentros e entrevista em profundidade com enfoque na história das práticas e vivências digitais do sujeitos da pesquisa. como pesquisadores. 2003: 138). principalmente quando o comunitário e o local vivenciam as lógicas das tecnologias digitais de comunicação. mais do que reforçar o imaginário dualista entre perspectiva qualitativa (interpretativa) e quantitativa. nos centramos em determinados segmentos e fazemos o possível para ignorar o restante” (GITLIN. desenvolvam uma capacidade de reflexividade e relatabilidade sobre suas práticas. como o objeto comunicacional nos interpela em seus vários nuances. experimentação. 2005: 146). Webgrafia da produção comunitária e local Para desenvolver a Webgrafia como procedimento metodológico. quando se consolidam e se tornam habituais. registro. do ponto de vista metodológico. mas deve se constituir como imperativo. 2003: 24). é preciso que estes sujeitos.76 Juciano de Sousa Lacerda militante é muito maior do que em outros métodos. cultivamos estratégias de navegação que. classificamos as partes. dessa forma. “Com o fim de controlar o incontrolável. Na pesquisa . A natureza dos processos comunicacionais e midiáticos requer formulações plurimetodológicas no contato com a realidade empírica numa perspectiva investigativa. 2005: 146). Interessa questionarmos sobre. Essas atividades de definir. é preciso perceber que não há quantificação sem qualificação ou análise estatística sem interpretação (BAUER. classificar ou nos focar em determinados tipos de informação se constituem como “estratégias de navegação”. Do ponto de vista da sistematização dos dados. para que tenham um valor de cientificidade. Esse pluralismo não se confunde com dispersão ou efeito de cientificidade. contribuem ativamente para os estudos ou formulações sobre a Comunicação enquanto lugar de produção de saberes” (LACERDA. teste e sistematização de informações” (MALDONADO. a partir de suas competências. GASKELL & ALLUM. “definimos nossos favoritos. O conjunto plurimetodológico de procedimentos está articulado em três eixos relacionados entre si. 2006: 286). de que não somos “nativos” do grupo.11 11 “Os processos de comunicação não acontecem por si só. temos papéis distintos nas atividades cotidianas realizadas no telecentro. no jogo da observação. “Cada pesquisa empírica demanda a estruturação de instrumentos técnicos de observação. Esse movimento operativo os torna co-produtores do conhecimento sobre sua própria comunicação e. Mas. E para reduzir sua enormidade a uma escala humana de convivência cômoda com tanta informação. GASKELL & ALLUM.

fluxos. vivências e percepções dos internautas sobre sua agência produtiva face às ofertas e condições tecnológicas de produção dos telecentros. optamos no enfoque da entrevista em profundidade pela linha da história das práticas e vivências digitais. produziremos imagens com câmera digital. segundo os autores. tomando-as como um caderno de campo digital (ACHUTTI & HASSEN. Procuraremos identificar em um questionário pistas sobre hábitos. Como primeiro procedimento. a ambiência midiáticocomunicacional dos espaços dos telecentros. mas a memória como suporte da identidade individual e coletiva). nos limitamos à descrição das estratégias de navegação dos internautas. A partir da construção de um novo instrumento que possa dar conta do registro sistemático das práticas e astúcias dos agentes na produção de informações comunitárias ou locais e de bens culturais. do sentido de cidadania e de O público e o privado . ao demorar em avaliando as “melhores” as fotos. em intervalos de uma hora. estrutura tecnológica. mais importante ainda. número. tipos e configurações de computadores e equipamentos midiáticos acessíveis à população. As câmeras fotográficas digitais garantiram consideráveis mudanças no trabalho de campo. O objetivo é captar nas significações produzidas nas entrevistas se há o reconhecimento. pela descrição detalhada. até mesmo sonhos.Julho/Dezembro . em função da qualidade de softwares. certas impressões ou insights se produzem ou são provocados somente naquele contexto. 13 Entrevistas em Profundidade: histórias das práticas e vivências digitais Para fazer relações necessárias entre práticas. a qualidade das acomodações. minuto a minuto.13 C. a partir de um mapa em que registrávamos. bits e memória (não somente cartões de memória.Comunicação Comunitária e Local em Rede: lógicas. práticas. inclusive para registrar “pensamentos marginais” advindos de pensamentos da vida diária.2009 “O filme e a prata não são mais os elementos. trabalharemos principalmente o mapeamento das estratégias de produção. para chegar aos sentidos que elaboram sobres tais práticas. No momento da observação mesma nos telecentros. Para narrar essas comparações e estabelecer um diálogo com os dados escritos. sem o registro perdem-se como possibilidade de levar a um raciocínio estruturado. compreendendo os períodos de sua experiência com a mídia tradicional e as mídias digitais. possibilidades e limites técnicos encontrados na espacialidade digital (ciberespaço) dos telecentros investigados. naquele momento (timing). Falamos em pixels. interdições. E a sensação de poder descartar as não . práticas e vivências de sociabilidade e cidadania em telecentros no Agreste da Borborema-PB 77 de doutorado (2004-2008). plugins. poder selecioná-las “no lugar” (ACHUTTI & HASSEN. por fim. 2004).12 Compararemos com os registros os tipos de ambiente. de conversar que ouvimos na rua. pelo risco de perder um tempo precioso dos sujeitos da pesquisa ou para a observação. acessos. filtros. realizaremos o registro e a descrição do espaço informacional arquitetônico de cada telecentro. Esse instrumento foi aliado a um questionário breve sobre as preferências de navegação e sobre as atividades que realizavam no telecentro. Talvez sua principal diferença em relação à fotografia convencional seja a possibilidade de se poder ver as fotografias “no lugar” e. isso pode se converter num problema. Wright Mills (1975) indica a produção de um diário como parte do artesanato intelectual. Ao mesmo tempo. e. Nesta nova investigação. durante a fase das entrevistas em profundidade. dos seus ambientes digitais favoritos.Nº 14 . por parte dos agentes. astúcias. 12 Midiografia do espaço/tempo dos telecentros Com o que denominamos de midiografia do espaço/tempo dos telecentros temos como meta caracterizar. rotinas. os ambientes por onde navegavam os internautas. de consumidor a produtor de informações. a partir de anotações em dois tipos de diário de campo: textual e digital. 2004: 278). como ambiência midiática digital.

A partir do grupo de pessoas que participarem mais ativamente da fase da webgrafia e midiografia. distante do calor da hora. Principais contríbuições da pesquisa Com os resultados da pesquisa. mediagraphyof the telecenters and interview in depth. telecenters communitarian experiences that characterize the condition of producing agents of communication and communitarian local information and. com idas e vindas. Artigo Recebido: 04/08/2009 Aprovado: 10/10/2009 ação contra-hegemônica em suas práticas de produção comunicativa e expressão cultural na Internet. ao tomar nota sobre si. citizenship. descrição e análise de fundo das histórias de vida. a sua “efetivação exige um considerável esforço do pesquisado. 2000. de capacitação em informática básica) e do lugar onde se localizam (Campina Grande. num processo temporal longo e intenso. enquanto aplica os procedimentos de pesquisa. ao mesmo tempo. Para fortalecer o aspecto participante. a articulação da entrevista em profundidade com o diário de campo textual é fundamental também como espaço de pensarse do pesquisador. Neste aspecto. in mediatic-communications digital environments. as methodological referential. Que envolve processos de exploração. region polarized for Campina Grande City. portanto deve ser efetuada quando as condições de amadurecimento da inter-relação pesquisador-pesquisado alcancem um nível bom de produtividade e criação” (MALDONADO. b) no âmbito da comunicação regional. Mesmo se tratando de uma entrevista em profundidade. relacionadas às políticas públicas de inclusão digital. practical and ABSTRACT CT: K ey W ords: Words: communitarian communication network. a inspiração metodológica de “confiança ambígua”15 nos faz ver o desafio de construir uma relação de intensidade com os entrevistados num período de tempo relativamente curto. we intend to . retomadas. pretendemos fortalecer: a) no campo da comunicação a teorização sobre as plataformas digitais de mídias sociais com enfoque local e comunitário. digital medias. We adopt. de forma que as narrativas possam contemplar os diferentes matizes. 1998: 371-375). the perspective of the research-participant. 6). e essa ambigüidade o mantém vigilante sobre suas próprias práticas de pesquisa de campo. esperamos contribuir para o pensamento desenvolvido no campo da comunicação regional em torno do uso das mídias digitais/sociais em práticas de cidadania e da democratização da informação e da produção cultural. a teorização sobre o local e o comunitário na perspectiva das novas tecnologias da comunicação e mídias digitais. ampliar a discussão das políticas públicas de comunicação. With this. em função das diferentes modalidades de telecentros (de produção de conteúdo multimídia. in a plural and flexible model of webgraphy. digital inclusion. no contexto do paradigma da Sociedade da Informação. definiremos um grupo significativo que represente as especificidades encontradas em campo. “confiante e cético em relação à sua experiência” (1975: 213).78 Juciano de Sousa Lacerda classificadas. p. em campo. uma vez que se trata uma pesquisa participante. em vários momentos. Por fim. 15 14 Mills adverte que o pesquisador tem que ser. teria um valor para a pesquisa ou como registro histórico. de acesso a conteúdos e troca de mensagens. mas de médio prazo. Não se trata de uma proposta metodológica de história de vida como concebida strictu sensu e consolidada na etnografia. Com isso. ABSTRA CT : We present in this text a proposal of inquiry of the logics. of the people and groups that participate of public and gratuitous projects of digital inclusion. cidades periféricas do Agreste da Borborema). paralelo a outros registros etnográficos de imersão na vida da população investigada (GALINDO CÁCERES. pode fazer perder imagens que.14 mas como método inspirador e auto-reflexivo para se pensar e apropriar-se do processo de entrevista em profundidade. in the Agreste of the Borborema-PB. a partir dos telecentros.

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br 83 Paradigma digital: capitalismo. na base de considerações sobre cultura e esfera pública.(*) Valério Cruz Brittos é Professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação UNISINOS. construída pelos principais países capitalistas. na perspectiva da Economia Política da Comunicação. de modo que a relação entre trabalho manual e intelectual tende a alterar-se.com. permite uma ampla subsunção do trabalho intelectual. E-mail: bolano@ufs.1 Por toda parte fala-se de uma sociedade da informação. convergência e seus impactos sobre a economia das telecomunicações e da televisão. economia política. Neste texto faz-se a opção de apresentar o estado da arte dos debates sobre internet. tecnologia.bri@terra. Palavras-chave: convergência. regulação. Economia Política. César. ademais. foi formulada inicialmente por BOLAÑO.br César Ricardo Siqueira Bolaño é Professor na UFS e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UnB. comunicação. In: III C O L Ó Q U I O . paralela a uma intelectualização geral de todos os processos de trabalho. o que está relacionado com transformações profundas no modo de produção. culture and public sphere Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño* Resumo: Este artigo condensa uma parte do marco teórico desenvolvido pelos autores para análise da TV digital. um exame mais extenso da história do desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil e no mundo. de maneira que as tecnologias da informação e da comunicação adquirem um protagonismo crucial no processo. E-mail: val. além de avançar na discussão sobre a democratização das comunicações. Comunicação e Globalização.Julho/Dezembro . fruto da revolução micro-eletrônica.2009 1 A idéia de subsunção do trabalho intelectual como característica fundamental da terceira revolução industrial. onde se pode encontrar. I ntrodução A atual reestruturação capitalista. que arrasta praticamente o mundo todo na direção de um novo O público e o privado . cultura e esfera pública aradigm: Digital P Paradigm: capitalism. seguindo a perspectiva de Marx a respeito das duas primeiras revoluções industriais.Nº 14 .

N’GUYEN. enfim. especificamente capitalista.84 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño padrão de acumulação de capital. a sinalização entre comutadores não é mais efetuada através do próprio canal da conversação. com a invenção do transístor. como as fibras óticas.. sendo seu ritmo de desenvolvimento dependente do rendimento dos semicondutores. Denis. cujo exemplo mais acabado são as indústrias culturais. levando a sua reestruturação geral.)”. (Org. evidenciando o fato de que a constituição do mercado competitivo depende de dois elementos que podem ser tomados como duas condições sine qua non: tecnologia e regulação.pdf>. César. op. p. desencadeada em 1948. Godefroy. 24. abre-se um paradigma novo. Uma análise mais extensa. modificando modos de vida. a separação entre transporte e sinalização podem permitir à concorrência ter acesso aos recursos de rede do operador. mas de um canal semáforo específico. Rio de Janeiro. Aracaju. 1995. Aracaju.. 11. a digitalização da comutação facilita a separação das funções de administração e controle das chamadas e de transporte da informação ou comunicação. PHAN. contrariamente. de modo que.2 BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. mas se. aprofundando brutalmente a tendência de expansão de uma cultura global. cit. edição escrita e musical etc. considerando as citadas conseqüências mais gerais do fenômeno. ante isso. 1995. Nesta direção. de teledifusão”. A revolução da micro-eletrônica. PHAN. 1999. mais recentemente.). de forma que todo esse processo é traduzível pelo desenvolvimento progressivo de uma convergência funcional “entre as redes informáticas de telecomunicações e. por exemplo. a questão das normas de interconexão torna-se absolutamente central na economia das telecomunicações e toda uma teoria e prática a respeito se desenvolve para embasar as ações das autoridades. se traduziu. for instaurada a disputa entre capitais no setor. tem sua vantagem competitiva reforçada. são oferecidas oportunidades de transformação radicais “nos setores fornecedores de meios (telecomunicações. informática) ou produtores de conteúdos (audiovisual. N’GUYEN. dez.. os satélites ou a telefonia móvel –. relações sociais de todo tipo. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política olítica. especialmente a radiodifusão e a internet. Disponível em: <http:/ /www-eco. nas telecomunicações. p. 24. 1999. Anais. 2002. encontra-se em BOLAÑO. Acesso em: 14 dez. n. o que permite uma gestão mais econômica das redes. depois na comutação. 3 2 Impactos sobre a economia das telecomunicações No que se refere à economia das telecomunicações – beneficiada também por outras inovações.enstbretagne. nos 70 –. Texto republicado em BOLAÑO. Phan e N’Guyen bem resumiram a problemática.fr/biblio/ ecotel. valores. São Paulo: EDUC. “a concepção modular das funções de comutação. . O operador que conservar o monopólio em tal caso de prestação. César. em um processo progressivo de digitalização – primeiro na transmissão. p. Trabalho intelectual. Godefroy. nos anos 50 e 60. acabando por constituir um novo paradigma tecnológico. “associado às técnicas informáticas que constituem o seu suporte genérico”. com a digitalização da informação. Globalização e Regionalização das Comunicações Comunicações. comunicação e capitalismo. 53-78. destacando que. Denis.3 Assim. cujo resultado será diferente em regime de concorrência ou de monopólio. em condições similares às dele”. Economie des Télécommunications et de l’Iternet l’Iternet.

5 4 PHAN. o principal operador pesado concorrente direto da AT&T. Marcos.. reduzindo-se os operadores de rede à condição de simples fornecedores de capacidades de transmissão.Paradigma digital: capitalismo. ela iniciou suas operações como operador leve e acabou realizando uma série de aquisições que culminaram. cit. Phan e N’Guyen dividem os operadores de telecomunicações em três grupos: os históricos (AT&T. um operador leve como Equant . em 1990.5 O caso da norte-americana Worldcom ilustra a possibilidade de passagem da terceira para a segunda categoria através de um movimento de fusão ou aquisição. incorrendo. cultura e esfera pública 85 A digitalização permite. as RBOCs norte-americanas e os herdeiros das infra-estruturas dos antigos monopólios públicos da Europa e do resto do mundo). que adotam uma estratégia de nicho. op. o que reduz enormemente o custo das chamadas. Aracaju: Editora UFS. por outro lado. sem o qual o promissor comércio eletrônico encontra uma barreira fundamental –.Nº 14 . os usuários podem controlar o valor agregado associado à circulação de informação. atrás da AT&T. Com isso. 6 No caso da Worldcom. 2007. resumir o panorama dos agentes do setor em nível mundial após a reestruturação dos anos 80 e 90 do século XX. por outro lado. Deixando de lado o problema da segurança que essa gestão descentralizada acarreta – exigindo esforços muito importantes de desenvolvimento de sistemas de codificação. o importante a ressaltar é que o sucesso do protocolo TCP/IP deve-se.2009 A esse respeito. Denis. a comunicação entre computadores através das redes de telecomunicações. os pesados (concorrentes diretos dos primeiros em todos os segmentos. de operação das redes e o protocolo TCP/IP permitem uma gestão completamente descentralizada dos fluxos de informação. cujo auge é o desenvolvimento da internet. que já havia adquirido. podendo ameaçar o negócio tradicional da telefonia vocal assim que as dificuldades técnicas que prejudicam a qualidade desse tipo de comunicação estiverem resolvidas... por oposição ao modelo convencional das telecomuicações. mostrou-se mais reativo e competitivo que as mega-alianças O público e o privado . precisamente a essa descentralização e à localização da inteligência na periferia da rede. CASTAÑEDA. além do fato de funcionar em meio heterogêneo. oferecendo serviços especializados. N’GUYEN. em custos de entrada extremamente elevados) e os leves. O modo assíncrono. portanto. por pacotes.. Não interessa entrar aqui nas especificidades da economia da internet. VASCONCELOS Daniel. quarto maior operador de rede de longa distância. “no caso da oferta global para os grandes clientes multinacionais [. Godefroy. da própria MCI e da Sprint. dandolhes em certos casos vantagens competitivas importantes. segundo o conceito defendido pelos informáticos. com a da MCI.4 das telecomunicações ou nos detalhes dos diferentes avanços tecnológicos que vêm sendo introduzidos no setor. Assim. BOLAÑO César. em 1998. . extremamente eficaz porque fundado na otimização das filas de espera nos roteadores. Será útil.6 O fato é que essa combinação de uma estrutura de custos vantajosa com uma oferta focalizada tornam muito eficientes os operadores leves. Alain.Julho/Dezembro . dirigindo-se a um público específico. Economia Política da internet internet. a Telecom USA. com uma infraestrutura mínima e custos de entrada relativamente baixos. de inteligência centralizada.]. vide HERCOVICI. promovendo uma revolução na transmissão de dados.

Comcast e Cox e. a investir em um operador pesado para afrontar o operador histórico local. Ameritech. em 1994.. numa perspectiva. 80. o audiovisual9 ou a internet. porque “o poder de mercado dos clientes. a internacionalização de um operador histórico o levará. enquanto as dificuldades inter-culturais dos parceiros não tornaram a filial muito reativa”. Ibid. a Uniworld. como no caso das fracassadas alianças globais mencionadas acima. por exemplo. uma filial comum. A outra aliança global. Ibid. Unisource (KPN/Swuisscom/Telia) ou Concert (BT/MCI)”. apesar de uma pressão concorrencial mais forte devido ao papel de challenger que ocupa a filial comum”. a homogeneidade das ofertas e a agressividade dos operadores ‘leves’ desbastaram as margens. SBC e Disney. O mesmo raciocínio pode ser utilizado para o caso da internacionalização dos operadores leves. Eles esperam que o operador histórico não procure responder de forma muito bruta a essa entrada massiva. Mas este tipo de estratégia internacional das grandes operadoras de telecomunicações acabou não funcionando e as quatro alianças globais se dissolveram – segundo Phan e N’Guyen. Ibid. entre Bell South. que pode levar a acordos de não beligerância.] custaria ao antigo monopólio uma forte queda dos seus lucros ou uma reação da agência de regulação. Em ambos os casos. Alianças multinacionais fundadas sobre a complementaridade dos parceiros.. TCI. 80. a aliança. que se revela no montante dos investimentos irreversíveis que fazem para a instalação das suas redes. ameaçada pela ação dos operadores leves. entrando em mercados externos (através. a capacidade de resposta do operador histórico aos operadores leves torna-se mais difícil se ele estiver sendo atacado em diferentes frentes. sem questionar necessariamente toda a sua estrutura tarifária”. p. em 1995. que pode. poder-se-iam citar contra-exemplos. de 25% do capital da Time Warner pela US West. Neste caso. como a telefonia celular. entre Sprint. uma estratégia de multinacionalização de atividades novas. 81-82. no mais das vezes. de internacionalização multi-doméstica. constituindo-se uma espécie de concorrência cruzada.. pois o objetivo é fundamentalmente o de preservar a carteira de grandes clientes. Ibid. p. que tenderiam a investir em empresas congêneres. comparativamente com a estratégia dos entrantes pesados. 80.8 Em todo caso. exercendo assim seu papel tradicional de operador dominante em um contexto novo. de forma semelhante. p. Phan e N’Guyen definem quatro estratégias adotadas pelos operadores históricos face à nova concorrência: uma defensiva (comercial ou organizacional) sobre o mercado doméstico. basicamente também defensiva. em 1993. de fato.. finalmente. uma ofensiva. os quais: perseguem uma política agressiva... por proximidade cultural. com a Unisource (que adquiriu também parte da Worldpartners).86 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño de operadores históricos que foram Global One (France Télécom/Deutsche Telekom/Sprint). p. oferecendo soluções integradas às multinacionais. vale citar a aquisição. “funcionam bem. pois uma baixa drástica de todas as tarifas [. da aquisição de empresas privatizadas no Terceiro Mundo) para oferecer seu produto tradicional em posição de quasemonopólio. 8 9 O ponto fraco dessa estratégia de especialização dos operadores leves para ganhar as fatias mais saborosas do mercado dos operadores históricos é que estes podem “identificar mais facilmente a ameaça e ajustar a reação ao segmento de mercado atacado. uma de internacionalização global. . chegou a criar. ao contrário. Worldpartners. por sua vez. KDD e Singapore Telecom.7 7 Ibid. formada por AT&T. Por outro lado. ser um entrante pesado no mercado interno do primeiro. e.

portanto. o que leva a uma maior estabilidade da indústria audiovisual.Nº 14 . Trata-se. ademais. Torna-se interessante. Gaëtan (Orgs. com diversos graus de “interatividade” e “convergência”. nos diferentes mercados da chamada convergência entre audiovisual. como um novo desafio para os atores hegemônicos. aumentando a rentabilidade e a remuneração da produção. neste ponto. discutir a problemática tecno-econômica da televisão. situando a TV digital no interior da linha evolutiva da indústria do audiovisual. São Paulo: Paulus. Madrid: Edipo. mas não necessariamente condicionadas por eles. Enrique. ao re-introduzir a exclusão pelos preços. que vai da pay TV ou televisão por assinatura. revolucionada efetivamente com a introdução dos sistemas pagos. esfera pública e movimentos estruturantes. que permitirá uma mudança econômica e financeira. Aumenta. Valério. Jean-Guy. op. 13 12 11 10 Não obstante. Enrique. nos EUA. de modalidades de pagamento e estratégias financeiras e mercantis. por fim. a partir dos anos 80. José María Álvarez (Orgs.Paradigma digital: capitalismo. passando pela pay per view ou televisão de produto.Julho/Dezembro . 10 É o surgimento da televisão por assinatura.. nos anos 70 (excetuando-se experiências pouco exitosas anteriores) e na Europa e no resto do mundo. 21-32.2009 BUSTAMANTE. La théorie des industries culturelles face aux progrès de la numérisation et de la convergence.12 ou de distinção. segundo Bustamante. estas características genéricas hão de matizar-se seriamente em uma escala de transformações.). Les autoroutes de l’information l’information: un produit de la convergence. telecomunicações e informática. constituindo-se na “mudança mais importante sem dúvida do audiovisual depois da própria expansão da televisão e o desenvolvimento do vídeo doméstico. à televisão “interativa” ou o vídeo por demanda. César. In: ______. encurta o ciclo financeiro da TV convencional. 24.). O sistema televisivo a pagamento. Categorias claramente econômicas. BUSTAMANTE. com uma retração da lógica publicitária da velha TV aberta. cit. reduzindo a importância absoluta de indicadores como a maximização e fidelização permanente da audiência. In: LACROIX. 1999.13 Entre essas mudanças. capaz de provocar profundas alterações na relação entre oferta e demanda. de uma transformação profunda na esfera econômica apenas “muito relativamente” relacionada com a inovação tecnológica: Ver BOLAÑO. portanto. TREMBLAY. A televisão brasileira na era digital digital: exclusão. 1995. MONZONCILLO. possibilitadas certamente pelas tecnologias e os suportes. Gaëtan. . Presente y futuro de la television digital digital. 25.11 A pay TV – o modelo convencional da televisão segmentada conhecido – introduz pela primeira vez no televisual uma lógica de club. La televisión digital: referencias básicas. está a tendência de aproximação da TV ao modelo O público e o privado . Sainte-Foy: Presses de l’Université du Québec. BRITTOS. com suas variações de vídeo próximo por demanda (near video on demand). com notáveis conseqüências sobre a economia do audiovisual”. 2007. TREMBLAY. p. p. à semelhança da internet. a capacidade de escolha do telespectadorcliente e a especialização do consumo. cultura e esfera pública 87 Incidências sobre a economia da televisão A TV digital terrestre se apresenta. p.

inclusive no Brasil. UFES. em curtos intervalos de tempo. com o assinante pagando por escolha. 15 14 editorial de organização das indústrias culturais. cada um em um horário diferente. Jacques. vídeo próximo por demanda). o qual. agrupados a partir de informações como título. Alain. cit. pagar para ver) –15 um sistema de oferta de conteúdo audiovisual por produto específico. há uma reviravolta completa do velho paradigma da cultura de onda. de Almeida. 1995. Capitalisme et I n d u s t r i e s C u l t u r e l l e s . intérprete. e a contra-programação não é possível.. Crenoble: PUG. LEFEBVRE. esporte.14 Não obstante. 17 Mais difundido. prenunciado pelos modelos de pay per view (PPV. mas o emissor elege ainda os programas e seleciona os de êxito majoritário para uma difusão de maior periodicidade. por exemplo) –. se re-transmite um filme de êxito a cada dez minutos. ION. Em todo caso. segundo a classificação amplamente aceita pela Economia da Comunicação e da Cultura. a pay TV constitui uma transição em direção a um modelo “abstrato e perfeito” de vídeo-serviços. Madrid: Akal. ligado a estratégias econômicas e políticas globais. PAJON. 26. L’ i n d u s t r i a l i s a t i o n de l’áudiovisuel l’áudiovisuel: des programmes pour les nouveaux médias. 16 Para adquirir essas atrações em separado. 18 Ibid. Enrique. Ramon. René. p. o consumidor deve previamente já ser assinante de um dos pacotes disponibilizados pela operadora. Bernard.16 cujo impacto sobre o consumo e a economia do audiovisual ainda não se verificou. diretor e sinopse. MIÈGE. aprofundando tendências já existentes. ZALLO. 24. Jean-Michel. com forte apelo de venda.. este consegue uma maior responsabilidade na auto-programação e paga já pelo conteúdo (ou o tempo) que consome. vídeo por demanda) – um serviço interativo em alto grau. SALAÜN. em alguns casos. que utiliza vários canais para distribuir um mesmo filme. Patrick. Vitória: Fundação Ceciliano A. – as possibilidades de convergência e de desenvolvimento da multimídia. . ao decidir. Economía de la Comunicación y la Cultura Cultura. que é a parte básica do funcionamento e da oferta da televisão interativa. o near video on demand é uma técnica de programação de menor caráter interativo. como filme. Alain. Bernard. uma recepção muito rápida do programa escolhido. gênero. Com a televisão digital e o sistema de video on demand (VOD. apesar de permitir. no qual filmes digitalizados. Armel. Paris: Aubier. HERSCOVICI. MIÈGE.17 ainda não permite ao telespectador uma resposta à seleção simultânea e no mesmo suporte: Na pay per view a programação foi eliminada como macromontagem de programas. ao reduzir os custos de transmissão e permitir uma oferta maior de canais e serviços e uma maior fragmentação do consumo. e ainda que os produtos isolados sigam situados no tempo constrangendo o consumo do espectador. vantagens de precedência etc. Esse sistema. são colocados à escolha do cliente. Economia da cultura e da comunicação comunicação.18 A digitalização é uma inovação técnica que amplia – de forma assimétrica. como quando. mas não sem um processo anterior de desregulamentação.88 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño HUET. determina o horário específico para receber a atração –. a situação histórica de desenvolvimento da regulação e das infra-estruturas nacionais de transmissão. op. da BUSTAMANTE. PERON. mas aproximado. 1978. 1986. 1988. de forma que uma quantidade limitada de produtos sempre está começando. por um produto isolado que tem seu preço específico. no chamado near video on demand (NVOD. segundo os diferentes suportes. p. evento ou temporada de um acontecimento (um torneio esportivo.

fazendo abstração dos debates clássicos sobre serviço público e universalização. Ibid. entretanto. Bertelsmann. Ibid. que chegaria. definitivamente. em segundo lugar. Disney. com garantia. vídeojogos. e uma brutal concentração. a se constituir segundo um modelo editorial puro. a concorrência está centrada no “controle de uma sólida e atrativa carteira de direitos de programas em gêneros” bastante específicos. colocando dúvidas sobre a transparência e o pluralismo que o novo sistema poderia ensejar. garantindo um máximo de pluralismo e a viabilização econômica e sociológica das mensagens inovadoras e minoritárias. 28. assim.Julho/Dezembro .Nº 14 . mas isto implica um amplo conhecimento do mercado (carteira de clientes) e um saber fazer notável no marketing”.22 O público e o privado .2009 19 20 21 22 Ibid. como esportes de massas e filmes-acontecimento. o setor será.Paradigma digital: capitalismo. que marcam. Ibid. 30. marcado pela consolidação da TV segmentada convencional. Do ponto de vista da estrutura empresarial. que se orientam prioritariamente para a função divertimento.. foi observada nas experiências já em curso a onipresença de determinado tipo de conteúdos. centralização e transnacionalização do capital. o sistema audiovisual digital segue quatro tendências observáveis. . 30. 30. que compete ainda com a velha televisão de massa. previamente dispondo. Murdoch.20 Como o controle simultâneo desses elementos básicos supõe investimentos milionários e riscos enormes.19 de modo que se renovaria a liberdade de criação e expressão. ao menos teoricamente. Kirch. p. naturalmente dominado por “poucos grupos gigantescos (Time-Warner-Turner. juntamente com “a capacidade de sua ‘edição’ em pacotes segmentados para os diversos mercados. Na prática.. chave para a amortização dos investimentos a curto e médio prazo (filmes. de redes de cabo potentes ou de abundantes concessões hertzianas). da presença de canais indispensáveis. p. tele-compras). em segundo lugar. esportes de massa. Mesmo reconhecendo a dificuldade em se fazer generalizações a partir dessas experiências ainda amplamente minoritárias no panorama televisivo mundial. cultura e esfera pública 89 televisão convencional.. faz aumentar “geometricamente seu valor estratégico revelando o crasso erro de quem se preocupa unicamente com as redes e as infraestruturas”. em que a maior proximidade entre emissor e receptor e a cessão da função de programação para este último estariam ligadas à “restituição da proporcionalidade entre consumo e remuneração do audiovisual com o reequilíbrio conseguinte da economia do audiovisual em benefício da produção”. disponíveis através de transponders múltiplos no satélite. Canal Plus-Nethold) que tendem a concentrar-se mais fortemente mediante fusões ou alianças intra ou intercontinentais (como Sky ou Galaxy na América Latina)”. a espetacularização e a comercialização. o dos chamados vídeo-serviços. p.21 A importância dos conteúdos citados. p. a conversão de uma economia de oferta em outra regida pela demanda..

1999. 283-295. MONZONCILLO. dados os interesses convergentes dos diferentes agentes principais envolvidos. informáticos. trata-se de uma vitória da comunicação de massa sobre a comunicação interativa ou individual. . Estrutura da economia dos meios Variáveis Tecnologia de produção Essa integração pode se dar através do aparelho de TV (WebTV) ou do computador (como no projeto Intercast. as novas redes digitalizadas podem transportar tanto sinais de TV como outros serviços de telecomunicações. são sumarizadas no quadro 1. amplamente conhecida no campo. Madrid: Edipo. inflação de custos. 297-314. Presente y futuro de la television digital digital.). O normal é uma mistura dessas duas formas de financiamento. vide LAFRANCE. Finalmente. Nicholas. sempre que a legislação nacional e os recursos permitam. Presente y futuro de la television digital digital. p. Em todo o caso. Enrique. 1999. 300. reforço da posição dos intermediários de direitos. operadores de telecomunicações e redes de televisão. Q uadro 1. p. E n r i q u e . José María Álvarez (Orgs. MONZONCILLO. p. Madrid: Edipo. As experiências de integração entre televisão e internet23 são uma tendência efetiva. A esse respeito. com a publicidade adequando-se aos mercados hiper-segmentados. indústria eletro-eletrônica. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. a experiência mostra que a pura e simples substituição do financiamento publicitário pelo pagamento direto por parte do usuário não passa de um mito. Em terceiro.). Jean Paul.90 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño implicando em elevação de preços. José María Álvarez (Orgs. as empresas do setor são levadas a abarcar as diferentes possibilidades. 23 Imprensa Imprensa Papel Editor Estrada Trem Filme Película Câmera Película Produtor Projetor Disco Rádio/TV Telecomunicações Telefone Cabo de cobre PTT Rede Aparelhagem Câmera de de gravação gravação DiscoVinil Fita Editor Estrada Trem Nenhuma Nenhuma Ondas Difusor Suporte de transmissão Sistema de produção Tecnologia de distribuição Emissor/ Receptor Regulador Serviço público Regulação Concorrência Autorização Liberdade Ideologia Cultura de imprensa nacional Regulador Serviço universal Fonte: GARNHAM. da Intel). La televisión del siglo XXI: será o no será! In: BUSTAMANTE. Problematizando a convergência As características da economia da comunicação convencional. aumento da integração vertical entre difusão e produção etc. In: BUSTAMANTE.

El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. manipulação e visualização de combinações de texto. 25 24 Ibid. exigindo inclusive mudanças na legislação. Madrid: Edipo. Nicholas. as questões centrais são aquelas ligadas à convergência entre o audiovisual e as indústrias editoriais. 2) desenvolvimento de produtos multimídia ou convergência de novas formas de meios de comunicação (armazenamento controlado por computador. o que se vê embaralhado com as novas possibilidades de convergência. “a penetração do computador pessoal pode ser o estímulo tecnológico. comutados e não comutados). (Orgs.Nº 14 . 301. 4) convergência dos modos de financiamento no sentido do pagamento pelo usuário por acesso. p. à publicidade. E n r i q u e . nova concorrência inter-setorial. tornando possível a entrada de novos agentes em cada setor. o que envolve “o conflito entre o operador de telecomunicações e os modelos informáticos de desenho e controle da rede e a concorrência entre operador de telecomunicações. as normas sobre propriedade cruzada de meios de comunicação dependem da possibilidade.Julho/Dezembro . Quanto ao concernente à convergência. José María Álvarez. “a incidência da digitalização neste sistema de meios de comunicação herdados vai romper. ao menos potencialmente. aos direitos de autor e ao desenvolvimento de novos gêneros midiáticos. In: BUSTAMANTE.25 O público e o privado . banda larga e comutado). 297-314. o principal agente global”. fundada puramente na tecnologia. cultura e esfera pública 91 Segundo Garnham.24 Isto repercute em todos os níveis do sistema.). p. Garnham distingue entre: 1) Convergência de rede ou de canais técnicos de distribuição (num sistema comum de cabo digital. desde a produção e a definição dos gêneros. internet pode ser o modelo do futuro. 5) convergência de mercados domésticos e comerciais – neste caso. Presente y futuro de la television digital digital. ao financiamento público ou ao controle dos dados sobre os consumidores. sons e imagens móveis e fixas) – neste caso.Paradigma digital: capitalismo. p. MONZONCILLO.. 301. No caso da regulamentação. companhias de cabo e difusores pelo controle do acesso às residências e às empresas”. até os canais de distribuição. as barreiras técnicas entre essas indústrias”. . por exemplo. as conseqüências do tele-trabalho podem ser o problema e Microsoft. 3) convergência dos modos de consumo dos meios (entre os de sentido único e os interativos. o que põe em relevo as questões relativas ao controle do acesso. 1999.2009 GARNHAM. de fazer uma clara distinção entre os meios e seus respectivos mercados. novos meios. os modos de consumo e os mercados.

