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1. Período trovadoresco.

Poesia

1. Poesia profana

1.1.Contexto

Ao falarmos de lírica medieval não devemos olvidar que:


a) Os textos são de natureza oral, é dizer, nascem para serem ouvidos pelo que
a sua divulgação é boca-ouvido.
b) São textos que, como a própria etimologia de cantiga indica, se concebem
para serem interpretado com:
 Música
 Dança (soldadeiras)
c) Neste espectáculo intervêm as seguintes personagens:
 Soldadeiras (soldadeira > soldo): mulheres que bailavam
acompanhando os jograis. O seu era um trabalho pago e com má fama já
que eram acusadas frequentemente de prostituição (cantigas de escárnio
e maldizer). Soldadeiras conhecidas são Maria, a Balteira, Marinha ou
Maria, a Negra (conhecida como a Negra pela cor do seu pêlo púbico.)
 Trovadores (trovador > trova –verso–): são os que compõem as
cantigas e pertencem a uma classe social alta (reis, nobres, clérigos).
Normalmente conhecemos o seu nome completo (João Soares de
Coelho, João Garcia de Guilhade, Nuno Fernandes Torneol, Pero Garcia
Burgalês etc.)
 Jograis (jogral > joculator > joucus –jogo–): de estrato social baixo,
são os intérpretes das cantigas. Na prática alguns também se atreveram
a compô-las, razão pela que surgiram polémicas entre jograis e
trovadores. É frequente que não conheçamos o seu nome completo
(Lopo, Meendinho etc.)
d) A repetição é um recurso básico que não só tem uma finalidade estilística,
senão também prática já que, dada a oralidade das cantigas, facilita a sua
memorização. Exemplos disto são o refrão ou o leixa-prem.
e) A língua galego-portuguesa torna-se a língua especializada para a lírica
do momento, é dizer, torna-se uma koiné. Isto explica que o rei Afonso X
escrevesse em galego-português a sua obra lírica, mas usasse o castelhano para
a prosa (o castelhano era a koiné da prosa na Península).
f) É uma lírica importada da Provença, mas que sofre um processo de
adaptação no que também se introduzem elementos originais. Uma das vias
pelas que chega até o ocidente da Península Ibérica é o Caminho de Santiago.
 Períodos de expansão:
 Primeiro período: esta lírica chega só às zonas limítrofes à
Provença.
 Segundo período: estende-se ao norte da Itália, Catalunya, a
França, a Península Ibérica e mesmo chega às cortes de Inglaterra
e Alemanha. Chega a todos estes lugares através de poetas
itinerantes que percorrem as cortes e que estavam protegidos por
mecenas.
 Desenvolvimento nas diferentes áreas:
 Áreas mais próximas à Provença (norte de Itália e Catalunya): as
diferenças com a lírica provençal são muito poucas já que têm
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muitas características em comum (as línguas são parecidas). Nelas


mesmo se chegam a compor cantigas em provençal.
 Áreas com línguas muito diferentes nas que não se assume como
koiné a língua provençal (cortes alemã -minnesanger- e inglesa):
adaptação da lírica provençal.
 Áreas mais afastadas da Provença às que chega a influência da sua
lírica (Galiza, norte de Portugal e Sicília): a adaptação é muito
considerável. Há analogias entre o desenvolvimento desta lírica na
Península Ibérica e em Sicília, embora as dimensões da lírica galego-
portuguesa sejam superiores:
● A classe social alta dos trovadores.
● O desenvolvimento duma canção cuja voz lírica é feminina
(cantiga de amigo).

1.2.Origem

a) Por quê nasce na Provença?


Na Provença existem nesta altura factores sociopolíticos que favorecem o
nascimento desta lírica:
1) Papel da mulher, que tem igualdade jurídica com o seu marido, já que
pode dispor dos seus próprios bens sem o consentimento deste. Porém, isto
só é assim quando está casada, já que se é solteira depende do pai. Esta
situação de privilégio da mulher a respeito doutros lugares da Europa
espelha-se na cantiga de amor, onde é venerada (o trovador dirige-se a ela
chamando-lhe “senhor1”)
2) Feudalismo: a estrutura social que senhor – vassalo também se reflecte na
lírica, onde o léxico feudal é muito frequente.

b) As características da lírica provençal e a a sua adaptação à lírica


galego-portuguesa

1) A mulher cantada:
 na lírica provençal é sempre uma mulher casada (midons, senhor), real e
concreta, já que:
● tem independência
● considera-se que tem uma maior maturidade, física e psicológica,
requerida para tal paixão erótica
● achava-se que não existia o amor entre casados, já que o matrimónio
respondia a outros interesses (económicos...), pelo que o facto de a
mulher estar casada não impede que seja cantada pelos trovadores.
Deste modo, é uma lírica com um carácter adulterino.
 na lírica galego-portuguesa canta-se a uma mulher ideal, platónica, não
concreta:
● perde-se o carácter adulterino
● responde sempre às mesmas características físicas (bela) e
psicológicas (esquiva, tímida)
1
Os adjectivos e substantivos terminados en –or são invariáveis em relação ao género nos séculos XII,
XIII e primeira metade do XIV.

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● o trovador é sempre vítima do sentimento da coita, é dizer, da angustia


e tristeza perante uma senhor inalcançável
2) Joi ou contentação do amor:
 produz-se na lírica provençal
 é case inexistente na lírica galego-portuguesa e, quando aparece, não é
em tom sério, já que só se dá nas cantigas de escárnio e maldizer.
3) Gilós, o ciumento, marido da senhor:
 aparece na lírica provençal
 desaparece na lírica galego-portuguesa, já que não faz sentido
4) Senhal ou pseudónimo que o trovador dá à amada para ocultar o seu nome
real, já que é casada:
 dá-se na lírica provençal
 na lírica galego-portuguesa, em princípio, desaparece. Mas dá-se um
atitude de discrição, o trovador mede muito o que diz, é o que
denominamos mesura
5) Lauzengiers ou pessoas que maldizem a relação entre o trovador e a
amada:
 aparecem na lírica provençal
 carecem de sentido na lírica galego-portuguesa já que não tem carácter
adulterino
6) Graus na relação trovador – senhor:

1. Fenhedor A distância entre o trovador e a senhor é muito grande, pelo que o


(“suspirante”) trovador só pode suspirar por ela.
2. Precador
O trovador prega, suplica-lhe à senhor
(“suplicante”)
2. Entendedor O trovador é aceite pela senhor, mas obedecendo aos preceitos da
(“aceite”) mesura.
4. Drudo
Relação carnal entre o trovador e a senhor.
(“amante”)

 na lírica provençal pode-se chegar até o drudo


 na lírica galego-portuguesa o grau mais alto na relação é o de
entendedor

Há algumas excepções a estas normas gerais que segue a lírica galego-


portuguesa medieval:
a) João Garcia de Guilhade achega características físicas concretas da senhor à
que canta, dizendo que tem os olhos verdes. Este atrevimento dá lugar a
zombarias e para se mofar dele diz-se que se o que ele queria dizer era alhos
verdes, não olhos verdes.
b) João Soares Coelho canta a uma ama (mulher que amamenta a filhos alheios).
Como o facto de cantar a este tipo de mulher não é o normal, é objecto de
galhofa e diz-se que cantava a uma ama mamada, não a uma ama amada.

c) Teses que explicam a origem da lírica medieval galego-portuguesa

Há várias teses que tentam explicar as origens da lírica medieval galego-


portuguesa, mas nenhuma delas teve sucesso unânime perante a crítica. Hoje
continua a mesma situação, mas admite-se que entre todas podem explicar as origens

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desta lírica, já que todas têm parte de razão2. Na actualidade, considera-se que o
trovadorismo é um fenómeno sincrético, no que intervêm vários factores. Estas teses
são:
1) Tese folclórica: diz que a origem da lírica galego-portuguesa está no
folclore, em manifestações lúdicas como canções de trabalho rural (maias)
ou doméstico:
 dá-se um processo pelo que as cantigas populares se introduziriam na
corte;
 estabelecem-se duas fases: pretrovadoresca e trovadoresca;
 foi uma tese que esteve em voga no Romantismo, mas teve muitas
contestações posteriormente. Hoje é aceitada em parte, já que não se
nega que há um substrato folclórico (em especial nas cantigas de amigo).
2) Tese árabe ou arábigo-andaluça:
 a influência árabe seria mais visível nos lugares em que houve lutas de
reconquista;
 foi uma tese que também teve sucesso no Romantismo, pela paixão que
naquela altura havia pelo exótico.
3) Tese moçárabe: é uma variante da anterior. Alguns estudiosos defenderam
que a cantiga de amigo deriva das carjas3 moçárabes, com as que tem
pontos em comum:
 voz lírica feminina que se dirige a um amigo,
 expressão coloquial,
 ambiente
 ...
4) Tese latinista:
 considera que a origem está na literatura latina medieval que deslocar-
se-ia para uma literatura em língua vulgar;
 insiste nos traços compartilhados pelo trovadorismo e o cristianismo:
● êxtase perante a mulher / êxtase perante a virgem;
● submetimento perante a mulher / submetimento perante a virgem.

latino  vulgar
conversão
divino profano

5) Tese litúrgica ou paralitúrgica: variante da anterior que considera que a


lírica trovadoresca deriva da poesia culta da Igreja, que é uma assimilação
da poesia culta eclesiástica pelo povo. Baseia-se em aspectos:
 métricos,
 musicais,
 temáticos (admiração pela virgem e pela senhor).

