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ATENÇÃO: TEXTO PARA ESTUDO DO GRUPO DE PESQUISA, NÃO DEVENDO

SER DIVULGADO NESTA FORMA

INTELIGÊNCIA OPERÁRIA E ORGANIZAÇÃO DO


TRABALHO:
A PROPÓSITO DO MODELO JAPONÊS DE PRODUÇÃO1

Christophe Dejours2

PREÂMBULO

Este texto não tem por objetivo trazer conhecimentos novos (nem mesmo um
ponto de vista novo) sobre as questões de Psicopatologia do Trabalho3 levantadas no
Japão pelo novo modelo de produção. A discussão aberta na França sobre os processos
psíquicos mobilizados pelos trabalhadores (para enfrentarem as dificuldades ligadas à
organização do trabalho) apóiam-se, como se sabe, na teoria psíquica do sujeito. Ora,
esta teoria depende, até prova em contrário, do contexto sócio-histórico ocidental. A
literatura japonesa em psicopatologia não nos leva a pensar que a teoria sobre a qual
nos baseamos aqui tenha valor operacional no contexto daquele país.
Por outro lado, por não dispor de nenhuma pesquisa pessoal de campo sobre o
trabalho no Japão, só tenho conhecimento da situação real através de dados de segunda
mão, quer dizer, de trabalhos sobre o Japão publicados por outros autores. Estes

1
In: Helena Hirata (org.), Sobre o “Modelo” Japonês. São Paulo, EDUSP, 1995 (publicado na França em
1993). Nota do Coordenador do Grupo de Pesquisa (NC).
2
Trata-se do autor mais destacado da abordagem em Psicologia que se denomina, a partir dos anos 90,
“Psicodinâmica do Trabalho”. Diversos de seus livros foram já publicados no Brasil, dentre os quais: A
loucura do trabalho, São Paulo, Oboré, 1987 (publicado na França em 1980, no Brasil pela primeira vez
em 1987, já com diversas reedições) e O fator humano, São Paulo, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 1997
(publicado na França em 1995). NC.
3
A partir de 1993, na nova edição ampliada (Travail: usure mentale – Nouvelle édition augmentée: De
la psychopathologie à la psychodynamique du travail. Paris, Bayard Eds. 1993. Obra ainda não
publicada no Brasil) do livro Travail: Usure mentale: essai de psychopathologie du travail (publicado
em 1987 sob o título A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho), em seu “Adendo
Teórico” (traduzido e publicado em livro no Brasil em uma de coletânea de textos de Dejours –
Christophe Dejours: da psicopatologia à psicodinâmica do trabalho. Rio de janeiro/Brasília, Ed.
Fiocruz/ Paralelo 15, 2004. Desde ali Dejours propõe uma nova denominação para a abordagem de seu
grupo, a partir de então: Psicodinâmica do Trabalho (que incorporaria em seu interior os estudos acerca
de Psicopatologia do Trabalho). NC.
últimos, ademais, são mais pesquisadores de ciências sociais do que especialistas em
psicologia.
Portanto não é o caso de trazer aqui um julgamento sobre as práticas de trabalho
realizadas pelos japoneses, que, aliás, talvez não tenham muito o que fazer com as
meditações do psicopatologista do trabalho.
Em compensação, o sistema japonês de produção é alvo, na França, de acirradas
discussões, às vezes seguidas por ações, no campo da organização do trabalho e da
administração. Ora, tais ações já provocam efeitos concretos sobre a vida comum dos
trabalhadores, e é a propósito disso que o psicopatologista francês é interpelado muitas
vezes por engenheiros, organizadorcs do trabalho, conceptores, médicos e organizações
sindicais.
Para o pesquisador que, partindo da clínica do trabalho, esforça-se em analisar a
relação subjetiva com a tarefa, e que às vezes tem a impressão – talvez ilusória? – de
captar seus processos e suas dinâmicas, tão insólitas quanto fascinantes, certamente as
pesquisas sobre o funcionamento do sistema japonês registradas pelos pesquisadores
em ciências sociais têm o efeito de uma bomba.
A primeira impressão é de estar diante de um enigma: de que maneira a
subjetividade dos trabalhadores é solicitada na empresa japonesa?
A segunda impressão é mais uma reação de perplexidade não isenta de angústia:
haverá algum lugar, no funcionamento do sistema japonês de produção, para o jogo
desta subjetividade à qual o ocidental se apega tanto?
Sem temer a repetição, que vale como uma advertência ao leitor, não pretendo
elucidar aqui o enigma nem dissipar a perplexidade ansiosa que acabo de mencionar.
Trata-se sobretudo de levantar questões e talvez mesmo de aprofundá-las, no
intuito de encaminhá-las de volta aos pesquisadores e especialistas do modelo japonês
(e de suas aplicações no mundo), que tiveram a audácia ou a temeridade de questionar
este modelo quanto a suas implicações psicológicas, e mesmo quanto a seus efeitos
sobre a saúde mental dos trabalhadores.
Para justificar as questões que serão aqui enunciadas, começaria expondo o
estado da reflexão em Psicopatologia do Trabalho sobre a “inteligência criadora” no
trabalho: concepção da mobilização psíquica que difere consideravelmente das teorias
clássicas da motivação4.

4
A crítica à noção de motivação em Psicologia, está presente desde o começo na obra de Dejours, como
pode-se encontrar em um texto publicado na França em 1982, contido em uma coletânea de textos de
INTRODUÇÃO

Todos os trabalhos reunidos neste volume deixam entender, em diferentes graus,


que o modelo japonês conhece um sucesso indubitável, pelo menos no Japão, em
matéria de produtividade e de qualidade. Diversas interpretações são propostas para dar
conta da formidável participação dos trabalhadores, dos esforços impressionantes, e
mesmo da dedicação, de que eles dão provas em favor da causa da empresa japonesa.
Para tanto, evocam-se as contrapartidas de que eles se beneficiam no novo modelo:
• estabilidade inigualável de emprego,
• perfil de carreira gratificante,
• taxa salarial elevada, e sobretudo adicionais de todo tipo.
Estas contrapartidas econômicas ou materiais seriam suficientes para se
compreender as condutas observadas entre os trabalhadores japoneses e para elucidar as
transações que se operam entre atores (ou entre sujeitos) no novo regime de produção?
Talvez, mas parece, de qualquer modo, que, procedendo-se a uma análise
decididamente limitada à dimensão material da troca (ou das transações), supõe-se que
a vivência subjetiva dos trabalhadores alinha-se docilmente com as normas econômicas
e as relações mercantis onde se enquadra. Este é um ponto de vista que pode ser
questionado, na medida em que estamos nos referindo a certas situações concretas
precisas, estudadas na França — em que sob essas mesmas referências econômicas
(emprego, carreira, salário e adicionais) os trabalhadores franceses não têm muito o que
invejar dos trabalhadores japoneses — situações concretas, portanto, em que as
condutas singulares e as práticas coletivas revelam-se bastante renitentes ao que
implicaria uma explicação fundamentada unicamente nas transações econômicas
evocadas (Dejours, 1989).
É forçoso, portanto, ao que me parece, levar em consideração não somente as
dimensões econômicas, mas também as dimensões não-materiais do trabalho, isto é, as
dimensões psicológicas e simbólicas, e mesmo comunicacionais, no sentido
habermasiano do termo.

autores dessa abordagem: C. Dejours & E. Abdoucheli, “Desejo ou motivação? A interrogação


psicanalítica do trabalho”, in C. Dejours, E. Abdoucheli & C. Jayet, Psicodinâmica do Trabalho:
No plano teórico, além do mais, inúmeros pesquisadores retomaram – sabemos o
quão tumultuadamente – a toda-poderosa razão econômica. Diante disso, certos autores,
ao contrário, passaram a privilegiar em suas teorizações as distâncias entre
determinações econômicas e condutas sociais, elaborando conceitos novos para
explicar não as regularidades, mas justamente as diferenças e heterogeneidades entre as
condutas adotadas pelos diversos atores [(conceito de práticas coletivas; Cottereau,
1980) (conceito de aprendizagem coletiva; Kergoat, 1984)].
Esta inflexão na ordem da teoria sugere, por outro lado, que se adote certa
prudência, em princípio, quando se trata de examinar o “modelo japonês”; justificando-
se uma desconfiança em relação a identificações apressadas: sem dúvida, pelo modo
com que às vezes se comenta na França o “modelo japonês”, a própria heterogeneidade
da situação no Japão e as diferenças entre grandes e pequenas empresas, entre
trabalhadores da matriz e de empresas subcontratadas, entre a situação das mulheres e
dos homens etc., são temas vistos de maneira um tanto sumária.
Para questionar a dimensão psicológica da relação com o trabalho no modelo
japonês, pode-se escolher, dentre diversos temas, um problema particular: o da
confiabilidade, ou da confiabilização dos sistemas homem-máquina, a partir do qual
mostrarei, em referência aos estudos empíricos realizados na França, como se pode
analisar o envolvimento das subjetividades no trabalho. Depois de propor um esboço
teórico da inteligência criadora investida no trabalho, formularei algumas perguntas
endereçadas aos pesquisadores que têm por objetivo o estudo de campo da dimensão
psicodinâmica da relação homem-trabalho no sistema japonês de produção.