Ibid. p. Garnham se refere à internet. 304. sem a qual. tornando-se um exemplo de natureza híbrida e não propriamente de convergência de redes ou de indústrias. mas fornecidos em redes competidoras. a vantagem seria dos operadores de telecomunicações. se bem que. numa perspectiva pessimista. se verão aptos a oferecer serviços de telefonia comutada a seus clientes – pelo controle do enlace fixo local que provavelmente continuará tendo características de monopólio natural. esse cenário ampliaria a capacidade de escolha do usuário e a diversidade. por sua vez.26 Nos anos 60. devido a sua maior capacidade financeira. a fragmentação social e a decadência da esfera pública. “alcançar o desenvolvimento de um grande mercado para os produtos e os serviços multimídia. que utiliza efetivamente a rede de telecomunicações. Paralelamente. não obstante.. Ibid.. o isolamento.27 O cenário da convergência comumente apresentado é assim resumido: uma rede de banda larga comutada oferecendo todos os serviços eletrônicos para os lares e empresas. p. pagos pelo usuário em função do uso efetivo. Numa visão otimista. ela se baseia principalmente “na capacidade informática instalada. por exemplo. de forma alternativa. Mas importantes barreiras tecnológicas ainda impedem uma convergência uniforme: 26 27 28 Ibid. de fato. o que levará.28 O resultado dependerá em grande parte da ação das entidades de regulação. em um terminal informático multimídia. o que sugere prudência na análise das promessas atuais. 301. 70 e 80 fracassaram as tentativas de integração de redes. enquanto que. não apenas à distribuição de todos os serviços de tele-difusão e telecomunicação através da mesma rede. se incrementará a concorrência entre operadores de telecomunicações – que poderão oferecer vídeo – e de tele-distribuição – que. enquanto reconhece continuar a telefonia vocal sendo o motor do sistema. nos próximos 10 anos. todos eles.92 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Cada um desses processos seguirá sendo diferente. e cresceu a partir de uma cultura informática e não de telecomunicações”. tele-compras e outros sequer imaginados que substituirão possivelmente os serviços tradicionais de sentido único por serviços interativos. não convergentes ou. . lembrando que. É possível. as redes de telecomunicações se transformaram em extensos sistemas informáticos de distribuição. fora do controle dos operadores de telecomunicações. uma rede convergente monopolística que ofereça uma série de formas de meios de comunicação não convergentes”. O primeiro argumento de Garnham para demonstrar o irrealismo desse cenário é de ordem técnica: o autor parte do pressuposto de que. mas permitirá ainda a oferta de uma série de novos serviços interativos de entretenimento e informação – vídeo-jogos. em alguns casos. isso poderia incrementar o controle monopolista da informação.

por outro lado. quanto à capacidade de comutação atual. de modo que não se deve esperar que um canal de distribuição venha a dominar o mercado. as barreiras econômicas à convergência continuam sendo notáveis. mesmo que os problemas técnicos sejam resolvidos. “Certamente. Para justificar as conexões domésticas à banda larga é preciso dispor de um fluxo de ingressos notável”. Os exemplos de convergência existentes são basicamente exemplos de condução compartilhada. num futuro previsível.Nº 14 . comutados e de ida e volta. p. o elemento determinante da estrutura de mercado de uma rede em convergência dificilmente seria dado por vantagens de custo na rede. não a transmissão. seguem sendo o principal elemento de custo na implantação de uma rede. O poder econômico se desloca cada vez mais da distribuição – que pode encontrar sempre mecanismos alternativos – para o controle da propriedade intelectual. A digitalização da transmissão hertziana. os editores de tele-vendas. nem as instalações de comutação. entra-se no campo do desconhecido. reduzindo o problema da escassez de freqüências e barateando esse tipo de transmissão. Não obstante. cultura e esfera pública 93 Não está claro que tenha sentido fundir redes desenhadas em grande medida para o oferecimento de serviços de televisão em sentido único com redes desenhadas para otimizar a oferta de serviços de banda estreita. Ibid. especialmente de um serviço audiovisual. a manterá. 305. O público e o privado . dando crescente vantagem competitiva para as empresas cinematográficas. os fabricantes de vídeo-jogos.Paradigma digital: capitalismo.. as emissoras.29 Em segundo lugar. dado que a engenharia civil.30 o que vem sendo procurado através da oferta de video a la carte pelos operadores de telecomunicações que entram no mercado audiovisual. o problema para os operadores de telecomunicações consiste em contar com serviços que gerem ingressos suficientes para explicar os custos de melhora das prestações da rede. se se amplia a interatividade da internet em banda larga.Julho/Dezembro . . Com a queda progressiva dos custos de transmissão em relação aos custos de prestação de um serviço.. O software que se precisa para dita comutação é de tal complexidade que nada se sabe ainda sobre se pode fazer funcionar com a confiança que requer uma rede de telecomunicações pública. Seu rápido crescimento já está dando lugar a problemas de capacidade. 306.2009 29 30 Ibid. p. como a forma de maior eficiência de custos para se atingir audiências economicamente viáveis. Não há dúvida de que dito crescimento se verá freado quando os usuários tiverem que pagar.

p. Implica a criação constante de novos protótipos e a venda dos mesmos em um mercado doméstico muito incerto. O mercado audiovisual é bastante distinto. Estes serviços competirão pelo mercado tanto com as lojas de vídeo como com outros canais de cinema por assinatura”. aos titulares de direitos. Assim.32 Esta particularidade torna difícil combinar as habilidades distintas de uns e outros e associar as estruturas adequadas dentro de uma mesma organização corporativa. “Os operadores de telecomunicações estão acostumados a tratar com a venda de uma série reduzida de serviços normalizados. a importância da confiança do serviço em comparação com o próprio preço).94 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 31 32 Ibid. que envolve uma contradição básica entre a pressão por flexibilizar as normas de propriedade cruzada dos meios de comunicação34 e aquela para incrementar o nível da concorrência na produção de programas. em um mercado cuja elasticidade de preços não é muito elevada. baseados na infra-estrutura técnica e do parque de computadores pessoais nos mercados profissionais e de teletrabalho. Ibid. os interesses dos titulares de direitos) e dirigir esforços no sentido de garantir o uso social das tecnologias da informação e da comunicação. como agora. basicamente dirigidos a empresas clientes.. Ibid. Ao mesmo tempo. que busque otimizar tanto o desenvolvimento como o acesso às redes – cujas características de monopólio natural tendem a manter-se. Mas em realidade só uma parte desses recursos iria para o operador da rede e a maior parte iria. sobre a base de cálculos de probabilidades e economias de escala. acompanhada de uma política de serviço universal clara. educação. no sentido da melhoria da qualidade de vida e da eficácia dos sistemas de saúde. este é muito sensível ao preço e se vê muito limitado pela renda disponível. de maneira que. é preciso reforçar os meios para contra-restar a tendência ao aumento da concentração do controle dos conteúdos (contra. economicamente avançada e sustentável. 306. O mais provável é o desenvolvimento de novos produtos e serviços multimídia “a partir de indústrias especializadas do software informático e de edição. as prestações exigidas etc. Os problemas consistem na coordenação de uma mão de obra criativa. são muito distintas das que distinguem o mercado do entretenimento doméstico e da infor- Se for verdade que o consumo doméstico de vídeo nos EUA demonstra a existência de um mercado potencial importante para tal. garantindo uma estrita separação entre suporte e conteúdo (à qual se oporão os operadores de rede). protegendo e ampliando a diversidade informativa e cultural. 307 Essas diferenças se vêm reforçadas pelos diferentes mercados dos quais as indústrias dependem: “a relação entre comprador e vendedor no mercado de empresas ao qual se dirigem em grande medida as telecomunicações (por exemplo. 307. as pautas de inversão.. Isto remete à necessidade de uma regulação forte. é completamente marginal em comparação com os ingressos da telefonia. neste caso.. os fluxos de quantidades de bits não diferenciados e faturando ditos serviços. p. É provável que tenham uma incidência mínima nas telecomunicações existentes ou nas indústrias de programação audiovisual”. mesmo “que este mercado se desloque totalmente à rede dos operadores de telecomunicações. o consumo médio atual de cinema por esse meio nos domicílios assinantes (um filme por ano) é desalentador. participação política ..31 Uma terceira barreira para a convergência estaria no “tremendo abismo existente entre as culturas dos operadores de telecomunicações e o setor de programas audiovisuais”. o controle dos direitos e marketing”. manejando. p. ou reforçar-se no caso da telefonia fixa local –.33 Regulação e poder global A estes três tipos de barreiras soma-se aquela relativa ao problema da regulação.

sociais e políticas e estão profundamente arraigadas. 307 33 34 Ibid. França e Japão. o programa será comandado pelos ministérios respectivos ligados à área econômica. só põem fronteiras ao poder oligopolista sobre canais de distribuição normalmente competitivos.2009 Vale citar a defesa que o autor faz da necessidade de se manter os mecanismos que impedem a propriedade transversal de meios. tais como legislação. de tal sorte que aplicações (e temas associados. Por outro lado.. a tendência é ainda mais clara [. quando os EUA passaram a pressionar o resto do mundo para a abertura dos mercados nacionais de telecomunicações. por exemplo. através de sinergias. Mais recentemente.. não deveria permitir-se utilizar a chegada do multimídia. que impeça as empresas de imprensa produzir películas e programas de televisão. p. a tecnologia em si mesma tem pouco que oferecer [.. Pretendem que esta integração horizontal lhes permita. por exemplo. a iniciativa será encabeçada pelos Ministérios de Ciência e Tecnologia. que leva todos os países do mundo a implantar ambiciosos e caros programas de reestruturação das suas infra-estruturas nacionais de comunicação.Julho/Dezembro .] sem maior preocupação com a qualidade de pesquisa. O significado desse movimento para a reestruturação das relações de hegemonia no setor de telecomunicações foi apresentado de forma cristalina pelos autores do O público e o privado . na área de infra-estruturas.] com gerações anteriores da tecnologia. questionados sobre a base de uma perigosa confusão entre multimeios e trans-meios por parte dos defensores de empresas que “são já trans-mídia no sentido de que exercem sua atividade em diversos meios.. por exemplo: mação. na Europa. não depende da tecnologia: muitas dessas melhoras prometidas poderiam ter sido postas em prática faz anos [. deixou-se a prototipagem de aplicações para a livre iniciativa de pesquisadores e empreendedores. .] As barreiras são econômicas. com o projeto Global Information Infra-structure (GII). traduzir-se-á.] foi em infra-estrutura [. Em curto prazo. só existe um controle sobre os canais de distribuição hertziana. A hegemonia norte-americana na área traduz-se nas diferentes ênfases que os programas terão naquele país e na União Européia. as regras que limitam a propriedade transversal dos meios não impedem a criação de projetos multimídia. Ibid. difusão etc. Em minha opinião..Paradigma digital: capitalismo. enquanto cada país buscaria uma estratégia própria no nível da infra-estrutura..] No caso da União Européia..35 Pois a digitalização é um dos sustentáculos da retomada da hegemonia norteamericana. conseguir economias de escala e de envergadura [. na aceleração do processo de privatização de empresas de telecomunicações. o que reforça a tendência instaurada em 1984.. 307 No caso dos EUA. visando a injeção de capital estrangeiro..] Por uma parte. Não há nada... O problema de criar uma estrutura corporativa viável que sirva para ambos mercados com a mesma eficácia pode muito bem resultar insuperável”. p. o que. O objetivo maior parece ter sido colocar uma operação rápida em movimento acerca do tema “sociedade da informação”. cultura e esfera pública 95 etc. enquanto que na Espanha.. claramente o foco das ações na fase de decolagem da NII [. Não se romperão se se deixa o desenvolvimento exclusivamente em mãos do mercado que parcialmente as criou.. as vantagens econômicas dessas sinergias estão longe de serem demonstradas...Nº 14 .. o bloco pôs prioridade em aplicações [. Canadá.. como sabemos.] Acertadamente (para o contexto americano). Nos EUA.36 Essa estratégia nacional. Portugal e Brasil.) fossem tratados em nível de bloco.

ainda que a ênfase permaneça nas aplicações. por exemplo. como um mega-programa de ações políticas [.464 383 289 93 -3..126 2. 35 36 Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil. Tal necessidade está. como um mega-programa de pesquisa dentro do qual se inseriu um componente de articulação de aplicações e de difusão para o setor privado/ governamental. Ibid.br>...744 1997 5. p.37 No caso do Brasil. 37 Uma das principais diretrizes que nortearam tanto a política de telecomunicações como a de informática no Brasil. .br/Temas/Socinfo/Livro_Verde/ca03. m c t . ao analisar a política brasileira de telecomunicações e informática: Ibid.070 2. o documento defende a geração de tecnologias locais – apoiando explicitamente a Lei 8. p. Acesso em: 5 out. como argumento contra a pluralidade desejável das fontes de informação e diversão”.357 3.96 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño em suas diversas modalidades.287 553 329 224 -4.416 Ibid. Informática e telecomunicações Brasil. entre as principais motivações que levaram a União Européia a recomendar a privatização de empresas estatais da área em seus países membros. 94. devido à necessidade de acelerar ações de países rumo à sociedade da informação através da desregulamentação e liberalização dos mercados de telecomunicações. sobretudo. 314. p. desde pelo menos a década de 70. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA.015 1. Fonte: MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. tal diretriz foi colocada em prioridade secundária. Brasil: Balança comercial – informática e telecomunicações (em US$ milhões) Variáveis Importações Computadores e periféricos Telecomunicações Exportações Computadores e periféricos Telecomunicações Déficit 1996 4. referente a incentivos à informática –. op. No primeiro caso. a partir de 1997. tendo em vista a contínua e progressiva deterioração da balança comercial do setor. ao longo da década de 90. 2004. Quadro 2.mct..993 592 337 255 -4. foi a ênfase em domínio tecnológico e na produção de equipamentos e software no país. Acesso em: 20 maio 2003.. Livro V Verde da Sociedade da Informação no Brasil Brasil. os modelos adotados em relação à P&D variam entre os EUA e a UE. Disponível em: <http:/ / w w w. cit. Ibid.008 3. 94. os autores do Livro Verde brasileiro consideram “bastante provável que qualidade de P&D nos temas selecionados tenha critérios mais rígidos agora do que no quadriênio 1994/98. quando a iniciativa européia decolou”.662 1. não somente no Brasil como em todo o mundo. Em todo caso. Já no caso da União Européia. 95.pdf no Brasil >. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOerde LOGIA. Na área de telecomunicações. No programa 1999/2002 da União Européia. p.248.. p. 313. p. Disponível em : <http://www. na origem.. 109. de 23 de outubro de 1991. a iniciativa foi estruturada.gov. “o esforço foi estruturado na origem. desde 1992 e. como demonstra o quadro 2.] dentro do qual há um componente de P&D e de infra-estrutura de redes para educação e pesquisa”. g o v.804 1998 5.

mas principalmente pela definição das políticas nacionais de comunicação. da pluralidade no tratamento da informação. sendo pautada. 88-95. tudo isto dependendo não apenas da ampliação do número de canais e meios de comunicação por força do desenvolvimento tecnológico simplesmente. . Na nova esfera pública que emerge na confluência entre reorganização do capitalismo. a abrir a opção estratégica para o Brasil de posicionar-se como exportador na área. da disponibilização de conteúdos locais. Elas afetam diretamente a esfera pública. que apontam para a possibilidade de práticas de comunicação mais democráticas. sistemas de governo eletrônico. 1997. 147. p.39 Assim. La génesis de la esfera publica global. interessadas no mercado latino-americano no seu conjunto. e a conseqüente criação de um ambiente propício à inovação. em especial no campo das comunicações. esfera pública e mudança social As mudanças estruturais do capitalismo iniciadas no final do século XX referem-se ao conjunto da sociedade global. não se limitando à economia e à política. jan. 110. como o aperfeiçoamento de certas tecnologias educacionais.. ainda que problemática divulgação de idéias não-hegemônicas. articulação dos movimentos sociais em redes virtuais. pelo princípio econômico da exclusão pelos preços. mudanças no processo inovativo. Caracas. certas tendências de reforço da diversidade cultural. a conseqüente.Julho/Dezembro .2009 38 39 Ibid. O público e o privado .38 as quais levariam. novos lugares são perifericamente articulados. César.Nº 14 . mais ou menos permeáveis às pressões de grupos de interesse hegemônicos ou contra-hegemônicos. são limitados pela força e controle dos capitais. propugnando por “iniciativas judiciosamente planejadas de substituição de importação de itens de alta densidade tecnológica”. cultura e esfera pública 97 A própria expansão do uso das tecnologias da informação e da comunicação no país tende a agravar ainda mais essa situação. É nesse processo contraditório que se situam as alternativas democráticas de uma comunicação popular organizada a partir dos movimentos sociais. p. Ver BOLAÑO. incorporando as contradições inerentes à esfera pública burguesa. onde a mídia em geral – afetada profundamente em seu trabalho e em seus negócios pela introdução do paradigma da digitalização – exerce um importante papel. Tecnologia. por outro lado./fev.Paradigma digital: capitalismo. refletindo-se também nos movimentos dos agentes não-hegemônicos. política tecnológica e domínio neoliberal. o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação se insere na sociedade de modo determinado historicamente. n. Nueva Sociedad Sociedad. Os elementos potencialmente contrários à lógica capitalista. cada vez mais. tendo em vista a instalação de grandes empresas dos setores de informática e telecomunicações. envolvendo o desenvolvimento de elementos que poderão ser importantes para um pleno exercício da cidadania.

A implantação da televisão digital terrestre deve ser vista nesses termos. A atual digitalização geral. marcada pela crescente interdependência de mercados. ocorre um movimento de concentração oligopolista que afasta o sistema do ideal liberal dos seus primeiros ideólogos. atingindo o espaço público. como vem sendo feito no Brasil. também característico da situação atual. como ícone impulsionador da venda de jornais – incrementaram o consumo. fruto da revolução micro-eletrônica e destinada precipuamente a facilitar a circulação da informação mercadoria. tanto econômicos. da segmentação e da fragmentação. desde o século XIX. através de satélites. bem como na organização dos fluxos de informação. . a tecnologia e os novos meios geram impactos. tanto no setor financeiro quanto no produtivo. fundamental para vencer os limites à expansão do capital e da cultura ligada aos ditames do consumo. O avanço tecnológico está na base da atual reestruturação econômica. excessivamente fixados no momento. cabos e ligações de fibra ótica. o rádio e a televisão – e a fotografia. Neste sentido. antes de discutir o modelo de negócio mais adequado ao meio. quanto políticos e nas formas de sociabilidade. não são capazes de perceber a dinâmica massificação/ diferenciação. por imposição de necessidades internas ao processo de acumulação do capital em suas diferentes fases de desenvolvimento. mas tal papel é muito melhor desempenhado pela internet e sistemas audiovisuais que incorporam aparatos capazes de captar imagens e áudio remotos. articulando democracia e cidadania e testando e construindo potencialidades de liberação. Mas também o mundo da produção de bens e serviços materiais se vê afetado pelo desenvolvimento conjunto dos sistemas de transporte e dos meios de comunicação que impulsionam uma homogeneização dos padrões de consumo e dos modos de vida. reduzindo distâncias.98 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño Na nova esfera pública globalizada. permitida pelo deslocamento instantâneo de enormes montantes de recursos financeiros e de informações indispensáveis à realização dos negócios. muitas vezes imperceptível àqueles que. Ao longo do século XX. é preciso decidir o modelo de esfera pública a implantar. também pode servir à concretização de uma comunicação popular libertadora. Fica claro que os recursos da técnica têm aproximado compradores e vendedores ou investidores e instituições financeiras. tecnologias como o cinema. O fato é que. inerente ao desenvolvimento da cultura de massas. O debate em torno da TDT pode ser entendido como uma oportunidade fundamental para a democratização dos meios de comunicação e a inclusão digital.

como em algumas experiências alternativas. no tocante à intensidade do trabalho e à precariedade do emprego” permitiu “aos grupos americanos e europeus a possibilidade de constituir. cultura e esfera pública 99 A questão tecnológica. A mundialização do capital capital. Isso evidencia a contradição inerente àquilo que Habermas chama de esfera pública burguesa. um efetivo avanço democrático. A partir dos dispositivos técnicos. ao reduzir o poder do Estado sobre a sociedade: A esfera pública burguesa desenvolveu-se no campo de tensões entre Estado e sociedade. forjada com a derrocada do poder feudal e o desenvolvimento do capitalismo mercantil do século XVI. para seu uso como instrumento do espaço público. . necessariamente na definição dos rumos que serão dados às redes de comunicação. zonas de baixos salários e de reduzida proteção social”. O que ocorre. François. constitui-se alguma condição de base para o surgimento ou a reestruturação da esfera pública que garante a legitimidade do sistema de dominação. Com a expansão das relações econômicas de mercado surge a esfera do “social” que impede as limitações da dominação feudal e torna necessárias formas de autoridade administrativa. São Paulo: Xamã. 1996. então. Sua constituição representa. Economia e política se articulam. não pode ficar à mercê de voluntarismos. p.Julho/Dezembro . há muito já não O público e o privado . pois define um embate no espaço dito virtual. assim. justamente num momento de expansão do caráter excludente do capitalismo. o que remete à necessidade do empreendimento de ações em direção à utilização e recriação da mídia. 1984. 35. com a ajuda de seus Estados. p. no entanto. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.41 O marco tecnológico contemporâneo comporta um enorme potencial que não pode ser desprezado pelos setores populares. uma organização política. mas de um reconhecimento de que as instituições legais. Não se trata de uma valorização excessiva dos palcos comunicacionais. com a internet e a TV digital. não é a fundamental. 169.Paradigma digital: capitalismo. 41 HABERMAS. social e econômica sem precedentes. Mudança estrutural da esfera pública pública.2009 40 CHESNAIS. Chesnais lembra que a resultante da combinação “das novas tecnologias e das modificações impostas à classe operária. na qual se fundamenta a esfera pública burguesa. para o autor. justaposto aos confrontos que se dão nas diversas arenas sociais. ligadas à esfera pública. mas.40 A técnica pode ser re-funcionalizada. requer intervenção estatal. A separação radical entre ambas as esferas.Nº 14 . significa inicialmente apenas o deslocamento dos momentos de produção social e de poder político conjugados na tipologia das formas de dominação da Idade Média avançada. centradas nos parlamentos. é a ampliação dos lugares mercadológicos. Jürgen. mas de tal modo que ela mesma se torna parte do setor privado.

194. voltado para a formação de uma opinião pública livre. um sistema de canalização fantástico. 43 mas é parte destas obrigações da autoridade suprema informar regularmente a nação. Berttold. acerca de sua atividade e da legitimidade de sua atuação. mas também recebesse. e não isolar. Essa lógica contraditória. maio-ago. 43 Ou. 5. mas pôr-se em comunicação com ele”. senão também fazer falar. ele próprio. Com a indústria cultural. que desatrela a sociedade civil. como um todo. em outro trecho: 42 HABERMAS. apenas radicaliza uma tendência que lhe é inerente. não se esgota em transmitir estas informações. replicando. Eptic On Line LineRevista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación. Acesso em: 22 mar. BRECHT. na medida em que reflete as desigualdades do sistema em que está inserida. representa. Como a ágora grega.100 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño protegem os cidadãos contra o Estado. A massificação. A tarefa da radiodifusão. Aracaju. portanto. Além disto. se manifesta. assim. Já nos anos 30 do século XX. mediante o radio. ao contrário. 2003. com. Teorias de la radio. por sua vez. a esfera pública habermasiana nunca incorporou toda a sociedade. Subjaz uma necessidade de retorno à distinção entre público e privado. mas o crescente domínio que sobre ela exercem os interesses privados que o liberalismo. não permitisse somente ouvir a radioescuta. Disponível em: <http://www. o seria se não somente transmitisse. enquanto os conflitos que resultam “em polêmica pública são desviados para o nível de atritos pessoais”. constituindo-se. tanto do Estado como da racionalidade econômica capitalista.. Se a parcialidade da esfera pública é inerente à própria condição do capitalismo. Mas a contradição fundamental está posta já desde o início. nesse modo de produção. segundo Habermas. inerente ao capitalismo e à esfera pública burguesa. n. há uma formalização da discussão. Brecht apresentava a questão com toda clareza. v. presente nas bordas da forma publicidade dominante. tornando-se “o consenso na questão” gradativamente supérfluo devido ao “consenso no procedimento”. na estrutura dos meios de comunicação. 2003. 2. princípio com longa tradição no pensamento político e social ocidental. um espaço público parcial.br>. Jürgen. O Fórum Social Mundial é um exemplo atual dessa separação. ao incorporar demandas de setores antes não representados.eptic. ademais. tem que organizar a maneira de pedir informações. num primeiro momento não há porque imaginar que a simples inovação tecnológica vá representar sua ampliação. cit. desde os debates filosóficos da Grécia clássica. ao apontar que “o rádio seria o mais fabuloso aparato de comunicação imaginável da vida pública. p.42 Isso certamente degrada a proposta original de um lugar de conversação racional. O que a afasta do ideal liberal não é seu caráter parcial. questões fundamentais são definidas como problemas de etiqueta. converter os informes dos . ou seja. op. a contraditoriedade intrínseca ao desenvolvimento tecnológico.

op. mas construída socialmente. Isto porque a lógica subjacente ao desenvolvimento da internet é a mesma daquela relativa à implantação da televisão segmentada. O papel do Estado Assim. ou uma internet que remonte às utopias projetadas nos seus inícios. que não é determinada tecnologicamente. a um tempo. ao mesmo tempo. próxima da concepção original de Habermas. no campo da política. a internet. as disputas das cidades. a televisão aberta. A radiodifusão tem que fazer possível o intercâmbio. São eles os pauteiros da sociedade. mas mais diretamente vinculada a Marx e à discussão sobre a atual reestruturação capitalista. permanecendo. segue restrita a setores cultos e relativamente ricos. cultura e esfera pública 101 governantes em respostas às perguntas dos governados. Só ela pode organizar grandemente as conversas entre os ramos do comércio e os consumidores sobre a normalização dos artigos de consumo.Julho/Dezembro . mas o palco em que a realidade social é. do ponto de vista da economia. . cit. o cinema ou o jornal possam cumprir um papel de espaço público inclusivo têm que inverter sua lógica atual. construída e representada.2009 44 BRECHT. a sua evolução no sentido do refinamento dos instrumentos de dominação e as possibilidades liberadoras que lhe são próprias.Nº 14 . Se consideram isto utópico.Paradigma digital: capitalismo. o que obriga os diferentes agentes a adaptar-se a seus ditames para poder participar da arena política. enquanto dinâmica incorporadora. ainda.44 Ou seja. à disposição de todos e voltada para a participação multicultural. Com o desenvolvimento das tecnologias midiáticas viabilizadoras da interconexão mundial de certos segmentos sociais. para que a TV digital. Conceber outra televisão. de forma semelhante ao que ocorria com a esfera pública burguesa clássica do século XIX. A idéia de uma contradição inerente à esfera pública no capitalismo é central nesta concepção. Não são as indústrias culturais simples mediadoras complementares de um debate travado externamente. lhes rogo reflexão sobre porque é utópico. retoma-se a idéia de constituição de uma esfera pública global. na privatização da esfera pública. o rádio. Berttold. O espaço público. que se traduz. São. O público e o privado . os debates sobre aumento do preço do pão. envolve deixar de encarar os meios como ativos materiais e imateriais e vê-los como parte bastante significativa do que pode vir a ser um espaço público democrático. o único caminho para a maior parte dos cidadãos orientar-se e informar-se sobre o mundo. por oposição à TV de massa: a da exclusão pelos preços. a esfera pública viabilizada pela tecnologia contemporânea. segue como uma meta a ser alcançada. o que permite explicitar.

o que exige não apenas a disponibilização da infra-estrutura. assim.102 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño para a imensa maioria da população mundial. não só os proprietários. totalmente válido o paradigma da cultura de massas. não apenas sua autonomia em relação ao Estado. propõem agora. 2007. sob “a égide do princípio do mercado. Aracaju: Editora UFS. 2000. estudada por Habermas. no seu trabalho dos anos 60. VASCONCELOS Daniel. em que este era o ente que deveria justamente ser controlado e submetido às leis daquele fórum democrático. em um aspecto fundamental. o que já estava posto no momento da sua mudança estrutural. para além de seu protótipo do século XVIII. no limite. decorrentes da interatividade e do trabalho em rede. Boaventura de Sousa. não é o Estado o único antagonista na luta dos movimentos sociais por espaço público verdadeiramente democrático que. mas toda uma política de incorporação das massas. projetada como negócio nos discursos pós-modernos. segundo o autor. A situação atual pode ser identificada. elegendo a produção de sentido como fator único a ser contabilizado no jogo comunicacional. a inviabilidade de se construir uma esfera pública popular e dialógica longe do processo de discussão acerca das macromudanças econômicas e sociais. de modo que se renova a luta pela eliminação das fronteiras que excluem a maioria da população mundial.45 o que passa por uma reorientação do modo de pensar a comunicação. mas restrito. como se observa. no sentido progressista. bem como a impossibilidade de fazê-lo sem uma ação do Estado. Não obstante. por exemplo. os quais não só desresponsabilizam a mídia. ver HERCOVICI. mas também o Sobre o tema. SANTOS. da esfera pública original. sem o qual a democratização e o ideal de autonomia dos sujeitos não poderiam se realizar. portanto. Por isso. invertendo-se o processo original. Economia Política da internet internet. A crítica da razão indolente indolente: contra o desperdício da experiência. p. 46 45 . A luta agora é pelo acesso aos novos meios interativos. em que se forjam as lutas políticas de nosso tempo. dado que produz um excesso de sentido que invade o princípio do Estado e o princípio da comunidade. Porto: Afrontamento. são inegáveis as possibilidades de efetivos avanços democráticos que o novo meio oferece. A esfera pública poderia ser aquele lócus. incluindo a socialização do capital cultural. A reestruturação atual repõe em grande medida o caráter crítico. capaz de incorporar todos os cidadãos. que se afigura mais hegemônico que nunca no seio do pilar da regulação. como chegam a celebrar seus conteúdos. BOLAÑO César. que acabariam por esterilizar o seu potencial crítico e transformador. com aquele momento de passagem da esfera pública burguesa clássica para o sistema de manipulação das consciências. na passagem do capitalismo concorrencial ao monopolista. Isto implicaria a superação do conceito burguês original de esfera pública. tendendo a dominá-los de forma muito mais profunda do que anteriormente”.46 Fica clara. 143. Marcos. Alain. durante o século XX. na organização do Fórum Social Mundial. quando surge a Indústria Cultural e a cultura de massas. CASTAÑEDA. que prevalecerá.

Estado e capitalismo no Brasil Brasil: 1930/1945. a partir da pressão social. incluindo apenas. A “participação de agentes oriundos de localidades subalternas”. os quais se puderem superar o risco de voltar-se apenas para a micropolítica. e de modo informal. prevalecem hoje os espaços públicos que não conseguem ser aglutinadores.47 Mas esse mesmo Estado. espaço também de ação visando à transformação social. Rio de Janeiro: Paz e Terra. sem qualquer relação com os (fracos) mecanismos institucionais que compõem a espinha dorsal do Império. nesse sentido. por interesses oligopolistas. dominado hoje essencialmente. Eli. que é interventor ou absenteísta. Mas os novos movimentos sociais. após o fim da ditadura Vargas. Empresário. A esfera pública global é. nessas condições. no grau que seria exigido. promover medidas tendentes a viabilizar a construção de um espaço público democrático. Eli Diniz. apoiados muitas vezes em organizações não-governamentais (ONG) e fóruns internacionais. por exemplo. 47 . conforme os interesses dos capitais. questionável. está posta. pode. que ganha expressão e muitas vezes lugar na mídia. 290-291.2009 DINIZ. por exemplo. parcelas irrisórias de cidadãos de alguns países. enquanto que a imensa maioria da população mundial permanece presa aos mecanismos cada vez mais inócuos dos Estados nacionais. deve ainda ser entendido como lócus da luta de classes e. observa que o alargamento da esfera de ação estatal e a consolidação do setor privado da economia não foram percebidos como objetivos contraditórios. 1978. não é a digitalização que resolverá o problema da construção de uma esfera pública democrática e popular. cuja origem de classe e condição de instrumento de dominação são conhecidos. são demonstração de um nível de articulação de setores da cidadania no nível mundial. senão que solidários.Paradigma digital: capitalismo. nesse sentido. Sendo assim.Nº 14 . por sua vez. Isto não significa que o Estado seja um agente neutro. portanto. Considerações conclusivas A idéia de uma sociedade civil mundial é. como ocorreu no Brasil. na construção da sociedade industrial.Julho/Dezembro . mas sobrepõemO público e o privado . Em todo caso. um fenômeno ainda mais excludente do que suas manifestações no plano nacional. estudando a relação entre Estado e empresários no período inicial da industrialização brasileira. O Estado mesmo. representam uma possibilidade concreta de democratização da esfera pública global. O controle do mercado exige a regulamentação estatal. Nisso convergiam os defensores do sistema autoritário e as lideranças empresariais. p. cultura e esfera pública 103 controle do próprio mercado. ainda no processo de industrialização. submetidos muitas vezes a governos que ainda combatem qualquer arremedo de sociedade civil no âmbito dos países que controlam. pois se trata basicamente de uma ficção.

Rio de Janeiro.. communication.48 ou ricos e pobres. Valério. 147. ed. n.). 88-95. BRITTOS. 1995. from the perspective of political economy of communication. Aracaju. Referências BOLAÑO. 2. São Paulo: Paulus. 1995. Valério. mas é inerente ao capitalismo. (Org. é preciso um amplo movimento. Trabalho intelectual. ABSTRA CT : ABSTRACT CT: This article condenses some of the theoretical framework developed by the authors for analysis of digital TV. La génesis de la esfera publica global. cabo: Recepção e TV a cabo a força da cultura local. p. n. Teorias de la radio. maio-ago. 2. que construa novas formas de organização das entidades produtoras. para que a mídia fuja da mera produção de mercadorias e se aproxime do ideal da ágora grega universalizada. se as diferenças “entre nações dominantes e dominadas”. César. 1997. Globalização e Regionalização das Comunicações São Paulo: EDUC. Artigo Recebido: 26/05/2009 Aprovado: 18/07/2009 K ey W ords: Words: convergence. n. Recepção e TV a cabo cabo: a força da cultura local. ed. technology. dez.eptic. political economy. p. Disponível em: <http://www. 11. Caracas. Eptic On Line Line-Revista de Economía Política de las Tecnologías de la Información y Comunicación.com. 2001. moreover. São Leopoldo.104 Valério Cruz Brittos César Ricardo Siqueira Bolaño 48 BRITTOS. Política Sociedade Brasileira de Economia P 53-78. _____. _____. Comunicação e Globalização. A televisão brasileira na era digital exclusão. Revista da olítica olítica. 5. 2003. . regulation. pois o problema da exclusão não se circunscreve em fenômenos específicos. 2001. Acesso em: 22 mar.br>. a more extensive history of the development of this technology in Brazil and the world. Comunicações. Aracaju. BRITTOS. p. 2. Valério. 2002. convergence and its impact on the economics of telecommunications and television. v. 2007. Economia Política./fev. where is possible to find. jan. comunicação e capitalismo. 2003.. Nueva Sociedad Sociedad. como a globalização. esfera pública e movimentos estruturantes. 198. Assim. 1999. Aracaju. programadoras e distribuidoras de fluxos comunicacionais. Anais. In: III COLÓQUIO BRASIL-FRANÇA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. São Leopoldo. digital: _____. on the considerations about culture and public sphere. _____. Berttold. and advance the discussion about the democratization of communications. BRECHT. This text makes the option to present the state of the art of debate on the Internet.

