Você está na página 1de 674

Claudio Roberto da Silva

Reinventando o Sonho
História Oral de Vida Política e Homossexualidade
no Brasil Contemporâneo

Dissertação de Mestrado em História


Social apresentada à Faculdade de
Filosofia Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo.

Orientador: Prof. Dr. José Carlos Sebe


Bom Meihy

São Paulo
1998
Temos de rever nossos preconceitos, sabendo
que essas mudanças não influirão na
orientação sexual minoritária, mas propiciarão
uma extensão de cidadania e bem estar para
milhões de pessoas que hoje não podem se
mostrar do jeito que são, e estão excluídas do
direito mais elementar: o de ser.
Martha Suplicy

2
Agradecimentos

A experiência de produzir um trabalho acadêmico envolve muitas pessoas,


sem as quais não seria possível caminhar sozinho. A trajetória revelou o quanto há
limites que não poderiam ser superados individualmente, pois se em alguns
momentos a solidão era necessária, noutros o contato com familiares, amigos e
colegas foi fundamental. O apoio floresceu em diferentes níveis, desde as palavras
de estímulo pela escolha do tema até as entidades que tornaram a confecção desse
texto possível. Os bastidores da pesquisa estão lotados de nomes aos quais sempre
agradecerei.
Sou grato ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo - FAPESP - que forneceu bolsa de estudos que viabilizou a realização da
pesquisa. Quero expressar meu agradecimento, em especial, ao(a) parecerista que
acompanhou meu percurso de aprendiz de intelectual. Os pareceres lapidaram o
trabalho de pesquisa através de um diálogo franco construído sobre pontos ainda não
suficientemente claros.
O encontro com José Carlos Sebe Bom Meihy foi definitivo para os
desdobramento da formação que obtive nos anos da graduação e da decisão em
abraçar essa pesquisa. Nas entrelinhas dessa dissertação refloresce o tom vital do
professor Sebe Bom Meihy. Mestre que soube ser orientador sem passar por cima
da autonomia do seu orientando, junto dele aprendi a aceitar desafios.
Menção especial deve ser feita à Maria Eta Vieira, com quem tenho
compartilhado instantes de vibrações e desafios. Agradeço à Andréa Paula dos
Santos, Samira Osman, Cristina Ferez, Dante Gallian, André Gattaz, cujas
experiências, com o trabalho de história oral, nutriram-me com preciosas leituras e
sugestões. Da mesma forma identifico à todos os meus colegas de orientação, pós-

3
graduandos e graduandos, graças a nossa convivência “trocamos” comentários que
iluminaram meu caminho durante os anos de desenvolvimento desse projeto.
Agradeço também aos amigos que foram meus interlocutores em diferentes
fases do trabalho. Antônio Carlos Gomes acompanhou o início do processo e desde
então sempre ficou próximo incentivando a caminhada. O debate sobre a
Homossexualidade criou vínculos sólidos com Regina Facchini, Claudio Cezar
Xavier, Marta Gonçalves, James Naylor Green e Wilson Honório da Silva, com os
quais descobri afinidades e fui presenteado com sugestões de leituras e com
constantes diálogos que se revelaram ricos às análises acrescentadas ao texto dessa
dissertação. Luiz Mott, João Silvério Trevisan e Glauco Mattoso que sempre
forneceram informações, fontes bibliográficas, dados complementares que muito me
auxiliaram.
Quero agradecer aos meus familiares que me receberam durante minhas
estadas no Rio de Janeiro e em Brasília, Maria Lina Rocha, Celina Rocha, Tia
Selmira e Paulinho, proporcionando-me o conforto familiar tão caro ao meu bem
estar como ao andamento da pesquisa.
Dedico este trabalho à minha família, principalmente à Antônia Leles da Silva
e Maria do Rosário da Silva Ferro (Mãe e irmã) que seguraram minha barra - durante
esses anos de graduação e mestrado -, e em memória do meu pai, Antônio Geraldo
da Silva.

4
Sumário

Introdução............................................................................................................................06

PARTE I

Capítulo 1 - Um Conjunto de Vidas..................................................................................19

Capítulo 2 - Um caminho tortuoso até a “Contestação Política”...................................56

Capítulo 3 - Lampião: O Lugar dos Sonhos.....................................................................88

Capítulo 4 - Os Herdeiros do Sonho:trajetórias no movimento homossexual............122

Capítulo 5 - Em Razão do Sonho.....................................................................................159

Conclusão...........................................................................................................................176

Bibliografia........................................................................................................................179

PARTE II

1. Os critérios para a coleta e trabalho com as entrevistas...........................................196

2. Os Membros do Conselho do Lampião........................................................................219

3. Autores Coligidos pelo Lampião..................................................................................300

4. Os Colaboradores do Lampião (Rede I)......................................................................388

5. Os Membros da Redação do Lampião.........................................................................474

6. Os Colaboradores do Lampião (Rede II)....................................................................554

5
Introdução
A trajetória do Projeto

O percurso da pesquisa.

As atividades deste projeto se iniciaram nos anos da graduação. Por ocasião


da entrega de um trabalho de História Social da Arte, curso ministrado pelo Prof.
José Carlos Sebe Bom Meihy no segundo semestre de 1990, apresentei uma
monografia chamada “Erastas e Eromenos na Pedagogia Ateniense”, onde a
discussão temática produziu uma reflexão a respeito da instituição social do
relacionamento entre homem e rapaz, na Atenas do século IV a.C. Nessa época, o
fato de trabalhar com um assunto que me interessava, profundamente, foi importante
para definição da temática que desejava desenvolver na pós-graduação.
O professor José Carlos Sebe sugeriu a leitura da obra Now the Volcano: an
anthology of latin american gay literature, de Winston Leyland.1 A aventura literária
de Leyland revelou a produção de um grupo cuja temática girava em torno da
homossexualidade. Diante desse fato começamos a visualizar a possibilidade de um
trabalho com história oral de vida com escritores e intelectuais que produziram sobre
homossexualidade.
Após a leitura da antologia de literatura gay, foi preciso realizar o
levantamento das demais obras publicadas pelos escritores que compunham a corpo
do texto de Leyland e, posteriormente, proceder a leitura da bibliografia levantada
com o objetivo de obter o máximo de informações sobre o tema. Com a leitura de
Devassos no Paraíso de João Silvério Trevisan,2 surgiu a pista sobre um trabalho de
antropologia que fora realizado durante os anos oitenta. Ao rastrear essa indicação

1
LEYLAND Winston, Now the Volcano: an anthology of Latin american gay literature. San
Francisco: Gay Sunshine press, 1979.

6
cheguei até ao livro A Construção da Igualdade de Edward MacRae.3 Finalmente, a
leitura do romance autobiográfico de Glauco Mattoso despertou a atenção à aparição
de um tema presente nas obras desses três autores.4
Entre os pontos abordados nessas leituras, observei a recorrência de relatos
referentes a um periódico da imprensa alternativa: o Lampião da Esquina. Esse
periódico reuniu um grupo de escritores, intelectuais e jornalistas que
redimensionaram a discussão sobre a homossexualidade. A atenção que dediquei a
esse jornal, voltado às minorias,5 deveu-se a abertura da suas páginas à produção de
reflexões sobre a homossexualidade e, também, à possibilidade de levantar os nomes
das pessoas que escreveram para o jornal.
Localizei esse periódico no Arquivo Edgard Leunroth da UNICAMP, onde
passei a visitar suas páginas para conhecer o teor das matérias. A inexistência de um
catálogo dos colaboradores que escreveram no Lampião logo se fez sentir. Nessa
época iniciei o trabalho de organização dos dados existentes nessa publicação, isso
facilitou a sistematização dos nomes que colaboraram para o jornal em três
catálogos: catálogo de artigos, notas e entrevistas; catálogo de correspondências
publicadas; e catálogo de poemas, poesias e contos. Com a posse da lista de autores
verifiquei que o Lampião apresentava uma confluência de nomes com a antologia
produzida por Leyland. Além de João Silvério Trevisan, estão presentes na
antologia: Gasparino Damata, Aguinaldo Silva, Darcy Penteado, escritores que

2
TREVISAN, João Silvério.Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à
atualidade. São Paulo: Max Limonad, 1986.
3
MACRAE, Edward. A Construção da Igualdade: Identidade sexual e política no Brasil
da"Abertura". Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
4
MATTOSO, Glauco. Manual do Pedólatra Amador. São Paulo: Ed. Expressão, 1986.
5
Desde o final da década de setenta, o termo minorias tem seu sentido contestado no valor
quantitativo para ser pensado em termos qualitativos. Sob o valor qualitativo o termo se refere a
uma forma de caracterizar indivíduos que são estigmatizados pela sociedade global (mulheres,
negros e homossexuais) e que têm seus direitos de cidadania relegados a segundo plano por causa
de seu sexo, de sua raça e/ou da sua orientação sexual.
MANTEGA, Guido (Coord.) Sexo e Poder. São Paulo: Brasiliense, 1979. p. 130.

7
compuseram o Conselho Editorial da publicação; Caio Fernando Abreu, Franklin
Jorge e Valery Pereleshin, escritores que colaboraram para o jornal.6
A delimitação do projeto se deveu, em boa parte, à preocupação em analisar a
importância da integração de sujeitos que traziam entre suas experiências o interesse
em discutir mais profundamente as questões referentes à homossexualidade. Esta
constatação revelou a existência de um capítulo da recente história política brasileira
carente de estudos pela perspectiva do historiador.
A transformação das concepções relativas à homossexualidade pode ser
percebida em três níveis: o primeiro se refere à imprensa alternativa que promove
uma reformulação da imagem associada ao indivíduo que sente atração por outros do
próprio sexo; ele deixa de ser tratado como um amaldiçoado, incapaz de auto-
realização, para transformar-se num ser que poderia provocar a revolução da
estrutura social;7 o segundo se refere a produção acadêmica que retira a discussão do
campo da medicina e da psicologia para colocá-la no campo das ciências humanas,
alterando o enfoque ideológico e teórico da questão homossexual; o tema deixa de
ser tratado como vício abominável, patologia e desvio, para tornar-se uma variável
neutra da sexualidade humana, estudada como subcultura socialmente construída;8 e
o terceiro se refere aos novos movimentos sociais que viabilizaram uma crítica ao
machismo e ao racismo do país, conduzindo à reformulação das noções de gênero e
sexo e à consolidação da identidade do militante homossexual.9
Essas alterações captaram minha atenção e despertaram um interesse maior
em compreender a origem desse processo, assim como em compreender também os
motivos relacionados ao abandono das antigas concepções produzidas sobre a
homossexualidade.

6
LEYLAND, Winston, Op. cit., p. 5.
7
MACRAE, Edward., Op. cit., p.77.
8
MOTT, Luiz & SILVA, Sônia T. D. G. “Teses Acadêmicas sobre a Homossexualidade no Brasil”
Comunicação apresentada no: XXXIX Seminar on the Acquisition of the Latin American Library
Materials (SALALM). Salt Lake City, Utah, USA: 29 May-02 June, 1994. p. 2.

8
No curso de pós-graduação o projeto a ser desenvolvido possuía uma
configuração híbrida, ou seja, havia a necessidade de pesquisar tanto o material
escrito quanto de conversar com as pessoas que o produziram: a proposta inicial era
comparar as fontes escritas com as fontes orais. Essa orientação definiu uma colônia
para entrevistas,10 cujos parâmetros recaíram sobre os intelectuais que produziram
reflexões sobre a identidade homossexual. Não poderia, contudo, deixar de lado
alguns critérios para fazer as entrevistas.
O levantamento bibliográfico advindo da obra de Winston Leyland e o
conhecimento dos autores que escreveram para o Lampião serviram de referência
para estabelecer o critério de escolha da primeira entrevista. João Silvério Trevisan
aparecia tanto na antologia quanto como um dos autores que engrossava as páginas
do jornal, por essa causa pareceu-me o nome mais indicado para iniciar a rede de
entrevistas.11 Essa decisão também deveu-se às leituras prévias que o anunciavam
como um depositário da história do grupo face à sua produção intelectual. Preparado
o percurso comecei a realizar as gravações, entrevistando as pessoas a partir da
indicação dada pelos colaboradores. Porém, as circunstâncias do trabalho com
história oral de vida revelaram que a trajetória do percurso necessitava ser
reavaliada.
Face ao universo de dezessete depoimentos, constatei a afluência de alguns
limites: a confecção dos documentos de história oral de vida ocupou em conjunto
com a leitura bibliográfica a maior parte do tempo. A reordenação do trabalho para
um tratamento que privilegiou as fontes orais surgiu como uma exigência natural
durante o percurso.

9
SOUZA, Pedro de. Confidências da Carne: o público e o privado na enunciação da sexualidade.
Tese de doutorado apresentada à UNICAMP. Campinas, 1993. p. 145.
10
Segundo José Carlos Sebe Bom Meihy, a colônia é definida pelos padrões gerais de sua
comunidade de destino, ou seja, grupos com traços comuns que marcam um comportamento que os
caracteriza. SEBE, José Carlos Sebe. Manual de História Oral. São Paulo: Ed. Loyola, 1996. p. 53.
11
A Rede é uma subdivisão da Colônia e que visa estabelecer parâmetros para decidir sobre quem
deve ser entrevistado ou não. Idem, p. 53.

9
Gostaria de ressaltar, ainda, o diálogo riquíssimo que se estabeleceu com o
parecerista da FAPESP. Ele cobrou um questionamento mais direto e objetivo
quando enviei as primeiras textualizações anexadas ao projeto de pesquisa.
Expliquei o processo de trabalho com história oral enfatizando dois pontos: a
importância de um depoimento mais completo sobre a história de vida do
colaborador; e as fases de produção do documento - transcrição, textualização e
transcriação - que antecedem o levantamento das questões a partir da leitura das
narrativas. Esses dois pontos foram ouvidos pelo parecerista e entendidos como
requisitos necessários para o andamento do projeto.
Os pareceres consecutivos foram de fundamental importância à orientação da
forma como interpretar o material, apontando reflexões que circulam essa
metodologia e elencando pontos que perpassavam as entrevistas. Estes foram alguns
dos aspectos mais interessantes originados a partir desse diálogo.
A redefinição do trabalho voltou-se as narrativas produzidas durante o
andamento de pesquisa, privilegiando a trajetória que o grupo de colaboradores
desenvolveu e observando as especificidades políticas que remetem aos significados
referentes às afirmações sobre a identidade homossexual. A confecção desse texto
surgiu por causa das entrevistas, sem as quais não seria possível constituir o corpo da
presente dissertação.
Após recompor o percurso da pesquisa, passo a explicar a forma final que o
texto assumiu.

10
Trajetória da Análise.

Para pensar a organização da história coletiva do grupo de colaboradores,12


elaborei uma tabela de assuntos recorrentes nas entrevistas. Deste trabalho originou-
se um índice temático.13 Este índice, ainda que fragmentado e intercalado, busca
uma articulação para dar coerência e significado a cada depoimento que compõe o
conjunto das histórias de vida. Em conseqüência da multiplicidade de vozes emergiu
uma história coletiva marcada pela participação de todos. Para compor a trajetória da
análise ouvi as narrativas, desenvolvendo cinco pontos que foram transformados em
capítulos e que serão cortejados por uma bibliografia complementar.
O primeiro ponto tratado se refere a categorização das narrativas, nas quais o
eixo da construção textual denota as especificidades dos colaboradores ao contarem
a história de vida. É precisamente do leque de especificidades que aflui o critério de
organização das narrativas, pois tal atitude se reflete nas atitudes políticas dos
colaboradores, assim como na construção de significados sobre a identidade
homossexual. Esse fato possibilitou agrupar as diferentes formas de narrativas
através de categorias, as quais anunciam seis conjuntos que no seu interior contêm as
especificidades de cada depoimento.
Nesse sentido, houve colaboradores que privilegiaram a trajetória profissional
como forma de moldar a história de vida, em outras narrativas os entrevistados
contrapuseram-se aos modelos generalizantes de identidade homossexual e deram
primazia às suas experiências enquanto indivíduos, outra forma de tecer a narrativa

12
Essa pesquisa busca uma relação de afinidade entre as partes envolvidas na entrevista, assim não
há termos como ator, informante ou objeto de pesquisa, visto que as pessoas não foram procuradas
para a obtenção de informações, mas para colaborarem com o processo de trabalho do pesquisador
compartilhando suas experiências de vida. Idem, p. 28.
13
Essa forma de trabalho foi nutrida pela leitura de Braços da Resistência de André Castanheira
Gattaz, onde o autor, a partir de onze depoimentos de história oral de vida, trabalha com os
depoimentos dando coerência a cada verdade individual e buscando a verdade coletiva da colônia
de entrevistados. GATTAZ, André Castanheira. Braços da Resistência: uma história oral da
imigração espanhola. São Paulo: Xamã, 1996. p. 15.

11
surgiu através da história do rompimento com grupos políticos de esquerda por causa
da referida identidade, há ainda as histórias que buscam elos com a participação nos
partidos políticos de esquerda e em outros movimentos sociais, há também as
narrativas que imprimem um tom de transição contada pelos colaboradores que
migram de outros movimentos sociais para o movimento homossexual e finalmente
os depoimentos que recuperam especificamente a trajetória dentro do movimento
homossexual. Desta riqueza de posturas recuperadas através das narrativas floresceu
a idéia sobre a interpretação das origens deste nível de diferenciações.
Conhecendo as especificidades das formas assumidas pelas narrativas, prestei
atenção a construção do segundo ponto que surgiu com o índice temático. Esse ponto
está relacionado ao panorama histórico tecido pelos colaboradores para dar dinâmica
às histórias de vida. A existência de semelhanças e diferenças - como aquelas
definidas pela idade e origem do colaborador - esboçou a descoberta de duas
gerações no conjunto composto pelos entrevistados, as quais durante a juventude
estiveram sintonizadas com alguns fatos tão marcantes em suas trajetórias pessoais
quanto na história coletiva.14
A geração mais velha recupera impressões a partir dos anos sessenta, tecendo
referências à contestação cultural vivida tanto no exterior, devido a origem dos
colaboradores nascidos no exterior e dos brasileiros que fizeram seus estudos fora do
país, quanto no Brasil por causa da aproximação dos círculos culturais
especificamente ligados às áreas de cinema e teatro.
O clima experimentado face à ditadura militar brasileira ajuda a delinear
diferentes experiências recuperadas pelos colaboradores. O auto-exílio foi
considerado uma das portas de saída à repressão vivida pelo país, lançando alguns
dos colaboradores na efervescência cultural ocorrida nos Estados Unidos e em países
europeus, onde permaneceram durante o período que estiveram fora do Brasil. Por
outro lado, a permanência de outros gerou histórias que se dividiram entre a

14
Idem, p. 9.

12
perplexidade de alguns face à repressão promovida pela ditadura e a indiferença que
assumiu o tom mais evidente na narrativa de outros. Esses relatos surgem através de
experiências que precedem a abertura do regime ditatorial brasileiro.
A geração mais jovem começa a conjugar os relatos sobre a trajetória pessoal
com a história coletiva a partir do final dos anos setenta, justamente sobre o período
da abertura política, somando suas impressões às da geração mais velha. Desta
forma, o tom da análise busca conjugar as histórias individuais com o panorama
histórico que reflete a história do grupo de colaboradores.
A concentração de elaborações sobre o jornal Lampião da Esquina nas
narrativas constitui a maior parte do índice temático, isso tornou necessário a
inclusão de um capítulo dedicado a essa publicação. Este dado não é surpreendente,
visto que ao dar as referências, falar sobre a idéia original do projeto, os
colaboradores incrementaram sua história de vida neste aspecto, revelando o nível de
relação e a trajetória vivida face ao Lampião. Os colaboradores recuperam
impressões a partir do surgimento da imprensa nanica no país. Neste ponto, o
encadeamento com o capítulo anterior compõe parte importante, pois a história do
grupo aproxima-se da história do Lampião enquanto periódico da imprensa nanica,
revelando suas expectativas em relação a essa publicação. Neste capítulo cortejo as
histórias de vida com a bibliografia referente ao fenômeno da imprensa alternativa e
à trajetória do jornal Lampião.
A próxima confluência está nas considerações sobre a relação ou participação
no movimento homossexual. Este quarto ponto constitui a segunda maior parte do
índice temático. Sob este aspecto, as posições que os colaboradores adotam perante o
movimento homossexual puderam ser retomadas através da lógica das suas
experiências, apreendidas durante as trajetórias e elaboradas nas narrativas. Desta
forma, é possível visualizar que os desdobramentos, relatados pelo conjunto de
vidas, estão ligados aos três pontos elaborados nos capítulos anteriores: a forma
como elaboram sua relação com a identidade homossexual; a história pessoal

13
referendada pelo panorama histórico que dá dinâmica as narrativas e as expectativas
geradas pelo Lampião. Daí é possível buscar entender a trajetória do grupo com a
origem e o desaparecimento do Lampião, os cismas e as aproximações das atividades
de militância adequadas às trajetórias de vida, a crise e a reestruturação dos grupos
homossexuais provocada pelo final da efervescência política vivida pelo Brasil
durante a fase da abertura política e pela origem da AIDS.
Após a elaboração da trajetória deste conjunto de vidas, não pude deixar de
prestar atenção ao diálogo que aparece nas entrelinhas das narrativas. Enquanto
elaborava o índice temático afluiu um debate entre os colaboradores, executado no
plano das narrativas. Este diálogo ocupa o último capítulo, pois somente após a
categorização e a trajetória do conjunto é possível entender a atualidade dessa
discussão que se desdobra no espaço do presente.

Apresentação das Entrevistas Transcriadas.

Na segunda parte da dissertação, desenvolvi dois itens: no primeiro apresento


uma reflexão sobre a origem e a constituição das redes de entrevistas e no segundo
apresento a forma de trabalho com as entrevistas.
No que se refere ao primeiro item, tratam-se de dois processos de formação
das redes que se justificam tomando como base a proposta original do projeto. A
opção em iniciar um segundo ciclo de depoimentos se deve às considerações sobre o
papel que o Lampião ocupa nos relatos elaborados pelos membros da primeira rede.
No final desse item apresento um quadro com as informações técnicas, cuja
elaboração evita a construção de um texto, na maior parte das vezes repetitivo, com
informações sobre o nome do colaborador, local e data do nascimento, idade à época
da gravação, local e data da gravação, tempo da gravação, indicação de nomes para
contatos e notas de rodapé com informações sobre situações específicas
experimentadas durante a gravação e sobre a impossibilidade de alguns contatos.

14
No segundo item faço uma breve reflexão sobre o trabalho com as entrevistas
de história oral de vida, revelando como acontece o processo de transformação da
linguagem oral para a linguagem escrita, assim como faço referência ao
compromisso ético assumido com o colaborador para que a entrevista reflita a
imagem que ele quer deixar para o público leitor. E finalmente surgem as
transcriações organizadas em cinco sub-redes, onde estabeleci um critério de
apresentação baseado na relação que os colaboradores mantiveram com Lampião da
Esquina.

3. No Tocante ao Título...

Diante do universo de experiências recuperadas pelas histórias de vidas -


revigoradas no ato da gravação - os sonhos dos colaboradores refloresceram com um
tom vicenal. Cada vez que debrucei sobre as narrativas, lendo sobre a Contestação
dos anos sessenta, o movimento hippie, a fuga da ditadura militar através do auto-
exílio, as esperanças depositadas na abertura do regime militar e nas páginas do
Lampião... essa idéia de transformar alguns sonhos em realidade tomava conta da
minha imaginação. Esse encontro acabou se conjugando com o próprio trabalho de
história oral de vida, através do qual ouvia as narrativas para reinventá-las através
das transcriações. Foi assim que numa iluminada conversa com o Professor José
Carlos chegamos à uma idéia sobre o título: Reinventando o Sonho: história oral de
vida política e homossexualidade no Brasil contemporâneo.

15
PARTE I

Capítulo 1 - Um Conjunto de Vidas.

1. O Perfil dos entrevistados...........................................................................................19


2. As Trajetórias Profissionais.......................................................................................22
3. A Primazia do indivíduo.............................................................................................28
4. Os Rompimentos com o Absoluto..............................................................................33
5. A Aliança com o Coletivo............................................................................................39
6. Em Tom de Transição.................................................................................................43
7. Os Vínculos Específicos...............................................................................................50
8. O Esboço de uma Trajetória Coletiva.......................................................................55

Capítulo 2 - Um caminho tortuoso até a “Contestação Política”

1. A Revolução dos Costumes.........................................................................................56


2. A Nova Esquerda.........................................................................................................61
3. Repressão Política no Brasil.......................................................................................63
4. Efervescência Cultural & Desbunde..........................................................................67
5. A tolerância retocada: Ditadura & Homossexualidade...........................................71
6. Em defesa da unidade Oposicionista.........................................................................74
7. A Fuga através do Auto-Exílio...................................................................................78
8. As Notícias do Movimento Homossexual..................................................................80
9. A Volta dos Exilados...................................................................................................81
10. Os Frutos do Período................................................................................................82
11. Influência da ‘abertura’............................................................................................84
12. O Percurso está preparado.......................................................................................86

16
Capítulo 3 - Lampião: O Lugar dos Sonhos.

1. As Vozes Telúricas: o papel da imprensa alternativa..............................................88


2. Uma Fraca Cortina de Fumaça...............................................................................92
3. Um Início Difícil: o Estado contra o Lampião...........................................................97
4. Atentados a Bomba: outro reflexo do período..........................................................98
5. Em Nome de Todos: um jornal e duas vozes..........................................................100
6. As Novas Vozes..........................................................................................................102
7. As Vozes se Multiplicam: Lampião e movimento homossexual............................106
8. Os Argumentos Preponderantes..............................................................................108
9. Os Interesses Cruzados.............................................................................................109
10. A reestruturação próxima do fim..........................................................................111
11. Um despertar turbulento........................................................................................113
12. O eixo Rio-São Paulo e o Pêndulo Brasiliense......................................................115
13. O Final do Sonho.....................................................................................................117
14. O Projetor de Sonhos..............................................................................................120

Capítulo 4 - Os Herdeiros do Sonho: trajetórias no movimento homossexual.

1. Antes do Despertar, as Festas...................................................................................122


2. As Vozes Multiplicadas.............................................................................................126
3. A divisão das Vozes...................................................................................................128
4. Duas Versões: Racha ou Retirada?.........................................................................137
5. As Vozes Femininas se despedem.............................................................................139
6. Os Espaços de Silêncio..............................................................................................141
7. Os órfãos do Lampião................................................................................................144
8. Às vésperas do Caos..................................................................................................147
9. A Nova Ordem: as vozes perenes do sonho.............................................................152
10. Lapidar o Sonho até gerar a História....................................................................156
11. As Histórias de Vida conjugam Sonhos.................................................................157

17
Capítulo 5 - Em Razão do Sonho.

1. Os Pólos Positivos.....................................................................................................159
2. Um Debate Pululante................................................................................................161
3. Contra o Mito da Tolerância....................................................................................165
4. Outra Possibilidade de Reflexão..............................................................................168
5. A Identidade de Cristal.............................................................................................170
6. Um Diálogo do Presente............................................................................................174

18
Capítulo 1
Um Conjunto de Vidas

“Do muito caminhar sobrou-me - e sinto que


isto já é alguma coisa - a consciência de saber
que o meu corpo continuará buscando uma
razão para o seu conteúdo. Mas que nome
posso dar, ou de que forma, mesmo abstrata,
posso moldar essa coisa a que chamo de EU?”
Darcy Penteado15

1. O Perfil dos entrevistados.

O trabalho com história oral de vida abriu caminhos ao entendimento dos


valores e significados atribuídos pelos colaboradores às experiências que viveram
em nível individual. O percurso da narrativa tem origem na infância e caminha até a
avaliação contemporânea de suas vidas. A organização preliminar do conjunto de
vidas representa o primeiro passo para a compreensão da forma como os
colaboradores recuperam uma auto-representação com o passado. Essa opção em
compreender os modelos foi fundamental para o entendimento dos desdobramentos
da história do grupo, pois a dinâmica afluiu do diálogo que os colaboradores
exercitam a partir do valor depositado sobre suas trajetórias pessoais.
Do universo de dezessete entrevistas serão apresentadas dezesseis, pois a
textualização de Jean Claude Bernardet ainda está em processo de discussão sobre a
imagem final que ele quer deixar registrada pelo texto. Este número de entrevistas,
contudo, possibilita a análise que será desenvolvida nos capítulos seguintes.
A categorização é necessária para estabelecermos algumas formas que os
entrevistados escolheram para dar sentido à compreensão da própria história,

19
reconstruindo versões que foram evocadas durante o momento da entrevista.16 Cada
narrativa está ligada a um personagem singular, cuja biografia não é uma rígida
transcrição de todos os fatos vividos, mas reinvenções pessoais das próprias
experiências. A pessoa entrevistada seleciona e organiza certos temas que ganham
uma versão particular.17 É preciso prestar atenção à maneira como o colaborador
interpreta, em função da singularidade do depoimento, certos aspectos da realidade
vivida. Deve-se, portanto, empreender uma análise que privilegie a organização
formal da história de vida, reconhecendo nela a importância de determinados fatos, a
valorização de espaços narrativos e a velocidade do discurso narrativo.18
A partir das dezesseis entrevistas analisadas é possível notar o encadeamento
entre a trajetória de vida e a história de vida. A valorização de um determinado nível
paradigmático, como dominante na periodização da narrativa, esteve associada à
origem regional, aos fatos familiares e nacionais vividos pelo colaborador. Esta
escolha de um eixo temático, associada à velocidade e à forma do discurso,
constituem as formas de reconstruir a narrativa.
A relação com a identidade homossexual representa um dos pontos sobre os
quais florescem considerações, não há consenso sobre o referido termo. Aqui é
preciso buscar apoio no trabalho de Marta Gonçalves,19 no qual a autora recupera a
utilização de diferentes termos relacionados à homossexualidade.
Marta Gonçalves dialoga com Sapê Grootendorst, autor ocupado em mapear a
existência de uma literatura gay no Brasil,20 quando este propõe que gay e
homossexual são dois termos quase idênticos no Brasil. Grootendorst recupera a

15
PENTEADO, Darcy. Menino Insone. São Paulo: Ed. Soma Ltda, 1983.
16
GATTAZ, André Castanheira. Op. cit., p. 16.
17
Idem, p. 17.
18
Idem, p. 19.
19
GONÇALVES, Marta. A Folha de S. Paulo e o Projeto 1.151/95 que Disciplina a união Civil
entre pessoas do mesmo sexo. Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do bacharelado em
Sociologia e Ciência política. São Paulo: 1996.

20
idéia que o uso do termo gay nos Estados Unidos refere a ambientes politizados,
enquanto no Brasil o fato da palavra ser facilmente substituída por homossexual
denota que gay não possui a mesma conotação emancipativa.21
Para responder à afirmação de Grootendorst, Marta Gonçalves recupera o
ensaio de Peter Fry e Edward MacRae - O que é homossexualidade -,22 para explicar
que o termo “bicha” era recorrente na linguagem dos primeiros militantes, tanto para
esvaziar seu conteúdo pejorativo quanto para servir à emancipação do movimento
homossexual, enquanto o termo gay foi desprezado por conter uma conotação de
aceitabilidade social.23
A autora reconhece que o termo “bicha” não foi assimilado, fracassou em
seus objetivos, em contraponto ao termo gay que passou a ser amplamente aceito:
tanto pelos sujeitos que prosseguiram no movimento homossexual quanto pelas
pessoas que não eram desse meio, mas o utilizaram como forma de categorização
das relações sociais. Ela atribui esse desdobramento ao processo de normalização da
questão da homossexualidade no decorrer dos anos oitenta.24
A reflexão apresentada por Marta Gonçalves foi importante para expor os
diferentes níveis de relação tecidos para os termos bicha, gay e homossexual. A
utilização dessas palavras também emerge nas narrativas, porém os significados
mudam substancialmente quando expostos à luz das histórias de vida. A organização
das histórias de vida tem como referência as especificidades da vivência do
homoerotismo, cada colaborador possui uma versão sobre a percepção da identidade
homossexual no desenvolvimento de sua trajetória.25

20
GROOTENDORST, Sapê. Literatura Gay no Brasil?: as entrevistas com dezoito escritores
brasileiros sobre a temática homoerótica. Tese de Qualificação do Depto de Português da
Universidade de Utrecht. Setembro de 1993.
21
Idem, p. 8.
22
FRY, Peter & MACRAE, Edward. O que é Homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1983.
23
Idem, p. 24-25.
24
GONÇALVES, Marta. Op. cit., p. 24.
25
Neste parágrafo utilizei o termo Homoerotismo de Jurandir Freire Costa com o objetivo de
preservar a riqueza de significados construídos pelos colaboradores sobre a identidade

21
O nível de relação que os colaboradores tecem em relação ao jornal Lampião,
em cujas páginas escreveram enquanto intelectuais e jornalistas, e as impressões
sobre as origens e o desenvolvimento do movimento homossexual no Brasil sugerem
aspectos que foram retomados em cada um dos depoimentos. A partir destes pontos
pode-se perceber como ocorre essa interligação entre a história vivida e a história
contada. Para contemplá-los é possível estabelecer algumas definições sobre o olhar
que os entrevistados têm sobre a própria vida.

2. As Trajetórias Profissionais.

Há o grupo que orienta a construção da narrativa através da experiência


profissional. Esta caracterização é importante porque o conteúdo destas entrevistas
transmite uma versão exemplar da ascensão e do amadurecimento progressivo com o
ofício. Nestas narrativas o referente espacial é representado pelos locais de trabalho,
o entrevistado organiza os fatos e as datas pautando-se pelos empregos pelos quais
passou. Outro aspecto importante, as realizações enquanto pessoa não estão no
compromisso político, mas acontecem a partir do trabalho individual que
executaram. Nesse grupo estão presentes as narrativas de Celso Curi, Alceste
Pinheiro e José Fernando Bastos.
A história de Celso Curi é a história do movimento e da diversificação no
campo profissional, ao qual é estendida a idéia de trabalhar por prazer e não por
obrigação. O bom humor surge como uma marca enfatizada pelo colaborador. A
idéia de ascensão social também está presente. Ela é construída sobre projetos de
trabalho ligados a homossexualidade que lhe trouxeram muito êxito ao invés de se
tornarem transtornos. A diversificação do ramo de atividades profissionais perdura

homossexual. Porém, é preciso ressaltar que o autor evita utilizar a palavra “homossexual’, pois
considera que o termo carrega uma conotação pejorativa e fomenta a divisão dos seres humanos
em normais e desviantes. COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: estudos sobre o
homoerotismo. Rio de Janeiro; Relume-Dumará, 1992.

22
tanto na forma narrativa quanto na pontuação cronológica de sua história de vida. O
nascimento e a vida familiar têm descrição muito breve, prevalece a idéia do ritmo
do trabalho intenso, principalmente no se que refere a sua relação com o meio
jornalístico desde a adolescência.
Em 1972, Celso Curi partiu para a Alemanha, onde trabalhou como faxineiro,
entre outras atividades que define como as de um “exilado por vontade própria”,
pois optou por esse caminho para fugir à repressão gerada pela ditadura brasileira. O
motivo do seu regresso, antes de completar um ano de auto-exílio, é descrito de
forma cômica: está ligado à perda do passaporte. No Brasil, Celso Curi é
apresentado pelo jornalista Dário Menezes a Samuel Wainer - diretor do jornal
Última Hora - e é contratado para trabalhar como assistente de colunista. Em um ano
ascende à função de editor de um dos cadernos do jornal.
Nesta etapa da história Celso Curi se detém em contar sobre o projeto de uma
coluna sobre homossexualidade no jornal Última Hora chamada Coluna do Meio.
Ele comenta sobre como a idéia foi exposta a Samuel Wainer e sobre a reação de
perplexidade dos colegas de trabalho quando souberam do tema que seria tratado.
Face à aprovação do diretor do jornal, Celso Curi evoca a história de ter consultado
os pais sobre a idéia de tornar-se editor de uma coluna sobre homossexualidade. O
fato dos pais se preocuparem com a possibilidade do filho sofrer execração social é
amenizada pela idéia sobre como conseguiu projeção social com esse trabalho e
através do qual os membros do Lampião vieram a convidar Celso Curi para se tornar
colaborador deste jornal da imprensa alternativa.
“[...]considero-me um privilegiado, pois tudo que tenho
à mão adquire um brilho especial. O principal fator para
meus projetos se concretizarem é o prazer com que os
realizo. A Coluna do Meio levou as pessoas a me
enxergarem de forma diferente. Elas me convidavam
para qualquer evento, formal ou não... o que foi muito
importante. Essa varinha de condão tocava em todos os
meus trabalhos... me proporcionando sempre muito
destaque.”

23
Celso Curi apresenta sua breve relação com o movimento homossexual para
explicar que não se identificava com as discussões encaminhadas, também enfatiza
que não convocava ninguém a fazer o mesmo no Brasil: primeiro por não haver uma
legislação contra a prática homossexual; segundo por considerar que no decorrer dos
anos setenta o problema devia ser trabalhado na esfera íntima. No Brasil, segundo
sua maneira de apreciar a questão, o problema do homossexual era destruir a
repressão interna que acreditava ser maior do que a externa.
O trabalho da Coluna do Meio servia como uma etapa inicial para destruir a
culpa interna, sem este pressuposto ele sugere que não havia como iniciar um
movimento. O espaço que Celso Curi conseguiu no jornal Última Hora foi o
caminho escolhido para fazer esse trabalho, ressaltando seu papel como simples
divulgador de informações sobre o meio de freqüência homossexual:
“Claro que tudo era feito com muito humor, numa
grande farra, porque não era o caso de ninguém ficar
chorando. Nós não tínhamos companheiros assassinados
porque eram homossexuais... não era essa a nossa
realidade. Nem presos políticos por causa da opção
sexual. Eram companheiros presos a si próprios, por
vergonha de assumir a própria sexualidade. Percebi que
se jogava o problema para a sociedade resolver e a
resolução não caminhava neste sentido. Não podia haver
uma vivência homossexual, caso não houvesse um auto-
reconhecimento da própria homossexualidade.”

A história de Alceste Pinheiro é dedicada à comparação entre gerações,


descrevendo transformações observadas no decorrer de sua vida. Aqui também a
experiência profissional é o fio que conduz a construção da narrativa. O
conhecimento sobre o ofício de jornalista é um recurso que o colaborador utiliza
para tecer seus comentários. Grande parte das idéias advém de suas impressões sobre
a carreira profissional.
Alceste Pinheiro dedica grande parte da narrativa à evolução de seu
conhecimento na área profissional. Ele enumera os jornais pelos quais passou,

24
enfatizando a idéia que sempre trabalhou em grandes empresas. Em 1979, afasta-se
da grande imprensa e atua como free lancer na imprensa alternativa, especificamente
no jornal Lampião. Neste tópico, a reflexão se demora sobre o desempenho
mercadológico da publicação: Alceste Pinheiro sugere as preocupações de um
empresário.
“Hoje percebo que nós não possuíamos nenhuma idéia
de mercado. Não nos preocupávamos com isto. Os
jornais que vieram, passaram a utilizar o correio
sentimental como fonte de renda, como percebo nesses
jornais que pego de vez em quando. Então se manda a
carta para lá, pagasse uma quantia e a carta é publicada.
Depois a pessoa que se interessa pelo anúncio escreve
para o jornal, paga outra quantia para receber a carta
desejada. É um negócio que em termos gerais funciona
assim. Atualmente existe uma firma em São Paulo que
faz cadastro para casamento e a vinculação neste serviço
é paga. Desta forma, nós não tínhamos idéia acerca
disso, em parte por causa da formação[...]”

Alceste Pinheiro considera o anarquismo mais atraente às suas convicções


políticas. Ele acreditava ser perda de tempo atuar junto a grupos políticos. Porém,
explica que esteve presente em manifestações públicas que marcaram os anos setenta
e oitenta, mas nunca se juntou a nenhum grupo homossexual ou partido político, por
não se simpatizar com os métodos de atuação das esferas coletivas. No período da
ditadura nunca se sentiu ameaçado porque não estava engajado em nenhuma
organização. Explica que nunca foi preso e nem molestado devido ao fato de ser
homossexual. Os comentários exploram a idéia da inexistência de uma política
pública contra homossexuais. Ao seu modo de ver, eventualmente um homossexual
podia se defrontar com situações atomizadas de preconceito.
A resolução dos problemas sociais enfrentados por homossexuais ganha outra
análise. Alceste Pinheiro sugere que a melhoria da situação do homossexual se deve
a luta desencadeada pela Contracultura. A melhoria de condições para os

25
homossexuais surgiria no âmbito geral de lutas sociais desencadeadas nos anos
sessenta, contra o racismo e pela liberdade sexual.
“A questão da luta homossexual, na verdade, deve
passar por uma luta em favor da dignidade do ser
humano, do direito pleno da pessoa ser como ela é. Não
da defesa de uma especificidade a duras penas. Isso me
parece pouco sério e me leva a não concordar com tal
atitude. Mesmo assim há pessoas que defendem este
propósito, mas não acredito que nenhum movimento
tenha me dado algo, ou tenha feito minha vida mais
feliz, ou tenha melhorado as minhas condições como
homossexual: não fizeram absolutamente nada!!
/Ninguém tem que ser aceito por ser ou deixar de ser
homossexual, tem que ser aceito como um ser
humano.[...]”

O trabalho como jornalista também constitui o principal eixo de organização


da história contada por José Fernando Bastos. A atividade profissional é evocada
para apresentar suas reportagens que causaram mais polêmicas, tanto pelo ineditismo
como pelo fato de colocá-lo em situações conflituosas com o sistema legal brasileiro.
O entrecruzamento com grandes fatos que marcaram a imprensa brasileira é usado
como recurso para dar dinâmica à construção da narrativa.
A história da migração de sua família de Salvador para o Rio de Janeiro serve
de suporte para expor essa característica:
“[...] Na época tinha entre oito e nove anos, quando vi
já estava em Copacabana! No Rio, três fatos marcaram
minha chegada: primeiro, foi a morte da Aída Curi,
quando a jogaram de um prédio, foi o maior escândalo
no Brasil inteiro; segundo, foi a conquista do primeiro
campeonato mundial de futebol do Brasil na Suécia... o
terceiro acontecimento!? Foi qual meu Deus!? Entre
1957, 1958!? No momento só recordo desses dois!! A
morte da Aída Curi aconteceu num prédio em que eu
havia morado... foi parecida com o assassinato da
Claudia Lessin!”

26
Ao categorizar a classe econômica de sua família, explica que pôde receber
um bom estudo. No período de faculdade se refere à primeira vez que foi preso por
ter um breve envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro:
“[...] Fui preso com pessoas bastante conhecidas hoje
em dia, uma delas o ator Buzza Ferraz, filho do armador
Hélio Ferraz, outra o embaixador Hugo Gutier, a cantora
Joyce, a Bali (irmã da Ciça Guimarães), pessoas que
foram presas junto comigo quando a PUC foi invadida.
Nós fomos todos presos na mesma leva.”

José Fernando Bastos forma-se em direito e deixa o Brasil para empregar-se


na BBC em Londres, enfatizando que começou a trabalhar numa rede de notícias
onde as pessoas costumavam acabar a carreira. O retorno ao Brasil é sugerido com
um tom irreverente:
“[...] Durante esse período [em que trabalhava na BBC],
um inglês descobriu que o Ronald Biggs estava no
Brasil. Fizeram uma entrevista com o Biggs, ilustrada
com fotos de Copacabana, Ipanema e Leblon! Na época
desta reportagem, a temperatura estava menos oito graus
na Inglaterra, então, no outro dia, comprei minha
passagem de volta para o Brasil.”

No Brasil, começa a trabalhar em jornais e detém-se sobre as reportagens


responsáveis por polêmicas e repressões que marcaram sua história de vida. Esse
histórico prepara a explicação dos motivos que o levam pela segunda vez à prisão:
“[...] Fui preso pela segunda vez, quando o ministro
Ângelo Calmon de Sá, hoje o famoso ex-dono do Banco
Econômico, viajou para o exterior. Então, coloquei num
jornal: “- Esperando por ele no Brasil estão Ali Babá e
os outros trinta e nove”. A polícia me prendeu, queria
que me retratasse. Desta vez, levei muito soco na orelha
e fui registrado no DOPS.[...]”

O contato com o Lampião acontece através de um convite de Aguinaldo Silva


que conhecia o trabalho de José Fernando Bastos como crítico de teatro e de música.
A narrativa novamente é dedicada à apresentação das reportagens que causaram

27
polêmica ao serem publicadas no Lampião, assim como em categorizar a função
desse periódico como um jornal que defendia as minorias em geral:
“Gostaria de deixar bem claro, embora o Lampião fosse
taxado como jornal gay, na verdade era um jornal que
defendia minorias: o homossexual, a mulher, o negro, o
aleijado. Eu mesmo fiz uma matéria com um anão... foi
a matéria mais difícil que já fiz na vida! [...] O Lampião
era tão porta-voz do movimento homossexual, quanto
do movimento negro, do movimento homossexual, dos
deficientes físicos. [...]”

3. A Primazia do Indivíduo.

Essa expressão tem um significado emblemático, pois caracteriza as


narrativas pautadas pela defesa da individualidade. O confronto pessoal com o
sistema coletivo pode ser observado nas linhas que tecem contrapontos à
participação em grupos ou em partidos. Os comentários ácidos são endereçados aos
limites impostos pelos grupos em nível de atuação política, a primazia do indivíduo
parece o último ponto de resistência à possibilidade de expressão de aspectos da
intimidade. Neste grupo apresento as narrativas de Roberto Piva, Glauco Mattoso e
Peter Fry.
Na origem da construção textual de Roberto Piva está o questionamento aos
discursos elegidos como competentes. A referência ao esoterismo (xamanismo,
candomblé, ufologia) é apresentada para expressar os limites do absolutismo
imposto pela ciência. Outro ponto refere às leituras que o colaborador realizou
durante a vida, a citação das obras e de autores compõe um diálogo que é retomado
para engrossar os argumentos elaborados durante a narrativa:
“Não conseguia me conformar com aquele ensino
positivista. Se eu soubesse até hoje a geografia que
estudei teria de desaprender tudo sobre os países... desde
aquela época eles já mudaram diversas vezes. Os
parâmetros da minha visão de história estão ligados a
Toynbee e Spengler. Eles afirmavam que toda a história
começa com um mito religioso poderosíssimo até o

28
período de cisma das civilizações que coincide com o
período técnico. Assim que as civilizações saem daquela
epifania, elas saem fora do numinoso para cair no
mundo profano. Quando esse mundo não está mais
relegado a uma visão do sagrado, as civilizações
declinam.[...]”

As experiências de Roberto Piva expressam o desconforto face à


intelectualidade brasileira. Ele acredita que o positivismo e o esquerdismo
promovidos no meio acadêmico retardaram os intelectuais brasileiros em chegar na
desagregação da Ciência que entende ser uma das religiões monoteístas. Esse
combate vai se desdobrar num ataque às esquerdas partidárias, definidas como
profanas, e em comentários favoráveis ao regime monárquico, cuja forma de
governo justifica seu posicionamento libertário:
“[...] Eu acredito que o povo brasileiro tem no seu
inconsciente a monarquia. Um regime político que
devido à extrema verticalização da cúpula permite uma
maior anarquia das bases. Na Espanha, por exemplo, um
garoto de treze anos já é considerado maior para
qualquer atividade sexual. A maconha é livremente
consumida. Na Holanda todas as drogas são permitidas.
[...] Apesar da monarquia manter uma maior anarquia
das bases, mantém ao mesmo tempo a imagem do
sagrado. O Brasil é uma civilização jovem e
aristocrática que corre risco caso continue ouvindo os
comunistas... essa sucata que acabou no mundo inteiro e
parece que todos vieram para o Brasil.”

Roberto Piva recupera o avanço da segmentação social quanto comenta sua


visão sobre a sexualidade. O colaborador enfatiza a ausência de modelos para o
comportamento sexual quando tece comentários sobre os anos sessenta, discernindo
a experiência cultural do Brasil em relação aos Estados Unidos. No seu modo de ver,
a comunicação de massa foi a responsável pela imposição de um modelo alheio a
cultura brasileira e que serviria apenas ao consumo de massa: a identidade: gay. No

29
que se refere à instituição desse modelo, Roberto Piva reflete sobre o tratamento
dispensado à pederastia:
“Além de ser perseguido por esse estigma do pessoal de
esquerda, também fui muito perseguido no próprio meio
homossexual pelo fato de gostar de garotos... isso é um
escândalo num mundo onde se gosta de "bofe". O
preconceito contra a pederastia é enorme. Esse pessoal
que me perseguiu em todos os níveis é extremamente
totalitário. Eles chegam ao ponto de determinar que para
ser homossexual tem que gostar não sei de que tipo de
gente./ Eu como os gregos não posso ver pêlos. Eu não
transo com macaco.[...]”

A deficiência visual marca as impressões contadas por Glauco Mattoso.


Desde o início da narrativa, o colaborador ressalta a convivência com o glaucoma e
compõe um eixo coerente que evoca a sucessão de eventos em torno do problema de
visão. A importância dos limites gerados pela doença, assim como a preocupação em
perder a visão, impõe restrições e caracteriza as escolhas que Glauco Mattoso
realizou durante a vida. O olho de Glauco é a principal personagem, quando não
surge em referências explícitas, aparece sublinearmente na tecitura de sua história de
vida:
“A minha memória auditiva e visual é muito boa. Nasci
com um defeito visual grave, o glaucoma. O glaucoma
quando é congênito, como é meu caso, geralmente leva
a cegueira. Estar enxergando ainda hoje é lucro. Já
passei por várias cirurgias. Todas mais ou menos sem
êxito. Perdi a visão do olho direito e o esquerdo está
bastante comprometido. Dessa condição de
glaucomatoso, o portador de glaucoma, tirei o nome de
plume: Glauco Mattoso.[...]”

Enquanto intelectual considera que em nível filosófico é preciso privilegiar o


indivíduo. O relacionamento com o movimento homossexual e com a esquerda
partidária surge através das indagações que faz às esferas coletivas. Ele comenta
como o movimento homossexual nunca chegou à especificidade maior: o indivíduo.

30
Transporta a mesma crítica aos grupos de esquerda que segundo seu entendimento
anula a perspectiva individual. O tratamento desta questão, vista sob o viés
opinativo, ganha forma em seu discurso para advir daí uma conclusão:
“Apesar de ser um intelectual, nunca fui um cara de
esquerda. Nem engajado e nem convicto. Acredito que a
esquerda seja uma espécie de vício intelectual. Uma
vala comum onde os intelectuais caem. E não costumo
cair em valas comuns, pois prezo a individualidade. No
meu entender, a individualidade é quase uma religião.
Minha consciência primeira é a da diferença. Sou uma
pessoa diferente, primeiro porque nasci diferente, nasci
com uma deficiência; segundo porque tendo consciência
dessa deficiência passei a ser diferente por opção. Sou
uma pessoa diferente conscientemente. Não apenas
porque quero ser, mas porque consigo ser. Numa escala
de valores, isso não me torna nem melhor e nem pior
que ninguém. Porém, torna-me distinto das outras
pessoas. Preservo minha individualidade através da
diferença. Como a esquerda privilegia o coletivo, além
de ser um vício intelectual, com o qual a maioria dos
intelectuais está comprometida, distancio-me
criticamente dela.”

Peter Fry conduz a narrativa através de suas experiências enquanto professor


universitário. Após uma breve elaboração sobre sua origem inglesa, organiza um
percurso para explicar a opção pelo curso de Antropologia e privilegia a história da
formação acadêmica. O foco da narrativa é endereçado à primeira pesquisa de
campo que realizou em Zimbabue. Com a observação que os primeiros relatos da
África Central eram de viajantes portugueses, Peter Fry acrescenta a história sobre
sua decisão em estudar português. Os estudos acontecem em Portugal, onde o
colaborador tece uma idealização do Brasil como se fosse uma mistura de Portugal
com a África.
Peter Fry chega ao Brasil em julho de 1970, após constatar que nunca se
adaptara ao próprio país:
“A descoberta pelo Brasil?... foi puro acaso. Surgiu uma
oportunidade de vir para cá. Um dia estava conversando

31
com um amigo, ele é antropólogo - pesquisa índios no
Amapá -, eu estava muito deprimido e perguntei a ele se
era possível dar aula no Brasil. Naqueles dias ele tinha
recebido uma carta dizendo que Campinas estava à
procura de antropólogos. Cortei o cabelo, coloquei um
terno e fui falar com o cônsul geral do Brasil em
Londres. No final das contas, eles me ofereceram um
contrato por dois anos. Larguei tudo na Inglaterra e vim
para o Brasil.”

O segundo ponto tratado na narrativa refere ao trabalho de reflexão sobre a


identidade homossexual. Ele coloca-se a trabalhar como antropólogo e visualiza a
possibilidade de contribuir para a discussão sobre a homossexualidade. Em 1974 vai
aos Estados Unidos participar numa reunião da Associação Antropológica
Americana, conhece intelectuais do mundo acadêmico gay e experimenta virar
militante por um ano, mas descobre que essa atividade em grupo não respeitava suas
perspectivas enquanto indivíduo.
Peter Fry narra como demorou em perceber como não poderia olhar o Brasil
através de sua origem inglesa. No Brasil percebeu uma tolerância que não existia na
Inglaterra. É a partir desse ponto que descreve seu desacordo com os grupos
homossexuais, pois os militantes sustentavam uma postura de identidade sexual sem
prestar atenção às especificidades culturais do país. Com poucas palavras, Peter Fry
elabora com perspicácia a visão que apreendeu no Brasil:
“Os exilados do [hemisfério] norte vêm ao Brasil buscar
um pouco dessa coisa estranha, difícil de apanhar: a
imprevisibilidade, a sutileza, o engraçado e tal; assim
como existem os brasileiros que olham para o
hemisfério norte querendo as coisas mais corretas, mais
organizadas, mais claras, menos ambíguas.”

Quando reflete sobre o período da abertura política, Peter Fry aponta a volta
dos exilados ao Brasil como um fator importante para a transformação da cultura
política. No sentido que uma ampla visão libertária chegava ao país, influenciando o

32
questionamento da legitimidade das posições políticas em relação à luta de classes e
em favor das lutas mais específicas.
A participação das reuniões para a fundação do Lampião é apontada como
uma conseqüência do trabalho que dedicou a reflexão sobre a homossexualidade.
Quando reflete sobre sua participação no tablóide, indica ter considerado
interessante a proposta de um jornal plural que abordasse diferentes campos de
reflexão. Ao seu modo de ver, o Lampião seria um reflexo do que estava
acontecendo em outros países: um jornal brasileiro que acompanhava tardiamente o
movimento mundial de liberação.
O motivo do seu interesse pelo jornal estava no aspecto libertário que afluía
entre as propostas do Lampião. A decepção de Peter Fry surge quando percebe que
esse aspecto libertário não se configurou nos movimentos minoritários, mas na
verdade tornou-se outra forma de opressão. Nesta perspectiva, Peter Fry apresenta-se
como partidário de uma ideologia que dá extrema primazia a liberdade individual e
critica os movimentos com suas palavras de ordem:
“Não sei se escrevi a este respeito no Lampião, mas
publiquei um artigo na Folha de São Paulo que criou
inimizades na época... escrevi um ataque sério ao
stalinismo sexual. Este sempre foi o meu argumento...
estar recusando a cristalização de uma identidade que
arrasava com as outras identidades. Achava que isso não
tinha nada a ver comigo. Essa idéia de criar uma
identidade, a qual elimina ou domina as outras - ao meu
ver - não era interessante. Os outros fazem o que bem
entendem, não quero enfiar nada na goela de ninguém!
[...]”

4. Os Rompimentos com o Absoluto.

As narrativas desse grupo têm em comum a vivência de colaboradores que se


desprenderam da atuação política, pois nenhuma conseguiu ser válida para eles. O
tom de resistência não é misterioso, este grupo suspeita das instituições - partido

33
político, Estado, universidade - depois de passar por experiências no interior dessas
organizações que não contemplaram suas idéias de transformação da sociedade
através da luta política. A reflexão consiste em criticar as organizações e nada pode
existir fora do jogo de considerar-se absolutamente livre. João Silvério Trevisan,
Luiz Carlos Lacerda e João Carlos Rodrigues enunciam aspectos específicos neste
sentido: essas narrativas imprimem um questionamento absoluto a qualquer
estrutura.
O fato de João Silvério Trevisan ter sido seminarista permeia a história de
vida. As experiências vividas no interior de uma instituição educacional religiosa
remetem a dois pontos que são retomados durante a construção da narrativa: a
formação cultural, expressada através da citação dos santos e das passagens bíblicas;
e a referência ao Seminário, cujo espaço narrativo ocupa grande parte de sua história
de vida. O texto de João Silvério Trevisan inicia com a evocação da imagem de São
João da Cruz para contar sobre o nascimento:
“Eu sou de Ribeirão Bonito. Nasci na véspera de São
João, dia 23 de junho de 1944. No hemisfério sul é a
noite mais longa do ano. Eu sou um ser noturno.
Acredito ter alguma coisa a ver com a noite. Não
fisicamente, mas espiritualmente. E também, não no
sentido imediato de ser um temperamento muito lunar,
mas da minha vida ser um pouco esse me debater nas
trevas. A sensação que tenho é a de estar sempre
envolvido na noche oscura de São João da Cruz e de ter
que encontrar os meios de acender os meus palitos, os
meus focos de luz para poder iluminar meu caminho.”

Os questionamentos dos dogmas religiosos ou políticos são importantes para


compreendermos como João Silvério Trevisan re-elabora as decisões adotadas no
decorrer de sua trajetória. A história contada reflete sua crítica ao poder localizado
nas instituições religiosas, partidárias e até mesmo aquelas que ameaçavam se
expressar dentro do movimento homossexual. Ele reflete sobre o fato de que o poder
é algo a ser dissolvido, pensando sobre o direito de apresentar o seu ponto de vista

34
enquanto ser humano que tem uma vivência homossexual. Neste ponto, visualiza o
anarquismo como o meio de expressão do indivíduo contra qualquer agrupamento
instituído:
“[...] eu me rebelei contra a Igreja e contra os partidos de
esquerda - acredito ser absolutamente conseqüente
comigo mesmo -, e me rebelei contra o movimento
homossexual, no momento em que percebi sua
tendência em criar uma crosta de instituição.”

A narrativa de Luiz Carlos Lacerda é marcada em diferentes fases pela fuga à


repressão que os grupos coletivos impuseram à sua individualidade. Essa forma de
apresentar sua história de vida floresce em três pontos: no primeiro quando visualiza
nos grupos de esquerda a repressão da tendência homossexual; no segundo quando
passa a ter experiências com drogas e percebe que estes coletivos dividem o mundo
entre os usuários e os não usuários; e no terceiro quando era participante do Lampião
e tem um artigo recusado por um jornal que ele entendia ser libertário.
O nascimento em 1945, no bairro de Copacabana, onde vivia com a família,
foi palco para o contato com pessoas da área de cinema e literatura. Neste contexto
deu-se sua definição enquanto bissexual. Ao mesmo tempo em que isto ocorria,
estruturavam-se as bases de seu percurso mental consubstanciadas nos três pontos
que organizam a lógica de seu texto. A história do surto esquizofrênico que sua irmã
mais velha sofreu, explica a desestruturação de sua família, lançando Luiz Carlos
Lacerda na solidão. A literatura e a dedicação ao Partido Comunista, por outro lado,
ocupam o espaço aberto com a crise familiar. A participação nessas atividades
caminha paralelamente até Luís Carlos Lacerda lançar seu primeiro conto literário,
num livro apresentado por Walmir Ayala:
“Eu era bem garoto quando fui militante do Partido
Comunista (No livro do Zuenir Ventura eu conto isso!)
Publicaram uma antologia com vários poetas, em que o
Walmir Ayala apresentava a minha parte. Certa vez, saí
de uma reunião do Partido e falei para um dirigente: “-
Saiu um livro de poesias meu. Eu queria te dar!” O cara

35
foi até a casa dos meus pais, meu pai era comunista
também, para eu entregar o livro. Quando ele viu a
apresentação do Walmir, fez um discurso moralista: “-
Ih! Esse cara é um homossexual e não sei o que lá!!!”
Nem falou da minha poesia! Eu fiquei arrasado!!!”

O golpe de 1964 e o desencanto com os grupos de esquerda contribuem para a


elaboração do segundo ponto, cuja história se dedica ao início da carreira
profissional na área de cinema e as experiências que teve com as drogas. Em 1968,
relata que viveu profundamente a Contracultura, morou em comunas com amigos
ligadas à área de cinema. O colaborador destaca o valor da Contracultura como uma
ideologia pautada pela livre expressão do indivíduo. Porém a censura dos membros
da comuna a Luiz Carlos Lacerda, por trazer pessoas que não pertenciam ao grupo,
reforçou sua convicção de que a única saída tinha que ser construída através de uma
maneira própria.
A experiência com as drogas durou de 1968 a 1972, quando Luiz Carlos
Lacerda tem um surto de loucura. Nesse momento revela estar preocupado consigo
mesmo, devido ao caso de esquizofrenia que ocorrera em sua família. A psicanálise
foi apontada como o caminho que o ajudou a estruturar sua personalidade. Nessa
parte da história inicia-se o terceiro ponto, referente à proposta libertária que Luiz
Carlos Lacerda visualiza no Lampião, fator que atraiu sua atenção e o levou a
publicar artigos no jornal. Um desses artigos, contudo, gerou polêmicas com os
membros do Conselho Editorial do Lampião:
“[...] Escrevi um artigo onde colocava que o travesti é a
personificação do preconceito da sociedade
heterossexual com a homossexualidade. Para explicar
melhor, ele se encerra no seu próprio comportamento
sexual, a ponto de chegar a mutilação.”

O artigo elaborado em defesa dos travestis por Darcy Penteado foi


considerado ofensivo por Luiz Carlos Lacerda. Nesse artigo, Darcy Penteado
declarava a inexistência da bissexualidade e a existência do homossexual mal

36
resolvido. Luiz Carlos Lacerda, então, escreve um segundo artigo em resposta a essa
provocação, mas a publicação da réplica foi proibida pelo editor do Lampião:
Aguinaldo Silva. A atitude do principal editor do jornal foi interpretada da seguinte
forma:
“[...] Eles fizeram uma reunião, e o Aguinaldo disse que
não poderia sair porque o jornal também era endereçado
aos travestis. Disse que o pessoal em São Paulo tinha
ficado muito puto e que meu artigo não iria sair de jeito
nenhum. Exatamente como a censura da ditadura, a
censura heterossexual que tanto combatiam. A partir
dessa recusa eu me nego a colaborar com um jornal que
tem um discurso libertário, mas que cerceia a liberdade
de expressão. Por causa disso me afastei, nunca mais
colaborei.”

João Carlos Rodrigues constrói sua narrativa em três fases: na primeira


elabora sua proximidade com os ideais da Contracultura, na segunda recupera esses
ideais através de sua trajetória vivenciada no Lampião; e na terceira reflete sobre sua
produção no período pós-Lampião.
O colaborador conta que à época do nascimento, em 1949, sua família
participava do Partido Comunista Brasileiro, porém a invasão da Hungria, em 1956,
provocou a dissidência de alguns integrantes e os pais de João Carlos Rodrigues
estavam entre as pessoas que saíram do partido. Essa história é retomada para
explicar o nível de relação que o colaborador manteve com essa perspectiva política:
“[...] Ser filho de comunistas é como ser filho de beata,
a pessoa automaticamente é puxada para esta tendência.
Porém, não sou comunista, nem marxista, considero-me
anarquista. Nesse sentido, também tenho um lado de
rebeldia. Sou muito isolado, não gosto de obedecer
nada.[...]”

Os trechos sobre as escolas onde João Carlos Rodrigues estudou são breves.
No curso superior opta por História, mas não conclui a faculdade devido ao receio
do país estar mergulhado numa ditadura militar. Pára os estudos e começa a fazer

37
teatro. Neste ponto, o foco da narrativa incide sobre o movimento da Contracultura.
Em 1972, parte em auto-exílio para os Estados Unidos, onde permanece por um ano
e experimenta a efervescência cultural norte-americana. Quando retorna ao Brasil
atua como crítico de cinema num jornal chamado Crítica. A história do contato com
o Lampião dá inicio a um longo período dedicado a sua trajetória dentro do jornal.
João Carlos Rodrigues retoma os episódios que vivenciou - quando morou em
São Francisco - para explicar que seu objetivo ao escrever no Lampião era baseado
numa postura chamada Coalizão Arco-íris. Nessa perspectiva todos as indivíduos
excluídos do sistema mereciam atenção: mulheres, negros, índios, homossexuais.
João Carlos Rodrigues idealizava a união de todas as especificidades, propagando
uma utopia apreendida em São Francisco. O sonho, contudo, não era suficiente para
anular a existência do preconceito entre os próprios excluídos:
“O Lampião formou opinião sobre várias questões.
Nessa idéia do arco-íris, havia preconceito de umas
cores contra as outras. [...] quando gays e negros
estavam juntos, alguns falavam: “- Ah! Porque nós
temos o mesmo problema!”; então o outro dizia: “Não!
Não temos não!!!” Havia preconceito de preto contra
gay, de gay contra preto, de mulher contra lésbicas.”

A narrativa descreve pontos como a sede do Lampião, as reuniões em que


participou, a função das pessoas que trabalhavam no local, o processo que conduziu
ao desgaste e a extinção das atividades do jornal e, a partir deste ponto, inicia a fase
final sobre sua produção pós- Lampião:
“No Rio de Janeiro, o movimento homossexual sempre
foi gigantesco no passado. Fiz a biografia do João do
Rio, foi o primeiro escritor gay brasileiro, foi publicado
pela Top Books. Assim, levantei toda a obra dele. Desta
forma, é possível vê-lo cobrindo as ruas do Rio de
Janeiro.[...]”

A construção da narrativa se remete aos comentários sobre as atividades


homossexuais desde o começo do século até os anos sessenta. João Carlos Rodrigues

38
sugere que o percurso da identidade homossexual caminha da idéia de maldição para
se tornar um comportamento tolerável. O próximo passo da narrativa é propor a idéia
de que há organizações homossexuais que precedem as dos anos setenta:
“Porém, caso se pense com rigor, será que as pessoas
que se reuniam por causa da Emilinha Borba não
formavam um grupo de gays!? Na verdade era!!
Conheci os membros, fiz um vídeo sobre eles... conheci
Emilinha Borba! São pessoas que se conhecem desde os
anos cinqüenta... até hoje têm clubes! Eles não têm mais
sede, não têm mais nada, mas se reúnem para fazer
festinhas. [...] Do ponto de vista cultural, havia
organizações não politizadas, mas que se formavam com
as características descritas.[...]”

5. A Aliança com o Coletivo.

O próximo modelo identificado nas entrevistas refere aos entrevistados


próximos às instituições, especificamente grupos ligados ao socialismo. Este ponto
requer alguns comentários, pois este posicionamento os afasta dos grupos
apresentados anteriormente. O fio condutor dessas narrativas é a compreensão do
sistema social, tirando dele sínteses para possíveis entendimentos sobre a reserva dos
grupos de esquerda em abordar a discussão da homossexualidade.
Esse grupo relata suas experiências com as organizações de esquerda, numa
reflexão que consiste em criticar suas estratégias não para inviabilizá-las, mas para
apontar problemas em relação ao tratamento da questão homossexual. As narrativas
de Edward MacRae e James Naylor Green compõem esse conjunto.
A história contada por Edward MacRae é marcada pelo ritmo familiar. O
espaço evocado na primeira etapa da entrevista se refere ao ambiente onde cresceu,
quando o colaborador vivia próximo dos avós maternos. A vida dos pais compõe
parte da própria trajetória. Ele inicia a narrativa contando sobre a origem do pai,
escocês que imigra para o Brasil em 1936, e da mãe, brasileira que desde pequena
aprendeu a falar inglês por influência dos pais dela.

39
Após essa introdução Edward MacRae elabora a história do nascimento e
explica sua formação bilingüe, a partir desse ponto divide a história em três fases.
Na primeira explica que a questão do bilingüismo o leva a perceber duas esferas
distintas: o ambiente familiar confrontando-se com o ambiente externo. Essa
sensação de divisão reflete sua impressão de viver em dois mundos distintos. Ao
tecer considerações sobre a infância, destaca a dificuldade em encontrar vínculos de
identificação com outras esferas sociais fora do seu lar:
“Quando era pequeno, nós freqüentávamos o clube
inglês. Os ingleses tinham preconceito contra os
brasileiros, falavam mal do povo. Nunca sabia muito
bem aonde me situar. Era brasileiro, minha mãe era
brasileira, meu pai não admitia que se falasse mal da
minha mãe, nem dos brasileiros. Mas neste tempo ele
encapava várias críticas que se faziam aos brasileiros.
Criança é muito conformista, gosta de ser como os
amiguinhos. E eu não era exatamente como os meus
amiguinhos do clube inglês e que estudavam no colégio
inglês em São Paulo. Neste sentido, também tive
problemas porque me sentia um pouco inferior aos
ingleses: “- Era inglês ou não era bem inglês?[...]”

A segunda fase enfoca a fase em que vai estudar na Inglaterra. Nesta parte
conta como se deu a superação dos problemas decorrentes da inadaptabilidade ao
bilingüismo. E a terceira fase é caracterizada pela descoberta da realidade brasileira.
Para tratar a questão homossexual, recorre à época em que foi militante no
SOMOS/SP - primeiro grupo de militância do Brasil -, explica que era simpático ao
anarquismo libertário, contudo, não era anti-socialista, pois acreditava que a questão
homossexual deveria estar ligada a outras questões políticas e de esquerda. Nesta
fase da narrativa explica a postura que adotou em favor da luta contra a ditadura e do
engajamento político. Os comentários de Edward MacRae sugerem um afastamento
crítico, cujo teor fica a meio caminho da posição anti-esquerda:
“Na época em que surgiu a polêmica do SOMOS com os
trotskistas, não pertencia a Convergência Socialista e
sempre desaprovei a intenção de encampar o movimento

40
homossexual. O pessoal da Convergência Socialista
buscava ser aberto, mas nesse procedimento eles
acabavam criando inimizade. Em vez de cooptar, o
efeito era o inverso com os grupos. O pessoal da
Convergência tentava se aproximar porque queria entrar
e dominar. Eu era contra isso, porém ao mesmo tempo
era muito favorável à luta contra a ditadura e ao
engajamento político. Muitas das pessoas do SOMOS
eram completamente anti-políticas e de fato um tanto
quanto politicamente conservadoras.”

Nascido em Baltimore, James Naylor Green desde o início do depoimento


anuncia a importância que os movimentos sociais vão exercer na construção de sua
narrativa. A composição de sua história de vida está intercalada com os grupos de
esquerda nos quais participou. Essa forma de narrar ajuda a compreender o papel que
as atividades de militância ocupam na história modelada pelo colaborador.
Após falar brevemente dos pais e do nascimento, James Naylor Green
recupera um aspecto da infância que, no seu modo de ver, aparece como uma
especificidade em relação às outras pessoas. Trata-se do fato dele ter crescido num
ambiente Quaker:
“Os Quakers faziam parte de um grupo protestante na
Inglaterra, surgido em 1640. As pessoas que o
compunham eram pacifistas, eram a favor da igualdade
social e se recusavam em prestar honra ao rei... por
causa disso, muitos foram presos e sofreram perseguição
religiosa. Posteriormente, fizeram um acordo e
conseguiram terras fora da Inglaterra, fundando uma
colônia nos Estados Unidos - a Pennsylvania - onde,
pela primeira vez, houve liberdade religiosa no Novo
Mundo: qualquer religião poderia ser praticada./ Esse
grupo possuía tradição de se envolver com movimentos
sociais e políticos nos Estados Unidos. [...]”

A próxima preocupação é relatar o conflito que viveu até assumir-se


homossexual. O contato com a politização é um fator preponderante para James
Green escapar dessa circunstância. Ele participa no movimento contra a Guerra do
Vietnã e, posteriormente, toma contato com o movimento feminista e o movimento

41
da Contracultura. A partir dessa época passa a se identificar com as propostas destes
movimentos, adotando o estilo de vida alternativo.
Em 1973 começou a participar do movimento gay. Dirigiu-se para São
Francisco, pois enquanto militante homossexual e de esquerda queria encontrar
pessoas que compartilhassem suas perspectivas ideológicas. Na sua elaboração, o
movimento de Contracultura não poderia ser definido apenas como anarquista, pois
havia organizações influenciadas pela Nova Esquerda internacional, cujo discurso
era referendado tanto pelo marxismo quanto pelo anarquismo.
O interesse pela América Latina se deve a uma idealização: ele acreditava que
um conflito semelhante ao do Vietnã aconteceria em território latino-americano.
Assim, decide aprender espanhol, estabelece contato com pessoas envolvidas com
movimentos sociais e resolve conhecer a América Latina. O colaborador cita sua
breve passagem pela Colômbia em 1976, mas enfatiza os vínculos que estabelece
com o Brasil nesse mesmo ano. James Green só volta aos Estados Unidos quando
expira o prazo do visto de permanência no Brasil.
Em 1978 retorna ao Brasil, onde começa a participar do Núcleo de Ação pelos
Direitos Homossexuais: embrião do grupo SOMOS/SP. Ao mesmo tempo passa a
integrar um grupo trotskista: a Convergência Socialista. Este aspecto foi relacionado
à sua formação de militante nos Estados Unidos. James Naylor Green possuía a
visão de uma transformação real através do socialismo.
Outro ponto - presente na construção da narrativa - está centralizado nas
explicações sobre as posições que adotou em relação ao movimento homossexual
brasileiro. As experiências vivenciadas nos Estados Unidos ajudam a esclarecer sua
dedicação a duas atividades: à politização do movimento homossexual brasileiro; e à
luta contra a homofobia dentro da Convergência Socialista:
“Tinha a visão do diálogo. Insistia com ações concretas
com o Movimento Negro Unificado, para que houvesse
a incidência de diálogo... como ocorreu anos depois na
manifestação do dia de Zumbi. Insistia num diálogo
com o movimento operário, com o movimento sindical,

42
com o movimento feminista para que todo mundo se
entendesse nesse diálogo. Fazer isso era uma
proposta.[...]”

6. Em Tom de Transição.

As construções narrativas presentes nesse grupo pautam-se pela transição da


atuação política de um movimento social com perspectiva mais abrangente para
aqueles com perspectiva mais específica. A elaboração da história de vida é
permeada por esta característica, a narrativa consiste em apresentar a emergência de
grupos de atuação mais específicos nos quais os colaboradores começaram a atuar.
Antônio Carlos Moreira, Dolores Rodriguez e Alexandre Ribondi enunciam aspectos
que os aproximam para compor esse conjunto.
A história contada por Antônio Carlos Moreira está apoiada na trajetória de
um militante engajado na atuação junto ao movimento estudantil que passa a
acompanhar e a participar do movimento homossexual. A construção da narrativa
ocupa longos espaços dedicados ao desenvolvimento dos movimentos sociais que
afluíram durante o período da abertura política, para depois compor sua história de
participação nos grupos homossexuais e no Lampião.
Antônio Carlos Moreira nasceu em 1958, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A
ênfase que o colaborador coloca sobre a diferença da região onde nasceu em relação
à Zona Sul carioca delineia o percurso de sua trajetória. O primeiro ponto da
narrativa está ligado à formação escolar, para contar suas experiências de estudante
se apóia na idéia da mudança de espaço em nível urbano:
“Resolvi estudar neste colégio na Zona Sul, uma seara
que não a minha.... eu era da Zona Norte!/ No Rio há
uma diferença enorme entre a Zona Sul e a Zona Norte...
isso é muito marcado! Para os habitantes que não são da
Zona Sul costuma-se dizer que é o pessoal do além-
túnel. Há uma forma de comportamento diferente. Isso é
visível no comportamento do adolescente: nos gostos,
no vestuário, no lazer, nas gírias, na forma de andar em

43
grupo, enfim num monte de coisas. Então, consegui
romper com meu espaço onde vivia desde a infância e
comecei a conhecer outras possibilidades, entre as quais
estava a opção profissional.”

Em 1978, inicia o curso superior na área de comunicação e aproxima-se da


MEP - Movimento de Emancipação do Proletariado - que define como uma
organização marxista-leninista. Desde o nível secundário engajou-se em grupos
políticos de esquerda nos locais onde estudou, porém percebia que a questão
homossexual não ser bem aceita nesse meio. Após constatar esse fato, dedica-se a
descrever como conheceu o Lampião, ao mesmo tempo em que ingressou no
primeiro grupo de militância homossexual carioca: O SOMOS/RJ. Nessa fase da
narrativa, Antônio Carlos Moreira intercala as experiências vividas no jornal,
descrevendo sua trajetória de colaborador até redator, com a participação nas
reuniões do grupo SOMOS/RJ. Ao falar sobre a relação do Lampião com o
movimento homossexual, relativiza a discussão da homossexualidade apresentando-
a como um dos temas ao qual o jornal dedicava suas páginas:
“O Lampião surgiu da reunião de pessoas que queriam
se sintonizar com um momento: a “abertura política”.
Ele estava ligado mais na questão do movimento
artístico, da liberação da censura do que a criação do
movimento homossexual. O jornal não articulou os
grupos de militância homossexual porque não era um
espaço para reuniões dedicadas a esse objetivo... ele
nunca promoveu nenhum debate sobre a
homossexualidade. Essa postura era algo que sempre
questionava e achava estranho.[...]”

O depoimento revela uma preocupação que permeia a construção da narrativa:


a falta de registros sobre todo o processo que o jornal e o movimento homossexual
experimentaram durante o processo de “abertura política”. Antônio Carlos Moreira
declara a necessidade dessa história ser preservada e recuperada, comentando as
coleções de documentos sobre a origem dos grupos homossexuais cariocas e do
jornal Lampião que doou a arquivos institucionais:

44
“[...] doei tudo que tinha... doei várias coisas do
movimento político para a Fundação Rio, onde tem o
Centro de Cultura Alternativa... na época era
organizado pela Maria Amélia Melo. Doei exemplares
do Lampião, os manuais da campanha da anistia. O
engraçado é que ninguém queria aquele material. Doei
tudo porque já não tinha mais lugar para guardar, era
muita coisa. Sou assim meio traça, adoro papel... vou
recrutando tudo!/ Eu tinha coleções significativas do
jornal. Agora esse material está num lugar onde pode ser
consultado. Fiz questão de fazer uma doação completa
para a biblioteca da ABI, outra para a Biblioteca
Nacional, como forma de se ter o jornal para consulta
em algum lugar.[...]”

A história contada por Dolores Rodriguez também reflete a história de


participação nos grupos homossexuais emergentes, porém destaca um olhar mais
atencioso sobre as mulheres. Dolores Rodriguez orienta a elaboração do texto
lançando idéias sobre a posição que as mulheres ocupam na estrutura social. O
depoimento se apóia em dois pontos: um está ligado à participação minoritária da
mulher no movimento homossexual e no Lampião; o outro refere aos preconceitos
existentes no seio dos próprios movimentos minoritários.
No período da infância e da adolescência recorre à história dos bairros que
morou no subúrbio do Rio de Janeiro, traçando paralelamente alguns comentários
sobre os pais:
“[...] em 1967, meus pais se desquitaram. Durante pouco
tempo, continuei morando em Maria da Graça, porque
naquela época mulher desquitada era vista como
persona non grata!/ Nós nos mudamos de Maria da
Graça e fui morar em Pilares... outro bairro de subúrbio
do Rio. [...]”

