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CDD: 530.12

A NATUREZA AMA ESCONDER-SE? ENSAIO SOBRE NATURE LOVES TO HIDE JONAS R. B. ARENHART Programa de P´ os-Gradua¸ c˜ ao em Filosofia Grupo de L´ ogica e Fundamentos da Ciˆ encia Universidade Federal de Santa Catarina

Received: 04.05.2010; Accepted: 08.07.2010

Abstract: Quantum mechanics raises deep questions about our conception of reality. In this essay we discuss a possible solution proposed by Shimon Malin in his book Nature Loves to Hide to some of these difficulties. Firstly we discuss Malin’s exposition about how the quantum theory entails a deep revision of our conception of reality, overthrowing some kinds of realism. Here, the main focus is quantum mechanics’ violation of Bell’s inequalities. After that, we briefly present the author’s proposal of a new conception of reality grounded in some relations he claims to hold between some features of quantum mechanics, mainly the collapse of the wave function, with the philosophies of Plotino and A. N. Whitehead. We end our discussion pointing to some difficulties in the author’s approach. Keywords: Quantum mechanics. Reality. Plotino. A. N. Whitehead. Resumo: A mecˆ anica quˆ antica levanta profundas quest˜ oes acerca de nossa concep¸ c˜ ao de realidade. Neste ensaio discutiremos uma poss´ ıvel solu¸ c˜ ao para algumas destas dificuldades proposta por Shimon Malin em seu livro Nature Loves to Hide. Primeiramente discutiremos a exposi¸ c˜ ao de Malin sobre o modo como a teoria quˆ antica acarreta uma profunda revis˜ ao de nossa concep¸ c˜ ao da realidade, derrogando certas formas de realismo. Aqui, o principal ponto centra-se no fato de a teoria violar das desigualdades de Bell. Depois, apresentaremos de modo mais breve a proposta do autor de uma nova concep¸ c˜ ao da realidade baseada em certas rela¸ c˜ oes que afirma existir entre algumas caracter´ ısticas da mecˆ anica quˆ antica, principalmente o colapso da fun¸ ca ˜o de onda, com as filosofias de Plotino e A. N. Whitehead. Finalizamos
Manuscrito – Rev. Int. Fil., Campinas, v. 33, n. 1, pp. 381-391, jan.-jun. 2010.

baseando-se em resultados experimentais da mecˆ anica quˆ antica. Na segunda parte. Palavras chave: Mecˆ anica quˆ antica. Campinas.-jun. principalmente na viola¸ c˜ ao das desigualdades de Bell. Shimon Malin. com a ajuda de Fl´ avio Antonio Dias e outros.dever´ a ser guiada tanto por um conhecimento da f´ ısica envolvida quanto da ampla gama de conceitos filos´ oficos que naturalmente est˜ ao presentes nestes contextos. 1 Introdu¸ c˜ ao Resenha . jan. As cita¸ c˜ oes e as p´ aginas mencionadas em nossa resenha referem-se ao texto original. em seu livro Nature Loves to Hide 1 . professor de f´ ısica te´ orica na Universidade de Colgate (Nova Iorque). Manuscrito – Rev. ou. v. Plotino. Este ´ e um debate que ocorre nas fronteiras da f´ ısica e da filosofia. no qual profundas sutilezas est˜ ao envolvidas. 381-391.se houver alguma . 288 pags. 1. apresenta um ambicioso programa de fundamenta¸ c˜ ao de toda uma nova concep¸ c˜ ao da realidade. o autor busca mostrar que. ISBN 0195138945 [1] ´ quase um consenso entre os especialistas que a mecˆ E anica quˆ antica exige uma revis˜ ao radical de nossa concep¸ c˜ ao da realidade. A. 2001. Uma busca por uma resposta .Nature Loves to Hide. 2010. Realidade. A natureza ama esconder-se. tradu¸ c˜ ao de Lea P. em inglˆ es. apresenta um substituto para o velho paradigma. n. Tendo em vista alguns resultados experimentais da mecˆ anica quˆ antica. de Shimon Malin. Int. baseando-se na filosofia do processo de Alfred N. O livro ´ e dividido em trˆ es grandes partes. . Paulo. e ainda mais complicado do que isto ´ e saber o que devemos colocar no lugar de nossa antiga concep¸ c˜ ao da realidade. Horus Editora. como ele mesmo muitas vezes chama. Fil. segundo a qual. o mundo real existe independentemente de qualquer observador. S. visando come¸ car a busca por um novo paradigma da realidade que n˜ ao envolva a hip´ otese do realismo e esteja de acordo com a mecˆ anica quˆ antica. falando por alto. Whitehead.. A 1 H´ a uma tradu¸ ca ˜o brasileira do livro. pp. 320 p´ ags [2]. 33. Zylberlicht. Whitehead. 2003.ARENHART 382 apontando algumas dificuldades na abordagem do autor. N. um novo paradigma da realidade. Na primeira delas. Oxford. Entender a natureza desta revis˜ ao nem sempre ´ e algo f´ acil.. devemos eliminar de qualquer concep¸ c˜ ao ou vis˜ ao de mundo a chamada “hip´ otese do realismo”.

