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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

ZEDEQUIAS ALVES

RELIGIÃO E SEXUALIDADE: REFLEXÕES SOBRE IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO PAULO

São Paulo

2009

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ZEDEQUIAS ALVES

RELIGIÃO E SEXUALIDADE: REFLEXÕES SOBRE IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO PAULO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião.

Orientador: Prof° Dr. João Baptista Borges Pereira

São Paulo

2009

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A474r Alves, Zedequias

Religião e sexualidade: reflexões sobre igrejas inclusivas na cidade de São Paulo / Zedequias Alves - 2009. 154 f. ; 30 cm

Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2009. Bibliografia: f. 121-126.

1. Sexualidade 2. Religião 3. Inclusão I. Título

LC HQ734

CDD 291.566

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ZEDEQUIAS ALVES

RELIGIÃO E SEXUALIDADE: REFLEXÕES SOBRE IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO PAULO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião.

Aprovada em agosto de 2009.

BANCA EXAMINADORA

Orientador – Prof°. Dr. João Baptista Borges Pereira (Universidade Presbiteriana Mackenzie)

Examinador: Prof°. Dr. Antonio Máspoli de Araújo Gomes (Universidade Presbiteriana Mackenzie)

Examinador: Prof°. Dr. Júlio Assis Simões (Universidade de São Paulo)

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À minha esposa, pelo constante incentivo e apoio, ao meu filho, presente de Deus na nossa vida, à minha mãe pelo amor e carinho, e acima de tudo a Deus, seja sempre dada toda honra, glória e louvor.

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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador, o Prof°. Dr. João Baptista Borges Pereira pelas sábias instruções e pelo apoio para a realização desta pesquisa,

Ao Prof°. Dr. Antonio Máspoli de Araújo Gomes e ao Prof°. Dr. Júlio Assis Simões pela valiosa ajuda na minha qualificação através dos comentários e caminhos apontados,

A todos os professores e todos os amigos da turma de mestrado, pessoas que ficarão para sempre guardadas em meu coração,

Ao Reverendo Cristiano Valério e a Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo, pela colaboração para a realização desta pesquisa,

Ao Instituto Presbiteriano Mackenzie que através do Fundo Mackenzie de Pesquisa subsidiou parte deste trabalho.

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O sagrado é apreendido como algo que salta para fora das rotinas normais do dia a dia, como algo de extraordinário e potencialmente perigoso, embora seus perigos possam ser domesticados e sua força aproveitada para as necessidades cotidianas. Embora o sagrado seja apreendido como distinto do homem, refere-se ao homem, relacionando-se com ele de um modo em que não o fazem os outros fenômenos não humanos. Assim, o cosmos postulado pela religião transcende, e ao mesmo tempo, inclui o homem. O homem enfrenta o sagrado como uma realidade imensamente poderosa distinta dele. Essa realidade a ele se dirige, no entanto, e coloca a sua vida numa ordem, dotada de significado.

Peter Berger.

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RESUMO

A discussão acerca da sexualidade humana vem sendo intensificada nestas ultimas décadas através de debates nas diversas ciências. No campo religioso temos presenciado o surgimento de novas igrejas que trazem um discurso inclusivo e procuram ser uma opção para Homossexuais, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. A presente pesquisa é uma reflexão sobre as chamadas igrejas inclusivas na Cidade de São Paulo. Por “igreja inclusiva” entendemos as igrejas abertas para a comunidade L.G.B.T., e que trazem uma proposta de inclusão para todos os que estão excluídos das outras vertentes religiosas presentes no Brasil. A presença das igrejas inclusivas no universo religioso do nosso país tem gerado os mais diferentes tipos de manifestações, desde o ataque direto e contundente a forma de pensar teológico destes grupos até a total indiferença para esta nova realidade. Ambas posturas carecem de uma investigação mais acurada, pois a presença de qualquer religiosidade, traz consigo várias questões que precisam ser analisadas. Minha proposta é analisar este fenômeno e procurar trazer novas informações que servirão de base para outros pesquisadores nas diversas áreas do conhecimento.

Palavras-chave: Inclusão, Sexualidade, Religião.

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ABSTRACT

The quarrel concerning the sexuality human being comes being intensified in these finishes decades through debates in diverse sciences. In the religious field we have witnessed the sprouting of new churches that bring an inclusive speech and look for to be an option for Homosexuals, Lesbians, Bissexuais, Travestis and Transexuais. The present research is a reflection on the calls inclusive churches in the City of São Paulo. For “inclusive church” we understand the churches opened for community L.G.B.T., and that the ones bring a proposal of inclusion for all that are excluded from the other religious sources gifts in Brazil. The presence of the inclusive churches in the religious universe of our country has generated the most different types of manifestations, since the direct and forceful attack the form to think theological of these groups until the total indifference for this new reality. Both positions lack more of a acurada inquiry, therefore the presence of any religiosidade, brings obtains some questions that they need to be analyzed. My proposal is to analyze this phenomenon and to look for to bring new information that will serve of base for other researchers in the diverse areas of the knowledge.

Word-key: Inclusion, Sexuality, Religion.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

 

10

1 RELIGIÃO E SEXUALIDADE: CONSTRUÇÕES DO HOMEM QUE VIVE EM SOCIEDADE

 

17

1.1 O Estudo Científico da Religião

 

17

1.2 Distinção entre Ciências da Religião e Teologia

 

22

1.3 A

Sociedade

Produto

do

Ser

Humano

e

o

Ser

Humano

Produto

da

Sociedade

 

26

2 OS NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS E AS NOVAS VIVÊNCIAS DA SEXUALIDADE

36

2.1 A Diversidade Religiosa no Brasil e o Surgimento de Novas Igrejas

 

36

2.2 As Novas Compreensões da Sexualidade Humana

 

42

2.3 Relação entre o Movimento Inclusivo e Movimento LGBT

 

49

3 O DEBATE POLITICO NA RELAÇÃO RELIGIÃO E SEXUALIDADE

 

61

3.1 Projeto de Lei 1151/95- União civil entre pessoas do mesmo sexo

 

61

3.2 O Projeto de Lei 122/06- A Criminalização da Homofobia

69

3.3 Manifestos das Igrejas Tradicionais

 

74

4 REFLEXÕES SOBRE IGREJAS INCLUSIVAS NA CIDADE DE SÃO PAULO.

80

4.1 Teologia Inclusiva

 

81

4.2 Principais Características da Fé Inclusiva

 

86

4.3 Um Estudo de Caso de Igreja Inclusiva

95

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

116

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

121

ANEXOS

 

127

10

INTRODUÇÃO

A discussão acerca da sexualidade humana vem sendo intensificada nestas ultimas décadas através de debates nas diversas ciências. A presente pesquisa é uma reflexão sobre o surgimento das igrejas inclusivas na Cidade de São Paulo. Por “igreja inclusiva” entendem-se as igrejas que trazem uma proposta de inclusão para todos os que estão excluídos das outras vertentes religiosas presentes no Brasil.

Muito embora o discurso seja o de inclusão a todas e todos os excluídos e excluídas por discriminação racial, social, e religiosa, existe uma ênfase na exclusão das minorias sexuais e um direcionamento a comunidade LGBT.

O termo “inclusão” muito comum no nosso contexto nestes últimos anos, ganhou uma nova conotação no cenário religioso. Ser uma igreja inclusiva na definição corrente é ser uma igreja aberta para a comunidade LGBT. Neste trabalho utilizamos a sigla L.G.B.T. para denominar as chamadas minorias sexuais.

Esta sigla é recente e foi adotada a partir da 1ª Conferência Nacional G.L.B.T realizada em Brasília em junho de 2008. Até então era utilizada a sigla G.L.B.T., a

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inversão do “G” pelo “L” na inicial da sigla atende a uma antiga reivindicação das lésbicas e pretende dar uma maior visibilidade ao orgulho lésbico.

A presença das igrejas inclusivas no universo religioso do nosso país tem gerado os mais diferentes tipos de manifestações, desde o ataque direto e contundente a forma de pensar teológico destes grupos até a total indiferença para esta nova realidade. Ambas posturas carecem de uma investigação mais acurada, pois a presença de qualquer religiosidade, traz consigo várias questões que precisam ser analisadas.

Alguns fatores contribuíram para o estudo deste tema, entre eles a presença de muitas igrejas inclusivas espalhadas pelo Brasil, especialmente a presença delas no Estado de São Paulo.

Podemos citar apenas algumas destas igrejas: Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo (2005); Comunidade Cristã Nova Esperança – SP (2004); Igreja Contemporânea – RJ (2006); Comunidade Betel –RJ (2005); Igreja Para Todos – SP (2004); Igreja Acalanto-S.P (1997); e até uma igreja virtual com o nome de Diversidade Católica – RJ (2007).

Um outro fator que me impulsionou na direção desta pesquisa foi a questão do debate político em torno de projetos de lei que visam defender o direito da comunidade L.G.B.T. Em 1995, a ex-deputada federal Martha Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o Projeto de Parceria Civil Registrada entre pessoas do mesmo sexo, o qual pôde ser considerado pela sociedade, um marco para a discussão da homossexualidade no País. Neste processo, o papel das normas jurídicas passou a ocupar posição considerável nas discussões entre as mais variadas correntes de pensamento.

Não só os estudiosos das leis, mas também outros profissionais começaram a debater sobre o reconhecimento ou não da união civil entre homossexuais. O Projeto de Lei nº 1151/95 se constitui em um marco importante para a conquista dos direitos da conjugalidade homossexual no Brasil.

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Este projeto suscitou a discussão na sociedade e em especial nas igrejas. Toda esta discussão no pensamento de Luiz Mello:

vem colocando na ordem do dia a necessidade de compreensão da

família e do casamento como construções socioculturais dinâmicas, mutáveis e capazes de incorporar um leque cada vez maior de situações e formas de expressão e manifestação das trocas afetivo- sexuais entre seres humanos. (2005, p.28).

] [

Em 2001 a deputada Iara Bernardi, PT/SP encaminhou um projeto de lei à Câmara dos Deputados que foi aprovado em 23/11/2006 e a matéria foi encaminhada ao Senado. Este projeto determina sanções às práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas. Há vários artigos neste projeto que tem causado discussões, especialmente dentro dos círculos religiosos, e seu debate já se estende por oito anos sem uma votação definitiva.

Novamente vemos a sexualidade sendo colocada em pauta e um dos maiores opositores a aprovação destas Leis são as igrejas católicas, protestantes e pentecostais que a despeito de suas diferenças teológicas se unem para combater a aprovação de tais leis, através de seus representantes políticos.

Toda esta agitação faz com que o tema seja cada vez mais discutido e ganhe uma visibilidade impar. A presente pesquisa poderá contribuir para a discussão deste tema tão importante e que ao mesmo tempo ainda é visto como um tabu por parte da sociedade, especialmente da igreja. Minha proposta é analisar este fenômeno e procurar trazer novas informações que servirão de base para outros pesquisadores nas diversas áreas do conhecimento.

A opção pelo uso de alguns termos neste trabalho foi em virtude da sua difusão e aceitação na sociedade brasileira. As expressões gays, lésbicas e homossexuais, são utilizadas comumente para se referir às pessoas que tem outra do mesmo sexo como seu objeto de desejo e realização sexual.

Algumas classificações de acordo com as categorias adjetivas como:

ao conjunto de

práticas e representações sociais relacionadas aos vínculos emocionais e sexuais entre

Homossexualidade e Homossexual, são utilizadas para referir-se “[

]

13

iguais biológicos [

estabelece, no imaginário ou no mundo real estes vínculos” (MELLO, 2005, p. 194).

]”

e o substantivo homossexual é usado para “[

]o

ser humano que

O projeto de pesquisa nasceu de uma conversa em sala de aula quando estava cumprindo os créditos do mestrado ainda no primeiro semestre, no curso de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Uma aluna comentou espantada em sala de aula que havia conhecido uma igreja “sodomita”. Fiquei curioso por saber que igreja era esta e comecei a pesquisar e foi quando me deparei com as igrejas inclusivas.

A partir de então iniciei a minha pesquisa tendo pela frente alguns empecilhos a serem vencidos. O primeiro era contar com o apoio para realizar tal investigação já que este era um tema muito pouco procurado pelos mestrandos, além dos tabus que o mesmo carrega, o segundo era encontrar um orientador corajoso e competente que pudesse me direcionar no caminho correto e me dar as coordenadas que precisaria para tal empreendimento.

O primeiro empecilho foi vencido depois de muitas piadas, risadas e brincadeiras a cada vez que anunciava aos colegas de curso (especialmente os homens) qual era a minha linha de pesquisa. O segundo empecilho foi uma questão de tempo, pois quando em uma aula o meu professor, Dr. João Baptista Borges Pereira tomou conhecimento da minha proposta de trabalho ele me perguntou durante uma aula se eu já havia conseguido um orientador, e depois da minha negativa ele disse que seria o meu orientador a partir daquele momento.

Sem a ajuda do Dr. João Baptista seria impossível ter caminhado nesta pesquisa. A partir de conversas e orientações fui conseguindo direcionar o tema para então chegar neste formato que passo a apresentar agora.

Iniciaremos a pesquisa partindo dos referenciais teóricos de Peter Berger e Durkheim ao perceber a sociedade como sendo uma construção humana. No primeiro capitulo abordaremos como esta construção da sociedade ocorre e quais os mecanismos usados para fazer esta realidade social significativa para o ser humano.

14

No segundo capitulo vamos discutir acerca do surgimento dos novos movimentos religiosos no Brasil e como esta diversidade colaborou para o surgimento de igrejas com discursos os mais diversos. Nosso recorte temporal será entre os anos de 1990 a 2009, já que no Brasil, a maioria destas igrejas teve inicio neste período.

Seguiremos nas avaliações de Silas Guerriero a respeito destes novos movimentos religiosos (2006, p. 74): “Percebemos que os NMRs surgem a partir de um forte sentimento de necessidade de mudança. As religiões estabelecidas e as formas de vivencias até então dominantes não satisfazem, provocando rupturas e dissidências”.

A proposta do terceiro capitulo é discutir acerca das polemicas relacionadas aos projetos de leis que tramitam no Senado e na Câmara dos Deputados e a maneira como as igrejas tradicionais estão se manifestando a este respeito. Igreja tradicional neste trabalho se refere sempre às tradições mais influentes no Brasil: católicos, evangélicos e pentecostais.

No quarto capitulo analisaremos a construção da teologia e da fé inclusiva para conhecermos melhor este fenômeno. Para lograrmos êxito na compreensão das igrejas inclusivas se fará necessário também distinguir entre os aspectos subjetivos e objetivos de uma religião. O significado que a religião tem para o sujeito muitas vezes pode não ser o mesmo significado que a religião tem em si mesma.

A fé encontra-se na maioria das vezes interiorizada no terreno da subjetividade, podendo ser vivenciada de diferentes maneiras pelo fiel. Enquanto a instituição com seus dogmas, símbolos, mitos e rituais encontra-se no terreno da objetividade, ou seja, daquilo que é palpável, visível.

A busca de realização e do encontro consigo mesmo, e com o sagrado leva o sujeito a uma participação em uma comunidade mística, transcendental, espiritual. Esta participação coletiva pode autenticar a experiência de descoberta do verdadeiro eu.

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Sem instituição objetiva, a religião torna-se hermética, incomunicável, arbitrária, e, finalmente desvanece-se ou conduz a neurose torna-se uma prisão que em vez de um caminho. E sem a paixão subjetiva do individuo, na sua mais intima personalidade, torna-se fria, calculada, formal, ou pior ainda, um instrumento de opressão da consciência. (ZILES; KONINGS, 1997, p.27).

No final, apresentaremos um Estudo de caso tendo como sujeito a Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo. A proposta desta igreja inclusiva é: “Nossa missão é transformar corações, vidas e histórias. Somos um movimento que proclama fielmente o amor inclusivo de Deus para todas as pessoas e orgulhosamente anunciar que há vida Plena e Nova em Cristo Jesus para gays e lésbicas, sem distinção”.

