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Antonio Alberto Trindade

O USO DO JORNAL COMO MATERIAL EDUCATIVO

Uma Análise do Programa Folha Educação do Jornal Folha de S.Paulo

Mestrado - Ciências Sociais

PUC/São Paulo - 1999

Antonio Alberto Trindade

O USO DO JORNAL COMO MATERIAL EDUCATIVO

Uma Análise do Programa Folha Educação do Jornal Folha de S.Paulo

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Ciências Sociais, sob a orientação da Profª. Drª. Vera Lúcia M. Chaia.

RESUMO

O uso dos meios de comunicação de massa no campo da educação cresce a cada dia; dada esta realidade, torna-se fundamental a avaliação das propostas de interferência apresentadas pelas diversas empresas de comunicação, para que se possa estruturar, apoiar e desenvolver iniciativas que tenham verdadeiramente como objetivo auxiliar os processos educativos formais. Negligenciar esta necessidade significa submeter professores e alunos a processos e ações estranhos aos objetivos da escola. Neste trabalho apresentamos uma reflexão sobre os programas Jornal na Educação e uma análise do Programa Folha Educação – Leitura de Jornais do Jornal Folha de S.Paulo. Procuramos trazer informações que possibilitem ao leitor obter um histórico deste tipo de interferência das empresas jornalísticas no Brasil e no mundo, e apresentamos conteúdos que possibilitam o conhecimento e avaliação da estrutura dos programas brasileiros. Fizemos uma análise dos tipos de atividades que o Folha Educação propõe com o uso do jornal a partir de categorias que nossa pesquisa e reflexão teórica indicaram como pertinentes. Problematizamos o tema abordando os aspectos políticos e culturais que o envolvem e apresentamos reflexões que indicam a necessidade da abordagem teórica numa perspectiva interdisciplinar para a continuidade e aprofundamento da pesquisa neste campo. Concluímos nosso trabalho salientando a necessidade de a escola e os professores participarem diretamente das elaborações e ações educativas envolvendo o uso do jornal, produto cultural que, com esta pesquisa, passamos a considerar como viável, importante e necessário para o desenvolvimento dos processos formais de educação.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Profª. Drª. Vera Lúcia M. Chaia pela orientação que recebi, sem a qual seria impossível a realização deste trabalho.

Ao CNPq

pela concessão da bolsa que é tão fundamental para que

pesquisadores possam se dedicar ao trabalho científico.

À PUC-SP

pela oportunidade que tive de contar com profissionais da

maior competência durante todo o período do curso.

Ao Profº. Drº

Maurício Tragtemberg pela amizade e atenção que me

dispensou dentro e fora da Universidade ( in memorian ).

Ao Profº. Drº. Paulo Freire pelo incentivo, apoio e conselhos valiosos ( in memorian ).

À Profª Drª Carmem Sylvia de Alvarenga Junqueira, pela simpatia e

dedicação que confere a seus alunos.

A Celso João Ferretti e Luiz Eduardo W. Wanderley pelas contribuições feitas no Exame de Qualificação, muitas delas incorporadas no texto.

À Lenir F. Viscovini, pelo carinho e pela colaboração fundamental em

todo o processo de realização deste trabalho.

À Flávia Aidar e Nilson José Machado, pelas entrevistas concedidas.

À Elaine Cristina Giomo Ferreira das Neves, pela revisão do trabalho.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

01

CAPÍTULO 1 : OS PROGRAMAS JORNAL NA EDUCAÇÃO

06

CAPÍTULO 2 : O PROGRAMA FOLHA EDUCAÇÃO

21

-

A Concepção de Educação do Folha Educação

24

CAPÍTULO 3 : OS CADERNOS DE SUGESTÕES DE ATIVIDADES

51

-

Análises das Atividades dos Cadernos de Sugestões do Folha Educação

59

CAPÍTULO 4 : O USO DO JORNAL COMO MATERIAL EDUCATIVO

89

- Os Diversos e Diferentes Jornais

92

- O Jornal mais Adequado para Uso Educativo

104

CONSIDERAÇÕES FINAIS

113

BIBLIOGRAFIA

115

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

INTRODUÇÃO

Neste trabalho, vamos analisar a proposta do programa Folha Educação para uso do jornal como material educativo. A constante e crescente crítica da escola brasileira tem nos colocado de frente com os principais problemas que afetam o setor da educação; ao mesmo tempo - e felizmente - nos deparamos constantemente com propostas de trabalho educativo que buscam contribuir para a superação de tais problemas. Este é o caso dos programas Jornal na Educação que começam a ganhar fôlego no Brasil, impulsionados pela notoriedade social dos resultados positivos que vêm apresentando em outros países. Nos Estados Unidos, segundo Rene Gunter, pelo menos 700 jornais desenvolvem tais programas considerados como importantes não só porque garantem um público leitor no futuro, mas porque melhoram o desempenho dos alunos em leitura e redação e os tornam bem mais informados. 1 Segundo pesquisa feita nos EUA, alunos que utilizam sistematicamente jornais em sala de aula, têm desempenho em testes de leitura, redação e conhecimentos gerais 15 % melhor que os demais; segundo a mesma pesquisa, os estudantes envolvidos em programas que usam a TV como suporte didático, tiveram resultados nos testes, semelhantes ao dos que só dispõem de livros didáticos. 2 As informações de Rene Gunter mostram um pouco daquilo que é considerado como êxito dos programas Jornal na Educação nos EUA, local onde, segundo Flavia Aidar, muitos programas trabalham a idéia de que o jornal é útil para tudo, até para limpar o chão. Por outro lado, observa que em países europeus há programas neste campo inspirados em Paulo Freire. 3 Uma análise ampla dos diversos programas Jornal na Educação existentes certamente nos daria uma visão exata da diversidade de propostas e objetivos neste campo; o que nos interessa neste trabalho, contudo, é entender, do ponto de vista da educação - a partir de uma análise sociológica -,

1 Gunter Rene, Gerente de Programas Educacionais da Newspaper Association of America - Folha de S.Paulo - 11/09/96, em entrevista concedida por ocasião do 3º Congresso Internacional de Jornal na Educação ocorrido em Brasília.

2 ibidem

3 Aidar, Flavia. Ex-coordenadora do Programa Folha Educação – 1993 a 1997 e atual Gerente de Projetos do Instituto Itaú Cultural – SP.

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de que maneira o jornal pode realmente servir para um melhor desenvolvimento dos processos educativos na escola. Para tanto, faremos uma análise de um destes programas - o Folha Educação - desenvolvido pelo jornal Folha de S.Paulo desde 1993. A partir da análise de sua estrutura - em sentido amplo - e dos materiais que utiliza para desenvolver os trabalhos nas escolas, buscaremos extrair do Folha Educação o máximo de elementos que nos possibilite formular questões e definir caminhos para que possamos estruturar uma forma de abordagem significativa - do ponto de vista teórico - para avaliar programas deste gênero. É interessante refletir sobre a possibilidade de um material atualizado e diário - no caso, o jornal - servir como um instrumento educativo. Para nós, educadores, que temos buscado formas para que os conteúdos que trabalhamos em sala de aula correspondam às realidades dos educandos, é importante poder analisar o jornal como possível material educativo que expressa os fatos cotidianos de forma particular e dinâmica. Mesmo tendo tal intenção, não é ainda possível, para nenhum de nós, apontar com segurança o material e os procedimentos pedagógicos que possam nos levar a realizar tal trabalho; isso porque não é algo simples identificar a maneira de trabalhar que nos colocaria, de fato, satisfatoriamente próximos à realidade do aluno. Ao desejar realizar um tal trabalho, o professor está sendo movido pela idéia de que, na escola, o aluno deve encontrar um ambiente que, por um lado, saiba absorver as experiências de vida daqueles que ali chegam e, por outro, não seja um espaço estranho às características, interesses, necessidades e aspirações dos educandos - o que faria de tal espaço uma espécie de reformatório que obrigaria o aluno a pensar, agir e querer com base em alguma visão de mundo distinta da do grupo social a que pertence. O jornal diário impresso é um material de informação destinado ao público em geral ( ou a alguma massa específica heterogênea ); a organização dos jornais não tem como objetivo central promover educação, ou seja, as matérias em geral - excetuando-se aqui ( e não inteiramente ) alguns cadernos específicos como os de cultura, por exemplo - procuram dar conta do que acontece como tarefa fundamental. Quando pensamos na possibilidade de utilização do jornal como instrumento de um trabalho sistemático de educação e quando nos damos conta da existência de programas destinados a introduzir

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tal material na escola, nos vêm algumas indagações: o que pode justificar a validade do jornal como material educativo ? Todos os jornais valem como material educativo ? Em que posição o jornal se coloca neste ambiente de predomínio do livro didático ? Com quais atores, sistemas, metodologias, práticas pedagógicas e políticas, estruturas e objetivos educacionais estão dialogando os programas de uso do jornal em sala de aula e que implicações tem isso ? O que de fato propõem tais programas e qual visão de educação os orienta ? Pelo que representam as empresas jornalísticas e seus produtos na sociedade, como avaliar tais propostas cujos contornos não se limitam ao plano educativo ?

Estas são algumas das principais questões que envolvem o tema e com base nas quais nomeamos como nossos objetivos centrais nesta pesquisa:

- Entender a estrutura de um programa Jornal na Educação e, em especial, a do Folha Educação.

- Conhecer e refletir sobre os argumentos que buscam transformar a antiga prática de uso do jornal em sala de aula de informal e eventual para sistemática e permanente.

Identificar

- a visão de educação que orienta

o programa Folha

Educação.

- A partir da proposta do Folha Educação, pensar o uso sistemático do jornal num espaço ocupado pelo livro didático e por práticas educativas predominantemente apoiadas neste material pedagógico.

- Refletir sobre alguns dos contornos políticos e culturais que envolvem a questão do uso do produto jornal na sala de aula.

- Contribuir para a estruturação de uma forma de abordagem significativa - do ponto de vista teórico - para avaliar programas Jornal na Educação.

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No primeiro capítulo, falaremos dos trabalhos que estão sendo desenvolvidos hoje no campo do Jornal na Educação para que possamos conhecer e entender um pouco da proposta, já antiga, de utilização de jornais em sala de aula. Faremos um breve histórico deste tipo de interferência dando atenção especial aos fundamentos que vêm norteando tais trabalhos no Brasil.

No segundo capítulo, apresentaremos o Programa Folha Educação buscando identificar os pressupostos educativos e teóricos que dão sustentação à proposta; desta forma, analisaremos textos introdutórios que constam dos Cadernos de Sugestões de Atividades preparados pelo Programa destinados a servirem no processo de treinamento de professores na proposta. As informações contidas nestes materiais serão complementadas com entrevistas que realizamos com os dois principais integrantes da equipe que estruturou o Folha Educação - a educadora Flavia Aidar e o Prof. Dr. Nilson José Machado. 4

No terceiro capítulo, apresentaremos nossa análise das atividades propostas no Caderno de Sugestões preparado para orientar o uso do jornal com alunos de 5ª a 8ª série. Nesta parte, submeteremos cada uma das atividades deste Caderno a nove categorias de análise elaboradas a partir de nossa compreensão da proposta e dos objetivos do Folha Educação

No quarto capítulo, faremos uma reflexão teórica tentando analisar a contribuição de Antonio Gramsci, e outros autores à questão; tocaremos no ponto sensível e polêmico de se um jornal pode valer, para a finalidade educativa, pelo que publica ou se pode valer pelo papel que desempenha como veiculador e produtor de informação, interlocutor das mais diferentes vozes e visões existentes no plano da cultura e como produto de consumo que atende à demandas diversas representadas pelos diferentes leitores.

4 Machado, Nilson José. Professor-doutor do Depto. de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da USP; Colaborador do Programa Folha Educação.

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Apresentaremos, ainda, nossas considerações finais e um anexo destinado a oferecer ao leitor uma visão mais profunda do tipo de elaboração das propostas de atividades contidas nos Cadernos de Sugestões.

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CAPÍTULO 1

OS PROGRAMAS JORNAL NA EDUCAÇÃO

Já em 1932, exemplares do "The New York Times" eram distribuídos em escolas americanas; esta é a ocorrência mais antiga que se conhece sobre os programas de leitura de jornal na escola, conhecidos como NIE ( Newspaper in Education) ou, Jornal na Educação. 5 Tais programas são promovidos por um jornal ou por uma associação de jornais e procuram, segundo a ANJ

( Associação Nacional de Jornais ) 6 sensibilizar professores e alunos para o

uso adequado desse meio de comunicação em sala de aula. Para tanto, valem- se de algumas iniciativas como oficinas de treinamento para professores, material instrucional, cadernos de sugestões de atividades por tema e/ou área de conhecimento, dentre outras, além de promoverem a distribuição gratuita de exemplares de jornal nas escolas. Com o apoio da AMJ 7 ( Associação Mundial de Jornais ), da SIP 8

( Sociedade Interamericana de Imprensa ) e de diversas outras instituições que

atuam em territórios nacionais, os programas de leitura de jornal na escola vêm

5 A discussão sobre o tema, contudo, data de antes de 1920. Um texto de José Ortega y Gasset ( Revista da Faculdade de Educação da USP, volume 19, nº1, 1993 ) na Espanha, discute o que deve ser ensinado na escola. O texto é uma reflexão motivada pelas manifestações dos professores espanhóis contra a obrigatoriedade da leitura de Don Quixote na escola, imposta pela Real Ordem Espanhola. Para tais professores o jornal é que deveria ser utilizado como material pedagógico. Machado, Nilson José. USP

6 A Associação Nacional de Jornais é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, constituída por empresas jornalísticas, fundada em 17 de agosto de 1979. Desde 1986, sua sede está localizada em Brasilia, capital do Brasil. O quadro de associados da ANJ é constituído por empresas editoras de jornais brasileiros de circulação diária e paga, editados em língua portuguesa, há no mínimo três anos sem interrupção, excluindo destes os órgãos oficiais ou dependentes de pessoas jurídicas de direito público. Atualmente, seu quadro social está composto por 105 sócios, sendo 103 jornais e dois colaboradores.

7 A AMJ ( Associação Mundial de Jornais ) é uma entidade internacional formada por empresas jornalísticas, agências noticiosas e executivos e entidades nacionais do setor originários de 73 países. Seus membros representam cerca de 15 mil publicações. A AMJ tem sua sede em Paris e desenvolve ações voltadas à defesa da Liberdade de Expressão, à promoção da mídia jornal e ao uso de jornais na educação.

8 A Sociedade Interamericana de Imprensa é uma organização sem fins lucrativos, criada em 1926 e reorganizada em 1950, com sede em Miami ( EUA ). A entidade é constituída por empresas jornalísticas e seus executivos de todo o continente. Seus objetivos são de defender a Liberdade de Expressão, promover o desenvolvimento da imprensa nas Américas, lutar pela dignidade, os direitos e a responsabilidade da atividade jornalística e estimular o aprimoramento ético, editorial, técnico e gerencial dos meios impressos.

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ganhando fôlego a cada ano; com a realização de encontros internacionais e conferências, os diversos jornais que desenvolvem trabalho neste campo buscam aprimorar este tipo de interferência e discutir o futuro deste meio de comunicação - o jornal - que enfrenta um drástico aumento da concorrência em função do crescente aumento do uso de novas tecnologias no campo da comunicação. No Brasil, há 28 jornais desenvolvendo programas desse tipo em 13 Estados e no Distrito Federal. Anualmente são atingidos 2,2 milhões de alunos em 6.500 escolas de 1º [ ensino fundamental ] e 2º [ ensino médio ] graus das redes pública ( municipal e estadual ) e privada 9 .

Jornal na Educação - Programas Brasileiros

Estado

 

Nome do Jornal

 

Nome do Programa

Bahia

A

Tarde

A

Tarde na Escola

Distrito Federal

Correio Braziliense

Identidade com o Futuro

Espirito Santo

A

Gazeta

A

Gazeta na Sala-de-aula

Goiás

O

Popular

Almanaque-Escola

Minas Gerais

Correio

Correio Educação

Estado de Minas

EM vai às Aulas

Tribuna de Minas

Tribuna Escola

Pará

O

Liberal

O

Liberal na Escola

Pernambuco

Diário de Pernambuco

Leitor do Futuro

Jornal do Comércio

JC nas Escolas

Piauí

O

Dia

O

Dia na Escola

Paraná

Folha de Londrina

Projeto Cidadania

Rio de Janeiro

Jornal de Hoje

Hora de Recreio

O

Dia

O

Dia na Sala de aula

O

Globo

Quem Lê Jornal Sabe Mais

Rio Grande do Norte

Diário de Natal

Projeto LER

Rio Grande do Sul

A

Razão

A

Razão de Ler

Jornal NH

NH na Escola

Zero Hora

ZH na Sala de aula

São Paulo

A

Tribuna

Jornal, Escola e Comunidade

Correio Popular

Correio Escola

Diário da Região

O

Jornal na Educação

Diário de Suzano

DS/Escola

Diário do Povo

Diário Educação

Diário Popular

O

Jornal na Sala de aula

Folha da Região

Folha da Região na Sala de aula

Folha de S.Paulo

Folha Educação

Jornal de Jundiaí Regional

JJ na Educação

Jornal de Piracicaba

JP na Escola

O

Estado de S.Paulo

Estadão na escola

9 Folha de S.Paulo, 11/09/96, Caderno São Paulo, p.3

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No Brasil, a ANJ comanda o apoio aos diversos jornais brasileiros que atuam com tais programas. Pedro Pinciroli, vice-presidente da ANJ, justifica assim este apoio:

"A Associação Nacional de Jornais tem defendido vigorosamente o uso do jornal no ensino porque, além de estar - por motivos óbvios - sempre

atualizado, de ser atraente por cobrir os mais diversos aspectos da realidade e de ser mais barato que outros recursos pedagógicos, estimula o

Ao contribuir para a

formação do hábito da leitura entre os jovens - e não apenas da leitura de jornais - , as empresas jornalísticas fazem mais do que estimular o futuro cidadão a consumir seu produto. Sem dúvida, é importantíssimo formar ( e não apenas instruir ) o cidadão do futuro. Mas a realidade de hoje, marcada pela integração internacional e pelo desenvolvimento acelerados, coloca o sistema de ensino sob tensão. Para o trabalhador, para o profissional, ou para o cidadão comum, seja escandinavo ou latino-americano, já não basta ler e escrever, ou ter aprendido algum ofício. De pouco serve ser uma enciclopédia ( inevitavelmente superada ) ambulante. Hoje, de acordo com o diagnóstico da American Library Association, 'para ser um alfabetizado em termos de informação, uma pessoa deve ser capaz de reconhecer quando a informação é necessária. Em última análise, as pessoas alfabetizadas em termos de informação são aquelas que aprenderam como aprender' . Ora, isso é quase uma descrição da rotina de uma redação competente e do jornal por ela produzido. Ao se aproximarem dos jovens com programas Jornal na Educação bem concebidos, o que as empresas jornalísticas estão fazendo é muito mais do que lhes oferecer uma opção de lazer e de informação ou lhes garantir a própria sobrevivência. Estão transferindo seu Know-how de processamento de informações 10 . Com a multiplicação das fontes de informação e entretenimento - das quais fazem parte os sistemas de TV a Cabo que, em breve, terão mais

desenvolvimento do senso crítico dos leitores. (

)

10 Esta afirmação precisaria ser estudada para fins de confirmação. Uma transferência de Know-how é algo bastante profundo e que necessita, para ocorrer, de ações e processos bem mais profundos que os que propõem os programas Jornal na Educação ainda que se possa identificar nestes, elementos que certamente constariam de um processo de formação com tais objetivos.