2
Neste campo destaca o estudioso Rodrigues Lapa.
3
As carjas são pequenas composições em moçárabe que fazem parte duma composição maior em
árabe clássico, o muaxá.
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d) Vias de penetração

1) Caminho de Santiago: propagação da lírica medieval através de jograis


que amenizavam o caminho.
2) Outras romagens, coma a peregrinação a Santa Maria de Rocamadour
(nos Pirenéus) à que acudiam muitos galegos e portugueses.
3) Presença de trovadores e cavaleiros franceses na corte portuguesa que
emigraram por causa das guerras religiosas que houve na Provença.
4) Presença de guerreiros e cavaleiros militares que vieram da França para
participar na Reconquista a câmbio de terras. Muitos deles chegaram a se
assentar em território português e alguns foram mecenas.
5) Entrada na Península no século XI da ordem religiosa francesa de Cluny.
6) Comércio entre o ocidente da Península e a França, em especial de
tecidos4.
7) Chegada a Portugal de Afonso III, que tinha vivido na França e trouxe
com ele formadores franceses. Alguns destes formadores educaram D.
Dinis, quem conhece muito bem a lírica provençal5.

1.3.Tradição manuscrita

A lírica medieval galego-portuguesa chega até nós principalmente a través


de três grandes cancioneiros nos que conservamos umas 1680 cantigas duns 150
autores.
A) Descoberta dos cancioneiros:
 Até o século XIX só temos indícios da existência da lírica medieval
galego-portuguesa, como se indica na carta de D. Pedro, condestável de
Portugal, ao Marquês de Santilhana.
 No século XIX descobrem-se os cancioneiros.
B) Cancioneiros:
Lugar no que se
Cancioneiro Abreviaturas
conserva
mais restringida
mais habitual
(Península)
Cancioneiro de
CA A Portugal
Ajuda
Cancioneiro da
Biblioteca
CBN B Portugal
Nacional de
Lisboa
Cancioneiro da
CV V Itália
Vaticana

4
Muitos nomes de tecidos têm em português origem francesa, já que vieram da França nesta época.
5
“Quer’eu em maneira de provençal” (B 529b / V 123), “Provençais soem mui bem trobar” (B 524 / V
127).
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 Cancioneiros mais importantes:


1) Cancioneiro da Ajuda:
 Descoberto a finais do século XVIII entre os bens dos Jesuítas quando
estes foram expulsos.
 É um códice de pergaminho dum único volume escrito em duas colunas
e pelas duas caras.
 Copistas:
• Um para as cantigas.
• Um ou dois diferentes para as glosas marginais.
 Contém ilustrações que fazem referência ao espectáculo trovadoresco (é
o único cancioneiro que as tem).
 Está incompleto:
• Não aparece o nome de nenhum autor (para saber a autoria das
composições temos de recorrer a outros cancioneiros).
• Faltam miniaturas, iniciais, a notação musical...
 Só contém cantigas de amor, que deveram ser escritas no século XIII
no scriptorio de Afonso X.
 A primeira edição moderna data de 1904 e é de Carolina Michaëlis de
Vasconcelos, quem também comenta as glosas marginais em artigos.

2) Cancioneiro da Vaticana:
 Descoberto a mediados do século XVIII.
 É um códice de pergaminho organizado numa ou duas colunas.
 Copistas:
• Um transcreve as cantigas.
• Outro(s) copia o nome dos autores, numera algumas cantigas, escreve
notas (alguma atribuída ao próprio A. Colocci).
 É multigenérico.
 Parece datar dos séculos XV – XVI e deveu ser copiado no scriptorio
do humanista italiano Angelo Colocci Brancutti.
 Edições modernas:
• Teófilo Braga.
• Lindley Cintra.
3) Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa:
 Descoberto a finais do século XIX e adquirido pelo governo português
em 1924.
 É o cancioneiro no que se distinguem mais copistas.
 É o mais completo no que se refere ao número de composições.
 Deveu ser copiado entre os séculos XV e XVI no scriptorio de Colocci
Brancutti.
 Uma edição moderna é a de Machado e Cacheco.
 Contém um documento chamado Arte de Trovar ou Poética de B, o
único manual teórico da lírica galego-portuguesa medieval:
• É uma poética fragmentária (faltam capítulos e alguns capítulos não
estão completos).
• Num princípio considerou-se uma poética muito rigorosa por pensar-
se que pertencia à época de auge da lírica galego-portuguesa, mas
hoje sabemos que foi escrita numa época de decadência, razão pela
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que é possível que o que se expõe nela não seja o que domina na lírica
medieval. Podemo-la considerar uma tentativa de manter viva a
lírica galego-portuguesa medieval num momento de crise.
• A edição mais recente é de Tavani.

 Outros manuscritos:
 Cancioneiro Berkeley, descoberto nos anos 80 do século XX por dois
estudantes da Universidade de Berkeley (Califórnia). Não é mais que
uma cópia incompleta do Cancioneiro da Vaticana. Na actualidade
conserva-se na Universidade de Berkeley.
 Pergaminho Vindel (PV): pergaminho encontrado em Madrid por
Pedro Vindel na sua livraria (estava protegendo outro livro). Contém
sete cantigas de amigo de Martim Codax, seis delas com notação
musical (as únicas cantigas de amigo com notação musical).
 Pergaminho da Torre do Tombo (T): pergaminho que, como no
caso anterior, estava protegendo um livro. Contém sete cantigas de
amor de D. Dinis com notação musical (as únicas cantigas de amor
com notação musical).
 Pergaminho que contém uma tenção entre Afonso Sanches e
Martins de Resende (M): há duas cópias, uma está em Madrid e a outra
no Porto. Esta tenção também se encontra em B e V.
 Tavola Colocciana (TC): é um índice de 8 folhas com nomes de
autores galego-portugueses e números. Parece o índice dum
cancioneiro perdido e coincide bastante com a ordem de B, mas não
totalmente.
 Códice dos cinco lais de Bretanha: são três folhas de pergaminho
nas que se conservam estas cinco composições sobre a matéria de
Bretanha. São utilizados como indícios da recepção da matéria de
Bretanha no âmbito galego-português.

1.4.Análise formal

A terminologia que se refere à análise formal das cantigas é tirada da


Arte de Trovar. Nela recolhem-se termos como:
a) Talho, que se refere ao corpo da cantiga. Teve pouco sucesso entre a crítica.
b) Cobra, que se refere às estrofes.
c) Palavra, sinónimo de verso. Não teve sucesso entre a crítica, pode que para
evitar ambiguidades. Porém, conserva-se para denominar o recurso da palavra
perduda (verso livre).

Os aspectos mais importantes da análise formal a nível da cantiga, das


cobras e dos versos são os seguintes:
a) Cantiga: a sua dimensão é normalmente de 3 ou 4 cobras. Já que a
homogeneidade formal é muito importante, quando uma cantiga tem mais ou
menos cobras é importante assinalar este desvio da norma.
b) Cobras:
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 Normalmente têm 6 ou 7 versos.


 O esquema rimático mais habitual é:

abbaCC6 ababCC abbacca abbaccb ababcca ababccb aaB7

 Leixaprém: é a repetição dos segundos versos dum par de cobras como


primeiros do par seguinte. Para além duma finalidade estilística, tem
também uma finalidade prática (memorização do texto). É também muito
útil para a reconstrução de cantigas incompletas. Exemplo:
Sedia-m' eu na ermida de San Simión
e cercaron-mi-as ondas que grandes son.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Estando na ermida, ant' o altar,


cercaron-mi-as ondas grandes do mar.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

E cercaron-mi-as ondas que grandes son:


non ei i barqueiro nen remador.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

E cercaron-mi-as ondas do alto mar:


non ei i barqueiro nen sei remar.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Non ei i barqueiro nen remador:


morrerei eu, fremosa, no mar maior.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Non ei i barqueiro nen sei remar:


morrerei eu, fremosa, no alto mar.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Mendinho (B 852 / V 438)

 Cobras singulares e unissonantes:


 Cobras singulares: as cobras da composição apresentam rimas diferentes.
Na lírica galego-portuguesa há preferência por esta classe de cobras,
embora resulte paradoxal já que não são um recurso de repetição.
Exemplo:
Os namorados que trobam d' amor
todos deviam gram doo fazer
e nom tomar em si nem ũu prazer,
por que perderam tam boo senhor
como el rei dom Denis de Portugal,
de que nom pode dizer nem ũu mal
homem, pero seja posfazador.

Os trobadores que pois ficarom


eno seu regno e no de Leom,
no de Castela, e no d' Aragom,
nunca pois de sa morte trobarom.
E dos jograres vos quero dizer:
nunca cobrarom panos nem aver
e o seu bem muito desejarom.

Os cavaleiros e cidadãos
que d' este rei aviam dinheiros
e outrossi donas e scudeiros
matar se deviam com sas mãos,
por que perderom a tam bôo senhor,
de que posso eu bem dizer sem pavor
6
Usam-se maiúsculas para indicar que os versos são de refrão.
7
Esquema típico das cantigas de amigo.
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que nom ficou d' al nos cristãos.