Localizada em São Paulo e filiada a Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana, a ICM de São Paulo é um caso de igreja inclusiva. A escolha desta denominação se deu pela facilidade do contato com seu pastor e abertura para a pesquisa, sua organização e suas ricas informações disponíveis através do site da igreja.

Toda esta pesquisa será feita através de levantamento bibliográfico e documental, entrevistas e estudo de caso. Em relação as igrejas inclusivas será utilizado também material de sites destas igrejas na Internet em razão de não haver ainda produção teológica no Brasil de Teologia Inclusiva.

Este trabalho leva em consideração ser esta uma pesquisa com instituições e que tais pesquisas geram preocupações éticas, pois os voluntários aceitam riscos e inconveniências com o objetivo de avançar o conhecimento cientifico beneficiando a si mesmo e a outros. Desta forma, a pesquisa obedece a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, e tem do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie a aprovação para a realização deste projeto.

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Nosso desejo ao final deste trabalho é ter conseguido responder as seguintes perguntas:

Que fatores contribuíram para o surgimento em São Paulo destas igrejas inclusivas? Como elas estão organizadas? O que determina a criação de uma igreja com teologia inclusiva em defesa das minorias sexuais? Qual a importância da religião na vida destas pessoas? Qual a contribuição social e religiosa destas igrejas? Quão difundido está este movimento inclusivo? Que níveis de apoio existem na comunidade? Que pessoas estão ativas nestas igrejas? Qual a relação entre o movimento inclusivo e o movimento LGBT? Qual o papel das leis na formação de uma nova mentalidade? Como as igrejas tradicionais reagirão a esta nova construção social e religiosa?

Analisar este fenômeno no seu inicio é de fundamental importância para traçarmos uma rota e fazermos um mapeamento dos caminhos que serão trilhados por estas igrejas durante a sua história. O estudo das origens de qualquer instituição é de grande importância para um delineamento futuro.

O estudo deste tema pode nos levar não apenas ao conhecimento do sujeito, na

muito aprendemos sobre nós mesmos quando estudamos o

medida em que “[

]

diferente” (GREEN;TRINDADE, 2005, p.51).

Na perspectiva de Rubem Alves o estudo da religião acaba por ser um estudo de nós mesmos. Assim ele afirma: “O estudo da religião, portanto, longe de ser uma janela que se abre para panoramas externos, é como um espelho em que nos vemos”. (ALVES, 2001, p. 13).

17

1

RELIGIÃO

E

SEXUALIDADE:

CONSTRUÇÕES

DO

HOMEM QUE VIVE EM SOCIEDADE

1.1 O Estudo Científico da Religião

É notório que a religião tem sido há muito tempo, objeto de vários estudos nos mais diferentes campos disciplinares. Do ponto de vista cientifico, este estudo sempre encontrou resistências devido ao entendimento de que “religião e ciência não se misturam”.

No pensamento de Durkheim (1983, p.232), a ciência não nega a existência da religião, o conflito está nos dogmas, “O que a ciência contesta à religião, não é o direito

de existir, é o direito de dogmatizar sobre a natureza das coisas [

]”.

Gaymon Bennet e Ted Peters (2003, p.31), sustentam que: “A ciência e a religião são onipresentes na sociedade humana, elas permeiam a existência humana e se interpenetram”. É inegável por outro lado a relação existente entre religião e ciência, mas a despeito disto, persistem as dificuldades e a intenção da Ciência da Religião é exatamente colocar uma ponte neste abismo e encontrar caminhos para um estudo cientifico do fenômeno religioso.

18

Avaliando historicamente a religião, ela sempre ficou dentro de uma redoma, e esta cautela excessiva acabou por prejudicar o seu estudo de forma mais abrangente. Peters e Bennet (2003, p.31) observaram: “Os que, porém, tentam isolar a ciência, protegendo-a contra as corrupções percebidas da religião, e os que tentam rejeitar a ciência, como imposição do secularismo à religião vivem uma vida ingênua”.

Este quadro sofreu mudanças significativas nestes tempos pós-modernos e de globalização. O estudo da religião ganhou um crescente interesse, especialmente dentro de uma abordagem cientifica.

Anthony Giddens (2002, p.27) define globalização assim: “A globalização diz respeito à interseção entre presença e ausência, ao entrelaçamento de eventos e relações sociais a distancia com contextualidades locais”.

Peters e Bennet (2003, p.32), afirmam que a globalização trouxe consigo

mudanças profundas, especialmente relacionadas ao avanço dos estudos científicos, que

para efetuar uma

mudança cientifica, muitos paises experimentam paralelamente um reavivamento e uma

acabam por influenciar o aspecto religioso dos povos, porque “[

]

revisão de seus valores culturais e religiosos”.

Levando-se em conta este quadro, alguns chegaram a prever o fim da religião, a morte do sagrado, a crise da teologia, para este tempo em que vivemos, contudo, observamos que a religião está mais presente do que nunca neste tempo histórico que chamamos de pós-modernidade.

O pensamento pós-moderno recebeu influências de vários movimentos teológicos e filosóficos produzidos no século XX. Uma visão de mundo em uma ótica cristã prevaleceu durante os séculos anteriores e a influência da igreja na vida das pessoas era algo inegável.

não apenas

envolve uma implacável ruptura com todas e quaisquer condições históricas

David Harvey (1992, p.22) observou que a modernidade “[

]

19

precedentes, como é caracterizada por um interminável processo de rupturas e fragmentações internas inerentes”.

Rubem Alves (2001, p.46) analisa que: “O homem medieval desejava contemplar e compreender. Sua atitude era passiva, receptiva”. Neste universo encantado o homem se via diante de coisas que ele não podia racionalizar, muito menos manipular.

Com a chegada do cientificismo materialista do século XIX uma nova mentalidade foi sendo gerada e a cosmovisão cristã foi perdendo sua força dando lugar a uma visão de mundo totalmente descristianizada.

Percebendo esta mudança ocorrida na sociedade Rubem Alves (2001, p.11) comenta:

No mundo sagrado, a experiência religiosa era parte integrante de cada um, da mesma forma que o sexo, a cor da pele, os membros, a linguagem. Uma pessoa sem religião era uma anomalia. No mundo

Confessar-se religioso

dessacralizado as coisas se inverteram. [

equivale a confessar-se habitante do mundo encantado e mágico do passado, ainda que apenas parcialmente.

]

Evidentemente que este processo desencadeou profundas mudanças nas estruturas das religiões tradicionais contribuindo diretamente para o declínio da sua influência moralizante. Este secularismo produziu aquilo que Max Weber chamou de “desencantamento” do mundo, e que Peter Berger chamou de “morte do sobrenatural” (BERGER, 1997; PIERUCCI, 2003).

Rubem Alves (2001, p. 48) observa que: “A condenação do sagrado era exigida

pelos interesses da burguesia e pelo avanço da secularização [

secularizante passa a ser, “Que a religião cuide das realidades espirituais, porque das

assim a lógica

]”,

coisas materiais a espada e o dinheiro se encarregam”.

Peter Berger (1997) analisou a situação sob um ponto de vista da morte do sobrenatural e de uma crise teológica. A perda do sentido do sobrenatural na sociedade

20

moderna e a crise teológica como conseqüência de processos de socializações aos quais todos, inclusive o teólogo estão sujeitos, são descritas por ele assim:

O teólogo, como qualquer outro ser humano, existe num meio social.

Também ele é o produto de processos de socialização. Seu conhecimento foi adquirido socialmente, precisa de amparo social e é conseqüentemente vulnerável as pressões sociais (BERGER, 1997, p.

30).

Seguindo esta análise a crise da religião é em parte fruto do pluralismo

moderno no qual existem “[

membros de uma sociedade, isto é, uma situação na qual há competição entre visões do mundo” (BERGER, 1997, p. 77).

mais do que uma visão do mundo à disposição dos

]

Assim Berger analisa a pluralidade existente na sociedade moderna que torna a vida do sujeito extremamente complexa, pois o mesmo se vê diante de várias visões de mundo totalmente opostas entre si. A sua visão não é a única e ele é exposto

diariamente a estas oposições através de todos os meios e instancias de comunicação da

a mais importante

sociedade. Assim, esta pluralização, no conceito de Berger é “[

causa da decrescente plausibilidade das tradições religiosas” (BERGER, 1997, p. 79).

]

Este desencantamento pressupôs uma mudança de um sistema regido pelo

místico, sagrado e religioso para um sistema econômico que dirige e controla o mundo.

explicada

como comportamento infantil de povos e grupos não-evoluídos, ilusão, ópio, neurose, ideologia” (ALVES, 2001, p. 50).

A religião foi relacionada ao passado da Idade das Trevas da história, “[

]

Marcio Magalhães Fontoura (MANZINE-COVRE, 2005, p.138) analisa este quadro da seguinte forma:

Esta mudança de perspectiva origina-se da ciência moderna que, para

se firmar, precisa romper com a visão “encantada” das coisas, tendo

em vista a necessidade de gerar a supremacia da razão como meio de transformação do mundo, que então se “desencanta” e rompe com a tutela de Deus, para firmar um novo tipo de homem: autônomo, livre e construtor de um novo tempo pela via racional.

21

Há pelo menos dois aspectos importantes no conceito de Durkheim (1983, p.232) acerca do pensamento cientifico em relação à religião. Ele afirma em primeiro

lugar que, “[

o pensamento cientifico não é senão uma forma mais perfeita do

pensamento religioso”, e desta forma prevê que a religião vai perdendo sua força diante

na medida em que este se torna mais apto a dar conta da

do saber cientifico, “[ tarefa”.

]

]

Em segundo lugar, Durkheim (1983, p.232) avalia a ciência sob uma nova perspectiva, assim ele afirma: “Saída da religião, a ciência tende a substituí-la em tudo o que concerne às funções cognitivas e intelectuais”.

O maior conflito entre ciência e religião está no campo da moral, mas mesmo

a ciência se estabelecerá como senhora”. O fato é

nesta área Durkheim entende que “[

que o homem não pode deixar de considerar a importância e o valor da ciência.

]

Desde que a autoridade da ciência foi estabelecida, é preciso dela ter conta; pode-se ir mais longe do que ela sob a pressão da necessidade, mas é dela que é preciso partir. Não se pode afirmar nada que ela negue, nada negar que ela afirme, nada estabelecer que não se apóie direta ou indiretamente, sobre princípios tomados emprestados dela (DURKHEIM, 1983, p. 233).

Obviamente que Durkheim analisa a religião sob aspectos que apontam para uma transformação no futuro. Os papeis desempenhados pela religião mudam de acordo com o tempo e se faz necessário torná-la compreensível às pessoas através das teorias fundamentadas sobre as diferentes ciências:

] [

origens na sociedade; psicologia, porque a sociedade é uma síntese de

consciências humanas; enfim, ciências da natureza, porque o homem e a sociedade são função do universo e não podem ser abstraídos dele senão artificialmente (DURKHEIM, 1983, 233).

primeiramente, ciências sociais, porque a fé religiosa tem suas

22

1.2 Distinção entre Ciências da Religião e Teologia

“A Teologia não dispensa a mediação cientifica” (MOSER, 2001, p.29), pois existe uma relação entre o divino e o humano. A compreensão de um nos faz compreender melhor o outro e assim teologia e ciência se complementam.

Afirma-se que o teólogo deve se utilizar de vastos domínios amplamente aceitos da ciência, em vez de se arriscar a adaptar-se a teorias limitadas, ou especulativas, que provavelmente serão abandonadas no futuro. As doutrinas teológicas devem ser coerentes com as provas cientificas, mesmo que não sejam diretamente dedutíveis das teorias cientificas atuais (BARBOUR, 2004, p. 47).

Na avaliação do sociólogo Antônio Gouvêa Mendonça é necessário fazer uma distinção entre Teologia e Ciência da Religião. A etimologia da palavra teologia nos remete a “theos” que traduzimos por “Deus” e “logos” que pode ser traduzido como “estudo”, “tratado” ou “discurso”.

Não é possível falar em teologia numa perspectiva exclusivista, porque esta ciência permite múltiplas perspectivas de estudo, que resulta em teologia católica, reformada, liberal, conservadora, e mais recentemente teologia da libertação, teologia feminina, teologia inclusiva, entre outras.

Para Antônio Gouvêa Mendonça o objeto da Teologia é Deus, seja ela metafísica ou indutiva a “Teologia é uma Ciência de Deus” (2003, p.22). Os teólogos estudam “Deus” com o pressuposto que ele pode ser conhecido, desta forma a teologia sustenta que “Deus” pode ser conhecido, mas que ao homem é impossível ter um exaustivo e perfeito conhecimento de “Deus”.

A teologia tem como ponto de partida a existência de Deus e que ele se revelou as suas criaturas. A concepção tradicional que os cristãos tem acerca de Deus vem da experiência religiosa do povo de Israel segundo a qual Deus era o totalmente outro, não sendo possível encontrá-lo nem dentro do homem, como se preso a ele, nem dentro do mundo, como se limitado a ele. Deus é o criador do homem e do mundo, ele é imanente e transcendente, está distante e ao mesmo tempo está perto e acessível pela fé.

23

Por revelação entende-se a manifestação do sagrado, de acordo com Mircea Eliade, que chama este ato de hierofania. Para ele, ”O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano” (ELIADE, 2008, p.17).

O estudo de Deus tem como pressuposto básico, esta hierofania, e no caso do cristianismo tem na encarnação de Jesus Cristo, o Deus encarnado, uma hierofania suprema. Outras formas de revelação se apresentam em objetos da própria natureza, assim: “O Cosmos, na sua totalidade, pode se tornar uma hierofania” (ELIADE, 2008, p. 19).

O conceito de ciência aplicado à teologia traz a tona a questão do seu objeto ser ou não cognoscível. Ela pode então não ser vista como ciência por aqueles que negam a cognoscibilidade de Deus. Temos, portanto, baseados nos conceitos de cognoscibilidade definido que Deus é o objeto de estudo da teologia.

Olga de Sá observa:

As idéias cientificas elaboradas pelo homem buscam superar a ilusão, o desconhecido, a superstição. No entanto, assim como não podem afirmar a existência de uma realidade superior a matéria, também não podem negá-la. Interpretar a experiência religiosa como alienação já não é ciência, mas ideologia (GUERRIERO, 2004, p. 106).

as Ciências da Religião não estudam Deus,

mas suas formas de expressões nas pessoas e nas culturas” (MENDONÇA, 2003, p.23). Assim podemos fazer uma distinção entre Ciências da Religião e Ciências da Teologia por seus objetos de estudo serem distintos.

Diferentemente da Teologia, “[

]

Para Mendonça, existem muitas dificuldades para se perceber esta diferença dificultando assim a possibilidade de aprofundar os estudos observando-se a transdisciplinaridade dos estudos da religião:

24

A

este respeito Mendonça explica que:

Nossa tradição cultural religiosa, por não ter recebido o impacto de outras culturas, como foi o caso da cultura européia do século XIX durante sua expansão colonial, ainda demonstra dificuldade para pensar a religião em seu sentido mais lato (GUERRIERO, 2004, p.

165).

O

conceito de transdisciplinaridade é importante no sentido que engloba e

transcende o que passa por todas as disciplinas. Pensar na religião sob este aspecto pode

trazer uma visão muito mais ampla de seus significados.

A utilização do termo Ciências da Religião não acontece por entender-se que

esta designação seja melhor do que as outras, mas simplesmente por uma questão de escolha. Da mesma forma que Antônio Gouvêa Mendonça, vamos deixar de lado a discussão em relação as nomenclaturas: Ciência da Religião, Ciências das Religiões, Ciências da Religião ou Ciência das Religiões.