COMPONENTES SUBJETIVOS DA CONFIABILIDADE


(O FATOR HUMANO)

Todos conhecem a quantidade impressionante de pesquisas realizadas sobre a


confiabilidade dos sistemas complexos e das tecnologias que apresentam riscos de
acidentes graves (para os trabalhadores, para o meio ambiente e para as populações
mais próximas). Essas pesquisas podem ser reunidas sob duas rubricas: estudos
referentes aos equipamentos técnicos e às instalações (segurança) – os estudos de

contribuição da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo, Atlas,
1993. NC.
confiabilidade; e estudos referentes a qualidade do trabalho efetuado pelos operadores –
os estudos sobre o fator humano.
Nesta literatura, é comum considerar o fator humano a partir de uma perspectiva
pejorativa: falha humana, erro humano, inconsciência humana, negligência humana,
distração, inconsequência, incompetência etc. são termos e expressões que permeiam o
discurso dos especialistas.
De acordo com esta concepção do fator humano, a luta pela confiabilidade está
prioritariamente voltada para objetivos técnicos: melhoria dos circuitos de
retrocontrole, multiplicação dos dispositivos técnicos de segurança, substituição dos
homens, sempre que isto for viável, por automatismos supostamente mais confiáveis. O
pensamento subjacente a tal concepção da confiabilidade consiste portanto em tentar,
sempre que possível, desembaraçar-se dos homens, os causadores de problemas.
Diversos autores, há alguns anos, vêm criticando esta concepção da confiabilidade
(Reasomi, 1989; de Keyser, 1989; Llory, 1990). Na Psicopatologia do Trabalho, as
coisas tomaram o rumo oposto, em função dos dados empíricos coletados em estudos
de campo, que não corroboravam absolutamente a concepção pejorativa do fator
humano (Dejours, 1980). Mostrou-se, ao contrário, a propósito das indústrias químicas,
como, sob o efeito do medo, os operários engendravam artifícios, graças aos quais eles
preveniam certos incidentes e otimizavam o funcionamento do processo. Mais tarde, a
propósito dos operários de construção civil e de obras públicas, demonstrou-se que, em
matéria de segurança das pessoas no trabalho, tudo se passava da mesma forma que em
matéria de segurança das instalações: os próprios operários inventam, elaboram e
tramitem uns aos outros os procedimentos mediante os quais eles evitam certos
acidentes de trabalho, procedimentos estes que não lhes haviam sido ensinados nem
durante a sua formação nem pela supervisão. Trata-se dos “savoir-faire5 de prudência”
(Cru, 1983). Pouco depois, o mesmo autor mostrava como o controle dos riscos de
acidentes implica o coletivo e passa pelas práticas de linguagem específicas que não só
reflete um saber comum, como também contribuem para constituí-lo e para construí-lo
(Cru, 1984).
E em todos esses savoir-faire de prudência — exatamente da mesma forma que em
relação aos savoir-faire em geral e “artifícios de ofício” — que eu gostaria de

5
Em uma tradução literal: saber-fazer. NC.
encaminhar a discussão sobre a confiabilidade e a confiabilização dos trabalhadores,
levantada pelo funcionamento do sistema de produção japonês.

SAVOIR-FAIRE E INTELIGÊNCIA ARDILOSA

Parece difícil compreender os desempenhos japoneses sem supor que os recursos da


inteligência operária sejam particularmente bem utilizados pela organização do trabalho
e pela gerência. Para tentar interrogar o êxito do modelo japonês, não se pode deixar de
pensar no que a clínica do trabalho nos ensina sobre o investimento da inteligência na
tarefa. Os levantamentos que mais serviram de base de estudo referem-se ao trabalho de
ofício, tanto nas tarefas artesanais tradicionais quanto nos novos ofícios (inventores de
programas informáticos, mecânicos, operadores nas indústrias de processamento,
pilotos de caça, enfermeiros de reanimação etc.). Esses levantamentos nos levaram a
especificar os recursos psíquicos da inteligência prática, que convém distinguir dos
requisitos cognitivos, dos quais não trataremos neste trabalho.

INTELIGÊNCIA ARDILOSA
CARACTERÍSTICAS META PSICOLÓGICAS

1. A primeira característica desta inteligência pratica é, do ponto de vista psíquico,


estar fundamentalmente enraizada no corpo6. Muitos dos achados extraordinários e
muitos dos ajustes ordinários na organização do trabalho e na prevenção de acidentes
passam pela solicitação dos sentidos, alertados por uma situação ou por um evento que
rompe a rotina ou ocasiona desconforto (ou desagrado). Um ruído, uma vibração, um
cheiro, um sinal visual podem, assim, solicitar o sujeito, mas primeiro em seu corpo;
mas desde que exista previamente uma experiência, vivida pelo corpo inteiro, da
situação comum de trabalho. Portanto, são em primeira lugar essas mudanças (ou, ao
contrário, a repetição, quando esta se torna dolorosa) que alertam o corpo e suscitam a
curiosidade, totalmente tensa desde o início, em busca de uma explicação, e mesmo de
uma solução apaziguadora. Este envolvimento do corpo na tarefa, assim como a

6
Este, como outros negritos no corpo do texto, foram por nós introduzidos, para efeitos didáticos. NC.
primazia da percepção, coloca a inteligência prática, tanto em seu desencadear quanto
em sua intencionalidade, numa temporalidade atual que somente a Fenomenologia
permite captar e comentar (Merleau-Ponty, 1976; Schutz, 1987).
Esta dimensão corpórea da inteligência prática é importante ser considerada, na
medida em que ela implica um funcionamento que se distingue fundamentalmente do
raciocínio lógico. É a desestabilização do corpo total, em sua relação com a situação,
que desencadeia, inicia e acompanha o exercício desta inteligência prática. Por isso,
esta inteligência é fundamentalmente uma inteligência do corpo. Tal assertiva repousa
em uma discussão metapsicológica, da qual faremos apenas menção neste trabalho a
título de referência (Dejours, 1986; Rosenfield, 1989:79).
Independentemente de seu desencadear, o alvo intencional do ato de consciência,
que orienta em seguida a ação, confere à inteligência uma direção e objetivos que serão,
mais uma vez, conduzidos pelo corpo e pela percepção. Neste processo, que incita o
operário a agir sobre a organização de seu trabalho, os dados técnicos e científicos são
muitas vezes utilizados dentro de uma temporalidade inversa daquela de um raciocínio
científico ou experimental. A partir dos dados perceptivos, o operário esboça muito
rapidamente uma interpretação, um diagnóstico ou uma medida corretiva, e só interroga
a técnica depois da atitude tomada, para verificar, operacionalizar e universalizar a
tentativa que lhe foi sugerida pela intuição alimentada e dirigida por suas percepções.
Esta dimensão corporal da inteligência é que se mobiliza primeiro quando os
operadores se esforçam por corrigir o funcionamento de uma linha de produção, e
mesmo introduzir nela verdadeiras inovações. Envolvimento do corpo por conta de uma
inteligência prática, que acarreta êxitos, obtidos não sem uma ocasional insolência em
relação aos conhecimentos e ao raciocínio tecnocientíficos, que geralmente se
acreditam serem indissociáveis da ordem da máquina. Assim, pode-se observar que
diversos operadores ignoram a maior parte dos conhecimentos fundamentais de
informática e matemática, mas se mostram capazes de intervir com eficácia sobre a
programação, e até ou mesmo aperfeiçoam os programas. Os desempenhos desta
inteligência prática são menos limitados do que em geral acreditamos.
O exemplo a seguir foi tirado de um levantamento realizado em uma indústria de
petroquímica: os operadores que supervisionam as instalações na sala de controle, nas
fases de funcionamento em regime de ritmo normal, têm o hábito de jogar scrabble. Tal
prática insólita em um local de trabalho onde a vigilância deveria ser constante inquieta
os próprios operários e suscita uma espécie de culpa. Eles escondem esta prática
comum liberando rapidamente a mesa de jogo quando ouvem um chefe se aproximar da
sala de controle do processo.
Os chefes, por sua vez, estão a par desta prática de jogo scrabble durante as horas
de trabalho, que desaprovam e tentam proibir, sem no entanto recorrer a sanções.
Em Psicopatologia do Trabalho, há um princípio fundamental de investigação e de
análise: toda conduta, mesmo que pareça aberrante ou absurda, tem sempre um sentido
e uma razão de ser. Sobretudo quando esta conduta possui uma certa estabilidade na
vida comum de trabalho..., até prova em contrário. A idéia que orienta a investigação
consiste portanto em procurar aquilo que, apesar da vivência subjetiva de culpa dos
operários, poderia iniciar e estabilizar a prática do jogo de scrabble na sala de controle.
As reuniões de trabalho com o coletivo, em que operadores e pesquisadores trocam
idéias, proporcionaram os seguintes resultados: quando o processo funciona com uma
certa estabilidade e quando ele é bem regulado, os operários se aborrecem. Tal situação
de inatividade os irrita, os aborrece, e, com o tempo, faz com que eles sejam dominados
pela angústia.
Ao jogarem scrabble, eles encontram, perto das mesas de controle, uma ocupação
que proporciona certo convívio, e então se acalmam. Mas ao fazerem isso, eles também
fazem muito mais do que parece. O jogo de scrabble exige ás vezes tempo e reflexão
entre as jogadas, o que permite a um ou a outro se levantar, voltar um momento para as
mesas de controle e proceder ao aperfeiçoamento de uma regulagem de vazão ou de
pressão. Depois ele retoma seu lugar na mesa de jogo. De vez em quando, portanto, um
jogador deixa a mesa e intervém no processo. De fato, durante todo o tempo do jogo
eles “escutam” o processo. Escutam o barulho, as vibrações, os alarmes periódicos, o
ronronar das instalações. Se então sobrevém, neste ruído de fundo do qual o corpo está
impregnado, um ruído anormal, uma vibração de frequência mais baixa..., o corpo
reage e o operário se levanta. Desse modo os operários auscultam, enquanto jogam, o
funcionamento das instalações.
Ora, tal auscultação é algo delicado. Só se torna possível no caso de operários muito
bem treinados, com uma grande experiência da sala de controle. Esta supervisão
auditiva não lhes foi ensinada. Não é objeto de nenhuma instrução de uso. Mas, no
dizer dos operários, ela é bastante eficaz. Todos dela participam, com um talento
variável, diga-se de passagem. Isto não se explica. É aprendido através do contato com
os operários mais antigos.
Foi assim que os operários elaboraram um “artifício’’, um “truque’’, afim de
controlar com eficácia o processo. Ora, o envolvimento do corpo nesta auscultação do
processo é penoso. Se o operário se põe a escutar ativamente, de forma reflexiva,
concentrando-se no ruído, ele não conseguirá mais ouvi-lo. Ou ele não ouve mais nada,
ou todos os ruídos se tornam suspeitos; ele acaba se perdendo e fica dominado pela
angústia. Não consegue mais se servir de suas percepções. O regime de produção em
ritmo normal exige, de certo modo, que o operário se descontraia, que ele se coloque
em estado de repouso relativo. Então conseguirá entrar em acordo física e
sensorialmente com o processo, podendo localizar sem hesitação as anomalias que se
apresentarem.
Neste contexto, compreende-se, afinal de contas, que a prática do scrabble é
“genial”! É ao scrabble que eles se dedicam, e não ao jogo do bisca, por exemplo,
muito mais freqüente entre os operários na França. De fato, fala-se muito durante o
jogo de bisca, e se faz muito barulho. No scrabble, ao contrário, se faz silêncio. Por
romper o tédio e acabar com a angústia, o jogo de scrabble refina o desempenho
sensorial. O jogo concilia a busca de conforto com a eficácia técnica.
A descoberta do jogo de scrabble como regulador do comportamento durante o
controle do processo, não provém de qualquer cálculo teórico ou estratégia racional.
Trata-se de uma descoberta empírica, cheia de engenhosidades, cuja legitimidade só é
demonstrada por uma eficiência prática.
Os pontos sobre os quais convém ainda insistir são, primeiro, o lugar que ocupa o
corpo inteiro numa tarefa que se descreve erradamente como estritamente intelectual, e
depois a preeminência temporal da prática sobre a consciência, e a elucidação da
(função do jogo de scrabble como) “artifício técnico’’. Daí o interesse em desmontar
sua lógica interna. Pois, depois de elucidado, o jogo de scrabble pode ser tolerado sem
reservas tanto pelos próprios operários, agora liberados de sua culpa, quanto pela
supervisão, tranquilizada em relação a essa prática insólita.
De modo mais geral, este manejo da inteligência desorienta o sábio e permanece
desconhecido por parte dos executivos e engenheiros. A menos, quem sabe, que se
trate de uma negação proposital? É fácil provar que os próprios engenheiros e
executivos utilizam amplamente este recurso. E isso vale também para os sábios, até
nos melhores laboratórios de pesquisa experimental, onde parte das descobertas passa
por manipulações e ajustes empíricos, os quais sabemos perfeitamente serem
provenientes mais de artifícios, “receitas culinárias” , do que de uma lógica racional
positiva (ver: A importância dos meios e métodos nos protocolos experimentais e
publicações científicas).
O envolvimento do corpo, ainda que este seja criador da própria inteligência
prática, não implica a ausência do pensamento. Mas seu uso desempenha um papel
importante na forma das modelizações práticas e representações metafóricas do
funcionamento técnico, que os operadores harmonizam naturalmente com o diapasão
do corpo humano. Um bom exemplo disso foi revelado no estudo a respeito do meio
encontrado pelos pedreiros para controlar os riscos ligados às manobras de transporte
dos blocos de pedra (Cru, 1984), Da mesma forma, isso poderia ser exemplificado no
caso de se dirigir um automóvel, cuja precisão é devida, em grande parte, ao
envolvimento do corpo na inteligência prática, e não à cálculos ou à aplicação rigorosa
das instruções de uso do veículo. Pode-se verificar que isso vale igualmente no caso de
se dirigir um caminhão ou pilotar um avião, mesmo sendo este ultimo tecnicamente
sofisticado.

