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CONCURSO PÚBLICO DE PROVAS E TÍTULOS PARA

PROFESSOR TITULAR

EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL

INSTITUTO DE PESQUISA E PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

EDITAL n. 28, DE 15/06/2005

MEMORIAL

CANDIDATO: CARLOS B. VAINER

SETEMBRO / 2005

SUMÁRIO

SUMÁRIO

I. OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

II. FORMAÇÃO

Primeiros Passos

O Doutoramento

III. 25 ANOS DE UFRJ

Os Primeiro Anos do PUR – Estado e Mobilidade do Trabalo

Setor Elétrico, Território, Meio Ambiente e Conflito Social

Território, Planejamento e Competição

Movimentos Sociais Comparados

IV. PERSPECTIVAS

1

g.

0

0

4

5

5

3

9

3

7

I. OBSERVAÇÕES PRELIMINARES

“Les idées ne se promènent pas toutes nues dans la rue” 1

Sou daqueles que, há muito, optei por utilizar e recomendar a meus alunos o

emprego da forma impessoal nos textos acadêmicos. Descrente embora, já há muito

tempo, da possibilidade de uma ciência neutra e positiva, ainda mais uma ciência social

neutra e positiva, julgo que a impessoalidade propicia ao autor maior controle de

eventuais descuidos subjetivistas em textos com pretensões científicas, contribuindo,

desta forma, para aguçar a vigilância epistemológica a que nos convoca a escola

sociológica

francesa.

Ora,

a

forma

memorial,

por

sua

própria

natureza,

rejeita

liminarmente

a impessoalidade,

uma

vez que

narrador

e

objeto da narrativa

se

confundem inextricavelmente. A alternativa (intermediária?) da primeira pessoa do

plural soaria a escapismo ou, o que é pior, a pretensão majestática – “nós pensamos isso,

nós publicamos aquilo”. Ademais, como sugerirei mais adiante,

há um

outro e

verdadeiro “nós” nesta história/estória: minha geração.

O

desconforto

decorrente

da

adoção

da

primeira

pessoa

do

singular

é

compensado, porém, por um certo entendimento do lugar do memorial neste concurso.

Entendo que o curruculum vitae faz o papel de testemunha do itinerário, arrolando o

“produto

objetivado”

de

minha

vida

intelectual

e

trazendo

os

certificados

que

comprovam os cursos realizados, os livros e artigos publicados, as comunicações,

palestras, aulas, orientações, etc. Quanto ao memorial, acredito que o que se pede ao

candidato, para além, ou aquém, da objetividade expressa no currículo, é que se

1 Julliard, Jacques; “Le fascisme en France”; Annales - Economies, Socétés, Civilisations, 39(4), juillet- août 1984, pp. 855; apud, Sirinelli, Jean-François. “Le hasard ou la nécessité? Une histoire en chantier:

l´histoire des intellectuels”; Vingtième Siècle: Revue d´Histoire, janvier-mars, n. 9, 1986, pp. 97-108, p.

98.

exponha, expondo aos colegas mais titulados da Comissão Julgadora os nexos e chaves

intelectuais, lógicos, afetivos, político-ideológicos – que conferem sentido, significado

e

valor dos produtos 2 .

Após lembrar que nos mamíferos superiores também ocorre a memória como

“simples reprodução de um evento passado”, Cassirer expõe de maneira clara quais

seriam os atributos da memória propriamente humana:

"Não

é simplesmente uma repetição,

mas antes

um renascimento

do

passado; implica um processo criativo e construtivo do passado. Não basta

recolher dados isolados da nossa experiência passada; devemos realmente

re-colhê-las, organizá-las e sintetizá-las em um foco de pensamento. É este

tipo de lembrança que nos proporciona a forma humana característica da

memória, e a distingue de todos os demais fenômenos da vida animal ou

orgânica” 3 .

Assim, a elaboração do memorial pode ser vista como o ato (mais) humano da

candidatura: mais que lembrança, longe de simples conjunto de glosas à margem do

currículo, ou, mesmo, meras justificativas das provas de produtividade acadêmica

listadas, o memorial é a narrativa presente, e portanto contextualizada, de uma trajetória

pregressa. Neste sentido, ao conferir significados e valores às várias etapas de minha

atividade acadêmica, fala tanto do que sou e do que penso hoje do que do que fui e

pensei ao longo do tempo da narrativa.

2 São as próprias Normas de Concurso para Professor Titular, aprovadas pelo Conselho Universitário da UFRJ em 11/04;/2005, que determinam que o memorial deve expor a “significação dos títulos e trabalhos a eles atribuída pelo próprio candidato” (Art. 2, III).

3 Cassirer, Ernst; Ensaio sobre o homem; introdução a uma filosofia da cultura humana. São Paulo; Martins Fontes, 1994, pp. 87 (a ênfase é minha).

Longe de resolver os problemas, este entendimento apenas ajuda a enunciá-los e,

espero, equacioná-los. São três os principais desafios com que me defrontei neste

esforço de recuperar os nexos e atribuir valores (“significações”).

O primeiro deles advém do fato de que, estando no presente o momento inicial

da narrativa da experiência passada, ou, se se prefere, sendo o momento em que escrevo

o verdadeiro ponto de partida do memorial, este corre o risco de sucumbir diante de uma

certa ansiedade que me empurraria a organizar o relato de forma linear, como se o

itinerário intelectual percorrido fosse dotado de coerência e consistência. Ao final, como

naquelas

comédias

românticas

açucaradas

de

Hollywood,

se

chegaria

a

que

as

peripécias do trajeto não poderiam ter levado senão ao lugar (intelectual, acadêmico)

onde estou e ao qual estava destinado desde o início.

Ora, não é difícil compreender que um relato com tais consistência e coerência

estaria omitindo muito do que foi a trajetória que pretendo recuperar. Ele focalizaria

apenas

as

incursões

que

tiveram

desdobramentos

claros,

escamoteando

o

tempo

consagrado a exercícios intelectuais que não levaram a lugar nenhum, ou, poderia dizer,

não levaram senão à experimentação de sua inocuidade ou pobreza. É sabido que

exercícios e experiências fracassadas de pesquisa e reflexão, atalhos e pontes cuja

produtividade marginal (objetiva) foi nula ou mesmo negativa - “passei quase um ano

sem produzir nada” ou “perdi muito tempo que poderia ter sido dedicado a escrever

mais dois ou três artigos” - são muitas vezes, infelizmente nem sempre, fundamentais

para que idéias e intuições venham à tona, questões se esclareçam e se vislumbrem

caminhos mais férteis. A dificuldade é que não é mais possível, a esta altura de minha

vida, recuperar cada um destes momentos e exercícios. Ademais, além da inocuidade de

consagrar excessiva atenção aos momentos “perdidos” e aos exercícios fracassados,

seria de má estratégia comprometer esta petição para a obtenção da posição de Professor

Titular 4 com aquilo que, digamos assim, “não deu certo” ou “não levou a lugar algum”.

Seja como for, fica a manifestação da consciência dos limites deste memorial e

de

seu inegável, mesmo porque

inescapável diante

das circunstâncias, otimismo

retrospectivo, que se regozija do que foi feito e, quase sempre, silencia os lamentos ou o

arrependimento, pelo não feito ou mal feito.

O segundo desafio é que, como sugere a citação em epígrafe, as idéias emergem

e se constituem, se embatem e são abandonadas em determinadas conjunturas históricas

– que são econômicas e políticas, tanto quanto culturais, ideológicas e intelectuais. Este

contexto, contudo, não se impõe de forma imediata em sua totalidade complexa sobre os

indivíduos; na verdade, ele passa por uma série de mediações: os grupos sociais de que

participei - família, turmas de escola, grupos de amigos e vizinhos, entre outros. Um

grupo foi decisivo para mim: a geração 5 .

A

memória individual, e este memorial não poderia evitá-lo, se constrói por

referência

a uma memória coletiva e

a eventos históricos

que são externos ao

indivíduo 6 . Ao traçar os primeiros bosquejos deste memorial, optei por elaborar 3 linhas

do

tempo.

Não

obstante a

consciência

de

que elas

estão

em

tudo

e

por

tudo

dialeticamente associadas, julguei que me ajudariam a estabelecer marcos para a

rememoração que constituiu a matéria bruta trabalhada por este memorial.

4 Moacir Palmeira, em seu Memorial, relata que encontrou a palavra “petição” como um dos significados de “memorial” registrados em nossos dicionários.

5 Ao tentar construir uma metodologia para a elaboração de uma história intelectual, Sirinelli aponta para três instrumentos que julga essenciais: o estudo dos itinerários individuais, a observação das estruturas de sociabilidade e o desvendamento das gerações (Sirinelli, Jean-François; op. cit).

6 “Diríamos com facilidade que cada memória individual é um ponto de vista da memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que aí ocupo, e que este lugar, ele mesmo, muda conforme a relações que estabelece com outros meios” (Halbwachs, Maurice; La mémoire collective. Paris, Albin Michel, 1997, p. 95).

Na primeira, que poderia

chamar de linha

histórica, assinalei os eventos

significativos de processos históricos mais abrangentes: golpe militar de 64, ascenso do

movimento estudantil nos anos 66 a 68, luta pelos direitos civis nos Estados Unidos,

show Opinião, Teatro Oficina, invasão da Universidade do Brasil e do campo do

Botafogo, maio francês, primavera de Praga, grandes passeatas de 1968, Congresso de

Ibiúna, cerco repressivo às organizações revolucionárias, vitória de Allende, golpe de

Pinochet, guerra do Vietnã, lenta transição democrática brasileira, lei da anistia,

fundação do Partido dos Trabalhadores, Assembléia Nacional Constituinte, etc.

Na segunda linha, que designei de engajamento e ação política 7 , dispus os

eventos que marcaram minha ação político-partidária e, nos últimos 25 anos, minha

ação política a partir e no interior da vida acadêmica. Aqui compareceram episódios tão

distintos e distantes quanto o primeiro processo político em 64 8 até minha luta

fracassada, junto ao Reitor Nelson Maculan, para promover um processo estatuinte na

UFRJ.

Finalmente,

a

terceira

linha,

informada

pelo

curriculum

vitae,

reuniu

os

momentos mais marcantes do que, de fato, constitui o objeto central que é minha

trajetória intelectual e acadêmica.

O que me parece essencial registrar nestas Observações Preliminares, que

constituem tanto uma explicitação do caminho seguido na elaboração do memorial

quanto um guia de leitura do que se seguirá, é que a noção de geração, tomada enquanto

conceito teórico, mas também como vivência existencial, revela os nexos entre as três

7 Em seu memorial para o concurso de Professor Titular em Antropologia Social do Museu Nacional, Moacir Palmeira recorre à expressão “ação cívica”. Embora reconhecendo a elegância da opção, prefiro “engajamento e ação política”, pois, desde meus 15 anos, têm sido estes os termos através dos quais reconheço-me – assim como reconheço aqueles que acompanhei e que me acompanharam.

8 Neste Inquérito Policial-Militar fui arrolado como testemunha, por ter participado de um grupo de 5 estudantes que, com o apoio do Ministério da Educação, durante um mês circulou por várias cidades gaúchas organizando cursos sobre organização de grêmios, imprensa estudantil e método Paulo Freire.

linhas, as conexões através dos quais me reconheço evoluindo contra o pano de fundo

de um tempo histórico. É em relação à minha geração que me situo para pensar e narrar

minha trajetória intelectual e acadêmica, que foi, sempre, embora de maneiras diversas

ao longo de minha vida, inseparável de meu engajamento político.

É enquanto integrante de uma geração que reconheço um itinerário político e

intelectual que atravessa as múltiplas conjunturas e temporalidades que fazem o tempo

coletivo – tempos individuais, tempos geracionais, tempos sociais. Nem as idéias estão

soltas no tempo e no espaço, nem minhas idéias, atividades e produção acadêmicas ou

vivências aparecem-me inteligíveis e, por conseqüência, passíveis de uma narrativa, se

não me ancoro nos marcos externos - que me chegam quase sempre mediados pela

minha geração.

A geração constitui, indubitavelmente, o lugar social e intelectual a partir do

qual e no qual me formei e caminhei intelectual e politicamente. Atuei no movimento

estudantil; estive por um tempo na militância clandestina; por três vezes estive preso,

tendo saído da última vez para o exílio. Retornei ao Brasil após a anistia, militei no

Partido

dos

Trabalhadores,

dele

me

desencantei,

tendo-me afastado

do

ativismo

partidário desde meados dos anos 90. Todos estes eventos são datados historicamente e

referidos à geração 68. E não deixa de ser com uma certa dose de orgulho que me

reconheço e reivindico a condição de geração 68.

Quando destaco a noção de geração como essencial para atribuir sentido(s) a

minha trajetória intelectual e política, não estou me referindo ao que os demógrafos

chamam de “coorte etária” – por exemplo, os baby boomers, nascidos entre 1945 e

1950. Embora uma certa proximidade etária seja componente do conceito, a noção de

geração – e trata-se aqui claramente de geração intelectual-política - tem sentido quando

referida “a um grupo particular da comunidade nacional – grupo ideologicamente e

sociologicamente claramente circunscrito” 9 .