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de cem canais, talvez 500 - , boa parte do tempo que as pessoas passam diante do televisor será consumido na escolha do que assistir. Saber localizar, compreender e utilizar as informações na era da Internet significa a diferença entre ser um navegador e ser um náufrago." 11

No texto de Pinciroli, dois pontos merecem destaque: os motivos que justificam sua defesa vigorosa do uso do jornal no ensino e a idéia da importância da informação nesta "era da Internet".

Um material atraente, barato e atualizado certamente não se parece

nada com o tradicional livro didático que é o recurso pedagógico mais utilizado

e culturalmente reconhecido como válido e fundamental no Brasil, apesar das

críticas que recebe. Mesmo quando um livro didático é considerado atualizado, os conteúdos pouco ou nada têm a ver com os aspectos da realidade cotidiana abordados pelos jornais; diferentemente disso, o livro didático traz conteúdos considerados como conhecimento sistematizado. A referência ao fato de o jornal ser mais barato que outros recursos pedagógicos nos leva a pensar sobre quais materiais pedagógicos o jornal poderia eventualmente substituir no

Brasil onde o livro didático figura quase que como o único recurso pedagógico de que dispõe a maioria dos alunos. Quanto à questão do uso da informação na era da Internet 12 , ao considerar que a competência em localizá-la, compreendê-la e utilizá-la diferencia um navegador de um náufrago, Pinciroli está defendendo o jornal como de máxima importância para a escola apesar de tal material ser ainda, neste espaço, pouco utilizado e não ser culturalmente reconhecido como fundamental. Vale citar, para efeito de ilustração, comentários sobre o uso da Internet

e dos computadores na escola, proferidos por participantes da 2ª Conferência

11 Texto de Apresentação de Material de Propaganda dos programas Jornal na Educação da ANJ, 1997.

12 A questão da importância da informação na "era da Internet" merece estudo aprofundado. A estruturação de uma utilização adequada na escola dos recursos tecnológicos disponíveis atualmente não será possível sem que tenhamos uma reflexão profunda sobre o papel da informação cotidiana nos processos educativos e sem que tenhamos metodologias que nos possibilitem favorecer a que o aluno faça uma leitura crítica das informações disponíveis, pressuposto para um uso significativo destas.

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Internacional de Jornal na Educação 13 . Neste evento, expressou-se a crítica de que a Internet incentiva a preguiça intelectual; comentou-se muito sobre o fato de os universitários utilizarem a Internet como substituta da pesquisa tradicional cuja validade é inquestionável. Observou-se também que os universitários "colam" palavras dos outros, o que não contribui para um avanço

da pesquisa e nem da formação dos mesmos.

Já sobre os computadores, comentou-se sobre o mito que existe em torno de sua utilização na escola. Observou-se que os computadores não são a salvação para o campo da educação. A argumentação contrária mais contundente e ilustrativa de que tal idéia é um mito, referiu-se aos EUA onde

acesso facilitado para uso de computadores e que, apesar disso, os alunos

os utilizam como editores e para lazer ( jogos eletrônicos ). Foi dito ainda

que gastou-se muito dinheiro para equipar escolas com microcomputadores e

o resultado disso é que hoje a grande maioria destes estão velhos e

ultrapassados. Em resumo, mostrou-se que este não foi um bom investimento e que é preciso ter muita clareza do que se deseja com os computadores nas escolas antes de se fazer investimentos movidos pelo mito da salvação. 14 Nas questões apontadas por Pinciroli notamos pontos de tensão que certamente estarão presentes em outros momentos da justificativa do uso do jornal na escola; tal tensão é, a nosso ver, inevitável já que a proposta de uso do jornal penetra um campo de estruturas tradicionais e enraizadas com sujeitos adequados a elas.

13 Conferência realizada em São Paulo nos dias 10 e 11 de setembro de 1997, no Memorial da América Latina. 14 Todos os comentários são fruto de interpretação deste autor, que tenta expor de maneira fiel alguns dos pontos interessantes discutidos na Conferência.

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No material de propaganda da ANJ, encontramos as considerações básicas para implantação de um programa Jornal na Educação. 15

Aponta-se como objetivos:

1- Promover o gosto pela leitura do cotidiano por parte do aluno. 2- Promover a maior empatia do aluno e do professor com o jornal. 3- Levar o aluno a se familiarizar com o jornal, a conhecê-lo melhor, localizando as informações. 4- Promover a leitura entre os membros das famílias dos alunos, bem como entre os funcionários da escola. 5- Oferecer ao professor um recurso de fácil acesso e alto poder de motivação para o aluno.

Propõe-se que o jornal seja oferecido aos alunos "como ele é":

Se o objetivo fundamental do programa Jornal na Educação é familiarizar o aluno com o veículo jornalístico e criar o hábito de leitura, que deve perdurar por toda a vida, o estudante deve conhecer o jornal como ele é, da forma como será encontrado nas bancas quando não mais for recebido na escola. O aluno é que vai incorporar o universo jornalístico, visto que o jornal não vai se descaracterizar para atender o estilo escolar. 16

Quanto ao público-alvo, a ANJ observa que a abrangência de um programa Jornal na Educação vai desde a pré-escola até a universidade e a pós-graduação. Observa ainda que, utilizado com classes de educação de adultos o jornal substitui com grande vantagem o livro didático tradicional. A implantação de um programa exige ainda que se defina se o jornal a ser

15 Material de Propaganda dos Programas Jornal na Educação da ANJ, 1997. A numeração dos objetivos não consta do material da ANJ.

16 ibidem. A idéia da existência de um "estilo escolar" não é clara. Se o material jornal pode ser pensado como material educativo e se tal material pode ser proposto para ocupar um lugar na escola, isso significa que, de alguma forma, tanto o material como a proposta, para estarem de acordo com a realidade da dinâmica do mundo da educação, devem estar sujeitos aos mesmos processos de avaliação dos materiais e propostas existentes nas escolas. É com base em tais avaliações, movidas por razões e fatores diversos, que ocorrem as reformas no ensino e na escola. Neste sentido, as empresas jornalísticas que desejam atuar com programas Jornal na Educação têm que estar abertas a mudanças e reformulações que eventualmente atinjam seus produtos e propostas.

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utilizado será encalhe 17 ou assinatura; a freqüência de entrega dos jornais na escola; as cotas de jornal a serem distribuídas a cada escola e o tempo de permanência da escola no programa.

Como resultados obtidos com tais programas a ANJ aponta:

1- Maior reconhecimento e valorização do jornal em termos de benefícios sociais pela comunidade. 2- Melhoria da qualidade de impressão do produto. 3- Melhoria da informação jornalística mediante leitura crítica de professores e alunos. 4- Aumento da circulação do jornal entre professores e pais de alunos (novos assinantes). 5- Fortalecimento da credibilidade do jornal na comunidade mediante atuação social positiva na Educação. 6- Reconhecimento das vantagens da presença do jornal na sala de aula como importante aliado do professor, para estimular o aluno à leitura, à compreensão e à valorização do significado de estudar para adquirir a necessária competência como leitor, num mundo cada vez mais centrado na importância da informação. 18

As orientações gerais da ANJ nos oferecem um quadro das possíveis variações que podemos encontrar nos programas que estão sendo desenvolvidos por jornais brasileiros. Como não consideramos importante, neste trabalho, falar detalhadamente de cada um dos programas, julgamos necessário reproduzir o fundamental destas orientações. Há outra razão importante: o conhecimento das orientações nos possibilita fazer uma análise das opções de estruturação que dão o formato do Folha Educação - nosso objeto de estudo. Ao observar que, utilizado com classes de alfabetização de adultos o jornal substitui com grande vantagem o livro didático tradicional, a ANJ introduz o debate sobre se há ou não oposição entre os dois materiais. Embora a ANJ não sustente com argumentos esta afirmação, podemos dizer que, de alguma forma, tal instituição considera que o jornal pode dar conta dos conteúdos necessários no processo educativo, pelo menos no campo da

17 Jornais que não foram vendidos na data da publicação.

18 Texto de Material de Propaganda dos programas Jornal na Educação da ANJ, 1997. A numeração dos resultados não consta do material da ANJ.

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educação de adultos. A afirmação sugere que com o jornal pode-se trabalhar satisfatoriamente tanto conteúdos curriculares como conteúdos do noticiário, algo que necessitaria ser melhor aprofundado dada a enorme diferença existente entre uma coisa e outra.

Sobre a necessidade de se definir qual jornal será trabalhado na escola - se encalhe ou assinatura - e sobre a necessidade de se definir a freqüência de entrega dos jornais, devemos observar que as escolhas em questão, a nosso ver, são decisivas para o tipo de trabalho que se quer desenvolver. Ou seja, tais escolhas são, em alguma medida - se pensarmos no tipo de atividade que se deseja desenvolver - excludentes. Não seria possível, por exemplo, realizar

o exercício de acompanhamento de um fato evidenciando, com finalidade

educativa, a característica do jornal de trazer a informação atualizada caso se

decidisse a trabalhar com o encalhe e com uma entrega semanal de jornal. A análise dos "objetivos" e do que é considerado como "resultados" dos Programas Jornal na Educação pela ANJ nos mostra que: no que se refere aos objetivos, os itens 2, 3 e 4 parecem favorecer diretamente a ampliação do número de leitores do jornal podendo então ser considerados como objetivos comerciais. O objetivo de promover o gosto pela leitura do cotidiano carece de

aprofundamento se quisermos analisá-lo da perspectiva da educação; o gosto pela leitura do cotidiano corresponde necessariamente a objetivos e desejos educativos, políticos, filosóficos, culturais ou outros. "Ler" o cotidiano por que e (ou) para quê ? Esta seria a pergunta que, respondida, nos daria uma idéia clara do teor educativo deste objetivo. No que se refere ao que é considerado como "resultado" identificamos que, também os itens 1, 4 e 5 referem-se a resultados comerciais. Os itens 2 e 3 referem-se ao fator "qualidade do produto" que está também diretamente ligado ao fator comercial. No item 3 - vale observar ainda - encontramos novamente necessidade de aprofundamento para que possamos compreendê-

lo melhor. De que maneira a leitura crítica de professores e alunos pode servir

como referência para a melhoria da informação jornalística ? A idéia de um jornal levar em consideração tais leituras críticas é bastante interessante não apenas do ponto de vista educativo; seria necessário, contudo, entender como

a ANJ pensa a organização desta espécie de "diálogo" com o público leitor. Por fim, quanto ao item 6, sobre as vantagens da presença do jornal na sala de

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

aula, embora estas sejam dadas como existentes, pensamos que nosso trabalho deverá apontar elementos que nos possibilitarão concordar ou discordar disso.

Dos eventos realizados sobre o tema Jornal na Educação, assumem grande importância as Conferências Internacionais. Tais Conferências são realizadas a cada dois anos pela Associação Mundial de Jornais com o objetivo de discutir a utilização dos meios de comunicação, especialmente dos jornais, na educação. Cada edição da Conferência é realizada num país distinto e dedicada a temas diferentes. A Conferência de 1997, como já informamos, foi realizada em São Paulo, nos dias 10 e 11 de setembro e atraiu mais de 300 especialistas no assunto e editores de jornais de todo o mundo que discutiram as expectativas dos jovens em relação à mídia do século 21 e como as inovações tecnológicas na área da comunicação poderão contribuir para a educação das novas gerações. 19 As Conferências sobre Jornal na Educação contam ainda com o apoio da UNESCO. 20

Para a 2ª Conferência Internacional de Jornal na Educação - cujo tema central foi "a leitura na era eletrônica; o desafio dos jornais" - , foi realizada a pesquisa "o jovem, a sociedade e a mídia do próximo milênio", solicitada ao Instituto de Pesquisa Datafolha pela AMJ. Os questionários foram respondidos via Internet por pessoas de todo o mundo. Os dados foram tabulados no Brasil. Conhecer alguns dos resultados dessa pesquisa é importante para que possamos visualizar um pouco do universo daqueles que, em parte significativa, estão na faixa etária do público alvo do Folha Educação. 21 Vamos a eles:

19 Fonte: AMJ - 1997.

20 A Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura ( UNESCO ) - é um organismo das Nações Unidas dedicado à educação, à ciência e à cultura. Entretanto, desde sua fundação, em 4 de novembro de 1946, dedica-se também à questões relacionadas à comunicação, em particular à Liberdade de Expressão. Sua sede é em Paris e conta atualmente com 185 países membros. AMJ - 1997.

21 A pesquisa foi realizada durante os meses de junho a agosto de 1997. Dos respondentes brasileiros, 42% têm entre 4 e 8 anos de escolaridade e 57% frequentam a escola a mais de 8 anos. Para a informação sobre anos de frequência à escola na pesquisa, foi solicitado aos respondentes que não considerassem os anos de Jardim ou Pré-escola.

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Alguns resultados da Pesquisa do DataFolha 22

Na pesquisa, 87% dos questionários foram respondidos por brasileiros. Destes, 51% são do sexo masculino e 49% do sexo feminino. Apenas 4% dos respondentes encontravam-se no local de estudo quando do preenchimento do questionário, mas 98% estão freqüentando a escola. Destes, 57% freqüentam a escola há mais de 8 anos, 42% entre 4 e 8 anos e 1% a menos de 4 anos. Dos respondentes, 98% têm computador em casa. Indagados sobre as atividades que mais gostam de fazer, apenas 30% responderam que gostam de "ler", para 36% que gostam de "assistir televisão" e 56% que gostam de "usar o computador 23 ".

No que se refere à mídia impressa, as respostas mostraram o seguinte:

Lêem jornais diários pelo menos uma vez por semana 60% dos respondentes; destes, 24% lêem apenas as manchetes, 39% lêem os quadrinhos, 51% lêem o setor de esportes, 48% lêem notícias sobre o mundo, 39% lêem notícias sobre a cidade ou região onde moram, 43% lêem a programação da televisão, 26% lêem comentários e opiniões e apenas 8% lêem os editoriais 24 .

Dos respondentes 25 , 53% concordam totalmente que o jornal é um meio de comunicação muito importante para ele próprio; 42% concordam em parte. Para 7%, o jornal é muito chato de ler e 51% concordam em parte com isso; 42% discordam.

Dos respondentes, 64% concordam totalmente ou em parte com a afirmação: “o jornal traz poucas coisas interessantes para pessoas como eu”; 68% concordam totalmente ou em parte que o jornal traz notícias ruins em

22 Fonte: Universo Online - BBS da Folha de S.Paulo - http://www.uol.com.br

23 Os respondentes podiam optar por até três atividades num grupo de dez opções. Isso explica o porque de a soma das porcentagens ultrapassar os 100%.

24 Os respondentes podiam optar por até 3 atividades num grupo de oito opções.

25 Dos 100% que lêem jornal pelo menos uma vez por semana.

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excesso; 34% concordam totalmente que as notícias no jornal são verdadeiras

e 54% concordam em parte com esta afirmação; 47% dizem que vêem no

jornal opiniões diferentes que os ajudam a pensar; 73% concordam totalmente ou em parte que no jornal os assuntos são tratados com mais profundidade do que em outros meios.

Indagados sobre o que acham que vai acontecer com os jornais quando

a maior parte das pessoas tiverem acesso à Internet, 41% assinalou que "a

Internet não vai acabar com os jornais impressos em papel; ambos vão continuar existindo como hoje" e 23% assinalou que "a Internet será usada como fonte de informação para assuntos específicos; para notícias em geral, o jornal será mais utilizado." 26

Indagados sobre quais são os principais problemas do país, as respostas indicaram: pobreza - 80%, desemprego - 65% e corrupção - 63%. Já na questão que pergunta sobre qual a pior coisa que poderia acontecer com o respondente quando o mesmo se tornar adulto, 46% aponta o item "não conseguir emprego".

Dos resultados desta pesquisa, importa aqui comentar que a grande maioria dos respondentes têm computador em casa, algo que nos permite supor que não se trata de pessoas das camadas mais pobres da população brasileira. 27 Isso é algo bastante importante nesta análise já que, como observa Gramsci, numa série de famílias, particularmente das camadas intelectuais, os jovens encontram na vida familiar uma preparação, um

prolongamento e uma integração da vida escolar, absorvendo no "ar", como se diz, uma grande quantidade de noções e de aptidões que facilitam a carreira

escolar propriamente dita (

28 Isso inclui, certamente, todo o conjunto de

materiais - como o computador - que facilitam o acesso ao conhecimento organizado e o contato com a informação. Importa-nos observar que o gosto pela leitura é bastante baixo mesmo entre tais pessoas ( 30 % dos 100% que

).