2. A segunda característica da inteligência prática é sua capacidade de auferir


mais importância aos resultados da ação, do que ao caminho utilizado para atingir
os objetivos. O rumo do pensamento é um fato capital, mas ele zomba do rigor. Aqui
reina o “jogo rápido”, a malícia, a trapaça, a esperteza, a astúcia. A justificativa, a
explicação, a elucidação, a legitimação e a análise só intervém posteriormente ao
sucesso. A experiência precede o saber. Em outras palavras, o que domina o uso da
inteligência prática é a astúcia. Esta inteligência é fundamentalmente uma “inteligência
ardilosa”, que se oporá facilmente à “inteligência racional”. Detiènne e Vernant (1974)
divulgaram as fontes gregas desta inteligência: a métis, que eles opõem à themis. Esta
métis, que garante o êxito das provas práticas e na ação, é a mesma em que se baseia o
mister (“métier’’). A métis está no cerne da engenhosidade que constituiria de certo
modo a própria mola propulsora do mister, do ofício.
Fundamentalmente, esta engenhosidade é também vetorizada pelas economias do
esforço: obter o máximo e o melhor mediante o mínimo de dispêndio de energia. Há na
engenhosidade uma preocupação com a economia, economia esta entendida aqui
essencialmente em relação ao corpo e ao sofrimento. É neste sentido que a inteligência
e astúcia são, também nesse caso, indissociavelmente solidárias ao corpo.
3. A terceira característica psíquica da inteligência prática é estar em todas as
tarefas e atividades de trabalho. Ela não se manifesta apenas na esfera do trabalho
manual. Ela encontra-se também no centro da atividade intelectual, e mesmo do
trabalho teórico. Isso se depreende bem na atividade do pesquisador que, antes de
proceder à demonstração, estabelece as metas a alcançar, suas intuições, suas
inspirações, seus objetivos, enfim. A engenhosidade, os ardis da inteligência, a métis,
fazem-se notar na arte da demonstração, nas malícias, na elegância, ás vezes no estilo,
que se conjugam na parte retórica de todo discurso teórico e científico. Portanto , é
essencial não cometer o contra-senso comum segundo o qual a engenhosidade, a métis,
as astúcias da inteligência, os savoir-faire e a inteligência prática só se referem às
tarefas manuais, e não às tarefas intelectuais. Há em toda teoria uma parte de
manipulação do experimentador sobre sua mesa de trabalho. Sem a participação da
engenhosidade na pesquisa teórica, só se pode chegar a raciocínios, mas não a um
“pensamento”.

4. A quarta característica da inteligência ardilosa é evidentemente o seu poder


criador. A astúcia e a engenhosidade avaliam-se nas novas formas que elas fazem
surgir. Mais adiante, retornaremos a este ponto essencial, ou seja, de que a criação parte
sempre de um dado a priori sobre o qual elas se apóiam, para operar por meio da
trapaça, segundo um processo fundamental de “subversão” (Dejours, 1988).

5. A quinta característica da inteligência ardilosa é o fato de ela ser amplamente


distribuída entre os homens. Ela é ativa e se manifesta em todos os sujeitos, desde
que eles estejam em boas condições gerais, ou que, de qualquer modo, gozem de boa
saúde. O corpo alimenta e desencadeia a inteligência, ele coloca o sujeito em estado de
alerta. O estado do corpo é um componente do poder da inteligência. Um corpo por
demais fatigado, muito doente ou esgotado, enfraquece a inteligência ardilosa e a
criatividade. Se não for este o caso, logo que o corpo encontra uma solicitação, a
inteligência ardilosa investe na situação, de imediato.
É isso que confere à inteligência ardilosa um caráter “pulsional”. E é também o
que faz com que a maioria das pessoas sadias experimentem uma verdadeira
“necessidade” de exercer a sua inteligência. Há uma espécie de espontaneidade, de
intencionalidade irresistível na inteligência ardilosa. A contrapartida desta propriedade
é que a subutilização desse potencial de criatividade é uma das principais fontes de
sofrimento, de desestabilização da economia psicossomática, e mesmo de
descompensação e doença.
Em suma, a inteligência prática, portanto, é uma inteligência do corpo, sua mola
propulsora é a astúcia, ela está no cerne do oficio, ela está em ação em todas as
atividades de trabalho, inclusive teóricas, ela é fundamentalmente subversiva e
criativa, ela está amplamente difundida entre os homens, ela é pulsional, e sua
subutilização é patogênica. Ela possui outras características psicológicas,
sobretudo a de se alimentar no pólo feminino da bissexualidade, mas este ponto não
será desenvolvido aqui, já que não se trata de um aspecto indispensável à nossa
discussão sobre a confiabilidade.

O SOFRIMENTO E SUAS RELAÇÕES


COM A MOBILIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA CRIADORA

Após este esboço dos recursos da inteligência prática com suas características
psíquicas gerais (metapsicológicas e, em particular, psicoeconômicas), devemos
examinar como, de maneira concreta, ela toma forma e se expressa na situação.
Significa que devemos abordar suas características em nível psicodinâmico.
As formas concretas de que se reveste a inteligência dependem do contexto e de
seus dois componentes: o contexto sincrônico, ou seja, a organização do trabalho e as
relações sociais de trabalho no momento presente, de um lado; o contexto diacrônico,
ou seja, a história do sujeito e a maneira pela qual o contexto sincrônico (situação atual
de trabalho) têm lugar em relação ao passado do sujeito. Pois não há sujeito sem
história singular, e, quando diante de uma situação, o sujeito a experimenta, a
interpreta, reage a ela e eventualmente procura transformá-la, em função do sentido que
tal situação adquire na própria evolução de sua biografia.
Já assinalamos, no inicio deste texto, que na mobilização da inteligência criadora o
sofrimento do sujeito intervém de maneira determinante. Sofrimento este que
justamente responde de maneira inevitável ao distanciamento experimentado pelo
sujeito entre contexto sincrônico e contexto diacrônico, entre situação real de trabalho e
expectativa ou esperança que o sujeito construiu por causa do passado e com as quais
ele aborda esta situação real de trabalho.
A análise da articulação entre organização da personalidade e organização do
trabalho não pode excluir uma referência privilegiada à clínica psicanalítica. De fato; é
no campo desta experiência clínica que se pode compreender melhor a amplitude das
implicações do passado do sujeito sobre sua conduta atual.