A noção de geração, essencial para a elaboração deste memorial, entretanto,

revela-se também uma armadilha: como discriminar aquilo que em minha produção

acadêmica-científica e em meu engajamento político advém de trajetos e investidas

individuais daquilo que foram práticas e pensamentos em que, por assim dizer, eu

apenas era um portador (a mais) de um ethos coletivo para cuja construção social

contribuí muito pouco? Como, de modo honesto e rigoroso, reivindicar autorias quando

a separação entre obra coletiva e obra individual nem sempre é clara?

Assim, que em determinado momento de minha longa e rica estadia parisiense 10

eu me tenha debruçado sobre os destinos do campesinato brasileiro certamente não

respondia apenas, e talvez nem mesmo predominantemente, à minha convicção de que o

entendimento das massas rurais fosse decisivo para que eu e meus companheiros

pudéssemos, enfim, desvelar os erros cometidos nos anos 60 e elaborar, afinal, a boa

estratégia da revolução brasileira. É certo que tive, em algum momento, esta convicção

e que foi ela que me levou a escolher o campo de estudos rurais na universidade

parisiense;

mas

a

maneira

como

conduzi

estes

estudos

foi

quase

que

toda

ela

determinada pelos debates que então transcorriam na França, acerca da pertinência das

teses

marxistas

campesinato.

clássicas

sobre

a

tendência

inexorável

ao

desaparecimento

do

9 Sirinelli, op. cit, p. 105. É bom lembrar que, enquanto construção/representação “a legitimidade da representação paradigmática <de uma geração> não tem qualquer fundamento quantitativo: ela não decorre senão da capacidade de se fazer reconhecer como sendo aquela que produz o máximo de identidade diferencial” (Kriegel, Annie; “Le concept de génération: apogée et déclin”; in Commentaire, 2(7), automne 1979, p. 395; apud Sirinelli, op. cit., p. 106). Ou seja, a “geração 68” está longe de constituir uma amostra representativa da juventude brasileira da segunda metade dos anos 60, ou, mesmo, da juventude universitária deste período; é ela, contudo, que produz identidades. 10 Até hoje alguns amigos que participaram da árdua luta pela anistia me recriminam quando rememoro com afeição e certo entusiasmo os anos de exílio, como se fora uma aceitação tácita da violência que me conduzira a Paris.

Seguir firmemente na direção sugerida por estas reflexões me encaminharia para

uma

tão

pretensiosa

quanto

temerária

“sociologia

de

mim

mesmo”

(e

do

meu

pensamento). A recusa de enveredar nesta aventura egocêntrica, a que a prática do

memorialismo, de uma maneira ou outra, incita, não pode levar ao desconhecimento de

que caminhei por um caminho que, nos múltiplos campos intelectuais e políticos que

freqüentei, se construiu social e historicamente ao mesmo tempo em que eu me

construía enquanto agente político e autor acadêmico. E que certamente fui muito mais

determinado que determinante das direções e atalhos que se construíram ao tempo em

que os trilhávamos, eu e outros de minha geração (alguns mais determinantes, outros

mais determinados). E aqui o uso do nós é quase uma exigência, e não tem nada de

majestático.

O desafio, aqui, consiste em evitar, num extremo, a “sociologia de mim mesmo”

e, no outro extremo, a tentação de fundir-me e desaparecer em uma tentativa de

“história intelectual” dos últimos 25 anos. Para enfrentar tal desafio, busquei, sempre

que possível, guiar-me pela idéia de que pertencer a uma geração é compartilhar um

estoque

de

valores,

ideais,

conceitos

e

pré-conceitos,

um

leque

de caminhos

e

alternativas políticas, intelectuais e existenciais aceitas como legítimas ou desejáveis.

Foi neste patrimônio geracional que fiz opções e tomei direções que me individualizam.

É neste sentido que inscrevi e inscrevo na geração de 68 minha experiência política e

intelectual-acadêmica, buscando evitar os dois extremos referidos acima.

Não me sinto totalmente satisfeito com a forma como enfrentei, em várias

passagens do memorial, o desafio. Estou consciente de que poucas vezes tive a

habilidade para explicitar, no relato, as relações entre as três linhas cronológicas. Tenho

muitas dúvidas de que teria podido fazer melhor se estendesse ainda mais as análises e

pesquisas sobre os campos intelectuais e políticos em que atuei e com os quais interagi,

tantos

me

parecem

agora

serem

meus

limites

para

produzir

uma

autobiografia

intelectual-acadêmica. Fica a advertência de que mesmo quando não enunciados, os

nexos estavam lá, operantes, para o bem ou para mal, limpando ou obstaculizando o

caminho da experiência intelectual, da pesquisa, do ensino e da extensão, bem como da

ação acadêmico-institucional.

O terceiro e último desafio foi, de um lado, discriminar aquilo que em meu

engajamento e ação política mereceria ser considerado como parte de minha trajetória

intelectual-acadêmica, e, portanto, merecedor de ser contemplado neste relato; e, de

outro lado, identificar o que em minha atividade e produção acadêmica-intelectual

deveria antes ser considerado como da esfera da produção política. Ora, desde o início

de

minha

atividade

política,

ela

foi

marcada

por

um

permanente

e

reiterado

compromisso com o estudo, com a reflexão, inspirado no ensinamento do autor e líder

político que, durante muito tempo, pareceu-me exemplar da combinação perfeita entre

intelectual e homem de ação – Lenin. Por outro lado, quando minha vida deu uma

guinada e me encaminhei para a academia, desde a tese de doutorado e, em seguida, na

UFRJ e no IPPUR, nunca perdi de vista a dimensão política da pesquisa e reflexão, do

ensino e da extensão. A questão da relação entre atividade acadêmica e atividade

política ganha enorme complexidade quando vivida na academia – e não mais na ação

partidária.

A questão para mim tem uma grande relevância porque me senti um pouco como

um peixe fora d´água durante os primeiros anos de minha carreira universitária. Pensava

ainda um pouco como o estudante de 1967, como se o compromisso acadêmico

conduzisse necessariamente ao alheamento ou encerramento na torre de marfim,

ameaçando meu original e continuado desejo de preservar o engajamento político. Nos

anos 80 este engajamento influenciou de maneira marcante minha produção intelectual,

parte expressiva da qual teve como público os companheiros de ação política no Partido

dos Trabalhadores.

Não renego nem me envergonho de nada do que escrevi nestes anos, embora,

obviamente,

parte

desta

produção

soe

hoje

anacrônica.

Relendo

estes

trabalhos,

vislumbro em alguns deles certos valores e significados que vão além do texto político

de ocasião; optei, contudo, por respeitar estritamente os termos do concurso que é, em

tudo e por tudo, acadêmico, desconsiderando, tanto no currículo quanto no memorial,

estas referências.

Tal opção não me impediu, sempre que julguei pertinente, de referir as questões

de ordem política que estiveram associadas à atividade acadêmica – ensino, pesquisa,

extensão. O fato de atuar numa área que é reconhecida nas instituições científicas

nacionais – CNPQ, em primeiro lugar – como Ciências Sociais Aplicadas legitima estas

conexões e trocas entre o terreno da esfera da ação pública/política (planejamento e

políticas urbanas e regionais) e a produção acadêmica. A intensa atividade de extensão

que tenho desenvolvido e, mais recentemente, o trabalho de assessoria técnica, tanto a

agências governamentais quanto não governamentais, foram permanentes fontes de

tensão, mas, acredito, também de rica interpelação da ação política pela produção

acadêmica e vice-versa. Esta esfera de atividade acadêmica será tratada mais adiante.

II. FORMAÇÃO

Primeiros Passos

Não há como escapar: todas as vezes em que busco rememorar o espaço-tempo

de meus primeiros exercícios intelectuais e dos primeiros momentos em que minha

inteligência desperta para o pensamento crítico, me encontro no Colégio de Aplicação

da FNFi 11 , da então Universidade do Brasil. Alguns professores - Terezinha Pinto,

Maurício Silva Santos, mais tarde, no científico, Samira Mesquita - se destacam na

paisagem escolar.

carisma

pessoal,

Suas aulas eram sempre esperadas com ansiedade, um pouco pelo

mas

também

pelo

espaço

e

estímulo

que

ofereciam

para

que

pudéssemos viver a extraordinária aventura intelectual que consiste em explorar o

desconhecido e interpelar criticamente o já sabido. Eles e muitos outros, mas também e,

sobretudo nós mesmos, os alunos, contribuímos para criar um clima admirável de

aprendizado naquele colégio.

Ambiente intelectual, o CAP constituía também espaço de intenso debate

político, sobretudo a partir de 1964. A instalação da ditadura militar e a repressão, que

se abateu sobre alguns dos alunos e professores, ofereciam a muitos de nós o

ingrediente

que

faltava

para

um

início

de

engajamento

político,

no

movimento

secundarista. Neste período ingressei no chamado “Grupo de Estudos” ou “Grupo de

Esquerda”, o qual, somente vim a descobri-lo mais tarde, constituía um espaço de

formação e recrutamento do Comitê Universitário do Partido Comunista Brasileiro.

Neste grupo de estudos, para o qual eram convidados colegas que se inclinavam para o

engajamento político de esquerda, tive meu primeiro e marcante contato direto com

autores decisivos em minha trajetória intelectual e minha atividade acadêmica: Marx,

Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, e outros clássicos do marxismo. Sob a

orientação de Luís Eduardo Prado, creio que à época estudante de Filosofia, dediquei

horas e madrugadas sem fim preparando-me para as reuniões em que iríamos desvendar

os mistérios da filosofia alemã – Kant, Hegel, Fichte, Feurbach e o próprio Marx.

Leituras filosóficas, políticas e econômicas, quase todas feitas à luz de um abordagem

dogmática e instrumental. O grupo de estudos também era o espaço em que definíamos

11 Faculdade Nacional de Filosofia. Era assim que aparecia no escudo do Colégio: CAP/FNFi.

nossa ação política no colégio: como combater as atitudes repressivas da Diretora? Que

estratégias e táticas implementar no movimento secundarista?

Não poderia deixar de mencionar, nesta etapa da vida, meus estudos na Aliança

Francesa, que contrabalançavam o dogmatismo e uso imediatamente instrumental do

conhecimento que imperavam no grupo de estudos 12 . Ali, num ambiente menos

imediatamente político, embora crítico e progressista, pude aprofundar e alargar minha

formação humanística e ampliar meu conhecimento da literatura francesa. Sob a

condução erudita de Henri Cox, entusiasmado com sua análise literária refinada, aprendi

que a beleza do texto pode estar a serviço da inteligência e me iniciei na arte da

dissertação francesa, graças à qual pude obter o meu primeiro diploma superior:

Diplôme de Langue et Littérature Française 13 .

Meu ingresso na Faculdade de Economia e Administração da Universidade do

Brasil foi o desenlace quase natural da formação pré-universitária 14 : afinal, firme era

minha convicção de que as estruturas e relações econômicas guardariam o segredo da

sociedade e da história, como havia aprendido nas minhas primeiras leituras marxistas e

nos meus manuais – há que lembrar pelo menos o Afanassiev, da Academia Soviética

de Ciências, e os princípios de filosofia de Georges Politzer.

Na Faculdade, dois focos principais: o estudo e o engajamento no movimento

estudantil. Havia uma certa complementaridade: de um lado, continuava a ler os

12 Neste grupo, como sempre acontecia nos agrupamentos políticos de inspiração marxista-leninista dogmática, fui treinado a encontrar a boa citação a proferir no meio de uma polêmica e, através dela, invocar o apoio de Marx ou Lênin, seja para o que for. À época, a sua revelia, muitas vezes Marx ou Lenin foram invocados em discussões sobre como combater a diretora repressora ou como organizar a festa junina para avançar no processo de conscientização de nossos colegas “mais atrasados”.

13 Lembro que além dos cursos regulares, muitas tardes, na sede da Aliança de Copacabana, eram consagradas a ouvir discos em que atores da Comédie Française interpretavam peças de Racine, Corneille, Molière ou liam poemas de Victor Hugo, Ronsard ou Appolinaire.

14 Foi grande o espanto, e mesmo a frustração, de familiares quando lhes comuniquei minha opção pela economia, pois, à época, era de se esperar que um jovem judeu, se bom aluno, fizesse o vestibular para Engenharia ou Medicina, carreira onde os filhos da classe média judaica concretizariam o sonho de ascenção intelectual e social, saindo do comércio para as profissões liberais.

clássicos do marxismo-leninismo em grupos de leitura e estudos. De outro lado, a

organização política de que me aproximei exigia que seus simpatizantes freqüentassem

as

aulas

assiduamente

e

fossem

alunos

de

destaque.

Mais

que

isso,

devíamos

transformar cada aula em momento para despertar a consciência política dos colegas,

desafiando incansavelmente a “ciência burguesa”.

As aulas de História do Pensamento Econômico de Oscar Dias Correia ainda

hoje estão frescas na memória: passávamos horas estudando os textos que seriam

apresentados pelo professor, mas também os materiais críticos da literatura marxista que

conseguíamos identificar a respeito do autor ou corrente a ser tratada. E lá íamos nós,

incansáveis, para mais este episódio da luta de classes! Também recordo aulas de micro

e macro, e minha lembrança (benevolente?) me diz que “o proletariado revolucionário e

o materialismo histórico” saíam sempre vitoriosos ao final dos 50 minutos, graças a

nossas implacáveis críticas à inconsistência dos modelos neo-clássicos e keynesianos,

monotonamente servidos como o nec plus ultra da ciência econômica por professores

assistentes quase sempre medíocres, em seus primeiros passos na docência.