2009 . UFES. 297-314. MONZONCILLO. HERCOVICI. Acesso em: 20 maio 2003. Estado e capitalismo no Brasil Brasil: 1930/1945. p. Aracaju: Editora UFS. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Armel.mct. MIÈGE. Economia P Política internet. 1999. A mundialização do capital capital. Presente y futuro de la television digital digital. Vitória: HERSCOVICI. René. Jacques. 1984. Madrid: Álvarez (Orgs. Alain. SALAÜN. Alain. François. Madrid: Edipo. São Paulo: Xamã. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Patrick. 2007. Informática e Brasil.Julho/Dezembro . MONZONCILLO. GARNHAM. LEFEBVRE. ION. Disponível em: <http://www. Bernard. 2004. José María digital. Enrique. BOLAÑO César. Rio de Janeiro: Paz e Terra.mct.). cultura e esfera pública 105 BUSTAMANTE. Enrique. 21-32.pdf >. 1999. Empresário. Mudança estrutural da esfera pública pública. 1995. 1986. Presente y futuro de la television digital Edipo. olítica da internet VASCONCELOS Daniel. Eli. Paris: Aubier. 1978.). de Almeida. PERON. Alain. In: ______. Capitalisme et Industries Culturelles LAFRANCE. O público e o privado . Livro V da Informação no Brasil Brasil.br>. Bernard.gov. CASTAÑEDA. La televisión digital: referencias básicas. 1999. HABERMAS. Acesso em: 5 out. DINIZ. comunicação.Nº 14 . Madrid: Edipo. In: BUSTAMANTE. p. de da Sociedade er erde Ver MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Marcos. MONZONCILLO. Presente y futuro de la television digital digital. MIÈGE. Economia da cultura e da comunicação Fundação Ceciliano A. José María Álvarez (Orgs.). Jean-Michel.gov. Jean Paul. p. Disponível em : <http://www. 1996. 283-295.br/ telecomunicações no Brasil Temas/Socinfo/Livro_Verde/ca03. José María Álvarez (Orgs. Enrique. Jürgen. Nicholas.Paradigma digital: capitalismo. PAJON. HUET. Crenoble: PUG. 1978. CHESNAIS. La televisión del siglo XXI: será o no será! In: BUSTAMANTE. l’áudiovisuel: des programmes pour les nouveaux L’industrialisation de l’áudiovisuel médias. El desarrollo del multimedia: un desplazamiento de la correlación. Culturelles.

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em que atua apenas como distribuidor. o Governo acusou a BBC de ser parcial e não investigar corretamente a informação. Palavras-chave: estado. á alguns anos teve ampla visibilidade uma longa batalha entre a TV pública britânica. retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. Segundo reportagem exibida no programa de rádio Today. É possível dividir esta atuação em duas funções.2009 . nos ambientes da produção e da distribuição de conteúdo televisivo. televisão. comunicação. absolveu o Governo pela responsabilidade no suicídio e O público e o privado . H O caso acabou envolvendo o suicídio da fonte da BBC.br 107 O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil The owner of the world: The State like television owner in Brazil Suzy dos Santos* Resumo: Este artigo pretende analisar a atuação do Estado brasileiro como proprietário de meios de comunicação. Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. e o primeiro-ministro Tony Blair. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo.Julho/Dezembro .Nº 14 . gerando programação para canais específicos e. E-mail: suzysantos@ufrj. após a divulgação de seu nome pelo Governo. uma segunda. o relatório governamental sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque.(*) Suzy dos Santos é Professora do Programa de Pós-Graduação e da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. a BBC. Do outro lado. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. Lord Brian Hutton. publicado em setembro de 2002. e um inquérito público no qual o relatório do juiz. trazia dados propositalmente exagerados.

o povo era privado da sua liberdade no sentido mais absoluto. Inclusive. de todas as instituições sociais (Simon. Em depoimento à Comissão Especial do Senado. Pois eles. escravo. Não é nosso objetivo discutir aqui a Empresa Brasil de Comunicação.108 Suzy dos Santos condenou a BBC por ter divulgado uma informação com base em única fonte. aqui. em fevereiro de 2003 pelo Channel 4. Desde a divulgação. a polêmica tem servido de pano de fundo para nova discussão sobre a condução e a manutenção da independência das empresas públicas de radiodifusão. de algum modo. Hoje ainda. no País”1. de debate tão amplo sobre a própria televisão. Lá. e principalmente. em qualquer época. pois um homem privado da informação continua a ser. tal qual no século XIX. a Comissão elaborou um vasto relatório contendo proposições para o setor. Na história da televisão brasileira nem há episódio onde uma emissora educativa tenha questionado com tanta intensidade o Estado nem vivência. as mais transparentes. nem seus condicionantes. têm o dever de estar. em 28 de janeiro de 2004. Murilo César Ramos aponta a ausência de visibilidade no cenário televisivo sobre as questões relativas ao próprio negócio como uma barreira à prática de cidadania no país. 53). Em um momento em que o governo brasileiro começa executar um plano de uma TV estatal fortalecida. Ramos afirmava que: 1 Criada pelo Requerimento nº 470. . “Destinada a Analisar a Programação de Rádio e TV. 1998. informação sobre os interesses e o funcionamento dos meios de comunicação. pois escravo é todo aquele que não pode se apresentar diante do outro como verdadeiro cidadão. das comprovações de plágio no dossiê do serviço de inteligência britânico até a divulgação do ‘relatório Hutton’. constituidores principais da esfera pública contemporânea. o debate sobre as condições de independência nas emissoras estatais existentes pode jogar alguma luz acerca deste processo. ainda que relativa. o que pretendemos é nos focar na complexa e fragmentada estrutura existente até então. juntamente com as organizações estatais – e eu friso – entre as mais públicas. de 1995. O conflito entre Governo e BBC abalou a imagem das duas instituições e causou as demissões de altos funcionários da companhia pública de radiodifusão e da assessoria de imprensa do Primeiro-Ministro. nosso liberalismo estabelece um limite claro para seu avanço democrático: o limite da escravidão. a privação. p. E cidadania não há sem acesso à informação. pode ser quase tão cruel.

uma das grandes figuras do telejornalismo brasileiro. é do governo federal... traduziu recentemente a expressiva dependência da televisão pública às índoles políticas locais e regionais. 2001. o livro foi lançado em janeiro de 2001. .Nº 14 . um dos poucos – talvez o único – capazes de tirar a televisão educativa da crise em que se encontra. Tales Faria. Antônio Carlos Magalhães2. o senador Antonio Carlos Magalhães era na época ‘proprietário’ também da afiliada regional da emissora na Bahia.] E o governo federal vive uma crise política protagonizada justamente pelo senador ACM (teoricamente aliado e. 2 Ampliando o recurso figurado de Dines. Em fevereiro de 2001.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 109 O exemplo mais próximo de programação televisiva como a requerida pelo autor é o Observatório da Imprensa exibido pela Rede Pública de Televisão. cancelou a edição do programa que entrevistaria João Carlos Teixeira Gomes. Os outros oito recusaram sob os mais variados pretextos. O jornalista alegou.. O próprio programa. embora o projeto em curso seja convertê-la em rede pública. “sócio” da TVE). é possível alegar que. estatais e privadas sem caráter comercial. portanto. o jornalista Fernando Barbosa Lima. da IstoÉ em Brasília.Julho/Dezembro . A TV Educativa integra o IRDEB – Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. Alberto Dines. ele mesmo uma vítima das perseguições de ACM. autor de um livro-denúncia contra o senador. que integra as emissoras públicas. além de ‘sócio’ da TVE. apenas um aceitou. porém. pela Geração Editorial. Fernando Barbosa Lima. falecido em julho de 2007. [Em linha]). vinculado à Secretaria O público e o privado .] Acresce ainda que o programa coincidiria com o início da gestão do novo presidente da TVE.2009 Intitulado Memória das Trevas: uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães. Nas palavras de Dines: a TVE tem dono. o que evidentemente eliminaria qualquer possibilidade de isenção com uma saraivada de críticas ao senador durante uma hora de programa. o apresentador do programa. Acresce que dos nove comentaristas políticos convidados para participar do programa. O Executivo paga e manda [. dentre outros motivos. [.. Mais: a TVE da Bahia (um feudo do senador ACM) ao longo daquela terça-feira deu sucessivos indícios de que não retransmitiria o ‘Observatório’. que a exibição do programa poderia ser usada para prejudicar o então presidente da TVE-Rede Brasil. criando um “imbróglio” político que respingaria no presidente recémempossado (Dines.

Golding. e.. 1043). 100-115. igualdade e bem público (Mosco. Journal of Communication Communication. Como não há. editada. (1989). .110 Suzy dos Santos de Cultura e Turismo do Estado. Nos dois episódios. Richeri. tiveram papel fundamental não apenas na criação de uma indústria totalmente nova. 180-195. este casamento. em 1997. P. em 24 de janeiro. p. 3. posteriormente. No entanto. p. p. os episódios de atrelagem da TV Educativa a uma elite política regional foi pouco questionado. Utilizamos aqui a versão apresentada no segundo volume da coletânea The Political Economy of Media. com uma entrevista do autor de Memória das Trevas. o programa Vitrine. No mesmo 2001 em que ocorreu a suspensão da entrevista no Observatório da Imprensa. 1997b. pelos mesmos autores. e sua programação foi fortemente influenciada pelo Senador nos longos períodos em que seus aliados estiveram nos cargos centrais do governo estadual. a necessária autocrítica do setor nem políticas públicas que incluam o controle do conteúdo transmitido pelas estações educativas. no país. no que se refere ao provimento de conteúdo (radiodifusão) e ao tráfego de informações (telefonia/transmissão de dados). não reflete a felicidade ‘até que a morte os separe’: A referência da primeira publicação do texto é: MURDOCK. quando transmitia uma entrevista ao vivo com Andrei Meireles. 3 Whenever access to the communications and information resources required for full citizenship depends upon purchasing power (as expressed directly through customer payments or indirectly through the unequal distribution of advertising subsidies to production). GOLDING. a TV educativa baiana deixou de retransmitir outros dois programas que continham acusações contra Antônio Carlos Magalhães: o programa Opinião Brasil. v. Information poverty and political inequality: citizenship in the Age of Privatized Communications. ainda são escassas no país as estações públicas que não estão diretamente condicionadas aos poderes públicos. De maneira adversa à idéia de TV pública independente. n. substantial inequalities are generated that undermine the nominal universality of citizenship (Murdock. em junho. por ser ‘arranjado’. o jornalista da revista Istoé co-autor da reportagem que continha a declaração do Senador sobre sua participação em uma violação do painel de votos do Senado. como também na divulgação da convicção de que era indissolúvel o casamento entre eficiência tecnológica e os valores morais de justiça. 1990. p. As diferentes naturezas dos serviços fizeram com que a telefonia fosse regulada prioritariamente em relação à distribuição/transporte de informações e a radiodifusão em relação ao conteúdo. Tanto o rádio quanto. 39. 1996. cresceram e foram regulados sob lógicas e instâncias normativas distintas (Garnham. G. 1995). 1996. a televisão. 34). a justificativa dada pela TV Educativa da Bahia foi a de que problemas técnicos tiraram o sinal do ar. Os serviços de telecomunicações. a Indústria Cultural.

O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 111 Os serviços de telefonia e transmissão de dados se consagraram historicamente como monopólio estatal. promotor ou regulador.Nº 14 . controle de preços (tarifas não discriminatórias). Como sustenta Othon Jambeiro: Histórica e universalmente. Encarado como questão estratégica nas políticas de desenvolvimento do século XX. exceto nos EUA. prevenir excessiva concentração de poder. com base em três princípios genéricos: acesso universal (common carriage). estatal ou comercial. em seguida a TV . e. regular a relação trabalhista entre empregados e proprietários dos meios. O público e o privado . estando baseada em princípios diversos das telecomunicações e mais próximos à lógica aplicada anteriormente à imprensa.particularmente nas democracias liberais da Europa ocidental e nos Estados Unidos garantir formas de competição econômica suficiente para frustrar o estabelecimento de monopólios (1997. tanto a distribuição quanto o conteúdo eram fortemente controlados pelos Estados fosse nos modelos público. além dos políticos. salvo em períodos de guerra ou convulsão social. interconexão.o cinema. Ainda segundo Jambeiro.2009 .aqueles instrumentos e aparatos foram consequentemente adaptados. os sistemas regulatórios desenvolvidos para governar a indústria da TV têm derivado diretamente dos instrumentos legais e aparatos burocráticos que os estados-nações criaram para tratar com a Imprensa. Esta regulação incluía critérios culturais e econômicos. p. muitas vezes para permitir que se pudesse continuar a policiar e controlar a mídia. Apesar das distinções no mercado e na natureza da regulação. depois o rádio. genericamente chamado de comunicações. o controle destes serviços era regido especialmente por um enfoque geopolítico e de segurança do Estado. Os sistemas regulatórios evoluíram em seguida para evitar danos morais. Na medida em que novas tecnologias deram origem a novos meios de comunicação de massa . estes serviços usualmente estão incluídos dentro de um setor único. 148). e . Na radiodifusão. e sua estrutura regulatória foi desenvolvida em relação à estrutura física. no qual o Estado assume as funções de proprietário. licenciar freqüências de rádio e TV. O conteúdo das transmissões era considerado uma transação privada e jamais foi controlado.Julho/Dezembro .

na sua função de fixar regras claras de instalação e operação. é parcela considerável da distribuição de programação televisiva. 2000. que eliminem as incertezas e desequilíbrios (Jambeiro. Esta corriqueira relação de amor e ódio tem ancestralidade na Rádio Nacional de Getúlio Vargas. do Distrito Federal e dos Municípios como proprietários. à bibliotecas. porque traça as estratégias públicas para o desenvolvimento do setor. dos Estados. A tentativa de estabelecer uma rede estatal nacional de televisão educativa encontrou no próprio Estado seu maior complicador. no caso da televisão.112 Suzy dos Santos Ele é Estado Proprietário. finalmente. Como mencionado anteriormente. por exemplo. regionais ou nacionais. Embora seja pouco discutida a atuação estatal no cenário brasileiro de radiodifusão. tal qual definido por Jambeiro (2000). centros de documentação. esses canais estiveram sempre submetidos às injunções políticas e econômicas dos poderes onde estavam localizados. E. gerando programação para canais específicos e. faz inversões de infra-estrutura. ao espectro eletromagnético e às emissoras de rádio e TV que explora diretamente. como dependiam dos aparatos estatais. nos anos 30. a participação da União. a participação do Estado como produtor terminou por ser pouco expressiva e fragmentada. Uma primeira em que o Estado atua como produtor. É também Estado Promotor. É possível dividir esta atuação em duas funções. do período posterior a 1964. é Estado Regulador. uma segunda. e berço nos governos militares. e concede incentivos e subvenções. no que se refere. A infraestrutura de telecomunicações possibilitou tecnicamente a constituição destas redes mas. Tão recorrente quanto a queixa é a exigüidade das situações onde o jornalismo das estatais cumpre seu papel de watchdog alertando os telespectadores quanto aos abusos dos poderes locais. Apesar de ser ator preferencial na expedição de outorgas para a prestação de serviços de radiodifusão. retransmitindo programação das redes já existentes em localidades de difícil acesso. p. em que atua apenas como distribuidor. 23). a maioria das geradoras federais e estaduais se diferencia da idéia de TV Pública como instituições independentes dos governos e do mercado tanto na forma . “Síndrome de Estocolmo” das TVs Estatais: os conflitos no Estado Produtor Não raro ouve-se de dirigentes de TVs estatais queixas sobre a atuação dos governos frente às instituições de radiodifusão.

e a Rede Minas de Televisão . após seu falecimento. nem nas instituições estatais de radiodifusão. três membros vitalícios. nos últimos anos.Fundação TV Minas Cultural O público e o privado . tal qual nas emissoras estatais. A TV Cultura é o único caso da Rede Pública de Televisão no país em que a estrutura administrativa é desvinculada dos poderes executivos nacional. indicados pelo próprio conselho. sendo obrigatória a renovação anual de um terço dos membros. eleitos pelos próprios conselheiros vitalícios. dois exemplos que também se aproximam da idéia de gestão pública são a TVE-RS . o fundador da instituição. 20 membros natos: representantes de instituições educativas e culturais públicas e privadas cujos mandatos são coincidentes ao período em que os titulares permanecem nos cargos. Não tendo seus membros indicados pelo poder público. Ela configura uma espécie singular de fronteira entre estas classificações. estadual ou municipal.Fundação Cultural Piratini. Criada em 1967. por não traduzir um modelo de televisão cujo financiamento esteja vinculado a normas que proporcionem a sua independência em relação ao Estado.Nº 14 . a TV Cultura também não se insere nas definições de radiodifusão pública. A principal exceção ao controle direto do Estado é a Fundação Padre Anchieta .2009 .Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativa. Renata Crespi da Silva Prado. Por outro lado. inicialmente indicados pela fundadora. Assim. e. eleito em votação direta e secreta (Fundação Padre Anchieta. Uma TV pública formada no auge do autoritarismo militar não poderia ser totalmente independente do Estado. a TV Cultura não pode ser considerada no mesmo rol das fundações privadas que vêm ganhando espaço. Dentre as televisões tradicionalmente definidas como estatais. o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta é composto por 46 conselheiros assim distribuídos: um membro emérito. a dependência direta das verbas públicas fez com que a TV Cultura estivesse sujeita aos ‘humores’ dos Governos em questão. um representante dos funcionários da Fundação.Julho/Dezembro . [Em linha]). 21 membros eletivos. Por ser administrada por um conselho que inclui diversas representações da sociedade. Juridicamente impedidas de veicular publicidade estas emissoras dependem exclusivamente do aparato estatal para a sua sobrevivência. a Fundação Padre Anchieta já nasceu com administração independente do governo estadual inspirada nos moldes da BBC. A contradição na implantação do modelo de TV pública está exatamente no período desta criação. gestora da TV Cultura-SP . O mandato é de três anos reelegível por mais três.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 113 de controle quanto no financiamento.

A permuta. . Contudo. como instituições de ensino e entidades de classe. definido pela Lei Nº 10. e assegurar a possibilidade de expressão e confronto de diversas correntes de opinião”(TVE. por pelo menos 25 anos. 3º §§ 3º e 4º). Outro dispositivo é relativo à coibição do uso político-partidário das emissoras. 2000). O estatuto da Fundação Piratini. O Artigo sexto. mas igualmente incisivo. a programação de televisão cultural ou educativa com fins político-partidários ou divulgar idéias que incentivem preconceitos de raça. afirmou que o acordo consistia em uma permuta pela qual o governo recebia 30 minutos mensais de espaço publicitário na grade da TV Liberal (LOBATO. no Pará. proíbe à Fundação “utilizar.535. retransmissora da Rede Globo. ouve-se falar da comercialização de espaços publicitários em algumas emissoras ou de programas sensacionalistas em outras.114 Suzy dos Santos e Educativa. Mas. Embora com uma diferença de três anos entre si. publicada no jornal diário. de 08 de agosto de 1995. parágrafo único. Um primeiro dispositivo que as distingue das demais empresas estatais de radiodifusão é a presença de representantes de esferas distintas da estatal. sob qualquer forma. Um pouco menos elaborado. alugou. De tempos em tempos. a rara situação de cessão da estrutura estatal de radiodifusão para um canal comercial chama atenção. 2007 online). os estatutos destas fundações trazem dispositivos que buscam assegurar a independência ideológica.502. de 30 de março de 1994. Enquanto a coluna de Elvira Lobato. aprovado pelo Decreto 53. A Funtelpa – Fundação de Telecomunicações do Pará. o Estatuto da Fundação TV Minas. estabelece a promoção da liberdade de expressão e a proibição da censura (Art. classe ou religião” (Rede Minas. na composição dos conselhos gestores destas fundações. revelada por Elvira Lobato. pode ser 4 A Folha de São Paulo é jornal diário e a ISTOÉ semanário. sua rede de retransmissoras no estado para a TV Liberal. 1997). Ambas estão vinculadas às Secretarias de Estado da Cultura e condicionadas a indicação de membros dos Conselhos Curadores pelos governadores dos estados onde se inscrevem. ambos com expressiva circulação no território nacional. vinculada à Secretaria Especial de Promoção Social do Estado. tal qual ocorre na Fundação Padre Anchieta. A transmissão de conteúdo distinto do comercial também não está garantida nas TVs estatais brasileiras. as duas publicações tratam do mesmo contrato. Também a proximidade entre Estado e mercado de televisão comercial é tradição no Brasil. a revista Istoé dizia que a retransmissora da Rede Globo recebeu R$ 200 mil para ceder sua programação às retransmissoras estatais (ISTOÉ. A Folha de São Paulo e a Istoé4 mostraram funções distintas no acordo. 2007 online. garante que os serviços da Fundação “funcionarão de modo a salvaguardar sua independência perante o Governo Estadual e demais Poderes Públicos.

como um ato político de integração social afirmando que “um dos objetivos do Estado é integrar a população através dos meios de comunicação de massa. As TVs operadas por governos estaduais estão distribuídas conforme a figura a seguir. a situação de ausência de controle dos canais estatais deve-se também à sua pequena expressão na totalidade do sistema televisivo. 1998 [em linha]). uma no Rio de Janeiro. a TVE – Rede Brasil. em 1997. a Funtelpa exerce a gerência direta de manutenção de 76 (setenta e seis) retransmissoras de televisão. a TVE Maranhão com seis retransmissoras próprias. O público e o privado . por força de convênios passou a executar a despesa com pagamento de publicidade e publicações do governo estadual.Nº 14 . Além das políticas públicas confusas.8% do total de outorgas do país. . assim como. também. No âmbito federal são seis geradoras de televisão aberta: três em Brasília-DF . e.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 115 confirmada no Balanço de Promoção Social da Secretaria da Fazenda do Pará. como a televisão”5. de 1998. TV Senado e TV Nacional. 2000). espalhadas por vários municípios do Estado. Segundo Elvira Lobato. uma em Natal.TV Câmara. Através de repetidoras de televisão. o Governo Federal também é operador de oito retransmissoras em estados diversos e dos canais. onde se afirma que A Funtelpa é responsável também pela implantação e funcionamento do Sistema Estadual de Repetidoras e Retransmissoras de Sinais de Televisão – SIERT em todo o Estado. a TV Cultura com duas retransmissoras próprias. As geradoras e retransmissoras vinculadas às administrações Federal e Estaduais não ultrapassam 6. o governo estadual justificou a parceria com a TV Liberal. possuindo também sob sua responsabilidade a operacionalização do sistema digital de televisão. Não se tem. O convênio chegou a ser objeto de uma ação popular. em detrimento da TV Cultura do estado também vinculada à Funtelpa. uma em São Luis-MA. que proporciona a transmissão via satélite da imagem da quase totalidade de nossos 143 (cento e quarenta e três) municípios através dos sinais da TV Liberal (Secretaria da Fazenda. Além destes. por assinatura.Julho/Dezembro .2009 5 Trecho da defesa da Funtelpa citado por Elvira Lobato (LOBATO. podendo para tal realiza-lo diretamente ou por delegação. notícia de qualquer observação da Anatel ou do Ministério sobre o caso. TV Justiça e NBR.

esses canais passaram a trabalhar com patrocínio e mesmo com publicidade. as discussões recentes sobre televisão pública estão excessivamente voltadas ao financiamento dessas TVs. 2007. Mais recentemente.637. de maio de 1998. Agência Nacional das Telecomunicações. no cerne do ambiente estatal. A legislação em vigor proíbe essa forma de financiamento (Art. tecnologias ultrapassadas e financiamento insuficiente. 19 da Lei 9.116 Suzy dos Santos Ilustração 1: Distribuição nacional das TVs de Governos Estaduais6 Os canais educativos brasileiros tiveram sempre uma média de audiência pequena. Dec. Fonte: Ministério das Comunicações. 6 Embora seja possível observar. vários episódios recentes em que tem transparecido o interesse em buscar alternativas para fortalecer uma televisão pública nacional. entrando dentro da lógica dos canais particulares.-Lei nº236. Há canais que extrapolam este limite mas como sem a publicidade estariam condenados à extinção. que liberou a publicidade institucional sob a forma de patrocínio (apoio cultural). de 28 de fevereiro de 1967) mas um dispositivo facilitador foi o Art. . a Justiça não dá prosseguimento a processos intentados por canais particulares ou por multas de órgãos de controle. 13º.

O Ministério pode. com a publicação do Decreto nº 3. Qual é a música. logo após. as retransmissoras mistas .600 de 25 de abril. “deve-se levar sempre em consideração a importância das injunções políticas que influenciam fortemente a estrutura econômica dos meios de comunicação de massa no Brasil e que sempre atuaram no sentido de manutenção das posições dominantes” (Bolaño. Tanto as retransmissoras educativas quanto as O público e o privado . nº 84. maestro? As parcas notas do Estado Distribuidor O bem sucedido projeto dos governos militares de fazer a televisão chegar a todos os pontos do país transformou o Estado em importante distribuidor destes sinais.Nº 14 . O serviço de retransmissão de TV é o primordial facilitador deste objetivo.074. geradas por elas próprias. a qualquer momento. As permissões são concedidas diretamente por portarias do Ministério das Comunicações e têm caráter precário.593. a retransmissão de televisão não se insere no mesmo processo de licitações previsto para a radiodifusão.Julho/Dezembro . porém. pelo Dec.451 (09/ 05/2000). de 31 de março de 1982. . a Portaria 93. Como era previsível.291 e. nada isonômica. 2. Como conta o editorial da revista Tela Viva. 87. de 1989. de 15 de maio. estas chamadas retransmissoras mistas foram extintas pelo Dec. especialmente nas localidades onde o interesse comercial em explorar radiodifusão de sons e imagens é inexistente. em até 15% do total.que poderiam inserir programação local. O Dec. Estas permissionárias tinham o prazo de dois anos para adaptarem-se às novas regras. 81. com prazo indeterminado para a extinção. de 08 de outubro de 1979.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 117 A formação de uma rede pública complementar às estatais e privadas somente pode ser pensada como uma política pública mais global. [Em linha]). Este serviço teve alterações significativas em 19887. cancelar as permissões ou mantê-las ad infinitum sem ser necessário que elas passem por qualquer processo de avaliação do serviço como requisito para a renovação das outorgas. de 12 de julho de 1980. 1999.2009 Nesse ínterim. normas complementares foram sendo expedidas através dos seguintes decretos: nº 84.064. Regulamentada pela primeira vez em 1978. 7 Os permissionários ganharam uma sobrevida. em pouco tempo começaram a aparecer fundações e associações controladas por vereadores e deputados em várias partes do país. estabeleceram uma nova categoria. 96. Esta alteração agregou um atrativo político ao serviço de retransmissão educativa.educativas e em fronteiras de desenvolvimento do país . o governo voltou atrás antes do prazo extinguir.854. Em 1998.

E aí mora a grande distorção.118 Suzy dos Santos microgeradoras poderão funcionar nas mesmas condições atuais até que uma geradora se instale na mesma praça ou poderão solicitar a transferência do canal para o Plano Básico de TV. onde já existem emissoras comerciais.341 outorgas de retransmissoras nas mãos de prefeituras.676 têm retransmissoras outorgadas às prefeituras. Como a legislação aplicável aos serviços de radiodifusão educativa não prevê o lançamento de editais para a concessão dos canais. Agência Nacional de Telecomunicações: 2006. poderão transformar-se em geradoras. Segundo os dados oficiais. 59 5 1 1 66 43 33 47 55 AC AL AM AP BA CE E S G O MA MG MS MT PA P B P E PI PR RJ RN RO RR RS SC S E SP TO . 2000). A maioria das RTVs educativas está instalada em regiões de alta densidade populacional. isto é. Ao todo são 3. 1. Lembro que ambas não precisaram enfrentar a tramitação no Congresso (e atualmente os processos licitatórios) obrigatória para uma concessão comercial. dos 5. Ilustração 2: Distribuição das outorgas de retransmissoras das prefeituras municipais8 800 437 400 375 152 8 161 112 136 162 159 68 19 21 1 4 14 10 Fontes: Ministério das Comunicações. A participação das prefeituras municipais neste serviço é representativa. os atuais permissionários ganharão sem concorrência a freqüência que ocupam no espectro (FALGETANO.561 municípios brasileiros. pois as permissões foram dadas pelo Ministério das Comunicações.

o senador usa o pronunciamento para explicar O público e o privado .18% do total de retransmissoras das prefeituras geram programação própria. um dos membros titulares da Comissão de Ciência e Tecnologia. oito permissões. reproduzidas na versão em rede do Observatório da Imprensa. ainda. Sylvio Costa e Jayme Brener detalham algumas situações nas quais o poder federal beneficia prefeituras dos partidos aliados. então. Rio Grande do Sul. Mato Grosso do Sul.Julho/Dezembro . que atua na ilegalidade. Comunicação e Informática – CCTCI da Câmara dos Deputados.Nº 14 . ou as prefeituras fazem doações de terrenos a retransmissoras educativas ou mistas controladas por aliados dos prefeitos. Embora efetivamente a maioria das RTVs seja usada apenas para fazer chegar o sinal das grandes redes às pequenas cidades do país. Goiás e Piauí.341 permissões de retransmissão concedidas à prefeituras apenas 389 são de caráter educativo e 168 encontram-se na área onde são permitidas as estações retransmissoras mistas10. Pará. foi protagonista de uma curiosa operação montada para ajudar a filha. o único espaço reservado pela legislação para a propaganda eleitoral. um pronunciamento . há uma parcela.de caráter inequivocamente eleitoral . duas. a governadora Roseana Sarney (PFL) e o senador Epitacio Cafeteira (PPB) disputavam o segundo turno quando o pai de Roseana. Por não ser candidato no Maranhão. algumas prefeituras fazem das retransmissoras seus porta-vozes sem serem incomodadas pelo poder federal.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 119 Dentre as 3. 10 Estas retransmissoras são permitidas na região da Amazônia Legal que engloba: Acre. quatro. Minas Gerais e Paraná. Sarney não podia participar do horário político gratuito. em entrevista ao jornal Correio Braziliense. três. 1997). Terno claro e com a mesma expressão grave com que falava à nação em cadeia nacional ao tempo em que era presidente. BRENER. Na série de reportagens. “a chance de uma emissora dessas ser punida por causa do conteúdo de sua programação é próxima a zero” (COSTA. Uma delas retrata um exemplo de como as elites políticas regionais fazem uso das RTVs em períodos eleitorais: 9 Nas eleições de 1994. Mas não é possível afirmar que apenas 6. deputado Walter Pinheiro (PT/BA). Como declarou.veiculado em todo o estado pelas repetidoras em poder das prefeituras. Amapá. Alagoas. Gravou. cinco. Mato Grosso e Paraíba. Rondônia e Tocantins. as prefeituras desligam os equipamentos de transmissão quando as geradoras estão exibindo programação que prejudica os interesses locais. Amazonas. Mato Grosso. Maranhão. Roraima.2009 As retransmissoras educativas estão distribuídas entre onze estados: São Paulo e Rio de Janeiro. Amparadas pelo parco conhecimento público de suas limitações e pelas dificuldades operacionais da Anatel para fiscalizar todo este rol de estações. ou. . impossível de precisar. o ex-presidente e atual senador José Sarney (PMDB-AP). uma prefeitura permissionária de retransmissora educativa em cada.