26 Selecionamos apenas os dados que nos interessam apresentar. Por isso a soma não atinge os 100%.

27 No Brasil apenas 1,3 % da população utiliza a Internet. Fonte: DataFolha - Julho/ 1998.

28 Gramsci, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. P. 122

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lêem jornal pelo menos uma vez por semana ) e que para estes, os setores de "esportes" ( 51% ) e de "notícias sobre o mundo" ( 48 % ) - que freqüentemente aparecem de forma menos comentada e aprofundada que as notícias da vida nacional identificadas como "assuntos políticos e econômicos" - são os de maior preferência. Estes assuntos - políticos e econômicos - no caso do Brasil, podemos dizer que se enquadram, na opinião dos respondentes, como "notícias ruins", algo que fica sugerido nas respostas sobre quais são os principais problemas do país, onde as opções pobreza ( 80% ), desemprego ( 65% ) e corrupção ( 63% ) concentram a maioria das opiniões. No que se refere a se o jornal traz opiniões diferentes que ajudam a pensar, o resultado é importante e a favor do jornal; 47% dos respondentes consideram que sim. Esse resultado se reforça visto que, 73% dos respondentes, concordam de alguma forma com a afirmação de que, no jornal, os assuntos são tratados com mais profundidade que em outros meios. Mesmo que os resultados não tenham correspondência com o uso efetivo que estas pessoas fazem do jornal, é importante perceber que as características próprias deste produto são notadas com satisfatória nitidez, algo que certamente é possível a tais pessoas na medida em que “comparam” o jornal a outros veículos de informação que utilizam. Por fim, o fato de 64% dos respondentes concordarem totalmente ou em parte com a afirmação "o jornal traz poucas coisas interessantes para pessoas como eu" supõe que, o fato de o jornal ajudar a pensar e de tratar os assuntos com maior profundidade não é o suficiente para que tais pessoas o considerem como fundamental para suas vidas.

Nesta parte destinada a conhecer um pouco sobre os programas Jornal na Educação, pudemos perceber que ainda é bastante incipiente o acúmulo que as empresas jornalísticas têm no que se refere aos resultados pedagógicos de tais programas. Isso pode significar um problema, já que há países que os desenvolvem há muito tempo. Pensando nas palavras de Rene Gunter - no início do capítulo - observamos que, no que se refere a objetivos educacionais e resultados educativos, não podemos exigir dos programas Jornal na Educação menos do

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que exigimos quando pensamos em objetivos de matérias e conteúdos curriculares já tradicionais. A estrutura dos programas Jornal na Educação - ao menos dos brasileiros - se pensarmos a partir das informações que obtivemos da ANJ, pode ser considerada como algo relativamente simples. Um programa pode ser desenvolvido sem grandes custos para o jornal, sem muito investimento na formação daqueles que deverão trabalhar com o jornal em sala de aula e sem um acompanhamento mais rigoroso dos resultados gerais das iniciativas. Os profissionais do jornal, aqueles que estão diretamente ligados à redação - nos vários setores - não participam ativamente dos Programas. 29 No Folha Educação, o trabalho é feito com encalhe; a entrega não é diária e não há um acompanhamento permanente - por parte do jornal - do trabalho que se desenvolvem nas escolas . Toda essa "simplicidade" nos obriga a indagar se estamos mesmo falando de educação e de uma interferência que pretende realmente ser significativa, que pretende mostrar sua importância e validade. A inexistência de material específico do programa que trate dos aspectos pedagógicos da proposta revela uma certa fragilidade deste e nos dá a impressão de que o mesmo está sendo realizado sem que haja tal reflexão. Não podemos imaginar de que maneira um programa poderá ser avaliado em seus resultados se não tiver como referências, para tal avaliação, os pressupostos educativos e comerciais bem definidos. Sendo os propósitos educativos os que mais nos interessam aqui, não podemos também imaginar como tal material e tal proposta podem ser analisados por aqueles que vão utilizá-los na escola sem que haja, no processo de elaboração do programa, discussões permanentes sobre o que está ocorrendo em sala de aula com o professor e com o aluno; o risco de que o uso do jornal seja feito de qualquer jeito e de que a introdução deste material na escola seja, ao invés de positiva, prejudicial, é grande.

29 As informações que obtivemos sobre outros programas Jornal na Educação nos mostrou que há em alguns deles uma maior participação dos profissionais jornalistas - e outros - nas atividades de treinamento desenvolvidas com os professores que coordenam os trabalhos com o uso do jornal na escola. Não há, contudo, informações que nos permitam relacionar tal envolvimento a algum processo sistemático com vistas a uma estruturação sólida dos programas. O que percebemos é que, em alguns programas, o valor dado à questão educativa, pedagógica, cultural é maior que em outros. Citamos como exemplo o programa Correio Escola, do Jornal Correio Popular.

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Assim como todos os materiais e práticas pedagógicas da escola são alvo de permanente avaliação, também o trabalho com jornal deve ser. O acompanhamento dos efeitos e resultados do uso deste material na escola é fundamental sobretudo neste momento inicial deste tipo de interferência; sem avaliação permanente, com metodologia adequada, não haverá formas sequer de fundamentar os processos de treinamento de professores na proposta devido à falta de conhecimento mais profundo sobre o assunto. Pensamos que a empresa jornalística, se ainda não tem acúmulos importantes nesta área, deve partir do pressuposto de que, na escola, há profissionais que acumularam experiências diversas no que se refere aos usos de recursos pedagógicos de diferentes tipos; o jornal, antes de ser proposto como válido, importante e adequado, deve ser proposto como simples objeto a ser usado e avaliado; como material de um programa que espera contar com a experiência do docente para se estruturar da melhor maneira. Para finalizamos esta parte, queremos dizer ainda que o apoio institucional neste campo dos programas Jornal na Educação é bastante grande. Se podemos identificar uma certa fragilidade de fundamentação da parte daqueles aqui citados, no que se refere aos aspectos mais diretamente ligados a educação, por outro lado, notamos que é grande o interesse por este tipo de iniciativa. O fato de tais programas existirem já há muito tempo em países estrangeiros - sobretudo nos EUA - sem que haja fundamentação mais consistente no que se refere a objetivos, procedimentos e resultados educativos, nos dá a impressão de que o interesse comercial reina neste campo. As experiências internacionais podem instrumentalizar os profissionais brasileiros que atuam nesta área para que os mesmos se atenham mais aos aspectos educativos que envolvem a questão. As discussões que acompanhamos na 2ª Conferência Internacional de Jornal na Educação mostraram que os profissionais responsáveis pelos programas - não só os brasileiros - estão cada vez mais críticos em relação ao que hoje representa a atuação neste campo. Mesmo que de maneira pouco profunda, reflexões sobre objetivos educacionais estiveram o tempo todo presentes nas palavras de grande parte dos participantes que relatavam, com entusiasmo, iniciativas inquestionavelmente voltadas para o desenvolvimento do aluno/leitor. Há

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programas que contam, dentro de sua estrutura, com verdadeiras "redações" nas quais os "jornalistas" são as crianças e adolescentes que, orientados por profissionais, produzem textos e reportagens muitas vezes publicados em algum setor específico do jornal. Uma iniciativa desse tipo, a nosso ver, tem grande valor educativo. Ainda na 2ª Conferência de Jornal na Educação, falou-se muito sobre a necessidade e intenção, já para o ano de 1998, de se estruturar bibliotecas especializadas em jornal. Naquele momento - da Conferência - observou-se que já estão em elaboração propostas de investimento para o setor. Nos capítulos seguintes, vamos explorar muitas das questões e questionamentos que aqui apareceram e poderemos com isso aprofundar nosso conhecimento e reflexões sobre o tema.

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CAPÍTULO 2

O PROGRAMA FOLHA EDUCAÇÃO

O jornal Folha de S.Paulo desenvolve desde maio de 1993 um programa que consiste em levar o jornal para a sala de aula. Sob o título Folha Educação, tal iniciativa é dirigida aos alunos de 1 o . grau das redes pública e privada de ensino. Uma vez inscritas no programa, as escolas passam a receber os jornais em seu endereço - na proporção de um exemplar para cada cinco alunos durante um semestre letivo - três vezes por semana e seus professores são recrutados para um workshop de treinamento na proposta. Elaborado pela Folha de S.Paulo, o programa contou com a contribuição de educadores. Nas palavras de Flávia Aidar 30 , podemos entender em linhas gerais a proposta e sua operacionalização:

“Da 1 a . a 4 a . série, cada professor receberá um caderno com sugestões de atividades nas áreas de Língua Portuguesa, Ciências, Matemática e Estudos

Sociais. De 5 a . a 8 a . série, a disciplina Estudos Sociais dá lugar à História e Geografia. Um conjunto de atividades, por área de conhecimento, foi pensado para cada dupla de séries, com gradações no nível de habilidades e conceitos exigidos. Essa divisão não é apenas útil e prática, mas se sustenta na afinidade de conteúdos e procedimentos metodológicos adotados para 1 a . e 2 a . séries,

Vale lembrar no entanto, que só o professor

saberá ajustar cada atividade à realidade de seus alunos, ao seu ritmo e

3 a . e 4 a ., 5 a . e 6 a ., 7 a . e 8 a

interesses." 31

Como material de apoio para professores nas escolas, o Folha Educação preparou cadernos que trazem sugestões de atividades para a utilização do jornal na sala de aula. São dois cadernos: um destinado ao trabalho com alunos de 1ª a 4ª série e outro destinado ao trabalho com alunos

30 Ex-coordenadora do Projeto Folha Educação - 1993 a 1997.

31 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação, p. 8

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de 5ª a 8ª série. Nos cadernos há sugestões de como o professor pode utilizar

o jornal na sala de aula; são propostas de atividades que, para serem

realizadas, o professor deverá utilizar matérias jornalísticas dos diversos cadernos do jornal. As atividades sugeridas buscam ampliar a possibilidade de abordagem dos conteúdos curriculares das diversas disciplinas ou propor conteúdos novos. A escola recebe o jornal e os professores passam a desenvolver atividades utilizando-o como material pedagógico. As empresas jornalísticas que desenvolvem tais programas propõem que o jornal seja utilizado inteiro, ou seja, deve-se utilizar todos os cadernos da forma como são encontrados nas bancas de jornal. Mesmo assim, alguns jornais produzem cadernos específicos para o trabalho na escola; esse não é o caso do Folha Educação. Os dois cadernos de sugestões do Folha Educação têm em comum textos introdutórios que tratam do tema "jornal na educação". O primeiro texto é

o prefácio do caderno, escrito pelo jornalista Gilberto Dimenstein; o segundo, é

a apresentação do caderno, escrito pela educadora e ex-coordenadora do

programa Flávia Aidar; o terceiro texto, que tem como título "por que jornal na escola ?", foi escrito pelo Prof. Dr. Nilson José Machado 32 . Os textos trazem

elementos importantes para uma reflexão sobre o tema “jornal na educação”. Estes nos indicam que houve, por parte dos organizadores do programa Folha Educação, a intenção de problematizar a questão do uso do jornal na escola, apresentando-a ao futuro usuário do Caderno como questão que deve necessariamente ser aprofundada. Isso fica bastante claro sobretudo no texto de Nilson José Machado que, na medida em que faz a defesa do uso do jornal na escola, vai apresentando aspectos críticos da questão, ou seja, pontos onde há conflitos necessários de serem discutidos para que se possa verdadeiramente caminhar no sentido de descobrir as reais possibilidades e viabilidade ( ou não ) do uso do jornal como material educativo. Os textos, analisados em conjunto, nos dão uma idéia bastante ampla do âmbito da proposta de leitura de jornais do Folha Educação. As questões apontadas ou tratadas nestes, ultrapassam o debate puramente pedagógico e metodológico, avançando para uma dimensão política e cultural. Este fato nos

32 Prof. Dr. do Departamento. de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da USP; Colaborador do Programa Folha Educação.

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fez entender que as análises necessárias nos lançam ao campo mais amplo dos trabalhos com o jornal na educação, o que nos leva a tratar de questões que certamente não estão restritas à experiência desenvolvida no Folha Educação. De qualquer maneira, será a partir da análise deste Programa específico que extrairemos as questões que necessitam aprofundamento; será a partir do estudo teórico destas questões que buscaremos uma compreensão mais ampla dos trabalhos desenvolvidos no campo do jornal na educação.

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A CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO DO FOLHA EDUCAÇÃO

Qualquer interferência ou proposta de interferência no campo da educação segue, naturalmente, pressupostos educacionais. Ao buscarmos entender tais pressupostos na concepção do Folha Educação nos deparamos com uma realidade específica. O Programa da Folha de S.Paulo foi coordenado por uma "educadora" - Flavia Aidar - contratada pelo Jornal e que contou com a colaboração de outros profissionais de educação para a elaboração dos materiais que são apresentados aos professores. Como observa Flavia Aidar, os programas, em quase todos os lugares do mundo acontecem na área de Marketing 33 o que nos revela algo do "perfil" destes que, embora possam estar preocupados com a formação do leitor, têm grande interesse em desenvolvê-la para vender jornais. Questionada sobre os resultados educativos do Folha Educação, Aidar observa que tal atuação dos jornais, ainda não é um trabalho que a gente possa dizer que tenha acontecido visto que a escola se interessa, recebe o jornal mas não necessariamente trabalha. Isso revela que o Folha Educação ainda não dispõe de um registro mais profundo dos resultados do trabalho que desenvolve há cerca de cinco anos. Flavia Aidar considera, contudo, que o Programa da Folha traz contribuições importantes. Dentre elas está a de desmistificar o jornal. Segundo Flavia Aidar, grande parte das pessoas ainda tem em mente que ler jornal significa ler tudo o que ele traz. Por conta disso, essas pessoas justificam que não lêem jornal todos os dias porque não têm tempo.

Falando de Jornal e Livro - didático ou não - Aidar observa que o livro para nós é sagrado e que o jornal é mais dessacralizado, o que faz com que, com o jornal, a pessoa seja mais crítica por mais que a palavra escrita impressione. O uso do jornal na escola é também importante, segundo Flavia

33 Aidar, Flavia. Entrevista concedida em 10/12/98 no Instituto Cultural Itaú - SP, onde a educadora exerce o cargo de Gerente de Projetos. O fato de os Programas serem desenvolvidos na área de Marketing talvez revele um pouco dos motivos da ausência de argumentos, por parte da ANJ, no que se refere aos aspectos pedagógicos dos Programas Jornal na Educação, já que nestes há pouco envolvimento de profissionais dos setores do jornal mais voltados para a redação das matérias jornalísticas que para a comercialização do produto. Na Folha de S.Paulo, o Programa ocorre no setor de Marketing Cultural.

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Aidar, porque contribui para a superação de condições de raciocínio imaturas. Ela observa que com o uso do jornal a pessoa é solicitada a pensar sobre coisas e que isso é um desafio para o exercício do pensar. Segundo Flavia Aidar, teóricos e pesquisadores já demonstraram que a partir de desafios e proposições as pessoas evoluem e que isso ocorre quando o jornal é utilizado em sala de aula, já que o aluno é incentivado a comentar fatos, construir argumentações, problematizar etc. As palavras de Flavia Aidar não são exatamente uma mostra da concepção de educação do Folha Educação, mas expressam, em alguma medida, uma crítica da escola ou, pelo menos, da forma como esta vem desenvolvendo os trabalhos educativos atualmente. Ao tomarmos contato com o texto contido no Caderno de Sugestões de Atividades daquele que consideramos como o principal colaborador do Folha Educação - o Prof. Dr. Nilson José Machado - percebemos que, como Flávia Aidar, Machado imprime um certo ritmo ao Programa, naturalmente baseado na crítica da educação e na concepção de educação que tem. Esta nossa observação tem como propósito expressar que, embora o Folha Educação não tenha partido de algo mais que as orientações da ANJ e embora não se distinga da maioria dos programas Jornal na Educação sobre os quais colhemos informações, a equipe responsável por sua elaboração "empresta" ao Programa uma concepção de educação e imprime um ritmo ao Programa com base em experiências e reflexões que, principalmente estes dois membros da equipe, vieram acumulando durante suas vidas dedicadas ao trabalho com educação. Em outras palavras, consideramos que, nas opiniões de Flavia Aidar e principalmente nas de Nilson José Machado - as quais conheceremos detalhadamente neste mesmo capítulo -, podemos encontrar os pressupostos educacionais que desejamos conhecer. Vale dizer que, a Folha de S.Paulo, confiou a tais profissionais o trabalho de coordenar e elaborar os materiais a serem utilizados no programa e que colocou-se em concordância com os resultados do trabalho desenvolvido pela equipe. Por esses motivos, decidimos analisar detalhadamente a concepção de educação e as opiniões sobre o uso do jornal em sala de aula contidas principalmente no texto de Nilson José Machado, cujas informações foram complementadas com uma entrevista realizada na Universidade de São Paulo em dezembro de 1998.

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Neste sentido, vamos analisar e comentar conteúdos do texto de Machado e da entrevista realizada.

A primeira questão que destacamos diz respeito a sintonia entre a escola e a realidade. Segundo argumenta Machado, as estruturas escolares modificam-se muito lentamente, enquanto que a realidade extra-escolar parece transformar-se cada vez mais rapidamente, o que facilmente conduz a uma impressão de distanciamento crescente entre a escola e a vida 34 . Machado observa ainda que, tal distanciamento, encontra-se na raiz de costumeiras afirmações do tipo "os alunos chegam à escola cada vez mais fracos"; afirmações que, segundo ele, expressam uma visão da escola que avalia o aluno que recebe segundo sua ótica, desconsiderando a maior parte das informações de que ele já dispõe. 35

Machado identifica na escola "estruturas" que, por não se modificarem na mesma velocidade da realidade extra-escolar, acabam por causar a impressão de distanciamento entre a escola e a realidade. Aprofundando o assunto, questionamos Machado procurando identificar o que, na visão dele, deveria mudar nas estruturas escolares. A esse respeito ele observa:

"Eu acho que as pessoas têm projetos hoje diferentes dos projetos que tinham a 30, 40 anos ou há mais tempo ainda, mas as pessoas não são essencialmente diferentes como seres humanos. Então, eu acho que essa crítica à escola como algo parado no tempo, a crítica de que o mundo lá fora

muda e a escola nunca muda, não é pertinente. (

A escola é o lugar onde

tem que haver equilíbrio entre projetos e valores; os projetos mudam e estão ligados a transformações, a mudanças; mas todos os projetos são sustentados por uma arquitetura de valores e, projetos estão para a transformação assim como os valores estão para a conservação. A escola tem uma dimensão

)

34 Machado, Nilson José. Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - p.1

35 op. cit. p.13. Isso demonstra um pouco da escola e do professor brasileiros. O professor analisa o aluno a partir da posse dos saberes escolares. A idéia de desenvolver trabalho educativo no qual os conteúdos e, consequentemente, a avaliação dos alunos, levem em consideração conteúdos e objetivos diferentes daqueles tradicionalmente trabalhados e desejados pela escola, exige certamente uma dose de reciclagem na formação deste professor e até mesmo uma reformulação dos objetivos da escola.