O meu segundo ano de estudante de economia foi bastante mais conturbado:

1968. Continuei seguindo o curso, mas o estudo, seja o informal, seja o formal, foi

progressivamente sendo substituído pela ação política. Preso no Congresso da União

Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, fui rapidamente libertado; mas logo a seguir minha

prisão (preventiva, se dizia à época) foi decretada e, a partir de então, a ilegalidade vai

alterar profundamente minha vida. Continuei atuando no movimento estudantil, como

vice-presidente

da

União

Metropolitana

dos

Estudantes,

freqüentando

várias

universidades, mas para atividades políticas, não mais escolares.

O AI-5, o descenso do movimento estudantil, o recrudescimento da repressão,

tudo

isso,

no

início

de

1969,

vai

empurrar-me,

a

mim

e

a

muitos

colegas

e

companheiros, para a luta clandestina contra a ditadura. Os anos de chumbo, para mim,

foram os anos da clandestinidade e da prisão. Até que, em início de 1971, fui libertado e

banido do país 15 . Iniciavam-se os longos anos do exílio, no qual retomaria uma

trajetória acadêmica que a clandestinidade e a prisão haviam interrompido.

O Doutoramento

Os primeiros tempos do exílio foram dominados pelo profundo sentimento da

derrota. Explica-se que tenha optado por consagrar-me ao estudo das revoluções

derrotadas. Tinha a esperança de que o conhecimento do que se passara na Europa dos

anos 1917 a 1924, sobretudo na Hungria, Alemanha, Itália, me ajudaria a entender o que

tinha acabado de viver no Brasil. A opção autodidática e um tanto depressiva,

reconheço, lançou-me numa experiência árdua e isolada, apenas compartilhada por um

círculo muito restrito de companheiros que, de uma maneira ou outra, pensavam, como

eu, que o exílio era um interregno durante o qual deveríamos nos aperfeiçoar para os

novos embates aos quais rapidamente seríamos convocados pela História (com letra

maiúscula mesmo).

O golpe

de

11

de setembro de

1973, no Chile, nos levou a

reformular as

expectativas. Ele nos advertia de que a derrota era muito mais profunda do que jamais

aceitáramos, o que significava que o exílio tenderia a se estender muito além do que

havíamos imaginado 16 . Uma vez protegido pela acolhida da embaixada do México, em

15 Cabe registrar que mesmo durante a clandestinidade e na prisão, nunca abandonei o estudo e as leituras teóricas e históricas – não mais consagradas apenas aos clássicos do marxismo. Esta mania ou gosto, assim como a permanente inclinação para questionar argumentos de autoridade feitos de citações “inquestionáveis”, não me poupou, à época, de ser muitas vezes criticado de “teoricismo” e “intelectualismo”, terríveis desvios (pequeno-burgueses, por certo) num tempo em que ecoava o chamado de Regis Debray: “o dever do revolucionário é fazer a revolução”, em vez de ficar pensando sobre ela. Assim, é com uma certa indulgência que, agora pesquisador e professor universitário, obrigado por ofício a pensar e estudar, vejo alguns colegas e planejadores, lançarem-me o mesmo qualificativo!

16 Com a perspectiva histórica que temos hoje, sabemos que, na verdade, vivíamos naqueles tempos o fim de uma era, que muitos autores vieram qualificar como fim dos “30 gloriosos” de expansão continuada do capitalismo fordista e do welfare state. Na América Latina foi a era de consolidação das ditaduras,

Santiago do Chile, tomei a firme de decisão de buscar refúgio na França, a fim de

retomar os estudos. Cheguei a Paris no início de 1974 17 .

Meu desejo era caminhar diretamente para a pós-graduação, para a qual sentia-

me qualificado em virtude de meus estudos autodidáticos, mas tive, antes, que concluir

meus estudos de graduação. Dirigi-me ao curso de Sociologia da então mitológica

Université de

Vincennes – Paris VIII, onde obtive a licence em 1975 (2.2.6) e ao

IEDES - Institut d´Étude du Développement Économique et Social/Université de Paris –

Panthéon/Sorbonne, onde também iria me graduar e fazer o doutorado.

Em Vincennes, universidade experimental em que se haviam depositado as

expectativas de concretização de um modelo de universidade alternativo ao modelo

alvejado pelas estudantes em 68, ainda se respirava um ar de livre debate e juvenil

esquerdismo, misturado com cultura hippie, que prolongava, de certa maneira, o espírito

dos tempos de seu nascimento. A informalidade dos seminários, a variedade de opções

de disciplinas oferecidas e a forte presença de professores marxistas das mais diferentes

extrações

partidárias

e

filosófico-políticas

abriam

para

mim

um

universo

extraordinariamente amplo de oportunidades. Não obstante o grande número de estrelas

do pensamento marxista, como Nikos Poulantzas, acabei me aproximando de Yves

Duroux,

cujo

seminário

d´O

Capital

revolucionou

meu

entendimento

e

minha

abordagem tanto da obra de Marx quanto do marxismo de modo geral. Vindo dos

seminários de Althusser, Duroux foi o mestre com quem aprendi a ler Marx e os

clássicos do marxismo. Ele me mostrou como, através das dúvidas e contradições,

17 Durante cerca de 3 meses permaneci no México, e os contatos que fiz com alguns professores e pesquisadores no período me fizeram pensar em permanecer naquele país, onde os estudos rurais – sociológicos e, sobretudo, antropológicos, eram muito avançados. A decisão do governo de mexicano de acolher como refugiados apenas os cidadãos chilenos fez-me retomar a decisão de ir para a França. De posse de um visto belga, fui para a Bruxelas, seguindo, pouco tempo depois, para Paris, onde, após uma penosa trajetória burocrática, obtive oficialmente o estatuto de refugiado político. Cabe aqui, por justiça, mencionar o ajuda incansável que recebi da CIMADE – Service Oecuménique d´Entreaide -, que também me concedeu apoio por dois anos com uma ajuda a título de bolsa de estudos.

paradoxos e silêncios do autor, é possível abrir novos e amplos campos de reflexão. Ele

mostrava como somente a rejeição das abordagens apologéticas, feitas de reverência

religiosa, e sua substituição pela leitura rigorosamente crítica permitiriam extrair do

texto o que tem de mais rico.

Depois de tantos grupos de leitura e anos de estudo de autores marxistas e após

superar as naturais resistências iniciais decorrentes de minha formação dogmática,

comecei, finalmente, a sentir-me realmente apto a explorar com autonomia e rigor a

produção de Marx, seus seguidores e comentadores 18 .

Foi como trabalho de final de um dos cursos de Yves Duroux, em co-autoria

com

Liszt Vieira, que produzi o primeiro

texto no qual reconheço um sentido

propriamente acadêmico-científico e um exercício teórico autônomo e original (

)

19

.

O texto era inteiramente consagrado à crítica da chamada “teoria da superexploração”,

que tinha em Ruy Mauro Marini o principal formulador e acolhia grande adesão na

esquerda latino-americana à época.

Segundo Marini, a especificidade dos países

dependentes consistiria em que, ao contrário do que acontecia nos países centrais, a

reprodução do capital se fazia através da superexploração, e não apenas da exploração

da força de trabalho. Em outras palavras: na periferia capitalista a força de trabalho seria

remunerada abaixo do seu valor.

18 A progressiva degradação do ambiente em Vincennes e a falta de cursos de pós-graduação que pudessem acomodar meus interesses acabaram me afastando daquela universidade e de Duroux, como quem nunca mais tive contato. Sobre esta rápida e decisiva passagem de minha formação, caberia mencionar também os seminários de “sociologia do trabalho” de Françoise Duroux, onde o mesmo sentido crítico e liberdade intelectual a que já me referi eram consagrados a explorar o processo de trabalho capitalista, o fordismo e as tecnologias de controle do trabalho e do trabalhador. Com Françoise Duroux também entrei em contato com as críticas à noção de sociedade pós-industrial, que está também em Lefebvre.

19 Infelizmente não consegui encontrar nenhuma cópia deste trabalho, que nunca passou de um texto datilografado, mas que, pela importância que teve para mim, consta do curriculum vitae.

As longas e férteis discussões com Duroux me haviam ensinado que os

conceitos de força de trabalho e valor da força de trabalho, apesar de sua centralidade,

ou por causa dela, eram, de todos, os mais complexos e menos entendidos dos conceitos

d´O Capital. Ao simplificá-los, quase que reduzindo-os a meras medidas quantitativas,

destituindo-os

de

sua

historicidade

e

dimensão

conflituosa,

a

noção

de

“superexploração” criava, na verdade, um atalho através do qual

a análise histórica e

teórica se aproximava, quase se fundia, com a denúncia política, confundindo miséria

(condição de vida) e exploração (valor apropriado), categorias em Marx completamente

independentes.

Concluíamos afirmando que se era meritório o esforço de Marini para retirar da

esfera da circulação a discussão das especificidades dos países periféricos, e, desta

forma, escapar às teorias cepalinas e outras que delas se avizinhavam, esbarrava num

tratamento equivocado e redutor de categorias teóricas de Marx, particularmente dos

conceitos de força de trabalho e valor da força de trabalho. Em síntese, a especificidade

não podia ser encontrada numa lei particular do capital na periferia, mas na forma

histórica particular (singular) com que as leis gerais do capital se faziam história em

cada formação social específica. Ao final, permanecia o desafio de entender as

especificidades do capitalismo periférico e o lugar do valor da força de trabalho, isto é,

da reprodução dos trabalhadores, em sua configuração enquanto formação social

particular, questão à qual eu retornaria em minha tese de doutorado.

O IEDES era completamente diferente de Vincennes. Fundado em 1957, tendo

em vista o processo de descolonização, voltado para a pesquisa sobre o “terceiro

mundo” e para a formação de quadros para a cooperação internacional – coopérants

franceses e quadros autóctones das ex-colônias francesas -, dominava neste Instituto,

não

obstante

a

presença

de

alguns

professores

marxistas 20 ,

a

problemática

do

desenvolvimento-subdesenvolvimento. Na passagem dos anos 60 para os 70 havia

crescido o número de estudantes e professores latino-americanos, muitos deles exilados

(oficiais ou voluntários) 21 .

Além de um amplo contato com latino-americanos e africanos, o IEDES oferecia

a oportunidade de uma formação multidisciplinar, combinando a sociologia e a ciência

política, de um lado, e a economia, de outro. Ademais, e isso foi para mim decisivo, o

IEDES abria-me a perspectiva de uma pós-graduação na área dos estudos rurais.

Assim

imediatamente

foi

no

que,

3 eme

uma

vez

ciclo,

obtido

o

na

Opção

Diplôme

de

2 eme

Desenvolvimento

Cycle 22 ,

ingressei

Rural

em

Países

Subdesenvolvidos. Além de uma sólida introdução à agronomia, havia disciplinas que

me propiciaram estudar a fundo a história do pensamento econômico acerca da questão

agrícola-rural. Relembrando o que havia estudado no curso de Oscar Dias Correia, sem

os mesmos preconceitos e dogmatismo instrumental de 1967, pude ler com grande

prazer Quesnay, Smith, Malthus, Ricardo e outros. Importante também foi o curso de

Michel

Gutelman,

que

mobilizava

os

recursos

de

sua

formação

marxista

para

aprofundar

a

discussão

sobre

a

teoria

da

renda,

numa

abordagem

original

que

considerava a vizinhança entre o que qualificava de marginalismo da teoria marxista da

20 Pierre Salama era o mais notório deles.

21 No IEDES, assim como em outras instituições universitárias francesas, era então expressivo o número de estudantes brasileiros com bolsas de estudo do governo brasileiro. Quanto a professores, assisti a um curso em que Celso Furtado explicava suas teorias do subdesenvolvimento, e respondia com dureza e má vontade às perguntas de inspiração marxista que lhe vinham dos estudantes latino-americanos. No início de 1974, o curso de graduação (2ème cycle) era coordenado por outro brasileiro, Pedro Calil Padis, que logo depois veio a falecer precocemente, e que muito auxiliou a regularização dos estudantes brasileiros refugiados.

22 Vivia-se, à época, uma nova reforma da educação superior francesa, com a implantação, entre outras novidades, do sistema de ciclos, do DEA – Diplôme d´Etudes Approfondies e do Diplôme de Doctorat de 3 o cycle. Em algumas carreiras e universidades, porém, como em Vincennes, ainda sobreviviam a licence e a maîtrise.

renda e os pressupostos da teoria marginalista canônica 23 o que chamava de teoria

marginalista da renda de Marx. Marcel Mazoyer, meu orientador, transmitia aos

estudantes parte de seu conhecimento enciclopédico sobre sistemas agrários ao longo da

história da humanidade e na contemporaneidade. Por outro lado, propunha que o

conceito

mesmo

desenvolvimento

de

sistema

agrário

agrícola,

uma

vez

permitia

compreender

a

complexidade

do

que

integrava

as

dimensões

ecológicas,

tecnológicas, agronômicas, fundiárias, demográficas e econômicas 24 .

