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1.3 Uma visão funcional

1.3.1 Johnny Wingstedt - Narrative Music: Towards an Understanding of Musical Narrative Functions in Multimedia0

O compositor sueco Johnny Wingstedt, em sua tese Narrative Music: Towards an

Understanding of Musical Narrative Functions in Multimedia, 45 estabelece uma hierarquia detalhada, definindo uma ampla série de classes, categorias e funções da música no cinema. Diferentemente de Gorbman e Chion, Wingstedt parece ter

deduzido sua teoria das demandas apresentadas em sua prática como compositor de

trilhas para o cinema, pois as funções por ele apresentadas são mais pragmáticas que

as dos teóricos apresentados anteriormente.

São propostas seis diferentes classes - emotiva, informativa, descritiva, guia, temporal e retórica - com suas respectivas categorias e funções:

A) A classe emotiva

Segundo Johnny Wingstedt, apesar de haver uma antiga discussão sobre a possibilidade da música expressar emoções, as pesquisas recentes da psicologia da música indicam que fatores estruturais específicos da música - como articulação, intervalos melódicos, tempo, presença de graves, modalidade, registros e fatores rítmicos - correspondem a certas emoções humanas. 46 Essa classe só apresenta uma categoria:

1. Emotiva - essa categoria está presente, em paralelo e em combinação com outras categorias, como uma categoria fundamental dentro da estrutura narrativa. São possíveis as seguintes funções:

45 WINGSTEDT (2005)

46 GABRIELSSON e LINDSTRÖM (2001) em WINGSTEDT (2005)

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descrever um sentimento de um personagem

estabelecer relacionamentos entre personagens

acrescentar credibilidade

ludibriar os espectadores

sugerir atmosferas psicológicas

criar pressentimentos

B) A classe informativa

Três categorias compõem essa classe:

1. Comunicar significado - essa categoria inclui algumas funções como:

esclarecer situações ambíguas

comunicar pensamentos não verbalizados

reconhecer ou confirmar a interpretação dada a uma situação pelo espectador

2. Comunicar valores - se baseia em um conceito musical de "significado através de

associação" 47 estabelecido na nossa sociedade. Inclui funções como :

evocar uma época

evocar um contexto cultural

indicar status social (usado em certos casos de música para propaganda)

3. Estabelecer reconhecimento - muito usado em televisão e propaganda, é também

um importante atributo do leitmotiv que pode representar um personagem, um relacionamento ou outro fenômeno do filme.

47 COHEN(1998) em WINGSTEDT (2005)

C) A classe descritiva

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É relacionada à classe informativa em certos aspectos, porém enquanto essa estabelece associações e comunica de uma forma passiva, na classe descritiva a música cria descrições de forma ativa. Se difere também da classe emotiva, pois descreve o mundo real mais do que as emoções. Pertencem a essa classe duas categorias:

1. Descrever contexto - aqui achamos funções semelhantes à tradicional música de

programa, onde a música freqüentemente se apresenta para descrever os atributos da natureza. A combinação e superposição com outros elementos narrativos do filme

permite que a música seja muito específica nos seus significados. Algumas funções dessa categoria :

estabelecer a atmosfera do ambiente: em um sentido abstrato como a hora do dia ou estação do ano.

descrever o contexto real: em um sentido concreto como ao descrever o oceano ou uma floresta

2. Descrever atividade física - inclui funções onde a música ilustra movimentos. Isso

pode ser feito em sincronia com o movimento na tela (direto) - ou o movimento pode ser implicado pela música mas não estar claro visualmente (conceitual) . Se o movimento é muito rápido, a música explica os detalhes do movimento - ela nos

permite escutar o que o olhar mais lento não capta. 48 Quando a música está em sincronia absoluta com a imagem, essa técnica é conhecida como mickey-mousing.

D) A classe guia

Essa classe ganhou relevância atualmente nas novas mídias, em sistemas interativos, onde serve como ferramenta para a navegação ou guia para o usuário. Inclui funções que podem ser descritas como "direcionando o olho, pensamento e mente" e consiste de duas categorias:

48 CHION(1990) em WINGSTEDT (2005)

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1. Indicativa - essa categoria pode ser considerada como um artifício musical de

indicação. A combinação de dois elementos referenciados pelo tempo, música e filme, faz com que seja possível para a música direcionar a atenção do espectador para certos detalhes no filme. Através da sincronia de eventos musicais a detalhes ou ações na tela (ou às vezes a certas partes do diálogo), a música pode operar separando o que está em primeiro plano dos demais elementos. Como a música normalmente envolve uma dimensão emotiva ou descritiva, ela tem uma vantagem sobre nosso dedo

indicador, pois ela pode agregar algum tipo de qualidade descritiva (beleza, perigo,

poder

)

a um detalhe selecionado. Algumas funções:

direcionar a atenção

focalizar o detalhe

2. Mascaramento - Essa categoria tinha originalmente a função de cobrir o som

indesejado do projetor de cinema. Atualmente, além de mascarar sons indesejados, a

música pode ser usada com a intenção de mascarar sons fracos da narrativa, como uma má performance.

E) A classe temporal

Essa classe se relaciona com a dimensão temporal da música, que pode ser considerada uma dimensão sempre presente, como a emotiva e a informativa. É difícil imaginar uma música que de alguma forma não represente ou organize o tempo. Johnny Wingstedt inclui nessa classe duas categorias:

1. Criar continuidade - Pode ser basicamente dividida em três funções:

construir continuidade de curto tempo - ligações realizadas de uma cena para outra

construir maior continuidade - ligações realizadas entre seqüências

construir continuidade total - criando um sentido de continuidade do início ao final do filme. Nesse caso, a continuidade pode ser conseguida usando certos recursos de composição - como motivos (por exemplo leitmotifs) que serão variados e desenvolvidos de acordo com

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a situação dramática - ou usar uma instrumentação ou estilo consistente ao longo de todo o filme.

2. Definir estrutura e forma - A música pode usar a sua própria linguagem de forma -

incluindo o uso de silêncios longos e leitmotivs, peculiares à música para o cinema - para moldar a forma da narrativa. A habilidade que a música tem de afetar a percepção do tempo e velocidade geral pode às vezes afetar a percepção da forma,

duração ou tempo de um fluxo narrativo. Da mesma forma, a música é às vezes usadas para criar expectativas do que está por vir - essa característica tem fortes conotações emocionais e informativas, mas também afeta a estrutura narrativa.

F) A classe retórica

É composta de sòmente uma categoria:

1. Retórica - Podemos explicar através dessa categoria como às vezes a música se

desenvolve e comenta a narrativa. Ela pode comentar a uma cena engraçada, imitando

melodicamente uma gargalhada. Pode também ser usada para realizar uma colocação política ou filosófica, "fazendo julgamentos" ou "sendo parcial" em um julgamento de valores.

Para concluir, Johnny Wingstedt coloca que a música opera típicamente em vários níveis, atuando em diferentes dimensões paralelas: as funções listadas mudam rápida e dinâmicamente, interagindo entre si.