13% das retransmissoras de TV no país. Os esforços em demonstrar transparência nas ações estatais parecem condicionados pelo bordão “uma nota. a ausência de identificação clara dos canais retransmitidos impossibilita. neste caso. o do “programa da concórdia”. de propriedade do líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. . o de Cafeteira. o jogador estaria em sérios apuros para continuar no programa. estes dados jamais foram tornados públicos. determinar os índices exatos de abrangência das redes nacionais. 11 Um dos programas mais antigos e de maior audiência exibidos pelo canal SBT o Qual é a música? constitui-se de um jogo de advinhação musical apresentado pelo empresário Silvio Santos . Sendo responsáveis pela cobertura de 30. Vai contar com a minha ajuda. Se a pergunta “o que as prefeituras municipais exibem em suas retransmissoras?” fosse feita no game show musical de Silvio Santos11. o de Roseana. Embora exista a exigência de que as operadoras do serviço de retransmissão entreguem ao poder concedente a indicação do canal a ser retransmitido. cuja cópia foi obtida pelo Correio Braziliense. é comum encontrar referências sobre visitas de comissões da Rede Vida. ou da RIT – Rede Internacional de Televisão. o dublador Pablo interpretaria uma espécie de canção afônica. O destaque fica por conta das redes religiosas onde são freqüentes as referências às parcerias entre prefeituras e igrejas. O primeiro.120 Suzy dos Santos aos eleitores que eles deveriam optar entre “dois quadradinhos”. continuou Sarney. denuncia a irregularidade ao alertar que a fala do ex-presidente. O segundo. vai fazer um governo de união pela paz”. que dá título a este tópico. Para além do uso eleitoreiro. seria “o quadradinho da velha politicagem e do ódio”. “tem um programa de governo definido. nunca na propaganda eleitoral do TER” (COSTA. Fazendo uma busca em sites de prefeituras e jornais de pequenas cidades. deveria ser exibida “em horário de telejornal. por exemplo. BRENER. E conclui: “Peço ao Maranhão que me ajude a continuar ajudando o Maranhão”. 1997). ligada à Igreja Católica. com autorização da geradora. A própria fita de vídeo repassada às prefeituras. às prefeituras para estabelecer acordos de retransmissão ou financiamentos para a instalação de retransmissoras vinculadas a estas igrejas. há também a dificuldade em saber quais são e como são escolhidos os canais que as prefeituras retransmitem. “Roseana”. vai contar com a ajuda de Fernando Henrique.14% do território nacional e por 34. maestro Zezinho” e. cuja duração foi de 2 minutos e 45 segundos.

não há geradoras. Esta relação de continuidade política fez com que as políticas públicas e privadas de comunicação de massa jamais fossem efetivamente desnudadas do denso véu que as cobriu ao longo de seu desenvolvimento. sim. Uma analogia com as vestes humanas diria que.Julho/Dezembro . Praticamente todas as redes nacionais. Houve. por exemplo. a televisão brasileira mal conseguiu exibir suas canelas em público. Ligeiras Conclusões A recente transição para um modelo democrático de Estado teve como característica fundamental a manutenção das elites políticas já estabelecidas em todo o país. Em Vargem Grande do Sul. apenas três permissões de retransmissão. Das três permissões da cidade.Nº 14 . . O esforço necessário para precisar qual o real alcance dos canais comerciais. significa também minimizar os custos da geradora na implantação de retransmissoras próprias. a divulgação de algumas listas de acionistas ou a adoção de processo licitatório para a concessão dos serviços principais. 2003). quase vinte anos após a volta da democracia. não religioso. Outro aspecto que merece ser destacado. exceto a Rede Globo. registradas em nome da prefeitura. a primeira a ser inaugurada foi do canal católico. como. Rede Mulher e TV Canção Nova – que concorrem com cinco canais comerciais e um não identificado que é retransmitido pela Prefeitura. indicam prefeituras como afiliadas.O dono do mundo: O Estado como proprietário de televisão no Brasil 121 No estado de São Paulo. 2003) que também indicou à prefeitura o pedido de verba para a instalação do equipamento transmissor (CÂMARA. Porém. por exemplo.2009 12 Embora a Rede Record seja vinculada à Igreja Universal do Reino de Deus e tenha programação religiosa na sua grade. Embora o processo de privatização do sistema de telefonia tenha O público e o privado . educativos ou religiosos fatalmente encontra na ausência de transparência das outorgas seu maior obstáculo. Em São José do Rio Pardo a situação é diferente. diz respeito ao fato de que a retirada do Estado das operações de serviços de comunicações não ocorreu na televisão da mesma forma sistemática que ocorreu nas telecomunicações em meados dos anos 90. 2002). em junho de 2003 (TV CANÇÃO. neste estudo ela é considerada um canal comercial. a obtenção da outorga é creditada à atuação do vereador Fábio Augusto Porto Junqueira (PSDB) (GAZETA. a ausência de revisão das outorgas já concedidas e a persistência das práticas clientelistas no âmbito estatal fazem com que as iniciativas de desnudamento sejam tímidas. além de traduzir uma fatia maior de audiência para este canal. as redes católicas têm forte ligação com as prefeituras municipais. algumas tentativas. Apesar de não retransmitir a rede católica.Rede Vida. A adesão de uma prefeitura à afiliação de um canal específico. há três outorgas ligadas a canais religiosos12 .

television. . CÂMARA Municipal de São José do Rio Pardo. Conforme foi apontado. atinge mais de 30% dos municípios brasileiros. br/servlet/navSrvt?cmd=ultimaata>. 2005]. mai. the State acts like producer. Words: communication.gov. a televisão aberta ainda depende fundamentalmente das Prefeituras Municipais para atingir as regiões menos interessantes ao mercado em termos econômicos. In a moment in which the Brazilian government begins to execute a plan of a strengthened state-owned TV . ABSTRA CT : This article intends to analyze the acting of the Brazilian State like ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 23/01/2008 Aprovado: 20/03/2008 Key W ords: state. nos poucos canais estatais existentes é visível a persistência do Estado como produtor de conteúdo televisivo em oposição à idéia de transformação destes canais em canais públicos. poderiam representar um diferencial qualitativo na programação televisiva. por sua natureza educativa e não comercial. Disponível em: <http://site. media owner. Disponível em: <http://www. producing planning for specific channels and 2.anatel. Ata da 35ª Sessão Ordinária. In: Revista Latina de Comunicación Social. BOLAÑO. tanto nos domínios federais quanto estaduais.br>. retransmitting planning of the already existent nets in towns of difficult access.ull. Além da atuação como retransmissor. 17. mantendo-se apenas como regulador e. It is possible to divide this acting in two functions: 1. 2002.122 Suzy dos Santos produzido uma profunda rearticulação nas comunicações nacionais. por outro lado. the State acts only like distributor. também. [consultado em 11 dez. Por um lado. [Em linha]. como ocorre com a TV Cultura de São Paulo. 2005]. tanto na esfera federal quanto estadual. Estado saiu da operacionalização da telefonia e serviços conexos.es/ publicaciones/latina/a1999hmy/98cesar. Disponível em: <http://www. 2003]. C. estes canais. Referências AGÊNCIA NACIONAL DE TELECOMUNICAÇÕES (ANATEL). the discussion on the independence conditions in the existent state-owned broadcasting stations can play some light about this process. [Em linha]. não chegam a 10% do total. estas outorgas têm possibilidade de geração de conteúdo e o controle sobre elas é praticamente inexistente como também é inexistente a definição dos critérios que pautam a escolha dos canais a ser retransmitidos. [Em linha]. A Economia Política da televisão brasileira. (1999).n. in the environments of the production and of the distribution of television content. com gestão desvinculada do poder político. Embora historicamente tenham pouco alcance também em termos de audiência.sp. as geradoras de televisão por ele operadas.gov. [consultado em 24 nov. 26 nov.camarasjriopardo. [consultado em 19 out. A retransmissão dos canais televisivos pelas prefeituras.htm>.

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com Ana Paula Freitas e Fabrício de Mattos são mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Sociedade da UECE. por serem os campos formadores dos imaginários sociais em nossa sociedade. democracia. amazônia. espaços públicos.freitas@gmail. fsdemattos@yahoo. o que se observa é que. e aprofundando a intersecção entre eles. Percebemos. democracia e espaço público na Amazônia. assim. O público e o privado .com. colocamse sob nossos olhos as relações de poder que permeiam a comunicação e a cultura. cultura. E-mail: anapaula.Julho/Dezembro . e a Fundação de Telecomunicações do Pará.com. Palavras-chave: políticas de comunicação. I 1 ntrodução O presente artigo sugere uma análise de um “convênio”1 firmado entre o Estado e uma grande empresa privada de telecomunicações. O relatório de maio de 2007 da Comissão de Inquérito Administrativo que analisou o caso.(*) Alexandre Barbalho é Professor do PPG em Políticas Públicas da UECE . Ao analisar este caso.Nº 14 . FUNTELPA. e sim de um contrato. a partir do estudo de caso do "convênio" entre uma grande empresa de telecomunicações do Estado do Pará. tendo como ponto focal as relações de desenvolvimento e integração regional. assim como os desafios para a construção da democracia na Amazônia contemporânea. visando problematizar as relações de poder inerentes aos campos da comunicação e da cultura.2009 Não desconhecemos a relação polêmica que a palavra “convênio” traz a este caso. pois muitos dos atores envolvidos neste debate afirmam que não se trata de um convênio. a TV Liberal. E-mail: alexandrebarbalho@hotmail. os campos da comunicação e da cultura como os campos protagonistas das relações de poder na contemporaneidade.br 125 Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado Policies of Communication in the Amazon region: between the State and the market Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos* Resumo: O presente artigo discute a relação entre políticas de comunicação. afirma que “No instrumento propriamente dito. foi .

cultural. 2007. recebia da TV Liberal. que restringe a participação democrática no campo midiático. 3 Sobre a ampliação dos espaços públicos. descontínua e desigual. portanto. em que a empresa privada veiculava parcialmente sua programação. como o próprio desenvolvimento do processo democrático e como este tipo de política interfere na criação de espaços públicos. pela manhã. ver a discussão de A L V A R E Z . afiliada da Rede Globo de Televisão no Pará. é necessário desenvolver uma crítica a esse tipo de política de comunicação. firmado um contrato. DAGNINO. a palavra será sempre usada entre aspas. num processo hegemônico imbricado e mais complexo do que prevê o senso comum. ESCOBAR (2000). (PINHEIRO. Este posicionamento resulta na análise de políticas de caráter exclusivista. p. na circulação de significados simbólicos e. mas de observar questões mais complexas. pela utilização de seus retransmissores em algumas localidades do interior do estado.. e as possíveis disputas de interpretação. em 1977. é fácil perceber a lógica que norteou a política de comunicação do Estado do Pará entre os anos 1997 a 2006. pautando a circularidade dos significados nas lógicas dos mercados econômico e político. Ao ler os termos do “convênio”. 7). assim como a concepção de democracia como uma construção permanente. sustentamos que as políticas de comunicação devem atuar a favor da construção de espaços públicos3 os mais ampliados possíveis. consequentemente. e a disponibilizar horário para a divulgação de assuntos de interesse do Governo do Estado. na estruturação das dinâmicas culturais do Estado do Pará. Não se trata apenas de debater ou quantificar os prejuízos causados aos cofres públicos. comprometia-se a veicular a programação educativa da Funtelpa. e objetivando a manutenção do poder de uma elite local. Uma vez que a sociedade contemporânea é ambientada e estruturada pelo campo comunicacional. o que não encontra respaldo legal” (CARNEIRO. Essa lógica está baseada numa relação de clientelismo e favorecimento de uma parte da elite amazônica. 2 Apresentando o caso O caso apresentado aqui se inicia há mais de trinta anos. com a denominação de convênio. quando o Governo do Estado do Pará firma pela primeira vez um contrato com a empresa TV Liberal Ltda. demonstrados sucintamente na apresentação que segue. Por este motivo. já que as disputas políticas atualmente acontecem muito mais no plano simbólico e.126 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Pensando sob a perspectiva de uma construção permanente da democracia2. composta de empresários de comunicação e governantes. Este primeiro contrato consistia num pagamento mensal que a Fundação de Telecomunicações do Pará (FUNTELPA). et al. pois Sobre o conceito de democracia ver BOBBIO (2000). 2007) .

visando a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações. O público e o privado . Caderno 1.. foram publicados 14 aditivos ao “convênio”. 4. a TV LIBERAL assegura à FUNTELPA a veiculação em todas as localidades aonde chegue sua programação (... a TV Liberal pagava também uma porcentagem de 1% de sua arrecadação publicitária veiculada nas cidades da região em que utilizasse os retransmissores da Funtelpa. uma aos domingos. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ. finalmente.) através do serviço LIBSAT. prorrogou o convênio por mais 12 meses.. refere-se ao objeto e ao objetivo do “convênio”: O presente convênio tem por objeto a recepção pela FUNTELPA da programação local/regional. 5 O termo “GERADORA” se refere à Tv Liberal. 4 IV . 27 de outubro de 1997. ao final do governo Jatene. Pode-se questionar. também do PSDB. produzida.Em contrapartida pela utilização de suas retransmissoras de TV´s (. via inserções propostas. sendo uma no primeiro intervalo comercial regional do Jornal Nacional. neste trecho do texto. referente às obrigações das partes. Ao final de 19974. de segunda à sábado. No período entre 1998 e 2006. no governo de Almir Gabriel. p. A cláusula primeira do documento publicado em 27 de outubro de 1997 no Diário Oficial do Estado do Pará. pela GERADORA5 e transmitida para todo Estado (.) do interior do estado.Nº 14 . percebe-se as premissas que dão sustentação à implementação do ‘convênio’: a lógica de integração do estado permeada por uma idéia de desenvolvimento econômico e cultural. em contrapartida.). .2009 O “convênio” foi firmado durante o primeiro mandato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). ceder inserções de propaganda institucional em sua programação diária ao Governo do Estado do Pará. O último aditivo. de problemas gerais do Pará e de suas soluções possíveis. no primeiro intervalo comercial regional do Fantástico. os vínculos entre as políticas de comunicação dos governos e a empresa.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 127 Além disso. o texto prevê que a TV Liberal deveria. mas queremos nos ater a uma mudança mais relevante. Além disso. grifos nossos) Na segunda Cláusula do documento. enquanto que os termos “RECEPTORA e RETRANSMISSORA” referem-se à Funtelpa. inclusive com o acompanhamento. de assuntos concernentes aos objetivos e ao desempenho da Administração Estadual.Julho/Dezembro . que abrange o segundo mandato de Almir Gabriel e o mandato de Simão Jatene... de reivindicações dos variados segmentos sociais e. de numerosos temas de utilidade pública e conveniência para esta Unidade Federativa e seus jurisdicionados. recebendo o nome de “convênio”. o contrato anterior foi reformulado. assumido por Ana Júlia Carepa. de duas inserções diárias de 90 (noventa) segundos cada. desde este primeiro contrato. que aconteceu em 1997. abrangendo o primeiro ano do mandato do novo governo do Estado do Pará. membro do Partido dos Trabalhadores (PT) no início de 2007.

nos intervalos comerciais de sua programação. alusivas à utilização do serviço LIBSAT. a integração de todos os segmentos da sociedade. no mínimo. como veículo para informar a comunidade sobre atividades e matérias de interesse do Pará. colimando. é . assegura à FUNTELPA. a veiculação de mais 03 (três) inserções diárias de 15(quinze) segundos cada. (. contendo chamadas relativas às veiculações da Funtelpa previstas no Convênio. no vasto território paraense. também assegura à FUNTELPA (. 06 (seis) mensagens institucionais do Governo do Estado.. VII – A Geradora se compromete a divulgar. VI – A TV LIBERAL. 15 (quinze) minutos semanais de temas que promovam a valorização das atividades econômicas. por este instrumento. 25 (vinte e cinco) minutos adicionais de espaço publicitário.. no mínimo. com exceção do previsto no item V. igualmente.. que compete à Geradora. 02 (duas) no vespertino e 02 (duas) no noturno. aos esforços dirigidos ao desenvolvimento do Estado. artísticas. sendo 02 (duas) no horário matutino. com a duração de 30 (trinta) segundos cada.) a divulgação em sua programação local/ regional de..128 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos além de uma inserção de segunda a sexta feira. culturais e científicas do Estado do Pará..) §3º . preservando e estimulando o desenvolvimento da economia e da cultura paraense.) Estas inserções também são pertinentes a Mensagens Institucionais do Governo do Estado. no primeiro intervalo comercial regional do Globo Ciência e aos domingos. no horário de 19:00 às 22:30 horas.A TV LIBERAL LTDA. em Convênio com a FUNTELPA. VIII – A produção de todo o material a ser veiculado. distribuídos em inserções nos intervalos comerciais da programação. uma inserção no primeiro intervalo comercial regional do Globo Rural. via moderno dispositivo de comunicação. V – A TV LIBERAL. (. mensalmente. com o objetivo de integrá-lo.. sobre as atividades da administração e a divulgação de matérias de interesse do Pará e serão inseridas igualmente na área de cobertura da TV Liberal Canal 7 de Belém. assegura à FUNTELPA.

(Up Link) do segmento espacial do satélite Brasil Sat B1. pelas inserções de que tratam as cláusulas IV VI e VII deste convênio. grifos nossos) Segundo o Relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007).000. com exceção do previsto no item V. utilizando seus equipamentos e processos exclusivos (LIBSAT). em Belém.Nº 14 .Julho/Dezembro . aos equipamentos de recepção do serviço LIBSAT. incluindo cobertura de eventos. (CARNEIRO. que seriam: Em contrapartida pelos serviços técnicos de disponibilização de sua estação terrena. jornalismo. ibidem.097. instalação e manutenção dos equipamentos de recepção e especialmente.) Produção de todo o material a ser veiculado. com qualidade técnica satisfatória e compatível com o sistema e formato utilizado pela Geradora. para divulgação pela Funtelpa de toda a Programação Local/Regional da Geradora.00 (duzentos mil reais) atualizado anualmente pelo IGP (Índice Geral de Preços)6. Caderno 1. o valor mensal de R$ 200. (DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DO PARÁ. de sua propriedade.. sem qualquer ônus para a TV LIBERAL. através de suas estações no interior. a fatura de pagamento que data de janeiro de 2007. Instalação e prestação de assistência técnica as suas expensas. p. ser entregue a esta. noventa e sete reais e quarenta e sete centavos).47 (quatrocentos e sessenta e um mil. a partir de 1 de outubro de 1997.(. 3) O “convênio” descreve ainda as obrigações da FUNTELPA. que compete à TV LIBERAL. devendo. LUNA. a FUNTELPA pagará a TV Liberal. dentro dos prazos e das normas praticadas pela TV LIBERAL. de sinais de radiodifusão de sons e imagens em áudio e vídeo. correspondia à R$ 461. 27 de outubro de 1997.2009 6 Segundo o relatório da Comissão de Inquérito Administrativo (2007).. também fazem parte das obrigações da TV LIBERAL: Fornecimento ao sistema integrado estadual de retransmissão de televisão no Pará. nas retransmissoras da Funtelpa.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 129 de responsabilidade exclusiva da FUNTELPA. da Região e dos Municípios. fornecimento. NETO. analisando os termos do “convênio”. . 4 de maio de 2007. p. notícias do Estado. 4) O público e o privado . (idem.

o governo afirma que até junho de 2008 serão retomadas as retransmissoras do interior do Pará. (. As Políticas de comunicação sob a ótica da integração Para compreender a lógica de uma política de comunicação como esta. pessoal. isso significa gastos com água. a Agência Pará..806.12 (trinta e cinco milhões. e ainda arca. Além do valor pago diretamente a TV Liberal. Segundo 7 Em matérias jornalísticas recentes. no período dos governos militares (1964-1985). a Funtelpa arcava. luz. oitocentos e seis reais e doze centavos). veiculadas pela agencia de noticias do estado. Belém. Propomos iniciar este debate analisando como a ideologia da “integração” atua para respaldar os processos de colonialismo interno. p.) sem correção. implementados recentemente no território amazônico. é necessário pensar sobre os vários processos complementares que conformam a realidade da região amazônica. (CARNEIRO et al. 8 Sobre o conceito de fronteira em movimento ver VELHO (1979). que o valor estimado dos gastos indiretos com o convênio giram em torno de R$5. Anatel etc.000.. posteriormente. A idéia de “integração” pautou e ainda pauta a construção do imaginário coletivo sobre a região. a região Amazônica foi alvo de políticas públicas que a consideravam como área estratégica para o desenvolvimento econômico e a manutenção da soberania nacional..050. pela diretoria. segundo as informações disponibilizadas pelo Governo do Estado do Pará7. diárias para as equipes de manutenção da capital visando conserto dessas retransmissoras. foi o montante de R$35. . percebida como uma “fronteira em movimento”8. a programação da FUNTELPA alcançava apenas a região metropolitana da capital paraense.) o valor total pago a TV Liberal durante o prazo de vigência do convênio.000.. cinqüenta mil.130 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Até janeiro de 2007. com todas as despesas relativas às Retransmissoras de TV do interior que estão nas mãos da TV Liberal. A partir da inauguração.00 (cinco milhões de reais). 2007. 4-5) Dessa forma. Nos foi informado. da rodovia Belém-Brasília e. somando-se o pagamento mensal efetuado pela FUNTELPA a TV LIBERAL aos gastos relativos à manutenção das estações retransmissoras de TV – que são de responsabilidade da Funtelpa – chega-se a mais de quarenta milhões de reais em gastos do Estado com este “convênio”: (. enquanto que a programação veiculada em 78 municípios (dos 143 que compõe o estado) foi e será gerada pela TV Liberal até pelo menos junho de 2008. em 1959.

Nossa hipótese consiste em pensar que o Governo do Estado do Pará não apenas inverte a lógica da integração. Em 1997. ainda utilizando dos termos de uma “integração do estado” o Governo do Pará inverte os papéis do “convênio”. entre as várias estratégias de integração da Amazônia. no entanto.110 km de um sistema de comunicação por microondas. p.Nº 14 . Queremos por em relevância a política. e. Ver a esse respeito ORTIZ (2008). empreendeu um projeto de padronização da linguagem e dos valores culturais através de sua programação. num sentido distinto: o de relações de poder inerentes e imbricadas às políticas governamentais9.2009 9 Trata-se da distinção que não existe nas línguas latinas. onde está seu centro de produção jornalística e publicitária. É sabido que as retransmissoras da Rede Globo de Televisão produzem e transmitem pouca produção local. Além disso. como existe no inglês. Em cinco anos.5) É neste período que é situado o primeiro “convênio” feito entre o Governo do Estado do Pará e a TV LIBERAL. foram construídas cerca de 12 mil km de estradas e. Com isso queremos inferir que sempre existe uma relação outra. ou seja. permitindo que o protagonista que dinamiza essa nova integração. mas também por meio da implementação de um sistema de transmissão televisivas e telefônicas. mote da campanha O público e o privado . 2006. Completando este quadro. (CASTRO. conhecida como “paraensismo”.Julho/Dezembro . BARBALHO (2008). privilegiada pelo regime militar e que assim. tornando-se ele próprio o locatário dos serviços dessa empresa privada. em que a empresa pagava ao Estado pelo “aluguel” de seus retransmissores. mantendo uma relação de tutela e clientelismo com a empresa. nos âmbitos da cultura e da comunicação. para além da simples gestão administrativa que o termo “política de comunicação” implica. portanto diferente dos desenvolvimentistas e militares. mas reconfigura o processo de colonialismo interno no estado. . entre politics e policy. em três anos. Faz isso partindo de uma lógica neoliberal. a TV Liberal tem a maior parte de sua produção voltada à região metropolitana de Belém. porém. pode-se afirmar também que muitos programas veiculados pela TV Liberal fazem circular significados que reiteram certa identidade amazônica.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 131 Fábio Horácio-Castro (2006). foram implantados 5. que continuava usando os retransmissores estatais. seja uma empresa privada. estava a implantação de redes de integração espacial: Sobretudo através da construção de estradas. franqueados à rede Globo de Televisão. delegando ao mercado esta função. destinando a maior parte de sua programação aos programas da emissora nacional.

porque. Essa campanha cultural era veiculada pela propaganda institucional. também é razoável pensar num certo ‘monopólio de significados’. que tinham várias inserções diárias (garantidas nos termos do “convênio”) na programação da Tv Liberal. em muitos municípios e localidades do estado do Pará. as pessoas que não tinham disponibilidade de comprar uma antena parabólica recebiam apenas o sinal da empresa. mídia e identidade cultural nacional ver o conceito de ‘Moderna Tradição Brasileira’ ORTIZ (1989). 11 Sobre o conceito de indústrias culturais ver BARBALHO (2008). para além de uma visão estadista ou protecionista de cultura. Sendo assim. assim como são predominantes na formação das esferas públicas e da cidadania. A relação de proximidade entre a principal rede de televisão do estado do Pará e o grupo político que compunha o governo do estado ainda proporcionava mais um privilégio: a larga vantagem que este possuía em relação aos outros grupos políticos. principalmente. todos estes fatores acabam tornando mais contraditória e problemática esta suposta “integração”. além de outros veículos utilizados. Néstor García Canclini (2001) afirma que os meios de comunicação são os principais formadores dos imaginários sociais na contemporaneidade. é necessário articular as demandas sociais com os aparatos comunicacionais presentes no entorno social: 10 Sobre a relação entre integração nacional. Democracia. além de possuir a máquina administrativa do Estado.10 A partir do debate acima. é bastante razoável concluir que. até que ponto a construção da democracia e do espaço público é afetada por uma política que delega o campo comunicacional. Para um aprofundamento na dialética da integração da Amazônia ao território nacional e as irrupções identitárias desta região ver o conceito de ‘Moderna Tradição Amazônica’ CASTRO (2006). .132 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos cultural dos governos do PSDB no período em que vigorou o “convênio”. ao mercado. já podemos elaborar uma questão: numa sociedade em que os significados simbólicos circulam. durante esse período. Ou seja. como informação e entretenimento audiovisual. tinha também uma contínua campanha publicitária durante quase 10 anos. espaço público e comunicação: intersecções Partindo das informações presentes no texto do “convênio”. Num trabalho recente sobre a importância de legislar sobre as indústrias culturais e as empresas de comunicação. que afirmam que apenas a TV Liberal dispunha da tecnologia necessária para a transmissão via satélite de sua programação. Enfim. principal campo estratégico de construção de imaginários sociais. através dos meios de comunicação de massa e das indústrias culturais11. difundidos pela retransmissora. sob a ideologia de “integração e desenvolvimento”? É este debate que pretendemos seguir.

ni de volver a oponerlo a las empresas privadas. que reverberariam do e no tecido social. En la circulación. autoafirmación.2009 . partindo de pressupostos de politização da cultura. 2001. sino de averiguar cómo coordinarlos para que todos participemos de modo más democrático en la selección de lo que va a circular o no. p. 109) O público e o privado . visiones de mundo y sensibilidades. que realmente visasse “a maior integração da comunidade paraense quanto a seus problemas e suas aspirações”.Julho/Dezembro . uma política de comunicação eficiente. se agrava la brecha entre los informados y los entretidos al disminuir la responsabilidad del Estado por el destino público y la accesibilidad de los productos culturales. derechos. quiénes decidirán lo que entra o no en la agenda pública.Nº 14 . Um posicionamento de viés mais democrático tenderia a pensar a mídia como um espaço que deve ser disputado. 2008. 2001. apesar da construção permanente da democracia ser um processo descontínuo e desigual.). no es tanto la producción de sentido sino en su circulación donde se juegan proyetos de vida. p 8) Assim. molecular y reticular por apropriarse de espacios comunicativos a fin de plantear demandas. No se trata de que exclusivamente el Estado se ocupe de todo esto. En el campo de la circulación hoy dia se desarolla uma lucha tenaz... En tanto la tecnologia facilita la circulación transnacional. p. e não na sua restrição e monopolização a partir da circularidade de um único discurso midiático. La privatización creciente de la producción y difusión de bienes simbólicos está ensanchando la grieta entre los consumos de elites y de masas. sobre todo de las innovaciones tecnológicas y artísticas (CANCLINI. la cultura deviene política (HOPENHAYN. Como situa Martín Hopenhayn: El campo decisivo de lucha en la articulacion entre cultura y política se da cada vez más en la industria cultural. 72 apud BARBALHO. deveria ser pautada na possibilidade de ampliação e no aprofundamento de espaços públicos alternativos. y que dicha articulación no se decide tanto en ‘el modo de producción’ como en las ‘condiciones de circulación’. de identidades. En otras palabras. mucho más que en la producción.Políticas de Comunicação na Amazônia: entre o Estado e o mercado 133 Si el sentido de la cultura se forma también en la circulacion y recepción de los productos simbólicos (. estéticas y valores. de quiénes y con qué recursos se relacionarán com la cultura.

a um exemplo paraense do que Evelina Dagnino (1994) conceitua como autoritarismo social: O autoritarismo social engendra formas de sociabilidade numa cultura autoritária de exclusão que subjaz ao conjunto das práticas sociais e reproduz a desigualdade nas relações sociais em todos os seus níveis. sem homens e sem mulheres. mesmo que seja por uma reutilização das velhas argumentações inseridas do binômio “desenvolvimento e integração”: uma região sem cidades. Acrescentando a essas relações sociais. Essa relação corresponde. sua eliminação constitui um desafio fundamental para a efetiva democratização da sociedade. amazon. fundamentalmente. também consituinte das bases das relações de poder em sua sociedade. ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 06/03/2009 Aprovado: 10/05/2009 K ey W ords: Words: communication policies.134 Alexandre Barbalho Ana Paula Freitas Fabrício de Mattos Portanto. public sphere. culture. and also the challenges for the construction of democracy in the contemporary Amazon. 1994. taking the case of the "agreement" between a telecommunication corporation of the State of Pará. uma concepção de democracia que transcede o nível institucional formal e se debruça sobre o conjunto das relações sociais permeadas pelo autoritarismo social e não apenas pela exclusão política no sentido estrito. democracy and public sphere in the Amazon. uma vivência de isolamento e exclusão. it stands out the relations of power that permeate both communication and culture. A consideração dessa dimensão implica desde logo uma redefinição daquilo que é normalmente visto como o terreno da política e das relações de poder a serem transformadas. p. tanto nas politicas públicas quanto na lógica do mercado. (AGNINO. o espaço público/midiático (que é um dos espaços públicos possíveis) que se desenvolve com esse tipo de política. de modo a incluir o conjunto das práticas sociais e culturais. constituído desde a colonização e baseado na experiência da dominação e da violência. no caso da Amazônia. significa uma ampliação e aprofundamento da concepção de democracia. a região é tratada simplesmente como objeto de lucro e interesses privados. . Along the analysis of the case. democracy. E. podemos pensar neste “convênio” como uma mostra de como reverbera no tecido social latinoamericano esse autoritarismo social. the TV LIBERAL. FUNTELPA.104-105) Partindo dessas considerações. ABSTRA CT : This article discusses the connections between communication policies. recorrentemente. onde as leis dos mercados econômico e político passam a ser os reguladores sociais. Observa-se que. em larga medida. é um espaço restrito e de certa maneira direcionado. Nesse sentido. and the Fundação de Telecomunicações do Pará.

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hoje é habitualmente divulgada como cota de tela. uma expressão imprecisa já que não reserva a totalidade do mercado para a exibição do filme nacional.2009 N . o presente trabalho busca analisar um dos instrumentos um dos instrumentos mais antigos e mais utilizados para proteger e assim fomentar a produção audiovisual nacional: a obrigatoriedade de exibição.Julho/Dezembro . obrigatoriedade de exibição. a produção de bens culturais vem assumindo um papel determinante em diversos âmbitos. principalmente como meio de entretenimento. o destaque é o produto audiovisual. No entanto. o Brasil ainda não tem uma produção estável e permanente que seja auto-sustentável. desde o econômico até o educativo. Essa imposição. as sociedades contemporâneas.Araraquara. este trabalho analisa um dos instrumentos mais utilizados para alavancar a produção cinematográfica no Brasil.Nº 14 . por exemplo. 137 A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro The contribution of the screen quota to the brazilian cinema Anita Simis* Resumo: Procurando contribuir para alargar o campo dos estudos sobre a política cultural voltada para a produção audiovisual. mas também como indústria que emprega considerável número de pessoas. Neste sentido. a chamada cota de tela.com.(*) Anita Simis é Professora do PPG em Sociologia da UNESP . com a informática no início de sua introdução. Inserido neste contexto. E-mail: anitasimis@gmail. no caso do cinema. O público e o privado . como ocorreu. já apontada no passado como reserva de mercado. cota de tela. Palavras-chave: cinema brasileiro.

a organização de programas com um filme nacional e um estrangeiro (estes obtidos em troca dos nossos). 1997. cujas reivindicações incluíam. como disse Paulo Emílio S. isto é. passou a ser exigida efetivamente durante o governo de Getúlio Vargas. cujo sentido interventor era trazer os conflitos expressos para uma solução disciplinadora. 2 Entre outras medidas. depreendemos tratar-se de uma medida de caráter sistêmico que constituiu a base de um padrão ideológico e político da relação Estado/Sociedade e que perdurou por anos. sejam elas de produção. sem mediações e centralizadora. comercialização. Esta última. estimulando o diálogo e delineando assim. essa legislação só foi efetivamente testada. mas com uma redução 30% menor que a do filme virgem e centralizou a censura. 1 Em outros trabalhos.240. um para cada programa exibido nas salas de cinema. SIMIS. da censura até a estruturação de órgãos estatais. “um marco a partir do qual já se pode falar de um movimento de cinema brasileiro”. agora ampliando-se a exigência para a exibição de um filme de curta metragem (e não apenas um filme educativo) em cada programa. e explicito porque esta via não foi trilhada pelos cineastas (Cf. exibição. importação ou ainda de exportação de obras cinematográficas. pois só entrou em crise no final dos anos 80. da forma como o Estado interveio nas atividades cinematográficas. uma “tomada de consciência cinematográfica nacional”. . em seu art. cerca de três meses antes de eclodir o confronto entre paulistas e o governo provisório de Getúlio. p. Seus artigos sintetizam conveniências de vários setores. o Decreto também diminuiu as taxas alfandegárias sobre o filme impresso. pela primeira vez. permuta. pela primeira vez. Referimonos à campanha liderada por Ademar Gonzaga e Pedro Lima. 12. posteriormente. instituiu a obrigatoriedade de exibição para os filmes educativos.138 Anita Simis Foi por meio de publicações como Selecta.2 No entanto. os cineastas. tratando desde o cinema educativo até o cinema comercial. tornava-se a oportunidade de provar que o cinema nacional venceria pela qualidade e pela exigência das platéias. 2008). o Decreto. procuro mostrar como este decreto estava relacionado a um projeto para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica . já durante os anos 20.estável e permanente –. Paratodos e Cinearte que. a partir de 1934. Gomes (1980. Concebida como uma forma de coibir os abusos do mercado traduzidos pela má vontade dos exibidores e a ganância das companhias cinematográficas estrangeiras que procuravam impedir a entrada de novos concorrentes. O decreto é ilustrativo de todas as intenções da política oficial e contém também os germes de grande parte das medidas introduzidas ao longo dos anos posteriores. iniciaram os contatos entre si. fornecendo informações. afora ter estabelecido uma taxa alfandegária que facilitava a importação do filme virgem. Em 1932. reivindicada desde os anos 20. 54). Examinando-se o conjunto de seus artigos. locação. venda. além da isenção de taxas alfandegárias para o filme virgem. foi baixado o Decreto 21. reprodução. antes dispersos pelo País.1 Assim. alterada para a exibição compulsória de um filme brasileiro por mês. abrangendo um leque amplo de medidas. Vejamos como isso ocorreu.

rebaixando os preços. com três cópias cada um.B. no período compreendido entre 1935 e 1939 houve um crescimento ascendente da produção de filmes nacionais (de 486 para 789). o filme americano. Certamente o entusiasmo motivou iniciantes a entrarem na atividade. Era o princípio da formação da burocracia e da instituição de diversas medidas legislativas que procuraram combater às fraudes. então. já que os exibidores O público e o privado . apenas um terço das salas então existentes cumpriam o Decreto. enquanto que seu principal concorrente. Além disso. Entre as diversas dificuldades encontradas. tão cariocas quanto a sede do governo federal.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 139 Pelos dados numéricos obtidos em fontes oficiais. D. Mas. encontramos a campanha veiculada na imprensa contra a obrigatoriedade de exibição. significativamente. Quatro meses depois que a medida entrou em vigor. prejudicando a arrecadação com que contavam os produtores que passaram então a reivindicar que houvessem multas aos infratores.F. chegando em 1939 a indicar uma cifra menor que a de 1937 (de 1349 passou para 1496). Ora. perdeu posições. toda esta efervescência também resultou em algo nem sempre suficientemente assinalado: o crescimento da produção do curta-metragem favoreceu a produção de filmes de longa metragem ainda que em números inferiores aos de anos anteriores (chegando ao máximo de 13 em 1940) pois também é preciso lembrar que trata-se de um período em que o cinema falado trouxe novas barreiras para o desenvolvimento do nosso cinema. as cópias dos 600 filmes produzidos multiplicaram-se por três.Julho/Dezembro .Nº 14 . a não ser a diferença de um para dez na taxação alfandegária imposta aos filmes virgens em relação aos filmes impressos. estes resultados positivos e todo este empenho não foram suficientes para consolidar uma indústria cinematográfica nacional que pudesse competir com o produto estrangeiro. No entanto. Constituiu-se. mas o grosso da produção se concentrou em algumas empresas. punição que compreendia a identificação das autoridades competentes para impô-las e arrecadá-las. a obrigatoriedade de exibição para os filmes foi em grande medida responsável pela salvação da produção cinematográfica nacional. para evitar que a fiscalização ficasse prejudicada e para que não houvesse concorrência entre as distribuidoras. tendo em vista que até 1939 não havia nenhuma outra medida legislativa de incentivo à produção cinematográfica. foram lançados no mercado cerca de 100 complementos com 330 cópias produzidas por 19 empresas. pois para atender à exigência era necessário apresentar oito filmes por semana. o número de empresas existentes havia triplicado. uma distribuidora. a Distribuidora de Filmes Brasileiros.2009 . Dois anos depois. De fato. com a obrigatoriedade de exibição para os filmes ressurge um clima de euforia. muitas delas semelhantes às atuais.

foi responsável pela produção de quatro longasmetragens de um total de sete em 1936. e do SIA.que. que havia produzido apenas três filmes de longa metragem antes da obrigatoriedade: Onde a Terra Acaba (1933). antes mesmo da criação oficial do DIP . há uma perda considerável4. e por isso mesmo rigorosamente cumprida. e o início do Estado Novo. de um lado. Foi com o Departamento de Informação e Propaganda –DIP. Do que foi exposto. atenderam às pressões das principais empresas cariocas. determinada pelo Departamento Nacional de Informações. média e longa metragem de ficção ou não ficção) podemos notar que ela se manteve no mesmo ritmo dos anos anteriores. A medida favorecia uma empresa criada apenas alguns anos antes. Com o golpe de 1937. Tristezas Não Pagam Dívidas (1944) ou Não Adianta Chorar (1945) e contava com uma produção de três a quatro filmes ao ano. a obrigatoriedade de exibição da longa metragem pode ter influído no salto ocorrido em 1940. a Atlântida. considerando-se o volume total da produção (filmes de curta. Com o fim da ditadura Vargas. Mais que uma conquista. estava a Cinédia. este crescimento se deu por conta da extensão da obrigatoriedade de exibição do longa-metragem de um para três filmes ao ano . quando foi de fato cumprida. um dos seis em 1937. Depois. De acordo com os dados.que pela primeira vez se estipulou a obrigatoriedade de exibição para os filmes de longa metragem. 4 . não conseguiu manter seus estúdios trabalhando com continuidade. os cineastas se depararam com novas mudanças. sucessor do DIP . mas em seguida. cuja exibição passou a ser exigida pelo DIP . Certamente esta produção se refere mais aos filmes de curta metragem levando em conta que algumas empresas privadas trabalharam inclusive para atender às encomendas oficiais. duas se destacam: a Brasil Vita Filmes. se abriu um 3 Os filmes oficiais compreendiam filmes do INCE. do Ministério da Educação. realizados a partir de 1938. se as influências patrimonialistas e as concessões pleiteadas. chegando até a diminuir a produção de longa-metragens. Em 1940. tal medida (Decreto-lei 1949/39) foi instituída quando os curtas independentes ganharam um novo competidor no espaço destinado à exibição compulsória: os filmes oficiais3. bem aparelhada e com estúdios. Entre as empresas que produziram filmes de longa metragem neste período. por exemplo. Com certeza. seja agregando o mesmo complemento a várias casas de diversões. é preciso ter em conta que. Inconfidência Mineira. do Ministério da Agricultura. Rua sem Sol (1954) e Rico Ri À Toa (1957). seja dificultando a fiscalização ao exibir o filme ao final da sessão. a Cinédia produz apenas Pureza. Por outro lado. É Proibido Sonhar (1943). Ao mesmo tempo instituíram-se ainda os percentuais de locação e distribuição dos filmes de curta e longa metragem (nem sempre cumpridos) e igualou-se o prazo de permanência da exibição dos filmes nacionais e estrangeiros. que se arrastou de 1936 a 1948. além dos filmes do DIP. cinco dos oito em 1938 e três dos sete em 1939. Mas. ocorreu em dezembro de 1945 -. ao menos nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. mas que já havia produzido sucessos como Moleque Tião (1943). produzindo apenas Argila (1940). Favela dos Meus Amores (1935) e Cidade-Mulher (1936). de sete para 13 filmes. de outro legitimaram e fortaleceram um modelo de intervenção estatal. a introdução da obrigatoriedade de exibição para o longa metragem. No outro extremo. e ainda co-produziu longas com outras produtoras. a partir de 1946 nota-se o crescimento da produção de filmes de longa metragem.140 Anita Simis articularam novas formas de escapar do controle.