De uma certa maneira, pode-se dizer que o curso girava em torno ao debate

sobre os destinos do campesinato. Neste debate convergiam pelos menos 3 grandes

vertentes:

1)

A

polêmica,

mais

estritamente

francesa,

sobre

os

destinos

do

campesinato francês, expressiva parte do qual havia sido submetida a

acelerado

processo

de

proletarização

e

urbanização

sob

a

5 a

República, quando a modernização, finalmente, tinha chegado ao

pays e ao village. O núcleo central de difusão deste debate havia sido

um grupo de pesquisadores do Institut National de la Recherche

Agricole, com seu livro Une France sans Paysans 25 .

 

2)

A discussão, nos meios marxistas, sobre a pertinência das análises

clássicas

(Marx,

Kaustky

e

Lenin)

acerca

dos

destinos

 

do

campesinato e do desenvolvimento do capitalismo na agricultura;

 

3)

E, em estreita conexão com a anterior, a emergência de análises

marxistas

que

apontavam

para

a

coexistência

e

articulação

de

23 Seu principal livro à época: Gutelman, Michel; Structures et réformes agraires, Paris, Maspéro 1974.

24 Além de ensinar no IEDES, Mazoyer havia sucedido René Dumont na cadeira (departamento) de Agricultures Comparées et Dévelopment Agricole, do Institut National Agronomique – Paris-Grignon.

25 Gervais, Michel; Servolin, Claude, Weill, Jean; Une France sans paysans, Paris, Éditions du Seuil,

1965.

diferentes

modos

de

produção

em

formações

sociais

históricas

(concretas), o que abria espaço, em alguns casos, para a existência de

um modo de produção camponês 26 articulado – e subordinado – ao

modo de produção capitalista.

O debate acerca do modo de produção camponês ganhou enorme reforço com a

redescoberta de Chayanov, russo dos primeiros tempos da revolução soviética, que

havia defendido a existência de uma economia política da produção camponesa em que

lógicas econômicas e não estritamente econômicas interagem para produzir uma

economia camponesa que, embora submetida ao capitalismo, engendra poderosos

mecanismos de auto-reprodução 27 .

A problemática que ia dar origem à minha pesquisa para tese foi sendo elaborada

progressivamente.

A

sua

origem,

as

discussões

desenvolvidas

num

grupo

de

7

estudantes brasileiros do IEDES que, em 1974, nos reuníramos em torno a ambicioso

projeto intitulado “Agricultura e Acumulação do Capital no Brasil”. Pretendíamos nos

dividir em 3 subprojetos de pesquisa, consagrados respectivamente ao subsetores

exportador, produtor de matérias primas e produtor de bens alimentares. Em todos os

casos, uma mesma pergunta: como o setor agrícola atende às demandas do processo de

acumulação, aí considerada a reprodução da força de trabalho?

26 Entre os principais autores presentes neste debate, Pierre-Phillipe Rey, com seu livro Alliances de classes: “Sur l´articulation des modes de production” suivi de “Matérialisme historique et luttes de classes”, Paris, Maspéro, 1973. Além do modo de produção camponês, multiplicaram-se os modos de produção lançados no mercado, como o modo de produção latifundiário, o modo de produção mercantil simples, o modo de produção de linhagens, entre outros.

27 Chayanov foi também lido e tornou-se referência, junto com Shanin, para um grupo de antropólogos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, entre os quais Moacir Palmeira e Afrânio Raul Garcia Júnior, cuja produção enriqueceu enormemente o conhecimento da realidade rural brasileira, particularmente no Nordeste.

Nossos pontos de partida eram dois. O primeiro, antes político que teórico, era a

convicção, já referida, da necessidade de desvendar o segredo do campo e dos

trabalhadores rurais pra desvendar o segredo da revolução brasileira. Neste ponto não

podíamos reivindicar grande originalidade, uma vez que desde os anos 60, o debate

acerca da natureza das relações sociais de produção no campo vinha ocupando posição

dominante na polêmica acerca do caráter da revolução brasileira. Mas nos anos 70

outras e novas questões se colocavam: a evidente derrota (na marra) da reforma agrária,

a modernização acelerada de alguns segmentos até então “tradicionais” e o movimento

de ocupação das fronteiras amazônicas.

O segundo pressuposto era de que o foco deveria ser o estudo da produção

material e das relações de classe – relações de produção e distribuição, mas também

políticas – que articulavam o setor agrícola ao processo de acumulação e dominação no

conjunto da formação social brasileira. Tínhamos também uma já consolidada crítica às

teses

estagnacionistas

e

dualistas

que

viam

o

campo

desenvolvimento do capitalismo brasileiro 28 .

como

um

obstáculo

ao

Como expus na Introdução de minha tese, uma vez o grupo desfeito, e em razão

mesmo da discussão acerca das especificidades do capitalismo brasileiro a que havia

sido conduzido pela crítica às teses de Rui Mauro Marini, vinculei a problemática

trazida do grupo à questão, teórica e histórica, dos modos de atualização das leis (gerais)

do capital em processos históricos singulares. Na verdade, todo o primeiro capítulo foi

consagrado a explorar e discutir o estatuto teórico da noção de especificidade. Sua

conclusão, que em certa medida explicita o roteiro da tese, sugere que a questão só pode

ser equacionada se se tomar em consideração (condição necessária mas não suficiente)

28 Estas críticas, em 1976, teriam sua consagração com a publicação da Crítica à Razão Dualista, de Francisco de Oliveira que foi lida e relida em todos os grupos de estudo e de pesquisa, e que, a nosso ver, lançava a pá de cal teórica nos vários tipos de dualismo, em particular aqueles da CEPAL e do PCB.

as condições e formas de reprodução do capital, que implica, entre outros, em dois

processos: o processo de proletarização e o processo de reprodução da força de trabalho.

E foi assim que a tese teve como um de seus focos, que acabou dando-lhe o título, a

relação entre produção alimentar e produção e reprodução da força de trabalho.

Uma vez formuladas algumas perguntas essenciais, parti para a revisão teórica,

que focalizou autores clássicos e neo-clássicos, mas sobretudo os textos marxistas sobre

a questão agrária. Durante quase 12 meses, após a leitura de Kautsky e Marx, consagrei-

me à leitura das obras completas de Lenin 29 . Trabalho árduo, às vezes desanimador, mas

do qual colhi, mais além de um conhecimento geral do autor e ator, uma visão bastante

apurada de sua abordagem da questão agrária e do desenvolvimento histórico do

capitalismo.

Era corriqueiro, no debate então em curso, considerar que a obra de Lenin sobre

a questão agrária apenas reafirmava os conhecidos prognósticos de Marx e Kautsky,

acerca da extinção do campesinato sob o tacão da concorrência da produção agrícola

capitalista. Ora, encontrei em Lenin muito mais que isso. Embora n´O Desenvolvimento

do Capitalismo na Rússia, empurrado por polêmica com os populistas, Lenin tivesse de

fato adotado uma posição canônica, ele mesmo veio a reconhecer, após a revolução . de

1905-1907, que havia aprendido mais em 1 ano de revolução camponesa que em muitos

anos de estudo das estatísticas agrícolas em que se apoiara até então. Em particular,

acredito ter descoberto o potencial analítico da noção de vias do desenvolvimento do

capitalismo formulada após a 1 a Revolução Russa, que, desde então, julgo essencial

para fazer a passagem da teoria (abstrata) do capital para a história (concreta) do

29 À época, minha sobrevivência material em Paris era assegurada pelo trabalho permanente como

porteiro de um albergue para moças (

imaginado que este era o emprego perfeito para quem queria ler as obras completas de Lenin, pois, quando escasseavam os hóspedes, muitas eras as horas e madrugadas livres para que eu entendesse as formas de organização da comuna russa ou os lances do armistício firmado com a Alemanha ou a evolução do número médio de cavalos nas grandes propriedades das províncias do Império Russo.

e trabalhos eventuais como porteiro noturno. Nunca havia

)

desenvolvimento capitalista em diferente formações sociais 30 . Entre outras virtudes, que

permitem escapar da idéia de que haveria um único e inexorável caminho para o

desenvolvimento, mito que dominou boa parte do debate capitalismo x feudalismo dos

anos 50 e 60, Lenin superava a herança economicista do marxismo, ao afirmar que a via

de desenvolvimento e, em consequência, a forma e ritmo do desenvolvimento, assim

como as relações de dominação e a forma do estado, dependiam, em última instância,

não do progresso das forças produtivas, mas do desenlace dos embates históricos que,

num determinado momento, se travam entre as classes sociais e nos quais está em jogo a

via – democrática ou não democrática – do desenvolvimento capitalista. Em síntese,

Lenin, ao contrário de seus antecessores, adotou uma perspectiva histórica que tinha

como centro o conflito de classes e as relações de poder.

Acredito ter podido encontrar novos nexos e chaves para o entendimento de

nossas especificidades ao ter utilizado a noção de vias do desenvolvimento em minha

investigação histórica sobre a produção agrícola e as relações de trabalho e produção no

campo brasileiro. O escravismo, a transição para o trabalho livre, a conformação de um

campesinato livre nas áreas de implantação de imigrantes no sul do país, as relações

tradicionais no latifúndio e as transformações por que passaram no pós-guerra, a

ocupação de fronteiras, o conjunto destas dinâmicas, processos e etapas são examinadas

para explicar as complementaridades e contradições – penso ainda hoje que de maneira

bastante original e provocante – entre o processo de acumulação do capital e o

desenvolvimento do capitalismo na agricultura.

30 Parece-me ainda hoje surpreendente que as idéias de Lenin sobre as vias de desenvolvimento do capitalismo sejam tão pouco exploradas, apesar de oferecerem instrumento analítico valiosíssimo para trabalhar as especificidades de diferentes formações sociais. No Brasil, que saiba, somente Otávio Velho e José Luis Fiori deram a devida atenção e recolheram, a meu ver, ricos frutos do emprego sistemático destas idéias de Lenin. Curiosamente, o silêncio sobre o Lenin das vias do desenvolvimento do capitalismo tem como contraponto a apologia de Barrington Moore Jr. e seu Social Origins of Democracy and Dictatorship, obra de valor discutível, que retoma e refraseia as idéias fundamentais de Lenin sem ao menos citá-lo.

Sobre as vias, tomei algumas liberdades com Lenin, e renomeei a via junker,

batizando-a, para o caso brasileiro, de via latifundiária. Dei um passo que Lenin havia

sugerido sem completá-lo e propus que haveria dois tipos de via camponesa: a

revolucionária e a americana 31 . Desta forma, identifiquei como especificidade brasileira

a forma singular como as vias latifundiária e camponesa (americana) se combinavam e

se confrontavam. A fronteira aparecia, nesta perspectiva, como o lócus do embate entre

as duas vias. Busquei mostrar como a fronteira oferecera, ao longo da história, um

espaço de reprodução para a produção camponesa pressionada pelo desenvolvimento

capitalista e modernização dos latifúndios nas áreas de antiga ocupação e como esta via

teria permitido manter baixo o valor de reprodução da força de trabalho. Some-se a

estas conclusões o capítulo VI, em que analisei, penso que de forma original, a transição

do trabalho escravo para o trabalho livre, mostrando como a imigração estrangeira havia

desempenhado papel fundamental na constituição de uma oferta de trabalho que

permitiu superar a lenta e gradual transição do trabalho escravo para o trabalho livre 32 .

Enquanto ultimava a preparação de minha tese, avançava no Brasil o movimento

pela anistia. Em 29 de junho 1979 defendi a tese. Em 28 de agosto foi aprovada a Lei de

Anistia. Suspendi as negociações que vinha fazendo para conseguir um posto de

assistente de meu orientador e comecei a organizar a volta. Em princípios de outubro de

1979, embarquei, com minha companheira Sonia e meu filho Paulo, nascido em Paris.

Era o fim do exílio. Saíra banido e voltava doutor.

III. 25 ANOS DE UFRJ

31 Na verdade, somente em 1915, isto é, 10 anos após seu texto clássivo sobre o Programa Agrário da Social Democracia., Lenin sugerirá a existência de uma via americana, ao estudar estatísticas sobre a evolução da agricultura nos Estados Unidos – New Data on the Laws Governing the Development of Capitalism in Agriculture 32 Estes capítulo seria mais tarde publicado, com algumas modificações (7.2.15) .

Os Primeiro Anos no PUR – Estado e Mobilidade do Trabalho

A perspectiva de continuar na França, com a qual já me havia habituado,

conduzia-me, quase naturalmente, para a vida acadêmica. Além da possibilidade

concreta de ingressar no IEDES ou no Institut National Agronomique como assistente

de Marcel Mazoyer, havia também a École Supérieure de Sciences Économiques et

Commerciales, onde havia conquistado, em 1977, em concorrida seleção, a posição de

Professor de Língua Brasileira. Eu já havia conseguido ampliar esta posição para

Professor de Realidade Brasileira, e esperava, com o título de doutor, conseguir mais

espaço. Com a anistia, no entanto, minha vida era, uma vez mais, revolucionada por

movimentos e rupturas históricas. A grande diferença é que, desta vez, eu iria poder

empacotar minha coisas com calma e não perderia, uma vez mais, os livros.