A religião é vista dentro do campo cientifico como as variadas e mesmo

infinitas formas com que Deus se expressa no mundo, na história e no cotidiano das pessoas. Na perspectiva estrutural a religião é definida como sistemas de crença, prática e organização que conformam uma ética que se manifesta no comportamento dos seus

seguidores. A origem do termo traz a idéia de religare, que significa estar ligado, unir, ou relegere, que significa escolher cuidadosamente.

O conceito de religião é amplo e quando usado nesta pesquisa não está se

resumindo a uma vertente religiosa, ou uma chamada “denominação” especifica. Ressaltamos aqui a observação de Mendonça (2003, p.24): “As instituições religiosas são veículos de comunicação religiosa, mas não são a religião em si mesma”.

O conceito de religião é muito mais abrangente que o conceito de instituição.

“Em outras palavras, as instituições proporcionam métodos pelos quais a conduta humana é padronizada, obrigada a seguir por caminhos considerados desejáveis pela sociedade” (BERGER,1986,p.101).

25

As instituições são históricas e pertencem a um tempo e a um contexto concreto. A religião é tão antiga quanto o homem. Em todas as culturas desde as mais primitivas até as mais civilizadas é possível encontrar vestígios da presença de elementos que caracterizam algum tipo de religiosidade.

No pensamento de Mircea Eliade (2008, p.100): “A simples contemplação da abóbada celeste é suficiente para desencadear uma experiência religiosa”. A imensidão dos céus deu ao homem este sentimento do transcendental, do supraterrestre, enfim, dos deuses.

Obviamente que estas experiências religiosas são muito diversificadas, assim como os nomes que designam tais deuses, como por exemplo: “a divindade suprema dos maori chama-se Iho (elevado, acima), dos negros akposo chama-se Uwoluwu (o que está no alto), dos iorubas chama-se Olorum (Proprietário do Céu). Entre os povos mais

civilizados encontramos: Tengri (Céu), entre os mongóis, Anu( Céu) entre os babilônios

e Taranis ( Trovejar) dos celtas” (ELIADE, 2008, p. 101-102).

Percebe-se que este estudo cientifico da religião ainda é embrionário no nosso país onde as universidades são instituições recentes. Abordando a dificuldade de definir

o que seja religião Bastide (1990, p.10), escreveu:

Se nos interrogarmos sobre a natureza profunda da religião, se tentarmos esquecer os dogmas e os ritos das igrejas se tentarmos encontrar o sentimento primordial, definiremos religião pela impressão de mergulhar num mar de mistério (H. Spencer); pelo sentimento do infinito (Max Muller); ou de nossa dependência perante um ser que nos excede (Schleiermacher); finalmente, pelo instinto que nos impele à felicidade (Feuerbach).

Quando falamos de religião distinguimos de religiosidade ou espiritualidade no seguinte sentido: “É um erro supor que pode haver uma religião totalmente interior, sem regras, sem liturgia, sem sinais exteriores de estados interiores. Em religião, tal como em sociedade, a forma exterior é a própria condição de existência” (DOUGLAS, 1991, p. 79).

26

1.3 A Sociedade Produto do Ser Humano e o Ser Humano Produto da Sociedade

A existência de uma religião é caracterizada pelas suas formas externas. Ligado as religiões estão os mitos, os ritos, os símbolos e os dogmas, cada qual nos ajuda a compreender o fenômeno, pois todos são representações do sagrado. Como afirma

Edênio Valle (1998, p. 40), “As Religiões se fundam, em última análise, em algum tipo

de experiência mística [

]”,

ou experiência religiosa.

Se o objeto de estudo das ciências da religião é a religião, como definida anteriormente, é necessário distinguir qual é o objeto de estudo da religião. Neste sentido temos que ter o cuidado de saber que: “Diferente de outras ciências o objeto de estudo da religião não é manipulável com os mesmos critérios de uso dos outros objetos da ciência” (AMADO, et al. 1989, p.7).

Partiremos de uma abordagem sociológica tendo como referencial as análises de Peter L. Berger. Na abordagem de Berger (1985, p.38): “A religião é o

empreendimento humano pelo qual se estabelece um cosmos sagrado”. Segundo ele, a

religião vem entendida “[

específicas da história humana” (BERGER, 1985, p.186).

como projeção humana, baseada em infra-estruturas

]

Dentro de uma análise dialética, Berger (1985, p.15) entende que: “A

sociedade é produto do homem”, e “[

religião faz parte da sociedade ela é, portanto uma construção do homem que vive em sociedade.

o homem é produto da sociedade”, assim, a

]

Este processo dialético envolve o homem a sociedade e a religião, cada um exercendo seu papel, porém, interligados entre si e contribuindo para as legitimações sócio-culturais. Os três momentos descritos por Berger para entender melhor este processo são: a exteriorização, a objetivação e a interiorização.

27

A exteriorização é o primeiro momento do processo dialético de Berger, assim

definida:

O ser humano é exteriorizante por essência e desde o início. Esse fato antropológico de raiz com muita probabilidade se funda na constituição biológica do homem. O homo sapiens ocupa uma posição peculiar no reino animal. Essa peculiaridade se manifesta na relação do homem com seu próprio corpo e com o mundo. À diferença dos outros mamíferos superiores, que nascem com um organismo essencialmente completo, o homem é curiosamente “inacabado” ao nascer (BERGER, 1995, p. 17).

Enquanto o mundo dos animais é fechado em termos de possibilidades, pois cada espécie vive no seu ambiente especifico, o homem vive em um mundo aberto, um mundo que ele deve modelar.

cada corpo produz sempre a mesma coisa. O animal

é seu corpo. Sua programação biológica é completa, fechada, perfeita” (ALVES, 2001,

p. 18). O homem por sua vez, “[ (ALVES, 2001, p. 18).

não é o corpo que o faz. É ele que faz seu corpo”

No caso dos animais, “[

]

]

Este modelar está ligado à ordem estabelecida frente ao caos. “Qualquer sociedade histórica é uma ordem, uma estrutura de sentido protetora, levantada frente ao caos” (BERGER, 1997, p. 91). Esta ação de adaptação revela a condição humana de sentir-se não adaptado ao mundo como lhe é dado e com a necessidade constante de transformação.

O fato é que os homens se recusaram a ser aquilo que à semelhança dos animais, o passado lhes propunha. Tornaram-se inventores de mundos. E plantaram jardins, fizeram choupanas, casas e palácios,

construíram tambores, flautas e harpas, fizeram poemas, transformaram seus corpos, cobrindo-os de tintas, metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras, construíram altares, enterraram seus

mortos [

]

(ALVES, 2001, p. 19).

Berger (1985, p.18) afirma que o “O homem precisa fazer um mundo para si”. O homem é um animal social o que faz desta construção do mundo uma ação coletiva.

28

Para Berger a produção humana é a sua cultura e esta consiste na totalidade dos produtos do homem.

Aplicando tal conceito a religião, podemos dizer, que o homem constrói uma religião para si como produto desta construção de mundo. As grandes instituições sociais nascem da religião, assim: “Se a religião engendrou tudo o que há de essencial na sociedade, é porque a idéia da sociedade é a alma da religião” (DURKHEIM, 1983, p. 224).

A religião está incorporada ao patrimônio cultural das sociedades. Muito embora a experiência religiosa seja um fenômeno universal ela assume características muito próprias, que embora possam ser distintas uma das outras conduzem aos mesmos sentimentos e retratam os mesmos anseios.

Por isto, independente da maneira como esta religiosidade se manifestar, ela irá sempre revelar a busca pelo sagrado, ou pelo oculto, pelo sobrenatural ou por algum

não existem religiões falsas. À sua maneira, todas

são verdadeiras, todas respondem, mesmo que de diferentes formas, a condições dadas

da existência humana” (DURKHEIM, 1983, p.206).

tipo de divindade. Desta forma, “[

]

Para Berger a cultura se origina na consciência subjetiva do ser humano e se exterioriza. Este processo faz com que o produto que o homem criou torna-se algo diferente do homem, ou como diz Berger (1985, p.22): “O mundo humanamente produzido se torna alguma coisa lá fora”. A partir do momento que aquilo que era subjetivo se torna objetivo, ele ganha um caráter permanente e autônomo.

A objetivação é este segundo momento do processo dialético de Berger e pode ser entendida da seguinte forma:

Embora toda cultura se origine e radique na consciência subjetiva dos seres humanos, uma vez criada não pode ser absorvida à vontade na consciência. Subsiste fora da subjetividade do individuo, como um mundo. Em outras palavras, o mundo humanamente produzido atinge o caráter de realidade objetiva (Berger, 1985, p.22).

29

Na análise deste processo Berger (1985, p.23) exemplifica que: “O homem produz valores e verifica que se sente culpado quando os transgride”. Aquilo que ele produziu no campo material ou não material passa a ter uma existência objetiva a ponto de produzir este estado de culpa. E tudo isto é repassado para outras pessoas porque:

“Estar na cultura significa compartilhar com outros de um mundo particular de objetividades” (Berger, 1985, p. 24).

Portanto a sociedade, que é um produto do homem, com ele passa a se

confrontar como uma realidade objetiva. “Assim, a sociedade dirige, sanciona, controla

e pune a conduta individual” (BERGER, 1985, p.24), podendo chegar a destruir o

próprio indivíduo. Este é o conceito de controle social, sem o qual nenhuma sociedade existe e que segundo Berger (1986, p.81): “Refere-se aos vários meios usados por uma sociedade para enquadrar seus membros recalcitrantes”.

Para Peter Berger (1986, p. 83-86) a sociedade utiliza seus meios de controle social para enquadrar os considerados “desviados”. Estes são os meios de controle social mais utilizado: a violência física, coerções que ameaçam o ganha pão das pessoas, o ridículo e a difamação, e uma das mais devastadoras que é submeter à pessoa ao ostracismo sistemático.

Gilberto Velho (2003, p. 21) explica que a cultura não é uma entidade acabada

e,

pouco complexa da vida sociocultural”. O desviante pode ser definido como aquele que

conceitos de inadaptado ou de desviante estão amarrados a uma visão estática e

“[

]

quebrou as regras estabelecidas pelo grupo social.

O “desviante, dentro da minha perspectiva, é um individuo que não está fora de sua cultura, mas que faz uma “leitura” divergente. Ele poderá estar sozinho (um desviante secreto?) ou fazer parte de uma minoria organizada. Ele não será sempre desviante. Existem áreas de comportamento em que agirá como qualquer cidadão “normal”. Mas em outras divergirá, com seu comportamento, dos valores dominantes (VELHO,2003, p. 27-28).

30

No caso especifico da religião precisamos notar para qual fim ela foi objetivada, pois daí pode-se concluir, qual função ela irá exercer sobre determinada cultura. Dentro desta perspectiva, a religião sai da subjetividade e torna-se realidade objetiva exercendo também este papel de direção, controle e punição na vida do homem.

A sociedade produzida pelo homem estabelece os papeis que este terá que

desempenhar. Para Berger, a idéia de “vestir” o papel mesmo contra a vontade pode

levar o sujeito a desenvolver uma máscara, de maneira que cumpre o que está estabelecido, contudo, se distingue deste papel.

Se no primeiro momento ocorre a efusão da realidade, num segundo momento

estas realidades adquiriram um status ontológico, para num terceiro momento dentro deste processo dialético, ser interiorizado.

De acordo com Berger (1985, p.16), é neste momento que o homem passa a ser moldado pela sociedade que ele mesmo criou, a interiorização é, portanto, “[

reapropriação dessa mesma realidade por parte dos homens, transformando-a novamente de estruturas do mundo objetivo em estruturas da consciência subjetiva”.

a

]

Neste momento aquilo que foi exteriorizado e objetivado passa a moldar as

subjetividades da consciência de tal forma a interiorizar a cultura no individuo. Deste

] isto é,

os processos pelos quais se ensina uma nova geração a viver de acordo com os programas institucionais da sociedade”.

processo dialético temos o que Berger (1985, p.28) chama de socialização, “[

Durkheim (1983, p. 87) usa o conceito de fato social, e aplicando tal

pensamento a religião diz: “[

práticas da sua vida religiosa; se elas existiam antes deles é porque existiam fora deles”.

Algo que está fora precisa ser então interiorizado e existem formas eficientes para alcançar este objetivo.

os fiéis quando nascem, encontram já feitas as crenças e

]

31

Há três características principais para definirmos um fato social na visão de Durkheim: 1º) Generalidade: é a comunhão no pensar, agir e sentir de um grupo de pessoas, 2º) Exterioridade: é aquele fato que está intrínseco no indivíduo; 3º) Coercitividade: É a obrigação do indivíduo a seguir determinada orientação, conceito ou norma já preestabelecida pela sociedade.

Durkheim (1983, p.93) resume desta forma:

É um fato social toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coação exterior; ou ainda, que é geral no conjunto de uma dada sociedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifestações individuais.

maneiras de agir, pensar e sentir

exteriores ao individuo, e dotadas de um poder coercitivo em virtude do qual se lhe impõem” (DURKHEIM, 1983, p. 88). Se a sociedade estabelece os papeis que cada um deve cumprir a quebra deste sistema pode ser considerado um desvio social.

Os fatos sociais consistem, portanto, nas “[

]

O conceito de “papel” pode ser definido da seguinte forma: “Papéis seriam,

basicamente, padrões ou regras arbitrárias que uma sociedade estabelece para seus

membros e que definem comportamentos [

]”

(LOURO, 1997, p.24).

uma resposta tipificada a

uma expectativa tipificada”. Não podemos resumir a ação dos papéis apenas ao nível do

comportamento, porque a “[

também o que somos” (BERGER, 1986, p.107).

sociedade determina não só o que fazemos, como

Peter Berger (1986, p.108) define papel como “[

]

]

Dentro desta conceituação a sexualidade está intimamente ligada às construções religiosas. A compreensão que determinada sociedade tem da sexualidade está diretamente relacionada a influência religiosa recebida.

A moral religiosa se faz presente de maneira tão intensa na vida das pessoas e

muitas vezes, “Abdica-se da capacidade de escolha em favor da instituição eclesiástica,

que passa a ditar as normas, dogmaticamente, sobre o que vestir, o que beber, o que comer, o que usar, o que fazer ou como se divertir” (CAVALCANTI, 1992, p.24).

32

As interdições sexuais sempre estiveram ligadas a ideologias religiosas. O incentivo por parte da igreja a abstinência sexual trouxe em muitos momentos a idéia de purificação e elevação espiritual ao passo que o sexo esteve ligado durante algum tempo a idéia de falta de espiritualidade. “Como observou um historiador, no leito conjugal os cônjuges nunca estão sozinhos: partilham a cama com a sombra da Igreja” (CHAUI, 1991, p. 99).

Na avaliação de Peter Berger a religião é vista como o empreendimento humano com o qual se estabelece um cosmos sagrado. Ele define sagrado como algo apreendido pelo homem e que tem uma qualidade de poder misterioso e temeroso. Desta forma o inverso do sagrado é o profano, e esta dicotomia acaba marcando a religião que reduz a vida a estas duas esferas, e também se torna fundamental para entendermos o fenômeno religioso.

Por isto as manifestações históricas do sagrado e do profano são tão distintas e complexas. Como afirma Berger (1985, p.39):

O sagrado é apreendido como algo que salta para fora das rotinas normais do dia a dia, como algo de extraordinário e potencialmente perigoso, embora seus perigos possam ser domesticados e sua força aproveitada para as necessidades cotidianas. Embora o sagrado seja apreendido como distinto do homem, refere-se ao homem, relacionando-se com ele de um modo em que não o fazem os outros fenômenos não humanos. Assim, o cosmos postulado pela religião transcende, e ao mesmo tempo, inclui o homem. O homem enfrenta o sagrado como uma realidade imensamente poderosa distinta dele. Essa realidade a ele se dirige, no entanto, e coloca a sua vida numa ordem, dotada de significado.