Tal crescimento também estava estreitamente ligado ao avanço da Atlântida. obrigando-o a adquirir um lote deles e a renda do lote. se o cinema tem um programa O público e o privado . por outro lado.Nº 14 . embora estas últimas tenham vivenciado uma crise prematuramente. era dividida por igual entre todos os filmes. antes do Decreto 4. O mesmo ocorreu com os percentuais fixos de locação. A ampliação da reserva de mercado para a exibição de longas com a modificação do critério que regulava a reserva de mercado. Com isso. a famosa “lei 8X1” de 1951. Maristela. como a transformação do filme nacional -com grandes expectativas de bilheteria.Julho/Dezembro . gerou um número maior de filmes produzidos e empurrou em 1950 a obrigatoriedade de 3 filmes de longa metragem por ano para 6. uma seqüência de outros decretos reafirmaram a obrigatoriedade de exibição e deram algum alento para a continuidade. ainda que a exigência para a exibição de filmes não tenha proporcionado um ambiente tão propício para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica estável e permanente.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 141 espaço para o produto nacional. como o relatório da Comissão Municipal de Cinema (1955)6. Assim.em cabeça-de-lote5. e. Na verdade. Com isso se em 1945 tínhamos oito. e Multifilmes. não conseguiu romper com o sistema de lote. Se é certo que esse declínio provocou reflexão e pesquisa sobre a economia do cinema. Essa conquista foi ainda completada com a exigência de um representante do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica para colaborar na fiscalização e explica. por sua vez. de um filme de longa metragem para cada oito estrangeiros para um filme de longa metragem para cada oito programas de filmes estrangeiros. em 1945. aumento que. os dois dígitos vão sendo paulatinamente num crescendo até atingirem 31 filmes em 1952. Mas. tal qual a cota de tela para o curta. as propostas do setor produtor para romper com a crise visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação e foi assim que se formulou um novo critério para a proteção à produção nacional: a reserva de mercado proporcional. prejudicando muitas vezes o produto nacional que batia recordes de bilheteria. a mudança em 1952. que continuou impedindo que filmes nacionais de sucesso se mantivessem em cartaz e ainda acarretou em distorções. as medidas tomadas amenizaram a situação.2009 5 O sistema de lote impedia o exibidor de escolher os filmes de longa metragem isoladamente. foi fruto das pressões das empresas mais ativas Cinédia e Atlântida. redigido por Jacques Deheizelin. já que o produtor não raro negociava com o exibidor um percentual menor para obter a exibição de seu filme.064/42. como vimos aumentou-se de um para três o número de filmes de longa-metragem exigidos para serem exibidos nas salas de cinema. posteriormente a Vera Cruz. bem como ao surgimento da Vera Cruz e suas primas Maristela e Multifilmes. concluindo que o principal fator de crise era o preço dos ingressos cobrados naquele momento. . 6 Referimo-nos ao trabalho chamado “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”. mas não chegaram a recuperar as empresas.

A partir da Resolução Concine n. e finalmente. 4. finalmente. /62. 84 e depois 98. Parece haver um lapso na legislação sobre o período de 1984 a 1987. depois. art. É interessante notar que não houve diferença substancial em termos do número de dias de exibição compulsória dos filmes nacionais entre 1950 e 1963. baseando-nos na cronologia da legislação. 7 Outras quatro resoluções reiteram os 140 dias para o período de 1980 a 1983.a partir de 1963. para 28. verifica-se uma queda: em 1992 a obrigatoriedade cai de 140 dias/ano para 42 dias/ano. em 1975. 171 já não especifica a programação. críticas que argumentavam ser uma proteção que antecede a uma produção de filmes significativa e de qualidade. se tem três. passa. a ser estipulada pela proporcionalidade. 2. em 1971. foi estipulada a cota de filmes nacionais para a televisão: um para cada dois estrangeiros (Decreto 50450). 8 Se avançarmos nossa análise sobre as medidas de imposição da exibição de filmes que foram tomadas ao longo do tempo. em 1994. uma moeda de troca (Getúlio Vargas atendia uma das reivindicações mais solicitadas e assim conseguia amenizar as críticas e a oposição em relação ao projeto que encomendara a Alberto Cavalcanti: o projeto do Instituto Nacional de Cinema) que um dispositivo partícipe de uma política sistêmica. em 1973. 4.140 Na verdade a proporcionalidade e as várias portarias a ela relacionadas refletem as várias pressões contra e a favor da obrigatoriedade de exibição e as formas de fiscalizá-la e significa mais um paliativo. 12. que se traduz em 42 dias de exibição. em 1961. sobre a cota de tela do curta. de 1950. 2008b). em 1973. 133 e depois 1407. de 22/10/19768). em 1978. até 1963. 4. Apenas o critério é alterado: a obrigatoriedade de exibição de seis filmes ao ano. em 1959. Em 1963. 84. consultar outro trabalho onde apresento uma retrospectiva das principais resoluções e observações sobre todo processo da chamada Lei do Curta ( SIMIS. se tem dois. a obrigatoriedade de exibição nas salas de cinema foi paulatinamente aumentando o número de dias. é fixado o critério. nem o ano e fixa em 140 dias a quota para salas que funcionam os 7 dias da semana. que em 1962 foi prorrogado pelo Decreto 446 e. entravam os filmes de curta metragem com a exigência de 28 dias por ano. 3. Em 1988. em 1951.Atualm. do número fixo de dias de exibição por ano. em 1970. e também corresponde no mínimo a 42 dias de exibição. ainda hoje utilizado. . em 1969. Podemos dizer que o critério da proporcionalidade não chegou a aumentar a cota de tela e ainda gerou críticas ainda mais incisivas. que. 63. Concine n.142 Anita Simis semanal. 112. 56 dias por ano. a partir do governo Collor. podemos resumir assim a temática: 1. 18 e assim por diante. a Res. alterada para um filme nacional por semana na televisão que não exceder 50% do preço médio de filmes para a TV (Decreto 697). seis filmes deveriam ser nacionais. 35 dias por ano (esta só vai ser revogada pela Res. 1. foi de 42 dias.

foi a prevalência da ideologia neoliberal que refletiu na política cinematográfica e temos um novo ciclo. Assim. ou local de exibição geminados ou não. estipula-se filmes de longa metragem por 63 dias por ano10. novamente 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano e em 2006. que durante o período do regime militar a obrigatoriedade para filmes nacionais alcançou o seu ponto máximo: 140 dias por ano nas salas que mudassem sua programação de uma a três vezes por semana e funcionassem sete dias por semana. Com o desaparecimento de diversos mecanismos e instituições na área O público e o privado . é o que efetivamente passou a vigorar em 2008. a cota de tela certamente contribuiu para incentivar uma produção de mais de meia centena de filmes e sem dúvida chegou aos 140 dias. realizada por Alfredo Palácios no início dos anos 60 e seguida de Cidade Aberta e Águias de Ouro. 10 Para o ano de 2004 ficou fixado em sessenta e três dias por sala.2009 9 O Decreto fixa o número de dias por ano em que deverão ser exibidos filmes nacionais nos cinemas de acordo com o número de salas das empresas cinematográficas.Nº 14 . portanto ainda sob o regime militar. .Julho/Dezembro . o mesmo que foi estipulado em 200711. a produção não parece ter avançado depois disso. portanto. Talvez não seja exagero afirmar que. em 2003. e a partir de então ela irá oscilar para cima e para baixo e em função do número de salas: em 1996. sobe para 2 filmes de longa metragem por 35 dias (para uma sala) por ano. após termos produzido. em 1978. 3. que o filme na televisão já era uma realidade que avançava e. volta-se para 2 filmes de longa metragem por 28 dias (para uma sala) por ano. neste mesmo ano. podemos afirmar que a obrigatoriedade de exibição é fruto e ao mesmo tempo agente (até porque em diversos momentos forçaram o seu aumento). em 1997. a partir do governo Collor. o que foi estipulado em 2007. principalmente os financiamentos realizados primeiro com o Instituto Nacional de Cinema e depois com a Embrafilme. ou seja. a primeira centena. 2. Neste período outras formas de intervenção se articularam. Esse resumo sugere algumas observações interessantes: 1. embora os reflexos dessas medidas no cinema nacional sejam difíceis de avaliar. localizados em um mesmo complexo e pertencentes à mesma empresa. 35 dias (para uma sala) por ano9. 11 Esclarecemos que as datas aqui se referem à data da legislação. sobe para 49 dias.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 143 5. No entanto. analisando o ritmo da produção neste período. notada pelos cineastas brasileiros como uma nova janela para se desenvolver. segundo consta de seu registro na Agência Nacional do Cinema . Assim. em 2000 baixa para 28. espaço. em 2004. em 2002. mesmo sem prever financiamento. a legislação para esta modalidade tenha incentivado a produção da primeira série de filmes para a TV da América Latina: Vigilante Rodoviário. a partir de 1968. embora já respirando o ar da democracia.

sob diversos governos e regimes. para 196). por exemplo. Nos cinemas entre cinco e oito salas.287) tinha razão quando afirmava que o produtor “se interessa por uma legislação de amparo ao cinema . p. por exemplo. desde sua criação em 1948 (Cf. a obrigatoriedade recuou para um número de dias muito inferior e mesmo assim. mas tornou a legislação cada vez mais complexa. antes obrigados a projetar produções nacionais por 84 dias (somadas ambas as salas. os filmes brasileiros passaram a ter menos espaço nos cinemas menores e ganharam nos complexos com mais salas. as cotas representaram cerca de 14% do mercado para filmes nacionais. obrigatoriedade de exibição ou cota de tela (ou ainda cota de projeção). A redução valeu também para os cinemas com três (de 147. com diferentes modalidades e ainda o é. aumentando a intervenção do Estado e. existentes sob o mesmo teto e pertencentes à mesma empresa: entre 1997 e 2003. que em 2006 eram obrigados a exibir pelo menos 35 dias de filme nacional por ano. por isso mesmo muitas vezes fortalecendo posições e atores autoritários. cinemas de apenas uma sala.144 Anita Simis cultural e cinematográfica. em 2007 foram obrigados a passar filmes brasileiros por só 28 dias. no total. inúmeras salas deixaram de cumprir a obrigatoriedade de exibição. as cotas permaneceram as mesmas (280. isto é. SIMIS. ela sobe um pouco: 49 dias em 1997. A partir de então. Uma avaliação genérica sobre a reserva de mercado. em cada caso). Paulo Emílio Sales Gomes (1981. Foi também utilizado em diversos países e por isso mesmo curiosamente constituiu-se na única exceção entre os dispositivos constantes no GATT. para 126) e quatro salas (de 224. espaços ou locais de exibição comercial geminados ou não. especialmente nos períodos ditatoriais. foram abertas 546 salas Multiplex no Brasil. este expediente foi usado no Brasil durante anos. certamente concluiria que ela contribuiu para a sobrevivência da produção nacional na medida em que garantiu a exibição dos seus filmes. os complexos exibidores formados por salas. 378. 1999). Assim. FSP Filme nacional perde dias de exibição em cinema pequeno 30/12/06 Conclusão Chamada de reserva de mercado. agora passaram que exibi-las por 70 dias ao todo (35 em cada). em 2007. Em 2000 há uma alteração na legislação em decorrência das profundas transformações do setor exibidor. Posteriormente. Em 2006. o que correspondia a 42 dias em cada). Os de duas salas. por meio de recursos impetrados. embora sob diferentes modalidades. 441 e 448.

Cinema Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme. não havia uma projeto para o desenvolvimento da indústria cinematográfica e a cota de tela era apenas um dispositivo emergencial. vol.Julho/Dezembro . “Situação Econômica e Financeira do Cinema Nacional”. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. ainda em seu primeiro período democrático. Neste sentido. percebe-se que se com Vargas o cinema estava inserido num projeto mais geral. screen quota.” Assim. O público e o privado . Artigo Recebido: 10/11/2008 Aprovado: 05/12/2008 politics turned to the audiovisual production. Mesmo assim. GOMES. K ey W ords: Words: brazilian cinema.A contribuição da cota de tela no cinema brasileiro 145 nacional mas não passa por sua cabeça que o objetivo final possa ser o de colocar os filmes brasileiros em pé de igualdade com os estrangeiros. 1955 (mimeo). São Paulo. Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura de São Paulo. GOMES. outros atores irão compor o cenário.240/32). que impõe cotas de programação nacional aos canais de TV paga e obriga as operadoras a oferecer mais canais de conteúdo nacional. dificilmente irão contribuir para o desenvolvimento de produtoras de audiovisual fortes e estáveis. que seja o resultado de um diagnóstico da atual situação do audiovisual.2009 . 1980. exhibition obligation. ou seja. this work analyses one of the most used instruments to increase the cinematographic production in Brazil. Paulo Emílio Sales. Referências COMISSÃO Municipal de Cinema.Nº 14 . fica a questão: é uma disputa que irá fortalecer nossa produção audiovisual. por mais sedutoras que possam parecer.2. comparando-se o período da política implementada por Getúlio Vargas (Decreto 21. Crítica de Cinema no Suplemento Literário Literário. sem estarem inseridas em um projeto integrador. com diversos outros períodos. nos outros governos as medidas visavam apenas resolver os problemas mais imediatos decorrentes das ambigüidades e falhas da legislação. 1981. deslocando a grande disputa entre cineastas e o tradicional exibidor das salas de cinema para os produtores de conteúdo audiovisual e os programadores de mídias. Paulo Emílio Sales. the so called screen quota. do deputado Jorge Bittar. com prioridades e metas claramente definidas. diversificado conteúdos e empregando um contingente expressivo de trabalhadores? ABSTRA CT : Trying to contribute to enlarge the field of studies about the cultural ABSTRACT CT: 12 Ver sobre o Projeto de Lei 29/2007. mesmo as medidas que hoje tem proposto novas cotas em novas mídias. RJ: Paz e Terra.12 É possível inclusive identificar desde já que se as formas de como reservar parte do tempo de exibição de filmes nos cinemas foram mudando ao longo dos anos e incorporaram sempre novas fórmulas para exigir que fossem cumpridas. especialmente a televisão aberta ou por assinatura.

ano I. Anita.Revista do Grupo SIMIS. Cenários . Estado e cinema no Brasil 2008a. In: Revista SIMIS. .politicasculturaisemrevita. Anita. Araraquara. nº 9. 1. Revista SIMIS. de Estudos Interdisciplinares Sobre Cultura e Desenvolvimento. 2008b. olítica olítica. 1.75 a 80. In: Políticas Culturais em R evista no. . n. p. evista. 2008. Acesso em: 20 ago. Cinema e cineastas em tempo de Getúlio Vargas. 1999. 2ª edição.146 Anita Simis Brasil. Concine 1976-1990. 103-9.ufa. Annablume. SIMIS. Disponível em www. . Curitiba: Departamento de Ciências Sociais da Política de Sociologia e P UFPR. O GATT e o Cinema Brasileiro. 1.br. vol. Anita. São Paulo. Anita. 1997. p.

un recorrido por los sistemas nacionales de clasificación de contenidos audiovisuales que en la actualidad afectan al consumo de un gran número de productos culturales. I ntroducción Uno de los debates actuales en el campo de las ciencias sociales tiene como eje los potenciales efectos nocivos de algunos contenidos audiovisuales. esboza una serie de reflexiones acerca de los retos y las perspectivas que hoy en día plantean los sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales tanto para los organismos estatales y los agentes de las industrias culturales como para distintas organizaciones de la sociedad civil involucradas. Palabras-chave: Audiovisual. Ministerio de Educación y Ciencia. 147 Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España** An open debate: The classification systems of audio-visual in Spain Luis A. políticas públicas. autoregulación.Julho/Dezembro . Una primera versión de este artículo fue presentada al 1er. especialmente aquellos dirigidos a niños y adolescentes. Albornoz* Resumen: El presente artículo propone. sociedad y televisión en España (19562006).(*) Luis A. A modo de conclusión. Ante este panorama emerge con fuerza la demanda de indicadores claros y objetivos que ayuden a conocer qué tipos de productos audiovisuales son los más adecuados para los diferentes grupos de edades.2009 (** (**)Este trabajo se ha realizado en el ámbito y con la ayuda del proyecto Cultura. sistemas de clasificación. Albornoz é Profesor da Universidad Carlos III de Madrid. Congreso Nacional de . como películas cinematográficas. considerados como los colectivos más vulnerables de la población1. considerando la realidad española. E-mail: lalbornoz@falternativas.org. programas de televisión o videojuegos. Dirección General de Investigación 2006/ 03962/001. Las distintas sociedades han establecido diferentes O público e o privado .Nº 14 .

en el marco de las democracias capitalistas. Jóvenes y Medios de Comunicación (con el apoyo de la U N E S C O ) : www. . en el segundo. Universidad de Sevilla.que atañen básicamente a tres tipos de productos: películas cinematográficas. 7-11 y 11-16 las que se corresponden con la capacidad de realizar tareas mentales” (Shor.148 Luis A. lo cual puede generar importantes obstáculos a la Las películas cinematográficas: control estatal Mientras que en Estados Unidos la clasificación de largometrajes y cortos cinematográficos corre por cuenta de la propia industria a través de la patronal Motion Picture Association of America (MPAA). Al respecto ver los trabajos que desde 1998 vienen editando las investigadoras Cecilia von Felitzen y Ulla Carlsson en el Centro Internacional de Intercambio de Información sobre Niños. ¿es posible que recaiga en grupos sociales significativos o colectivos profesionales? Así cada sociedad se ha dotado de diferentes mecanismos donde la regulación y la auto-regulación del sector se manifiestan como los principales.php?portal=publ. En los últimos años.nordicom. en los países que integran la Unión Europea la calificación de las obras audiovisuales corre por cuenta de organismos estatales3. comunicación y cultura”. Si en el primer caso el Estado dicta las reglas de juego. se han ensayado nuevos sistemas de clasificación. El más común de éstos. controla su cumplimiento y sanciona a los infractores. 17 de noviembre de 2006. el cual distingue distintas etapas para las edades 3-7. “La mayoría de los investigadores sigue un modelo de desarrollo piagetiano.). Universal y Warner Bros. que aglutina a los principales estudios (Paramount. 3 Si bien la mayoría de los Estados posee nociones similares sobre conceptos como pornografía o incitación a la violencia. la arista política del debate pasa por determinar quién o quiénes tienen el deber y la responsabilidad social de establecer las relaciones entre determinados productos audiovisuales y determinadas franjas de edades: ¿son los poderes públicos?. 2 1 mecanismos de defensa que tienen por finalidad ofrecer una guía a los responsables de los menores (padres y/o tutores) sobre las características de los productos audiovisuales en circulación. sector privado y sociedad civil. o diversos dispositivos de identificación de usuarios para poder utilizar dispositivos electrónicos. Albornoz ULEPICC-España “Pensamiento crítico. programas de televisión (y spots publicitarios) y videojuegos / juegos de PC. Sony Pictures. ¿deben ser las propias empresas productoras y distribuidoras?.gu. que complementan la clasificación por franjas de edades. 20th Century Fox. los criterios de calificación de las obras audiovisuales no se encuentran armonizados. Ahora bien. En el caso español. Disney. en un contexto caracterizado por un crecimiento de la oferta audiovisual y la multiplicación de canales/soportes de acceso a ésta. como los denominados “pictogramas de temática”. 2006 : 33). son los principales agentes privado-comerciales los encargados de establecer sus propios criterios y de auto-cumplirlos voluntariamente. es la clasificación de contenidos por franjas etarias basada en criterios de índole psicopedagógica referidos al desarrollo evolutivo de los niños2. el sistema audiovisual cuenta con sus propios sistemas de clasificación de contenidos audiovisuales -los cuales implican distintos tipos de relaciones entre Estado.se/ clearinghouse.

Para que una obra sea calificada debe presentarse al ICAAA una solicitud junto con una copia de la película (en el caso de aquellas películas no habladas en alguna de las lenguas oficiales -castellano.Nº 14 . . Existe una comisión encargada con carácter exclusivo.mediacat. se recomendó: “se debería estudiar la adopción de sistemas análogos de calificación para el cine. educadores. Para todos los públicos. Así en las conclusiones del s e m i n a r i o “Seguimiento de la Comunicación sobre el futuro de la i n d u s t r i a cinematográfica y audiovisual” (Ministerio de Educación. asume esta tarea. el DVD y la televisión. del mundo audiovisual. Ver en la Web: www. principalmente. al mecanismo poco transparente de elección de los responsables de calificar la producción cinematográfica (la cual es presidida por el responsable del ICAA y sus vocales. psicólogos. No recomendada para menores de 18 años de edad.2009 circulación de algunas las películas. entre otros elementos. Película X (No aptas para menores de edad debido a su carácter pornográfico y/o al empleo de imágenes violentas. a través de una comisión encargada de dicho menester conformada por representantes de asociaciones de padres. Actualmente (finales de octubre de 2006).doc. tiene validez en todo el territorio español. No recomendada para menores de 7 años de edad. distribuidores y exhibidores que la protección de la defensa de los niños y jóvenes. y los ministerios de O público e o privado . la Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas. organismo dependiente del Ministerio de Cultura. La actuación de la Comisión de Calificación ha recibido críticas diversas de grupos conservadores debido. La calificación de las obras cinematográficas. Estás obras sólo pueden exhibirse en salas X). que respetando sus diferencias culturales otorguen una seguridad a la circulación de obras y películas”.com/media/docs/ 68218096.que. Cultura y Deporte de España con apoyo de la Comisión Europea). se está estudiando la promulgación de una nueva normativa -reemplazaría la actual Ley 15/2001.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 149 En España cualquier película antes de su exhibición pública (incluyendo las promociones) debe ser calificada obligatoriamente. que aplica el sistema siguiente Sistema de clasificación por edades a las películas cinematográficas u obras audiovisuales: Especialmente recomendada para la infancia.debe incluirse la traducción de los diálogos). entre siete y diez. eusquera o gallego. son nombrados por el Ministerio de Cultura) y a la sospecha de que a la hora de calificar muchas películas pesan más los criterios económicos que favorecen a productores. apuntaría a reestructurar la calificación de películas por edades. regida según el Real Decreto 81/1997. celebrado en mayo de 2002 en Sevilla. No recomendada para menores de 13 años de edad. Una Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas que pertenece al Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA). catalán. de fomento y promoción de la cinematografía y el sector audiovisual audiovisual.Julho/Dezembro . de 9 de julio.

así como la Oficina de Defensor del Menor y los consejos audiovisuales.4 millones de euros. el pasado 9 de diciembre de 2004 el actual Gobierno español. Cultura. Albornoz Ver Borja Hermoso: “El Gobierno pretende financiar el cine español gravando el El americano”. la emisión Los programas de televisión: la apuesta por la autorregulación Como señala el informe “Programación infantil en televisión: orientaciones y contenidos prioritarios” (2005). A diferencia de lo que ocurre en la industria cinematográfica. Internet. en resumidos términos. Asuntos Sociales. Turismo y Comercio. Madrid. durante 2005 abrió 107 expedientes que acabaron con 25 multas por un total de 3. y Net TV) y las televisiones públicas de ámbito regional. Sin embargo. parcialmente5. los contenidos televisivos dedicados a niños y adolescentes son una permanente preocupación de expertos. A éste se sumaron durante 2006 las nuevas televisiones hertzianas nacionales (Gestora de Inversiones Audiovisuales La Sexta.000. videojuegos. en marzo de 2005 entró en vigor el “Código de Autorregulación sobre contenidos Televisivos e Infancia”10 que.7 millones de euros. la infancia y la educación. fuera del horario protegido. tiene la competencia de controlar el contenido de las e m i s i o n e s televisivas. en manos del Partido Socialista Obrero Español (PSOE). Gestevisión Telecinco. Durante 2004 la Secretaría abrió 147 expedientes por infracción de la legislación vigente en cuestiones relacionadas con los contenidos. en manos de los propios licenciatarios. La Secretaría de Estado de Telecomunicaciones y para la Sociedad de la Información.150 Luis A. debemos señalar que desde 1994 rige en territorio español un horario de protección al menor -contemplado en la Directiva europea de Televisión sin Fronteras6. elaborado por el Instituto Oficial de Radio y Televisión (IORTV) de Radiotelevisión Española (RTVE) y la Dirección General de las Familias y la Infancia. En medio de una amplia polémica por la calidad de los programas emitidos por los operadores hertzianos de ámbito nacional. Justicia.que abarca una franja horaria que se extiende desde las 6:00 horas de la mañana hasta las 22:00 horas de la noche. La Sexta). la existencia de tal franja no garantiza la pretendida protección ya que “cerca de 800. establece: . dependiente del Ministerio de Industria. más allá de las 00:00 horas”7. Antena 3 de Televisión y Sogecable) el “Acuerdo para el fomento de la autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia”8. agrupadas en la Federación de Organismos de Radio y Televisión Autonómicos (FORTA)9. Como consecuencia de la firma de este acuerdo. Dicha plural comisión tendría a su cargo la calificación de “todas las obras audiovisuales que vayan a ser emitidas o exhibidas en salas. profesionales. Los expedientes tuvieron sus orígenes en la emisión excesiva de publicidad. firmó un acuerdo con las principales compañías de televisión (Televisión Española. 7 de octubre de 2006. los c a m b i o s injustificados en los contenidos de las parrillas.000 niños y niñas ven televisión después de las 22:00 horas. investigadores y Administraciones relacionadas con la televisión. Veo TV. y unos 200. Mundo. de los cuales 34 se transformaron en multas por un total de 3. televisión. etcétera”4. En primer término. la regulación de los contenidos televisivos en España está. 5 4 Educación. del Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales.

incluso desarrolle los principios del código estableciendo mayores exigencias. No recomendados para menores de 13 años de edad (NR 13).Julho/Dezembro . de 8:00 a 9:00 horas y de 17:00 a 22:00 horas. Para todos los públicos. en multitud de regulaciones diversas: sobre la protección de la infancia y la juventud. dirigido a los padres y/o tutores de menores de edad. Una diferencia entre “público infantil” (menores de 13 años de edad) y “público juvenil”. Se fijan unas guías o principios inspirados. las cadenas se comprometen a poner especial cuidado en la aparición de los menores en los programas de entretenimiento. sobre la protección de la salud y del derecho al honor. tríptico publicado por el Instituto de RTVE y el Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales.”. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (Madrid.rtve. Normas de señalización de las emisiones televisivas. reglamentarias y administrativas de los Estados miembros relativas al ejercicio de actividades de radiodifusión t e l e v i s i v a . en normas que ya se encuentran en vigor. A fin de evaluar el cumplimiento del Código se han puesto en funcionamiento dos órganos: un Comité de Autorregulación compuesto por operadores. o que. de 3 de octubre. modificada por la Directiva 97/36/CE.Nº 14 . elaborada teniendo en consideración las calificaciones por edades otorgadas por el ICAA a las películas cinematográficas (en especial las no recomendadas para los menores de 13 años de edad): Especialmente recomendadas para la infancia. Estas franjas horarias abarcan los siguientes días y horarios: lunes a viernes. sobre publicidad. O público e o privado . domingos y festivos nacionales.2009 de publicidad encubierta o perjudicial a menores. fundamentalmente. 2006). modificada por la Ley 22/1999. etc.es/oficial/ 7 . las televisiones se comprometieron a “respetar unos principios de protección de los menores en la programación que se emite durante el horario señalado evitando la emisión de determinados contenidos y fomentando el control de de los padres para facilitar una selección crítica de los programas. y el exceso de interrupciones durante la emisión de programas. Mediante la suscripción al código. 6 Directiva 89/552/ CEE del Consejo. sobre la coordinación de determinadas disposiciones l e g a l e s . No recomendados para menores de 7 años de edad (NR 7). y establece una “franjas de protección reforzadas” para el primero en las cuales no pueden emitirse programas calificados como no recomendados para menores de 13 años de edad. de 9:00 a 12:00 horas. del Consejo de la Comunidad Europea. Disponible en la Web: www. La transposición española se realiza a través de la Ley 25/ 1994. “Infancia y c o n t e n i d o s audiovisuales.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 151 Una tipología de programación compuesta por cinco categorías de programas. pero de manera dispersa. y sábados. los informativos y la publicidad”. Desde el preámbulo del Código de Autorregulación se subraya que el mismo es sólo una suerte de común denominador de mínimos iluminado por normativas en uso: “La adopción de este código no impide que cada operador mantenga su propia línea editorial o normas deontológicas internas. No recomendados para menores de 18 años de edad (NR 18). Adicionalmente.

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i o r t v / tripticoinfancia.pdf (consultado el 20.X.2006).
8

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ Te x t o s / A c u e r d o / Acuerdo.htm.
9

productores de contenidos y periodistas, cuya misión es emitir dictámenes relativos a las dudas o quejas que puedan plantearse; y una Comisión Mixta de Seguimiento integrada por ocho miembros representantes de los canales de televisión, productoras, periodistas y asociaciones de padres, de telespectadores y de protección de la infancia y la juventud. Esta última Comisión ha puesto, en marcha, entre otras iniciativas, el sitio web TVInfancia.es (www.tvinfancia.es) donde los telespectadores pueden encauzar sus reclamaciones. A falta de un organismo regulador independiente en materia audiovisual 11 que vele por el cumplimiento del Código, la responsabilidad cae en los televidentes. El pasado mes de junio de 2006 la Comisión Mixta de Seguimiento dio a conocer su primer informe -de carácter obligatorio, anual y público- en relación al cumplimiento del Código. En el mismo se indica que el Comité de Autorregulación recibió un total de 124 quejas por la difusión de contenidos potencialmente perjudiciales para menores; se trató, principalmente de imágenes violentas, amenazas, empleo de lenguaje inapropiado y discriminación por razones de sexo. GRÁFICO 1: RECLAMACIONES SOBRE TV POR TEMAS

La auto-regulación de contenidos no es nueva en el panorama español; ésta registra su primer antecedente en el año 1993 cuando los operadores de televisión firmaron un primer acuerdo destinado a salvaguardar la infancia y la juventud de contenidos potencialmente nocivos.
10

17% 40%

Ver en la Web: www.tvinfancia.es/ T e x t o s / CodigoAutorregulacion/ Codigo.htm.
11

Comportamientos sociales Violencia Sexo 23% Temática conflictiva

20%

Cuya creación ha sido sugerida tanto por el Consejo de E u r o p a (Recomendación 23 del año 2000) como por el Consejo para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado en su Informe (febrero de 2005).

Fuente: Comisión Mixta de Seguimiento del Código de Autorregulación de Contenidos Televisivos e Infancia, Madrid, junio de 2006. Todos los porcentajes se han redondeado al entero más próximo.

Del total de 124 quejas recibidas, la gran mayoría de éstas (el 87,9 por ciento) fue dirigida contra las emisoras privado-comerciales Tele 5 y Antena 3. Sin

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

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embargo el Comité sólo estimó doce (seis a cada una de las emisoras nombradas), es decir un 10,6 por ciento… a todas luces un porcentaje muy bajo. Tanto los representantes de agrupaciones de espectadores, como la Asociación de Usuarios de la Comunicación (AUC) o la Agrupación de Telespectadores y Radioyentes (ATR), como los defensores del Pueblo o del Menor de la Comunidad de Madrid coincidieron en calificar de “decepcionante” el resultado de la aplicación del Código de autorregulación. Así, por ejemplo, el tercer informe presentado por la ATR12 establece que a excepción de La 2, de Televisión Española (TVE), el resto de las señales no han modificado su programación con la finalidad de cumplir con el Código. Asimismo, en relación al sitio TVInfancia.es el informe concluye que “una página web que podría haberse convertido en una eficaz plataforma para el diálogo social (…) ha resultado ser un instrumento poco actualizado, poco visitado y, de momento, ineficaz como cauce para canalizar las reclamaciones sobre niveles de cumplimiento del Código. No existen de momento datos en la web de las quejas planteadas y las resoluciones emitidas por el Comité”.