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transformação e tem uma dimensão que é conservação; as duas são importantes e é preciso haver um equilíbrio. A escola não é para ficar mudando da água para o vinho, do dia para a noite acompanhando modas. Eu acho que a escola hoje está com uma forma de organização que precisa ser revista talvez um pouco mais rápido; estou falando exatamente dos conteúdos que estão sendo tratados. A escola ainda está muito tributária da forma de organização do trabalho no período industrial: taylorismo, divisão de tarefas, encadeamento de tarefas, seriação, pré-requisito. Isso ainda é muito forte na escola e no mundo do trabalho isso já está caindo muito rapidamente. A forma de organização da escola precisa mudar, mas não quer dizer que a escola está totalmente fora do tempo." 36

A crítica de Machado, como podemos observar, incide sobre a escolha de conteúdos que a escola considera importantes e necessários hoje. Sobre as estruturas escolares, podemos identificar que, na visão de Machado, se estas têm que ser mudadas, isso deve ocorrer justamente no que se refere à escolha de conteúdos, o que está totalmente relacionado, a nosso ver, com a visão que hoje predomina na escola brasileira quanto ao que deve ou não ser ensinado ou trabalhado nos processos educativos que desenvolve. Tocar neste ponto - da estrutura da escola - significaria promover uma reordenação dos objetivos educacionais, algo que não se reduziria, a nosso ver, a uma redefinição de conteúdos, mas que dependeria, necessariamente, de uma revisão dos pressupostos filosóficos, políticos e culturais que hoje orientam a escola brasileira.

36 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em 15/12/98. Em seu texto intitulado "Sobre o ensino médio: máximas e mínimos" Machado observa que "internamente e no planejamento curricular, a forma de organização linear é amplamente predominante na organização do trabalho escolar, comprometendo-se muitas vezes desnecessariamente com uma fixação relativamente arbitrária de pré-requisitos e com uma seriação excessivamente rígida, que responde em grande parte pelos números inaceitáveis associados à repetência e à avasão escolar". Para a superação de

tal problema, Machado propõe a substituição - tanto nas relações interdisciplinares quanto no interior das diversas disciplinas - de tais "cadeias lineares" pela "imagem alegórica de uma rede, de uma teia de significações". Conclui observando que "não se pode pretender conhecer A para, então, poder-se conhecer B ou C, ou X, ou Z, mas o conhecimento de A, a construção do significado de A faz-se a partir

das relações que podem ser estabelecidas entre A e B, C, X, G, José, Cidadania e Educação, Escrituras Editora . pp.140, 143.

e o resto do mundo". Machado, Nilson

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A opinião de que a escola ainda está muito tributária da forma de

organização do trabalho no período industrial - taylorismo etc. - sugere que a

escola deve acompanhar ou atender as mudanças, ou exigências, do novo mundo do trabalho. Em momento adequado, aprofundaremos esta questão. Machado, no texto 37 , conclui sua argumentação fazendo a defesa do uso do jornal na escola, algo que, na sua opinião, pode servir como importante instrumento na superação deste problema:

"O jornal, pela sua agilidade, pela permanente sintonia com a realidade imediata, pelas características da linguagem que utiliza, pode constituir-se em um instrumento fundamental para uma maior sintonia entre a escola e a realidade." 38

A idéia de que o jornal está em sintonia com a realidade imediata nos

faz retornar a uma das observações que fizemos anteriormente neste mesmo trabalho. Uma realidade que pode nos interessar mais diretamente, como educadores desenvolvendo trabalho educativo na escola, é aquela que poderíamos chamar de "realidade do aluno". Esta, bem sabemos, embora possa ser pensada de maneira mais específica - para efeitos analíticos - faz parte de uma realidade mais ampla, ou seja, faz parte da realidade da cidade, do estado, do país, do mundo. Esta é, certamente, uma das dificuldades com a qual todo educador interessado em partir da realidade do aluno e em falar sobre a realidade na escola se depara. Partindo dessas considerações, buscamos entender do Prof. Machado, de que maneira o produto jornal e o trabalho com ele pode favorecer a esta maior sintonia entre escola e realidade. A esse respeito, Machado observa que:

37 A referência ao "texto" que aparece diversas vezes neste capítulo, deve-se a importância que atribuímos a que o leitor identifique quando uma citação foi extraída do Caderno do Folha Educação ( o texto ) e quando a citação foi extraída da entrevista ou de outra obra produzida por Machado. Tal identificação se justifica pela importância de percebermos o quanto Machado fundamenta, com suas próprias idéias e reflexões, o Folha Educação.

38 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação, p. 13. Em seu texto intitulado "Sobre livros didáticos: quatro pontos", Machado observa que "os jornais , em diversos países, têm buscado sublinhar suas possibilidades como recurso pedagógico, elaborando programas de utilização em sala de aula cujas metas evidenciam certas limitações dos livros didáticos que não lhes são inteiramente intrínsecas, decorrendo, em grande parte, da idéia de conhecimento, que necessitaria ser seriamente repensada". Machado, Nilson José, Cidadania e Educação, Escrituras Editora . p. 121

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"Essa é uma coisa cada vez mais importante porque você vive uma avalanche de dados desorganizados. Esses dados não conseguem nem se transformar em informação para a gente, pois uma informação é mais que um dado; é preciso haver alguém interessado em alguma coisa para um dado poder se transformar em informação; às vezes, há um amontoado de dados sem interessar a ninguém. Então, os jornais são veículos de informação

especialmente importantes; (

mesmo essa vida de um dia é muito maior do que da palavra falada da televisão [ onde ] o nível de organização [ da informação ] é mais baixo. ( Mas não basta acumular informação para você ter conhecimento; precisa

haver conexão, organização, compreensão 39 e o jornal analisa muito mais

do que a televisão. (

O jornal é um instrumento importante nesse 'meio de

campo' entre os dados e as informações mas principalmente nesse 'meio de campo' entre as informações e o conhecimento. É claro que o jornal não basta e é claro que falar de conhecimento é falar da escola. Mas o jornal ajuda nesse espaço entre a informação que circula, fragmentada e o conhecimento organizado que se elabora na escola." 40

)

o jornal de ontem ninguém quer mais ler, mas,

)

)

Entendemos que, para Machado, a posse da informação é algo fundamental para o aluno e que a escola tem que se organizar de forma a satisfazer isso que podemos entender como uma necessidade. Machado fala da televisão não por acaso. Sabe que este é o meio de comunicação que atinge praticamente todos os lares do país e que tal meio assume o papel de um dos principais veiculadores de informação do momento. Machado observa que, embora aquilo que a televisão transmita seja informação, e não apenas dados, a organização desta informação é muito inferior à organização daquela feita pelos jornais. A vantagem de informar-se através do jornal impresso está, segundo Machado, no fato de tal material analisar os fatos muito mais do que a televisão, o que proporciona ao consumidor da informação uma maior quantidade de detalhes e, portanto, uma maior qualidade de informação, algo

39 Grifo nosso

40 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

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que reverterá numa melhor compreensão daquilo com o que se está tomando contato. Machado entende que entre o conhecimento organizado que é trabalhado na escola - e podemos pensar em sua reflexão anterior sobre a necessidade de a escola reformular os conteúdos com os quais trabalha - e a informação que circula fragmentada, a utilização do jornal pode ajudar. Por tudo isso entendemos que, na visão de Machado, o aluno precisa de informação organizada, precisa ter acesso àquelas informações de que necessita ou pode necessitar para viver, para poder concretizar seus interesses, algo que a escola, com sua estrutura e conseqüente visão do que é necessário ensinar hoje, não oferece satisfatoriamente. A idéia da necessidade da informação para a formação da pessoa é algo bastante marcante nas palavras de Machado. Perguntado em que sentido exatamente a informação é tão imprescindível e ainda sobre como a escola pode trabalhar visando satisfazer essa suposta necessidade, Machado observa que:

"A escola precisa se organizar tendo em vista as pessoas. (

) Os objetivos da

escola não são os objetivos das matérias; os objetivos da escola tem que ter a ver com os objetivos das pessoas, e as matérias estão a serviço das pessoas. Se isso é verdade - o que conta são as pessoas - nada disso se sustenta sem dados e informações. Eu acho que se as pessoas querem 'coisas' elas vão

buscar o conhecimento; se precisam de informação e se não há informação, produzem; se precisam de dados e se não há dados, fabricam; nada se sustenta sem dados, informações. Não há essa contraposição formação/

informação. Agora, você pode ficar cego por excesso de luz. A informação é

bagunçada, é fragmentada, desordenada. (

uma leitura crítica 41 . É preciso aprender a filtrar, a separar o que interessa. E esses critérios são muito variados; por exemplo, você escolhe um jornal e não o outro em função dos "óculos" que você já tem 42 e usa o jornal

)

Você precisa de critérios, de

41 Grifo nosso

42 Grifo nosso

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

para ler o que está acontecendo na realidade e não para se identificar inteiramente." 43 Como observa Machado, as pessoas buscam o que querem, seja conhecimento, seja informação. Esta afirmação é bastante importante e nos remete à crítica de Flavia Aidar segundo a qual o ensino hoje é inócuo, não te habilita a nada. 44 Esta é uma crítica bastante freqüente nos dias de hoje. Das mais diversas óticas e a partir dos mais diversos interesses, a escola brasileira é criticada por não oferecer "o que deveria" ao aluno ou o que ele de fato necessita. É claro que esta é uma questão muito mais profunda e que não caberia ser desenvolvida aqui. É importante observar, contudo, que as críticas feitas à escola hoje são motivadas pelas mais diferentes visões do que hoje pode ser considerado como necessidade do aluno; são visões que reivindicam desde uma formação humanista, calcada em valores que desenvolvam a noção de cidadania, até aquelas que reivindicam que o aluno desenvolva na escola as habilidades e comportamentos que são considerados como importantes para que o mesmo seja mais útil para a empresa com seus novos modelos de organização do trabalho e da produção, ou para que este se coloque em melhores condições no que se refere ao próprio grau do que se convencionou chamar de empregabilidade. 45 Se é verdade que as pessoas buscam o que querem e aquilo de que necessitam - incluindo aqui a informação - , isso não parece tão certo quando nos remetemos aos resultados da pesquisa comentada no capítulo anterior. Se assim fosse, numa sociedade com alto grau de desemprego, pobreza e corrupção - fatores identificados pelos respondentes daquela pesquisa como os principais problemas do país - deveria nos causar estranhamento observar que os setores do jornal que mais interessam àquelas pessoas são os de esporte e programação de TV.

43 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

44 Entrevista realizada em 10/12/98 no Instituto Cultural Itaú - SP

45 Segundo o discurso empresarial, "para se integrar no contexto da época atual e exercer eficazmente um papel na atividade econômica, o indivíduo tem que, no mínimo, saber ler, interpretar a realidade, expressar-se adequadamente, lidar com conceitos científicos e matemáticos abstratos, trabalhar em grupos na resolução de problemas relativamente complexos, entender e usufruir das potencialidades tecnológicas do mundo que nos cerca. E, principalmente, precisa aprender a aprender, condição indispensável para poder acompanhar as mudanças e avanços cada vez mais rápidos que caracterizam o ritmo da sociedade moderna. Novas Tecnologias, Trabalho e Educação, Um debate multidisciplinar. Vários Autores. Editora Vozes, 1994. Organizadores - Ferretti, Celso João ( e outros ), p.88

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Contudo, a questão que nos importa aprofundar é: todos os jornais servem como material educativo ? Analisando os diversos produtos jornalísticos disponíveis no mercado, podemos observar que nem todos oferecem as informações organizadas citadas por Machado como um dos valores da forma de informar dos jornais. Para Flávia Aidar, todos servem já que embora uns jornais sejam mais respeitáveis que outros, você pode estar fazendo um exercício crítico em cima do pior. 46 A esse respeito Machado observa que:

o pior livro é melhor do que nenhum livro. Há jornais que servem de

exemplo; há jornais que servem de contra-exemplo e nesse sentido qualquer jornal serve. É claro que, quando você está pensando nessa mediação que o jornal faz da construção da realidade, nessa análise, nessa organização das informações, na construção de imagens, na construção de versões, nessa construção da realidade, é claro que as caricaturas, quanto mais

extravagantes, menos são úteis. Se você pega jornais que são pura extravagância, isso serve de contra-exemplo, serve para mostrar caricaturas,

a gente está querendo muito mais ver a construção da realidade do

que propriamente ficar dizendo que o jornal não presta. Qualquer um presta

"(

)

mas (

)

mas escolher é bom." 47

As propostas editoriais dos diferentes jornais têm características muito particulares e as diferenças não se restringem à questões de linguagem ou do grau de seriedade na publicação dos fatos. Quando falamos de meios de comunicação estamos falando de veículos que expressam leituras do mundo, visões de mundo, versões que carregam consigo intenções, que dão destaques diferenciados aos fatos noticiados, que escolhem a informação que desejam publicar. Isso nos remete a uma questão: os meios de comunicação, claramente comprometidos com interesses de diversos tipos na sociedade, podem servir como material educativo uma vez que têm, como um de seus

46 Entrevista concedida em 10/12/98 no Instituto Cultural Itaú - SP

47 Grifo nosso. Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em 15/12/98.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

objetivos, o de formar opinião ? No capítulo quatro, faremos uma reflexão mais detida sobre este aspecto. Indagado sobre tal questão, Machado observa que:

"Alguns jornais 'atiram' sempre numa determinada direção; você lê e é mais fácil ter uma idéia do que está acontecendo porque você dá um desvio e acaba percebendo melhor o que está acontecendo. Outros jornais, com a intenção de neutralidade, atiram para todas as direções e às vezes, esses são mais difíceis de se ler. Eu, às vezes prefiro [ o jornal ] com algum rótulo, mas que tenha uma certa coerência na leitura do mundo. Eu leio o jornal, dou os descontos necessários e tento interpretar 48 . E o que simula uma aleatoriedade 'atirando' em todo mundo, igualmente me desconcerta, eu fico mais perdido. Você recorre aos jornais e a revistas para tentar organizar essa avalanche de dados e de informações fragmentadas. Então os jornais e revistas são parceiros da gente nessa tentativa de ler o que está acontecendo, e até entender a diversidade de jornais, a diversidade de perspectivas." 49

Machado não vê a questão da orientação ideológica do jornal como problema; deixa claro, contudo, que uma leitura crítica do material jornal depende quase que inteiramente do leitor. Para desenvolvermos melhor esta questão vamos retomar algumas idéias expressas em sua entrevista. Quando fala da importância da informação, Machado observa que não basta acumulá-la, mas que é preciso haver conexão, organização, compreensão da mesma. Ainda falando de informação, em outra parte, observa que o leitor precisa de critérios para fazer uma leitura crítica e, ao falar da variedade de critérios, observa que o leitor escolhe um jornal e não outro em função dos "óculos" que já tem. Falando sobre se todos os jornais servem como material educativo, observa que sim, mas que escolher é bom e, por fim, observa que prefere ler jornais com algum rótulo pois, lê o jornal, dá os descontos necessários e tenta interpretar a notícia.

48 Grifo nosso.

49 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

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Nos conteúdos apresentados acima há algo em comum: todos demonstram que a formação do leitor é essencial para que o mesmo possa fazer uso adequado da informação. Como o leitor pode adquirir tal formação ou, como diz Machado, estes "óculos" ? Durante todo o processo de formação por que passa, incluindo aí aquilo que o mesmo desenvolve a partir da escola. Para ler criticamente, para escolher o jornal, para conseguir estabelecer conexões organizando a informação e chegando à compreensão da mesma, a formação aparece como algo imprescindível nas palavras de Machado, embora seus argumentos não sejam reforçados por uma reflexão sobre a importância de a escola trabalhar adequadamente os conteúdos do conhecimento sistematizado que representam a base para se atingir tal formação.

Nas palavras de Flavia Aidar, sobre esta questão do uso da informação, também observamos uma referência à necessidade de formação daquele que a consome. Ela observa que:

"O aprendizado reflexivo sobre o mundo e sobre a realidade que nos cerca exige muita informação, porém, mais do que isso, exige organização e a capacidade de reflexão sobre este universo de acontecimentos, instrumentalizando o jovem, de maneira ágil, de modo que dele se aproprie e seja capaz de responder aos desafios do presente." 50

Flávia Aidar faz a relação proposital entre aprendizado reflexivo e informação. Com sutileza, argumenta apresentando a informação como matéria-prima fundamental para um aprendizado reflexivo. Mais do que isso, fala em instrumentalizar o jovem de maneira ágil para que o mesmo seja capaz de responder aos desafios do presente. A referência à agilidade tem relação óbvia com a característica do jornal de trabalhar com a informação cotidiana 51 . Estar informado para atuar com consciência de cidadão diante das questões da sociedade; esta é a mensagem central que poderíamos assim resumir: sem a

50 Aidar, Flávia. Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação, p. 8

51 Esta é uma característica do jornal que necessariamente deve estar sendo aproveitada nas sugestões de atividades para uso do jornal em sala de aula.

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informação não se pode exercer a cidadania. Mas, vale dizer, nas palavras de Flavia Aidar está sugerido que, sem formação, não é possível utilizar-se da informação disponível.

Este conjunto de opiniões nos levou à necessidade de saber de Machado o que ele pensa sobre este professor e este aluno a quem o jornal é oferecido na escola. Indagado sobre se professor e aluno estão preparados para utilizar o jornal, Machado observa que:

"Eu acho que essa é uma perspectiva equivocada de formalizar a questão por parte da mídia, do governo, da secretaria etc. A vida é disparada numa pessoa a queima-roupa; você nasce. Não chega o momento em que você diz que está preparado para se casar, para ter um filho. As coisas não são assim; não há essa nitidez desse momento de estar preparado. Como diz Antonio Machado ‘o caminho se faz caminhando’. Eu acho que a gente não tem que achar professores ou alunos preparados ou despreparados; esses são os professores que a gente têm, esses são os alunos que a gente têm, esse é o país que a gente é, e se se está de acordo que o jornal é um instrumento fundamental, vamos usar da forma possível com o que tem aí." 52

A opinião de que o caminho se faz caminhando é bastante coerente sobretudo quando o tema é educação e não há como discordar totalmente dela. Não há, contudo, como negar que o professor e o aluno brasileiros carecem de uma formação de qualidade e que isso reflete inevitavelmente na

52 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em 15/12/98. Machado, freqüentemente atribui os diversos problemas do desempenho do professor às precárias condições de trabalho que este enfrenta. No livro , Educação e Cidadania, contudo, mesmo não atribuindo qualquer culpa ao professor no que se refere à escolha do livro didático de má qualidade, observa que "a forma de utilização praticamente conduz à escolha de determinado livro, uma vez que parece muito mais fácil entrar em sintonia com um autor que trilha caminhos conhecidos, que não cria 'dificuldades', não aumenta a carga de trabalho do já sobrecarregado professor, oferecendo, pelo contrário, inúmeras facilitações de cunho supostamente pedagógico". Em outro texto também já citado aqui intitulado "Sobre o ensino médio: máximas e mínimos" , Machado, discorrendo sobre a questão da valorização da função docente, comenta que "a intenção tantas vezes afirmada [ pelo governo ] de melhorar a remuneração apenas dos [ professores ] mais competentes ignora o fato indiscutível de que professores competentes foram paulatinamente retirando-se da sala de aula, em processo contínuo que já dura muitos anos". Machado, Nilson José - Cidadania e Educação, pp.112, 159. Escrituras Editora. Machado parece optar sempre por tocar na questão das más condições de trabalho do professor brasileiro quando o assunto é a crítica do trabalho deste profissional; mesmo que evite criticar o professor diretamente, Machado aponta problemas que estão também diretamente ligados à formação deste.