Na terceira e u ´ltima parte. as duas partes seguintes apresentam uma incurs˜ ao profunda em t´ opicos que s˜ ao completamente especulativos. devemos procurar respostas n˜ ao na pr´ opria teoria quˆ antica. o novo paradigma deve estar de acordo com a teoria e nos ajudar a compreender a realidade descrita por ela. O fio condutor que permeia as trˆ es partes da obra ´ e a mecˆ anica quˆ antica e seu extraordin´ ario sucesso. ´ e composta de v´ arios n´ ıveis de ser e. Buscando por um novo paradigma da realidade. 33. Segundo Malin. Malin apresenta sua concep¸ c˜ ao da realidade baseando-se em sistemas filos´ oficos especulativos. de certa forma. estes paralelos entre os sistemas filos´ oficos apresentados e a teoria quˆ antica s˜ ao altamente sugestivos. e podem indicar conex˜ oes profundas. e tanto seu desenvolvimento per se quanto sua liga¸ c˜ ao com a f´ ısica quˆ antica s˜ ao mais tateantes e mantidos mais ao n´ ıvel de uma su- Manuscrito – Rev. A rec´ em mencionada divis˜ ao do conte´ udo na obra de Malin tamb´ em est´ a em correspondˆ encia com uma ordem crescente do papel da especula¸ c˜ ao nos assuntos apresentados. Int. v. sendo que o desenvolvimento das duas u ´ltimas se¸ c˜ oes do livro ´ e quase que exclusivamente motivado por um aspecto bastante espec´ ıfico da teoria: o colapso da fun¸ c˜ ao de onda. temos na verdade um mundo constitu´ ıdo por experiˆ encias. pp. Al´ em disso. 381-391. n. uma distin¸ c˜ ao que dever´ a ser transcendida em qualquer proposta que busque superar as dificuldades criadas por este inadequado modo de se compreender a realidade.383 proposta feita ´ e a de que. segundo a qual a natureza est´ a viva. Fil. Tendo em vista estas dificuldades. que ocorre nas formula¸ c˜ oes mais usuais da mecˆ anica quˆ antica. pois. contempla. ao inv´ es de um mundo constitu´ ıdo por objetos separados do sujeito que conhece e que s˜ ao dotados de dura¸ c˜ ao temporal. Campinas. como s˜ ao os resultados da pr´ opria mecˆ anica quˆ antica que indicam a inadequa¸ c˜ ao do paradigma antigo.-jun. Malin busca completar sua proposta de novo paradigma com aspectos da filosofia de Plotino.. centrando sua an´ alise principalmente no colapso da fun¸ c˜ ao de onda. Esta liga¸ c˜ ao com a filosofia de Plotino visa principalmente a complementar algumas lacunas deixadas na segunda parte. 1. A pr´ opria teoria n˜ ao pode nos fornecer uma resposta completamente adequada. por ser uma forma de conhecimento cient´ ıfico. jan. segundo Malin. 2010. mas o faz sem deixar de apontar paralelos entre estes sistemas e a mecˆ anica quˆ antica. ainda pressup˜ oe uma distin¸ c˜ ao entre sujeito e objeto que est´ a fundamentada no velho paradigma. Enquanto na primeira se¸ c˜ ao predominam na maior parte do tempo discuss˜ oes sobre alguns dos assuntos cl´ assicos de fundamentos da f´ ısica quˆ antica. mas al´ em dela. com todas as controv´ ersias que envolvem qualquer tomada de posi¸ c˜ ao nesta complexa ´ area de pesquisa. .