Dolores Rodriguez começa a trabalhar aos quinze anos, esse ponto dá


abertura à elaboração sobre a necessidade de independência financeira do lar. O
espaço dedicado a descrição dos locais onde esteve empregada, o relacionamento

45
com os colegas de trabalho, antes e durante a época de faculdade, são aspectos
retomados com o sabor de uma fase agradável das experiências que vivenciou.
No curso superior opta por jornalismo, explica que o hábito de escrever e ler
influenciou sua escolha pelo curso. Quando já exercia a carreira de jornalista foi
trabalhar no Lampião como revisora. No jornal, o contato e o desenvolvimento de
laços de amizade com as pessoas é enfatizado para explicar a atuação no jornal.
A partir deste ponto a colaboradora relata as experiências vividas no
Lampião, assim como reflete sobre o papel do tablóide enquanto órgão gerado na
fase final do ciclo da imprensa alternativa. Dolores Rodriguez vê a tentativa do
jornal como um esforço de se tornar representativo de todas as minorias, mas
considera que o teor de suas páginas direciona-se a um público muito específico.
“A idéia do Lampião era de ser um jornal de minorias,
para discutir a questão do negro, da mulher, da ecologia.
Porém, o jornal não conseguiu conciliar isso, ele se
tornou um jornal voltado só ao homossexual, masculino
e acho que branco.[...]”

A colaboradora apresenta alguns motivos para esse desdobramento, como o


preconceito existente no seio de cada um dos movimentos minoritários. Dolores
Rodriguez observa como as diferenças de classe, de raça, de orientação sexual
inviabilizavam uma prática de alianças dos grupos que surgiram no contexto da
“abertura”. O texto, a partir deste ponto, organiza-se em torno deste problema que no
seu entender estende-se até a contemporaneidade. A experiência dentro do
movimento feminista é convocada para ilustrar suas impressões:
“Infelizmente, uma pessoa que já faleceu, com a qual
militei muito, uma das pessoas mais bonitas que conheci
na vida - se não estou enganada, ela escreveu alguns
artigos para o Lampião -, foi uma professora da PUC
chamada Lélia Gonzalez. Nós participamos de um
encontro feminista no sindicato dos metalúrgicos... na
Ana Neri em São Cristovão!/ Naquela época, lembro
como se fosse hoje, estávamos discutindo a questão da
mulher do campo, da mulher doméstica... da mulher em
tudo quanto é lugar! Entretanto, quando se falava um

46
pouquinho da negra... pronto! nem pensar!! Tanto que
houve uma discussão, num dos grupos, sobre o futuro
das meninas pobres de uma determinada região do Rio
de Janeiro. Uma das mulheres da mesa levantou e falou:
“-Nesse grupo, temos que encaminhar essas meninas
para aprenderem trabalhos manuais, como costurar,
cozinhar...” A Lélia subiu nas tamancas, questionando:
“- Por que? Porque são mulheres pobres!? Por isso é
mais fácil botá-las num curso de corte e costura!? Quer
dizer que se ela é pobre e negra, então vai ser empregada
doméstica!!?” Desta forma, creio que não adianta se
organizar num movimento, caso o mesmo não queira
discutir o problema do outro à sua volta.”

Alexandre Ribondi elabora uma narrativa riquíssima em detalhes, acentuando


tons como a irreverência e a espirituosidade. A história de vida é permeada de fatos
históricos que mantém uma relação com a trajetória pessoal. O depoimento se dedica
as seguintes fases: pais, infância no Espírito Santo, estudos, migração para Brasília,
militância no movimento estudantil, repressão política, exílio (Portugal, França e
Alemanha), retorno do exílio, morte do pai, experiências com o Lampião, reflexão
do preconceito contra Brasília e militância homossexual.
A referência aos pais é elaborada como uma contraposição: o pai representa a
imagem apolínea e perfeita, a qual é retomada em outras fases da sua história de
vida; a mãe representa a imagem desordenada. Na infância, o fato de não ter uma
casa paterna, pois os pais nunca passaram mais de dois anos em cada cidade, sugere
a idéia de desprendimento. Alexandre Ribondi propõe que durante a infância nunca
esteve ligado a uma cidade que ocupasse o ponto de referência, explica que
Cachoeiro do Itapemerim poderia ser tomada como local que mais se aproxima desse
destino.
Após enfatizar a idéia do desprendimento, Cachoeiro do Itapemerim é
localizada para dar inicio a trajetória escolar. Na época dos estudos relata ter sido um
aluno tão inteligente quanto irreverente. O ambiente familiar é retomado para recriar

47
a atmosfera de autonomia que os pais incentivavam em contraponto a disciplina
escolar:
“Dou risadas porque foi o jeito que ensinaram em casa!!
[...] Se o professor falou para fazer, pergunte o por quê!
Se ele não souber explicar, não faça!” Meus pais
ensinavam essas atitudes para nós! Então imagina!!?
Nós chegávamos na escola com a corda toda! O
professor falava alguma coisa, nós dizíamos: “- Não
faço!!”, ele punha de castigo: “- Não fico!!” Isso criava
muita confusão dentro dos colégios.”

Aos quinze anos muda-se para Brasília. A história da mudança para a capital
federal é precedida por uma descrição apologética do ano da fundação da cidade,
assim como pela imagem do pai que romantizava a idéia dos filhos morarem numa
cidade construída a partir do nada:
“Escolhi Brasília porque meu pai sempre foi um grande
poeta. Ele achava a coisa mais linda do mundo uma
cidade construída no meio do nada! Desta forma, filho
dele tinha que morar em Brasília. [...] Quando vim, meu
pai plantou uma árvore e pôs o meu nome nela! Dou
risada porque a árvore existe até hoje!! Vir para Brasília
tinha esse caráter poético... um pouco por causa do meu
pai!”

Em Brasília conclui o curso secundário e entra para o curso de comunicação


na UnB. Começa a fazer teatro, a usar drogas e a fazer trabalho político. A atuação
política, contudo, está mais presente na construção narrativa. Ele sugere que para um
adolescente dos anos sessenta era importante ser de esquerda, envolver-se com uma
atuação política que projetasse uma compreensão maior do contexto histórico e
social. Grosso modo, Alexandre Ribondi enfatiza a idéia do estado de apatia que
recaiu sobre as gerações posteriores às dos anos sessenta e setenta.
Esses recursos de composição da história de vida se tocam e são retomados
com freqüência para demonstrar a heterogeneidade de situações vivenciadas pelo
colaborador. O próximo ponto de considerações de Alexandre Ribondi se refere a

48
duas questões: a repressão ditatorial voltada aos opositores do regime; e o
conservadorismo da esquerda no tocante a questão sexual:
“No auge da repressão fui levado para a cadeia, um
lugar comum naquela época... aconteceu tudo! Quando
fui preso nunca me ligaram às pessoas do trabalho
clandestino! Nunca me perguntaram dessas pessoas com
quem trabalhava! Algumas delas viram que eu estava
sendo preso, mas não avisaram ninguém pelo mesmo
motivo: o Alexandre, maconheiro e viado, podia ser
preso, podia ser torturado... não tinha importância!!”

Em 1974 foi libertado da prisão e resolve partir para a Europa, pois passa a
sofrer intimidação da polícia. Alexandre Ribondi relata que teve um choque ao
presenciar a existência de problemas sociais na França. Essa experiência atenua sua
perplexidade com a ditadura brasileira. Depois de passar por Portugal, França e
Alemanha, o colaborador retorna ao Brasil em 1976. Nesse mesmo ano ocorre o
falecimento do pai, cuja dor pela perda altera sua razão de viver. Alexandre Ribondi
larga o jornalismo para dar aulas de inglês:
“[...] Fui dar aula na Cultura Inglesa. Quando o prédio
foi inaugurado, o príncipe Charles estava em visita
oficial pelo Brasil. Ele foi convidado para a inauguração
da escola. Numa hora, fui ao banheiro fazer xixi. De
repente, fui empurrado por um segurança que me
encostou contra a parede!!/ O príncipe foi fazer xixi
naqueles mictoriozinhos. Fiquei olhando o príncipe
mijar, um pouco exprimido contra a parede, mas fiquei
vendo o príncipe mijar enquanto eu fazia xixi. É
engraçado porque isso também é um momento da minha
vida: fiz xixi junto com o príncipe Charles! Ele estava
no mesmo banheiro que eu, ao mesmo tempo, fazendo
xixi!”

Em 1978 estabeleceu contato com o Lampião. A história é elaborada em torno


da descrição do processo de distribuição do periódico nas bancas de Brasília e do
recolhimento dos rendimentos para enviar a Aguinaldo Silva no Rio de Janeiro.
Posteriormente começa a escrever artigos para o jornal, ganha notabilidade e

49
conhece os membros do Lampião. A experiência como colaborador no tablóide
prepara sua reflexão sobre o que o Brasil pensa em relação à Brasília:
“Nós que trabalhamos em Brasília - com teatro, com
jornalismo -, não importa o que façamos em qualquer
área humana, rigorosamente não somos aceitos pelo
resto do país!! Não somos mesmo!!! Há um clima de
preconceito que ronda a produção cultural de Brasília, a
qual é considerada de qualidade inferior! Esse
preconceito existe e ao meu ver é muito forte!”

A última fase do depoimento é dedicada a história do primeiro grupo


homossexual organizado de Brasília: Beijo Livre. Alexandre Ribondi enfatiza o
papel de liderança que exercia no grupo, descrevendo as origens do grupo, as
campanhas realizadas durante sua existência e a multiplicidade de pessoas de
diferentes camadas sociais que participavam nas reuniões. A característica mais
ressaltada por Alexandre Ribondi está no teor radical das atitudes do grupo Beijo
Livre:
“Penso que o Beijo Livre era muito radical. O grupo
amedrontava esse equilíbrio precário que existia entre a
sociedade e os homossexuais. Ainda existe uma
tolerância muito precária, aquela do bom gay que as
pessoas dizem: “- Não me conte nada! Eu sei que você
é, mas não me conte nada!!!” O Beijo Livre era contra
isso!”

7. Os Vínculos Específicos.

A elaboração das narrativas, pertencentes a esse grupo, recupera o percurso


das atividades de militância dos colaboradores em um movimento social específico.
A forma de organizar a história de vida baseia-se na postura de enfrentamento com
regras sociais, as quais não observam a diversidade da orientação sexual e tornam-se
responsáveis pela opressão da homossexualidade. Este grupo transmite a idéia de
exaltação com as vitórias conquistadas no plano sócio-histórico. As narrativas de

50
Luiz Mott e João Antônio Mascarenhas possuem essa característica, cuja
similaridade permite agrupá-las.
A história de Luiz Mott pode ser dividida em duas fases: a primeira possibilita
recuperar os fatores que o levaram a experimentar a ambigüidade de uma vivência
homossexual clandestina, a narrativa contém o teor da opressão vivida tanto em
nível pessoal quanto social; a segunda esboça os fatos que o conduziram a dedicar
sua vida ao movimento homossexual brasileiro.
No início do depoimento Luiz Mott explora idéias de rebeldia que servirão de
ingrediente e darão a tônica da história de vida. O colaborador relata que desde a
infância possuía um espírito contestador e inquieto, esse aspecto pessoal lhe valeu
um apelido:
“[...] Chico Viramundo. Meus irmãos me chamavam
assim. Não sei se era um personagem que já existia na
época, mas com isso queriam representar um traço
marcante da minha personalidade, ou seja, andar
muito... sou uma pessoa muito curiosa. Já viajei bastante
pelo mundo. Virar o mundo, significava também virar a
mesa. Acredito ter sido sempre uma pessoa
contestadora. Sobretudo, nos últimos vinte anos da
minha vida. Tenho polemizado com uma série de
questões.”

Há dois pontos que sobressaem na primeira fase da narrativa, cujo tom


transparece a descoberta da opressão: o primeiro está centrado na discriminação que
Luiz Mott sofre por parte dos irmãos e também nas atitudes da mãe que o estimula à
atividades ditas masculinas; o segundo é a vivência no seminário - quando decide ser
padre - o que lhe despertará um grande sentimento de culpa no que se refere à
sexualidade. As experiências que Luiz Mott elabora enfatizam a ausência de
modelos durante sua infância e adolescência no tocante à homossexualidade:
“Não tive nenhum modelo homossexual durante toda
minha infância e adolescência. Na minha infância nunca
vi nenhum homossexual. No seminário soube de um
adolescente que fora expulso. Ele foi pego transando
com outro num bananal. De modo que não tive modelos.

51
Lembro do meu professor de história - o ex-ministro
Murilo Ringel - apontar a homossexualidade, ou a
pederastia, como a causa da queda do Império Romano.
Neste sentido, minha visão era de uma homofobia
internalizada.”

Em 1964 altera o projeto de vida inicial, abandona o Seminário, entra no


curso de Ciências Sociais e após concluir a faculdade passa um período na França,
onde fez sua pós-graduação. A vivência homossexual é apresentada como uma
atividade paralela, contudo, declara que ainda não tinha consciência da identidade
homossexual. Na França decide voltar ao Brasil e casar. Esse fato ocorre em 1972. A
partir do quinto mês de casado, morando em Campinas, retoma o que qualifica como
“ uma vivência sexual clandestina”.
Com a aparição do Lampião, começa a ler os artigos sobre homossexualidade
que circulam nas páginas do jornal. Conhece um rapaz numa das aventuras
clandestinas, cujo contato lhe desperta o questionamento sobre a situação de
ambigüidade que vivia e a decisão em mudar de vida: assumir-me exclusivamente
homossexual. Após a separação, cujo processo é apresentado como outra virada que
realiza na vida, ele assume um relacionamento homossexual.
A segunda fase da narrativa inicia-se quando elabora o motivo que o leva a se
tornar militante do movimento homossexual. Com o final do primeiro
relacionamento, decidiu se mudar para Salvador, onde conseguiu emprego como
professor numa universidade federal. Na Bahia foi agredido, próximo ao Farol da
Barra, por estar acompanhado de um namorado. Este fato o deixa profundamente
abalado. Nessa época, conta que continuava recebendo o Lampião com notícias
sobre a formação dos primeiros grupos homossexuais, então tem a idéia de fundar
um grupo em Salvador com a ajuda de conhecidos e utiliza as páginas do tablóide
para publicar um anúncio de convocação.
A partir deste ponto Luiz Mott dedica-se a descrever a trajetória do Grupo
Gay da Bahia, a qual se confunde com sua própria trajetória enquanto liderança do

52
coletivo. O colaborador re-elabora uma grande parte de suas contribuições: tanto
práticas quanto intelectuais. A relação com o movimento homossexual torna-se o
eixo de organização da segunda fase da narrativa:
“[...] Não pretendo abandonar o movimento
homossexual... nunca! Quero ficar até o final dos meus
dias como militante, mesmo quando já tivermos muito
mais direitos conquistados. Isso faz parte do meu
temperamento, da minha maneira de ser... continuar
polemizando e reivindicando os direitos humanos para
essa minoria.”

A narrativa de João Antônio Mascarenhas é elaborada através da história de


transformação de algumas de suas idéias em realidade. O eixo da construção está
centrado no seu olhar sobre o surgimento do movimento homossexual brasileiro e a
aparição do debate sobre homossexualidade nas “esferas pensantes” do Brasil. Duas
construções são elaboradas nesse sentido: o papel que o colaborador desempenhou
enquanto idealizador do jornal Lampião e a história dos objetivos pensados para a
atuação do grupo Triângulo Rosa, no qual João Antônio Mascarenhas atuou
enquanto líder e militante da causa homossexual.
A construção de sua narrativa é permeada por ditados populares associados às
situações que vivenciou. A primeira parte é dedicada às origens gaúchas. O
argumento inicial gira em torno do machismo regional como uma regra perene, uma
expressão cultural que presenciou durante a infância e a adolescência, inclusive no
ambiente familiar.
Em 1950, forma-se em direito pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul e em 1956 decide gerir sua própria vida. Muda-se para o Rio de Janeiro, onde
começa a trabalhar no CAPES. Para explicar a “opção homossexual”, constrói um
raciocínio sobre a possessividade que as mulheres expressavam quando ele falava
sobre seus relacionamentos com homens. A decisão em manter relações sexuais sem
compromisso - visualizadas na “opção homossexual” - surge como o caminho mais

53
indicado para evitar qualquer relação que comprometesse sua liberdade. Porém,
caracteriza essa situação como um desafio:
“No Rio, era possível levar uma vida de liberdade. Eu,
apesar de ter aceitado minha homossexualidade, não
tive, de chofre, a coragem de assumi-la publicamente.
Por prudência, escolhi o processo de soft opening. Já
não mais mentia, não procurava passar pelo que não era,
mas esforçava-me para não me mostrar aos “da outra
banda”, sempre que possível. Entre a faca e a parede,
abria o jogo, mas empenhava-me em evitar a
necessidade de uma definição.”

Em 1972, passou a assinar o jornal Gay Sunshine. Foi assim que estabeleceu
contato com o movimento existente nos Estados Unidos e passou a sonhar com a
aparição de grupos de militância no Brasil. Em 1976, começou a trocar
correspondências com Winston Leyland, editor do jornal Gay Sunshine, quando
surgiu a possibilidade de Leyland vir fazer uma pesquisa sobre literatura com
temática homossexual no Brasil. A vinda de Winston Leyland é apresentada como a
possibilidade do sonho de João Antônio Mascarenhas tornar-se realidade. O
colaborador passa a descrever toda a trajetória da visita de Winston Leyland, assim
como a reunião do grupo de jornalistas e intelectuais que deram origem ao Lampião
em 1978.
O tom da narrativa apresenta o Lampião como um catalisador que ajudou na
criação dos grupos de militância homossexual pelo país. A conclusão da história tem
um parecer positivo, pois João Antônio Mascarenhas entende que esse objetivo foi
atingido. Essa mesma idéia será re-elaborada para explicar a criação do Triângulo
Rosa em 1985 e os objetivos que almejou para esse grupo:
“O Triângulo Rosa era um grupo muito característico...
diferente dos demais! Nós sempre nos preocupamos
com a questão da legislação... vamos dizer assim, com a
parte pensante do Brasil. No caso, seria com aqueles que
poderiam ter influência: intelectuais, meios de
comunicação social e legisladores.[...]”

54
8. O Esboço de uma Trajetória Coletiva.

Estas categorias não se pretendem rígidas, expressam apenas uma


possibilidade preliminar de organização do material. Os depoimentos manifestam
similaridades que permitem agrupá-los pela relação com o perfil profissional,
intelectual e político, apontando características que influenciaram a relação dos
colaboradores com a questão da identidade homossexual e com o desenvolvimento
dos movimentos de emancipação.
A categorização originou-se com o trabalho de audição das narrativas, cujo
processo de elaboração aconteceu na contemporaneidade. Estas distinções são
importantes para os desdobramentos dessa dissertação, pois ajudam a compreender a
trajetória deste conjunto de vidas. O índice temático, através do qual foi realizado o
levantamento de outros pontos presentes nas narrativas, orienta a configuração dos
capítulos que se seguem.

55
Capítulo 2
Um caminho tortuoso até a “Contestação Política”

“Minha geração nasceu quando as cinzas de


Hiroxima ainda estavam quentes.”
Herbert Daniel26

1. A Revolução dos Costumes.

É preciso enfatizar o clima experimentado após a segunda grande guerra, o


período em questão evidenciou o antagonismo político-ideológico e a mútua
desconfiança entre americanos e soviéticos. A década de cinqüenta se caracterizou
pela bipolarização do mundo encabeçada pelos Estados Unidos e pela União
Soviética.27 O estilo norte-americano apresentava o padrão de vida da camada média
da sociedade, exibindo o acesso de seus membros aos bens de consumo, contudo,
despertava a crítica por excluir setores sociais podados do sistema capitalista por
causa do poder aquisitivo. O modelo soviético garantia proteção estatal, fornecendo
emprego, moradia, educação e lazer à população, porém a emergência de uma
burocracia detentora do poder, com o advento do golpe stalinista, restringiu os ideais
propagados pela Revolução de 1917.28
Durante os anos sessenta, pessoas do mundo inteiro se mobilizaram para
questionar ou apoiar um destes modelos, ou contestar a ambos. Os movimentos de
protesto se espalharam por todos os continentes através da difusão de normas,

26
DANIEL, Herbert. Meu Corpo daria um Romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1984. p. 154.
27
FRASER, Ronald (org). 1968: a student generation in revolt. New York: Pantheon Books, 1988.
p. 15-16.
28
LÖWY, Michael. Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários. São Paulo: LECH,
1979. p. 234-235.

56
valores, gostos e padrões de comportamento que ganharam dimensão através dos
meios de comunicação de massa.29
As amarras tradicionais do círculo familiar foram desatadas e os jovens
começaram a organizar suas vidas através de novas redes culturais. Inicialmente o
fenômeno foi caracterizado por sinais mais evidentes: cabelos compridos, roupas
coloridas, misticismo, drogas e a vida em comunas. Um conjunto de hábitos que aos
olhos das famílias de classe média parecia um despropósito.30
Não se tratava de uma revolta que visasse uma redistribuição da riqueza social
e do poder em favor dos despossuídos, mas eram exatamente os jovens dos grandes
centros urbanos que encabeçavam esses movimentos de protesto. Eles tinham pleno
acesso aos privilégios da cultura dominante, tanto por suas possibilidades de entrada
no sistema de ensino quanto no mercado de trabalho. A juventude não rejeitava
apenas os valores estabelecidos, mas também qualquer estrutura de pensamento
vigente.
James Naylor Green e Edward MacRae são os colaboradores que
relacionaram este fenômeno com a história pessoal. Nascido em 1951, James Naylor
Green foi um dos jovens norte-americanos que vivenciou o período da contestação
cultural. Ele anuncia uma opção de vida - que denomina como “estilo alternativo” -
enumerando algumas de suas características:
James Naylor Green - Enquanto estava na
universidade viajei para o México, para a Europa e fui
morar no interior do Estado de Nova Iorque... conheci
algumas pessoas e resolvi morar numa comuna. Quando
concluí o curso universitário não quis retornar para fazer
pós-graduação, nem para me profissionalizar. Como se
dizia naquela época: “- queria viver um estilo de vida
alternativo”. O estilo alternativo representava uma
forma meio anarquista de criar uma nova sociedade
dentro dos padrões sociais predominantes. Depois me
mudei, com sete pessoas, para um bairro operário...

29
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é Contracultura. São Paulo:Brasiliense, 1986.p.18-
19.
30
Idem, p. 20-23.

57
pobre, em Filadélfia, e moramos lá. Então morei numa
comuna, com minha companheira, mas coloquei para ela
o que sentia. Vivemos juntos algum tempo e depois nos
separamos. Assim, foi em Filadélfia onde passei por
todo esse processo e assumi a homossexualidade.

O brasileiro Edward MacRae, nascido em 1948, intercala alguns


acontecimentos dos movimentos de contestação vivenciados durante sua trajetória.
As experiências estão relacionadas com a época em que realizou os estudos na
Europa e com as viagens de férias que fez aos Estados Unidos:
Edward MacRae - [...] entrei na universidade de
Sussex. Assim que entrei para o ensino superior, fui
passar férias com uma prima de um amigo nos Estados
Unidos. Nessa viagem comecei a fumar maconha e
desbundei, se não me engano, entre 1965 e 1966, a
época do grande verão: o Verão do Amor. O movimento
hippie demorou alguns meses para chegar à Inglaterra.
Mas justamente quando começou, assisti aquilo
desabrochar nos Estados Unidos, estava lá e já lia
Timothy Leary. Fiquei muito interessado em
experimentar LSD, mas só experimentei maconha. [...]
Na época em que começaram a chegar as notícias sobre
os hippies, já sabia a respeito, então estava por dentro,
sabia do que se tratava. Em pouco tempo apareceu o
ácido e experimentei. Resolvi que não queria mais fazer
economia, não iria trabalhar com seguros, nem numa
multinacional ou em nada do gênero, optei por outro
curso e me transferi para Psicologia Social. Essa
universidade onde estudava, era muito transada, o
ensino era moderno. Nesta fase meus amigos eram todos
socialistas.

Aos poucos os meios de comunicação começaram a veicular uma nova


palavra: Contracultura. O termo foi considerado adequado por sintetizar as
características de um fenômeno que se expressava através de diferentes formas de
oposição à cultura oficializada. A palavra foi inventada pela imprensa norte-
americana. Servia para designar um conjunto de manifestações culturais que

58
floresceram tanto nos Estados Unidos como em vários outros países - especialmente
os europeus - e com menor intensidade na América Latina.31
Paralelamente à difusão da Contracultura, os jovens de todo o mundo se
engajaram em outros movimentos. Os estudantes universitários de países como os
Estados Unidos, França e Alemanha iniciaram uma grande mobilização social para
demonstrar sua insatisfação. A rebelião dos jovens nas universidades endereçava
críticas contundentes a especialização do saber. Inicialmente, os estudantes
reivindicavam mudanças como a menor tendência ao tecnicismo e a não submissão
do ensino aos interesses do capitalismo ou do burocratismo socialista. Ao longo dos
anos sessenta esses postulados ganharam força e fizeram eclodir a rebelião
estudantil:32
Edward MacRae - Em 1968, aconteceram as
manifestações em Paris. Numa escala menor, a
Inglaterra também foi atingida por esta onda. Alguns
amigos meus foram para Paris. Eu quase fui, mas tinha
uns exames muito importantes e o meu lado “sério”
acabou prevalecendo, porque eram os exames finais da
universidade, lá não havia segunda época, neste caso ou
passava ou não passava. Assim, resolvi ficar estudando
para os exames, não fui para Paris e fui aprovado no
final.

Durante os anos sessenta, a inquietação contra a destruição provocada pelos


conflitos armados gerou outro nível de politização dos estudantes universitários:
James Naylor Green - Realizei o curso superior numa
universidade de origem Quaker... numa cidadezinha no
interior dos Estados Unidos, onde me formei em
Ciências Políticas em 1972. Entretanto, no período entre
1968 a 1972, detive-me conjuntamente em duas
atividades: uma foi minha politização sobre a Guerra do
Vietnã, o meu ativismo constante nas mobilizações
contra esta guerra; a outra foi pensar sobre este conflito
interno que me assolava. O fato de sentir que era
homossexual gerava a sensação de não saber o que

31
Idem, p. 13.
32
MATOS, Olgária. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 25.

59
fazer. Participei muito do movimento contra a Guerra do
Vietnã, cuja mobilização provocou uma grande
mudança social [...]

A partir de 1965, quatro anos após a cisão sino-soviética, a China apontou


novos caminhos para o socialismo durante a Revolução Cultural, cujo significado se
detinha numa mobilização em busca do socialismo com características menos
centralizadoras. Nesse sentido, os sistemas culturais e ideológicos da sociedade
chinesa passariam por um rigoroso processo revolucionário através da politização de
todas as áreas da vida social, desde as mais simples relações de trabalho e de família
até a estrutura do sistema de poder. Um dos objetivos almejados era eliminar o
espírito burocrático do Partido para não esbarrar nos mesmos impasses do modelo
soviético.33
Os ecos da Revolução Cultural chinesa se propagaram em meio à
efervescência do período.34 Edward MacRae, atento aos fenômenos da contestação
mundial, recupera suas impressões sobre a influência dos meios de comunicação:
Edward MacRae - Durante a Revolução Cultural na
China, achei que a imprensa inglesa e francesa foi a
favor deste movimento, parecia-me um caminho para se
destruir a burocracia do partido. Sentia que aquilo
poderia aumentar a liberdade. Mais tarde percebi que
não se tratava disso, mas foram os próprios jornalistas
que propagaram essa idéia errônea. A imprensa liberal
escondeu a barbárie, não mostrou o lado opressivo da
Revolução Cultural. Para os jovens, contudo, havia
pontos de identificação com a Guarda Vermelha, seria
algo parecido com a Revolução das Flores. Havia
pessoas que se consideravam “anarcomaoístas” e eu era
dessa corrente.

O modelo chinês projetou uma alternativa à forma de condução do


movimento revolucionário, cuja estratégia tornou-se atraente a João Silvério

33
REIS FILHO, Daniel Aarão. A construção do Socialismo na China. São Paulo: Brasiliense,
1981. p. 48-9.
34
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Op. cit., p. 78-79.

60
Trevisan e João Carlos Rodrigues por conter uma idéia de anarquia que captou a
atenção de ambos:
João Silvério Trevisan - Quando entrei na Ação
Popular e vi o que era a A.P., fiquei horrorizado com a
piada que era aquilo. Não era nada do que parecia e
resolvi sair da A. P. Então mandei uma carta analisando
os problemas que eu tinha encontrado e os motivos
pelos quais havia saído. Fiz uma severa crítica ao seu
maoísmo que considerava algo absolutamente de
fachada... uma bobagem. Eu me considerava um
maoísta, mas na verdade o que me atraía no maoísmo
era o anarquismo implícito em alguns de seus aspectos.
João Carlos Rodrigues - [...] Hoje em dia, percebo
algo que não tinha me dado conta: eu era anarquista,
mas na época achava que era maoísta. Atualmente,
ainda acredito ser de extrema esquerda. Mas não gosto
de fazer provocação! O esquema não é jogar pedra na
cabeça do Papa, o ideal é fazer com que não exista mais
Papa... na realidade isso é mais conseqüente à longo
prazo. Meu objetivo, basicamente, era esse. Aliás, acho
que fiz o que propus.

2. A Nova Esquerda.

O conjunto de manifestações - que afloraram durante o período da


contestação - produziu novas formas do indivíduo se relacionar com o mundo. Esse
clima contribuiu para a eclosão de novas formas de atuação política, onde a ênfase
recaia sobre a afirmação da liberdade. Os novos movimentos rechaçavam a sisudez
da esquerda tradicional, questionando suas normas de disciplina e de organização.
Esse espírito resvalou críticas sobre todas as estruturas que suprimissem o valor
positivo da liberdade.35
O contorno dos movimentos com caráter fortemente libertário começava a se
delinear. Firmava-se outro universo político com suas regras e valores próprios. Um
reflexo desse fenômeno é contado por James Naylor Green, quando o colaborador

35
Idem, p. 38-39.

61
fala sobre as manifestações da cultura jovem nos Estados Unidos e sobre o
movimento em favor dos direitos civis de mulheres, negros e homossexuais:
James Naylor Green - Em 1969, logo no começo do
curso superior, já havia o movimento feminista e o
movimento da Contracultura. As pessoas usavam cabelo
comprido, os homens se vestiam de uma maneira mais
afeminada... colorida, com jóias. Assim, identificava-me
com as idéias libertárias presentes nestes movimentos.
Elas inexistiam numa sociedade com noções de gênero
bem definidas, altamente polarizadas pela divisão
homem-mulher. O movimento feminista, assim como a
Contracultura me ajudaram a sair desta crise. No meu
modo de agir percebi semelhanças com as idéias do
homem novo, cujos valores eram projetados pelo
movimento feminista. Desta forma, sentia-me à vontade
neste ambiente social. Ao participar das conferências de
mulheres, comecei a perceber o apoio ao novo modelo
masculino. Nestes eventos havia agrupações internas
compostas por homens, entre os quais se encontravam
homossexuais assumidos.

A juventude norte-americana revelava-se mais sensível à contestação cultural


e aos novos movimentos sociais, cuja atuação não encontrava lugar definido em
espaços institucionais como sindicatos e partidos.36 Esses movimentos, contudo,
ampliaram o conceito de política que passou a ser aplicado às relações cotidianas
disseminadas na vida social.37 Os novos ventos anunciaram a renovação do
pensamento teórico de esquerda. A Nova Esquerda começou a despontar com suas
idéias e publicações.38 James Naylor Green recupera essa característica durante sua
narrativa:
James Naylor Green - O movimento da Contracultura,
politicamente, não poderia ser definido como
anarquista. A Contracultura possuía aspectos neste
sentido, mas em São Francisco, por exemplo, existia um
grupo muito grande chamado BAGL - Bay Area Gay
Liberation (Liberação Gay da Área da Baia de São

36
Idem, p. 39-40.
37
COELHO, Cláudio Novaes Pinto. Os Movimentos Libertários em questão. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 11.
38
PEREIRA, Carlos Alberto M. Op. cit, p. 37.

62
Francisco) -, uma das últimas organizações da primeira
etapa do movimento gay-lésbico. Após a rebelião de
Stonewall, surgiram Frentes de Liberação Homossexual
nas principais cidades do país, muito influenciadas pela
Nova Esquerda americana e pela Nova Esquerda
internacional. Eram organizações baseadas num
discurso revolucionário que possuíam uma mescla
interessante do marxismo com o anarquismo.

Por outro lado, a juventude européia trazia às costas o peso de uma longa
tradição de luta política bastante institucionalizada. Edward MacRae recupera esse
aspecto no seu depoimento:
Edward MacRae - Logo que entrei em Essex, tomei
contato com o pessoal de esquerda. Esta universidade
era bem de esquerda. Os grupos que participei na
Inglaterra não eram da esquerda tradicional. Na época,
sempre estive próximo da New Left, cuja posição
parecia mais anarquista. Na Inglaterra presenciei o
início do movimento feminista inglês, no qual
participava e conhecia várias militantes. A minha casa,
em Essex, foi um dos lugares que formou uma das
vertentes do movimento feminista. Estava lá no início
dessa nova onda de socialismo. Devido ao meu contato
com as feministas, conheci também pessoas ligadas ao
Gay Liberation Front. Por isso que quando o
movimento homossexual, muitos anos depois, chegou
no Brasil, já me julgava feminista... era muito favorável
a todo questionamento dos papéis de gênero.

3. Repressão Política no Brasil.

Enquanto na década de sessenta as novas formas de expressão política


estavam crescendo nos Estados Unidos e na Europa, o Brasil caia sob o manto de
uma severa ditadura militar.39 Para compreendermos o sentido da repressão política,
fruto do golpe de 1964, é preciso retomar o papel desempenhado pela Escola
Superior de Guerra. Esta instituição criada em 20 de agosto de 1949 imitava sua

39
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra p.19.

63
congênere norte-americana dos anos trinta, a National War College. A ESG foi
destinada a ser um centro de “altos estudos” político-militares, tornando-se desde
cedo um importante núcleo de atividade política e de irradiação ideológica. 40
As idéias anticomunistas geradas na interior da ESG nutriram a formação dos
militares que governaram o Brasil. A doutrina ali ensinada contava com a teoria da
“guerra interna”, segundo a qual a principal ameaça vinha dos sindicatos, dos
intelectuais, das organizações de trabalhadores rurais, do clero e dos estudantes.
Desta forma, todos esses grupos teriam que ser neutralizados ou extirpados.
A história da dualidade ideológica e da posição que o Brasil ocupava no
cenário político internacional ajudam a compreender as posturas dos colaboradores
em relação ao regime militar:
Alexandre Ribondi - Desde o Segundo Grau no
Elefante Branco até na Universidade, já me aproximo
das pessoas contrárias ao regime militar. Quando era
secundarista em Brasília, observava os acontecimentos
um pouco de longe. Na época, tinha uma amiga, cujo
namorado pertencia às lutas clandestinas. Tive outro
amigo que está desaparecido até hoje. Isso durante o
segundo grau!
Luiz Carlos Lacerda - [...] Como eu era militante [do
Partido Comunista], com o golpe de Estado fiquei
desarvorado. Havia largado tudo na minha vida para me
dedicar à política, à construção do Partido e ao
socialismo. Tudo por ideal a uma sociedade que
estávamos construindo, na qual eu acreditava.

O clero brasileiro também viveu um período de grande repressão. A Igreja


Católica Romana sofreu fortes perseguições durante o período ditatorial por
denunciar a miséria das classes populares e as violações dos direitos humanos. A
repressão também decorria por causa dos esforços da Igreja em defender os
membros do clero ou do laicato propensos a choques com o regime militar.41 João

40
Idem, p. 22.
41
Idem, p. 269-270.

64
Silvério Trevisan e Luiz Mott, que realizaram seus estudos em seminários, relatam
as impressões apreendidas no meio eclesiástico:
João Silvério Trevisan - [...] Desde o seminário sempre
fui de esquerda... inclusive na época do golpe militar de
1964, a polícia invadiu o seminário de Aparecida. Desde
aquele período nós tínhamos uma ação política, muito
fascínio pelo socialismo, apesar do socialismo ser
considerado uma coisa perigosa pela Igreja... mas havia
o encantamento. [...] A Ação Popular era um grupo que
no início da ditadura brasileira juntava as áreas
socialistas mais próximas da Igreja. Como continuei
estudando filosofia na Pontifícia Universidade Católica,
estava muito próximo da área de JUC (Juventude
Universitária Católica) e JEC (Juventude Estudantil
Católica). A minha formação política inicial passou por
dentro de tudo isso. Nesse sentido era uma coisa natural
que eu tivesse contato com a A.P.[...]
Luiz Mott - [...] me senti suficientemente forte para
largar o convento. Foi exatamente em 1964, no ano da
“revolução”. Apesar dos dominicanos terem tido uma
participação importante no movimento pré-ditadura,
politicamente eu era bastante alienado. Não me lembro
do 31 de março. [...]

O poder militar exercia um controle dos meios de comunicação. Sempre que


os oponentes do governo pareciam estar ganhando impulso, os generais aumentavam
as restrições políticas e cerceavam a liberdade de expressão. Em 1967, a Lei de
Imprensa reforçou ainda mais o jugo da repressão, prevendo, entre outras coisas, a
prisão de jornalistas culpados por “desacato” às autoridades públicas ou a censura de
filmes que não podiam ser exibidos no Brasil:
Alexandre Ribondi - Neste período, havia censura no
país, devíamos tomar cuidado com o que disséssemos
porque poderíamos ser presos! Porém no jornal onde
trabalhava, Jornal de Brasília, o clima era muito
agradável.
Edward MacRae - [...] Na época do Allende estive no
Chile, viajei uns três meses pela América do Sul, para
Machu Pichu, para Argentina, assistindo os filmes
censurados que não passavam no Brasil, então visitei a

65
Argentina no período entre ditaduras, pois tudo
acontecia lá.

O ano de 1968 marcou uma época em que a rebeldia andou a solta em muitos
países do mundo. No Brasil foi o ano em que os movimentos de protesto contra a
ditadura se intensificaram. Costa e Silva se defrontou com uma série de greves,
manifestações estudantis e declarações de protestos de padres e bispos.42 No mês de
dezembro, contudo, Costa e Silva emitiu a lei mais draconiana desde o início do
governo militar: o Ato Institucional Nº 5. Tornou-se claro que depois do AI-5 os
militares encampados no poder não tolerariam qualquer espécie de oposição. Os
órgãos de repressão foram instrumentalizados para atuar em qualquer nível e sem
qualquer restrição:
Luiz Mott - [...] Na universidade tive uma atuação
política não organizada. Não participava ativamente de
grupos. Embora participasse ativamente em passeatas.
Fiquei preso no DOPS... não sei se duas ou três vezes,
passei uma ou duas noites. Uma vez fui capa de
primeira página do jornal O Estado de São Paulo. Não
com o nome identificado, apenas a fotografia onde era
agarrado por vários policiais para ser colocado num
camburão. Nessa ocasião, rasgaram um lindo suéter de
lã inglesa do meu irmão... até hoje ele reclama! Foi
exatamente esse suéter que saiu no Estado de São
Paulo.
Edward MacRae - No auge da ditadura, no centro da
cidade teve época que havia policiamento ostensivo. A
polícia saía em duplas e eram chamados Romeu e
Julieta: uma policial feminina, um policial masculino e
um cachorro. Eles ficavam dando voltas no quarteirão,
sempre patrulhando os diversos quarteirões. Eles davam
blitz, paravam, fechavam uma rua, revistavam todo
mundo, pediam documento. Isso a qualquer hora. Era
um terror constante. A década de setenta foi uma barra
pesada, muito mais em conseqüência da repressão
política.[...]

42
Idem, p. 166.

66
4. Efervescência Cultural & Desbunde.

No Brasil os movimentos de contestação cultural originaram-se nos setores


mais intelectualizados da sociedade. No caso do cinema, a geração de jovens
cinéfilos dos anos cinqüenta tornou-se a protagonista de um movimento que viria a
ser conhecido como Cinema Novo.43 Durante os anos sessenta, a produção
cinemanovista esboçou uma atitude crítica tanto em nível estético quanto político: os
filmes remetiam à realidade causada pelo subdesenvolvimento econômico, buscando
representar a opressão dos setores populares no Brasil.
Entre 1963 e 1964, o Cinema Novo alcançou o âmbito de melhor produção
cultural do país com: Vidas Secas, dirigido por Nelson Pereira dos Santos; e Deus e
o Diabo na Terra do Sol, dirigido por Glauber Rocha. O golpe militar altera o quadro
político e o Cinema Novo volta-se sobre si próprio para repensar o sentido da prática
de engajamento que o produzira.44
O meio cinematográfico configurava um espaço aberto às novas
possibilidades de expressão. O contexto da época privilegiou um envolvimento
político-social pautado pelas idéias de esquerda, mas não podou a rebeldia dos
costumes presente entre as pessoas que circulavam nesse espaço.45 A narrativa de
Luiz Carlos Lacerda esclarece como esse meio trazia uma dimensão propícia à
revolução dos costumes:
Luiz Carlos Lacerda - Em 1968, já estava meio
desiludido quando tomei meu primeiro LSD. Nesse
momento, entrei muito profundamente nessa experiência
com as drogas. Fiquei tomando LSD durante muitos
anos e fumando tudo. Vivi profundamente a experiência
da Contracultura! Saí de casa para morar em
comunidade com uma porção de gente. Fui pra Parati

43
HOLLANDA, Heloisa B. de & GONÇALVES, Mascos A. Cultura e Participação nos anos 60.
São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 37.
44
Idem, p. 39-41.
45
MORENO, Antônio do Nascimento. A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro.
Dissertação de Mestrado apresentada no Instituto de Artes da UNICAMP. Campinas: 1995. p. 61.

67
fazer filmes experimentais. No início o uso de drogas
gerou uma clareza imensa no sentido de seguir a minha
felicidade pessoal. Isso era mais importante do que
qualquer coisa!/ A experiência com as drogas durou de
1968 a 1972, quando aconteceu a morte da Leila... Ela
estava voltando de um festival de cinema! Nós tínhamos
ido com meu primeiro longa-metragem - Mãos Vazias,
uma adaptação do romance do Lúcio Cardoso -, quando
morreu num desastre de avião. Eu fiquei em Londres,
ela resolveu vir antes e o avião caiu.[...]

No meio teatral surgiram novas experiências como a do Teatro de Arena e a


do Teatro Oficina. No decorrer dos anos sessenta, foram montados espetáculos que
desempenhariam um papel renovador e crítico no interior do meio teatral. As duas
perspectivas tinham uma proposta política, porém o Teatro Oficina - marcado pelo
trabalho de José Celso Martinez Corrêa - buscava a instigação do público através de
uma mobilização agressiva.46
O redimensionamento da relação com o público representou um dos aspectos
dentro desse novo espírito, os outros se remetem ao sentido anárquico que o Teatro
Oficina imprimiu com propostas como: a crítica à militância de conscientização e a
valorização das experiências cotidianas.47 Devido a essa disposição em revolucionar
a linguagem teatral, o Teatro Oficina foi invadido pelo Comando de Caça aos
Comunistas em 1968, durante a apresentação da peça Roda Viva.
O meio teatral também aparece como local de referência entre as experiências
de colaboradores como João Carlos Rodrigues e Alexandre Ribondi:
João Carlos Rodrigues - [...] Para entrar na
universidade, prestei vestibular na área de História...
passei! Como foi na época do governo Médici, parei de
estudar e comecei a fazer teatro. Participei da peça Roda
Viva do Zé Celso Martinez Corrêa aqui no Rio.
Inicialmente, atuei na parte técnica, além de atuar um
pouco como ator, durante trinta dias que mudaram
minha cabeça para sempre. Desta forma, passei por este

46
HOLLANDA, Heloisa B. de & GONÇALVES, Marcos A. Op. cit., p. 64.
47
Idem, p.65.

68
percurso, mas não voltei mais aos estudos, pois já
levava uma vida muito definida. Na época, o teatro era
algo de extremissíssima vanguarda, principalmente esse
grupo ligado ao Zé Celso./ O Zé Celso dirigiu Roda
Viva fora do Teatro Oficina. Ele lançou atores hoje
famosos, todos mais ou menos dessa época. Pedro Paulo
Rangel e Zezé Mota foram os que ficaram mais
famosos! Porém, nessa peça havia atores como a
Marieta Severo. Quando a peça foi para São Paulo, não
fui com o elenco, mas um dos atores adoeceu e fui fazer
umas substituições lá, depois não fiz mais... fiquei sem
fazer teatro e cai noutra.[...]
Alexandre Ribondi - Comecei a fazer teatro, ao mesmo
tempo usava drogas e fazia um trabalho político. Droga
não combinava com trabalho político. O trabalho
político era o auge do conservadorismo moral, da
caretice! As drogas eram uma loucura total. E eu fazia
os dois! Além disso, tinha amigos sendo presos! Pessoas
que tinham de tomar cuidado com a atuação política!
[...] No Brasil, era muito difícil não ser de esquerda! Por
isso eu era!! Apesar de tudo apontar para que não fosse
de esquerda!! Não que fosse de direita, mas eu usava
drogas, fazia teatro, fazia suruba!! Eu era mais a tigresa
de unhas negras, que trabalhou no HAIR, do que
trabalho clandestino! O que aconteceu depois com as
pessoas se liberando através do trabalho político, já
acontecia conosco aqui em Brasília, em 1968, 1969. Só
que ninguém nos ouvia, pois éramos muito poucos, mas
já sabíamos que o trabalho político não resolveria nada!
Contudo, era um canal de sobrevivência.

Essa geração propiciou condições ao surgimento de uma contestação, cuja


pauta elencava pontos ligados ao questionamento dos costumes. Nos anos sessenta, o
meio teatral iniciaria ainda a reformulação dos valores no campo da sexualidade.48
Esse modelo de mentalidade quebrava com os esquemas da rígida divisão entre o
masculino e o feminino:
Edward MacRae - O desbunde foi outra página da
história que virei, mas no início era uma coisa restrita,
existia apenas em alguns lugares. [...] enquanto saía
daquela loucura que tinha sido o show do Ney

48
PERLONGHER, Néstor. O Negócio do Michê. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 74-75.

69
Matogrosso, descendo a Rua 13 de Maio para vir até em
casa, passava por toda essa barra pesada da polícia. Para
quem não viveu esse momento, hoje em dia, realmente,
é impossível dar uma idéia do significado disso: a força
desses shows musicais era a única forma de
manifestação possível... e do lado de fora a barra era
pesada. Então, havia essa loucura, esse desbunde, essa
desmunhecação política. [...] tudo era cínico, sem
esperança e de repente surgiu a andrógina. Na imagem
do genderfucker... um termo norte-americano usado
para definir homens de barba pintados, femininamente,
com purpurina.

O bloqueio que o autoritarismo pós-1964 impôs ao livre fluxo das


manifestações políticas e culturais passou ao largo diante da rebeldia dos costumes.
Essa situação causava espanto dos moralistas e revés de quantos que não aceitavam a
sociedade sem estar estruturada nos rígidos arquétipos do machismo.49 A moral do
regime militar não deu às manifestações de rebeldia o mesmo peso que à ideologia
política:
Glauco Mattoso - Morando no Rio de Janeiro,
exatamente no meio da década de setenta, presenciei um
período em que o regime militar ainda estava bem
fechado. Marginalmente, porém, de uma forma meio
liberada, aconteciam muitas coisas: todo o desbunde,
ocorrido após a mobilização universitária do final dos
anos sessenta e durante os anos setenta, toda a droga, o
hippismo. O A.I.-5 que representou o período mais
repressivo da ditadura, levou camadas da juventude a
uma maior liberalidade nos costumes. O que pode
parecer um paradoxo, com um arroxo tão grande do
ponto de vista político, as pessoas se entregando a uma
vida livre.[...] Era ali [no Rio de Janeiro] que estava
acontecendo a abertura de costumes. Em São Paulo,
ainda era algo que acontecia no gueto, nos bairros
boêmios do centro da cidade, algo da classe teatral.
Como morava muito afastado na Zona Leste, o máximo
que pude me aproximar foi quando estudei
biblioteconomia, perto da Boca do Luxo. Desconhecia
aquela atividade homossexual que existia nos guetos.
Naqueles restaurantes, teatros, bares, mas tudo muito
49
LIMA, Délcio Monteiro. Os homoeróticos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1983. p. 60.

70
discreto. No Rio havia um pouco mais de liberalismo,
porém dentro dos limites do gueto. A coisa começou a
desabrochar justamente na época em que fui morar lá.

5. A tolerância retocada: Ditadura & Homossexualidade.

Quando verificamos o quadro brasileiro, o tratamento dispensado pela


ditadura à homossexualidade provoca a impressão que foi um período mais
permissivo sob inúmeros aspectos.50 O comportamento homossexual parecia não
representar uma ameaça ao regime militar. Nos anos de ditadura, prevaleceu um
misto de tolerância desse comportamento com a sua desaprovação pública. A
expansão do mercado de consumo voltado ao homossexual é um fato que ocorre
durante os anos da repressão política:
Antônio Carlos Moreira - Na minha vivência, quando
comecei a freqüentar as ruas aos quatorze anos, não
sentia a pressão da ditadura. Não tinha consciência do
que existia politicamente na cidade, não tinha a menor
informação, mas não percebíamos a opressão sobre a
homossexualidade.[...]
João Carlos Rodrigues - No período da ditadura
militar, houve uma vida homossexual no Rio muito
ativa. Por incrível que pareça, aumentou o número de
pessoas em atividades homossexuais. É uma questão
que deveria ser estudada. [...] O regime militar parece
que ressalta o lado machista, automaticamente é quando
acontece uma proliferação maior da homossexualidade.
Não só no que se refere ao número de homossexuais,
mas também no que se refere ao número de
bissexuais.[...]
Alexandre Ribondi - [...] Não sou sexólogo, não sou
sociólogo, mas sou uma pessoa que observa. A
homossexualidade na ditadura argentina era um capítulo
importantíssimo dentro da repressão do país. Havia
polícia para detectar homossexuais na rua!! Eles eram
torturados, eram presos por homossexualidade. No
Brasil nunca houve isso. Neste caso é impossível deixar
de fazer paralelo entre esses dois países que se odeiam e
estão de mãos dadas pro resto da vida.
50
Ibidem.

71
No período ditatorial, contudo, houve uma permanente rejeição da
homossexualidade acomodada na ausência de mecanismos oficiais de repressão, mas
presentes em atitudes de variada violência. O fato de não haver nenhuma legislação
ocasionava toda uma ordem de arbitrariedades.51 A contrapartida institucionalizada
vinha na forma das perseguições policiais contra aqueles que não seguiram o
caminho “normal” (casamento, geração de filhos, constituição da família),
referendando o elo quebrado na corrente formadora da sociedade:
Antônio Carlos Moreira - Havia a extorsão da polícia
apesar da ditadura não ter reprimido os homossexuais. A
patrulinha sempre deu em cima e procurou extorquir
dinheiro... acho que isso é normal, a polícia faz esse
jogo em qualquer regime. Entretanto, não tinha relação
direta com o processo político. [...]
Luiz Carlos Lacerda - [...] nessa onda moralista, não
existia uma perseguição explícita, mas a mesma
permitia que as forças policiais perseguissem os
homossexuais, anonimamente, nos lugares de pegação!
Os homossexuais eram presos, apanhavam e eram
torturados. Ninguém tinha coragem de ir para um lugar
de pegação, era perigoso! A polícia, a qualquer
momento, podia prender o indivíduo, levá-lo para uma
delegacia e arrebentá-lo de porrada pelo fato de ser
homossexual. Mas, não tinha uma linha política... como
nos países de esquerda![...] Havia perseguição no
sentido de cargos públicos. O cara que era
declaradamente homossexual não podia assumir cargos
de direção nas repartições do Estado... mesmo na área
da cultura!!! Porque o consideravam um indivíduo com
uma moral facilmente manipulável: “- Esse cara!!! Se
ele ficar na direção desse negócio, vai botar uma
porrada de garotões para trabalhar só porque comem
ele!!” O homossexual sempre foi visto de forma
pejorativa, como se fosse um prostituto.

Para os militares importava conduzir a vida pública de maneira a demarcar o


comportamento homossexual como uma divergência, cujos valores eram diferentes

51
MANTEGA, Guido (org). Op. cit., p. 152.

72
daqueles amplamente aceitos pela sociedade. O silêncio e a discrição dos militares
são elementos-chave para a compreensão da atitude em relação à sexualidade. Os
homossexuais poderiam fazer o que quisessem desde que não invadissem a esfera
pública com debates contundentes sobre o tema As investidas do governo militar
sufocariam qualquer questionamento ao sistema vigente:
Luiz Carlos Lacerda - [...] a ditadura não admitia o
comportamento homossexual. No mundo inteiro já
existiam organizações gays, principalmente nos Estados
Unidos e na Europa. No Brasil, uma organização destas
não seria permitida.[...] No Brasil, não havia essa
pretensão de construir uma nova sociedade ou da
construção de um novo homem, por isso não tinha uma
perseguição oficial. Prevaleceu o propósito de garantir
interesses ameaçados antes do golpe militar. [...]

É preciso desatar o nó dessa discussão, retomando aspectos da cultura


masculinista, para identificarmos outras formas de se isolar grupos estigmatizados da
sociedade global. O que acontecia na prática foi que se tornou necessário afirmar
certos valores culturais, sociais e morais sobre outros:
Luiz Carlos Lacerda - [...] O que existe é um
preconceito machista, mas isso é uma questão cultural.
É um preconceito que tem no Brasil, tem nos países
latinos, onde essa imagem do macho sustenta o totem da
sociedade machista.
Dolores Rodriguez - Durante a ditadura no Brasil, não
acho que os homossexuais foram perseguidos. Acredito
que se houve perseguição, foi porque “desde que o
mundo é mundo” é assim. Não creio que tenha sido uma
posição política assumida: “- Não! Vamos perseguir o
homossexual!”... não foi o que aconteceu!! Esta
perseguição é natural da cabeça das pessoas. Naquele
tempo, a ditadura não estava preocupada com os
homossexuais. Ela estava preocupada em reprimir a
questão política. O/ preconceito contra o
homossexualismo vem neste bojo, pois é inerente às
pessoas. Não acho que seja uma posição premeditada!

73
A política oficial dos militares brasileiros não se destinava a perseguir
homossexuais, mas estes tinham que se manter no limite que lhes foi reservado,
revelando que a chamada tolerância era outra forma de intolerância. Alceste Pinheiro
e Alexandre Ribondi retomam o debate iniciado pela Contracultura, enfatizando
alguns aspectos que indicam a mudança do costumes em relação à
homossexualidade:
Alceste Pinheiro - Não havia repressão política. Ao
contrário do que aconteceu com outros movimentos
sociais. O que melhorou a situação do homossexual foi
a luta pela liberdade, desencadeada pela Contracultura,
em favor da livre expressão sexual, contra o racismo,
enfim uma luta política em outras áreas que permitiu a
aparição dos movimentos em favor da
homossexualidade. O desatamento das amarras não se
deu por causa do movimento gay, pelo menos não foi
assim no Brasil.
Alexandre Ribondi - Não havia uma maior perseguição
dentro da ditadura brasileira pelo fato do sujeito ser
homossexual! Nessa época, justamente, estávamos no
início dos anos setenta e fim dos anos sessenta, havia
muito culto à androginia. Não entre a polícia, mas entre
os moderninhos! Ser homossexual era algo
revolucionário. Havia uma postura de contestação
social, como de resto tudo era contestação social
naquela época.

6. Em defesa da unidade Oposicionista.

Nos anos cinqüenta e sessenta nenhum cidadão ousaria manifestar sua


aprovação à homossexualidade. Havia uma espécie de consenso sobre a rejeição do
homossexualismo calcado na vitalidade do machismo. A homossexualidade não era
bem vista pelo conjunto da sociedade e os grupos de esquerda não escapavam dessa
regra.
É preciso retornar às origens das posições adotadas pela esquerda ortodoxa no
tocante a homossexualidade. As leis soviéticas durante o período revolucionário

74
inicial garantiam o direito de livre expressão da sexualidade e serviam de modelo
para o resto da Europa nos anos vinte. Os desdobramentos da Revolução Bolshevik,
em 1917, provocaram as discussões de natureza política neste campo.
Dennis Altman, em Homossexual, Opressão e Libertação, ao comentar o
paralelismo entre as lutas de libertação de classe e a de libertação sexual, lembra que
- apesar dos desvelos de Lênin em favor da liberdade sexual - as restrições penais à
atos homossexuais foram revogadas.52
Um dos principais problemas, contudo, foi a ausência de questionamentos
acerca da sexualidade na tradição socialista: não ocorreu nenhum avanço teórico
sobre o assunto. Em 1930, o artigo sobre homossexualidade na primeira edição da
Grande Enciclopédia Soviética foi baseado nos estudos de Hirshfeld e, numa
extensão menor, na reflexão de Freud. A perspectiva teórica mais empregada
enfatizava o pressuposto biológico.
Em 1932, Wilheim Reich é categórico ao afirmar que havia liberdade à
atividade homossexual na União Soviética. Esse autor apontava duas causas para
gênese do comportamento homossexual, uma ligada à constituição física e de
natureza biológica, a outra de natureza psíquica gerada na infância por um
“desenvolvimento sexual defeituoso”.53 Nas palavras do autor, as duas causas eram
definidas como “formas anormais do desenvolvimento sexual, uma doença”, uma
vez que o indivíduo sofreria com isso.54 Pouco era feito para se encorajar a aceitação
social da homossexualidade na União Soviética.
É preciso tecer alguns comentários sobre a mudança que ocorre com o
advento do golpe stalinista no que se refere à homossexualidade. A origem dessa
mudança de atitude, segundo Jeffrey Weeks, está ligada a contra-revolução que
subordinou todos os aspectos da liberdade pessoal às prioridades determinadas pela
burocracia que ascendeu com Stalin. O fortalecimento da família era visto como

52
Apud: PUIG, Manuel. O Beijo da Mulher Aranha. Rio de Janeiro: Codecri, 1982. p. 170.
53
REICH, Wilheim. O Combate Sexual da Juventude. Porto: Dinalivro, 1975. p.103-8.
54
Idem, p. 105.

75
parte fundamental desta nova ordem. Desta forma, ocorreram as revogações de
muitos ganhos legais obtidos no período revolucionário inicial no que se refere a
sexualidade.55
O golpe stalinista provoca a retração dos direitos alcançados no decorrer dos
anos vinte e trinta. Como não houve avanço na discussão teórica sobre o tema, a
crença que o homossexualismo se tratava de uma “degenerescência burguesa” torna-
se uma tradição e toma conta do pensamento socialista:
Luiz Carlos Lacerda - No final dos anos sessenta, já
estava desiludido com a questão da política. Comecei a
ver esse tratamento preconceituoso da esquerda, muitos
amigos entraram para a luta armada, dentro do partido
via essa esquizofrenia moral. Eles queriam fazer uma
nova sociedade - libertária -, e ao mesmo tempo eram
mais reacionários do que a própria direita. Eles diziam
de boca cheia: “- Na União Soviética não existem
homossexuais!” Nesse sentido, indagava: “- Mas o que
tem a ver uma coisa com a outra!? Não consigo
compreender?” Mas depois, na vida, fui perceber que
realmente há! [...] Os países socialistas sempre viveram
a questão da formação de uma nova sociedade, onde
devia haver o “novo homem”, onde estava excluída a
possibilidade da homossexualidade. Esse
comportamento sempre foi considerado pelos ideólogos
das sociedades “novas” como um desvio da sexualidade
“natural”.

Stalin introduziu as leis anti-homossexuais na União Soviética em março de


1934. E devido ao papel central do stalinismo, no movimento comunista mundial, a
crença que a homossexualidade era um produto da decadência burguesa sobreviveu
em vários partidos do mundo. Isto deixou uma porta aberta às intermináveis
acusações políticas que foram aferidas à esquerda nos anos seguintes.
Alexandre Ribondi - A esquerda nunca levantou a
bandeira de liberdade em favor dos homossexuais, em
momento nenhum! Nunca!! Nunca!!! A esquerda não é
tolerante, já tinha dito isso, mas só vou repetir: a
esquerda nunca foi tolerante, de maneira nenhuma, não
55
WEEKS, Jeffrey. Coming Out. London, Melbourne, New York: Quartet Books, 1977. p. 170.

76
lhe interessa ser!!! Cuba nunca tolerou seus
companheiros homossexuais! Che Guevara nunca os
suportou! A esquerda nunca levou a questão assim!

As referências ao tratamento que a esquerda dispensava aos homossexuais


tratam-se de críticas endereçadas às posições stalinistas pós-1934, porém a maioria
não observa as especificidades dentro do pensamento de esquerda. James Naylor
Green é o único colaborador que distingue as correntes existentes no movimento
socialista:
James Naylor Green - [...] eu militava num grupo
trotskista. Em geral, os grupos trotskistas, nos anos
sessenta e no começo dos anos setenta,
internacionalmente eram os que mais defendiam os
direitos dos homossexuais. Enquanto os grupos
stalinistas, ligados ao Partido Comunista da União
Soviética, ou aos grupos maoístas, ligados ao Partido
Comunista da China, eram totalmente homofóbicos,
ostentando idéias que a homossexualidade era um
sintoma da decadência capitalista ou da degenerescência
burguesa, coisas assim, e eram contra a organização do
segmento homossexual.

Esse comentário está de acordo com a prática desenvolvida por uma das
tendências de esquerda nos anos setenta: reconhecer todas as relações mantidas no
nível social enquanto manifestações políticas, inclusive aquelas inauguradas pelos
novos movimentos sociais.56 Por outro lado, a tendência mais conservadora, ligada
às propostas dos partidos comunistas da União Soviética e da China, preferia
combater às reivindicações dos movimentos libertários.
No Brasil, portanto, não havia espaço às reivindicações homossexuais. A
ditadura reprimia qualquer questionamento ao regime militar, enquanto que nos
grupos de esquerda a moral ainda era restrita e as concepções de luta estavam presas
aos esquemas tradicionais.

56
COELHO, Cláudio Novaes Pinto. Op. cit., p. 22-25.

77
Alexandre Ribondi - Quando quis fugir para Belo
Horizonte, procurei pessoas de luta clandestina que não
me ajudaram em nada, porque era apenas o Alexandre
maconheiro e viado!! Porém, consegui fugir com outro
menino! Fomos para o nordeste. Durante um mês,
ficamos na casa dos pais dele. Depois voltei para o
Espírito Santo, encontrei com a minha mãe e consegui
um passaporte. No dia em que estava preparando tudo
para ir embora para o Chile, fechando as malas, ouço no
rádio a notícia do golpe de Estado. É irônico porque não
pude ir, tive que ficar! [...]

7. A Fuga através do Auto-Exílio.

No início dos anos setenta, o auto-exílio era uma das saídas adotadas pelos
brasileiros para fugir à repressão militar. A questão política foi apontada como o
principal motivo do movimento que levou os brasileiros a partirem para os Estados
Unidos e para a Europa. Esse argumento transparece claramente nas histórias de
João Silvério Trevisan, Celso Curi, João Carlos Rodrigues e Alexandre Ribondi:
João Silvério Trevisan - Enfim, em 1973 não agüentei
mais ficar no Brasil, com gente sendo presa, com a
repressão brutal e fui embora em auto-exílio. Fiquei três
anos fora do país: meio ano viajando, um ano morando
no México e um ano e meio nos Estados Unidos.[..]
Celso Curi - [..] Em 1972, fui embora para a Alemanha.
Passei um período fora do país que não chegou a um
ano. Nesse meio tempo devo ter realizado outras
atividades, cuja lembrança não me ocorre. Fiz um pouco
do que todo mundo fazia. Trabalhei como faxineiro,
entre outras atividades típicas de um exilado por
vontade própria. Nessa época, a situação no Brasil
estava muito complicada.[...]
João Carlos Rodrigues - Em 1972, fui em auto-exílio
para São Francisco nos Estados Unidos. Vivi lá um ano.
Peguei o finalzinho da efervescência da época: a volta
dos soldados do Vietnã. [...] Não quis ir para Londres,
onde todos se refugiaram, apesar de estar num grupo
próximo do Caetano Veloso. Um tio meu morava em
Londres porque teve seus direitos políticos cassados.
Enfim, a tendência seria ir para Londres, mas não
gostava tanto da cidade [...]

78
Alexandre Ribondi - Quando saí da prisão, a polícia
passou a ir na minha casa. Os policiais diziam que eu
era um rapaz muito novo, mas que o Brasil era um país
muito violento, um dia poderia estar atravessando a rua
e ser atropelado, poderia morrer com uma bala perdida
que podia me pegar. Quando saí da cadeia, resolvi ir
embora para a França. Larguei o trabalho no Jornal de
Brasília, larguei a Universidade e fui estudar História
da Arte na França.

Aqueles que partiram para os Estados Unidos mergulharam no clima da


contestação cultural norte-americana. Na década de setenta, os movimentos ligados à
questão das mulheres, dos negros e dos homossexuais eram efervescentes nesse país.
As reivindicações homossexuais, contudo, representavam uma crítica sem
precedentes, advogando uma postura mais radical e questionadora da sociedade.57 O
relato de João Silvério Trevisan ajuda a compreender o clima que o colaborador
experimentou:
João Silvério Trevisan - Em Berkeley, tive meu
primeiro contato com uma série de coisas
importantíssimas, as quais vieram complementar as
descobertas que tinha feito. Lá descobri o movimento
homossexual, descobri os anarquistas, o movimento
feminista, o movimento negro, descobri ecologia... tudo
isso em 1973. Berkeley era - acredito que não seja mais,
parece que atualmente ela é uma cidade meramente
universitária -, mas naquela época ela era uma ponta de
lança ideológica contra o sistema americano: o
American Way of Life. Uma espécie de caldeirão onde
experiências novas, bem no bojo da década de setenta,
estavam sendo trabalhadas.[...] Em Berkeley comecei a
tomar consciência não apenas de ser o que eu era, mas
de batalhar para poder ser o que eu era. Foi um
momento muito revelador e particularmente privilegiado
do movimento homossexual americano... porque ainda
era um desabrochar de algo muito juvenil, muito
encantado, muito cheio de brilho. Acho que depois o
movimento homossexual americano tornou-se muito
guetoizado, ficou uma coisa de levantar bandeiras,
prendeu-se a objetivos tais como conquistar o poder.

57
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 20.

79
8. As Notícias do Movimento Homossexual.

O desenvolvimento da cultura urbana no decorrer da década de setenta esteve


sintonizado com os acontecimentos políticos, sociais e culturais de outros países. Os
efeitos da evolução global tiveram extrema importância para a transformação da
categorização das preferências sexuais, tanto por razão de seu desenvolvimento
como pela assimilação de valores gerados nos grandes centros urbano-industriais.58
No Brasil, João Antônio Mascarenhas teve acesso às informações sobre o Gay
Liberation através da imprensa e da literatura inglesa e norte-americana. Ele relata
como conseguiu textos referentes ao movimento homossexual em países anglo-
saxões:
João Antônio Mascarenhas - Em 1972, fui passar
férias em Porto Alegre. Os meus pais moravam lá e
costumava visitá-los. Eu continuava tendo alguns
amigos em Porto Alegre e quando ia à cidade também os
visitava. Um deles tinha morado alguns anos na
Inglaterra. Neste período, em que estive lá, ele tinha
recebido de um amigo dele, um inglês, duas
publicações: um jornal que se chamava Gay Sunshine,
era americano de San Francisco na Califórnia; e um
outro jornal inglês, não lembro se chamava Gay News
ou Out... não lembro exatamente do nome. O jornal
inglês era semanal ou quinzenal, enquanto o americano
aparecia de três em três meses. Devido a periodicidade,
o Gay Sunshine era completamente diferente.[...] Por
volta de 1972 ou 1973, voltei ao Rio e passei a assinar
esse jornal. Ele trazia uma seção sobre livros. Comecei a
encomendar livros dos Estados Unidos.[..] Quando
comecei a ler o jornal Gay Sunshine e conheci os
principais jornais gays ingleses... passei a ler tudo o que
podia sobre o tema. Assim, tomei conhecimento do
movimento existente nesses países, do Gay Liberation,
de Stonewall. Li um livro muito importante que se
chamava “Homosexual, Opression and Liberation”...
era a tese de Dennis Altman, professor da Universidade

58
FRY, Peter. Para Inglês Ver. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982. p. 108.

80
de Sydney, na Austrália. A partir de então, fiquei
interessado no movimento homossexual, nos
fundamentos que nunca tinha racionalizado antes... e
fiquei a sonhar com o aparecimento do movimento no
Brasil.[...]

9. A volta dos Exilados.

O gradual desgaste político do regime militar e o esgotamento do modelo de


desenvolvimento econômico, por ele implantado, deu vazão a um processo de
redemocratização e a uma reorganização das forças políticas democráticas, até então
reunidas num bloco comum de oposição. Os problemas decorrentes da retração
econômica vivida pelo Brasil com o final do "Milagre Econômico" anunciam o
definhamento da repressão política.59 A camada média da população ao ser atingida
em cheio pela recessão econômica começa a reclamar por liberdade e democracia.
Frente a estes problemas é preciso observar que só restava à ditadura
reconhecer que suas possibilidades políticas e econômicas estavam esgotadas e que a
sua base de sustentação tinha-se enfraquecido. Estrategicamente era hora dos
militares prepararem sua retirada através da abertura política, lenta e gradual.
Com o declínio da ditadura, o processo de retorno dos exilados fez afluir a
visão mais libertária. É interessante notar como Peter Fry - que emigra para o Brasil
em 1970 - acompanha essa transição:
Peter Fry - Outro fator muito importante [enquanto
reflexo do final da repressão política] foi a volta dos
exilados ao país... com o Gabeira e companhia voltando.
Não no sentido de homossexualidade em si, mas no
sentido de uma visão mais libertária. Esse processo de
“abertura” contribui para mudar a legitimidade das
posições em relação à questão de classe, de pobreza e
tal. Isso volta com esse pessoal que levanta todos esses
assuntos. Fazia parte do mundo nessa época. Acho que
naquela fase havia diferentes preocupações no mundo.

59
SKIDMORE, Thomas. Op.cit. p. 354-356, 402.

81
O próprio Lampião era reflexo do que estava
acontecendo em outros países... não há dúvidas!

10. Os Frutos do Período.

A modernização dos meios de comunicação provoca uma notável mudança, a


qual estimula a aparição de informações sobre temas nunca tratados pela grande
imprensa. As notícias sobre os locais de perambulação homossexual ganharam
espaço no jornal Última Hora. Em 1976, o jornalista Celso Curi toma a iniciativa de
publicar uma coluna com informações diárias sobre o meio homossexual. Só a partir
deste ano se iniciou a abertura pública de uma matéria pré-cultivada e encerrada no
ambiente urbano brasileiro. O colaborador Celso Curi comenta sobre sua idéia em
produzir a Coluna do Meio:
Celso Curi - Antes do Samuel sair do Última Hora,
propus a ele fazer uma coluna, a qual deveria ficar entre
duas outras: uma coluna machista do Plínio Marcos e
uma coluna feminista... no meio, eu escreveria uma
coluna sobre homossexualidade. Foi um escândalo... as
pessoas me achavam louco. Elas diziam: " - Imagina,
ninguém faz isso! Não existe em nenhum lugar do
mundo uma coluna que fale desse assunto!". Assim
criamos a Coluna do Meio. Exatamente porque ela
estava no meio da página. Não era nem coluna um, nem
coluna dois... era a Coluna do Meio. Neste sentido
existia toda uma conotação de sacanagem, além do que,
havia a idéia original da localização da coluna no meio
da página.

A aparição dessa coluna não significava que o sistema deixara de policiar o


que era publicado. Havia instrumentos legais que poderiam ser acionados para
silenciar a aparição de certos temas. A tolerância ao que era publicado pela imprensa
tinha limites, era seletiva e sofisticada. No Brasil o pretexto de enquadrar contra
atentado à moral e aos bons costumes - conforme o artigo nº 17 da Lei de imprensa -

82
funcionava como uma anestesia coletiva.60 Naturalmente o regime militar podia
fazer isso porque dispunha de sanções que poderia utilizar em nome da manutenção
da moral e dos bons costumes:
Celso Curi - Nas primeiras semanas recebi ameaças
escritas com sangue. Logo em seguida fui processado
pela União Federal "por atentado à moral e aos bons
costumes pela união de seres anormais". Este é o título
do processo. Assim mesmo, continuei escrevendo. A
princípio acreditavam que Celso Curi fosse pseudônimo
e intimaram o jornal. O jornal informou que se tratava
de um nome verdadeiro. Neste caso o processo era
contra Celso Curi. Não observei nenhum problema. Não
havia escrito nada que não fosse verdade ou não pudesse
assumir. Procurei o advogado do grupo Folhas para me
defender. Na época ele se recusou, apesar da acusação
ser por causa da coluna. Disse simplesmente que não o
faria, pois não defendia “esse tipo de gente”. Procurei,
então, um advogado amigo meu e ele aceitou fazer
minha defesa./ O processo durou três anos, só recebi a
absolvição em 1979, quando não escrevia mais a coluna.
Ela durou três anos, mais ou menos o mesmo tempo do
processo. Nessa época, já estava trabalhando na Abril
Cultural quando recebi a notícia da absolvição. Porém,
durante o processo continuei escrevendo. O promotor
recolhia todas as colunas. Nesse percurso de três anos o
mais difícil foi abrir caminho. No final estava
completamente solto e a vontade, escrevendo sobre o
que era absolutamente importante.

Celso Curi foi processado com base na Lei de Imprensa. A absolvição do


jornalista ocorreu após três anos, já no período da “abertura política”. O veredicto
favorável foi considerado importante, pois representava um sinal que a
homossexualidade começava a ter suas reivindicações reconhecidas.61 É importante
ressaltar essa relação com o processo ditatorial, pois isso possibilita afastar a idéia
que a homossexualidade foi domesticada sob o regime militar. O comentário de
Celso Curi ressalta essa situação:

60
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 162.
61
Idem, p. 163.

83
Celso Curi - O movimento homossexual já existia antes
da "abertura política". Em 1976, não existia "abertura".
Estávamos num momento complicado, por causa das
dificuldades próprias do período... acredito até que fosse
o mais delicado de todos. No meu entender a "abertura
política" veio a facilitar alguns pontos. Os diálogos, por
exemplo, começaram a existir no país tanto em nível
nacional quanto internacional. Assim a Coluna do Meio,
durante muito tempo, noticiou o que ocorria no
movimento homossexual norte-americano e europeu.
Naquela época eu não passava de um menino... além de
estar sozinho para pensar sobre movimento
homossexual. Porém, tinha o espaço do jornal a meu
favor, podendo publicar o que estava acontecendo lá
fora.

11. Influência da ‘abertura’.

No período da "abertura" a inspiração advinda dos movimentos de


Contracultura tornou nítido o desinteresse pela política como ela vinha sendo
entendida até então. Este processo de pluralização das oposições à ditadura
impulsionou o desenvolvimento de novos discursos políticos. Aos poucos a
sociedade começou a atuar de múltiplas formas e sob diferentes perspectivas
ideológicas que lutavam contra a repressão e a censura, deflagrando o processo que
anunciava o fim do regime militar:62
James Naylor Green - Segundo meu ponto de vista, a
transformação deste estado [referente à repressão
militar] aflui com os movimentos contra a carestia, o
movimento estudantil e depois com o movimento
operário. Quando esse conjunto de forças começa a
enfrentar o governo, através das greves, passeatas,
coisas até então proibidas, exigindo uma maior
expressão política no lugar da repressão, ainda presente
naquele período, isso permite que mais homossexuais se
disponham a integrar algum tipo de grupo.
Antônio Carlos Moreira - Em 1977, todos os
movimentos sociais começavam a se organizar: o
movimento estudantil, o movimento negro - sendo
62
Idem, p. 19-20.

84
estruturado ao longo dos anos setenta -, o movimento
feminista - já estruturado -, havia um trabalho com os
índios, assim como a atuação das Comunidades
Eclesiais de Base... isso tudo já existia! Porém, ainda
estávamos sob censura, não havia um veículo onde se
pudesse colocar essa questões.
Dolores Rodriguez - [...] todos os movimentos sociais
começaram a se posicionar politicamente: as mulheres
começaram a se organizar, assim como os negros, nos
bairros e nas favelas começaram a se criar associações
de moradores, o empresariado. Tudo estava muito
disperso, então a sociedade começou a se organizar e o
movimento homossexual também, pois eram pessoas
que participavam dessa sociedade como participam até
hoje. Afinal, nada disso ficou esquecido, apenas estava
adormecido: guardado na gaveta!

É na virada dos anos setenta para os anos oitenta que a ação destes grupos
começa a se fazer presente. O movimento feminista ganha um novo impulso, a
questão ecológica explode com intensidade, os negros exigem o direito de existência
a sua cultura e os homossexuais - mantidos sob o signo do preconceito - começam a
se organizar segundo as questões colocadas pelo momento:
Edward Macrae – O Gay Liberation Front surgiu no
final da década de sessenta, mas foi no início da
“abertura política” no Brasil, com passeatas estudantis e
coisas semelhantes, que começamos a ver a
possibilidade de fazer alguma coisa. Há muito tempo já
ocorria toda uma movimentação no meio homossexual
brasileiro. O Celso Curi discutiu a distância entre
“movimento” e “movimentação” homossexuais. Neste
sentido, a “movimentação” homossexual era a ferveção
do segmento que já acontecia.
James Naylor Green - A abertura para a sociedade
começa em 1975, mas os seus efeitos se dão realmente a
partir de 1977. Ao meu modo de ver, a “abertura”
alimenta o movimento homossexual. O próprio Lampião
é reflexo deste período. É um jornal da imprensa
“nanica”, publicado para lutar contra a censura. O
Lampião realmente abre caminho para os grupos. Na
verdade, o próprio jornal já é um grupo composto por
editores... não dava para fazer um grupo político.

85
12. O Percurso está preparado.