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possibilidade que ambos têm de utilizar um material como o jornal. Flavia Aidar, fazendo considerações sobre a mesma questão, observa que o professor não está preparado nem para dar aulas e que o jornal desestabiliza o professor mal informado, pois é difícil para este trabalhar com o não-saber dele mesmo. 53

Neste ponto, vale a pena citarmos novamente temas discutidos na 2ª Conferência de Jornal na Educação, que dizem respeito a como os professores têm recebido o jornal na escola. Um dos participantes observou que os professores são muito apegados aos conteúdos programáticos, o que dificulta

a introdução dos programas Jornal na Educação. A questão não foi colocada

em tom de crítica aos profissionais, mas como realidade que dificulta o desenvolvimento adequado das propostas. Observou-se que a questão central

é a de "como romper com isso de uma maneira competente" 54 , ou seja, de

como introduzir o jornal na escola sem criar problemas para o trabalho que os profissionais da educação já desenvolvem com os conteúdos curriculares tradicionais. Outra intervenção interessante diz respeito à questão que discutimos anteriormente sobre se o professor e o aluno necessitam ou não de formação para melhor utilizarem a informação. Um dos participantes sugeriu a criação de um aparelho eletrônico - do tipo controle remoto - para uso permanente do jovem do futuro nos momentos em que estiver de frente com uma informação qualquer: O aparelho teria mais ou menos os seguintes "botões":

TRUE

$

GOOD

FALSE

?

BAD

53 Entrevista concedida em 10/12/98 no Instituto Cultural Itaú - SP

54 Grifo nosso. Se há a intenção de romper de maneira competente com o apego dos professores aos conteúdos programáticos, o Jornal deve propor atividades reconhecidas por tais profissionais como verdadeiramente importantes e válidas. Para tanto, a participação dos mesmos na elaboração das atividades com jornal pode ser algo fundamental.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

A sugestão é a de um aparelho que possa "testar" a informação com um simples toque num dos botões, dizendo se ela é verdadeira, falsa, boa, ruim; se tem por trás interesses econômicos ou de outro tipo. A "proposta" é uma brincadeira que teve por objetivo expressar que, para o bom uso da informação, deve haver boa formação, a única tecnologia capaz de dotar a pessoa dos meios para a interpretar e agir frente ao turbilhão de informações de que dispõe hoje. As propostas de trabalho com jornal contidas nos Cadernos de Sugestões de Atividades do Folha Educação - que serão analisadas mais adiante - servirão para que possamos visualizar algo sobre o nível de formação que o trabalho com jornal exige do aluno e principalmente do professor. Voltando aos conteúdos do texto de Machado, uma forte razão apontada por ele para fundamentar a importância da presença do jornal na sala de aula é a linguagem própria deste veículo de comunicação. Segundo Machado, trata-se de uma linguagem concisa, mista, integrando harmoniosamente símbolos alfabéticos e numéricos, simbioticamente textos e ilustrações, buscando a convergência das atenções, a expressão mais direta possível. 55

Nesta parte, Machado expõe sua visão sobre a forma como o jornal é apresentado ao leitor; uma forma que favorece a leitura e compreensão dos conteúdos, dada a característica da informação jornalística, que une, num mesmo espaço, diferentes tipos de texto ( manchetes, chamadas, resumos, descrições, etc. ) junto à imagens e dados quantitativos. Ao falar de “convergência das atenções”, Machado expressa a idéia de que o leitor pode,

55 Machado, Nilson José. Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - p.12. No livro Matemática e Língua Materna de Nilson José Machado - Cortez Editora, o autor observa que "para caracterizar a impregnação entre Matemática e a Língua Materna, referimo-nos inicialmente a um paralelismo nas funções que desempenham, enquanto sistemas de representação da realidade, a uma complementaridade nas metas que perseguem, o que faz com que a tarefa de cada uma das componentes seja irredutível à da outra, e a uma imbricação nas questões básicas relativa ao ensino de ambas, o que impede ou dificulta ações pedagógicas consistentes, quando se leva em consideração apenas uma das duas disciplinas". P. 91. Como em todo este capítulo, o pensamento, ou idéias, de Machado mostra-se plenamente presente na fundamentação que utiliza para justificar o uso do Jornal como material educativo na escola.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

no jornal, decifrar mais rapidamente uma mensagem, visto que esta é a ele apresentada a partir de mais de um recurso de comunicação.

Ao tratar da questão da linguagem, Machado faz referência ao livro didático e ao texto literário. Ele observa que:

"Globalmente, o conhecimento é apresentado nos textos didáticos como uma estante onde os livros estão bem 'arrumadinhos'. Essa característica torna os livros didáticos, ao mesmo tempo, fundamentais para o desenvolvimento de uma disciplina, tal como uma maquete pode sê-lo para a construção de uma casa, mas insuficientes para o desenvolvimento de um curso." 56

Indagado sobre se o jornal pode substituir o livro didático, Machado observa que:

"O jornal não substitui o livro didático. São funções diferentes. O livro não pode virar caderno e nem jornal. O papel do livro é um, o papel do caderno é outro e o papel do jornal é outro; não dá para reduzir um ao outro. A escola tem dentro de si dois materiais didáticos muito importantes e irredutíveis um ao outro que são o livro e o caderno. O livro didático representa uma forma mais ou menos estável de registro dos conteúdos igual para todos os alunos e o caderno significa um registro absolutamente pessoal. O livro é igual para todos, o caderno, cada aluno tem o seu e cada professor organiza de uma forma. A importância do caderno decresceu muito; chegou-se até ao ponto de [ criarem ] aqueles livros 57 em que os alunos tinham que escrever no livro o que é uma corrupção da idéia de caderno, porque o caderno é um lugar para o aluno escrever do seu modo pessoal e do modo característico do trabalho do professor que está ali na classe, não é para ser uma coisa padronizada,

56 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - p.15

57 A respeito da utilização do livro didático e do caderno, Machado observa que "a desconsideração de

que os materiais apresentam uma complementaridade verdadeiramente essencial (

diferentes momentos , a desvios contraproducentes, como o que ocorreu com a emergência e a disseminação dos livros 'consumíveis' ". Machado, Nilson José. Cidadania e Educação, Escrituras Editora,

p.111.

) já conduziu , em

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

que todos tenham que escrever a mesma palavra no mesmo lugar. (

caderno é esse instrumento de conhecimento registrado e construído dessa forma pessoal, e é fundamental para a construção da autonomia do aluno. Mas ele pode acabar gerando algum tipo de dependência, ao contrário do que se quer, se não houver essa mediação de coisas externas à relação entre o professor e o aluno; então, acaba sendo uma dependência do aluno em relação à palavra do professor. O livro, por outro lado, já significa a autonomia; se eu preciso de alguma coisa, eu vou buscar no livro, vou estudar lá sozinho. Entre essa individualidade do caderno e esse caráter geral do livro, é que entra e é importante entrar o jornal. Porque o jornal é um material que não tem o caráter de registro individual do caderno, mas ele não é para ser lido como um livro; é para ser lido, interpretado; você concorda, discorda; você não vai discordar do texto do livro porque aquilo ali é conhecimento organizado. No jornal eu concordo, não concordo, debato." 58

O

)

No texto de Machado encontramos uma valorização dos principais materiais didáticos presentes em quase todas as escolas. A referência ao "caderno" e à forma como este serve ou deve servir ao aluno no processo educativo sugere que Machado atribui grande importância àquilo que o aluno produz de forma pessoal. Pensando nisso, juntamente com os vários aspectos que até agora foram apontados na defesa do uso do jornal em sala de aula, podemos fazer relações importantes. A margem para a realização de produções pessoais por parte do aluno é, a nosso ver, bastante maior se este for sugestionado a produzir a partir de conteúdos mais próximos da sua realidade vivida, em sentido amplo. A produção solicitada em função dos conteúdos curriculares, do conhecimento organizado, pode representar, dependendo da forma como o professor administra o processo educativo, uma forma potente de inibir ou tolher, por exemplo, a criatividade e a

58 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em 15/12/98. Embora Machado considere que o jornal não substitui o livro didático, observa que "o livro didático precisa ter seu papel redimensionado, diminuindo-se sua importância relativamente a outros instrumentos didáticos, como o caderno, seu par complementar, e outros materiais, de um amplo espectro que inclui textos paradidáticos, não-didáticos, jornais, revistas, redes informacionais etc.". Observa ainda que "a articulação de todos esses recursos, tendo em vista as metas projetadas para as circunstâncias concretas vivenciadas por seus alunos, é uma tarefa da qual o professor jamais poderá abdicar e sem a qual seu ofício perde muito de seu fascínio". Cidadania e Educação de Nilson José Machado, p.111. Escrituras Editora, p. 112.

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espontaneidade do aluno justamente por se tratar de temas que, para serem percebidos como valiosos ou mesmo úteis para sua formação, dependeriam do nível e experiência do professor. Neste sentido, podemos considerar que o jornal e a revista podem ser de fato materiais importantes se bem utilizados e, mais do que isso, que tais materiais podem trazer para a escola conteúdos que não podem ser encontrados em outro lugar. Estas observações nos remetem à questão polêmica e complicada dos conteúdos e objetivos educacionais, mas só trataremos disso mais tarde.

Na ótica de Machado, para que um curso possa ser desenvolvido de forma a corresponder às atuais exigências de formação, numa sociedade onde a realidade extra-escolar muda constantemente, deve necessariamente incorporar elementos impossíveis de constar do livro didático, visto que a organização deste material segue a lógica da exposição do conhecimento organizado. Em outras palavras, não cabe no livro didático o fato imediato do cotidiano e para a superação dessa necessidade Machado sugere o texto jornalístico como apoio:

"Na sala de aula, o exercício de situações onde o conhecimento apresenta-se em construção, onde o valor maior encontra-se no processo de elaboração, na própria caminhada, não apenas no objetivo imediato a ser atingido, o texto didático necessita do apoio de outro, onde os andaimes sejam mais visíveis." 59

Machado, ainda falando sobre o texto didático, apresenta uma questão metodológica importante de ser evidenciada aqui. Vejamos o que ele diz ao comentar sobre o modelo de formulação de problemas característico do livro didático:

livros didáticos existem certos estereótipos na formulação de

problemas que podem obscurecer determinados aspectos do processo da resolução, e que, em geral, não são encontrados nos recortes dos jornais. Na formulação de um problema, freqüentemente, a etapa inicial, onde ocorre a

“(

)nos

59 Caderno de Atividades do Folha Educação, p. 15

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construção do problema, a problematização, é um dos momentos mais ricos. Nos livros, poucas vezes esta etapa encontra o destaque que merece. Além de os problemas já surgirem completamente formulados, o estereótipo ‘dados/pedidos’ é francamente hegemônico. São fornecidos todos os dados necessários e suficientes para a determinação dos pedidos: basta encontrar quais as operações a serem realizadas sobre eles para obter-se as respostas desejadas. O desenvolvimento da competência em discernir a informação relevante para os fins que são perseguidos da que não o é resulta, pois, parcialmente prejudicado. Tal habilidade pode ser naturalmente praticada a partir de questões ou problemas envolvendo recortes de jornais. Neles, raramente encontrar-se-á apenas aquilo de que se necessita; as metas e o interesse do leitor encarregam-se de fazer a seleção." 60

A questão exposta acima nos dá uma idéia de outro campo de preocupação presente na visão de Machado. O uso da informação jornalística é desejável, também, pela forma como o jornal apresenta seus conteúdos e que pode ser aproveitada para explorar o campo da metodologia do ensino. Pensando nisso, deveremos olhar com atenção especial as indicações metodológicas sugeridas nas propostas de atividades que analisaremos no próximo capítulo.

Machado parte para o comentário sobre o texto literário:

"O recurso aos jornais para atividades escolares não pode constituir-se em alternativa para a utilização do texto literário". "Tanto a linguagem jornalística quanto a literária apresentam características desejáveis de assimilação durante a aprendizagem da língua corrente. Apresentá-las como alternativas exclusivas

60 Machado, Nilson José. Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - p. 16. Também a esse respeito, em seu livro Cidadania e Educação, Machado observa que, "em um livro didático, de modo geral, poucas vezes se consegue escapar da apresentação convencional, que distingue com nitidez o momento da teoria do momento dos exercícios de aplicação; estes, por sua vez, quase sempre limitam-se a problemas esteriotipados, onde também se distingue com nitidez os dados - sempre necessários e suficientes para a resolução - dos pedidos, a serem determinados com a utilização dos dados". pp. 121,122

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

seria tão impróprio quanto sugerir-se a escolha entre um machado e um bisturi" 61

Aprofunda a questão direcionando o foco para o jornal:

"A afirmação de que o jornal limita-se à superficialidade da vida é insatisfatória, uma vez que as emoções e os sentimentos mais profundos podem estar se revelando justamente nas explosões superficiais que impregnam as páginas jornalísticas. Por outro lado, dependendo da intenção do olhar, muitos textos literários podem apresentar a leveza, a visibilidade, a atualidade de um verdadeiro texto jornalístico" 62 .

"Não

E conclui falando de jornalistas e literatos:

parece

mero acaso o

fato de

existirem cada vez mais

jornalistas

construindo obras literárias e literatos escrevendo regularmente em jornais".

Entendemos que, no centro de suas intenções, Machado quer deixar claro que o jornal não deverá ser um substituto do livro didático e do texto literário na escola, mas deverá necessariamente ser incorporado ao grupo dos materiais pedagógicos culturalmente reconhecidos como fundamentais.

Indagado sobre se o jornal é um material a mais ou se é um material que deve necessariamente ser utilizado na escola Machado observa que:

"Eu acho que há uma necessidade do jornal; a linguagem do jornal é diferente da do livro e da do caderno; os conteúdos, o caráter naturalmente transdisciplinar dos conteúdos que é diferente do livro e das aulas na escola; então há uma série de características do jornal, essa linguagem mista - português e matemática - que torna o papel do jornal muito importante. Agora há pessoas que podem achar alternativas para suprir isso, podem trabalhar com essa linguagem mista, com essa transdisciplinaridade de outra forma,

61 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - p.14

62 ibidem.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

utilizando outros instrumentos. Acho que há um espaço importante que o jornal preenche; se alguém não quiser utilizar o jornal, que o substitua; mas é preciso trazer para a escola isso que o jornal traz, com o jornal ou sem o jornal." 63

Ainda sobre a questão da transdisciplinaridade da matéria jornalística e reforçando a defesa da necessidade do jornal na sala de aula, Machado observa que:

"há 30 ou 40 anos, era muito mais simples o enquadramento do que ocorre fora da escola no âmbito de cada uma das disciplinas. Hoje, elas multiplicaram-se, subdividiram muitas vezes os seus objetos, conduzindo a uma aparência de fragmentação tão grande no conhecimento sistematizado que tal

enquadramento parece cada vez mais difícil" (

observando que ao representar a realidade, o jornal o faz de uma maneira abrangente, sem recortá-la em segmentos com fronteiras bem nítidas, como a escola o faz através das disciplinas. 64

).

Conclui seu argumento

Indagado sobre se o livro didático deve incorporar algo do jornal, Nilson José Machado observa que:

"Eu acho que a linguagem, a organização do texto, a questão da organização, talvez sim. Alguns livros já fazem isso. A meta fundamental do livro é diferente da meta do jornal. A questão da perenidade e da efemeridade; o livro não deveria ser uma coisa para ficar mudando todo ano, a cada dois, três anos. O livro é um dos manuais escolares que tinha que ter uma vida muito mais longa, justamente por isso ele não pode ser tão dependente ou tão comprometido de coisas que estão mudando todo dia. A função do livro é muito mais permanente, mais estável. A vida está aí acontecendo e está entrando na escola não trocando de livro, mas usando jornal, usando revista, usando a aula do professor e outras coisas." 65

63 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

64 Caderno de Sugestões de Atividades, p. 13

65 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Machado apresenta o jornal como um instrumento educativo cujo papel já está definido no campo da educação formal; trata-se do meio a partir do qual o aluno poderá apropriar-se melhor dos fatos da realidade que o cerca; trata-se do veículo capaz de estabelecer um elo permanente entre o conhecimento acumulado e o movimento que cria o novo conhecimento; trata-se do material cujas características e linguagem favorecem ao aprofundamento e desenvolvimento de conhecimentos e metodologias. A questão que se coloca aqui é a de como a escola deverá utilizar o jornal para atingir tais objetivos. Indagado sobre o que a escola deve oferecer ao aluno hoje, Machado observa que:

"Os conteúdos têm que estar a serviço de metas maiores ligadas às pessoas. As pessoas têm que ser capazes de ler diferentes linguagens, se expressar em diferentes linguagens, as pessoas têm que ser capazes de articular coisas e compreender, as pessoas têm que ser capazes de argumentar, defender pontos de vista, de resolver problemas ( não de matemática ou de física ); as pessoas têm que ser capazes de elaborar propostas e projetos de intervenção na realidade. Essas são competências que se adquire através das disciplinas; através das matérias; os conteúdos têm que estar a serviço disso. É com essas competências que eu tenho que estar preocupado. O aluno tem que ser capaz de defender pontos de vista, argumentar. Confiar na possibilidade de se chegar a um acordo mas argumentando, com a palavra, esse é o instrumento. Se se perde a confiança nisso, o que é que você vai fazer na escola ? A escola tem que estar a serviço disso. Isso se aprende nas diversas disciplinas." 66

A idéia de que as pessoas "têm que ser capazes" de atingir algo nos remete à discussão polêmica sobre objetivos educacionais. Como sabemos, um dos grandes pontos de atrito no campo das concepções de educação encontra-se justamente nesta questão, a saber, se são os educadores que devem decidir - e de que forma - o que os educandos devem saber ou ser capazes de desenvolver ou se os educadores devem definir seus propósitos

66 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

educacionais com base em processos destinados a buscar uma formulação de objetivos educacionais que leve em conta interesses, vontades e necessidades dos diversos grupos de alunos com os quais se relacionam. Como observa Paulo Freire, falando a respeito daquilo que ele considera como a visão "bancária" da educação, a esta não interessa propor aos educandos o desvelamento do mundo, mas, pelo contrário, perguntar-lhes se "Ada deu o dedo ao urubu" , para depois dizer-lhes enfaticamente, que não,

que "Ada deu o dedo à arara". 67 As palavras de Paulo Freire ilustram bem o que caracteriza uma concepção de educação que desconsidera, na elaboração

do currículo escolar, qualquer interesse ou necessidade do aluno.