tanto quando trata de fundamentos da f´ ısica quˆ antica ou da teoria da relatividade. e 3) s˜ ao apresentadas e criticadas as interpreta¸ c˜ oes e modifica¸ c˜ oes mais conhecidas da mecˆ anica quˆ antica. Julie e Peter. sendo.. Peter acaba sendo levado Manuscrito – Rev. 33. 1. Todos estes apˆ endices tratam dos seus respectivos assuntos em um n´ ıvel bastante elementar. Fil. Malin tamb´ em fornece trˆ es apˆ endices ao final do livro. Durante todo o livro. ´ e interessante notar que Malin menciona somente em seu apˆ endice o fato de que a teoria quˆ antica possa ser formulada sem que se adote alguma forma do colapso da fun¸ c˜ ao de onda. Para esclarecer o ponto em quest˜ ao para Peter. Em particular. como por exemplo a interpreta¸ c˜ ao dos muitos mundos e a interpreta¸ c˜ ao de Bohm. como por exemplo. al´ em de apresentar v´ arias ilustra¸ c˜ oes. Malin e Julie (que tamb´ em faz o papel de porta voz de Malin) discutem com ele suas dificuldades e fornecem exemplos e analogias. o menos elucidativo de todos em nossa opini˜ ao. jan. a regra em geral ´ e sempre a mesma: Peter est´ a com dificuldades para compreender alguma caracter´ ıstica contra-intuitiva da mecˆ anica quˆ antica ou da teoria da relatividade. Al´ em disso.-jun. nos deteremos principalmente na primeira parte do livro.ARENHART 384 gest˜ ao plaus´ ıvel do que de uma resposta pronta. Para auxiliar a compreens˜ ao de t´ opicos que aparecem no texto cuja discuss˜ ao n˜ ao se encaixaria facilmente no desenvolvimento do livro. quanto quando trata da natureza da realidade e dos diferentes n´ ıveis do ser na segunda e terceira parte. Neles. Aqui. n. ou ent˜ ao alguma das propostas de Malin. Para auxiliar em sua exposi¸ c˜ ao. Alguns leitores podem ficar com a impress˜ ao de que. o fato de n˜ ao existir o colapso em algumas interpreta¸ c˜ oes ´ e visto por Malin como um defeito que dep˜ oe definitivamente contra estas interpreta¸ c˜ oes. de que a natureza est´ a viva. Neste ensaio de revis˜ ao. mesmo quando considerados independentemente do contexto do livro. Int. v. 381-391. frequentemente faz uso de di´ alogos em que ele mesmo discute pontos complicados com dois personagens. principalmente quando se trata de discutir pontos obscuros da proposta de Malin. ou de que o realismo n˜ ao deve fazer parte de uma vis˜ ao de mundo coerente. s˜ ao louv´ aveis os esfor¸ cos de Malin para tornar toda sua discuss˜ ao clara. s˜ ao discutidos mais detidamente 1) alguns aspectos da teoria da relatividade (relatividade da simultaneidade e do comprimento). Campinas. na primeira parte. pp. uma boa ajuda na compreens˜ ao destes t´ opicos. . respectivamente. 2010. Isto ´ e relevante quando se tem em mente o papel preponderante que o colapso representa nas tentativas de Malin de relacionar a mecˆ anica quˆ antica com sua audaciosa proposta de fundamentar um novo modo de vermos a realidade baseado nas filosofias de Whitehead e Plotino. 2) ´ e fornecida uma prova elementar das desigualdades de Bell. com exce¸ c˜ ao do primeiro.