A anistia, a redemocratização, o avanço dos movimentos populares e, em

primeiro lugar, do movimento operário, ofereciam amplas oportunidades, acreditava eu,

para que usasse minha experiência política e minha formação acadêmica para apoiar os

movimentos emergentes. Como vários outros companheiros que voltavam do exílio,

optei por instalar-me em São Paulo, terra do recém-nascido PT, onde pretendia alcançar

reinserção profissional e política na vida nacional. Passados três meses sem qualquer

perspectiva profissional acabei retornando ao Rio de Janeiro, e aceitei convite para

ingressar como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Planejamento

Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro 33 .

33 Vindo de Paris, desembarquei no Rio de Janeiro, onde sempre havia vivido, para rever familiares e amigos. Nesta rápida estadia carioca, fui chamado pelo Prof. Luiz César Queiroz Ribeiro, que havia conhecido em Paris, para ser apresentado a professores e estudantes do PUR e a fazer uma palestra sobre minha recém-concluída tese. Após a palestra, o então coordenador do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, Prof. Robert Daughters, me convidou para ser Professor Visitante. Recordo ainda hoje o espanto de minha esposa, que me havia acompanhado, quando fomos informados da remuneração, que à época nos pareceu enorme. Como, porém, pretendia ir para São Paulo, agradeci o convite e informei que caso não conseguisse uma boa alternativa em São Paulo, voltaria a conversar com ele. Foi o que aconteceu. Recordo-me que Luiz César, antes de meu aceite, me disse algo

Nas primeiras conversas, os colegas – Luiz César Queiroz Ribeiro, David Vetter,

Rosélia

Piquet,

Robert

Daugthers

traçaram-me

um

quadro

das

dificuldades

enfrentadas pelo PUR desde o ano de 1976, quando sete professores haviam sido

expulsos por razões políticas. Explicaram-me as desafios políticos e institucionais que

teríamos que enfrentar para manter o programa. Ficava claro que havia sido convidado

para uma instituição cuja sobrevivência, era o mínimo que se podia dizer, estava por um

fio, submetida a uma espécie de intervenção branca da Administração Central e, para

ser explícito, de antigos professores, tradicionalistas e conservadores (reacionários

talvez fosse o melhor termo), que tinham como objetivo principal esvaziar o Programa

de qualquer sentido crítico e apropriar-se de seu patrimônio material e simbólico. Foram

Rosélia e Luiz Cesar, naquele momento, os interlocutores que me iam progressivamente

aproximando da questão urbana e regional. Foram eles também os companheiros da luta

a que nos lançamos para preservar e reconstruir o PUR. Logo em seguida, vieram

juntar-se a nós Ana Clara Torres Ribeiro, Rainer Randolph e Martim Oscar Smolka,

formando os seis o grupo que iria conduzir a remontagem institucional e acadêmica do

Programa e levar à criação do Instituto de Pesquisa em Planejamento Urbano e

Regional.

Imediatamente passei a oferecer disciplinas sobre Desenvolvimento Agrícola e

Regional.

E,

logo

em

seguida,

Economia

Política

Para

o

Planejamento,

onde

desenvolvia uma discussão dos conceitos econômicos básicos de Marx, a partir d´O

Capital 34 .

mais ou msenos assim: “Precisamos de você para fortalecer a área regional, mas também precisamos de você porque temos uma batalha enorme pela frente e sei que você é bom de briga”. Pensando agora, penso que pelo menos no que concerne à segunda demanda, não decepcionei. 34 Nesta disciplina, pela qual respondi por muitos anos com prazer sempre renovado, tentei a todo tempo ser fiel ao que havia aprendido com Yves Duroux. Às amareladas notas do curso de Duroux, que alguns alunos de turma anterior à minha haviam gravado e transcrito, fui acrescentando minhas próprias notas e minha própria experiência e reflexão.

Uma questão, porém, urgia resolver: para onde dirigir minha atenção de

pesquisador? Afinal, não caberia, num programa como o PUR, continuar na mesma

direção de pesquisa de minha tese e havia que encontrar meios e modos de enveredar

por caminhos que propiciassem um efetivo diálogo com estudantes e professores cujo

principal interesse era a cidade e a região, o espaço e a projeção territorial das relações

econômicas, sociais e políticas.

Embora a questão da renda fundiária urbana fosse de grande interesse dos

estudiosos críticos do urbano, e enorme tivesse sido o meu investimento no estudo da

teoria da renda em geral, o fato é que não me sentia muito atraído por prosseguir nesta

direção (embora, no curso de Economia Política para o Planejamento um bom número

de aulas fosse consagrado a introduzir os alunos na complexa e árdua 6 a sessão d´O

Capital III). Assim, na exploração das interações entre desenvolvimento agrícola e

desenvolvimento urbano e regional, fui progressivamente dirigindo minha atenção para

a questão migratória 35 .

Em contato com a RIOPLAN – hoje, IPP (Instituto Municipal de Urbanismo

Pereira Passos), fui suscitado a propor um estudo que focalizasse o tema pouco

explorado das políticas migratórias a nível municipal. Daí surgiu a primeira pesquisa

que realizei no Brasil – Políticas e Estruturas de Acolha de Migrantes nas Cidades do

Rio de Janeiro e São Paulo – Análise Comparativa, cujo objetivo central era levantar,

descrever e analisar o funcionamento das estruturas de recepção, em particular aquelas

governamentais. No início estive claramente apegado a expectativas um tanto ou quanto

funcionalistas 36 , acreditando ser possível desvendar os mecanismos institucionais que

35 Ademais de seu interesse para o PUR, os capítulos de minha tese que tratavam de migrações eram dos meus preferidos e a pesquisa para sua realização tinha sido das mais prazeirosas.

36 Eu havia tido contato, em Paris, com uma agência cuja função principal era promover a integração de imigrantes portugueses no mercado de trabalho parisiense/francês e, de modo mais geral, na vida francesa (língua, moradia, convívio social, etc). O projeto aqui referido havia sido concebido, um tanto ou quanto

adequavam o migrante à vida e ao mercado de trabalho urbanos. O périplo por

albergues, centros de triagem e associações filantrópicas, de todo tipo, no Rio e em São

Paulo, colocou a mim e à equipe de pesquisadores e estagiários em contato com a dura

realidade, dramática, de processos e práticas que antes contribuíam para marginalizar e

isolar que para integrar os migrantes.

O caráter imediatamente empírico e utilitário deste projeto, que deveria concluir

com algumas recomendações de políticas, limitava enormemente seu alcance. Isso não

obstante, ele foi para mim de enorme importância. Em primeiro lugar, colocou-me, pela

primeira vez na condição de pesquisador de campo 37 , podendo conhecer mais de perto o

inferno das instituições de assistência pública. Curso intensivo de realidade brasileira,

muito útil para quem se encontrava há tempo fora. Por outro lado, a pesquisa despertou-

me para a existência de programas e políticas voltados para as migrações no âmbito do

Ministério do Interior – Programa Nacional de Apoio às Migrações Internas - que, à

época, operava como um verdadeiro ministério do território 38 .

Nesta mesma época, a revisão da literatura sobre migrações me conduziu a Jean-

Paul de Gaudemar, cujo livro Mobilité du Travail et Accumulation du Capital viria ter

influência decisiva na continuidade de meus estudos sobre políticas migratórias. Ao

ingenuamente, sob a inspiração da eficácia da instituição parisiense, que de fato operava como

mecanismo auxiliar do mercado de trabalho. A influência francesa apareceu inclusive no título: como vim

a dar-me conta algum tempo depois, a palavra “acolha” não existe em português e era uma tradução

infeliz do francês “accueil”. Deveria ter usado estruturas de recepção, mas o fato é que ninguém, à época,

percebeu o equívoco, ou se o percebeu, preferiu errar em francês que acertar em português.

37 A única experiência de campo anterior havia sido durante o meu curso no IEDES, quando, por exigência de meu orientador, a título de compensação por não fazer pesquisa de campo para minha tese, tive que passar 30 dias vivendo e trabalhando com um pequeno produtor agrícola na Bretanha. Em troca da hospedagem e de poder pesquisar a contabilidade da exploração e fazer entrevistas com a família, eu tinha que oferecer serviços profissionais gratuitos. Com conhecimentos veterinários e agronômicos muito inferiores aos de meu anfitrião, não me restou senão ser submetido a sua mulher que, por um mês, ficou livre de uma série de corvéias femininas. Lavar o estábulo e colher ervas daninhas são as quem me deixaram as maiores feridas, dores e lembranças.

38 Criado pela Decreto-Lei 200, que redefiniu a estrutura da administração pública no país, o Ministério do Interior reunia, entre outras, as seguintes agências: BNH e Serviço Federal de Habitação e Urbanismo, FUNAI, BNB, SUDENE e demais agências regionais de desenvolvimento. Entre suas atribuições estavam

o ordenamento do território e das migrações internas.

pensar a mobilidade teoricamente como atributo essencial da força de trabalho, que a

torna passível de submeter-se aos movimentos, mais ou menos erráticos, do capital, no

espaço e no tempo, Gaudemar redefinia a questão migratória, que deixava de ser mero

fenômeno demográfico ou geográfico, para constituir chave para o entendimento das

formas históricas concretas da acumulação do capital. Reencontrava em Gaudemar,

desta forma, alguns temas sobre os quais trabalhara em minha tese. O estudo da

mobilidade do trabalho, como relação econômica, mas também relação de poder,

permitia olhar, por um outro viés, os mesmos processos de constituição de oferta de

força de trabalho que eu havia estudado; e, sobretudo, desnaturalizava as migrações e

mobilidade do trabalho em geral. Pensar as migrações à luz de uma nova teoria da

mobilidade do trabalho sob o capital oferecia uma alternativa crítica sólida às teorias

gravitacionais e teses sobre atração e expulsão que dominavam o campo dos estudos

migratórios.

Um novo e mais ambicioso projeto começava a se conformar: “Políticas

Migratórias: Uma análise das intervenções governamentais no processo de formação do

mercado de força de trabalho”. Este projeto marcou para mim e para o PUR o ingresso

numa nova etapa.

Do ponto de vista do PUR, conseguimos, à época, assinar nosso primeiro grande

(em termos, é claro, relativos ao que tínhamos antes – nada) convênio com a FINEP,

que à época era a principal fonte de apoio a projetos acadêmicos institucionais.

Assinado com a interveniência do Ministério do Interior e o Conselho Nacional de

Desenvolvimento Urbano, este convênio, que incluía vários docentes e seus subprojetos,

representava, por assim dizer, o reconhecimento da recuperação do PUR como centro de

pesquisa, capaz de elaborar e conduzir projetos relevantes e de mérito.

De

meu

ponto

de

vista,

oferecia

a

oportunidade

de

livrar-me

dos

constrangimentos instrumentais 39 que, em certa medida, aceitara quando do trabalho

anterior com a RIOPLAN e, por conseqüência, a possibilidade de reencontrar-me em

condições de desenvolver um projeto de pesquisa para responder a questões teórico-

conceituais, antes que a necessidades práticas imediatas.

Com o apoio da FINEP, que se renovou ao longo dos anos 80, pude lançar-me a

uma

pesquisa de fôlego,

de caráter histórico, sobre o

sentido, eficácia, formas,

ideologias e retóricas que marcaram, desde o fim do tráfico de escravos, as concepções

e ações do estado brasileiro voltadas para gerar, direcionar, favorecer ou bloquear

deslocamentos espaciais de população. Nesta pesquisa, pude revisitar e aprofundar a

pesquisa anteriormente feita sobre a imigração estrangeira e o papel do estado no

processo de transição do trabalho escravo para o trabalho livre. Com a ajuda de

mestrandos e pesquisadores 40 que integraram a equipe de pesquisa, pudemos explorar as

múltiplas dimensões – demográfica, econômica, política, ideológica - da questão

migratória ao longo do período estudado. Pude também avançar na identificação e

estudo das diferentes razões de estado – razão econômica, razão nacional, razão racial –

que,

de

maneira

convergente

ou

contraditória,

implementação de políticas migratórias.

informaram

a

elaboração

e

As dissertações de mestrado, relatórios de pesquisa e artigos apresentam, de

maneira ampla e diversificada, o produto deste ambicioso e longo projeto de pesquisa.

39 Recordo que foram muitas as reuniões para convencer Marilia Steinberger, hoje colega da UnB, então Coordenadora de Política Urbana do CNDU, a fomentar nossa pesquisa acadêmica sem cobrança de resultados imediatos sob a forma de subsídios para a formulação de políticas. Nosso argumento: o melhor subsídio que um grupo acadêmico pode dar é o conhecimento científico que pode produzir dos processos sociais que configuram nossas cidades e regiões. Sentíamo-nos à época, também nesta esfera, travando a luta pela autonomia universitária e pela liberdade de pesquisa. Justiça seja feita, Marília acabou se trasnformando em uma grande amiga do PUR-IPPUR.

40 Cabe mencionar, pelo menos, nos anos 80, Vânia Ramos de Azevedo, Pablo Benetti e Lenira de Araújo Lins Ramos. Ao longo dos anos 90 continuei visitando esporadicamente o tema, produzindo alguns textos, participando de alguns debates sobre a questão migratória. Também orientei várias e excelentes dissertações nesta área.