Dentro desta perspectiva, a visão de mundo sagrado ou de um mundo dessacralizado, vai resultar na visão que o sujeito tem da vida influenciando-o em todos os aspectos da existência. Observamos um momento recente na história quando o homem tentou em vão retirar a visão do sagrado e criar para si um mundo totalmente dessacralizado.

33

Mesmo que tais comportamentos surjam com força neste ou naquele período

da história, não podemos negar que mesmo “[

profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso” (ELIADE, 2008, p.27).

o homem que optou por uma vida

]

Uma contribuição importante do pensamento de Berger é sua análise da função

legitimadora da religião. Por legitimação, entende-se o “[

objetivado que serve para explicar e justificar a ordem social” (1985, p.42). Analisando

a religião como um produto do homem que vive em sociedade, notamos que a religião tem a condição de fazer o universo significativo para o ser humano.

saber socialmente

]

O mundo tem os seus mistérios e o homem precisa conviver com eles de forma consciente. Exatamente nesta busca de significados que encontramos o papel mais importante da religião, ela acaba por dar sentido a vida humana em todos os seus aspectos.

Através de quase toda a história, os homens acreditaram que a ordem criada da sociedade, de uma maneira ou de outra, corresponde a uma ordem subjacente do universo, uma ordem divina que sustenta e justifica todas as tentativas humanas de por ordem (BERGER, 1997, p. 26).

Na religião o homem busca sentido e significado para a existência tanto no aspecto pessoal, como num sentido cósmico. Na fé expressa pela religião ele procura encontrar respostas para aquilo que está fora do alcance da sua razão, ou mesmo do seu poder de ação. Explicam-se todas as dimensões de uma sociedade a partir da sua religiosidade. Vista por este prisma a religião tem a função de manter a realidade do mundo socialmente construído.

Pensar no sagrado desta forma nos leva a entender porque a religião relaciona áreas da sua vida, como a sexualidade, ao domínio do sagrado e do profano. A Igreja Católica Apostólica Romana tem o casamento como um sacramento e define sua finalidade como sendo a procriação humana, fato que leva a igreja a pregar contra o uso de qualquer método anticoncepcional e defender o casamento heterossexual.

34

O casamento, portanto, é muito mais que um contrato, torna-se uma comunhão com o sagrado.Remodelar noções como esta estão para além do campo moral, médico ou legal, é necessário fazer uma desconstrução da noção de sagrado para se obter uma mudança em alguns dogmas das religiões.

O desconstrucionismo característico do pensamento pós-moderno tenta realizar esta quebra de paradigmas (HARVEY, 1992; DERRIDA,1994). Aplicadas as temáticas envolvendo a sexualidade, a desconstrução é usada com o intuito de demonstrar a necessidade de se repensar os conceitos associados aos termos.

Quando se fala, por exemplo, em masculino e feminino, esta dicotomia aponta para duas realidades completamente distintas e ao mesmo tempo a maneira como é colocada tem o objetivo de marcar a superioridade do masculino.

A proposição de desconstrução das dicotomias -problematizando a constituição de cada pólo, demonstrando que cada pólo não é uno, mas plural, mostrando que cada pólo é, internamente, fraturado e dividido - pode se constituir numa estratégia subversiva e fértil para o pensamento (LOURO, 1997, p.31).

Assim a conclusão a que se chegaria é que o masculino contém em si o feminino e vice-versa e que o masculino e o feminino em si mesmos estão fragmentados. Esta desconstrução leva a uma reflexão acerca das concepções de gênero que sem a visão dicotômica passam a coexistir em diferentes formas de masculinidade e feminilidade.

abalar o enraizado caráter

heterossexual que estaria, na visão de muitos/ as, presente no conceito gênero” (LOURO, 1997, p.34). Mas por outro lado percebemos que este processo existe desde que existe o mundo. As construções e desconstruções ideológicas, teológicas, sociais, morais ou culturais, fazem parte da história humana.

Para

alguns

este

rompimento

poderá

“[

]

35

É certo que as construções sociais tem o poder de se tornarem legitimadoras do certo e errado, assim a religião, de acordo com Berger (1985, p. 45) se constitui no “[ ] instrumento mais amplo e efetivo de legitimação”. Este poder legitimador é avaliado por Berger (1985, p.46):

A religião legitima as instituições infundido-lhes um status ontológico de validade suprema, isto é, situando-as num quadro de referencia sagrado e cósmico. Provavelmente a mais antiga forma dessa legitimação consista em conceber a ordem institucional como refletindo diretamente ou manifestando a estrutura divina do cosmos, isto é, conceber a relação entre a sociedade e o cosmos como uma relação entre o microcosmo e o macrocosmo.

Neste processo o homem constrói a sociedade e por ela é construído, e a religião desde há muito tempo tem sido um instrumento poderoso nesta construção e desconstrução da sociedade humana.

36

2 OS NOVOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS E AS NOVAS VIVÊNCIAS DA SEXUALIDADE

2.1 A Diversidade Religiosa no Brasil e o Surgimento de Novas Igrejas

Na sua análise acerca das formas elementares da vida religiosa, Durkheim

(1983, p. 207) explica que para compreendê-las “[

até a sua forma mais primitiva e mais simples”, porque desta forma é possível delinear o seu desenvolvimento que na maioria das vezes parte de um sistema simples e vai se tornando mais complexo.

é preciso começar por retroceder

]

Estudar sobre o surgimento das igrejas inclusivas na cidade de São Paulo, nos possibilita entender melhor e explicar de forma mais coerente acerca deste novo movimento religioso. Para se referir a estes grupos usaremos a designação “Novos Movimentos Religiosos” que de acordo com Silas Guerriero (2006, p.35) pode ser definido assim:

Assumindo uma postura pragmática, define um NMR como novo se este movimento se tornou visível a partir da Segunda Guerra Mundial, e como religioso se oferece não apenas um estamento teológico sobre a existência e sobre as coisas sobrenaturais, mas se se propõe a responder, no mínimo, a algumas questões ultimas que tradicionalmente tem sido endereçadas às grandes religiões.

37

Os novos movimentos religiosos que surgem dentro do cenário brasileiro são

analisados em termos gerais pelo “[

símbolos diante dos padrões culturais estabelecidos” (GUERRIERO, 2006, p. 19).

]

exotismo e distanciamento de suas mensagens e

Sempre se torna complexo falar de novidade no campo religioso, em especial no Brasil. De acordo com o ultimo censo o IBGE (2000) constatou-se a existência de 30 classificações diferentes de grupos religiosos, entre elas o termo “outras religiosidades” que abarca um numero grande de denominações recentemente criadas.

A diversidade religiosa observada no Brasil é marcada pela fragmentação. As novas denominações que surgem a cada dia são prova desta realidade. Este fenômeno ocorre nas tradições protestantes e pentecostais ao contrário da igreja católica que consegue reunir em seu interior os possíveis dissidentes e com eles conviver. Um exemplo claro desta fusão entre os católicos é a renovação carismática dentro da ICAR.

As chamadas igrejas “ecumênicas” possuem um discurso mais tolerante em relação a viver a religiosidade conjuntamente com outras vertentes e realizam até mesmo celebrações em conjunto. Os cultos ecumênicos com a presença de padres, pastores, rabinos e outros representantes das principais tradições religiosas do país, tem se tornado cada vez mais freqüentes. Mesmo com esta busca e abertura por parte de alguns, para um dialogo entre as diferentes tradições religiosas, o quadro continua a revelar uma multiplicidade de novas religiosidades surgindo dentro do campo religioso brasileiro.

Peter Berger vê o ecumenismo como conseqüência do pluralismo e destaca onde esta consciência pode levar a teologia:

Pois uma consciência ecumênica torna possível um modo de teologizar que tem consciência da plenitude da busca religiosa do homem numa maneira que provavelmente não tem paralelo na história da religião. Assim aumentará a probabilidade de nenhuma descoberta da verdade religiosa ser desconsiderada simplesmente por causa do acidente de nascimento do teólogo neste ou naquele meio (1997, p.

128).

38

Nehemias Marien falando a respeito de sua igreja inclusiva disse:

A igreja tem uma mentalidade liberal, pluralista e ecumênica. Ela quer ser assim, uma comunidade aberta, com esta visão acolhedora, com as portas abertas, sem muros. Não tem um dogma fechado nas suas doutrinas, na sua crença, mas ela tem esse desejo de partilhar, hoje, a experiência nascida da sua caminhada (GIUMBELLI, 2005, p.79).

Silas Guerriero (2006, p.20) analisa que a maioria das novas religiões que surgem estão de certa forma ligadas a outras vertentes, ou são uma divisão delas: “Vale lembrar que dificilmente uma religião surge do nada, de uma revelação nova, ou da mente de um líder criativo que traz uma novidade jamais vista antes”.

A este respeito o sábio Salomão disse: “O que foi é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer, nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós” (Eclesiastes 1: 9-10).

Muitos entendem que somente a sua igreja é a verdadeira e que as outras são todas falsas, algumas estariam no erro por maldade e desejo de perverter a “verdade” enquanto outras não têm ainda o “conhecimento” da “verdade”. Dividir em religião verdadeira e religião falsa ou herética é uma linguagem comum dentro dos grupos religiosos. Neste caso as ações serão ou de proselitismo ou de ataque contundente ao grupo herético.

O termo comumente usado pelas igrejas tradicionais para designar estas outras

igrejas é “seita”, que na definição de Peter Berger (1997, p.44) é: “[

religioso relativamente pequeno, em tensão com a grande sociedade e fechado contra ela, o que exige forte lealdade e solidariedade de seus membros”.

um grupo

]

O termo “seita” não é muito utilizado cientificamente pela sua conotação pejorativa dando-se preferência aos termos: minorias, movimentos, denominações independentes, pseudo-religiosos, entre outros.

39

Considerados grupos minoritários que, pelo seu comportamento, evidencia, um desvio dos padrões ideais do grupo majoritário, eles sofrem discriminação e são tidos em baixa consideração, além de, muitas vezes, serem submetidos ao ridículo, quando não são objeto de ódio e violência (GREEN&TRINDADE, 2005, p.61).

Silas Guerriero (2006, p. 21) afirma: “Todas as religiões estão enraizadas em uma dada sociedade e são expressões das visões de mundo e da maneira de viver de grupos sociais concretos. Nesse sentido, não podemos dizer que existam religiões verdadeiras ou religiões falsas”.

Como construção social o fenômeno religioso é bastante diversificado e caminha de acordo com a sociedade em que está inserido. Na sociedade moderna o extraordinário progresso dos meios de comunicação aponta para uma realidade bem diferente se comparada aos tempos que a precederam. Hoje temos as chamadas “igrejas virtuais” onde o fiel pode ligado no mundo on-line, no conforto da sua casa pode assistir ao culto, fazer a sua oferta, receber a oração, fazer a penitencia, conversar com outros irmãos e receber aconselhamento pastoral.

A Internet com sua força de comunicação e de informação neste mundo globalizado é vista por Silas Guerriero como uma nova forma de missão pelas igrejas, pois as religiões podem ultrapassar fronteiras dentro deste universo virtual. Este quadro tem permitido um maior transito religioso, principal característica da sociedade moderna, fazendo com que: “Ninguém mais passa a sua vida inteira sob a influência ou contato de uma única religião” (GUERRIERO, 2006, p. 23).

Marcelo Natividade, falando sobre homossexualidade masculina e experiência religiosa pentecostal, faz alguns apontamentos que nos ajudam a nortear este universo religioso e a vivência da sexualidade de alguns seus membros. Ele observou que quanto

no discurso dos entrevistados há menor ênfase em uma

identidade denominacional, em relação à identidade evangélica” (HEILBORN, 2005, p.

a experiência de conversão, “[

]

251)

Parece que no meio evangélico contemporâneo este transito religioso tem se tornado algo muito comum. Não existe uma relação de pertencimento em relação a

40

determinada denominação, o que se valoriza é a “autenticidade de uma experiência transformadora”.

Os fiéis das religiões na sociedade moderna são capazes de passar por duas,

três ou mais religiões sem qualquer sentimento de culpa ou qualquer dificuldade seja de ordem teológica ou doutrinária. O “mercado religioso” por sua vez oferece as mais diferentes opções para quem deseja exercer sua fé das mais diferentes maneiras. Peter

os deuses são projeções da mente humana. Os

deuses são símbolos da condição humana”.

Berger (1997, p.153) afirma que “[

]

Há igreja para todos os gostos e para todos os bolsos. Como exemplo deste fenômeno podemos citar: Igreja Bola de Neve conhecida como a igreja dos surfistas, Caverna de Adulão uma igreja para roqueiros, Atletas de Cristo a igreja dos esportistas, e agora Igreja Inclusiva, para a comunidade LGBT.

Nunca a economia política do simbólico havia parecido mais adequada à explicação do fenômeno religioso no Brasil. Os sinais da transformação? A evidente ampliação e diversificação do “mercado dos bens de salvação”. Igreja enfim gerenciadas abertamente como verdadeiras empresas. Os modernos meios de comunicação de massa

postos a serviço da conquista das almas. [

reconhecida aos indivíduos que, um passo adiante, seriam julgados em

Uma maior autonomia

]

condição de escolher livremente sua própria religião, diante de um mercado em expansão (NOVAIS, 1997, p.69).

Uma das marcas destas novas religiões é que elas estão inseridas na sociedade ao invés de se afastarem dela. Não são na sua maioria religiões que apontam para o porvir, suas mensagens tem ligação com o aqui e o agora. A salvação apontada não é para o futuro, mas para o presente. “A própria religião passa a ser um bem de consumo que precisa oferecer algum atrativo a clientes potenciais” (GUERRIERO, 2006, p. 34).

Peter Berger (1986, p. 60) analisando sob uma ótica sociológica comenta: “O índice sem precedentes de mobilidade geográfica e social da sociedade moderna expõe uma pessoa a uma variedade sem precedentes de maneiras de olhar o mundo”. Há de fato uma mobilidade muito grande tanto social como geográfica na sociedade contribuindo para um conseqüente transito religioso.

41

No caso das novas religiosidades manifestadas em pequenos grupos de igrejas com um numero reduzido de fiéis, tal fato causa um certo desinteresse por parte dos estudiosos em analisar tal fenômeno. Acerca desta falta de interesse, Guerriero (2006, p. 24) comenta que: “De certa forma, o pequeno número de praticantes e adeptos dessas novas religiões pode ter contribuído para o fato de muitas vezes as análises, no âmbito dos estudos das religiões no Brasil, terem sido sempre marginais e em escala reduzidas”.

Quanto ao crescimento destes novos movimentos religiosos Guerriero (2006, p.

48) faz uma observação importante: “[

adaptação à sociedade secularizada”. Ao contrário do que afirmam alguns que a secularização colocaria um fim na religião, percebe-se que a secularização criou novas

ser a responsável pela

os NMR são uma forma racionalizada de

]

religiões à sua imagem e semelhança. Por isto, ela pode “[

eclosão da enorme quantidade de novos movimentos religiosos” (GUERRIERO,2006,p.

48).

]

Peter Berger (1997, p. 40) entende que o protestantismo contribuiu diretamente para este processo de secularização, em sua analise ele observa:

Foi o protestantismo que primeiro sofreu o assalto violento da secularização; foi o protestantismo que por primeiro se adaptou a sociedades nas quais várias crenças existiam em igualdade de termos, o pluralismo poderia ser considerado como um fenômeno gêmeo da secularização, e foi na teologia protestante que os desafios cognitivos ao sobrenaturalismo tradicional foram por primeiro enfrentados e combatidos (BERGER, 1997, p. 41).

Este fenômeno da secularização religiosa pode ser entendido de diferentes

separação ocorrida entre a igreja e a sociedade”

declínio geral do compromisso religioso na

maneiras, entre elas: “[

]

(GUERRIERO, 2006, p. 50), ou ainda “[

]

sociedade” (GUERRIERO,2006,p. 50).

O processo de secularização fez com que a igreja perdesse muito da sua força moralizante e a sociedade começou a construir seus valores sob outros referenciais que não os religiosos, muito embora a religião esteja presente como nunca na sociedade moderna.

