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DOMINGO, 21 DE OUTUBRO DE 2012

O ESTADO DE S. PAULO

entrevista* Mordillo, cartunista argentino Ubiratan Brasil HUMOR PACIFISTA DE Quando estava com apenas 5 anos,
entrevista*
Mordillo,
cartunista argentino
Ubiratan Brasil
HUMOR PACIFISTA DE
Quando estava com apenas 5 anos,
o
argentino Guillermo Mordillo foi
tomado por uma visão: ao assistir o
clássico desenho Branca de Neve e
os Sete Anões, de Walt Disney, desco-
briu que o mundo também podia
ter cores mais belas e traços mais
delicados. Foi o suficiente para de-
cidir que carreira seguiria – hoje,
aos 80 anos (completados em agos-
to), Mordillo é artista consagrado,
autor de desenhos inconfundíveis e
fôlego interminável, pois se prepa-
ra para realizar seu primeiro longa
metragem. “Vou cuidar de tudo,
menos de dois detalhes: trilha sono-
ra e diálogos, áreas que não domi-
no”, conta ele, gargalhando.
A frase se torna de efeito, pois
exemplifica bem sua forma de tra-
balho. Mordillo tornou-se mundial-
mente conhecido pelos desenhos
coloridos e sem palavras, repletos
de amor, esporte (futebol e golfe,
em particular) e animais pescoçu-
dos. Vinhetas com suas animações
foram exibidas na TV brasileira
nos anos 1980, mas atualmente
apenas fãs de quadrinhos reconhe-
cem por aqui seu talento.
Na semana passada, Mordillo
deslocou-se de Paris, onde vive,
para a Feira do Livro de Frank-
furt, onde se encontrou com fãs
apaixonados. Deu autógrafos, dis-
tribuiu chaveirinhos inspirados
em seus personagens. Lá, tam-
bém, conversou com o Estado.
MORDILLO
ARNO BURGI/EFE
Desenhista
argentino festeja
80 anos com
nova exposição e
sua primeira
animação de
longa-metragem
Humor.
“Sua
função é
refletir
sobre
problemas
mas com
esperança”
depois de 13 anos é que sedi-
mentei meu próprio estilo.
ria, por mais surpresas que te-
nha a trama. No futebol, é di-
ferente: até o último minuto
E seu método de trabalho
sempre foi o mesmo?
de jogo, tudo pode acontecer.
Isso é sensacional.
Tive de deixar meu país com 23
anos, por problemas políticos – os
governantes nunca foram bem hu-
morados (risos) . Fui ao Peru a pas-
seio e, em vez de três meses, aca-
bei ficando cinco anos. Lá, traba-
lhei em campanhas publicitárias
até finalmente me transferir para
Nova York em 1960, quando publi-
quei meus primeiros trabalhos e ga-
nhei alguma notoriedade. Também
morei pela primeira vez em Paris,
publicando em revistas como Lui ,
Paris-Match . Mas o segredo do
meu sucesso foi não ter sido tão in-
teligente: seguia meu instinto, daí
meus desenhos serem graciosos.
Se usasse muito a inteligência, tal-
vez fossem chatos (risos) .
Sim, praticamente o mesmo.
Quando tenho uma ideia, pre-
ciso descrevê-la primeiro em
palavras. Até surgir o dese-
nho, leva um tempo. Gosto de
trabalhar com diversos dese-
nhos ao mesmo tempo, pois a
cada dia escolho aquele que
me inspira mais.
● Qual a função do humor de
seus quadrinhos?
● O senhor passou a maior parte de
sua vida fora da Argentina. Por que?
Procuro sempre transmitir
ideias pacíficas, mas sei que é
utópico – jamais viveremos
em um mundo plenamente fe-
liz, até porque aí não haveria
nenhum humor (risos) . Posso
parecer piegas, mas a função
Como surgiu sua predileção
por personagens arredondados e
por alguns animais específicos,
como cachorros e girafas?
do humor é principalmente re-
fletir sobre assuntos desagra-
dáveis, como guerras e injusti-
ças, mas sem jamais provocar
O
formato dos personagens é
resultado do que aprendi nos
EUA: não é bom definir um
personagem como masculino
choro ou desespero: é preciso
manter a esperança.
● O senhor completou 80 anos
ou
feminino, pois cria mais em-
e continua muito ativo.
patia ou pelos homens ou pe-
las mulheres. Já os animais
Bem, acho gatos e cachorros
muito engraçados, são inspira-
dores. E a girafa é elegante,
além de ser silenciosa – como
meus cartuns. Mas confesso
que nunca pensei que as gira-
fas fizessem sucesso.
Sim, tenho planos para os pró-
● A decisão de ser desenhista
começou quando viu Branca de
Neve no cinema?
Sim, foi uma experiência inesquecí-
vel. Fiquei deslumbrado e comecei
ximos dez anos (risos) . Na ver-
dade, comemorei meu aniver-
sário com uma exposição e um
livro – não a toa chamados 4 x
20 – e também o filme de ani-
mação, que estamos preparan-
do. Depois de ter produzido di-
versos filmetes, agora será um
grande desafio trabalhar com
E o futebol?
a
desenhar. Logo comuniquei aos
meus pais que seguiria aquela profis-
são. Era um moleque e eles não dis-
seram nada. Acho que era algo tão
fora de propósito que preferiram fi-
car em silêncio (risos). No início, eu
só copiava o traço alheio e apenas
Ah, joguei muito quando garo-
to, com meus amigos. Não era
nada profissional, mas o fute-
bol sempre me encantou pela
sua imprevisibilidade. No ci-
nema, normalmente você sa-
be como vai terminar a histó-
um longa-metragem. Sabe,
meu cérebro é como um com-
putador (não muito moderno,
reconheço
),
que vou alimen-
tando com cenas que me cer-
cam: folha caindo, criança cho-
rando. Registro tudo e devolvo
isso em forma de arte.
● Luis Fernando Verissimo. O cronista, que escreve semanalmente nesta página, está em férias.