E mais vos quero dizer d' este rei


e dos que d' el aviam bem fazer:
deviam-se d' este mundo a perder
quand' el morreu, per quant' eu vi e sei,
ca el foi rei atam mui prestador
e saboroso e d' amor trobador:
tod' o seu bem dizer nom poderei!

Mais tanto me quero confortar


em seu neto, que o vai semelhar
em fazer feitos de muito bõo rei.

Joam, jogral de Leom (V 708)

 Cobras unissonantes: as cobras da composição apresentam as mesmas


rimas. Exemplo:

Quer' eu em maneira de proençal


fazer agora um cantar d' amor,
e querrei muit' i loar mha senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi em:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.

Ca mha senhor quizo Deus fazer tal,


quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod' esto é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem,
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh' outra foss' igual.

Ca em mha senhor nunca Deus pos mal,


mais pos i prez e beldad' e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit', e por esto nom sei oj' eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom a, tra-lo seu bem, al.

D. Dinis (B 520b / V 123)

 Cobras capcaudadas: o último verso duma cobra tem a mesma rima que
o primeiro verso da cobra seguinte. É um modo de ligar cobras muito
habitual na lírica galego-portuguesa. Exemplo:
Proençaes soen mui bem trobar
e dizem eles que é com amor;
mais os que trobam no tempo da flor
e nom em outro, sei eu bem que nom
am tam gram coita no seu coraçom
qual m' eu por mha senhor vejo levar.

Pero que trobam e sabem loar


sas senhores o mais e o melhor
que eles pódem, sÔo sabedor
que os que trobam quand' a frol sazom
a, e nom ante, se Deus mi perdom,
nom am tal coita qual eu ei sem par.

Ca os que trobam e que s' alegrar


vam e-no tempo que tem a color
a frol comsigu' e tanto que se fôr
aquel tempo, logu' em trobar razom
nom am, nem vivem em qual perdiçom
oj' eu vivo, que pois m' a de matar.

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Dom Dinis (B 524 / V 127)

 Cobras capfinidas: uma palavra ou expressão do último verso duma


cobra reaparece na cobra seguinte de jeito literal ou com uma leve
modificação. É também muito habitual. Exemplo:
Maria Peres, a nossa cruzada,
quando veo da terra d'Ultramar,
assi veo de pardom carregada
que se nom podía com ele merger;
mais furtam-lh'o cada u vai maer,
e do perdom ja nom lhi ficou nada.

E o perdom é cousa mui preçada


e que se devia muit'a guardar;
mais ela nom ha maeta ferrada
em que o guarde, nem a pod'haver,
ca poiso cadead'em foi perder,
sempr'a maeta andou descadeada.

Tal maeta como será guardada


pois rapazes alhergam no lugar,
que nom haja seer mui trastornada?
Ca, o logar u eles ham poder,
nom ha pardom que s`i possa asconder,
assi sabem trastornar a pousada.

E outra cousa vos quero dizer:


atal pardom bem se dev'a perder,
ca muito foi cousa mal ganhada

Pero da Ponte (B 1642 / V 1176)

 Cobras capdenais ou capdenals: são as cobras que nos inícios de verso


repetem a mesma palavra ou expressão de maneira sistemática (literal ou
levemente modificada). Exemplo:
Quer' eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d' amor,
e querrei muit' i loar mha senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi em:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.

Ca mha senhor quizo Deus fazer tal,


quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod' esto é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem,
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh' outra foss' igual.

Ca em mha senhor nunca Deus pos mal,


mais pos i prez e beldad' e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit', e por esto nom sei oj' eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom a, tra-lo seu bem, al.

Dom Dinis (B 520b / V 123)

 Dobre e mordobre ou mozdobre: o dobre é a repetição duma palavra no


mesmo lugar de diferentes versos dentro da cobra. O mordobre é isto
mesmo, mas quando a palavra tem variações morfológicas (geralmente são
verbos). Exemplos:
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Se eu podesse desamar
a quen me sempre desamou,
e podess' algun mal buscar
a quen mi sempre mal buscou!
Assy me vingaria eu,
se eu podesse coyta dar,
a quen mi sempre coyta deu.

Mays sol non posso eu enganar


meu coraçon que m' enganou,
per quanto mi faz desejar
a quen me nunca desejou.
E per esto non dormio eu,
porque non poss' eu coita dar,
a quen mi sempre coyta deu.

Mays rog' a Deus que desampar


a quen mh' assy desamparou,
ou que podess' eu destorvar
a quen me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coyta dar,
a quen mi sempre coyta deu.

Vel que ousass' em preguntar


a quen me nunca preguntou,
per que me fez em ssy cuydar,
poys ela nunca em min cuydou.
E por esto lazero eu,
porque non poss' eu coyta dar,
a quen mi sempre coyta deu.

Pero da Ponte (A 289 / B 980 / V 567)

c) Versos: há bastante regularidade métrica e a maioria dos versos são


decassílabos (é assim mais ou menos na metade das cantigas). Não devemos
esquecer que na métrica medieval (e na portuguesa actual) só se tem em conta
para o cômputo silábico até a última sílaba tónica.
Que trist’ oj’ é meu amigo 7’
(o apóstrofo indica que a composição continúa com sílaba átona)
Que trist’ oj’ é meu amor 7

 Refrão: um ou dois versos que se repetem ao final de cada cobra. Se uma


cantiga não é de refrão é de mestria. É um recurso muito utilizado nas
cantigas de amigo.
 Fiinda: pequena estrofe situada ao final da composição a modo de
conclusão. Ainda que na Arte de Trovar se diz que é obrigatória em todas as
cantigas, só têm fiinda uma quarta parte das cantigas conservadas.

1.5.Géneros maiores

1.5.1. Cantiga de amor

a) Tem como temática o amor, ao igual que a cantiga de amigo, mas observa-se
mais aristocracia no tom e na forma.
b) A cantiga de amor estrutura-se como declaração amorosa ou lamento
perante a dama pela sua indiferencia ou altivez.

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c) A personagem protagonista é sempre a senhor, embora esta não seja sempre


a destinatária da cantiga. A descrição da senhor é:
 Psíquica, o trovador descreve especialmente as virtudes do seu
comportamento.
 Física, que se realiza só de modo genérico. Ademais, não há referências ao
tempo ou ao espaço já que é uma dama abstracta8.
d) Tavani estabelece os seguintes campos semânticos:
 Elogio da dama: pode aparecer explícito ou implícito, mas é sempre
positivo (frequentemente aparece como obra mestra de Deus).
 Amor do poeta: também pode aparecer explícito ou não e liga-se aos
seguintes motivos:
 Coita, sempre presente na lírica galego-portuguesa. Vê-se como um
sentimento contraditório já que produz pesar, mas também certo
prazer masoquista.
 Desejo da morte por amor.
 Reserva da dama: é sempre esquiva, tímida, discreta. Não se menciona o
seu nome, pelo que isto também está relacionado com a mesura.
 Não correspondência do amor: está ligada à coita e à sintomatologia que
produz o distanciamento da dama (insónia, pranto, loucura...). Expressa-se
por meio de fórmulas estereotipadas9.

Quer' eu em maneira de proençal


fazer agora um cantar d' amor,
e querrei muit' i loar mha senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi em: - Consciência das diferenças entre a lírica
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val. provençal e a lírica galego – portuguesa.
- Não faz uma cantiga ao estilo provençal, como
Ca mha senhor quizo Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
pretendem, já que a descrição da mulher
de todo bem e de mui gram valor, responde às convenções galego-portuguesas
e com tod' esto é mui comunal (fremosusa, é sabedor, é humilde, a obra
ali u deve; er deu-lhi bom sem, perfeita de Deus...). É uma descrição mais
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh' outra foss' igual. psíquica que física.
- Vocabulário:
Ca em mha senhor nunca Deus pos mal,
mais pos i prez e beldad' e loor • Prez: valor, virtudes.
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
• Ém: pronome indefinido (isto).
muit', e por esto nom sei oj' eu quem • Desi e er: partículas de apoio do discurso.
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom a, tra-lo seu bem, al.

D. Dinis (B 520b / V 123)

Proençaes soen mui bem trobar


e dizem eles que é com amor;
- Consciência das diferenças entre a lírica
mais os que trobam no tempo da flor provençal e a lírica galego – portuguesa.
e nom em outro, sei eu bem que nom
am tam gram coita no seu coraçom
- Cantiga meta-literária na que ataca os
qual m' eu por mha senhor vejo levar. trovadores provençais já que só trovam na
primavera, mentes que os galego-portugueses
Pero que trobam e sabem loar trovam independentemente da estação do ano.
sas senhores o mais e o melhor
que eles pódem, sõo sabedor Por isso considera que são hipócritas, que o seu
que os que trobam quand' a frol sazom sentimento não é verdadeiro.
a, e nom ante, se Deus mi perdom,
8
Ao contrário do que se passa na lírica provençal, onde há referências ao tempo e ao espaço ademais de
a características concretas da dama.
9
A cantiga de amor é muito homogénea e tem mais convenções que outros géneros.