Mesmo que possam parecer, para alguns, utópicas ou militantes ( no mal sentido ) concepções de educação que incluem o aluno desde o momento da definição dos conteúdos curriculares até a execução dos trabalhos educativos - por motivos diversos ou simplesmente pelo difícil grau de operacionalização que julgam apresentar as propostas de ação fundamentadas por tais concepções -, a nós parece bastante pertinente considerá-las visto que, dentre outros motivos, analisando concepções opostas como as que certamente dão sustentação, por exemplo, aos especialistas que

desenvolveram a já antiga Taxionomia de Objetivos Educacionais 68 , nos deparamos com planos de ação extremamente problemáticos que, a nosso ver, pouco podem contribuir para a elevação dos trabalhos em educação. Benjamin S. Bloom, junto a grande equipe de colaboradores, propôs

uma taxionomia ( classificação, sistematização ) de objetivos educacionais com

o propósito de padronizar os mecanismos que servem tanto para o

planejamento de um trabalho educativo como para avaliar os resultados das atividades desenvolvidas com base em tal planejamento. Pensar em planejamento e avaliação na perspectiva de Bloom implica em considerar os

objetivos educacionais plenamente passíveis de serem enquadrados em um arsenal de procedimentos pedagógicos e metodológicos a serem utilizados pelo professor.

67 Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido, p. 61

68 Bloom, Benjamin S., Taxionomia de Objetivos Educacionais. vol. 1 - Domínio Cognitivo. vol. 2 - Domínio Afetivo. Editora Globo 1972. Traduzido do original norte-americano Taxionomy of Educational Objectives, 1956 por Flávia Maria Santana da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Para Bloom, seja no campo cognitivo ou naquele que ele chama de afetivo, os objetivos educacionais dependem, para serem atingidos, de procedimentos pedagógicos e metodológicos adequados; isso vale tanto para o objetivo de buscar, por exemplo, que o aluno decore todos os afluentes de um rio como para o objetivo de que ele desenvolva o prazer de conversar com muitos tipos diferentes de pessoas ou demonstre devoção a idéias ou ideais considerados como fundamentos da democracia. Em resumo, a taxionomia de Bloom pretende mostrar que, tanto conteúdos curriculares como comportamentos podem e devem ser alvo das classificações pelo professor que, para atingi-los, deverá apenas definir - classificar - com precisão seus objetivos. Na proposta de Bloom, além da total desconsideração do aluno como ser que sabe, que pensa e que quer há toda uma elaboração para que o professor exerça o papel de dominador do processo educativo, senhor pleno e inquestionável do espaço da sala de aula 69 . Vale dizer, ainda, as propostas de Bloom apontam para uma educação que privilegia o desenvolvimento de habilidades - definidas arbitrariamente e desejadas pelo professor - e não o desvelamento do mundo - como é entendido nas propostas de Paulo Freire. A idéia do educador que define os objetivos e conteúdos com base em necessidades que ele próprio ou grupo a que pertence ou com o qual concorda julgam ser as ideais, é extremamente oposta àquela que concebe o educador como um agente problematizador que, como nos diz Paulo Freire, re-faz, constantemente, seu ato cognoscente, na cognoscitividade dos educandos, sendo que, estes, [ os educandos ] em lugar de serem recipientes dóceis de depósitos, são agora investigadores críticos, em diálogo com o educador, investigador crítico, também. Na medida em que o educador apresenta aos educandos, como objeto de sua "ad-miração" , o conteúdo, qualquer que ele seja, do estudo a ser feito, "re-ad-mira" a "ad-miração" que antes fez, na "ad- miração" que fazem os educandos. 70

69 Na relação verdadeira entre educador-educando, deve haver duas pessoas que se encontram com suas experiências de vida, mantendo uma relação amorosa, dialogante, comunicadora. Wanderley, Luiz Eduardo W., O que é Universidade, Editora Brasiliense, 1984, p.53

70 Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido, p. 69

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

O debate neste campo deve ser aprofundado, a nosso ver, se queremos encontrar os caminhos mais adequados para atuarmos em educação. As palavras de Machado, que originaram essa nossa discussão, demonstram, num primeiro momento, uma proximidade ao tipo de processo de definição dos objetivos educacionais mais próximo da taxionomia de Benjamim S. Bloom, já que parecem indicar certa prioridade ao desenvolvimento de habilidades cognitivas, talvez em detrimento da aprendizagem de conteúdos. Mas isso analisaremos mais profundamente quando tivermos uma visão detalhada dos objetivos das atividades preparadas por Machado, e outros colaboradores, para o Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação.

Voltando à entrevista com Machado, indagado a respeito de quais benefícios trazem tais "competências" por ele citadas, o mesmo observa que:

As pessoas se

sentem cidadãos porque se sentem inseridas por meio do trabalho. Eu acho

que o que conta mesmo é a formação das pessoas para a vida em geral, não

só para o trabalho. O trabalho, do jeito que atualmente é compreendido (

uma atividade que tem se afunilado; o trabalho tem sido para menos gente, está aumentando o número de gente que não tem trabalho. Ainda assim, a educação tem que estar visando não essa formação para o trabalho - pelo menos o trabalho entendido assim - mas para o desenvolvimento das

personalidades das pessoas, essa formação pessoal, essa é a função fundamental da educação. É claro que essa formação pessoal não se choca

Preparar para o trabalho não é preparar

para uma ocupação; as ocupações são sempre historicamente situadas. Por exemplo, não falta o que fazer hoje, faltam pacotes de ocupações valorizados e remunerados adequadamente. Eu quero fazer um monte de coisas que não me pagam para isso. Mas eu gostaria muito de estar fazendo. Então acho que é preciso ser alargado esse espectro de coisas socialmente valorizadas que se chama trabalho e alargando pode-se até entrar num acordo que a educação tem que visar a essa formação para o trabalho; mas do jeito que o trabalho é

com a preparação para o trabalho. (

) é

"O trabalho é uma forma privilegiada de inserção social. (

)

)

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

entendido acho que a educação tem que visar muito mais essa formação pessoal do sujeito do que a formação para o trabalho nesse sentido estrito." 71

Pensar na formação pessoal do sujeito é algo bastante amplo. Mesmo nestas palavras de Machado é bastante difícil precisar quais seriam os elementos centrais de uma tal formação. Tentando aprofundar o tema, perguntamos a Machado se a escola deve considerar as transformações do mundo do trabalho, pergunta para a qual a resposta foi a seguinte:

"Não. Na escola o objeto fundamental são os valores. Os valores no mundo do trabalho, da economia, são uma fatia muito estreita; na escola a fatia é muito mais significativa. Agora, ela precisa prestar atenção nessa transformação nas formas de organização que está acontecendo no mundo do trabalho. Não acho que há o sagrado e o profano; o mundo do trabalho é o profano, o mundo da escola, o sagrado. Acho que, no que diz respeito aos valores, o mundo do trabalho tem muito pouco a nos dizer; mas isso não quer dizer que nós não temos nada a aprender lá; temos muito, principalmente nessa forma de organização; lá o cartesianismo está em plena decadência. Na maior parte das industrias há outras formas de produção - trabalho em equipe, células -; na escola as exceções são muito poucas; a maioria continua num esquema absolutamente taylorista. E isso nós não temos que ter vergonha nenhuma de aprender." 72

Machado finaliza seus comentários observando que:

"Essa nova forma de organização do trabalho tende a se irradiar para a forma de organização da escola. Eu acho que isso é uma coisa positiva. A forma de

organização do mundo do trabalho no período industrial foi irradiada do mundo do conhecimento para o mundo do trabalho; o taylorismo é a realização no

mundo do trabalho das idéias cartesianas. (

)

Houve um momento em que

71 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

72 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

isso foi injetado no mundo do trabalho. Agora, eu acho que a gente está num movimento mais ou menos em sentido contrário de se repensar a forma de organização interna da escola a partir dessa reorganização no mundo do trabalho. Mas na verdade as coisas estão muito misturadas hoje porque o conhecimento se transformou no principal fator de produção; isso não é retórica, é fato concreto." 73

As idéias e opiniões expressas neste capítulo podem, a nosso ver, mostrar de forma satisfatoriamente clara os pressupostos educacionais que fundamentam a proposta do Folha Educação. Nos Cadernos do Folha Educação, acreditamos, deveremos encontrar sugestões de atividades coerentes com o pensamento de Machado. O texto principal do Folha Educação, que acompanha os Cadernos, é também um texto de Machado e expressa muitas das idéias aqui contidas e que também podem ser encontradas em diversos textos e livros que publicou. Nilson José Machado, como pudemos ver, fundamenta o programa da Folha de S.Paulo com reflexões que, na realidade, constituem sua forma de pensar o mundo e a educação. É com base em todas as reflexões que faz, sobre os mais diversos aspectos do tema educação, que ele estruturou seu conjunto de opiniões sobre, inclusive, o uso do jornal em sala de aula. Por este motivo podemos afirmar que a Folha de S.Paulo empresta de Nilson José Machado uma reflexão que acaba por significar a estrutura pedagógica daquilo que propõe com o uso do jornal para as escolas. Com Machado, pudemos conhecer uma crítica da escola brasileira que incide mais profundamente sobre a questão dos conteúdos curriculares utilizados nos processos educativos que desenvolve. Mesmo considerando que a escola tem sua dimensão conservação e que deve ser um espaço preocupado com a formação de valores, Machado nos mostra que a dimensão preparação para o trabalho não pode ser desconsiderada por ela. Não se tratando de uma preparação para uma determinada função, a preparação para o trabalho deve ocorrer em simbiose à uma formação para a vida.

73 Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

A questão dos conteúdos curriculares assume, para Machado, lugar crucial na escola para o adequado desenvolvimento das ações educativas

neste mundo marcado pela avalanche de dados e informações fragmentadas. A escola tem que favorecer a que os projetos individuais sejam entendidos por cada educando em sua dimensão coletiva de tal forma que os indivíduos possam ser sujeitos de construção de uma sociedade ao mesmo tempo produtiva, no sentido econômico, e humana.

A realidade da existência de tanta informação disponível junto à do grau

de profundidade que a humanidade já atingiu nos mais diversos campos do conhecimento, faz com que Machado proponha mudanças no que se refere à escolha e à forma de abordar conteúdos na escola. Os conteúdos devem servir tanto para a formação dos valores como para a formação de pessoas

contemporâneas com as necessidades e possibilidades - em sentido amplo - de seu tempo. A abordagem dos conteúdos deve ser interdisciplinar para que a escola possa ultrapassar a estrutura de organização característica do modelo taylorista e, neste mesmo sentido, a questão da utilização de novos materiais pedagógicos pela escola ganha importância.

O jornal é visto por Machado como um material importante, necessário e

adequado para o trabalho educativo na escola. Mais que o produto jornal, Machado vê, em sua forma transdisciplinar, um pouco daquilo que a escola necessita para que possa desenvolver um trabalho educativo que leve em conta a realidade extra-escolar; afastando-se das idéias de pré-requisitos, seriações etc. acredita que a escola pode, com o uso do jornal, desenvolver um trabalho calcado na construção de significados a partir de uma abordagem de conteúdos mais ampla e mais aberta que a atualmente predominante. As idéias de Machado expressas neste capítulo são de grande importância para a elucidação dos diversos aspectos da realidade escolar e extra-escolar presentes nesta questão do uso do jornal na educação. Suas reflexões e opiniões nos permitirão a todos analisar com olhos mais críticos as propostas de atividades que desenvolveu para o Folha Educação 74 .

74 No Programa Folha Educação, as sugestões de atividades foram desenvolvidas pelos seguintes colaboradores: Marice Ribenboim, Monique Deheinzelin e Regina Scarpa ( para 1ª a 4ª série ) e Nilson José Machado, Maria José Godoy Pereira e Márcia Vescovi Fortunato ( para 5ª a 8ª série ). Nilson José Machado nos informou que ele elaborou todas as atividades da disciplina Língua Portuguesa para 5ª a 8ª série, além das atividades de Matemática. Entrevista realizada na USP em 15/12/98.

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CAPÍTULO 3

OS CADERNOS DE SUGESTÕES DE ATIVIDADES

Neste capítulo, iremos analisar o Caderno de Sugestões de Atividades elaborado para servir de apoio para o trabalho com 5ª e 6ª e 7ª e 8ª séries. É um material que traz quarenta 75 sugestões de atividades direcionadas às disciplinas português, matemática, história/geografia e ciências. Escolhemos analisar este caderno pelo fato de o mesmo nos fornecer melhores possibilidades - em comparação ao outro, destinado ao trabalho com alunos da 1ª a 4ª série - de avaliar tanto aspectos pedagógicos e metodológicos como culturais e políticos das sugestões, dada a profundidade da elaboração das mesmas. Neste caderno, as atividades são destinadas a alunos com um grau de maturidade tal que já torna possível também considerar a possibilidade de os mesmos passarem a fazer uso do jornal de maneira mais profunda, atendendo aos objetivos amplos do programa. A opção pela análise do caderno de atividades parte da nossa suposição que, para buscar atingir seus objetivos, o Folha Educação propôs caminhos que, mesmo não significando “fórmulas” ou “modelos” a serem seguidos 76 , trazem uma indicação de como desenvolver um trabalho significativo nos termos da proposta. Pretendemos verificar como as sugestões de atividades contribuem para o uso educativo de conteúdos dos jornais, e como as atividades sugeridas contribuem para que se possa buscar os objetivos desejados pelo programa. Em outras palavras, procuraremos entender como o caderno de sugestões contribui para a realização do trabalho e dos objetivos propostos pelo Folha Educação. Para tanto, definimos alguns pontos à luz dos quais analisaremos as sugestões do Caderno. São estes:

75 No caderno de Sugestões de Atividades há pouco mais de 40 sugestões de atividades, mas algumas delas se repetem. Assim sendo, as 40 atividades que analisamos representam 100 % das propostas.

76 Segundo Nilson José Machado, "os Cadernos [ de sugestões de atividades ] são simples exemplos de formas de utilização; exemplos de modos de exploração da matéria jornalística na sala de aula. Entrevista realizada no Departamento de Metodologia do Ensino da Universidade de São Paulo em

15/12/98.

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1 - Tipo de Material Utilizado ( textos, imagens, gráficos, figuras )

Nosso objetivo aqui é o de verificar se os materiais propostos são materiais específicos dos jornais ( ou mais facilmente encontrados em jornais ) ou se podem ser encontrados em outras publicações. Nos textos introdutórios do Folha Educação não encontramos nenhuma referência a esta questão, mas consideramos importante obter essa informação. O fato de os jornais serem veiculadores de informação cotidiana os coloca, antes de qualquer análise, como portadores de conteúdos específicos - em relação aos livros didáticos - que podemos considerar como valiosos para o desenvolvimento de trabalho educativo. Pensar em tais conteúdos como parte daquilo que tradicionalmente é trabalhado em sala de aula pode ser considerado como algo positivo se puder ampliar, por exemplo, a possibilidade do professor de relacionar os fatos do presente com os fatos e processos históricos tratados a partir dos livros. Para tanto, contudo, concorrem outros fatores, dentre os quais assume grande importância a metodologia utilizada para o desenvolvimento da atividade proposta com o uso do jornal, que deverá prever, a nosso ver, um tratamento adequado do conteúdo curricular a que se refere. No caso de a atividade estar calcada nos propósitos de sensibilizar o estudante para a importância do jornal e de sua utilização - em sentido amplo -, deverá prever uma forma de utilização que favoreça ao desenvolvimento do aluno/leitor. Isso, para ocorrer, implica em que as atividades explorem profundamente os conteúdos do jornal enquanto informação e que ofereçam ao professor instrumentos para desenvolver trabalho significativo.

2- Vínculos da Atividade Proposta com Conteúdos Curriculares e ( ou ) do Jornal.

Aqui buscaremos analisar se a atividade, quando desenvolvida, remete o aluno, num momento seguinte, à continuidade da apreciação e aprofundamento do conteúdo curricular a que ela se refere, à alguma nova utilização do jornal ou à ambas as coisas.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Se há nos programas de leitura de jornal a intenção de oferecer ao aluno um material novo considerado por seus propositores como rico em conteúdo e como necessário à formação destes, é natural que as atividades propostas apontem caminhos para o constante aprofundamento do uso do jornal. Por outro lado, é também natural que as atividades valorizem os conteúdos curriculares já que, como entendemos na proposta do Folha Educação, o jornal deve auxiliar no tratamento destes.