ONTOGÉNESE DO SOFRIMENTO E DINÂMICA


DA INTELIGENCIA ARDILOSA

A Psicanálise nos ensina que os traços mais estáveis da personalidade enraízam-se


na infância e nas experiências precoces. Segundo tal teoria, a organização mental não se
origina no nascimento, mas se constrói por etapas. Cada uma delas é marcada pelas
relações entre a criança e seus pais. Assim se cristalizam as formas que delineiam os
traços principais da personalidade. Não sem obstáculos, não sem incidentes. Até que se
estabilize, com suas forças e suas fragilidades, o eu adulto.

Angústia dos pais e sofrimento da criança: os obstáculos com que se defronta o


desenvolvimento psicoafetivo da criança ocuparão mais tarde um lugar central na
relação psíquica do adulto com o trabalho.
Quando muito pequena, a criança parece ser tão sensível à angústia de seus pais,
que esta logo se torna algo também seu. A criança então luta contra o sofrimento de
seus pais como se se tratasse de seu próprio sofrimento. O sofrimento que nasce nela é
vivido na primeira pessoa. Ela não está à altura de reconhecer que ele se origina na
angústia de seus pais. Para metabolizar seu sofrimento, seria preciso que a criança
falasse com seus pais sobre o que a faz sofrer. Mas o que a faz sofrer é precisamente o
que faz também sofrer seus pais. De modo que, se se aventurar neste terreno, corre o
risco de desencadear a angústia dos pais e de agravar sua própria angústia. A criança
aprende a contornar este terreno movediço, mas, dentro dela, cristaliza-se então uma
zona de fragilidade psíquica. Aí se situa a fonte inesgotável do sofrimento singular de
cada sujeito.

A epistemofilia: mais tarde, logo que atinge a idade de falar, a criança se preocupa em
compreender o que se passa nesta “terra incógnita” (zona de fragilidade psíquica),
onde, cada vez que a criança penetra (voluntária OU desgraçadamente), viverá a
experiência dolorosa da angústia, da solidão, do abandono, e mesmo da rejeição por
seus pais. O que preocupa tanto seus pais, que nesta zona ela não pode mais se sentir
amadas por eles? Assim, a angústia, o sofrimento e as preocupações fundamentais de
seus pais tornam-se um enigma que a criança carregará consigo durante toda a sua vida
adulta, Este enigma vai originar uma curiosidade jamais satisfeita, um desejo de saber e
um desejo de compreender, periodicamente reativados pelas conjunturas materiais e
morais cuja forma faz lembrar as preocupações dos pais. A esta curiosidade dá-se em
psicanálise o nome de epistemofilia. A criança construirá desse modo, passo a passo
com o seu desenvolvimento cognitivo, uma série de teorias infantis que se sucederão
sem contudo se substituirem uma a outra. A criança de outrora continuará, assim, a
ocupar certas posições no espaço psíquico do futuro adulto.

O jogo: bem cedo, a criança procura encenar seu desejo de compreender e suas teorias
explicativas. Para tanto, utiliza o jogo (Winnicott, 1975): um convite, dirigido aos pais,
para que representem num teatro intermediário, imaginário e humorístico (logo, menos
ameaçador do que o terreno movediço inicial), seu sofrimento transformado em peça
teatral. Inesgotável, insaciável, a atividade lúdica é uma forma importante de
experimentação das teorias infantis.

O teatro do trabalho: o trabalho é a oportunidade de transpor mais uma vez o cenário


original do sofrimento na realidade social para um teatro menos generosamente aberto,
porém, que o anterior, ao livre sabor da imaginação. Desta feita, os parceiros do cenário
não são mais os pais nem seus substitutos diretos. São os outros trabalhadores, os
outros adultos. E o objetivo não é mais o simples prazer de um jogo, mas a ação no
campo da produção, das relações sociais, e mesmo da política.
A passagem do teatro psíquico para o teatro do trabalho (nível dinâmico)
corresponde ao que em psicanálise se designa pelas expressões técnicas mudança de
objeto (da pulsão) e mudança de finalidade (da pulsão) (nível econômico): destinações
pulsionais específicas da sublimação, cujas etapas de construção acabam de ser
esquematicamente descritas em termos ontogenéticos.

A ressonância simbólica: essas transposições entre o teatro psíquico, O teatro do jogo


e o teatro do trabalho não ocorrem de maneira natural. Para que a última transposição
seja possível, é preciso que exista, entre o teatro do trabalho (ou seja, as condições
concretas do trabalho) e o teatro psíquico herdado da infância, analogias de estrutura ou
de forma. Analogias estas que não implicam nem identidade nem equivalência absoluta.
Entre teatro da infância e teatro do trabalho interpõem-se inevitavelmente
dessemelhanças ou distanciamentos que criam uma ambigüidade, um equívoco: o teatro
do trabalho vale como suporte, como oportunidade de representar de novo um cenário,
próximo do cenário inicial do sofrimento. Mas a ambiguidade é precisamente o que
solicita a imaginação e a criatividade. E também o meio de conjurar a repetição exata e
estéril das questões existenciais. Este equívoco, esta ambigüidade estão muito
precisamente no cerne da simbolização (Laplanche,1980) A esta ambigüidade fecunda
damos o nome de “ressonância simbólica” (Dejours, 1988).

Ressonância simbólica e história singular: quando a ressonância simbólica existe


entre o teatro do trabalho e o teatro do sofrimento psíquico, o sujeito aborda a situação
concreta sem ter de deixar sua história, seu passado e sua memória “no vestiário”. Ao
contrário, ele reveste a situação de trabalho de um poder de envolvimento que implica a
reatualização, por meio do trabalho, de sua curiosidade e de sua epistemofilia. O
trabalho lhe oferece, de certa forma, uma oportunidade suplementar de prosseguir seu
questionamento interior e de traçar sua história. Por meio do trabalho, o sujeito
envolve-se nas relações sociais, para onde ele transfere as questões herdadas de seu
passado e de sua história afetiva. A ressonância simbólica surge portanto como
condição necessária para a articulação bem-sucedida da diacronia singular com a
sincronia coletiva. Este ponto é essencial, pois, face à produtividade e à qualidade do
trabalho, a ressonância simbólica permite que o trabalho se beneficie do extraordinário
poder que lhe é conferido pela mobilização dos processos psíquicos que partem do
inconsciente e se atualizam em inteligência ardilosa. A ressonância simbólica é, de
certa forma, uma condição para a reconciliação do inconsciente com os objetivos da
produção.

Condições da ressonância simbólica: será possível precisar as condições concretas


para o estabelecimento da ressonância simbólica? O investimento sublimatório e a
ressonância simbólica atuam dentro de um espaço limitado com bastante precisão pelas
responsabilidades em matéria de concepção (em oposição às atividades de
execução).Ora, pode-se demonstrar que, numa situação real, a defasagem que cada
operador deve gerar necessariamente entre organização prescrita do trabalho e
organização real requer sempre uma atividade de concepção. É esta atividade de
concepção que toma o lugar da atividade de experimentação antes ocupado na criança
pelo jogo. Ou, dizendo de outra forma: a atividade de jogo na criança torna-se atividade
da inteligência ardilosa no adulto.