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Los videojuegos: la escala europea
Otro frente polémico que ha impulsado la necesidad de contar con un sistema de clasificación es el abierto por los videojuegos, gran puerta de acceso a la producción multimedia para la nueva generación. Consiente de las numerosas críticas que despertaron entre padres y educadores el contenido violento de varios de los videojuegos más vendidos, el primer impulso de clasificación de contenidos provino del sector privado. En abril de 2001 la Asociación de Española de Distribuidores y Editores de Software de Entretenimiento (AEDESE) impulsó un Código de Autorregulación, con el apoyo de las Administraciones Públicas de Consumo y Protección del menor. Sin embargo, como consecuencia de la integración económico-jurídica de los países miembros de la Unión Europea, las distintas reglamentaciones sectoriales de carácter nacional están siendo modificadas y “armonizadas” a nivel continental. Así, con la participación de gobiernos, empresas creadoras y distribuidoras, se ha impulsado la creación de una catalogación a nivel europeo: el código PEGI13. Se trata del primer sistema a escala europea, gestionado por miembros de la industria junto al Instituto Holandés de Clasificación de Material Audiovisual (NICAM), en establecer una clasificación por edades para los videojuegos y los juegos de
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

ATR-Villanueva: “III Informe ATRVillanueva. Seguimiento del Código de Autorregulación (firmado el 9 de diciembre de 2004). Horario de protección reforzada de la infancia”, Madrid, 15 de junio de 2006. Este informe da cuenta del trabajo de campo realizado a partir del visionado de la programación emitida por seis televisiones de ámbito nacional (TVE 1, La 2, Antena 3, Cuatro, Tele 5 y La Sexta ) y una de ámbito autonómico (TeleMadrid) de lunes a viernes entre el 6 y el 31 de marzo de 2006 entre las 17:00 y las 20:00 horas. Disponible en la Web: w w w . a t r. o r g . e s / d o w n l o a d s / III_INFORME_ATR.pdf.
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PEGI son las siglas correspondientes a Pan European Game Information (Información Paneuropea sobre Juegos). Ver en la Web: www.pegi.info/ pegi/index.do.

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ordenador14 cuya finalidad es proporcionar a padres, compradores y consumidores online “una mayor confianza al saber que el contenido del juego es apropiado para un grupo específico de edad”15. El sistema PEGI, vigente en 27 países europeos (IEAB, 2006), entre los que se cuenta España, es más complejo que los vigentes en el territorio español para las películas cinematográficas y los programas de televisión. Se trata de una doble catalogación: por franjas etarias y por tipos de contenidos a través de “pictogramas de temática” (cinco categorías teniendo en consideración el contenido didáctico, agresivo o violento del videojuego): a) Clasificaciones por edades: es señalada mediante un pictograma que contiene un número y el signo +, indicando que el videojuego sólo es apto para personas mayores de una determinada edad. Los pictogramas son los siguientes:

Las clasificaciones del PEGI se aplican también a los productos vendidos a través de la red Internet, jugados o descargados en un entorno de juego online, o que estén incluidos en los discos de revistas.
15

14

b) Clasificación por tipos de contenidos: diferentes pictogramas advierten que el videojuego contiene una o varias de las siguientes temáticas:

Lenguaje soez soez. El juego contiene palabras malsonantes.

Asimismo, las clasificaciones del PEGI “tienen la finalidad de establecer una recomendación sobre el contenido del producto y sobre su idoneidad de visión pero no valoran su jugabilidad o accesibilidad”.

Discriminación Discriminación. El juego contiene escenas o argumentos que pueden favorecer la discriminación, entre sexos, entre razas o entre religiones. Drogas Drogas. Por ejemplo, el juego contiene escenas en las que se habla de drogas, se usan drogas o se hace apología de las drogas. Miedo Miedo. El juego contiene escenas de miedo que pueden asustar al menor.

Ante esta situación el capítulo español de Amnistía Internacional (AI) viene exponiendo reiteradamente su preocupación por la desprotección de la infancia y denuncia que el Gobierno delega la protección de los menores en las empresas privadas de videojuegos. 2007). Atari. en 2003. Sony. los principales fabricantes y distribuidores (agente de primordial importancia en países importadores) de videojuegos: Planeta Interactive.2006). Ahora bien. Activision. nos hace reflexionar acerca de la efectividad final del empleo del Código PEGI. iolencia. . se han adherido al sistema PEGI. Microsoft. conversaciones sobre sexo o apología del sexo. ya que éstos (puede tener uno o más de uno por cada videojuego) siempre están en función de la edad. Ubisoft. El juego contiene escenas de sexo.Julho/Dezembro . Vivendi. Nokia y Take Two Interactive. es decir que un videojuego para 16+ clasificado como violento será más violento que uno con la misma clasificación para 12+. Según AI la clasificación del Código PEGI con frecuencia es poco rigurosa y confusa. ya que la información suministrada por los iconos no es suficiente para conocer el contenido del producto. Abajo: “Los videojuegos se acercan a los adultos y a las chicas”. cuarto mercado europeo de videojuegos y consolas que en 2005 facturó unos mil millones de euros16. CincoDías. 06. Electronic Arts. En España.Nº 14 . 2006) o que se constate que “los puntos de ventas de videojuegos no disponen de medidas para controlar el acceso de los menores a contenidos no adecuados para su edad” (AI. Violencia Los pictogramas temáticos vienen a complementar la clasificación por franjas etarias. Asimismo algunos videojuegos exitosos con varias secuelas estrategia empleada por numerosas empresas de la industria del sector. el hecho que una reciente encuesta realizada en España demuestre que un 33 por ciento de los menores juega con videojuegos clasificados para mayores de 18 años de edad y que un 15 por ciento desconoce la clasificación de los juegos que utiliza (IORTV/MTAS. En palabras de Estaban Beltrán.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 155 Sexo Sexo. El juego contiene escenas violentas. Virgin Play.com. Proein.pueden contener índices de edades o pictogramas de temática diferente a los anteriores.VI.2009 16 Sin embargo solamente un dos por ciento de los programas comprados fueron desarrollados en España (Carlos G. FX Interactive. director de AI España: “Basar la protección de los menores frente a contenidos que banalizan las violaciones de los O público e o privado . Madrid.

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derechos humanos exclusivamente en un código de libre adhesión por parte de las empresas de software de entretenimiento es una dejación de responsabilidad por parte del Estado. Las empresas que lucran, legítimamente, en el mercado del videojuego no pueden ni deben ser a la vez garantes de los derechos de los niños y niñas” (AI, 2007). A nivel europeo, el actual Comisario responsable de Justicia, Libertad y Seguridad de la UE, Franco Frattini, expresaba a finales de 2006, que si bien la influencia en los menores de imágenes violentas varía en función de una multiplicidad de factores (el bien estar del niño, el nivel educativo y de desarrollo mental, el nivel económico de la familia, la presencia activa de los padres o tutores, etc.), éste es un problema de Salud Pública. Es preciso, en palabras de Frattini, complementar la información suministrada a los consumidores por el Código PEGI con la educación acerca de los medios de comunicación (media literacy) y las soluciones técnicas que impidan el acceso indiscriminado a cualquier tipo de contenidos.

Las nuevas redes digitales: el caso de la telefonía 3-G
Las nuevas redes digitales (como la red Internet o las redes de telefonía celular) junto a los terminales móviles (consolas, ipod, agendas electrónicas) son canales y soportes para la difusión y visionado de productos audiovisuales de todo tipo. Si tomamos en consideración a la telefonía móvil, por ejemplo, encontramos que la tercera generación de aparatos receptores (3G) no sólo permite la navegación a través de Internet sino que admite la descarga de programas, el intercambio de correo electrónico o la mensajería instantánea. Ante las posibilidades brindadas por las redes y soportes digitales, tradicionales y nuevos proveedores de contenidos se posicionan. Así, la industria erótico-pornográfica ha encontrado un novedoso y lucrativo canal de distribución. El informe “Mobile to Adult–Personal Services, Third Edition” (septiembre de 2006), de la consultora Juniper Research, estima que durante el presente año las ventas mundiales de contenidos distribuidos a través de las redes y dispositivos móviles alcanzarán los 1.400 millones de dólares y que en 2011 superarán los 3.300 millones de dólares (una media anual de crecimiento del 19 por ciento). Frente a este inquietante escenario las propias firmas industriales y los gobiernos de una minoría de países han comenzado a crear e implementar medidas tendentes a impedir que algunos contenidos estén al alcance de cualquier usuario.

Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España

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Así, por ejemplo, del lado corporativo podemos señalar la iniciativa del Independent Mobile Classification Body (IMCB / www.imcb.org.uk), asociación conformada por los operadores de telefonía móvil británicos (Orange, O2, T-Mobile, Virgin Mobile, Vodafone y 3). Ésta, a principios de 2004, desarrolló un código de prácticas17 que incluye la categoría “Adulto”, la cual incluye pornografía dura (hardcore) y blanda (softcore), apuestas online, violencia, juegos, salas de chat y algunos servicios premium de mensajes cortos. Por el lado de las actuaciones de los poderes públicos, podemos referirnos a la acción del gobierno de Israel, país que cuenta con 6,3 millones de usuarios de telefonía móvil, lo cual representa una penetración de la telefonía celular del 95 por ciento. Desde finales de 2004, el Ministerio de Comunicaciones de este país obliga a los operadores que prestan servicios en su territorio a que éstos exijan a sus clientes la introducción de un código para poder acceder a servicios para adultos. La situación en España, país que cuenta con más líneas de teléfonos móviles que habitantes18, no parece ser diferente. Proveedores de contenidos, como por ejemplo Olemovil.com (www.olemovil.com), ofertan en sitios web y medios impresos, vídeos (“Video strippers y más…”), juegos (“Susana Reche, sexy poker), videollamadas (“se lo montan con la música en cada llamada”) o gemitonos (el teléfono suena con los gemidos de un/a chico/a o pareja) de carácter erótico o pornográfico. Las opciones para los vídeos sexualmente explícitos van desde el visionado único (streaming) a la descarga en el terminal. Un estudio realizado por la asociación Protégeles entre dos mil niños y niñas madrileños de 7 a 11 años de edad reveló que un 9 por ciento de los menores que dispone de teléfono móvil recibió imágenes pornográficas en su terminal. Asimismo el estudio expone: “Es cada día más frecuente la recepción de mensajes de publicidad de todo tipo a través del teléfono móvil. Son especialmente preocupantes aquellos que incitan a los menores a participar en concursos y juegos de azar tipo ‘casino’. Respecto a esta cuestión, el 72 por ciento de los menores afirma haber recibido SMS invitándole a participar en sorteos o juegos de azar” 19. Ante las inquietudes que despierta la posibilidad que los menores de edad accedan a contenidos nocivos o ilegales a través de la telefonía móvil, los principales operadores han entrado en negociaciones con empresas que crean dispositivos capaces de filtrar contenidos indeseados al permitir la recepción sólo de mensajes que provengan de emisores que se encuentran en la lista de contactos del usuario, establecer restricciones horarias para el uso del terminal y filtrar imágenes según su categoría20.
O público e o privado - Nº 14 - Julho/Dezembro - 2009

“UK Code of Practice for the SelfRegulation of New Forms of Content on Mobiles”, 19 de enero de 2004. Disponible en la Web: w w w . t mobilepressoffice.co.uk/ company/contentcode.pdf. El informe “Estadísticas del sector-IV trimestre de 2006” dado a conocer por la Comisión del Mercado de las Telecomunicaciones informó la existencia de 46,2 millones de líneas de telefonía móvil para una población cercana a los 44 millones de habitantes (tasa de penetración: 103,4 por ciento). “Seguridad infantil y costumbres de los menores en el empleo de la telefonía móvil”, Madrid, 2004. Disponible en la Web: www.protegeles.com/ telefonia.doc.
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En este sentido la firma de seguridad informática Optenet anuncia que “dichos sistemas están ya desarrollados y se están generalizando en países como

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Reflexiones Finales
A continuación ofrecemos una serie de reflexiones acerca de los vigentes sistemas de clasificación de productos audiovisuales en España: - Falta de coordinación entre los sistemas de calificación Al principio fue el cine, luego la radio, décadas después la televisión… hoy son las nuevas redes y soportes digitales que permiten la distribución, intercambio y visionado de contenidos audiovisuales y multimedia. Frente a este escenario novedoso y altamente complejo (mayor número de agentes, de productos audiovisuales disponibles y de canales y dispositivos de recepción) distintos sectores sociales plantean la necesidad de contar con un marco integral de regulación tendente a resguardar los sectores más vulnerables de la ciudadanía.
Francia o Gran Bretaña donde los sistemas que se ofrecen a los padres incluyen la posibilidad no sólo de impedir la descarga de fotografías pornográficas sino también la posibilidad de restringir la salida y entrada de SMS o MMS en función de las horas o los días rechazar los SMS indeseables o impedir la realización de compras y votaciones en concurso” (Natalia Gómez del Pozuelo: “Fomentar el uso correcto del móvil es cosa de todos”, Madrid, 28.VII.2006. Disponible en la Web: www.optenet.com/es/ detalles.asp?c=1&idn=3; consultado el 20.X.2006).

El caso español muestra claramente la existencia de diferentes sistemas de calificación de la producción audiovisual que no se encuentran del todo coordinados entre sí. Sin embargo, sí existe conciencia por parte de los responsables políticos de la importancia de actuar coordinadamente frente a un problema común: el propio preámbulo del “Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia” se señala que “es deseable que los (diferentes) sistemas de clasificación de contenidos por edades sean más homogéneos y coherentes entre sí”. Una política pública que contemple la integridad del complejo audiovisual debería estar orientada a dotar a los diferentes sistemas de clasificación de contenidos operativos de una coherencia interna. En este sentido debemos señalar la existencia de un proyecto interuniversitario e interdisciplinario, liderado por la psicóloga Victoria Tur (Universidad de Alicante) y financiado por el Ministerio de Educación y Ciencia y por Fondos Europeos de Desarrollo Regional (FEDER), cuyo objetivo es crear un código similar al existente para los videojuegos destinado a los programas televisivos, indicando si éstos albergan imágenes violentas, conductas sexuales inapropiadas o lenguaje soez, entre otros parámetros. Por otra parte, el estudio de la reglamentación que afecta a los productos audiovisuales muestra la coexistencia de distintos niveles o ámbitos de actuación: el local / regional (la existencia de, por ejemplo, operadores de televisión autonómicos o de consejos del audiovisual regionales), el nacional y el supranacional (Unión Europea). Esta dispersión de la autoridad que en las últimas décadas afecta al Estado Español tiene directa

imposición de sanciones . NR 18.Real Decreto 81/ 1997: Calificación de películas por franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia (ERI).Código PEGI: Doble sistema de calificación por franjas etarias (3+.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 159 relación. Discriminación. 16+ y 18+) e pictogramas de temática (Lenguaje soez.Directiva 89/552/CEETelevisión Sin Fronteras: horario de protección al menor (6:00 a 22:00 horas). FORTA. Ministerio de Cultura) Programas de televisión Auto-regulación: acuerdo entre el Gobierno nacional y los principales licenciatarios públicos y privados de ámbito nacional y regional (RTVE. NR 13. Todos los públicos.Nº 14 . NR 7. con procesos de descentralización que han reforzado los poderes de la comunidades autonómicas (ver cuadro 1).Julho/Dezembro . Todos los públicos. NR 13. con la incorporación a la UE y. Sexo. NR 7. Cuadro 1: Sistemas de calificación de productos audiovisuales en España Largometrajes y cortometrajes cinematográficos Regulación estatal: Comisión de Calificación de Películas Cinematográficas (ICAA. UTECA) Videojuegos y juegos para PC Auto-regulación: principales editores y desarrollo de juegos de juegos. Violencia) Crítica: mecanismo poco riguroso y confuso. falta de una oferta educativa amplia Fuente: elaboración propia. Adhesión voluntaria Cumplimiento obligatorio. 7+.2005): Calificación de programas franjas etarias: Especialmente recomendadas para la infancia.Código de autorregulación sobre contenidos televisivos e infancia (vigencia: desde III. NR 18. Drogas. 12+. Miedo. O público e o privado . miembros de la ISFE. a nivel interno. . Película X Crítica: opacidad del mecanismo . Xbox y Nintendo) Nivel: supranacional (UE) Adhesión voluntaria Nivel: nacional Nivel: supranacional (UE) / nacional / regional.Horario de protección reforzada (por días y franjas horarias) Crítica: poca efectividad del mecanismo . a nivel externo.2009 . fabricantes de videoconsolas (Playstation 2.

en octubre de 2004. Ejemplo de esto último es el “Decálogo de buenas prácticas” editado por el Instituto de RTVE junto al Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (IORTV/MTAS. El código que suscribieron en 1993 las cadenas públicas y privadas con el Ministerio de Educación y los correspondientes departamentos autonómicos no dio los frutos esperados. el pluralismo.Límites de la auto-regulación En los últimos lustros la preeminencia de la corriente neoliberal ha dado lugar a procesos de desregulación e internacionalización de los distintos sectores económicos. sino que las dificultades que conlleva interpretar hasta qué punto un programa televisivo está yendo más allá de lo aceptable hacen más sensato y prudente confiar la evaluación de los contenidos a agentes externos y con una pluralidad de puntos de vista”. la experiencia de la auto-regulación se ha dado en el terreno televisivo. 2006) en el cual se aconseja a padres y madres “acompañar a los hijos frente a las pantalla” o “hablar con los hijos sobre el programa de televisión que han visto y los videojuegos que les gustan”. La preconizada minimización de la actuación del Estado.160 Luis A. frente a un mayor protagonismo de los agentes económicos consagró a la auto-regulación como el mecanismo de control por excelencia ante aquellos comportamientos socialmente no deseados. será inevitablemente interesada y parcial. Albornoz . Victoria Camps (2006). Hoy. se alzan muchas voces críticas que plantean la insuficiencia de la autoregulación a la hora de defender el interés general (la libertad de expresión. para evitar la emisión de contenidos que puedan vulnerar los derechos de los menores. sostiene que “una auto-regulación corporativa. pasado más de un año de funcionamiento del Código de Autorregulación. la diversidad cultural o la protección de los consumidores). como el catálogo de 21 puntos elaborado por los gestores de Tele 5. . signado por un carácter marcadamente comercial. Tampoco iniciativas individuales de los operadores privados. actual vicepresidenta del Consejo Audiovisual de Cataluña. escogen o realizan la programación. No sólo eso. Y entienden que la misión de controlar la emisión de contenidos televisivos debe recaer en una autoridad que no responda a intereses políticos. En el caso del paisaje audiovisual español. realizada únicamente por los mismos que producen. económicos o religiosos particulares. Y de la mano de auto-regulación se ha remarcado constantemente que la responsabilidad última por lo que ven los niños es de los padres y/o tutores.

las miradas se dirigen a los operadores de las redes. Asociación de Usuarios de la Comunicación o Amnistía Internacional España) revelan las insuficiencias del vigente sistema de auto-regulación de escala continental. un 70 por ciento de los jóvenes de entre 12 y 13 años de edad. esto se traduce en organismos reguladores que no dependan del gobierno de turno ni de los operadores. Ante la dificultad de controlar y sancionar a un amplísimo universo productor y difusor de contenidos y servicios. para ver cómo se les puede proteger ante posibles peligros. Comisaria para la Sociedad de la Información y los Medios de Comunicación: “(…) la protección de los menores en cuanto a comunicación móvil es responsabilidad de todas las partes interesadas: la industria. . si no lo han hecho ya. Hace más de cinco años que el Consejo de Europa (Recomendación 23/2000) y el Comité de Ministros (20/XII/2000) instaron a los gobiernos de los países miembros de la UE a “instaurar. que ofrece una amplia oferta audiovisual a la cual se accede. Los proveedores de contenidos y servicios se han multiplicado y la convergencia tecnológica permite el acceso a éstos a través de redes de radiodifusión o de telecomunicaciones. realizada en mayo de 2006. las voces críticas de diferentes instituciones y asociaciones (Defensor del Menor de la Comunidad de Madrid.Los desafíos de las redes digitales Las nuevas redes digitales plantean desafíos de gran escala: la red Internet. por ejemplo. En este sentido no sólo se habla de sistemas de calificación sino también del empleo de filtros y mecanismos de verificación de edades para determinados contenidos/servicios.Nº 14 . entre el 25 de julio y el 16 de octubre de 2006. desde ordenadores portátiles o teléfonos móviles 3 G. las asociaciones O público e o privado . no conoce fronteras geográficas. al tiempo que reclaman la intervención tanto de los ministerios de Cultura y de Sanidad y Consumo a nivel nacional como de las Comunidades Autónomas. y un 23 por ciento de los niños entre 8 y 9 años de edad posee un teléfono móvil). la Comisión Europea realizó una consulta pública. por ejemplo. Según Viviane Reding.Julho/Dezembro . Teniendo en consideración que el uso de teléfonos móviles entre niños y jóvenes ha crecido espectacularmente en el continente europeo (según una encuesta Eurobarómetro.2009 . En relación con el mercado de los videojuegos. autoridades independientes de regulación del sector de la radiodifusión”.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 161 La figura de un Consejo Nacional del Audiovisual surge como la respuesta más contundente a las dudas que plantean las insuficiencias de la autoregulación.

public politics. Cuanto más eficiente sea la autorregulación. BRUCE. redes . Jesús y otros (coords. Disponible en la Web: www. Eugênio y KEHL.int/information_society/activities/sip/docs/public_consultation/ sip_public_consultation_2006_en. Ana María (1996): Videojuegos: del juego al medio didáctico. Basingstoke (Hampshire). classification systems. BUCCI. television programs or video games. White Paper. comunicado de prensa. Child Safety and Mobile Phone Services”. IN: CALVO. As conclusion. Madrid: AI España. p. Redes de comunicación.162 Luis A. Juniper Research. La gran mayoría de los países miembros de la UE aún no cuenta con marcos regulatorios y/o auto-regulatorios específicos tendentes a brindar seguridad a de los menores de edad en su uso de teléfonos móviles. Gibson (septiembre de 2006): Mobile to Adult – Personal Services. Comisión Europea.pdf. Third Edition. que nos revelan un cuadro heterogéneo. como los códigos de conducta para servicios SMS o Premium. Albornoz para la seguridad infantil y los organismos públicos.com/pdfs/ whitepaper_madult3. it outlines a series of reflections about the challenges and the perspectives that nowadays raise the classification systems of audio-visual contents both for the state organisms and the agents of the cultural industries and for different involved organizations of the civil society.pdf. IN SALINAS. Estrasburgo: Dirección General para la Sociedad de la Información y los Medios. IN Classificação Indicativa no Brasil. menos necesaria será la intervención estatal”. like cinematographic movies. ABSTRA CT : The present article proposes.eu.): Edutec 95. Sin embargo el tema está siendo debatido en varios países y hay iniciativas en marcha. COMISIÓN EUROPEA (2006): “Consultation Paper. considering the Spanish reality. Desafios e Perspectivas. Bibliografía Amnistía Internacional España – AI (4 de enero de 2007): “Aumenta el consumo de videojuegos mientras el Gobierno deja a los menores en manos de las empresas”. the national systems of classification of audio-visual contents that at present they affect to the consumption of a big number of cultural products. 129-138.juniperresearch. Disponible en la Web: http:// europa. autoregulation. a trip for ABSTRACT CT: Artigo Recebido: 31/10/2008 Aprovado: 20/12/2008 K ey W ords: Words: Audio-visual. Brasilia: Ministerio de Justicia. Maria Rita (2006): Deve o Estado classificar IN: indicativamente o entretenimento a que o público tem acesso?.

rtve. INSTITUT d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona – IEAB (octubre de 2006): ¿Quién pone las reglas del juego?. Parlamento Europeo. Michel (17 de septiembre de 2005): “Ring Tones. NORDICOM / Göteborg University. SCHOR. Youth and Media.es/oficial/iortv/guia_infantil. Young People and Harmful Media Content in the Digital Age. Orientaciones para una buena relación de los menores con la televisión y los videojuegos” (tríptico). RICHTEL. FRATTINI.Julho/Dezembro . Ulla (ed. Telos. Libertad y Seguridad. CONSEJO para la Reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado (febrero de 2005): Informe para la reforma de los medios de comunicación de titularidad del Estado. Madrid: Instituto Oficial de Radiodifusión y Televisión (IORTV) / Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales (MTAS). Mallorca: Servicio de Publicaciones de la Universidad de las Islas Baleares. CAMPS. núm. RÍO ÁLVAREZ. Madrid.Nº 14 .) (2005): Programación infantil de televisión: orientaciones y contenidos prioritarios.Un debate abierto: La clasificación de contenidos audiovisuales en España 163 de aprendizaje. Juliet B.pdf. Franco (13 de diciembre de 2006): “Déclaration sur les jeux violents”.rtve. 331-340. Can IN: Cecilia Von FEILITZEN y Ulla CARLSSON Children Be Protected? IN O público e o privado .pdf. Cameras. Madrid: Fundación Telefónica de España. Now This: Sex Is Latest Cellphone Feature”. Göteborg: The International Clearinghouse on Children. CARLSSON. Estrasburgo: Comisario europeo de Justicia. Mariano (ed. Barcelona: Proyecte Educatiu de Ciutat Barcelona. Miguel (del) y ROMÁN BLAS. Victoria (julio-septiembre de 2006): “Del Senado a la experiencia del Consejo Audiovisual de Cataluña”. Madrid: Instituto Oficial de Radio y Televisión / Dirección General de las Familias y la Infancia. (2006): When Childhood Gets Commercialized. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. Disponible en la Web: www. Institut d’Educació de l’Ajuntament de Barcelona. Matt y MARRIOTT. p. The New York Times. 68. Awareness. Disponible en la Web: www.es/oficial/iortv/tripticoinfancia.2009 . IORTV/MTAS (2006): “Infancia y contenidos audiovisuales.) (2006): Regulation. Empowerment.

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(*) Luciana Lobo Miranda é Professora do PPG em Psicologia da UFC e coordenadora do Projeto de extensão TVEZ: Educação para o uso crítico da mídia. E-mail: lobo.lu@uol.com.br

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Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão
Language and subjectivity in the relationships between school practices and television

Luciana Lobo Miranda*

RESUMO: Em tempos de cultura midiática, onde os objetos culturais, as relações

sociais e a subjetividade encontram-se necessariamente atravessadas pela tecnologia audiovisual, é comum o debate a respeito do declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. O presente trabalho pretende articular a discussão conceitual acerca da linguagem da televisão com base em autores como, Pierre Bourdieu e Rosa Bueno Fischer dentre outros, e a experiência na coordenação de curso de extensão universitária "Diálogos Escolares Contemporâneos" realizado com professores da rede pública municipal de Fortaleza, Maranguape e Maracanau. A partir do conceito de discurso de Michel Foucault, o presente trabalho discute a televisão como um campo de subjetivação presente no cotidiano escolar, onde se destaca o fato de tanto a escola quanto a mídia se destinarem a "modos de educar" distintos e muitas vezes conflitantes entre si. Por outro lado, em ambas, a despeito da veiculação de um ideal de cidadania e criticidade, suas práticas cotidianas apontam para uma propensão à passividade seja do espectador, do aluno ou do próprio professor (com relação à gestão e às políticas públicas educacionais).

Palavras-chave: discurso, modo de subjetivação, escola, televisão.

cultura midíatica contemporânea, sob forte influxo da tecnologia audiovisual, com sua onipresença na nossa vida cultural e psíquica, parece-nos pautar o debate sobre o declínio da palavra escrita. A sociedade contemporânea seria marcada pelo colapso dos textos e pela

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hegemonia das imagens. Por outro lado, a disponibilidade da imagem na educação é vendida como um dos grandes trunfos, por exemplo, da educação à distância. Entre a resistência à imagem como produtora de conhecimento e o discurso da disponibilidade pela tecnologia da imagem, a escola parece oscilar. Na tentativa de compreender a relação entre escola, televisão e os modos de subjetivação na contemporaneidade, faremos, no primeiro momento, uma discussão a respeito da TV como um dispositivo audiovisual engendrado na confluência de um “modo de ver” já existente. Em seguida abordaremos a TV enquanto aparato discursivo e dispositivo pedagógico, para, por fim, pensar as possibilidades da educação formal (escolar) neste contexto. Para tal nos valeremos da experiência como pesquisadora e coordenadora de projeto de extensão na área de mídia-educação.

A Construção de uma TV Nossa de Cada Dia
Embora as primeiras experiências da televisão ocorreram nos anos 1936 e 1941 na Grã-Bretanha e nos EUA, respectivamente, ela somente começa a se firmar como fenômeno de massa no pós-guerra, a despeito da opinião da imprensa desses países, bem como de analistas de mercado afirmando que tal veículo não suscitaria o interesse das camadas populares (BRIGGS e BURKE, 2004). Com os custos de sua fabricação barateada, e a incorporação do modelo de programas de rádio, entre 1947 e 1952, a televisão saltou a produção de aparelhos de 178 mil para 15 milhões, atraindo cada vez os mais setores populares. No Brasil, no dia 03 de abril de 1950, a TV tem sua pré-estréia e em 18 de setembro é inaugurada oficialmente pela TV Difusora em São Paulo, seguindo o modelo norte-americano de exploração comercial. A difusão inicial restrita começa a se modificar com a importação de 220 aparelhos por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o “Chatô” (GUARESCHI e BIZ, 2005). Nos anos seguintes surgem várias canais de televisão, tais como TV Paulista (1952), a TV Record e TV Rio(1955), TV Excelsior (1960, cassada durante a ditadura militar). A TV Globo Rio inaugurada em 1965 já nasce grande devido ao forte investimento de capital humano e financeiro estrangeiro. Aos poucos vai se constituindo como uma corporação, engendrando o “padrão Globo de qualidade” que nos dias atuais chega a deter mais da metade da audiência nacional e 53% do mercado publicitário, (GUARESCHI e BIZ, 2005). No contexto brasileiro, mesmo sendo uma concessão pública, ela encontrase concentrada nas mãos de alguns grupos político-econômicos. Esta concentração se configura na forma horizontal (poucos grupos controlam a

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televisão aberta e paga); vertical (canais de TV aberta comercializam seus programas para outros paises); propriedade cruzada (ampliação do monopólio através da posse de outros meios como por exemplo jornais e revistas, provedor de internet); e monopólio em cruz (em nível regional há a reprodução de propriedade cruzada bem como a instalação de repetidoras dos seus sinais) (LIMA in GUARESCHI E BIZ, 2005)1. No entanto, seus avanços corporativos nunca foram ausentes de crítica em relação aos efeitos à subjetividade. Em meados dos anos 1950, a televisão passa a gerar grande expectativa tanto com relação ao possível prejuízo à inteligência das pessoas, quanto às possibilidades educacionais decorrentes de seu uso para esse fim. No livro “Uma história Social da Mídia” Burke e Briggs (2002), trazem à luz a polêmica:

Havia pouco consenso sobre o significado da televisão: era o ‘olho universal’, mas o arquiteto Frank Lloyd Wright chamou-a de ‘chicletes’ para os olhos. A crítica era maior nos Estados Unidos, onde a ênfase nas redes de televisão e rádio centrava-se em entretenimento estereotipado, levando Newton Minow, presidente da FCC em 1961 (...), a dizer que a televisão em rede era uma vasta ‘terra inútil’. Em Londres, Milton Schulman, que fazia vigorosas críticas de certos programas em jornais, chamou a televisão britânica de ‘a menos pior do mundo’, mas também observou, como Lloyd Wright, que, ‘para muito as pessoas, o ato de ficar fixado na tela’ tinha se tornado ‘mais um habito do que um ato discriminatório consciente’. Para Schulman, a televisão era ‘o olho voraz’. Para outros, era o ‘olho do mal’, mal occhio, destruindo não somente os indivíduos que a assistiam, mas todo o contexto social. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.244, grifos dos autores)
Quanto sua função educativa os autores afirmam:

1

Educar, não entreter, esse permanecia o objetivo prioritário para alguns dos primeiros defensores da televisão contra as acusações de que ela exercia uma influência inevitavelmente corruptora da sociedade e da cultura, e de que levava os espectadores a gastar mais tempo com ela do que com outras atividades. (BURKE e BRIGGS, 2002, p.252).
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Segundo Guareschi e Biz (2005) “Seis das principais redes privadas nacionais (Globo, SBT, Record, Bandeirantes, Rede TV!, CNT) estão vinculadas, entre canais próprios e afiliadas, que representam 263 das 332 emissoras brasileiras de TV” (p.84), duas delas exorbitando o número de emissoras próprias permitidas pela lei.

desta interminável e complicada comédia. Já os homens de hoje são forçados a pensar e executar. em um minuto. de todas as cenas alegres ou tristes. p. os seus gestos.29). instantâneas e multiplicadas – seja o jornal falado. à leitura de cem páginas sobre o mesmo assunto. a um só tempo. uma pessoa pronuncia um discurso e. telespectador. das catástrofes. à ansiedade. ou ainda uma hora toda. passando pela fotografia e pelo cinema. No Brasil seu alcance cobre quase todo o território nacional. pelos físicos franceses Gaumon e Decaux. a sua fisionomia. Talvez o jornal do futuro seja uma aplicação dessa descoberta. haja vista a presença deste meio em . 2004. a impressão auditiva e visual dos acontecimentos. (BILAC apud BUCCI. a figura do orador. Mesmo antes de existir efetivamente a TV já tinha o seu lugar imaginário. Talvez o jornal do futuro – para atender à pressa. à exigência furiosa de informações completas. que vivemos a representar no imenso tablado do planeta.27 e 28) Mesmo corroborando com a idéia de que a televisão não inaugura propriamente um novo processo. e ilustrado com projeções animatográficas. dando. Da pintura renascentista. O livro está morrendo. já estava demandando antes” (p. A atividade humana aumenta. não somente repete todas as suas frases. como reproduz. sérias ou fúteis. daí a pouco. uma combinação de fonógrafo e cinematógrafo: Diante do aparelho. a mobilidade dos seus olhos e dos lábios.168 Luciana Lobo Miranda Entre o entretenimento e a educação. das festas. e de rufos de febre no sangue. BRIGGS e BURKE. a expressão da sua face. Desta maneira Bucci (ib. 2004). certamente seu modelo broadcasting foi se fazendo cada vez mais presente em nosso cotidiano. o que os avós pensavam e executavam em uma hora. a grande aceitação deste novo dispositivo audiovisual deve-se em parte pelo fato das massas já terem um “olhar educado” para o modelo broadcasting de difusão da imagem eletrônica. dos desastres. justamente porque pouca gente pode consagrar o dia todo. numa progressão pasmosa. mas também de algo que ele.) defende que “aquilo que o telespectador vê na tela emerge não apenas da tela em si.. sobre a tela branca. Vejamos então o texto visionário escrito pelo poeta Olavo Bilac em 1904 que narra a invenção do cronófono.. intensificando fluxos de um “modo de ver” que foi se constituindo ao longo dos anos. a televisão nasce na confluência de um “modo de ver” que já havia sido “inaugurado” (BUCCI in BUCCI e KEHL. 2004. A vida moderna é feita de relâmpagos no cérebro.

seja interna. Foucault as define como “um modo de ação sobre a ação que age direta ou indiretamente sobre os outros. pois não se pode falar qualquer coisa em qualquer lugar). mas efetivamente ela engendra e produz práticas/ marcas em nosso corpo. ficaram em média quatro horas e 25 minutos. como também são alterados. oratória.2009 Segundo o Instituto Ipsos. constituindo como modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade4. A nossa hipótese consiste em pensar que a intensa circulação de discursos presentes na televisão. pois todos são constituídos de uma série de enunciados. pensar e sentir o mundo. Faz-se então necessária uma análise da televisão. sobre ações eventuais. Para Foucault (1986. de liberdade. psicológico. nos subjetivam. 2006).Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 169 93% dos lares brasileiros (nove entre dez). quando a publicidade diz “você é o que você aparenta”.Julho/Dezembro . crianças e jovens entre 4 e 17 anos. futuras e presentes” (p. Ele também não se opõe à prática. Dispositivo pedagógico e modo de subjetivação A televisão tem se afirmado cada vez mais como um discurso. Foucault afirma que o discurso é prática justamente porque os discursos não só nos constituem. 3 As relações de poder em Foucault (1995) compreendem a possibilidade de reação. 4 Para Foucault (1995) não existe sujeito a priori. por dia. discurso científico. científico. responsável por modos de ver. Fala-se então em discurso pedagógico. higiênico-assistencialista dentre outros). O discurso é ele mesmo uma prática. enquanto os dados do Ibope afirmam que. ela não está apenas dizendo. etc) acaba por configurá-la como um campo discursivo de grande alcance. ou melhor. 17 de outubro de 2004. lutas políticas). os quais se constituem sempre como prática. discurso feminista.235). na sua relação com os modos de subjetivação na contemporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação. como acontecimento histórico. o discurso pode ser entendido como um conjunto de enunciados de um determinado campo do saber. tendo crianças e jovens como público preferencial que chega a passar em média mais de quatro horas por dia diante da tela2. Só há relação de poder mediante sujeitos ativos. mas que age sobre sua própria ação. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a” (p. teledramatúrgico. modos de exercício do poder.Nº 14 . A exclusão externa compreende ao longo da história a interdição (a palavra proibida. normas. só perdendo para o fogão (mas ganhando da geladeira) em número total de aparelhos (PNAD. publicitário. Uma ação sobre a ação. em funções de práticas sociais muito concretas. constrói-se no interior dessas mesmas práticas. seja externa. O público e o privado . tanto de ordem exterior (discurso jurídico. que existem propriamente como prática discursiva. institucional e social (as práticas discursivas são inseparáveis de uma série de regras. ou atuais.243). Assim. . 2 Televisão: Discurso. frases e enunciações. 1998) o discurso não se confunde com a fala. 57% das crianças brasileiras ficam mais de 3 horas assistindo TV . em setembro de 2004. nos dizem o que dizer. Fonte: Castro in Folha de São Paulo. formas de comunicação. Assim por exemplo. que envolvem relações de poder3. No entanto para Foucault (1998) não há discurso sem exclusão. quanto aqueles engendrados em seu fazer diário (discurso jornalístico. político. Ele é constituído num “campo de relação que pode ser estabelecer como sujeito a alguém pelo controle e dependência e preso à sua própria identidade por uma consciência ou autoconhecimento.

no entanto. com o conceito de campo jornalístico formulado pelo sociólogo Pierre Bourdieu em seu livro “sobre a Televisão” (1997). (FOUCAULT.49). (p. são ditos. na cobertura jornalística feita pela televisão. uma espécie de desnivelamento entre os discursos: os discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas. os discursos que. É também recorrente o uso de especialistas para corroborar matérias jornalísticas. para finalmente retornar ao senso comum. permanecem ditos e estão por dizer. Assim podemos pensar que os especialistas estão para referendar uma “vontade de verdade”. numa extensa cadeia discursiva em que nada pode ser. 1998. Para pensar os mecanismos de exclusão presentes no discurso da TV articularemos o conceito de exclusão presente no conceito de discurso em Foucault. uma revista eletrônica. os transformam ou falam deles. jurídicos. como conseqüências de uma descoberta. muito regularmente nas sociedades. p. Para Foucault é este último que tem se tornado mais forte em nossa sociedade apregoada pela ciência: “as grandes mutações científicas podem talvez ser lidas. Segundo Bourdieu (1997) grosso modo. e os discursos que estão na origem de certo número de atos novos de fala que retomam. por que causam transtornos aos usuários? etc”. às vezes. para além de sua formulação. e especificamente a TV. literários e científicos: Em suma. e que passam como ato mesmo que os pronunciou. ao comentário e outros a certa permanência. . Em um programa de variedades. a exemplo do Fantástico da TV Globo. numa mesma reportagem. pode-se supor que há. a mídia. a exemplo dos textos religiosos.16) Há também a exclusão interna. o discurso do senso comum (comentário) pode ser conduzido ao discurso científico.170 Luciana Lobo Miranda a separação (segregação da loucura) e a oposição “verdadeiro” ou “falso” (vontade de verdade).49) e outras que estão para explicar “para proferir um metadiscurso” (p. ou seja. Conforme afirmamos.22). uns ligados ao dia a dia. que por sua vez pode deslocar-se ao jurídico. há sempre algumas pessoas que estão para se explicar (“por que vocês fazem isso. mas podem também ser lidas como a aparição de novas formas na vontade de verdade” (p. indefinidamente. dando-lhes um tratamento científico. parece fazer a “ligação” entre estes mais variados discursos. devidamente aprofundado. que hierarquiza os discursos.