3- Importância do conteúdo das matérias sugeridas para as atividades

Nesta parte, buscaremos analisar fundamentalmente se a atividade propõe, como núcleo fundamental para seu desenvolvimento, o conteúdo da matéria jornalística enquanto informação, se utiliza tal conteúdo desconsiderando a importância da informação que ele traz ou se a mesma desconsidera o conteúdo, nos sentidos aqui expostos, fazendo uso apenas da forma ou estrutura da matéria. Uma atividade pode ser proposta de tal forma que a apreensão da informação pelo aluno seja o mais importante. Se assim for, a atividade estará buscando levar ao conhecimento e para a análise do aluno/leitor o fato da realidade, o que corresponde diretamente ao objetivo de torná-lo melhor informado. Por outro lado, a atividade pode exigir do aluno, para ser realizada, que o mesmo leia o texto com atenção para poder compreendê-lo, mesmo que não se tenha objetivos calcados na importância da informação que ele traz. Neste caso, a atividade para ser desenvolvida, exige do aluno que ele trabalhe com os elementos da matéria jornalística não importando o significado da informação para sua vida. Mesmo assim, pode-se dizer que o exercício de ter que compreender o conteúdo do texto para desenvolver a atividade "obriga" o aluno a se inteirar minimamente do fato tratado e, mesmo que tal fato não seja explorado posteriormente, o aluno absorverá minimamente a informação que ele traz. Dessa forma, em alguma medida, o aluno poderá estar se beneficiando da informação, mesmo que não domine o assunto e que este não lhe interesse diretamente. Numa terceira situação, pode ocorrer que o aluno seja convidado a desenvolver atividade que tenha como centro a forma ou a

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

estrutura do material proposto. Neste caso, não importará nem o conteúdo da informação, nem a compreensão do conteúdo que a matéria traz; o aluno terá que se ater apenas aos dados de que necessitará para realizar o que a ele for pedido. As intenções educativas são muito diferentes em cada um dos casos.

4- Importância da atualidade das matérias sugeridas para as atividades

Nesta parte buscaremos analisar se a atualidade da matéria jornalística utilizada é um requisito para a realização da mesma. A defesa do uso do jornal calcada na atualidade da matéria jornalística tem sua justificativa na suposta necessidade de os alunos estarem por dentro da realidade extra-escolar que os cerca; por outro lado, a característica do jornal de trabalhar com fatos cotidianos é um dos elementos que sustentam os argumentos a favor de sua necessidade e viabilidade para a escola - por ser material portador de determinados conteúdos que não podem ser encontrados em livros. Ao fazermos esta análise, então, queremos conhecer como as atividades se estruturam com o objetivo de explicitar e aproveitar esta característica do jornal, vinculada à questão do tempo da notícia e de sua divulgação, e com o objetivo de sensibilizar o aluno para que o mesmo entenda a importância deste atributo do material e o utilize.

5- Favorecimento da interação do aluno com a realidade social cotidiana

Na proposta do Folha Educação há referências sobre a necessidade da informação para que o aluno/leitor se instrumentalize, não só para entender a realidade, mas para tomar atitudes que podem ser potencializadas se apoiadas no domínio das informações. Este, pode ser obtido, dentre outras formas, através da utilização do jornal e do trabalho que o aluno desenvolve na escola, a partir dos conteúdos curriculares. Nas fundamentações da importância do uso do jornal, no Folha Educação, isso aparece mais declaradamente nas palavras de Gilberto Dimenstein, que relacionam informação e cidadania. Segundo Dimenstein 1- O ensino na escola [ com o uso do jornal ] deixa de ser

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

algo abstrato, apenas trampolim para passar o vestibular ou estar habilitado a

cursar a faculdade (

cidadania. Está conhecendo o mundo que o rodeia e está sendo estimulado a

opinar, optar, agir (

livres porque podem escolher. E só podem escolher quando conhecem alternativas. Sem informação não há alternativa - e, portanto, sem alternativa não há liberdade 77 . Para opinar, optar e agir em relação às questões da sociedade e da própria vida, o aluno deve estar constantemente se informando e refletindo sobre tais questões. Neste sentido, tratar - nas atividades - de questões relacionadas à realidade social, econômica, cultural, política, filosófica, torna-se algo fundamental. Queremos então entender como isso se dá nas atividades propostas pelo Folha Educação.

3- Educar é preparar para a liberdade. As pessoas são

2- O estudante, enfim, está aprendendo na prática a

)

)

6- Exigência

de

acompanhamento

tratado na matéria jornalística.

dos

desdobramentos

do

assunto

Neste ponto queremos identificar se a atividade sugerida visa garantir, de alguma forma, que o aluno proceda ao acompanhamento das questões tratadas nas matérias jornalísticas utilizadas como material. Se o programa entende que a leitura do jornal deve favorecer a que o aluno compreenda e acompanhe melhor os fatos do cotidiano, as atividades que propõe devem proporcionar esse exercício de acompanhar os desdobramentos das notícias. Não há, a nosso ver, melhor maneira de demonstrar a importância da notícia atual e o benefício de obtê-la. Sensível a isso, o aluno tem maiores possibilidades de entender o valor do jornal para sua

77 Quanto à primeira frase de Dimenstein, vale dizer que o uso do jornal não impede que o ensino seja

abstrato; assim como a ausência do jornal não implica, necessariamente, em ensino abstrato. Há certamente outros fatores que interferem nesta questão como, por exemplo, a formação do professor e sua consciência e habilidade ao tratar com os conteúdos curriculares. Na segunda frase devemos observar que para a prática da cidadania, além da posse da informação é preciso que a pessoa tenha consciência do

que fazer com ela, algo que coloca a questão num plano mais profundo.

que, a informação não garante a liberdade, mesmo que seja um elemento fundamental para a conquista

desta. Caderno de Sugestões de Atividades, pp. 6,7,8.

Na terceira frase, vale observar

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

vida, como instrumento que o possibilita saber o que está acontecendo e a agir com base nas informações que obtém.

7- Liberdade

de

escolha

dos

alunos

quanto

às

matérias

a

serem

utilizadas nas atividades e quanto à forma de utilização do jornal.

Se pensarmos no objetivo de o aluno se tornar um leitor de jornal e se pensarmos que, para que isso ocorra, o mesmo terá que desenvolver uma "relação" autônoma com esse material, podemos esperar que as atividades favoreçam a isso. Entendemos que a possibilidade de utilizar o jornal com base nos próprios interesses e nas próprias vontades, favorece a que o aluno descubra o jornal e aprenda a buscar nele o que quer ou necessita. Para que o uso do jornal se torne um hábito, o leitor deve perceber a importância, prazer e vantagens que o material jornal pode trazer. Se pensarmos que cada leitor é um leitor e que cada leitor de jornal tem uma relação bastante particular com esse veículo de informação, podemos entender como desejável que, no conjunto das atividades desenvolvidas com o objetivo de incentivar o uso deste material, seja levado em consideração a necessidade de o leitor "descobrir" o jornal. Dito de outra forma, não seria positivo, a nosso ver - para se atingir o objetivo acima exposto - que o leitor fosse submetido o tempo todo a atividades que indiquem o "local" da notícia, a matéria a ser utilizada e a forma de utilização. Da mesma forma, não seria positivo que os objetivos fossem sempre dados. Queremos, então, perceber como esta questão é tratada nas atividades propostas.

8- Objetivo central da atividade desenvolvida

Entendemos que os objetivos do programa situam-se tanto no campo pedagógico e metodológico, quanto no campo político e cultural; queremos identificar se nas sugestões de atividades há preocupações com os dois campos.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

9- Contribuição da atividade para a apreensão estruturada dos conteúdos dos currículos escolares a que se referem.

Aqui analisaremos a qualidade do material utilizado na atividade e a metodologia utilizada para o desenvolvimento desta; queremos refletir sobre se determinado material e metodologia contribuem para uma apreensão estruturada dos conteúdos dos currículos a que se referem. Nossa atenção estará voltada para o nível de elaboração e de profundidade da atividade em sua relação com o objetivo que se deseja atingir.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Para o registro dos dados utilizaremos a seguinte tabela:

Tabela para Coleta das Informações e Análise 1 2 1- Tipo de Material Utilizado na
Tabela para Coleta das Informações e Análise
1
2
1-
Tipo de Material Utilizado na
Espec.
Não Espec.
Atividade
2-
Vínculos com Conteúdos
Informação
C. Curricul.
Curriculares ou do Jornal
3-
Importância do Conteúdo da
Import.
Não import.
Matéria para a Atividade
4-
Importância da Atualidade da
Import.
Indiferente
Matéria Utilizada
5-
Interação do Aluno com
Favorece
Pode Favorecer
a Realidade Social Cotidiana
6-
Exigência de Acompanhamento
Exige
Não Exige
dos Desdobramentos do Assunto
7-
Lib. de Escolha da Matéria
Existe
Não Existe
Utilizada na Atividade
8-
Objetivos da Atividade
Pedagógico
Cultural
Desenvolvida
9- Contrib. Da Ativ. P/ Apreensão
Estrut. dos Conteúdos dos Currículos
Contribui
Não Contribui
Em anexo -
exemplos de atividades do Caderno de Sugestões do Folha
Educação.

Obs: Nas sínteses, procuramos destacar o que entendemos como núcleo

fundamental das atividades propostas; no anexo, será possível ao leitor

conhecer o conjunto de orientações que acompanha algumas destas

atividades.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Síntese das Atividades e Resultado das Análises

Atividade 1: "Números Grandes x Números Pequenos" 78

Identificar nas páginas do jornal expressões numéricas que recorram a palavras para facilitar a comunicação. Ex: 3 mil, 7,5 milhões, 13 bi. Fazer também exercício oposto encontrando formas "mais comunicativas" de expressá-las. Ex: 13.494,40 ( cerca de 13,5 mil, ou pouco menos de 13,5 mil ).

Objetivo: Facilitar a apreensão do significado de números muito grandes ou muito pequenos para possibilitar uma comunicação mais direta. Sugere-se o "recurso às palavras" como fundamental.

Material proposto: Jornal completo de qualquer dia.

Resultados da análise:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 1 2 2 2 2
1
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2
2
2
2
2
1
2
2
Atividade 2: "A Integração Matemática/Língua" 79

A) Ler cada uma das manchetes, das referências às páginas internas, observando as fotos, os gráficos, relacionando-os com as legendas correspondentes.

Objetivo:

Procurar

apreender

o

significado

da

mensagem

que

procuram

comunicar.

B) Com um vidro de líquido corretor, recobrir cada um dos símbolos numéricos ou expressões matemáticas que comparecem na primeira página do jornal. Em

78 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.22

79 op. cit. p.23

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

seguida, tentar reler a primeira página sem os elementos matemáticos que foram eliminados.

Objetivo: Fazer perceber que a separação dificulta ou inviabiliza a comunicação, ainda que se tente substituir tais elementos por expressões verbais.

Material proposto: Primeira página do jornal ( de qualquer dia )

Resultados da análise:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 1 1 2 2 2
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1
2
2
Atividade 3: "Temperaturas e Operações com Números Relativos" 80

A) Observar coluna "Horário e Tempo no Mundo" na seção Atmosfera do Jornal Folha de S.Paulo e calcular, por exemplo, a diferença entre temperaturas máximas, em graus Celsius, entre diversos pares de cidades, escolhidas de tal forma que possibilitem diferenças entre números positivos e negativos ou entre um positivo e um negativo. Analogamente, calcular as diferenças entre as temperaturas em graus Fahrenheit, comparando as respostas entre as duas escalas termométricas. Explicar o modo como as duas escalas foram construídas, obtendo-se a "fórmula" para converter graus Celsius ( C ) em Fahrenheit ( F ).

Objetivo: Introduzir o significado dos números negativos e das operações com eles.

Material Proposto: Coluna Horário e Tempo no Mundo ( na seção Atmosfera do jornal Folha de S.Paulo ).

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Resultados da análise:

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1
1
Atividade 4: "A Importância das Porcentagens" 81

Ler com atenção matéria jornalística sublinhando todas as "porcentagens" envolvidas. Imaginar formas alternativas para comunicar a mesma informação, em cada caso, sem recorrer a porcentagens.

Objetivo: Sublinhar o significado das porcentagens como recurso para representar comparações, razões ou relações entre grandezas.

Material Proposto: Texto "92% de esgoto brasileiro é jogado nos rios" ( Folha de S.Paulo, 3/2/93 ) 82 .

Resultados da análise:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 2 2 2 2 2 2
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1
Atividade 5: "O Esquema Dados / Pedidos" 83

Propõe-se leitura de texto jornalístico a partir do qual será feita a formulação de problemas matemáticos. Tais problemas deverão ser formulados previamente pelo professor e não exigirão, para serem solucionados, de todas as informações disponíveis no texto proposto.

81 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.26

82 Na atividade foi proposto este texto específico, mas pelas suas características, julgamos que poderia ser utilizado qualquer texto que envolva a representação com porcentagens.

83 op. cit. p.27

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Objetivo: Desenvolver a habilidade de discernir dados relevantes de outros que não o são, para responder à questões e vivenciar situações onde as informações disponíveis não são suficientes para a solução.

Material Proposto: Texto "Miniprensa faz óleo vegetal na fazenda" ( Folha de S.Paulo, 16/2/93) 84 .

Resultados da análise:

1 2 3 4 5 6 7 8 9 2 2 1 2 2 2
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2
1
Atividade 6: "Áreas e Escalas" 85

Observar plantas de apartamentos ou casas, com ou sem especificação de medidas dos cômodos, mas com a área total representada. Tentar calcular a área a as dimensões de cada um dos cômodos podendo realizar o cálculo da área da planta em centímetros quadrados, medindo as dimensões diretamente no jornal ( auxiliado pelo professor ).

Objetivo: Praticar cálculo de áreas de figuras planas e a utilização de escalas.

Material Proposto: Plantas de apartamentos ou casas, com ou sem especificação de medidas dos cômodos, mas com a área total representada.

Resultados da análise:

1

2

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4

5

6

7

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84 Na atividade foi proposto este texto específico, mas pelas suas características, julgamos que poderia ser utilizado qualquer texto com informações que possibilitem a formulação de problemas.

85 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.28

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 7: "Proporcionalidade e Representação Parlamentar" 86

A partir de matérias que tratam de representação parlamentar por Regiões e por Estados elaborar cálculos matemáticos com o objetivo de obter informações numéricas diversas sobre o tema.

Objetivo: Estudar a noção de proporcionalidade.

Material Proposto: Matérias publicadas no caderno Brasil ( Folha de S.Paulo ).

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Atividade 8: "Compreendendo o Cálculo do Imposto de Renda" 87

Calcular o valor do imposto a pagar para os rendimentos ( a partir de tabela ) e construir gráfico ( com I no eixo vertical e R no eixo horizontal ).

Objetivo: Refletir sobre a progressividade do Imposto de Renda à partir da interpretação de tabelas encontradas rotineiramente nos jornais, com as diferentes alíquotas ( porcentagens ) do valor das deduções em cada faixa de renda e exercitar a construção de gráficos para visualização que pode ser bastante esclarecedora.

Material Proposto: Tabela "Confira seu Imposto de Renda" , do caderno Finanças ( Folha de S.Paulo ).

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86 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.29

87 op. cit. p.31

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 9: "Gráficos não Mentem ?" 88

Observar gráficos contidos no jornal ( com informações diversas ) e tentar construí-los novamente invertendo as representações feitas em linhas verticais para representações feitas em linhas horizontais e vice-versa, comparando as representações.

Objetivo: Desenvolver a capacidade de fazer leitura crítica de gráficos representados de formas diferentes ( que por vezes - não por ingenuidade - sugerem estabilidade, tendência de alta etc. graças à escolha da escala em cada um dos eixos escolhida por quem o apresenta ) .

Material Proposto: Recortes de gráficos representados no jornal sugerindo tendências de alta, de baixa ou de estabilidade.

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Atividade 10: "O Jornal como Ponte para o Livro" 89

Ler resenhas ou comentários sobre livros de interesse didático buscando compreender que tais textos não substituem a obra original pois podem omitir informações relevantes desta. Refletir sobre questões possíveis de serem elaboradas a partir do conteúdo do texto lido.

Objetivo: Ampliar o conhecimento sobre autores e obras e incentivar a leitura.

Material Proposto: textos do caderno Mais da Folha de S.Paulo.

88 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a8ª série, p.32

89 op. cit. p.33

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

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Atividade 11: "Tabelas e Gráficos" 90

Representar dados numéricos expressos em tabela sob a forma de gráfico.

Objetivo: Verificar as diferenças no que tange à visibilidade das informações proporcionada pelas duas formas de representação.

Material Proposto: Matéria composta de texto e tabela.

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Atividade 12: "Contando Palavras" 91

Ler matéria jornalística, calcular seu custo com base nos valores praticados pelo jornal Folha de S.Paulo para anúncios classificados e reescrevê-la com menor número de palavras.

Objetivo: Exercitar a criatividade e a imaginação na redação de textos com limitação de espaço.

Material Proposto: Anúncio dos classificados por palavra do jornal Folha de S.Paulo e outro texto do jornal adequado para a execução do atividade proposta.

90 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.34

91 op. cit. p.41

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

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Atividade 13: "Descrição - O que é que Macau tem ?" 92
A partir
de
matéria
do
caderno
Turismo
relacionar
o
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informações possíveis para exercitar a redação de textos descritivos.

Objetivo: Exercitar a redação de textos descritivos.

Material Proposto: Caderno Turismo do jornal Folha de S.Paulo.

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Atividade 14: "O Fato e a Interpretação" 93

Ler matéria jornalística buscando identificar se há ou não intenção do autor de dar conotação positiva ou negativa a aspectos tratados no texto.

Objetivo: Exercitar a utilização da matéria jornalística ( interpretação ) levando-

se em conta que, mesmo nesta, não há neutralidade.

Material Proposto: Texto do jornal.

92 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.42. Na proposta faz-se referência à característica deste tipo de matéria jornalística que, obrigada pelo leitor, é redigida com maior isenção do que a de uma agência de viagens.

93 op. cit. p.43. O Caderno observa que a não pretensão da neutralidade do texto jornalístico não significa falha técnica ou de caráter; observa que a intenção do autor por mais dissimulada que seja, sempre está presente no produto final.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

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Atividade 15: "Debate - Vale a Pena Criar Cisnes ?" 94

Ler texto do jornal que argumente positiva ou negativamente sobre algo, relacionar os argumentos e redigir um novo texto explicitando com argumentos a conclusão a que chegou.

Objetivo: Exercitar a articulação de idéias, informações e capacidade de convencimento num texto ( competência na argumentação ).

Material Proposto: Texto jornalístico apropriado para a atividade.

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Atividade 16: "Análise de um Artigo" 95

Ler artigo do jornal e analisá-lo.

Objetivo: Identificar o editorial como a seção do jornal onde se expressam opiniões e que está especialmente voltada para a formação de opinião; observar a forma como o jornal trata de temas sérios utilizando-se de uma linguagem o mais simples e direta possível.

Material Proposto: Artigo de jornal ( assinado ou editorial )

94 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.44

95 op. cit. p.45

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

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Atividade 17: "Leitura Crítica" 96

Fazer leitura crítica de texto jornalístico buscando a significação profunda dos termos utilizados.