INTELIGÊNCIA ARDILOSA, SOFRIMENTO CRIATIVO


E DIREITO À CONTRIBUIÇÃO

Graças a este percurso através da inteligência prática e do sofrimento no


trabalho, pode-se compreender facilmente por que a mobilização psíquica dos sujeitos
face à organização do trabalho adquire tamanho poder. É de maneira espontânea que os
sujeitos “dão forma” ao trabalho: de um lado, sob o efeito da “pulsão” que se desdobra
em inteligência ardilosa, e de outro, sob o efeito do sofrimento em busca de sentido.
Desnecessário invocar aqui um talento excepcional. O que tem de ser explicado é por
que a inteligência ardilosa, vez por outra, não se desdobra. O que é preciso elucidar são
justamente os entraves à mobilização psíquica espontânea dos sujeitos. Apesar das
situações intersubjetivas e materiais de trabalho às vezes temíveis, o clínico de fato só
pode ficar um tanto perplexo diante da teimosia dos trabalhadores em cumprir
corretamente sua tarefa e ao mesmo tempo lutar contra os malefícios organizacionais
em relação à qualidade do trabalho. Daí se pode deduzir que os operadores como regra
não desejam de forma alguma estar na posição de meros executantes. Mesmo quando
não almejam assumir as responsabilidades de dirigentes (que são apenas uma das
formas, entre outras, de expressão do sofrimento criativo), eles não pretendem
permanecer como executantes. O que buscam é cumprir o melhor possível e alcançar
com o máximo de precisão possível os objetivos fixados pela organização, desde que
sejam razoáveis (isto é, nem desproporcionais nem paradoxais).
A experiência clínica nos ensina que, fundamentalmente, o sujeito, em sua
relação com o trabalho, espera que a organização do trabalho lhe ofereça uma
possibilidade de contribuição. E não, como se diz com tanta freqüência, que ela lhe
ofereça unicamente uma retribuição, nem que fosse em pagamento por seu sofrimento e
pelo “sem-sentido” de sua situação subjetiva. Por trás desta expectativa de poder
fornecer uma contribuição singular no campo do trabalho, há sem dúvida uma busca de
identidade. O que mobiliza o sujeito em sua relação com a tarefa não é apenas a
compulsividade, ou a força da pulsão, mas sim o propósito subjetivo fundamental de
obter, em troca de seu envolvimento e de sua contribuição, um benefício em termos de
sentido pala si mesmo. Por trás da mobilização subjetiva, está a busca de identidade.
Compreende-se agora que a mola propulsora da confiabilidade seja antes de tudo
esta criatividade que se nutre do sofrimento e tenta convertê-lo em prazer pelo trabalho.
A concepção taylorista do homem está equivocada. É uma utopia altamente poderosa,
mas que desconhece tudo o que a clínica em Psicopatologia do Trabalho nos ensina
sobre o homem concreto. O aforismo taylorista da vadiagem operária é uma inverdade
clínica que prevalece até hoje na interpretação que se faz do “fator humano”, como
fator fundamental de faltas e de deserção voluntária.
No entanto, não seria o caso de se negar a existência do descompromisso, da
desmobilização, da negligência. Mas sua interpretação será radicalmente diferente á luz
da análise em psicopatologia do trabalho. Argumentaremos mais adiante o ponto de
vista segundo o qual a “vadiagem” no sentido de preguiça não tem nada de natural. O
natural é a espontaneidade, é muito mais a mobilização da inteligência prática.
Vadiagem, preguiça, falta e desinvestimento são antes de tudo o resultado de um
processo de desorganização ligado aos efeitos deletérios da utopia taylorista quando
esta se concretiza nas relações sociais de trabalho.
Esta articulação processual é fundamental para mostrar, conforme anunciamos no
inicio deste capitulo, que as gratificações e retribuições materiais ou econômicas não
são suficientes para explicar a mobilização operária (quando ela existe, como em certas
grandes empresas japonesas). Mesmo em presença de condições econômicas
favoráveis, pode-se observar uma desmobilização operária diante dos objetivos de
trabalho. Veremos mais tarde em que condições.
Antes, porém, é preciso desde já formular uma hipótese segundo a qual, no
modelo japonês, a inteligência prática parece ser reconhecida, respeitada, utilizada e
gratificada de maneira original em relação a diversas situações da indústria francesa.
Convém ainda ressaltar que, no nosso meio empresarial, também se encontram
situações em que o envolvimento da inteligência prática é corretamente reconhecido.
Para maior proveito não só da produção, mas também da saúde dos trabalhadores em
questão (Dejours, 1980).

CONDIÇÕES DE MOBILIZAÇÃO DA INTELIGÊNCIA CRIATIVA


A mobilização útil e eficaz da inteligência criativa requer certas condições.
1. É preciso primeiro urna organização do trabalho prescrita
Pois é a partir desta armação de base que pode ser iniciado o processo de
subversão engendrado pela inteligência ardilosa. Não há astúcia possível, se não houver
regra do jogo desde o inicio. Aliás, por isso os operários, embora critiquem, ás vezes
vigorosamente, a organização do trabalho prescrita, têm um discurso que pode parecer
contraditório. Em hipótese alguma eles gostariam de fato que desaparecesse a
organização prescrita. Como pudemos demonstrar a partir de um levantamento numa
indústria de processamento, apesar de suas inflexibilidades, apesar de suas notórias
imperfeições, apesar de suas inadequações, a organização prescrita do trabalho nunca é
considerada inútil pelos operários. E, se for o caso muitas vezes de trapaceá-la e de
subvertê-la, não se trata jamais de adotar uma posição delinquente, anti-autoritária. Este
ponto é fundamental: a obediência é muito mais amplamente aceita pelos operários do
que se acredita normalmente: a crítica, e mesmo a irritação, não implicam a recusa
sistemática em obedecer. E esta obediência, que é inseparável da subversão de
identidade, mostra-se ás vezes tão surpreendente, que passa indevidamente por
alienação.
Este ponto deverá ser levado em conta na avaliação do modelo japonês, em que a
docilidade dos operários talvez derive não só da alienação, mas também de uma
verdadeira habilidade da gerência para manejar a parte de obediência necessária á luta
pela identidade.

2. A segunda condição refere-se á transparência.


De fato, a inteligência ardilosa que opera por subversão e por trapaça coloca os
sujeitos numa situação equivoca. A astúcia, como se sabe, exige certa discrição, às
vezes mesmo o segredo. É claro. Mas trapacear com a organização prescrita do trabalho
implica assumir riscos. Por exemplo, na indústria nuclear, transgredir as instruções e as
medidas regulamentares é indispensável para poder cumprir direito a tarefa. Pois, se se
quiser respeitar todas as obrigações regulamentares e legais, fica-se condenado a não
poder trabalhar de modo algum. Os próprios regulamentos são amiúde contraditórios
uns com os outros, e inúmeras circunstâncias materiais comuns tornam impossível a sua
estrita observância diante de uma situação real. O respeito obstinado implica a paralisia.
Mas ao “fraudarem”, o operário ou a equipe, ou mesmo o chefe de obras, o chefe de
equipe ou o contramestre colocam-se em posição delicada. Se sobrevier posteriormente
um acidente envolvendo a segurança nuclear, a responsabilidade e o erro do agente
serão invocados inevitavelmente. Para poder assumir a “fraude” contra a
regulamentação, é preciso uma certa transparência, através da qual os colegas e os
superiores diretos são convidados ou obrigados…, a saber, e a compartilhar os riscos. E
em caso de dificuldade ou de se ocorrer um risco importante, a solidariedade coletiva é
convocada diretamente, ou após discussão polêmica seguida de arbitragem.
Ao estudar esta situação em uma central nuclear, foi possível mostrar como o não-
reconhecimento das imperfeições da organização do trabalho pela diretoria e pela
hierarquia leva os operários a pôr em ação uma estratégia coletiva de defesa ad hoc:
estes últimos, obrigados a continuar enganando para poderem executar o seu trabalho,
adotam a tática do segredo generalizado. Cada um opera e decide sozinho. Então
surgem as incompreensões, os mal-entendidos entre os próprios operários, que, não
podendo confessar em que consiste sua própria fraude, também não conseguem mais
compreender o que fazem seus companheiros de equipe mais próximos. Daí nascem
conflitos que por vezes podem alcançar dímensões dramáticas. Compreende-se isso
facilmente quando se sabe que em seu próprio trabalho os operários expõem-se a riscos
graves para a sua saúde. Se eles não captarem o sentido do comportamento de um
colega e se tiverem dúvidas quanto a qualidade e á segurança das operações executadas
sucessivamente at´r o ponto do trabalho que terão de assumir, então o medo pode
transformar os mal-entendidos em conflitos, ininteligíveis porquanto o segredo não
pode ser revelado.
Muito embora as condições econômicas concedidas a esses trabalhadores
privilegiados sejam gratificantes e comparáveis ao que se observa nas grandes empresas
japonesas, a confiabilidade humana fica gravemente ameaçada, com incidências sobre
os desempenhos, em termos de produtividade, de qualidade e de segurança.

3.Terceira condição: o reconhecimento


a) O julgamento de “utilidade” trata-se do reconhecimento, por parte da direção,
não só da qualidade do trabalho executado, não só da engenhosidade que foi preciso ser
empregada para realizar as tarefas (mesmo as mais comuns), mas às vezes também dos
méritos do trabalhador quanto aos riscos que ele correu para atingir os objetivos das
condições difíceis de seu trabalho.
Um exemplo talvez possa ser dado aqui: para ilustrar meu propósito, eis um
exemplo extraído de certa pesquisa recente acerca da manutenção de um reator nuclear.
A organização prescrita de uma tarefa de manutenção de caldeiras está contida numa
ficha que serve de check-list e pormenoriza todas as operações elementares a serem
executadas e as condições de segurança a serem respeitadas. Certo dia, o chefe de
operações e os operários profissionais foram chamados à ordem, pois em vez de
respeitarem a instrução segundo a qual somente um deles deveria penetrar no recinto
do gerador de vapor, três deles se revezavam para executar o trabalho prescrito. Ao se
sucederem, eles levam mais tempo do que um só operário. Transgressão das instruções,
multiplicação dos operários submetidos aos riscos de irradiação, diminuição do ritmo
de trabalho, ou seja, três faltas ao mesmo tempo, ligadas a um comportamento de
desprezo por parte dos operários em relação á segurança.
Durante a pesquisa, no esforço de procurar entre os operadores uma legitimidade ou
razões eventuais para a desobediência, soubemos que, após os anos todos em que
trabalhavam juntos nesta operação de manutenção, eles se deram conta de que sempre
“recebiam doses” de radiatividade, quaisquer que fossem as precauções tomadas de
cada vez. Foi assim que, sem comunicar a seus superiores, eles resolveram repartir
entre si o tempo de trabalho, de modo que cada num recebesse um terço da dose de
irradiação total, e que cada um testemunhasse assim sua solidariedade para com os
demais membros da equipe.
Então, onde a inconsequência? Ou a estupidez? Ou o gosto absurdo pela
desobediência? Ou a inconsciência? O verdadeiro problema que se coloca aqui
certamente não é o de saber se esses operários são imaturos ou psicopatas. A questão
seria, isto sim, tentar compreender por que os operários agiram em segredo, sem o
conhecimento da hierarquia e dos responsáveis pela segurança. A pesquisa é clara neste
ponto: em matéria de riscos de irradiações nucleares, as medidas regulamentares são tão
estritas, que é impossível colocá-las em discussão sem desencadear uma avalanche de
aborrecimentos que de modo algum proporcionariam resultados concretos para os
operadores. Em tais condições, a mudança nos dispositivos da organização do trabalho
não pode ser objeto de discussão nem de negociação. Esta mudança ocorrerá assim
mesmo, mas em segredo. A pesquisa, por si mesma, traz á tona novamente o debate
entre operadores e engenheiros, o que permite, após discussão, tornar oficial e ratificar
o modo operacional elaborado pelos operários.
Este reconhecimento, como se vê, é antes de tudo simbólico. Reconhecimento
da legitimidade da escolha, reconhecimento do mérito do sujeito e reconhecimento da
qualidade final do trabalho. Não se trata aqui de um reconhecimento material ou de
uma indenização em fonna de prêmio, ainda que estes últimos possam vir a acentuar ou
a reforçar os primeiros. Esta busca pelo reconhecimento é fundamental. Sem ela, a
sangria subjetiva é considerável no registro da busca da identidade. Sem dúvida, é por
isso que os operários não são rebeldes a certas formas de controle de sua produção. Até
pelo contrário, eles muitas vezes o solicitam. Se surgem contradições em sua posição, é
porque esse controle funciona unicamente em proveito da sanção. Mas mesmo a sanção
não é sistematicamente rejeitada pelos operários, que a admitem perfeitamente, para
eles mesmos, quando cometem um erro ou uma negligência, ou para os demais, se for o
caso. Ocorre que, sem o julgamento sobre a qualidade e as negligências, é todo o
processo de legitimação da identidade da inteligência criativa que é posto em dúvida.
É preciso considerar igualmente que o “controle de qualidade” corresponde
também, até certo ponto, a uma expectativa do sujeito na busca de sua identidade, e que
ele nem sempre é recebido como uma medida repressiva face à autonomia, nem como
uma medida humilhante no registro da identidade. É preciso talvez levar isso em conta
na análise do sistema japonês de produção.o sistema japonês de produção.
Este reconhecimento, passa , portanto, por um primeiro tipo de julgamento, que
designaremos pela expressão “julgamento de utilidade” (julgamento sobre a utilidade
social ou produtiva da conduta do operador).