42

2.2 As Novas Compreensões da Sexualidade Humana

Foi por volta do século XIX, entre os médicos na Europa que surgiu uma preocupação com a sexualidade por estar ela relacionada com a saúde do povo. A sexualidade passou então a ser um problema médico sendo tratada não mais como crime ou pecado e ganhando a classificação de “doença”. Uma mudança radical se estabeleceu na relação da sociedade com a questão dos desvios sexuais que não mais desejava punir, posto que não era mais crime, e sim curar, pois se tratava de enfermidade.

A terminologia “homossexual” foi usada pela primeira vez em 1869, pelo médico húngaro Karoly Maria Benkert. Desta definição médica difere a opinião popular que vê a figura do homossexual apenas naquele que é passivo e muitas vezes o ativo é considerado machão. O desejo sexual por pessoas do mesmo sexo definia o homossexual em termos médicos.

Os estudos de Freud, no início do séc. XX lançaram um pouco de luz nas causas da homossexualidade. Para o pai da psicanálise, três fatores parecem ser determinantes: a forte ligação com a mãe, a fixação na fase narcísica e o complexo de castração.

Freud (2002, p.13) defendia a existência de desvios tanto no objeto sexual,

a ação

para a qual a pulsão impele”. Para Freud, o desejo sexual por pessoas do mesmo sexo está localizado nos desvios sexuais e constituem-se aquilo que ele denomina de “sexo contrário ou inversão”.

“[

]

a pessoa de quem provém a atração sexual [

]”,

como no alvo sexual, “[

]

Assim Freud (2002, p. 23) analisa:

Em todos os casos investigados, constatamos que os futuros invertidos atravessaram nos primeiros anos de sua infância, uma fase muito intensa, embora muito breve, de fixação na mulher (em geral, a mãe), após cuja superação identificou-se com a mulher e tomaram a si mesmos como objeto sexual, ou seja, a partir do narcisismo buscaram homens jovens e parecidos com a sua própria pessoa, a quem eles devem amar tal como a mãe os amou.

43

Freud observa ainda algumas diferenças no comportamento do “invertido” o

seu objeto sexual só pode ser

do mesmo sexo [

]

em certas condições externas, dentre as quais se destacam a inacessibilidade do objeto sexual normal e a imitação, elas podem tomar como objeto sexual uma pessoa do mesmo sexo e encontrar satisfação no ato sexual com ela” (FREUD, 2002, p.14-15).

seu objeto sexual tanto

pode pertencer ao mesmo sexo quanto ao outro [

que ele chama de invertido absoluto ou aquele que, “[

]

]”,

o invertido anfígeno é aquele que “[

]”,

]

e o invertido ocasional, que “[

reproduzir o

moralismo judaico-cristão, usando como ameaça, em vez do inferno, uma vida sem

sentido, seguida de uma velhice solitária ou um caríssimo divã” (FRY&MACRAE, 1985, p.75).

Na opinião de Peter Fry a psicanálise de Freud tentou “[

]

O famoso e ao mesmo tempo polemico Relatório Kinsey trouxe novas abordagens para a interpretação da sexualidade, inclusive dentro da terminologia, novos termos foram criados como: homófilo e homoerótico.

Alfred Kinsey em seus estudos do comportamento sexual elaborou uma tabela que aponta para uma diversidade nas relações entre os sexos: Heterossexual exclusivo; Heterossexual ocasionalmente homossexual; Heterossexual mais do que ocasionalmente homossexual; Igualmente heterossexual e homossexual também chamado de bissexual; Homossexual mais do que ocasionalmente heterossexual; Homossexual ocasionalmente heterossexual; Homossexual exclusivo; Indiferente sexualmente (KINSEY, p. 630-659).

A sexualidade compreendida como uma construção social vai sofrer alterações nas diferentes sociedades e períodos da história. “As formas de expressão do desejo sexual não são inatas, elas são aprendidas pela experiência social e definidas pela cultura” (GREEN;TRINDADE, 2005, p.125).

Os chamados “papéis sexuais” variam de cultura para cultura e de época para época sendo legitimados socialmente.

44

Usando a linguagem do teatro, do qual se derivou o conceito de papel, podemos dizer que a sociedade proporciona o script para todos os personagens. Por conseguinte, tudo quanto os atores têm a fazer é assumir os papéis que lhes foram atribuídos antes de levantar o pano. (BERGER, 1986, p.108).

Robinson Cavalcanti afirma que, “A vivencia da sexualidade não paira nos ares, nem é algo desconectado de um dado fundamental: a cultura” (CAVALCANTI, 1992, p.15). Em todos as culturas é esperado um certo comportamento tanto da parte do homem como da parte da mulher e qualquer desvio neste padrão é reprimido.

Seguindo esta compreensão Marilena Chauí afirma que: “Nenhuma cultura lida com o sexo como um fato natural bruto, mas já o vive e compreende simbolicamente, dando-lhe sentidos, valores, criando normas, interditos e permissões” (CHAUI, 1991, p. 22). Não existe “liberdade absoluta” em nenhuma sociedade, nem mesmo entre os povos primitivos.

Um exemplo disto, é que homossexualidade apesar de ser admitida na Grécia e na Roma Antiga, não era aceita sem nenhum tipo de repressão. Nem todos tipos de relações eram permitidos, aos homens adultos livres eram admitidos na função de ativos enquanto mulheres e escravos deveriam ser somente passivos. O amor entre homens adultos livres era condenado como algo imoral (CHAUI, 1991).

Sempre houve a manifestação de algumas normas para regular a vida dos indivíduos. Estudiosos, entre eles muitos antropólogos, de culturas diversas comprovam

este fato (MEAD, 2006). Assim, como explica Azpitarte, “[ sempre impediram o uso anárquico do sexo”(1991, p.8).

determinadas travas

]

Todavia a cultura é dinâmica, cada povo se organiza de modos peculiares que os distingue dos demais. A sociedade estudada hoje é diferente de todas as anteriores em qualquer tempo ou lugar assim como aquelas são diferentes desta. Não podemos nos esquecer que os gêneros são uma construção social e por isto são passiveis de mudanças. A identidade de gênero é algo que está “continuamente se construindo e se

45

A mudança da sociedade traz novas formas de se viver a sexualidade. Nestas novas formas estão implícitas novas sanções, novas leis, novos modelos. Se as mulheres em um tempo passado estavam presas ao homem em virtude de uma estrutura que as fazia tão somente donas de casa e mães de filhos totalmente dependentes economicamente dos maridos, hoje para as mulheres este quadro é bem diferente.

Robinson Cavalcanti (p.22) numa perspectiva histórica lembra que este quadro sociológico do machismo marcou a sociedade desde os tempos da colonização:

Não cultivando as outras dimensões do ser homem, o brasileiro se

afirmava ao nível animal do apenas macho.[

nítida distinção entre o masculino e o feminino, em termos de cores, modos, atividades, moralidade, costumes, idéias e direitos. Seja o branco rico para continuar a tradição, ou o negro pobre para se afirmar posteriormente; todos livres comportam-se de igual modo. São todos

Mas aqui temos a

].

"conquistadores", "caçadores de fêmeas". O protótipo do relacionamento sexual do Brasil – o homem como sujeito e a mulher como objeto – tem raízes profundas e antigas, difíceis de alterar.

Com o advento do movimento feminista as mulheres se libertaram e hoje estão em condições de igualdade com os homens numa analise social e econômica. “A medida que as mulheres cada vez mais dão o passo para fora, contribuem para processos de emancipação” (GIDDENS, p.199).

Na sua pesquisa da vida intima de três povos primitivos, Margaret Mead coloca em questão os conceitos de masculinidade e feminilidade das sociedades modernas.

o ideal Arapesh é o homem dócil e suscetível; o ideal

Mundugumor é o homem violento e agressivo, casado com uma mulher também violenta e agressiva. Na terceira tribo, os Tchambuli, deparamos verdadeira inversão das atitudes sexuais de nossa própria cultura, sendo a mulher o parceiro dirigente, dominador, e impessoal, e o homem a pessoa menos responsável e emocionalmente dependente (MEAD, 2006, p. 268).

] [

Esta pesquisa vai se concentrar mais especificamente na sexualidade do homossexual que vem sendo o alvo dos debates no momento atual. O termo homossexual é usado nesta pesquisa para se referir tanto a homossexualidade masculina como a feminina. Percebe-se que os diferentes conceitos acerca da homossexualidade nos levam uma infinidade de caminhos pelos quais a sociedade vem definindo esta área da sexualidade humana durante a história.

46

Na visão de Peter Fry e Edward MacRae a homossexualidade é uma questão cultural e política, eles sugerem que devemos partir do:

pressuposto de que não há nenhuma verdade absoluta sobre o que

é a homossexualidade e que as idéias e práticas a ela associadas são produzidas historicamente no interior de sociedades concretas e que são intimamente relacionadas com o todo destas sociedades (FRY&MACRAE, 1985,p.10).

] [

A imagem do homossexual que foi construída na história é representada de diferentes maneiras dependendo do tempo em que foi elaborada, por exemplo, o homossexual com jeitos femininos de tempos passados não pode ser comparado com o homossexual de forma viril dos tempos modernos. Tal análise acaba por revelar mais das pessoas que construíram estas imagens do que propriamente da sexualidade em si.

De fato, nenhuma das teorias existentes sobre as causas da

homossexualidade nos convence [

teorias dizem muito mais sobre pessoas que as articulam, dos contextos sociais onde são produzidas do que sobre a homossexualidade em si (FRY&MACRAE, 1985,p.16).

Desta ótica relativizante, estas

]

Partir do pressuposto que a homossexualidade é alguma coisa poderia ser suficiente se limitássemos nosso campo de conhecimento a uma cultura especifica ou a um país determinado ou a um período histórico isolado. Do contrário, concluiríamos que a homossexualidade pode ter uma definição em determinado país, ou cultura, ou período histórico, e outra definição em outro país, em outra cultura, e em outro período histórico.Peter Fry acrescenta: “Desejos homossexuais são socialmente produzidos como também são produzidos desejos heterossexuais” (FRY&MACRAE, 1985, p.16).

Definir a homossexualidade é algo complexo na medida em que cada sujeito vive a sua homossexualidade. O homossexualismo é definido como o comportamento que se caracteriza por relações afetivo e sexual entre pessoas do mesmo sexo. A palavra vem do grego homos que significa o mesmo, ou do mesmo. O homossexualismo feminino é chamado de lesbianismo, designação que tem origem no termo grego Lesbos. Nesta ilha grega a poetisa Safo escreveu poesias homossexuais dando origem então aos termos safismo e lesbianismo.

47

Muito embora o termo homossexual denote tanto a sexualidade masculina como a feminina, o uso distinto dos termos homossexual e lésbica tem a ver com a compreensão difundida que homossexual é aquele que faz sexo com homens. Daí a necessidade de usar o termo lésbica para fazer clara distinção entre os dois grupos.

Talvez por temerem este tipo de interpretação reducionista, mas principalmente pela necessidade crescente, sentida pelas mulheres, de afirmarem uma identidade homossexual feminina, singular quando comparada à identidade gay, as ativistas do movimento homossexual vem reivindicando a autodenominação “lésbicas”, quando da publicização e da busca de legitimidade social para suas vivencias afetivo-sexuais (MELLO, 2005, p. 194-195).

Azpitarte (1991, p. 70) disse que: “O que caracteriza o homófilo não é tanto o exercício de uma relação, mas muito mais a tendência para as pessoas do próprio sexo, com idêntico sabor e significado da satisfação que se obtém na relação heterossexual”. Homossexual, portanto não é aquele sujeito que teve relações sexuais com outra pessoa do mesmo sexo: homem com homem ou mulher com mulher. A prática ou a ausência dela não classifica alguém como heterossexual ou homossexual.

A sociedade sempre teve maior cumplicidade com a homossexualidade

feminina do que com a homossexualidade masculina. Atualmente este quadro não

favorecido pela cultura que admite mulheres

vivendo juntas e se expressem carinhosamente como algo normal, e pelo menor preconceito ao relacionamento genital que não implique penetração” (CAVALCANTI,

mudou: “O lesbianismo crescente [

]

1992, p.34).

Percebe-se que entre as mulheres existe uma melhor aceitação da homossexualidade, fato este que pode ser explicado pela consciência feminina ser diferente da masculina. Isto pode ser explicado em partes do ponto de vista masculino. Se a relação entre duas mulheres é fantasiosa para o homem a relação entre dois homens é absolutamente negada. Neste sentido a homossexualidade é como uma sombra a rondar o ser masculino. Para o homem a definição de masculinidade é exatamente o oposto de feminilidade. Ser homem é não ser mulher.

48

A masculinidade e a feminilidade são construções sociais, desta forma, elas

estão em constante mutação. Mais a despeito disto persiste os tabus e os mitos da

sexualidade, que podem ser exemplificados de forma simples, como a resistência ao homem em fazer o exame de próstata.

A razão porque muitos homens não fazem o exame é porque ele tem toque no

ânus, o que para muitos é como se fosse deixar ser penetrado. O exame toca no tabu, pois para realizar o procedimento o médico precisa colocar o dedo no ânus do paciente. Preferem correr o risco do câncer e conseqüentemente da morte a passar pela fobia da passividade. Alguns têm medo até de perder a virilidade, ou seja, de deixar de ser homem.

Da mesma forma como se adquire papéis raciais e com eles se identifica, há também papéis sexuais. Dizer “Sou homem” constitui uma proclamação de papel, tanto quanto dizer “Sou coronel do Exército dos Estados Unidos”. Estamos bem cientes de fato de que uma pessoa nasce com o sexo masculino, ao passo que nem mesmo o militar mais rigoroso e desprovido de humor imagina que haja nascido com uma águia dourada pousada em seu umbigo. Entretanto, o fato de se nascer macho, do ponto de vista biológico tem muito pouco que ver com o papel especifico, definido socialmente (e, naturalmente, socialmente relativo), que motiva a declaração “Sou homem”. Uma criança do sexo masculino tem de aprender a ser agressivo, a ter ambições, a competir com outras pessoas, a desconfiar de uma atitude demasiado gentil de sua parte. O papel masculino em nossa sociedade, entretanto, exige todas estas coisas que se tem de aprender, como exige também uma identidade masculina. Ser capaz de ereção não basta, se bastasse, regimentos inteiros de psicoterapeutas estariam sem trabalho (BERGER, 1986, p. 112).

Para Peter Berger (1997, p.119), este processo faz parte da constante descoberta e redescoberta da verdade pelo homem. Ele afirma: “Acho que os pontos de vista contemporâneos sobre a igualdade dos sexos (incluindo o ´terceiro sexo` das assim chamadas ´minorias eróticas`) e das raças, ou sobre a ´impossibilidade` da pena de morte, são verdadeiramente novas descobertas de verdades sobre o homem”. Berger (1986, p.60) afirma também que: “Viver na sociedade moderna significa viver no centro de um caleidoscópio de papéis em constante mutação”.

49

2.3 Relação entre o Movimento Inclusivo e Movimento LGBT

Alguns fatos foram marcantes dentro da história do movimento de luta pelos direitos dos homossexuais e do movimento gay cristão ou movimento inclusivo. Em alguns momentos não é possível separar os dois movimentos, pois eles estão interligados historicamente, e politicamente. Nos dias de hoje é comum participantes de Grupos LGBT estarem envolvidos na causa da religião inclusiva e da mesma forma estes que estão lutando pela religião inclusiva envolvidos com o movimento LGBT.

Neste aspecto os dois movimentos têm muitas coisas em comum e precisam ser conhecidos para uma melhor análise. “Quanto mais você sabe sobre um grupo - o que experimentou, onde esteve, que eventos moldaram suas convicções- mais eficazmente você pode responder a ele” (DALLAS, 1998,p.66).