entre outros. em uma exposi¸ c˜ ao t˜ ao geral como ´ e esta. Malin faz uma apresenta¸ c˜ ao cronologicamente ordenada que vai desde os prim´ ordios da mecˆ anica quˆ antica. como seria o caso em um livro dirigido a leitores especialistas. al´ em de servir para fundamentar a afirma¸ c˜ ao b´ asica da tese de Malin de que o realismo deve ser abandonado. Se algum destes conceitos ´ e particularmente importante e complexo. ilustrados e muitas analogias s˜ ao fornecidas. jan. os conceitos s˜ ao discutidos. 2010. como. Malin mescla em sua exposi¸ c˜ ao dados biogr´ aficos de alguns dos principais cientistas que deram contribui¸ c˜ oes que foram decisivas para o seu desenvolvimento. Int. Certamente. n˜ ao podemos esperar nem exigir que a discuss˜ ao da maioria dos t´ opicos seja extremamente precisa e leve em conta todas as nuances envolvidas. Al´ em de apresentar datas historicamente importantes no desenvolvimento da teoria. v. 381-391. a teoria ondulat´ oria de Schr¨ odinger. por exemplo. at´ e finalmente chegar nas desigualdades de Bell e nos experimentos que mostram que estas desigualdades s˜ ao violadas. ele j´ a´ e um partid´ ario convicto da solu¸ c˜ ao proposta por Malin. Campinas. Muitos pontos importantes s˜ ao apenas mencionados. constitui-se em excelente exposi¸ c˜ ao de alguns conceitos envolvidos nos fundamentos da f´ ısica quˆ antica e do famoso debate Einstein-Bohr. Fil. sem que as sutilezas envolvidas sejam desenvolvidas. n˜ ao h´ a pr´ e-requisitos matem´ aticos. n. 1. com suas dificuldades conceituais. respeitando as previs˜ oes da teoria quˆ antica. Malin o discute com Peter e Julie. 2 Discuss˜ ao A primeira parte do livro (cap´ ıtulos 1-7). . Para citar um exemplo. que se iniciou no final dos anos 20 do s´ eculo passado e durou todo o per´ ıodo restante da vida destes dois cientistas. e complementa a apresenta¸ c˜ ao com descri¸ c˜ oes sobre como os principais envolvidos nas discuss˜ oes que ocorriam sobre a teoria viam o andamento do debate em busca do esclarecimento conceitual.-jun. buscando superar as principais dificuldades que podem surgir em sua compreens˜ ao. Buscando uma exposi¸ c˜ ao acess´ ıvel a um amplo p´ ublico de leitores n˜ ao-especialistas. o problema da dualidade onda-part´ ıcula.385 muito facilmente a concordar com as explica¸ c˜ oes que lhe s˜ ao propostas. Ao final do livro. 33. Nesta e nas outras partes do livro.. pp. a mecˆ anica ondulat´ oria de Schr¨ odinger ´ e discutida Manuscrito – Rev. tirados principalmente das mem´ orias de Heisenberg. passando pelo princ´ ıpio de incerteza de Heisenberg. a mudar seu ponto de vista e a considerar como superadas as dificuldades que no come¸ co do di´ alogo lhe pareciam absurdos.

ou seja. 6). 381-391. uma interpreta¸ c˜ ao semˆ antica da posi¸ c˜ ao de Bohr. pp. segundo o qual a realidade existe independentemente de nossas consciˆ encias. Int. conhecido como o paradoxo EPR. falando muito por alto. O fio condutor por tr´ as da discusso conceitual nesta primeira parte do livro ´ e o famoso debate Einstein-Bohr acerca da quest˜ ao fundamental: a mecˆ anica quˆ antica ´ e uma descri¸ c˜ ao completa da realidade? Devemos lembrar que. ela ´ e apenas uma aproxima¸ c˜ ao. nas quais desenvolveu uma interpreta¸ c˜ ao da teoria em rea¸ c˜ ao ` a interpreta¸ c˜ ao dominante. ou. escrito em colabora¸ c˜ ao com dois assistentes. buscou minar tanto o princ´ ıpio de incerteza quanto a suposi¸ c˜ ao de que a mecˆ anica quˆ antica nos d´ a uma descri¸ c˜ ao completa da realidade (cap. ent˜ ao B n˜ ao deve ser afetado por esta medida. Diante do fracasso destas tentativas.. principalmente o mais famoso deles.ARENHART 386 brevemente. se efetuarmos uma medida em um objeto A afastado espacialmente de um objeto B. associada com Bohr e Heisenberg (que por sua vez. apesar de a mecˆ anica quˆ antica fazer excelentes previs˜ oes que est˜ ao surpreendentemente de acordo com os resultados dos experimentos. Campinas. al´ em de ser uma teoria probabilista. 2 e cap. ela n˜ ao ´ e a teoria fundamental sobre a realidade. a mecˆ anica quˆ antica estava sujeita ao princ´ ıpio de incerteza de Heisenberg. em oposi¸ c˜ ao a uma leitura ontol´ ogica do mesmo. Fil. Einstein.