b) O julgamento de “beleza”: há outro tipo de julgamento, que em geral pode ser


feito de forma bastante coerente, a saber, o julgamento dos pares. Seu envolvimento
psicológico, ao que parece, é incontornável. As pesquisas mostram bem como, para
executar uma mesma tarefa ou alcançar um mesmo objetivo, existem certamente várias
maneiras de proceder. Para fazer passar uma tubulação ao longo de uma parede não-
retilínea, pode-se optar por fazer “joelhos” ou arredondar o tubo para costeá-lo rente à
parede. Os modos de operação não são sempre iguais. Ocorre que a escolha entre as
diversas possibilidades não depende somente dos dados materiais e da geometria do
terreno. Certo caldeireiro prefere as curvas, um outro não tem o menor prazer em fazê-
las e gosta de formar “joelhos”, pois assim faz melhor seu trabalho. Entre caldeireiros
que se conhecem bem, o exame minucioso de uma canalização muitas vezes permite
saber quem foi seu autor.
Mas além da identificação do autor, o caldeireiro tem condições de apreciar o
trabalho bem feito. Ele reconhece a qualidade das soldas, o rigor das linhas, a harmonia
do conjunto, os ardis e as descobertas que se revelam ao longo do canteiro de obras que
está examinando. Somente os colegas, os pares, os companheiros de trabalho, é que
podem assinalar e comentar essas particularidades, além de saborear os resultados bem-
sucedidos. E eles também são capazes de fazer críticas ou reservas sobre um trabalho
ao estilo 6-4-2, ou realizado por um operário inexperiente.
O julgamento de que se trata aqui não é apenas um julgamento de utilidade ou de
eficácia. É também um julgamento que sobretudo analisa, em conjunto, a elegância, o
rigor e a engenhosidade. Um verdadeiro “julgamento de beleza”.
O julgamento de beleza pode ser expresso tanto a propósito da qualidade de uma
canalização quanto de um cimento armado, de uma pedra talhada, de uma
demonstração de equação matemática... sobre a qual os parceiros dirão que é ‘elegante”
ou “pesada”. O exercício deste julgamento é importante por dois motivos: primeiro, por
ser o meio pelo qual se obtém o reconhecimento daqueles que podem exercer o
julgamento mais severo, mais exigente e mais bem motivado. Tal julgamento tem um
valor crucial, pois é por meio dele, e somente por meio dele, que o operador pode ser
reconhecido como par. Par é aquele de quem se reconhece o fato de possuir as mesmas
competências essenciais que as dos outros trabalhadores naquele oficio. Este
reconhecimento é capital no registro da identidade do sujeito, na medida em que ele se
situa num contexto social e coletivo: o da comunidade dos que pertencem a um grupo.
O termo que importa aqui é o pertencer. O pertencer realiza, de certa forma, a
socialização da identidade. Para o psicopatologista do trabalho, as expressões
“identidade coletiva” ou “identidade profissional” são barbarismos. A identidade é
fundamentalmente algo através do qual o sujeito considerado não é idêntico
precisamente a nenhum outro. Por outro lado, o pertencer é algo através do qual o
sujeito compartilha traços comuns, semelhantes aos dos demais membros de uma
comunidade. Não se estaria tratando aqui, portanto, de identidade. Existe até mesmo
um antagonismo entre “identidade coletiva” e “pertencer a uma comunidade”. A
identidade coletiva, para o psicopatologista, caracteriza na verdade situações subjetivas
em que a singularidade e a identidade se apagam em favor dos traços comuns. Logo, a
identidade coletiva refere-se mais à psicologia das massas e, como se sabe, passa pela
idealizaçao e o poder do imaginário (Freud; Enriquez, 1983). A comunidade dos que
pertencem a um grupo funciona no sentido inverso de uma multidão, na medida em que
ela cultiva as identidades e as singularidades, que ela as respeita e as reconhece, e
mesmo as protege entre seus pares.
Desse modo, entificações como sujeito coletivo e identidade coletiva só se
aplicariam rigorosamente quando a abrasão das diferenças entre os pares justificasse a
entificação do grupo, como é o caso, às vezes, dos grupos militares ou paramilitares, ou
das seitas, das multidões ou das formações totalitárias (Dejours, 1983).
Fora da questão do reconhecimento por seus pares, o julgamento de beleza pode
também sancionar as diferenças irredutíveis, mas compatíveis com o pertencer. Trata-se
então de um julgamento sobre a originalidade, que só pode ser reconhecida, afinal de
contas, por aqueles que possuem competência na matéria, ou seja, mais uma vez aqui,
pelos próprios pares. A originalidade reconhecida está de certo modo encadeada ao
processo de reconhecimento da identidade.

OBSERVAÇÕES

• O processo de reconhecimento da identidade, como se verá, supõe o exame do


fazer do operário ou do operador, e não visa somente a personalidade. Em outras
palavras, os benefícios para o registro da identidade, isto é, do ser, só são obtidos como
efeitos secundários, e passam por um processo que se desenvolve inteiramente no
registro do ter.
• Fundamentalmente, é a busca da identidade, ou seja, o beneficio no registro do
ser, que mobiliza a habilidade, a engenhosidade, a inteligência e a criatividade. Se,
portanto, a inteligência ardilosa se beneficia de uma espontaneidade quase “pulsional”,
na realidade ocorre que ela é vetorizada de forma precisa, a fim de alcançar o
reconhecimento, ao aceitar passar pelo fazer, e mesmo pela ação. Uma vez que a busca
da identidade está consubstanciada no sofrimento, na busca de sentido e no alívio da
angústia existencial, não é de surpreender a “espontaneidade” desta mobilização da
inteligência criativa em todo sujeito em luta pela preservação de sua saúde mental. É
esta exigência, subjetivamente incontornável, que está na raiz do que mencionamos no
início deste capítulo: a reivindicação operária de um direito de dar sua contribuição
para a concepção da organização do trabalho. O processo psíquico que leva ao
reconhecimento da identidade é, em essência, uma busca de amor. Com a ressalva de
que ela acontece no registro da ação, e não da sexualidade; nas relações sociais, e não
nas relações eróticas. A mudança de objeto da pulsão, assim como sua dessexualização,
permitem reconhecer que se trata naturalmente de uma sublimação. De tal modo que,
finalmente, o próprio exercício da sublimação só convoca processos psíquicos
individuais, passando pela interpelação de uma comunidade socialmente construída a
partir das práticas do trabalho (Hirata e Kergoat7). Daí podemos concluir que a
mobilização da inteligência criativa, que caracteriza a sublimação, é essencialmente
uma relação intersubjetiva, cujo julgamento de beleza é uma das formas cardinais e
obrigatórias.
O próprio julgamento de beleza merece ser objeto de análise. Não basta saber que
ele supõe necessariamente a existência dos parceiros. E preciso ainda elucidar os
critérios utilizados pelos parceiros para outorgar esse reconhecimento. Como veremos
mais adiante, tal reconhecimento é essencialmente um reconhecimento do respeito às
regras comuns relativas ao trabalho. Esse julgamento de beleza exige, portanto,
condições específicas de visibilidade, uma visibilidade que entra em competição com a
discrição, e mesmo com o segredo que implica o próprio exercício da inteligência
ardilosa. Esse julgamento de beleza só é formulado sobre uma tarefa concluída. Pode
ainda ser emitido a respeito do Operário exercendo sua função, sobre a limpeza de seu
canteiro de obras, sobre a conservação dos seus instrumentos, sobre a economia de seus
gestos, sobre a precisão de seus movimentos, sobre a prudência de sua conduta, sobre a
tranquilidade de suas atitudes. Mas também – e trata-se de um ponto de importância
capital – sobre o respeito que ele demonstra para com os demais operários, sobre a
atenção que ele dá à segurança dos colegas, sobre a ajuda que ele presta aos
companheiros de equipe. Em outras palavras, o julgamento de beleza implica também a
qualidade das relações no aspecto coletivo do trabalho (Cru, 1988). Ora, esta dimensão
é fundamental para construir as relações de confiança, que tornam válida a inteligência
ardilosa. Como é exercido este julgamento dos pares no modelo japonês de produção?
Disso sabemos muito pouco, e pelas pesquisas que chegaram às nossas mãos, nada nos
permite desvendar indícios desse funcionamento. Haveria somente Julgamentos de
utilidade? Quais seriam então as consequências psicológicas de uma supressão dos
julgamentos de beleza no registro da busca da identidade e do prazer pelo trabalho?