é que essas coisas tão fúteis são de fato muito importante na medida em que ocultam coisas preciosas” (BOURDIEU. Informações omnibus – para todo mundo. Nossos apresentadores de jornais televisivos. veicular e consumir TV. revistas. o tempo é algo extremamente raro na televisão.. as agressões nos subúrbios ou a violência na escola.64). à revelação permanente de si. notícias de variedades. voltando a Bourdieu (1997). E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas fúteis.. nossos animadores de debates. Ela evita polêmicas em nome da audiência. 2006). 1997. (p.. deixam de mostrar acontecimentos: “Ora. fatos que não devem chocar. pois. discursos) e ao mesmo tempo não discursivo (uma vez que está em jogo nesse aparato uma complexa trama de práticas. numa determinada sociedade e num certo cenário social e político). ela serve também para potencializá-lo. Fundamentada no conceito de dispositivo sexualidade. Certamente. pensa a mídia enquanto um dispositivo pedagógico. a partir do qual haveria uma incitação ao discurso sobre “si mesmo”. e quem ao preencher um tempo precioso na TV. a TV é essencialmente conservadora. em que o sujeito é chamado a falar sobre si mesmo e se reconhecer a partir de sua sexualidade.2009 . sem ter que forçar muito. há de se considerar ainda o simultâneo reforço de controles e igualmente de O público e o privado . elevá-lo ao quadrado. “Está perfeitamente ajustada às estruturas mentais do público” (p..65) Outro mecanismo de exclusão presente no discurso televisivo deve-se ao fato dela ocultar mostrando. de produzir. os porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa. rádio. p.Julho/Dezembro . que dizem “o que se deve pensar” sobre o que chamam de “os problemas da sociedade”. tais práticas vêm acompanhadas de uma produção e veiculação de saberes sobre os próprios sujeitos e seus modos confessados e aprendidos de ser e estar na cultura em que vivem.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 171 Da mesma forma que enfatizamos que a TV se instaura num processo já existente. nossos comentaristas esportivos tornaram-se pequenos diretores da consciência que se fazem.um aparato discursivo (já que nele se produzem saberes.Nº 14 . jornais. o dispositivo pedagógico é descrito como: .23) Em consonância com o pensamento foucaultiano Fischer (2002.

A ampliação da rede informal de educação através do crescimento do terceiro setor e dos meios de comunicação de massa. insistentemente presentes nesses processos de publicização da vida privada e de pedagogização midiática (p. a entrada das chamadas “novas tecnologias da informação” no campo educacional e o questionamento de suas próprias práticas cotidianas. o indivíduo é pensado e cooptado em sua força produtiva. em acordo com determinadas estratégias de poder e saber. como satisfazer o seu (sua) parceiro(a). em seu corpo. do telos. para o privilégio do agora e do . a mídia. onde. num constante borramento de fronteiras do que outrora se chamou de público e privado. tais como. De um lado a escola. cujo conteúdo.172 Luciana Lobo Miranda resistências. a escola transformou-se em um lugar não apenas de transmissão do conhecimento. e que estão vivos. para fortalecimento do Estado Nação (Foucault 1977). a escola tem ocupado um lugar central na transmissão do legado cultural e na formação do sujeito. isto é. a exacerbação de uma cultura individualista e de intolerância ao outro. ela se encontra cada vez mais destinada à “educação” das pessoas. a excessiva velocidade dos fluxos e relações sociais. etc. na maioria das vezes.3) O espectador é constantemente interpelado a produzir opinião sobre os mais diversos assuntos. do sujeito cidadão. para a promoção do impacto e do emocional. sua separação idade/ série. em seus mais diversos dispositivos. mostra uma realidade em que a disciplina é incapaz de dar conta. com sua rotina. atuando como um modo de subjetivação privilegiado na contemporaneidade. dentre outros. seja de como cuidar da casa. principal elemento do receituário neoliberal. Televisão e escola: encontro possível? Na história moderna. para o sujeito consumidor. para a velocidade. A partir do século XVII. através da vigilância hierárquica e da sanção normalizadora. De outro. mas de disciplinarização dos corpos. é voltado para a atualidade. No entanto. locus tradicional de transmissão de saber voltado ao passado.o exame. e da combinação entre ambas . da durabilidade. atualmente. no contexto europeu. Por outro lado a educação parece transbordar para todos os lados. seus filhos. este lugar parece não ser mais o mesmo. O Estado mínimo. Desta forma a televisão acabou por ser fazer pedagógica. como educar seu cachorro. trouxe à tona uma querela entre dois entes. guiado pela lógica da razão. reconfigurando assim o espaço escolar.

que versem sobre a possibilidade do uso da televisão/ vídeo no cotidiano educacional. Já no âmbito da pesquisa. A ação compreleza. 2007. é lógico. Arraigadas em modelos tradicionais. A colaboração dos integrantes do TVEZ consistiu tanto na fase diagnóstica. que visou à implementação de um Projeto de Comunicação Educativa (PCE) em três escolas da rede pública nos municípios de Fortaleza. fanzines e jornal escolar. voltados para profissionais de educação. objetivamos compreender a mídia. mídia e educação”. p. além. quanto na facilitação dos cursos. ou mesmo esvaziadas de pensamento crítico acerca de seu fazer pedagógico. no planejamento. não pode se eximir do debate acerca da relação subjetividade e mídia na contemporaneidade. O PCE consiste numa metodologia de ensino-aprendizagem por meio da arte e da comunicação. Maracanaú e Maranguape. com foco no processo dialógico educador-educando e que lança mão de uma estrutura tecnológica de produção autônoma de mídias educativas. Neste. cujo objetivo é promover a educação para o uso crítico das mídias. impressora. com ênfase na televisão.Julho/Dezembro . No intuito de pensar a inserção da televisão no cotidiano escolar e a possibilidade da problematização de seu discurso. mesmo não desconsiderando as implicações midíaticas no cotidiano escolar (vistas muitas vezes de forma maniqueísta. (MIRANDA. 199) Em atividades desenvolvidas no âmbito da pesquisa e da extensão temos procurado trabalhar este campo de possibilidade da escola. ende tanto a discussão quanto a apropriação das mídias no cotidiano escolar. escutam ou lêem? Como trazer estas reflexões para o próprio cotidiano educacional? São temas que precisam ser problematizados por todos aqueles que fazem a escola. relatórios. como território privilegiado de produção de subjetividade na con- . atualmente encontra-se no segundo ano de Iniciação Científica a pesquisa “’Entulho imagético’ ou tesouro educacional? Uma Análise da relação subjetividade e mídia no cotidiano escolar” com apoio da FUNCAP e da UFC. como professores podem se propor a investigar com os jovens como eles significam aquilo que vêem. Neste trabalho será privilegiado o trabalho de extensão do projeto TVEZ5. abordaremos o trabalho realizado no TVEZ em parceria com a ONG de Fortaleza ENCINE6. Inês Silva. viabilizada com a implantação de um Laboratório de Comunicação Educativa (LACE) equipado com computador.Nº 14 . com base na análise de publicações de livros brasileiros entre 1998 e 2008. Dra. internet. com o próprio salário. Sampaio e por mim. spots. 2004). como estabelecer um diálogo entre o discurso televisivo e o educacional? Em outro texto afirmamos: 5 A escola como lugar legitimado de produção e circulação de saber.2009 O TVEZ é um projeto de extensão interdepartamental. tais como vídeos. Preocupados com inúmeras avaliações. câmeras fotográfica e de vídeo e mesa de O público e o privado . as escolas. como lugar de discussão e apropriação da mídia em seu cotidiano. além de orientar na graduação e no mestrado monografias e dissertações ligadas ao tema “Subjetividade. tendem a rechaçálas. como responsáveis pela má formação de valores e costumes na infância e na juventude). O projeto é coordenado pela Profa. com apoio das três secretarias municipais de educação. V.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 173 efêmero (VIVARTA. O TVEZ conta com uma bolsa de extensão da UFC. blogs. através de ações integradas em escolas da rede pública de Forta. com a participação de estudantes de comunicação e de psicologia da UFC. Diante deste “quadro”. projetos.

a fim de problematizar a televisão enquanto discurso. O que estas crianças têm em casa? Onde estão os livros? Será que a escola tem livros? A casa tem livros? Que contexto é esse que a gente quer para essa criança. A ENCINE é também responsável pelo programa Megafone. No entanto. eis um dos argumentos da defesa: “mas aí vem a questão. A idéia é promover a auto-gestão do LACE. outros concordaram enfatizando o caráter “tendencioso” do vídeo. 6 A ONG ENCINE desenvolve ao longo dos últimos 10 anos experiências na área de audiovisual com jovens oriundos das classes populares. com participação efetiva de representantes do corpo discente.que sentira falta de algumas falas.. A formação docente “Diálogos Escolares Contemporâneos” (DEC) teve carga horária de 60 horas e o curso de Arte Comunicadores Sociais (ARCOS). divididos em duas equipes. dentre outros. iniciou-se o “julgamento”. Para além de uma capacitação técnica. Com falas que argumentavam ora a favor ora contra a qualidade da TV brasileira. meio sem jeito – afinal como tecer crítica a algo feito por especialistas? . teve carga horária de 120 horas. muitos se mostravam surpresos pelo vídeo e comentavam a sua qualidade técnica.174 Luciana Lobo Miranda temporaneidade e a escola como espaço de mediação desta relação. O julgamento foi devidamente gravado. artísticas. se ela sair do único recurso que ela tem. Em uma aula do DEC. além do fato de se verem. Juiz e o corpo jurado ficaram a cargo da equipe da ENCINE e do TVEZ. deveriam preparar um corpo argumentativo com relação à defesa ou à acusação da televisão brasileira. No término da exibição do primeiro vídeo. O segundo mesclava imagens usualmente consideradas “apelativas” com os piores momentos da defesa e os melhores momentos da acusação. A gente tem que considerar que [a TV] é um recurso pedagógico sim. manual de classificação educativa. o PCE compreende um espaço para a escola pensar o seu próprio cotidiano. sem qualquer explicação prévia. após alguns comentários iniciais. A título de exemplo. dois materiais foram preparados.. veiculado as tardes de domingo na TVC. Assim. professores refletiram sobre a inserção da TV como modo de subjetivação presente em seu cotidiano bem como sua relação com a escola7. Os professores. um recurso educativo” A acusação lê o artigo 221 da Constituição Federal “’A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: Preferência a finalidades educativas. Dissemos então que tínhamos uma segunda surpresa e o outro vídeo foi apresentado. Estatuto da Criança e do Adolescente. voltado para os discentes do ensino fundamental segundo ciclo. com base no material que compreendia: legislação. propusemos um debate. pois sentiam falta de algumas falas que haviam sido cortadas. Propositalmente. permanecia a fala do jurado que melhor referendasse a intencionalidade de cada vídeo. mesclados aos melhores momentos da defesa. No encontro seguinte. culturais e informativas. com os piores momentos da acusação. após a fase diagnóstica das escolas iniciou-se o trabalho de formação de docentes e discentes. promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divul- . cujo réu era a televisão brasileira. Após uma hora de preparo e com os “advogados” devidamente constituídos. feito por jovens. simulamos um julgamento. um que continha cenas de programas de TV considerados de boa qualidade e educativos. Atualmente é Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura e conta com o apoio da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal. um docente comentou. No inicio. Ao final. passamos um vídeo editado com cenas do julgamento. 7 desenho.

em última instância. num campo de luta onde também resistências são possíveis. Discutimos assim a não neutralidade do discurso televisivo. por exemplo.. especificamente do telejornalismo.Julho/Dezembro . normalmente são reguladoras da negação do outro enquanto co-criador de conhecimento. Por fim foi discutida a possibilidade de inserção a respeito da televisão no cotidiano das escolas em questão. pois deve compreender a abertura para a criação. estética e política. pela polifonia de diversos lugares enunciativos que fazem parte dos sujeitos que os constituem e os produzem. Estética. transbordam inúmeros discursos. estes dois loci de modos de subjetivação. em que algumas vozes são privilegiadas em detrimento de outras. No entanto. Na produção subjetiva contemporânea engendrada seja no cotidiano escolar. quanto com a própria escola. Artigo Recebido: 22/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 . Desta forma. a saber: pedagógica.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 175 Após a exibição do segundo material. Com base numa vivência coletiva e portanto heterogênea. Política. seja na mídia. Televisão e escola: disciplina e resistência As práticas discursivas cotidianas presentes tanto no discurso televisivo quanto no discurso educacional tendem a classificar.2009 gação. as práticas pedagógicas. professores. apesar de todas as condições adversas. qualquer experiência de mídia no campo educacional deve auxiliar na produção de novos modos de educar no cotidiano escolar. alunos e funcionários que tentam não se acomodar. ou mesmo excluir modos de subjetivação que escapam aos seus modelos instituídos. O trabalho apresentado compreende uma possibilidade onde se possa pensar a diversidade das situações concretas vividas tanto na relação com a televisão. Regionalização da produção cultural. pois implica a articulação do uso e produção da mídia como instrumentos de ensino-aprendizagem. Malgrado o empenho explícito isolado daqueles que fazem o seu cotidiano. O público e o privado . Pedagógica.’ Na realidade o que nós temos são filmes de violência sendo apresentados no horário em que crianças estão acordadas”. conforme percentuais estabelecidos por lei. que buscam estratégias para tornar a escola o ambiente positivo de aprendizagem. escola e mídia. também se encontram marcados pelas inúmeras vozes. a uma reflexão tanto sobre a comunicação cotidiana (sua produção e seus meios de propagação). A inserção da televisão ou de qualquer outro dispositivo midiático deve ser pensado na interação de três perspectivas. A escola também é um lugar de transformação e de resistência. abordamos os discursos presentes na televisão. Vemos diariamente em seu cotidiano..Nº 14 . para o campo do sensível. pois a discussão do uso da mídia no cotidiano escolar levaria. explorando outras linguagens não usuais na mídia comercial. capturar. indagamos aos docentes o porquê de termos feito dois vídeos. artística e jornalística. quanto sobre a própria escola. com base no mesmo julgamento em que todos se encontravam presentes.

ABSTRA CT : The media age. Maria Rita. Uma história Social da Mídia: De Gutenberg à internet. Rosa Maria Bueno. Disponível em redalyc. O Dispositivo Pedagógico da Mídia: Modos de Educar na (e pela) TV. . Pierre. therefore. Referências BOURDIEU. Educação e Pesquisa.pdf. subjectivity. school. The present work intends to articulate the conceptual discussion about television language based in authors like Pierre Bourdieu and Rosa Bueno Fischer among others and the experience in coordinating the extension university course "Contemporary School Dialogs". social relations and subjectivity ABSTRACT CT: are intertwined with audiovisual technology. 1995. we intend to discuss television as a subjectivity field present in the school routine. p. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Hubert. Peter. 1986. _________________. Rio de janeiro: Forense Universitária. São Paulo.. Paul. The school system seems to balance between the resistance to image as a possible producer of knowledge and its availability. 1977. when cultural objects. 3º ed. In: DREYFUS. could be of great help in long distance education. it is common to hear about the decline of written word. 1. 17/10/2004. v. São Paulo (SP). 2ª ed. Superligados na TV. O sujeito e o poder. Vozes. BRIGGS. Petrópolis. 2002 __________________________ . 151-162. Michel Foucault. carried through with teachers of the municipal public system of Fortaleza. BUCCI. emphasizing that both the school and the media are ways of teaching. Forense. Maranguape and Maracanau. Belo Horizonte: 2006 FOUCAULT . Sobre a televisão. be it on the part of the spectator. Contemporary society is marked by the collapse of texts and the omnipresence of images. Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro.mx/redalyc/pdf/298/ 29828111. Jorge Zahar. CASTRO. n. Michel. Folha Ilustrada In Folha de São Paulo. Starting with Michel Foucault's concept of discourse. uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica.uaemex. _________________ . in spite of the broadcasting of an ideal of citizenship and criticism. their everyday practices point more to passive approach. FISCHER. the student or the teacher himself (concerning public educational practices). 2004. D. On the other hand images are easily available and. Rio de Janeiro. 28. Eugênio KEHL. In both of them. though very different and sometimes conflicting ones. Videologias: Ensaios sobreTelevisão. 2004. television.176 Luciana Lobo Miranda K ey W ords: Words: discourse. Televisão e Educação: Fruir e Pensar a TV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Asa e BURKE. 1997. RABINOW.

conteúdo e participação nos programas de televisão para adolescentes. P N A D h t t p : / / w w w. g o v. 2005.Linguagem e modos de subjetivação na relação práticas escolares e televisão 177 _________________ .Nº 14 . O público e o privado . (2004). Osvaldo A.shtm VIVARTA. educação e cidadania: tudo o que você deve saber sobre mídia. Pedrinho e BIZ. Remoto Controle: linguagem. A Ordem do Discurso.2009 . 1998 GUARESCHI. b r / h o m e / e s t a t i s t i c a / p o p u l a c a o / trabalhoerendimento/pnad2006/default.. São Paulo: Cortez. Veet. Mídia.Julho/Dezembro .Petrópolis. SP: Loyola. RJ : Vozes. i b g e .

Mas. a televisão brasileira promove políticas que orientam a sua programação a fim de alçá-la à categoria de empresa cidadã. Este trabalho tem. Erotilde Honório Silva é Professora Titular da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).Julho/Dezembro . procura afinar o sistema midiático aos direitos e às demandas da sociedade civil. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). enquanto o poder público procura fornecer diretrizes ao sistema de comunicação.2009 P .br. olíticas de Comunicação em tempos de TV Brasileira: a criação do Merchandising Social Ao nos referirmos às políticas públicas de comunicação. ao longo do tempo. E-mail: manubarros@secrel. a partir da perspectiva de sua audiência. participação e inclusão social. suas próprias políticas de comunicação. que em tese. produzida pela Rede Globo de Televisão. E-mail: eroh@unifor. a pretensão de analisar o MS apresentado na telenovela Laços de Família (2000-2001). Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. pois. tentado Palavras-chave: políticas de comunicação. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). traçar uma série de marcos regulatórios.(*) Roberta Manuela Barros de Andrade é Professora Adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE). à revelia dos órgãos públicos. Em meio ao debate aberto na sociedade civil sobre educação.br. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).com. permissão ou autorização de canais de radiodifusão ou de televisões abertas aos projetos O público e o privado . televisão. 179 Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras When the television produces its proper politics of communication: An analysis of the Social Merchandizing in the Brazilian soap opera Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva* RESUMO: As políticas públicas de comunicação têm. a mídia vai construindo. o termo tenta dar conta de um amplo conjunto de ações que vão desde a concessão.Nº 14 . merchandizing social.

neles incluindo os discursos ditos “educativos”. entre 1991 e 2004. em linhas gerais. lá os meios não são percebidos pelo poder público como criadores de cultura apenas como transmissores ou difusores de práticas sociais. priorizando programas de maior audiência. na contramão das expectativas do que essas instituições desejam divulgar. trabalhado a sua imagem por meio de programas sociais desenvolvidos pela empresa ou em parceria como Criança Esperança. respeito aos idosos e desenvolvimento social sustentável. dando-lhe determinadas diretrizes. participação. prevenção e abuso de drogas. numa clara tentativa de alavancar audiências. Uma das mais importantes alavancas das emissoras para atingir tal meta tem sido a introdução em sua ficção seriada do Merchandising Social (MS). Brasil 500 e Amigos da Escola. a mídia vai construindo suas próprias políticas de comunicação. Por detrás dessas orientações normativas. desemprego. usada pelas emissoras para dar credibilidade social a seus produtos de entretenimento. estima-se que 8779 ações de MS foram produzidas na ficção seriada brasileira produzida pela Rede Globo de Televisão. alardeando o que denomina de forma genérica de “seu papel social”. direito das crianças e dos adolescentes. Obviamente que ações que têm como princípio a construção de uma imagem pública positiva da Rede Globo não surgem somente a partir do MS. surgida em meados dos anos noventa do século passado. algumas vezes. O MS é. dados apontam que foram 320 mil inserções em todo o país. Globo e Universidade. Nesta prática. Para MartinBarbero. em moda.as telenovelas-. 2000). pela quantidade. Ação Global. a Rede Globo de Televisão se destaca não só pelo seu pioneirismo na área. A veiculação de campanhas de utilidade pública é tradição na emissora. 2 Mas. versando sobre os mais diferentes temas como direitos humanos. sexualidade. Mas foi graças à inovação do MS. constroem outros significados para as concepções de democracia. ao longo dos últimos trinta e cinco anos. A televisão brasileira. do MS em suas telenovelas2. no Brasil.180 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de lei que debatem os marcos regulatórios tanto das televisões pagas quanto os do ciberespaço. entre campanhas próprias e de terceiros (Herkenhoff. Globo Serviço. o que pode ser detectado claramente pelas políticas públicas para a comunicação na Colômbia. participação. inclusão social e educação que não estão presentes nem nos discursos oficiais nem nas mesas redondas e fóruns que tentam conjugar a visão da academia sobre o assunto e as demandas da sociedade civil organizada1. cidadania. em tese. Martin-Barbero (2000) em reflexão sobre as políticas públicas colombianas para os meios de comunicação afirma que existe uma esquizofrenia entre o que pensa o poder público sobre o papel da mídia na sociedade colombiana e o real impacto da televisão nas transformações sociais neste país. atenta ao debate existente na sociedade civil e nos órgãos públicos sobre participação. enquanto o poder público tenta mapear o sistema de comunicação brasileiro. inclusão social e educação. O que une todas essas ações é a noção de que se trata de medidas a serem tomadas pelo poder público com a finalidade. de sintonizar o sistema de comunicação com os direitos e demandas da sociedade civil. saúde reprodutiva. Assim. 1 . Só em 2003. traça políticas próprias que orientam a sua grade de programação. Segundo Schiavo (2004). inserido em sua narrativa ficcional de maior sucesso. está presente um debate generalizado sobre democracia. equidade de gênero. inclusão social e educação no Brasil. incorporando o discurso moderno da responsabilidade social. não desprezível. A Rede Globo tem. mas também. que tal imagem se . uma estratégia de comunicação. .

Nesta pesquisa. selecionamos como objeto de estudo a telenovela Laços de Família porque o MS ali inserido foi uma das discussões de maior impacto na mídia impressa e televisiva já realizada em torno de uma temática social. garantida pelo MS. Este conceito se fundamenta no princípio de que as ações individuais têm impacto na vida da coletividade.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 181 sedimenta com maior força em sua audiência. A Rede Globo incorporou esse conceito. em todos os horários de veiculação das novelas globais.Julho/Dezembro . além do que. a traumas (ciúme excessivo. hoje. Neste sentido é imprescindível para as empresas de comunicação divulgarem para a sua audiência os variados elementos dos quais lançam mão ao desenvolverem sua cota de responsabilidade social. de repercussão importante na família e na sociedade. individualmente e em conjunto. A repercussão social em termos de audiência é. apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. violência doméstica) ou a doenças psíquicas. Não é à toa. nas rodas oficiais. dos seus deveres para com a comunidade em que vivem e a sociedade em geral. o MS auxilia as telenovelas da emissora a saírem das páginas das revistas de fofocas e passarem a agendar as discussões sociais que perpassam a grande imprensa. participação e inclusão social. produzida pela Rede Globo de Televisão. comportamentos e práticas positivas que contribuem para o bem comum.Nº 14 . torna-se O público e o privado . a responsabilidade social concretiza-se por meio da adoção de atitudes. dantes assunto restrito às revistas médicas especializadas. garantindo à Rede Globo o título. uma vez que está relacionado a doenças incuráveis ou com percentual mínimo de cura. Tal enfoque se baseia no fato de que as políticas de comunicação só podem ser responsavelmente avaliadas a partir de objetos concretos por meio dos quais essas políticas adquirem visibilidade social. que a emissora incorporou essa estratégia de comunicação em sua teledramaturgia. O MS está presente. no horário das 20h. usando o MS como instrumento para a construção de sua imagem como uma empresa-cidadã. frequentemente. A leucemia. O termo responsabilidade social é definido por Herkenhoff (2000) como o reconhecimento e assunção pelos cidadãos. o que nos perguntamos então é: apesar das óbvias intenções desta emissora em alavancar audiência. de empresa com responsabilidade social. como essa política de comunicação tem contribuído para um debate mais profundo sobre educação. assim. entre maio de 2000 e fevereiro de 2001. Portanto.2009 . células-chave para a discussão sobre as políticas de comunicação? A fim de construirmos pistas para esta reflexão esse trabalho se propõe a realizar uma análise do Merchandising Social apresentado na telenovela Laços de Família. Nessa perspectiva.

. No Instituto Estadual de Hematologia (HemoRio). apregoada pelos departamentos de marketing da emissora.tipo de câncer que compromete os glóbulos brancos (leucócitos) do organismo. No Instituto Nacional do Câncer (Inca) que registra potenciais doadores de medula. esse número caiu para a média de dois semanais. ocorreu o que chamamos de “efeito Camila” que se materializou no aumento do interesse pela doação de sangue e órgãos. durante o período de veiculação da novela. de nível universitário. No Rio Grande do Sul. 4 capa das maiores revistas jornalísticas do País e tema constante nas páginas dos jornais impressos e nas chamadas dos telejornais durante o período de veiculação da novela. Entrementes. Em Santa Catarina. que foram audiência ativa da citada novela em seu período de veiculação. o impacto de tal política de comunicação esteja muito mais na pauta temporária do debate público. não leva a um efetivo processo de mudança social. o seu efeito termina ao acabar a novela. Os . a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Celso Ramos registrou de 20 a 30 pedidos por dia (de cadastro). Cremos que um tal viés de análise é profícuo na medida em que tal pesquisa de recepção nos ajuda a entender como efetivamente as políticas de comunicação projetadas pelos próprios meios repercutem no social. no segundo semestre do mesmo ano. nível de escolarização e faixa etária semelhantes à da personagem vítima da doença na trama5 refletem sobre o MS. Atrelada à novela. Não se trata de um projeto contínuo. de dez para cento e quarenta e nove e no Registro Nacional dos Doadores de Medula Óssea (Redome) subiram de vinte para novecentas inscrições mensais durante a abordagem da temática por esta ficção seriada. de que o MS tem repercussões no social em termos de mudanças diretas e lineares no comportamento social do brasileiro no que diz respeito a ações sociais efetivas. retornou aos níveis anteriores nos principais órgãos responsáveis pela coleta dessas informações4. ex-portadores de leucemia. dando-lhe significados em seu cotidiano. assumido pelas políticas de governo. Telenovela e Sociedade A Novela Laços de Família apresentou como ponto central de seu enredo a leucemia . apesar do um aumento significativo durante a emissão da novela. após seis meses de sua veiculação. O Hemocentro de Ribeirão Preto (SP) verificou também um aumento de cadastros de doadores no primeiro semestre de 2002 (período final da novela). as inscrições mensais passaram. e. Mas. em especial da medula óssea em função do drama abordado na novela em questão3. chega- Merchandising Social. jovem que se descobre portadora da doença na trama. Tal dado nos ajuda a desmistificar a noção. O que nos leva a pensar que talvez. de classe social. naturalmente. o interesse pela doação de sangue e órgãos. O argumento centrou-se nas informações sobre a doença ao mesmo tempo em que promoveu uma campanha de doação de medula baseada na experiência da personagem Camila. no auge da novela. Tomamos como ponto central dessa discussão a forma como mulheres espectadoras fidelizadas às novelas globais e particularmente da telenovela em questão. Nesse sentido é que para compreendermos algumas dimensões da repercussão social deste MS. o que nos chama a atenção é o fato de que. os telefonemas para a Secretaria de Saúde pedindo informação sobre a doença aumentaram de 1 para 10 chamadas por dia. No Disque Saúde. afetando sua função e velocidade de crescimento. entre 25 e 30 anos de idade. somente em janeiro (no auge da novela).o número de cadastros chegou a uma média de 30 por semana. o número de consultas sobre a leucemia passou de 871 para 2427 no mesmo período. a partir de um recorte específico. foi realizadas entrevistas estruturadas com ex-portadores de leucemia.182 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva 3 .

as personagens. um discurso “socialmente engajado” que não faz parte necessariamente da função melodramática da trama. típica da práxis incorporada pelos profissionais do campo. clara e direta. assim.2009 ram 154 pessoas querendo se cadastrar como doadoras quando o número em dezembro do mesmo ano não chegou a dez por mês.br). são “suspensas” dos conflitos emocionais da narrativa para repassarem informações que os autores julgam pertinentes para esclarecer a questão posta em debate. Amparadas por esse discurso. que é inserido na narrativa centrado em um discurso claramente pedagógico. (www.Julho/Dezembro . . pela sua existência na trama. garantindo. O árduo e extenso trabalho de campo realizado por Ana Giovana Lima Leandro forneceu o material que permitiu fazer as análises que se seguem. quase sempre. 2000). No entanto. de cunho essencialmente educativo. Merchandising Social é.org. construindo uma inserção que aparece. Esse discurso. As informações veiculadas por personagens relacionados à temática posta em discussão lembram. que. em termos de reflexão O público e o privado . numa óbvia tentativa de elevar a audiência das telenovelas que havia sofrido uma substancial perda de pontos no ibope (cerca de 20%) nesta década (Borelli e Priolli. a se criar um verdadeiro monólogo entre a personagem-pedagoga e o telespectador-aluno. muitas vezes. e muito próximo de uma retórica baseada nos princípios da racionalidade moderna. em momentos diferentes da narrativa incorporou a essa temática a lógica de argumentação do que se convencionou chamar de Merchandising Social. Informações retiradas do site oficial da Federação das AABB/ Cidadania acessado em 15 de fevereiro de 2009. sistemática. ao mesmo tempo em que procura construir uma imagem da emissora de empresa cidadã. quase sempre.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 183 sofrimentos em vários níveis diferentes ocasionados pela aquisição da doença por uma personagem da trama foi o mote da narrativa.fenabb. Entrementes.Nº 14 . A abordagem de questões sociais em uma telenovela é um elemento constante nos enredos teleficcionais brasileiros desde os anos setenta do século passado. se o MS nem sempre repercute. sempre carregadas de forte teor emocional. descolada da trama. distante dos apelos emocionais que a temática destila em outros momentos da estória. em parte. não deve ser confundida com o merchandising social. o discurso jornalístico pelo seu apelo a uma linguagem objetiva. a inserção intencional. só aparece na teledramaturgia brasileira de forma clara a partir dos anos noventa do século passado. No entanto. Esse discurso. chegando. O MS é. que tem como função básica alavancar a audiência de uma dada ficção seriada. se choca com a linguagem folhetinesca. usual nas telenovelas brasileiras como pano de fundo das tramas. não raro. em um aumento substancial de audiência em uma novela específica (uma vez que se tornaram corriqueiros em todas as telenovelas da emissora). em linhas gerais. o sentido de verossimilhança das tramas. ressaltamos que tal estratégia de comunicação. 5 . não pode ser confundida com a apresentação do contexto social contemporâneo. em determinados momentos. estruturada e com propósitos educativos bem definidos de questões sociais na produção teleficcional brasileira.