-jun. existem pares de grandezas f´ ısicas que n˜ ao podem ser medidas simultaneamente com qualquer precis˜ ao que se deseje. como por exemplo. segundo a qual a realidade ´ e de tal forma que se conforma ao princ´ ıpio. ou seja. eram baseados na cren¸ ca de Einstein em trˆ es princ´ ıpios fundamentais acerca da natureza da realidade: 1) realismo. . posi¸ c˜ ao e momento. segundo o qual este princ´ ıpio imp˜ oe limita¸ c˜ oes ao que podemos conhecer sobre a realidade. 2010. 33. e devemos buscar a teoria mais fundamental subjacente ` a mecˆ anica quˆ antica. tamb´ em n˜ ao estavam completamente de acordo sobre a maneira correta de se interpretar a teoria). por sua vez. sem que se apresente a interpreta¸ c˜ ao do pr´ oprio Schr¨ odinger de ´ sasua teoria e as diferentes etapas pelas quais seu pensamento passou. segundo o qual. Seus argumentos. segundo a qual. Bohr. jan. N˜ ao ´ e mencionada uma terceira e bastante influente interpreta¸ c˜ ao de Bohr. v. segundo a qual o princ´ ıpio de incerteza imp˜ oe limita¸ c˜ oes ao discurso significativo. atrav´ es de famosas experiˆ encias de pensamento. nenhuma informa¸ c˜ ao pode viajar mais r´ apido que a Manuscrito – Rev. passa a buscar uma prova de que a teoria n˜ ao ´ e uma descri¸ c˜ ao completa da realidade. 1. Podolski e Rosen (da´ ı o nome EPR) e publicado em 1935. alternativamente. E bido hoje que o pensamento de Schr¨ odinger passou por trˆ es grandes etapas. 2) localidade. seus ataques concentraram-se no princ´ ıpio de incerteza. n. Primeiramente. ´ e visto no livro de Malin como o proponente de uma interpreta¸ c˜ ao epistˆ emica do princ´ ıpio de incerteza.

Explica¸ c˜ ao similar pode ser empregada para as medi¸ c˜ oes submetidas ao princ´ ıpio de incerteza. pois nossas afirma¸ c˜ oes n˜ ao podem ser verificadas experimentalmente. Com este u ´ltimo. quando podemos afirmar algo sobre o objeto. que nos fornece n˜ ao a possibilidade de prevermos com certeza qual dentre uma gama de poss´ ıveis resultados ir´ a ocorrer. n˜ ao podemos enunciar nada sobre ele com sentido. pois ao interagir com o aparato de medi¸ c˜ ao o objeto e o aparato formam um todo indissoci´ avel. por exemplo. 33. Quando o objeto est´ a isolado. Assim. a mecˆ anica quˆ antica encontra em Bohr seu grande defensor. e n˜ ao temos mais um resultado que trata do objeto apenas. Aparentemente. Segundo Malin.387 velocidade da luz. n˜ ao podem existir ao mesmo tempo. com Bohr conquistando o maior n´ umero de seguidores (com Malin entre eles). por exemplo. N˜ ao ´ e nada f´ acil se compreender exatamente o que Bohr tinha em mente em suas formula¸ c˜ oes da complementaridade. Ficou famosa a frase de Einstein que resume seu desacordo com rela¸ c˜ ao a este aspecto da teoria. uma part´ ıcula. 3). as duas situa¸ c˜ oes acima.-jun. do objeto isolado e do objeto sofrendo algum tipo de medi¸ c˜ ao s˜ ao complementares. Contra os argumentos propostos por Einstein. . Fil.. 381-391. Dependendo do aparato que utilizamos para realizar a medi¸ c˜ ao. temos em algumas circunstˆ ancias um resultado que mede uma onda. Einstein expressava seu descontentamento com o car´ ater probabilista da teoria quˆ antica. pp. Por outro lado. e em outros. pois o pr´ oprio ato de medi¸ c˜ ao perturbou o objeto. segundo o qual eventos futuros podem ser explicados causalmente por eventos anteriores a eles. mas dito por alto. Bohr formula uma defesa da teoria baseada em seu famoso framework da complementaridade (cap. O framework ainda pode ser utilizado para dar conta das situa¸ c˜ oes complementares em que um objeto quˆ antico ´ e considerado em isolamento e quando est´ a sendo medido. o framework nos diz que em situa¸ co ˜es como aquela da dualidade onda-part´ ıcula. jan. n˜ ao temos que o mesmo item ´ e ao mesmo tempo onda e part´ ıcula. o debate entre Einstein e Bohr ficou em aberto durante o per´ ıodo em que viveram. 1. A utiliza¸ c˜ ao de um aparato exclui a utiliza¸ c˜ ao do outro. sua posi¸ c˜ ao. segundo a qual “Deus n˜ ao joga dados”. e 3) determinismo. sem entrar em contato com qualquer aparato. 2010. Campinas. mas apenas a probabilidade de que certo resultado ocorra. de modo que j´ a n˜ ao estaria isolado. n. v. e para verificar precisar´ ıamos interagir com o objeto. mas sim que estes s˜ ao aspectos complementares e mutuamente excludentes da descri¸ c˜ ao de um mesmo item. j´ a n˜ ao temos que esta seja uma propriedade do objeto. ter em mente o modo como Bohr via a mecˆ anica quˆ antica dava aos f´ ısicos “a sensa¸ c˜ ao de que a teoria Manuscrito – Rev. Int.