7
O autor faz referência a um texto originalmente apresentado em 1987, no Seminário Interdisciplinar de
Psicopatologia do Trabalho, posteriormente publicado no Brasil em livro de Helena Hirata: Nova divisão
sexual do trabalho? São Paulo, Boitempo, 2002. NC.
COMPONENTES SUBJETIVOS DA COOPERAÇÃO

Depois de termos examinado sucessivamente as características metapsicológicas da


inteligência criativa e o contexto diacrônico de sua emergência (genealogia do
sofrimento singular); as condições de articulação entre organização do trabalho atual e
sofrimento proveniente do passado (através da noção de ressonância simbólica); o
contexto sincrônico de legitimação da inteligência ardilosa (os dois julgamentos, de
utilidade e de beleza); o reconhecimento da identidade e o direito de contribuir, resta-
nos agora examinar um último ponto: a articulação e coordenação sociais das
inteligências ardilosas, isto é, as condições da cooperação, último mecanismo de
segurança da mobilização subjetiva, sem o que se observaria a sua perda.
A cooperação supõe condições subjetivas precisas. Já vimos sua prefiguração a
propósito das condições de exercício do julgamento de beleza pelos parceiros e dos
julgamentos de utilidade pelos superiores hierárquicos. É preciso, como já dissemos,
uma certa visibilidade, e mesmo uma certa ostentação. Sem julgamento de beleza, não
pode haver cooperação, pois faltaria então um elo essencial, o da confiança. As
pesquisas que mencionamos demonstram sem ambiguidade que a cooperação não pode
ser decretada, não pode ser prescrita. Ela só pode funcionar passando pela vontade dos
sujeitos de coordenar conscientemente as mobilizações individuais. Na ausência das
condições de visibilidade — e vimos o quanto elas são difíceis de reunir e de estabilizar
(pois a visibilidade exige reciprocidade, até mesmo e sobretudo quando se trata de
cooperação vertical) —, não há mais qualquer possibilidade de reconhecimento. O
segredo reinante nas práticas individuais de trabalho, não podendo levar a julgamentos
circunstanciais, transforma-se quase que imediatamente em desconfiança, ou seja, em
avaliações imaginárias e pejorativas.
Na pesquisa citada, tendo-se instalado a desconfiança nas relações comuns de
trabalho, não havia mais cooperação possível. Da análise da visibilidade, dirigimo-nos
então ao estudo das condições de emergência e estabilidade da cooperação. A
visibilidade está em estreita relação de dependência com a confiança. A questão que se
coloca, portanto, é compreender em que consiste a confiança.
Por analogia, ou antinomia com a desconfiança, e sabemos quão importante é o
lugar que esta última ocupa em semiologia psiquiátrica, poder-se-ia pensar que a
confiança também diz respeito basicamente á análise psicopatológica. Foi preciso
mudar de idéia, após uma série de pesquisas vãs e decepcionantes.
Ainda que certas formas de confiança pareçam emergir do inefável, como no caso
da confiança cega da paixão amorosa, verifica-se que ela não pode se reduzir ao amor
nem à transferência. A confiança não se inspira de maneira erótica: ela passa
fundamentalmente pelos acordos normativos entre os sujeitos (Pharo, 1989). As regras
comuns estão na base da confiança. São uma condição sine qua non de todas as
transações, tanto na linguagem quanto no trabalho.
Em outras palavras, a confiança é um conceito que se refere à ética, e não à
psicologia. E é principalmente a partir da atitude do sujeito em relação às regras de
trabalho que são formulados os julgamentos de beleza de que falamos há pouco.

MOBILIZAÇÃO SUBJETIVA, ÉTICA E COOPERAÇÃO

Como já vimos antes, o reajuste da organização do trabalho prescrito leva quase


sempre o operador a se colocar em uma situação de ilegalidade, e mesmo a assumir
riscos. Cada local de trabalho exige, portanto, que se tomem decisões e que se façam
opções entre diferentes maneiras de proceder, e também diferentes maneiras de
“fraudar”. Se por um lado as decisões tomadas pelos operadores são sempre motivadas
tecnicamente, nem sempre se justificam do ponto de vista das medidas regulamentares.
A propósito de tais decisões, nascem muitas vezes conflitos entre os operadores ou
entre a base e a cúpula. A questão fundamental aqui são os critérios de arbitragenm
entre as diversas opções possíveis. Os argumentos são unicamente técnicos, mesmo que
estes últimos sejam levados em conta nos critérios de escolha. Há também argumentos
de experiência, de intuição, e argumentos que implicam subjetividade,
intersubjetividade e ética.
Isto significa que em questões como essa não raro são requisitados os
envolvimentos pessoais e se acham implicados os temperamentos, as personalidades, os
caráteres e as opiniões. A propósito justamente dessas decisões gira a questão da
cooperação entre operadores — cooperação horizontal - e da cooperação com a
supervisão — cooperação vertical —, pois muitas vezes convém obter consenso e ter
cobertura do chefe. Ou então convém poder recorrer, sem reticências, à decisão do
chefe quando o consenso não for possível.
Assim, o risco psíquico circula entre todos os atores do terreno da ação, de trás para
frente, de cima para baixo, e vice versa. E este risco faz parte integrante, quer se queira
quer não, da carga do trabalho. O que se pode dizer aqui a respeito dos riscos ligados à
segurança não implica uma diferença fundamental em relação ao risco representado
pelo desperdício de dinheiro, vivenciado pelos trabalhadores, da indústria japonesa de
série.

CONVÍVIO, ESPAÇO DE PALAVRA E CONFIANÇA

Vimos há pouco como a estratégia defensiva do segredo favorece mal-entendidos, e


mesmo conflitos abertos entre os trabalhadores. Desconfiança e ausência de visibilidade
levam não só a um ambiente de trabalho desastroso, como também desorganizam
progressivamente todas as relações de convívio comum. Os trabalhadores deixam de
promover festas, comemorações e confraternizações. Não comem mais juntos, não se
falam mais, não se cumprimentam mais, e logo começam a discutir.
Neste contexto, o desligamento e a desmobilização tornam-se a regra geral. Cada
um por si, desenvolvimento do individualismo, nada de cooperação. Neste estágio, não
é mais possível compreender os comportamentos opostos de uns e outros.
A pesquisa de Psicopatologia do Trabalho, preocupada com a necessidade de um
grupo de operários que procura superar um sofrimento que se tornou insuportável,
permite reconstituir um espaço para a palavra. É durante estas reuniões de trabalho
coletivas, com a participação dos operários e seus chefes imediatos, que se enuncia toda
uma série de problemas concretos desconhecidos, relacionados com as dificuldades da
organização do trabalho, com os riscos psíquicos e com as questões éticas que essa
organização implica. Uma vez reconstituído, este espaço de palavra modifica sensivel-
mente as condutas individuais e as relações nos ambientes de trabalho, tanto na cantina
quanto no vestiário. Uma vez restabelecida a palavra no trabalho, é também a palavra
comum que surge de volta nas diversas circunstancias da vida prática na fábrica. Então
se aprende que é justamente fora dos lugares codificados institucionalmente, ou seja,
nos locais de convívio comum (refeições, festas), que muitas vezes se discutem as
questões mais importantes da organização do trabalho, e que se formam de novo as
bases da cooperação.
A polêmica pode, nessas condições, substituir o conflito, ao passo que as
arbitragens, as escolhas e as decisões passam a ser geradas coletivamente, o que alivia
consideravelmente o constrangimento psíquico individual. Existindo o espaço de
palavra, a diversidade, a personalização, a singularização dos modos operacionais e das
habilidades individuais podem ser ali debatidos, legitimados e reconhecidos. Este
reconhecimento individual está na base do “pertencer” e da construção do coletivo do
trabalho. Se o espaço desta discussão for ameaçado, a solidariedade pode vir socorrê-lo.
Essencialmente mobilizada pela adversidade, ela se alterna com a confiança,
indissociável da iniciativa e da criatividade. Confiança e solidariedade são os dois
elementos respectivamente ofensivo e defensivo do coletivo, e mesmo da comunidade
de pertencimento. Tomando em consideração a heterogeneidade essencial entre o ético
e o psíquico, somos levados a afirmar que: os componentes éticos de que acabamos de
falar formariam as condições necessárias (mas não suficientes) para que se possam
estabelecer as relações intersubjetivas (desta feita tomadas em seu sentido
psicodinâmico).
Assim, a produção, mesmo em uma tecnologia tão rigorosa quanto a nuclear,
revela-se inteiramente permeada de costumes não técnicos, mas éticos e psíquicos. De
modo que a transformação do sofrimento em iniciativa e em mobilização criativa
depende essencialmente do uso da palavra e de um espaço de discussão em que
opiniões e perplexidades se tornem públicas.
Convém considerar este espaço como um espaço público, mesmo que se trate de um
espaço público interno da empresa.
Em suma, seria possível afirmar que a transformação do sofrimento em criatividade
implica a manutenção de um espaço público na fábrica. Em compensação, cada vez que
o espaço público apresentar uma tendência a se fechar, a criatividade ficará ameaçada.
Isto sugere que os círculos de controle de qualidade no Japão talvez não funcionem
somente como um lugar de transferência de conhecimentos e de informações, mas sim
como regulador ético das relações comuns de trabalho do dia-a-dia.