Antônio Moser (2001,p. 31) comenta:

desde os anos sessenta, vem-se falando de uma “revolução” no

campo da sexualidade humana [

etapas da revolução sexual. A primeira seria dos artistas (de 1870- 1914), com o destaque de André Gide e Oscar Wilde. A segunda etapa pode ser denominada de revolução da “elite intelectual” (de 1918- 1940). A terceira etapa seria a da revolução “das Massas”, iniciada nos anos cinqüenta.

A rigor dever-se-ia falar de três

] [

]

Para Dallas existe um movimento “gay cristão” que atua juntamente com o movimento gay que luta pelos direitos homossexuais. Não é o caso que estes dois movimentos atuem necessariamente juntos, ou que tenham as mesmas convicções e sim que existem muitos temas que são comuns a ambos. Mas estes dois movimentos têm as suas diferenças pelos seus objetivos e pela maneira como articulam esta luta.

O dicionário diz que um movimento é “uma tendência, uma

inclinação, ou uma série de atividades organizadas com um objetivo

em vista”. O Movimento Gay Cristão se enquadra em todas as três

qualificações do dicionário: ele representa uma tendência entre

cristãos com tentações homossexuais, no sentido de ceder a essa tentação e depois tentar justificá-la (DALLAS, 1998, p. 21).

50

Pensar nesta questão nos remete aos Estados Unidos, pois parece que a grande influência que recebemos vem exatamente de lá. Dallas (1998, p.11-31) comenta que em se tratando de americanos, a realidade já está estabelecida desde a muito tempo. Por exemplo: a Igreja Episcopal tem alguns bispos progressistas que ordenam abertamente pastores homossexuais; enquanto isto o debate se estende entre as igrejas presbiterianas e metodistas. Para ele isto se deve ao fato do liberalismo teológico presente entre os cristãos americanos:

Não é de admirar que o Movimento Gay Cristão tenha feito tanto progresso, diante da fraqueza e insegurança moral visível em muitas organizações cristãs.Em contraste, muitas igrejas evangélicas, fundamentalistas e carismáticas, permanecem intocáveis pelos debates que devastam suas parceiras mais liberais. (DALLAS, 1998, p. 26).

Em 1950, a Sociedade Mattachine, para homossexuais e as Filhas de Bilitis para lésbicas marcam o inicio do movimento nos Estados Unidos. Em 1955, o teólogo anglicano Derrick S. Bailey publica o primeiro livro trazendo uma interpretação acerca da passagem de Gênesis 19, que se posiciona contra a interpretação de condenação bíblica da homossexualidade, intitulado Homossexuality and western Christian tradition. “Nesse livro Bailey afirmava que a destruição de Sodoma em Gênesis 19 não teve por causa as práticas homossexuais, mas a falta de hospitalidade” (DALLAS, 1998,

p.68-69).

A Comissão Literária do Serviço Lar dos Amigos na Inglaterra publicou em

1963 um panfleto que foi marco do movimento gay cristão, com mensagens favoráveis

às relações sexuais antes do casamento, o adultério e a homossexualidade. De 1950 a

1965 o que se destacou na luta foi a busca de uma definição e compreensão acerca da

homossexualidade levando-se em conta o que até aquele momento era sustentado a este respeito.

Um grupo de ativistas homossexuais fez demonstrações públicas em 1968, uma na convenção da Associação Médica Americana, em São Francisco, e outra na Escola de Médicos e Cirurgiões da Universidade de Colúmbia, onde se realizava um congresso sobre homossexualidade. Este fato trouxe não apenas mais visibilidade como mais força

51

aumentando o sentimento comum dos participantes em relação a si próprios e suas lutas em defesa da homossexualidade.

Em 6 de outubro de 1968 o Reverendo Troy Perry, ex-pastor pentecostal, funda a primeira denominação evangélica gay, com o nome de Universal Fellowship of Metropolitan Community Churches (UFMMC). A história de Perry revela experiências difíceis na infância especialmente com seu padrasto até a seu pastorado na Igreja de Deus de onde foi expulso pelo seu envolvimento homossexual que o levou a separa-se da sua esposa.

O Reverendo Troy Perry, de 28 anos, iniciou a igreja com um grupo de 12 pessoas que responderam a um convite colocado em um jornal de orientação homossexual. Sua indignação diante da prisão de um amigo por freqüentar um bar homossexual foi o início de seu chamado para fundar uma igreja voltada para este grupo.

Assim o movimento se desenvolve primeiramente buscando por uma auto- identidade livre dos pressupostos médicos que até então colocavam a homossexualidade como doença, depois por justiça e igualdade tirando assim os homossexuais da marginalidade e por ultimo buscando a aprovação de Deus dentro de uma teologia que afirma o amor de Deus por todos independentemente de sua orientação sexual.

No dia 28 de junho de 1969 aconteceu em Greenwich Village, um bairro de Nova York, um fato que marca de vez o movimento. Em um bar chamado Stonewall Inn policiais entram a paisana expulsando os freqüentadores e prendendo o gerente, três fregueses travestis e um porteiro. Estes lugares de reunião eram comuns e se transformavam em verdadeiros guetos para se proteger da homofobia.

Fora do bar uma multidão se forma e começou a atacar os policiais que ficaram presos dentro do bar a espera de reforço policial. Neste dia houve uma reação contra a ação policial que se estendeu para as ruas e foi marcadamente um momento de revolta contra as freqüentes humilhações e agressões que os freqüentadores destes bares eram submetidos.

52

Foi essa a primeira manifestação/ revolta de massa realizada por homossexuais de que se tem noticia na história, e a partir dos anos

seguintes, todo dia 28 de junho, primeiro em Nova York depois nas principais cidades do mundo, os homossexuais passaram a celebrar com manifestações de rua e diferentes atividades culturais e políticas,

o Gay Pride, ou o Dia Internacional do Orgulho Gay, hoje rebatizado como Dia do Orgulho de Gays, Lésbicas, Transgêneros e Bissexuais.(BITTENCOURT, 2007, p. 151).

A este tumulto seguiram-se outros que colocaram, policiais e manifestantes em conflito, e mesmo as ruas de Greenwich Village foi palco de uma marcha de manifestantes que gritavam slogans em defesa da homossexualidade e da legalização dos bares homossexuais.

Explicando as razões por trás de tais acontecimentos Dallas (1998, p.77) comenta:

Uma explicação melhor precisa considerar algumas das forças sociais

que estavam em movimento no fim da década de 60. [

oposta à autoridade de modo quase selvagem; o governo era o temido “sistema”, não se devia confiar em adultos com mais de 30 anos, os diretores das universidades eram desafiados em público, e o policiais eram chamados de “porcos”. Tudo que era tradicional estava sujeito à duvida; era uma honra desafiar a norma. Neste contexto tanto Stonewall como o novo tom agressivo que deu ao movimento dos direitos dos homossexuais fazem sentido perfeito.

] A época era

A partir deste acontecimento começam a se formar vários grupos que serão denominados de “Gay Power”. Neste momento a luta não tem como ênfase a conduta homossexual e sim a identidade homossexual. Visto não mais como uma condição a construção de uma identidade homossexual modela a partir de então o movimento. Para Dallas (1998, p.78-79) todo este processo teve como objetivo final três propostas:

1)Encorajar todos os homossexuais a sair do quarto e declarar sua sexualidade como parte da sua identidade; 2) Formar e fortalecer alianças com grupos e indivíduos que são simpáticos à causa homossexual; 3)Enfrentar as pessoas ou instituições que se opuserem

à causa homossexual.

53

A idéia de “sair do armário” está ligada com o assumir a sua sexualidade sem medos. Uma manifestação pública acontece em 1970 na cidade de Nova York na lembrança de um ano dos acontecimentos de Stonewall. “Para fora dos quartos! Para as ruas! Eles gritavam em coro, dando inicio a uma tradição anual de celebrar Stonewall que dura até hoje” (DALLAS, 1998, p. 79).

A associação a Metropolitan Community Church veio no momento em que esta libertação acontece e que muitos em busca de viver a sua fé sem deixar a homossexualidade tornam-se adeptos da nova igreja. Literaturas cristãs começam a ser produzidas, entre elas a autobiografia do Reverendo Troy Perry escrita em 1972. O Reverendo Troy Perry ganha espaço tanto no meio evangélico como no político, chegando a fazer campanha dos homossexuais para Jimmy Carter (Dallas, 1998, p.81).

Várias denominações passaram a aceitar e se envolver com a causa homossexual com o decorrer dos anos. Dallas (1998, p. 82) cita que em 1971 foi ordenado o primeiro pastor homossexual na Igreja de Cristo Unida, e em 1977 a Igreja Episcopal de Nova York ordenou a primeira pastora lésbica. Luteranos, Metodistas

onde

Adventistas do sétimo Dia entre outros, formaram redes de homossexuais, “[ atuavam com ou sem autorização oficial” (DALLAS, 1998, p.82).

]

Em 1973 a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da sua lista de disfunções. Não mais considerada doença o próximo passo foi lutar contra a descriminalização da sodomia, proteção aos direitos civis e mudança no ensino das escolas quanto a homossexualidade.

No ano de 1977 na Flórida aprova-se uma lei na câmara dos vereadores que proibia a discriminação com base na orientação sexual das pessoas, lei que fomenta debates intensos estendidos por todo o País, alguns deles considerados por Dallas (1998, p.85) como irresponsáveis por parte de alguns pastores que associavam a homossexualidade a pedofilia. Esta lei seria rejeitada seis meses depois devido a vários debates que a mesma suscitou na sociedade americana, em especial entre os evangélicos.

54

A respeito destes debates no campo político Dallas ressalta a participação das igrejas tradicionais e daquelas que lutavam pelos homossexuais e a maneira como a presença de gays cristãos colaborou neste processo já que eles utilizavam a bíblia para defender seus posicionamentos enquanto os conservadores utilizavam a mesma bíblia para condenar.

Para os cristãos versados na Bíblia, os argumentos religiosos favoráveis ao homossexualismo eram fáceis de ser desmascarados. Para o público em geral, porém, dos quais muitos estariam votando em leis sobre os direitos dos homossexuais confundiu a questão. Afinal de contas, se os dois lados afirmam ser cristãos que faziam a vontade de Deus, baseados na Bíblia, como o cidadão comum poderia saber quem estava com a razão? (DALLAS, 1998, p. 86).

Em setembro de 1981 John Boswell, por muitos anos professor de História na Universidade de Yale, publica o livro Christianity, Social Tolerance and Homosexuality (Cristianismo, tolerância social e homossexualismo). Neste livro, John Boswell (1981), defende duas teses que serão dogmatizadas pelos escritores subseqüentes: “1) a Igreja não desaprovou sempre o homossexualismo; 2) os versículos bíblicos que alegadamente condenam o relacionamento homossexual na verdade não se referem ao homossexualismo, mas a várias outras formas de imoralidade” (DALLAS, 1998, p.94).

A publicação do livro “Ex-gays? There ane none!” (Ex gays? Não há nenhum!) em 1989 de autoria da pastora Sylvia Pennington, trouxe grande repercussão na discussão que estava envolvendo o movimento gay e o Grupo Exodus Internacional, criado com a finalidade de ajudar as pessoas a vencer a homossexualidade. Fato importante também foi a revelação da homossexualidade do pastor Mel White, cristão conservador conhecido por escrever discursos de pessoas de destaque como Billy Graham.

Com a chegada do movimento inclusivo no Brasil e a abertura de varias igrejas com um discurso totalmente revolucionário em relação a sexualidade, a questão entra na pauta de uma maneira nunca vista anteriormente. Nos dias de hoje este tema está na pauta e desafia todos os setores a um diálogo, “Colocar lado a lado posições às vezes bastante antagônicas desafia a capacidade de diálogo” (GIUMBELLI, 2005, p.13).

55

Foi o pastor Nehemias Marien quem, em 1998, ordenou Victor Ricardo Soto Orellana, o primeiro pastor homossexual, numa cerimônia realizada no Centro de Estudos Homoeróticos da Universidade de São Paulo (USP). Marien que começou seu ministério na Igreja Presbiteriana foi expulso dela depois de passar pela disciplina da igreja em cinco tribunais eclesiasticos. Ele já fazia naquele tempo casamentos entre homossexuais fato que gerou grande polemica.

Alguns entendem que o momento presente se caracteriza pela busca de

] envolve

um trabalho de reflexão ou de reinterpretação das bases e dos pressupostos de tradições

vivencia de uma nova concepção da sexualidade dentro da religião, o que “[

e instituições religiosas” (GIUMBELLI, 2005, p.12).

Este movimento como todos os outros, não está livre de diferentes interpretações e de ser alvo dos estereótipos construídos pela sociedade. O termo

é um conceito muito próximo do preconceito e pode ser definido como

uma tendência à padronização com a eliminação das qualidades individuais e das diferenças com a ausência total do espírito crítico nas opiniões sustentadas” (CRUZ, 2003, p.41).

estereótipo “[

]

Assim as igrejas inclusivas passam a ser chamadas de igrejas de gays ou de lésbicas o que poderia dar a impressão de um exclusivismo dentro do movimento. Na conceituação das próprias igrejas não poderia haver inclusão se houvesse qualquer tipo de exclusão. Assim o discurso é que a igreja é para todos independentemente da sua orientação sexual.

Para as igrejas inclusivas o fato de não se aceitar as várias formas de amar se constitui em preconceito e exclusão. Estas igrejas integram um movimento que não vê as práticas LGBT, ou não-heterossexuais apenas, como uma imoralidade, ou como resultado de uma ação demoníaca, uma esquizofrenia ou uma doença a ser tratada. A heterossexualidade também não é combatida por estas igrejas, o que elas defendem é que outras orientações sexuais sejam aceitas da mesma forma que a orientação heterossexual.

56

Este raciocínio leva em consideração que as diferentes orientações sexuais como a homossexualidade masculina e feminina é algo inato que não pode ser mudado pela vontade da pessoa.

Assim, Azpitarte (1991, p.78) complementa: “Ninguém é bom nem mau por experimentar tendências e sentimentos que não pode afastar de si e que, inclusive, experimenta como um destino imposto à margem de sua vontade, algo assim como faz que nasçamos homem ou mulher”.

Durante o processo de elaboração e da defesa da inclusão da não discriminação da homossexualidade na Constituição, os militantes envolvidos, consultando acadêmicos e profissionais de várias áreas, chegaram a um consenso pela utilização da expressão “orientação sexual” (FACCHINI, 2005, p. 117).

Regina Facchini (2005) relaciona o surgimento do movimento homossexual no Brasil com a fundação do Grupo SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), em São Paulo, em 1978. O ano de 1978 marca também o inicio de alguns movimentos:

Movimento Negro, movimento Feminista e os primeiros grupos do movimento homossexual.

Para Luiz Mott um dos pioneiros das lutas pelos direitos LGBT foi o alemão Karl Heinrich Ulrichs (1825-1895), criador também do termo “uranismo”. Outro nome importante é do austro-húngaro Karoly Maria Benkert criador do termo homossexual em 1869. No Brasil o advogado João Antonio Mascarenhas é o pioneiro e articulador do movimento homossexual brasileiro (BITTENCOURT, 2007).

Na sua pesquisa sobre o movimento homossexual no contexto da segunda metade dos anos 1990, Regina Facchini (2005, p.25) ao falar sobre o desenvolvimento histórico das Organizações não Governamentais ela mostra como foram ocorrendo

o deslocamento da categoria ´povo` para a categoria

mudanças nos termos: “[

´cidadão` no imaginário político nacional e da ênfase na ´igualdade` para a ênfase no ´direito a diferença` nas lutas e reivindicações dos atores da chamada ´sociedade civil`”.

]

Dentro do movimento homossexual brasileiro destacou-se em 1978 a criação do jornal “O Lampião”, editado no Rio de Janeiro por jornalistas, intelectuais e artistas

57

homossexuais. Embora não houvesse no Código Penal Brasileiro pena para a pratica da homossexualidade, em 1979 instaurou-se um processo contra o Jornal sob a acusação de infração contra a moral e os bons costumes.