Objetivo: Fazer análise atenta de termos que têm significados mais amplos que os que conhecemos com a aprendizagem da língua escrita 97 .

Material Proposto: Matéria jornalística apropriada para a atividade.

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Atividade 18: "Redação - A Culpa do Boi" 98

Leitura de texto cujo conteúdo permite que se faça diferentes argumentações

( de acusação e defesa, a favor ou contra ) sobre o tema em questão.

Objetivo: Colaborar para uma oxigenação nos esquemas argumentativos

( sobretudo escolares ) cuja aparência de consolidação confere-lhes ares de indiscutível.

Material Proposto: Texto apropriado para a atividade.

96 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.46

97 O Caderno trabalha com texto que trata do termo "analfabeto" que, "tem sido transferido analogicamente, em tempos recentes, para áreas que não têm a ver de modo direto com o alfabeto ou com a aprendizagem da língua escrita ( fala-se de analfabetismo matemático )".

98 op. cit. p.47

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

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Atividade 19: "Dizer Não Dizendo ou Não Dizer Dizendo" 99

Escolher matéria de grande destaque na primeira página do jornal, reescrevê-la atenuando seu impacto e mudá-la de espaço mantendo na primeira pagina apenas uma chamada pouco expressiva. Comparar e avaliar os efeitos produzidos nos dois casos. Procurar e analisar no jornal títulos provocativos ou de impacto avaliando se são adequados para a informação à qual se referem.

Objetivo: Desenvolver a capacidade de avaliar criticamente o que se lê num jornal.

Material Proposto: Jornal completo de qualquer dia.

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Atividade 20: "Escrever Bonito pode Enfeiar o Texto" 100

Leitura e reflexão sobre textos do jornal escritos com linguagem rebuscada. Produção de texto com situação cotidiana substituindo palavras simples por sinônimos.

Objetivo: Identificar como a linguagem rebuscada pode estar sobrecarregando um texto de ornamentos sem qualquer significado. Observar a característica do

99 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.48 100 op. cit. p.49

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

texto jornalístico que, segundo o Caderno "costuma funcionar como um verdadeiro antídoto para desvios desse tipo".

Material Proposto: Texto jornalístico apropriado para a atividade.

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Atividade 21: "O Significado e as Relações Analógicas" 101

Selecionar em jornais completos ( de três ou quatro dias consecutivos ) entre os títulos das matérias, do primeiro ao ultimo caderno, alguns que estabeleçam relações analógicas para facilitar a comunicação.

Objetivo: Observar como as relações analógicas ( algo bastante presente no texto jornalístico ) podem favorecer a comunicação através da transferência de significados de algo conhecido para algo novo.

Material Proposto: Jornais completos ( Folha de S.Paulo ) de 3 ou 4 dias consecutivos.

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101 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.50- O Caderno traz como exemplo alguns títulos: " Cofap corta caciques e acaba com os prejuízos; Haddad quer 'âncora' na economia; Fifa autoriza no Japão teste da 'morte súbita'."

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 22: "Sobre a Ética" 102

Ler texto jornalístico que trate de temas complexos que sempre vêm a baila e travar discussões em grupo a partir de fragmentos significativos do mesmo visando a explorar o tema.

Objetivo: Servir-se de textos jornalísticos para explorar temas reconhecidamente complexos ( ética, por exemplo ) já que este - pela sua forma - pode iluminar o tema proporcionando uma leitura diferente daquela contida em, por exemplo, tratados filosóficos.

Material Proposto: Matéria jornalística apropriada para a atividade.

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Atividade 23: "Redação - A Privacidade" 103

Redigir texto a partir de observação de foto muito expressiva aproveitando o exercício para explorar o tema ao qual a foto se refere.

Objetivo: Perceber que uma foto ( recurso de comunicação muito importante nos jornais ) "pode valer mais do que mil palavras, ainda que freqüentemente, imagens sejam utilizadas para amplificar o significado de uma só palavra"

Material Proposto: Foto apropriada para a atividade.

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102 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.52

103 op. cit. p.53 . A foto utilizada como exemplo mostra uma mulher fotografada de biquíni tomando sol na sacada de seu apartamento; a partir desta, faz-se a reflexão sobre privacidade.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 24: "Representação - Leitura e Interpretação de Mapas" 104

Introduzir o exercício de leitura de dados e representação de espaços geográficos ( sob a forma de desenho ) através da leitura e interpretação de mapas contidos no jornal.

Objetivo: Exercitar a leitura e representação de mapas.

Material Proposto: Mapas contidos na seção Atmosfera ( Folha de S.Paulo ).

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Atividade 25: "Medindo o Tempo - Fuso Horário" 105

Explorar conceitos ( no exemplo, hemisfério, latitude, longitude, continentes, oceanos, movimentos da Terra ) a partir de "material indireto". 106 ( No caso, tabela Horário e Tempo no Mundo - Folha de S.Paulo, que possa remeter aos temas que se deseja explorar ).

Objetivo: Utilizar a criatividade buscando fazer relações entre temas que aparentemente não estão relacionados entre si, mas que representam apenas diferentes aspectos de alguma questão mais ampla.

Material Proposto: No exemplo, Tabelas Horário e Tempo e O Tempo no País ( Folha de S.Paulo ).

104 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.58

105 op. cit. p.59

106 Estamos chamando de material indireto aquele que pode servir como ilustração para introduzir ou aprofundar estudos e reflexões sobre um outro tema qualquer.

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Atividade 26: "Preservando a Memória - Revisando o Passado" 107

Montar murais referentes a "datas comemorativas" utilizando matérias que tratam dos temas para compor material que deverá servir para leitura e debate.

Objetivo: Desenvolver atividade destinada a discutir sobre momentos históricos importantes para o país.

Material Proposto: Matérias que tratam do assunto de cada uma das datas comemoradas.

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Atividade 27: "Organização do Homem no Espaço" 108

Selecionar reportagens sobre cidades bem diferentes quanto ao seu tamanho, localização, aspectos físicos e atividades culturais e econômicas. A partir dos dados obtidos com as pesquisas, exercitar a imaginação pensando nas possíveis características da vida na localidade com a qual se estiver trabalhando ( profissões, atividades de lazer, tipos de moradia, meios de transporte, vestuário, alimentos etc. ) para posterior exposição oral e análise dos colegas.

107 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.60

108 op. cit. p.61

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Objetivo: Identificar os diferentes modos de vida das diferentes regiões do país ou do planeta entendendo que, compreender as diferenças culturais significa compreender a relação que o homem estabelece com o espaço em que habita.

Material Proposto: Caderno Turismo ( Folha de S.Paulo ).

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Atividade 28: "Vida Urbana - Relação de trabalho" 109

Como tarefa de casa, selecionar no jornal matérias que tratem de profissões novas e criativas, os chamados "bicos", como as que aparecem no Caderno Empregos. Organizar questionários e realizar entrevistas com a comunidade local colhendo informações sobre as profissões e sobre aqueles que eventualmente as exerçam. Criar e expor painéis sobre o perfil das pessoas que exercem as profissões explorando aspectos considerados interessantes e importantes para aprofundamento do tema.

Objetivo: Observar como os homens se adaptam constantemente às adversidades do meio em que vivem, buscando soluções criativas e saídas alternativas para problemas sociais.

Material Proposto: Caderno Empregos ( Folha de S.Paulo ).

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109 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.62

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Atividade 29: "Análise e Interpretação de Dados" 110

Analisar indicadores econômicos utilizados internacionalmente buscando estabelecer relações comparativas entre países e a partir dos dados buscar interpretações para os fatos que se analisam através de questões extraídas da tabela dos Indicadores Econômicos Internacionais do caderno Mundo ( Folha de S.Paulo ).

Objetivo: Exercitar o levantamento de hipóteses a partir da comparação de dados.

Material Proposto: tabela dos Indicadores Econômicos Internacionais do caderno Mundo ( Folha de S.Paulo ).

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Atividade 30: "Síntese de Representação e Localização" 111

Selecionar matérias e anúncios publicitários sobre cidades turísticas e criar um roteiro para uma viagem turística internacional incluindo desenho de um mapa com o trajeto, cálculo da distância a ser percorrida, meios de transporte a ser utilizado, características físicas de cada cidade visitada etc. Compor com as informações obtidas folhetos turísticos que deverão ser trocados entre os grupos.

Objetivo: Explorar informações contidas nos vários cadernos e seções do jornal a fim de compor conjunto de dados que ofereçam informações profundas sobre as cidades escolhidas. Fazer exercício de localização espacial.

110 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.63- O Caderno propõe que se explore, por exemplo, questões referentes à Renda per capita, PIB/PNB, Reservas internacionais etc.

111 op. cit. p.64

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Material Proposto: Anúncios publicitários sobre cidades turísticas - caderno Turismo - Folha de S.Paulo - e tabela de Horário e Tempo no Mundo da seção Atmosfera - Folha de S.Paulo.

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Atividade 31: "Uso da Terra - Agricultura" 112

Selecionar no jornal, em casa, matérias sobre agricultura, e estudá-las para desenvolvimento de atividades em sala de aula ( questões propostas pelo professor que deverá complementar a atividade com informações necessárias e aprofundar aspectos que desejar ). Produzir um painel a partir de recortes de jornal sobre fatos que façam referência aos aspectos estudados.

Objetivo: Sensibilizar para a importância e conhecer a dinâmica do setor agrícola da economia. Criar esquema que ilustre a dinâmica da relação entre a agricultura e as outras atividades econômicas.

Material Proposto: Caderno Agrofolha - Folha de S.Paulo

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O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 32: "Interpretação de Fatos da Atualidade" 113

Leitura de textos que documentem a realidade para comentário livre pela classe e reflexão dirigida a partir de questões propostas pelo professor. Apresentação de relatório final.

Objetivo: Construir interpretação dos fatos historicamente construídos, dentro de um contexto mais amplo.

Material Proposto: Matéria jornalística apropriada para a atividade e livros.

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Atividade 33: "Análise e Interpretação de Documentos" 114

Imaginando-se historiadores vivendo no futuro, os grupos de alunos devem utilizar uma página qualquer do jornal considerando-a como um documento de uma época passada. Devem posteriormente fazer considerações acerca da cultura da época baseando-se apenas nas informações contidas na pagina analisada.

Objetivo: Sensibilizar para a possibilidade de utilização de jornais como documento histórico servindo-se de informações que possibilitem reconstituir fatos ou uma época.

Material Proposto: Página qualquer do jornal.

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114 op. cit. p.67

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Atividade 34: "Conservação de Ecossistemas" 115

Coletar matérias no jornal sobre poluição para montagem de mural na classe e posterior discussão.

Objetivos: Chegar a uma classificação dos tipos de poluição existentes, identificar os agentes poluidores existentes e as medidas conhecidas para acabar com a poluição. Entender a dinâmica das relações que os seres vivos mantêm entre si e o meio ambiente.

Material

Proposto:

Matérias

do

jornal

adequadas

para

a

realização

da

atividade.

 

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Atividade 35: "Busca de Informação e Registro" 116

Selecionar matérias que tratem da vida animal e vegetal em ambientes preservados e matérias sobre expedições realizadas por pesquisadores relatando seu contato com a natureza. Organizar as informações através de roteiro determinado segundo o conteúdo da matéria construído por professores e alunos.

Objetivo: Exercitar a coleta, registro e classificação de informações visando a sistematização do conhecimento.

Material Proposto: Matérias adequadas à realização das atividades, livros e revistas.

115 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.72

116 op. cit. p.73

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Resultados da análise:

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Atividade 36: "Analisando e Levantando Hipóteses" 117

Selecionar matéria sobre incêndio e estimular o levantamento de hipóteses problematizando a questão, evitando tirar conclusões que não respeitem as etapas do processo de raciocínio dos alunos ( como o fogo começou e quais as possibilidades que os alunos conhecem para se iniciar um incêndio ? Como se acaba um incêndio ? Que materiais foram queimados neste evento noticiado ? ). Finalizar trabalhando o conceito de combustão.

Objetivo: Analisar fenômenos com o objetivo de levantar hipóteses e construir conceitos.

Material Proposto: Matéria jornalística apropriada para a atividade.

Resultados da análise:

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Atividade 37: "Atualização Científica" 118

Criar página semanal de jornal, noticiando as últimas descobertas científicas a partir do recorte de matérias publicadas nos jornais da semana redigindo comentários sobre as mesmas.

Objetivo: Ler e interpretar textos. Ampliar o repertório de informações e exercitar uma postura crítica diante da realidade.

117 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.75

118 op. cit. p.77

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Material Proposto: Matérias jornalísticas apropriadas para a atividade.

Resultados da análise:

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Atividade 38: "Ilustrando Conceitos" 119

A partir da leitura de matéria sobre música ( no exemplo ), explorar conceitos sobre o tema 'som' .

Objetivo: Sensibilizar os alunos para o estudo de conteúdos propostos, partindo do que eles já sabem, do que intuem, das vivências que têm acumuladas.

Material Proposto: Matéria apropriada para o desenvolvimento da atividade.

Resultados da análise:

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Atividade 39: "Relacionando Forma e Função" 120

Selecionar matérias ( com fotos ) sobre diferentes tipos de esportes. Buscar descrever os principais movimentos corporais realizados pelos atletas na pratica de cada esporte citado. A partir daí, introduzir estudos sobre os músculos do corpo humano. Pode-se analisar ainda os efeitos dos exercícios físicos para o organismo e os efeitos dos remédios como anabolizantes.

Objetivo: Entender a estrutura de funcionamento dos seres vivos.

Material Proposto: Matéria jornalística apropriada para a atividade.

119 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.78

120 op. cit. p. 80

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

Resultados da análise:

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Atividade 40: "Resolvendo Problemas do Meio Ambiente" 121

Recolher matérias sobre desmatamento de florestas buscando explicar as conseqüências desta prática a partir de questões propostas pelo professor que exijam dos alunos a aplicação de conhecimentos que os mesmos já acumularam e que podem servir para explicar fenômenos e encontrar respostas.

Objetivo: Aplicação do conhecimento adquirido.

Material Proposto: Matéria apropriada para a atividade.

Resultados da análise:

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2

121 Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação - 5ª a 8ª série, p.81

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

ANÁLISE DAS SUGESTÕES DE ATIVIDADES

( Caderno Folha Educação - 5ª a 8ª série )

 

Tabela para Coleta das Informações e Análise

 
 

1

2

1-

Tipo de Material Utilizado na

   

Espec.

Não Espec.

Atividade

 

29

= 72,5%

11

= 27,5%

2-

Vínculos com Conteúdos

 

Informação

C. Curricul.

Curriculares ou do Jornal

 

26

= 65%

29

= 72,5%

3-

Importância do Conteúdo da

   

Import.

Não import.

Matéria para a Atividade

 

32

= 80%

8 = 20%

4-

Importância da Atualidade da

   

Import.

Indiferente

Matéria Utilizada

 

6 = 15%

34

= 85%

5-

Interação do Aluno com

 

Favorece

Pode Favorecer

a Realidade Social Cotidiana

 

9

= 22,5%

31

= 77,5%

6-

Exigência de Acompanhamento

   

Exige

Não Exige

dos Desdobramentos do Assunto

 

0

40

= 100%

7-

Lib. de Escolha da Matéria

   

Existe

Não Existe

Utilizada na Atividade

 

7

= 17,5%

33

= 82,5%

8-

Objetivos da Atividade

Pedagógico

Cultural

Desenvolvida

 

37

= 92,5%

29

= 72,5%

9- Contrib. Da Ativ. P/ Apreensão Estrut. dos Conteúdos dos Currículos

Contribui

Não Contribui

20

= 50%

20

= 50%

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

No Caderno de Sugestões de Atividades do Folha Educação desenvolveram-se atividades relacionadas a cinco disciplinas: matemática, língua portuguesa, ciências, história e geografia. Para a análise das propostas, optamos por considerar o conjunto das sugestões sem dividi-las por disciplinas já que, dentre os objetivos do programa, está o interesse de desenvolver trabalho interdisciplinar.

Nossa análise mostrou que:

1- No que se refere ao tipo de material utilizado nas atividades, observamos que 72,5% deste ou é específico de jornal ou é mais comumente encontrado em jornal ou, ainda, não aparece normalmente nos materiais utilizados pela escola ( livros didáticos e paradidáticos ). Apenas 27,5% do material utilizado poderia ser encontrado em outras publicações. Isso revela que, para o desenvolvimento das atividades, o Folha Educação prioriza o material do jornal; mesmo quando o material não é específico de jornal, pode ser encontrado nele. Podemos dizer que, de fato, os jornais oferecem material educativo novo, o que pode ampliar as possibilidades de explorar temas de interesse educativo nos processos formais de educação. Por outro lado, em apenas 25% das propostas 122 há indicação para que o aluno faça uso também do livro didático, material que contém os conteúdos curriculares aos quais se referem a maioria das atividades.

2- No que se refere ao que chamamos de "vínculos" nesta análise, observamos que 65% das atividades propostas remetem o aluno, de alguma forma, a uma nova utilização do jornal. Isso quer dizer que as atividades, em sua maioria, buscam favorecer a que o aluno identifique o jornal como material importante - mas não indica, ainda, que o Programa favorece e a que o mesmo comece a perceber as possibilidades e vantagens de fazer uso permanente da informação. Por outro lado, 72,5%

122 Esta informação não está expressa na tabela que apresentamos, mas pode ser constatada mediante leitura do total das orientações contidas nos Cadernos para a realização das atividades.

O uso do Jornal como material educativo – Antonio Alberto Trindade – Mestrado – PUC/SP – 1999.

das atividades remetem o aluno à continuidade da apreciação dos conteúdos curriculares a que se referem 123 . Isso nos permite dizer que há, de fato, intenção das atividades em auxiliar no trabalho com os conteúdos curriculares, embora haja pouca indicação para a utilização do livro didático para aprofundá-los.

3- No que se refere à importância do conteúdo da matéria jornalística para o desenvolvimento das atividades, observamos que, para 80% destas, a atenção à informação contida na matéria ou a simples leitura atenta do conteúdo é exigida. Os 20% restantes das atividades podem ser realizadas fazendo-se "uso mecânico" do material proposto, ou seja, a não observância do conteúdo não impede a realização da atividade proposta. Tais informações nos revelam a ocorrência do "uso mecânico" do material, algo que se choca com diversos pontos dos objetivos desejados pelo Programa. Podemos ainda observar, embora não estejamos apresentando