Esse percurso foi iniciado com as experiências dos colaboradores que


nasceram ou estudaram em países do hemisfério norte, cujas histórias de vida
refletem o fenômeno da efervescência cultural como algo que compõe suas
trajetórias. O palco revelado pelas narrativas ajuda a estabelecer uma relação dos
colaboradores com os desdobramentos culturais e políticos iniciados na década de
sessenta. Essa retomada esclarece a origem dos movimentos libertários nos Estados
Unidos e na Europa. No caso dos colaboradores que viviam no Brasil, o período da
repressão militar é evocado em passagens que se referem ao silenciamento obtuso
promovido pela ditadura, assim como em passagens que apresentam as
manifestações de rebeldia juvenil como o único espaço possível à livre expressão.
O auto-exílio surge como uma resposta à repressão política, além de
revelarem o contato que os colaboradores tiveram ao mergulharem na efervescência
cultural existente no exterior. Porém, se por um lado há aspectos como vivência
internacional, por outro há as notícias que chegam através da literatura norte-
americana e inglesa. Esses relatos revelam como os colaboradores estabeleceram
contato com o movimento homossexual em países estrangeiros.
Outro aspecto que compõe as narrativas refere aos efeitos não aparentes da
ditadura brasileira no meio homossexual, para a qual a homossexualidade não teria o
mesmo peso que foi dado às ideologias políticas de esquerda. Essa tolerância aos
homossexuais, contudo, era seletiva e tinha limites demarcados através das
investidas policiais ou de leis que faziam cumprir os preceitos da moral e dos bons
costumes. A desaprovação moral também é convocada para recuperar a relação dos
grupos de esquerda com a questão homossexual.
Para concluir este capítulo é preciso ressaltar que as narrativas expressam
considerações sobre a atmosfera de liberdade experimentada com o definhamento da
ditadura. Nos relatos o processo de “abertura política”, ao permitir a volta dos

86
exilados políticos, fez afluir a visão libertária como reflexo de um movimento
mundial que acontece mais tarde no Brasil. Este clima propiciaria a eclosão pública
de temas ainda não explorados no campo político, entre os quais o debate sobre a
homossexualidade.

87
Capítulo 3
Lampião: O Lugar dos Sonhos

“Sou jornalista, [...] agora marcado (para


mim, motivo de satisfação) por ter sido um dos
editores-fundadores do jornal LAMPIÃO,
alternativo que deu, durante quase três anos,
de 78 a 81, voz ativa às minorias eróticas,
raciais, às mulheres e oprimidos em geral”
Antônio Chrysóstomo63

1. As Vozes Telúricas: o papel da imprensa alternativa.

O controle sobre tudo o que era publicado na grande imprensa tornou-se uma
prática legal desde a instalação do regime militar. Em reposta a censura advinda
desse cenário de forte repressão, alguns jornalistas resolveram fundar pequenos
jornais para escapar aos rigores impostos aos meios de comunicação. Segundo
Bernardo Kucinski,64 durante o período da ditadura militar no Brasil, entre 1964 e
1980, nasceram e morreram cerca de 150 periódicos que tinham como traço comum
a oposição ao regime militar. Eles ficaram conhecidos como imprensa alternativa ou
imprensa nanica.
Podemos dividir os tablóides em duas categorias: a primeira pode ser
identificada pelo discurso predominantemente político, cuja pauta apoiava-se nos
ideais de valorização nacional e popular dos anos cinqüenta e no marxismo dos
meios estudantis dos anos sessenta; a segunda estaria mais voltada à recusa do

63
CHRYSÓSTOMO, Antônio. Caso Chrysóstomo: o julgamento de um preconceito. Rio de
Janeiro: Ed Codecri, 1983. p. 91.
64
Nesta introdução foi essencial o conhecimento do trabalho de Bernardo Kucinski sobre a
imprensa alternativa. Essa pesquisa foi muito consultada para a compreensão desse fenômeno no
Brasil. KUCINSKI, Bernardo. Jornalista e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa.
São Paulo: Scritta Editorial, 1991. p. XIII.

88
enfoque sobre o discurso político em favor de uma crítica dos costumes e da ruptura
cultural, apoiando-se assim nos movimentos de Contracultura norte-americanos.65
Estes aspectos são retomados por Glauco Mattoso como uma introdução ao
período em que começa a participar do Lampião:
Glauco Mattoso - Na segunda metade dos anos setenta
começou a desaparecer a censura, possibilitando o
aparecimento da imprensa alternativa. Nesse período, a
grande imprensa ainda estava amordaçada. Os grandes
jornais estavam comprometidos com o regime. Eles não
possuíam a mobilidade necessária para cobrir certas
áreas. Assim, tablóides independentes começavam a
entrar por essa brecha. Tudo começou com o Pasquim,
depois vieram os jornais políticos, Opinião, Versus,
Movimento, e por fim os jornais mais específicos, de
minorias, como os de negros, mulheres e o Lampião.

Com atraso de alguns anos chegou ao Brasil uma nova forma de ativismo
político, uma nova combinação de idéias que contribuiu para o processo de
abandono do paradigma clássico de desejos de luta baseado exclusivamente no
conceito de “luta de classes”.
Os alternativos pregadores da importância do prazer surgiram em reação ao
dogmatismo dos grupos de esquerda e à sua moral conservadora, abrindo um espaço
de discussão tão importante – tanto à crítica dos costumes quanto à necessidade da
liberdade política - que fora sufocada durante o período da ditadura militar.66
O Pasquim instituiu o debate da cultura underground norte-americana e
detonou um movimento de Contracultura, transformando a linguagem do jornalismo,
mudando hábitos e empolgando os jovens dos anos setenta. A publicação direcionou
suas críticas não só aos aspectos econômicos do regime ditatorial, mas também em
fazer uma contestação cultural mais ampla. A palavra “bicha” apareceu pela primeira
vez na edição de número três do jornal. O Pasquim introduziu o palavrão na
linguagem jornalística através de termos que foram rapidamente incorporados no

65
Idem, p. XIV-XV.

89
cotidiano do público leitor. Em tom de sátira, o Brasil começava a presenciar
matérias ligadas à homossexualidade através do trabalho do Pasquim.67
Paradoxalmente o Pasquim era machista, fazendo um gênero de humor que o
denunciava como falsamente libertário na questão da homossexualidade. As
posições do jornal deixavam transparecer uma visão do mundo machista, ao mesmo
tempo em que ousavam tratar de forma irreverente os assuntos abordados de forma
moralista pela grande imprensa.68
Peter Fry reconhece esse característica do jornal fazendo um breve
comentário:
Peter Fry - Na época, quais os outros jornais que
havia!? Opinião, Movimento... que era um contraponto
ao Pasquim. O Lampião não era tão radical como o
Pasquim, mas noutra direção procura enfrentar o
machismo do Pasquim... o qual todo mundo conhecia...
ou seja, o Lampião também representava outra
alternativa interessante.[...]

Neste ponto é preciso ressaltar o encontro de dois autores ao analisarem o


trabalho do Pasquim: Edward MacRae e Bernardo Kucinski. MacRae aproxima-se
de Kucinski quando demonstra como o Pasquim, forçado a conviver no espaço
permitido à oposição, reunia a crítica política com a crítica dos costumes.69 Por outro
lado quando Bernardo Kucinski se refere ao processo de perseguição do regime
ditatorial ao jornal, o autor considera que a censura e a repressão dos militares
reforçou o encontro das duas vertentes críticas em suas páginas.70
Em 1977, João Antônio Mascarenhas reuniu um grupo de intelectuais e
jornalistas para entrevistar Winston Leyland e a matéria foi publicada no Pasquim.
Leyland era editor do jornal norte-americano Gay Sunshine e visitou o Brasil à

66
Idem, p. 51.
67
Idem, p. 158.
68
Idem, p. 159; ver também MACRAE, Edward. Op. cit., p. 69-70.
69
MACRAE, Edward, Op. cit., p. 70.
70
KUCINSKI, Bernardo. Op. cit. p. 52-53.

90
procura de material para uma antologia de contos homossexuais latino-americanos.71
A visita de um editor responsável por uma publicação gay nos Estados Unidos foi
considerada um evento importante para o pequeno grupo de intelectuais e jornalistas
do eixo Rio-São Paulo.72
João Antônio Mascarenhas que recepcionou Winston Leyland fala sobre
como aconteceu a possibilidade de recepcionar o editor da Gay Sunshine:
João Antônio Mascarenhas - Em 1976, recebi uma
segunda carta deste Winston Leyland... ainda como
dono do mesmo jornal. Ele dizia ter apresentado um
projeto a National Endownment for the Arts, para uma
antologia de artistas plásticos e escritores gays
brasileiros, e que esse projeto tinha sido aprovado. Isso
significava que ele receberia uma pequena ajuda
financeira... Esse National Endowment for the Arts é um
órgão, um instituto criado pelo Congresso Americano -
Senado e Câmara Federal de deputados dos Estados
Unidos -, que dá prêmios a projetos aprovados em todos
os campos das artes: teatro, cinema, música, literatura e
assim por diante. Ele dá pequenos prêmios que ajudam
financeiramente e dão certo prestígio às iniciativas
selecionadas. [...] Escrevi a ele dizendo que minha
garçonnière estava à disposição para ele se hospedar... e
que podia fazer as refeições com a minha mãe e comigo
em Copacabana, pois ficava próximo. E ele aceitou. [...]
Quando o Winston chegou, eu já tinha conseguido uma
série de entrevistas. [...] Houve uma primeira página no
suplemento literário do JB, outra no Segundo Caderno
do Globo e em muitos outros jornais. Houve uma
entrevista de quatro ou cinco páginas no Pasquim... no
período era um jornal alternativo muito vendido.[...]

João Antônio Mascarenhas propôs então a idéia de produzir uma publicação


séria e destinada a promover a discussão sobre a homossexualidade no Brasil:

71
LEYLAND, Winston. Op. cit, p. 5.
72
Esta história está presente em três obras que me levaram a prestar atenção nos seus
desdobramentos e posteriormente elaborar um projeto de pesquisa ao conhecer este fato. As obras
são Devassos no Paraíso- p. 203-, de João Silvério Trevisan;Manual do Pedólatra Amador - p. 112,
de Glauco Mattoso; e A Construção da Igualdade - p. 71 -, de Edward MacRae.

91
João Antônio Mascarenhas - Também estabeleci
contato com vários escritores. Como conhecia
Gasparino Damata, procurei ter mais contato com ele.
Os outros foram aparecendo através deles ou, ao ver
meu nome no jornal, telefonavam, dizendo estar
interessados em participar desta antologia. O contato
pessoal com alguns desses escritores e jornalistas, fez-
me pensar: “- Bom! Se o Winston conseguiu fazer um
jornal destes nos Estados Unidos, onde há tanta
concorrência... Se ele pode desenvolver esse trabalho há
tantos anos, nós aqui poderíamos fazer algo igual ou
melhor!?”[...] Desta forma, refletiu-se muito sobre a
idéia. Na mesma ocasião, parece-me que o Aguinaldo
Silva disse o seguinte: “- Mas... por que nós não
fazemos um jornal?” Eu disse: “- Não! Um jornal é uma
coisa muito cara!” Eu imaginava que o jornal tinha de
ter o prédio, a impressora e outras coisas. Ele disse: “-
Não! Não é necessário.” Na época, ele era copy-desk de
o Globo. Além disso, começaram a circular alguns
jornais alternativos. Havia um periódico, mensal, que se
chamava O Beijo... surgiu pouco antes do Lampião. O
Aguinaldo disse: “- Tem esse jornal O Beijo que foi...” e
falou sobre a quantidade de capital necessário... não me
lembro qual era o valor, mas era uma quantia mínima.
Depois, acho que era levado ao Jornal do Comércio
para ser impresso. Então eu disse: “- Ah! Bom, sendo
deste modo... está ótimo”. Assim, nasceu a idéia do
Lampião.

2. Uma Fraca Cortina de Fumaça.

Em abril de 1978 foi editado o número zero do Lampião da Esquina. A


publicação durou três anos com tiragens mensais de doze a quinze mil exemplares.
Segundo MacRae, o Lampião atingiu um público maior devido à distribuição do
jornal pelo país inteiro e essa prática assegurou a divulgação de suas idéias em nível
nacional.73
A edição experimental - número zero - contém um artigo de meia página
chamado “Saindo do Gueto”, no qual é discutida a idéia da abertura de um espaço

73
MACRAE, Edward, Op. cit., p. 192.

92
através do qual se encaminharia a apresentação dos homossexuais como uma entre
as outras minorias: todas com direito à voz para poderem lutar pela plena realização
de suas carências, reforçando a posição de colocar a discussão da homossexualidade
dentro de um contexto social mais amplo que acompanhava os ventos da abertura.74
Na mesma página foi publicado o artigo “Senhores do Conselho”, onde era
feita uma breve descrição dos onze responsáveis pela perspectiva defendida pelo
jornal. Os nomes eram: Adão Acosta, Aguinaldo Silva, Antônio Chrysóstomo,
Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata, João Antônio
Mascarenhas, o pintor Darcy Penteado, o crítico de cinema Jean Claude Bernardet, o
escritor e cineasta João Silvério Trevisan e o antropólogo Peter Fry.75
Uma das características apontadas por Bernardo Kucinski refere ao fato dos
jornais da imprensa alternativa montarem um conselho editorial formado por
personalidades de prestígio. Essa composição tinha a finalidade de legitimar a linha
editorial, ampliar a base de sustentação dos jornais frente às investidas da repressão
e identificá-lo com correntes expressivas de opinião.76
Os depoimentos de Celso Curi, Edward MacRae e Peter Fry revelam essa
característica presente na montagem do conselho editorial do Lampião:
Celso Curi - Já fazia algum tempo que escrevia a
coluna quando surgiu o Lampião... acredito que em
1978. O Aguinaldo Silva e o Darcy Penteado me
procuraram. Nesse encontro, eles me convidaram para
ajudar no Lampião. Naturalmente fiquei super feliz,
tanto que aceitei. Formou-se assim o Conselho Editorial.
Entretanto, eles não me convidaram para ser Senhor do
Conselho, porque eu era considerado pouco sério. Esse
assunto, costumo dizer, é engraçado porque sempre fui
muito bem humorado. E na verdade me considero
“pouco sério” até hoje. Sou uma pessoa super séria, mas
pouco sério... gosto de brincar com o sentido das

74
O Conselho Editorial. “Saindo do Gueto” in: Lampião da Esquina. Edição Experimental, No. 0,
abril de 1978. p. 2.
75
O Conselho Editorial “Os Senhores do Conselho” in: Lampião da Esquina. Edição
Experimental, Nº 0, abril de 1978. p. 2.
76
KUCINSKI, Bernardo, Op. cit., p. XX.

93
palavras. Acredito que ainda hoje não tenho autoridade
para ser senhor de coisa alguma, apesar de estar
trabalhando há anos na Secretária da Cultura do Estado
de São Paulo.
Edward MacRae - A história do jornal Lampião
aconteceu na época que morava com Peter, quando
começávamos a nos conhecer. Na época, houve uma
reunião de um grupo de intelectuais e jornalistas
homossexuais no Rio de Janeiro. Ele participou para
ajudar a começar o jornal. [...]
Peter Fry - [...] O jornal dava vazão... dava
legitimidade! Modéstia parte, naquele jornal nós
tínhamos gente boa... tínhamos muita legitimidade! O
Aguinaldo estava começando sua carreira, acho que já
tinha publicado dois livros. Ele já era apontando como
grande escritor brasileiro. O Darcy era pintor da society,
bem estabelecido, muito respeitado... acho que já tinha
um livro quando começou no jornal. Tinha o Jean
Claude, respeitadíssimo no campo dele! De fato, era um
grupo interessante... muito heterogêneo. Desta forma,
acho que o Lampião prestou uma certa legitimidade.

Glauco Mattoso não compõe o núcleo fundador, porém mantinha uma relação
próxima com os membros do conselho editorial. Ele faz considerações a respeito das
preocupações iniciais que cercavam alguns dos membros ligados à elaboração do
Lampião:
Glauco Mattoso - Um pouco antes do Lampião surgir,
havia um círculo de intelectuais, tanto no Rio quanto em
São Paulo, preocupados em aglutinar pessoas
preocupadas em pensar a questão homossexual fora da
badalação do gueto. O gueto, se por um lado era
interessante enquanto ponto de encontro, por outro não
refletia, não teorizava e nem polemizava a questão,
somente a folclorizava. Do ponto de vista desses
intelectuais, eles buscavam uma nova abordagem do
problema. Queriam politizar a questão. A única forma
de politizá-la era: tirá-la do gueto primeiramente, para
em seguida questionar a postura da esquerda tradicional.

94
Desde o início do jornal, contudo, a reunião do grupo revelou a existência de
diferenças de opinião entre os participantes.77 O antagonismo referente ao tratamento
da questão homossexual aflorou em meio às posições defendidas.
Alceste Pinheiro relata suas impressões sobre como os membros do Conselho
discutiam a orientação que o jornal deveria adotar:
Alceste Pinheiro - Havia uma divergência, devido a
proposta de João Antônio Mascarenhas. Ele queria fazer
um jornal prestador de serviços, para esclarecimento de
homossexuais. Neste sentido, o jornal seria produzido
para aquele homossexual do interior, ele poderia ler um
livro e se esclarecer... a minha posição não era esta.
Possuía uma visão mais anarquista que a dele. Achava
que o jornal devia ter uma atuação mais ampla.
Propriamente, não deveria ter uma ação política
centrada neste meio. Politicamente, o jornal devia ser
mais conseqüente.

O Lampião superou essa divergência ao adotar os valores dos movimentos


minoritários e optar por dar voz às lutas políticas dos setores oprimidos da
sociedade. O tratamento da homossexualidade aparecia em suas páginas como um
fenômeno social problematizado, tanto quanto a questão dos negros, dos indígenas,
das mulheres. Os artigos publicados abriram um fórum que tomava todas essas
discussões como referencial.78
Antônio Carlos Moreira expressa essa convicção quando comenta sobre o
início de suas atividades no jornal. O colaborador apresenta argumentos que
questionam a função do Lampião como um órgão exclusivamente voltado ao
movimento homossexual:
Antônio Carlos Moreira - Da reunião do núcleo
fundador do Lampião surgiu essa vontade de criar um
jornal, cujas páginas pudessem dar voz a todas essas
tendências... isso foi importante para aquele momento
do processo de abertura democrática. [...] O Lampião
fez a primeira grande entrevista com o Gabeira, falando

77
MACRAE, Edward. Op. cit. p. 71.
78
Idem, p. 75-76.

95
sobre a tanguinha que ele usara, falando sobre
comportamento e coisas do gênero... tudo fora trazido
pelo chamado “Verão da Abertura” [...] Depois de um
certo tempo, começaram a surgir alguns grupos
homossexuais. O jornal passa a falar sobre os grupos,
mas não abre suas páginas... não dedica artigos! Na
verdade, ele até falou do SOMOS da Argentina, mas não
era um jornal voltado à militância homossexual.[...]

Porém, segundo o próprio Antônio Carlos Moreira, os outros movimentos -


movimento negro, movimento feminista - não queriam se comprometer com um
grupo homossexual: os homossexuais eram os únicos que falavam sobre as minorias.
Havia matérias sobre o movimento feminista, sobre o movimento negro, mas não
havia a discussão da questão homossexual nesses movimentos. Desta forma, o jornal
não conseguia agregar todos os setores minoritários.
Essa proposta do tablóide dar voz a todas as minorias acabou na metade de
sua existência, então a publicação se tornou basicamente homossexual.79 Para
Dolores Rodriguez, o Lampião tentou fugir dessa perspectiva, mas sua proposta não
conseguiu extravasar as delimitações colocadas pelos diferentes movimentos
minoritários:
Dolores Rodriguez - Naquela época, essa atitude era
ainda mais acentuada. Havia os movimentos, para
discutir a negritude: “- Enquanto negro, somos todos
submetidos ao preconceito das pessoas, mas enquanto
negro e homossexual...!? Nem pensar!!” A Lecy
Brandão apoiava muito o jornal. Ela falava por
exemplo: “- Eu sou mulher, sou negra e sou
homossexual.” Nós costumávamos brincar que ela sofria
três vezes com o preconceito, primeiro por ela ser
homossexual, depois por ser negra e por último por ser
mulher... acredito com certeza nessa hierarquia! Se sou
mulher e sou negra, sou discriminada. Porém, se sou
mulher, negra e homossexual, então está tudo acabado!
Pode trancar a pessoa no armário e esquecer que tem
alguém ali dentro. E o Lampião, apesar de ter o Adão,
não escapava deste problema.

79
Idem, p. 76-77.

96
3. Um Início Difícil: o Estado contra o Lampião.

Os problemas internos somavam-se aos problemas externos. Como aconteceu


com Celso Curi, o pretexto de enquadrar o jornal por atentado à moral e aos bons
costumes - conforme o artigo nº 1077 da Lei de Imprensa - foi utilizado contra os
editores do Lampião. Em agosto de 1978 os membros do conselho editorial foram
informados que o Departamento de Polícia Federal do Rio de Janeiro abrira inquérito
com base no referido artigo.80 Esse processo foi arquivado, em outubro de 1979, sob
o parecer da justiça que o conceito de moral, usado contra a publicação, era relativo
e não absoluto, portanto não havia como utilizá-lo em nome de todos os membros da
sociedade.81
A história do inquérito foi relatada pelos colaboradores que responderam ao
processo - estes compunham o conselho editorial -, e pelo colaborador que convivia
com um dos membros fundadores: no primeiro caso, João Silvério Trevisan, Peter
Fry e João Antônio Mascarenhas; e no segundo, Edward MacRae.
João Silvério Trevisan - [...] o ministro da justiça, na
época o Armando Falcão, instaurou um inquérito contra
o Lampião, por atentado à moral e aos bons costumes
através da imprensa, por veicular matéria atentatória.
Era o Estado contra o Lampião./ A matéria escolhida
fora feita pelo João Silvério Trevisan sobre o jornalista
Celso Curi. Basicamente era uma matéria que contava
como o Celso Curi estava sendo perseguido pelo
sistema judiciário brasileiro por ter criado uma coluna
gay no jornal Última Hora de São Paulo, e quem
publicou essa matéria para defender o Celso Curi
também entrou no rolo, então nós sofremos esse
inquérito já a partir do número zero. A punição foi
exemplar, veio rápida e não havia diálogo. [...] Esse
inquérito nunca deu em nada. Na verdade, era um
inquérito para ver se havia condições de instaurar um
processo contra nós, por atentado à moral e aos bons
costumes.

80
Idem, p. 162.
81
Idem, p. 169.

97
João Antônio Mascarenhas - [...] fomos processados
por ofensa à moral e aos bons costumes. De uma
maneira genérica, eles processaram todo o corpo
editorial do Lampião. Éramos onze, acho que disse o
nome de todos: Darcy Penteado, Peter Fry, Jean Claude
Bernardet [...], Antônio Chrysóstomo, Aguinaldo Silva,
João Silvério Trevisan, Francisco Bittencourt,
Gasparino Damata, Adão Acosta, e Clóvis Marques [...]
Peter Fry - [...] Não era um mar de rosas, tanto que
fomos processados... ou indiciados! Lembro que fui
chamado na Polícia Federal... uma coisa
engraçadíssima!! Aliás!! Nada engraçado! Nada
engraçado!! Estava sozinho quando fui chamado, os
outros já haviam deposto... acho que estava fora!
Quando voltei tive que ir à Polícia Federal. [...] Depois
daquele depoimento, eles me mandaram tocar piano
numa outra dependência... foi muito desagradável! Não
vou esquecer dos policiais me chamando de gringo,
acusando-me de corromper o Brasil... de estar poluindo
a pureza brasileira.
Edward MacRae - O Lampião sofreu sérias
perseguições. Inicialmente, todos os diretores, incluindo
Peter, foram fichados pela polícia. Peter, quando foi
fichado, voltou arrasado porque sofreu humilhação. Na
época da ditadura, só de imaginar a idéia de enfrentar
aqueles policiais e milicos horrorosos, e ainda por cima
estar numa posição de defensor de uma causa gay, era
um tal de piadinha, risadinha e não sei o que... essas
pessoas não eram consideradas sérias. O Peter tinha um
nome respeitável, era uma pessoa com status muito
elevado, muito respeitado porque fez muita coisa dentro
do mundo acadêmico. Porém, nesse momento nada
tinha importância. De repente, ele foi obrigado a entrar
num quartel ou numa delegacia, não me lembro agora,
onde a pessoa era tratada com desprezo, era
humilhada.[...]

4. Atentados a Bomba: outro reflexo do período.

Em meados de 1977, começaram os atentados à bomba nas sedes dos jornais


alternativos e nas bancas que vendiam essas publicações. Os atentados eram mais
uma ação para asfixiar a imprensa alternativa durante o período da “abertura”. Em

98
setembro de 1978, o CIEX (Centro de Investigações do Exército) prepara um dossiê
sobre a imprensa nanica que lançava as bases para ações legais contra os jornais. O
Lampião foi atingido por perícias contábeis em julho de 1979.82 No bojo desta
situação, a imprensa alternativa também era acusada de dar proteção aos
“subversivos.”83
João Silvério Trevisan e Antônio Carlos Moreira tocam nesta questão durante
suas narrativas:
João Silvério Trevisan - O Lampião pretendia trabalhar
nesse contexto, com esses dados [dos movimentos da
abertura democrática]. Ironicamente, já no primeiro
número fomos incluídos por um grupo paramilitar, que
estava estourando bombas em bancas de revistas, na
lista de jornais subversivos que não poderiam ser
vendidos.
Antônio Carlos Moreira - Entre 1977 e 1978, havia
uma movimentação política: as organizações estavam
voltando às ruas, havia passeatas, começou a campanha
da anistia e surgiram jornais alternativos como:
Movimento, Versus, O Fato, Em Tempo. Nesta época,
começaram a explodir bombas nas bancas de jornal...
assim instaurou-se no Lampião um clima de terror: “-
Ah! Nós também temos um jornal alternativo!!
Queiramos ou não também falamos de política! O que
vamos fazer então!?!”... não era sobre política
institucional, mas não deixava de ser política!

Durante um longo período de tempo os atentados persistiram, porém a partir


de junho de 1980 assumiram um caráter mais trágico. O apogeu aconteceu em
agosto, quando os incêndios das bancas que vendiam jornais alternativos tornaram-
se uma forma freqüente de represália. A partir de então os jornaleiros começaram a
recusar os tablóides.84
Alceste Pinheiro recupera a história dos atentados quando se refere às
reuniões que participou como representante do Lampião:

82
KUCINSKI, Bernardo. Op. cit., p. 119.
83
Ver também: MACRAE, Edward. Op. cit., p. 163-164, 170.
84
KUCINSKI, Bernardo. Op. cit., p. 119.

99
Alceste Pinheiro - Recordo que ocorreu o problema das
bombas em bancas de jornal, também participávamos
destas reuniões. Bastava as bancas venderem os jornais
alternativos para serem estouradas. Desta maneira, as
bancas começaram a recusar o produto. Para resolver
esse problema, fui a duas ou três reuniões com esses
jornais, para organizar uma manifestação contra esta
atitude. Eu representava o Lampião naquele núcleo de
jornais que estavam sofrendo atentado: o Pasquim, O
Repórter, Em Tempo; este último funcionava no mesmo
prédio da redação do Lampião e tinha sido alvo de
atentado. Enfim, vários jornais estavam sendo vítimas
de terrorismo.

5. Em Nome de Todos: um jornal e duas vozes.

Com o desenvolvimento da história do Lampião alguns dos membros passam


a ocupar uma posição mais funcional dentro do jornal, enquanto outros passam a não
exercer quase nenhum papel.85 No Rio de Janeiro Aguinaldo Silva e Francisco
Bittencourt destacaram-se devido ao trabalho junto à redação, enquanto em São
Paulo João Silvério Trevisan e Darcy Penteado sobressaíram-se aos demais. Este era
o principal grupo de editores do jornal. É importante dizer que os conselheiros não
se reuniam para fazer reuniões de pauta do jornal, pois a idéia se tornou inviável por
causa do número de pessoas divididas entre Rio e São Paulo.
O poder de decisão, contudo, estava concentrado nas mãos de Aguinaldo
Silva que praticamente tornou-se o principal editor do Lampião:
João Antônio Mascarenhas - [...] o Aguinaldo tomou o
jornal. Não há dúvida nenhuma que o Aguinaldo é um
homem muito trabalhador, mas o que tinha sido
proposto deixou de ser. Ele ficou com a direção do
jornal, com as assinaturas, com a distribuição, com a
pauta... dou risadas quando questiono o que sobrou!![...]
Peter Fry - Aquilo não teria acontecido se não fosse o
Aguinaldo... todo mundo deve ter dito isso!!! O

85
Este aspecto é interessante, pois esclarece a polarização final entre as posturas de João Silvério
Trevisan e Aguinaldo Silva, num desentendimento que se estabelece entre Rio de Janeiro e São
Paulo. MACRAE Edward, Op. cit., p. 91.

100
Aguinaldo juntava tudo e levava até à gráfica. Naquela
época não havia computador. Era tudo na base de fazer
o texto caber na página. Isso sempre dava brigas porque
havia cortes nos textos... acusação de censura prévia.
Coitado! O Aguinaldo sofreu muito. Ele é a pessoa mais
importante. Foi ele que juntou os trapos, levou-os à
gráfica e fez aquilo acontecer. Sem Aguinaldo nada teria
sido feito. Mesmo assim, quando alguém assume a
responsabilidade, os outros sempre acham defeito.
Antônio Carlos Moreira - [...] o Aguinaldo editava o
jornal, ele levava o Lampião nos braços até o Jornal do
Comércio para ser impresso... no carro dele! O jornal
não tinha como sustentar o aluguel apesar do Lampião
ser uma empresa. O Aguinaldo alugava uma sede para o
Lampião no Rio... com esta estrutura ele dava o tom que
queria ao jornal.[...]
João Carlos Rodrigues - [...] Acredito que o jornal
aconteceu porque o Aguinaldo era um jornalista. Ele era
a pessoa que sabia a rotina de jornal: “- Tem de fechar
no dia tal! E o fotolito!? E não sei mais o que!!?” Ele
tinha todas essas preocupações [...]
Alceste Pinheiro - O Aguinaldo Silva praticamente
sustentava economicamente o jornal. Na época que
cheguei, ele ainda trabalhava no jornal O Globo. Ele
saiu depois porque não pretendia permanecer naquele
jornal. Muita gente acredita que ele saiu por causa da
televisão, não é verdade, ele saiu do Globo e foi se
dedicar intensamente ao Lampião. Então, ele saiu antes,
até já havia feito alguns trabalhos para a televisão. Mais
tarde, ele conseguiu um contrato efetivo com a TV
Globo.
Dolores Rodriguez - [...] Ele [o Lampião]
simplesmente acabou por falta de vontade das pessoas.
Acho que pelo cansaço do Aguinaldo, ele era o
maquinista desse trem! Peguei o jornal numa fase mais
assentada, sem a presença dessas figuras famosas, mais
reconhecidas no meio social, enfim, mais badaladas!
Porém, as pessoas que se identificavam com a linha do
jornal, não queriam que ele acabasse.

Aguinaldo Silva e Francisco Bittencourt, segundo o texto A Construção da


Igualdade de Edward MacRae, estavam ativamente envolvidos com o jornal no Rio

101
de Janeiro.86 Em São Paulo destacavam-se João Silvério Trevisan e Darcy Penteado.
Darcy Penteado, contudo, aparecia numa posição secundária. João Silvério Trevisan
foi considerado um dos principais ideólogos do movimento homossexual e do
Lampião.87 Ele é apresentado como o principal divulgador dos ideais da
Contracultura.
Edward MacRae, além de reconhecer a importância de João Silvério Trevisan
em seu trabalho de pesquisa, retoma essas considerações durante a narrativa, as quais
também são enfatizadas por João Antônio Mascarenhas:
Edward MacRae - O Trevisan escrevia coisas
fascinantes. Ele via os homossexuais como a parte podre
da sociedade, os responsáveis pela destruição do aparato
social. Eles iriam apodrecer uma sociedade que já era
completamente demoníaca e horrorosa. Parecia que toda
essa estrutura seria corrompida por dentro. Esta era a
imagem que o Trevisan passava muito no Lampião.[...]
João Antônio Mascarenhas - No que se refere ao
movimento homossexual, houve o seguinte... quem
tinha vontade daquele movimento era eu... quem estava
a par do movimento era eu. O João Silvério Trevisan era
o único que tinha alguma noção além de mim. Ele havia
morado nos Estados Unidos. O Trevisan possuía a idéia
do Gay Liberation... que é uma atitude filosófica de
contestação plena, completa e radical. Algo um pouco
diferente da minha posição... nunca fui do Gay
Liberation. Nesse meio tempo, já conhecia bem o Gay
Liberation porque estava com uma bibliotecazinha
sobre o assunto. Os outros nunca tinham ouvido falar
em movimento, nem o Aguinaldo... o Darcy também
não.

6. As Novas Vozes.

O Lampião publicou um número considerável de matérias durante seus três


anos de existência, atraindo a atenção de muitos colaboradores. Ao ouvir as

86
Idem, p. 88.
87
Idem. p. 85.

102
narrativas, observamos como muitos dos futuros membros foram à redação do jornal
após tomar conhecimento de suas páginas ou ouvir referências através de amigos.
José Fernando Bastos foi convidado por Antônio Chrysóstomo e Aguinaldo
Silva pelo fato de fazer crítica de teatro e música. João Carlos Rodrigues conheceu
os membros do Lampião quando trabalhava na Embrafilme, através de Adão Acosta
que procurava por pessoas que pudessem enviar artigos para publicação. João Carlos
Rodrigues aceitou o convite e começou a participar das reuniões, ajudava a
conseguir entrevistas, mas optou em manter-se como um participante eventual. A
proposta libertária do Lampião atrai Luiz Carlos Lacerda, amigo de João Carlos
Rodrigues, que sentia necessidade em dar seu testemunho sobre experiências
próximas dos ideais divulgados pelo tablóide.
Na inicio do jornal, Aguinaldo Silva, Francisco Bittencourt e Adão Acosta
permaneciam na redação diariamente. Depois agregaram-se Antônio Carlos Moreira,
Alceste Pinheiro, Aristides Nunes e Dolores Rodriguez, participantes que iniciaram
suas atividades como colaboradores na redação e passaram a ser redatores do
Lampião. Isso ocorre quando o Aguinaldo Silva começa a se afastar do jornal para
trabalhar como roteirista para a televisão. Nesse período, ele deixa o jornal por conta
do grupo que o ajudava na redação:
João Carlos Rodrigues - Duas pessoas trabalhavam
muito na redação: Alceste Pinheiro e Antônio Carlos
Moreira. [..] Eles faziam esse rame-rame da redação:
“- Pega o fotolito! Pega não sei o que! Faz a revisão!
Leva não sei pra onde! Vai ver na gráfica se está
pronto!?” Essa mão de obra, quando comparada com os
dias de hoje, parece trabalho da Idade da Pedra...
atualmente tudo é feito pelo computador... [...] O
Francisco Bittencourt e a Dolores também ficavam
muito no local. Basicamente, esses quatro ficavam na
redação: Francisco Bittencourt, Dolores, Alceste e
Antônio Carlos. O Aguinaldo era o editor, ele
supervisionava esse lado todo.[...]

103
Durante o ano de 1979, Antônio Carlos Moreira ingressa no grupo
SOMOS/RJ ao mesmo tempo em que começa a trabalhar no Lampião. Ele visita a
redação do jornal no decorrer do curso de comunicação, conhece Aguinaldo Silva,
começa a colaborar com artigos e com o tempo passa a ocupar o cargo de redator do
jornal:
Antônio Carlos Moreira - No dia a dia comecei a
absorver as atividades do jornal porque tinha muito
trabalho a fazer. Primeiro fui colaborador, depois me
tornei redator. O jornal não tinha dinheiro para pagar
ninguém, mas fui ficando ali... era como um bar que
comecei a freqüentar todo dia. Então, fui fazendo os
amigos... e naquele dia se não fosse a redação para
conversar, parecia que não tinha feito nada. A visita ao
Lampião diariamente era quase um vício.[...] o João
Carlos Rodrigues que escrevia de vez em quando - era
uma pessoa que colaborou muito com o jornal através
de idéias, sugerindo muitas pautas... foi um cara
importante para o jornal.

Alceste Pinheiro recupera o fato de conhecer previamente Aguinaldo Silva -


pois foram colegas de trabalho um pouco antes do lançamento do Lampião - e que
eventualmente podia comprar jornal e lê-lo. Porém decide ajudar Aguinaldo Silva no
ano de 1979. À época, ele encontra Antônio Carlos Moreira, um amigo de
adolescência, que o convida para ir à redação:
Alceste Pinheiro - Nós fazíamos um bom produto, mas
tínhamos um mercado muito limitado. Não se pagava
pelo trabalho dos colaboradores, as pessoas não
recebiam basicamente nada. No final do jornal recebi
alguma colaboração, mas durante muito tempo trabalhei
sem receber nada. Eu e o Antônio Carlos, por uma série
de fatores podíamos trabalhar no jornal. Eu possuía
algum dinheiro, estava com vontade de fazer aquilo e
depois voltei a trabalhar em outro lugar, mas o jornal
conseguiu se sustentar por um bom tempo. Até que
finalmente chegou um momento que não dava mais.

104
A história de Dolores Rodriguez é semelhante, Aristides Nunes um amigo em
comum dela e de Antônio Carlos Moreira indica-lhe um trabalho como revisora do
Lampião. O tempo e a convivência com as pessoas a fez permanecer na redação. O
caso de Dolores Rodriguez é singular, pois ela foi a única mulher, lésbica, que
trabalhou na redação do jornal como colaboradora permanente. Leila Míccolis
escreve muitos artigos, mas não mantinha a mesma relação de freqüentar a redação e
as reuniões de pauta como Dolores Rodriguez:88
Dolores Rodriguez - Depois que comecei a me
envolver com o jornal, passei a viver uma rotina quase
diária. Independente do que fosse fazer, tinha um
compromisso, mesmo que não fosse trabalhar passava
lá. Era legal estar com as pessoas. O Aguinaldo é
bastante espirituoso, muito engraçado. Era legal ir ali,
pois caso estivesse de baixo astral, iria rir ao chegar lá.
Era um ambiente de trabalho para cima. Por mais
problemas que todo mundo tivesse, tinha sempre alguém
fazendo uma gaiatice. Nas piores fases que o jornal
passou, havia desânimo, mas sempre aparecia alguém
para levantar o astral de todo mundo.

Em 1978, Alexandre Ribondi tomou contato com o Lampião: os membros do


jornal lhe escrevem convidando-o para ajudar. Alexandre Ribondi recupera suas
atividades falando sobre como recebia o jornal em Brasília, o distribuía nas bancas,
depois recolhia as sobras e o dinheiro para mandar ao Aguinaldo Silva no Rio de
Janeiro. Alexandre Ribondi enfatiza o fato que sempre permaneceu em Brasília:
Alexandre Ribondi - Em 1978, tomo contato com o
Lampião. Nesse período, eles me escreveram,
perguntando se queria participar!? Comecei escrevendo
um artigo, depois assinava uma coluna no jornal. [...]
Recebia o Lampião, distribuía nas bancas, depois
recolhia as sobras do jornal, recolhia o dinheiro e
mandava para o Aguinaldo./ Não conhecia nenhuma das
pessoas do jornal. Algum tempo depois, comecei a

88
Como indica Edward MacRae, além de Leila Miccolis, colaboraram Mariza Correa, Lélia
Gonzalez, entre outros nomes que enriquecem as páginas do jornal. MACRAE, Edward. Op. cit.,
p. 75.

105
escrever! Passei a ser um nome com certo destaque no
Lampião. [...]

7. As Vozes se Multiplicam: o Lampião e o movimento homossexual.

No ano de 1979 - durante a discussão sobre homossexualidade, promovida na


semana de debates sobre minorias na USP - constatou-se o quanto as posições do
Lampião eram difundidas e encontravam respaldo no meio homossexual. A
divulgação de certas posições ideológicas, presentes no jornal, acirravam ou
tornavam justificável as posições autonomistas dos grupos minoritários.89
Durante um certo período o Lampião foi considerado importante, pois
funcionava como uma espécie de órgão do movimento homossexual. Não havia
como evitar, visto que a publicação veiculava diferentes discussões sobre a
homossexualidade, inclusive propostas de militância.90 O jornal Lampião era o único
lugar onde se podia publicar cartas de protestos, além de divulgar os endereços de
grupos. Segundo a narrativa de Luiz Mott, quando o Grupo Gay da Bahia foi
fundado sua existência foi divulgada através do Lampião: 91
Luiz Mott - Nessa época [em que se mudou para
Salvador], eu continuava recebendo o jornal Lampião.
Foi o período em que tinham se fundado alguns grupos:
O SOMOS de São Paulo, do Rio de Janeiro e de
Sorocaba. Assim, tive a idéia de fundar um grupo em
Salvador. No fim do ano de 1979, escrevi um anúncio
no jornal Lampião dizendo: “Bichas baianas, rodem a
baiana... tudo bem! Mas deixem de ser alienadas.
Vamos fundar um grupo de discussão sobre
homossexualidade... me escrevam!” Como não tinha
caixa postal, botei o endereço do meu apartamento.

89
Idem, p. 108-110.
90
Idem, p. 76-77.
91
Após fazer o levantamento de artigos do Lampião, encontramos o artigo de Luiz Mott chamado
“Histórias de gente humilde.”, o que sugere um dos aspectos do jornal ligado à divulgação das
atividades e dos endereços dos grupos de militância existentes no Brasil. in: Lampião da Esquina.
Rio de Janeiro março de 1981. ano III, Nº 34, p.3.

106
O jornal publicava as notícias de grupos como SOMOS/SP, Beijo Livre de
Brasília, Grupo Gay da Bahia; UVA - União dos Viados de Alagoas.92 O Lampião
tornara-se um veículo de referência para os grupos de militância que começaram a se
formar no Brasil. Podemos ler sobre essa expectativa nas seguintes narrativas:
James Naylor Green - O Lampião provocou a
formação de um grupo de militância homossexual em
São Paulo. Quando cheguei ao Brasil, em começos de
setembro de 1978, integrei imediatamente este grupo.
Fui bem vindo às reuniões que se realizavam na casa das
pessoas. Quando integrei o grupo, ele ainda não tinha o
nome SOMOS. No início, durante três ou quatro meses,
o grupo ainda tinha outro nome: Núcleo de Ação pelos
Direitos Homossexuais. O nome SOMOS foi adotado
em dezembro de 1978. [...] Em 1978 quando o SOMOS
surgiu, fundado logo depois do lançamento do Lampião,
passou por um grande processo interno, fazendo
anúncios na imprensa alternativa. No verão de 1979, o
grupo resolve assumir-se publicamente durante um ciclo
de debates sobre minorias ocorrido na USP. Tratava-se
de um evento promovido pelo DCE. A proposta era
debater as influências mais libertárias e anarquistas,
assim como apresentar críticas aos grupos marxistas-
stalinistas. [...] Neste caso, quando se faz uma
cronologia dos nomes de todas as pessoas que
começaram no ativismo nos anos oitenta, muitas delas
pegaram o jornal Lampião, onde souberam do trabalho
que nós fizemos inicialmente no PT. Havia aquelas que
ouviram falar através de um amigo que era do
SOMOS... era uma tradição que infelizmente a história
não tem documentada.
Luiz Carlos Lacerda - No que se refere à possibilidade
do Lampião ajudar a aglutinar as organizações
homossexuais para lutarem politicamente pelos seus
direitos!? No meu caso, por exemplo, quando ouvi falar
nesse jornal, fui logo correndo para colaborar. O
exemplo de um jornal defensor de idéias
comportamentais de minorias criou condições para que
outros grupos se organizassem. É possível se organizar,
é possível lutar, é possível levantar bandeiras, ele foi
super importante.

92
O grupo divulga um roteiro gay da cidade de Maceió. in: Lampião da Esquina. Rio de Janeiro,
abril de 1980, ano II, Nº 23, p. 15.

107
Alexandre Ribondi - O Lampião vai articular grupos
diretamente. [...] Mesmo não querendo, o Lampião criou
grupos homossexuais por todo o Brasil! Em Brasília
tinha o Beijo Livre, em Alagoas tinha o UVA - União
dos Viados de Alagoas... é engraçado porque o nome era
tão bonitinho!! Aquele moço da Bahia, o Luiz Mott
também surgiu nessa época! [...] Enquanto os outros
jornais esbarravam no preconceito, falavam com chacota
que as bichinhas estavam reunidas!! O Lampião
mostrava as discussões sérias... é imprescindível: o
Lampião foi o pai de todos esses grupos que surgiram!
[...] O SOMOS se forma um pouquinho antes, ou quase
na mesma época do Lampião, mas é a mesma idéia
brotando no mesmo momento, com a mesma
necessidade! O Lampião não pode ser isolado dos
movimentos homossexuais organizados e os
movimentos homossexuais organizados não podem ser
isolados do Lampião! Tanto que uma maneira de um
grupo se comunicar com o outro era publicando as
Caixas Postais ou os endereços no Lampião. Era
inevitável, o Lampião era o arauto e não podia ser de
outra forma! [...] No Lampião há um artigo sobre uma
carta foi entregue ao Papa, eu e o Tom, um amigo que
mora em Goiânia - ele era padre na época -, fomos
encontrar com o Papa e levar essa carta... aqui em
Brasília!! Caso não existisse o Lampião, para que nós
iríamos fazer isso!? Quem iria contar para o resto do
Brasil que fizemos isso!? [...]

8. Os Argumentos Preponderantes.

O Lampião sob a orientação de Aguinaldo debatia-se com as exigências dos


grupos homossexuais de militância. Neste ponto, os membros que trabalhavam na
redação apoiavam a posição adotada por Aguinaldo Silva: o Lampião não era um
jornal exclusivamente voltado à militância homossexual, apenas cobria e divulgava
as atividades dos grupos que começaram a surgir:
Alceste Pinheiro - O Lampião não queria ser porta-voz
dos grupos homossexuais. Não era o perfil do jornal, ele
tinha um objetivo mais amplo, discutir diversas questões
e não ser apenas um jornal de homossexuais. O que
ocorreu, é que havia esta idéia, compartilhada por um

108
grupo bastante expressivo, que fizeram os números
iniciais lhe dando este caráter. E foi um jornal com
bastante êxito, embora não fosse um jornal
perfeitamente profissional, visto que era feito por
amigos, mas que obteve um grande sucesso.
Dolores Rodriguez - O Lampião teve uma participação
na movimentação política dos anos setenta e oitenta,
mas ele não foi o piloto. Parece que foi mais uma
questão das pessoas que viveram naquele contexto. Na
época, estávamos saindo de uma ditadura, começávamos
a respirar a “democracia”. Era a época de abertura
política. Nesse sentido, a sociedade começou a se
posicionar como um todo, exigindo direitos que estavam
guardados na gaveta na época da ditadura. [...] o jornal
ajudou a mostrar a cara desses grupos, a divulgar suas
idéias, porém também mostrava que não era
exclusivamente voltado ao público gay. Esse segmento
estava mais preocupado em discutir sua sexualidade,
estava se organizando. Nem era o caso de uma
reorganização, pois até então não existia - pelo menos
não tenho informação -, de que antes dessa década já
houvesse grupo homossexual. [...] A proposta não era
esta, mas era mostrar que existiam gays em todas as
áreas de atividade. Pessoas que estavam batalhando no
seu trabalho, pessoas não-gays, parecidas com essa
proposta do GLS -hoje são chamadas de simpatizantes -,
que estavam na vida.[...]

9. Os Interesses Cruzados.

Na Semana Santa de 1980 aconteceu o Primeiro Encontro de Grupos


Homossexuais Organizados em São Paulo: I EGHO.93 A convocação para o evento
foi divulgada pelas páginas do Lampião. O jornal cobriu o Encontro Nacional,
publicou os principais acontecimentos e divulgou as reivindicações tiradas pelos
grupos que participaram. O número 24 do jornal é quase todo dedicado a cobertura
do evento:94

93
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 197.
94
Lampião da Esquina. Rio de Janeiro, maio de 1980, Nº 24.

109
Luiz Mott - [...] Na Semana Santa de 1980, aconteceu o
Primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais em São
Paulo. Tive conhecimento dessa realização porque eu li
no Lampião. O Grupo Gay da Bahia fora fundado uma
semana antes, mas não participamos. Na ocasião, não
tínhamos condição de ir a São Paulo. Porém, soubemos
das atividades, recebemos o material... até hoje temos o
cartaz. Ele está emoldurado na sede do Grupo Gay da
Bahia. O cartaz do Primeiro Encontro nem foi
impresso... foi do tipo artesanal.

As narrativas projetam duas tendências que referem as expectativas dos


participantes nos grupos de militância e à posição adotada pelos redatores do
Lampião:
Antônio Carlos Moreira - O jornal foi cobrir o
Encontro Nacional de Grupos Homossexuais
Organizados (EGHO) que ocorreu em São Paulo,
através de militantes que colaboravam com o jornal
como eu, João Silvério Trevisan, Dolores Rodriguez e o
Francisco Bittencourt... este último era o representante
do Lampião. Entretanto, o jornal não estava ali
organizando, dando patrocínio ou apoio. Não existia
isso no Lampião, em momento nenhum isso pode ser
observado... o jornal não organizou nada! Ele
participava como jornal mesmo, abrindo espaço onde
tinha que abrir [...] O Primeiro Encontro ocorreu em São
Paulo, por volta de 1980. Parece-me que foi a única vez
que o jornal, como um todo, dedicou suas páginas para o
movimento, mas ele não se mobilizou... isso que queria
deixar claro!!
Dolores Rodriguez - O Lampião divulga o Primeiro
Encontro Nacional de Homossexuais nas suas páginas.
De uma certa maneira, ele ajuda os grupos a se
organizarem. Nesse Primeiro Encontro, ele era um órgão
aberto para passar as informações dos grupos, mas
autônomo para poder trabalhar tranqüilamente. Se não
me engano, para a cobertura desse Encontro, o jornal
não pagou ninguém para cobrir, a pessoa foi porque
militava. Lá, ela aproveitou para fazer a cobertura e
mandar ao jornal. O que é diferente do jornal que paga
um correspondente. Neste caso, o correspondente tem
um compromisso com aquele órgão. Não foi isso que
aconteceu! As pessoas o fizeram por livre e espontânea

110
vontade. Não havia compromisso oficial com o jornal.
Não era o caso de mandar alguém específico para ir ao
Encontro.
Alexandre Ribondi - [...] Caso o Lampião não
existisse, não haveria o primeiro Encontro de Grupos
Homossexuais Organizados: I EGHO. Ele aconteceu em
São Paulo, naquele Hospital das Clínicas em frente ao
Cemitério. O segundo Encontro aconteceu no Rio de
Janeiro. Foi um bafafá com porrada para todos os
lados!!![...] Com isso, não quero dizer que o Lampião
fez a cabeça dos sujeitos!! Porém, o Lampião foi a
desculpa necessária para que os grupos se formassem!
Ele foi o motivo, a luzinha que se acende para o Brasil
inteiro começar a formar os grupos. O Lampião,
contudo, não era o porta-voz, não se fazia representar,
mas era o jornal que estava presente nos
acontecimentos, fazendo todas as matérias, dando
cobertura completa, refletindo![...]

10. A reestruturação próxima do fim.

Com os desdobramentos da “abertura política”, o Lampião se encontrava


numa fase mais definida quanto à reflexão sobre a homossexualidade, porém o
processo contra Antônio Chrysóstomo - um dos membros do conselho editorial -
iniciou uma crise que provocou uma reestruturação do jornal. O jornalista foi preso e
processado porque uma vizinha o denunciou por maus-tratos a uma garota que ele
adotou.95
Antônio Chrysóstomo era homossexual declarado e militante, redator do
Lampião e assumia tanto sua orientação sexual como contra-atacava os preceitos da
falocracia dominante. No pedido de prisão preventiva o promotor usou como
“prova” a sua participação Lampião, definindo a publicação como um “pasquim
imoral contrário aos bons costumes”.96 Essa crise aconteceu no último ano de
existência do jornal:

95
CHRYSÓSTOMO, Antônio. Op. cit., p. 57-61.
96
Idem, p. 77.

111
Antônio Carlos Moreira - Até hoje acredito que os
membros não tenham um consenso sobre o fato,
confesso que também não tenho uma opinião formada
sobre essa história, mas alguns acusavam o
Chrysóstomo e outros o defendiam... alguns membros
tinham medo de ser envolvidos nesta situação/ O
Chrysóstomo era um jornalista de temperamento muito
forte, tanto que brigou com uma parcela significativa do
pessoal envolvido com a produção da MPB.
Pessoalmente, ele escrevia artigos críticos no jornal O
Globo... pixando mesmo!! Às vezes, ele extrapolava em
relação ao comentário sobre um trabalho, atacando
diretamente a pessoa responsável por sua produção e
com isso ele amealhou uma ordem de inimigos
enorme.[...] Com o processo começou o inferno, o
Chrysóstomo foi preso e depois processado. Nessa
época, pessoas como Francisco Bittencourt, Clóvis
Marques, Darcy, ficaram preocupadas. [...] A partir daí o
jornal basicamente era do Aguinaldo. Isso aconteceu no
último ano de existência do jornal... foi no final de
1980.
João Carlos Rodrigues - [...] Creio que o processo
começou quando Lampião ainda não tinha acabado. O
Chrysóstomo era um dos donos do jornal. Por causa
disso, houve uma ameaça concreta, ou um conselho de
advogados ameaçou, não sei ao certo, de acusar o jornal
por pregar a corrupção de menores. As penas por
corrupção de menores são gigantescas!! Nesse caso,
para o Chrysóstomo sair do Conselho seria preciso
dissolver a sociedade. Não era possível tirar um sócio e
os outros ficarem. Assim, os sócios aproveitaram a saída
do Chrysóstomo e decidiram acabar com o jornal. Não
tenho certeza desta história, o Aguinaldo nunca abriu o
jogo, foram questões que notei e todos os fatos
começaram a coincidir.

O fato é que, independente da saída de Antônio Chrysóstomo, os nomes de


Conselho Editorial são retirados da ficha técnica da publicação. Podemos observar
que houve uma manutenção dos demais cargos no jornal a partir do número 32.97
Alguns dos nomes que compõe o Conselho Editorial desaparecem, permanecem na
ficha técnica os nomes de Aguinaldo Silva como coordenador da edição, Francisco

112
Bittencourt, Darcy Penteado, João Silvério Trevisan como redatores, junto com os
nomes de Alceste Pinheiro, Antônio Carlos Moreira e Aristides Nunes.

11. Um despertar turbulento.

A dificuldade de relacionamento entre os membros do jornal e os grupos gays


desperta outros problemas. As expectativas dos grupos começam a se confrontar
com a proposta defendida pelo corpo mais ativo do conselho editorial.98 Essa crise
de relacionamento passa a ser estampada nas páginas do jornal. Os membros ligados
ao jornal, especificamente no Rio de Janeiro, se desentenderam com o movimento
homossexual carioca e começaram a publicar artigos contra os militantes
homossexuais.99
João Carlos Rodrigues ao comentar sobre esse problema reflete da seguinte
forma:
João Carlos Rodrigues - Por incrível que pareça, o que
atrapalhou o jornal foi o surgimento dos grupos de gays
organizados... depois do tal congresso!! Claro, no
movimento gay tem que ter isso! No momento em que
houve o congresso gay, esses grupos começaram a
pressionar o jornal! Não recordo o ano em que
aconteceu... isso tem no jornal. Inclusive, esse é um dos
motivos pelo qual o Aguinaldo não está querendo falar.
O Aguinaldo sempre foi contrário aos grupos, hoje em
dia ele é ainda mais. Ele acredita que os grupos não são
representativos. Essa era uma das acusações que se
fazia. Quando aparecia uma pessoa e dizia: “- Eu
represento os homossexuais da Paraíba”, sem nunca
termos conhecido nenhum grupo de lá, não podíamos
dizer se era verdade ou não. [...] O problema é que os
grupos queriam que o jornal fosse porta-voz deles...
quando não era!!! [...] Os grupos estavam enchendo o

97
Lampião da Esquina. Rio de Janeiro, janeiro de 1981, ano III, Nº 32 p. 19.
98
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 88.
99
Podemos acompanhar esta questão através dos artigos publicados por Aguinaldo Silva como:
“Lampiônicos, ativistas, astronautas?”. in: Lampião da Esquina. dezembro de 1980, ano III, Nº 31.
p. 12.

113
saco, chegavam cartas chamando-o de traidor da causa,
cartas exigindo: “- Ah! Vai botar isso...!!!”, e ele
comunicando: “- Não vou botar matéria nenhuma!!!”
Havia esse lado irritante das divergências! [...]

Embora durante a maior parte de sua existência o Lampião tenha colaborado


com a militância, a partir de um determinado momento a posição do jornal tornou-se
agressiva em relação aos grupos, manchetes e artigos serviram para divulgar para o
país inteiro uma grande desconfiança a respeito de qualquer política homossexual. O
papel do jornal no processo de desintegração do movimento homossexual não
deixou de ser menos considerável.100
Em dezembro de 1980 foi realizada uma reunião de vários grupos
organizados no Rio de Janeiro. Alceste Pinheiro e Aristides Nunes participaram
como representantes do Lampião:101
Alceste Pinheiro - Em determinada época se fez uma
reunião de vários grupos organizados no Rio de Janeiro.
Eu fui como representante do Lampião, com mais outra
pessoa da qual não me recordo. Nessa reunião o pessoal
do Lampião foi intensamente execrado por essas
organizações. Inclusive circulou um número em que
atacávamos essas organizações. Foi quando aconteceu a
ruptura. Este período é caracterizado pelo rompimento
com os grupos. [...] O Aguinaldo queria o rompimento,
o que acabou acontecendo logo depois, embora o jornal
continuasse dando notícias dos grupos de militância.

Com o despertar dessa crise de relacionamento com os militantes, James


Naylor Green observa como o Lampião não buscou outra forma de conseguir apoio:

James Naylor Green - [...]Particularmente acho que o


Lampião cometeu um erro, no sentido dele se tornar
anti-ativista, isso desmoralizou totalmente os grupos que
queriam trabalhar. No final o jornal se tornou muito

100
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 88.
101
NUNES, Aristides “Jogaram bosta no II EGHO.” Lampião. Rio de Janeiro, fevereiro de 1981,
ano III, Nº 33, p. 18.

114
agressivo ao ativismo. Ele não buscou outra maneira de
conseguir apoio, ou seja, tinha uma visão duvidosa: não
era pró-ativismo, nem pró-consumismo... ficava entre os
dois e não tinha grande espaço para isso.[...]

Neste aspecto, a observação de Alceste Pinheiro caminha na mesma direção:


Alceste Pinheiro - [...] Por um lado, perdemos o apoio
desses grupos que de alguma forma sustentavam o
jornal, por outro lado não conhecíamos o mercado
“etéreo”. Hoje em dia, trabalho paralelamente com o
conceito de mercado e o de segmentação. Foi depois
desta fase que comecei a estudar mais profundamente a
questão do jornalismo, entre outras coisas, enveredando
pela sua produção, administração do jornal, foi assim
que pude perceber os fatos e chegar a algumas
conclusões. [...] Quando se olha para aquele período
com uma visão mercadológica, de fato a posição
sugerida por João Antônio Mascarenhas parecia a mais
correta. Nós tínhamos que fazer um jornal
especialmente para aquele público, cujo interesse era ler
sobre homossexualidade. Exclusivamente, o jornal era
visto como algo dedicado às bichas. Naquele momento,
estas questões não nos preocupavam. Não havia
interesses neste sentido. Assim, esta perspectiva já havia
sido eliminada, nem era considerada por mim.

12. O eixo Rio-São Paulo e o Pêndulo Brasiliense.

Além desses problemas, havia ainda fatores de desagregação interna entre os


próprios membros fundadores do jornal. Desde o início surgira uma rivalidade entre
os conselheiros de São Paulo e os do Rio. Essa crise começa a se acentuar com o
passar dos anos.102 João Silvério Trevisan reflete sobre o fato de Aguinaldo Silva
não abrir mais espaços para os artigos enviados de São Paulo:
João Silvério Trevisan - Várias vezes mandei matérias
de São Paulo que não saíam publicadas. Certa vez,
mandei uma matéria a respeito de comida
vegetariana.[...] Fiz uma introdução bastante irônica à
comida vegetariana, muito brincalhona, até dava
102
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 91

115
receitas, dentro da matéria, mas o artigo não foi
publicado... e não houve explicação. Quando telefonei
para perguntar sobre o motivo, alegaram falta de espaço.
Nesse mesmo número do Lampião, onde não havia tido
espaço para o meu artigo, gastaram-se quatro páginas
inteiras sobre a Praça Tiradentes no Rio de Janeiro - mas
não havia sobrado espaço para um artigo sobre comida
vegetariana. Estavam claras as divergências, não entre
mim e Aguinaldo, mas entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Antônio Carlos Moreira, por outro lado, acompanha esses desentendimentos


de dentro da redação do Lampião:
Antônio Carlos Moreira - Nessa mesma época, a briga
entre o Aguinaldo e o João Silvério Trevisan se acirra.
O Aguinaldo passa a não publicar mais os artigos do
João Silvério, dizendo que eram coisas que não tinham
o menor interesse e que ninguém queria ler... até chegar
ao ponto de ataques pessoais!!! O João Silvério achava
aquilo um absurdo e mandava mais artigos, alguns
chegavam a ter dez laudas... dou risadas porque eram
verdadeiros ensaios! O Aguinaldo não publicava e
começava a briga pelo telefone. Isso aconteceu até o
ponto de torrar o saco e todo mundo acabar desistindo.

Como o jornal tinha uma penetração nacional, os colaboradores de outros


estados também sofriam os impactos dessa situação. O envio de artigos e a
publicação das matérias com parecer positivo de um dos lados poderiam implicar no
parecer reservado do outro. Distante do eixo Rio-São Paulo, Alexandre Ribondi
elabora uma explicação sobre as desavenças existentes entre os dois pólos
metropolitanos:
Alexandre Ribondi - [...] sempre permaneci em
Brasília. Era importante permanecer na cidade, na
medida em que o Brasil permita que Brasília seja
reconhecida. Esta é outra questão da minha vida, pela
qual tenho uma certa luta, mas também sinto uma certa
preguiça. [...] A matéria sobre masturbação tem a ver
com meu período na Europa, com essa época que
conheci algumas pessoas. [...] voltei com a idéia que
tudo podia ser transformado num questionamento social

116
e político. Reuni um grupo de pessoas com um gravador
para falar de bater punheta! Um ano antes, havia lido
que Mick Jagger preferia bater punheta a trepar, ele
tinha acabado de dizer isso para as pessoas naquela
época! Então, vendi a idéia ao Lampião! O Aguinaldo
Silva adorou! Então, mandei essa matéria da punheta.
Ela foi publicada no Lampião./ Depois fiquei sabendo
que São Paulo odiou! Achou de mal gosto, aquilo era
coisa fuleira. Ainda questionei: “- O que é isso!? Trata-
se de uma discussão da pessoa que tem prazer sozinho!!
Com o próprio corpo!!!” Porém, o Rio tinha achado
maravilhoso!! Isso foi a gota d’água para o grande
estopim que acabou com o Lampião, para a grande cisão
entre Rio e São Paulo!/ Imagina!!! Um jornal, com a
seriedade do Lampião, sucumbir ao que há de mais
provinciano, mais pequenininho, mais mesquinho nesse
país: a briga entre Rio e São Paulo!! Uma bobagem,
uma coisa de matar a gente de vergonha!!! Como um
jornal com a finalidade do Lampião sucumbe a uma
briga entre Rio e São Paulo!!? Havia mesmo!! Não se
suportavam!! E para mim, em Brasília, mais uma vez
não era nada grave! Como tudo na minha vida! [...]

13. O Final do Sonho.

As piores fases que os tablóides enfrentaram se devem à história da imprensa


alternativa no país, pois era difícil manter um jornal desse estilo: principalmente
quando se tratava da manutenção das finanças. Segundo o trabalho de Bernardo
Kucinski, a maioria dos alternativos sobrevivia até o terceiro mês, sendo que alguns
não conseguiram chegar à edição do segundo número.103
No caso Lampião, a sobrevivência da publicação foi enorme quando
comparada à maioria dos tablóides que existiram na época.104 Nos anos setenta e
oitenta, segundo Dolores Rodriguez, um jornal alternativo voltado para o público
homossexual era difícil de ser mantido:

103
KUCINSKI, Bernardo. Op. cit., p. XXIV.
104
Ibidem.

117
Dolores Rodriguez - [...] É muito difícil manter um
jornal alternativo. Aliás, já está difícil manter grandes
jornais, como o Jornal do Brasil que está numa séria
crise, O Globo é outra questão, ele não tem só o jornal,
mas todo um aparato por detrás dele, entretanto, há
jornais com grandes dificuldades em se manter. Nesse
sentido, se um jornal grande já tinha esse problema, um
jornal alternativo sofria muito mais. Principalmente no
que se refere a manutenção dos assinantes, à
publicidade, mesmo às finanças... porque é muito
dinheiro que envolve a manutenção do jornal! [...] um
jornal alternativo voltado para o público gay era muito
difícil de ser mantido. Alguns assinantes foram
progressistas, mas havia dificuldade em conseguir
assinaturas, pois as pessoas têm medo de assinar uma
publicação gay. Elas não sabiam como o jornal chegaria
na casa delas, não queriam que os outros soubessem sua
preferência sexual, ou às vezes nem eram gays. [...]
Hoje em dia, quando alguém me chama, visto que já
conheço o meio: “- Ah! Você não quer conhecer a
editora de um grupo e tal?” Eu digo: “- Se for
alternativo tô fora!!!” Não é que não acredite nele, mas
a verdade é que não tenho mais ânimo! Todo mês é
aquela história: “- Meu Deus! Não vai ter dinheiro pra
botar o jornal na rua!!” Assunto não falta, mas
infelizmente não temos essa característica de contar com
o apoio das pessoas, para elas comprarem o jornal. Um
mês conseguimos um ou outro cliente, depois o cara já
não quer renovar o contrato para fazer a publicidade. Na
verdade, acho que é mais o medo de comprar uma idéia,
vestir aquela camisa. Pelo menos no momento, não
estou querendo fazer trabalhos nessa linha... pode ser
que amanhã mude de idéia!!

Também é preciso considerar que no período final da “abertura” os jornais


alternativos foram acabando. Em sua gênese, esses tablóides estavam ligados às lutas
contra a ditadura e pela redemocratização do país. Com o final do processo de
repressão não havia sentido para sua existência.105 Desta forma, o Lampião - assim
como as primeiras organizações homossexuais - também herdou a dissensão advinda

105
Idem, p. XXIX.

118
desse cenário, cujo efeito o leva ao desgaste nos anos seguintes e a extinção em
junho de 1981:106
Alexandre Ribondi - Historicamente já não cabia mais
o Lampião. Nós estávamos entrando num tempo em que
nada mais era pensado, mas era dito. Parece que
coincide com um grande bode das pessoas! Ninguém
pensa, ninguém mais quer refletir, ninguém mais quer
comprar jornal alternativo. Os jornais alternativos foram
acabando, enquanto que nos anos setenta não tinha só
um número, mas era uma enxurrada!! Nos anos oitenta,
o jornal Lampião infelizmente se tornou demodé, old
fashion.

As avaliações sobre o que fazer com o jornal se iniciaram no primeiro


semestre de 1981. As narrativas indicam que era um jornal que não possuía recursos
financeiros e dependia da boa vontade das pessoas em trabalhar para sua existência.
Aguinaldo Silva decide por fim a carreira do tablóide em junho de 1981 e montar
uma revista chamada Homo-Pleiguei.107 Alceste Pinheiro chegou a participar deste
projeto:
Alceste Pinheiro - O Aguinaldo ficou com o local,
quando se encerraram as atividades do jornal. Ele ainda
tentou fazer uma revista. Editou uns dois ou três
números, mas também não conseguiu encontrar o tom.
Ao meu ver a revista poderia ter dado certo. Ele já
possuía uma visão de mercado, sabia o tipo de revista
que queria, conhecia o público para o qual seria dirigida,
porém não tinha pessoas capazes de ajudá-lo neste
projeto. Por exemplo, eu tentava, mas não conseguia
fazer o que ele queria./ Era uma revista que publicava
foto de homem nu e eu não sabia fazer aquilo. Acho que
poderia ter dado certo sob o aspecto mercadológico, mas
também não funcionou muito bem. Era uma revista na
qual eu assinava o horóscopo como Madame Urânia, ela
tinha forma de revista de bolso, pequena, com fotos de
rapazes nus. A idéia era que a capa motivasse a compra

106
“Os Movimentos Homossexuais no Brasil: Texto elaborado pelo Centro Disciplinar
de Estudos Contemporâneos, da Escola de Comunicação da UFRJ”. In: ENT&. 17a.
Conferência Mundial da ILGA. Guia Oficial. Rio de Janeiro. Nº 9, 1995, ano 1, p. 14.
107
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 92.

119
e, depois, o conteúdo, o correio sentimental, por
exemplo, motivasse mais a compra, assim o processo
cresceria em escala geométrica.[...]

14. O Projetor de Sonhos.

As especificidades projetadas por cada trajetória, em relação ao jornal,


anunciam diferentes expectativas que enriquecem aspectos ligados à história do
Lampião. Os relatos sobre a conjuntura da época iluminam fatos, aprofundados com
as experiências dos colaboradores, como os problemas que o jornal enfrentou por ser
uma publicação da imprensa nanica: os inquéritos públicos e a repressão paramilitar;
a instabilidade econômica; e, com a instalação da ordem democrática, a perda de sua
função enquanto órgão de resistência. Outro aspecto que deve ser ressaltado, após a
audição das narrativas, refere ao vácuo no qual o jornal mergulha: o Lampião
abandona o teor contestatório e não consegue assumir as características de uma
publicação voltada ao consumo.
A bipolarização dos colaboradores em relação à história sobre o papel
idealizado para o jornal apóia-se em duas versões: por um lado, na existência de um
espaço que priorizasse o debate sobre a homossexualidade; e, por outro, na proposta
de um fórum mais amplo de discussão. Essas expectativas desdobram-se em
considerações sobre o nível de interesse dos demais movimentos minoritários pelo
Lampião, para daí advir as conclusões de que os demais movimentos mantinham
reservas à questão homossexual e do porquê o jornal assumiu um perfil homossexual
masculino mais evidente.
O papel de Aguinaldo Silva enquanto editor surge como o principal motivo do
tablóide não suprimir suas páginas aos interesses da militância homossexual, porém
as narrativas revelam como o jornal abriu espaços para suas discussões e as veiculou
em nível nacional; apesar da reserva dos colaboradores - que trabalharam com
Aguinaldo Silva na redação -, a publicação gerou uma idéia de militância,

120
recuperada através dos depoimentos, de quem fazia parte de grupos homossexuais à
época. Essa influência será retomada para compor uma parte dos sonhos projetados
pelo jornal.

121
Capítulo 4
Os Herdeiros do Sonho: trajetórias no movimento homossexual.

“Pretendiam uma revolta para que todos aos


poucos conseguissem condições para
desprogramar-se, programando-se segundo
sua vontades individuais e segundo um mínimo
de exigência do grupo, visando à ordem dentro
da desordem absoluta e primitivismo
consciente e sobretudo amor de mãos dadas”
Caio Fernando Abreu108

1. Antes do Despertar, as Festas.

Alceste Pinheiro - Antes do Lampião havia alguns


grupos, há um antiquíssimo, cuja sede ainda funciona no
centro da cidade do Rio de Janeiro. Acredito que é
grupo homossexual mais antigo do Brasil, mas que
nunca teve este caráter de movimento político. Trata-se
da Turma OK. Hoje em dia o grupo mantém as mesmas
características. Nunca teve nada a ver com o movimento
gay. As pessoas que o compõe fazem bailes, fazem
shows de música. Porém, elas nunca quiseram fazer um
movimento atuante no processo de reflexão social. Elas
visam muito mais a busca do prazer. Neste sentido, os
considero mais interessantes. Muitas pessoas conhecem
esse grupo que não tem nada a ver com política. Nunca
participaram de nenhuma central comum operária.

Antes de iniciar o capítulo dedicado ao movimento homossexual - tema ao


qual os colaboradores tecem o segundo maior fluxo de comentários -, não pude
deixar de prestar atenção às histórias sobre os grupos que precedem à militância gay.
Os relatos possuem um forte vigor em comprovar que antes dos anos setenta havia

108
ABREU, Caio Fernando. O Ovo Apunhalado. São Paulo: Siciliano, 1992. p. 115.

122
pessoas que formavam coletivos onde poderiam expressar sua homossexualidade.109
Tradicionalmente isso acontecia na forma de festas, fãs clubes de cantoras de rádio e
tinham como único objetivo a diversão.
David I. Gottlieb possui uma reflexão sobre a preferência dos indivíduos pela
companhia dos iguais. O autor sugere que a primeira preocupação dos homossexuais
é encontrar alguém semelhante para a convivência. Esta situação se daria porque é
mais fácil criar vínculos de identificação social. Assim, quando um homossexual se
encontra com outros tem condições de experimentar e explorar aspectos relacionados
à convivência social.110
Em face dessa constatação, o autor concebe o termo: homossociabilidade.111
Gottlieb acredita que a “homossociabilidade” tratar-se-ia de uma necessidade
comum a qualquer ser humano, independente de sua orientação sexual. Neste caso, o
autor sugere a idéia de que existem indivíduos “homossociais”.
Os colaboradores recuperam histórias sobre espaços de convivência
homossexual parecidos com as características esboçadas por Gottlieb. João Carlos
Rodrigues foi o colaborador que dedicou o maior espaço de sua narrativa à descrição
de grupos com essas características:
João Carlos Rodrigues - [...] caso se pense com rigor,
será que as pessoas que se reuniam por causa da
Emilinha Borba não formavam um grupo de gays!? Na
verdade era!! Conheci os membros, fiz um vídeo sobre
eles... conheci Emilinha Borba! São pessoas que se

109
Esta questão é tratada por Néstor Perlongher quando o autor acompanha as transformações nos
espaços de convivência homossexual em São Paulo. Perlongher, Néstor. O Negócio do Michê. São
Paulo: Brasiliense, 1986. p. 68-107. Peter Fry também deve ser citado, pois refere-se a maneira
como Di Paula, por volta de 1962, manufaturava um jornalzinho satírico chamado FOTOS E
FOFOCAS que dava notícias sobre os homossexuais da Bahia e que ajudou a criar vários grupos
exclusivos com um interesse em comum pela homossexualidade. FRY, Peter. “História da
Imprensa Baiana” in: Lampião da Esquina. Rio de Janeiro: setembro de 1978, ano I, Nº 4, p. 4. Há
ainda a tese de doutorado de James Naylor Green que contém um levantamento minucioso dos
espaços de convivência homossexual nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro desde o final do
século XIX até a década de setenta do século XX. GREEN, James Naylor. Beyond Carnival:
homosexuality in Twentieth-Century Brazil. UCLA: Los Angeles, 1996.
110
DAVID I. GOTTLIEB, M. D. The Gays Tapes. New York: Day Books, 1977. p. 165.
111
Ibidem.

123
conhecem desde os anos cinqüenta... até hoje têm
clubes! Eles não têm mais sede, não têm mais nada, mas
se reúnem para fazer festinhas. Uma vez perguntei a um
membro, não me lembro o nome dele agora, mas ele
falou que nos anos cinqüenta o único lugar onde se
podia dar pinta, dar gritos - e não acontecia nada -, era
no fã clube da Emilinha Borba. Na platéia da Marlene
também. Embora a Marlene tenha mais fãs mulheres do
que homens. A Emilinha é esmagadoramente o
contrário, quase todos são gays de classe média baixa.
Talvez, isso tenha sido um embrião de algo mais
organizado. Dar festas periodicamente, reunir-se, é algo
organizado. Na época, talvez eles não tivessem a noção
de que eram organizados, mas no meu modo de ver eles
eram. [....]

A conjuntura de forte repressão que precede os anos setenta, contudo,


conduzia os homossexuais a levarem uma vida mais discreta, não podendo ter
liberdade de expressão, nem manifestar publicamente sua sexualidade, pois não
havia condições que lhes possibilitassem ser aceitos pela sociedade.
Luiz Carlos Lacerda, José Fernando Bastos e João Antônio Mascarenhas
recuperam fatos para falar sobre a repressão dos homossexuais:
Luiz Carlos Lacerda - Estava acostumado a ver os
garotos que apedrejavam a bicha louca na rua. Nos anos
cinqüenta assisti linchamento de gays em Copacabana -
terríveis -, pelo fato do cara ser efeminado ou ter um
brinquinho. Às vezes, um travesti, ou mesmo uma bicha
louca que morava por ali era arrebentado. Chegavam
uns machões e começavam a dar socos na cara até tirar
sangue!! Algo parecido com A Farra do Boi... só que
com um homossexual.
José Fernando Bastos - No Brasil, há um fato que não
cheguei a presenciar, mas havia um delegado no Rio de
Janeiro chamado Padilha. Na época que as calças eram
justas, ele usava uma laranja para fazer um teste. Ao
parar duas pessoas na rua, ele botava a laranja na calça
da pessoa, caso a laranja não descesse, então ele prendia
a pessoa porque não se podia usar calças justas.
João Antônio Mascarenhas - No Rio, era possível
levar uma vida de liberdade. Eu, apesar de ter aceitado
minha homossexualidade, não tive, de chofre, a coragem

124
de assumi-la publicamente. [...] Entre a faca e a parede,
abria o jogo, mas empenhava-me em evitar a
necessidade de uma definição./ A situação faca/parede
aconteceu poucas vezes, pois, há, no Brasil um modo de
viver muito hipócrita: a filosofia do “você-faz-que-se-
esconde-e-eu-faço-que-não-vejo”. Isso, pessoalmente,
àquela época, favoreceu-me, pois sou - ou penso ser - do
tipo “homossexual discreto”.

No Brasil, apesar dos limites impostos a expressão da homossexualidade, os


indivíduos organizaram espaços ou formaram grupos que tinham a
homossexualidade como fator de aglutinação. A grande novidade, segundo Edward
MacRae, foi o surgimento de uma atitude que deixava de lado um certo sentimento
de culpa - bastante comum entre os homossexuais até metade da década de setenta -,
e que preparou o debate público que transformou as concepções referentes à questão
da homossexualidade.112
Nesse aspecto, é importante ressaltar as impressões de João Antônio
Mascarenhas no tocante as transformações que lhe pareceram mais sensíveis:
João Antônio Mascarenhas - [...] não observo
nenhuma diferença entre os anos cinqüenta, sessenta e a
contemporaneidade. Havia boates gays, bailes gays...
havia pessoas que davam festinhas. Nunca fui à
festinhas porque não é do meu temperamento, mas era
muito comum. No Brasil, noto uma única diferença em
relação aos homossexuais - superficial, mas importante -
, não pelo o que ela é atualmente, mas pelo que foi e
ainda está se semeando: o tratamento do tema nos meios
de comunicação social e nos meios intelectualizados. A
diferença está nesse nível, aparecem assuntos nos
jornais que seriam inconcebíveis naquele tempo. A
mídia... como gostam de dizer hoje em dia, e os
intelectuais - macaqueando os americanos -, acreditam
ser de bom tom não ter preconceito. Antes não havia
essa reserva, as pessoas podiam ter preconceito
abertamente... até descaradamente! Ele era aceito com a
maior naturalidade, às vezes era considerado como uma
atitude elogiável. Porém, no que se refere à massa... não
observo qualquer diferença!/ Quando digo “a massa”,
112
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 49-50.