O grande problema que esta situa¸ c˜ ao nos coloca. s˜ ao verificadas na grande maioria dos casos. Posteriormente. que seus diferentes componentes s˜ ao meramente elementos que simplesmente funcionam juntos. e resultou em acordo com a mecˆ anica quˆ antica. 2010. que n˜ ao era satisfat´ orio. contra as desigualdades. com algumas exce¸ c˜ oes respeitando as desigualdades. O que devemos colocar em seu lugar? A segunda e terceira parte do livro v˜ ao se constituir em uma busca por respostas a esta pergunta. O primeiro destes experimentos foi conduzido por J. a concep¸ c˜ ao de Einstein predomina com muito sucesso neste caso. O framework de Bohr funciona muito bem para a mecˆ anica quˆ antica. 81. Fil. . quando John Bell deriva um teorema. Int. novos experimentos foram sendo feitos. mas podemos de algum modo ampli´ a-lo e formular um novo paradigma para compreendermos toda ´ com esta motiva¸ a realidade (p. Clauser e S. H´ a um grande conflito entre as concep¸ c˜ oes que sustentamos nestes dois campos. que n˜ ao permitia ainda que se conclu´ ısse definitivamente a favor da teoria e contra as desigualdades. que deveria ser respeitada por quaisquer teorias realistas locais (cap. realismo e localidade. do paradigma vigente em nosso senso comum. ´ e que por um lado. uma nova concep¸ c˜ ao Manuscrito – Rev. 89). A principal dificuldade com estes testes. 91)? E c˜ ao que Malin encerra a primeira parte do livro. os experimentos tem demonstrado com grande seguran¸ ca que as desigualdades s˜ ao violadas. a mecˆ anica quˆ antica ´ e nossa melhor descri¸ c˜ ao da realidade. pp. 7). v. 1. Aspect. Em princ´ ıpio baseada em experiˆ encias de pensamento. n. e assim. por A. as desigualdades de Bell come¸ cam a ser testadas experimentalmente a partir da d´ ecada de 70. e que n˜ ao h´ a nada profundo ou significativo sobre ela [a teoria]” (pp. A mecˆ anica quˆ antica decreta o fim do realismo. em forma de desigualdade. as hip´ oteses sobre as quais as desigualdades se baseiam. contra a mecˆ anica quˆ antica. ao longo da d´ ecada. enquanto que uma ado¸ c˜ ao da posi¸ c˜ ao de Einstein dava a entender que “a mecˆ anica quˆ antica ´ e uma estrutura matem´ atica algo arbitr´ aria. Roger.. 89). 89-90). 381-391. em sua grande maioria a favor da mecˆ anica quˆ antica. jan. dizia respeito ao grau de precis˜ ao destes experimentos. Malin apresentar´ a sua proposta. A partir de ent˜ ao. O grande passo em dire¸ c˜ ao a experimentos com um alto padr˜ ao de rigor foi dado em 1981. segundo Malin. violando as desigualdades de Bell. devem ser abandonadas (p. a situa¸ c˜ ao come¸ ca a mudar em 1964. 33. a concep¸ c˜ ao que guia nossa vida no dia-a-dia ´ e a do realismo. e o resultado ´ e que as previs˜ oes feitas pela mecˆ anica quˆ antica. trabalhando na Universidade de Paris. No entanto. Freedman em 1972. Grangier e G. e por outro. Campinas. P.ARENHART 388 fornece a chave para o mist´ erio do universo” (p.-jun.