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1. Período trovadoresco. Poesia

nom am tal coita qual eu ei sem par.

Ca os que trobam e que s' alegrar


vam e-no tempo que tem a color
a frol comsigu' e tanto que se fôr - Nos últimos versos aparece o campo semântico
aquel tempo, logu' em trobar razom da morte por amor.
nom am, nem vivem em qual perdiçom
oj' eu vivo, que pois m' a de matar.

D. Dinis (B 524 / V 127)

Senhor, eu vivo coitada


vida des quando vós nom vi;
mais pois vós queredes assi,
por Deus, senhor bem talhada,
querede-vos de mim doer
ou ar leixade m' ir morrer. - O trovador está no nível de precador.
Por Deus, mha senhor fremosa,
- Descreve-se a mulher, que está num status
vós sodes tam poderosa superior, como a obra perfeita de Deus.
de mim que meu mal e meu bem
em vós é todo; e porem
- Aprecia-se certo hibridismo, já que há
querede-vos de mim doer elementos mais próprios da cantiga de amigo:
ou ar leixade m' ir morrer. • Bem talhada: descrição demasiado concreta
Eu vivo por vós tal vida para a cantiga de amor.
que nunca estes olhos meus • Presença de refrão.
dormem, mha senhor; e por Deus,
que vos fez de bem comprida, - Observa-se as contradições do sentimento do
querede-vos de mim doer trovador, que sofre mas também sente certo
ou ar leixade m' ir morrer.
prazer.
Ca, senhor, todo m' é prazer
quant' i vós quizerdes fazer.

D. Dinis (B 552 / V155)

A dona que eu am' e tenho por senhor


amostrade-mh-a, Deus, se vos em prazer for,
se non dade-mh-a morte.

A que tenh' eu por lume d' estes olhos meus - Bernal de Bonaval é um autor de
e por que choran sempr', amostrade-mh-a, Deus, Compostela.
se non dade-mh-a morte.
- É relativamente anómala, já que o
Essa que vós fezestes melhor parecer trovador dirige-se a Deus e pede-lhe
de quantas sey, ay, Deus!, fazede-mh-a veer, ver a sua senhor.
se non dade-mh-a morte.
- Há expressões estereotipadas, como
Ay, Deus! que mh-a fezestes mays ca min amar, lume destes olhos meus.
mostrade-mh-a hu possa com ela falar,
se non dade-mh-a morte.

Bernal de Bonaval (B 1066 / V 657)

Os que non amam nen saben d' amor


fazen perder aos que amor am.
- Crítica aos que trovam de amor mentindo, já
Vedes porque: quand' ant' as donas vam, que isso faz que as senhores percam a
juram que morren por elas d' amor, confiança nos trovadores que amam de
e elas saben poys que non é 'ssy;
verdade.
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman, segundo meu sén. - Tem parecido com as composições que
atacam a Roi Queimado.
Ca sse elas soubessen os que an
ben verdadeyramente grand' amor, - Vocabulário:
d' alguen sse doeria ssa senhor,
mays, por aqueles que o jurad' am,
• Sen: juízo, pensamento.
cuydan-ss' elas que todus taes son;
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman, segundo meu sén.

E aqueles que ja medo non an


que lhis faça coita sofrer amor,
vÊen ant' elas e juran melhor
ou tan ben come os que amor an,
e elas non saben quaes creer;
e por esto perç' eu e os que ben

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lealmente aman, segundo meu sén.

E os ben desanparadus d' amor


juram que morren com amor que an,
sseend' ant' elas, e menten de pran;
mays, quand' ar vÊen os que an amor,
ja elas cuydan que vÊen mentir;
e por esto perç' eu e os que ben
lealmente aman, segundo meu sén.

Joan Baveca (B 1108 7 V 699)

1.5.2. Cantiga de amigo

a) Temática amorosa, mas com uma atmosfera, esquemas formais e


perspectiva diferentes.
b) A voz emissora é a mulher, que exprime os seus sentimentos. É uma
moça, muito diferente da senhor e que se pode manifestar de diferentes
modos:
 apaixonada,
 magoada,
 vingativa pelas infidelidades do amigo,
 consciente do seu poder de sedução perante o amigo e outros homens.
c) Os destinatários podem ser:
 Seres humanos:
 mãe,
 amigas,
 irmãs.
 Elementos da natureza:
 animais,
 plantas,
 paisagem.
d) Têm-se assinalado a existência de elementos folclóricos que relacionariam
a cantiga de amigo com cantigas populares ligadas, sobre tudo, a fainas
agrícolas (como a festa das maias). Estes substratos folclóricos estão
presentes na paisagem (costa ou campo) que, em geral, responde a um locus
amoenus.
e) Várias cantigas de amigo têm sido chamadas cantigas de romaria pela
alusão a certas festas e santuários da Península (Compostela, Faro, Santa
Maria de Cádis, Ermida de San Simon...). Na actualidade não é uma
denominação aceite pela crítica já que as romarias não são a temática, só um
pretexto para o encontro amoroso.
f) Tavani estabelece os seguintes campos semânticos para a cantiga de
amigo:
 Panegírico ou elogio positivo, tanto do amigo como da moça (auto-elogio),
sobre tudo físico:
 Adjectivos recorrentes: formosa, belida, bem talhada, garrida, louçã,
delgada (delicada).
 Alusão a partes do corpo, em especial aquelas com tradição literária
erótica: cabelos, vão (cintura, talhe).

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1. Período trovadoresco. Poesia

 Alusões a peças do vestuário: cintas, camisas (peça interior nesta


altura).
 Concórdia do amor: prazer de sentir-se apaixonada e / ou ilusão pelo
reencontro com o amigo.
 Amor insatisfeito: quando não é correspondido, há ciúmes ou se
conhecem infidelidades.
 Proibição da relação amorosa:
 Da mãe.
 Derivada de circunstâncias externas, como a ausência do amigo que
geralmente está cumprindo obrigações militares (em cas d’el rei, no
ferido, no fossado).

Sedia-m' eu na ermida de San Simión


e cercaron-mi-as ondas que grandes son.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Estando na ermida, ant' o altar,


cercaron-mi-as ondas grandes do mar.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

E cercaron-mi-as ondas que grandes son:


non ei i barqueiro nen remador.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá? - Motivo da romaria.
E cercaron-mi-as ondas do alto mar: - Erotismo que vai aumentando segundo avança a
non ei i barqueiro nen sei remar. composição (a moça está rodeada pela água).
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Non ei i barqueiro nen remador:


morrerei eu, fremosa, no mar maior.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Non ei i barqueiro nen sei remar:


morrerei eu, fremosa, no alto mar.
Eu atendend' o meu amigu'! E verrá?

Mendinho (B 852 / V 438)

-"Digades, filha, mia filha velida,


porque tardastes na fontana fría?".
-"Os amores ei".

-"Digades, filha, mia filha louçana,


porque tardastes na fría fontana?".
-"Os amores ei". - Erotismo: cervo10 e água. O cervo vai beber à
água, o que simboliza a relação sexual.
-"Tardei, mia madre, na fontana fría,
cervos do monte a augua volvían. - Forma dialogada, que não é maioritária nas
Os amores ei. cantigas de amigo, mas tampouco rara. O
diálogo dá-se entre a mãe e a filha.
Tardei, mía madre, na fría fontana,
cervos do monte volvían a augua. - Adjectivação referente à rapariga: louçana,
Os amores ei". velida.
-"Mentís, mia filha, mentís por amigo, - Atitude da rapariga: mente para defender a
nunca vi cervo que volvess' o río". sua relação como o amigo.
-"Os amores ei".

-"Mentís, mia filha, mentís por amado,


nunca vi cervo que volvess' o alto".
-"Os amores ei".

Pero Meogo (B 1192 / V 797)

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Embora a simbologia erótica do cervo seja anterior, esta aparecia na Bíblia no Livro do Cantar dos
Cantares.

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Ai flores, ai flores do verde pino,


se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,


se sabedes novas do meu amado!
Ai, Deus e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,


aquel que mentiu do que pos commigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,


aquel que mentiu do que mh a jurado, - O amigo está longe.
Ai Deus, e u é?
- A natureza como interlocutora, que ademais
Vós preguntades polo voss' amigo? tem voz já que diz que o amigo voltará são e
E eu bem vos digo que é san' e vivo.
Ai Deus, e u é?
vivo.
- Recursos formais como o leixa prém.
Vós preguntades polo voss' amado?
E eu bem vos digo que é viv' e sano.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é san' e vivo,


e será vosc' ant' o prazo saido.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv' e sano,


e será vosc' ant' o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

D. Dinis (B 568 / V 171)

Poys nossas madres van a San Simon


de Val de Prados candeas queymar,
nos, as meninhas, punhemus d' andar
com nossas madres, e elas enton
queymen candeas por nos e por sy, - Cantiga na que a romaria é um pretexto para
e nos meninhas baylaremus hy.
seduzir ao amigo.
Nossus amigus todus lá hiran - Presença do baile, um elemento erótico. Neste
por nos veer, e andaremus nos
bayland' ant' eles, fremosas, em cos,
caso o erotismo aumenta já que dizem bailar
e nossas madres, pois que alá van, em “cos” (deixando ver as formas do seu
queymen candeas por nos e por ssy, corpo).
e nos meninhas baylaremus hy.
- As amigas são o interlocutor.
Nossus amigus hiran por cousir - Auto-panegírico.
como baylamus, e poderan veer
baylar moças de .... bon parecer; - Forma: refrão, procedimentos de ligação
e nossas madres, poys lá queren hir, interestrófica...
queymen candeas por nos e por ssy,
e nos meninhas baylaremus hy.