125
não estou falando no sentido político... na questão do
operário, mas, sim, da maioria da população, em geral.
A situação continua igual, somente uma partezinha da
sociedade... esse pessoal dos meios de comunicação
social, os intelectuais e alguns políticos - em geral
pessoas de classe média - esses mudaram... mas isso não
é muito. Naquela época, não havia nenhuma
possibilidade de trabalhar com a homossexualidade no
Brasil. Isso era uma coisa que nem me passava pela
cabeça. No Brasil de quarenta anos atrás não havia
clima para um jornal como o Lampião [...]

2. As Vozes Multiplicadas.

Para Louis Wirth, numa comunidade composta por um grande número de


indivíduos, que não se conhecem intimamente, torna-se necessário efetuar a
comunicação por meios indiretos e articular os interesses individuais. Parte da
organização dos habitantes das grandes cidades é retirada da influência exercida
pelos meios de comunicação sobre os indivíduos. 113
Esta idéia é importante para compreendermos a influência dos meios
comunicativos para a estruturação dos grupos homossexuais, tanta no final dos anos
setenta como no início dos anos oitenta.
Celso Curi, editor da Coluna do Meio, apresenta-se como precursor da
liberação homossexual mais interna, com propostas de afastar o sentimento de culpa
em nível de vivência pessoal:
Celso Curi - Acredito que hoje consiga ver claramente a
importância da coluna... porque na época estava
visceralmente ligado ao trabalho. Não possuía a
compreensão necessária para saber o que fazia. Anos
depois, em 1986, quando dei um depoimento para uma
matéria comemorativa aos dez anos do movimento
homossexual brasileiro, perguntei ao entrevistador: "-
Tudo bem, mas em que você está se baseando para
definir esse dado?". Ele respondeu sem hesitar: "- Na

113
WIRTH, Louis.“O Urbanismo como Modo de Vida.”In: VELHO, Otávio Guilherme (org.) O
Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973. p. 102.

126
publicação da Coluna do Meio". Ele considerava a
Coluna do Meio o ponto que deu início ao movimento
no Brasil. [...] No Brasil, as pessoas fingiam que o
problema não era delas. Uma visão completamente
diferente da existente nos Estados Unidos. Lá, as
pessoas possuíam consciência que o governo atuava
contra a orientação homossexual delas. Aqui era o
oposto... ninguém assumia essa consciência. Desejava-
se a liberação da homossexualidade, mas se a mãe
soubesse era motivo de vergonha. Quanto a essa
problemática, uma de minhas discussões, feita no
decorrer da "abertura política", refere-se a Família e a
Igreja enquanto emperradores da libertação do
homossexual./ Havia um grande controle para o não se
assumir. No caso da Igreja não podia porque era
pecado... e no caso da Família porque a mãe não podia
saber. Essas duas instituições emperravam a vivência do
homossexual [...] Não era uma questão política, nem de
regras e nem de leis: era uma questão puramente interna
e pessoal. A Coluna do Meio tentava formar a
consciência de que a liberação só ocorreria depois da
própria libertação. Não há movimento homossexual de
cima para baixo. Isso não significa que se deva gritar ao
mundo a própria opção, mas assumir internamente...
sem este pressuposto não havia como iniciar um
movimento.

A imprensa alternativa, como já foi descrito no capítulo anterior, multiplica-se


rapidamente no decorrer dos anos setenta. Em meio a esse processo surge o jornal
Lampião da Esquina, publicação que adotou os valores da Contracultura com o
objetivo de enfocar a questão das minorias, mas que na prática voltou-se ao debate
sobre a homossexualidade. 114
Outro aspecto, que também já foi abordado, refere à importância do jornal em
publicar matérias que vieram a politizar a questão homossexual, apesar dos desvelos
do corpo de editores em relação aos grupos de militância. Um jornal do tipo
underground, segundo as características descritas por Sue March, representa um
meio útil à troca de informações, assim como ao despertar da consciência dos

114
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 75-77.

127
leitores.115 Enquanto órgão crítico, o Lampião caminha nesse sentido. O jornal
incrementa um público leitor, semeando idéias sobre atuação política e
homossexualidade no Brasil.

3. A divisão das Vozes.

João Silvério Trevisan ajudou a formar o SOMOS/SP baseado nas idéias que
trouxe do auto-exílio, também conseguiu sucesso ao projeta-las como membro do
Conselho Editorial no jornal Lampião. Ele exercia uma grande influência sobre o
público leitor, escrevendo artigos onde defendia a dissolução de todas as formas de
poder. Apesar de ter sido militante de organizações ligadas à esquerda (Ação
Popular, POLOP), estas o deixaram desiludido.116 Esse sentimento de desencanto
está presente nas narrativas que recuperam experiências negativas ou de desilusão
com as posturas esquerdistas. Entretanto, os grupos homossexuais originalmente
eram organizados por pessoas que passaram por esses movimentos.
Para compreendermos a reserva que uma parte dos militantes passa a
expressar, podemos apontar algumas causas que estão na origem dessa dissidência,
como: preconceito em relação à homossexualidade; impossibilidade de expressão da
própria identidade sexual; e discordância com a estrutura centralizadora dessas
organizações.117
A leitura de Fernando Gabeira é importante, pois ajuda a esclarecer este
descontentamento. Por ocasião de uma visita dos redatores do Lampião para uma
entrevista, o autor escreve suas impressões, sendo meio irônico ao achá-los

115
MARCH, Sue. Libertação Homossexual. São Paulo: Nova Época Editorial. p. 75.
116
MACRAE, Edward. Op. cit., p.186.
117
Além da obra de Edward MacRae, (idem, p. 90), podemos observar a origem destes argumentos
nas narrativas dos colaboradores que são dissidentes das organizações de esquerda e vão buscar
nos movimentos minoritários uma forma de expressão de suas necessidades, tendo como
preocupação comum a homossexualidade.

128
desconfiados de um ex-guerrilheiro urbano que se comprometera profundamente
com a esquerda.
Gabeira lembra que a experiência dos homossexuais com as organizações do
período os colocavam de sobreaviso pelo fato delas considerarem prioritárias as
revoluções econômica e política, achando que a questão sexual só poderia ser tocada
com o tempo, assim mesmo cuidadosamente. Nesse sentido, a esquerda apresentava
uma fórmula sutil de colocar sua censura sobre a discussão do assunto.118
A narrativa de João Silvério Trevisan é emblemática, pois sua trajetória
elucida os motivos do desencanto com os grupos de esquerda e nutre sua
argumentação. Ele conta como vivenciou a contestação cultural e o Gay Liberation,
quando foi em auto-exílio para os Estados Unidos, e após seu retorno ao Brasil como
se confrontou com uma esquerda que ainda não aceitava a discussão da
homossexualidade, visto que na prática ela priorizava o debate sobre a “luta de
classes”.
A crítica de João Silvério Trevisan se endereça à centralização e ao valor que
a esquerda depositava no proletariado:
João Silvério Trevisan - A “luta maior” era a luta do
proletariado que não podia sofrer nenhum tipo de
ruptura... e nós estávamos ameaçando sua unidade. A
nossa reflexão era a seguinte: "- Se você é proletário ou
não, sendo preto, você vai ser discriminado. Se você é
proletário ou não, pobre ou não, você sendo mulher,
você vai ser discriminada. É verdade que se você for
pobre, mulher e preta, você vai ser ainda mais
discriminada, porém existem muitas mulheres burguesas
que apanham do marido, ou seja, são problemas que
ultrapassam a questão da classe. Deste modo, a luta de
classes não pode ser uma varinha mágica que explique
todas as questões da sociedade e ponto final". O nosso
problema era esse: os problemas da sociedade moderna
não se esgotam na questão da luta de classes. Com essa
reflexão nós dizíamos que o movimento homossexual
não tinha que se filiar ao movimento proletário: os

118
GABEIRA, Fernando. Entradas e Bandeiras. 13a. ed. Rio de Janeiro: Ed. Codecri, 1981.p. 97-
99.

129
homossexuais são donos da sua própria voz. Os que
quisessem poderiam ser de esquerda, mas o nosso
tratava-se de um movimento autônomo.

Desde que surgiram, os grupos “minoritários” possuíam pontos em comum


com as organizações populares do período da “abertura”. Edward MacRae busca o
texto “Movimentos Sociais: a construção da cidadania” de Eunice Duhram,
publicado em 1984, para recuperar a forma como essas organizações começaram a
aparecer na periferia das grandes cidades, consagrando-se à exigência da resolução
de suas carências coletivas. Os grupos relacionados às questões “minoritárias” ou às
organizações populares - apesar da composição heterogênea -, procuravam enfatizar
a igualdade de seus integrantes, ocultando em seu seio as distinções de classe,
denominação religiosa e filiação partidária.119
Alexandre Ribondi retoma essas características quando descreve as
experiências com o primeiro grupo de atuação homossexual em Brasília:
Alexandre Ribondi - No Beijo Livre não importava se
era de direita, se era de esquerda, se era rico, se era
pobre, se era preto, se era branco!!! Nós tínhamos de
tudo no grupo! Havia pessoas do movimento organizado
clandestino, havia resquícios disso! Militares que não
apareciam uniformizados na reunião, mas sabíamos que
eram militares de direita! Pessoas da Igreja Católica - a
mais conservadora possível -, que nunca poderiam
imaginar estar com um comunista porque senão
estrebuchava de pavor da idéia, derretia feito o diabo
dentro da Igreja!!![...] Nós tínhamos todas essas pessoas
no grupo! Não fazia sentido falar de partido político,
nem era saudável! Senão, nós perderíamos muita gente.
[...] No grupo tínhamos algumas pessoas de classe A,
mas a grande maioria era pessoas de classe média-média
e classe média-baixa, chegando à classe pobre: pessoas
que nunca poderiam ir à universidade. É incrível como
conseguíamos reunir uma gama tão variada de pessoas!
Isso criava problemas dentro do grupo. Nas festinhas, as
bichas da classe A odiavam quando chegava a pretinha,
feinha, que morava lá longe no Gama. O Gama é um

119
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 111-112.

130
bairro bem pobre de Brasília. Então, nós que éramos a
cabeça do grupo, ficávamos nos esforçando para ser
simpáticos, mas aquela situação cansava muito!!/
Nunca passou pela cabeça dos membros do Beijo Livre
entrar para um partido, nem nada parecido com isso!
Éramos absolutamente autônomos porque o
denominador comum era a homossexualidade! Não era
essa a proposta do Beijo Livre, porém, enquanto
organização talvez precisássemos aprender com um
partido! Não tínhamos organização nenhuma... era uma
bagunça!! [...] Entretanto, o partido seria a nossa morte,
seria o nosso fim!! Talvez tenhamos deixado de existir
porque o grupo era autônomo demais!!

A década de setenta presenciou o crescimento de um outro caminho para a


atividade política. Os movimentos sociais deste período surgiram com o propósito de
resolver problemas específicos, desenvolvendo formas de convivência e participação
que eram consideradas positivas por si mesmas. Podemos indicar ainda que havia
uma insistência na autonomia destas lutas em relação às organizações de cunho
político-partidário, assim como à atuação fora dos partidos políticos e dos sindicatos.
Para tanto, os movimentos sociais dos anos setenta procuravam evitar qualquer
interferência de agentes externos e se encontravam em estado de permanente
desconfiança a respeito de qualquer tentativa de manipulação. O SOMOS/SP surgiu
no curso desse período e no início de sua história adotou essas características. 120
Durante o ano de 1979, ocorreu a semana de debates sobre as minorias na
USP. As discussões centravam-se nos grupos que lutavam contra a discriminação no
Brasil: negros, mulheres, índios e homossexuais. Os debates foram realizados no
Depto. de Ciências Sociais, sendo que a questão homossexual foi tratada no dia 8 de
fevereiro de 1979.121
João Silvério Trevisan conserva o tom de satisfação quando narra esta
passagem:

120
Idem, p. 125-126.
121
Idem, p. 108-109; ver também TREVISAN, João Silvério. Op. cit., 206-207.

131
João Silvério Trevisan - Na verdade, o que aconteceu
foi que o Centro Acadêmico resolveu abrir pela primeira
vez o debate sobre as tais "minorias" - outro termo que
nos fazia rir porque reduzia as mulheres a uma minoria;
apesar da sociedade brasileira estar todinha perpassada
pela negritude, os negros também eram “minoria” - mas
isto aqui não seria o Brasil se não houvesse o samba,
todo o gingado negro na cultura brasileira produzido
pela "minoria". Em todo caso, era a palavra usada na
época. Havia uma noite para a discussão com os negros,
uma noite para a discussão com as mulheres, uma noite
para a discussão com os índios e uma noite para
discussão com os homossexuais. Lembro que na noite
anterior à nossa os negros tinham sido massacrados,
justamente por essa defesa da sua autonomia. O
auditório estava lotado por gente que queria nos
massacrar, acabar logo com essas “minorias”. Eu conto
isso no Devassos no Paraíso. Essa noite foi um embate
claro e aberto, a “luta menor” contra a “luta maior”.
Davi lutando contra Golias. O debate foi absolutamente
brilhante porque a esquerda viu-se confrontada a partir
de um ponto-de-vista de esquerda.

Nesse corpo de relatos, as narrativas são marcadas por críticas aos grupos
com orientação stalinista, porém certas vezes ganham um tom que atinge
indistintamente todas as tendências esquerdistas:
Glauco Mattoso - Numa conjuntura de direita, a
questão homossexual não teria espaço para ser
discutida. [...] Por sua vez, a esquerda ainda estava
ortodoxa demais para permitir a inserção desse tipo de
discussão. Nesse sentido, era uma oportunidade
interessante desses intelectuais reverem os conceitos da
esquerda.[...] Lembro-me que questionava-se muito a
especificidade, uma palavra muito usada na época,
primeiro para colocar a esquerda contra a parede, como
quem diz: "- Vocês não são a parcela mais progressista
da sociedade? Não são vocês que apontam para o futuro
mais igualitário e menos opressor da humanidade? Não
são vocês que levantam essa bandeira? Então, vocês
terão que admitir a causa homossexual e digeri-la de
alguma forma. Não só a causa homossexual, pois terão
de reconhecê-la enquanto causa específica de uma
determinada 'minoria' ". Usava-se esse termo, ainda que

132
entre aspas. Assim, como existia a "minoria"
homossexual, existia também a dos índios, como a dos
negros que não se trata de uma "minoria" tanto quanto
as mulheres. Essas eram as chamadas "minorias" que se
resumiam na palavra especificidade./ Achava ótimo o
questionamento da ortodoxia da esquerda. Ela merecia
ser escarmentada, visto que os maiores massacres de
homossexuais ocorreram sob regime de esquerda [...]

Enquanto uma parte abandona a chamada “luta maior”, a outra procura


reavaliar as estratégias da esquerda. James Naylor Green também tinha passado pela
militância esquerdista, mas ao contrário de Trevisan nunca se desiludiu.122 Esta
dualidade aponta duas perspectivas políticas - compreensíveis quando ouvimos as
trajetórias de vida -, cuja contraposição ajuda a entender a cisão que veio a ocorrer
no grupo SOMOS/SP.
No depoimento James Green revela que não ignorava o destino reservado aos
homossexuais nos países sob orientação stalinista, porém conservou elos com os
grupos trotskistas que se contrapunham às práticas adotadas pela União Soviética e
por Cuba. Antônio Carlos Moreira tece um comentário que reflete a posição adotada
pelos trotskistas no que se refere ao interesse dessa tendência esquerdista pelas lutas
minoritárias:
Antônio Carlos Moreira - Sobre o fato da esquerda
querer cooptar os homossexuais, havia a Convergência...
os trotskistas sempre se interessavam pelas causas
minoritárias. Neste caso, não só homossexuais, como
negros, mulheres. Eles apoiavam a idéia trotskista da
revolução permanente. Quando Trotsky era parceiro de
Lênin, ele já colocava essas questões./ No Brasil, a
Convergência Socialista tentava fazer isso. Tanto é que
dentro da Convergência tinha uma facção gay, tinha um
núcleo feminista. Era engraçado porque no grupo
SOMOS de São Paulo existia uma facção que chegou a
sair: a Facção Gay da Convergência Socialista. Tratava-
se de um grupo trotskista que editava um jornal
chamado Versus... muito bom! Nos dez primeiros
números foi o melhor jornal de cultura editado no final
122
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 186.

133
dos anos setenta. Parece que isso foi transferido para o
PT... a Convergência era uma das organizações que
compunham a colcha de retalhos deste partido.

James Green era ativista tanto do movimento homossexual quanto de grupos


com orientação trotskista. Ele idealizava a construção de um movimento
homossexual que lutasse pelos seus direitos - como no caso do movimento negro e
do movimento feminista -, porém defendia a aliança com outros setores como
sindicatos e partidos políticos. Na sua visão, quanto maior fosse o leque de alianças
maior seria a possibilidade de uma transformação global da sociedade.
No decorrer da trajetória do SOMOS/SP há um período em que James Green
passa a fazer algumas propostas. Porém, ele considera que três delas foram as mais
importantes. A primeira, em 1979, referente à formação de uma comissão de defesa
do Lampião, quando o Conselho Editorial foi enquadrado na Lei de Imprensa. Nesse
caso, a aliança com Lampião não seria uma novidade: o jornal ainda era simpático
aos grupos.
A segunda refere à participação do grupo na manifestação do dia de Zumbi
dos Palmares (ou Dia Nacional da Consciência Negra), em 20 de novembro de 1979,
quando os membros do grupo foram participar em uma mobilização convocada pelo
Movimento Negro Unificado: este fato é importante, pois foi a primeira aparição
pública do SOMOS/SP. Nesta passeata os ativistas do SOMOS portavam uma faixa
onde se lia “Pelo fim da discriminação racial - SOMOS - Grupo de Afirmação
Homossexual”.123
Porém, a terceira proposta representou o prenúncio da divisão do grupo
SOMOS/SP: a participação dos homossexuais nas comemorações do 1º de Maio em
apoio à greve dos metalúrgicos do ABC.124 Esta proposta foi apresentada durante a
realização do Primeiro Encontro, junto com a proposta de criação de uma comissão
para coordenar o movimento homossexual brasileiro: as duas foram indeferidas.

123
Idem, p. 188-189.

134
É importante esclarecer que James Green tinha interesse na criação de
alianças com outros movimentos, contudo, durante sua narrativa sempre procurou
reavaliar o significado das posições que adotou naquele período:
James Naylor Green - Sempre reivindiquei essa
posição dentro do SOMOS... [do diálogo com os outros
movimentos sociais] batalhava por este ponto de vista.
Isso causou divergências no próprio movimento
homossexual... inclusive uma ruptura total com
Trevisan. Ele possuía uma visão bem distinta sobre os
rumos do movimento, assim como uma grande crítica
tanto da esquerda em geral, quanto das pessoas que
participavam no movimento homossexual e nos grupos
de esquerda. Tínhamos perspectivas diferentes dentro do
ponto de vista político./ Quando faço um balanço do
meu trabalho naquela época, penso que talvez não
valorizasse suficientemente o que se chamava
“autonomia do movimento homossexual”. Entretanto, a
chamada autonomia significava que nenhum grupo da
esquerda poderia participar, mas os simpatizantes de
outras ideologias - fossem de cunho religioso, ou
simplesmente porque considerassem o PMDB um
partido legal, ou ainda possuíssem uma ideologia
anarquista - não havia problemas... poderiam freqüentar
a vontade! Porém, caso fosse uma visão de cunho
marxista, a admissão era vetada. O argumento era que a
esquerda poderia manipular ou dirigir o movimento[...]
Cada proposta que fiz, eu a fiz claramente ao grupo: “-
Que tal fazermos tal coisa?” Eram as pessoas que
decidiam. [...] Sempre pensava comigo: “- Como
podemos avançar o movimento? O que podemos
fazer?”... antes de tudo eram propostas. Por exemplo,
propus a criação de uma associação nacional de grupos
gays e lésbicos. Esta foi uma proposta que levei ao
Primeiro Encontro, fui altamente criticado porque
achavam que seria uma maneira de manobrar o
movimento, um discurso de poder ou uma forma de
algumas pessoas tomarem o poder do movimento.
Então, nem toquei mais no assunto, foi uma proposta
que foi para o lixo. [...]

124
Idem, p. 208-212.

135
Essa polarização ganha corpo durante o Primeiro Encontro de Grupos
Homossexuais. Basicamente, pode ser explicada através do debate em torno de duas
posições: uma delas acreditava que a emancipação homossexual dependia da
autonomia dos grupos perante as organizações político-partidárias de esquerda; a
outra se opunha a primeira por sustentar que a emancipação poderia ocorrer através
da aliança junto a essas organizações.125
Posteriormente, James Green levou a proposta de participação no ato de apoio
à greve dos metalúrgicos aos membros do SOMOS/SP. O Grupo SOMOS/SP que
inicialmente buscava evitar o aparecimento da heterogeneidade - uma característica
identificada na origem dos movimentos que surgiram durante os anos setenta -,
começa a perder sua constituição original e a apresentar posições ideológicas
antagônicas entre seus integrantes.126
No tocante a esta questão, Alexandre Ribondi reflete sobre a divisão das
vozes no grupo SOMOS/SP fazendo uma comparação com o grupo Beijo Livre de
Brasília:
Alexandre Ribondi - [...] O SOMOS/SP emanava a
imagem de um grupo muito antipático! Gostava muito
das pessoas que estavam no grupo, mas chegou um
momento que o SOMOS/SP se tornou um partido
político. [...] O grupo tinha necessidades próprias para
se manter, as quais não eram as necessidades de seus
membros! O SOMOS/SP ficou muito parecido com um
partido, enquanto que os outros grupos eram mais
humildes. O próprio Beijo Livre estava mais preocupado
com o bem-estar das pessoas que participavam do
grupo, com a alegria das pessoas irem se reunir, bater
papo e dar boas gargalhadas lá dentro, do que com a
própria existência do Beijo Livre. O SOMOS/SP era
muito preocupado com a própria imagem dele: SOMOS.
Ao meu ver, essa era a característica do SOMOS/SP.

125
Idem, p. 199.
126
Idem, p. 187.

136
4. Duas Versões: Racha ou Retirada?

A leitura das narrativas esboça o nível de relações que existia entre os


integrantes do SOMOS/SP. Apesar dos objetivos políticos serem díspares, os
membros permaneceram juntos até o fracionamento do grupo em maio de 1980.127
Na contemporaneidade, ao ouvimos as narrativas - dedicadas a recuperar os
acontecimentos sobre o processo de divisão das vozes -, podemos sentir o peso das
experiências dos colaboradores quando compreendemos suas trajetórias individuais.
Os argumentos refletem diferentes situações de confronto com o autoritarismo e com
os momentos de silêncio que vivenciaram:
João Silvério Trevisan - Continuo acreditando que a
grande responsável por toda essa situação foi a esquerda
brasileira, uma esquerda absolutamente autoritária e
centralizadora, uma esquerda que usa como referencial
algo que ela diz odiar: a Igreja Católica. Eu, que saí de
um seminário, sei muito bem como certos valores da
instituição eclesiástica continuam - talvez apenas com
novos nomes - dentro da esquerda. [...] somente a
máscara é trocada, mas continuamos a ser vítimas da
mesma repressão secular... que vem caindo sobre os
homossexuais por motivos que continuam os mesmos.
[...] Nesse sentido, eu me rebelei contra a Igreja e contra
os partidos de esquerda - acredito ser absolutamente
conseqüente comigo mesmo -, e me rebelei contra o
movimento homossexual, no momento em que percebi
sua tendência em criar uma crosta de instituição.

Edward MacRae acompanhou todos estes fatos como membro do


SOMOS/SP, assim como pesquisador participante do movimento homossexual. À
época, ele produzia uma pesquisa que veio a ser publicada com o título “A
Construção da Igualdade”. Sob os limites da investigação científica, ele reserva-se a
manter a postura de antropólogo, suprimindo sua participação enquanto membro do

127
Idem, p. 214-215.

137
grupo. Porém, durante sua narrativa - livre do compromisso acadêmico -, deixa afluir
aspectos sobre sua posição enquanto militante do SOMOS/SP:
Edward MacRae - Embora eu fosse amigo do Jimmy,
percebi que ele realmente queria manipular o SOMOS,
havia documentos que falavam a esse respeito, e fiquei
indignado. Porém, a forma como as pessoas propuseram
o racha também era manipuladora. Eles colocavam o
Jimmy e pessoas afins como demônios. Desta forma,
também não concordava porque eu não era anti-
socialista. No fundo, tive toda uma vivência a favor do
socialismo, fiz parte de muitos grupos com tradição
socialista na Inglaterra. Na época da guerrilha no
Araguaia, era simpático aos guerrilheiros. Escrevia
boletins para a faculdade onde estudava na Inglaterra
quando ocorreu a luta armada no Brasil [...] Naquele
momento, nós ainda vivíamos numa ditadura, a qual era
o cúmulo. Realmente, a primeira questão era lutar pela
liberdade sexual, pela liberdade homossexual, talvez
fosse até a mais importante... concordava com isso.
Porém, colocar-se contra a esquerda, contra a luta para
dissolver o poder daquele sistema autoritário, era
demais para minha compreensão... também não
concordava com esta posição, era contra isso.

Apesar da existência de sérias discordâncias que levam a divisão do grupo,


tanto em nível pessoal quanto político, James Naylor Green procura justificar suas
posições, enfatizando que as prioridades ideológicas não provocaram um “racha”
(expressão utilizada para categorizar a cisão do SOMOS/SP), mas viabilizaram uma
“retirada”:
James Naylor Green - Não houve manipulação, em
determinados momentos fiz minhas propostas, chamei
as pessoas por telefone para defender minhas posições,
mas isso é normal em qualquer associação. Com certeza
outras pessoas fizeram a mesma coisa... certeza porque
eles resolveram se retirar do SOMOS. Para mim é
importante deixar claro: não foi um racha, mas uma
retirada. As pessoas se retiraram do grupo porque
tinham outro projeto e o SOMOS seguiu com seu
projeto.

138
5. As Vozes Femininas se despedem.

O movimento homossexual, como vimos, surgiu no seio de uma ampla


contestação, cuja efervescência alterou as concepções de prática política e criou
condições para a reunião de indivíduos com diversos perfis. As diferenças - como as
de classe, religião, raça, sexo -, eram suprimidas entre os participantes desses
grupos. Essa composição reunia homens e mulheres, apesar do número de mulheres
não ser equivalente ao de homens. Elas formavam um coletivo menor dentro de um
movimento que permaneceu predominantemente masculino.128
Dolores Rodriguez reconhece esse problema durante sua narrativa:
Dolores Rodriguez - Se fizermos uma pesquisa sobre
os grupos homossexuais daquela época, perceberemos
que a participação da mulher era minoritária. No
SOMOS/RJ tinha 98% de homens e 2% de mulheres.
Hoje em dia o movimento feminista cresceu muito, mas
a participação das militantes homossexuais ainda é
muito pequena. A mulher não tem o histórico do
discurso, estamos aprendendo isso agora. É recente a
história das mulheres irem a luta, brigar, estar
participando do mundo masculino... O mundo que
temos, é um mundo masculino.

O sexismo não desaparecera e a tensões se desenvolveram ulteriormente,


provocando as críticas das mulheres que militavam nesses grupos. As lésbicas se
sentiram suficientemente diferentes e começaram a apontar as limitações das
estratégias adotadas pela militância homossexual. Quando o movimento conseguiu
respeitabilidade política entre os setores progressistas, a questão passou a ser
encarada de forma mais positiva pelo movimento feminista que passou a aceitar a
questão da homossexualidade feminina.129
Posteriormente, o efeito da aliança entre as lésbicas e o movimento feminista
conduziu a separação das mulheres homossexuais para a composição de grupos

128
Idem, p. 252.
129
Idem, p. 264-265.

139
específicos. Elas buscavam escapar do machismo dos homens para trabalhar suas
condições específicas. Surgiu assim uma personagem que era discriminada por
questão de sexo e de orientação sexual.130
Dentro do grupo SOMOS/SP, especificamente, as lésbicas acabaram
assumindo as posturas feministas e se cimentou uma possibilidade de unanimidade
em volta da luta contra o “machismo”. O grupo de mulheres surgiu na época em que
se reuniram para publicar um artigo sobre lesbianismo para o Lampião. Dessa
reunião surgiu a idéia de formar um subgrupo dentro do SOMOS/SP que veio a se
chamar Grupo Lésbico Feminista.131
Luiz Mott, em sua narrativa, reconstrói a questão do separatismo das
mulheres após um incidente ocorrido durante a gravação da entrevista:
Luiz Mott - [...] Na única reunião do grupo SOMOS
que participei, há quinze anos atrás... se não me engano
na Politécnica da USP, fiquei chocado com o
separatismo lésbico./ Nessa reunião, estava a Alice do
Coletivo das Feministas Lésbicas de São Paulo... aquela
que a poucos instantes interrompeu esse depoimento,
reclamando pelo fato de estarmos ocupando uma mesa
no cantinho de um salão - enorme - de exposição sobre
visibilidade lésbica... para ela nós estaríamos
atrapalhando a exposição. É lastimável a incompreensão
desta pessoa, presente desde o começo do movimento
homossexual. Porém, nessa reunião também estavam o
Edward MacRae, o Jorge Beloqui e outros líderes. Eu
era um dos mais novos, mas já era uma pessoa mais ou
menos visível. O GGB já havia sido fundado, era um
grupo que estava se salientando... talvez já tivesse um
ano de existência! As lésbicas se colocavam numa
posição de se acharem mal contempladas... diziam ser
alvo de discriminação. Queriam se separar para ter
maior visibilidade. De fato, elas se separaram do
SOMOS para fundar o GALF (Grupo de Atuação
Lésbico-Feminista)... o primeiro grupo lésbico.

130
FACCHINI, Regina. Ativismo Social e Sexualidade no Brasil: a militância e prestação de
serviços. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para a obtenção do bacharelado em
Sociologia. Escola de Sociologia e Política: São Paulo, dezembro de 1995. p. 68-69.
131
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 246-247.

140
As mulheres decidem sair do SOMOS/SP no período das divergências que
surgiram entre os homens, com exceção de duas, uma delas era Alice que aparece na
narrativa de Luiz Mott.132 A questão das disputas ideológicas, entre os homens, era
vista como algo que não as atingia enquanto mulheres. É importante dizer que elas
estiveram presentes na manifestação do 1º de Maio, em apoio à greve dos
metalúrgicos, pois haviam se comprometido com o movimento feminista.133 Desta
forma, optaram por sair do grupo e formar um coletivo independente. Essa separação
dá origem a trajetória do movimento lésbico brasileiro.134
Edward MacRae baseado nas experiências nutridas por sua trajetória comenta
como não se surpreendeu perante o fato:
Edward MacRae - Quando as mulheres do SOMOS
decidiram sair para formar o Grupo Lésbico-Feminista,
houve muita reação contra, fiquei chateado porque havia
algumas mulheres das quais gostava muito, não poderia
vê-las com freqüência, mas entendia a postura delas.
Estava acostumado com essa idéia do feminismo
separatista na Inglaterra... isso se deve muito à minha
formação inglesa.

6. Os Espaços de Silêncio.

É importante explicar que nem todas as especificidades foram abordadas. O


que começou como processo de libertação amplo, acabou enfatizando o debate sobre
determinadas questões enquanto inviabilizava a menor menção de outras. Isso ficou
claro com as brigas que surgiram no seio do SOMOS/SP. Apesar do grupo
preocupar-se em questionar os padrões impostos pela sociedade tradicional, a
perspectiva individual de alguns participantes ficou obnubilada em função do
coletivo.

132
Idem, p. 215-216.
133
Idem, p. 253.
134
FACCHINI, Regina. Op. cit., p. 09.

141
Essa questão retornou durante a narrativa de Glauco Mattoso. O colaborador
recuperou um tema que não mereceu espaço de debate dentro do SOMOS/SP,
embasado por um teor crítico perspicaz relatou a experiência em consentir o silêncio
sobre algumas questões:
Glauco Mattoso - [...] Os grupos homossexuais por
mais que trabalhassem a especificidade dentro da
especificidade, por exemplo a questão lésbica dentro da
questão homossexual, entre outras, nunca chegaram
àquilo que realmente interessava à especificidade maior:
o indivíduo./ Não poderia ser injusto com o movimento
homossexual, exigindo-o além das condições que
poderia proporcionar. Levando em consideração a
mentalidade da época, foi o máximo que se pôde
oferecer... também me incluo nesse grupo. Apesar de
termos colaborado, escrito, formado grupos de debate,
participado de passeatas e seminários, enfim, de tudo o
que foi possível. Do ponto de vista pessoal muita coisa
deixou a desejar. O grupo não respondeu a todas as
indagações. No meu caso, por exemplo, a especificidade
se voltava a um tipo de desejo que tive pouca chance de
encontrar dentro do universo gay: a pedolatria.

Os grupos homossexuais, segundo Glauco Mattoso, por mais que


trabalhassem a especificidade, não conseguiram encaminhar a discussão de temas
minoritários dentro da própria questão homossexual. A pedolatria e o
sadomasoquismo ficaram aquém desse debate e até foram alvo de discriminação,
porém não havia escapatória para esse caso específico através da formação de
grupos:
Glauco Mattoso - Como isso [pedolatria e
sadomasoquismo] é extremamente minoritário,
acontecia uma discriminação, algo que os homossexuais
tanto condenavam nos heterossexuais. Contudo, eles
também discriminavam. Enquanto estive nesses grupos,
nunca me manifestei totalmente. Sabia que seria
discriminado. Teoricamente não levantei de forma
explícita a questão da pedolatria, mas gostaria de tê-lo
feito. Não havia espaço para essa discussão, por causa
das questões consideradas mais candentes e prioritárias.
Sentia que os homossexuais não queriam ser

142
discriminados pela maioria heterossexual, porém
discriminavam a minoria dentro do próprio segmento. A
minoria que gostava de alguma coisa diferente.[...]

Glauco Mattoso ocupou o espaço literário para falar sobre os temas que não
eram tratados pelo movimento homossexual, preferindo uma abordagem mais
humorística e irônica das questões cobertas pelo silêncio. Nos anos seguintes
continuou sua luta apresentando temas sérios através de obras como O Manual do
Pedólatra Amador135 e Glaucomix:136
Glauco Mattoso - Na minha poesia e literatura sempre
abordei a questão do pé. Isso porém sempre foi visto de
uma forma caricatural, satírica, nunca se levou
suficientemente a sério. As pessoas tomavam esse tema
por motivo de riso. Por um lado, estava correto porque
sou também um humorista, procurei provocar o riso nas
pessoas. Por outro, gostaria de ter sido levado um pouco
mais a sério. Ressinto-me de morar num país latino-
americano. Nessas horas é difícil, porque não se
encontra diálogo com as pessoas. Num país anglo-saxão
existe uma palavra que realmente é expressiva:
"Excêntrico". Caso morasse lá, seria um cara excêntrico
porque gosto de algo menos praticado. Embora a
excentricidade seja tachada assim, acredita-se nela. As
pessoas qualificam de excêntrico, mas não duvidam...
esse problema existe aqui. O fato de uma preferência ser
muito diferente pode até gerar a qualificação de
excêntrico, mas as pessoas não a levam a sério. Não
acreditam, acham que trata-se de uma brincadeira. Em
alguns momentos estive brincando, mas havia horas que
não queria brincar.

A literatura conseguiu romper as vozes que não se sobressaíram no seio do


movimento homossexual. Face às leis brasileiras, alguns assuntos permaneceram
num silêncio maior, como foi o caso da pederastia. Roberto Piva nunca participou

135
Este livro está presente na bibliografia. Ele compõe o corpo de leituras que fiz para esboçar o
projeto, junto com Devassos no Paraíso de João Silvério Trevisan e A Construção da Igualdade de
Edward MacRae.
136
MATTOSO & MARCATTI. As Aventuras de Glaucomix: o pedólatra. São Paulo: Ed.
Expressão, 1986.

143
dos grupos de militância, pois sustentava uma visão do prazer baseada na
valorização do modelo greco-romano de relacionamento entre homem e rapaz.137
Essa forma de conceber uma relação não se aproximava dos ideais propagados pelos
grupos homossexuais de militância:
Roberto Piva “[...] prevalecia aquele modelo
Bofe/Bicha e meu universo nunca foi isso./ Nunca fui
atrás dessas bobagens de querer bofe.[...] Apesar de que
nessa comunidade, especificamente, quem gosta de
garoto é banido. Passa a compor uma minoria dentro da
minoria porque fala uma outra linguagem. [...] O João
Silvério Trevisan foi um dos poucos que me incluiu na
literatura homossexual brasileira, porque a maioria não
inclui. [...]”

7. Os órfãos do Lampião.

A imprensa alternativa sofre uma transformação substancial com o final do


processo da “abertura”. Jornais de resistência política, por exemplo, passam a ser
institucionalizados junto aos sindicatos e aos partidos, outros têm sua linguagem
apropriada pelas grandes empresas jornalísticas.138 O Lampião da Esquina encerra
suas atividades em junho de 1981.139 Porém, as discussões encaminhadas pelo
tablóide somente ganham as páginas da grande imprensa no final dos anos oitenta.
Com o processo de democratização, o público homossexual não encontra
respaldo do debate realizado pelo Lampião em nenhum jornal. Este aspecto foi
recuperado pelas narrativas que prestam atenção ao fato da imprensa não abrir suas
páginas ao tema:

137
A definição pederastia que aflui da narrativa de Roberto Piva está associada a própria origem da
palavra grega: Paed significa menino e Erasta significa Amante. O termo tem origem na Grécia do
século IV a.C., onde os adolescentes púberes eram amados por homens adultos para serem
introduzidos nos ramos do desenvolvimento moral, intelectual e militar. BUFFIÈRE, Félix. Eros
Adolescent. Paris: Societè D’Edition, 1980.
138
As características foram apresentadas nas narrativas, porém com a leitura da obra Jornalistas e
Revolucionários de Bernardo Kucinski pude visualizar o tratamento que o autor elabora sobre o
processo de transição. KUCINSKI, Bernardo. Op. cit. p. 121-127.
139
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 92.

144
João Silvério Trevisan - Acredito que o aspecto mais
triste do Lampião foi não ser ouvido nas discussões
políticas mais importantes que se faziam na época. Nós
não pudemos entrar na conversa, e a nossa discussão
tinha elementos da maior importância, tanto que hoje
[1994] uma série de temas abordados no Lampião são
encontrados em qualquer jornal do país. [...]
Antônio Carlos Moreira - O Lampião morreu antes do
tempo! No que diz respeito à discussão política, naquele
tempo a grande imprensa estava tomando o espaço da
imprensa alternativa. O que aparecia nas páginas do
Opinião, do Movimento passaram para as páginas
políticas do JB e da Folha de São Paulo, ou para os
suplementos especiais desses jornais. Porém, a questão
do comportamento, em relação à homossexualidade, só
começa a aparecer no final dos anos oitenta. [...]
Alceste Pinheiro - O mercado não conseguiu absorver
um jornal com as características do Lampião. Houve
várias expressões presentes na imprensa alternativa,
como o jornalismo de oposição, tipo social democrata
ou centro esquerda, esse era o caso do Movimento, que
foram perfeitamente incorporados com o processo de
democratização. [...] Agora nos anos noventa, a Folha
de São Paulo desenvolveu formas de se dirigir ao
público homossexual.[...]
Luiz Carlos Lacerda - Quando o Lampião pára de ser
publicado, os grandes jornais não se apropriaram do
estilo do jornal. Acho que demorou muito para a grande
imprensa, incluindo a televisão, absorvê-lo. [...]
Alexandre Ribondi - No que se refere ao final do ciclo
da imprensa alternativa, enquanto as publicações de
outros jornais alternativos serão absorvidas pela grande
imprensa, o mesmo não acontece com o Lampião. Não
houve essa absorção.

A idéia de que o jornal contribuiu à afirmação da identidade homossexual,


enquanto debate promovido pelos grupos de militância, possui o efeito contrário
quando acontece a extinção do Lampião. Antônio Carlos Moreira comenta sobre o
esvaziamento dos grupos após o término do jornal, porém mantém muitas reservas
sobre essa relação:
Antônio Carlos Moreira - Assim que terminou o
Lampião, o movimento começou a se fracionar. É

145
engraçado porque o Lampião não tinha uma gerência,
mas quando o jornal acaba, começa o fracionamento dos
grupos. No Rio, o SOMOS/RJ se esvazia
assustadoramente, em São Paulo o SOMOS/SP se
extingue. Parece-me que era o momento, talvez pudesse
ser alguma coisa conjuntural, mas que não sei precisar!
Talvez com a “abertura”! Acho forçado dizer que o fim
do jornal tenha provocado o esvaziamento dos grupos...
jamais diria isso! Formalmente, esse jornal não adotava
essa postura. O jornal e o movimento estavam
distanciados. Nesse final do Lampião, nem notícia de
grupo tinha mais! O Aguinaldo não queria saber de
grupo nem pintado na sua frente. [...]

Apesar dos desvelos do jornal em relação aos grupos homossexuais,140 o


ativismo perde o único veículo nacional que, entre outras coisas, divulgava
informações sobre as atividades dos grupos existentes no país. Alexandre Ribondi é
enfático ao considerar o que o final do Lampião representou para o movimento
homossexual:
Alexandre Ribondi - Quando o Lampião acabou, o
Beijo Livre ainda conseguiu se reunir. O grupo acabou
naturalmente. As pessoas foram se dispersando,
continuaram amigas. [...] Quando o Lampião deixa de
existir, ele deixa muita gente órfã. Todo mundo ficou
órfão porque acabou tudo! Todo mundo se recolheu, os
grupos deixaram de existir. Não se passou mais a
discutir homossexualidade. [...] Quando o Lampião
deixa de existir, os grupos deixaram de existir e os que
existiam, nós não tínhamos como saber deles!! Desta
forma, era como se eles não existissem. Eles não tinham
efeito, não tinham importância. Nesse sentido, o Brasil
ficou órfão quando o Lampião acabou!!! O Lampião foi
um jornal muito importante da minha vida,
extremamente importante!!

140
Esses aspectos foram tratados no capítulo anterior e servem como referência para
compreendermos o clima das expectativas pessoais quanto ao papel que o Lampião deveria ocupar

146
8. Às vésperas do Caos.

Na época em que o país estava saindo da ditadura militar as notícias sobre a


AIDS chegaram ao Brasil, poucos anos depois dos grupos homossexuais emergirem
no cenário político. Isso provocou um refluxo: a questão homossexual começou a ser
atropelada pela crise da AIDS. A síndrome coincidentemente fazia suas primeiras
vítimas nesse meio. Em abril de 1983, foi divulgada a existência de dois casos no
Rio de Janeiro, mas com a divulgação morte de Marcos Vinícius Resende
(Marquito), vitimado pela AIDS no mês de julho, a epidemia foi anunciada para os
brasileiros.141
Qualquer discussão mais sofisticada sobre o modo de vida homossexual
passou a ser associada ao perigo de propagação do vírus. Todo o debate resultante do
período da contestação sobre liberdade parecia estar comprometido.142 Tudo
começava a mudar: a AIDS transformava a homossexualidade numa questão de
saúde.
A AIDS entra no mercado de informações como uma “peste gay”, sendo
divulgada de forma exaustiva e sensacionalista. Era percebida como uma doença
exclusivamente homossexual, o que estabeleceu um grupo de altíssimo risco e
transformou-se num elemento de discriminação. O tom das notícias criou pânico
entre a população que se via ameaçada pelo risco de contaminação pelos
homossexuais.143
No decorrer dos anos oitenta preponderava um clima que anunciava o
desaparecimento da homossexualidade. Não no que se refere às práticas sexuais, mas
de sua saída do cenário público através de “um declínio manso e quase

141
SILVA, Lindinalva Laurindo. AIDS e Homossexualidade em São Paulo. Dissertação de
Mestrado em Antropologia, PUC: São Paulo: 1986. p. 02.
142
POLLAK, Michael. Os Homossexuais e a AIDS. São Paulo: Estação Liberdade, 1990. p. 11-12.
143
SILVA, Lindinalva Laurindo. Op. cit., p. 02.

147
imperceptível”.144 As análises acerca desse processo, assim como as notícias
divulgadas pelos meios de comunicação, sugeriam “uma coincidência mórbida entre
um maximum de atividade sexual e a emergência da AIDS que utilizava o contato
entre os corpos para se expandir”.145
Numa viagem realizada aos Estados Unidos, logo na origem da AIDS,
Edward MacRae vivenciou o processo de descoberta dos grupos homossexuais
norte-americanos em face da doença:
Edward MacRae - Em 1982 ou 83, um velho
conhecido, editor da Revista Ícaro, me telefonou
perguntando se queria passar uns três ou quatro dias em
Nova Iorque. Era para cobrir um congresso de agências
de viagem para a revista. [...] Quando cheguei à Nova
Iorque, toda a defesa em nome do desbunde que li a
respeito já não estava mais do mesmo jeito. [...] Na
imprensa gay americana se lia “A Festa Acabou”. Em
questão de um ano havia mudado tudo, estava diferente
do que tinha lido antes. Parece-me que o vírus ainda não
tinha sido isolado. O movimento gay estava todo
voltado à questão da AIDS. Então percebi que era uma
coisa séria.[...]

O Lampião deixou de circular dois anos antes do surgimento da AIDS, mas


suas idéias estavam vivas na consciência dos leitores que visitaram suas páginas. Na
fase inicial da síndrome, os homossexuais recebiam as informações sobre a AIDS
com desconfiança. Temia-se que o discurso médico se re-apropriasse da
homossexualidade e passasse a exercer sobre os indivíduos seu controle
institucional:146
Edward MacRae - Quando voltei ao Brasil, a idéia era
que se tratava de mais um complô médico. A questão
da AIDS era vista como outra fórmula pseudocientífica
para oprimir os homossexuais, fazê-los retornar às
margem. Muitos dos antigos militantes defendiam esse

144
PERLONGHER, Néstor. “O Desaparecimento da Homossexualidade”. In: Saúde e Loucura,
Nº 3, 1992, p. 38.
145
Idem, p. 40.
146
SOUZA, Pedro de. Op. cit., p. 28-30.

148
parecer. [...] houve momentos em que ocorreram
algumas discordâncias entre eu e os militantes, mas eles
eram pessoas inteligentes e logo começaram a perceber
os perigos que estavam correndo.[...]

Quando esta síndrome começou a fazer suas vítimas no segmento


homossexual - apesar das divergências entre os militantes -, os grupos brasileiros
também começaram a se dedicar à prevenção e ao tratamento da doença. A
organização dos ativistas foi a forma de reação adotada para fazer frente à AIDS.
Os homossexuais antevêem a onda de discriminação com o aparecimento da
síndrome. O enfraquecimento do movimento não impediu o Grupo Outra Coisa - a
dissidência que saiu do SOMOS/SP - de inaugurar, em conjunto com as autoridades
de Saúde de São Paulo, em julho de 1983, a prática de distribuição de panfletos para
o esclarecimento população e a prevenção comunitária:147
James Naylor Green - Não soube o que aconteceu com
Outra Coisa quando saí do país... em dezembro de 1981.
Depois descobri que o grupo Outra Coisa - que se
retirou do SOMOS - fez duas coisas extremamente
positivas: um guia gay que não era sectário, o grupo
publicou os nomes de todos os outros... neste ponto
achei excelente, gostei muito deste trabalho. Foi um dos
primeiros grupos a divulgar um panfleto sobre AIDS no
gueto.

Após o advento da AIDS, até a passagem dos anos oitenta para os anos
noventa, o movimento homossexual mostrava-se tímido e recolhido. Fundados nos
anos oitenta, O GGB, Grupo Gay da Bahia, e o GALF, Grupo de Atuação Lésbico-
Feminista, foram as únicas organizações homossexuais que restaram. Elas se
mantiveram durante todo esse período. O SOMOS/SP - primeiro grupo de militância
homossexual - encerrara suas atividades em 1983.148

147
SILVA, Lindinalva Laurindo. Op. cit., p. 3.
148
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 238.

149
O GGB, especificamente, protagoniza um trabalho que será retomado por
outros grupos que surgiram após a origem da AIDS:149
Luiz Mott - Fiz uma pequena bibliografia sobre AIDS
no Brasil. Modéstia parte, em 1982 o Grupo Gay da
Bahia foi a primeira ONG a iniciar a prevenção da
AIDS. Escrevi a primeira bibliografia sobre este tema.
Além disso, considero que meu trabalho sobre a
prevenção da AIDS no candomblé é pioneiro no Brasil...
se não me engano de 1990! No que se refere ainda ao
trabalho sobre a prevenção da AIDS, há o primeiro texto
em braile. Durante muito tempo, foi o único material
destinado especificamente aos cegos no Brasil.

A maioria dos homossexuais apresentava-se dispersa frente ao receio de ser


estigmatizada pela AIDS, porém aqueles que aceitaram os aspectos positivos da
identidade homossexual empenharam-se em campanhas de prevenção e tratamento
da doença. Neste ponto, é importante retomar uma das questões levantadas por
Jurandir Freire Costa. O autor, ao discutir o impacto da AIDS no imaginário social,
reconhece que as experiências iniciais de aceitação e revalorização da “identidade
homossexual” representam uma novidade cultural que o surgimento da AIDS veio
ajudar a consolidar.150
Em 1985 surgiu a primeira Organização Não Governamental ligada à AIDS: o
Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS (GAPA). O GAPA/SP era composto por
profissionais da área de saúde e por militantes de grupos homossexuais:151
Edward MacRae - Havia outras pessoas preocupadas
em pensar formas de prevenção à AIDS e de luta pelos
direitos dos homossexuais. Logo se formou o GAPA.
Também participei das primeiras reuniões deste grupo.
Face a AIDS, houve preocupações como as de um

149
TERTO JR, Veriano. “Homossexuais Soropositivos e Soropositivos Homossexuais: questões da
homossexualidade masculina em tempos de AIDS.” in: PARKER, Richard; BARBOSA, Regina
Maria (orgs) Sexualidades Brasileiras. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996. p. 94.
150
COSTA, Jurandir Freire. Op. cit. p. 167.
151
VALLINOTO, Tereza Christina. A Construção da Solidariedade: um estudo sobre a resposta
coletiva à AIDS. Dissertação de mestrado apresentada à escola Nacional de Saúde Pública da
Fundação Oswaldo Cruz: Rio de Janeiro Dezembro de 1991. p. 35.

150
ataque às conquistas conseguidas pelo movimento
homossexual. A intenção era manter o terreno que já
tinha sido ganho.

James Naylor Green ressalta os nomes das pessoas que passaram pelos grupos
de militância e que depois se dedicarem ao trabalho de prevenção e tratamento da
doença. Elas atravessaram os anos oitenta como ativistas do movimento
homossexual:
James Naylor Green - Nos anos oitenta, os ativistas do
SOMOS e do grupo Outra Coisa - que rachou e fez mil
calúnias -, reivindicam sua militância e participaram do
movimento de esclarecimento e prevenção à AIDS. Há
pessoas participando ainda hoje, como Veriano que era
do grupo SOMOS/RJ, Jorge Beloqui que era do
SOMOS/Rio e São Paulo, John MacCarthy que estava
na fundação do SOMOS, outras pessoas como Míriam,
Alice e Mariza que eram do primeiro grupo lésbico e
ainda estão ativas. [...]

As ONGs-AIDS foram ocupando o cenário brasileiro a partir de meados dos


anos oitenta. Esses grupos emergem em um contexto que reflete o surgimento da
vida democrática no país. As ONGs-AIDS acompanham um processo de luta pela
cidadania em curso no Brasil.152 O segundo momento do movimento homossexual
brasileiro acontece na mesma época. Neste período a rigidez da ditadura militar não
existia mais, porém a chegada avassaladora da AIDS fomentava a discriminação.153
No início da propagação da epidemia, a AIDS se tornou parte da identidade e da
história dos homossexuais masculinos.
Celso Curi e Alceste Pinheiro, colaboradores que pautam suas narrativas pelo
perfil profissional em detrimento da militância, ao comentarem suas impressões
sobre a atuação do movimento homossexual brasileiro definem a crise da AIDS da
seguinte maneira:

152
Idem, p. 25.
153
SILVA, Cristina Luci Câmara da. Triângulo Rosa: a busca pela cidadania dos homossexuais.
IFCS-UFRJ: Rio de Janeiro, dissertação de mestrado, 1993. p. 53.

151
Celso Curi - [...] Caso não houvesse movimentos em
torno da AIDS, não haveria nenhum movimento
preocupado em pensar sobre a homossexualidade no
Brasil. Parece que o movimento homossexual brasileiro
sempre está ligado a algum problema.
Alceste Pinheiro - Atualmente, observo algum sentido
no movimento homossexual por causa da AIDS. A ação
do Luiz Mott no Grupo Gay da Bahia. Ele tem uma ação
específica como o combate à AIDS... mas na grande
maioria do movimento não observo nenhuma discussão
relevante.[...]

Essa situação só foi transformada quando ocorreu uma mudança substancial


do quadro de infectados, isso gerou a alteração dos discursos que buscaram des-
homossexualisar a AIDS.154 Os discursos sobre a prevenção re-elaboram a noção de
“grupos de risco”, para apresentar a noção de “comportamento de risco”.155 O ponto
mais interessante, contudo, permanece sobre o acúmulo de forças e a reestruturação
dos grupos de militância após a crise da AIDS.

9. A Nova Ordem: as vozes perenes do sonho.

A compreensão de alguns aspectos da primeira onda do movimento


homossexual ajudara a construir uma distinção entre o ativismo praticado pelos
antigos grupos em relação à proposta elaborada pelos novos: os primeiros militantes
percebiam a questão homossexual como o estopim para uma revolução social mais
abrangente, enfatizando o lúdico, o inconformismo e a soberania das especificidades.

154
VALLINOTO, Tereza Christina. Op. cit., p. 102.
155
Segundo Ideraldo Luiz Beltrame, a noção de “comportamento de risco” ainda não representaria
o modelo eficiente para a educação e prevenção da AIDS, pois a mesma não comporta a
compreensão da diversidade de grupos e de comportamentos individuais que compõe o conjunto da
sociedade. O autor propõe que em termos de pensar sobre “práticas de risco”, torna-se possível
reconhecer o amplo leque de ações que possam predispor os indivíduos ao contato com o HIV.
Nesse sentido, as “práticas de risco” não estariam associadas a nenhuma predisposição atribuída a
grupos específicos e nem a comportamentos considerados desviantes. BELTRAME, Ideraldo Luiz.
Do Risco das Práticas às Práticas de Risco: em busca de uma nova categoria explicativa para a

152
Os grupos defendiam os ideais libertários, tanto explicitamente, através do
questionamento das relações sociais, quanto implicitamente, através dos seus ideais
de organização não-hierárquica.156
Edward MacRae e Alexandre Ribondi recuperam as características iniciais do
movimento homossexual, sobretudo quando falam da contestação das regras sociais:
Edward MacRae - O movimento homossexual
questionava a normalização do ato sexual. Existia até
um Slogan: “O Sexo Anal derruba o Capital”. A partir
do questionamento dos papéis de gênero se queria fazer
uma grande revolução, para implodir toda a estrutura,
minar por baixo a sociedade.[...]
Alexandre Ribondi - A homossexualidade era uma
forma de questionar os relacionamentos sociais: a
família, a herança! Havia um slogan dos homossexuais
que era: “O coito anal derruba o capital” Parece uma
grande piada, mas também foi um ponto sério porque o
coito anal não gera herdeiros, então não é possível
transmitir os bens. O coito anal abala a transmissão da
herança que deve circular dentro de uma família.
Acreditava-se também que o coito anal era uma das
grandes ameaças dos homossexuais ao sistema
capitalista... ao sistema de acumulação de bens! Desta
forma, as pessoas faziam propostas geniais através da
homossexualidade. Por exemplo: usar a
homossexualidade como arma de luta social.[...]

É preciso retomar Guy Hocquenghem para compreender os desdobramentos


vividos pelos militantes que continuaram a perseguir esse sonho. Segundo o autor, o
movimento homossexual postulava uma transformação íntima de uma personagem,
para libertá-la de seus temores, de sua marginalidade e finalmente ser inserida no
Estado.157 Para Hocquenghem, o movimento homossexual se viu pai de uma nova

prevenção da AIDS no Brasil. Dissertação de Mestrado apresentado a FSP-USP: São Paulo, julho
de 1997.
156
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 303.
157
HOCQUENGHEM, Guy. A Contestação Homossexual. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 18.

153
normalidade, cuja justificativa se apóia na inexistência da igualdade formal em nível
de direitos.158
Na medida em que esses grupos foram se transformando em organizações
institucionalizadas, cujo itinerário conduz à discussão pelos direitos baseados nas
carências - identificadas no seio dos novos movimentos sociais que começaram a
surgir -, os sucessos não devem ser concebidos como inclusão no poder estatal
(reforma), mas como outra alternativa que afluiu das experiências vividas em nível
histórico. Portanto, reforçar novas categorias ou identidades não seria simplesmente
uma normalização, mas - neste aspecto é preciso retomar Guattari -, uma tática
inteligente de resistência para fazer valer suas exigências.159
Ao longo dos anos oitenta o Grupo Gay da Bahia e o Grupo Triângulo Rosa,
formado em 1985, exigiram que o Estado os reconhecesse como agremiações
declaradamente homossexuais.160 O surgimento destas entidades pode ser observado,
em nível histórico, como uma mudança em relação aos grupos homossexuais da
primeira onda.
Nesse processo, a apropriação da identidade homossexual marcaria um
vínculo entre duas vidas: a aproximação de João Antônio Mascarenhas e Luiz Mott.
Ambos cimentam uma admiração mútua e cada um reconhece o trabalho realizado
pelo outro durante suas narrativas.
No caso de João Antônio Mascarenhas, a emergência da identidade
homossexual no cenário público brasileiro foi inspirada na literatura norte-americana
e inglesa. Este contato dá conhecimento do movimento homossexual nos países
anglo-saxões, então Mascarenhas passa a pensar sobre as perspectivas do
aparecimento de um movimento similar no Brasil. A primeira tentativa de execução
desse projeto foi através do Lampião, porém a preponderância da posição de
Aguinaldo Silva levou João Antônio Mascarenhas a sair do jornal. Com esse

158
Idem, p. 146.
159
GUATARI, Felix. Revolução Molecular. São Paulo: Brasiliense, 1981, p. 40-41.
160
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 301.

154
afastamento e a inexistência de grupos no Rio de Janeiro com os quais tivesse
afinidade, passou a colaborar com o Grupo Gay da Bahia.161
É dessa forma que João Antônio Mascarenhas relata como conheceu Luiz
Mott:
João Antônio Mascarenhas - Certa vez, fui a um
congresso... acho que era na Casa do Estudante
Universitário - CEU-, lá no morro da Viúva, e vi uma
sujeito do qual gostei. Ele me impressionou. Achei-o
uma pessoa séria: Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia.
Entrei em contato e passei a trabalhar com ele. Porém,
eu atuava no Rio de Janeiro e ele em Salvador. Eu
fazendo pesquisas e escrevendo cartas para ele, dando
palpites sobre orientação... essas coisas todas. Quando
foi em 1985, aproximava-se a questão da Constituinte,
assim achei melhor me desligar do Grupo Gay da
Bahia... no sentido de criar um grupo aqui no Rio. Foi
assim que nasceu o Triângulo Rosa.

Luiz Mott, por sua vez, faz avaliações sobre o trabalho que realizou enquanto
militante, mas reconhece que a origem do movimento homossexual brasileiro deve
ser atribuída a João Antônio Mascarenhas:
Luiz Mott - [...] Atualmente, sou o homossexual que
durante mais tempo, ininterruptamente, participa do
movimento homossexual. Era o João Antônio
Mascarenhas. Em 1977, ele foi o primeiro a ter a idéia
de organizar os homossexuais em nosso país, trazendo o
Winston Leyland ao Brasil - diretor da editora Gay
Sunshine - para fazer conferências sobre liberação
homossexual. [...] João Antônio Mascarenhas, considero
uma personalidade importantíssima, apesar de sua
personalidade elitista, pelo fato de ser uma pessoa que
possui bens, o seu perfeccionismo... mas é muito
generoso! Ele deu uma contribuição fundamental na
organização do Grupo Gay da Bahia, assim como em
outras atividades do movimento homossexual. [...]

161
SILVA, Cristina Luci Câmara da. Op. cit., p. 61.

155
10. Lapidar o Sonho até gerar a História.

O processo de luta foi em busca de outras saídas para diminuir a


discriminação contra os homossexuais, dialogando com partidos políticos,
instituições e organizações da sociedade civil. O poder jurídico passou a ser visto
como outra possibilidade de alterar a realidade, indicando um caminho que
perseguiu a mudança dos códigos e das leis.162
Ao adorarem a causa homossexual, João Antônio Mascarenhas e Luiz Mott
aliaram-se para fazer campanhas através dos grupos que representavam. Os trechos
das entrevistas de Luiz Mott e João Antônio Mascarenhas dedicados à atuação
enquanto militantes ocupam uma parte significativa de seus depoimentos. As
propostas apresentadas ainda em 1980, durante o Primeiro Encontro de Grupos
Homossexuais Organizados,163 foram retomadas para compor a trajetória de Luiz
Mott:
Luiz Mott - O Grupo Gay da Bahia, logo que foi
fundado, tomou como primeira campanha a luta contra o
parágrafo 302.0 - da classificação internacional de
doenças, da Organização Mundial de Saúde -, o qual
considerava o homossexualismo como desvio e
transtorno sexual. A partir de 1981, começamos a
campanha nacional. Conseguimos dezesseis mil
assinaturas, assim como o apoio de políticos
importantes: Franco Montoro, Ulisses Guimarães, Darcy
Ribeiro, entre outros; e o apoio de cinco associações
científicas - a favor da despatologização da
homossexualidade - que finalmente redundou na
principal vitória do movimento homossexual até agora.
Em 1985, o Conselho Federal de Medicina retirou a
homossexualidade da classificação de doenças.
Internacionalmente, esta alteração pela Organização
Mundial de Saúde só ocorreu no ano passado, em 1994.
Neste sentido, o Brasil se antecedeu em vários anos a
essa conquista internacional. [...]

162
Idem, p. 116.

156
João Antônio Mascarenhas, particularmente, dedica-se a relatar todo o
processo junto a Assembléia Constituinte em 1987-88,164 quando temas inéditos,
referentes à homossexualidade, foram debatidos no Congresso Nacional. Ele
reconhece a relevância desses fatos quando os recupera como parte da história
pessoal:
João Antônio Mascarenhas - Em 1987, pela primeira
vez - até agora a única! -, o Triângulo Rosa conseguiu ir
à Câmara Federal... ao Congresso Nacional Constituinte.
Lá, fiz exposição a duas subcomissões... parece que
isso foi em abril. O assunto foi levado a plenário e
fomos derrotados... a última votação na Assembléia
Nacional Constituinte foi em fevereiro de 1988. Fui à
Brasília... nunca um ativista gay tinha entrado no
Congresso Nacional como tal. Muito menos para fazer
uma exposição e ser sabatinado pelos parlamentares...
isso foi um escândalo! [...] Houve a votação no início de
1988, acho que foi janeiro ou fevereiro... fomos
derrotados. Nos fins de fevereiro e princípios de março
de 1988, saiu o primeiro projeto da Constituição
Federal. Por essa época, eu me afastei do grupo
Triângulo Rosa. Depois retomei quando se aproximava
a Revisão Constitucional. Porém, dizia que voltaria até
terminar a Revisão... qualquer que fosse o resultado. Na
Revisão, também fomos derrotados. Desta vez não
houve esse sucesso de escândalo... Com este nosso
trabalho, não conseguimos ser contemplados na
Constituição Federal, mas conseguimos em duas
Constituições estaduais: a de Sergipe e a de Mato
Grosso; e em 27 leis orgânicas municipais... inclusive
do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

11. As Histórias de Vida conjugam Sonhos.

As narrativas elucidam experiências que problematizam a atmosfera


divulgada pelos movimentos libertários. Os colaboradores expõe aspectos referentes
a formação política que permitem comparar a razão das diferenças e o motivo dos

163
MACRAE, Edward. Op. cit., p. 204.
164
SILVA, Cristina Luci Câmara da. Op. cit., p. 213.

157
esclarecimentos presentes nas narrativas. Neste ponto ainda, há a revelação do
silêncio que existia no seio do movimento homossexual em relação a determinados
temas. As narrativas com essa característica exploram a idéia de preponderância de
modelos de sexualidade que excluem outras possibilidades de expressão do prazer.
No que se refere as ações do movimento homossexual, é importante ressaltar
que os colaboradores esclarecem como os grupos sempre estiveram presentes e
realizando atividades. Neste ponto, em meio aos avanços e recuos, a
institucionalização e a luta contra a AIDS constituem etapas de um processo iniciado
na década de setenta. É interessante notar como as narrativas elucidam as posições
adotadas pelos colaboradores, enfocando como os conflitos e as ações que
realizaram durante suas trajetórias provocam um reflorescimento do movimento
homossexual brasileiro.

158
Capítulo 5
Em Razão do Sonho.

“Houve um silêncio embaraçoso, mas depois


conseguiram estabelecer o diálogo, comunicar-
se outra vez”165
Gasparino Damata

1. Os Pólos Positivos.

As histórias de vida sugerem um diálogo entre os colaboradores quando estes


refletem sobre suas posturas políticas e/ou acadêmicas. A produção científica ligada
à antropologia representa uma retomada importante. No Brasil, verificamos que no
campo da História Contemporânea nota-se a carência de trabalhos desenvolvidos a
partir da perspectiva do historiador. Exceção à regra, Celeste Zenha Guimarães
possuí o único trabalho que foge a esse contexto. Homossexualismo: Mitologias
Científicas, sua tese de doutorado, trata-se de uma rica reflexão sobre a produção
médico legal brasileira. A tese de Celeste Z. Guimarães recupera a implantação da
categoria “homossexual”, traçando uma relação com as origens do discurso
científico no país.166
Para tanto, identifica no Brasil republicano, pós-escravista, a qualificação da
competência científica, erigida em detrimento dos “saberes não científicos”. O saber
médico, segundo sua análise, ganha a hegemonia da ação - perpassado pela teoria da
organicidade -, para garantir o bom funcionamento social. A autora descreve como
até a metade do século XX o espaço das instituições médico-jurídicas brasileiras irá
além dos limites dos discursos sobre “homossexualismo”, transformando corpos em

165
DAMATA, Gasparino. Os Solteirões. Rio de Janeiro: Pallas, 1975. p. 198.
166
GUIMARÃES, Celeste Zenha. Homossexualismo: Mitologias Científicas. Tese de doutorado
apresentada ao Depto. de História da IFCH-UNICAMP, em maio de 1994.

159
espécimes aprisionadas em sanatórios e hospitais. Fato que compreendia a atuação
médica em conjunto com as instituições jurídicas e veio a exilar do contexto social
sujeitos, apresentados a luz da medicina, com tendências à prática criminosa e anti-
social. Nesse sentido, a medicina-legal elegia alguns “tipos” para atuar
exemplarmente contra o que entendia ser as causas da “degenerescência do sistema
social”.
Os limites de uma produção na área de História Contemporânea do Brasil,
contudo, não impediram o tratamento do tema com vistas a uma contextualização
histórica em outras áreas, cujas produções permitem fazer esse trabalho. A alusão à
época recente recai sobre os estudos antropológicos dos anos oitenta. A produção em
nível universitário, aqui cortejada, não pode ser apresentada como um mero reflexo
das histórias contadas por Luiz Mott, Peter Fry e Edward MacRae. Ela aparece como
um ponto significativo para outros colaboradores. O recurso em citar a mudança
ocorrida no meio universitário sobre a produção ligada à homossexualidade, tanto
em nível de teor qualitativo quanto quantitativo, realça a narrativa de João Antônio
Mascarenhas:
João Antônio Mascarenhas - Os livros sérios eram
sempre muito moralistas. No Brasil, somente de uns
quinze ou vinte anos para cá... especialmente nos
últimos dez anos, começou-se a se escrever mais sobre a
homossexualidade. Inclusive mais homossexuais
começam a escrever sobre a homossexualidade. Naquela
época, especialmente os homossexuais não se atreviam,
pois não queriam aparecer de peito aberto. [...] Na
universidade, de uns dez, vinte anos para cá, é muito
grande o número de teses, cujo núcleo se concentra no
tema homossexualidade.

Outro ponto significativo que permeia as narrativas refere ao papel dos


colaboradores em colocar suas vidas a serviço da perspectiva acadêmica:

Dolores Rodriguez - Surge assim uma literatura mais


voltada para o público gay, as universidades passam a

160
discutir a questão, as pessoas do Lampião são
convidadas para discutir o papel do jornal, os
movimentos sociais convidam membros do movimento
homossexual para debates nas faculdades, realmente,
começamos a discutir a homossexualidade. [...]

2. Um Debate Pululante.

Nas universidades, contudo, o debate teórico sobre a homossexualidade


gravitou em torno de duas perspectivas teóricas que se distinguem substancialmente:
uma delas ligada ao pressuposto do construcionismo social; e a outra ligada ao
pressuposto de essencialismo Neste item apresentarei a primeira perspectiva como
uma das posturas que as narrativas externam, assim será possível compará-las com
as trajetórias de colaboradores que não estão protegidas pelo véu acadêmico, mas
externam uma sintonia com o primeiro pressuposto quando falam de suas
experiências de vida. Essa sintonia aflora em considerações sobre a negação de uma
identidade específica que dê conta da realidade brasileira.
É preciso retomar alguns textos acadêmicos para recuperar esta perspectiva
teórica. Eles começam a ser produzidos a partir de 1982. O teor crítico não poupa
sequer o uso da palavra “homossexual”, apesar do uso do termo ser recorrente em
meio a diversas linhas preocupadas em dissipar a idéia de perenidade da palavra.
Esta perspectiva teórica insiste que a sexualidade deve ser compreendida enquanto
um fenômeno sócio-cultural e histórico.167

167
Segundo David Halperin, em 1992 fez cem anos que Charles Gilbert Chaddock recebeu os
créditos do Oxford English Dictionary por haver introduzido a palavra “homo-sexuality” na língua
inglesa. Os termos “homossexual” e “Homossexualidade”, contudo, apareceram impressos pela
primeira vez em 1869, em dois panfletos anônimos publicados em Leipzig. Compostos,
aparentemente, por Karl Maria Kertbeny. No que se refere ao período que precede 1892, não havia
recorrência ao termo homossexualidade, mas à expressão “inversão sexual”. Noutras palavras a
preferência sexual por uma pessoa do próprio sexo não era distinguida de outras formas de
inconformismo aos papéis sexuais. Halperin acredita que o desenvolvimento da cultura urbano-
industrial influiu no processo de formação das identidades sexuais modernas, recusando qualquer
possibilidade da existência de um gene que determine a orientação sexual. HALPERIN, David M.
One Hundred Years of Homosexuality. New York: Routledge, 1990. p. 15, 49.

161
Preocupações ligadas às transformações sócio-políticas, vividas pelo Brasil,
após a afluência dos movimentos de militância homossexual levaram Peter Fry e
Jean Claude Bernardet a produzirem artigos questionadores à perspectiva que
defende a gênese natural do comportamento homossexual. O primeiro autor reflete
sobre a contextualização local, cultural e histórica da sexualidade, contrapondo-se ao
modelo anglo-saxão que estabelece noções estanques como: heterossexualidade,
bissexualidade e homossexualidade.168 Enquanto Jean Claude Bernardet escreve
sobre a condição do “ser homossexual”, distinguindo-a do “estar homossexual”. Ele
procura discutir a inexistência de fronteiras neste sentido.169 Estas posições
contribuem à percepção crítica da palavra “homossexual”, quando discutem a
generalização que o termo propiciaria a percepção do fenômeno.
Esta postura é retomada durante a construção narrativa de Peter Fry, quando o
colaborador reflete sobre seu “olhar” estrangeiro - enquanto imigrante inglês e
antropólogo -, e sobre a forma como percebeu a vivência da sexualidade no Brasil:
Peter Fry - Eu achei o Brasil mais capaz de fazer vistas
grossas à homossexualidade, enquanto naquela época
era barra pesada ser homossexual na Inglaterra... basta
ver que o Brasil nunca teve uma legislação contrária à
homossexualidade. No Brasil atacava-se pelo argumento
da moral e dos bons costumes, mas não havia nenhum
artigo no código penal contra a homossexualidade... não
havia nenhuma legislação proibindo a
homossexualidade como na Inglaterra e nos Estados
Unidos.[...] Na década de setenta, há uma identidade
nítida na Inglaterra e nos Estados Unidos que se chama:
Homossexual. No Brasil a sexualidade masculina ainda
corre solta... precisa de muito menos para ser
comprovada. Não sei como é hoje em dia, mas era
perfeitamente comum o homem casado, com filhos,
transar com meninos e achar totalmente normal. Num

168
FRY, Peter. “Ser ou não ser homossexual, eis a questão”. in: Folhetim, Suplemento da Folha de
São Paulo, 10 de janeiro de 1982. Essa elaboração crítica ainda pode ser lida com todos os seus
argumentos quando escreve um prefácio apresentando o livro O Negócio do Michê de Néstor
Perlongher. PERLONGHER, Néstor. Op. cit., p. 11-15.
169
BERNARDET, Jean Claude. “Os homossexuais no momento de sua definição” in: Folhetim,
Suplemento da Folha de São Paulo, julho de 1982.

162
Brasil mais ou menos popular, estou convencido que era
outra coisa. No Brasil, um rapaz poderia manter relações
sexuais com outro homem sem deixar de ser homem...
achei isso interessante!

Alceste Pinheiro não é imigrante, mas sustenta a mesma posição no tocante a


inadaptabilidade da identidade homossexual à realidade brasileira. Essa sintonia é
fruto das expectativas dos colaboradores que não desejam abrir mão de aspectos
referentes à sua vida privada:
Alceste Pinheiro - No Brasil não houve política pública
contra homossexuais. Aqui existem posições
preconceituosas individuais, com sérias conseqüências
sobre a vida do indivíduo. Não me lembro de nenhuma
política repressiva à homossexualidade, nunca soube
que houvesse, na minha vida não assisti a qualquer
repressão acentuada, por exemplo, agressões físicas
como ocorreram nas unidades norte americanas, como
Stonewall em Nova Iorque./ Os ecos das idéias sobre
movimento homossexual são transportadas de um país
com legislação contra a homossexualidade. As formas
de luta norte-americanas acabaram se transferindo e as
preocupações são expressas assim: “- Ah! Se nos
Estados Unidos é assim porque então não trazer para o
Brasil”. Pelo simples fato que no Brasil não havia este
tipo de problema. [...]

Essas considerações arregimentam argumentos para a defesa de que a


tolerância da conduta homossexual sempre foi verificada na sociedade brasileira. Os
colaboradores expressam que a sexualidade no Brasil não comportaria normas, nem
valores capazes de solidificar segmentos como os que provêm dos países anglo-
saxões:
Roberto Piva - O Brasil é muito poligâmico, muito
bissexual. Essas divisões são muito esquisitas, muito
rígidas. Elas não cabem para o país do carnaval, onde
homem casado se veste de mulher... um escândalo para
determinados países protestantes. No Brasil predomina a
característica bissexual do orixá que o rege, Logun-Edé.
Esse orixá rege um povo do qual ele possui o arquétipo.

163
Um fator determinante à convivência pacífica com as regras sociais refere à
postura que adotam em nível pessoal:
Alceste Pinheiro - [...] Não me lembro na vida de ter
tido problema nenhum neste sentido. Todas as vezes que
fui discriminado, por ser homossexual, tinha muito mais
pena da pessoa que me discriminava. Nunca me senti
prejudicado e também não fico discutindo a minha
sexualidade. Não preciso dizer para ninguém que sou
bicha, mesmo porque ninguém tem nada a ver com isso.
Eu trepo com quem quero e não tenho que explicar isso
a ninguém.

Uma das conclusões que pode ser tirada dessa postura é que a vida privada
não é um artefato social supérfluo. A defesa da individualidade é uma operação
simples, pois ela é verdadeira e necessária em suas vidas.170 Uma segunda conclusão
está relacionada a auto-preservação. O teor crítico dedicado à imposição do processo
de assumir-se homossexual não condiz com suas expectativas pessoais e gera
respostas em diferentes níveis:
Peter Fry - Não sei se escrevi a este respeito no
Lampião, mas publiquei um artigo na Folha de São
Paulo que criou inimizades na época... escrevi um
ataque sério ao stalinismo sexual. Este sempre foi o meu
argumento... estar recusando a cristalização de uma
identidade que arrasava com as outras identidades.
Achava que isso não tinha nada a ver comigo. Essa idéia
de criar uma identidade, a qual elimina ou domina as
outras - ao meu ver - não era interessante. Os outros
fazem o que bem entendem, não quero enfiar nada na
goela de ninguém!... mas tenho muita raiva daqueles que
querem enfiar na minha... MUITA!!!
Alceste Pinheiro - Esta questão beira o ridículo,
acreditar na existência de um homossexualismo comum
a todos... isto não existe. Cada pessoa representa sua
própria vontade de trepar. Não dá para reunir este
universo de visões de mundo, de humanidade, da
própria sexualidade, de prazer sexual, de afetividade,
contido em cada ser humano, juntar tudo e dizer: “- Ah!
Homossexualismo é isso tudo”... isto não tem nem

170
COSTA, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 144.

164
sentido teórico.[...] Para as pessoas que participam
destes grupos deve ser ótimo. Algo parecido com uma
terapia. Deve haver um bom espaço de atenção e até de
ação. Entretanto, os resultados sempre serão limitados,
mesmo porque boa parte das pessoas não se sente
representada, nem gostaria de ter aquela representação...
às vezes nem gostaria de saber que ela existe. Eu não me
sinto representado por nenhum grupo deste tipo.[...]

O que chama a atenção nessas narrativas é a denúncia da identidade


homossexual como incapaz de contemplar a variedade de situações presentes na
vida. Não obstante, essas considerações refletem sobre o posicionamento político,
afluem argumentos contra o controle social que caminham para um senso crítico em
relação à categorização da sexualidade:
Peter Fry - No fundo também sou contra a divisão do
mundo através da criação de identidades estanques...
sou contra mesmo! [...] Se questiona como se resolve a
questão política, num mundo que caminha para a
estandardização... com representantes disso ou daquilo
no Congresso Nacional!! Na verdade, não tenho uma
posição que sustente... somente a da autonomia do
indivíduo. Provavelmente vou sustentar uma bandeira já
quase extinta. Assim, sou de uma posição muito anti-
popular e muito anti-natural. Vou carregar essa bandeira
do indivíduo. Para falar a verdade, acho que é uma
batalha perdida.
Roberto Piva - [...] Eu costumo dizer que a minha
revolução sexual foi feita aos cinco anos de idade.
Quem não fez sua revolução nessa idade, não vai fazer
nunca mais! Não faz sentido esperar que o governo,
através da constituição, garanta esse tipo de proteção.
Eu espero que isso não aconteça, porque senão tudo
quanto é gente vai achar que tem direito a usufruir de
um prazer celebrado pelos deuses. [...]