A lamentar que eu nunca tenha sido capaz de levar adiante a edição do livro, sempre

retomado

e

acumulado 41 .

abandonado,

que

reunirá

o

conjunto

dos

conhecimentos

e

análises

Os estudos migratórios e a divulgação dos primeiros trabalhos propiciaram

minha aproximação com dois tipos de interlocutores que não poderia deixar de

mencionar. Em primeiro lugar, a Associação Brasileira de Estudos Populacionais,

formada majoritariamente por demógrafos, que acolheu com grande abertura de espírito

as questões e a linguagem de um pesquisador que vinha de outras paragens e trazia

outras questões que as tradicionalmente trabalhadas em seu campo. Por um tempo

coordenei o Grupo de Trabalho sobre Migrações Internas da ABEP, ao qual permaneço

vinculado 42 .

De outro lado, houve uma aproximação com o Serviço Pastoral do Migrante, ao

qual prestei por um tempo assessoria e que me aproximou do Centro de Estudo

Migratórios, de cuja revista – Travessia – integro o Comitê Editorial desde seu

lançamento, em 1987. O contato com o SPM surgiu durante a primeira pesquisa, sobre

as estruturas de recepção de migrantes, pois este grupo de religiosos – todos eles

scalabrinianos

mantinha,

em

São

Paulo,

a

Associação

de

Voluntários

para

a

Integração de Migrante (AVIM). Vinculada à Arquidiocese de São Paulo, além de um

serviço de apoio nas rodoviárias, a AVIM mantinha um albergue no qual funcionavam

serviços

de

documentação,

encaminhamento

para

o

trabalho,

atendimento

e

encaminhamento médico, etc. A proximidade com o SPM ofereceu-me, desde a metade

41 Dois artigos, publicados ambos já nesta década, parecem reunir de forma sintética o melhor do que a pesquisa produziu: 7.3.18 e 7.4.17. 42 Ainda recentemente, em 2001, recebi o honroso convite da ABEP e de seu Grupo de Trabalho sobre Migrações Internas para produzir, como um dos representantes da comunidade de estudiosos da população, trabalho a ser apresentado no Seminário de Demografia Brasileira que se realizou no âmbito da International Union for Scientific Study of Population Conference, realizada em Salvador em 2001.

(7.4.17.)

dos anos 80, a oportunidade de um relacionamento sempre enriquecedor com a ação de

base de setores progressistas da Igreja Católica.

Ao longo dos anos 80, há que registrar, conseguimos importantes vitórias no

front

institucional-acadêmico,

com

a

consolidação

do

PUR.

Os

avanços

foram

consolidados em 1986, com a criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e

Regional

(IPPUR),

concretização

de

nosso

projeto

coletivo,

que

tinha

a

pluridisciplinaridade como um dos eixos centrais. Além da pluridisciplinaridade, o

formato encontrado nos assegurava igualmente autonomia institucional equivalente à de

outras unidades 43 .

De 1986 a 1989, fui secretário executivo da Associação Nacional de Pós-

Graduação e Pesquisa, sob a presidência de Martim Smolka. Durante 3 anos investimos

muito de nosso tempo e inteligência para fortalecer a Associação, criada em 1983.

Eleitos por dois anos, acabamos tendo nosso mandato prorrogado por um ano. No

centro de nossa prática e estratégia, pesava forte e positivamente a experiência do

IPPUR. Tratava-se de alargar as fronteiras da ANPUR, consolidá-la como espaço

acadêmico, afirmar sua presença junto às agências de fomento da pós-graduação e

pesquisa; enfim, avançar no processo de conformação de uma verdadeira comunidade

acadêmica-científica 44 . Entendíamos que o próprio desenvolvimento do IPPUR estaria

ameaçado se ele não existisse num contexto de fortes centros de ensino e pesquisa na

43 Voltado para o ensino de pós-graduação e para a pesquisa, o IPPUR nasceu, nos termos do estatuto então vigente da UFRJ, como “instituto especializado” vinculado ao Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. Além do IPPUR, integram hoje o CCJE o Instituto de Economia, a Faculdade de Administração e Ciências Contábeis, a Faculdade de Direito e a COPPEAD.

44 Certamente nada disse foi feito sozinho, e contamos sempre com o colaboração inestimável dos 3 outros integrantes da Diretoria: Jorge Dantas (FAU/USP), Ricardo Farret (UnB) e Raul Navegantes (NAEA /UFPA).

área, ao mesmo tempo interlocutores e capazes de pressionar por políticas de fomento

adequadas.

Aqueles que já viveram a experiência sabem quanto custa a honra de ocupar um

cargo de diretor de uma associação acadêmica; ainda mais naqueles tempos em que a

ANPUR, amadoristicamente, dava seus primeiros passos. A contrapartida foi que, pela

primeira vez, tive uma visão nacional do que era o ensino e pesquisa em Planejamento

Urbano e Regional e pude encontrar muitos dos colegas com quem ainda hoje mantenho

estreitas relações de cooperação e/ou de amizade. Ademais, a militância institucional,

tanto no PUR/IPPUR quanto na ANPUR, permitiam-me canalizar uma certa pulsão

ativista que, desde a primeira juventude, tem-me empurrado para a ação pública e

coletiva.

Setor Elétrico, Território, Meio Ambiente e Conflito Social

Ao mesmo tempo em que tocava meu projeto sobre Políticas Migratórias,

apropriava-me progressivamente da literatura e das discussões sobre políticas regionais.

As próprias disciplinas que oferecia (3.2.1.2.10, 3.2.1.2.9) me exigiam leituras em

campos antes pouco explorados. Progressivamente, embora de maneira inicialmente

tímida, comecei a participar do debate sobre políticas e desenvolvimento regionais e

sobre regionalismo.

O que me ofereceu, em determinado momento, uma primeira pista foi minha

inconformidade com o fato de que tanta atenção fosse consagrada às agências regionais

(SUDENE, SUDAM, etc) pelos estudiosos quando, já era evidente, na metade dos anos

80, o esvaziamento a que haviam sido submetidas. Enquanto isso, eu me fixava nas

macro-políticas e agências setoriais – CVRD, Eletrobrás, Petrobrás, etc -, que tomavam

decisões e implantavam programas e projetos cujas conseqüências eram muito mais

decisivas para a configuração regional/territorial que todos os planos diretores de todas

as superintendências regionais juntas. Era cada vez maior a tentação de lançar-me numa

investigação de fôlego sobre políticas setoriais 45 .

De outro lado, mais ou menos à mesma época, tive o sentimento de que a

pesquisa sobre Políticas Migratórias havia cumprido seus objetivos essenciais e, sob a

influência já referida de Gaudemar, passei a me interessar, cada vez mais, por

movimentos de resistência à mobilização. À época formulei esta perspectiva para

estudantes e pesquisadores que me acompanhavam da seguinte maneira: até agora

temos estudado de que maneira o Estado impõe políticas voltadas para a geração e

controle da mobilidade do trabalho, é chegada a hora de olhar para a dimensão

conflituosa destes processos e ver, se e em que medida, se desenvolvem resistências e

tentativas de contra-mobilidade ou auto-mobilidade (categorias retiradas de Gaudemar).

Por volta de 1986, ouvi de colegas que estudavam conflitos sociais no campo

referências à luta de populações que seriam deslocadas compulsoriamente para dar lugar

à implantação de grandes barragens hidrelétricas na bacia do rio Uruguai. Minhas

curiosidades e preocupações teóricas tinham, tudo indicava, um campo de pesquisa

empírica possível. Em 1987, após minha primeira visita a Erechim, capital da CRAB

(Comissão Regional dos Atingidos da Barragem do Alto Uruguai), hoje, MAB-SUL

(Movimento de Atingidos por Barragens-Sul) 46 , tinha a convicção de que, de fato,

encontrava-se ali um campo fértil para o tratamento de muitas das questões que tinha

em mente.

Da convergência da problemática dos efeitos territoriais de políticas setoriais e

dos conflitos decorrentes de esforços de contra-mobilidade nasceu o Projeto Política

45 As idéias centrais que elaboram esta problemática estão num pequeno livro escrito com Frederico Guilherme Bandeira de Araújo (7.2.7)

46 MAB é a designação nacional do Movimento, que fez seu primeiro Congresso em 1992.

Energética e Organização Territorial (PEOT) 47 , projeto que recebeu desde 1990 auxílio

integrado à pesquisa do CNPQ.

A hipótese fundamental que estruturava o PEOT era, pois, que os grandes

projetos

e

as

macro-políticas

setoriais

constituem

elementos

chaves

dos

modos

contemporâneos de estruturação e gestão do território e que sua relevância cresceu à

medida que se afirmava o padrão segmentado de gestão territorial inaugurado no início

dos anos 70, com as estratégias de integração nacional e de desenvolvimento polarizado

que deslocaram as políticas regionais dos anos 60.

Uma importante opção metodológica demonstra que, ao final dos anos 80, eu já

incorporara a problemática espacial, à qual era quase que totalmente estranho quando

ingressei no PUR/IPPUR. Assim, o PEOT foi concebido segundo duas linhas de

investigação:

1)

Perspectiva

histórica,

de

modo

a

investigar

a

evolução

das

interações entre políticas regionais e políticas do setor elétrico;

2)

Perspectiva multi-escalar, com o objetivo de examinar os impactos

das políticas e projetos nas escalas nacional, regional e local 48 .

A

aproximação

à

esfera

local

foi

impondo

um

tratamento

sistemático

e

articulado dos impactos sociais e ambientais dos grandes aproveitamentos hidrelétricos.

Desta forma, a questão ambiental invadia nosso campo de pesquisa junto com os

movimentos sociais que a transformam em bandeira de luta e mecanismo de legitimação

47 Como, de fato, o que era objeto de investigação era (é) a política do Setor Elétrico, e não a política energética em geral, desde a renovação de 1992 o projeto passou a intitular-se Setor Elétrico e Organização Territorial – SEOT.

48 O progresso da pesquisa mostrou ser possível e fértil a articulação de temporalidades e espacialidades, como, por exemplo, prevê o projeto de tese de doutorado de Chélen Fischer de Melo, que está examinando a história energética da Amazônia (5.2.1.5) ou foi experimentado na dissertação de Maria Cristina Takfagi, comparando Sobradinho a Paulo Afonso, à luz das políticas regionais no início dos anos 50 e nos anos 70 (5.1.2.17).

das lutas pela reparação das perdas impostas pelos empreendimentos e, em particular,

pelo deslocamento forçado.

Por outro lado, a dimensão que os conflitos foram tomando ao longo da década

de 90, seja pela radicalização, seja pelo seu espraiamento, inclusive dando origem a um

movimento e uma organização nacionais, colocaram claramente o tema dos movimentos

sociais em nossa pauta.

Se o primeiro projeto era fortemente centrado na problemática das interações

entre políticas setoriais e políticas territoriais nas escalas nacional, regional e local,

ganham destaque progressivamente os movimentos sociais e as questões ambientais.

Esta evolução vai-se explicitar no título que o projeto adota a partir de um determinado

momento e que designa uma das linhas de pesquisa do projeto mais abrangente que hoje

coordeno: Setor Elétrico, Território, Meio Ambiente e Conflito Social (SETMACS).

A experiência adquirida no Projeto Políticas Migratórias no Brasil me permitirá,

desta vez, integrar de maneira muito mais ampla mestrandos, num primeiro momento, e,

a partir da criação do doutorado no IPPUR, também doutorandos. Também bolsistas de

iniciação científica vinculados ao projeto defenderam monografias sobre o tema. Meu

projeto de pesquisa tornava-se, cada vez mais, como julgo desejável, o articulador de

um grupo de pesquisadores e estudantes.

Desde as primeiras aproximações com o movimento de atingidos por barragens,

em 1987, emergiu uma demanda de assessoria técnica e educacional. Ao longo dos anos

90 esta assessoria ganhou o caráter de uma atividade de extensão permanente, que se

concretiza através de:

Cursos

de

treinamento

para

lideranças

e

organizações

de

base

(comunitárias)

sobre

impactos

de

grandes

barragens,

políticas

ambientais, políticas do setor elétrico, desenvolvimento regional e local;

Pareceres técnicos sobre Estudos e Relatórios de Impacto Ambiental;

Pareceres técnicos sobre planos e programas energéticos;

Apoio à elaboração de planos locais/regionais de desenvolvimento;

Assessoria técnica em processos de negociação.

No âmbito do que passamos a denominar Assessoria Técnica e Educacional a

Movimentos de Atingidos por Barragens (ATEMAB), a equipe que coordeno, em

colaboração com o MAB-Sul, concebeu, elaborou e implementou uma metodologia de

planejamento participativo, experimentada nas áreas de influência das barragens de Ita e

Machadinho. A elaboração do Plano de Recuperação e Desenvolvimento Econômico e

Social

das

Comunidades

Atingidas

pelas

Barragens

de

Ita

e

Machadinho

PLANDESCA – envolveu 7 estudantes, em 2001. Por quase um mês, morando nas

comunidades,

desenvolveram pesquisa de campo sobre as condições de vida da

população atingida (7.3.27).

Também

como

parte

desse

trabalho

de

assessoria,

estive

envolvido

na

organização do I Encontro Internacional de Atingidos por Barragens (Curitiba, 1997),

que abriu um amplo e rico canal de comunicação tanto com movimentos de atingidos

por barragens de vários países, quanto com pesquisadores das mais diversas áreas

disciplinares

ecologia,

ciências

políticas,

geografia,

antropologia,

etc.