Pero Viviaez (B 735 7 V 336)

1.5.3. Cantiga de escárnio e maldizer

A) Denominação:
1) Na Poética de B diferencia-se entre:
 Cantigas de escárnio: são aquelas que “dizem mal de alguém
cobertamente”, é dizer, usam palavras com “dois entendimentos” o
que dá lugar a ambiguidade (equivocatio).
 Cantigas de maldizer: são as que “dizem mal de alguém chãamente”,
usando palavras com um só entendimento.
2) Na actualidade defende-se a denominação geral de cantigas de escárnio e
maldizer sem a distinção que se faz na Arte de Trovar porque:

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1. Período trovadoresco. Poesia

 Na prática não se observa a distinção exposta pela Arte de Trovar, já


que há cantigas acompanhadas por rubricas que as definem como
escárnio que, segundo a Poética de B, deveriam ser de maldizer e vice-
versa.
 Para a crítica literária actual é muito difícil estabelecer a diferença,
já que há palavras que no século XIII podiam ter dois entendimentos
e que hoje só tenham um e vice-versa.
B) Campos semânticos (Tavani):
1) Tirados doutros géneros:
 Coita: descrição deste sentimento com um sentido zombeteiro (Pero
Garcia Burgalês).
 Descriptio puellae: descrição da mulher em sentido humorístico:
 Descrição carnavalesca de todas as partes do corpo (nariz, queijo,
embigo, cu...).
 Referências a peças de vestir, ornamentos, à maquilhagem
(alvaiadades –branco–, revol –vermelho– e concela –rosado–).
 Paisagem urbana, na que não se dá o locus amoenus da cantiga de
amigo.

2) Próprios:
 Falta do ethos trovadoresco, é dizer, ausência da ética trovadoresca e
presença do mundo ao revês ou do mundo às avessas. Aparece, em
geral, em sátiras com carácter moral.
 Alimentação: referência a produtos comestíveis ou bebidas (vinho)
para ridiculizar a fome e a o o facto de serem avarentos certos
homens que dizem ser ricos.
 Polémica social: ataca-se a todos os grupos sociais. Alguns exemplos
são:
 jograis e trovadores;
 ricomens e infanções, que presumem de riqueza mas não a têm;
 físicos (assim são chamados os médicos nesta altura);
 as três religiões existentes na Península nessa altura:
• dos judeus critica-se que são avaros;
• dos árabes critica-se a propensão a manter relações sexuais;
• dos cristãos critica-se a todo o clero, desde o Papa até os freires.
 Obscenidade: léxico referido aos órgãos sexuais e às relações sexuais
(homossexuais e heterossexuais) como é o caso de pissa, pissuça,
cono, conon, talho ou merenda. Normalmente ataca-se a impotência
ou o tamanho dos órgãos sexuais (pissuça, conon).

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Em Arouca ũa casa faria;


atant' ei gran sabor de a fazer,
que já mais custa non recearia
nen ar daria ren por meu aver,
ca ei pedreiros e pedra e cal;
e desta casa non mi míngua al
se non madeira nova, que queria.

E quen mi a desse, sempr' o


serviria, - Cantiga de escárnio e maldizer na que se ataca às
ca mi faria i mui gran prazer
de mi fazer madeira nova aver,
freiras do mosteiro de Arouca.
em que lavrass' ũa peça do dia, - Seria, segundo a Arte de Trovar, uma cantiga de
e pois ir logo a casa madeirar
escárnio, já que usa palavras de dois entendimentos
e telhá-la; e, pois que a telhar,
dormir em ela de noit' e de dia. (pedreiros > testículos11; pedra > pene; cal > sémen;
madeira nova > freiras; fazer a casa > manter relações
E, meus amigos, par Santa Maria, sexuais).
se madeira nova podess' aver,
logu' esta casa iria fazer
e cobri-la; e descobri-la-ia
e revolvê-la, se fosse mester;
e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.

Afonso Lopes de Baián (B 1471 /


V 1081)

Maria Peres, a nossa cruzada,


quando veo da terra d'Ultramar,
assi veo de pardom carregada
que se nom podía com ele merger;
mais furtam-lh'o cada u vai maer,
e do perdom ja nom lhi ficou nada.

E o perdom é cousa mui preçada


e que se devia muit'a guardar;
mais ela nom ha maeta ferrada
em que o guarde, nem a pod'haver,
ca poiso cadead'em foi perder, - Cantiga de escárnio e maldizer na que se ataca a
sempr'a maeta andou descadeada. Maria a Balteira, quem acompanhou os soldados numa
cruzada a Ultramar. Vão a Terra Santa onde ela não
Tal maeta como será guardada
pois rapazes alhergam no lugar,
só não ganha o perdão, senão que volta com mais
que nom haja seer mui trastornada? pecados.
Ca, o logar u eles ham poder,
nom ha pardom que s`i possa
asconder,
assi sabem trastornar a pousada.

E outra cousa vos quero dizer:


atal pardom bem se dev'a perder,
ca muito foi cousa mal ganhada

Pero da Ponte (B 1642 / V 1176)

Fernand' Escalho vi eu cantar ben,


que poucos outros vi cantar melhor,
- Ataca-se o trovador Fernando Escalho, do
e vy lhe sempre, mentre foy pastor, que se diz que perde o seu talento para a
muy boa voz, e vy o cantar ben; interpretação.
mays ar direy vus per que o perdeu:
ouve sabor de foder, e fodeu, - Obscenidade.
e perdeu todo o cantar poren. - Seria, seguindo a Arte de Trovar, uma cantiga
Non se guardou de foder, e mal sen de maldizer já que usa vocabulário claro (foder).
fel' el, que non poderia peor;
e an lhas gentes poren desamor,
per bÔa voz que perdeu com mal sen,
voz de cabeça que xi lhi tolheu,
ca fodeu tanto que lh' enrouqueceu
a voz, e ora ja non canta ben.

Ca Don Fernando conteceu assy:

11
O mais habitual para se referir aos testículos é o termo companhões.

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de mui bÔa voz que soya aver,


soube a per avoleza perder,
ca fodeu moç', e non canta ja assy;
ar fodeu poys mui grand' escudeyron
e ficou ora, se Deus mi perdon!
com a peyor voz que nunca vi.

E ora ainda mui grand' infançon


si quer foder, que nunca foy sazon
que mays quisesse foder, poylo eu vi.

Pero Garcia Burgalês (B 1377 / V985)

Porque no mundo mengou a verdade


puñei um dia de a ir buscar,
e u por ela fui a preguntar
disseron todos: "Allur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que non podemus én novas aver,
nen ja non anda na irmaidade".

Nos moesteiros dos frades regrados


a demandei, e disseron-m' assi:
"Non busquedes vós a verdad' aqui
ca muitos anos avemos passados
que non morou nosco, per bõa fé,
nen sabemos u ela agora x’é - Falta do ethos trovadoresco: ataque à
e d' al avemos maiores coidados".
hipocrisia e à mentira.
E em Cistel, u verdade soía - Polémica social: ataque ao clero.
sempre morar, disseron-me que non
morava i avia gran sazon,
- Vocabulário:
nen frade d' i ja a non coñocia; • Allur: noutro lugar.
nen o abade outrosi no estar
sol non queria que foss' i pousar
e anda ja fora desta badia.

Em Santiago, seend' albergado


em mia pousada, chegaron romeus;
preguntei-os e disseron: "Par Deus,
muito levade-lo camiñ' errado,
ca se verdade quiserdes achar
outro camiño conven a buscar,
ca non saben aqui d' ela mandado".

Airas Nunes (B 871 / V 455)

1.6.Géneros menores e géneros contaminados


Tradicionalmente usaram-se as etiquetas de géneros menores e géneros
contaminados para todas aquelas cantigas que não se podiam inserir dentro dos
géneros maiores. Porém, na actualidade é mais habitual distinguir entre géneros
menores e géneros contaminados:
A) Géneros menores: são géneros bem definidos, com características temáticas
e / ou formais próprias, mas com pouca representação na lírica medieval
galego-portuguesa. São os seguintes:
1) Tenção, um género do que só conservamos algumas dezenas de textos e
cujas principais características são:
 Apresentam forma de diálogo:
• Entre dois trovadores ou entre um trovador e um jogral (é o mais
frequente) que geralmente discutem sobre o espectáculo trovadoresco
com afã de competitividade.
• Dá-se o princípio da paridade já que, em geral, um interlocutor
intervêm numa cobra e o outro na seguinte.

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• A forma e temática da cantiga são determinadas na primeira cobra


pelo primeiro interlocutor.
 A temática é em geral satírica. Em raros casos há temática amorosa
(fin’amors ou amor cortês), quando é assim recebem o nome específico de
partimem ou joc partit.
 A linguagem é muito coloquial e mesmo chega até o insulto pessoal e
grotesco, aproximando-se também com frequência à obscenidade. Há
também notas humorísticas.