De acordo com Heisenberg (segundo Malin. segundo Malin. e logo depois do colapso. baseada nas filosofias de Whitehead e Plotino. ´ e interessante abrirmos parˆ enteses aqui para esclarecer que se trata do mesmo Whitehead que. ´ e n˜ ao reconhecermos que se trata apenas de uma abstra¸ c˜ ao com um campo de aplica¸ c˜ ao limitado. v. Antes de seguirmos adiante. a atualiza¸ c˜ ao ´ e realizada por uma medi¸ c˜ ao. Whitehead propunha que volt´ assemos nossa aten¸ c˜ ao dos objetos para eventos. em parceria com Bertrand Russell. Aqui Malin estar´ a pisando em terreno ainda mais escorregadio. O realismo seria uma “abstra¸ c˜ a”. Primeiramente (caps. uma fun¸ c˜ ao de onda descreve um campo de potencialidades. pp. A filosofia proposta por Whitehead n˜ ao era de f´ acil compreens˜ ao. 172). Int. volta a ser apenas uma potencialidade. Segundo ele. O problema. 8-9). ou seja. a realidade n˜ ao se constituiria de substˆ ancias cont´ ınuas. mas de vibra¸ c˜ oes ou pulsa¸ c˜ oes de experiˆ encias (p. A liga¸ c˜ ao com a mecˆ anica quˆ antica baseia-se na interpreta¸ c˜ ao da fun¸ c˜ ao de onda segundo Heisenberg. no sentido Manuscrito – Rev. que os objetos fora de n´ os s˜ ao concretos. chegou a dizer que n˜ ao entendia sequer uma palavra da nova filosofia de Whitehead. 33. Fil. Inferimos. Malin busca mostrar atrav´ es de argumentos filos´ oficos que a hip´ otese da realidade baseia-se na verdade em um engano inconsciente de nossa mente. onde desenvolve sua filosofia do processo. ´ e a minha experiˆ encia de estar vendo um pr´ edio diante de mim que ´ e concreta. n. e mesmo seu antigo colaborador.-jun. e o resultado disso ´ e o mundo sem cor e sem vida da ciˆ encia. Bertrand Russell. 47-50). uma hip´ otese.. enquanto dever´ ıamos perceber que o que ´ e concreto s˜ ao nossas experiˆ encias. Mas voltemos ao livro de Malin. Whitehead parte da Inglaterra para os Estados Unidos. falaciosamente. que se atualiza quando h´ a o colapso da fun¸ c˜ ao de onda atrav´ es de uma medi¸ c˜ ao. 381-391. a filosofia ocidental havia dado muita importˆ ancia para categorias est´ aticas como “objetos” e “substˆ ancia”. . o sujeito e o objeto. Al´ em disso. entendidos como momentos em um processo dinˆ amico de cria¸ c˜ ao. Depois de contribuir nesta monumental obra. A segunda parte (cap. Campinas. 8-16) destina-se principalmente a apresentar a filosofia do processo de Whitehead como uma alternativa e relacion´ a-la com o colapso da fun¸ c˜ ao de onda na mecˆ anica quˆ antica. jan. Dividimos a natureza em dois lados. 2010. em oposi¸ c˜ ao a categorias de movimento como “mudan¸ ca” e “processo”. as potencialidades estariam em um reino fora do tempo. que forjamos para conhecer o mundo atrav´ es da ciˆ encia. em trˆ es volumes. N˜ ao ´ e o pr´ edio diante de mim que ´ e concreto. p.389 de realidade motivada pela mecˆ anica quˆ antica. segundo Malin. escreveu os famosos Principia Mathematica. Esta ´ e a rela¸ c˜ ao com a filosofia de Whitehead. 1.