Apesar de estas ações policiais e judiciárias serem arquivadas, depois de complicadíssimos tramites legais, o fato é que tanto aquele jornalista quanto os editores do Lampião passaram meses de intimidação e humilhação. Estes últimos foram salvos em parte pelo apoio do Sindicato dos Jornalistas, cujos advogados os defenderam. Seguramente era um sinal de que a homossexualidade deixava de ser objeto apenas de escárnio, começando a ser reconhecida a legitimidade de suas reivindicações (FRY&MACRAE, 1985,p.22).

Alguns fatos vão se destacando no inicio do movimento. Logo após o surgimento do Jornal O Lampião foi sendo formado um grupo de homossexuais de diferentes áreas da sociedade que se reunia regularmente em São Paulo e fizeram a primeira manifestação publica através de carta aberta ao sindicato dos jornalistas. Era uma forma de protesto contra a maneira que a imprensa tratava a homossexualidade.

Com a criação do Grupo SOMOS ocorreu o surgimento de vários outros grupos em São Paulo e pelo Brasil. “Na Semana Santa de 1980, todos estes grupos se encontraram em São Paulo para trocar idéias sobre a identidade homossexual, a relação entre o movimento homossexual e os partidos políticos e formas de atuação e organização” (FRY&MACRAE, 1985,p.23)

Esta busca de uma “identidade” vem de encontro com a análise de Peter Berger: “Em termos sucintos, todo ato de ligação social resulta numa escolha de identidade. Inversamente, toda identidade exige ligações sociais especificas para sua sobrevivência” (BERGER, 1986, p. 115).

É digno de nota que desde o começo o movimento tem preocupações de

defender a igualdade nas relações. O Movimento era contra o machismo nas relações

homossexuais, assim como: “[

bofe/ bicha, fanchona / lady” (FRY&MACRAE, 1985,p.24).

a dicotomia ativo / passivo, dominante/ dominado,

]

58

Uma das questões levantadas por Fry é se houve ou não crescimento da homossexualidade nestes últimos anos. “Não há evidencia nenhuma de que a homossexualidade aumentou. O que aconteceu, isto sim, é que com a gradual redução do estigma social, ela se esconde menos e se assume mais” (FRY&MACRAE,

1985,p.32).

No caso do delegado José Wilson Richetti que na década de 80 resolveu promover constantes batidas nos lugares freqüentados por prostitutas, travestis, michês, lésbicas e gays em geral, com o objetivo de limpar a cidade dos maus elementos. Houve na época uma manifestação de quase mil pessoas protestando contra a prisão de travestis e prostitutas.

Esta manifestação aconteceu no dia 13 de junho de 1980, em frente ao Teatro Municipal, a que se somaram integrantes do movimento negro e feminista. Em seguida, os participantes saíram em passeata pelas ruas de São Paulo, naquela que ficou conhecida como a primeira manifestação pública do movimento homossexual no Brasil.

Porém o movimento teve uma redução considerável nos grupos na década de 1980, devido ao surgimento da AIDS denominada “peste gay” pelos opositores, e

também pelo encerramento das atividades do Lampião, fato que Regina Facchini (2005,

o fim do Lampião, que encerrou suas atividades em junho de

p.103) comenta: “[

1981, deixou os grupos órfãos do meio de comunicação pelo qual faziam circularem as suas idéias e divulgar suas atividades por todo o país, dentro e fora do movimento”.

]

Mas o movimento reencontra forças na década de 90 e os encontros nacionais nos dão mostra deste crescimento e fortalecimento. Em 1980 acontece o I Encontro Brasileiro de Homossexuais em São Paulo contando com a presença de 8 grupos, depois aconteceram outros encontros respectivamente em Salvador/Ba, Rio de Janeiro/RJ, Aracaju/SE, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Cajamar/SP, Curitiba/PR e São Paulo/SP.

Foi em 1993 no VII EBLHO que os encontros passaram a ser denominados Encontro Brasileiro de Lésbicas e Homossexuais, e no ano de 1994 Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas. No ano de 1995 foi criada a Associação Brasileira de Gays,

59

Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT. Em 1997 aconteceu mais um Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis.

Ainda em 1997 acontece a 1º Parada GLBT (Gay, Lésbica, Bissexual e Transgênero) e reúne 2.000 pessoas em São Paulo. Em 1998 nas comemorações do Dia Internacional do Orgulho Gay, superando em mais do que o dobro as expectativas dos organizadores, compareceram por volta de 7000 participantes, que fizeram a até então maior parada gay do Brasil. Após quatro anos realizou-se o X EBGLT.

Desde 1980 são registrados manifestações de ruas e com a fundação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, e Transgêneros proporcionou a Primeira Parada Gay no estilo Internacional realizada em Curitiba. Segui-se em 1996 a primeira parada do Rio de Janeiro e em 1997 a primeira parada de São Paulo.

O Conselho Federal de Psicologia criou uma resolução fazendo com que a homossexualidade fosse tratada a partir de 1999 com outras perspectivas - CFP n° 001/99: "A homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão". O propósito de tal decisão é afirmar que a sexualidade faz parte da identidade do sujeito e que a orientação sexual não é algo que pode ser mudado.

Reconhecendo o valor de tal decisão a ABGLT se manifestou em junho de 2009, agradecendo ao Conselho Regional de Psicologia de São Paulo 1 pelos 10 anos da publicação da resolução 001/99 que proíbe a tratar a homossexualidade como doença.

Manifestando o seu engajamento na causa LGBT, o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP) levará à Avenida Paulista, pela primeira vez, um trio elétrico para integrar a 13ª Parada do Orgulho GLBT que acontece dia 14 de Junho de 2009. O carro do CRP SP deverá ter cerca de 80 integrantes, entre membros do Conselho, e do Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo 2 .

1 Disponível em < http://www.pol.org.br/pol/cms/pol/noticias/noticia_090320_003.html> Acessado em

10 de junho de 2009.

2 Disponível em <http://www.pol.org.br/pol/cms/pol/noticias/noticia_090610_002.html > Acessado em

60

Algumas datas importantes para o Movimento LGBT são 3 :

O Dia do Orgulho LGBT que é comemorado dia 28 de junho, em lembrança

ao dia 28 de junho de 1969 quando aconteceu em Greenwich Village, um bairro de

Nova York, o fato que marcou o inicio do movimento.

O Dia da Visibilidade das Travestis que é comemorado no dia 29 de janeiro.

A data foi escolhida porque nela houve o lançamento oficial da campanha Travesti e

Respeito, promovida pelo Programa Nacional de DST /Aids do Ministério da Saúde em

2004.

O Dia Internacional de Combate à Homofobia comemorado dia 17 de Maio,

e tem como característica protesto e denuncia contra todo e qualquer ato de homofobia.

O Dia da Visibilidade Lésbica comemorado no dia 29 de agosto. Esta data

foi escolhida quando da realização do I Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), em 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro. A comemoração da data se tornou efetiva a partir do ano de 2003, e desde então o número de atividades em comemoração ao Dia da Visibilidade Lésbica vem aumentando gradativamente, espelhando o crescimento no número de grupos voltados especificamente para as questões das mulheres lésbicas e bissexuais.

3 Estas informações foram extraídas do site da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Disponível em <http://www.abglt.org.br> Acessado em 25 de maio de 2009.

61

3

O

DEBATE

SEXUALIDADE

POLÍTICO

NA

RELAÇÃO

RELIGIÃO

E

3.1

O Projeto de Lei 1151/95- União civil entre pessoas do mesmo sexo

Relacionada a religião a sexualidade traz contornos complexos, pois sendo algo universal envolve aspectos históricos, individuais, sociais, psíquicos, políticos e culturais. Para Foucault a sociedade moderna é caracterizada pela repressão sexual. Para ele a partir do século XVII origina-se a Idade da Repressão ficando a sexualidade restrita a família na função especifica da reprodução.

Se no período anterior a este podia verificar-se uma abertura para o diálogo e as expressões da sexualidade, a sociedade moderna influenciada por um puritanismo

conservador “[

mutismo” (FOUCAULT, 1988, p.10).

teria imposto seu tríplice decreto de interdição, inexistência e

]

Seguindo nesta análise acerca da repressão sexual defendida por Foucault, o

possui como que um ar de

simples fato de falar sobre sexo e de sua repressão “[ transgressão deliberada” (1988, p.12).

]

62

Se por um lado falar sobre sexualidade foi no passado desafiar a ordem estabelecida, nota-se por outro lado que a hipótese repressiva não silenciou o discurso

acerca da sexualidade, ao contrário, nestes últimos séculos “[

propósito do sexo uma verdadeira explosão discursiva” (1988, p. 21).

houve em torno e a

]

Segundo Foucault (1988, p.28) o controle da sexualidade se fez necessário por

razões políticas e econômicas dentro da lógica que afirma, “[

povoado se quisesse ser rico e poderoso”. A sexualidade esteve sempre debaixo de regras e leis: “Até o final do século XVIII, três grandes códigos explícitos -além das regularidades devidas aos costumes e das pressões de opinião - regiam as práticas

sexuais: o direito canônico, a pastoral cristã, e a lei civil” (FOUCAULT, 1988, p.38).

que um país devia ser

]

As sanções legais desempenham aquilo que Durkheim (1983, p.88) chamou de papel coercitivo dentro de determinada sociedade. Para ele: “A consciência pública reprime todos os atos que as ofendam, através da vigilância que exerce sobre a conduta dos cidadãos e das penas especiais de que dispõem”.

A história marcou diferentes momentos na construção da moral e das leis relativas a sexualidade humana. Como exemplo, podemos citar que: “Durante muito tempo os hermafroditas foram considerados criminosos, ou filhos do crime, já que sua condição anatômica, seu próprio ser, embaraçava a lei que distinguia os sexos e prescrevia sua conjunção” (FOUCAULT, 1988, p.39).

A mudança na legislação de um país contribui de forma decisiva para que uma mentalidade nova seja implantada. A verdade é que a mudança das leis corresponde a uma mudança anterior na mentalidade de determinada sociedade. No âmago das leis encontramos toda uma série de filosofias que em determinados momentos da história regem o pensamento humano.

Nas leis elaboradas durante a Idade Média, prevalecia a influência da igreja católica, influência esta que prevaleceu até bem pouco tempo no Brasil. Luiz Mello (2005, p.37) lembra que foi através de um longo processo de luta, principalmente contra a resistência da Igreja Católica, que foi sancionada em 1977 a lei nº 6515 / 77 que trata da questão da dissolução do casamento.

63

Até este momento o casamento tinha caráter indissolúvel, pela influência da igreja católica e dos seus dogmas, porém com o Estado Laico, o casamento perdeu seu caráter confessional, e novos modelos de famílias passam a surgir no cenário brasileiro.

Se a maternidade e a paternidade dissociadas da conjugalidade estão a expressar um afastamento do modelo dominante de família no Brasil, a legalização do divórcio, a partir de 1977, também significou uma ruptura profunda no âmbito das representações e práticas sociais relativas a família, colocando por terra um dos pilares do ideário familista moderno- a indissolubilidade do casamento- e contribuindo para legitimar o agrupamento familiar constituído apenas por um dos pais e seus filhos (MELLO, 2005, p.37).

Com a implantação da visão laica no Brasil as leis foram pouco a pouco sendo alteradas. Esta nova mentalidade tem gerado discussões diversas e muitas vezes entram em conflito com as tradições religiosas que muitas vezes não reconhecem tais legislações por serem contrárias aos seus ensinos e dogmas.

Assim temos em muitos países as discussões geradas por grupos minoritários, como o movimento LGBT, e suas lutas pela aprovação da união civil, adoção de crianças, e leis contra preconceito e homofobia, encontrando uma grande resistência por parte das igrejas.

As leis ao mesmo tempo em que revelam uma mudança nas ideologias de um povo, acabam por moldar este povo de acordo com estas ideologias.

Quando os sentimentos e as atitudes de tal grupo em posição desvantajosa se tornam articulados, quando os membros se tornam cônscios de suas privações e se concebem como indivíduos tendo direitos, e quando eles clamam por emancipação e igualdade, a minoria se torna uma força política que demanda atenção. (GREEN&TRINDADE, 2005, p.58).

O Projeto de Lei nº 1151/95 se constitui em um marco importante na luta pelos direitos da conjugalidade homossexual. O projeto traz a seguinte redação no seu Art. 1º- “É assegurado a duas pessoas do mesmo sexo o reconhecimento de sua união civil, visando a proteção dos direitos à propriedade, à sucessão e dos demais assegurados nesta Lei”.

64

Basicamente o projeto, nos seus 18 artigos, propõe o direito à herança, sucessão, benefícios previdenciários, seguro saúde conjunto, declaração conjunta do imposto de renda e o direito à nacionalidade no caso de estrangeiros.

A lei proposta em defesa da união civil entre pessoas do mesmo sexo, procura dar a estes os mesmos direitos que até então apenas os casais heterossexuais possuem. Este projeto suscita uma grande discussão na sociedade e em especial nas igrejas, representadas pelas suas vertentes mais influentes: católicos e evangélicos.

No pensamento de Luiz Mello este debate:

vem colocando na ordem do dia a necessidade de compreensão da

família e do casamento como construções socioculturais dinâmicas, mutáveis e capazes de incorporar um leque cada vez maior de situações e formas de expressão e manifestação das trocas afetivo- sexuais entre seres humanos. O exercício da sexualidade também está se dissociando mais e mais das esferas da conjugalidade e da reprodução, em decorrência do desenvolvimento cientifico- tecnológico e da diminuição da influência religiosa, particularmente católica, no imaginário social dominante no Ocidente (MELLO, 2005,

p.28).

] [

A questão toda não se resume apenas a freqüente queda da influência crista no Ocidente, muitos outros fatores estão incluídos. Todavia, não podemos negar que os próprios comentaristas religiosos não negam que: “A aceitação do homossexualismo por nossa cultura também não deve nos surpreender, já que a ética judaico-cristã tem sido calcada aos pés em muitos sentidos nas ultimas três décadas” (DALLAS, 1998, p.

66).

Tais mudanças refletem na formação do pensamento jurídico do país e na formulação de leis que procuram alterar alguns conceitos anteriormente estabelecidos. Luis Mello (2005, p.17) em sua pesquisa sobre conjugalidade homossexual no Brasil afirmou que: “As representações sociais relativas à família vem sofrendo alterações significativas no Brasil e no mundo”. Este quadro revela uma sociedade democrática e pluralista onde os indivíduos buscam seus direitos de cidadania, dignidade e respeito.

65

Estas alterações podem ser vistas pela ótica das propostas de reformulações constitucionais dentro de uma nova cosmovisão de mundo e, portanto: “Neste contexto, as lutas de lésbicas e gays pela conquista de legitimidade social para as suas relações amorosas apontam para questionamentos profundos dos fundamentos estruturadores do ideário de família conjugal” (MELLO, 2005,p.17).

Tais questionamentos são na sua maioria de origem religiosa, e alicerçados na moral cristã. Na visão de Luis Mello (2005, p.18): “Por meio da análise desses discursos, constato que o conflito existente entre uma visão de mundo laica e outra religiosa constitui o núcleo dos embates em torno do reconhecimento da legitimidade da conjugalidade homossexual”.

Este quadro não poderia ser diferente, já que a influência católica e evangélica na sociedade é muito grande e por mais que o Brasil seja um país laico, seus habitantes e muitos daqueles que estão nos cargos políticos tem na moral religiosa cristã o padrão para as decisões, e formam inclusive um bloco denominado “bancada evangélica”.

Portanto, a tensão que vemos hoje em dia entre cristãos e defensores dos direitos dos homossexuais não é surpresa. São duas filosofias contrárias que se chocam; uma confina a conduta sexual a um padrão especifico, a outra lutando por algo bem mais amplo.Dificilmente pode-se esperar que ambas coexistam pacificamente (DALLAS, 1998, p. 66).