3. Contra o Mito da Tolerância.

A idéia da tolerância possui outra configuração quando é tratada pelos


colaboradores que não acreditam na sua existência. Para eles a população brasileira -

165
pretensamente liberada, permissiva e tolerante -, necessariamente não possuiria
valores como o respeito à aceitação do outro em sua diferença. Essa falsa tolerância
estaria fundamentada num silêncio que tende a obscurecer a existência real dos
conflitos sociais. Essas considerações tornam-se interessantes quando conduzem ao
desvelamento do silêncio que os defensores da individualidade parecem justificar.
João Carlos Rodrigues consegue cristalizar esse sentimento de impotência
diante dos mitos que apóiam a idéia de tolerância e que ainda não foram tratados
com rigor:
João Carlos Rodrigues - O mito da democracia racial
brasileira, acabou servindo para democratizar as
relações acerca da orientação sexual. Esse mito tem de
ser posto abaixo, tem de ser rediscutido. A sociedade,
muitas vezes, aceita mais facilmente um travesti do que
outro tipo de homossexual. É mais definido para a
cabeça de quem é careta, um homem que quer ser
mulher. Na verdade, o travesti pertuba menos o
ambiente do que um homem que quer ser gay. Neste
caso, apesar de tudo, o travesti é mais aceitável. Mulher
adora travesti, principalmente aqui no Rio. Programas
femininos, como da Hebe Camargo, sempre têm
travestis falando: “- Como cozinho para o meu marido.
Como faço não sei o que!? Os vestidos que minha mãe
costura!” Isso acabou sendo meio que aceito pela mídia.

A contrapartida à idéia de tolerância também vem na forma de apresentar


relatos sobre expressões do preconceito pelos quais os colaboradores passaram
durante a vida, em diferentes locais e por diversas razões:
Edward MacRae - Houve uma época que abriu uma
vaga para antropólogo na USP. A minha tese havia sido
apresentada lá, com nota dez foi e tudo ótimo, assim
candidatei-me. Eram vagas abertas em todos os níveis.
O primeiro teste era de currículo, para averiguar a
documentação. Fui excluído em nível de documentação,
o que era um absurdo porque possuía um doutorado,
sendo que pessoas com mestrado não tinham sido
excluídas... e isso para mim era óbvio, tratava-se de
puro preconceito. Fiquei profundamente irritado, além
de não entender.

166
Luiz Carlos Lacerda não acredita que a tendência à segregação seja o
caminho mais apropriado, porém recupera situações inusitadas com as quais se
deparou:
Luiz Carlos Lacerda - Por duas vezes, já levei porrada
na cara em boates. Uma vez foi num bar em Parati
porque estava beijando um cara. Achava que tinha esse
direito, pois ele vivia comigo. Estávamos dando um
beijo na boca, levantou um sujeito e me deu um soco na
cara. Mesmo assim, nunca abri mão de tentar exercer
esse direito. Outra vez foi numa boate heterossexual.
Todas as pessoas estavam dançando e fui dançar com
um cara que vivia comigo. Um segurança disse que não
podia. Questionei, afinal não estava fazendo nada. Virou
uma discussão, que foi uma loucura! Nesse sentido,
sempre fui um criador de caso. Sempre quis exercer
minha liberdade de ser, onde quer que estivesse. Ao
meu ver, esses guetos sempre foram um curral permitido
pela sociedade, para nós ficarmos ilhados e podermos
exercer essa liberdade permitida.

Do que foi dito podemos inferir que as experiências re-elaboradas pelos


colaboradores revelam uma desproporção: as atitudes que adotaram os
condicionaram a apreender e reproduzir a idéia de tolerância ou de rejeição. É
possível enumerar uma série de trechos referentes às manifestações de preconceito,
porém João Antônio Mascarenhas dá conta do significado da lenta evolução da
história política da homossexualidade no Brasil:
João Antônio Mascarenhas - A situação faca/parede
aconteceu poucas vezes, pois, há, no Brasil um modo de
viver muito hipócrita: a filosofia do “você-faz-que-se-
esconde-e-eu-faço-que-não-vejo”. Isso, pessoalmente,
àquela época, favoreceu-me, pois sou - ou penso ser - do
tipo “homossexual discreto”./Cabe notar que, no meu
entender, a referida hipocrisia é o fator que mais
prejudica o movimento de defesa dos direitos dos
homossexuais, pois mascara a realidade. Oprimido e
opressor concordam tacitamente em participar de um
jogo de esconde-esconde. Obviamente, quem perde é o

167
oprimido, o qual, por medo, é até capaz de agradecer ao
opressor. Lamentável, mas...

4. Outra Possibilidade de Reflexão.

Neste item é preciso retomar a outra perspectiva teórica, cuja reflexão


sustenta que os homossexuais compartilham da mesma “essência natural”.171 Essa
postura é importante posto que a história é evocada para afirmar a perenidade dos
homossexuais. A retomada e o continuum dessa idéia toma o preconceito como a
marca mais evidente da perseguição.172
A trabalho acadêmico de Luiz Mott é significativo, pois compreende a
importância da produção sobre a história da homossexualidade tanto em nível
acadêmico quanto político:
Luiz Mott - Com Peter Fry, tenho uma posição
extremamente crítica. Os trabalhos dele sobre
homossexualidade no Brasil pecam por uma falta de
visão política... na medida em que ele considera que a
pessoa está homossexual e que não é homossexual. Não
existe o ser homossexual, mas o estar homossexual.
Acho um equívoco! Se ele tem dúvidas quanto à
homossexualidade ser um definidor de sua própria
existência, para mim, assim como para milhões de gays
e lésbicas, o ser homossexual implica numa existência
distinta, não separada... numa alternativa a essa
sociedade heterossexista.

A alternativa, portanto, é classificar a homossexualidade como uma condição


que difere o indivíduo por causa de sua preferência por um parceiro do mesmo sexo.

171
Para aprofundar essa idéia é preciso retomar um dos argumentos do historiador John Boswell.
Na visão do autor é certo que não há palavras específicas na Grécia ou em Roma para designar as
categorias sexuais modernas, porém não cabe inferir que não houver outras formas de designação.
BOSWELL, John. “Hacia un enfoque amplio. Revoluciones universales y categorías
relativas a la sexualidad”. In: BOYERS, Steinery Robert. Homosexualidad: Literatura y
Politica. Madrid: Alianza Editorial, 1985. p. 53-54.
172
MOTT, Luiz R. B. O Sexo Proibido: escravos, gays e virgens nas garras da Inquisição.
Campinas: Papirus, 1988.

168
Nesse caso, as relações de preconceito são consideradas opressivas e anacrônicas -
por não respeitarem essa diferença -, e exigem mudanças radicais dos valores
sociais.173 A proposta de inserção dos homossexuais na sociedade se funda em
processos de integração junto às universidades, meios de comunicação, ações legais,
pois segundo esse posicionamento é importante fornecer respostas aos silêncios
fundados em todos os níveis institucionais:
Luiz Mott - A minha colaboração para o movimento
homossexual foi tanto prática, quanto intelectual. No
sentido de resgatar as histórias no passado, de realizar
bio-bibliografias de personagens célebres que
praticaram o homoerotismo. Em relação à história do
lesbianismo, descobri personagens, literatura, episódios
que até agora não tinham sido revelados. Para os
travestis também, na medida em que descobri o primeiro
travesti na história do Brasil. Francisco Manicongo, na
cidade Salvador em 1591. Portanto, em termos da
história da homossexualidade o meu trabalho serve de
fonte e servirá de inspiração para muitos outros
trabalhos.

A descoberta da relação pessoal/social, que caracterizou a contestação


homossexual, acabou produzindo a politização de uma escolha em nível de
existência. A apropriação de uma identidade sexual marcaria a distinção entre os
“grupos sujeitos” e os “grupos sujeitados”. O “grupo sujeito”, segundo Guattari,174
seria aquele que tem vocação para ser gerente de suas necessidades e se esforça para
ter um controle sobre sua conduta, enquanto o “grupo sujeitado” sofreria
hierarquização por causa do seu acomodamento à estrutura. Neste nível de
discussão, o “grupo sujeito” foge ao aprisionamento das normas conforme o acesso
que tem à fala.
João Carlos Rodrigues mantém uma distância crítica do movimento
homossexual, contudo, deposita nele seus anseios por instrumentos que garantam a

173
MISSE. Michel. O Estígma do Passivo Sexual. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979. p. 11.
174
GUATTARI, Félix. Op. cit., p. 92.

169
manutenção de todos os membros do sistema social, eliminando as carências que
ainda existem:
João Carlos Rodrigues - O Estado não persegue o
homossexual, mas também não o protege, nem toma
conhecimento. No Brasil, uma das provas que não existe
preconceito oficial contra homossexual, é a inexistência
de leis proibindo a prática Porém, uma das provas que
existe preconceito de grande parte da população, é o
número de pessoas assassinadas, ou roubadas, que ainda
acham que está tudo bem. [...] A reivindicação por uma
delegacia gay, inspirada na delegacia da mulher, poderia
ser algo reivindicado por estes grupos. Tendo em vista o
número de assassinatos existentes e que ninguém
soluciona!!! [...] O gay que é assaltado em sua casa não
tem lugar para dar queixa. Vira chacota de delegado./
Isso nunca foi pedido em nível de direitos, nem sequer
pensaram nessa idéia! Seria uma conquista política.
Parece algo maluco, um anarquista falar sobre a criação
de uma delegacia. [...] Acredito, porém, que se há um
serviço a fazer - não sou eu quem vou fazer -, é o desta
delegacia especializada, além de uma série de questões
essenciais. Só grupo consegue fazer, uma pessoa só,
duas ou três não adianta nada! Isso é: só grupo com
advogado! [...]

5. A Identidade de Cristal.

A categorização da sexualidade coincidiu com um universo que passou a ser


normalizado, independente das intenções dos atores em assumirem uma identidade
sexual. O capitalismo passou a invadir áreas cada vez mais extensas da sociedade e
conduziu a uma intensa comercialização da vida social, ganhando espaço nos meios
de comunicação e na indústria de divertimentos.175 A identidade homossexual foi
acompanhada por um estrato que se autonomizou através do consumo, promovendo

175
Delcio M. de Lima apóia-se no paradigma do Poder, teorizado por Foucault, para discutir como
a relação do capitalismo com o sexo criaram instrumentos mais sutis do que a repressão pura e
simples, recuperando como esse processo acontece no Brasil. LIMA, Delcio Monteiro de, Op. cit.
p. 56-58.

170
uma padronização do comportamento e produzindo mecanismos mais eficientes de
controle.
João Silvério Trevisan chama a atenção para este fenômeno já na década de
oitenta, quando fala sobre os resultados de comercialização do Lampião:
João Silvério Trevisan - [...] O Lampião tratava de
temas muito sérios, como a relação entre a Igreja e a
homossexualidade, mas esse sobre Cuba foi o mais
sério... porque era muito comprometedor [...] esse foi o
número que menos vendeu. No número seguinte saiu na
capa um homem pelado e esse foi o número que mais
vendeu.... então fiquei muito preocupado./ Eu já vinha
fazendo a crítica do meio homossexual. E isso foi mais
uma evidência de que o meio homossexual, tal como
acabou sendo socialmente constituído, foi feito para
consumir sexo e nada mais. Infelizmente, não há espaço
para outra coisa que não seja a putaria. Na época, já
desconfiava disso e acabei confirmando esse fato várias
vezes. Acredito piamente que ainda hoje temos os
mesmos problemas daquela época.[...]

As histórias de vida esboçam comentários sobre a expansão dos espaços


específicos de freqüência homossexual, traçando uma trajetória que caminha das
propostas de liberação individual - divulgadas no decorrer dos anos sessenta e
setenta -, e que foram seqüestradas pela massificação.
Alexandre Ribondi busca compreender como o direito de exercício da
individualidade se impôs com força particular através dos hábitos de consumo:
Alexandre Ribondi - Trata-se de um momento que
quinze anos depois podemos observar. O homossexual
de classe média ganha dinheiro, sabe que pode gastar
com sua homossexualidade, sem pedir licença a
ninguém!! [...] Acho que se trata de um subproduto de
uma discussão iniciada há muitos anos, da qual o
Lampião faz parte! Desta forma, o homossexual saber
que tem direito a ser homossexual, inclusive a gastar seu
dinheiro com a essencialidade dele. Penso que,
indiretamente, esses jornais criam uma maior
consciência, uma maior “vontade homossexual”, uma
maior abertura [...]

171
A idéia de liberdade ligada a uma economia de consumo é cortejada por
imagens que provêm dos meios de comunicação. A publicidade, neste caso, torna-se
uma referência que é retomada para exemplificar suas posições. É nesse sentido que
Antônio Carlos Moreira comenta sobre o hedonismo divulgado pelas revistas gays,
diferenciando essas publicações do Lampião, e sugerindo que face às exigências do
mercado qualquer compromisso com a história e com a sociedade são suprimidos:
Antônio Carlos Moreira - [...] O viado é mais um
consumidor do pedaço, mais um potencial de consumo a
ser explorado. A revista Sui Generis é isso: “- Somos
Consumidores”. Ao invés de ocorrer um movimento de
cidadãos, ocorre um movimento de consumidores. Não
interessa se inserir no plano social como indivíduo, mas
interessa se inserir no mercado enquanto consumidor.
Basta ler as pesquisas que indicam: “-Ah! Os
homossexuais não se casam, então, tem uma reserva de
dinheiro melhor para poder gastar consigo e com seus
namorados”./ É claro que isso acontece só para a parcela
de classe média para cima. [...] Não, o jornal e o
movimento não contribuíram para isso. Parece que isso
tem a ver com a questão da conjuntura atual [...] As
certezas políticas ruíram um pouco, abrindo-se espaço
para a questão do mercado. Hoje em dia, o mundo
inteiro fala em mercado. Ninguém fala mais em
cidadania, em país, a questão é o mercado. Como
fazemos parte do todo, nós também somos pegos por
esta forma mais hedonista.

Conforme o posicionamento que os colaboradores adotam, eles deixam


transparecer suas compreensões acerca da formação de um mercado “rotulado” e
dedicado a um público específico. Roberto Piva - que defende uma postura
contraposta à imposição de identidades estanques - revela-se profundamente crítico:
Roberto Piva - [...] Nos anos oitenta, a invenção do
modelo gay caracterizou o estilo americano da
homossexualidade. Esse modelo degradou a cultura
ritualística. As características da iniciação se perderam e
transformaram-se em algo amorfo, numa cultura de
massa. [...] O modelo gay norte-americano serve ao
consumo de massa, para poder fazer lobby de sauna,
refrigerante, marca de carro, jeans e tudo que possa ser

172
consumido. Eu acredito que essa divisão é fomentada
pela imprensa, fomentada pelos donos de boates
voltadas à clientela gay.

Podemos ler outras formas de compreensão sobre o uso da liberdade


individual. Neste aspecto ainda é possível visualizar que as trajetórias pautadas pelo
perfil profissional dedicam um franco incentivo a expansão do mercado gay:
Alceste Pinheiro - Nos Estados Unidos há agências de
viagens preparadas para um mercado segmentado. No
Brasil é uma burrice não haver isso. [...] As publicações
visando exclusivamente o mercado homossexual são
mal feitas. Tecnicamente são muito ruins porque não há
grana para fazê-las. As grandes editoras brasileiras
poderiam investir, como fazem as grandes editoras
americanas, detentoras de um mercado magnífico. E os
brasileiros não aproveitam este grande mercado. Estou
falando de um grande mercado de informação. Ninguém
absorveu esta área, não soube trabalhar ou não soube
fazer, talvez não se interessou, provavelmente por
razões de ordem moral e cultural.
José Fernando Bastos - O Grupo Gay da Bahia, por
exemplo, achava um absurdo eu escrever espetáculos de
travestis, os quais fizeram muito sucesso como: Gays
Girls, Hoolywood Gay. Eram espetáculos no auge do
Teatro Alaska, com Nélia Paula, a vedete Rogéria: os
melhores travestis do Brasil. O grupo achava que era
exploração! Na verdade, os artistas queriam se vestir de
mulher para trabalhar, então não havia nenhuma
exploração em fazer um texto para o espetáculo. Nós
tivemos alguns atritos, mas depois ficou tudo bem.[...]

O fato é que a identidade homossexual foi acompanhada por uma


padronização do processo de consumo no Brasil.176 Para Peter Fry esse
desdobramento parece não causar surpresas, no seu modo de apreciar a questão isso
já era algo previsível:

176
NASCIMENTO, Júlio César Cordeiro. “Ser homossexual no Brasil e não o “ser” homossexual
brasileiro” in: Revista Brasileira de Sexualidade Humana. SBRASH (Sociedade Brasileira de
Sexualidade Humana). vol. 7, 1996. p. 44-56.

173
Peter Fry - [...] o comércio sempre acompanha a
diferenciação social. Neste caso, sempre que se cria uma
nova identidade, logo vem um comércio atrás. O
comércio ajuda a cristalizar essas identidades... é muito
esperto! O bom produtor, junto com seu homem de
marketing, percebe os novos nichos sociais e dirige
produtos para aqueles nichos. Ao produzir esses
produtos, aparentemente consumidos nesses nichos, ele
vai reforçando-os./ O comércio ainda não o faz, mas irá
produzir bens visivelmente específicos para os negros,
por exemplo... é uma forma de reificar e cristalizar essa
idéia que o negro é diferente. [...] Aliás! O processo de
consumo, a produção e a concentração de identidades
estanques merecem mais estudos. As diferenças sociais -
sem dúvidas - sempre são marcadas pelas coisas que nos
pertencem.[...]

6. Um Diálogo do Presente.

No decorrer desse capítulo emerge um diálogo entre os colaboradores


referente às relações com a identidade homossexual. Primeiramente surgem as falas
que redargüem à categorização do comportamento sexual, baseadas em
considerações sobre o encarceramento inadequado de uma personagem sexual no
interior da cultura brasileira. A situação do país possibilitaria a expressão da conduta
homossexual desde que com recato e discrição.
O debate é incrementado pelos colaboradores que não acreditam no mito da
tolerância, visto que comportamento homossexual representaria uma divergência que
produz normas e valores diferentes daqueles amplamente aceitos. Por essa razão os
homossexuais constituiriam um grupo à parte, apesar da tolerância seriam
discriminados através de uma permanente rejeição acomodada na ausência de
mecanismos institucionais e presentes em atitudes de variada violência.
A classificação da preferência sexual surge como a possibilidade de definição
de uma causa, a qual acaba por produzir uma politização em nível de existência. A
contrapartida, porém, vem através do questionamento aos valores promovido pela

174
sociedade de consumo: a instituição da identidade daria origem a um mercado que
massifica hábitos e estabelece uma nova ordem de controle.
Esse diálogo é interessante porque sugere diferentes lições de vida sobre a
relação com a identidade homossexual. O fato dos colaboradores contarem relatos,
mais completos, da história de vida enriqueceu as peculiaridades de cada trajetória,
assim foi possível compreender a disparidade dos posicionamentos. Após recuperar
a trajetória do grupo é possível compreender que se trata de um debate pautado pelas
experiências de cada colaborador e que ainda se desdobra no tempo presente.

175
Conclusão
Considerações finais

Essa dissertação se insere numa postura de pesquisa - que abrange a área de


estudos históricos -, dedicada à História Oral. A História Oral expressa uma
possibilidade de trabalho com entrevistas gravadas que se inicia com a elaboração do
projeto e se desenvolve até a devolução pública do texto final. Esta postura foi
inspirada na produção acadêmica de pesquisadores como José Carlos Sebe Bom
Meihy, Daphne Patai, Dante M. C. Gallian, André Gattaz e Cristina Ferez, cujas
obras foram importantes para fecundar as idéias e o corpo dessa dissertação.
Na História Oral pode-se identificar as seguintes variações: História Oral
Temática, baseada em entrevistas direcionadas a um determinado assunto; Tradição
Oral que busca uma composição acerca das práticas culturais de uma determinada
sociedade; e História Oral de Vida que procura um depoimento mais completo sobre
as experiências individuais dos colaboradores. A terceira variação foi empregada
para a realização do texto que foi elaborado. O processo de confecção dos relatos de
história de vida passa por três etapas de trabalho com as palavras: transcrição,
textualização e transcriação, além dos cuidados éticos que são tomados na fase de
conferência dos textos com os colaboradores.
A parte mais importante da dissertação repousa nas próprias histórias de vida,
sem as quais não seria possível realizar a tabela de assuntos que dão substancia ao
texto. Este posicionamento frente à riqueza dos relatos de vida contribuiu ao recorte
temático, respeitando os depoimentos e privilegiando o valor que repousa nas
experiências vividas por cada colaborador. A opção por esse caminho tornou
possível relativizar e comparar as trajetórias individuais. Só então foi possível
compor a trajetória desse conjunto de vidas.

176
O trabalho com história oral de vida veio engrossar a idéia que o debate sobre
a homossexualidade é complexo, principalmente quando nos deparamos com a
heterogeneidade de imagens reveladas pelos colaboradores. Nesse sentido, é
importante enfatizar que quando compreendemos a singularidade de cada trajetória
mergulhamos na generalização que flutua acima do termo homossexual. Através da
audição das narrativas foi possível constatar que os colaboradores tecem diferentes
níveis de relação com essa identidade no que se refere à aceitação ou negação da
mesma, possibilitando a afluência de um debate que tem continuidade no presente e
cujo processo histórico não está acabado.
É importante concluir essa dissertação com dois comentários feitos durante os
depoimentos. O primeiro reflete a importância do trabalho com história oral e foi
mencionado quando Antônio Carlos Moreira fez a seguinte afirmação:
Antônio Carlos Moreira - O que lamento é que se
brigou muito, tanto no jornal quanto no movimento. As
brigas para ser a liderança é que matavam. Acho que
isso fez com que se realizasse pouco. Hoje todo mundo
comenta que foi importante: “- Ah! fantástico! Ainda na
ditadura teve um grupo com cem pessoas... Fizemos um
encontro!” Mas entendo que fez pouco e quase nada foi
registrado.

O segundo refere ao próprio espírito que move o oralista a ouvir os


depoimentos de história de vida. Alexandre Ribondi surpreendeu-me ao indagar
porque uma pessoa de São Paulo se deslocaria até Brasília para coletar seu
depoimento:
Alexandre Ribondi - [...] existe um preconceito
promovido pela história recente, pelo abuso de Brasília
existir com apenas trinta e cinco anos, pelo abuso de
Brasília ter se tornado a capital da República e tirado
esse título de outra grande cidade brasileira, pela tristeza
da história porque Brasília começa e, quatro anos
depois, se torna a capital de uma ditadura!!! [...] Nós
que trabalhamos em Brasília - com teatro, com
jornalismo -, não importa o que façamos em qualquer
área humana, rigorosamente não somos aceitos pelo

177
resto do país!! Não somos mesmo!!! [...] Quando você
me ligou para pedir: “- Como você foi do Lampião. Eu
queria te entrevistar!” E eu disse: “- Eu!? Mas cá tão
longe!? Por que eu!?” Não sei se você entendeu? Nós
mesmos de Brasília, acabamos incorporando o que o
resto do Brasil pensa sobre os brasilienses! Escrevia no
Lampião, ajudei a pensar, ajudei a formar os grupos
homossexuais organizados!! Participava de todas as
porras das reuniões!!! Apesar da distância, de todas as
dificuldades, eu existia dentro do jornal, participando,
mandando matérias, ajudando a pensar e discutindo!!

Ouvir os colaboradores constitui a tarefa mais agradável do trabalho com


história oral de vida. Os relatos envolvem o pesquisador num universo que lhe é
revelado durante o tempo da gravação e que tem o poder de transformá-lo ao final de
cada entrevista.
O trabalho com História Oral de Vida está além dos critérios metodológicos e
teóricos, das exigências acadêmicas, do envolvimento do pesquisador com o que
estava sendo produzido, pois possibilita uma experiência singular: os envolvidos,
pesquisador e colaborador, movem-se em direção a um horizonte comum, alcançado
através do acordo em torno do texto.
A sintetização desse processo de pesquisa possibilitou o percurso através de
alguns dos principais acontecimentos que marcaram a história contemporânea,
enriquecidos com as histórias de vida dos colaboradores que especificaram suas
experiências perante a generalização dos fatos históricos. Esperamos que nossa
proposta de trabalho tenha contribuído à compreensão de um capítulo da recente
história política brasileira.

178
Bibliografia Geral

ANOS 70. Rio de Janeiro: Europa, 1979-1980. V.3- Teatro

ANOS 70. Rio de Janeiro: Europa, 1979-1980. V.4- Cinema

BELOTTI, Elena Gianini. O Descondicionamento da Mulher (do nascimento à


adolescência). Petrópolis: Vozes, 1975.

CHAUÍ, Marilena.
____________ Cultura e Democracia: O discurso competente e outras
falas. São Paulo: Ed. Moderna, l98l.
____________ Repressão Sexual: Essa nossa (des)conhecida. São Paulo:
Brasiliense, 1991.

COELHO, Cláudio Novaes Pinto. Os Movimentos Libertários em Questão: a política e


a cultura nas memórias de Fernando Gabeira. Petrópolis: Vozes, 1987.

COSTA, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

FREUD, Sigmund.
___________ Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Lisboa: Livros do
Brasil, s.d.
___________ Psicologia De la Vida Erotica. Buenos Aires: Editorial
Americana, 1943.

179
FINKIELKRAUT, Alain & BRUCKNER, Pascal. A Nova Desordem Amorosa. São
Paulo: Brasiliense, 1981.

FOUCAULT, Michel.
___________ História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Graal, 1981.
___________ Microfísica do Poder. 10a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

GABEIRA, Fernando,
____________ O que é isso, companheiro? 7a. ed.Rio de Janeiro: Codecri, 1979.
____________ O Crepúsculo do Macho. 15a. ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1980.
____________ Entradas e Bandeiras. 13a. ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade


deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1980.

GONZALEZ, Horácio. O que são Intelectuais. São Paulo: Brasiliense, 1982.

GUATTARI, Felix. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. São


Paulo: Brasiliense, 1981.

GUERIN, Daniel. A Revolução Sexual. São Paulo: Brasiliense, 1980.

HABERMAS, Jürgen.
____________ Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1984.
____________ O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Publicações
Dom Quixote, 1990.

180
HOLLANDA, Heloisa B. de. & GONÇALVES, Marcos A. Cultura e participação nos
anos 60. São Paulo: Brasiliense, 1982.

JACOBY, Russell. Os Últimos Intelectuais: a cultura americana na era da academia.


São Paulo: EDUSP, 1990.

KOLLONTAI, Alexandra. Marxismo e Revolução Sexual. São Paulo: Global editora,


1982.

KOWARICK, Lúcio (org.). 2a. ed. As Lutas Sociais e a Cidade: São Paulo passado e
presente. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa


alternativa. São Paulo: Scritta, 1991.

LÖWY, Michael. Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários. São Paulo:
LECH, 1979.

MANTEGA. Guido (coord). Sexo e Poder. São Paulo: Brasiliense, 1979.

MATOS, Olgária. Paris: as barricadas do desejo. São Paulo: brasiliense, 1981.

MEDEIROS, Marilu Fontoura de. "Eixos Emergentes na Proposta Habermasiana


e a Possibilidade da Ação Pedagógica Crítica e Reflexiva" in: Educação e
Filosofia, Uberlândia, 8 (15): 49-65. jan./jun. 1994.

MISSE, Michel. O Estigma do Passivo Sexual. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979.

PÉCAULT, Daniel. Os Intelectuais e a Política no Brasil. São Paulo: ed. Ática, 1990.

181
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é Contracultura. São Paulo: Brasiliense,
1986.

PINHEIRO, Luiz Adolfo. A República dos Golpes (de Jânio a Sarney). São Paulo: Ed.
Best Sellers, 1993.

REICH, Wilhelm. O Combate Sexual da Juventude. Porto: Dinalivro, 1972.

REIS FILHO, Daniel Aarão.


___________ A construção do socialismo na China. São Paulo: Brasiliense, 1981.
___________ A Revolução faltou ao Encontro: os comunistas no Brasil. São Paulo:
Brasiliense, 1989.

ROBINSON, Paul. A Modernização do Sexo: ensaios sobre Ellis, Kinsey, Masters &
Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.

SADER, Eder. Um Rumor de Botas: a militarização do Estado na América Latina. São


Paulo: ed Polis, 1982.

SHOWALTER, Elaine. Anarquia Sexual: Sexo e cultura no fin de siècle. Rio de


Janeiro, Rocco, 1993.

SKIDMORE,Thomas.
___________ Brasil de Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
___________ Brasil de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados: moral, sexualidade e Inquisição


no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

182
VELHO, Gilberto (org). Desvio e Divergência: uma crítica da patologia social Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

VELHO, Otávio Guilherme (org.) O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1973.

Bibliografia Específica: homoerostismo & AIDS

BARBOSA, Regina Maria & PARKER, Richard (orgs). Sexualidades Brasileiras. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1996.

BASTOS, Cristiana; GALVÃO, Jane; PARKER Richard & PEDROSA, José Stalin (orgs).
A AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

BAUDRY, André & DANIEL, Marc. Os Homossexuais. Rio de Janeiro: Artenova,


1977.

BELTRAME, Ideraldo Luiz. Do Risco das Práticas às Práticas de Risco: em busca de


uma nova categoria explicativa para a prevenção à AIDS no Brasil. Dissertação de
mestrado apresentada a FSP-USP: São Paulo - julho de 1997.

BERNARDET, Jean Claude. “Os homossexuais no momento de sua definição” In:


Folhetim, Suplemento da Folha de São Paulo, julho de 1982.

BOSWELL, John. Christianisme, Tolérance Sociale et Homosexualité. Paris:


Gallimard, 1980.

BOYERS, Robert & STEINER, George. Homosexualidad: Literatura y política.


Madrid: Alianza Editorial, 1985.

183
BUFFIÈRE, Félix. Eros Adolescent: la pédérastie dans la Gréce antique. Paris:
Les Belles Lettres, 1980.

CHAUNCEY JR., George; DUBERMAN, Martin & VICINUS, Martha. Hidden from
History: reclaiming the gay & lesbian past. New York: MERIDIAN, 1989.

CERQUEIRA, Marcelo Ferreira de & MOTT, Luiz Os Travestis da Bahia & a AIDS:
prostituição, silicone e drogas. Salvador, 1997.

COSTA, Jurandir Freire,


____________ A Inocência e o Vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de
Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
____________ A face e o Verso: Estudos sobre o homoerostismo II. São
Paulo, Escuta, 1995.

CHRYSÓSTOMO, Antônio. Caso Chrysóstomo: o julgamento de um preconceito. Rio


de Janeiro: Codecri, 1983.

DANIEL, Herbert & PARKER, Richard. AIDS a Terceira Epidemia: ensaios e


tentativas. São Paulo: IGLU, 1991

DAVID I. GOTTLIEB, M. D. The Gays Tapes. New York: Day Books, 1977.

D’EAUBONNE, Françoise. Éros Minoritaire. Paris: André Balland, 1970.

D’EMILIO, John. Making Trouble. New York: Routledge, 1992.

DOVER, K. J. A Homossexualidade na Grécia Antiga. São Paulo: Nova


Alexandria, 1994.

184
FACCHINI, Regina. Ativismo Social e Sexualidade no Brasil: a militância e prestação
de serviços. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para a obtenção do
Bacharelado em Sociologia. Escola de Sociologia e Política: São Paulo, dezembro de
1995.

FRY, Peter.
____________ Para Inglês Ver. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
____________ “Ser ou não ser homossexual, eis a questão”. In: Folhetim,
Suplemento da Folha de São Paulo,10 de janeiro de 1982
____________ & Edward MacRae. O que é Homossexualidade. São Paulo:
Brasiliense, 1983

GIDE, André. Tratado de Homossexualismo. Rio de Janeiro: Record, 1969.

GREEN, James Naylor. Beyond Carnival: Homosexuality in Twentieth-Century Brazil.


Dissertation for the degree Doctor of Philosophy in History. UCLA. Los Angeles, 1996.

GONÇALVES, Marta. A Folha de S. Paulo e o Projeto 1.151/95 que Disciplina União


civil entre Pessoas do mesmo Sexo. Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção
do Bacharelado em Sociologia e Ciência Política. Escola de Sociologia e Política: São
Paulo, 1996.

GROOTENDORST, Sapê. Literatura Gay no Brasil? Dezoito escritores brasileiros


falando da temática homoerótica. tese de Qualificação da Universidade de Utrecht,
setembro de 1993.

GUIMARÃES, Celeste Zenha. Homossexualismo: Mitologias científicas. Tese de


doutorado apresentada no IFCH-UNICAMP: Campinas, março de 1994.

185
HALPERIN, David M. One Hundred Years of Homosexuality. New York:
Routledge, 1990.

HOCQUENGHEM, Guy. A Contestação Homossexual. São Paulo: Brasiliense,


1980.

HUNT, Morton. Gay: what you should know about homosexuality. New York:
Pocket Books, 1977.

KINSMAN, Gary. The Regulation of Desire: sexuality in Canada. Montreal-New York:


Black Rose Books, 1987.

JOHNSON, Virginia E. & MASTERS, William H. Homossexualidade em


Perspectiva. Artes Médicas, 1979.

LAURITSEN, John & THORSTAD, David. The Early Homosexual Rights


Movement (1864-1935). New York: Times Change Press, 1974.

LEVER, Maurice. Les Bûchers de Sodome. Paris: Fayard, 1985.

LEYLAND Winston, Now the Volcano: an anthology of Latin american gay


literature. San Francisco: Gay Sunshine press, 1979.

LIMA, Delcio Monteiro de. Os Homoeróticos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.

MACRAE, Edward.
____________ "Em defesa do gueto"in: Novos Estudos Cebrap, abril de 1983,
p.53-60.
____________ A Construção da Igualdade: Identidade sexual e política
no Brasil da"Abertura".Campinas: Ed. Unicamp, 1990.

186
MARCH, Sue. Libertação Homossexual. São Paulo: Nova Época Editorial, 1981.

MARMOR, Judd. A Inversão Sexual: As múltiplas raízes da homossexualidade.


Rio de Janeiro: Imago, 1973.

MATTOSO, Glauco. Manual do Pedólatra Amador. São Paulo: Ed. Expressão,


1986.

MONEY, John. Gay, Straight and In-Between: The sexology of erotic


orientation. New York: Oxford University Press, 1988.

MORENO, Antônio do Nascimento. A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro.


Dissertação de mestrado apresentada ao Depto. de Artes Visuais-UNICAMP:
Campinas, 1995.

MOTT, R. B. Luiz.
___________ Dez Viados em Questão. Edições Espaço Bleff: Bahia, 1987.
___________ Escravidão, Homossexualidade e Demonologia. São Paulo: Ícone,
1988.
___________ O Sexo Proibido: escravos, gays e virgens nas garras da Inquisição.
Campinas: Papirus, 1988,
___________ & SILVA, Sônia T. D. G. “Teses Acadêmicas sobre a Homossexualidade
no Brasil” in: XXXIX Seminar on the Acquisition of the Latin
American Library Materials (SALALM). Salt Lake City, Utah, USA:
29 May- 02 June, 1994.

NASCIMENTO, Julio Cesar Cordeiro. “Ser homossexual no Brasil e não o “ser”


homossexual brasileiro” in: Revista Brasileira de Sexualidade Humana. SBRASH
(Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana). vol. 7, 1996. p. 44-56.

187
OKITA, Hiro. Homossexualismo da Opressão à Libertação. São Paulo: Proposta
Editorial, s.d.

“Os Movimentos Homossexuais no Brasil: Texto elaborado pelo Centro


Disciplinar de Estudos Contemporâneos, da Escola de Comunicação da UFRJ”.
In: ENT&. 17a. Conferência Mundial da ILGA. Guia Oficial. Rio de Janeiro. Nº
9, 1995, ano 1

ORAISON, Marc. A Questão Homossexual. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

PARKER, Richard G.
___________ Corpos Prazeres e Paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo.
2a. ed. São Paulo: Ed Best Sellers, 1991.
___________ A Construção da Solidariedade: AIDS, sexualidade e política no
Brasil. Rio de Janeiro: Relume-dumará, 1994.

PERLONGHER, Néstor. O Negócio do Michê: A prostituição viril. São Paulo:


Brasiliense, l986.

POLLAK, Michael. Os Homossexuais e a AIDS: sociologia de uma epidemia. São Paulo:


Estação Liberdade, 1990.

PORTINARI, Denise. O Discurso da Homossexualidade Feminina. São Paulo:


Brasiliense, 1989,

RIBEIRO, Leonídio. Homossexualismo e Endocrinologia. Rio de Janeiro:


Francisco Alves, 1938.

188
SILVA, Cristina Luci Câmara da. Triângulo Rosa: a busca pela cidadania dos
“homosssexuais”. IFCS-UFRJ- Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado,1993.

SILVA, Lindinalva Laurindo. AIDS e Homossexualidade em São Paulo. Dissertação de


mestrado em Antropologia, PUC: São Paulo, 1986.

SOUZA, Pedro de. Confidências da Carne: O público e o privado na enunciação


da sexualidade. UNICAMP-Campinas: Tese de doutorado, 1993.

SPENCER, Colin. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro: Record, 1996.

SULLIVAN, Andrew. Praticamente Normal: uma discussão sobre o homossexualismo.


São Paulo: Companhia das letras, 1996.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil,


da colônia à atualidade. São Paulo: Max Limonad, 1986.

VALLINOTO, Tereza Christina. A Construção da Solidariedade: um estudo sobre a


resposta coletiva à AIDS. Dissertação de Mestrado apresentada à Escola Nacional de
Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz: Rio de Janeiro, dezembro de 1991.

WEEKS, Jeffrey.
___________ Coming Out: Homosexual Politcs in Britain, from the
Nineteenth Century to the Present. Quartet Books:London,
Melbourne, New York, 1979.
___________ Sexuality and its discontents: meanings, myths & modern
sexualities. London-New York: Routledge, 1993.

189
Bibliografia Específica: história oral

ALMEIDA, Terezinha Andrade. Fio de Vida: necessidades básicas dos pacientes


infectados com o HIV. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1996.

ATAÍDE, Yara Dulce M. Decifra-me ou te Devoro: história oral dos meninos de rua de
Salvador. São Paulo: Ed Loyola, 1993.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças dos velhos. São Paulo: EDUSP, 1987.

EDEL, Leon; KAPLAN, Justin (et alli). Telling Lives: the biographer’s art. University of
Pennsylvania Press, 1985.

FERES, Cristina de Lourdes Pellegrino. Famílias Imigrantes em São Caetano do Sul:


história oral de vida. Dissertação de Mestrado. Depto. de História - FFLCH-USP,
dezembro de 1996.

FRAZER, Ronald (org), 1968: a student generation in revolt. New York: Pantheon
Books, 1988

GALLIAN, Dante. M. C. Pedaços da Guerra: experiências com História Oral de


Vida de Tobarrenhos. Dissertação de Mestrado. Depto. História - FFLCH-
USP, 1992.

GATTAZ, André. Braços da Resistência Anti-franquistas em São Paulo. História


Oral da Imigração Espanhola. Dissertação de Mestrado apresentada ao Depto.
de História FFLCH-USP, abril de 1995.

190
JUVONEN, Tuula. “Straight stories about the shadow world-drawing the line between
homo-and-heterosexuality durung the 1950 in Tampere, Finland.” in: IX International
Oral History Conference. Göteborg, 1996. pp 1250-52

MEIHY, José Carlos Sebe Bom.


_____________ A Colônia Brasilianista: história oral de vida acadêmica.
São Paulo: Nova Stella,1990.
_____________ Canto de morte Kaiowá: história oral de vida. São Paulo:
Loyola, 1991.
_____________ & Robert M. Levine. Cinderela Negra: a saga de Carolina Maria de
Jesus. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994
_____________ (Re)Introduzindo a História Oral no Brasil/ org. José C. Sebe B.
Meihy. São Paulo: Xamã, 1996.
_____________ Manual de História Oral. São Paulo: ed. Loyola, 1996.

NILSSON, Arne. “Oral history of Male homosexual life in a nordic city during high
modernity.” in: IX International Oral History Conference. Göteborg, 1996.
pp 1263-70

PATAI Daphne. Brazilian Woman Speak: comtemporary life stories. Rutgers


University Press-New Brunswick and London, 1985.

POIRIER, Jean; CLAPIER-VALLADON, Simone & RAYBAUT, Paul. Histórias de Vida:


teoria e prática. Oeiras: Celta Editora, 1995.

SANTOS Andrea Paula dos. Ponto de Vida: Cidadania de mulheres faveladas. São
Paulo: E. Loyola, 1996.

191
SELL, Teresa Adada. Identidade Homossexual e Normas Sociais (Histórias de Vida).
Florianópolis: Ed. da UFSC, 1987.

SCHUYF, Judith. “Myths on Gender and Sexuality - Lesbian and Gay experiences” in: IX
International Oral History Conference. Göteborg, 1996. pp 1253-62

THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

192
“Bem, acho que não adianta dizer mais nada,
pois a realidade não é feita somente de
palavras e sim dos atos diários de cada
pessoa”
Sandra Mara Herzer

193
PARTE II

1. Os critérios para a coleta e trabalho com as entrevistas

Reflexão sobre a Constituição das Redes........................................................196


O Processo, da Transcrição até a Conferência...............................................211

2. Os Membros do Conselho do Lampião.

João Silvério Trevisan......................................................................................220


João Antônio Mascarenhas..............................................................................256
Peter Fry............................................................................................................278

3. Autores Coligidos pelo Lampião.

Roberto Piva......................................................................................................301
Edward MacRae...............................................................................................327
James Naylor Green.........................................................................................361

4. Os Colaboradores do Lampião (Rede I).

Glauco Mattoso.................................................................................................389
Celso Curi..........................................................................................................427
Luiz Mott...........................................................................................................444

194
5. Os Membros da Redação do Lampião.

Antônio Carlos Moreira...................................................................................475


Alceste Pinheiro.................................................................................................506
Dolores Rodriguez.............................................................................................533

6. Os Colaboradores do Lampião (Rede II).

João Carlos Rodrigues......................................................................................555


Luiz Carlos Lacerda.........................................................................................594
José Fernando Bastos.......................................................................................615
Alexandre Ribondi............................................................................................629

195
1. Os critérios para a coleta e trabalho com as entrevistas.

Reflexão sobre a Constituição das Redes. 177

O conjunto de entrevistados se refere a escritores, jornalistas e a intelectuais


ligados às áreas acadêmicas preocupados em redimensionar a questão homossexual a
partir dos anos setenta. A existência dessa colônia indicou um traço comum: a
produção de textos sobre homossexualidade. O contato com as obras do grupo foi
preparado pela leitura de Now the Volcano: an anthology of latin american gay
literature, de Winston Leyland. Neste livro, o autor ressalta sua preocupação em
fazer um trabalho sobre o florescimento de uma literatura gay na América Latina.
O conhecimento dessa colônia, contudo, exigia alguns critérios para viabilizar
a montagem da rede de entrevistas. Desta forma, foi preciso realizar o levantamento
dos títulos publicados pelos autores brasileiros apresentados por Leyland. Eles eram:
Adolfo Caminha, Gasparino Damata, Caio Fernando Abreu, Aguinaldo Silva,
Edilberto Coutinho, Darcy Penteado e João Silvério Trevisan. A leitura do material
escrito foi realizada com o objetivo de obter o máximo de informações sobre a
produção desses escritores. Com exceção de Aldolfo Caminha, os outros eram todos
contemporâneos, sendo que alguns já haviam falecido - como Gasparino Damata e
Darcy Penteado -, a descoberta dos textos desenhou algumas possibilidades. O
contato com a produção de João Silvério Trevisan, por exemplo, teceu uma rede de
leituras que conduziu a pesquisa elaborada por Edward MacRae e, posteriormente,
ao romance autobiográfico de Glauco Mattoso.

177
MEIHY, José Carlos Sebe Bom.
________________ A Colônia Brasilianista: história oral de vida acadêmica. São Paulo: Nova
Stella, 1990;
____ ___________ Canto de morte Kaiowá: história oral de vida. São Paulo: Loyola, 1991.

196
Os três escritores forneceram uma pista fundamental para estabelecer quem
poderia ser o primeiro entrevistado: a referência ao Lampião da Esquina. Minha
atenção foi despertada para esse jornal, então procurei tomar contato com suas
páginas.
O Lampião encontra-se no Fundo Funcional Movimento Homossexual do
Arquivo Edgard Leunroth - IFCH - UNICAMP, onde está reunida a coleção
completa do periódico. Há uma categorização dos autores no editorial que surge da
seguinte forma: Membros do Conselho, Colaboradores e Redatores. João Silvério
Trevisan, cujos escritos teceram a rede de leituras que conduziu ao jornal, era
apresentado como um dos Membros do Conselho editorial.
Face ao trabalho literário e jornalístico que desenvolveu, João Silvério
Trevisan aparecia como o nome mais indicado para dar origem a rede de entrevistas:
entrei em contato com o escritor. Neste ponto, é preciso esclarecer que o contato
prévio, onde me apresentei como interessado em ouvir sua história de vida,
explicando como cheguei até ele, contribuiu à organização da narrativa.
João Silvério Trevisan apresentou uma série de indagações sobre a pesquisa,
entre as quais declarou sua reserva ao tratamento que a universidade dispensava aos
homossexuais. Perguntou qual era o meu objetivo com esse trabalho, disse-lhe que
não pretendia assumir a posição de observador, mas de alguém interessado em ouvir
suas experiências de vida. Feito esse esclarecimento expliquei o processo de
elaboração do documento como algo que realizaríamos juntos, a partir de então fui
presenteado com a atenção do escritor.
Durante a gravação, ele dedicou um espaço maior a vivência enquanto
homossexual, perspectiva a partir da qual começou a construir sua relação com os
partidos de esquerda, com o movimento homossexual e com o jornal Lampião.
A entrevista com João Silvério Trevisan pôde ser denominada como ponto
zero, pois o colaborador contou, com riqueza de detalhes as experiências que viveu
tanto individualmente quanto em nível coletivo. É preciso esclarecer, também, que

197
esta caracterização não se deve apenas ao fato de João Silvério Trevisan indicar os
próximos entrevistados, mas ele sugere a história de um grupo.178
Concluída a gravação, João Silvério Trevisan perguntou se poderia indicar
qualquer pessoa. Disse-lhe que tinha plena liberdade para apresentar os nomes que
quisesse. Ele indicou Glauco Mattoso, Celso Curi e sugeriu o nome de Roberto Piva
como o de alguém que não pertencia ao Lampião.
Seguindo o critério para formação da rede de entrevistas, contatei Roberto
Piva. Ele concordou em conceder a entrevista, reafirmando que enquanto poeta
nunca fora convidado para escrever no jornal, ressaltou, porém, que Glauco Mattoso
chegou a publicar artigos sobre sua produção literária no tablóide. Entretanto, após
concluir o catálogo de autores com artigos no Lampião, fiquei surpreso ao constatar
que o nome de Roberto Piva fora captado pelas páginas do jornal: ele era um dos
autores coligidos. O escritor realmente nunca escrevera um poema para o jornal, mas
contribuiu escrevendo um artigo. Essa constatação veio reforçar a idéia inicial que
apreendi durante as leituras prévias: o Lampião fora um periódico importante.
Muitas pessoas ao escreverem para o jornal, mesmo não estando
organicamente vinculadas, nem aparecendo como escritores constantes, enviaram
seus artigos e eles foram publicados no Lampião. Desta forma, foi possível
reconhecer a existência de diferentes níveis de relacionamento dos sujeitos que
contribuíram com a publicação.
Ao final da entrevista, Roberto Piva indicou José Celso Martinez Corrêa e
Antônio Bivar, nomes que aventavam a possibilidade de recolher depoimentos de
pessoas que, definitivamente, não apareciam nas páginas do Lampião. Os indicados,
contudo, não retornaram o contato para fazer a gravação. Levei em consideração o
trabalho com os outros indicados, que prosseguiu sem demoras, assim como os
limites dos prazos assumidos com o compromisso acadêmico: os nomes indicados
por Roberto Piva ficaram em aberto.

178
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 54.

198
Ao entrar em contato com Glauco Mattoso soube que ele havia sido avisado
sobre a entrevista por João Silvério Trevisan. Entre um comentário e outro, Glauco
falou sobre sua aproximação de um grupo interessado em veicular uma discussão
sobre a homossexualidade, contando como veio a tomar contato com o Lampião.
Entre os nomes que considerou importante indicar estavam: Jorge Schwartz, Jean
Claude Bernardet e Edward MacRae. Destes, um, posteriormente, disse não ter
interesse em colaborar.
Nestas três entrevistas iniciais não quis realizar perguntas. Ao ouvir o
resultado das gravações, montei um pequeno roteiro com questões bem amplas, e
nem um pouco rígidas, para que os futuros entrevistados falassem sobre suas
impressões. Atento aos comentários tecidos pelos entrevistados, aproveitava o
espaço aberto durante o depoimento, solicitando que contassem mais acerca daquele
assunto. Caso algum item não fosse tocado, solicitava explicações.

Infância: Aonde nasceu? Relação com os pais? Como foram os


estudos?

Ditadura Militar: Qual a impressão sobre o período: Governo


Militar, Abertura Política, Movimentos Sociais, Imprensa Alternativa?

Jornal Lampião: Como entrou em contato? Que participação teve no


jornal?

Momento Atual: Impressões sobre a AIDS e sobre o mercado de


produtos e serviços voltados ao gay.

No primeiro telefonema a Celso Curi fui convidado a visitá-lo em seu


escritório. Ele ocupava o cargo de Diretor do Departamento de Formação Cultural da

199
Secretaria Estadual de Cultura do Estado de São Paulo Nesse contato conversamos
sobre o projeto. Ele adiantou seu desejo em passar um material sobre uma coluna na
qual fora editor responsável no jornal Última Hora: Coluna do Meio. Posteriormente
recebi o material citado e fiz a leitura.
Quando retornei, ele falou sobre seu envolvimento com o Lampião, porém o
fio condutor da narrativa era o trabalho que desenvolveu com a Coluna do Meio, por
causa da qual sofreu um processo por atentado à moral. Esse mesmo processo levou
os membros do Lampião à procurá-lo. Caio Fernando Abreu - que fora um dos
escritores citados no editorial do Lampião -, foi indicado por Celso Curi. Quando
Caio Fernando Abreu foi contatado, ele disse que estava passando por um momento
muito difícil e que não sabia se aquela seria a melhor hora para contar sua história de
vida.
Após algumas tentativas, contatei o professor Edward MacRae prestes a
assumir a vaga de docente na UFBA. Na entrevista, sugeriu que não participava do
Lampião, mas que pelo fato conviver com Peter Fry, com o qual chegou a escrever
um artigo no Lampião, estava a par das atividades do jornal.
Encerrada a gravação, ele indicou o nome de James Naylor Green, Peter Fry e
fez sugestões para que as entrevistas fossem feitas com pessoas que trabalhavam
com a questão da AIDS: Veriano Terto Júnior, Richard Parker, Áurea Abade, Jorge
Beloqui. As últimas indicações abriam possibilidades à elaboração de um novo
projeto com história oral de vida. Nesse sentido, considerei que a proposta original
da pesquisa já apresentava um perfil, então decidi prosseguir fazendo as entrevistas
com James Naylor Green, cujo nome aparece entre os autores coligidos, e com Peter
Fry que era um dos membros do Conselho Editorial do Lampião.
O gravador não registrou uma palavra na primeira entrevista com Jean Claude
Bernardet. A segunda gravação também foi realizada no escritório do professor, na
Escola de Comunicação e Artes da USP. O professor concedeu a entrevista sob
condição que seria breve. Ele buscava dar respostas objetivas a perguntas que

200
deveriam ter o mesmo tom, pelo meu lado tentava repetir o roteiro que propusera
antes. Porém, o tempo da entrevista foi menor e isso refletiu sobre o depoimento de
história oral de vida: não foi tão completo como o que havia realizado antes.
Jean Claude Bernardet quando fala sobre sua relação com o Lampião diz que
considerava interessante compor um grupo constituído por nomes respeitados, por
isso acabou entrando no Conselho Editorial do jornal. Para a seleção dos próximos
entrevistados limitou-se a indicar o nome de Aguinaldo Silva: pessoa a qual atribui o
fato do Lampião ter existido.
Já havia conversado com James Naylor Green em São Paulo, mas a entrevista
ocorreu no Rio de Janeiro, durante a Conferência da International Lesbian and Gay
Association, novamente a questão sobre o relacionamento com o Lampião afluiu. Na
mesma situação de Roberto Piva e Edward MacRae, James Green se apresentou
como alguém que sabia sobre o jornal, mas que não era ligado organicamente,
tratava-se, porém, de outro autor captado pelas páginas do jornal. Após a gravação
ele indicou o nome de Luiz Mott e de João Antônio Mascarenhas.
A entrevista com Luiz Mott também ocorreu durante a International Lesbian
and Gay Association Conference. O depoimento foi bastante organizado
cronologicamente, o colaborador discorreu sobre temas específicos e gerais enquanto
contava a história de vida. Praticamente não foi necessário retomar nenhum dos
pontos, visto que Luiz Mott tecia comentários previamente. O contato com o
Lampião, num primeiro momento, surge como o de alguém que recebia o jornal,
depois como o de um escritor que enviava artigos, contudo, a declaração sobre a
idéia de fundar um grupo de militância em Salvador, convocando os baianos através
das páginas do Lampião, anuncia a idéia que o jornal contribuía a discussão política
da questão homossexual. Ao concluir o depoimento, o nome de João Antônio
Mascarenhas foi sugerido como sendo de fundamental importância para compor o
conjunto de entrevistas.

201
João Antônio Mascarenhas organizou todo o depoimento disposto a falar do
Lampião. Contou toda a história de articulação do jornal, explicando seus anseios
por um órgão que pudesse discutir a questão homossexual. Um dos aspectos mais
interessantes desta entrevista foi o cuidado que João Antônio Mascarenhas teve em
citar as pessoas do núcleo fundador, esclarecendo, depois, quais membros exerceram
papel um preponderante para a existência do jornal. Este depoimento foi rico em
referências ao jornal. Em nível de indicação para uma próxima entrevista, João
Antônio Mascarenhas, repetiu o nome de muitos que já tinham sido entrevistados,
forneceu pistas sobre a localização de Francisco Bittencourt, as quais não deram
conta da localização do escritor no Rio Grande do Sul, e de Clóvis Marques, citando
o jornal onde poderia localizá-lo. Ao ligar para Clóvis Marques, ele simplesmente
preferiu não fazer a entrevista.
Desde o primeiro contato com Peter Fry, o professor demonstrou uma gentil
disposição em colaborar, a única reserva era acerca da dificuldade em recordar
alguns fatos. Os dois primeiros encontros coincidiram com as atividades acadêmicas
do professor: no primeiro, acertado pelo telefone, ele participava da apresentação de
uma pesquisadora que trabalhava com a comunidade de Vigário Geral; no segundo,
marcado após a impossibilidade do primeiro, Peter Fry fora participar de uma
reunião extraordinária na reitoria da UFRJ.
A gravação aconteceu espontaneamente, dois meses depois, quando passei na
faculdade para perguntar sobre a possibilidade de fazer a entrevista: naquele
encontro Peter Fry pôde fazer a gravação. Antes, porém, fez perguntas sobre o
processo de trabalho com história oral e apresentou uma certa reserva, mas concedeu
o depoimento colocando muitas questões a respeito dos fatos que viveu.
Ao falar do Lampião, sugeriu que o jornal tinha legitimidade por causa dos
nomes que compunham o Conselho Editorial. Aguinaldo Silva também foi indicado
por Peter Fry como uma pessoa que poderia ajudar bastante.

202
Esse depoimento conclui a primeira rede de entrevistas, iniciada em janeiro de
1994, com o depoimento de João Silvério Trevisan, e finalizada em outubro de 1995,
com o depoimento de Peter Fry. A experiência com as entrevistas da primeira rede
sugeriu uma questão: o papel desempenhado pelo colaborador para a execução do
projeto de história oral.
Essa questão foi despertada devido a predisposição de todos os entrevistados
em colaborar. Os depoimentos que não passaram por nenhum imprevisto, como a
perda da gravação ou o desencontro para a entrevista, foram mais tranqüilos. Isso
contribuiu para um relato mais completo de história oral de vida. Nesses casos, os
colaboradores aceitaram com maior intensidade a proposta de compartilhar suas
experiências.
Noutros casos, porém, o contato revelou algumas situações que escaparam ao
campo da previsibilidade, mas que não chegaram a comprometer os depoimentos.
Nesse sentido, a parte que coube aos colaboradores - concordar em participar do
processo - compôs o principal elemento para o prosseguimento da pesquisa e da
superação dos desafios iniciais.
A segunda rede de entrevistas foi iniciada em agosto de 1995, com o
depoimento de Antônio Carlos Moreira, e foi finalizada em novembro de 1995, com
o depoimento de Alexandre Ribondi. Aqui é preciso esclarecer o motivo de sua
origem, quando o professor Edward MacRae sugeriu que a pesquisa se estendesse a
pessoas ligadas ao trabalho com a AIDS, deixei a possibilidade em aberto, pois, além
das proporções que o trabalho poderia assumir, tal sugestão configurava uma
temática que abria possibilidade a um novo trabalho com história oral.
A indicação de Veriano Terto Júnior, contudo, aparecia no grupo de pessoas
que trabalham com AIDS. Tive oportunidade de conhecê-lo durante a 17a. ILGA.
Ele estava interessado em conversar sobre o trabalho com a história oral de vida.
Falei sobre meu projeto e Veriano Terto Júnior fez uma sugestão, disse que Antônio
Carlos Moreira fora um dos jornalistas que atuara no Lampião da Esquina.

203
Considerando o nível de relação que os entrevistados da primeira rede
teceram em relação ao jornal, resolvi fazer o contato que deu início a uma segunda
rede de entrevistas. O perfil da segunda rede apresentou pessoas organicamente
ligadas ao Lampião, algumas das quais, segundo a definição dada pelo editorial do
tablóide, vieram a atuar como redatores. Tratavam-se de pessoas que trabalhavam e
freqüentavam cotidianamente a redação do jornal. Desta segunda rede surgiu ainda a
indicação de novos colaboradores, também listados pelo jornal.
Antônio Carlos Moreira demonstrou um interesse imenso em colaborar.
Durante a narrativa, começou a narrar suas experiências enquanto estudante de
jornalismo, depois contou sobre os movimentos sociais aos quais pertenceu. Pude
notar que o entrevistado representava uma outra geração, cuja história de vida era
pautada pela efervescência do período da abertura política.
O colaborador anunciou outra percepção acerca do jornal. Ele não
economizou detalhes para falar sobre o Lampião: fez a descrição do bairro onde era
a sede do jornal, como era o espaço físico na redação, contou detalhadamente o
processo de trabalho na redação. Após concluirmos a gravação, ele mostrou a
coleção encadernada do Lampião e fez as indicações para as próximas entrevistas:
João Carlos Rodrigues, Alceste Pinheiro, Dolores Rodriguez e Alexandre Ribondi.
Em seu depoimento João Carlos Rodrigues contou sobre as formas como
conseguiu colaborar com o Lampião, enfatizou a idéia de utilizar as páginas do
jornal para escrever sobre os movimentos minoritários - idéia que trouxe consigo dos
Estados Unidos -, porém o espaço que dedicou ao reflexo cultural produzido pelo
Lampião prevalece entre os comentários.
Quando João Carlos Rodrigues comentou sobre o trabalho de Antônio Carlos
Rodrigues, Alceste Pinheiro e Dolores Rodriguez na redação, o fez ressaltando o
aprendizado prático dos três. Na compreensão de João Carlos Rodrigues, Aguinaldo
Silva surge como o grande responsável pelo Lampião, a pessoa que deveria ser

204
contatada para uma entrevista. Além de Aguinaldo Silva, foram indicados mais dois
nomes: Luiz Carlos Lacerda e José Fernando Bastos.
Alceste Pinheiro e Antônio Carlos Moreira pertencem à mesma geração que
foi atingida pelos ventos da abertura. Alceste Pinheiro, contudo, declarou que por
causa do seu temperamento nunca se adequou a nenhum movimento, associação ou
grupo organizado. O colaborador sempre buscou ressaltar sua opinião pessoal
através de críticas contundentes aos grupos organizados. Ele também contou, com
riqueza de detalhes, o que se passava na redação do Lampião. Alceste Pinheiro
destaca, sobretudo, a inexperiência deles, enquanto redatores, no que se refere ao
desconhecimento do mercado que o jornal atendia. Após a gravação, perguntou os
nomes de quem já havia sido entrevistado e de quem seriam os próximos, quando
respondi suas questões ele decidiu não fazer indicações.
Luiz Carlos Lacerda sempre buscou justificar o equilíbrio adequado entre o
indivíduo e o coletivo em sua entrevista. A proposta libertária do Lampião o atraiu,
foi assim que decidiu escrever para o jornal. Porém, ao ter um de seus artigos
censurados, percebeu que a liberdade de expressão dentro do jornal também era
limitada. Por essa causa, decidiu abandonar o Lampião. Luiz Carlos Lacerda
forneceu pistas sobre Francisco Bittencourt que também não foram suficientes para
localizá-lo.
A entrevista de Dolores Rodriguez acabou com uma grande expectativa da
minha parte. Depois de ouvir tantos homens foi a primeira mulher a falar. Ao
comentar sua presença na redação do jornal, explicou que foi “por puro acaso”. Ela
contou que começou a trabalhar como free lancer no Lampião, gostou do jornal e foi
se ambientando com os membros da redação. Durante sua juventude, Dolores
Rodriguez, assim como Antônio Carlos Moreira e Alceste Pinheiro, viveu a
afluência dos movimentos sociais e da abertura política. Ela também era estudante
de jornalismo quando foi trabalhar na redação do Lampião.

205
Depois da gravação, Dolores Rodriguez contou sobre os falecimentos de
Adão Acosta, membro do Conselho Editorial, e Aristides Nunes, escritor que
chegara a ser redator do jornal. Ela também forneceu pistas para a localização de
Leila Míccolis, que abriam a possibilidade de compor uma nova rede, mas ao
considerar o prazo de entrega da dissertação decidi não perseguí-las por causa da
quantidade de trabalho a ser realizado.
Para José Fernando Bastos, o compromisso com a crítica cultural e o convite
de dois membros do núcleo fundador do jornal - Aguinaldo Silva e Antônio
Chrysóstomo - foram os principais motivos que o levam a fazer parte do Lampião.
José Fernando Bastos revelou que escrevia seus artigos em casa, depois os enviava à
redação. Esses artigos foram elegidos para contar histórias sobre como conseguiu
fazer entrevistas inéditas, assim como produziu artigos contundentes sobre o período
político que lhe deram destaque. José Fernando Bastos não indicou ninguém.
Quando contatei Alexandre Ribondi senti sua surpresa pelo tom de voz ao
telefone. Na sua compreensão, Brasília sofre de um preconceito que provém de
outras partes do país. O fato de viver nessa cidade fazia Alexandre Ribondi
questionar meu interesse pelo seu depoimento. Ao conversarmos em sua residência,
ele retomou essa questão, para depois compartilhar suas experiências de vida.
Alexandre Ribondi, ao falar sobre o Lampião, conta que inicialmente não
conhecia os membros, mas recebia o jornal em Brasília, distribuía nas bancas e
depois recolhia o dinheiro e as sobras para enviar à redação no Rio de Janeiro. A
história da permanência em Brasília foi ressaltada como parte fundamental para
compreender sua trajetória no Lampião. Alexandre Ribondi enfatizou que era um
habitante daquela cidade, alguém que a partir de lá contribuiu para o panorama
cultural do país. Essa entrevista concluiu a segunda rede de depoimentos.
Não foi possível conseguir o depoimento de Aguinaldo Silva, apesar de sua
importância para este projeto, visto que seu nome é invocado na maior parte dos
depoimentos. A imagem de Aguinaldo Silva cintila sob as palavras das entrevistas,

206
tanto na primeira rede quanto na segunda. Ao considerarmos o que foi dito sobre
Aguinaldo Silva, fica a impressão que ele representa o “gomo da corrente” que
poderia unificar as duas redes de entrevistas. Em linhas gerais, Aguinaldo Silva é
apresentado como o escritor irreverente, profissional e responsável pela presença
mensal do Lampião nas bancas.
No decorrer do mês de outubro de 1995, tive oportunidade de conversar por
telefone com Aguinaldo Silva sobre a possibilidade dele conceder um depoimento de
história de vida, mas ele declarou não ter nenhum interesse em retomar o assunto.
Entretanto, decidi enviar uma carta registrada, onde expliquei sumariamente o
projeto de pesquisa, expus a visão que os depoentes teceram a seu respeito, esclareci
detalhes do trabalho com a história oral de vida e enfatizei os motivos de tal
insistência. Porém, não houve nenhum parecer no tocante a essa carta.
As duas redes, divididas em subgrupos, obedeceram aos critérios apreendidos
durante o trabalho de campo. Para pensar a apresentação das histórias de vida,
preservei categorização original existente no próprio Lampião: Membros do
Conselho, Colaboradores e Redatores. Defini a relação de três entrevistados, com
artigos captados pelo jornal como: autores coligidos.
No caso específico de Edward MacRae, o entrevistado aparece como
membro-colaborador do Lampião, mas, durante seu depoimento, ele não se
reconhece como participante da publicação, então priorizei a relação com o jornal
recuperada pela narrativa. Os outros entrevistados que compõe esse grupo não são
citados pelo editorial do jornal, contudo, a contribuição na forma de artigos aparece
impressa nas páginas do Lampião. A decisão por fazer essa opção se refere à origem
e ao desenvolvimento desse trabalho, pois durante as gravações os entrevistados
sempre procuraram esclarecer o nível de participação nas atividades do Lampião.

207
Primeira Rede:
A) Entrevistas com os Membros do Conselho do Lampião.
Nome do Local e data de Idade à época Local e data da Tempo de Indicação de
colaborador nascimento da gravação gravação gravação nomes para
contatos
João Silvério Ribeirão 49 anos Na residência do 2hs e 15 min. Roberto Piva;
Trevisan Bonito-SP. Em escritor em São Glauco Mattoso;
23/06/1944. Paulo. Em e
29/01/1994 Celso Curi
Jean Claude Bélgica. Em (58) anos179 No escritório do 40 min. Aguinaldo
Bernardet 1936. professor180 em Silva.
São Paulo. Em
15/10/1994.
João Antônio Pelotas-RS. Em 67 anos Na residência do 1h e 20 min. Francisco
Mascarenhas 24/10/1927. advogado no Bittencourt
Rio de Janeiro. e
Em 24/08/1995 Clóvis Marques
Peter Fry Inglaterra. Em (54) anos No escritório do 1h e 10 min. Aguinaldo
outubro de professor.181 Em Silva.
1941. 23/10/1995.

B) Entrevistas com os Autores Coligidos pelo Lampião.


Nome do Local e data de Idade à época Local e data da Tempo de Indicação de
colaborador nascimento da gravação gravação gravação nomes para
contatos
Roberto Piva São Paulo-SP. 56 anos Na residência do 1h e 40 min. Antônio Bivar; e
Em 25/09/1937. poeta em São José Celso M.
Paulo. Em Corrêa.
21/02/1994
Edward MacRae São Paulo-SP. (48) anos Na residência do 2hs e 10 min. James Green;
Em 1946. professor em Peter Fry; e de
São Paulo. Em pessoas que
30/08 1994. trabalham com
AIDS.
James Naylor Estados Unidos. (44) anos No Salão 1h e 15 min. João Antônio
Green Em 1951. Botafogo do Rio Mascarenhase
Palace Hotel.182 Luiz Mott.
Em 20/06/1995

179
As idades colocadas entre parênteses indicam que os colaboradores não informam a data de nascimento
precisa. Pude contatar outra curiosidade entre os colaboradores vindos do hemisfério norte que informam só
o país de origem.
180
Na Escola de Comunicação e Artes da USP.
181
No Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.
182
A gravação aconteceu durante os intervalos das oficinas realizadas pela 17a. Conferência da International
Lesbian and Gay Association.

208
C) Entrevistas com os Colaboradores do Lampião (Rede I).
Nome do Local e data de Idade à época Local e data da Tempo de Indicação de
colaborador nascimento da gravação gravação gravação nomes para
contatos
Glauco Mattoso São Paulo-SP. 42 anos Na residência do 2hs e 45 min. Jorge Schwartz;
Em 29/06/1951. escritor em São Jean Claude.
Paulo Em Bernardet; e
24/02/1994 Edward
MacRae.
Celso Curi São Paulo-SP. 44 anos No escritório do 50 min. Caio Fernando
Em 07/06/1950. jornalista183 em Abreu.
São Paulo. Em
06/08/1994.
Luiz Mott São Paulo-SP. 49 anos No saguão do 1h e 20 min. João Antônio
Em 06/05/1946. Rio Palace Mascarenhas.
Hotel. Depois
nos transferimos
para o Salão Rio
de Janeiro I. Em
22/06/1995

183
A gravação foi feita à época que ele ocupava o cargo de Diretor de Formação Cultural da Secretaria
Estadual de Cultura de São Paulo.

209
Segunda Rede:
A) Entrevistas com os Membros da Redação do Lampião.
Nome do Local e data de Idade à época Local e data da Tempo de Indicação de
colaborador nascimento da gravação gravação gravação nomes para
contatos
Antônio Carlos Rio de Janeiro - 37 anos Na residência do 1h e 40min. Alceste
Moreira RJ. Em Editor no Rio de Pinheiro;
23/08/1958 Janeiro. Em Alexandre
26/08/1995 Ribondi;
João Carlos
Rodrigues; e
Dolores
Rodriguez
Alceste Pinheiro Rio de Janeiro- 43 anos Na residência do 1h e 40 min. Não fez
RJ. Em professor no Rio indicações para
22/03/1952 de Janeiro. Em entrevistas.
20/10/1995.
Dolores Rio de Janeiro- 38 anos Na residência da 1h e 20 min. Forneceu pistas
Rodriguez RJ. Em jornalista no Rio para a
07/05/1957. de Janeiro. Em localização de
23/10/1995. Leila
Míccolis.184

B) Entrevistas com os Colaboradores do Lampião (Rede II).


Nome do Local e data de Idade à época Local e data da Tempo de Indicação de
colaborador nascimento da gravação gravação gravação nomes para
contatos
João Carlos Rio de Janeiro- 46 anos Na residência do 1h e 30 min. Luís Carlos
Rodrigues RJ. Em escritor no Rio Lacerda;
11/07/1949. de janeiro. Em José Fernando
20/10/1995. Bastos; e
Aguinaldo Silva
Luiz Carlos Rio de Janeiro- 50 anos Na residência do 1h e 20 min. Forneceu pistas
Lacerda RJ. Em escritor no Rio à localização de
15/07/1945. de Janeiro. Em Francisco
22/10/1995. Bittencourt185
José Fernando Salvador-BA. 47 anos No gabinete do 40 min. Não fez
Bastos Em 11/03/1948 jornalista - indicações para
Teatro Rival - entrevistas.
Rio de Janeiro.
Em 23/10/1995.
Alexandre Mimoso do Sul- 42 anos Na residência do 2h e 20 min. Não fez
Ribondi ES. Em jornalista em indicações para
12/12/1952. Brasília. Em entrevistas.
19/11/1995.

184
Ao final da gravação fui informado por Dolores Rodriguez sobre o falecimento de Adão Acosta e de
Arístides Nunes.
185
As pistas não foram suficientes a localização do crítico de artes no Rio Grande do Sul.

210
O Processo, da Transcrição até a Conferência.

A seguir apresento as entrevistas “transcriadas”. Antes se faz importante


lembrar que história oral de vida indica duas situações: uma se refere à reflexão
sobre a palavra e a outra está ligada à valorização da experiência humana. Pressupõe
também uma mudança de estado do oral para o escrito, por intermédio de técnicas
que sistematizam os discursos. O trabalho com história oral de vida transforma o
depoimento e, como faço nesse item, explica esse processo de elaboração a fim de
evidenciar o método, a disciplina e a compreensão teórica empreendidos durante
esse processo.186
As transcrições procederam à repetição detalhada da gravação, representaram
o início do processo de passagem da fala gravada para a escrita. Esse processo gerou
três níveis de percepção sobre o trabalho: o primeiro ligado ao registro da fala do
depoente; o segundo refere ao ambiente onde foram realizadas as entrevistas; e o
terceiro buscou compreender a interferência de uma terceira pessoa no depoimento.
Há duas possibilidades ligadas ao primeiro nível: uma delas refere aos tons de
voz que não apresentaram problemas à compreensão - a gravação era clara, pausada
e de fácil entendimento -, a outra refere a problemas simples como a velocidade das
frases emitidas, por vezes acompanhadas de um tom de voz mais baixo ou por
risadas, gerando palavras que se aglutinavam. Nesse caso, a compreensão da frase
inteira ajudava a decifrar os termos prejudicados durante o registro, porém os
colocava entre colchetes para não perder a idéia sobre como consegui recupera-los.
Era comum repassar uma fala diversas vezes quando o registro possuía algum dos
problemas descritos. Não obstante, esse cuidado consumia um período de tempo
maior para a transcrição, pois a atenção era redobrada em função do sentido das
frases.

186
MEIHY, J. C. S. B. “No camarim das palavras” in: A colônia Brasilianista: história oral de
vida acadêmica. São Paulo: Nova Stella, 1990. p. 15-33.

211
Há palavras que ficaram entre colchetes durante a transcrição porque se
referiam a expressões locais, citações em língua estrangeira ou mesmo nomes de
cidades e pessoas que geraram dúvidas sobre a grafia correta. Eram palavras
específicas que compunham o depoimento do colaborador e - quando não eram
esclarecidas no decorrer da própria gravação - foram transcritas da forma mais
próxima para que fossem reconhecidas pelo entrevistado e corrigidas. A fase de
conferência das entrevistas, explicada mais abaixo, contribuiu para a resolução
dessas dúvidas que afluíram no decorrer da primeira fase.
A entrevista possuía limites relacionados à gravação, como os gestos ou
expressões faciais que os colaboradores expressavam enquanto forneciam o
depoimento: a transcrição pura e simples das palavras não daria conta desses
aspectos. Foi preciso escrevê-los logo após a entrevista para que não se perdessem,
mesmo porque algumas frases foram acompanhadas por expressões corporais que
imprimiam outro sentido às palavras. Durante o processo de transcrição coloquei
essas anotações junto das frases que eram referendadas pela gesticulação, assim
poderia recompor o sentido que o colaborador queria expressar no momento do
depoimento.
O segundo nível de impressão está relacionado ao ambiente no qual o
depoimento foi realizado. Houve casos em que o local era adequado, não havia o
menor ruído e nem qualquer interferência nos registros, o que facilitava o trabalho
de transcrição. Entretanto, houve situações que não configuravam essa possibilidade.
As entrevistas realizadas em locais públicos ficaram repletas de registros
sonoros, aparecendo em intensidade menor à voz do colaborador. O cuidado em
manter o gravador próximo ao entrevistado e com o volume do aparelho no máximo
- técnica que garante um bom resultado à gravação - contribuiu para o registro do
depoimento e garantiu uma audição mais clara na fase de transcrição. O caso mais
complicado refere a um ambiente onde era realizado um ensaio musical. José
Fernando Bastos concordou em conceder o depoimento, mas enfatizou que somente

212
poderia fazê-lo no local de trabalho. Concordei em fazer a entrevista e fui
surpreendido pela situação.
O colaborador procurou ficar no espaço mais distante e reservado que podia,
mas o registro da música e das pessoas que circulavam na área entravam em franca
concorrência com a voz do colaborador. O trabalho com essa gravação exigiu muitos
cuidados. Porém, a certeza que não houvera mudanças no sentido das frases somente
ocorreu quando José Fernando Bastos se reconheceu no texto - na fase de
conferência da entrevista - aprovando-o para a divulgação.
Fazer entrevistas em diferentes locais - propícios ou não propícios à gravação
- revelou que nem sempre era possível manter a aura de envolvimento entre o
entrevistado e o entrevistador. Aqui é possível apresentar o terceiro nível de
impressão que se refere à interferência de uma terceira pessoa no momento da
gravação. A interrupção do depoimento ocorreu poucas vezes, mas foram suficientes
para gerar duas considerações.
Por um lado, houve casos de entrevistados que após serem interrompidos -
para assinar um papel, ou para atender um telefonema - pediam para ouvir o último
trecho que fora gravado e retomavam o depoimento a partir daquele ponto, então
anotei apenas os motivos ligados à interrupção.
Por outro, a interrupção estimulava o colaborador a elaborar mais aspectos
que eram acrescidos ao seu depoimento. Houve um caso em específico - ligado à
entrevista de Luiz Mott -, onde o depoimento caminhava para as considerações finais
quando ocorreu uma interrupção. Essa quebra resultou num enriquecimento da
entrevista, antes de finalizá-la o colaborador esclareceu os motivos que levaram à
interrupção do registro.
Essas quebras aconteceram com mais freqüência em locais públicos. Nos
ambientes privados as entrevistas foram interrompidas quando o colaborador
precisava atender ao telefone, mas não ocorreu nenhum caso de interferência de uma

213
terceira pessoa no depoimento, o que contribuiu para um vínculo maior entre quem
contava e quem ouvia a história de vida.
Durante a transcrição foi possível concatenar o exercício de audição das fitas
e passagem para o texto escrito com as anotações que realizei após a gravação. Esse
trabalho preparou a próxima fase: a textualização das entrevistas.
Essa etapa implicou na filtragem dos ruídos, correções, definições de
palavras-chaves que revelaram a temática dada à fala. Foi o estágio em que se
reorganizou os discursos, obedecendo a estrutura requerida para um texto escrito,
contudo, preservando o tom dado pelo colaborador. O trabalho com as textualizações
apoiou-se profundamente na etapa anterior.
As transcrições mantinham as características da fala oral passada diretamente
para o texto escrito, incluíam também as perguntas que foram postas aos
colaboradores. Elas ainda possibilitaram a pontuação dada pela fala dos
entrevistados, além de permitir que o texto fosse marcado por barras colocadas antes
das frases que inseriam um tema diferente. Esses apontamentos ajudaram a
configurar o texto escrito e a criar a divisão dos parágrafos.
A primeira textualização gerou um enorme receio da minha parte - inclusive
na hora de retirar as perguntas que fiz -, queria conservar tudo que ocorrera na
entrevista. No início dessa etapa, apesar das leituras teóricas que orientavam o
processo, as conversas com meu orientador ajudaram-me a compreender que a partir
do momento em que passei o discurso oral para o papel já havia feito uma alteração,
então deveria buscar melhorar a entrevista através do texto escrito. Esse receio em
mexer nas transcrições começou a diminuir quando comecei a ver o resultado das
textualizações, a partir da terceira fiquei mais à vontade com o trabalho.
As transcrições forneceram ainda duas características que foram trabalhadas
durante a textualização: uma delas referiu aos colaboradores que salpicavam um
mesmo tema em diferentes fases do depoimento; e a outra estava ligada aos
colaboradores que apresentavam uma narrativa linear e organizada.