159). Campinas. pelo menos como ´ e praticada atualmente. na qual o n´ ıvel superior nada perde.. p. 33. Na terceira parte (caps. em um dos di´ alogos que permeiam o texto. de algum modo. dentre as v´ arias possibilidades em um campo de potencialidades ser´ a atualizada? Malin buscar´ a a resposta na filosofia de Plotino. 17-19). . Novamente. Int. Ele est´ a ciente das dificuldades na aceita¸ c˜ ao de sua proposta.-jun. 381-391. em oposi¸ c˜ ao ao racioc´ ınio discursivo. em sua apresenta¸ c˜ ao de um paradigma alternativo da realidade Malin est´ a apresentando mais uma possibilidade a ser considerada do que uma resposta pronta. 2010. que em algumas de suas formas podem depender do tempo (ver. obje¸ c˜ oes de que seu modo de considerar o problema n˜ ao suficientemente cient´ ıfico (p. No entanto. jan. Aqui. al´ em de se comprometer com todas as dificuldades j´ a conhecidas ` as teorias de Whitehead Manuscrito – Rev. Se compreendemos a proposta de Malin. chega mesmo a por em d´ uvida a pr´ opria possibilidade da ciˆ encia. O problema ´ e saber at´ e que ponto a maioria dos leitores estar disposta a seguir Peter e adotar a proposta de Malin. Malin busca relacionar a filosofia de Plotino com sua proposta. ao realizar uma medi¸ c˜ ao e obter um resultado. atrav´ es de algo como uma emana¸ c˜ ao. Peter ´ e rapidamente convencido da razoabilidade do projeto. Podemos conhecer os n´ ıveis superiores do ser atrav´ es de alguma forma de introspec¸ c˜ ao. n. 204). por exemplo. pp. 1. A filosofia de Whitehead deixou em aberto a d´ uvida sobre como decidimos a seguinte quest˜ ao: qual. a contempla¸ c˜ ao da natureza desempenha papel an´ alogo ao do observador na teoria quˆ antica. a respons´ avel pela escolha de uma dentre as v´ arias possibilidades em um campo de potencialidades. o colapso ´ e de importˆ ancia central para a proposta de Malin. Fil. que. e n˜ ao ´ e claro se aquilo que colocaremos em seu lugar ser´ a um substituto efetivo. Como dissemos anteriormente. 3 Observa¸ co ˜es finais Uma das maiores dificuldades com a proposta de Malin. e chega mesmo a colocar na boca de Peter. v.ARENHART 390 do reino ideal platˆ onico. ´ e dif´ ıcil entender como este campo de potencialidades pode estar fora do tempo e ainda assim ser guiados pela equa¸ c˜ ao de Schr¨ odinger. A contempla¸ c˜ ao por parte da natureza seria. Segundo Plotino. faz com que a fun¸ c˜ ao de ondas colapse e um dentre os v´ arios poss´ ıveis resultados ocorra. sendo que os n´ ıveis inferiores s˜ ao criados pelos superiores. O papel que a contempla¸ c˜ ao acaba adquirindo. a natureza contempla e h´ a v´ arios n´ ıveis do ser.

Fil. 2001. No entanto. pp. a Western Perspective. 2003. Ainda. o papel do colapso ´ e t˜ ao grande na proposta de Malin. Manuscrito – Rev. mesmo que sua tentativa s´ eria de entender a natureza da realidade tenha ficado bastante obscura e tenda demasiadamente a algo como uma forma de misticismo no qual nem todos est˜ ao dispostos a acreditar completamente. Zylberlicht. que n˜ ao nos admiramos de n˜ ao vermos discutidas mais longamente em seu livro propostas alternativas da ´ dif´ teoria quˆ antica em que o colapso n˜ ao aparece. E prov´ avel que esta teoria vir´ a a ser superada no futuro por uma teoria diferente. Campinas. 381-391. S. A Natureza Ama Esconder-se: A F´ ısica Quˆ antica e a Natureza da Realidade. Press. Nature Loves to Hide: Quantum Physics an the Nature of Reality. consiste no fato de que ele baseia sua nova vis˜ ao da realidade em ´ altamente paralelos destas teorias com a mecˆ anica quˆ antica com colapso. estas obje¸ c˜ oes n˜ ao nos impedem de aprender algo importante com a proposta de Malin. tradu¸ c˜ ao de Lea P. e nada nos garante. Referˆ encias [1] MALIN. [2] MALIN. 33. jan. 2010. Int. v. uma Perspectiva Ocidental. S.. ..-jun. com a ajuda de Fl´ avio Antonio Dias e outros. Trata-se de um livro interessante que merece ser lido principalmente pela valiosa exposi¸ c˜ ao de alguns conceitos da mecˆ anica quˆ antica para n˜ ao especialistas. S.391 e Plotino. que esta teoria futura n˜ ao ir´ a se comprometer com pressuposi¸ c˜ oes que n˜ ao s˜ ao t˜ ao facilmente colocadas em acordo com as filosofias de Whitehead e Plotino (pressupondo que a proposta de Malin seja bem sucedida). Paulo: Horus Editora. Oxford: Oxford Un. E ıcil de ver as liga¸ c˜ oes da mecˆ anica quˆ antica com a proposta de Malin seguindo Whitehead e Plotino sem o colapso. Este ´ e um dos perigos que correm projetos de metaf´ ısica baseados em teorias cient´ ıficas particulares. n.. 1. em particular.

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