ESPAÇO PÚBLICO E RECURSOS HUMANOS

O olhar da Psicopatologia do Trabalho em direção à confiabilidade humana nas


organizações leva, pois, a conferir finalmente um lugar fundamental ao espaço público.
Uma vez que este é constituído ou reconstituído, ficamos perplexos com a emergência
de condutas totalmente contraditórias com o individualismo e a negligência
denunciados com tanta freqüência nas organizações: envolvimento apaixonado, senso
de responsabilidade, mobilização da criatividade voltam a se manifestar no ambiente de
trabalho.
A construção do espaço publico, por sua vez, envolve não somente a
responsabilidade da base e as qualidades individuais dos operários. Ela também exige
um tipo específico de administração: a administração participativa, que insiste
sobretudo no papel da chefia intermediária. O modelo de administração sugerido em
relação ao sofrimento seria, digamos, que os próprios administradores se envolvam, por
sua vez, no espaço público. Quer dizer, que eles não só assumam o risco de tolerar a
construção de um espaço público na empresa, mas também que resolvam envolver-se
neste espaço, com os operadores da base. E isso não só na qualidade de dirigentes, mas
com sua própria pessoa. Talvez o modelo japonês — mas isso está sujeito a verificação
— tenha integrado em parte esta dimensão da interação.
O princípio da universalidade do sentido dos comportamentos e das condutas
adotadas pelos trabalhadores também vale para os gerentes e para a hierarquia superior,
tanto quanto para os operários. A participação dos dirigentes no espaço público interno
de negociação da organização real do trabalho permite, de fato, que venham à tona as
estratégias defensivas dos quadros dirigentes contra o seu sofrimento. Assim, graças à
pesquisa citada a propósito da usina nuclear, pôde-se descobrir e analisar a ideologia
defensiva dos quadros executivos, o que se reveste de considerável importância para a
reciprocidade do sentido e a manutenção do espaço público (Dejours, 1989).
Agora estamos em condições de concluir que o processo que permite converter o
sofrimento em criatividade implica duas articulações fundamentais: a ressonância
simbólica, de um lado, e o espaço público, de outro.
Em função de todos os elementos que foram levados sucessivamente em
consideração, não podemos nos satisfazer unicamente com a explicação econômica
quando se trata de analisar a confiabilização dos operários no modelo japonês. O que
merece ser analisado é precisamente o modo pelo qual, através do controle da
produção, dos círculos de qualidade, da transparência, do kanban etc., o modelo
japonês trabalha a dimensão ética, simbólica e subjetiva que estrutura as relações de
trabalho, para obter a mobilização da inteligência criativa. A confiabilidade humana –
e esta seria a nossa conclusão – é fundamentalmente uma relação intersubjetiva, que
implica obrigações de reciprocidade. A confiabilidade humana é basicamente uma
relação intersubjetiva, o que a administração francesa desconhece quase que totalmente.
Mas ela também é — e este ponto nos parece crucial no contexto da administração
no Ocidente — o resultado de uma articulação coletiva construída a partir da base,
segundo os princípios éticos que fundamentam as relações de confiança, sem as quais
não pode haver cooperação. Em outras palavras, ao contrário do que está implícito tanto
nas teorias clássicas da motivação quanto na literatura sobre o fator humano, a
confiabilidade humana se conjuga no singular e no plural.
É vão glosar sobre o erro humano. Como propõe Llory (1990), é preciso passar de
uma abordagem da problemática do “erro humano” para a de que “o erro é humano”.
Todo mundo comete erros, várias vezes por dia. Os atos falhos são mesmo a prova de
um funcionamento psíquico criativo (em oposição ao funcionamento operatório
descrito pelos psicossomáticos8). E é fundamentalmente graças à cooperação que os
erros são corrigidos com tanta freqüência ou que suas conseqüências são controladas,
cada membro da equipe sendo capaz de intervir sobre o trabalho de seus colegas.

ALGUMAS INTERROGAÇÕES Á CONTRA CORRENTE,


OU A VOLTA À PERPLEXIDADE ANSIOSA

Não se trata aqui de formular uma avaliação qualquer, mas de propor alguns
questionamentos suscitados pelos trabalhos sociológicos sobre o modelo japonês.
No exercício da inteligência ardilosa, o equilíbrio incessante entre visibilidade e
segredo, entre singular e coletivo, entre legalidade e trapaça, revela-se crucial. No
modelo de funcionamento japonês, parece que se insiste maciçamente na visibilidade,
na transparência, ao ponto de o segredo individual, e sobretudo coletivo, poder ser
banido, o kanban, os círculos de qualidade, às vezes provocam o temor de que a
transparência não seja somente uma regra (ou um princípio) — logo, que ela possa ser
transgredida, caso necessário —, mas que seja coercitiva.
Pode-se temer que a transparência se desvie imperceptivelmente de seu curso, em
direção à vigilância generalizada e à desapropriação, em nome da razão cívica ou da
razão da empresa.

8
O autor faz referência àqueles que desenvolvem uma abordagem fundada na Psicossomática. NC.
Desse modo, o que no início do próprio exercício da inteligência ardilosa é movido
pela busca da identidade correria o risco de se desencaminhar no sentido de uma
autonomia reduzida e de um controle hierarquizado – o que significaria evidentemente
uma reabertura trágica em direção à alienação.
Isso pode provocar certa inquietação, quando se pensa no impacto das práticas
japonesas sobre o espaço privado. Não só a autonomia das relações sociais de trabalho
parece reduzida, como também a vida extraprofissional, por sua vez, estritamente
controlada pela utilização do tempo a serviço da empresa: férias mais raras, mobilidade
dos trabalhadores pelo país, longa jornada de trabalho (uma vez que se contabiliza o
tempo consagrado aos círculos de controle de qualidade), e assim por diante... levam a
uma redução drástica e a uma sujeição impressionante, para o operário francês, da vida
familiar, da vida conjugal, da vida com as crianças etc. Sem uma enfeudação rigorosa
das mulheres, dificilmente se compreenderia o funcionamento do sistema no Japão.
Qual será então o preço pago indiretamente pela família, para assegurar a eficácia
daquele que trabalha? Já se sabe na França como as coerções organizacionais, e as
estratégias defensivas que elas desencadeiam, causam impacto negativo sobre a saúde
mental e física das crianças. Como será isso no Japão? Já se verificou que a saúde das
famílias não sofre as conseqüências desta relação com a organização do trabalho?
De saída, é toda a liberdade do espaço privado que seria posta em questão, enquanto
globalmente a obediência, a qual, como vimos antes, é às vezes benéfica para o registro
da identidade, se desvirtuaria, transformando-se em submissão, quando então
novamente o processo de conquista da identidade seria neutralizado. Ademais, pode-se
interrogar acerca das consequências de um alinhamento tão radical do espaço privado
na organização do trabalho, ou seja, de um sistema que não estaria em condições de
equilibrar o investimento humano no trabalho pelo exercício da liberdade privada.
As conseqüências poderiam se captalizar pelo desgaste não controlado dos corpos e
dos recursos pulsionais, capaz de desencadear doenças somáticas e psíquicas. Elas
também poderiam acarretar, por fim, uma inversão dos desempenhos, e neste caso
desgaste e esgotamento levariam finalmente a um declínio da qualidade e da
produtividade. Este não parece ser o caso atualmente do Japão. Há, portanto,
provavelmente um meio de regulação. Mas não sabemos qual.
Assim mesmo, pode-se ficar perplexo diante da maneira pela qual os operários
japoneses se empenham na empresa. Sobretudo diante da aceitação da seleção
psicológica e social no momento da contratação. Em termos econômicos, sabe-se que a
aceitação desta seleção se relaciona com as vantagens materiais derivadas do fato de se
pertencer à empresa, e de serem com isso eliminados os riscos inerentes à condição de
excluídos das grandes empresas.
Mas o psicopatologista não pode ficar nisso, pois as investigações realizadas neste
campo na França sugerem que a solidariedade de uns diante da discriminação ou
exclusão de outros não é somente passiva. Muitas vezes ela se desdobra, sobretudo
quando oficializada e consciente, em um movimento psíquico que vai muito mais
longe. As pessoas não se regozijam apenas por terem pessoalmente escapado da
adversidade, muitas vezes se regozijam com a infelicidade dos outros (Legendre, 1976),
e isso tanto mais acentuadamente quanto mais se reduzir a distância entre privilegiados
e excluídos, como se o gozo do poder compensasse a erosão das vantagens materiais.
Esta mobilização em favor da discriminação é psicológica e politicamente proble-
mática. A obediência que se converte em submissão dá margem a uma colaboração que
reintroduz a iniqüidade intencional e representa uma ameaça indireta, o que foi
analisado anteriormente a propósito da ética e da construção das regras. Ameaça que
corre o risco de afetar tanto os atos da vida cívica comum quanto os que se desenrolam
no espaço da empresa.
São estas as interrogações que se podem formular sobre a perenidade do modelo
japonês que, embora manipule com bastante precisão e eficácia os recursos subjetivos
da identidade para solicitar a inteligência criativa do trabalho, ao mesmo tempo suscita
algumas questões espinhosas para o psicopatologista.

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