214
As transcrições que apresentavam a primeira característica foram re-
arranjadas, sendo organizadas com o objetivo de manter uma linearidade ligada à
trajetória de vida. Buscava-se primeiro a história do nascimento, depois a da
infância, em seguida a dos estudos até chegar às considerações que o colaborador fez
sobre sua vida à época da entrevista.
No caso das transcrições de colaboradores com um depoimento mais linear, o
trabalho referiu a retirada das perguntas e da descrição dos ruídos. Essa organização
prévia, presente na fala dos entrevistados, viabilizou um trabalho mais rápido.
Em ambos os casos, contudo, era preciso estar atento para não descaracterizar
as narrativas, pois em todos os depoimentos os colaboradores utilizaram palavras ou
imprimiram um tom pessoal, característico em suas falas, isso os ajudaria a se
reconhecer no texto durante a fase da conferência.
Paralelamente a textualização era possível trabalhar com a transcriação dos
depoimentos. O conceito de transcriação, segundo José Carlos Sebe Bom Meihy, foi
emprestado do poeta Haroldo de Campos e refere ao espírito da entrevista. Ele indica
que o texto foi definido plasticamente e a atmosfera da entrevista foi recriada. Isso
não seria possível caso se reproduzisse somente o que foi gravado.187
A transcriação pode ser observada através da elaboração textual de atos ou
expressões que não foram captados pela transcrição - risadas, gestos com as mãos,
voz baixa, exaltação -, e através das janelas que precedem a entrevista concedida
pelo colaborador. Elas foram elaboradas com as impressões que anotei a partir dos
seguintes casos: quando fazia o pedido para uma entrevista; no momento do
encontro com o colaborador; e do comportamento do entrevistado durante e após a
gravação.
No entanto, o reconhecimento desse processo dependia da fase de conferência
das entrevistas com as pessoas que concederam o depoimento. Só então o resultado

187
MEIHY, J. C. S. B. “Transcrever, textualizar, transcriar”. In: Canto de morte Kaiowá:
história oral de vida. São Paulo: Loyola, 1991. p. 31.

215
final do processo de transcrição, textualização e transcriação poderia ser
considerado válido.
Para evitar utilizar a datas e locais referentes à fase de conferência optei por
colocá-las nos quadros que precedem as entrevistas dos colaboradores.
Após concluir as transcriações entrei em contato com os colaboradores para
iniciar o processo de conferência. Durante as conversas enfatizei que eles tinham
completa autonomia para alterar qualquer coisa que quisessem, pois a legitimação do
texto deveria passar pela aprovação deles.
Durante os primeiros contatos fui questionado sobre a possibilidade de enviar
o texto pelo correio, antes do encontrá-los para a conferência, decidi acatar a
sugestão e a idéia se revelou profícua. No momento em que me reuni com os
colaboradores, eles faziam a releitura junto comigo e apontavam as alterações que
deveriam ser feitas.
Glauco Mattoso preferiu que a conferência fosse feita por outra pessoa,
dizendo que me entregaria depois. A preferência do colaborador se deveu ao
problema de visão e por não saber com certeza quando haveria uma pessoa com
disponibilidade para ler o texto. O parecer do colaborador foi positivo.
James Naylor Green à época não se encontrava no país, retornara aos Estados
Unidos e não tinha perspectivas de vir ao Brasil, pois estava administrando um curso
na California State University. A única possibilidade viável foi enviá-la para sua
residência em Los Angeles. Assim que o colaborador conferiu o texto da entrevista,
mandou um comentário sobre o resultado e a aprovou para a divulgação.
No contato com João Carlos Rodrigues fui avisado pelo colaborador que não
poderíamos nos reunir para a conferência. Na mesma semana em que eu fui ao Rio
de Janeiro, ele estaria em Campinas palestrando sobre seu trabalho com a biografia
de João do Rio que acabara de ser lançada. Não tive tempo de propor outra data, pois
o colaborador antecipou-se e mandou o texto conferido e autorizado para a
divulgação.

216
Houve também três casos - Roberto Piva, Peter Fry e Antônio Carlos Moreira
- em que os colaboradores receberam o texto com antecedência, mas não tiveram
tempo para lê-lo, pois estavam assoberbados com os compromissos profissionais e
intelectuais. Perguntei-lhes quando poderia retornar para encontrá-los, então eles
sugeriram fazer a leitura, comentar por escrito e depois enviar pelo correio. Diante
da impossibilidade, decidi acatar as sugestões. Posteriormente recebi os textos
conferidos, comentados e aprovados.
Os encontros que fiz com os outros colaboradores foram fundamentais, pois
cimentavam a relação que se iniciou ainda no pedido para a entrevista. A
impossibilidade de encontrar cinco entrevistados foi perfeitamente compreensível,
não influiu no processo de conferir, alterar e autorizar o texto, mas não representava
a forma ideal de conclusão do processo e só foi aceita devido à exigência das
circunstâncias.
O trabalho de história oral com um grupo seleto de escritores revelou duas
formas de avaliação do texto por parte dos colaboradores: uma aceitou o processo
fazendo pequenas alterações como a exclusão ou a inclusão de frases e nomes, o
esclarecimento das palavras que estavam entre colchetes e a correção de datas e
fatos; a outra também realizou essas pequenas alterações, porém ressaltou que no
caso de elaboração do texto adotariam seus respectivos estilos.
As dezessete entrevistas foram transcriadas. Uma delas, porém, feita com
Jean Claude Bernardet, não recebeu parecer favorável durante o processo de
conferência. O professor sugeriu a realização de outra gravação para um novo
rearranjo do texto. Nesse caso, o tempo para redação final dessa dissertação
concorreu com o processo de trabalho com história oral. A decisão em não incluir a
entrevista de Jean Claude Bernardet obedece a uma questão de ética posta pelo
trabalho com história oral de vida, pois o texto do colaborador ainda não contém a
imagem que ele quer deixar de si. O compromisso ético assumido com Jean Claude

217
Bernardet ainda não está encerrado, continuara até a conclusão do processo de
trabalho com sua entrevista.
As outras dezesseis entrevistas foram autorizadas para a divulgação.
Considerei adequado preservar a categorização que refere a origem das duas redes,
assim como a divisão interna da primeira em três sub-redes: membros do conselho,
autores coligidos e colaboradores; e da segunda em duas sub-redes: redatores e
colaboradores.

218
Primeira Rede:

Os Membros do Conselho do Lampião.

Nome do Data e Idade à Local e data Textos Local e


colaborador local de época da da conferidos Data de
envio do conferência conferência enviados autorização
texto pelo correio do texto
João Silvério Osasco-SP 53 anos Na São Paulo-
Trevisan188 em residência SP
21/03/1997 do escritor ________
. em São 16/05/97
Paulo. Em
16/05/1997
João Antônio Osasco-SP 69 anos Na Rio de
Mascarenhas em residência Janeiro-RJ
189
20/03/1997 do advogado ________
. no Rio de 09/04/97
Janeiro. Em
10/04/1997
190
Peter Fry Osasco-SP (56) anos Rio de Rio de
em Janeiro-RJ Janeiro- RJ
21/03/97 ________
em 23/06/97

21/06/97

188
Membro do Conselho Editorial a partir de lançamento do jornal em abril de 1978 (Nº 0); passa
a ser apresentado como Editor em janeiro de 1981 (Nº 32) e permanece com essa denominação até
a extinção da publicação (Nº 37)
189
Surge como Membro de Conselho Editorial a partir do lançamento do jornal em abril de 1978
(Nº 0), permanece até setembro de 1978 (Nº6).
190
Surge como Membro de Conselho Editorial a partir do lançamento do jornal em abril de 1978
(Nº 0), permanece até setembro de 1980 (Nº 27).

219
. Nasceu em Ribeirão Bonito, São Paulo,
em 23 de junho de 1944.

. Escritor, roteirista e diretor de cinema,


dramaturgo, tradutor e jornalista.

. Estudos acadêmicos: Filosofia no


Seminário Maior de Aparecida/
Lorena, SP e na Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.

. Autor, entre outros: Testamento de


Jônatas deixado a David, 1976; Em
Nome do Desejo, 1983; Vagas
Notícias de Melinha Marchiotti,
1984; Devassos no Paraíso, 1986; O
Livro do Avesso, 1992; Ana em
Veneza, 1994.

João S. Trevisan.

220
A entrevista foi realizada no
apartamento do escritor J. S.
Trevisan. No decorrer de uma
recepção, formal e muito
agradável, cruzaram-se várias
apresentações, como os motivos
para a visita, o trabalho de
pesquisa, o contato com o escritor
e suas idéias. Conversamos um
pouco antes de iniciarmos a
gravação. Havia um clima de
curiosidade, afinal, essa foi a
primeira entrevista do projeto.
Longa o suficiente para um breve
intervalo, a pedido do escritor.
Num falar tranqüilo e paciente, ele
contou sua vida. Disse que era um
ser noturno. Coincidentemente, ou
não, a entrevista começou na hora
do crepúsculo e fomos envolvidos
pela sombra da noite.

São Paulo, SP,


29 de janeiro de 1994.

221
"... toda a minha história se insere neste contexto: eu estou o tempo
todo lutando com Deus..."

Eu sou de Ribeirão Bonito. Nasci na véspera de São João, dia 23 de junho de


1944. No hemisfério sul é a noite mais longa do ano. Eu sou um ser noturno.
Acredito ter alguma coisa a ver com a noite. Não fisicamente, mas espiritualmente. E
também, não no sentido imediato de ser um temperamento muito lunar, mas da
minha vida ser um pouco esse me debater nas trevas. A sensação que tenho é a de
estar sempre envolvido na noche oscura de São João da Cruz e de ter que encontrar
os meios de acender os meus palitos, os meus focos de luz para poder iluminar meu
caminho.
Eu nasci à uma hora da tarde, é um horário do qual eu gosto muito... acho um
horário bonito. Nasci numa cidadezinha de sete mil habitantes, ao lado de São
Carlos. Passei a minha infância, até quase dez anos, em Ribeirão Bonito. Depois fui
para um seminário de padres em São Carlos. A minha relação com Ribeirão Bonito
foi muito conflituosa.
Venho de uma família de classe média muito baixa... de imigrantes. Eu tenho
três dos meus avós italianos e uma avó espanhola... acredito que absolutamente
analfabetos. Meu avô paterno veio do Vêneto e provavelmente nem falava o italiano,
falava o vêneto. Minha avó paterna veio de Málaga, era malaguenha. Os dois avós
maternos, que vieram da Calábria, eram Aiello. De uma maneira, mais ou menos
rápida, os Trevisan conseguiram fazer um pézinho de meia e compraram uma
padaria, daí o por quê da "classe média". Só que no momento em que entrei em cena
tudo isso estava em decadência. Papai já havia se separado dos irmãos, a partilha da
herança já havia sido feita, muito conflituosa inclusive, algumas irmãs foram
injustamente deixadas de lado. Os homens, eu acho que eram quatro, engalfinharam-

222
se por causa disso. Além da padaria, havia também terrenos. Mas a padaria era o
"filé mignon" e eu não sei por que cargas d’água meu pai acabou ficando com o
"filé mignon", contra a pretensão dos outros, sobretudo do mais velho... ele se tornou
um grande rival do meu pai.
Na verdade, papai era o filho predileto da mãe e aparentemente a pessoa mais
afável da família. Acho que era uma família muito difícil, os Trevisan, pelo que
conheço da história particular desses Trevisan. Na lista telefônica de Veneza há
várias páginas de Trevisan. É uma família muito antiga, acho que é um tronco só,
mas enfim com várias ramificações que não têm nada a ver umas com as outras.
Trevisan tem desde patriarca de Veneza e doge de Veneza (governador da cidade-
estado), até analfabetos como o meu avô. Meus tios eram pessoas apenas com
instrução básica. Quem lê Vagas Notícias de Melinha Marchiotti, meu segundo
romance, percebe muito dos Trevisan... é em parte sobre a minha família.
Tenho um grande conflito interior com os Trevisan. Eu sou um Trevisan que
briga com os Trevisan que conheci, a começar pelo meu pai. O papai que conheci já
não era mais a pessoa afável que dizem ter sido. Tenho a impressão que meu pai
começou a beber desvairadamente depois da morte da vovó e da separação dos
bens... talvez durante mais de vinte e cinco anos. Isso o tornou um alcoólatra. Então
o pai que eu conheci, do qual me lembro, sempre foi um alcoólatra, um homem que
me tratou com muita frieza, quando não com muita brutalidade.
Eu era o mais velho de quatro irmãos (três homens e uma mulher). Em nome
disso tinha uma série de compromissos que tornaram a minha infância muito infeliz.
Eu tinha que tomar conta de uma padaria que era um fantasma, praticamente não
aparecia ninguém... papai tinha poucos fregueses. Uma padaria totalmente
decadente. O pão do meu pai era muito ruim, detestado pela cidade. Apareceram
outras padarias concorrentes, não me lembro se uma ou duas, que faziam um pão
muito melhor.

223
Além de estudar e ficar tomando conta da padaria - porque meus irmãos eram
pequenos - eu entregava pão com meu pai, era uma espécie de empregado dele e a
princípio era tratado como tal. Eu entregava pão num carrinho com um cavalo. Meu
pai ficava no carrinho e eu descia para entregar o pão. Então ouvia as reclamações,
os xingos e as humilhações das pessoas contra meu pai.
Tudo isso era muito duro para mim, tanto que com oito anos de idade - eu
acredito - já pensava em suicídio. São as primeiras lembranças que tenho a respeito
de minhas fantasias de suicídio. Eram fantasias bem típicas de criança, nas quais eu
queria cortar os pulsos para ser amado. Obviamente, havia nisso um componente de
chantagem emocional muito claro. Eu sofria muito, era muito solitário e tinha muito
pouco contato com as crianças. Também era muito isolado na escola.
Não creio que fosse uma criança exatamente tímida, acho que era um pouco
tímido, mas o meu afastamento era um pouco tácito. Primeiro, porque eu era filho do
bêbado da cidade... e isso era muito duro para mim. Segundo, porque eu era
diferente... tenho a consciência de ser diferente desde as primeiras lembranças da
infância. E eu era diferente porque tinha um desejo sexual que os outros meninos
não tinham, ou pelo menos eu não podia compartilhar claramente com eles. Às vezes
em que isso aconteceu foi de uma maneira muito sub-reptícia, muito proibida,
quando não reprovada na prática.
Lembro-me, por exemplo, de uma vez em que minha mãe me apanhou no
fundo do quintal fazendo troca-troca com o filhinho da lavadeira, uma preta que
lavava roupa lá em casa... até me lembro que o menino se chamava Carmo. Eu tomei
uma surra violenta, não me lembro a idade, eu era pequenino, porém já sentia muito
claramente um desejo sexual diferente. Eu não sabia classificar, mas sabia que era
apaixonado por um tio, por colegas, por atores de cinema. Lembro-me, por exemplo,
do Tyrone Power, que me deixava absolutamente deslumbrado. Quando eu via seus
filmes passava semanas sonhando com ele. A minha solidão era compensada por

224
fantasias enormes. Vivia num mundo de fantasias enquanto era obrigado a tomar
conta da padaria.
Às vezes saia escondido, então eu apanhava porque o meu pai não me
encontrava lá. Arranjava cera de abelha, muito comum na época, e ficava
construindo um circo com pequenos personagens. Eu desenhava muito bem. Tinha
um traço correto, desenho comum, nada de excepcional... isso de copiar as pessoas,
o rosto, os traços. Ficava construindo trapezistas de cera. Eu tinha um prazer enorme
em detalhar os peitos e as coxas tanto dos trapezistas como das trapezistas. Lembro
que construía meus pequenos trapézios e ficava na padaria brincando com esses
trapezistas de cera.
Além de entregar pão no carrinho, também entregava pão mais longe - nos
arredores da cidade -, montado no lombo de um cavalo chamado Parabelo. Lembro
que montava no lombo sem arreio e vivia com a bunda em carne viva... por causa do
suor do cavalo. Eu tinha muito medo. Uma vez cheguei a cair. Ele era um cavalo
manso, mas muito cismado, que ao mesmo tempo eu amava e temia. A coisa piorou
quando o cavalo morreu... passei a entregar pão no seu lugar. Carregava um cesto
enorme, entregando aqueles pães mirrados que meu pai fazia.
Os pães do papai não cresciam. Não sei se ele não sabia fazer pão direito... se
por desleixo, ou pelo fato de ter perdido o contato com a realidade enquanto
alcoólatra. No meio disso tudo tinha as surras que além do papai dar em mim, ele
dava em minha mãe... era algo extremamente doloroso. Havia também o testemunho
do meu tio mais velho. Ele morava parede e meia e era um cara muito mais esperto,
tinha mais senso de negócio. Ele era mais rico e abriu um bar... ao lado da padaria e
bar do meu pai, para concorrer. Eu ouvia ele gritando: "- Mata esse pai, mata esse
desgraçado!"... sempre que havia briga e na casa dele se ouvia a gritaria do meu pai e
o choro da mamãe.
Essas são as lembranças que tenho da minha infância. Foi uma infância muito
triste, não tenho nenhum pejo em dizer. Papai me dava chutes e murros. Eram surras

225
muito violentas. Durante toda a minha vida foi muito difícil recuperar afetivamente
a figura do meu pai.
Com quase nove anos de idade, fui para o seminário em São Carlos... queria
ser padre. Não sei como essa idéia apareceu na minha cabeça, mas a verdade é que
eu era muito ligado à igreja. Era coroinha, membro da cruzada eucarística e mamãe
era muito religiosa. Eu tinha um contato muito estreito com minha mãe. Mamãe
sempre me admirou muito. Apesar dela não ter completado o grupo escolar - quando
morreu estava fazendo o quarto ano do grupo escolar no Mobral - era uma pessoa
extraordinariamente sensível... a ponto de perceber muito cedo quem eu era.
De certo modo, foi um alívio ir para o seminário. Escapei do papai e daquela
vida muito difícil para mim. Mas saí do buraco e caí no abismo. Os primeiros anos
no seminário foram muito dolorosos. A disciplina era muito rígida. A minha solidão
tornou-se ainda mais dolorosa, pois era uma solidão no meio de cem ou cento e vinte
meninos... de boa parte dos quais tinha que me defender. Alguns se tornaram
dolorosamente objetos dos meus amores e eu não tinha nenhum acesso a eles. Então,
era um amor retraído, um amor muito escondido e muito solitário. O único canal de
expressão desse amor eram os meus colegas, os meus iguais... esse foi o lado
compensatório da situação: encontrei vários meninos homossexuais como eu. Isso
foi um pouco redentor. No meio de toda aquela dor, tinha confidentes que sentiam a
mesma coisa que eu... e nós trocávamos confidências a respeito de nossos amados.
Em Nome do Desejo é um livro que se refere exatamente a esse assunto.
No primeiro ano de seminário, tentei ficar doente várias vezes para poder
voltar para casa. São Carlos é uma cidade relativamente fria. Tenho lembrança de
ficar na chuva tentando pegar uma pneumonia, tal a situação paradoxal em que vivia.
Ou seja: eu, que havia ficado aliviado ao ir para o seminário e deixar minha casa,
agora estava fazendo de tudo para tentar voltar para casa e deixar o seminário. Eu
tinha uma saudade insuportável da minha casa, sobretudo da mamãe.

226
Fui um aluno absolutamente exemplar. No grupo escolar tirava os primeiros
lugares, as melhores notas, era realmente brilhante. Inclusive as minhas redações
eram lidas pelos professores. Mas nesse primeiro ano de seminário estava um pouco
em estado de pânico lá dentro. Cheguei a tirar média cinco, acho que passei com
cinco virgula quatro... o que significa que quase repeti de ano. Eu não conseguia
estudar nada e o meu aproveitamento escolar foi bastante medíocre.
No segundo ano comecei a me aclimatar um pouco melhor, mas o paradoxo
aumentou. Nas férias, quando estava indo para casa, tinha uma felicidade enorme,
mas ao mesmo tempo sofria demais por estar deixando os meus amados. Então eram
momentos em que a minha felicidade era vivida ao mesmo tempo que a minha dor...
não conseguia distinguir as duas coisas. Eu não tinha nenhuma coragem de fazer
declaração de amor aos amados... que ora eram mais velhos, ora eram mais novos.
A partir de um determinado momento houve uma revolução no seminário.
Acho que três anos depois de minha entrada, entraram padres jovens, com
orientações do Concílio Ecumênico Vaticano II, que modernizaram completamente o
seminário. Houve uma mudança radical nos valores e passei a ser uma personagem
de primeira importância em todo esse contexto. Passei a ser considerado um líder,
uma pessoa extremamente criativa e comecei a estudar cinema. Freqüentava o
cineclube da cidade, trouxe um padre especialista em cinema para fazer o curso
sobre cinema no seminário, via filmes e comecei a dirigir peças de teatro.
Lembro de ter dirigido uma peça, grande sucesso em toda a cidade, chamada
Pluft o fantasminha... de Maria Clara Machado. O ator principal da peça era um dos
meus amados. Esse menino estava à beira de ser expulso do seminário. Como as
regras do jogo haviam mudado, caso os alunos não apresentassem nenhuma
qualidade especial eram considerados medíocres e mandados embora... antes era ao
contrário, os mais quietinhos não corriam esse risco. Foi a partir dessa revolução que
as pessoas mais interessantes para esses padres passaram a ser os donos de maior
iniciativa. Esse menino só não foi expulso do seminário porque eu revelei uma

227
grande qualidade sua: ele foi considerado um grande ator. Lembro também de ter
tido a ousadia de colocar um coleguinha meu no papel de menina... com a maior
tranqüilidade, botei uma roupa feminina nele e ele ficou sendo a Maribel. Quando
lembro disso, em 1959, acho uma ousadia... inclusive os padres aceitaram tudo muito
bem. A peça era apresentada na cidade com aquele menino travestido e eu fui muito
elogiado.
Eu também era um grande declamador de poesia... ganhei vários prêmios.
Mas me considerava um péssimo ator, tenho essa impressão por causa das peças em
que atuei. Mas como declamador gostava muito do que fazia. Viajava muito ao
declamar, criava meus personagens. Quando havia concursos no seminário,
fatalmente ganhava todos. Já a partir desse momento tive um bom contato com a
literatura. Por exemplo, eu declamava Jorge de Lima, Carlos Drummond de
Andrade, enfim tinha um contato razoável com a literatura.
Vivi dez anos no seminário. Estudei em São Carlos durante sete anos, fiz o
ginásio e o colégio... que considero de alto nível. Estudava grego. Estudei latim
durante muito tempo. Amava o grego tanto quanto odiava o latim. Lembro do
trabalho final no terceiro ano de grego - que infelizmente se perdeu -, nunca
consegui lembrar se fiz sobre a Ilíada ou a Odisséia... nele eu fazia citações, em
grego, de Homero. Depois fui para o seminário de Aparecida. Era o Seminário
Maior, onde se estudava filosofia... o Seminário Menor era onde se fazia o ginásio e
o colégio.
O ambiente no Seminário Maior era um pouco mais fechado que em São
Carlos, mas ainda assim eu tinha umas brechas. A relação com meus amores
começaram a ficar um pouco mais abertas e um pouco mais claras. No último ano de
seminário tive um sério namoro com um colega. Nós ficamos muito apaixonados um
pelo outro e namoramos com o beneplácito do diretor espiritual, um padre jovem
que considerava muito importante a relação que nós dois tínhamos. Ele achava que
nós nos completávamos interiormente. Eu e esse rapaz tivemos uma relação muito

228
bonita, de declaração de amor, onde tudo o que tínhamos era dos dois, tanto o
dinheiro quanto os livros e a roupa. Eu me sentia mal porque ele era de uma família
mais rica, então sentia que o estava injustiçando nessa junção de bens, mas nós
tínhamos um prazer enorme nisso.
Só que começou a aparecer um problema na história: eu não conseguia
resolver a questão sexual. Ficava excitado o tempo todo ao lado dele... e isso não
entrava na minha cabeça. Eu tinha um grande amor por ele e não sabia o que fazer
com a minha excitação sexual que realmente estava interferindo no meu amor. O
seminário sempre deixou muito clara a questão da Pérola das Virtudes: a castidade.
Sabia que era pecado a relação sexual entre nós dois. Foi uma situação muito
dramática, onde tive que me confrontar com algo que me atormentava física e
espiritualmente... não sabia o que fazer. Quando conversava com os padres, eles
diziam: "- Isso passa, é coisa da adolescência, não se preocupe"... isso desde o
Seminário Menor. Nunca passou, até chegar ao ponto onde me vi numa encruzilhada
brutal.
Nunca tive uma relação sexual com esse rapaz. Ele era muito mais ingênuo do
que eu, mas saímos juntos do seminário... decidi sair do seminário. Não só porque
queria resolver a questão da minha sexualidade, fundamental para mim - e achava
que o seminário não me dava condições - mas também para decidir se eu realmente
queria ser padre. Só conhecia o seminário e não o outro lado, assim não tinha
elementos de escolha. Então saí para eventualmente voltar, mas nunca mais dei as
caras. Aliás, intuía que nunca mais iria voltar. Quando saí, esse rapaz fez a proposta
de nós transarmos e eu não quis. Nesse último ano de seminário tive muita
dificuldade para resolver essa questão.
Com toda essa história de amor, a minha cabeça sofreu uma pressão muito
grande. Ao mesmo tempo, no meio de tudo isso, a figura do meu pai emergiu como
um problema a ser resolvido. Lembro que participei de um concurso promovido pelo
grêmio do seminário... um concurso de contos. Estava muito revoltado com a

229
literatura. Eu tinha dezenove anos de idade quando constatei que havia uma grande
parte da literatura baseada na mentira: era preciso mentir para escrever. Não sei
como percebi isso, mas desde aquele tempo queria fazer exatamente o oposto na
minha literatura. Eu queria que a minha literatura e a minha vida fossem parte de um
mesmo movimento, de modo que para esse concurso escrevi um conto que se
chamava Um Caso. Era a história do escarro do meu pai nas minhas madrugadas.
Um conto datilografado em uma página que guardo até hoje... gosto muito dele. É
um conto despojado, em que minha única pretensão era chegar ao coração da minha
vida... passar poeticamente o meu problema. Claro que havia a intenção poética, mas
uma intenção poética que não fosse mentirosa.
O conto é basicamente sobre um menino que passa a madrugada ouvindo o
escarro do pai que está trabalhando na padaria. O menino busca encontrar uma saída
no meio dessa realidade arruinada e atormentada. Papai escarrava pela janela
enquanto fazia pão durante a madrugada. No final do conto o dia está amanhecendo
e digo que havia vários tons de vermelho, mas ainda que só um pouquinho, havia
também o verde. A epígrafe do conto é uma frase do Paul Claudel, mais ou menos
assim: "Toda dor que existe no mundo não é dor de morte, mas dor de parto".
Eu tinha dezenove anos quando comecei a fazer terapia... ainda estava no
seminário. Vinha uma vez por semana a São Paulo fazer terapia com a madre
Cristina. Essa freira era uma psicóloga muito famosa no Colégio SEDES
SAPIENTIAE, onde era superiora. Depois que saí do seminário, decidi reiniciar a
terapia com outro terapeuta, doutor Soeiro. Fiz durante um bom tempo, talvez mais
de um ano. Primeiro fiz terapia individual e depois em grupo. Foi então que chequei
de fato toda a relação com meu pai e ao mesmo tempo a minha homossexualidade.
O tema da primeira terapia foi o meu pai. Ironicamente, nessa terapia, falando
do meu pai eu consegui aceitar a minha homossexualidade: mais ou menos aos vinte
e um ou vinte e dois anos de idade. Ao mexer com meu pai veio à tona, de maneira
muito clara e direta, a questão, a aceitação do meu pai e da minha homossexualidade.

230
Descobri que todo problema estava ligado ao fato de amar profundamente papai e
não ser amado por ele. Aceitei isso como uma tragédia da minha vida... nunca
consegui corrigir, mas aceitei como sendo uma parte muito importante da minha
vida. Com essa aceitação veio a aceitação do meu desejo... que tenho desde que me
conheço.
As sessões individuais de terapia foram muito duras. Tive sorte de encontrar
um terapeuta que era muito honesto, além de não cobrar quase nada ou talvez nada...
porque a minha família se tornou muito pobre. Papai praticamente teve que vender a
padaria para pagar as dívidas... ele estava completamente endividado. Desde o início
o terapeuta foi extremamente honesto consigo mesmo e comigo. Eu poderia ter caído
nas mãos de um pilantra qualquer que pudesse tentar me "transformar" em
heterossexual.
Não consigo entender terapias que tentam transformar homossexuais em
heterossexuais... acho que são equívocos extremamente perigosos. Conheci grandes
tragédias pessoais por causa de terapeutas que tentaram criar esse tipo de situação,
cujo processo acaba desenvolvendo uma profunda culpabilidade no homossexual
que obviamente não consegue se transformar num heterossexual, apesar de todas as
aparências, casamento, filhos, etc. Enfim, encarei frente a frente com a minha
homossexualidade.
Foi muito duro passar da terapia individual para a terapia em grupo e
conseguir falar em público sobre isso... já dando nome ao meu desejo. O processo
terapêutico foi tão bonito e tão profícuo que acabei me apaixonando por um colega
do grupo. Assim, vivi toda a problemática dentro do grupo e foi o que me curou para
todo o sempre das minhas angústias relacionadas à minha homossexualidade. A
partir de então, em nível social, sempre me encontrei em situações muito
complicadas, enquanto homossexual. Nesse período não podia, nem perante a minha
família, nem perante os meus colegas de faculdade, deixar clara essa situação. Eu
tinha consciência de que estava vivendo uma repressão, mas tinha consciência

231
também de que o problema não era meu, mas da sociedade onde eu estava inserido.
Então essas descobertas foram muito importantes para mim.
Em mil novecentos e sessenta, provavelmente, toda a minha família se mudou
para São Paulo... fomos morar num porão da periferia. Naquela época era quase
limite da cidade, um bairro chamado Itaberaba... depois da Freguesia do Ó. Nós
morávamos de favor no porão da casa de irmãos da minha mãe. Com o tempo e o
trabalho de todos fomos construindo uma casinha. O papai continuava alcoólatra,
sistematicamente era mandado embora dos trabalhos... o que era muito humilhante
para ele. Isso provavelmente colaborou para acelerar ainda mais seu alcoolismo. Ele
chegou a São Paulo e foi trabalhar como servente de pedreiro, tal a pobreza em que
nos encontrávamos. A mamãe era o grande sustentáculo de toda essa situação. Ela
trabalhava como costureira, além de cuidar da educação dos filhos, três meninos e
uma menina, porque meu pai era completamente ausente.
Há um fato que considero absolutamente marcante na minha vida e que tem a
ver com o tipo de formação que tive. Desde a formação com os padres, costumava
abrir o peito e enfrentar as situações... por isso digo que era tímido até certo ponto.
Na minha evolução pessoal, há um dado muito importante... no Seminário Menor,
eu disputava o primeiro lugar da classe com um colega meu. Ele era exatamente o
oposto de mim. Tinha um Q. I. mais alto do que eu, mas a sensibilidade dele estava
aquém da minha... então eu compensava com a minha sensibilidade. Nós vivíamos
disputando o primeiro lugar e éramos rivais, acredito que ele era mais rival meu do
que eu dele... porque eu sabia das minhas limitações.
Eu era um desastre em matemática, tinha problemas sérios em física. Assim
tinha que me esforçar muito nessas matérias... sabia exatamente das minhas
insuficiências em certos terrenos. Esse rapaz não tinha nenhum problema, sua
memória era prodigiosa, enfim era o que se chama de alto Q. I. Só que ele estava
desesperado, não conseguia entender porque eu gostava de certos filmes. Eu devia
ter uns quinze anos, nunca me esqueço, quando foi apresentado no seminário - talvez

232
até por minha própria interferência - um filme do John Ford chamado: Depois do
Vendaval. Uma comédia muito divertida e inteligente que amei. Enquanto o resto do
seminário achou o filme algo absolutamente comum, eu achei uma obra-prima...
fiquei deslumbrado com o filme. Desde muito cedo realmente tive contato com o
cinema.
Esse rapaz não conseguiu entender porque eu tinha gostado, mas ficou
intrigado em descobrir o motivo porque sabia que eu era inteligente. Ele começou a
me provocar sem parar. Isso durou até o dia em que havia um Ford estacionado na
frente do seminário, ou passando... Era durante um recreio onde nós, às dez ou dez e
meia da manhã, comíamos um lanche - um pãozinho seco com uma banana. Eu
estava comendo essa banana e o cara começou a me provocar dizendo: "- Ah! Tem
gente que gosta de Ford a torto e a direito. Olha aí um Ford. Por que não gosta desse
aí?"... percebi que estava me provocando. Então chegou uma hora em que não
agüentei mais: peguei a banana que estava comendo e esfreguei inteirinha na sua
cara, com toda a raiva do mundo, a ponto de tirar sangue do seu nariz.
Esse fato é muito marcante porque sempre tive esse traço de bondade da
mamãe e de sua família, os Aiello... são pessoas muito doces e contidas em relação à
violência. A mamãe, por exemplo, morreu de implosão: o coração dela explodiu. A
sua doçura era tão grande que todo mundo que a conhecia amava seu jeito de ser. Ela
era uma pessoa deliciosa, mas incapaz de dizer uma palavra pesada contra alguém...
e morreu do coração aos cinqüenta anos de idade. Foi nesse momento, quando
comecei a mexer com a minha agressividade, que me desliguei da minha mãe.
O reitor, que possuía uma enorme admiração por mim, chamou-me para dar-
lhe explicações do que tinha ocorrido. Então contei-lhe toda a história e disse: "- Se
o senhor quiser me castigar me castigue, mas se for necessário... faço tudo de novo!"
Ele não me deu castigo nenhum, Reconheceu o que tinha acontecido e sua admiração
por mim cresceu ainda mais.

233
Quanto ao rapaz nos tornamos grandes amigos. Foi o grande amigo da minha
vida. Nunca mais tive um amigo tão radical quanto ele para uma amizade que durou
apenas esse período de colegial. Era uma amizade verdadeira, não tinha nada a ver
com paixão... inclusive nós compartilhávamos todas as nossas necessidades, a nossa
evolução interior, os nossos amores. Foi o meu grande amigo desse período de
adolescência.
Estranhamente, quando fomos para o Seminário Maior, nós nos afastamos. Eu
peguei o caminho da noite escura, sempre dando de cara com os problemas: a minha
sensibilidade era grande demais para poder fazer de conta que os problemas não
existiam. Eu quebrava a cara mesmo e sofria muito, enquanto que com esse rapaz foi
o oposto. Tanto que ele não saiu do seminário e foi para Roma... os melhores eram
escolhidos para ir para Roma. Lá, ele enlouqueceu e tentou suicídio várias vezes.
A minha adolescência é muito singular. Gosto muito mais da minha
adolescência do que da minha infância. Nessa época, apesar de tudo, comecei a
tomar a minha vida nas mãos. Quando decidi sair do seminário, estava com a cabeça
completamente estropiada. Sabia disso porque tinha uma série de problemas a
resolver e não conseguia. Lembro que certa vez chamei esse amigo e lhe disse:"- Em
nome da nossa antiga amizade, que não sei por que não continuou, eu queria te dizer
uma coisa que acho muito séria: tome cuidado na tua vida. Você é o tipo de pessoa
que quando encontra um obstáculo é inteligente o suficiente para contorná-lo. E eu
sou frágil o suficiente a ponto de precisar subir pelo obstáculo e sair do outro lado. É
muito duro, mas eu acho que estou aprendendo alguma coisa quando eu subo esse
obstáculo. Você está deixando de aprender e acho que isso vai ser muito ruim para
você".
Depois de três ou quatro anos, após eu ter saído do seminário, certa vez às
quatro da madrugada alguém toca a campainha da minha casa em Itaberaba, um
bairro distante, de difícil acesso. Era ele, esse meu amigo. Ele conhecia a mamãe, já
tinha ido a minha casa várias vezes, mas nessa época mantínhamos pouco contato.

234
Chegou dizendo que precisava falar comigo: "- Você se recorda daquela frase que
você me disse? Você tinha toda a razão. Eu... estou vivendo problemas muito sérios
na minha vida, porque não subo os obstáculos. Eu peguei uma gonorréia com uma
moça!". Ele ainda estava no seminário.
Bem mais tarde soube que ele fazia terapia de grupo com seus colegas de
seminário e o grande problema era essa moça. Ele foi para Roma e lá teve um surto
brutal de psicose maníaco-depressiva. Começou a ter crises de paranóia brutais e
teve que voltar para o Brasil. Ele morreu numa estrada vazia, de uma maneira muito
suspeita, como se tivesse atirado o carro para cima de um barranco... na entrada da
minha cidade, ele era vigário ali perto. Só muito depois soube que a mulher, à qual
ele se referia o tempo todo na terapia, era na verdade um rapaz. Ou seja, ele
realmente não tinha condições de subir o obstáculo de maneira alguma. Até ao
contar para mim, ele mentiu.
Então são dois caminhos. A história desse meu amigo, que acho muito
dolorosa, deixa muito claro o que eu tive de enfrentar, mas também o que ganhei
com esse enfrentamento. Ao sair do seminário, fui ajudado por um trecho do Velho
Testamento, a Bíblia, justamente a luta de Jacó e o Anjo. Eu acho que a minha vida é
um pouco isso: uma luta com Deus. Parte dessa noite escura é lutar com Deus, lutar
com o mistério, desvendá-lo. O mistério e toda a minha história se inserem nesse
contexto: eu estou o tempo todo lutando com Deus, naturalmente não sem efeitos
colaterais.
O Anjo na Bíblia é sempre uma metáfora de Deus, aliás não só uma metáfora
mas é a idéia de Deus. Quando o Anjo pede para Jacó soltá-lo, Jacó diz: "- Eu só o
solto se você me abençoar". Então o Anjo fez duas coisas muito importantes: tocou o
nervo da coxa de Jacó, que a partir desse dia ficou coxo - o estar manco foi o sinal
da divindade; e o Anjo o abençoou, dando-lhe o nome de Israel que significa "aquele
que luta com Deus". Desse modo abençoou-o devolvendo o seu gesto... e abençoou-

235
o tornando-o coxo. Eu acho que a minha benção é a minha homossexualidade. Eu
acho que a minha benção é a luta com Deus.
Em 1973, fui embora do Brasil. Desde o seminário sempre fui de esquerda...
inclusive na época do golpe militar de 1964, a polícia invadiu o seminário de
Aparecida. Desde aquele período nós tínhamos uma ação política, muito fascínio
pelo socialismo, apesar do socialismo ser considerado uma coisa perigosa pela
Igreja... mas havia o encantamento. Eu tive participação em vários grupos políticos.
Participei inclusive na Ação Popular, mas tenho muita dificuldade para me sentir
conivente com partidos. A minha consciência ultrapassa a conivência do partido e
esse é um outro problema da minha vida.
A Ação Popular era um grupo que no início da ditadura brasileira juntava as
áreas socialistas mais próximas da Igreja. Como continuei estudando filosofia na
Pontifícia Universidade Católica, estava muito próximo da área de JUC (Juventude
Universitária Católica) e JEC (Juventude Estudantil Católica). A minha formação
política inicial passou por dentro de tudo isso. Nesse sentido era uma coisa natural
que eu tivesse contato com a A.P. Quando entrei na Ação Popular e vi o que era a
A.P., fiquei horrorizado com a piada que era aquilo. Não era nada do que parecia e
resolvi sair da A. P. Então mandei uma carta analisando os problemas que eu tinha
encontrado e os motivos pelos quais havia saído. Fiz uma severa crítica ao seu
maoísmo que considerava algo absolutamente de fachada... uma bobagem. Eu me
considerava um maoísta, mas na verdade o que me atraía no maoísmo era o
anarquismo implícito em alguns de seus aspectos.
Enfim, em 1973 não agüentei mais ficar no Brasil, com gente sendo presa,
com a repressão brutal e fui embora em auto-exílio. Fiquei três anos fora do país:
meio ano viajando, um ano morando no México e um ano e meio nos Estados
Unidos. Saí do Brasil para ir para Berkeley, na Califórnia, onde haviam ocorrido as
lutas estudantis. Na época tinha uma fantasia parecida com a de Rimbaud: como
sabia que a fantasia de Rimbaud era ir para Paris para ver a queda da cidade com a

236
comuna, eu queria ir para Berkeley para ver a queda do império americano... porque
Berkeley era a sede do movimento estudantil e dos quebra-paus nos Estados Unidos.
Então fui para os Estados Unidos para morar em Berkeley e morei lá, limpando casa
inicialmente, depois trabalhando num restaurante.
Em Berkeley, tive meu primeiro contato com uma série de coisas
importantíssimas, as quais vieram complementar as descobertas que já tinha feito. Lá
descobri o movimento homossexual, descobri os anarquistas, o movimento
feminista, o movimento negro, descobri ecologia... tudo isso em 1973. Berkeley era -
acredito que não seja mais, parece que atualmente ela é uma cidade meramente
universitária -, mas naquela época ela era uma ponta de lança ideológica contra o
sistema americano: o American Way of Life. Uma espécie de caldeirão onde
experiências novas, bem no bojo da década de setenta, estavam sendo trabalhadas.
Eu vivi coisas muito radicais, muito deliciosas, que estão registradas nos
meus diários. A partir de 1975 recomecei a fazê-los. Sempre fiz diários no
seminário, mas num determinado momento os queimei porque não agüentava... eram
muito sofridos. Basicamente eram histórias dos meus amores. Não queria mais ler
aquilo que me fazia sofrer muito, era muito angustiante, então os queimei. Mas em
1975, nos Estados Unidos, retomei o meu diário. Comecei a fazer novamente e até
hoje faço. Desse modo, parte de todas essas experiências estão registradas.
Em Berkeley comecei a tomar consciência não apenas de ser o que eu era,
mas de batalhar para poder ser o que eu era. Foi um momento muito revelador e
particularmente privilegiado do movimento homossexual americano... porque ainda
era um desabrochar de algo muito juvenil, muito encantado, muito cheio de brilho.
Acho que depois o movimento homossexual americano tornou-se muito guetoizado,
ficou uma coisa de levantar bandeiras, prendeu-se a objetivos tais como conquistar o
poder.
Na minha cabeça sempre gostei muito do anarquismo. O poder é algo a ser
destruído e não cultivado. O poder deve ser dividido o quanto for possível, para que

237
seu efeito se dilua, porque não posso falar em nome de ninguém... nós somos
indivíduos únicos. Eu, enquanto homossexual, quero ser porta-voz da minha
homossexualidade, do meu prazer, do meu desejo. Nesse sentido a minha
consciência enquanto homossexual entra em cena: não quero que fiquem dizendo o
que devo ou não fazer.
Participei de passeatas homossexuais, tenho as fotografias que tirei. Estava
absolutamente encantado em ver aqueles homens de pau duro, desfilando em 1974,
1975, gente se masturbando em público, desfiles onde havia sado-masoquistas com
todas as suas correntes. Tudo aquilo deu-me uma sensação de liberdade muito
grande. Ao mesmo tempo, continuava fazendo a crítica do sistema americano. Eu
tinha, por exemplo, muita saudade dos olhares brasileiros.
Quando andava em Berkeley, as pessoas se cumprimentavam mesmo sem se
conhecer, o que era muito agradável para mim. Os carros paravam quando você
atravessava a rua. Foi muito desagradável quando voltei para o Brasil, quase fui
atropelado porque estava acostumado com Berkeley. Mas mesmo assim sempre senti
falta do jeito latino-americano, tanto que não agüentei e fui para o México. Eu já
havia passado um mês lá e amava aquelas cores mexicanas, aquela confusão, pessoas
cantando, falando.
Nos Estados Unidos, me aterrorizava a sensação de estar num grande hospital,
tudo limpinho, branquinho, tudo no lugar. Realmente é um país que não suporto. Eu
amava Berkeley e San Francisco. San Francisco é uma cidade absolutamente
inesquecível, uma das coisas belas da minha vida. Eu junto San Francisco, Roma e
Munique e faço a minha cidade ideal. Mas não os Estados Unidos. Acho que a
cultura americana, para o mundo moderno, é sinônimo de um desastre, nada mais
nada menos do que isso.
Meus amigos americanos, que eram socialistas e anarquistas e homossexuais,
faziam críticas violentas ao sistema americano, com as quais eu obviamente
concordava. Eles tinham um grande respeito por mim, pelo fato de ser latino-

238
americano - o oposto do que acontece hoje, quando os latino-americanos são
espezinhados... mas é claro que também eram pessoas especiais. Eles não eram o
“americano típico” do qual tinham horror. Faziam questão de ironizar o tempo todo a
cultura americana.
Eu morava com um rapaz que era jardineiro, o Philip, a quem tive a satisfação
de ter dado a primeira experiência homossexual na sua vida. Nós não éramos
amantes, apenas tivemos uma relação e morávamos juntos sem sermos namorados.
Mas enfim foi a primeira vez na vida que ele colocou em prática coisas que queria
fazer, e foi comigo. O Philip era um rapaz absolutamente comum, era jardineiro,
socialista, tinha um bigodão preto, um rapaz nem machão nem efeminado.
Mais tarde, fui trabalhar num restaurante anarquista, ou seja, não tinha patrão.
Cada dia nós tínhamos uma função. Um dia eu era lavador de pratos, no outro eu era
o chefe da cozinha. Nós revezávamos as nossas funções, justamente com intenção de
não sermos injustos uns com os outros. Eu trabalhava em Oakland, uma cidade que
era continuação de Berkeley, a cidade dos Black Panthers, os panteras negras.
Oakland era uma cidade de população negra. Eu trabalhava lá e morava em
Berkeley. No restaurante onde trabalhei, o Bishop’s Coffee House, nós servíamos
refeições para velhinhos e velhinhas aposentados. Era parte de um programa das
igrejas e do governo. Nós recebíamos o dinheiro e o geríamos dentro desse
programa... era tudo absolutamente sério.
O governo mandava de vez em quando um inspetor verificar as condições.
Nós servíamos o dinner que nos Estados Unidos é a refeição principal - o almoço é o
lunch, que é uma refeição mais apressada. Eu chegava do trabalho cansado porque a
gente logo depois do almoço começava a preparar a comida, lavava os pratos,
deixava tudo pronto e à noite servia um bando de senhoras e senhores, pessoas
deliciosas que eram amigas nossas. Lembro-me por exemplo da Florence, uma
senhora trotskista que participava em todas as passeatas gays. Ela era partidária dos
homossexuais e nos dava toda força.

239
Para embasar a história que vou contar a seguir é preciso falar sobre uma
instituição chamada free box... eram caixas deixadas em vários pontos da cidade.
Assim, o que não era mais usado pelas pessoas era deixado dentro dessas caixas
para alguém - caso estivesse precisando - pegar. Então peguei muita roupa, roupa de
frio, porque ao lado da minha casa tinha uma free box. Quando estava triste, eu ia
até lá ver o que tinha de presente para mim. Tinham coisas muito boas, roupas de lã.
Eu me vesti muito com roupas da free box. Cheguei até a encontrar líquido para
revelar fotografias, porque Berkeley era uma cidade estudantil, assim quando as
pessoas terminavam os estudos e iam embora, deixavam todas as suas coisas lá,
inclusive roupas.
Nós tínhamos um amigo travesti, o Christopher, que não era o que se conhece
como travesti no Brasil hoje, nem o travesti prostituto, nem o transformista, que é
mais especializado em trabalho no teatro, nem mesmo a chamada drag queen. Nos
Estados Unidos o nome geral para o travesti é drag queen e não é uma caricatura
como no Brasil, onde qualquer homem que coloca uma roupa de mulher torna-se
uma drag queen.
Exatamente nesse período de enorme efervescência ideológica e política
(1974), apareceu no movimento homossexual um novo tipo de travesti, o gender
fucker... expressão que traduzida ao pé da letra significa “fodedor de gêneros”. Ou
seja, era muito importante para nós na época mostrar que o sistema no qual
estávamos inseridos havia criado os gêneros. Na verdade pensávamos que os gêneros
têm uma parte natural muito pequena e todo o restante é uma criação cultural.
Assim, para ser homem o menino tem que brincar de carrinho desde pequeno, o
homem tem que botar uma puta pose de macho e calça comprida "de macho" para
criar o gênero masculino. Então era quase moda na época um cara muito viril botar
roupa de mulher, deixar o bigode, pintar os lábios, pintar o rosto e deixar o peito
peludo de fora. Essa turma não era nem uma coisa nem outra, o papel deles era
espezinhar os gêneros. Esse tipo de comportamento deu origem ao termo gender

240
fucker. O Christopher na verdade era um gender fucker. Ele, por exemplo, não
raspava os pêlos, mas vivia vinte e quatro horas por dia vestido de mulher. Tanto que
estava recebendo o salário-desemprego sob o pretexto de não conseguir trabalho por
ser travesti.
Nessa época havia uma palavra-de-ordem na esquerda de ponta americana, a
esquerda mais atrevida, que era usar o quanto se pudesse o governo, mamar
realmente no sistema americano e utilizar aquilo que os poderosos colocavam à
disposição, não apenas dentro do Estado, mas nas corporações ricas. Assim, havia
revistas de esquerda que publicavam o número do cartão de crédito de certos
empresários ou de certas empresas, para que as pessoas pudessem utilizá-los e
realmente sacanear. Lembro de fazer telefonemas para o Brasil utilizando esse
sistema. A gente dava o número do cartão de crédito que teoricamente seria secreto.
Quando a trama era descoberta, já era tarde. Então o jornal publicava novos
números. Esse pessoal tinha uma série de manhas, muito vivas, muito irônicas e de
grande humor.
Os gender fuckers se inseriam nesse contexto e o Christopher ainda mais,
porque vivia do salário-desemprego, sob o pretexto de que queria ser um transexual,
desse modo ele estava precisando de dinheiro para fazer a operação. O que de fato
não era verdade. De qualquer modo ele dava o endereço da minha casa para receber
seu cheque mensal, o qual chegava até lá enviado à Miss Chris. Era muito irônico
porque os caras não o chamavam de Christopher. Já haviam mudado seu gênero e o
chamavam de miss. Com tudo isso, Chistopher aparecia muito lá em casa. Vivia
pegando roupa na free box e deixava muitas delas dentro de casa.
Numa dessas noites, depois do trabalho, cheguei na minha casa e a encontrei
num estado miserável, toda revirada, com roupas por tudo quanto era lado. Fiquei
puto da vida com o Philip e esbravejava: "- Porra, esse Philip realmente não toma
jeito. Ele pensa que eu sou o quê? Empregada. Qualé?". Fiquei furioso porque tinha
ido até em casa para logo em seguida ir à abertura de uma exposição fotográfica

241
sobre homossexuais, aliás lindíssima - até hoje tenho o cartaz. Quando cheguei nessa
exposição era a coisa mais divertida do mundo... Muita gente estava fazendo o estilo
gender fucker.
O clima pré-AIDS era muito divertido, não sei como é o clima pós-AIDS nos
Estados Unidos, porque nunca mais estive lá. Mas nessa época era muito divertido.
A ordem era desestruturar o tempo todo.
Cheguei nesse lugar, onde estava havendo a vernissage da exposição, muito
divertida, muito gostosa, e vi um rapaz que ligeiramente me lembrava alguém. Era
um rapaz vestido de mulher loira, uma peruca enorme, com uma mini-saia, fazendo
um gênero absolutamente cafona, com uma bota de couro até o joelho, umas coisas
de leopardo... era a curtição da cafonice mesmo. De repente me dei conta: era o meu
amigo Philip, o meu colega de casa. Naquele momento entendi o por quê da bagunça
total lá em casa: tratava-se do Christopher tentando aprontar o Philip para ir à
exposição vestido de gender fucker. Eu ri muito porque era uma coisa muito
divertida. O Philip estava sem os óculos e não havia me reconhecido Só o reconheci
depois de muito tempo. Ele estava uma figura absolutamente hilariante. Então rimos
muito e viemos fazendo muita farra até em casa. Essas eram algumas das vivências
que tive lá.
A vivência sexual nos Estados Unidos era muito intensa, mas a vivência
afetiva era desastrosa. Sempre tive muita dificuldade em manter uma relação afetiva
no contexto sexual americano. Apaixonei-me por um ou outro, mas nunca consegui
ter um namorado americano. Trepava-se muito e só lembro que nos meus últimos
meses de Estados Unidos já estava desesperado. Para transar com os caras eu
chegava antes e dava uma lição a eles sobre o que queria na cama. Deste modo eu
sistematicamente doutrinava as pessoas a respeito da ternura. Eles não tinham idéia
do que era ternura, tanto que demorei muito em descobrir a palavra na língua inglesa
para ternura. Não é tenderness... que tem uma outra conotação. Fui descobrir que a
palavra mais adequada é warmth, To be warm é “ser terno”, “ser quente”. Eu pedia:

242
"- Será que não dá para você passar um pouquinho a mão em mim?"... eu tinha muita
necessidade. Era uma necessidade não só da minha personalidade, mas da minha
formação brasileira de pele e eles não têm idéia do que seja isso - sempre lembrando
que estou falando de pessoas politicamente muito preocupadas em crescer em nível
de consciência.
Enfim, não agüentei e fui-me embora para o México. Lá eu estava em casa.
Não precisava explicar o que era ternura. Na primeira semana arranjei um namorado
e passávamos horas fazendo carinho um no outro. Isso era essencial para minha vida
interior, para a minha vivência e o meu enriquecimento pessoal. O tempo que morei
nos Estados Unidos foi fundamental para ter uma vivência política da questão
homossexual... lá aprendi tudo. Aprendi inclusive a fazer a crítica da política
homossexual tal qual os americanos a praticam e que acho muito guetoizante.
Quando voltei ao Brasil passei a vida sendo um solitário, em 1973 já reclamava
a esse respeito. Antes de ir para os Estados Unidos morei numa comunidade só de
homossexuais, aqui no Brasil, onde reclamava muito sobre o fato de me sentir
solitário no meio homossexual. Achava que havia pouca gente com quem poderia me
relacionar. O meio homossexual já era e se tornou mais ainda um lugar basicamente
de pegação, um grande açougue. Fora disso não há companheiros com quem trocar
idéias. Somente há à disposição gente com quem foder... acabou a fodelância,
acabou tudo. A minha vivência enquanto homossexual passa pela minha cama, mas
não fica só nisso, nunca foi assim e nunca será.
Sempre tive muita dificuldade para compartilhar intimamente o meu mundo
com heterossexuais, a não ser em casos muito especiais, tinha necessidade de
compartilhar com homossexuais. Achava que seria mais fácil porque de qualquer
modo o nosso desejo estava emparelhado. Até hoje, em certos círculos da minha
família, mesmo que eles saibam que sou homossexual - e quase todos sabem -
quando vou conversar não tenho como compartilhar com eles a minha vivência.

243
Tenho de esconder setenta por cento do que sou e trabalhar com trinta por cento da
minha personalidade. Então tudo isso é muito difícil para um homossexual.
A minha intenção era poder ter espaços onde pudesse me sentir à vontade
enquanto homossexual, não apenas na cama. E foi em função dessa solidão que
pensei em criar o movimento homossexual no Brasil. Digamos que não pensava:
"- Vou criar o movimento homossexual no Brasil". Eu queria encontrar gente que
pudesse compartilhar um pouco das minhas idéias, que pudessem ser meus
companheiros, meus amantes também - e eventualmente foram -, mas foi muito
difícil.
Logo que cheguei, todos os meus amigos estavam engajados em partidos
políticos de esquerda, inclusive os homossexuais. Eu, que mesmo sendo de esquerda
já lhe fazia críticas severas, agora tinha um motivo a mais para fazê-las: o seu
sexismo e o profundo preconceito que a esquerda alimentava, e alimenta, contra a
homossexualidade... na época considerada uma vivência burguesa. Quando voltei,
fiquei absolutamente sozinho com as minhas idéias. Tentei formar um grupo e foi
um desastre. O nível de auto-estima das pessoas que o freqüentavam era baixíssimo.
Lembro de uma pessoa que tinha crise de enxaqueca brutal, dores de cabeça
violentas, a cada vez que trepava com um homem, ou seja, era uma auto-punição
exemplar. Tudo isso me levava a pensar: "- Meu Deus, onde é que eu estou? Eu que
sinto tanta satisfação em trepar, o que tenho a compartilhar com essa pessoa doentia?
Esse cara precisa de uma bela terapia para resolver o problema dessa angústia,
porque ele está dando porradas em sua própria cabeça, por ser homossexual. Ele vai
ter que se tranqüilizar e saborear o seu desejo". Ser homossexual é uma coisa muito
deliciosa. A chamada “problemática homossexual” com certeza nasce do contexto
das coisas que são empurradas na cabeça do homossexual.
Um dos problemas que tive com o movimento homossexual, diga-se de
passagem, foi nunca ter acreditado que o homossexual fosse melhor do que os
outros. Acho que nós homossexuais temos uma série de coisas específicas para

244
oferecer à sociedade, inclusive temos direito a isso e foi por esse direito que eu
sempre quis lutar, porém acredito que essas novidades, as quais nós temos a
oferecer, certamente nos tornam um pouquinho mais interessantes que outros grupos.
Por exemplo, os heterossexuais não têm mais nada de novo a oferecer: eles até hoje
sempre foram ouvidos. Eu também tenho coisas a oferecer e até hoje não sou ouvido.
A minha perspectiva é que não sou nem melhor nem pior que os outros, mas com
certeza tenho algumas coisas muito particulares para apresentar: tenho algumas
reflexões muito singulares a oferecer justamente porque elas vêm do meu ponto-de-
vista enquanto homossexual, o qual os outros naturalmente não têm. E era apenas
esse direito que eu queria exercer. Claro que para descobrir esse direito era
necessário fazer uma análise da minha situação na sociedade, dos meus colegas...
então começou a nascer o grupo SOMOS.
Acredito que o grupo se arrastou por um ano como uma coisinha de dez
pessoas... entravam algumas e achavam aquilo muito babaca. O nível de discussão
sempre foi muito baixo. Acho que até hoje a reflexão sobre a homossexualidade no
Brasil é de um nível muito tímido, muito raquítico, mesmo dentro dos grupos
homossexuais. Quando as pessoas descobriam um filão, elas ficavam usufruindo, e
não havia uma reflexão pessoal a respeito da sua própria homossexualidade. Quando
se descobriu o filão do Gay Power, por exemplo, o problema reduziu-se a essa
questão. Eu acho isso um desastre, porque até hoje me considero um anarquista. A
questão do poder não é tirá-lo dos heterossexuais e entregá-lo aos homossexuais,
mas sim a possibilidade de se rediscutir a questão do poder na sociedade, para
dividi-lo o mais possível, de tal modo que ele seja igualitariamente utilizado,
assimilado e veiculado pelos mais diversos grupos sociais.
Ao mesmo tempo em que me interessei pela questão da homossexualidade,
como um fenômeno social problematizado, eu me interessei automaticamente pela
situação dos negros, dos índios, das mulheres e por ecologia. Todas essas questões
eram tomadas como referenciais. O tempo todo as pessoas do grupo SOMOS se

245
colocavam: "- Como acontece com as mulheres, olha o que o machismo está fazendo
conosco; como acontece com os negros, olha a questão do centralismo étnico; como
acontece com os índios, olha o que se está fazendo contra a nossa cultura indígena"
Muito tempo antes de tudo isso se tornar moda, já eram questões discutidas dentro
do grupo e que tornaram-se mais cruciais dentro do jornal Lampião.
A idéia do Lampião era muito rica e pretensiosa, extraordinariamente
inovadora para a época, porque não visava somente permitir aos homossexuais
falarem pela própria voz, mas abrir um espaço para aquilo que a esquerda da época
odiava: as chamadas lutas menores - sexualidade, racismo e ecologia. Os grandes
problemas que nós tivemos, e que agravaram-se até o ponto de destruir o movimento
homossexual, estavam ligados à autonomia dessas questões “menores” frente à
questão da luta de classes... questão fundamental para a esquerda ortodoxa, a
esquerda dos partidos políticos e especialmente do PT que na época já havia
emergido.
Uma tendência do PT acabou engolindo o grupo SOMOS, que tornou-se um
apêndice seu - pelo fato de “ser necessário não quebrar a unidade do movimento
proletário”. Nós morríamos de rir, porque começávamos a fazer uma crítica do
proletariado perguntando quem realmente é o proletário, quem é que está falando em
nome do proletariado, quem são esses advogados de merda, esses professores
universitários de merda que estão falando em nome do proletariado, quem são os
proletários que estão dentro desses partidos. Claro que nós fomos descobrir que
tratava-se da elite do proletariado, o proletariado do ABC, o mais rico da país. Nesse
sentido nós tínhamos uma crítica muito séria. No meio dessa crítica, nós embutimos
a questão da homossexualidade e de todas as questões que eles chamavam de “lutas
menores”.
A “luta maior” era a luta do proletariado que não podia sofrer nenhum tipo de
ruptura... e nós estávamos ameaçando sua unidade. A nossa reflexão era a seguinte:
"- Se você é proletário ou não, sendo preto, você vai ser discriminado. Se você é

246
proletário ou não, pobre ou não, você sendo mulher, você vai ser discriminada. É
verdade que se você for pobre, mulher e preta, você vai ser ainda mais discriminada,
porém existem muitas mulheres burguesas que apanham do marido, ou seja, são
problemas que ultrapassam a questão da classe. Deste modo, a luta de classes não
pode ser uma varinha mágica que explique todas as questões da sociedade e ponto
final". O nosso problema era esse: os problemas da sociedade moderna não se
esgotam na questão da luta de classes. Com essa reflexão nós dizíamos que o
movimento homossexual não tinha que se filiar ao movimento proletário: os
homossexuais são donos da sua própria voz. Os que quisessem poderiam ser de
esquerda, mas o nosso tratava-se de um movimento autônomo.
Uma das maiores discussões que nós tínhamos era essa questão da autonomia
do movimento homossexual, que infelizmente no Brasil até hoje é uma questão não
resolvida. Na Folha de São Paulo foi noticiado há alguns meses atrás um suposto
encontro nacional de homossexuais, o qual aconteceu num local do PT... fiquei
muito constrangido ao ler isso. Não se dizia que era um encontro de homossexuais
petistas, mas um encontro nacional de homossexuais. Uma das conclusões tiradas do
encontro, por esses homossexuais, foi lutar contra a Revisão Constitucional.
Entretanto, lutar contra a Revisão Constitucional é uma posição do PT que não tinha
nada a ver com os homossexuais. Pelo contrário, os homossexuais tinham todo
interesse em trabalhar pela Revisão Constitucional. Enfim, na Constituição aprovada
não se mencionou a questão da discriminação por opção sexual. Você pode
discriminar um homossexual, segundo a atual Constituição, e não sofrer nenhum tipo
de problema legal.
Esses homossexuais estavam lambendo os pés dos petistas, estavam
cooptados pelo partido. Em 1993, viviam o mesmo problema que dez anos antes nós
já estávamos discutindo ferozmente, ou seja, o ponto absolutamente fundamental
para a existência de um movimento homossexual ou, em última análise, do meu
direito de viver o meu desejo homossexual. Dez anos depois, a interferência chega a

247
esse ponto: uma lambeção de bota. Se ainda fosse vivida conscientemente: “- Tudo
bem, eu gosto de lamber bota porque eu sou masoquista”... mas não, trata-se de uma
questão que considero vergonhosa. Fiquei constrangido pelo fato das questões
daquela época ainda não terem sido resolvidas e continuarem mais do que nunca
atuais.
O Lampião entrou pra valer nessa história toda. Nós tivemos muitos problemas.
Acredito que eu era uma ponta-de-lança nessa história, não tenho medo em dizer.
Forcei a barra nesse sentido. Cheguei, por exemplo a fazer artigos com feministas e
assinar juntos. Eu queria que elas compreendessem o meu ponto-de-vista e queria
compreender o delas e nós precisávamos nos aproximar do ponto-de-vista
massacrante da esquerda ortodoxa, com o qual nos confrontamos em 1979, que
representou um momento marcante na história do grupo SOMOS... foi quando houve
o debate no departamento de Ciências Sociais da USP.
Na verdade, o que aconteceu foi que o Centro Acadêmico resolveu abrir pela
primeira vez o debate sobre as tais "minorias" - outro termo que nos fazia rir porque
reduzia as mulheres a uma minoria; apesar da sociedade brasileira estar todinha
perpassada pela negritude, os negros também eram “minoria” - mas isto aqui não
seria o Brasil se não houvesse o samba, todo o gingado negro na cultura brasileira
produzido pela "minoria". Em todo caso, era a palavra usada na época. Havia uma
noite para a discussão com os negros, uma noite para a discussão com as mulheres,
uma noite para a discussão com os índios e uma noite para discussão com os
homossexuais. Lembro que na noite anterior à nossa os negros tinham sido
massacrados, justamente por essa defesa da sua autonomia. O auditório estava lotado
por gente que queria nos massacrar, acabar logo com essas “minorias”. Eu conto isso
no Devassos no Paraíso. Essa noite foi um embate claro e aberto, a “luta menor”
contra a “luta maior”. Davi lutando contra Golias. O debate foi absolutamente
brilhante porque a esquerda viu-se confrontada a partir de um ponto-de-vista de
esquerda.

248
O Lampião pretendia trabalhar nesse contexto, com esses dados.
Ironicamente, já no primeiro número fomos incluídos por um grupo paramilitar, que
estava estourando bombas em bancas de revistas, na lista de jornais subversivos que
não poderiam ser vendidos.
A palavra americana stablishment tem um peso muito específico para definir o
"sistema". A esquerda brasileira raramente usou o termo Sistema. Eu vou usar um
neologismo: "heterossexuália". A "heterossexuália" é uma maldade que faço com o
"sistema heterossexual": a heterossexualidade elevada à condição de exercício de
poder. A heterossexuália teve tanto medo da gente que logo no número zero, o
ministro da justiça, na época o Armando Falcão, instaurou um inquérito contra o
Lampião, por atentado à moral e aos bons costumes através da imprensa, por
veicular matéria atentatória. Era o Estado contra o Lampião.
A matéria escolhida fora feita pelo João Silvério Trevisan sobre o jornalista
Celso Curi. Basicamente era uma matéria que contava como o Celso Curi estava
sendo perseguido pelo sistema judiciário brasileiro por ter criado uma coluna gay no
jornal Última Hora de São Paulo, e quem publicou essa matéria para defender o
Celso Curi também entrou no rolo, então nós sofremos esse inquérito já a partir do
número zero. A punição foi exemplar, veio rápida e não havia diálogo.
Lembro que eu e Darcy Penteado, o querido Darcy Penteado, fomos ouvidos
aqui em São Paulo, por sistema de carta precatória, depois do nosso pessoal no Rio
de Janeiro, pois o inquérito estava correndo lá. Nós fomos intimados a comparecer à
delegacia e fomos interrogados por um delegado que nem sabia qual era a acusação
que pesava contra nós. Ele começou a fazer o interrogatório como se nós fossemos
subversivos, perguntando se eu havia estado em Cuba. Até que alguém veio e
cochichou alguma coisa em seu ouvido. Ele saiu, voltou, pediu desculpas e começou
tudo de novo. Ele não sabia o que fazer, tanto que chegou a perguntar: "- Como é
que eu posso chamar o senhor ?" Então lhe disse: "- O senhor me chame pelo meu
nome".

249
Foi um interrogatório absolutamente ridículo, porque é óbvio que está cheio
de homossexuais na polícia. Eles conheciam travestis, porém nunca tinham visto na
frente deles um cara com terno e gravata ser acusado de homossexual. Eles dão
porrada em travesti, agora fazer um interrogatório de homossexual com advogado do
lado era uma coisa que eles desconheciam. Num outro dia eu e Darcy fomos
fotografados e fichados. Nunca vou esquecer que fui fotografado de frente e de lado,
com uma canga no pescoço. Nessa canga, tinha o número 0240, e eu não creio que o
número 24 tenha sido colocado exatamente por acaso. Esse inquérito nunca deu em
nada. Na verdade, era um inquérito para ver se havia condições de instaurar um
processo contra nós, por atentado à moral e aos bons costumes.
Nós sabíamos onde estávamos mexendo. O início de nossas atividades foi
bastante pesado, tanto que para publicar a primeira foto de homem pelado houve
uma certa inquietação... depois as coisas evoluíram. Havia coisas muito engraçadas.
O Lampião era um jornal vendido nas bancas de norte a sul do país e, para comprá-
lo, a pessoa já tinha que enfrentar a situação de expor a sua homossexualidade, pois
ao comprar aquele jornal ela se identificava como viado. Em nível de consciência
pessoal, isso criava situações políticas muito radicais. Para se ter uma idéia, eu me
lembro da história de um político de esquerda (o qual atualmente é ministro), que
pelo menos de longe sempre procurou acompanhar essas coisas; ele comprava o
Lampião numa livraria e mandava embrulhar, porque não queria sair com o Lampião
debaixo do braço.
O Lampião teve uma vida muito difícil, por causa de problemas financeiros,
mas também começou a ter problemas de divergência interna. Houve várias rupturas,
e no final de sua existência ele começou a apresentar problemas entre a equipe de
São Paulo e a equipe do Rio de Janeiro. Apesar da redação ser no Rio, o combinado
era a equipe do Rio preparar algumas matérias e a equipe de São Paulo preparar
outras. Num primeiro momento, chegou-se a discutir a possibilidade de um número

250
ser feito em São Paulo e o outro no Rio, mas não funcionou por falta de dinheiro.
Mesmo porque as reuniões de pauta acabaram ocorrendo sempre no Rio de Janeiro.
O Aguinaldo Silva tinha seu secretário que, por puro problema financeiro,
tornou-se também secretário do Lampião. E foi mais simples as coisas se arranjarem
assim. Meu ponto-de-vista a respeito da questão homossexual obviamente começou
a se chocar com o do Aguinaldo. Em São Paulo eu era a pessoa mais ativa e no Rio
de Janeiro, indiscutivelmente, era o Aguinaldo. Ele tomou o papel de editor do
jornal. Havia vários editores, mas na prática ele acabou sendo o editor-chefe.
Profissionalmente, mandava e desmandava, já pelo fato de ser jornalista profissional.
Várias vezes mandei matérias de São Paulo que não saíam publicadas. Certa
vez, mandei uma matéria a respeito de comida vegetariana. Eu já não era mais
vegetariano, mas havia sido um tempo nos Estados Unidos e trabalhava muito com
essa questão. Aprendi muitas coisas em nível de absorção de proteínas, combinação,
e até hoje continuo dando muita importância a tudo isso. Resolvi fazer um artigo,
pensando: "Eu acho que as bichas precisam saber um pouco como comer. É um
assunto que qualquer pessoas tem que discutir. Por que não discutir num jornal de
homossexuais!?" É incrível que os nossos pais nunca nos ensinaram a comer.
Sempre comemos porcaria. O que na cabeça deles era comida boa, são coisas
absolutamente discutíveis. Só muito recentemente é que a qualidade da comida, em
função de toda a discussão de uma comida mais natural, veio à tona e começou-se a
discutir o que de fato é comer bem.
Fiz uma introdução bastante irônica à comida vegetariana, muito brincalhona,
até dava receitas, dentro da matéria, mas o artigo não foi publicado... e não houve
explicação. Quando telefonei para perguntar sobre o motivo, alegaram falta de
espaço. Nesse mesmo número do Lampião, onde não havia tido espaço para o meu
artigo, gastaram-se quatro páginas inteiras sobre a Praça Tiradentes no Rio de
Janeiro - mas não havia sobrado espaço para um artigo sobre comida vegetariana.

251
Estavam claras as divergências, não entre mim e Aguinaldo, mas entre Rio de
Janeiro e São Paulo.
A coisa começou a ficar muito difícil principalmente porque nos últimos
números do Lampião a equipe de São Paulo vinha preparando há quase um ano um
dossiê sobre a questão homossexual em Cuba, para mexer justamente num ponto
nevrálgico. A esquerda até hoje não abriu mão da questão de Cuba. Cuba está com
sérios problemas. Fidel Castro é o único ditador latino-americano que sobra. Porém
não se toca nesse assunto: Cuba é sagrada. E nós realmente queríamos cutucar a
onça com vara curta... nesse número que tratava a questão da homossexualidade em
Cuba. Fizemos um sério dossiê, recebendo inclusive material de fora do Brasil. O
Lampião tratava de temas muito sérios, como a relação entre a Igreja e a
homossexualidade, mas esse sobre Cuba foi o mais sério... porque era muito
comprometedor - não porque as bichas fossem de esquerda, na verdade elas não
estavam nem um pouco preocupadas com o que acontecia em Cuba... . e esse foi o
número que menos vendeu. No número seguinte saiu na capa um homem pelado e
esse foi o número que mais vendeu... então fiquei muito preocupado.
Eu já vinha fazendo a crítica do meio homossexual. E isso foi mais uma
evidência de que o meio homossexual, tal como acabou sendo socialmente
constituído, foi feito para consumir sexo e nada mais. Infelizmente, não há espaço
para outra coisa que não seja a putaria. Na época, já desconfiava disso e acabei
confirmando esse fato várias vezes. Acredito piamente que ainda hoje temos os
mesmos problemas daquela época. Em qualquer lugar de pegação, não há a menor
condição de se ter um contato pessoal com alguém... simplesmente conhecer uma
pessoa. O que se conhece é um pinto, uma bunda, um gesto sexualizado e
segmentado, completamente fora do contexto pessoal.
Propus ao Aguinaldo Silva que encerrasse a carreira do Lampião. Fui para o
Rio de Janeiro e fiz uma reunião com as pessoas. Aproveitei que o jornal estava em
má situação financeira, usei esse argumento e fiz de tudo para acabar com a

252
Lampião, antes que ele se tornasse um Notícias Populares de viado... o que para
mim seria a pior coisa do mundo. A idéia do Lampião era outra e assim deveria
permanecer. Quem quisesse fazer outra coisa que fizesse. Tanto que Aguinaldo
tentou criar em seguida uma revista chamada Playguei, mais próxima de suas idéias
voltadas para o comercial. Não funcionou, porque de fato ele precisava ter uma
empresa comercial por detrás. E assim acabou a carreira do Lampião.
Acredito que o aspecto mais triste do Lampião foi não ser ouvido nas
discussões políticas mais importantes que se faziam na época. Nós não pudemos
entrar na conversa, e a nossa discussão tinha elementos da maior importância, tanto
que hoje uma série de temas abordados no Lampião são encontrados em qualquer
jornal do país. Ao propor o final da carreira do Lampião, um dos argumentos que
também usei foi o fato da Folha de São Paulo, na época, estar começando a usar
esquemas do Lampião: criando uma coluna feminista, falando dos negros e de
ecologia. Então eu usei o seguinte argumento: "O sentido do Lampião acabou porque
agora nós vamos ficar chovendo no molhado"... tudo isso foi muito duro. Na verdade
nós fomos cooptados por um jornal como a Folha de São Paulo, mas não com as
nossas características que incluíam uma abordagem escrachada e um estilo
desmunhecado. Aquilo que nós tínhamos a dizer de mais ferino - mas também de
mais inovador porque vinha do ponto-de-vista de um segmento social brasileiro que
nunca tinha sido ouvido - parou no tempo.
Continuo acreditando que a grande responsável por toda essa situação foi a
esquerda brasileira, uma esquerda absolutamente autoritária e centralizadora, uma
esquerda que usa como referencial algo que ela diz odiar: a Igreja Católica. Eu, que
saí de um seminário, sei muito bem como certos valores da instituição eclesiástica
continuam - talvez apenas com novos nomes - dentro da esquerda. Basta pegar os
exegetas que existem na esquerda: eles estudam a verdade marxista, assim como os
exegetas bíblicos. Há os santos: Lula é um homem inatacável, é um santo, assim
como são Lênin, Stalin, Mao Tsé Tung. Não sei muito bem se Deus é o Estado e a

253
classe operária. Ou o Estado é Deus e a classe operária é a Virgem Maria... mas está
tudo muito próximo. Deste modo, somente a máscara é trocada, mas continuamos a
ser vítimas da mesma repressão secular... que vem caindo sobre os homossexuais por
motivos que continuam os mesmos. Essa história de dizer que nós estávamos
rompendo a unidade, seja da classe operária, seja a partidária, não passa de um
disfarce muito mal feito de dogmas católicos. Nesse sentido, eu me rebelei contra a
Igreja e contra os partidos de esquerda - acredito ser absolutamente conseqüente
comigo mesmo -, e me rebelei contra o movimento homossexual no momento em
que percebi sua tendência em criar uma crosta de instituição.
Acredito que o que nós da margem temos a apresentar de novo é a própria
margem. A partir do olhar da margem, surge a nossa colaboração perante a
sociedade e a cultura brasileira. Tenho muito medo quando a margem é cooptada,
porque ela deixa de ter os seus elementos básicos e suas raízes são cortadas. Nesse
sentido, vejo alguma coisa positiva no fato de nós nunca termos conseguido inserir
as nossas questões numa discussão mais ampla. As questões que Lampião, o grupo
SOMOS e o movimento homossexual da década de setenta e começo de oitenta
colocavam, hoje fazem parte da sombra ideológica deste país. As pessoas que estão
mexendo com essas questões, não devem fazê-lo como quem mexe num cadáver
com um bisturi, mas como quem mexe em algo palpitante, que está vivo, apenas
ficou na sombra.
A sombra é o lugar privilegiado para que as coisas escondidas medrem.
Quando falo de sombra, estou usando o conceito Junguiano de esconder tudo aquilo
que é pior dentro de nós ou da sociedade, esconder e impedir que floresça tudo
aquilo que se considera ruim. Isso tudo que faz parte da nossa irracionalidade e da
irracionalidade social, mais cedo ou mais tarde vai se manifestar. Por exemplo, numa
neurose, ou, em outros termos, através de uma doença como a AIDS: nunca se falou
tanto da homossexualidade como hoje. Graças à AIDS, qualquer menininho já sabe
como é que se trepa com um homem. Isso está estampado nas primeiras páginas de

254
grandes jornais do Brasil, de uma maneira que expressa claramente a vingança da
sombra.
Em toda essa história acho que há o lado consolador. Naturalmente, a minha
solidão não é consoladora. Acabei me tornando um exemplo típico dessa sombra. A
minha literatura foi deixada à sombra: sou considerado um escritor de segunda
categoria pela universidade e pela mídia porque minha temática preferencial é a
homossexualidade. Para eles, isso é uma coisa que me desvaloriza. Claro que para
mim não, pois o meu compromisso é com a poesia. Assim como Fellini fala da
lembrança, eu falo da homossexualidade... como qualquer escritor que tem o seu
tema privilegiado. Só que os preconceitos continuam e é muito doloroso. Porque, se
por um lado eu nunca consegui conquistar meu lugar ao sol, por outro eu sou visto
como um mito e o mito existe para ser mantido à distância.

255
. Nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul,
em 24 de outubro de 1927

. Funcionário Público.

. Estudos acadêmicos: Bacharel em Direito


pela Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.

João Antônio de Souza Mascarenhas.

256
No primeiro contato com João Antônio
Mascarenhas marcamos a entrevista para um
começo de noite. Preocupado com a
pontualidade saí com muita antecedência.
Após enfrentar um trânsito inesperado, cuja
demora gerou uma sensação de contragosto,
pude cumprir com a pontualidade. No
horário preciso fui recepcionado por João
Antônio Mascarenhas. Com gestos gentis,
fui convidado a entrar no apartamento. Ao
fechar a porta, ele deixou toda confusão da
metrópole do lado de fora. Sentia-me como
se saísse do caos para entrar na ordem. Lá
dentro havia um silêncio acolhedor, ideal
para um depoimento. Não houve
interrupções durante a gravação. A narrativa
de João Antônio Mascarenhas preservou
uma segurança bem elaborada. O tom das
palavras era em voz baixa, tranqüila e
reservada. Enquanto falava, os gestos
confirmavam a mesma discrição. Esse estilo
estendeu-se até o final do depoimento.