-Lourenço, soías tu guarecer


como podias, per teu citolon,
ou ben ou mal, non ti digu' eu de non,
e vejo-te de trobar trameter;
e quero-t' eu desto desenganar:
ben tanto sabes tu que é trobar
ben quanto sab' o asno de leer.

-Joan d' Avoín, já me cometer


veeron muitos por esta razon
que mi dizian, se Deus mi perdon,
que non sabia 'n trobar entender;
e veeron poren comigu' entençar,
e fígi-os eu vençudos ficar;
e cuido vos deste preito vencer. - Lourenço é atacado por Joam d’Avoim, como
em muitas outras tenções, porque se diz que
-Lourenço, serias mui sabedor, não sabe nem trovar (alusões às suas cantigas
se me vencesses de trobar nen d' al,
ca ben sei eu quen troba ben ou mal,
de amor), nem compor, nem tocar. Mas ele
que non sabe mais nen um trobador; gaba-se de que muitos fazem tenção com ele.
e por aquesto te desenganei;
e vês, Lourenço, onde cho direi:
quita-te sempre do que teu non for.

-Joan d' Avoín, por Nostro Senhor,


por que leixarei eu trobar atal
que mui ben faç' e que muito mi val?
Des i ar gradece-mi-o mia senhor,
por que o faç'; e, pois eu tod' est' ei,
o trobar nunca o eu leixarei,
poi-lo ben faç' e ei i gran sabor.

Johan Peres d' Avoim (V1010)

2) Pranto: é um género com menos presença do que a tenção na lírica galego-


portuguesa medieval.
 É uma composição na que se chora a morte dum ser querido ou bem
considerado socialmente.
 Tem a sua origem no planh provençal.
 Só conservamos 5 prantos na lírica galego-portuguesa medieval, quatro de
Pero da Ponte e um de Joam, jogral de Leom. Há várias hipóteses que
intentam explicar que haja tão poucos prantos, tem-se assinalado como
causa a lei promulgada por Afonso X que diz que só se pode chorar a altos
nobres, mas já havia poucos prantos antes dessa lei.

Os namorados que trobam d' amor Chora-se a morte do rei D. Dinis seguindo duma
todos deviam gram doo fazer
e nom tomar em si nem ũu prazer,
forma bastante fiel o esquema do planh provençal:
por que perderam tam boo senhor - Elogio das características do defunto (como rei,
como el rei dom Denis de Portugal,
como trovador e como mecenas).
de que nom pode dizer nem ũu mal
homem, pero seja posfazador. - Demanda de amostras de dor e luto (mesmo
mãos tratos físicos).
Os trobadores que pois ficarom
eno seu regno e no de Leom, - Consolação num sucessor, que neste caso
no de Castela, e no d' Aragom,
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nunca pois de sa morte trobarom.


E dos jograres vos quero dizer:
nunca cobrarom panos nem aver
e o seu bem muito desejarom.

Os cavaleiros e cidadãos
que d' este rei aviam dinheiros
e outrossi donas e scudeiros
matar se deviam com sas mãos,
por que perderom a tam bõo senhor,
de que posso eu bem dizer sem pavor
que nom ficou d' al nos cristãos.
seria D. Pedro o Cru.
E mais vos quero dizer d' este rei
e dos que d' el aviam bem fazer:
deviam-se d' este mundo a perder
quand' el morreu, per quant' eu vi e sei,
ca el foi rei atam mui prestador
e saboroso e d' amor trobador:
tod' o seu bem dizer nom poderei!

Mais tanto me quero confortar


em seu neto, que o vai semelhar
em fazer feitos de muito bõo rei.

Johan (B 1117 / V 708)


3) Descordo:
 Pode-se incluir dentro dos géneros menores, mas com certas reservas já que
quase não podemos falar da existência de descordos na lírica galego-
portuguesa medieval.
 Caracteriza-se pela irregularidade métrica, estrófica e mesmo léxica
(composições escritas em várias linguas).
Eras quan vey verdeyar
Pratz e vergiers e boscatges,
- Descordo no que se usam 7 línguas (com
Vuelh um descort comensar provençalismos)
D'amor, per qu'ieu vauc aratges;
Q'una dona.m sol amar,
Mas camjatz l'es sos coratges,
Per qu'ieu fauc dezacordar
Los motz e.ls sos e.ls lenguatges.

Io son quel que ben non aio


Ni jamai non l'averò,
Ni per april ni per maio,
Si per ma donna non l'o;
Certo que em so lengaio
Sa gran beutà dir non sò,
çhu fresca qe flor de glaio,
Per qe no m'em partirò.

Belle douce dame chiere,


A vos mi doin e m'otroi;
Je n'avrai mes joi' entiere
Si je n'ai vos e vos moi.
Mot estes male guerriere
Si je muer per bone foi;
Mes ja per nulle maniere
No.m partrai de vostre loi.

Dauna, io mi rent a bos,


Coar sotz la mes bon' e bera
Q'anc fos, e gaillard' e pros,
Ab que no.m hossetz tan hera.
Mout abetz beras haisos
E color hresc' e noera.
Boste son, e si.bs agos
No.m destrengora hiera.

Mas tan temo vostro preito,


Todo.n son escarmentado.
Por vos ei pen' e maltreito
E meo corpo lazerado:
La noit, can jatz em meu leito,
So mochas vetz resperado;

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Literatura Portuguesa I
(das origens à Renascença)
2007/2008
USC
1. Período trovadoresco. Poesia

E car nonca m'aprofeito


Falid' ei em mon cuidado.

Belhs Cavaliers, tant es car


Lo vostr' onratz senhoratges
Que cada jorno m'esglaio.
Oi me lasso que farò
Si sele que j'ai plus chiere
Me tue, ne sai por quoi?
Ma dauna, he que dey bos
Ni peu cap santa Quitera,
Mon corasso m'avetz treito
E mot gen favlan furtado.

Rimbaut de Vaqueiras, descordo 16

4) Cantiga de seguir: são composições que retomam ou reelaboram outras


com a intenção de melhora-las (rivalidade entre os autores).

Baylemos agora, por Deus, ay velidas,


sô aquestas avelaneyras frolidas
e quen fôr velida, como nós velidas,
s' amig' amar,
sô aquestas avelaneyras frolidas
verrá baylar!

Baylemos agora, por Deus, ay loadas,


sô aquestas avelaneyras granadas
e quen fôr loada, como nós loadas,
s' amig' amar.
sô aquestas avelaneyras granadas
verrá baylar!

Johan Zorro (B 1158B / V 761)

Bailemos nós ja todas tres, ai amigas,


so aquestas avelaneiras frolidas,
e quen for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos nós ja todas tres, ai irmanas,


so aqueste ramo d' estas avelanas, - Airas Nunes reelabora outra cantiga sobre
e quen for louçana como nós, louçanas, “Baylemos agora, por Deus, ay velidas,” de
se amigo amar,
so aqueste ramo d' estas avelanas Joam Zorro.
verrá bailar. - Mantém-se o esquema formal e a primeira cobra
é quase igual.
Por Deus, ai amigas, mentr' al non fazemos
so aqueste ramo frolido bailemos,
e quen ben parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
so aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.

Airas Nunes (B 879 / V 462)


B) Géneros contaminados: pertencem a eles aqueles textos que apresentam uma
evidente contaminação dum dos géneros maiores galego-portugueses por
algum género específico provençal. Conservamos também poucos textos deste
tipo. Alguns dos géneros provençais que “contaminam” os géneros maiores
galego-portugueses são:
1) Alva: o seu esquema resulta da intersecção entre um motivo cristão
(surgimento do Sol e fim das estrelas) e a temática da separação dos amantes
com a chegada da luz, frequente na poesia amorosa.
 O esquema estrito da alva é:
• Ambientação na manhã.

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Literatura Portuguesa I
(das origens à Renascença)
2007/2008
USC
1. Período trovadoresco. Poesia

• É anunciada a chegada da luz (pelo canto do galo, por alguma pessoa...)


• Os amantes lamentam-se de ter de separar-se.
 Na lírica galego-portuguesa não temos alvas propriamente ditas, senão
cantigas de amigo contaminadas deste género provençal.

Levad', amigo, que dormides as manhãas frias;


todalas aves do mundo d' amor dizian:
leda m' and' eu.

Levad', amigo, que dormide'-las frias manhãas;


todalas aves do mundo d' amor cantavan:
leda m' and' eu.

Toda-las aves do mundo d' amor diziam;


do meu amor e do voss' em ment' avian:
leda m' and' eu.

Toda-las aves do mundo d' amor cantavan;


do meu amor e do voss' i enmentavan: - É uma cantiga de amigo contaminada do
leda m' and' eu. género da alva, já que tem o motivo da
manhã.
Do meu amor e do voss' em ment' avian;
vós lhi tolhestes os ramos em que siian:
- Contrapõe-se:
leda m' and' eu. • Felicidade (locus amoenus)
Do meu amor e do voss' i enmentavam; • Infelicidade (locus horribilis)
vos lhi tolhestes os ramos em que pousavan:
leda m' and' eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que siian


e lhis secastes as fontes em que bevian:
leda m' and' eu.

Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavan


e lhis secastes as fontes u se banhavan:
leda m' and' eu.

Nuno Fernandez (B 641 / V 242)

Da noite d' eire poderam fazer


grandes tres noites, segundo meu sen,
mais na d' oje mi vẽo muito ben,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh' enviasse dizer ren,
vẽo a luz e foi logo comigo.

E, pois m' eu eire senlheira deitei,


- Tem-se denominado alva, mas não tem todas as
a noite foi e vÊo e durou, características do género:
mais a d' oje pouco a semelhou, • Contrapõe-se a noite anterior (infeliz e longa
ca vẽo meu amigo;
e, tanto que mi a falar começou, porque não esteve com o amigo) com a
vẽo a luz e foi logo comigo. vindiora (que será feliz e curta porque estará
com o amigo).
E comecei eu eire de cuidar
e começou a noite de crecer, • A luz aparece mesmo como motivo do
mai-la d' oje non quis assi fazer, encontro.
ca vẽo meu amigo
e, faland' eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.

Juião Bolseiro (B 1166 / V 772)

2) Pastorela:

 O esquema da pastorela é o seguinte:


• Um cavaleiro que encontra uma pastor pela que se apaixona.
• O cavaleiro intenta convence-la de que o aceite, para o que lhe oferece
dõas (presentes).
• A pastor aceita ou não.
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Literatura Portuguesa I
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1. Período trovadoresco. Poesia

 Na lírica galego-portuguesa tem-se denominado como pastorela até 7


textos, porém só um tem segue o esquema anterior.

Unha pastor bem talhada


cuidava em seu amigo,
e estava, bem vos digo,
per quant' eu vi, mui coitada;
e diss': oi mais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mh o meu a errado.

Ela tragia na mão


um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores,
pois m' errastes tam em vão?"
E caeu antr' unhas flores. É um texto muito anómalo:
Unha gram peça do dia - Contém um elemento exótico pouco frequente: o
jouv' ali, que nom falava, papagaio.
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia; - É uma cantiga de amigo contaminada do género
e diss': "Ai Santa Maria! pastorela, do que só aparece o termo pastor.
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, por quant' eu sei, senhora".

"Se me queres dar guarida",


diss' a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m' é esta vida".
Diss' el: "Senhora comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos a servida,
erged' olho e vee-lo-edes".

D. Dinis
(B 534; V 137)

Pelo souto de Crecente Aproxima-se mais ao género da pastora que a anterior, mas
ũa pastor vi andar
muit' alongada de gente,
interrompe-se a historia pelo que fica como uma tentativa de
alçando voz a cantar, pastorela.
apertando-se na saia,
quando saía la raia
do sol, nas ribas do Sar.

E as aves que voavan,


quando saía l' alvor,
todas d' amores cantavan
pelos ramos d' arredor;
mais non sei tal qu' i 'stevesse,
que em al cuidar podesse
senon todo em amor.

Ali 'stivi eu mui quedo,


quis falar e non ousei,
empero dix' a gran medo:
-Mia senhor, falar-vos-ei
um pouco, se mi ascuitardes,
e ir-m' ei quando mandardes,
máis aqui non estarei.

-Senhor, por Santa Maria,


non estedes máis aqui,
mais ide-vos vossa via,
faredes mesura i;
ca os que aqui chegaren,
pois que vos aqui acharen,
ben diran que máis ouv' i.

Johan Airas
(B 967; V 554)

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1. Período trovadoresco. Poesia

Cavalgava noutro dia


per o caminho francês
e Ûa pastor siia
cantando com outras tres
pastores e non vos pês,
e direi-vos toda via
o que a pastor dizia
aas outras em castigo:
"Nunca molher crêa per amigo,
pois s' o meu foi e non falou migo".
Tampouco tem o esquema da pastorela, já a voz
"Pastor, non dizedes nada,
emissora é um cavaleiro que ouve a uma pastor que
diz ũa d' elas enton;
se se foi esta vegada, ataca o seu amigo por não ter cumprido a sua
ar verrá-s' outra sazon palavra, não se desenvolve o esquema do género.
e dirá-vos por que non
falou vosc', ai ben talhada,
e é cousa mais guisada
de dizerdes, com' eu digo:
"Deus, ora veess' o meu amigo
e averia gram prazer migo".

Johan Perez d' Aboim


(B 676; V 278)

Quand' eu hun dia fuy em Compostela


em romaria, vi hunha pastor
que, poys fuy nado, nunca vi tan bela,
nen vi outra que falasse milhor,
e demandey-lhe logo seu amor
e fiz por ela esta pastorela.

Dixi-lh' eu logo: "Fremosa poncela,


queredes vós min por entendedor,
que vos darey boas toucas d' Estela,
e boas cintas de Rrocamador,
e d' outras doas a vosso sabor,
e ffremoso pano pera gonela?"

E ela disse: "Eu non vos queria


por entendedor, ca nunca vos vi
se non agora, nen vus filharia
doas que sey que non som pera min, É o único texto da lírica galego-portuguesa que
pero cuyd' eu, sse as filhass' assy,
que tal á no mundo a que pesaria.
podemos considerar como pertencente ao género da
pastorela.
E, se vẽess' outra, que lhi diria,
sse me dizesse ca per vós perdi
- Conta-se o encontro entre um cavaleiro e
meu amigu' e doas que me tragia? uma pastor à que ele lhe oferece dõas.
Eu non sey rem que lhi dissess' aly; - Ela, em princípio, rejeita-o porque não o viu
se non foss' esto de que me tem' i,
non vos dig' ora que o non faria". nunca e crê que essas dõas são para outra, mas
acaba aceitando-o.
Dix' eu: "Pastor ssodes bem rrazõada,
e pero creede, se vos non pesar,
que non est' oj' outra no mundo nada,
se vós non sodes, que eu sábia amar,
e por aquesto vos venho rrogar
que eu seja voss' ome esta vegada".

E diss' ela, come bem ensinada:


"Por entendedor vos quero filhar
e, poys for a rromaria acabada,
aqui, d' u sõo natural, do Sar,
cuydo-m' eu, se me queredes levar,
ir-m' ei vosqu' e fico vossa pagada."

Pedr' Amigo de Sevilha


(B 1098; V 689)

3) Lai: composição amorosa protagonizada por personagens pertencentes ao


ciclo artúrico.
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1. Período trovadoresco. Poesia

1.7.Textos conservados
A) Os inícios da lírica galego-portuguesa medieval
1) “No mundo non me sei parella” de Pai Soarez Taveirós

Conhecida como “a cantiga da guarvaya”, é


considerada a primeira composição de amor mas,
No mundo non me sei parella embora se encontre só no Cancioneiro da Ajuda, tem
mentre me for como me vay, elementos da cantiga de amor e também satíricos:
ca ja moiro por vós e, ay!
mia sennor branca e vermella,
queredes que vus retraya Elementos da cantiga de Elementos do género
quando vus eu vi em saya? amor satírico
Mao dia me levantei Notas de cor sobre a
que vus enton non vi fea! Morte de amor (verso 3)
senhor (verso 4)
Vestimenta:
E, mia sennor, des aquella Palavra senhor (versos 4,
me foi a mi mui mal di' ay! - saya (verso 6)
9, 14)
E vus, filla de don Paay - guarvaya (verso 13)
Moniz, e ben vus semella
Aparecimento do termo
d' aver eu por vós guarvaya?
pois eu, mia sennor, d' alfaya Coita (versos 9 e 10) feia, embora esteja negado
nunca de vós ouve nen ei (verso 8)
valia d' ũa correa. Quebra da mesura dando a
identidade da senhor: filha
Pai Soarez de Tabeirós de Paay Moniz (Dona Maria
(A 38)
Pais Ribeiro, a Ribeirinha,
conhecida por ser amante
de D. Sancho I)

2) “Ai eu coitada! como vivo em gram cuidado” de Afonso X (Sancho


I?)

Ai eu coitada! Como vivo em gram cuidado


por meu amigo que ei alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda! - Foi considerada durante muito tempo a
cantiga de amigo mais antiga, já que era
Ai eu coitada! Como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e non vejo! atribuída a Sancho I (quem lha teria
Muito me tarda dedicado à Ribeirinha).
o meu amigo na Guarda!
- Porém, desde 1994 é atribuída a Afonso X.
Alfonso X o Sábio
(B 456)

3) “Ora faz ost’ o senhor de Navarra” de Joham Soarez de Pavia:


Ora faz host'o senhor de Navarra,
pois em Proenç'ést'el-Rei d'Aragón;
- É considerada a cantiga da mais cantiga da
non lh'han medo de pico nen de marra lírica galego-portuguesa medieval.
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen han medo de lhis poer boçón - É um sirventês político escrito perante um
e riir-s'han muit'Endurra e Darra; feito concreto: o senhor de Navarra vai roubar
mais, se Deus traj'o senhor de Monçón,
ben mi cuid'eu que a cunca lhis varra. ao Reino de Aragão aproveitando que o rei de
Aragão está fora. Faz isto porque o seu exército
Se lh'o bon Rei varré-la escudela é temeroso e não ousaria roubar doutro jeito.
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest'outr'em Todela,
que al non ha a que olhos alçar:
- É um texto doado de datar pelas suas alusões
ca verrá i o bon Rei sejornar históricas.
e destruír ata burgo d'Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.