No

ano

seguinte, quando, com o apoio do Banco Mundial, se constitui a World Commission on

Dams, pude integrar o International Committee on Dams, Rivers and People, que

acompanhou de perto os trabalhos da comissão 49 .

Caberia mencionar, ainda na esfera da ação pública, a consultoria prestada à

Eletrobrás, em 2003-2004, na área de impactos sociais de grandes empreendimentos do

Setor Elétrico e desenvolvimento local/regional de áreas impactadas. Pela primeira vez

aceitava engajar-me numa experiência deste tipo, pois sempre busquei manter total

independência de agências governamentais diretamente ou indiretamente associadas ao

planejamento territorial. Ao mesmo tempo, confesso que a posse de um novo governo e

a liberdade de trabalho prometida pelo Prof. Pinguelli, então presidente da Eletrobrás,

bem como o apoio do próprio MAB, estimularam-me a aceitar o desafio (e, felizmente,

não me arrependo)

Na Eletrobrás, não obstante alguns desentendimentos e muitos mal-entendidos,

tive a satisfação de ver que a metodologia do PLANDESCA, transformada em ponto de

pauta do MAB em suas negociações com o Governo empossado em 2002, transformou-

se em política governamental, com base em texto preparado por mim, quando a

Diretoria da Eletrobrás aprovou o PRODESCA – Programa de Desenvolvimento

Econômico e Social das Comunidades Atingidas por Empreendimentos Elétricos. O

circuito

pesquisa

científica-acadêmica,

ensino,

extensão

universitária,

participação

democrática, políticas públicas realiza-se plenamente neste caso – o que, infelizmente, é

um caso raro. Cabe ver se e em que medida será possível levar a cabo a implementação

destes planos 50 .

49 No momento atual, integro o Fórum Consultivo do Dams and Development Project do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, como um dos representantes da comunidade científica.

50 No momento atual, a ATEMAB está dando assessoria ao MAB para a implantação de Planos em duas barragens – Cana Brava, Goiás, e Barra Grande, Santa Catarina. Há também uma dissertação sobre os impactos e conflitos em Cana Brava em andamento (5.2.2.3)

Tão ou mais relevantes quanto os desdobramentos vinculados à ação pública e à

extensão universitária, têm sido os desdobramentos acadêmicos do SETMACS. Os

contatos internacionais realizados ao longo do tempo foram permitindo um rico

intercâmbio com pesquisadores de vários países. Em função destes contactos estão em

andamento projetos abrangentes de cooperação na área de pesquisa comparada que

tratarei na seção consagrada às atividades em curso e aos projetos em andamento.

De 6 a 8 de julho realizou-se, por minha iniciativa e sob minha coordenação, o I

Encontro

Ciências

Sociais

e

Barragens,

com

a

participação

de

mais

de

170

pesquisadores e profissionais de todo o país. Cerca de 70 trabalhos foram apresentados e

discutidos nas sessões temáticas. Coroamento de uma linha de pesquisa que, porém,

como relatarei mais adiante, permanece ativa e incorporando novas problemáticas e

dimensões e escalas de análise.

Território, Planejamento e Competição

Embora com o passar dos anos tenha me familiarizado com o debate acerca da

questão urbana e tenha percorrido, nem sempre sistematicamente, parte relevante da

literatura, nunca me coloquei como um pesquisador da questão urbana nem das políticas

urbanas. Mas a questão urbana foi atrás de mim quando, em outubro de 1994, no

exercício de meu segundo mandato de Diretor do IPPUR (3.3.1.8), recebi do Prefeito da

Cidade convite para integrar e comparecer à cerimônia solene de instauração do

Conselho da Cidade – Conselho do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro.

Meio confuso e sem saber o que fazer, e apesar da desconfiança, compareci ao evento

(30/10/1994) para tomar conhecimento de que, com a assessoria de consultores catalães,

se iniciava a elaboração de um plano estratégico para nossa cidade.

Durante um ano, acompanhei o processo deflagrado, por acreditar que havia ali

algo de novo que emergia na forma pela qual a cidade passava a ser pensada e

planejada. No ano seguinte, como resultado destas observações e algumas experiências

vivenciadas no processo, apresentei um pequeno e despretensioso trabalho na II Semana

do IPPUR, buscando chamar a atenção de colegas e estudantes para minhas impressões

e hipóteses (4.106). Comecei a perseguir o tema, seja na literatura sobre cidade, seja na

literatura de administração empresarial – business -, de onde os conceitos, concepções e

modelos do planejamento estratégico urbano haviam sido importados.

Fascinado pela evidência de que o transplante de modelos empresariais para o

tratamento da cidade conduz a pensar e tratar a cidade, simultaneamente, como

empresa, mercadoria e pátria, comecei a oferecer cursos que escrutinavam a literatura a

esse respeito. Ao ampliar a revisão da literatura, dei-me conta de que não estava diante

de mais um factóide de nosso criativo Prefeito, mas diante de um novo e complexo

modelo emergente de planejamento urbano, que já havia conquistado várias cidades nos

países centrais e se deslocava agora para conquistar a periferia. O Rio de Janeiro,

primeira cidade a dotar-se de um plano estratégico na América Latina, como se jactava

o Secretário de Urbanismo, não era senão vitrine e plataforma a partir da qual o modelo

viria a ser difundido para o Brasil e América Latina. Nas aulas e nos seminários da

equipe de pesquisa, exploramos com cuidado a literatura apologética e a escassa

bibliografia crítica. Lá estávamos nós a freqüentar a biblioteca da COPPEAD para ler a

Harvard Business Review e rebuscar as bibliografias dos cursos oferecidos 51 .

O resultado inicial desta pesquisa foi consolidado num primeiro trabalho,

apresentado inicialmente no Encontro da ANPUR de 1999 (7.4.15), publicado e

51 Se praticamente todos os autores eram novos para mim, surpreendi-me em reencontrar com o velho Sun Tzu, general chinês do século VI A.C, autor d’A Arte da Guerra. Citado abundantemente nos escritos militares de Mao Tse Tung, eu já havia percorrido A Arte da Guerra à época em que, como vários companheiros, nos debruçamos sobre os clássicos da estratégia e da tática.

republicado várias vezes depois. E em 2000, quando da renovação junto ao CNPQ,

reformatei o projeto, que agora passava a contemplar dois sub-projetos: a) Território,

Competição e Planejamento (TERCOM); b) Setor Elétrico, Território, Meio Ambiente e

Conflito Social (SETMACS) 52 . Esta nova vertente vem acolhendo minhas pesquisas

sobre a temática do planejamento urbano e as teses que tenho orientado nesta área de

planejamento estratégico e, de modo mais geral, sobre novos modelos de planejamento.

Nesta

ampliação

de

escopo,

o

projeto

foi

rebatizado:

Territoriais, Meio Ambiente e Conflito Social 53 .

Globalização,

Políticas

Uma vez mais estava cheio de gana para começar uma nova investigação, uma

nova aventura intelectual, tanto mais que ela me incitava também ao enfrentamento com

o quietismo quase universal de um pensamento acadêmico, político e profissional que

tendia a tomar o planejamento estratégico como uma metodologia neutra, a ser utilizada

ou não conforme as conveniências 54 . Tenho a pretensão de que a equipe do GPTMA 55

têm tido relevante papel ao provocar o debate sobre este e outros modelos difundidos

urbi et orbi como a última e maravilhosa solução para nossas cidades em crise.

Caberia mencionar, além dos trabalhos já referidos no currículo, um pequeno

projeto de pesquisa sobre a cidade de Belém, com o qual pudemos – num primeira

etapa, eu e Fernanda Sánchez e, num segundo momento, também Glauco Bienenstein –

52 Na verdade, esta linha de pesquisa somente ganhou este nome em 2002, esta linha de pesquisa passou a chamar-se Territórios, Competição e Planejamento (TERCOM).

53 Cabe registrar que no projeto então submetido ao CNPQ, havia um terceiro sub-projeto consagrado ao estudo da Comissão Mundial de Barragens.

54 Assim, na segunda metade dos anos 90, como ainda hoje, o planejamento estratégico, em suas múltiplas variantes, já era o modelo dominante, sendo popular em todos os segmentos do espectro político, adotado por prefeitos petistas e pefelistas com o mesmo entusiasmo e ignorância acerca de suas origens e os interesses que são operados pelo enxame de experts que movimenta o própero mercado de consultorias e pelos assessores que acompanham os financiamentos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

55 Ao referir a equipe, cabe mencionar a importância, uma vez mais, de ter encontrado alunos e pesquisadores dispostos a interpelar consensos com verdadeiro espírito crítico. Certamente o diálogo com Pedro Novais, Fernanda Sánchez, Glauco Bienestein, Leo Mesentier, entre outros, foi fundamental para o avanço das pesquisas.

exercitar nossas concepções num estudo de caso concreto 56 . Buscamos comparar as

intervenções da Prefeitura, da esquerda petista, e as intervenções urbanas do Governo

Estadual, dirigido pelo PSDB. A filiação clara e explicitada das duas instâncias

governamentais a modelos completamente diferentes de planejamento pareceu-nos fazer

da cidade de Belém um verdadeiro laboratório para seu estudo e comparação. Na

primeira pesquisa, que comparou o projeto Estação das Docas, do governo estadual,

com o projeto Ver-o-Rio, da Prefeitura, contamos também com a colaboração de Isaac

Joseph, querido amigo e grande sociólogo urbano precocemente falecido, que nos

ajudou a ler a cidade e seus espaços públicos.

Um dos temas sobre os quais tenho começado a trabalhar é o dos processos e

mecanismos de difusão de modelos. Já as teses de Pedro Novais (5.1.1.3) e Raquel

Garcia Gonçalves (5.1.1.5) deram alguns passos nesta direção, tratando, embora ainda

de maneira tímida, do papel dos experts consultores. A tese em andamento de Geraldo

Bronwe (5.2.1.6) e a dissertação de Cíntia Portugal Viana (5.1.2.39) focalizam o Banco

Mundial. Penso ser possível, e necessário, um investigação mais ampla e sistemática

dos vários nichos do mercado de consultoria urbana e do papel que as agências

multilaterais 57

desempenham

na

formatação

e

difusão

dos

novos

modelos

de

planejamento

que

sempre

vêm

acompanhados

de

novas

linguagens,

novas

representações da cidade e novas utopias urbanas.

Desde 1999, ofereci por 4 vezes uma disciplina optativa na qual tenho procedido

a uma revisão crítica da extensa, e muitas vezes repetitiva e estéril, literatura produzida

pelo Banco Mundial sobre desenvolvimento urbano (3.2.1.3.6). Nesta revisão, na linha

56 O primeiro projeto contou com um pequeno apoio da Prefeitura de Belém. Cabe mencionar que a minha aproximação com a cidade de Belém favoreceu que o IPPUR viesse a oferecer um Mestrado Inter- institucional em acordo com o Centro de Ensino Superior do Pará – CESUPA – e a Universidade Federal do Pará.

57 No último encontro da ANPUR promovi uma sessão livre sobre este mesmo tema (7.8.18).

de algumas sugestões de Bourdieu e de Gilsbert Rist 58 , tenho conferido crescente

atenção aos padrões discursivos e à inovação semântica que acompanham o modelo,

como a conferir legitimidade e eficácia e que explica a renovação das linguagens no

campo do planejamento e da política urbana 59 .

Movimentos Sociais Comparados

Por várias vezes, no contato com colegas estrangeiros trabalhando na área de

conflitos sociais decorrentes da implantação de grandes projetos hidrelétricos, surgiu a

proposta de desenvolver estudos comparados. À medida que a idéia amadurecia, fomos

elaborando um conjunto de questões que pareciam-nos justificar projetos deste tipo.

Antes de mais nada, parecia-nos essencial escapar ao que tenho qualificado de

comparatismo

globalizado,

típico

das

agências

multilaterais

e

dos

índices

que

hierarquizam países ou regiões (PIB/População, IDH, índices vários de pobreza, etc).

Estes índices, por sua própria concepção, reificam e congelam realidades sociais

complexas

e

completamente

distintas,

fazem

tábula

rasa

da

historicidade

e

homogeneizam qualidades para poder mensurar quantidades 60 .

Num processo de discussão que desenvolvíamos nos intervalos de encontros

internacionais

ou

através

de

mensagens

eletrônicas,

fomos

progressivamente

convergindo para algumas questões que poderiam fundamentar um estudo comparativo

sobre movimentos sociais. Algumas destas questões poderiam ser enunciadas como

segue:

58 Rist, Gilbert (sous la direction); Les Mots du Pouvoir: sens e non-sens de la rhétorique internationale; Les Nouveaux Cahiers de L´Institut Universitaire d´Etudes du Développment; Paris/Genève, Presses Universitaires de France, 2002.

59 Encontram-se em fase de revisão os capítulos da coletânea Banco Mundial e Políticas Urbanos no Brasil, que incorporará, além dos trabalhos de integrantes da equipe, artigos de outros pesquisadores.

60 Nesta linha orientei uma excelente dissertação de mestrado que discutiu os indicadores de pobreza

(5.1.2.25).

Como

os

movimentos

sociais

processos de globalização?

são

influenciados

e

respondem

aos

Como as diferentes escalas - local, regional, nacional e internacional -

têm sido acionadas e articuladas pelos diferentes movimentos em suas

estratégias e táticas de luta?