Rio de Janeiro, RJ,


24 de agosto de 1995.

257
“Na minha vida, tenho umas passagens que são meio engraçadas...
meio diferentes. Uma delas, por exemplo, foi ter entrado no serviço
público por uma agência de empregos. A outra foi ter me assumido
publicamente - pela primeira vez - através da imprensa.”

O meu nome é João Antônio de Souza Mascarenhas. Nasci no dia 24 de


outubro de 1927, em Pelotas no Rio Grande do Sul. Nasci numa cidade média... é a
segunda cidade do Estado. Naquela época, ela devia ter uns cento e cinqüenta à
duzentos mil habitantes. O meu pai era pecuarista e a minha mãe dona de casa. A
minha infância não teve nada de especial... foi muito boa porque os meus pais se
davam muito bem. Eu tinha uma série de tios, tias, primos, avós e tinha até mesmo
uma bisavó. Ela morreu com noventa e quatro anos, ela era muito lúcida até dois
meses antes de morrer... quando ela teve um derrame. Na época de sua morte, eu
tinha quinze anos. Minha bisavó era uma figura muito forte... era realmente uma
matriarca! A família toda possuía uma admiração, um afeto muito grande por ela.
Todos nós vivíamos sobre a influência dela.
Desta forma, acho que a minha infância foi muito boa... muito plena. Por
causa desse ambiente franco familiar... é uma coisa muito complexa! Além do que,
como era numa cidade pequena, quase todos os dias, nós nos víamos lá na minha
bisavó: os meus avós, os meus primos e os tios também. Era uma família muito
grande. Meu pai tinha três irmãos e a minha mãe também tinha três. Todos gaúchos
de Pelotas.
Sou de uma família que pertence a um meio conservador. O meu pai era
pecuarista, assim como foram o meu avô, o meu bisavô, o meu trisavô, o meu
tetravô. Neste sentido, a pecuária era uma tradição da família e eu saí do rumo. Essa
parte rural é sempre a mais conservadora... evidentemente havia muito machismo. O

258
machismo gaúcho é uma característica muito forte, contudo, o machismo existe em
todo o Brasil. Porém, no Rio Grande do Sul, além dele ser forte, ele é cultivado. É
uma característica valorizada em nível de sociedade, em nível de família... incluindo
assim a minha família. Pude senti-lo durante a infância e a adolescência no ambiente
familiar. Isso era algo que me desagradava, pois via a valorização do machismo
como um impedimento... uma pressão contra minha tendência homossexual.
Estudei em Pelotas até os dezoito anos. No nível escolar intermediário, nunca
me esforcei para ser o primeiro. Eu passava por média... apenas gostava de estudar.
Nunca repeti um ano. Só não gostava bastante de matemática, física e química.
Estudava essas três matérias para passar de ano. As outras, entretanto, estudava por
prazer... então, tinha notas boas. Por causa dessas três matérias, a média ficava entre
o regular e o bom... elas nunca me agradaram. Depois fui para Porto Alegre, para a
Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Lá me formei
em 1950.
Eu me formei em Direito, mas o meu pai era pecuarista. No início é muito
difícil para um advogado novo abrir uma banca... e ganhar a vida com o trabalho
profissional dele. O meu pai não se importava com isso. Considerando o espírito
conservador do meu pai, ele achava que eu devia ficar morando na casa dele, não se
importava de continuar dando uma mesada... enfim eu não teria nenhuma falta.
Porém, isso me desagradava porque não tinha um prazo para começar a ganhar
dinheiro. Meu pai achava que, tendo eu um diploma universitário, era quase uma
diminuição eu empregar-me.
Eu não queria ir para uma estância - como se diz no Rio Grande do Sul -
porque não tinha gosto por aquele tipo de atividade. Então, meu pai achava que seria
uma diminuição, com meu curso universitário, eu me empregar. E eu queria ganhar
dinheiro para me sustentar, não me sentia bem em continuar recebendo mesada.
Resolvi partir para o Rio de Janeiro... a mil e quinhentos quilômetros de distância!

259
Em 1956, vim para o Rio, queria ganhar a vida pelo meu esforço... sem me
valer das amizades do meu pai. Aconteceu um caso meio estranho na minha vida.
Entrei numa agência de empregos. Dou risadas quando digo que entrei no serviço
publico através de uma agência de empregos... isso é raro. Entrei no CAPES, o nome
era imenso: Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
O diretor... na verdade o título dele era secretário-geral, era o doutor Anísio Teixeira.
Ele havia chamado um técnico americano... especialista em educação. Esse fulano
falava português, mas falava mal e escrevia pior ainda. O que Anísio Teixeira fez?
Como ele queria o trabalho desse americano, dirigiu-se a uma agência de empregos
procurando alguém com facilidade em redação e que falasse inglês. Eu havia me
inscrito vinte dias antes e fui chamado. Parece-me que esse americano ficou dois
anos... não sei exatamente quanto tempo, depois ele foi embora e eu permaneci. Foi
assim que eu entrei no serviço público.
Senti uma grande diferença entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro.
Primeiro de ordem econômica, na casa dos meus pais tinha uma vida com todo
conforto, sem qualquer preocupação material. No Rio, eu ganhava um salário
pequeno. Tive que alugar um quarto de apartamento em Copacabana, onde eu era o
único inquilino. De qualquer forma, tinha dinheiro suficiente para alugar o quarto,
alimentar-me, vestir-me, pagar minhas contas... essas coisas todas. Isso foi uma
modificação imensa na minha vida. Antes nunca tive que trabalhar para ganhar
dinheiro... só havia estudado. Entretanto, gostei porque pela primeira vez estava me
mantendo com meu esforço... apesar de ter baixado muitíssimo meu padrão de vida.
No que se refere ao machismo, acho que no Rio antes existia machismo e
ainda continua a existir, mas no Rio não há sua valorização. As pessoas são
machistas, mas não se vangloriam de o ser. Enquanto no Rio Grande do Sul elas se
vangloriam! Porém, no frigir dos ovos, isso não faz muita diferença... são machistas
cá e lá. A diferença é que um assume o machismo e o outro o faz de uma forma
disfarçada.

260
Acontece que também sou de uma família católica. Quando adolescente, fui
muito ambivalente - como as pessoas o são em geral -, tinha atração por homens e
por mulheres. Pelas mulheres achava que era correto, pelos homens achava que era
incorreto... por causa da cultura e do meio em que vivia. Então, quando mantinha um
relacionamento homossexual era atingido por um sentimento de culpa. Neste caso,
em termos estatísticos, tinha mais relacionamentos heterossexuais que
homossexuais. Depois que vim para o Rio continuei assim. Um belo dia resolvi que
era melhor ser exclusivamente homossexual.
Nesta história desenvolvi um raciocínio crítico, talvez meio engraçado aos
outros... mas não a mim. Por exemplo, quando tinha relação com uma mulher,
primeiro ela achava que havia feito uma grande coisa por mim... e, na verdade, ela
tinha tido tanto prazer quanto eu. Se no dia seguinte dissesse a ela: “- Olha! Ontem
eu tive relação com um homem”. Ela ficaria furiosa comigo, dizendo: “- O que é!...
Bicha! Viado!” Enfim, qualquer coisa do gênero, mas sempre no sentido de me
considerar um degenerado. Quando eu tinha relação com um homem e lhe contava:
“- Olha! Ontem eu tive relação com uma mulher”. O homem não fazia nenhum
comentário... ou no máximo perguntava: “- Ah! Que tal? Foi boa a foda?”... e
pronto.
Desagradava-me ver, nas mulheres com quem eu tive relações sexuais, este
sentimento de possessividade, em relação a mim. Não gosto que uma pessoa
pretenda que eu pertenço a ela. E tal reação nunca encontrei em meus parceiros do
gênero masculino. Desde menino... e até hoje, com sessenta e sete anos, nunca
gostei, mais, irrita-me intensamente.
Aborrecia-me a idéia de, para as mulheres, ter de esconder que mantinha
relações sexuais com homens. Por que elas tinham o “direito” de obrigar-me a
fingir?
Achei que era muito estúpido, de minha parte, admitir que uma criatura
qualquer me impusesse um determinado comportamento na cama. Detestava,

261
também, a perspectiva de eventuais “descobertas” virem a provocar discussões, por
causa da minha ambivalência.
Pareceu-me que urgia tomar uma decisão. Matutei sobre o ponto e verifiquei
que podia continuar a ser bissexual ou, então, optar pela homossexualidade
exclusiva. O que não poderia era cingir-me a uma atitude exclusivamente
heterossexual, sem me sentir frustrado.
Ora, se tinha de decidir-me, de tomar uma única via, preferi a homossexual,
apesar de saber que era a mais difícil, pelos ônus disso decorrentes. Evidentemente,
teria de enfrentar os preconceitos da sociedade.
Isso foi há uns quarenta anos. Apesar dos percalços, nunca me arrependi da
resolução tomada.
Eu tomei essa resolução entre 1956 e 1957, mais ou menos com vinte e nove
ou trinta anos. Nesse período, vivia meu pequeno mundo individual... levava a
minha vida. Meu cotidiano era acordar cedo, tomar banho, tomar café, tomar o
ônibus, ir para o serviço, trabalhava, trabalhava, trabalhava, tomava o ônibus,
voltava para casa, tomava banho e, de vez em quando, freqüentava o cinema, dava
uma volta, tinha algum relacionamento homossexual... era isso!. Sempre separei a
parte afetiva da parte sexual. Isso sempre facilitou os relacionamentos. Tanto quando
tinha relações com mulheres e homens, quanto quando passei a ter relações
exclusivamente com homens. Nunca quis ficar preso afetivamente a alguém. Sempre
dei muito apreço a liberdade... sentia que eu não era de ninguém, assim como não me
interessava em ter alguém.
No Rio, era possível levar uma vida de liberdade. Eu, apesar de ter aceitado
minha homossexualidade, não tive, de chofre, a coragem de assumi-la publicamente.
Por prudência, escolhi o processo de soft opening. Já não mais mentia, não procurava
passar pelo que não era, mas esforçava-me para não me mostrar aos “da outra
banda”, sempre que possível. Entre a faca e a parede, abria o jogo, mas empenhava-
me em evitar a necessidade de uma definição.

262
A situação faca/parede aconteceu poucas vezes, pois, há, no Brasil um modo
de viver muito hipócrita: a filosofia do “você-faz-que-se-esconde-e-eu-faço-que-
não-vejo”. Isso, pessoalmente, àquela época, favoreceu-me, pois sou - ou penso ser -
do tipo “homossexual discreto”.
Cabe notar que, no meu entender, a referida hipocrisia é o fator que mais
prejudica o movimento de defesa dos direitos dos homossexuais, pois mascara a
realidade. Oprimido e opressor concordam tacitamente em participar de um jogo de
esconde-esconde. Obviamente, quem perde é o oprimido, o qual, por medo, é até
capaz de agradecer ao opressor. Lamentável, mas...
No que se refere à prostituição masculina, pontos de encontro, não observo
nenhuma diferença entre os anos cinqüenta, sessenta e a contemporaneidade. Havia
boates gays, bailes gays... havia pessoas que davam festinhas. Nunca fui a festinhas
porque não é do meu temperamento, mas era muito comum. No Brasil, noto uma
única diferença em relação aos homossexuais - superficial, mas importante -, não
pelo o que ela é atualmente, mas pelo que foi e ainda está se semeando: o tratamento
do tema nos meios de comunicação social e nos meios intelectualizados. A diferença
está nesse nível, aparecem assuntos nos jornais que seriam inconcebíveis naquele
tempo. A mídia... como gostam de dizer hoje em dia, e os intelectuais -
macaqueando os americanos -, acreditam ser de bom tom não ter preconceito. Antes
não havia essa reserva, as pessoas podiam ter preconceito abertamente... até
descaradamente! Ele era aceito com a maior naturalidade, às vezes era considerado
como uma atitude elogiável. Porém, no que se refere à massa... não observo qualquer
diferença!
Quando digo “a massa”, não estou falando no sentido político... na questão do
operário, mas, sim, da maioria da população, em geral. A situação continua igual,
somente uma partezinha da sociedade... esse pessoal dos meios de comunicação
social, os intelectuais e alguns políticos - em geral pessoas de classe média - esses
mudaram... mas isso não é muito. Naquela época, não havia nenhuma possibilidade

263
de trabalhar com a homossexualidade no Brasil. Isso era uma coisa que nem me
passava pela cabeça. No Brasil de quarenta anos atrás não havia clima para um
jornal como o Lampião... hoje em dia há para publicações como o Ent&, Nós Por
Exemplo, Sui Generis... isso era inconcebível!!
Certamente a homossexualidade já era uma preocupação de todos os
homossexuais, mesmo dos que dizem não estar preocupados com ela... os que dizem
isso mentem! Não é possível deixar de se preocupar. Trata-se de um debate básico
sobre a situação do indivíduo no país. O fato é que com o passar do tempo,
lentamente comecei a despertar... a prestar atenção no tal sistema do “Eu-faço-que-
me-escondo-e-você-faz-que-não-me-vê”. Esta situação vinha me aborrecendo.
Percebia que aquilo dava aos outros uma oportunidade de chantagem. Não uma
chantagem explícita, mas implícita. Fosse no ambiente de trabalho, familiar, entre
amigos, enfim, em qualquer lugar. Havia a possibilidade de alguém dizer: “- Olha
que eu sei! Olha que eu conto!” Ninguém dizia isso expressamente, mas essa questão
ficava no ar.
Eu ficava pensando: “- Mas como um sujeito, como eu, que trabalha, que é
honesto, que cumpre seus deveres sociais como cidadão, que nunca infringiu
nenhum dispositivo do Código Penal, pode merecer o desprezo e sofrer
discriminação dos demais (aí incluídos os socialmente nocivos) pelo simples fato de
ir para a cama com outro do mesmo gênero, maior de idade, sem violência, para
mútuo prazer?”
Depois de raciocinar muito sobre a questão, achei que era hora de revoltar-
me, negar-me a aceitar a categoria de indivíduo de segunda classe, pois, no meu
entender, não havia motivo para tal.
Ainda não sabia, naquele momento, como agir, mas estava certo de que eu
precisava fazer algo contra o estado de coisas. Omitir-me seria uma capitulação.
Como diz o ditado: “Não está morto quem peleja”.

264
Em 1972, fui passar férias em Porto Alegre. Os meus pais moravam lá e
costumava visitá-los. Eu continuava tendo alguns amigos em Porto Alegre e quando
ia à cidade também os visitava. Um deles tinha morado alguns anos na Inglaterra.
Neste período, em que estive lá, ele tinha recebido de um amigo dele, um inglês,
duas publicações: um jornal que se chamava Gay Sunshine, era americano de San
Francisco na Califórnia; e um outro jornal inglês, não lembro se chamava Gay News
ou Out... não lembro exatamente do nome. O jornal inglês era semanal ou quinzenal,
enquanto o americano aparecia de três em três meses. Devido à periodicidade, o Gay
Sunshine era completamente diferente. Ele era constituído por artigos, alguns deles
muito interessantes, assim como por grandes entrevistas... algumas eram “grandes”
no sentido de serem excelentes, outras eram pura e simplesmente extensas. Havia
entrevistas, por exemplo, com Gore Vidal, o Tenessee Williams... está me fugindo o
nome do inglês que escreveu A Single Man... esse filme Cabaret foi baseado no seu
livro. Ele morava nos Estados Unidos... Christopher Isherwood.
Por volta de 1972 ou 1973, voltei ao Rio e passei a assinar esse jornal. Ele
trazia uma seção sobre livros. Comecei a encomendar livros dos Estados Unidos. Até
então, nunca tinha visto livros tratando de forma séria a questão da
homossexualidade. No Brasil só havia livros extremamente machistas, referindo-se
como doença ou vício... Não havia ensaios antropológicos, sociológicos, históricos
ou coisas do gênero. No mais eram contos ou romances, onde apareciam situações de
homossexuais... vistos de maneira extremamente favorável. Porém. era uma
subliteratura. Na verdade, nem sei se li dois livros ou até mesmo um livro desse
gênero... porque é uma coisa que nunca me agradou. Não só pelo ponto de vista
intelectual, mas porque não me excitava e não me excita até hoje. Não tenho nada de
voyeur, nem me agrada a pornografia... isso não me excita de forma nenhuma.
Os livros sérios eram sempre muito moralistas. No Brasil, somente de uns
quinze ou vinte anos para cá... especialmente nos últimos dez anos, começou-se a se
escrever mais sobre a homossexualidade. Inclusive mais homossexuais começam a

265
escrever sobre a homossexualidade. Naquela época, especialmente os homossexuais
não se atreviam, pois não queriam aparecer de peito aberto. O Mário de Andrade,
por exemplo, era homossexual... todo mundo sabe disso, mas ele nunca levantou
nenhuma bandeira... muito pelo contrário! O Manuel Bandeira também... e agora
muito recentemente sabe-se que o Pedro Nava também era. Porém, não havia clima
para essas pessoas naquela época. Na universidade, de uns dez, vinte anos para cá, é
muito grande o número de teses, cujo núcleo se concentra no tema
homossexualidade.
Quando comecei a ler o jornal Gay Sunshine e conheci os principais jornais
gays ingleses... passei a ler tudo o que podia sobre o tema. Assim, tomei
conhecimento do movimento existente nesses países, do Gay Liberation, de
Stonewall. Li um livro muito importante que se chamava Homosexual, Opression
and Liberation... era a tese de Dennis Altman, professor da Universidade de Sydney,
na Austrália. A partir de então, fiquei interessado no movimento homossexual, nos
fundamentos que nunca tinha racionalizado antes... e fiquei a sonhar com o
aparecimento do movimento no Brasil. Aquela época quase ninguém, no Brasil,
falava, ou escrevia, sobre o assunto. As pessoas não sabiam nada do movimento, não
sabiam nada de Stonewall... nem o antes e nem o depois. Estou falando tanto de
Stonewall... até parece que acho este fato um grande acontecimento! Porém, sou do
grupo que não supervaloriza Stonewall. Para mim foi um episódio.
Porém, aquilo ficou ruminando na minha cabeça. Minha mãe costumava dizer
que eu era teimoso... gosto de dizer que sou tenaz! Realmente, quando algo entra na
minha cabeça é difícil sair... pelo menos tento conseguir colocar a idéia em prática.
Então, recebia os jornais, recebia as revistas, recebia os livros, mas fui vivendo
assim como uma Avis Rara... não estava dando a menor importância a isso.
Lamentava, contudo, que meu interesse sobre o tema não fosse compartilhado por
meus compatriotas homossexuais.

266
Um belo dia, acho que em 1976 ou até mesmo antes... em 1974, recebi uma
carta do diretor do jornal Gay Sunshine, em plena ditadura militar... o nome dele é
Winston Leyland. Ele perguntava se eu poderia escrever um artigo sobre a situação
dos homossexuais no Brasil. Ele sabia que havia uma ditadura militar, disse que meu
nome não apareceria... assim eu escreveria em inglês, ele corrigiria os erros e
publicaria. Eu disse: “- Tanto faz aparecer ou não o meu nome! O artigo é para os
Estados Unidos!” Então escrevi o artigo e foi publicado. Depois vim a saber de um
fato ilustrativo... eu era o único assinante do jornal em toda a América Latina!
Em 1976, recebi uma segunda carta deste Winston Leyland... ainda como
dono do mesmo jornal. Ele dizia ter apresentado um projeto a National Endownment
for the Arts, para uma antologia de artistas plásticos e escritores gays brasileiros, e
que esse projeto tinha sido aprovado. Isso significava que ele receberia uma pequena
ajuda financeira... Esse National Endowment for the Arts é um órgão, um instituto
criado pelo Congresso Americano - Senado e Câmara Federal de deputados dos
Estados Unidos -, que dá prêmios a projetos aprovados em todos os campos das
artes: teatro, cinema, música, literatura e assim por diante. Ele dá pequenos prêmios
que ajudam financeiramente e dão certo prestígio às iniciativas selecionadas.
Winston Leyland dizia ter recebido esse prêmio... e que gostaria muito de vir
ao Brasil, mas não podia porque os hotéis eram muito caros e o prêmio era pequeno.
Naquela época, eu morava em Copacabana, mas tinha um pequeno apartamento em
Ipanema... o qual mantenho até hoje. Esse apartamento era uma garçonnière...
naquele tempo se usava esta palavra que agora está fora de moda. Era um lugar onde
levava alguém que não queria levar na casa onde morava... era muito prático. O local
era mobiliado com muita simplicidade, localizado num bom prédio. Neste caso,
pensei: “- Bom! Esse sujeito pode contribuir para a eclosão de um movimento
semelhante aqui no Brasil. Se tenho vontade que isso aconteça, ele, talvez, venha
ajudar a concretização da minha idéia!”

267
Outro ponto de reflexão era o seguinte: “- O trabalho que esse sujeito fará nos
Estados Unidos será necessariamente péssimo. Se ele fosse fazer uma antologia de
artistas plásticos e escritores brasileiros, sem se ater aos homossexuais, já
encontraria muitas dificuldades, pois essas áreas são mal conhecidas lá. Nos Estados
Unidos há poucas traduções da literatura brasileira”. ... ainda mais há vinte anos
atrás. Então pensei: “- Esse livro vai ser uma porcaria total! Uma coisa horrorosa! Eu
podia dar uma contribuição, convidando Winston Leyland para ficar na minha
garçonnière”.
Na época, minha mãe já estava vindo para o Rio de Janeiro... ela passava os
invernos comigo. O meu apartamento era em Copacabana, no posto 6, assim não
haveria lugar para ele ficar lá. O apartamento era pequeno, tinha só dois quartos.
Portanto, não poderia hospedá-lo. Além do que, minha mãe não se sentiria bem com
um estranho. Ela não falava inglês e ele não falava uma única palavra em português.
Escrevi a ele dizendo que minha garçonnière estava à disposição para ele se
hospedar... e que podia fazer as refeições com a minha mãe e comigo em
Copacabana, pois ficava próximo. E ele aceitou.
Ele avisou que viria dentro de dois ou três meses. Nesse meio tempo eu
agendaria tudo. Então, pensei: “- Agora, tenho que saber quem são os escritores gays
brasileiros?” Nunca tinha me preocupado com isso, pois gosto de ler bons
escritores... não importa se são homossexuais ou heterossexuais! No Brasil não
lembrava de ninguém, mas comecei a pesquisar... e entrei em contato com uma série
de pessoas. Uma vez fui a São Paulo e conheci o Darcy Penteado. Havia lido uma
tese do Peter Fry. Conhecia rapidamente um crítico de arte... na época trabalhava no
Correio da Manhã, Francisco Bittencourt... ele também fez jornalismo junto ao
Jornal do Brasil... parece que era gaúcho. Conhecia, muito superficialmente, o
Aguinaldo Silva. Através deles foram aparecendo outros e fui entrando em contato
com eles.

268
Comecei a entrar em contato com jornalistas, coisa que não tinha até então...
isso já deve ter sido por volta de 1977. O trunfo que tinha... a deixa, era o fato de
Winston Leyland ter recebido esse prêmio da National Endownment for the Arts.
Enterrando, eu fazia uma pequena escamoteação... dizia que ele havia recebido o
prêmio do governo dos Estados Unidos... o que não é uma mentira! Realmente, a
National Endownment for the Arts é um órgão do Congresso dos Estados Unidos,
sendo que o Congresso é o legislativo federal dos Estados Unidos, logo é parte do
governo. Porém, quando se diz: “- Do governo...!!!”, logo se pensa no governo
federal ou no executivo federal.
Nesta época o presidente era o Nixon. Havia uma onda moralista, como em
toda as ditaduras. Não podia haver revista pornográfica... isso não aparecia! Para
conseguir uma, era só por debaixo do pano. As bancas não podiam vender de
maneira nenhuma, muito menos expor. Nem vedando as imagens com papel
celofane ou sem celofane, com plástico ou sem plástico... não adiantava! Então, o
fato de o governo dos Estados Unidos, a metrópole, subvencionar uma antologia de
artistas plásticos e escritores gays latino-americanos era um escândalo, algo inaudito.
Os jornalistas, evidentemente, deliciaram-se com a notícia. Nixon financiando
um livro de temática gay...
Consegui, assim, sem dificuldades, uma série de artigos e notas em muitos
jornais do Brasil. Não só do Rio e de São Paulo, mas também de lugares como
Fortaleza, Recife, Natal, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte e outras cidades
onde Winston nunca pôs os pés.
Vale notar que a única publicação que, ao saber que o Winston Leyland era
ativista gay, negou-se a entrevistá-lo foi o Jornal de Letras, à época - creio - o único
periódico literário do Rio.
Afinal, já bem preparado o terreno, Leyland chegou ao Brasil.
Na minha vida, tenho umas passagens que são meio engraçadas... meio
diferentes. Uma delas, por exemplo, foi ter entrado no serviço público por uma

269
agência de empregos. A outra foi ter me assumido publicamente - pela primeira vez -
através da imprensa.
Quando o Winston chegou, eu já tinha conseguido uma série de entrevistas.
Nessa época, essa minha garçonnière não tinha telefone. Era muito difícil conseguir
telefone... também nem havia muita necessidade! Como o Winston não falava
português, eu servia de intérprete. E como os jornalistas queriam um ponto de
referência, dei o meu telefone. Neste período, minha mãe estava hospedada comigo
para passar uma temporada. Assim, a primeira notícia em jornal que apareceu
publicamente, foi que o Winston estava hospedado comigo e deram o número do
telefone. Houve uma primeira página no suplemento literário do JB, outra no
Segundo Caderno do Globo e em muitos outros jornais. Houve uma entrevista de
quatro ou cinco páginas no Pasquim... no período era um jornal alternativo muito
vendido. Como pessoa o Winston não tem nada de especial. Ele não é
particularmente dinâmico. É... uma pessoa comum intelectualmente!
Também estabeleci contato com vários escritores. Como conhecia Gasparino
Damata, procurei ter mais contato com ele. Os outros foram aparecendo através
deles ou, ao ver meu nome no jornal, telefonavam, dizendo estar interessados em
participar desta antologia. O contato pessoal com alguns desses escritores e
jornalistas, fez-me pensar: “- Bom! Se o Winston conseguiu fazer um jornal destes
nos Estados Unidos, onde há tanta concorrência... Se ele pode desenvolver esse
trabalho há tantos anos, nós aqui poderíamos fazer algo igual ou melhor!?”
Havia uma boa revista, mas heterossexual... chamava-se Senhor. Essa revista
me chamou a atenção, pois ela publicou uma entrevista com o Darcy Penteado... um
ou dois anos antes. Nela o Darcy falava abertamente sobre a homossexualidade dele.
Naquela época, isso era um escândalo! Pensei em nos dirigimos à revista Senhor. Ir
consultar a possibilidade deles publicarem uma seção, onde nós trataríamos de
homossexualidade de uma forma séria, ainda desconhecida no Brasil... nunca eu
tinha visto nada publicado assim, muito menos num periódico!

270
Assim, fiz esta proposta a um grupo formado pelo Darcy Penteado, Gasparino
Damata, Francisco Bittencourt, Aguinaldo Silva, Clóvis Marques e Adão Acosta -
este último era jornalista da Última Hora. Alguns entraram depois, como João
Silvério Trevisan, Antônio Chrysóstomo, Peter Fry e teve um sujeito de São Paulo
que foi indicado... um belga: Jean Claude Bernardet!
Desta forma, refletiu-se muito sobre a idéia. Na mesma ocasião, parece-me
que o Aguinaldo Silva disse o seguinte: “- Mas... por que nós não fazemos um
jornal?” Eu disse: “- Não! Um jornal é uma coisa muito cara!” Eu imaginava que o
jornal tinha de ter o prédio, a impressora e outras coisas. Ele disse: “- Não! Não é
necessário”. Na época, ele era copy-desk de O Globo. Além disso, começaram a
circular alguns jornais alternativos. Havia um periódico, mensal, que se chamava O
Beijo... surgiu pouco antes do Lampião. O Aguinaldo disse: “- Tem esse jornal O
Beijo que foi...” e falou sobre a quantidade de capital necessário... não me lembro
qual era o valor, mas era uma quantia mínima. Depois, acho que era levado ao
Jornal do Comércio para ser impresso. Então eu disse: “- Ah! Bom, sendo deste
modo... está ótimo”. Assim, nasceu a idéia do Lampião.
O período da “abertura” teve importância... resolvemos tentar porque o Geisel
decidiu fazer a tal “abertura lenta, gradual e segura”, porém não sabíamos no que
aquilo poderia dar. Nós tentaríamos, não sabíamos se eles iriam abafar ou nos
prender... o fato é que tínhamos de tentar. Então, a “abertura” ajudava. Não haveria
clima se não fosse isso. Mesmo assim fomos processados por ofensa à moral e aos
bons costumes. De uma maneira genérica, eles processaram todo o corpo editorial do
Lampião. Éramos onze, acho que disse o nome de todos: Darcy Penteado, Peter Fry,
Jean Claude Bernardet - que nunca escreveu nada no jornal e era muito enrustido, ele
dizia à época que tinha uma filha com ódio a bichas -, Antônio Chrysóstomo,
Aguinaldo Silva, João Silvério Trevisan, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata,
Adão Acosta, e Clóvis Marques - acho que este último ainda é jornalista do Jornal
do Brasil.

271
No que se refere ao movimento homossexual, houve o seguinte... quem tinha
vontade daquele movimento era eu... quem estava a par do movimento era eu. O
João Silvério Trevisan era o único que tinha alguma noção além de mim. Ele havia
morado nos Estados Unidos. O Trevisan possuía a idéia do Gay Liberation... que é
uma atitude filosófica de contestação plena, completa e radical. Algo um pouco
diferente da minha posição... nunca fui do Gay Liberation. Nesse meio tempo, já
conhecia bem o Gay Liberation porque estava com uma bibliotecazinha sobre o
assunto. Os outros nunca tinham ouvido falar em movimento, nem o Aguinaldo... o
Darcy também não.
No núcleo fundador do Lampião, havia uma parte que era de São Paulo: o
Darcy, o Jean Claude Bernardet, o João Silvério Trevisan - eles moravam em São
Paulo - e o Peter Fry - era professor em Campinas na época; e havia outra parte que
era do Rio: o Francisco Bittencourt, o Aguinaldo Silva, o Gasparino Damata, o
Clóvis Marques, o Adão Acosta, o Antônio Chrysóstomo e eu. Ficou marcado que a
cada mês haveria uma reunião numa das cidades, uma vez no Rio e a outra em São
Paulo... para discutir a pauta do próximo número. Isso foi feito só no primeiro
número.
O Aguinaldo Silva ficou encarregado da direção, mas ele nunca tinha ouvido
falar nada do movimento. O Aguinaldo sempre assumiu a homossexualidade dele.
Quando ele chegou aqui ao Rio... ele até se maquiava, saía lá pela Cinelândia, mas
provavelmente com o objetivo de encontrar um parceiro... não havia compromisso
com a questão de ordem social. E o Aguinaldo tomou o jornal. Não há dúvida
nenhuma que o Aguinaldo é um homem muito trabalhador, mas o que tinha sido
proposto deixou de ser. Ele ficou com a direção do jornal, com as assinaturas, com a
distribuição, com a pauta... dou risadas quando questiono o que sobrou!! Ele se
preocupava muito com a questão de travestismo... gostava do assunto! Não sei até se
ele foi travesti... isso não sei! Cansei de vê-lo se pintar, andar com travestis, mas
nunca o vi vestido de mulher.

272
Desde o início, já vi que o jornal nunca seria um órgão do movimento... por
causa do papel predominante do Aguinaldo. Ele não sabia nada sobre o assunto, nem
se importava com isso. Mesmo assim, achei que devia prestigiar o Lampião, pois
parecia-me que era melhor ter este jornal do que não ter nada. Como tive interesse na
vinda do Winston para cá - justamente com essa esperança - pelo menos algo tinha
se realizado. Imaginava que o Lampião poderia agir como um catalisador.... o que
acabou acontecendo! Os grupos começaram a surgir.
Havia um grupo que surgiu pouco antes do aparecimento do Lampião: o
SOMOS de São Paulo. João Silvério Trevisan e Edward MacRae pertenceram a esse
grupo. O Edward é filho de escoceses, ou filho de escocês... não sei se a mãe era
brasileira. Ele se educou na Escócia... ou na Inglaterra, então já pelo domínio da
língua ele estava a par do movimento homossexual. Esse grupo SOMOS não tinha
nada a ver com o jornal. Ele participava muito nessa filosofia do Gay Liberation...
em grande parte, suponho ter sido influência do Trevisan.
O jornal Lampião ajudou na criação de vários grupos. Alguns deles tiveram
existência muito efêmera... mas ele ajudou! Pela primeira vez, apareceu um órgão de
imprensa periódica... aparecia todos os meses e era realmente periódico. Havia
pessoas que sabiam escrever, não eram debilóides, não estavam escrevendo
pornografia... tratavam os assuntos com seriedade. Porém, sob a orientação do
Aguinaldo, o jornal cada vez mais se afastava da minha idéia. Então, achei melhor
dar minha cota ao Francisco Bittencourt. Pensei comigo: “- Bom! Não vou combater
o jornal de maneira nenhuma! De qualquer forma, acho que ele é mais do que nada...
mas vou me retirar”. Assim, saí do jornal.
O Lampião ajudou, especialmente, a haver o despertar... demonstrar a muita
gente que os homossexuais podiam fazer alguma coisa. Eles também poderiam atuar
num outro campo, visto o que o grupo do Lampião estava fazendo... então, acho que
foi isso: auxiliou. Porém, depois os grupos brigaram com o Aguinaldo. Nem me
lembro direito porque foi, mas... em linhas muito gerais, era porque queriam que o

273
Lampião desse apoio numa forma e num grau que o Aguinaldo não estava disposto E
o jornal era o Aguinaldo. Como já disse, ele nunca deu importância ao movimento
como uma questão de ordem social. Nunca conversei com ele a esse respeito... assim
não sei dizer precisamente, mas tenho a impressão que para ele era mais importante a
afirmação individual. É um pensamento radicalmente contrário ao meu... acho que o
estamento social é mais importante!
Após minha saída o jornal continuou a existir... de 1978 até 1981. Foi
justamente com a “abertura” que jornais contestatórios, como o Pasquim e o
Lampião, passaram a ser ultrapassados. Houve mais liberdade... o que era publicado
pelos alternativos significava metade do que os outros diziam. Apareceram também
as revistas com nus e com outras questões mais abertas. Então, aquele tipo de
imprensa já não tinha mais razão de ser... o Lampião perdeu a função!! Tanto que
teve de fechar. Além do que, o Aguinaldo vivia brigando... não sei se o Trevisan fala
a esse respeito? Inclusive uma das pessoas com quem ele brigou foi o Trevisan...
parece até que foi com quem ele mais brigou! Depois, o Aguinaldo criou uma
revista... escancaradamente dele. Parece-me que esta revista durou dois ou três
números e teve de fechar.
Certa vez, fui a um congresso... acho que era na Casa do Estudante
Universitário - CEU -, lá no morro da Viúva, e vi uma sujeito do qual gostei. Ele me
impressionou. Achei-o uma pessoa séria: Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia. Entrei
em contato e passei a trabalhar com ele. Porém, eu atuava no Rio de Janeiro e ele em
Salvador. Eu fazendo pesquisas e escrevendo cartas para ele, dando palpites sobre
orientação... essas coisas todas. Quando foi em 1985, aproximava-se a questão da
Constituinte, assim achei melhor me desligar do Grupo Gay da Bahia... no sentido de
criar um grupo aqui no Rio. Foi assim que nasceu o Triângulo Rosa.
O nome foi escolhido com base num fato histórico, o qual muita gente não
conhece. Os nazistas prendiam, encarceravam e punham em campos de
concentração todos aqueles que eles sabiam, ou desconfiavam, ser homossexuais.

274
Nos campos de concentração nazistas, todos tinham que usar um distintivo: os
judeus tinham que usar uma estrela de Davi (uma estrela amarela de seis pontas); os
homossexuais tinham que usar um triângulo rosa equilátero... com a ponta apontada
para baixo. Provavelmente foram mortos uns trezentos mil homossexuais. Eles eram
encarcerados e a maioria morreu. Então, em homenagem a todos os que morreram,
foi escolhido este nome: Triângulo Rosa. Os homossexuais tinham que usar este
distintivo porque eram obrigados... aquilo era um rótulo. Dentro dos campos de
concentração, eles também eram desdenhados pelos próprios presos que estavam lá:
judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, políticos. Os homossexuais eram
considerados a categoria mais baixa por todos presos. Assim, escolhemos o nome em
homenagem a estes homossexuais que tinham de usar aquele rótulo. Com isso,
queremos dizer que nos orgulhamos daquele símbolo e pretendemos assim
homenageá-los. Foi essa a razão do nome Triângulo Rosa.
Antes do governo de Hitler - antes de 1933 - havia o artigo 175 do código
penal alemão, o qual punia a homossexualidade... não somente a prática
homossexual, mas a homossexualidade em geral. Esse artigo prevaleceu durante o
período de Hitler. Quando terminou a guerra, ele continuou em vigência... assim, os
homossexuais foram os únicos que não receberam compensação pelos prejuízos de
guerra. Na Alemanha daquela época, assim como há pouco tempo na Alemanha
Ocidental, os homossexuais não podiam se apresentar como tal... não só porque
havia o preconceito, mas principalmente porque era crime. Caso fossem reivindicar
alguma coisa, eles sairiam de um campo de concentração e iriam para uma prisão.
Não se sabe a quantidade exata dos que morreram... a estimativa fica em torno de
sessenta mil a trezentos mil. Não se sabe por duas razões: primeiro porque quando se
aproximava o fim da guerra... e a derrota estava certa, os nazistas queimaram muitos
arquivos.
Pode-se questionar essa disparidade de estimativas. Como os judeus sabem
que o holocausto gerou seis milhões de vítimas!? É porque houve judeus, como o

275
Simon Weisensthal, que passaram a se orgulhar de ser judeus... a não ter vergonha
nenhuma! E com o apoio dos governos da Alemanha, especialmente dos Estados
Unidos e da Inglaterra, foi possível levantar este número. Os homossexuais não
tiveram apoio, como os judeus, para resgatar esse período histórico.
O Triângulo Rosa era um grupo muito característico... diferente dos demais!
Nós sempre nos preocupamos com a questão da legislação... vamos dizer assim, com
a parte pensante do Brasil. No caso, seria com aqueles que poderiam ter influência:
intelectuais, meios de comunicação social e legisladores. Nossa principal bandeira
era conseguir fazer uma constituição que proibisse a discriminação por orientação
sexual... no mesmo item que aparecesse a proibição de discriminação por raça, cor,
religião. Entretanto, esta não era a única preocupação... mas a que considerávamos
principal. O que seria um fato único... talvez pela a primeira vez no mundo.
Atualmente, isso já existe em certas províncias do Canadá. Então, fizemos este
trabalho.
Em 1987, pela primeira vez - até agora a única! -, o Triângulo Rosa conseguiu
ir à Câmara Federal... ao Congresso Nacional Constituinte. Lá, fiz exposição a duas
subcomissões... parece que isso foi em abril. O assunto foi levado a plenário e
fomos derrotados... a última votação na Assembléia Nacional Constituinte foi em
fevereiro de 1988. Fui à Brasília... nunca um ativista gay tinha entrado no Congresso
Nacional como tal. Muito menos para fazer uma exposição e ser sabatinado pelos
parlamentares... isso foi um escândalo!
A imprensa noticiou muito, alguns jornais meio em tom de troça, outros
apoiaram, outros descreveram o fato objetivamente, mas houve uma grande
cobertura... inclusive apareci na parte dedicada à Constituinte do Jornal Nacional da
Rede Globo. Depois, uma das questões emergentes era eu aparecer como pessoa
publica no escândalo que foi causado. Hoje em dia não causa escândalo fazer isso.
Houve a votação no início de 1988, acho que foi janeiro ou fevereiro... fomos
derrotados. Nos fins de fevereiro e princípios de março de 1988, saiu o primeiro

276
projeto da Constituição Federal. Por essa época, eu me afastei do grupo Triângulo
Rosa. Depois retomei quando se aproximava a Revisão Constitucional. Porém, dizia
que voltaria até terminar a Revisão... qualquer que fosse o resultado. Na Revisão,
também fomos derrotados. Desta vez não houve esse sucesso de escândalo... Com
este nosso trabalho, não conseguimos ser contemplados na Constituição Federal, mas
conseguimos em duas Constituições estaduais: a de Sergipe e a de Mato Grosso; e
em 27 leis orgânicas municipais... inclusive do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.
Quando eu me afastei, em fins de fevereiro, princípios de março de 1988, fiz
o seguinte: deixei para o grupo a parte dos arquivos que era mais do Triângulo Rosa;
a outra parte que era mais do meu arquivo pessoal - fiquei com medo de ser perdida,
grande parte da correspondência era de minha iniciativa -, então resolvi mandar para
o Arquivo Edgard Leunroth, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, da
UNICAMP... aquele acervo que está em Campinas pertencia a meu arquivo pessoal.
O Triângulo Rosa, como em toda a entidade sem fins lucrativos, depende
muito do presidente, do secretário... de duas ou três pessoas, às vezes até de uma
pessoa com uma influência muito grande. É algo lamentável, mas isso é assim...
tanto num grupo de ativistas gays, como num de apicultores, de filatelistas ou de
qualquer coisa assim.
Pode-se questionar o por quê em escolher a UNICAMP, sendo que eu
trabalhava no Rio!? Fiz isso porque o SOMOS, grupo que se dissolveu muitos anos
antes, doou seu arquivo para a UNICAMP. E depois uma dissidência dos SOMOS...
um grupo pequeno chamado Outra Coisa, também tomou a mesma atitude. A
UNICAMP sempre teve uma mentalidade mais aberta, tanto que o Peter Fry durante
muitos anos foi professor lá, o Luiz Mott também... e aquele rapaz argentino que
morreu de AIDS há pouco tempo?... Néstor Perlongher. É bom para o historiador,
para o pesquisador social, poder consultar esse material todo no mesmo local... foi
por isso que mandei meu acervo pessoal para a UNICAMP.

277
. Nasceu na Inglaterra,
em outubro de 1941.

. Professor de Antropologia no Instituto de


Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

. Estudos Acadêmicos: Phd pela


Universidade de Londres

. Autor, entre outros: Para Inglês Ver.,


1982; O que é homossexualidade (com
Edward MacRae); 1983.

Peter Fry.

278
Desde o primeiro contato com Peter Fry,
o professor demonstrou uma gentil
disposição em colaborar, a única reserva era
acerca da dificuldade em recordar alguns
fatos. Após dois encontros sem sucesso para
a entrevista, por conta de uma vida
acadêmica absolutamente preenchida como
docente, consegui fazer a gravação na
terceira tentativa. Ela foi realizada no
escritório de Peter Fry, no Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Muito
envolvido pela preocupação que já fora
anunciada, manteve um conjunto de boa
vontade com ansiedade. Peter Fry concedeu
a entrevista colocando muitas questões sobre
os fatos que viveu. Nesse sentido, produziu
uma reflexão sem par. Não pude deixar de
observar tal fato. Para quem foi ouvi-lo, os
comentários encima da narrativa
estimularam uma dinâmica intelectual impar.
Apesar do domínio do idioma português, o
levíssimo sotaque britânico persistiu, assim
como a hesitação em citar alguns ditados
populares brasileiros.

Rio de Janeiro, RJ,


23 de outubro de 1995.

279
“No Brasil, ainda é possível ser um professor universitário, sem que
essa questão da identidade esteja presente... e dominante o tempo inteiro.
Ela não ofusca todas as outras coisas que uma pessoa faz na vida. Não
queria que isso acontecesse comigo, senão me sentiria totalmente
aprisionado por um aspecto da minha personalidade”.

Nasci na Inglaterra, em outubro de 1941... portanto, durante a guerra. Nos


primeiros anos, fui criado mais com a mãe do que com o pai... por mais de dois anos.
Mais ou menos aos cinco anos, ele volta e convivemos juntos. Aos sete anos fui
estudar num colégio interno... o que é normal na Inglaterra. A classe média manda
seus filhos para longe de casa. Cada vez menos, tive relacionamento com o pai e a
mãe. Eu ainda era muito novo quando minha mãe morreu... tinha por volta de doze
anos. Passava a maior parte do tempo fora de casa, como já é de costume na
Inglaterra... não se fica na casa dos pais.
No início, quando fui estudar no colégio interno, era aterrorizante... achava o
sistema muito cruel ao chegar lá. Os mais velhos, literalmente, torturavam os mais
novos. O primeiro ano foi terrível... terrível mesmo! Eu me senti absolutamente
esmagado, mas fui me adaptando. Consegui vencer mais pelo lado do estudo, da
música - tocava piano - tentava jogar futebol, esporte no qual não era muito bom.
Acabei saindo-me bem, mas no início foi terrível! Até que deu certo no final do
curso, pois isso representava uma experiência longe da minha família. A escola
ficava numa pequena cidade que se chama Worksop: W O R K S O P. Distante uns
duzentos quilômetros do local onde nasci.
Na Inglaterra isso se chama In locus parents. Significa que ao ir para a escola,
a instituição fica responsável por você. Então, caso você jogue bem as cartas, a
escola te deixa sair para visitar o pai e a mãe. Para mim foi muito bom, os meus

280
professores sempre me ajudaram... me incentivaram. Foi a saída de um ambiente
mais voltado para a família, advocacia, futebol, golf... o meu pai era advogado. Era
um mundo com outras possibilidades. Neste sentido, foi bom, mas foi brutal
também. Tinha dezoito anos quando fui para a universidade Sai direto do colégio
para a faculdade. Não havia qualquer influência do colégio sobre o curso que optei
posteriormente no nível superior. No colégio estudei matemática.
Na Inglaterra, o sistema é diferente do Brasil. O aluno é obrigado a se
especializar muito antes. Assim, no último ano de colégio fiz apenas três disciplinas,
entre as quais matemática e física... porque era algo que sabia fazer com a maior
facilidade. Foi com matemática que consegui entrar na universidade. Não sabia
escrever muito bem... escrevia mal! Temia um pouco as ciências mais literárias:
História, Inglês, Literatura. Antropologia pareceu o meio termo entre ciência e
literatura... o que realmente é um fato, então foi muito bom. Depois do primeiro ano
mudei para Antropologia. Descobri que não tinha muito em comum com os
matemáticos. Acho que a primeira decisão tem influência de todo um processo no
colégio. Eu tive um professor muito bom. Ele desafiava as regras... era agnóstico,
num colégio que era religioso, mas sempre encorajava a condição. No fundo aquele
colégio foi muito bom para mim.
Como todo bom inglês, sempre vamos à França, à Itália, enfim aos países
mais próximos. Certamente, o curso de Antropologia levanta a possibilidade de
viajar... pois sendo uma ciência comparativa, obviamente desperta o interesse em
viajar. Porém, acho que sempre quis viajar. Fui criado num porto... Liverpool. O
meu pai sempre me levava às docas. Nós víamos os navios saindo e chegando.
Desde pequenininho tinha vontade de viajar.
Fiz minha primeira pesquisa de campo na África... em Zimbabue. Como os
primeiros relatos da África central são de viajantes portugueses do século XVI,
XVII... achava que deveria aprender a falar português. Assim, passava as férias de
verão em Portugal. Gostei muito daquele país. Portugal é uma sociedade muito

281
arcaica... muito formal. E no fundo o atrativo pela África, era estar em contato com
outra civilização... radicalmente distinta. Desta forma, inventei um Brasil louco, uma
mistura de Portugal com África... numa versão romântica própria. Quando voltei à
Inglaterra, dei aula na universidade de Londres, mas nunca me adaptei muito bem...
aliás, acho que nunca me adaptei ao meu país. Então, foi difícil... sempre me dei
melhor fora dele.
A descoberta pelo Brasil?... foi puro acaso. Surgiu uma oportunidade de vir
para cá. Um dia estava conversando com um amigo, ele é antropólogo - pesquisa
índios no Amapá -, eu estava muito deprimido e perguntei a ele se era possível dar
aula no Brasil. Naqueles dias ele tinha recebido uma carta dizendo que Campinas
estava à procura de antropólogos. Cortei o cabelo, coloquei um terno e fui falar com
o cônsul geral do Brasil em Londres. No final das contas, eles me ofereceram um
contrato por dois anos. Larguei tudo na Inglaterra e vim para o Brasil.
A primeira reação entre mudar da Inglaterra e chegar no Brasil foi de intenso
desapontamento. Fui para Campinas e a minha versão romântica do Brasil, como
uma mistura entre África e Portugal, não tinha nada a ver com aquela cidade. Na
verdade, achei o Brasil pouco exótico... Campinas parecia uma espécie de cópia
xerox, mal feita, da classe média mundial. Realmente, fiquei muito desapontado.
Parecia que tinha chegado numa espécie de subúrbio de uma grande metrópole... sem
a metrópole! Além do mais, naquela época não tinha noção, mas ocorria o auge
daquela ditadura ridícula. Havia slogans como: “Brasil: Ame ou Deixe-o!”... e coisas
assim.
Cheguei em julho de 1970... foi uma decepção, mas aos poucos fui fazendo
bons amigos, fui conhecendo o Brasil. Pretendia voltar depois dos primeiros dois
anos, mas acabei ficando por uma série de razões. Na mesma época, uma amiga
minha veio da Inglaterra... Verena, ela acompanhou-me nessa viagem. Nós
montamos uma graduação. Caso tivéssemos saído naquele momento, aquela

282
graduação acabaria. Não havia ninguém formado e acabamos ficando. Acredito que
fui me acomodando.
Neste período, Campinas era uma espécie de lugar reservado no meio da
ditadura... algo muito estranho! Convivi com sociólogos, cientistas políticos,
historiadores... eles me abriram uma literatura que desconhecia. A antropologia
britânica é muito fechada. Senti um pouco do peso da ditadura militar encima da
vida intelectual na Universidade de Campinas. Nós tínhamos medo de falar certas
coisas, mas olhando para trás... era ridículo porque as bibliografias daqueles cursos
eram as mais escandalosas possíveis: Lênin, Marx, Trotsky, etc...
Na antropologia éramos acusados de empiricistas por causa do gênero de
trabalho. Creio que talvez tivéssemos uma certa cautela na sala de aula, mas
pessoalmente não senti a repressão. Senti pelos amigos que perdiam amigos...sabe
como é? Havia muita censura, eles não falavam muito... só depois de um certo tempo
eles falavam com a gente. Assim, senti um peso maior na própria vida do país.
Sentia uma certa banalidade... achava isso muito ruim. Porém, em termos de
desenvolvimento intelectual éramos mais valorizados naquela época.
O que me leva a produzir textos sobre a homossexualidade? Como era algo
que me dizia respeito, desde 1974 achava que poderia escrever sobre identidade. Ao
vir morar no Brasil coloquei-me a pensar sobre esta questão. Parecia-me que poderia
contribuir um pouco para essa discussão. Como era acadêmico, via neste caminho a
possibilidade de atuar como cientista social. Ao invés de sair na rua como militante.
Acreditava que poderia fazer o que sei: ser antropólogo. Então coloquei minha
antropologia para trabalhar nessa área.
Não estive presente na reunião com Winston Leyland, nem me recordo da
visita dele. Ele apareceu em São Paulo, mas não conheci o dito cujo. Participei das
reuniões para a fundação do Lampião, mas não sei como me enfiei nessa história!?
Fico pensando como souberam de mim? Não sei exatamente, mas em 1974 quando
escrevi um artigo sobre homossexualidade e macumba, ele foi publicado no Brasil...

283
talvez isso tenha contribuído! Não sei quem veio falar comigo, mas em São Paulo
fiquei conhecendo o Darcy, o Aguinaldo, o João Silvério e o Jean Claude, quanto ao
pessoal do Rio... faz bastante tempo que me esqueço os nomes!... Adão Acosta,
Francisco Bittencourt - esse morava em São Cristovão -, o João Antônio
Mascarenhas... e tinha mais um jovem jornalista... Ah! Clóvis Marques.
Não sei exatamente como e por quê se deu essa conexão!? Isso tudo é tão
misturado na cabeça, porém fiquei extremamente lisonjeado por ser chamado... achei
ótimo! Em 1974, fui aos Estados Unidos participar numa reunião da Associação
Antropológica Americana, com esse negócio sobre homossexualidade e candomblé!
Conheci várias pessoas do mundo acadêmico gay. Depois participei de uma reunião
em Nova Iorque, mas não sei em que ano que foi... era alguma coisa chamada
Grupos de Universitários Gays. Acreditava que seria interessante virar militante por
um ano, mas logo percebi que este não era o meu mundo. Não podia fazer nada de
militância porque não fazia meu gênero.
É muito importante explicar isso porque achava que os movimentos surgiram
para libertar os indivíduos - essa é minha opinião! - e não para formar novas camisas
de força. Foi por essa a razão que não me identifiquei com a militância! Percebi que
tinha de entrar num mundo de palavras de ordem... de coisas que não concordava de
fato! O que começou como processo de libertação, acabou se tornando mais uma
forma de controle. Como sou partidário de uma ideologia que dá extrema primazia a
liberdade individual, nunca poderia me dar bem com essas coisas... e acabei me
dando mal! Isso ainda ficou mais claro em São Paulo, com o SOMOS e companhia...
O grupo logo se virou em briguinhas internas, com uma visão muito americanizada
da situação brasileira. Eu achava que não daria certo... não precisava daquilo.
Custei a perceber que não poderia olhar o Brasil com o meu olhar inglês. O
mundo não é o mesmo... estou convencido disso! Enquanto na Inglaterra já havia
uma identidade estanque - num gueto mais ou menos escondido e privado,
complicado por causa da lei -, percebia que no Brasil a história era muito diferente.

284
A sexualidade masculina é mais interessante que na Inglaterra. O próprio termo
homossexual já parecia uma mentira encima da realidade brasileira... achava isso
muito complicado! Aliás, acredito que na Europa e nos Estados Unidos também foi
assim no início do século.
Eu achei o Brasil mais capaz de fazer vistas grossas à homossexualidade,
enquanto naquela época era barra pesada ser homossexual na Inglaterra... basta ver
que o Brasil nunca teve uma legislação contrária à homossexualidade. No Brasil
atacava-se pelo argumento da moral e dos bons costumes, mas não havia nenhum
artigo no código penal contra a homossexualidade... não havia nenhuma legislação
proibindo a homossexualidade como na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Pode-se até questionar se as idéias estão fora do lugar? Acredito que sim!
Certamente as palavras de ordem são produzidas e construídas de forma diferente em
outras sociedades. Neste sentido, elas estão fora do lugar, mas também fazem parte...
cada vez mais fazemos parte do movimento.
Quando a pessoa se assume homossexual, não acho que foi uma idéia
apropriada de outra cultura porque antes tínhamos as bichas... e nada mais! Acho que
elas representavam o modelo do gay brasileiro. Não exatamente o mesmo modelo
dos Estados Unidos! Entretanto, essa bicha velha, maravilhosa, acaba sendo
confundida com a idéia do gay. Para a sociedade brasileira a idéia de gay está
moldada sobre padrões de atividade e passividade. Nossa idéia, enquanto pequeno
grupo, era da igualdade para todo mundo, mas essa idéia não tinha ressonância no
Brasil... ainda não tem!! As pessoas pensam em termos de masculinidade e
feminilidade... de atividade e passividade. Acredito que as pessoas ainda pensam
dessa maneira. É assim que se constrói o mundo da sexualidade no Brasil.
Por isso não se fala de homem com homem, as pessoas usam ditos populares:
“- Bicha com bicha dá lagartixa! Homem com homem dá lobisomem!”... para a
sociedade é um horror botar duas fêmeas ou dois machos juntos!! Eu acho que as
pessoas aceitam mais a idéia de um parceiro fingindo ser másculo e do outro fingido

285
ser fêmea... isso é mais ou menos aceitável. Por exemplo, o michê não muda de
status ao comer a bicha velha! Porém, o michê não pode ser apanhado dando... ou
indo para cama com outro machinho.
A base desta relação está no fato dela ser paga. Neste caso, quem dá as
instruções sempre pergunta... sabe aquela pergunta ambígua!?: “- Você faz o que?”...
e eu penso logo que a pergunta e sobre minha atividade profissional: “- Eu sou
professor.” Então a pessoa tenta explicar: “Não! Você não me entendeu?”
Na Inglaterra estas questões não são discutidas. Não sei nem como isso se dá
na Inglaterra!? Faz tanto tempo que vim de lá! Porém, no que se refere as idéias que
utilizo para traçar um paralelo com o Brasil!!... acho que é a questão de duas pessoas
do mesmo sexo que define: um homem que vai para cama com outro homem é
homossexual. Do ponto de vista da população inglesa em geral, todas as
denominações são pejorativas - fruit, pansy, queer -, sempre caminham nesse
sentido, mas acredito que isso não é real no mundo de quem transa... não se faz a
distinção entre as senhoras.
Na década de setenta, há uma identidade nítida na Inglaterra e nos Estados
Unidos que se chama: Homossexual. No Brasil a sexualidade masculina ainda corre
solta... precisa de muito menos para ser comprovada. Não sei como é hoje em dia,
mas era perfeitamente comum o homem casado, com filhos, transar com meninos e
achar totalmente normal. Num Brasil mais ou menos popular, estou convencido que
era outra coisa. No Brasil, um rapaz poderia manter relações sexuais com outro
homem sem deixar de ser homem... achei isso interessante!
Em São Paulo, havia todo um processo de dizer aos michês que deveriam
assumir uma identidade gay... não tem nada a ver!!! Eram rapazes ganhando
dinheiro, talvez gostando... não sei!?... não me importa! Então, não gostava dessa
imposição programática de dizer aos outros o que eles têm de decidir. Há um
paralelo com a questão racial. O mesmo fato ocorre no movimento negro... o
mesmo!! No movimento negro, por exemplo, você tem que ser negro mesmo que

286
você prefira ser uma pessoa. Pode ser que não se tenha nenhum interesse na
questão... ou pode ser que você se ache cafuzo, moreno, mulato... ou sei lá o que!!?
Nunca consegui aceitar esses parâmetros.
Para todo mundo é claro que nos Estados Unidos quem não passa por branco
é negro. No Brasil essa história é mais nuançada... é muito relativa. Nos Estados
Unidos já se pensava em identidades estanques, fronteiras nítidas entre o que
homossexual e o que é heterossexual... ainda há uma discussão sobre a existência ou
não do bissexual! No Brasil é uma questão muito relativa... mais complicada! Não há
identidades estanques, com fronteiras muito claras. Porém, o movimento
homossexual parte do princípio que há uma identidade homossexual... que essa
fronteira existe!
A militância tentou enfiar isso na garganta da gente... a minha briga foi com
esta postura! Eu achava que esta visão não atendia ao que estava acontecendo no
Brasil... achava mesmo!! Acreditava ser mais interessante - primeiro - começar a
entender o país. Entender o que estava acontecendo de fato. Eu sempre prestava
atenção aos detalhes. Caso não encontrasse as fontes pelas quais as pessoas eram
machucadas, refletia sobre o que era possível fazer, mas certamente nunca pressupus
que quem não se achasse homossexual fosse um idiota. Não há nada demais caso a
pessoa pense assim!
Essa prática de acusar as pessoas - em inglês é chamada de outing -, acho-a
desagradável e desnecessária. Na Inglaterra, o movimento mais radical chama-se Out
Rage... e é muito interessante. Eles só fazem outing das pessoas que deliberadamente
atacam os homossexuais. Neste caso, eles só acusam depois de muita pesquisa.
Porém, eles deixam em paz as pessoas que não fazem nada. Por exemplo, um bispo
se levanta em público e fala mal das bichas - sendo ele notoriamente bicha -, os
ativistas o acusam! Neste caso, acho legal por causa da hipocrisia. Por outro lado,
essa idéia que as pessoas tem que assumir... assumir o que afinal!? Isso vai contra
minhas idéias de individualidade e privacidade... no Brasil se diz questões de foro

287
íntimo. Acho que o foro íntimo é desrespeitado neste caso. Nunca consegui
participar dessas coisas.
A idéia de um jornal já era mais interessante porque... para começar, por mais
que houvesse o tratamento da questão das minorias, esta justificativa funcionava
como uma espécie de cortina de fumaça por causa da ditadura. Contudo, havia uma
certa seriedade, primeiro a idéia não era abordar apenas a questão da
homossexualidade, mas também outros assuntos... era um tratamento mais plural.
Rigorosamente, não prevalecia nenhuma linha entre os editores do jornal. Havia
diferenças muito grandes entre o grupo. Também achava interessante poder escrever
sobre vários assuntos, caçoar, enfim chacoalhar um pouco a situação. Gostei da idéia
do jornal, achava-a muito interessante... ela era diferente da participação num
movimento com ideologia e palavras de ordem.
Por isso considerei o Lampião interessante. O jornal não tinha uma linha
programática... ao meu modo de ver não tinha!! Muitos de nós não iríamos
concordar. O que tinha era o debate sobre o problema, o levantamento de questões...
chamar a atenção às nossas dificuldades, assim como dos índios e não sei mais de
quem!? Acho que minha memória está falha, estou reconstruindo-a o tempo inteiro,
mas a minha falsa memória - a minha memória construída -, indica a inexistência de
uma linha predominante da militância. Ela acontecia no sentido de levantar questões,
conversar... havia uma divisão interna entre: os que levavam a coisa mais a sério; e
os que achavam que devia se usar uma linguagem mais corriqueira... com muito
humor. Nesse sentido, havia uma divisão interna.
Você quer saber se o Lampião ajudava os grupos a se aglutinarem!? Isso é
verdade! Ele foi um veículo meio aglutinador. O que penso sobre o Lampião ter uma
parte da responsabilidade na movimentação homossexual? Acho que sim! O jornal
dava vazão... dava legitimidade! Modéstia parte, naquele jornal nós tínhamos gente
boa... tínhamos muita legitimidade! O Aguinaldo estava começando a carreira dele,
acho que já tinha publicado dois livros. Ele já era apontando como grande escritor

288
brasileiro. O Darcy era pintor da society, bem estabelecido, muito respeitado... acho
que já tinha um livro quando começou no jornal. Tinha o Jean Claude,
respeitadíssimo no campo dele! De fato, era um grupo interessante... muito
heterogêneo. Desta forma, acho que o Lampião prestou uma certa legitimidade.
Na época, quais os outros jornais que havia!? Opinião, Movimento... que era
um contraponto ao Pasquim. O Lampião não era tão radical como o Pasquim, mas
noutra direção procura enfrentar o machismo do Pasquim... o qual todo mundo
conhecia... ou seja, o Lampião também representava outra alternativa interessante.
Muitas pessoas adoraram e ficaram muito tristes quando o Lampião acabou. Gente
que não tinha nada a ver com a história, acharam-no divertido, inteligente, diferente.
Ele tinha boas manobras e era tudo muito amador.
Apesar do Lampião ter sido produzido para todas as minorias, ele vai
assumindo uma característica... mais que qualquer coisa era um jornal de bicha! Não
tinha mulher na redação, foi difícil convencer as mulheres... depois fizeram um
número exclusivo! Elas adoraram... adoraram! Nós tínhamos esse regime de
envolver cada vez mais pessoas, mas não foi fácil! Não sei o porquê!... nunca pensei
nisso. As mulheres adoraram participar, fizeram um belo número que foi muito
interessante... e o que mais que tentamos fazer? Houve um número para os negros,
outro para os índios... visando a mesma tentativa: acreditávamos que essas questões
estavam relacionadas. Acho que havia um projeto de verdade, pelo menos ao meu
modo de ver, no qual entravam todos esses pontos.
Havia duas posições... digamos: uma mais light que era Aguinaldo, junto com
o pessoal do Rio; e uma mais pesada que eram algumas pessoas de São Paulo... não
todas!! Havia muita suspeita mútua. O pessoal de São Paulo sempre muito
acusatório. Coitado do Aguinaldo! Uma vez ele teve de cortar uma frase e foi
acusado de censura, mas não era nada disso... ele tinha de botar o jornal na rua! O
Aguinaldo tinha - ainda tem - um grande senso de humor. Não sei ao certo, mas a
briga era entre um interesse mais popular que explorasse a coisa brasileira, contra

289
um interesse mais sisudo, mais intelectualizado. No meu entender, isso talvez tenha
sido o mal entendido... acho que foi isso! Eu não agüentava a sisudez.
Os aliados na época eram o próprio Aguinaldo, Darcy, o Adão, o Celso Curi
que na época se tornou muito amigo meu. Ele era muito engraçado, com aquela
boate dele... a OFF. O Celso era muito mais divertido, escrevia muito bem. Naquela
situação, ele se tornou muito amigo meu. Ele tinha uma cabeça muito parecida com a
minha na época. Nós nos divertíamos, achávamos que isso era alternativo... que não
devia haver nada de sisudez, nada de inclinações mútuas.
Os movimentos sociais são caracterizados por esse tipo de atitude. Nós
achávamos que era possível escapar dela. Talvez tivéssemos um certo idealismo.
Achávamos que desta perspectiva meio danada, meio underground, era um
privilégio poder caçoar. Não era necessário cair na sisudez dos outros movimentos.
O jornal Lampião tinha que ser diferente do Opinião, do Movimento... tinha que ser
mais engraçado.
Houve um grande desentendimento, basicamente por essa causa, entre Rio de
Janeiro-São Paulo. O Rio de Janeiro parece mais criativo, mais ambicioso... é por
isso que gosto de morar no Rio de Janeiro. A cidade é mais irreverente. Na verdade
são estereótipos com todas as exceções que se possam arrolar, mas no geral era esse
o problema do eixo Rio-São Paulo. Como o jornal foi produzido no Rio de Janeiro,
Aguinaldo conseguiu enfiar esse tom engraçado.
Na época, as reuniões que participava eram terríveis... com muita polêmica!
Não sei porque as pessoas criam esses infernos! A base da questão era esse
confronto de posições. Eu não tinha muita voz... não tinha muita canja para levar
adiante. Olhando pra trás, creio que havia essa linha mais respeitosa para com a
questão nacional, mas como estrangeiro, para mim era mais fácil entender...
obviamente perceberia a diferença. Notava o lado interessante do país, a
irreverência, a ambigüidade e todas as coisas. Acho que a idéia em geral era essa.

290
Os exilados do norte vêm ao Brasil buscar um pouco dessa coisa estranha,
difícil de apanhar: a imprevisibilidade, a sutileza, o engraçado e tal; assim como
existem os brasileiros que olham para o hemisfério norte querendo as coisas mais
corretas, mais organizadas, mais claras, menos ambíguas.
Aquilo não teria acontecido se não fosse o Aguinaldo... todo mundo deve ter
dito isso!!! O Aguinaldo juntava tudo e levava até à gráfica. Naquela época não
havia computador. Era tudo na base de fazer o texto caber na página. Isso sempre
dava brigas porque havia cortes nos textos... acusação de censura prévia. Coitado! O
Aguinaldo sofreu muito. Ele é a pessoa mais importante. Foi ele que juntou os
trapos, levou-os à gráfica e fez aquilo acontecer. Sem Aguinaldo nada teria sido
feito. Mesmo assim, quando alguém assume a responsabilidade, os outros sempre
acham defeito.
No que se refere à “abertura política” possibilitar o impulsionamento do
Lampião? Na época, acho que tínhamos noção que estávamos arriscando. Não era
um mar de rosas, tanto que fomos processados... ou indiciados! Lembro que fui
chamado na Polícia Federal... uma coisa engraçadíssima!! Aliás!! Nada engraçado!
Nada engraçado!! Estava sozinho quando fui chamado, os outros já haviam
deposto... acho que estava fora! Quando voltei tive que ir à Polícia Federal.
O Luís Eduardo Greenhalg que era e é da esquerda, era um advogado de mão
cheia. Ele defendeu todos os presos políticos em São Paulo. Com enorme
generosidade nos defendeu de graça... achei muito comovente aquilo! Ele foi comigo
e ajudou-me bastante. Depois daquele depoimento, eles me mandaram tocar piano
numa outra dependência... foi muito desagradável! Não vou esquecer dos policiais
me chamando de gringo, acusando-me de corromper o Brasil... de estar poluindo a
pureza brasileira.
No final, eles me enfiaram num volkswagen de chapa fria... com três policiais
civis sem uniforme! O Luís Eduardo gritou do pátio da Polícia Federal: “- Peter!
Quando você sair telefone imediatamente!” Ele estava com medo que alguma coisa

291
acontecesse. Naquela época, ainda tinha possibilidade das pessoas sumirem. É...
tinha essas coisas! Com esses adendos, o jornal acompanhou um pouco a “abertura”,
mas penso que isso também faz parte do início da ousadia. Aquele processo foi obra
do próprio Armando Falcão... na época nós estranhamos muito!
Outro fator muito importante foi a volta dos exilados ao país... com o Gabeira
e companhia voltando. Não no sentido de homossexualidade em si, mas no sentido
de uma visão mais libertária. Esse processo de “abertura” contribui para mudar a
legitimidade das posições em relação à questão de classe, de pobreza e tal. Isso volta
com esse pessoal que levanta todos esses assuntos. Fazia parte do mundo nessa
época. Acho que naquela fase havia diferentes preocupações no mundo. O próprio
Lampião era reflexo do que estava acontecendo em outros países... não há dúvidas!
O próprio Lampião é endógeno... quer dizer, é produzido por pessoas aqui no
Brasil, mas pode-se dizer que acompanha tardiamente o movimento mundial de
libertação. O Stonewall que ocorreu em 1969 nos Estados Unidos e o Lampião só
aparece em 1978. Não acredito que foi por causa do Lampião que a grande imprensa
começa a utilizar uma nova linguagem. Isso teria acontecido de qualquer forma.
Acho que não tem nada a ver com Lampião... essas coisas teriam acontecido com ou
sem Lampião. O Brasil é receptivo ao mundo. Apesar da política nacionalista em
relação ao mundo, ostentando slogans como: “O Petróleo é Nosso”; por mais que o
Brasil tome essas atitudes estranhas, ele não quer perder sua relação com o mundo.
Mesmo assim já existiam outras coisas no Brasil!? Parece que na década de
sessenta há publicações, mas de produção muito artesanal? O Lampião foi a primeira
tentativa de comercializar, mas sem capital nenhum. Cada um dos editores
responsáveis deu sua contribuição. Produzimos uma cota para fazer o primeiro
número do jornal. Depois fomos fazendo os outros números com as receitas
arrecadadas, contudo, nunca havia dinheiro porque o retorno financeiro sempre
demorava um mês ou dois. Neste caso, sempre entrávamos para ajudar.

292
Nunca soube nada acerca do público do Lampião... certamente atingia um
público! De fato não sabíamos, pois não havia nenhuma estatística para levantar
estes dados. Talvez fosse um público mais de classe média, mais universitário... acho
que não era todo o pessoal do movimento, muito pelo contrário, havia pontos de
vista adversários. Acho que tinha muita gente! Estou sempre esbarrando com
pessoas que liam, não tinham nada a ver com essa história. Achavam divertido,
interessante, mas não sei quem era o público.
Havia um público hardcore, de pessoas que queriam levantar a bandeira da
homossexualidade e tinha esse efeito aglutinador...é verdade! Porém, não sei quem
lia e não vendia muito bem... se tivesse vendido mais, talvez tivesse durado. Era uma
batalha constante. Eu sei que fechou o Lampião e o Aguinaldo continuou um pouco
a fazer outra coisa. Ele abriu uma editora que não deu certo.
Houve uma expansão significativa no que se refere ao comércio. Porém, o
comércio sempre acompanha a diferenciação social. Neste caso, sempre que se cria
uma nova identidade, logo vem um comércio atrás. O comércio ajuda a cristalizar
essas identidades... é muito esperto! O bom produtor, junto com seu homem de
marketing, percebe os novos nichos sociais e dirige produtos para aqueles nichos.
Ao produzir esses produtos, aparentemente consumidos nesses nichos, ele vai
reforçando-os.
O comércio ainda não o faz, mas irá produzir bens visivelmente específicos
para os negros, por exemplo... é uma forma de reificar e cristalizar essa idéia que o
negro é diferente. Por exemplo, brinquedos são produzidos para crianças de três
anos, depois dos três aos quatro... se vai dividindo o mundo e os produtos vão
marcando essas divisões. Parece-me que isso é muito importante. Aliás! O processo
de consumo, a produção e a concentração de identidades estanques merecem mais
estudos. As diferenças sociais - sem dúvidas - sempre são marcadas pelas coisas que
nos pertencem. Por exemplo, quando alguém entra no meu escritório na UFRJ e
observa um monte de livros na estante, logo pensa: “- Ah! Este deve ler muito!” Em

293
termos de homossexualidade, onde que o comércio aparece mais!? Bares, boates...
agora começam a surgir revistas especializadas. Isso é normal.
Se as posições do Lampião eram cobradas pelo movimento homossexual?
Sim! Mas o jornal nunca se comprometeu a ser porta-voz do movimento. Houve um
editorial que tratou desse assunto. Eu não lembro muito bem daquela reunião...
lembro de ter ficado muito puto, não sei exatamente porquê, mas o que realmente me
entristecia era a capacidade das pessoas inventarem posições. Essa mania de
movimento... de alas, tendências, achava chato e desnecessário. Não entendia o
porquê das brigas homéricas... tudo está presente no livro do Edward.
Houve uma acusação de infiltração da Convergência Socialista para cooptar,
tinha um americano muito acusado... de fato não sei se havia! Não recordo porque
não levei isso muito a sério... achei tudo muito triste! É possível que tenha
acontecido. A Convergência Socialista ainda existe, chama-se PSTU e acredito que
seja capaz de qualquer asneira. Você diz que há uma ala gay no PSTU, ela deve ser
tão fascista quanto o resto do partido. Aquilo realmente é fascista. É um rolo
compressor, grita, não admite outras opiniões... é extremamente autoritário, mais ou
menos liderada por uma pequena burguesia branca.
Você quer saber se os movimentos homossexuais têm tentado se mostrar
representativos do segmento homossexual!?... mas essa também é uma ideologia
muito americana. Nos Estados Unidos sempre se procura representar alguma coisa.
Neste sentido, alguém que supostamente tenha uma boa porção de sangue negro,
pode ser representante... é uma idéia muito louca! Isso só é possível a partir da idéia
de uma identidade onde as pessoas biologicamente participam de uma essência.
Então, coloca-se um representante negro. Mesmo assim é idiotice, pois não há
circunscrição eleitoral... não há!! Há pequenos grupos que se dão ao luxo de se
acharem representantes.
No Brasil a questão é ainda mais engraçada. A circunscrição é tão
pequenininha que muitos desses movimentos são formados por uma, às vezes duas

294
lideranças. Elas têm alguns agregados em volta, fazendo todo o trabalho difícil.
Neste caso, há os abnegados... filósofos da causa que representam. Entretanto, não
sei o que representam... será a si próprio? Nem sei se representam os agregados que
tem em volta, mas hoje em dia não conheço bem os movimentos. No fundo há
alguns indivíduos muito articulados, muito inteligentes e, em parte, obcecados pela
publicidade... assim se fazem de representantes.
Essa obcecação pela representatividade poderia ser definida com uma
referência a Brás Cubas. Quando a personagem inventa um remédio - o emplasto
Brás Cubas -, mas não importa muito o remédio... o importante é ter o nome na
embalagem. Desta forma, às vezes sinto que as pessoas muito envolvidas na política,
em geral, são muito obcecadas pela sua própria visibilidade. Não há nenhuma
novidade neste dado... isso em política é geral, tanto na política sexual, como na
política partidária.
No caso específico dos ditos movimentos de identidade no Brasil, é muito
difícil porque há pessoas que se dizem representantes das mulheres, dos
homossexuais, dos negros... isso me parece muito complicado, certamente não
considero nenhum deles meus representantes. Nunca elejo, nunca fui chamado para
eleger e também não quero fazê-lo. Nunca andei batendo no peito,... acreditava que
havia várias maneiras de atuar. Também não achava interessante tratar publicamente
a minha vida privada... nunca achei e não acho interessante! Mas para quem pretende
ser assim que o seja.
No fundo também sou contra a divisão do mundo através da criação de
identidades estanques... sou contra mesmo! Essa julgamento do caso O. J. Simpson
nos Estados Unidos, por exemplo, deixa isso muito claro. Se questiona como se
resolve a questão política, num mundo que caminha para a estandardização... com
representantes disso ou daquilo no Congresso nacional!! Na verdade, não tenho uma
posição que sustente... somente a da autonomia do indivíduo. Provavelmente vou
sustentar uma bandeira já quase extinta. Assim, sou de uma posição muito anti-

295
popular e muito anti-natural. Vou carregar essa bandeira do indivíduo. Para falar a
verdade, acho que é uma batalha perdida.
Quando estudei antropologia me dei conta da arbitrariedade do arranjo social
de 1978. Fiquei a par da variação enorme de maneiras de construir a sexualidade, a
identidade e tal. A antropologia era uma ciência libertadora para mim... para mim!
Então, pode ser isso... achava que poderia escrever sobre essas coisas. Poderia ser
um acadêmico. Escrever seria uma maneira das pessoas se posicionarem. Pensava no
sentido que há várias maneiras de lidar com as questões no mundo.
Há várias maneiras de lidar a questão da orientação sexual... uma das
maneiras é escrever, levantar questões e chacoalhar um pouco o pensamento. Isso é
minha maneira de fazer. Neste caso, a identidade de antropólogo fica forte... as
outras também aparecem, mas achava mais importante ser o crítico social. Então, ao
falar a partir desta posição, tinha uma forma de acesso a esse mundo. Era onde os
meus interesses sexuais se encontravam. Necessariamente não era uma questão que
teria que colocar à frente... estava atrás, implícito, diagonal, transversal. Numa
posição que parecia mais interessante.
No Brasil, ainda é possível ser um professor universitário, sem que essa
questão da identidade esteja presente... e dominante o tempo inteiro. Ela não ofusca
todas as outras coisas que uma pessoa faz na vida. Não queria que isso acontecesse
comigo, senão me sentiria totalmente aprisionado por um aspecto da minha
personalidade. Obviamente a academia é muito importante, explica um monte de
questões e afeta a maneira de ver o mundo... sem dúvidas! Porém, é uma das faces
do problema não é o todo.
Não saberia colocar em palavras, mas achava que essa avalanche não era
interessante... da mesma forma que tenho pena das pessoas negras que são apenas
negras ... tenho pena! Que chatice ser um negro profissional... que horror ser uma
mulher profissional... que banalidade! Isso não significa que não tenha muito
respeito por essas outras posições... estou apenas defendendo outra! Não queria ser

296
acusado de estar constrangendo as pessoas. Critico os militantes porque acho que são
programáticos para os outros. Eu não sou programático, mas estou defendendo a
possibilidade legítima de não ter que participar desse plano de representação - de
identidade estanque -, estou defendendo essa posição! O mundo é muito grande e
deve ter lugar para todos.
Tenho o maior respeito pelo homem que casa-se com uma mulher e trepa com
meninos... o maior respeito! Acho que ele deve fazer o que quiser. Quem sou eu para
dizer que ele deve parar de fazer isso!!! Se o michê acha que é homem está ótimo!
Essa história de falsa consciência... que os marxistas tentaram enfiar na goela da
classe operária, é a mesma porcaria! Enquanto intelectual devemos ter o maior
respeito com todos... antes deles programaticamente começarem a foder a vida das
pessoas. É a minha opinião!!!
Foi só a semana passada, pensando muito sobre essas questões, que me dei
conta: interessei-me pelo aspecto libertador dos movimentos. Eu me decepcionei
quando percebi que eles não estavam mais querendo libertar coisa nenhuma, mas que
basicamente estavam interessados em se produzir e se reproduzir... e todo
movimento programático é complicado. É uma posição dos outros, mas não vou
forçar isso na goela de ninguém. Eles fazem muito bem em fazê-lo, mas fico irritado
quando me acusam!!! Eu não acuso eles, mas eles me acusam de frouxo o tempo
todo... dizem que tenho de assumir.
Também não escrevo sobre a questão homossexual desde 1980 ou 1982...
parece que o último livro foi Para Inglês Ver, desde então nunca mais escrevi nada.
Entretanto, outras pessoas fizeram um monte de coisas, mas ainda vêm conversar
comigo... o que é interessante! Quer dizer... algumas questões que levantei naquela
época ainda estão presentes. Porém, pensei em fazer outras coisas... e é isso!!
Quando você me pergunta sobre intelectualidade e compromisso político... se
o intelectual necessariamente tem que ter um compromisso político com a produção
dele? Penso que não deve ter. Pessoalmente, acho que seria muito difícil escrever

297
coisas assim. Novamente, quero dizer que não tenho receita para ninguém... não
quero cagar regra pra ninguém!! Na minha compreensão, visto que trabalho numa
universidade pública e o meu salário é pago por outras pessoas, acho que de uma
certa forma a universidade tem de prestar contas. Esta é minha opinião! Então, não
queria me posicionar ignorando os interesses dos meus alunos, do público leitor e
dos outros interessados.
O fato da universidade ser tão fraca e tão frágil e estar fora da sociedade, é
sua única característica. Eu me apavoro com a partidarização da universidade nas
eleições... acho o fim da picada! A universidade tem que estar fora, ela tem que ter
posições críticas, danadas, complicadoras... essa é minha opinião. Se ela não tem...
bom! é melhor acabar. Neste sentido, sou totalmente contra essa politização. É algo
que emburrece as pessoas e o mundo. A universidade, como espaço fora e dentro da
sociedade, pode produzir vozes iconoclastas, chatas, complicadoras... isso é
interessante. Apesar de se difícil, eu queria sempre complicar. Parece-me um ponto
interessante.
O mundo está cada vez mais partidarizado, sexualizado, racializado,
naturalizado. A voz irreverente das ciências sociais é importante, sobretudo nas
questões que foram citadas. Acho uma merda essa questão de política de identidade,
não é nada interessante, mas os que querem fazê-la que a façam... né!? Nunca quis
fazer nenhuma distinção entre academia e militância... porque muitas vezes são as
mesmas pessoas! Por exemplo, o Luiz Mott é militante e também universitário... o
Edward participava no SOMOS - como ativista - e também escreveu sobre o
movimento homossexual. Então, não sei se é tão fácil dividir! Acho que não é!
Talvez seja mais interessante pensar a posição, um pouco mais crítica, de alguns de
nós.
Não sei se escrevi a este respeito no Lampião, mas publiquei um artigo na
Folha de São Paulo que criou inimizades na época... escrevi um ataque sério ao
stalinismo sexual. Este sempre foi o meu argumento... estar recusando a cristalização

298
de uma identidade que arrasava com as outras identidades. Achava que isso não
tinha nada a ver comigo. Essa idéia de criar uma identidade, a qual elimina ou
domina as outras - ao meu ver - não era interessante. Os outros fazem o que bem
entendem, não quero enfiar nada na goela de ninguém!... mas tenho muita raiva
daqueles que querem enfiar na minha... MUITA!!!