Quand'el-Rei sal de Todela, estrẽa


ele sa host'e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh'e de pẽa,
ca van a furt'e tornan-s'em correr;
guarda-s'el-Rei, come de bon saber,

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que o non filhe luz em terra alhẽa,


e onde sal, i s'ar torn'a jazer
ao jantar ou senón aa cẽa.

Joán Soares de Pavia


(B 1330 BIS;V 937)

Estes textos, dos inícios do século XIII, são os mais antigos conservados,
mas isto não quer dizer que já existissem composições trovadorescas anteriores a esta
data.
B) O final da lírica galego-portuguesa medieval
Emblematicamente considera-se a que a lírica galego-portuguesa
medieval remata com a morte de D. Pedro, Conde de Barcelos, em 1354, já que se
considera o último mecenas e trovador. Pelo que o trovadorismo galego-português
remata a meados do século XIV.

Depois desenvolver-se-ia o que Henri Lang denominou Escola galego-


castelhana para se referir a trovadores posteriores que compõem numa língua cheia
de castelhanismos e lusismos. Um conhecido autor desta escola é Macías, o
Namorado.

2. Poesia religiosa: cantigas de Santa Maria


2.1.Manuscritos
Conservamos mais de 400 cantigas de Santa Maria, organizadas por
Afonso X, o Sábio e repartidas em 4 manuscritos:
 Conservados na Biblioteca Nacional de Madrid (1), na Biblioteca do
Escorial (2) e em Florência (1). Há também códices menores.
 Com miniaturas e notação musical. Neste senso um dos da Biblioteca do
Escorial é o mais rico, de facto é conhecido como o códice rico do Escorial.

2.2.Autoria
São compostas por vários autores organizados por Afonso X (quem
também compõe algumas) entre os que destaca Airas Nunes pelo número de
composições. Com todo, a autoria das cantigas de Santa Maria é uma questão sem
resolver.

2.3.Fontes
a) Lendas orientais.
b) Lendas tiradas de lendários latinos.
c) Impressões e recordos dos autores (algumas declaram-se autobiográficas).
d) Provérbios ou conselhos orais.
e) Colecções de milagres em romance:
 Los milagros de Nuestra Señora de Gonzalo de Berceo, cuja influencia
nas cantigas de Santa Maria é hipotética, já que não é seguro que se
conhecesse esta obra na corte de Afonso X.

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1. Período trovadoresco. Poesia

 Les milacres de Notre Dame de Gautier de Coincy, que influe em vários


aspectos:
• Estrutura da obra em cantigas de milagres e cantigas de loor.
• Modelo visual: miniaturas.
• Modelo musical: melodias.

Com todo, a obra de Afonso X supera a todas as suas fontes.

2.4.Estrutura
As cantigas de Santa Maria apresentam uma estrutura simétrica baseada
em fórmulas numéricas:
a) As cantigas que ocupam o número 10 e os seus múltiplos são sempre de loor
e as restantes posições correspondem a cantigas de milagres, que se
caracterizam por estarem localizadas, geralmente em santuários como o de
Santa Maria de Salas (Huesca), Montserrat (Catalunya) ou Santa Maria del
Puerto (Cádiz).
b) Outras cantigas formam ciclos como as festas de Maria ou os pesares da
Virgem pelo seu filho.

2.5.Motivação
a) Imperialista: têm um carácter propagandístico já que Afonso X pretende
demostrar o poder da sua Igreja e concorrer com a Igreja. Filgueira Valverde
tem qualificado as cantigas de Santa Maria de anti – galegas.

Monarquia vs. Igreja


Toledo vs. Santiago de Compostela
Virgem vs. Apóstolo Santiago

b) Exemplaridade: todas as cantigas têm uma finalidade didáctica, sublinhada


no refrão. É muito frequente que na primeira cobra apareça uma tese e que se
desenvolva nas cobras seguintes.
c) Universalidade: o carácter enciclopédico da obra contribui para prestigia-la.

Este é o prólogo das cantigas de Santa Maria,


emetanto as cousas que á mester eno trovar
- Parece da autoria de Afonso X:
• Como coordenador da obra.
Porque trobar é cousa em que jaz
entendimento, poren queno faz • Como trovador que diz cantar à sua senhor,
ao d'aver e de razon assaz, sendo neste sentido um canto de amor ao
per que entenda e sabia dizer divino.
o que entend' e de dizer lle praz,
ca ben trobar assi s'a de ffazer. - É como uma poética na que se diz o que se
deve trovar e o que se pretende loar. Assim,
E macar eu estas duas non ey
com' eu querria, pero provarei manifesta-se a vontade de trovar só à Virgem
a mostrar ende um pouco que sei, para cantar os seus milagres e agradece-los.
confiand' em Deus, ond' o saber ven,
ca per ele tenno que poderei
mostrar do que quero alguna ren.

E o que quero é dizer loor


da Virgen, madre de nostro Sennor,
Santa Maria, que ést' a mellor
cousa que el fez; e por aquest' eu

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quero seer oy mais seu trobador


e rogo-lle que me quiera por seu

Trobador e que queira meu trobar


reçeber, ca per el quer' eu mostrar
dos miragres que ela fez; e ar
querrei-me leixarde trobar des i
por outra dona, e cuid' a cobrar
per esta quant' enas outras perdi.

Onde lle rogo, se ela quiser,


que lle praza do que dela disser
em meus cantares e, se ll'aprouguer,
que me dé gualardon com' ela da
aos que ama; e queno souber,
por ela mais de grado trobará.

Esta é de loor de Santa Maria, do


departimento que á entre ave e eva

Entre Av' e Eva


gran departiment' á.

Ca Eva nos tolleu


o Parays' e Deus,
Ave nos y meteu;
porend', amigos meus:
Entre Av' e Eva...

Eva nos foi deitar


do dem' em sa prijon, - Cantiga de loor na que se elogia a Virgem.
e Ave em sacar;
e por esta razon: - Baseia-se na proximidade fónica entre eva e
Entre Av' e Eva... ave, muito aproveitada na literatura (por
exemplo, nos sermões do Padre António Vieira).
Eva nos fez perder
amor de Deus e ben,
e pois Ave aver
no-lo fez; e poren:
Entre Av' e Eva...

Eva nos ensserrou


os çeos sen chave,
e Maria britou
as portas per Ave.
Entre Av' e Eva...

Cantiga LX

Esta é de loor de Santa Maria, das çinque


leteras que á no seu nome e o que queren
- Cantiga de loor.
dizer. - Atribui-se-lhe um valor simbólico a cada uma
Eno nome de Maria
das letras do nome de Maria.
çinque letras, no-mais, y á.

M mostra MADR' e MAYOR


e mais MANSA e mui MELLOR
de quant' al fez Nostro Sennor
nen que fazer poderia.
Eno nome de Maria...

A demostra AVOGADA,
APOSTA e AORADA,
e AMIGA e AMADA
da mui santa conpannia.
Eno nome de Maria...

R mostra RAM' e RAYZ,


e REYNN' e Emperadriz,
ROSA do mundo; e ffiz
quena visse ben seria.
Eno nome de Maria...

I nos mostra JHESU-CRISTO,


JUSTO JUYZ, e por isto

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1. Período trovadoresco. Poesia

foi por ela de nos visto,


segun disso Ysaýa.
Eno nome de Maria...

A ar diz que AVEREMOS


e que tod' ACABAREMOS
aquelo que nos queremos
de Deus, pois ela nos guia.
Eno nome de Maria...

Cantiga LLX

Esta é como Santa Maria acrecentou o vỹo no tonel, por


amor da bõa dona de Bretanna.

Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo


ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno.

Desto direi um miragre que fez em Bretanna


Santa Maria por hũa dona mui sen sanna,
em que muito bon costum’e mui bõa manna
Deus posera, que quis dela seer seu vezỹo.
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno.

Sobre toda-las bondades que ela avia,


era que muito fiava em Santa Maria;
e porende a tirou de vergonna um dia
del Rei, que a ssa casa vẽera de camỹo
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno.

A dona polo servir foi muit’afazendada


e deu-lhe carn’e pescado e pan e cevada;
mas de bon vỹo pera el era mui menguada,
ca non tĩia senon um pouco em um tonelcỹo.
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo - Cantiga de milagres.
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno.
- Fonte bíblica: casamentos de Canaã.
E dobrava-se-ll’a coita, ca pero quisesse
ave-lo, non era end’em terra que podesse
por dĩeiros nonpor outr’aver que por el désse,
se non fosse pola Madre do Vell’e Menĩo.
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno.

E com aquest’asperança foi aa eigreja


e diss’ ”Ai, Santa Maria, ta mercee seja
que me saques daquesta vergonna tan sobeja;
se non, nunca vestirei ja mais lãa nen lỹo.”
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno

Mantenent’a oraçon da dona foi oyda


e el Rei e ssa companna toda foi conprida
de bon vinn’,e a adega non em foi falida
que non achass’y avond’o rique’e o mesqỹo.
Como Deus fez vỹo d’agua ant’Archetecrỹo
ben assi depois sa Madr’acrecentou o vinno

Cantiga XXIII
(CSM 23)

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