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PSICOLOGIA E MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS: diferentes formas de atuação profissional Flávia Augusta Bueno da Silva 1

PSICOLOGIA E MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS:

diferentes formas de atuação profissional Flávia Augusta Bueno da Silva 1 Camila Ferreira Sartori Alexander Rodrigues Cardoso 2

Este trabalho objetiva refletir sobre a construção de práticas profissionais do psicólogo no âmbito das medidas socioeducativas, desenvolvidas por graduandos em Psicologia junto à organização local de atendimento aos adolescentes em conflito com a lei. Para confecção de tal discussão, é necessário primeiramente pontuar as concepções que fundamentam nosso modo de compreender esse específico cenário de atuação. A decisão por utilizar a ideia de “adolescente em conflito com a lei” é balizada pelas premissas do Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990) que compreendem o adolescente como sujeito de direitos e em condição de pessoa em desenvolvimento, uma vez que o termo menor nos remete a noção de inferioridade. A peculiaridade de “estar em desenvolvimento” comporta a noção de processualidade, de composição, de construção do modo de ser do sujeito, a qual não combina com marcas identitárias e estigmatizantes contidas em adjetivos como menor infrator ou delinquente. Adjetivações como estas instigam o reconhecimento do adolescente autor de ato infracional menos como agente que operou uma ação que transgrediu os princípios legais e mais como sujeito que porta uma personalidade criminosa. Nesse viés, a única medida esperada é a aplicação de métodos corretivos e punitivos que assegurem a privação de liberdade do transgressor e seu afastamento do convívio social. Em contrapartida, as medidas socioeducativas intentam fundamentar ações com caráter tanto sancionatório quanto educativo:

responsabilizando o adolescente pelas consequências lesivas do ato cometido, incentivando a reparação dos danos causados e garantindo sempre que

1 Psicóloga, Mestre, Docente da Faculdade da Alta Paulista, flaviabueno_@@hotmail.com 2 Graduandos em Psicologia, Faculdade da Alta Paulista, camilinha_sartori@hotmail.com, aleanjo-@hotmail.com

possível - a integração familiar, comunitária e social (BRASIL, 2012). Ainda assim, entendemos que o

possível - a integração familiar, comunitária e social (BRASIL, 2012). Ainda assim, entendemos que o imperativo “é castigando que se educa” baliza as políticas socioeducativas de administração pública de conflitos. Entretanto, reconhecemos a tentativa de promover mais procedimentos restaurativos do que penalizantes. Ao permitir a permanência em seu habitatpara o cumprimento da sanção, o adolescente continua a enfrentar as adversidades e as emergências da vida cotidiana, diante das quais pode aprender outros modos de resolução que não culminem em desobediência legal com consequências penais. Assim quando se atua em âmbito Jurídico, tudo o que se faz é atravessado pelo Direito, de tal forma que o direito da clientela de receber um atendimento à altura de sua condição afetiva e humana parece absolutamente negado (GUIRADO, 2005). Daí a aposta de promover intervenções críticas no programa de atendimento para a execução de medidas socioeducativas, que incentivem os adolescentes a (re)pensarem seus desejos, seus valores, seus ideais e os modos possíveis de transformar a realidade vivida, além da confecção de relatórios recheados de subsídios à decisão judicial sobre a aplicação das medidas. Todavia, aqui, pontuamos a incongruência entre ações de acompanhamento que exijam a elaboração de parecer e, ao mesmo tempo, estimulem a autonomia e expressão da individualidade do sujeito (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2011). O vínculo com o psicólogo parecerista, inevitavelmente, é permeado de componentes de desconfiança e distanciamento, já que todas as expressões do adolescente podem ser diagnosticadas como indicativos prejudiciais ao término da sanção (SHINE, 2005). Em contrapartida, ações que objetivam a promoção de autonomia demandam um vínculo de confiança entre as partes e um espaço aberto de discussão e reflexão, sem julgamento e condenações. Nesse sentido, as atividades promovidas pelos estagiários fundamentaram-se, basicamente, na criação de tal espaço com os adolescentes atendidos. Como dispositivo de encontro, foram ofertados dois grupos operativos (PICHON- RIVIÈRE, 2009): um tecido sob a temática “mundo do trabalho e orientação profissionale o outro, sexualidade e gênero. A partir dos eixos temáticos, os

graduandos coordenaram exposições iniciais, a fim de transmitir conhecimentos específicos do tema discutido, de

graduandos coordenaram exposições iniciais, a fim de transmitir conhecimentos específicos do tema discutido, de despertar o interesse dos adolescentes e de instigar a interação grupal primeiramente. O grupo de orientação profissional teve a finalidade de orientar os adolescentes acerca de suas aptidões para profissões, buscando incentivá-los a ingressarem em instituições de nível superior e mostrar quais as possibilidades de concluir os estudos para aqueles que não concluíram. Já o grupo com o tema sexualidade teve como objetivo principal orientar, informar e construir juntos conhecimento sobre um assunto tão presente no nosso dia a dia e pouco comentado. As reuniões, então, tiveram o intuito de produzir um amplo conhecimento de vários assuntos que somassem a construção de vida desses adolescentes, criando um território de produção de sentidos e ressignificação das situações vividas pelos participantes, fazendo com que estes sejam protagonistas de sua própria existência. Os grupos permitiram troca de experiências e dificuldades das partes. Na efetivação dos encontros, a rápida receptividade aos estagiários e a participação ativa nas discussões propostas surpreenderam tanto os graduandos quanto os profissionais da instituição. Com isso, concluímos que o exposto revela a importância de se discutir mais sobre os pressupostos socioeducativos e os modos de atuação profissional exigidos da equipe técnica, estimulando uma reflexão crítica e contínua sobre os atendimentos ofertados nesses programas em prol de efetiva promoção de cidadania e justiça social aos envolvidos.

Palavras chave: medidas socioeducativas, grupos operativos, cidadania.

Referências bibliográficas: BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o

Referências bibliográficas:

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, 1990.

BRASIL. Lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012. Institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescente que pratique ato infracional. Brasília, 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (Brasil). Resolução CFP 012/2011. Regulamenta a atuação do psicólogo no âmbito do sistema prisional. Brasília,

2011.

GUIRADO, Marlene. Em instituições para adolescentes em conflito com a lei, o que pode a nossa vã psicologia. In: BRANDÃO, Eduardo Ponte; GONÇALVES, Hebe Signorini (Org.). Psicologia Jurídica no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro:

NAU, 2005.

PICHON-RIVIÉRE, Enrique. O processo grupal. 8. ed. Tradução de Marco Aurélio Fernandes Velloso e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

SHINE, Sidney. Avaliação psicológica em contexto forense. In: SHINE, Sidney (Org.). Avaliação psicológica e lei: adoção, vitimização, separação conjugal, dano psíquico e outros temas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.