os profissionais especializados na área de marketing social trabalham em harmonia com estes autores que já levantaram em suas próprias sinopses a oportunidade de abordar esta ou aquela temática na trama. em segunda instância. se sacrifica mais uma vez. Além disso. salvar por meio de um transplante de medula. já grávida da lua de mel. ser portadora de leucemia mielóide aguda6. Como afirma Motter (2003). de acordo com o perfil das personagens que aparecem na sinopse da novela. O transplante da medula óssea é a alternativa para a sua cura Na novela em questão. é um excelente ponto de partida. A novela revela em minúcias o início do tratamento de quimioterapia. a mãe de Camila. hoje. no uso de MS nem sempre expressas pelos índices de audiência. Na trama. ao sofrer um aborto espontâneo. universitária. renunciando a um homem que também se torna objeto de amor de Camila. Nesse caso.Silvio de Abreu) e no aumento da procura por tratamento ou serviços de apoio (alcoolismo.Manoel Carlos). que tem como objetivo central inserir tal proposta nas telenovelas da emissora. descobre. criam seus próprios merchandisings sociais.A leucemia mielóide é um dos quatro tipos conhecidos de leucemia e se caracteriza pelo crescimento descontrolado e exagerado das células indiferenciadas chamadas de blastos. existem autores como Manoel Carlos e Glória Perez que. no capítulo em que Camila teve sua cabeça raspada devido à doença. provoca desmaios. exibido no dia 11 de dezembro . No entanto. Camila era uma jovem de 21 anos. criando uma deficiência de glóbulos vermelhos. todos os horários de veiculação das novelas globais. em sintonia com as Organizações Não Governamentais. a vida da filha. em geral. uma vez que nos permite avaliar como essa política de comunicação da emissora tem repercutido no social. O MS perpassa. fraqueza e queda de cabelo. de uma mãe por uma filha. seguido da queda de cabelo e da resolução melodramática da personagem de raspar. Em primeira instância. que ao voltar. a cabeça. Em geral. engravidando do pai de Camila. em vários níveis diferentes.Laços de Família. Helena. recém-casada.184 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva acadêmica. apesar de ser mais intensificada no horário das 20h. mas verificáveis principalmente pelas mudanças de atitude reveladas em depoimentos como os de famílias que se reconciliam com os filhos (homossexualidade masculina. por fim. 6 .Por amor (1997). plaquetas e glóbulos brancos. Helena. para com a doação do futuro irmão. existe um bloqueio na fabricação das células normais.existiram dois casos de leucemia: o da personagem principal da trama –Camila– que conseguiu se recuperar graças à uma doação de medula de um irmão que viera ao mundo justamente com o propósito de lhe salvar a vida e o de Marcela– personagem secundária da trama que não sobreviveu à doença.A próxima vitima (1995). O tratamento para esta disfunção é muito doloroso. Estas células não apresentam as funções normais dos glóbulos brancos. A ideia central de Laços de Família é o sacrifício. Segundo Lima e Camacho (2001). pesquisas apontam determinadas repercussões sociais. os MS são projetados por departamentos específicos da emissora. do qual estava separada há anos. baseado na quimioterapia. se sacrifica pela filha.

tivemos a pretensão de analisar o entendimento de como se forma a crença na intervenção das telenovelas nos parâmetros de acesso ao tratamento da doença e na diminuição do preconceito relativo à leucemia na sociedade como um todo. Na era digital. desenvolvimento e cura da doença. quatro residem em São Paulo e uma no Rio Grande do Sul. traz uma reflexão sobre o tema abordado. efeitos sociais e educação cidadã Todas as entrevistadas perceberam o MS como uma propaganda inserida no interior das novelas que retratava uma questão social. a Rede Globo de Televisão é agraciada com o BitC Awards for Excellence. inclusive. pela primeira vez. uma empresa não européia foi a ganhadora do prêmio. Elas acreditavam que o MS é “algo inserido dentro da novela que tenta mover a sociedade para o lado social”. usadas para uma campanha real de doação de órgãos. Hoje. e faz parte da cultura do brasileiro assistir a novelas. chegando a atingir um pico de audiência de 61 pontos. na qual as informações proliferam em todos os lugares. por e-mail. e ambos são cruciais tanto para o desenvolvimento econômico quanto para os processos de democratização no âmbito da cultura e da política. As entrevistas foram realizadas via internet.2009 .S. o que os educadores mais lamentam é o fato de que. O público e o privado . A repercussão do MS desta novela foi tamanha que em 2001. seu papel positivo na sociedade ocorre porque. foi aplicada entrevistas estruturadas. No grupo social selecionado para esta pesquisa. Para tal. segundo elas. Das restantes. o MS é muito importante. a informação é essencial tanto para a formação do discurso político como na própria ação política. esclarecendo e instruindo as pessoas. A grande quantidade de perguntas dizia respeito ao fato de necessitarmos de uma série de informações sobre a descoberta. As imagens da personagem raspando a cabeça foram. composta de 33 perguntas. jovens ex-portadoras de leucemia pertencentes à classe média brasileira. não temos dúvida de que a informação tem um papel fundamental na produção do conhecimento. Merchandising Social. a informação não é acessada pela grande maioria da população brasileira.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 185 de 2000.Julho/Dezembro . O destaque do evento é que. Para elas. 79% dos televisores estavam sintonizados na novela. posteriormente. “daí muita gente pega essas informações”. exceto com uma das entrevistadas que residia em Fortaleza.Nº 14 . um dos prêmios de responsabilidade social mais conceituados internacionalmente. mesmo disponível. afirmou J. Nesse sentido.

instituições sociais tradicionalmente detentores dos saberes. que deve acontecer à revelia do livro.mas. Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre o fato de que as audiências percebem os meios de comunicação. e não questionam o papel da família. e principalmente as telenovelas. da escola ou da igreja nesse processo. mas dificilmente alguém ajuda.R contou que conheceu um “menino pela internet que quando soube que ela foi portadora de leucemia não quis conhecê-la por medo de pegar a doença”.R. Desta forma. e em diversos níveis. “O MS tem pouca durabilidade. são absorvidas em paralelo aos desdobramentos da trama.Blogs. como se a mídia fosse uma instituição social autônoma e soberana em relação à sociedade maior. o que é um absurdo”. Aqui. a cultura não parece ter nada a ver com os processos educativos. pois. Se a procura de informações não é a motivação central dos fãs das telenovelas. Vivemos. Todas acreditavam que o MS tem um papel positivo na sociedade. Todas citaram o fato de que é necessário conscientizar as pessoas em relação às doações voluntárias. cada um tem suas atividades e não vai parar para ajudar”. No entanto. o diferencial do MS em relação a outras estratégias de comunicação é que informações sobre as mais diferentes temáticas. Elas acreditavam que o efeito é insuficiente a não ser que se tenha uma campanha mais contínua. em um ambiente educacional difuso e descentrado no qual o MS se destaca como uma estratégia de comunicação que se faz valer à revelia da escola e do livro. Entrementes. “A novela desmistificou muita coisa sobre a doença. J. orkuts e twiters são espaços virtuais que promovem a interação social. M. as informações oriundas do MS são seu resíduo necessário. apenas 33% das entrevistadas acreditam que o MS ajuda em relação ao aumento da doação de órgãos e medula. nas palavras de Barbero (2000). 7 .S ressaltou que “quando a novela comenta um problema como esse é como se tivesse acabado de surgir. todas as entrevistadas consideraram que o interesse das pessoas sobre a doença e seu possível engajamento “só dura o tempo da novela”. da escola e da família. em especial no que se refere ao preconceito”. . assim. Para elas. afirmou M.186 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva O uso da internet para fins de socialização7 em detrimento de busca de informações é confirmado nas pesquisas dos estudiosos da área. Trata-se de formular soluções mágicas para os problemas da educação. como se nunca tivesse existido. não necessariamente a troca de informações ou de conhecimentos. que dependem de uma campanha contínua e mais bem elaborada da mídia. as pessoas lembram-se do assunto na hora. mais bem elaborada a fim de que a temática fique “marcada” na vida das pessoas. cabe aos meios de comunicação de massa educar ao povo brasileiro. como agentes solitários de mudança do social.

Todas acreditaram ainda que o atendimento dado à Camila (de primeira qualidade) não se repetia para o povo brasileiro que sofre com a precariedade dos hospitais e que o fato da mãe. assim.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 187 Nessa perspectiva. parecia ser bem maior do que o físico. que algumas de suas informações eram equivocadas. voltar ao antigo relacionamento e engravidar para salvar a filha “é coisa de novela mesmo”. afirmou J. tudo era perfeito. 33% das entrevistadas não viam uma sintonia entre a realidade e a ficção porque afirmavam que a novela só mostrava o viés de quem possuía acesso aos hospitais e tratamentos adequados. cujos frutos ainda são bastante nebulosos. todos podiam largar o trabalho para ficar com ela o tempo todo no hospital”. As jovens portadoras de leucemia. A totalidade das entrevistadas afirma que o autor havia retratado o sofrimento de Camila em condições privilegiadas. Assim. afirmaram ter descoberto. sabia muito pouco sobre ela. A diminuição do preconceito não implica em uma reviravolta imediata no comportamento social dos indivíduos.diz C. uma vez que “para Camila. apenas uma deu continuidade a ele. observa-se que o processo de informação e. “Naquela época. Nenhuma das entrevistadas modificou sua percepção sobre a doença depois da novela. em vários níveis. depois da emissão da novela. uma política de comunicação conjuntural e imediatista. Das entrevistadas. a carência dos desassistidos.H. Aquelas que tiveram leucemia durante a novela afirmaram que as pessoas ficaram mais curiosas para saber se era assim que acontecia.2009 . 67% afirmaram que o sofrimento mostrado na novela é real. Neste caso. Então a novela foi uma fonte de informação. 67% afirmaram que o seu dia-a-dia como portadoras não era igual ao de Camila porque ela “era muito mimada e sendo ela de classe social alta. para elas. em hospital particular. É inegável que o MS proporciona uma discussão pública sobre o assunto. já separada. O MS demonstra ser. a novela revelava apenas o tratamento que era dado a quem tinha dinheiro para realizá-lo.Julho/Dezembro . Todas as entrevistadas iniciaram seu tratamento em hospitais públicos. mas que nem sempre acontece de forma pertinente. se elas sofriam tudo aquilo que a Camila passava. enquanto que 33% afirmaram que “foi um absurdo a forma como colocaram a leucemia na novela”. o que era uma representação distinta da realidade das classes populares no Brasil que “dão atenção (os familiares e amigos) mas não 24 horas porque afinal todos têm suas vidas para cuidar”. Das depoentes. “Eu não passei O público e o privado . Entretanto. o sofrimento social inerente a tal situação de precariedade pública.S. como eu ainda não tinha a doença. mas equivocou-se algumas vezes”. as coisas eram mostradas da forma mais fácil”.Nº 14 . ou esclarecimento sobre uma determinada temática não resulta necessariamente em uma ação social consequente.

Como a novela retratou o caso de uma leucemia aguda incutiu na sociedade a ideia de que todas as pessoas que tem leucemia estão predestinadas à morte. afirmou C.F. magras e feias. é esta mesma intensa carga emotiva que proporciona o engajamento emocional das audiências e.188 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva pela metade do sofrimento de Camila”. ainda que algumas cenas tenham sido marcantes como a da personagem Camila cortando os cabelos. sua fidelidade ao gênero em questão. conscientizando os telespectadores sobre o drama vivido na ficção. mas. recordavam do sofrimento da personagem e se perguntavam quem seria o doador delas e se ficariam carecas. Os depoimentos acima nos fazem refletir sobre a relação entre MS e a estrutura folhetinesca. os closes) criavam uma atmosfera mais pesada em relação à doença o que levaram-nas a concluir que “a novela deveria ter dramatizado menos e explicado mais”. 67% pensavam que os recursos televisivos (o som. No entanto. nem tanto. segundo elas. O problema. típica do gênero. outros. o que não é regra geral. ficando desesperadas. também recorta do real apenas os aspectos da doença que podem contribuir para a exacerbação da estrutura dramática. o que não aconteceu com elas. Assim. quanto à contribuição da novela ao aumento ou à diminuição do preconceito relativo à doença. Nenhuma das entrevistadas acreditou que a novela tenha chocado. enquanto 33% defenderam a ideia de que o acento nos recursos audiovisuais e melodramáticos se fazia necessário para “chamar a atenção das pessoas” sobre a doença. Aqui. uns mais agressivos. A telenovela mostra não só aspectos de uma realidade pertinente a uma classe social privilegiada. O fato do MS está embutido em uma narrativa de teor melodramático acaba por desfigurar o discurso pedagógico incrustado no MS. fazendo com que muitas informações acabem desaparecendo da temática ou mesmo se afastem da realidade devido ao teor de exagero que a telenovela necessita ter para fidelizar sua audiência. garantindo a eficácia do MS como política de comunicação. apenas 33% lembraram de que outra personagem portadora de leucemia na novela havia morrido devido à doença. As jovens entrevistas gostariam de ter nos MS “mais informação e menos dramatização”. Das depoentes. vemos como as experiências imediatas dos indivíduos moldam suas visões de mundo. 83% das entrevistadas disseram que a novela diminuiu o preconceito porque sensibilizou. é que existem vários tipos de leucemia. pois. paradoxalmente. por conseguinte. 83% afirmaram que quando se descobriram portadoras automaticamente lembravam da novela. no entanto. ou que sofrem muito. no entanto. Nenhuma delas precisou de doador e apenas uma teve que raspar a cabeça. .

O público e o privado . e por último “esclarecer sobre o assunto”. metade das entrevistadas acreditou que sim. mas.S. o MS parece ser uma estratégia de comunicação inserida na ficção seriada que tem se mostrado eficaz tanto no aumento da audiência bem como na produção de uma imagem positiva da Rede Globo de Televisão como uma empresa de responsabilidade social. o autor deveria. a pesquisa de campo realizada com uma audiência seleta de Laços de Família revelou alguns aspectos interessantes da questão que devem ser ressaltados. No mais.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 189 Quanto ao incentivo à participação dos telespectadores na doação de órgãos. ter abordado “coisas mais reais”. mas que poder-se-ia ter diminuído o glamour e a ilusão que a “novela passa sobre a doença”. Em relação ao MS. que o MS esclarece e incentiva à participação. enquanto a outra metade pensou que o MS ajudou o tema a se tornar conhecido. no que diz respeito a seu papel como educador social.2009 . podemos verificar que o MS é compreendido pelas entrevistadas como uma ferramenta de esclarecimento e discussão social importante para a sociedade brasileira. “fingir ter participação social”. ainda que se destaque o seu papel de educador social. Enquanto isso. No entanto. “mais dentro de nossa realidade”. diz J. cria mitos que não deveriam existir”. Nessa perspectiva. “aumentar a audiência”. Todas acreditam que a Rede Globo faz MS em suas telenovelas para “criar uma imagem de boazinha”. em especial no que diz respeito à diminuição do preconceito em relação a algumas temáticas sociais. todas acreditavam que “ele serve para esclarecer a população. mais leve e com menos enfoque”. mas.Nº 14 . 17% acreditaram que o tema com abordagem mais real deveria ser objeto jornalístico porque “se for para ser tratado em uma novela deve ser com uma perspectiva mais positiva. Ao final. 87 % das entrevistadas consideraram o MS realizado em Laços de Família positivo e importante e na medida do possível bem explorado. A sua repercussão social é inegável como demonstra os dados fornecidos por esse trabalho. acreditam que a Rede Globo faz MS para atrair a audiência (porque a população se envolve com o sofrimento das personagens). não dá conta da necessidade das pessoas ajudarem efetivamente com doações. mas há também um “lado cultural da emissora. em especial. no entanto. Durante a pesquisa de campo. coloca em xeque a linha de pesquisa em comunicação (corrente nos anos 70 e início dos anos 80 do século XX) denominada de “Educação para os Meios”. uma vontade de ajudar mostrando mesmo os problemas de nosso país”. Essa visão das audiências sobre o impacto do MS sobre a sociedade brasileira. a grande maioria concebe o MS como um instrumento mercadológico usado pela Globo a fim de atrair audiências. assim.Julho/Dezembro . ao mesmo tempo.

há uma distinção clara entre “estar esclarecido” e “participar socialmente”. Para as entrevistadas. apesar das boas intenções dos teóricos a ela vinculados. tendo uma boa concepção de suas contradições internas. para as audiências.190 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva de caráter denuncista. indícios de repercussão crítica do MS em uma audiência seleta. que vinculada aos idearios da Teoria Crítica8. na parcialidade da qual o discurso jornalístico pretende há séculos se eximir. 8 . Todas as entrevistadas revelaram a compreensão de um MS cujo efeito social é temporário. Referiram ainda que o MS recaiu em alguns equívocos. . Ao mesmo tempo. os resultados dessa pesquisa com as audiências (assim como muitas outras ao longo dos anos noventa) demonstram que as audiências tem uma visão muito própria dos meios de comunicação. as entrevistadas. como qualquer outro tipo de estratégia de comunicação. pelo menos. em especial. apesar de associar as repercussões da doença a um universo de classe média alta. as audiências a terem uma leitura crítica destes. O grupo estudado ressalta o fato de que o MS de Laços de Família. No entanto. que ajudasse. Entrementes. ao mesmo tempo em que propunham a criação de meios de informação alternativos aos da ordem dominante. como reprodutores ideológicos do status quo (Lopes. Aqui. desconsiderando as condições materiais de existência das classes sociais menos favorecidas. Os dados fornecidos por instituições na área de saúde comprovam um grande declínio do interesse mostrado pela população pela doença após o término da novela. apesar de pretender mostrar um discurso “universal” sobre dado tema. de um processo educativo mais voltado para a doutrinação do que para o fazer crítico que propunham. aqui. Está claro para essas audiências que o “efeito Camila” só “dura o tempo da novela”. 1996). Tratava-se. preenchendo as audiências com informações que dificilmente teriam acesso ou interesse em acessar se não se tratasse de um discurso engajado no interior de uma trama global. concebia os meios de comunicação. Todas as jovens entrevistadas acreditam muito mais na eficácia do MS como ferramenta de informação/esclarecimento do que como estímulo à participação social como o engajamento das audiências em torno das causas discutidas. quando associou a leucemia (que se revela em quatro níveis diferentes) a apenas uma de suas manifestações. acreditam que as informações passadas sobre a doença em si são pertinentes. demonstra o poder do MS em estabelecer um diálogo com a sociedade. em sua totalidade. tentava-se construir uma pedagogia para os meios. recai. por meio de cursos ministrados por um bom número de instituições sociais. Entrementes. Destacamos. Termo que se refere à produção intelectual global da Escola de Frankfurt. O MS. retratou a leucemia a partir da perspectiva de uma classe social privilegiada. de forma geral.

2000. a pautar o menu cotidiano de assuntos da mídia. Pedro Lozano. A telenovela. throughout the time. participation and social inclusion. ampliadas para segmentos sociais diversos. Referências BARROS FILHO. to the default of the public agencies.Nº 14 . É inegável que o MS ocasiona uma agenda midiática9. uma agenda midiática que produzirá. This work has. the media goes constructing. 1985. se estas conversas podem vir a ser o alicerce de processos educativos e participatórios maiores.Julho/Dezembro . Social merchandising. Such approach if bases on the fact of that the communication politics only can responsibly be evaluated from concrete objects by means of which these politics acquire social visibility. while the public power search to supply lines of direction to the communication system. A partir daí. Artigo Recebido: O5/10/2009 Aprovado: 15/12/2009 attemped to trace a regulatory landmark series. television. passa. S. com o poder de agendamento que possui. Barros Filhos e Bortolozzi. São Paulo: Editora Moderna. durante certo período de tempo. But. Nenhum jornal ou programa de entrevista traz uma discussão tão interessada por parte das audiências de assuntos que em outras esferas midiáticas seriam objeto de curiosidade de poucos. therefore. A agenda midiática pressupõe uma pauta recíproca entre as empresas de comunicação ( Wolf. a inserção do MS nos enredos das telenovelas brasileiras tem pautado as telenovelas brasileiras fora de seus próprios termos.Quando a televisão produz suas próprias políticas de comunicação: uma análise do Merchandising Social nas Telenovelas Brasileiras 191 não se pode negar que o primeiro passo para a participação social passa pela prática informacional. G (ccords). De Fleur e BallRokeach. via MS.2009 . Mas. Clóvis. produced for the Net Globe of Television. traz à esfera pública temas que só circulavam na sociedade ou em espaços acadêmicos ou em campos especializados. O MS. podem nos ajudar a esclarecer melhor a questão. the Brazilian television promotes politics that guide its programming in order to put it into the category of company citizen. the pretension to analyze the SM presented in the soap opera "Laços de Família" (2000-2001). cria-se. Nesse sentido. O público e o privado . 2001 BORELLI. cujo principal mérito é a capacidade de gerar conversas cotidianas. pelos meios de difusão como importante para a discussão social. its proper politics of communication.S. durante a veiculação da novela. São Paulo: Summus. PRIOLLI. As discussões sobre as temáticas sociais abordadas de forma pedagógica nas telenovelas saem do âmbito das revistas de fofoca e penetram na imprensa “séria”. 2001. K ey W ords: Words: communication politics. One of the most important handspikes of the senders to reach such goal has been the introduction in its soap operas the Social Merchandizing (SM). A Deusa ferida. In way to the debate opened in the civil society on education. BORTOLOZZI. that in thesis. from the perspective of its hearing. Ética na comunicação: da informação ao receptor. uma agenda social. temporariamente. ABSTRACT CT: 9 . somente pesquisas mais apuradas.H. 1993). ABSTRA CT : The public politics of communication have. it looks to sharpen the media system to the rights and the demands of the civil society. A agenda midiática pode ser definida como o elenco temático selecionado. servindo de pauta para a elaboração de matérias jornalísticas tanto impressas como audiovisuais. então.

São Paulo. n.br/papers/xxv.17.org.intercom. . 2000. Desafios culturais da Comunicação à cultura IN: Comunicação & Educação. Melvin L. jan/abr. (18). LOPES. A cidadania. maio/agos. Maria Lourdes. WOLF. Marcio Luiz. IN: Comunicação & Educação. S. Mauro. Merchandising Social: as telenovelas e a construção da cidadania apresentado em 2002 no XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação disponível em http://www.54-60. MARTIN-BABERO. e BALL-ROKEACH.2000. Jesus. Maria Immacolata Vassalo.pdf. Teoria da comunicação de massa.ci/ np14/NP14SHIAVO. SCHIAVO. MOTTER.mai/ago. Comunicação e Educação. 1985. Rio de Janeiro: Zahar. Manaus: Valer.192 Roberta Manuela Barros de Andrade Erotilde Honório Silva DE FLEUR. 1996. (6). Porto: Editorial Presença. Pesquisa de recepção e educação para os meios. 1993 HERKENHOFF. p. Telenovela e Educação: um processo interativo. Teorias da comunicação. João Batista. São Paulo. 2000.

Políticas de identidade. temos a certeza de que nos apossamos das chaves que o autor transfere para abrirmos as enormes portas que dão acesso aos meandros da cultura.2009 Artigo Recebido: 04/11/2009 Aprovado: 01/12/2009 . Cidadania. e das veredas deste seu nomadismo temos como frutos novas idéias com as quais não só nos alimentamos mas que também temos a possibilidade de embasar saberes que sustentarão outros pensares para a política. muitas vezes a cultura se encontra inacessível até mesmo aos pesquisadores da temática. demonstram que o pensamento do autor caminhou sim. São textos policulturamidiaticamente pensados. cultura e mídia. O livro dividido em nove capítulos perfaz um total de 130 páginas. Estado. Política e Economia da Cultura. Do Real ao Surreal. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil. Embora já tenham sido publicados separadamente. O Jogo das Diferenças e Idéias sobre uma Política Cultural para o Século XXI. melhor dizendo. Minorias e Mídia: Ou Algumas Questões que as Minorias Propõem ao Liberalismo. foi a junção dos mesmos que acabou criando o que esta tão bem apontado no prefácio de Durval Muniz a de Albuquerque Júnior intitulado de "As Energias da Embriaguez".(*) Luzia Aparecida Ferreira-Lia é Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entendo assim que após a leitura do livro o que nos fica é a lucidez. 2008 O livro Textos nômades: política. Do primeiro ao O público e o privado . Mídia e Identidade. cultura e mídias é o resultado das reflexões efetuadas por Barbalho entre os anos de 2000 e 2006. cultura e mídia. Especialista em Política e Gestão Cultural. escondida em pequenos cômodos. E-mail: liafera@usp.br 193 Resenha Luzia Aparecida Ferreira-Lia* BARBALHO. Isto porque. nos faz pensar: que seria isto exatamente o que eu gostaria de falar. a cada momento de sua leitura.Nº 14 . Textos Nômades: política.Julho/Dezembro . Alexandre. Trata-se de texto límpido e envolvente que. Políticas de Cultura. Estado Autoritário Brasileiro e Cultura Nacional. Textos cuidadosamente escolhidos: Por um Conceito de Política Cultura.

de Zallo e de Alan Hercovici. Roncagliolo. propositadamente. deixar o seu pensar mais ampliado em questões. cultura e mídia da Coleção Banco do Nordeste do Brasil é um livro que deve estar presente em todas as bibliotecas das escolas brasileiras. Baudrillard. Morin. Isto se deve ao cuidado do autor em escrever. O tema recorrente política. por exemplo. Neste capítulo. sobre a identidade. No restante do livro o autor. ao tratar da temática cultural e de suas implicações de modo coerente e aprofundado. ora pela indústria cultural. isto além de facilitar a leitura tornou suas reflexões didáticas. o privado e a cultura. insere o leitor no cenário da política e cultura brasileira. Textos Nômades: política. ao beber na fonte de seus conhecimentos. confundindo muitas vezes o público. Isto permite percebe que Barbalho possui o domínio da questão cultural devido a facilidade com a qual transita entre os vários teóricos. Assim. cultura e mídia é apresentado de forma decodificada pelo estudioso Barbalho. ao deixar algumas idéias para ser pensada sobre qual a política cultural seria a ideal para o século XXI. por se útil aos estudantes desde o primeiro ano do segundo grau até últimos anos dos cursos de pós-graduação das universidades. mais especificamente de Bolaños. A política e economia da cultura é tratada no capítulo mais denso do livro no qual o autor elabora um diálogo a partir de suas leituras de Jameson. Adorno e Horkeheimer. ele abre um espaço para nossa própria reflexão sobre a temática.194 oitavo o autor efetuou subdivisões nos textos. de maneira . Isto torna possível o entendimento das contradições deste período conturbado no qual Getúlio Vargas é presidente. O autor parte das primeiras tentativas de esboçar conceitos de política cultural no pós-guerra. somadas a dos teóricos da Escola de Frankfurt. principalmente no que diz respeito a questões fundamentais para que se tenha o entendimento requerido pelos estudiosos da área. onde existem desconstruções-construções ladeadas. que cumpre assim a função da prática universitária de tornar os saberes acessíveis a um maior número de pessoas. demonstrando que a temática é um debate contemporâneo. Prosseguindo em suas reflexões vai tecendo um discurso bastante lógico e de fácil entendimento sem. após um preâmbulo onde trata especificamente do Partido Comunista Brasileiro. contudo. Debord. ora pela política. É também nele que generosamente o autor permite ao leitor apossar-se da temática cultural. tema abordado com extrema clareza pelos diálogos que no suscitam. No capítulo nono. R?diger. da Escola Francesa.

concluídos em 1997. 2003). 2005). É autor de vários livros: Relações entre Estado e cultura no Brasil. O público e o privado .2009 .Fund. acaba entregando ao leitor um texto palatável. Suas experiências são nas áreas de Comunicação e Estudos Culturais. assuntos tão complexos e. nesta mesma Universidade.UFBA. 2008) e coorganizador de: Letras ao sol. trabalhando com os seguintes temas: política cultural. Cultura e imprensa alternativa (UECE. Atualmente. 1998). contracultura e cultura brasileira. Antologia comentada da literatura cearense (com Oswald Barroso . Alexandre de Almeida Barbalho é formado pela Universidade Estadual do Ceará onde cursou licenciatura em História no início da década de 1990. mídia. É organizador de Brasil. estado. onde também realiza doutorado em Sociologia. Lívio Xavier. Seu doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas foi realizado na Universidade Federal da Bahia e concluído em 2004. com ênfase em Políticas de Comunicação e Cultura. além de ser ocupar a função de professor em Comunicação. 2005) e Políticas Culturais no Brasil (com Albino Rubim . Posteriormente. Comunicação e cultura das minorias (com Raquel Paiva . que se constitui em um instrumento facilitador ao permitir acesso a informações primordiais para amplas camadas sociais. editado pela Universidade de Ijuí em 1998. 2007). desta forma. Demócrito Rocha. A modernização da cultura (UFC.Nº 14 . cultura e mídia (Fund. 2000). minorias. promovendo seu desenvolvimentos intelectual. fez bacharelado em Ciências Sociais e seu mestrado em Sociologia. Cultura e política (A Casa. também é professor adjunto do curso de História e dos Programas de Pós-Graduações em Políticas Públicas e Sociedade na Universidade Federal do Ceará. em 1993.195 simples.Paulus. cultura.Julho/Dezembro . brasis: Identidades. Demócrito Rocha.

margens de 2. corpo 12. artigos. ficando proibida a reprodução total ou parcial. O artigo deve apresentar no máximo 40. titulação). resumos e palavras-chave na língua original e em português. devendo sumariar objetivos. Textos em português. Formato do artigo 1. espanhol e francês devem apresentar títulos. 4. 5. 2.200 caracteres (sem espaço). sem a autorização prévia deste Periódico. passando. 5. identificando autores (nome completo. Os Artigos devem ser inéditos. temas livres e resenhas.com. endereço para correspondência e endereço eletrônico. não excedendo o tamanho de 1. métodos de pesquisa. Resultados. 4. 2. instituições a que pertencem. A aprovação dos textos será efetuada mediante o exame do Conselho Editorial e de pareceristas ad hoc levando-se em conta a adequação à linha editorial da Revista. incluindo notas e referências. Os artigos publicados na Revista devem ser encaminhados com autorização dos respectivos autores. São aceitos textos em português. em qualquer meio de divulgação. Em Temas livres são reservados assuntos diversos. 3. O resumo deve ser seguido por uma lista de 2 a 5 palavras-chave. relacionado ao campo das políticas públicas. resultado de pesquisas empíricas e/ou de estudos conceituais acerca de assunto da edição temática. são de exclusiva responsabilidade do(s) autor(es). inglês e francês. Enviar à Revista os originais em arquivo eletrônico para o endereço revista@ politicasuece. Conceitos e opiniões expressos nos diversos artigos. resumos e palavras-chave na língua original e em inglês.5 cm.com politicasuece. conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (MS) e de acordo com as diretrizes da Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial. devem ser acompanhadas da informação de autorização do Comitê de Ética. fonte das citações e revisão ortográfica. 6. assim como exatidão. O título do artigo deve dar uma idéia precisa do conteúdo do trabalho e ser o mais curto possível. na fonte Times New Roman. formatados em processadores de texto compatíveis com o sistema Windows ou Macintosh . O Editorial é de responsabilidade do editor e/ou organizador(es).196 O Público e o privado SUBMISSÃO DE AR TIGOS ARTIGOS Instruções nstruções Gerais 1. bem como o conteúdo e relevância das contribuições. O Resumo deve ser auto-contido. espanhol. Discussão e Conclusões. em processador Word ou em outro compatível. O texto pode ser estruturado (não obrigatoriamente) observando-se as seguintes partes: Introdução. orientação teórica.000 caracteres (sem espaço). resultados e conclusões do trabalho. a serem de propriedade da Revista. Questões éticas relativas a pesquisas com seres humanos. importantes para a . digitados em espaço duplo. se for o caso. Metodologia. após aprovação. Resenhas são textos concisos comentando publicações recentes de interesse de O Público e o privado. Artigos em inglês devem conter títulos. em sintonia com a linha editorial do Periódico. Tais seções devem apresentar títulos e eventualmente subtítulos. 3. A Revista está estruturada em 4 seções: editorial.

devem ser em ordem alfabética. n. Deve ser inserida uma linha em branco entre o quadro. editora e data.197 indexação do artigo. tabelas. 1. Nov. tecnologias em saúde e medicina : perspectiva antropológica. gráficos. 2. devidamente legendados. 1975.html. Arthur J. preferencialmente. por autor. Artigo em periódico: DUARTE. Para ênfase no corpo do texto deve ser utilizado. mapas e fotografias devem obedecer às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O abstract deve ser uma versão em inglês do resumo em português. Alice´s Adventures in Wonderland [online]. mapa e fotografia e o texto procedente. Direito internacional público e o estado moderno. fonte ou autoria. Ricardo. Não deve ser deixada uma tabela ou figura sozinha numa página onde ainda há espaço remanescente de pelo menos cinco linhas de texto. Aqueles elementos gráficos não incorporados ao texto em formato eletrônico não poderão ser processados e o artigo será devolvido a (os) seu(s) autor(es). Available from : http:// www. 1. referência imediata. [cited 10 February 1995]. Carlos (org.Recomenda-se o sistema autor-ano para citações bibliográficas. Outros Elementos do T e xto Te 1. 2008. 4. 1.500 caracteres (sem espaço). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. 5. . Dortmund. São Paulo: Ed. em no máximo 2.).germany. As legendas de quadros. 6. Cultura. 2006. Salvador: EDUFBA. Texinfo ed. devendo estar em formato eletrônico. se necessário.1. Germany: WindSpiel. 3. A legenda deve ser centralizada. com o mesmo limite de tamanho. Artigo em coletânea: POCHMANN. 1984.5 Artigo em formato eletrônico: CARROLL. Deverão conter nome do(s) autor(es).eu. título.2. A.6. Desempregados do Brasil. D. (Tese de Doutorado). ISBN 0681006447.Coletânia: CAROSO. outubro de 1998. 7. listadas em folha separada ao final do texto.1.net/books/carroll/ alice.4. M. As Resenhas devem contemplar informes breves sobre livros publicados nos últimos 2 anos. 1. 2. Belo Horizonte: Faculdade de Direito da UFMG. In: ANTUNES. Livro: FURTADO. Referências Bibliográficas 1. 9. (org. Horizontes Antropológicos.). Quadros. Celso. tabela. Pessoa e dor no Ocidente. As referências. Lewis. A formação econômica do Brasil. tabelas. mapas e fotografias devem se integrar ao arquivo do texto. Ano 4. Devem ser evitadas linhas órfãs (linha única em um parágrafo ou no início ou fim de página). São Paulo: Boitempo. gráfico. Tese acadêmica: DINIZ. conforme os exemplos abaixo listados: 1. Fontes matemáticas ou outras fontes diferentes das utilizadas nos estilos descritos acima deverão ser integradas ao texto e cópias dos arquivos dessas fontes deverão ser fornecidas juntamente com o arquivo do texto original. Luiz F. gráficos. numerada e deve conter. o tipo itálico. 1994. acompanhado de key words. 1.3. local (cidade) da publicação. Nacional.

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