Em que medida a arena pública global oferece espaços democráticos e

accessíveis aos movimentos sociais, em particular movimentos sociais

dos países periféricos?

Quais as possibilidades, condições e formatos possíveis e prováveis para

a conformação de alianças internacionais de movimentos sociais? Quais

as experiências acumuladas neste terreno?

Em maio de 2002, finalmente, acolhidos pelo Prof. Sanjeev Khagram, pudemos

reunir

na

Kennedy

School

of

Government

da

Harvard

University

cerca

de

20

pesquisadores do Brasil, Índia, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos. Após 3 dias

de trocas de informações e discussões teórico-metodológicas, nascia o Programa de

Pesquisa e Cooperação sobre Movimentos Sociais: Brasil, África do Sul, Índia e

Tailândia 61 . Além de pesquisas comparativas conjuntas, o Programa prevè outros tipos

de

intercâmbio,

inclusive trocas

de

estudantes.

No

que

diz

respeito

à

pesquisa

propriamente dita, ainda há muito a fazer pra construir projetos específicos aos vários

movimentos a serem estudados: movimentos de sem terra, movimentos de justiça

ambiental,

movimentos

sindicais,

atingidos por barragens 62 .

movimentos

sociais

urbanos,

movimentos

de

61 Em inglês o título é um pouco diferentes: Program of Research and Cooperation on Social Movements in the South: Brazil, South África, Índia and Thailand.

62 A obtenção de um apoio da Fundação Ford – Brasil tem permitido ampliar as iniciativas para a concretização do projeto e ele avançou expressivamente este ano.

Na perspectiva de estudos comparados, tenho orientado vários trabalhos. Uma

primeira dissertação de mestrado, já realizada, focalizou o processo através do qual o

Movimento de Atingidos por Barragens do Brasil foi incorporando à sua ação a esfera

global (6.2.1.53). Outra dissertação focalizou o Movimento dos Sem Teto de São Paulo,

e a perspectiva é de que venhamos, em breve, estabelecer comparações com os os

movimentos de homeless estudados por Sophie Oldfiel (Cape Town University).

Também o Mapeamento dos Conflitos Urbanos do Rio de Janeiro entre 1988 e 2002 63

oferece metodologia, conceitos e procedimentos que, adotados por um outro grupo,

pode fornecer excelente base para estudos comparados sobre a conflitualidade em

diferentes cidades. Também em andamento está um projeto de tese sobre a Via

Campesina (5.2.1.3)

Finalmente, haveria que mencionar o projeto em cuja execução estou direta e

imediatamente envolvido: Global Public Spaces and Political Actors: The World

Commission on Dams, a case study. Neste projeto, que se desenvolve no Brasil, Índia e

Tailândia, com apoio de pesquisadores nestes países, estou buscando comparar as

diferentes estratégias dos movimentos de atingidos frente ao processo da Comissão

Mundial de Barragens 64 .

O desenvolvimento desta pesquisa, além das pesquisas de campo, tem me levado

e à pequena equipe envolvida, à revisão de uma literatura que focaliza a constituição do

que chamam de redes transnacionais (ou transfronteiriças) de organizações da sociedade

civil – ONGs –, atuantes principalmente na esfera de direitos humanos e das questões

63 Este projeto, que coordeno junto com o Prof. Henri Acselrad, vem sendo desenvolvido graças a convênio com a Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

64 No início de 2005 vivi a extraordinária experiência de pesquisa de visitar aldeias tailandesas e conversar com atingidos e suas lideranças. A realização deste tipo de pesquisa, geralmente privilégio dos pesquisadores das universidades dos países centrais, está sendo viabilizada graças ao apoio da Fundação Ford – New York.

ambientais. A questão central explorada neste campo é o das possibilidades e limites de

constituição de uma sociedade civil global e os modos de governo da sociedade global.

A

revisão

crítica

desta

literatura

mostra-se

relevante

porque,

produzida

por

universidades e ONGs dos países centrais, já começa a influenciar as visões e

linguagens de parte de nossas ONGs e pesquisadores, sem que se tenha examinado as

condições de sua produção e a posição e interesses de seus produtores. Oriundos quase

sempre de uma tradição teórica que desconhece grande parte da produção crítica

francesa, italiana e da Europa Continental de modo geral, os autores-ativistas e ativistas-

autores produzem muitas vezes uma imagem edulcorada do processo de globalização e

desconhecem

as

experiências

históricas

de

solidariedade

internacional

que,

sob

múltiplas formas e sob diferentes inspirações, desde a metade do século XIX, foram

experimentadas por organizações socialistas, anarquistas e operárias. Alguns primeiros

exercícios críticos foram esboçados tendo em vista minha participação em eventos

promovidos pelo The Hauser Center on Non Profit Organizations/Harvad University

(7.4.20).

De modo mais geral, poderia dizer que o esforço que vimos consagrando a esta

linha

pesquisa aponta

para

a

constituição

de

uma

sociologia

política crítica

da

globalização e a uma reflexão sistemática acerca da emergência, ou não, de processos

sócio-políticos passíveis de engendrar atores políticos críticos na esfera global. Mas o

que parece ainda mais relevante é a perspectiva que o esforço teórico-conceitual,

metodológica e empírico seja desenvolvido em estreito diálogo com colegas de outros

países periféricos.

PERSPECTIVAS

Ao iniciar este memorial, explicitei o entendimento de que o presente constitui

seu verdadeiro ponto de partida. Isto não obstante, e como igualmente havia registrado,

o memorialismo como que impõe uma narrativa crono-lógica. Operando com uma

lógica que teve a flecha do tempo como elemento estruturante, consegui, acredito

produzir

uma

genealogia

de

cada

projeto,

hipótese,

idéia.

Acho

que

fui

capaz

igualmente de sugerir aonde me conduziu cada uma das linhas de pesquisa. Faltou algo

que uma crono-lógica não tem como resolver, isto é, faltou um olhar transversal que

articule o conjunto das linhas e vertentes de investigação.

Assim, antes de atender às exigências das Normas de Concurso para Professor

Titular,

que

estabelece

dever

o

memorial

explicitar

uma

proposta

de

plano

de

atividades 65 , julgo necessário enunciar, de uma perspectiva sincrônica, a problemática

teórica e histórica que subjaz ao conjunto de minhas atividades de pesquisa e ensino no

momento atual.

Estou convencido de que a identificação e caracterização do que há de novo nas

formas contemporâneas que assume o capitalismo, ao contrário do que sugere a maior

parte da literatura especializada, não aponta nem para a financeirização, nem para a

globalização,

ou

mundialização,

como

preferem

os

franceses.

Tampouco

parece

suficiente a sugestão de Harvey e de outros geógrafos, que enfatizam a compressão

espaço-tempo ou as abordagens que privilegiam o que seria uma nova revolução

industrial ou a emergência de uma sociedade pós-industrial, feita de redes e trocas

imateriais. Parece-me bem mais profícua a sugestão de Swingedouw de que o que

especifica a contemporaneidade capitalista é da ordem das escalas das relações sociais,

assim como da ordem das relações entre escalas.

65 É no Art. 14 que aparece a exigência de que o candidato explicite uma proposta de plano de atividades acadêmicas sobre a qual deve ser argüido pela Banca.

Não se trata de reificar as escalas, como se elas fossem, em si e por si, dadas e

naturais. Ao contrário, tendo em vista que as escalas se constituem como resultados,

sempre questionáveis, de disputas materiais e simbólicas entre múltiplos agentes sociais,

impõe-se reconhecer que a reconfiguração das escalas e das relações inter e trans-

escalares se projetam enquanto relações de poder (rescaling of power) 66 .

Os grandes projetos são uma forma particular de articulação de escalas, pelo fato

mesmo de que operam conexões inter-escalas e opõem interesses que fazem de

diferentes escalas plataformas de defesa ou ataque. De maneira similar, embora não

idêntica, os modelos emergentes de planejamento urbano, tanto quanto os grandes

projetos de desenvolvimento urbano, acionam privilegiadamente determinadas escalas,

o que, é bom não esquecer, significa quase sempre propiciar ou favorecer determinados

agentes e grupos sociais, assim como determinadas alianças. Quanto aos movimentos

sociais, é evidente o desafio escalar que lhes é lançado pelo processo de globalização,

pelos agentes econômicos e políticos capazes de agir simultânea e articuladamente, em

múltiplas escalas (o poder não está nem no local, nem no nacional, nem no global, mas

na capacidade de atuar de forma articulada em múltiplas escalas).

Nas diferentes linhas de pesquisa, nos diferentes projetos, estamos, eu e os

estudantes e pesquisadores que integram a equipe que coordeno, buscando os nexos que

atualizam estas reconfigurações escalares. Como, por outro lado, recuso-me a admitir

processos sem agentes, o que significaria admitir que estruturas operam por si mesmas

atualizando

lógicas

que

lhes

são

imanentes,

as

investigações

que

desenvolvo

e

coordeno,

estão

necessariamente

desafiadas

a

encontrar

e

qualificar

os

agentes,

66 Swyngedouw, E. “Neither global nor local: ‘glocalization’ and the politics of scale”. Kewin R. Cox (ed.); Spaces of globalization: reasserting the power of the local. New York / London, The Guilford Press, pp. 137-166. As mesmas idéias encontram-se desenvolvidas em trabalho com outros autores, nos capítulos iniciais de Moulaert, Frank; Rodriguez, Arantxa; Swyngedouw, Erik. The globalized city:

economic restructuring and social polarization in European Cities; Oxford, Oxford University Press, 2003

descrever suas formas de intervenção direta sobre o território e suas formas de ação nas

disputas simbólicas.

Nesta direção, tenho tentado caminhar das análises gerais acerca dos processos

envolventes para análises cada vez mais finas e concretas destes agentes e dos conflitos

em que se engajam. Eles têm nome e devem ter cara: são experts, agências multilaterais

e seus consultores, técnicos e profissionais das agências de planejamento que executam

os projetos e procedem à operacionalização – vernaculização - dos modelos. Quero

também me aproximar e interrogar o(s) outro(s) destes processos, os homens lentos de

Milton Santos, os confinados escalares, os que não detém mecanismos e recursos

materiais e simbólicos para imporem suas escalas. Finalmente, há que interpelar os

estados nacionais e refletir se e em que medida, estão condenados a serem meros

coadjuvantes de processos de rescaling power que acabam concentrando ainda mais o

poder.

É disso que se trata hoje, a meu ver, quando se trata de planejamento. É o

enfrentamento destas questões que talvez ajude planejadores e estudiosos das questões

urbanas e regionais, a rejeitarem toda ingenuidade e indagarem-se, de maneira rigorosa,

acerca dos limites e possibilidades das práticas de planejamento. Estou entre aqueles

que acreditam que, apesar da ofensiva neo-liberal, há alternativas ao market friendly

planning, que se resume a fomentar e fortalecer o exercício pleno, pelos agentes sociais,

das lógicas de mercado.

O programa de pesquisa em curso e os princípios acima afirmados constituem as

bases de meu plano de atividades acadêmicas para os próximos anos. Penso, além da

manutenção de linhas de pesquisa, investir esforços crescentes para a concretização do

Programa de Pesquisa e Cooperação sobre Movimentos Sociais. Acredito ser possível

ampliar o número de colegas e países envolvidos, como aliás já começa a ocorrer 67 .

Acredito que muito teríamos a ganhar se obtivéssemos os meios e criássemos os modos

de fazer da cooperação entre países e pesquisadores periféricos uma rotina em nossa

vida acadêmica, que venha a incluir também os estudantes.

Em

uma

outra

direção,

estou

bastante

entusiasmado

com

a

proposta,

encaminhada pelo IPPUR às demais unidades do Centro de Ciências Jurídicas e

Econômicas,

para

a

criação

de

um

curso

de

graduação

em

Gestão

Pública

e

Desenvolvimento. No momento em que a desmoralização do estado e, através dele, da

esfera pública oferece os mais fortes argumentos para o discurso neo-liberal, é

necessário que a universidade pública se engaje claramente a favor da defesa de uma

estado republicano e democrático. Ora, nos últimos anos, junto com a desmontagem ou

fragilização

da

organização

da administração

pública,

assistimos

a

um correlato

desaparecimento dos cursos que deveriam estar formando quadros profissionais para

esta esfera

cursos

de

A multiplicação de MBAs e a transformação dos cursos de graduação em

business

chamam

a

atenção

para

a

necessidade

de

um

engajamento

universitário para formar administradores públicos, dotados de formação plurisciplinar e

educados, no sentido pleno da palavra, numa perspectiva efetivamente republicana. O

Curso de Graduação em Gestão Pública e Desenvolvimento, com uma forte ênfase na

área do planejamento urbano e do desenvolvimento municipal, mais além de preencher

uma evidente lacuna, abre novos e desafiantes campos de experimentação

67 O importante número de estudantes argentinos no IPPUR e no PPGAS já nos levaram a abrir uma espaço para a estudo de movimentos sociais na Argentina (5.2.1.7). Também com a Universidade Nacional da Colômbia – sede Medellín, está em discussão o estabelecimento de acordo para aplicar a nossa metodologia para o mapeamento de conflitos urbanos, o que facilitará enormemente estudos comparativos.