299
Primeira Rede:

Autores Coligidos pelo Lampião.

Nome do Data e local Idade à Local e data Textos Local e


colaborador de época da da conferidos Data de
envio do conferência conferência enviados autorização
texto pelo correio do texto
Roberto Osasco-SP 59 anos São Paulo- São Paulo-
191
Piva em SP SP
24/03/1997. ________
em 25/06/97

25/06/97

Edward Osasco-SP (51) anos Na Salvador-


MacRae192 em residência BA
21/03/1997. do professor ________
em 29/04/97
Salvador.
Em
29/04/1997
James Osasco-SP (46) Long Beach- Long Beach-
Naylor em USA USA
Green193 20/03/97 ________
em 12/04/97

12/04/97

191
Publica o artigo: “Remake com Gabeira” in: Lampião da Esquina. Rio de Janeiro, nov 1979, ano
II, Nº 18, p. 16.
192
O artigo que faz com Peter Fry foi publicado como: “Mesmo no carnaval baiano cada macaco
no seu galho” in: Lampião da Esquina. Rio de Janeiro: agosto de 1978, ano I, Nº 4, p. 3.; e as
cartas foram publicadas no jornal com os títulos: “Canabis Sativa”: dezembro de 1978, ano I, Nº 7,
p. 14; e “Bons tempos”: junho de 1981, ano III, Nº 37, p. 2.
193
Publica dois artigos, o primeiro junto com João Silvério Trevisan: “A revolta de San
Francisco”in: Lampião da Esquina. Rio de Janeiro, julho de 1979, ano II, nº 14, p. 3; o segundo
foi: “Autonomia ou não, eis a questão”: julho de 1980, ano III, Nº 26, p. 10.

300
. Nasceu em São Paulo ( capital),
em 25 de setembro de 1937.

. Poeta.

. Estudos acadêmicos: Estudos


Sociais na Faculdade Farias
Brito, em Guarulhos; Fundação
Escola de Sociologia e Política,
em São Paulo.

. Autor, entre outros: Paranóia,


1963; Piazzas, 1964; Abra os
Olhos e diga Ah, 1976; Coxas,
1979; Antologia Poética, 1985.

Roberto Piva

301
A ligação de Roberto Piva com os cultos
xamânicos capturou meu olhar de visitante.
Roberto Piva, durante a entrevista, deu às
costas... não olhou um minuto sequer, ao que
parecia ser o único quadro inexpressivo
daquele ambiente: a janela de onde se
avistava a verticalização do concreto. O
local estava no além da metrópole,
convidava a contemplação dos falcões, das
pedras multicoloridas e das plantas. Xangô,
logo a minha frente, disputava atenção com
Roberto Piva. Naquele local, a celebração da
natureza era preponderante. Ele sentou-se
numa poltrona, da qual reinou através das
palavras. Durante a narrativa satirizou a
sociedade urbano-industrial, foi sarcástico
com os intelectuais ligados à universidade e
com os políticos de esquerda. O tom bem-
humorado expressava sua alegria, seu
entusiasmo e acima de tudo o prazer pela
vida... contagiando o ouvinte a cada gesto, a
cada comentário e a cada risada.

São Paulo,
21 de fevereiro de 1994.

302
" Estou amordaçado no Brasil, mas toda oportunidade que
tenho, exerço o papel crítico de intelectual ".

Meu nome é Roberto Piva, nasci em São Paulo, na Joaquim Eugênio de Lima,
na PRO MATRE. Os meus pais tinham título universitário. Minha mãe era
farmacêutica, para a época era algo incomum, poucas mulheres tinham título
universitário. O meu pai era químico e exercia essa função na Drogasil.
Nós tínhamos outra casa no interior. Ficávamos num constante ir e vir de São
Paulo para o interior, e vice-versa, porque meu pai também era fazendeiro. Nós
íamos muito para nossa casa no interior. Lá eu cresci em meio aos bichos e à
natureza. Essa convivência despertou meu interesse por gaviões, plantas e
posteriormente pelas religiões afro-brasileiras que são religiões da natureza.
Eu fiz o Jardim da infância em São Paulo, nas Perdizes, onde fui educado até
os dez ou onze anos. Os anos quarenta foram os mais libertários que existiram. Eu
costumo dizer que a minha revolução sexual foi feita aos cinco anos de idade. Quem
não fez sua revolução nessa idade, não vai fazer nunca mais! Não faz sentido esperar
que o governo, através da constituição, garanta esse tipo de proteção. Eu espero que
isso não aconteça, porque senão tudo quanto é gente vai achar que tem direito a
usufruir de um prazer celebrado pelos deuses. Na verdade tem que ser para os
poucos que gostam de adolescentes.
Aos sete anos de idade cheguei a cantar um rapaz negro de dezenove anos...
ele era pedreiro. Na época foi um escândalo para sua mulher que o repreendeu. Ela
o acusava de ser um corruptor, sendo que havia sido eu o autor da cantada. Claro que
ele não penetrava com aquela rola imensa. Ele sabia que me mataria e sabia que não
podia me machucar, portanto tinha que usar a imaginação... colocava entre as minhas
coxas.

303
É importante afirmar que esse rapaz não me corrompeu, fui eu que o seduzi,
porque no Brasil para a intelectualidade fascista & vermelha a sexualidade infantil
não existe. Todo mundo um dia na vida já fez troca-troca, depois esquece e o filho
não pode fazer. E essa gente do PT, essa gente “PTelha”, é muito engraçada porque
ainda acredita na normalidade, apesar da criação da bomba de hidrogênio, da bomba
nuclear e da bomba de neutrons. São pessoas que lêem Freud e não acreditam no que
estão lendo. O Marxismo, Lênin e esse exorcismo barato que fazem contra a
sexualidade, são coisas muito provincianas.
Ferenczi quando reflete a respeito da vida econômica, a propósito de um
ditado latino: "Pecunia non olet/ dinheiro não cheira", demonstra como todas as
metáforas econômicas estão ligadas ao intestino humano. No caso não há liquidez,
mas sim diarréia. Segundo Ferenczi se o dinheiro não fosse um símbolo do prazer
infantil de mexer com as fezes, higienizado & desidratado, possivelmente não teria
valor inconsciente nenhum.
Então desde os sete anos eu já era um sedutor. Caso viessem a acusar esse
rapaz eu assumiria a responsabilidade, mas nessa época esse mundo jurídico ainda
não existia para mim.
A minha infância foi muito agitada. Havia muita briga de gangs de rua. A
turma da esquina não podia entrar na rua porque levava estilingada. Na época eu só
queria saber de jogar futebol e fazer troca-troca o dia inteiro. Eu sabia a escalação de
todos os times de São Paulo. Aliás jogava futebol e no próprio campinho a gente
fazia o troca-troca.
Eu vejo o início da homossexualidade em crianças e adolescentes como um
rito de passagem. Uma iniciação xamânica, onde as características familiares são
perdidas. O menino fica "diferente" do grupo em que estava habituado e através do
futebol continua com seus rituais de iniciação.
O futebol é um esporte profundamente homossexual. Como eram as lutas de
gladiadores no circo romano, as quais foram substituídas por esse esporte. Os

304
gladiadores na noite anterior às lutas tinham direito as orgias ritualísticas.
Embebedavam-se com o vinho. Geralmente possuíam os melhores garotos de Roma.
Nesse período esses garotos eram apaixonados pelos gladiadores, como hoje
as pessoas são apaixonadas por Pelé, Viola, ou qualquer um desses ídolos. Na
realidade essas torcidas organizadas substituíram os tirsos dionisíacos, ou seja, os
grupos de rituais dionisíacos. Assim como essas saunas de garotos que têm muito
aqui em São Paulo, na Cidade Patriarca, na Vila Matilde, substituíram os templos de
Cibele... neles os adolescentes se vestiam de menina e faziam a prostituição sagrada
no seu interior. Essa prática parece existir até hoje nos templos xivaístas do sul da
Índia.
A minha infância na cidade foi muito divertida. Por outro lado havia também
aqueles espaços de mata. A fazenda do meu pai, perto de Rio Claro, possuía cento e
oitenta alqueires que eu percorria a cavalo. Era uma fazenda imensa, com oito lagos,
possuía animais raros, ficava a dois mil metros de altura. Meu pai nos anos sessenta
vendeu tudo isso. Ele morreu praticamente sem nada.
No governo Montoro me parece que essa fazenda foi tombada como Parque
do Estado. E lá dos treze aos quatorze anos eu estava preocupado com outras
coisas... estava preocupado com as meninas. Eu queria conhecê-las, também, porque
a mulher é uma promessa de felicidade. Então transei com as meninas mais lindas
que havia e elas eram apaixonadíssimas por mim.
Não havia parâmetros, transava tanto com meninas quanto com meninos.
Quando eu não era mais adolescente, mais ou menos aos dezessete ou dezoito anos,
eu contava-lhes: "- Eu gosto também de dar para outros garotos". Elas achavam isso
uma coisa como outra qualquer. As meninas com quem eu transava não queriam me
catequizar. Elas não eram psicólogas de esquerda, mas meninas maravilhosas,
loucas, selvagens, algumas muito cultas.
O Baudelaire no Mon Coeur mis amu diz: "- Aimer femmes inteligents c'est un
affaire de pederaste/ Gostar de mulheres inteligentes é coisa de pederasta". Digo isso

305
porque no Brasil não tem homossexual, mas misógino. Por isso que tudo quanto é
padre tem ódio de mulher pelada na televisão. A pessoa que tem medo de mulher
não é homossexual. Um gladiador romano era homossexual não porque tinha medo
da mulher, o soldado espartano gostava de garotos não porque tinha medo da
mulher, mas porque essas práticas faziam parte da cultura na qual viveram.
Não podemos esquecer que em Esparta havia uma educação mista, as meninas
e os meninos andavam nus nos ginásios, tomavam banho de sol e eram criados
juntos. Acredito que a civilização espartana foi a que mais emancipou a mulher. Ela
era dona do lar, cuidava dos deuses dedicados ao lar. Isso é muito importante para
um povo religioso que acredita que as pessoas devem fazer oferendas ao deus lar,
fazer-lhe um ebó e ter o comando da família.
Na realidade tudo isso representava o matriarcado. O poder que a mulher
detinha. Como em Roma, onde quem mandava eram as matronas. As esposas
presidiam os banquetes, nos quais os próprios maridos ficavam à sua frente
bolinando os escravinhos. Não havia sentido delas serem proibidas de conhecer algo
que fazia parte da cultura sagrada.
O relacionamento com meus pais sempre foi muito bom. Eles apenas me
atormentaram demais com relação aos estudos durante a infância e a adolescência
inteira: eu odiava a escola. Tudo era pretexto para matar aula, ou seja, ler gibi, ir ao
cinema, fumar maconha, fazer bacanal. Nos anos cinqüenta, depois das orgias, eu
saia nu pelas ruas. Não fazia essas bobagens de usar maiozinho como o Gabeira.
Jogava vôlei, inclusive fui campeão. No final dos anos cinqüenta aos dezesseis anos
era considerado o atleta completo.
Por outro lado, eu tinha problemas com matemática, com desenho, trabalhos
manuais. Por isso acredito ter vocação para imperador romano, ou principalmente
para mandarim, aqueles chineses maravilhosos que sabiam dois mil poemas decor,
mas deixavam crescer as unhas para dizer que nunca trabalharam. Nesse sentido,

306
lembro-me muito de Rimbaud quando diz: "- Não usarei jamais as mãos... que século
manual!"
Não conseguia me conformar com aquele ensino positivista. Se eu soubesse
até hoje a geografia que estudei teria de desaprender tudo sobre os países... desde
aquela época eles já mudaram diversas vezes. Os parâmetros da minha visão de
história estão ligados a Toynbee e Spengler. Eles afirmavam que toda a história
começa com um mito religioso poderosíssimo até o período de cisma das
civilizações que coincide com o período técnico. Assim que as civilizações saem
daquela epifania, elas saem fora do numinoso para cair no mundo profano. Quando
esse mundo não está mais relegado a uma visão do sagrado, as civilizações declinam.
A minha visão de história também está ligada ao Pasolini, marxista que afirmava: "-
Temos que incorporar elementos reacionários à revolução". Ele também dizia que a
esquerda italiana é conivente com a sociedade industrial, o neo-capitalismo provoca
a sociedade de consumo e uma sociedade criminalóide.
Isso significa que a criminalidade não está sujeita a classe pobre... porque
para os nossos intelectuais ser pobre é ser criminoso. O próprio Lula em suas
análises vive dizendo: "- A criminalidade existe por causa da fome." Ao afirmar que
todo pobre é criminoso ele sustenta uma visão elitista, porque tornou-se o
ventríloquo de um tipo de comunismo que existia nos anos cinqüenta. Acredito que
foram essas viragos, mulheres clitorísticas, com as quais ele andou transando na
esquerda que enfiaram esses chavões na cabeça dele. E como ele tem um
vocabulário restrito foi capaz de decorar somente três ou quatro.
Entre os meus pais e eu havia muitos conflitos com relação aos estudos. Eles
eram pessoas que gostavam muito de mim, assim como eu deles, porém tínhamos
visões distintas do mundo. Meus pais achavam que a cultura não deveria ser uma
coisa visceral, mas ornamental. Queriam que eu fizesse faculdade, enquanto eu
queria era vagabundear, ir a praia, montar barraca, fazer orgias, beber, tomar drogas,
fazer uma experiência xamânica única e intransferível.

307
Saí de casa muito cedo, aos dezessete anos, isso não me deu tempo de ter
mais conflitos com meus pais. Morei em pensão, dividi apartamento com pessoas.
Por falta de grana passei por todas essas experiências de falso democratismo de
circunstância. Nessa mesma idade parei de estudar. Não pisei mais numa escola e
então fiz muitas leituras, li todos os filósofos existencialistas. Tornei-me
basicamente um autodidata. A partir de então nada foi orientado. Eu descobria as
coisas, lia, e bastante do que li serve para contar a minha vida.
Em São Paulo, por exemplo, eu falei de Reich a meus amigos. Um autor
convencional do sexo que tem uma análise muito interessante sobre a energia
azulada, chamada orgônio, que podemos ver, principalmente numa praia, quando se
toma ácido. Na verdade o ácido só pode ser ingerido na natureza. Quem toma ácido
em São Paulo é suicida. Afinal, numa sociedade industrial, mecânica e brutal, onde
duzentos anos foram suficientes para a destruição do planeta, essa gente só poderá
ter uma má viagem. Basta observar: o paulistano gosta tanto de São Paulo que
prefere ficar numa fila sete horas para sair da cidade do que passar seu feriado
prolongado na cidade.
A metrópole, o espaço urbano, é um vasto cemitério: a necrópole. O homem é
o único animal que armazena seus mortos. Orangotango deve achar isso um absurdo.
Cercar um espaço onde tem armazém de morto, os chamados cemitérios... as
necrópoles. Todas as metrópoles são necrópoles. Fora de São Paulo há vida. Todos
os garotos estão pedindo carona na estrada. Estão andando de bicicleta de uma
cidadezinha para outra, fazem sinal, querem botar a bicicleta no carro. Nadam
naqueles riachos de beira da estrada.
Eu vou muito para uma ilha, onde tem um terreiro de candomblé só com
travestis, os quais são acompanhados por uns meninos de treze, quatorze, quinze
anos, lindíssimos, afetivos, bofinhos, fortes, jogadores de futebol. Aqueles meninos
caiçaras estão todos lá para cultivar a alegria do corpo, do tesão e da trepação.

308
Eu sou homossexual solar. Não sou lunar de boate. Meu negócio é praia,
montanha e campo. Eu quero é a terra pra mim transar, na praia deserta com o sol
batendo em cima. Tem que ter sensibilidade e intuição. Principalmente no meu caso
que faço caso com meninos de zona rural, inclusive de outros Estados, para estar
muito próximo do mar, da vegetação, da terra e do sol.
Nos anos cinqüenta quando o concretismo foi implantado no Brasil, o Lewis
Mumford, historiador da cultura, já dizia que a sociedade industrial estava em franca
decadência. Nesse mesmo período a própria esquerda denunciava a implantação
industrial feita a base do material velho, das sucatas das industrias provenientes dos
países dito industrializados. Esse critério de classificar países por desenvolvimento
sempre foi positivista.
Eu afirmava e continuo afirmando que o subdesenvolvimento não é
característica do Brasil ou de qualquer outro país do mundo. Na realidade o planeta
inteiro é subdesenvolvido. Pasolini já dizia: "- É proibido ser pobre", ou seja, quem
tem mais indústria, tem mais distribuição de renda. Essa idéia de progresso imposta
pela raça branca contaminou as outras raças.
Eu acho que o câncer do planeta é a raça branca. Pois se antes você era
obrigado a acreditar no cristianismo, agora você é obrigado acreditar no progresso.
Baudelaire dizia que a teoria do verdadeiro progresso não está no gaz, nem nas
mesas giratórias, o verdadeiro progresso está no afastamento dos traços do pecado
original. A crença no progresso projetou uma moral fascista entre os comunistas.
A Rússia, por exemplo, foi um país que punha homossexuais na cadeia para
trabalhos forçados, tinha o TUPOLEV, apesar de não ter comida na prateleira e nem
a seringa descartável. Neste aspecto, os gregos possuíam uma ciência capaz de
produzir a tecnologia contemporânea. O freudiano Hans Sachs afirma que eles não a
produziram porque o afeto com o próprio corpo era muito mais forte. Ao ponto deles
não precisarem ter extensões do corpo como tratores, muito embora sua ciência
permitisse. Heidegger tem uma idéia similar em relação à ciência asteca. Ele diz que

309
os astecas possuíam o poder de produzir a bomba atômica, entretanto segundo
Heidegger esse não era o projeto deles.
Nos anos sessenta eu tive amigos de todos os tipos. Essa questão de identidade
era algo que não tinha a mínima importância e que atualmente só serve para separar
ainda mais as pessoas. Nos anos oitenta, a invenção do modelo gay caracterizou o
estilo americano da homossexualidade. Esse modelo degradou a cultura ritualística.
As características da iniciação se perderam e transformaram-se em algo amorfo,
numa cultura de massa.
A liberdade sexual, concedida pelo poder, e os modelos apresentados pela
televisão causaram um desastre maior do que todos os anos de ditadura militar
vividos pelo país. Apesar da modernização tecnológica, muito destrutiva, certos
comportamentos ficaram intocados. Em termos de Brasil, por exemplo, a tradição
pagã rural do homossexualismo. Nesse caso, as pessoas mantiveram suas tradições.
O Brasil nunca teve algo parecido com o gueto americano. Nos anos sessenta
as pessoas misturavam-se. Nos bares não se sabia quem era o que porque todo
mundo transava com todo mundo. Esse modelo norte-americano acabou com a
grande ternura e aquela devassidão espontânea do garoto brasileiro, estabelecendo
esse modelo gay/gay que é algo “universotário”. Eu jamais treparia com um garoto
que fosse gay. Estar na do outro é importante para mim, não é estar na minha, mas
estar na de uma pessoa diferente de mim.
O modelo gay norte-americano serve ao consumo de massa, para poder fazer
lobby de sauna, refrigerante, marca de carro, jeans e tudo que possa ser consumido.
Eu acredito que essa divisão é fomentada pela imprensa, fomentada pelos donos de
boates voltadas à clientela gay.
O Brasil é muito poligâmico, muito bissexual. Essas divisões são muito
esquisitas, muito rígidas. Elas não cabem para o país do carnaval, onde homem
casado se veste de mulher... um escândalo para determinados países protestantes. No

310
Brasil predomina a característica bissexual do orixá que o rege, Logun-Edé. Esse
orixá rege um povo do qual ele possui o arquétipo.
Nesse ponto, a visão materialista da história sustenta que a pessoa possui o
arquétipo, mas na verdade é o arquétipo que possui a pessoa. Contudo, se a visão
materialista da história funcionasse em algum lugar do planeta, ela haveria de
sustentar todas essas sociedades totalitárias, as quais tinham tudo para dar certo,
desde a polícia científica, o exército, a bomba atômica e o mais engraçado não
tinham a seringa descartável. Deste modo, não se pode aceitar reflexões que não
correspondam ã realidade. Trata-se de uma balela do positivismo lógico do século
passado.
O marxismo é eivado de positivismo. Marx é um profeta bíblico, careta como
Jesus Cristo, Jeová e todos esses fazedores de deserto. Eu costumo dizer que para
quem se interessa por natureza morta o marxismo é um prato cheio. Inclusive, tenho
um amigo que foi trotskista, porém quando ele conheceu Moscou jogou seu
marxismo pela janela. Esse meu amigo me escreveu um cartão escandalizadíssimo.
Ele foi para a Sibéria, está fazendo um trabalho sobre xamanismo, e contou-me que
além de perseguirem os xamãs, proibiram a medicina budista... constituída pelo
conhecimento sobre ervas e tudo aquilo a que o mundo está se voltando atualmente.
O próprio conceito de bio-diversidade preserva essas ervas sagrado-
medicinais, sagrado-litúrgicas da Amazônia, para evitar o perigo de extinção. A
proibição da medicina budista, riquíssima, com cinco mil anos de idade, para
introduzir o lobby químico-farmacêutico na Sibéria, só revela como a cabeça de
comunista está alinhada com o positivismo.
Quando era garoto, através de amigos, tomei contato com o Vicente Ferreira
da Silva... o maior filósofo do Brasil. O Vicente foi escorraçado da USP pelo fato de
o acusarem de ser direitista, por corresponder-se com o Heidegger, lia Mircea
Eliade, Jung, Artaud. Ele foi muito amigo do Oswald de Andrade que também foi
reprovado na USP. Entre 1960 até a sua morte em 1963, eu e meus amigos nos

311
reuníamos na sua casa. O Vicente e sua mulher, a Dora Ferreira da Silva, tradutora
de Jung pela Vozes, nos recebiam e não faziam nenhuma discriminação.
O pessoal da USP nos achava niilistas. Gente jovem para eles era sinônimo de
palavrão. O Vicente como não tinha preconceito de natureza nenhuma nos recebia na
sua casa. Servia vinho e lá conheci um grande grupo de intelectuais, entre eles
Guimarães Rosa, Julian Marias, o físico Occhialini, muitas pessoas internacionais,
matemáticos, filósofos, antropólogos. Uma verdadeira passarela de pessoas não
provincianas. Era uma espécie de grupo de Eranos que era freqüentado pelo Jung,
Mircea Eliade.
O Vicente Ferreira da Silva costumava dizer: "- O comunismo é não mais o
cristianismo transcendente, mas o cristianismo imanente. É a máquina que produz
cobertores para todos, paletós para todos. É a máquina que entra no caritativismo
cristão"... e na verdade é disso que eles gostam porque são maniqueístas. No fundo
são profundamente jesuítas.
Heidegger, filósofo existencialista, na única entrevista que deu para a
imprensa, somente respondeu a duas perguntas. Numa delas o repórter perguntou:
"- O que o senhor acha da bomba atômica?". Heidegger o questionou: "- Qual? Essa
de agora, ou aquela que explodiu há dois mil anos?". Para o espanto do repórter que
exclamou: "- Mas como aquela que explodiu há dois mil anos !?". Heidegger então
explicou: "-Pois é, quando Cristo disse, meu reino não é desse mundo, ele detonou a
primeira bomba atômica". O mundo tornou-se instrumento do demônio para o
cristianismo.
A expressão "pereat mundus, fiat iustitia/ Morra o mundo, mas faça-se a
justiça" faz a cabeça dessa putada que quer o que a CUT, Central Única dos
Bandidos, fez em Diadema ao invadir trechos inteiros da mata Atlântica com favelas
para eleitor votar no PT, ou seja, destrua-se a floresta amazônica, mas instale-se as
favelas.

312
No Brasil nascem cinco milhões de pessoas por ano. Isso equivale à
população do Uruguai ou da Noruega. E não tem como alimentar. Mas têm essas
pessoas de meio cérebro que ficam distribuindo comida embaixo de ponte através do
Betinho... esse debilóide da luta armada. Porque nesse país até aidético tem que ser
de esquerda. A única forma de combater a fome no Brasil é através do controle da
natalidade. A homossexualidade, até ecologicamente, representa uma luta do próprio
inconsciente coletivo da humanidade protegendo-se contra o excesso populacional.
Antes de freqüentar a faculdade eu já publicava. Publiquei uma tripa poética,
uma folha em forma de sanfona: Ode a Fernando Pessoa. Poema em homenagem a
esse poeta, o qual foi publicado depois na antologia dos Novíssimos pela Massa
Ohno em 1962. Depois publiquei um livro fantástico, mas pouco comentado, o
Paranóia... com fotos do Wesley Duke Lee. O Piazzas foi publicado em 1964. Então
fiquei onze anos sem publicar, até 1975, quando foi lançado Abra os Olhos e diga
Ah!. Eu estou presente na antologia Vinte e Seis Poetas Hoje da Heloiza Buarque de
Holanda e foi por aí a fora.
Essa estética cabaço, poesia de botique, exposta pelos suplementos literários
como sendo poesia, na verdade é a poesia de linha de montagem industrial do
Taylorismo. Charles Chaplin no seu filme Tempos Modernos faz uma sátira ao
Taylorismo. Há cenas em que ele aparece saindo da máquina, entrando na máquina,
sendo cuspido pela máquina e não conseguindo acompanhar a linha de montagem.
Chaplin faz uma leitura anarquista ao desmontar o mundo taylorista.
Mundo que seria proposto por Lênin à União Soviética. O próprio
Maikovisky caiu nessa jogada. Ele parece ligado a TFP ao combater o alcoolismo.
Maikovisky combate a bebedeira de Iessenin, poeta russo, alcoólatra, que foi amante
da Isadora Duncan. Porém quando Iessenin morre, o Maikovisky faz um poema que
tornou-se famoso, no qual ele escreve: "Antes morrer de vodka do que de tédio". O
combate de Maikovisky tentava conter o efeito Iessenin sobre as massas.

313
Eu tenho a obra completa de Maiakovisky. Os oito volumes, em italiano, e
não essas antologias como publicam no Brasil. Pedacinhos em doses homeopáticas
para não apresentar esse lado fascista do Maikovisky. Ele tem escritos proféticos,
mas não acertou um. Um de seus poemas, sobre a luta aérea, é a exaltação positivista
da aviação soviética contra a americana. Hoje, ironicamente, a Rússia e os Estados
Unidos estão aliados para bombardear a Bósnia.
O Iessenin chamado de alcoólatra, de devasso, num de seus poemas já
anunciava: "Vocês vão acabar adorando O Capital como uma nova Bíblia
vermelha". Desde os anos sessenta eu joguei o comunismo pela janela. Por isso sou
um homem pobre. E posso afirmar que fui boicotado de todas as maneiras em
qualquer tipo de emprego que fosse.
Desde a adolescência eu fui reprimido pela esquerda. Essa gente me acusava de
praticar um vício pequeno-burguês e até hoje pensam assim. Posso afirmar que
enfrentei dificuldades financeiras, a vida inteira, por causa da esquerda e das bichas
enrustidas. A esquerda, por exemplo, me perseguiu policialmente. As piores pessoas
em que notei o preconceito contra o homossexual no Brasil eram de esquerda. Aliás,
os países socialistas foram os grandes perseguidores de homossexuais.
Tornei-me conhecido internacionalmente pelo fato de ter poemas publicados
em revistas dos Estados Unidos, o Ênio Peccora do grupo do Pier Paolo Pasolini lia
as minhas poesias na rádio de Roma - que parece ser ouvida na Itália inteira -, tenho
trabalhos publicados em 1965 na revista dos surrealistas: La Brèche. E esse pessoal
ligado a PT, PC, PC de não sei o que, liam minhas coisas e ficavam escandalizados.
Muito mais do que o burguês que nem está preocupado com esses valores.
Além de ser perseguido por esse estigma do pessoal de esquerda, também fui
muito perseguido no próprio meio homossexual pelo fato de gostar de garotos... isso
é um escândalo num mundo onde se gosta de "bofe". O preconceito contra a
pederastia é enorme. Esse pessoal que me perseguiu em todos os níveis é

314
extremamente totalitário. Eles chegam ao ponto de determinar que para ser
homossexual tem que gostar não sei de que tipo de gente.
Eu como os gregos não posso ver pêlos. Eu não transo com macaco. Transo
com adolescente. No dia em que eu quiser transar com pêlo eu pego o gorila do
zoológico de São Paulo, parece que se chama Virgolino, e dizem até que ele transa
com o orangotango... os dois foram separados por moralismo cristão.
Isso é interessante porque Kinsey afirma que começou a estudar a
homossexualidade humana a partir da homossexualidade nos animais. Ele tem uma
escala com todos os bichos e definiu categorias de animais que mais praticam atos
homossexuais. Em primeiro lugar está o leão. Ironicamente o rei dos animais é uma
rainha. Depois o pombo. Eu vejo muito isso aqui da janela de minha casa, inclusive
um dia a transa foi até muito distinta porque um pombo era branco e o outro era
cinza. E o rato. No Kinsey Report, o autor observa que só uma visão judaico cristã
poderia analisar isso como contra-natureza. O próprio Goethe dizia que, na visão
grega, a pederastia está na natureza. E Kinsey não era psicanalista, mas sim um
biólogo que nos fornece suas observações como prova. Eu tenho em italiano seus
dois volumes sobre a vida sexual do homem.
Para fazer faculdade, como não havia terminado o colégio, tive que fazer
madureza correndo em Barra Mansa para conseguir o diploma do secundário. Fui
fazer faculdade muito tarde... nos anos setenta, quando eu já tinha trinta anos. Eu
precisava dar aula para sobreviver e a única pessoa que decidia se me dava emprego
ou não era a diretora de escola. Mas não podia chegar numa escola e falar que queria
dar aula porque tinha três livros publicados. Naturalmente eles me mandariam
embora dizendo: "- Vai pastar pô, só podemos dar aula para quem está matriculado
na faculdade". Então fiz Estudos Sociais na Farias Brito em Guarulhos.
Fiz a faculdade de Sociologia e Política, com grandes caras que havia lá, para
poder lecionar. Lia aqueles textos na faculdade para poder passar de ano, inclusive
alguns professores me conheciam e exclamavam: "- Nossa! O poeta Roberto Piva!

315
Mas quem sou eu para poder avaliar você!?" e eu dizia: "- Olha, não vem com esse
papo. Eu preciso desse diploma porque tenho que continuar pagando o aluguel do
meu apartamento. Então você precisa me avaliar". E desde o primeiro ano no curso
superior comecei a dar aula.
Em 1983, depois de quinze anos, parei de lecionar. Não por causa dos alunos.
As oitavas séries todo ano me escolhiam para paraninfo. Os alunos eram
maravilhosos, muito doces... transei com muitos deles. Eles percebiam que aquilo
era um ritual de iniciação, não em nível consciente de falar-lhes que aquilo era um
ritual, mas o ritual funcionava em nível inconsciente.
Fiz a faculdade nos anos setenta. Desde então dei aula em colégio particular,
em cursinho e no Estado. Tanto que não tenho aposentadoria pelo fato de ser
professor contratado a título precário... não havia feito concurso. Nos colégios
particulares parei de dar aula porque não agüentava mais. Há uma hora que é preciso
jogar dinamite naquilo que está feito e partir para outra coisa. A instituição é muito
careta, por exemplo, nunca entrei na sala dos professores. No tempo em que dava
aula era a época da ditadura militar. Foi a época em que se fez mais orgias no Brasil.
Todo mundo era livre, puxava-se o fumo na rua e não havia muitos comunistas
enchendo o saco.
Depois que parei de dar aula fiz milhares de trambiques para sobreviver.
Assessorei um deputado ecologista e meu amigo, Fábio Feldman. Falo de ecologia
nos meus livros desde os anos sessenta, quando a esquerda dizia que isso era
bruxaria... na verdade é a única ciência que existe. Essa visão está no Vinte poemas
com Brócolis.
Quando minha mãe morreu, em 1991, ela me deixou um apartamento que
alugo. E entre outras coisas é assim que vou vivendo. É comum ouvir um intelectual
de esquerda dizer: "- Ah!, voltei ontem de Paris. Fui lá na livraria comprar livro de
marxismo". Eu não sei onde essa gente arruma tanto dinheiro. Todos esses
intelectuais de esquerda da USP, da PUC são extremamente ricos. Não há um que

316
não tenha pelo menos carro, casa ou apartamento, casa de campo não sei em que
lugar. Eles vão a Europa todo ano.
O Mattarazzo Suplicy tem uma casa no Morumbi que daria pra assentar
trezentas famílias de sem-terras. Ou é o famoso ouro de Moscou que ironicamente
não existe mais, ou talvez fosse Cuba, ou não sei ao certo o que eles fazem.
O que sei é que se a economia realmente movimentasse a história o sambista
Cartola, um cara refinadíssimo, não poderia ter nascido no morro, teria que ter
nascido numa cobertura em Nova Iorque. O Pixinguinha que era do morro, no Rio de
Janeiro, também não poderia existir porque não tinha dinheiro para comer. Ele foi
moleque descalço por não ter dinheiro para comprar sapato. Além do mais, a falta de
dinheiro nunca determinou a qualidade da minha poesia, que é de nível
internacional.
Eu fui uma pessoa que passei a vida sem dinheiro, às vezes não tenho
dinheiro para pegar ônibus, mesmo assim tenho poemas publicados no exterior.
Famosíssimo e paupérrimo, apesar do bloqueio imposto pela esquerda para que a
minha obra não se tornasse uma avalanche.
Hoje a situação está mais hipócrita, depois que a mídia toda ficou impregnada
por essa coisa modernosa, fascista-vermelha chamada PT... além de ser influenciada
pela classe média.
Basta observarmos o marketing feito para a escola de samba Mangueira
vencer o carnaval de 1994... por causa desses ídolos de momento. Eu acho um
absurdo essa descaracterização do samba de morro. Não é justo dar o prêmio à
escola de samba que agrada a classe média.
Esse pessoal da mídia é muito provinciano. Quer jornal mais provinciano que
a Folha de São Paulo? Um jornal de província feito pela caboclada e pela gente de
pau pequeno. Gente que veio do interior e quer usar sapatinho de verniz para passear
no estilo Geisel-funério da avenida Paulista... todos os prédios se parecem com a
tumba dos antepassados do Mattarazzo-Suplicy, aqueles túmulos com vidros fumes

317
pavorosos. E esses jecas dessas mídias ficam promovendo esse retardado mental,
descendente do conde Matarazzo.
Os petelhos, os intelectuais brasileiros e a mídia de classe média querem botar
no poder aquelas pessoas tristes que não sabem dar risada, não sabem pular o
carnaval. Exatamente para implantar a tristeza monoteísta no Brasil via o falso beato.
O rabino anão do Lula da Selva. A mídia é totalitária.
Tenho um amigo que trabalhou no Jornal da Tarde. Ele me disse que saem
em média dezoito notícias sobre discos voadores semanalmente. A comunistada da
redação joga tudo no lixo. Esse meu amigo é perseguidíssimo por ser homossexual,
ufólogo e ter visto um disco voador. Para eles isso é um pecado mortal, pois
extrapola a ciência.
Stalin fazia afirmações extremamente reducionistas ao atribuir o fenômeno
dos discos voadores a conspiração da CIA. Sua mentalidade foi capaz de reduzir a
discussão a esse único ponto. Esse pensamento pré-cartesiano ainda prevalece do
mesmo jeito porque é um vício do qual eles gostam. O Pasolini, em seu livro Caos,
afirma que os discos voadores são anjos... e que existem. Ele reflete sobre a crença
de uma visão pré-Galileu, segundo a qual a Terra seria o único planeta habitado,
colocando em questão esse privilégio.
Eu acredito que os valores da classe média, enquanto valores que vivemos
numa sociedade de consumo, tendem a se universalizar. Nesse período até
inventaram uma doença para essas firmas quase falidas de camisinha, Johnson &
Johnson, Jontex, lucrarem com o consumo. O João Silvério Trevisan contou-me a
respeito de uma matéria, divulgada pela Veja sobre um cientista prêmio Pulitzer, a
qual caminha no mesmo sentido de uma declaração que fiz há muito tempo no
Primeira Mão. Eu declarei que agora ocorreria a descoberta da cura do câncer
porque a medicina alopática precisa de uma doença incurável para poder faturar. No
caso, as indústrias de camisinha estavam em franca decadência e agora estão
acendendo charuto em nota de dólar.

318
Porém, o consumo de drogas também aumenta. A garotada está precisando da
viagem xamânica. Ela por si só já é uma abertura, a necessidade de iniciação por
alguém que os leve para o desconhecido, onde quer a pessoa seja ativa ou passiva -
essa noção e seu significado são discutíveis, segundo Hermes Trimegisto: "Tanto o
que está por cima quanto o que está por baixo são uma única e mesma coisa" -,
recupera-se o ritual milenar do menino que está se preparando para xamã.
Nas tribos siberianas, por exemplo, nas quais o menino se sente um excluído,
ele veste-se de menina e toma um marido. Em Roma o culto do deus Mitra era
composto, entre outras coisas, pela categoria dos ninfos: adolescentes que se
castravam para manter relações sexuais com os sacerdotes da religião. Esporus, um
menino entre quinze e dezesseis anos, manteve um caso com Nero até a morte desse
imperador. Depois matou-se numa dignidade única. Nesse caso, sendo Nero um
iniciado do culto de Mitra era como se o adolescente mantivesse relações com o
próprio deus.
Esse culto tinha a especificidade de ser da milícia romana. As grandes ruínas
dos templos de Mitra, os mitraions, estão localizadas nas fronteiras do Império
Romano. Nelas os soldados realizavam o culto que foi copiado pela Igreja Católica:
o coroinha veste-se com roupas iguais ao do ninfo, havia a comunhão, tomava-se o
vinho e comia-se churrasco de boi, pois sempre se vê Mitra lutando contra o Touro.
A carne depois é substituída pelo pão... e até a chapéu do bispo chama-se mitra.
Bastante do que li eu utilizo para contar a minha vida porque é tudo
misturado. Eu sou a antítese dessa gente que a arte está na escrivaninha e é um
funcionário público... sou a antítese dessa separação. Para começar não sou
funcionário público. A minha arte não está na escrivaninha, a minha arte está na
vida. Prefiro viver os poemas do que escrevê-los... porque dá muito trabalho.
Eu não sei escrever a máquina e preciso chamar alguém que fica três horas
para bater os poemas. Tenho uma máquina quebrada e não tenho dinheiro para

319
mandar consertar, assim ficam elas por elas. Estou com dois livros parados por causa
desses problemas... mas isso não me preocupa.
Esses intelectuais de esquerda da USP, da PUC são intelectuais positivistas.
Eles nunca põem em cheque a ciência, como faz o Paul Feyerabend quando escreve
Adeus a Razão & Contra o Método... ele propõe a introdução na ciência do método
anarquista & dadaísta. Feyerabend possui uma interpretação não materialista da
história, mas dialética das sociedades. Num livro chamado A Ciência numa
Sociedade Democrática... Science in a Democratic Society, ele diz que numa
sociedade democrática deve-se separar a ciência do Estado. O que se vê é o Estado
brasileiro impondo a ciência para o tratamento da AIDS.
Nós só não temos o xamanismo como regra atual da medicina porque através
da dominação política foi imposto um outro tipo de medicina sobre os povos ditos
primitivos, apesar do próprio nome já dizer que o médico faz tratamento e o
curandeiro cura. A ciência deve ser separada do Estado.
O intelectual brasileiro que afirma criticar tudo, não critica a ciência. Acredito
que o intelectual brasileiro é um acomodado, seja ele hetero ou homossexual. É um
acomodado por não fazer a crítica fundamental à ciência. Atualmente esses
intelectuais estão tendo que ter o confronto com a própria sombra. Isso é um
espetáculo para se assistir de camarote, comendo pipoca e dando risada. Os
intelectuais são os últimos a chegarem na desagregação do mundo monoteísta, das
culturas monoteístas, das religiões monoteístas, como o Marxismo, o Islamismo, o
Cristianismo e o Judaísmo. Eles são os últimos a chegarem porque são pessoas
perplexas diante de tudo o que está acontecendo. Perplexas no pior sentido da
palavra, devido ao fato de não fazerem o autoconfronto.
O Monnerot já dizia: "- Tem que se desmarxizar a universidade". Primeiro
porque marxismo não é ciência. O próprio Sartre dizia tratar-se de uma religião. Ele
só não completou dizendo que era monoteísta porque como marxista,
provavelmente, devia achar que era tudo a mesma coisa... o que não é verdade.

320
Enquanto no ritual católico só o padre toma vinho, no candomblé é comum se tomar
bebum e comer da comida do santo. O candomblé é uma religião da Terra e
principalmente da vegetação. Há até um slogan muito difundido para quem pratica
candomblé: "sem folhas não há orixás".
Nós estamos assistindo a um período muito rico, onde tudo aquilo que era
considerado heresia está tomando conta do primeiro escalão, como o tarô, a
astrologia, o xamanismo, o candomblé. O candomblé, de acordo com o livro de
Reginaldo Prandi, aumentou oitenta por cento dos anos sessenta para cá... ganhou
adeptos entre todas as classes sociais. Graças ao trabalho de um grande babalorixá,
Joãozinho da Goméia que era homossexual, como muitos pais de santo... porque o
candomblé é uma religião onde grande parte dos orixás são bissexuais, assim tem
que haver um sacerdote bissexual que os receba na sua totalidade.
Os coribantes, sacerdotes que antecedem a Cristo, representam as origens
mais antigas dos pais de santo. No Fedro, de Platão, Sócrates em diálogo com o
jovem Fedro compara a poesia como delírio coribântico dizendo: "- Ou seremos nós
como os coribantes que tocam tamborins, dão urros e quando recebem a divindade,
balançam o pescoço da frente para traz".
O candomblé, segundo Pierre Verger, tem de três a quatro mil anos. O meu
pai de santo Marco Antônio de Ossain afirma ter mais de dois mil anos. Todos têm
tais afirmações porque a África foi um protetorado romano que sincretizou os deuses
greco-latinos. Nesse sentido dizem até que Iemanjá é Afrodite, Vênus é Oxum. O
próprio Pierre Verger, em seu livro Orixás, mostra um machado de Zeus igual ao de
Xangô... o machado que corta dos dois lados para mostrar a bissexualidade do deus.
Sou um cara ligado na direita sagrada. Não acredito em nenhum político da
direita no Brasil. Provavelmente, só o Carlos Lacerda, mas na época eu era contra.
Atualmente, fazendo uma análise histórica, ele seria o grande político porque tinha
essa visão de Brasil epifânico.

321
Os grandes intelectuais eram e são altamente de direita: Elliot, Pound,
Lawrence. O próprio Dante, o maior poeta da Europa, provavelmente do mundo. O
Dante foi um monarquista que ficou contra a sua cidade e a favor do Frederico Barba
Roxa, imperador germânico, no tempo em que já havia uma burguesia incipiente em
Florença. Ele foi exilado, vivia e comia na mesa com os criados do Marquês de
Malespina que o protegia na cidade de Lucca. Os italianos não se reconhecem em
Dante, por ele não ser um oportunista como essa gente de esquerda aqui no Brasil.
Mas Dante caminhou até o fim ao lado da monarquia.
Os grandes intelectuais da nova era são ligados a direita, Mircea Eliade, Jung,
Julius Évola. Esse último escreve sobre tantra e é citado por Pasolini no Salò.
Pasolini afirma também que os fascistas perderam sua identidade por deixarem de lê-
lo, passaram a acreditar numa sociedade de consumo... tornando-se tão pavorosos
quanto os democrata-cristãos.
Esse estilo musical fantástico e maravilhoso, a New Age, também está ligado à
direita, assim como uma parte dos surrealistas ligados a Malcolm de Chazal... ele
acreditava que as montanhas da Ilha Maurício falavam com ele. O grupo surrealista
fez uma reunião em Paris para decidir se expulsavam Malcom de Chazal, apesar
deles o considerarem o maior escritor de todos os tempos por causa de suas
metáforas.
O Malcom de Chazal não foi expulso por causa de um voto de Alexandrian.
Um trotskista do grupo que possui a melhor obra sobre história da arte e sobre
história da filosofia oculta. Então, o Alexandrian escreve uma carta a Malcom de
Chazal contando-lhe: "- Fizemos uma reunião, a maioria votou contra você. O
Breton e eu votamos a seu favor. Eu porque acho que você tem o direito de acreditar
em Deus. Votamos, você venceu e não foi expulso". O Malcom de Chazal respondeu
ao Alexandrian: "- Por que você votou a meu favor!? Você é um filho da puta! Devia
ter votado contra! Eu não acredito em porra nenhuma desse pessoal que votou contra

322
ou a favor de mim!! As montanhas da Ilha Maurício falam comigo!! Os deuses estão
aqui!!"
Nesse período os surrealistas estavam muitos ligados ao marxismo, porém
nem todos eram ortodoxos. O Crevel, por exemplo, era uma pessoa muito livre,
apesar da ruptura ele havia sido marxista. O Artaud nunca acreditou nisso. Antonin
Artaud foi para o México. Lá iniciou-se no xamanismo com os índios taraumaras.
Fez o ritual do peiote e escreveu um livro brilhante, cuja leitura é importantíssima:
Os Taraumara... principalmente agora em que a visão judaico-cristã avança sobre o
xamanismo.
Como se houvesse uma única forma de xamanismo!! O que não é verdade, há
o xamanismo Yanomani, o xamanismo Iacute e o de Don Juan, narrado por Carlos
Castañeda, o xamanismo dos guaranis, aqueles índios maravilhosos, aqui perto da
represa de Guarapiranga... eles fazem pajelança de cura.
Eu tenho um poema para Spengler, historiador da direita maravilhosa, da
direita que mexe com o sagrado, enquanto que a esquerda mexe com o profano e o
positivismo. É possível afirmar que a esquerda não lê Jung. Esse autor era
profundamente anti-marxista. Em 1938 ele fez observações a respeito da estrela
vermelha masculina na bandeira russa e da estrela branca feminina na bandeira
americana, afirmando que esses países tendiam a ser aliados.
Falei a esse respeito com um pessoal do Partido Comunista que se formou
comigo na faculdade de Sociologia e Política e eles deram risada. Eu lhes disse que
eles deveriam dar risada de seus pressupostos teóricos que estavam liquidados.
Naquele momento alguns tiveram um insight, outros não. Como todo o intelectual
brasileiro depois da queda do muro de Berlim.
A esquerda voltou a ficar inquieta novamente. Os filhos dos esquerdistas têm
me procurado muito por causa da poesia. Essa geração não acredita mais no universo
dos pais. Num universo ligado ao concretismo e a uma visão “PTelha” da vida. A
cabeça dos petistas é igual a dos jesuítas. Eles são moralistas, castradores e fascistas.

323
O PT atualmente é o partido fascista. Por isso é preciso apoiar qualquer candidato
que se coloque contra o Lula.
O rabino anão do Lula da Selva, com aquela barba de falso beato. Ele precisa
ser combatido. Só assim combateremos o monoteísmo. Um amigo meu diz que é
preciso até votar num poste da Light, no Collor, Maluf, Antônio Carlos Magalhães,
Fernando Henrique Cardoso, José Serra ou votar seja lá em quem for para combater
essa gente.
Eles querem empurrar o falso beato do Lula no poder para salvar Cuba. O país
que mais perseguiu o homossexualismo. Em Cuba as pessoas são fuziladas por delito
de opinião. É muito contraditório ouvir esse pessoal do PT que não é a favor da pena
de morte no Brasil defender Cuba. Nesse caso eles estão defendendo também a pena
de morte.
Essa putada dos intelectuais brasileiros não sabe que só se lembra da liberdade
depois de perdida. O primeiro plano do PT é começar a censura na imprensa. É um
projeto de lei do Zé Dirceu, aquele sessenta-e-oitista que dizem ter sido caso do
Alfredito Guevara, no tempo em que ele era bonitinho, mas como qualquer
comunista afirma que não e torna-se aquela coisa hipócrita.
O povo brasileiro não vota no PT porque é aristocrata. As elites e a classe média
são plebéias. Eu acredito que o povo brasileiro tem no seu inconsciente a monarquia.
Um regime político que devido à extrema verticalização da cúpula permite uma
maior anarquia das bases. Na Espanha, por exemplo, um garoto de treze anos já é
considerado maior para qualquer atividade sexual. A maconha é livremente
consumida. Na Holanda todas as drogas são permitidas. Inclusive a rainha da
Holanda tem participação de lucros no imposto sobre a droga. A prostituição é
livre... somente a figura do gigolô é proibida.
Apesar da monarquia manter uma maior anarquia das bases, mantém ao mesmo
tempo a imagem do sagrado. O Brasil é uma civilização jovem e aristocrática que

324
corre risco caso continue ouvindo os comunistas... essa sucata que acabou no mundo
inteiro e parece que todos vieram para o Brasil.
Estou amordaçado no Brasil, mas toda oportunidade que tenho, exerço o meu
papel crítico de intelectual, às vezes dando entrevistas onde eu falo três horas e
publicam o equivalente a cinco minutos. Acredito que para um intelectual como eu
só resta retirar-se para uma ilha, ou ter muito dinheiro para morar na reviera
francesa, em Roma, ou na Ilha de Marajó.
A esquerda domina o pensamento do país e não há uma direita sagrada forte
que possa se contrapor a isso. A direita no Brasil é muito iletrada. Filosoficamente
falando, tanto o Maluf quanto esse pessoal alinhado junto a direta, não conhecem a
teoria marxista o suficiente para poder combater a esquerda. Combater o discurso
desses deputados petistas que não estão interessados no povo brasileiro, mas no
socialismo.
O pessoal do PT passou a vida esperando morrer por uma causa, só que a causa
morreu antes deles. Agora só resta proteger Cuba, pois subtende-se que salvar Cuba
é salvar o socialismo.
Lá no Lampião, um jornal da fragmentada mídia alternativa, nunca me
convidaram para escrever um poema. Uma grande parte do jornal era dominada pela
esquerda... evidentemente não eram todos. Havia pessoas que colaboravam com o
Lampião, mas não tinham poder de decisão. Glauco Mattoso escreveu a respeito da
minha produção literária nesse jornal. Além do que, prevalecia aquele modelo
Bofe/Bicha e meu universo nunca foi isso.
Nunca fui atrás dessas bobagens de querer bofe, enquanto a bicharia brasileira
caiu no conto do vigário. Acreditaram nessa balela de ter que ser como a mulher, ter
um lado mulher, ter que defender a mulher. Só que a mulher é um ser à parte. É
verdade que ela serve para botar garoto no mundo, mas é outra experiência. Como
puxar o fumo, subir em arvore, transar, etc. Homossexualismo não tem nada a ver
com isso.

325
Homossexualismo é coisa de macho, como diz o Genet: "Homem que beija
outro homem é um duplo homem". O termo "homossexualidade" é um termo médico
forjado em 1869 para dividir o corpo das pessoas. A medicina poderia assim exercer
seu poder nefasto e o desejo seria o único qualificativo viável para a manifestação de
tesão.
Antonin Artaud que era um poeta xamânico dizia: "- O sexo tem que ser frio,
mercurial como o éter". E Ferenczi, denominado enfant terrible da psicanálise,
afirma que não existe a fase anal, genital, mas que a libido é flutuante. Nesse
sentido, a questão da identidade é inexistente: o gay não existe para a libido.
Apesar de que nessa comunidade, especificamente, quem gosta de garoto é
banido. Passa a compor uma minoria dentro da minoria porque fala uma outra
linguagem. Para mim o prazer dos deuses é com adolescentes... os gregos já diziam
isso. O próprio Zeus rapta um pastorzinho chamado Ganimédes. Por essa causa
diziam que quem experimenta o gosto pelos adolescentes experimenta o prazer dos
deuses. O adolescente é essa síntese de masculino e feminino. É um prazer ligado ao
solar, principalmente dionisíaco.
O João Silvério Trevisan foi um dos poucos que me incluiu na literatura
homossexual brasileira, porque a maioria não inclui. E na verdade, eu quero que essa
gayzada, essa gente da esquerda, sempre ligada a essa canalha da Igreja Católica,
marche sobre um abismo.

326
. Nasceu em São Paulo (capital),
em 1946.

.Professor de Antropologia na UFBA.

. Estudos acadêmicos: Psicologia Social


(Bachelor of Arts) University of Sussex;
Sociologia da América Latina (Master of
Arts) University of Essex; Doutor em
Antropologia pela Universidade de São
Paulo.

.Autor, entre outros: O que é


homossexualidade (com Peter Fry), 1983; A
construção da Igualdade, 1990

Edward MacRae.

327
Após algumas tentativas contatei o
professor Edward MacRae. Tive sorte, pois
ele estava de mudança para Salvador, prestes
a assumir a vaga de docente na UFBA.
Naquela semana, porém, contou-me que
ainda estaria em São Paulo. Marcamos a
entrevista, apesar de não conhecer o local, as
leituras inspiravam uma confortável
familiaridade. “Previ” que seria próximo a
Praça da República. No local “previsto”, ele
narrou as fases de transição que viveu. O
apartamento concentrava a mesma aura de
transição, anunciada para a cidade de
Salvador. Encerrada a gravação, ele mostrou
o acervo de documentos utilizados no seu
trabalho de pesquisa. Depois assistimos o
vídeo de sua defesa de tese, no qual ele fazia
referência, logo no início, às futuras
gerações de pesquisadores. Ele chamou
minha atenção, disse que minha chegada já
fora “prevista” há quase dez anos.

São Paulo, SP,


30 de agosto de 1994.

328
“Sempre vivi minha vida por fases, elas têm início, meio e fim: a
fase em Edimburgo, a fase na Escola Antroposófica, a fase que dei aula
na Cultura Inglesa, a fase universitária, a fase do SOMOS, a fase do
Daime...”

Meu pai era escocês. Em 1936, devido à depressão vivida pela Europa, ele
veio para o Brasil. Ele vinha da Escócia, de Edimburgo, onde trabalhava numa
companhia de seguros, mas era um emprego sem futuro. Ele veio para o Brasil. Aqui
ele já tinha algumas ligações familiares. Se não me engano, o pai dele em 1920 ou
1922, veio para o Brasil, desde a primeira guerra mundial, ele havia sido um “objetor
de consciência”, recusou-se a lutar porque era pacifista. Pelo que me dizem, era uma
pessoa especial, apoiava uma linha espiritualista, vegetariana, bastante romântico,
muito sonhador e inteligente.
Na Primeira Guerra Mundial a situação de quem se recusava a lutar ficava
complicada. Meu avô veio para o Brasil e trabalhou em empregos temporários.
Nunca mais se ouviu falar dele depois que partiu numa expedição para Goiás. Parece
que ele morreu de alguma doença, não se sabe qual. Isso pouco tempo depois de
estar no Brasil. Por essa causa, meu pai foi criado pela avó e pelo tio.
Quando meu pai veio para o Brasil, tinha um primo dele que trabalhava em
Santos. Era dono de uma corretora de seguros, na qual meu pai foi trabalhar. Não
deu certo, então ele se mudou para São Paulo.
Minha mãe é brasileira. Ela era de uma família tradicional, mas que havia
perdido dinheiro. A minha avó materna foi criada na Europa, com toda uma série de
altas ligações familiares e de amizades. Assim, culturalmente o nível de sua família
era muito alto, mas economicamente eles passaram por uma fase sem dinheiro. Na

329
casa da minha mãe, falava-se português, porque eles eram brasileiros, mas a minha
avó falava inglês e francês, e o meu avô falava inglês, francês e alemão.
Meus avós, desde que minha mãe era pequena, a mandaram para escolas de
línguas. Ela falava inglês e francês muito bem. Assim, foi trabalhar como intérprete
na PANAIR e freqüentava as rodas onde se falava inglês. Desta forma, ela conheceu
meu pai. Eles se casaram em 1945 e nasci em 1946.
Meus pais moravam numa casa construída pelos meus avós. Numa época em
que compraram um grande terreno na Cardoso de Almeida, no qual construíram
várias casas, uma ao lado da outra, e meus pais moravam numa delas ao lado da casa
dos meus avós. Posteriormente meus pais se mudaram, mas durante muito tempo
moraram perto dos meus avós. Devido a este arranjo, em casa falávamos inglês,
porém na casa dos meus avós se falava português, embora eles também falassem
inglês, mas foram as pessoas que se encarregaram de me ensinar a falar a língua
portuguesa. Desta maneira, fui criado como bilíngue vivendo neste ambiente.
Meu pai começou a trabalhar numa corretora de seguros inglesa em São
Paulo. Ele se deu muito bem e acabou se tornando sócio da firma. No campo
profissional, a vida dele foi de ascensão social, financeira até morrer há algum tempo
atrás, mas muito bem de vida. Ele expressava o espírito do selfmademan, numa
forma escocesa, parecida com a Ética Protestante, ou seja, trabalhar duro e
economizar bastante.
Por essa causa, fui criado num ambiente de classe média alta, ligado aos
níveis mais elevados. Meus pais eram econômicos e não eram de esbanjar dinheiro.
Nós tínhamos um alto nível de vida, mas sempre tomando cuidado, havia sempre
uma ideologia de poupar, algo bem clássico do comportamento escocês e europeu.
Meus pais eram bastante felizes, brigavam de vez em quando, meu pai foi
uma pessoa muito honesta, muito fiel, assim como minha mãe. O clima em casa era
bastante bom, com base na confiança e mantinham-se os papéis de gênero
tradicionais. Minha mãe era dona de casa, tinha uma empregada que a ajudava, mas

330
ela sempre cuidou do lar. Ela saía muito, era uma pessoa muito sociável, com muitos
amigos, entre outras coisas, fazia chazinhos para as madames do nível dela,
recepções para os clientes do meu pai, para os amigos dele, enfim, coisas
tipicamente de classe média alta. Ela não trabalhava fora e meu pai mantinha a gente
em casa.
Sou o mais velho. Nós éramos quatro irmãos: eu, três anos depois a minha
irmã, um ano e pouco depois o meu irmão e nove anos mais novo do que eu um
outro irmão.
No Jardim de Infância, fui para um colégio alemão. A minha mãe manteve
essa mania de ensinar línguas. Ela queria que eu aprendesse alemão, então fui para o
Porto Seguro. Antigamente o prédio era situado na Praça Roosevelt. Estudei lá o
Jardim de Infância. Era muito estranho, foi uma das primeiras vezes que saía daquele
ambiente caseiro, mais inglês, para um ambiente alemão. Não entendia muito bem as
coisas e depois os meus pais acabaram me botando numa escola do Estado.
Na juventude, meu pai era muito sonhador, ele se colocava mais ao lado da
esquerda. Tenho um livro que era dele, uma cópia do Capital. Ele era uma pessoa
bastante questionadora, diferente. Um grande exemplo disso é o fato dele ter se
casado com a minha mãe. Ela era brasileira e na época os ingleses casavam com
inglesas. Outro exemplo, durante a Segunda Guerra ele permaneceu no Brasil,
enquanto vários de seus amigos retornaram à Inglaterra para lutar. Ele ficou também
porque era pacifista e não tinha a menor vontade de ir na guerra. Ele era uma pessoa
especial e inteligente. Porém com o passar do tempo, meu pai foi ficando cada vez
mais conservador. Mais tarde, ele se tornou ferreamente anti-comunista, anti-
esquerdista, mas na época de minha infância ele não era assim.
Meu pai desenvolveu uma crítica aos brasileiros, era contra a idéia d’eu ser
um filhinho de papai. E não queria que fosse criado como tal, pois contrapunha-se à
forma como os brasileiros viviam. Ele era muito crítico da juventude brasileira.
Desta forma, me mandou para o ensino público.

331
Minha mãe havia estudado num colégio do Estado. Ela estudou no Caetano
de Campos. Na época dela, realmente, eram os melhores colégios. À época que fui
para o ensino público, contudo, era o começo da decadência dos colégios do Estado,
mas ainda eram razoáveis. Fui para um Grupo Escolar. Porém, houve alguns
problemas no que se refere à questão do bilingüismo, os quais sempre me
acompanharam. Era como se estivesse em dois mundos à parte. E com a mudança
para o colégio do Estado, esse problema afluiu novamente, porém dentro de uma
outra variável: a questão da classe social.
Na época os filhos de amigos dos meus pais, geralmente, estudavam em
colégios particulares, como o São Luís. A classe média alta mandava seus filhos para
o ensino particular. Nesse colégio onde fui estudar, a maior parte das pessoas era de
classe média baixa ou classe operária, mais ou menos bem organizada, bem unidas
para mandar os filhos para a escola direitinho. Não se tratavam de indigentes,
contudo era uma classe social diferente. E percebia a escola como um outro mundo
diferente do meu.
Quando era pequeno, nós freqüentávamos o clube inglês. Os ingleses tinham
preconceito contra os brasileiros, falavam mal do povo. Nunca sabia muito bem
aonde me situar. Era brasileiro, minha mãe era brasileira, meu pai não admitia que se
falasse mal da minha mãe, nem dos brasileiros. Mas neste tempo ele encapava várias
críticas que se faziam aos brasileiros. Criança é muito conformista, ela gosta de ser
como os amiguinhos. E eu não era exatamente como os meus amiguinhos do clube
inglês e que estudavam no colégio inglês em São Paulo. Neste sentido, também tive
problemas porque me sentia um pouco inferior aos ingleses: “- Era inglês ou não era
bem inglês?” Minha mãe era mais esnobe que meu pai. Eu freqüentava festinhas dos
filhos de amigas dela. Ao mesmo tempo, ela me encorajava a não fazer amizades na
escola pública, porque eram pessoas de outra classe social. Essa dificuldade sempre
esteve presente, mas meus pais me incentivavam muito.

332
Acabei pulando o quarto ano. Estudei com uma professora que preparava um
grupinho, fiz um cursinho particular para fazer admissão. Nessa fase, meu pai já não
era a favor de me botar em colégios públicos. Eles queriam que fosse para o Santa
Cruz. Prestei o exame neste colégio e não entrei. Acabei sendo admitido no ginásio
do MacKenzie. Minha mãe tinha estudado no MacKenzie, mas isso foi muito tempo
antes. Achei terrível o colégio, odiei, ainda continuava com dificuldade de
adaptação, em parte devido ao bilingüismo e também porque minha mãe me
incentivava a não ter amigos na escola. Ela dizia que os meus amigos deviam ser os
meus irmãos. Na escola conseguia me dar bem em certas matérias e ser péssimo em
outras. Quando terminei a terceira série do ginasial, fiquei de segunda época. Não
estava bem no MacKenzie.
Nunca soube o que deu na cabeça do meu pai, mas um dia ele me perguntou:
“- Você quer ir estudar na Inglaterra?” De certa forma, achava que seria muita
bundamolice da minha parte dizer: “- Não”. Eu me senti desafiado, como se fosse
uma decisão minha, e realmente sempre senti que foi. A partir disso, tentei me dar
bem neste objetivo, assim faria qualquer coisa para sair do MacKenzie porque o
odiava.
Minha avó, na época da Primeira Guerra, contava que foi interna na
Inglaterra, na Suíça e depois na Alsácia. Ela contava histórias terríveis, sempre dizia
que nós tínhamos sorte porque os pais dela eram separados, desde muito cedo ela
ficou no colégio interno, e nós morávamos com nossos pais que eram muito
carinhosos. Ela sempre falava sobre esse assunto. De repente, fiquei meio
apreensivo, provei a sensação de poder ir para um colégio interno na Inglaterra. Por
outro lado, havia toda uma idealização que fazia da Inglaterra.
Em fevereiro de 1960, meus pais me levaram para Edimburgo, na Escócia,
onde morava o meu tio-avô que, junto com minha bisavó, havia criado meu pai. A
princípio, meu pai pensava em me colocar na escola onde ele tinha estudado. Não

333
era um colégio interno, mas era muito bom. Era do Estado, parecido com um colégio
de classe média, puxado, considerado de bom nível.
Na época, eu falava inglês, mas estudava em português. Aprendi a escrever
em inglês no MacKenzie, mas aprendi na aula como as outras pessoas. Antes disso,
sabia ler um pouco em inglês, mas fui aprendendo a escrever na escola. Toda a
minha educação se deu em línguas, não se restringindo à portuguesa. O programa de
ensino em Edimburgo era difícil para mim, por exemplo, não sabia nada a respeito
de História da Escócia porque era diferente. Acabei não entrando para esse colégio,
fiquei deprimido, e meu pai ficou preocupadíssimo... ele não sabia o que fazer.
Nós saímos para viajar pela Escócia e fomos até os Estados Unidos,
estávamos nos feriados de Páscoa. Nessa viagem, a preocupação dos meus pais era
sobre o que fazer comigo. Eles conheceram uma família escocesa, em Edimburgo,
que tinha filhos num colégio e estavam muito contentes. Um dos filhos desse casal
também teve muitos problemas, não se adaptou muito bem na escola do Estado,
então o puseram para estudar nesse colégio. O filho deles se deu muito bem e
puseram os outros dois filhos: era uma escola Antroposófica.
Na minha infância, meu pai era ateu convicto e militante. Na escola, aqui no
Brasil, nós tínhamos aula de catecismo. Quando chegava em casa, ele perguntava o
que havíamos entendido e dizia: “- Tudo bobagem. É tudo mentira. Deus não
existe”. Minha mãe era católica, mas não era praticante. Ela também era um pouco
revoltada com o catolicismo e com a religião em geral. Houve problemas quando
meus pais se casaram, a minha mãe era católica, naquela época a Igreja era muito
conservadora e meu pai oficialmente era protestante, não era católico, então não
queriam deixar eles se casarem. Antigamente os casamentos mistos eram muito
complicados. Meus pais acabaram não se casando na igreja, fizeram uma cerimônia
com um padre, no jardim da casa dos meus avós, mas não foi na igreja. Meu pai
achava isso humilhante. Desta forma, na minha família o clima não era nada
religioso, nada espiritual, meu pai era materialista.

334
Meus pais me puseram nessa escola antroposófica, mas sem saber o que era a
antroposofia. Meu tio-avô, com quem fiquei, já entendia mais dessas coisas. A
geração dele e do meu avô, o que veio para o Brasil, era pacifista na Primeira Guerra
Mundial. Meu tio-avô também foi pacifista, também foi preso por não ir à guerra.
Ele sabia quem eram os antroposóficos, mas ele era uma pessoa reservada, um
escocês. Achou que essa seria uma boa escola.
Fui para esse colégio e meus pais voltaram ao Brasil. Quando cheguei nessa
escola, ela era mais livre do que as que havia conhecido. Um dos princípios era que
há épocas certas de ensinar, sendo assim não adiantava trabalhar muito o lado
intelectual de uma criança muito nova, mas, quando pequena, deve-se buscar a parte
mais imaginativa, artística. A parte intelectual só deve ser desenvolvida depois dos
quatorze anos. Nessa época estava com treze anos e meio. No Brasil, vinha de um
ginásio tradicional, o MacKenzie, que no processo de ensino busca trabalhar o lado
intelectual desde pequeno. Quando cheguei lá, tinha coisas que não sabia, por
exemplo, o meu inglês não era tão bom, mas logo meu tio-avô que fora professor me
ajudou. Fiz um cursinho preparatório, aulas particulares, e meu inglês escrito ficou
bom. Em pouco tempo me tornei o primeiro da classe. Possuía um espírito
competitivo, provindo em parte da formação escolar e em parte da minha família.
O meu conhecimento em português me ajudava porque metade do
vocabulário inglês é anglo-saxão, a outra metade é de origem latina. O vocabulário
anglo-saxão é usado normalmente e o inglês rebuscado, mais intelectual, apóia-se
mais no vocabulário latino. Neste caso, muitas vezes, as crianças têm dificuldades
com as palavras latinas, no meu caso era justamente o contrário. Por essa causa, logo
me tornei um dos melhores da classe. Claro que, em contraponto, para as coisas
artísticas eu era uma negação. Mas como cheguei aos quatorze anos, justo na época
em que estavam começando a valorizar o lado intelectual, já tinha essa parte mais
desenvolvida, e me dei muito bem, gostava muito.

335
Passei dois anos e meio em Edimburgo, morando com meu tio-avô, às vezes
me sentia meio solitário porque ele era um solteirão. Estava acostumado à minha
família que era muito carinhosa, muito calorosa, à minha mãe, à minha avó, ao meu
avô, aos meus irmãos... Era outro esquema, os sistemas escocês e brasileiro são
muito diferentes.
Na minha casa, em Edimburgo, tinha de tudo, não passava nenhuma
necessidade - meu tio-avô era professor aposentado -, mas a vida era mais austera.
Ele não estava acostumado com criança, tinha ensinado bastante, mas não tinha
filhos dentro de casa. Depois de um tempo me ressentia com uma série de coisas.
Após algum tempo, meu tio-avô falou para meu pai que não me queria mais com ele.
Soube de um colégio interno na Inglaterra, muito conceituado no círculo
antroposófico. Na Inglaterra havia vários, mas esse era considerado o melhor. Desta
forma, fui para esse colégio no sul da Inglaterra: Michael Hall... passei um ano como
interno. Era um lugar belíssimo, numa antiga mansão de um aristocrata inglês. O
prédio parecia datar do início do século XIX. O internato era na antiga mansão e
para a escola construíram prédios novos. Havia um terreno imenso, com um bosque
que fazia parte de uma floresta do sul da Inglaterra. Ela tinha sido tombada, era tudo
muito importante, bonito e grande.
Parte dessa floresta era da escola, com jardins ornamentais que faziam parte
da escola, mas tinha muito terreno arrendado por fazendeiros, onde eles, geralmente,
cultivavam com agricultura bio-dinâmica, uma agricultura antroposófica. Nós
tínhamos muita terra, era no meio do campo, havia esse bosque, no qual saíamos
para passear, encontrávamos com um monte de bichos, veados, por exemplo, um
lugar lindo.
Esse colégio interno era misto, estudavam meninos e meninas. Na época fiz
amizade com um americano, recém-chegado dos Estados Unidos, que estava
paquerando uma menina. Ele também era novo no sistema antroposófico, bem mais

336
sacana, meio rebelde, e no meio antroposófico as crianças são meio inocentes, mas
eu também já era mais sacaninha porque tinha vindo do Brasil.
Certa vez, não sei o que aconteceu, as pessoas que administravam o internato
mexeram nos guardados desse menino e leram uma carta escrita para um outro
amigo. Nela, ele falava dessa menina - ela também era interna -, dizendo que ela
estava madura para a sedução. Por essa causa, eles quiseram botar o rapaz para fora
do internato. Então, eu com uns outros amigos, mas sob a minha liderança,
organizamos uma greve. Nós ficamos sentados, em frente ao internato, recusando
entrar na aula. Os professores vieram dialogar conosco e foi um deus nos acuda.
No final, ficou resolvido que o menino não seria expulso, mas que ele, eu e
uns outros amigos sairíamos do internato, iríamos para as casas de alguns
professores viver em família. Então, morei com uma família inglesa, antroposófica,
mais de dois anos. Neste período, durante as férias ficava em Londres, na casa dos
pais de um grande amigo, e visitava o Brasil todo ano para passar um mês.
Depois entrei na universidade de Sussex. Assim que entrei para o ensino
superior, fui passar férias com uma prima de um amigo nos Estados Unidos. Nessa
viagem comecei a fumar maconha e desbundei, se não me engano, entre 1965 e
1966, a época do grande verão: o Verão do Amor. O movimento hippie demorou
alguns meses para chegar à Inglaterra. Mas justamente quando começou, assisti
aquilo desabrochar nos Estados Unidos, estava lá e já lia Timothy Leary. Fiquei
muito interessado em experimentar LSD, mas só experimentei maconha.
Nos Estados Unidos, trabalhei como xerocopiador de uma multinacional em
Nova Iorque. Originalmente, entrei na faculdade para fazer economia, o meu pai
queria que fosse trabalhar com ele, na verdade queria que fosse um grande
executivo, vice-presidente, ou algo ligado a uma multinacional... esse era o sonho
dele. Se eu quisesse, ele tinha os contatos para me colocar nesse meio. Em Sussex
ainda possuía uma visão bastante conservadora, capitalista.

337
Na universidade, ao chegar na Inglaterra, as pessoas me achavam meio careta
porque estudei nessa escola particular, mas já comecei a procurar o pessoal mais
maluquete. E eles me olhavam meio estranho, achavam-me mauricinho, porém tive
essa experiência nos Estados Unidos. Comecei a conhecer pessoas vindas de outros
meios, porque esse colégio antroposófico era particular e caro. Na universidade,
comecei a conhecer pessoas da classe operária que não conhecia antes.
Na época em que começaram a chegar as notícias sobre os hippies, já sabia a
respeito, então estava por dentro, sabia do que se tratava. Em pouco tempo apareceu
o ácido e experimentei. Resolvi que não queria mais fazer economia, não iria
trabalhar com seguros, nem numa multinacional ou em nada do gênero, optei por
outro curso e me transferi para Psicologia Social. Essa universidade onde estudava,
era muito transada, o ensino era moderno. Nesta fase meus amigos eram todos
socialistas.
Durante a Revolução Cultural na China, achei que a imprensa inglesa e
francesa foi a favor deste movimento, parecia-me um caminho para se destruir a
burocracia do partido. Sentia que aquilo poderia aumentar a liberdade. Mais tarde
percebi que não se tratava disso, mas foram os próprios jornalistas que propagaram
essa idéia errônea. A imprensa liberal escondeu a barbárie, não mostrou o lado
opressivo da Revolução Cultural. Para os jovens, contudo, havia pontos de
identificação com a Guarda Vermelha, seria algo parecido com a Revolução das
Flores. Havia pessoas que se consideravam “anarcomaoístas” e eu era dessa
corrente.
Neste período mandava cartas para o meu pai citando Che Guevara e coisas
do gênero. Estávamos na época da Guerra do Vietnã, e fazíamos manifestação contra
essa guerra em frente à embaixada americana.
Em 1968, aconteceram as manifestações em Paris. Numa escala menor, a
Inglaterra também foi atingida por esta onda. Alguns amigos meus foram para Paris.
Eu quase fui, mas tinha uns exames muito importantes e o meu lado “sério” acabou

338
prevalecendo, porque eram os exames finais da universidade, lá não havia segunda
época, neste caso ou passava ou não passava. Assim, resolvi ficar estudando para os
exames, não fui para Paris e fui aprovado no final.
Ao voltar para o Brasil, passei alguns meses odiando o país, estávamos na
época da ditadura e era um horror. Odiava a tudo e a todos, ficava trancado no meu
quarto ouvindo Bob Dylan, morrendo de saudades da Inglaterra. Bob Dylan era meu
ídolo. Pouco tempo depois voltei para a Inglaterra, fui fazer mestrado em Sociologia
da América Latina na Universidade de Essex. O mestrado lá dura apenas um ano, o
que não é nada quando comparado ao tempo do nosso, mas assim que terminei o
mestrado comecei o doutorado porque não queria voltar para o Brasil.
Logo que entrei em Essex, tomei contato com o pessoal de esquerda. Esta
universidade era bem de esquerda. Os grupos que participei na Inglaterra, não eram
da esquerda tradicional. Na época, sempre estive próximo da New Left, cuja posição
parecia mais anarquista. Na Inglaterra presenciei o início do movimento feminista
inglês, no qual participava e conhecia várias militantes. A minha casa, em Essex, foi
um dos lugares