Analisando o discurso dos parlamentares que na Comissão Especial, votaram contra o Projeto, Luiz Mello (2005, p. 105) percebe a influência religiosa dos mesmos e afirma que: “No âmbito desses debates, apresentaram recorrentemente, argumentos religiosos contrários ao amparo legal às uniões homossexuais e ao reconhecimento de sua dimensão familiar”.

Já aqueles que discursaram a favor do Projeto defenderam que o mesmo não procura reconhecer nenhum tipo de anormalidade, e sim reconhece a pluralidade da sociedade e a diversidade de comportamentos.

66

Preocupada com tais projetos de união civil entre pessoas homossexuais, a Igreja Católica se manifestou através do então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e hoje Papa Bento XVI. Joseph Ratzinger.

Em um documento para a Congregação da Doutrina da Fé, escrito em 3 de Junho de 2003, ele orienta os católicos a se posicionarem contra tais projetos e quanto

]

aos políticos católicos ele afirma que o “[

parlamentar católico tem o dever moral de

manifestar clara e publicamente o seu desacordo e votar contra esse projeto de lei.

Conceder o sufrágio do próprio voto a um texto legislativo tão nocivo ao bem comum da sociedade é um ato gravemente imoral”. 4

Para se entender, por exemplo, o posicionamento católico e evangélico é necessário compreender que a Bíblia tem um papel central e se constitui no ponto de partida e de chegada de toda e qualquer discussão em toda e qualquer esfera.

Assim não é novidade que: “Diante dessas novas configurações matrimoniais e familiares, muitas vezes têm surgido fortes reações, geralmente fundadas em bases religiosas, autodefinidas como defensoras da família “verdadeira”, “legítima”, “sagrada” e “natural” (MELLO, 2005, p. 39).

Uma das criticas de Luiz Mello é que este Projeto de Lei nº 1151/95, que teve como autora uma mulher, encontra resistências no heterocentrismo e androcentrismo da sociedade brasileira. A este respeito ele comenta:

A um estado controlado basicamente por homens associam-se, como

atores sociais importantes, Igrejas, cujos postos de comando também são ocupados por homens, que pautam sua atuação política em crenças

e em valores socialmente definidos como masculinos, muitas vezes numa feição claramente machistas (MELLO, 2005, p.18).

No outro extremo a critica feita por alguns a respeito destes projetos de lei que visam adquirir direitos aos L.G.B.T. está baseada no argumento que tais projetos não são científicos, imparciais ou neutros, pelo contrário, estão fortemente alicerçados na

4 Considerações sobre os Projetos de Reconhecimento Legal das Uniões entre pessoas Homossexuais.

Disponível

<http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20030731_hom

osexual-unions_po.html> Acessado em 15 de abril de 2009.

em

67

ideologia marxista. O Movimento feminista e o movimento gay derivariam, segundo esta critica, da chamada Escola de Frankfurt, e da Teoria Crítica.

De acordo com essa teoria, a sociedade capitalista ocidental é repressora e deve ser, não apenas passivamente compreendida, mas desmistificada e transformada como um todo, para permitir a plena emancipação do indivíduo. Isto nos faz refletir nas questões ideológicas que estão na base de todo discurso. Não existe neste ponto neutralidade porque sempre haverá pressupostos sobre os quais as pessoas construirão seus argumentos.

A sexualidade restrita a família sofreu mudanças em virtude das alterações que a própria família vem sofrendo. As chamadas uniões estáveis são apenas um modelo de família na sociedade moderna, existem também famílias formadas por pai(s) e filho, ou mãe(s) e filho, ou avós e netos, ou ainda marido e mulher, enfim, há uma miscelânea de modelos familiares sendo estabelecidos como normais.

Para alguns todas estas novas concepções são resultado do pluralismo da

está conduzindo para um pluralismo de formas

de organização familiar” (CAVALCANTI, 1992, p.44).O casamento abrange aspectos teológicos, culturais, eclesiásticos e jurídicos. No caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo à luz da visão católica e protestante, o principio teológico está sendo ferido, em razão de Deus ter estabelecido “no principio” a união heterossexual.

sociedade moderna que por sua vez “[

]

Na justificativa do projeto 1151/95 a sua propositora, a então deputada Marta Suplicy, tentou esclarecer que a união civil não tem o mesmo status do casamento religioso. A separação nítida entre Igreja e Estado é exemplificada como sustentação para a aprovação deste projeto. Suas bases são o direito e liberdade que todos usufruem e a não imposição de uma moral religiosa pelo Estado.

Num certo sentido o que se está propondo não é um modelo totalmente novo, e sim a reformulação do modelo existente. Pensando assim, na lógica dos direitos iguais para todos, a opção heterossexual ou homossexual deveria ser vista da mesma forma.

68

O que se deseja com tal projeto de lei é dar aos casais homossexuais os

mesmos direitos concedidos aos casais heterossexuais.

Com a diminuição do preconceito e da intolerância em relação a homossexualidade, vem sendo cada vez maior o número de pessoas que desafia a normatização vigente e busca a constituição de parcerias afetivo-sexuais com outras de seu próprio sexo, muitas vezes associando à experiência da conjugalidade e da parentalidade, seja com filhos biológicos ou adotivos (MELLO, 2005, p. 44).

E não há, de acordo com a opinião de Luiz Mello, diferenças tão abismais entre

os desejos de um casal seja ele heterossexual ou homossexual, pois “[

um número expressivo de gays e, principalmente de lésbicas estrutura ou deseja estruturar suas vidas a partir de envolvimento afetivo–sexuais que talvez em muito pouco difiram dos modelos disponíveis para os homossexuais” (MELLO, 2005, p. 44).

seguramente

]

A este respeito José Fabio Barbosa da Silva que estudou a comunidade gay

masculina na cidade de São Paulo na década de 50 escreve: “[

conteúdo cultural do grupo minoritário é bastante idêntica, quando não igual, à encontrada no grupo majoritário-a caracterização marginal é que diminui a comunicação e leva à formação dos estereótipos e preconceitos” (GREEN&TRINDADE, 2005, p.62)

a maior parte do

]

69

3.2 O Projeto de Lei 122/06- A Criminalização da Homofobia

Este projeto traz a seguinte redação no seu artigo 2º: “Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.

O conceito de gênero tem sido usado como instrumento teórico que permite uma abordagem empírica e analítica das relações sociais (HEILBORN, 2004). A construção dos gêneros se dá através das dinâmicas das relações sociais, ou seja, o “quem sou eu” se constitui na medida em que “eu” me relaciono com o “outro”.

Daí se faz distinção entre o sexo: macho e fêmea e o gênero: masculino e feminino, sexo social e sexo biológico. Enquanto o primeiro é dado, o segundo é construído nas relações sociais. Desta análise podemos dizer que não seria errado dizer:

Estou sendo homem, ou estou sendo mulher, ao invés de dizer: sou homem ou sou mulher.

modo

como as características sexuais são compreendidas e representadas ou, então, como são trazidas para a prática social e tornadas partes do processo histórico” (LOURO, 1997,

p.22)

Podemos pensar no conceito de gênero como uma referência ao “[

]

Antonio Moser (2001, p. 49) observa: “Hoje se tende a colocar o acento no que se denomina de corpo social, para ressaltar que a corporeidade é mais do que o biológico, e que nós somos mais do que corpos isolados, ou mesmo pessoas isoladas”

Existe um papel a ser desempenhado na sociedade, e esta determina e impõe que seja desta ou daquela forma. O debate está no campo social na medida em que é na sociedade que se constroem e se reproduzem as relações entre os indivíduos.

Os movimentos de contestação vêm para mudar esta ordem, ou repensar, discutir, remodelar ou mesmo servir de ponto de partida para uma nova construção

70

social e histórica. Tudo dependerá da maneira como a própria sociedade reagirá a esta contestação da ordem estabelecida.

Aplicando este conceito a sexualidade, temos o sexo: macho e fêmea, e temos aquilo que se espera deles: homem e mulher. Há coisas que pertencem ao gênero masculino e coisas que pertencem ao gênero feminino. Mesmo em relações sexuais entre homossexuais existe a figura do masculino e feminino, geralmente associadas ao ato de penetrar e ser penetrado, passivo ou ativo, viril ou dócil, etc.

A identidade de gênero é diferente do gênero, ela refere-se às representações que os indivíduos tem de si mesmos, ela é o modo como a pessoa se sente masculina ou feminina independente de seu sexo biológico. Partindo do pressuposto que identidade de gênero e identidade sexual são distintas podemos compreender as questões envolvendo as diferentes identidades requeridas por gays, lésbicas e outros grupos.

As sexualidades podem ser vividas de diferentes maneiras e estas experiências

constituem a identidade sexual de um individuo. As identidades de gênero tem a ver com a identificação masculino e feminino que por estarem ambas relacionadas as identidades sexuais são facilmente confundidas. “Sujeitos masculinos ou femininos

podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais [

construídas, elas não são dadas ou acabadas num determinado momento” (LOURO,

as identidades são sempre

]

1997, p.27).

Orientação sexual significa por quem as pessoas sentem desejo de se relacionarem sexual e afetivamente. Segundo Luiz Mott: “A livre orientação sexual é um direito inalienável de todo ser humano, seja homossexual, bissexual ou heterossexual” (BITTENCOURT, 2007, p. 152).

Desde que a homossexualidade não é mais considerada uma doença, nem crime e nem pecado de acordo com alguns teólogos modernos, a atitude da sociedade em relação a livre orientação sexual deveria ser mudada de acordo com aqueles que defendem a aprovação desta lei.

71

Discriminação ou preconceito são conceitos de suma importância na discussão

ilícita é ma conduta humana (ação ou omissão) que

viola os direitos das pessoas com base em critérios injustificados e injustos, tais como a

raça, o sexo, a idade, a opção religiosa e outros [

(CRUZ, 2003. p.41). O preconceito

desta lei. A discriminação “[

]

]”

“[

coletividades através de estereótipos” (CRUZ, 2003. p.41).

]

se manifesta por um julgamento prévio, negativo, estigmatizando pessoas ou

Esta prática discriminatória dentro do direito legal é vista de duas formas: a)

conduta da qual se depreende facilmente

o animus discriminatório, ou seja, o dolo, a vontade de violar o direito de outrem. Nela

está presente a premeditação, a vontade de violar o direito de outrem” (CRUZ, 2003,

p.42), b) discriminação de fato: “[

consciência do mal que provoca. Sequer sabe que está discriminando [ 2003, p.42).

(CRUZ,

por este mecanismo o discriminador não tem a

discriminação direta ou intencional: “[

]uma

]

]”

O Projeto de Lei 122 é conhecido popularmente como a lei contra a homofobia,

mas esta palavra não aparece no referido projeto, é uma interpretação do mesmo. Por

um

temor ou medo irracional de um objeto ou atividade, levando a pessoa a evitar significativamente o objeto temido”(DALLAS, 1998, p. 144).Temor ou medo irracional diferem da categoria preconceito e discriminação como vistas nas definições anteriores, mas podem levar a homofobia.

“fobia” entende-se de acordo com a Associação Americana de Psiquiatria, “[

]

Todo grupo minoritário tende a ser objeto de ridículo, ódio ou violência.“Não se pode discriminar indivíduos sem gerar neles um sentido de isolamento e perseguição,

e sem dar-lhes uma concepção deles próprios ainda mais diferente dos outros do que de fato eles são” (GREEN&TRINDADE, 2005, p.57).

Na formação de preconceitos entra aquilo que se designa estereótipo, que pode

ser definido como “[

maneira automática, imagens ou comportamentos” (CRUZ, 2003. p.41). Determinada cultura vai criando seus estereótipos, como por exemplo, todo político é corrupto, todo cristão é fanático, toda loira é burra, todo homossexual é efeminado, toda lésbica é masculinizada.

um modelo rígido, anônimo, a partir do qual são produzidos, de

]

72

Gilberto Velho (2003) analisa a estigmatização como uma forma de produção do desviante. Origina-se deste processo de estigmatização a conceituação desviante e normal existentes dentro de uma sociedade (GOFFMAN,1988).

Não há nada de cientifico nestas pressuposições, apenas estereótipos.

Analisando do ponto de vista daqueles que são alvo dos preconceitos e estereótipos,

]

externo da vitima nas mãos de seus opressores, mas também sua própria consciência, na medida em que ela é moldada pelas expectativas da sociedade”.

Peter Berger (1986, p.116) comenta: “[

o pré-julgamento afeta não só o destino

Desta forma os estereótipos podem ser internalizados. “A coisa mais terrível que o preconceito pode fazer a um ser humano é fazer com que ele tenda a se tornar aquilo que a imagem preconceituosa diz que ele é” (BERGER, 1986,p. 116).

A atitude mais freqüente em relação a homossexualidade é a de reprovação. Aspitarte (1991, p.63) enfatiza que: “O homossexual é considerado como um pervertido indesejável, sobre o qual recaem as mais duras criticas e condenações, uma espécie de câncer da sociedade, a qual deveria se defender por todos os meios de semelhante perigo”.

Na opinião de Eduardo Azpitarte (1991) as atitudes homofóbicas derivam de indivíduos nos quais habitam consciente ou inconscientemente desejos e fantasias homossexuais. Este temor da homossexualidade faz muitos reagirem com violência e agressividade como defesa. “Dessa forma, quando projetamos sobre eles a nossa indignação, pode se produzir em nós um sentimento positivo, mas enganoso [ ]” (AZPITARTE, 1991, p. 65).

Na mesma linha José Leon Crochík (2006, p.14) falando a respeito do

preconceituoso explica que “[

preconceituoso do que às características de seus objetos [

explicações para a agressividade contra os homossexuais. Quanto mais repugnância a pessoa sentir contra o homossexual, maior necessidade ela tem de ocultar a sua existência desta tendência dentro de si mesmo.

Esta pode ser uma das

o preconceito diz mais a respeito às necessidades do

]

]”.

73

O fato é que a sociedade por muito tempo rejeitou esta prática e ainda existe muitas atitudes de desprezo e preconceito em relação a homossexualidade. As piadas ao falar a respeito do assunto funcionam muitas vezes como defesa para aqueles que não querem ser taxados de possuírem tal orientação sexual.

Retratando a realidade de algumas décadas comenta:

atrás Azpitarte (1991,

p.64)

Cada qual se aproxima do problema a partir de uma perspectiva diferente, mas há um fundo pejorativo que é semelhante em todos: o policial vê o homossexual como um possível transgressor, o psiquiatra como um doente neurótico, o chefe de família como um corruptor de menores, o sacerdote como um pecador, o homem comum como um ser lamentável.

Preconceitos são construídos eles não são inatos. “Os estereótipos são proporcionados pela cultura e se mostram propícios à estereotipia do pensamento do indivíduo preconceituoso, fortalecendo o preconceito e servindo para a sua justificativa” (CROCHÍK, 2006, p. 21).

74

3.3 Manifestos das Igrejas Tradicionais

A Igreja Presbiteriana do Brasil, uma denominação evangélica do ramo protestante, se manifestou publicamente através de seu presidente o Reverendo Roberto Brasileiro quanto as leis que defendem à prática do aborto e a criminalização da homofobia.

No manifesto fica nítida a preocupação com a vida humana e a liberdade de expressão das igrejas 5 :

Na qualidade de Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, diante do momento atual em que as forças organizadas da sociedade manifestam sua preocupação com a possibilidade da aprovação de leis que venham labutar contra a santidade da vida e a cercear a liberdade constitucional de expressão das igrejas brasileiras de todas as orientações, venho a público me MANIFESTAR quanto à prática do aborto e a criminalização da homofobia.

Uma das inquietações dos evangélicos é que a aprovação desta lei resultará em proibição de manifestações das igrejas contra os pecados sexuais, compreendidos por práticas homossexuais, lésbicas, bissexuais, e outras que fogem ao padrão heterossexual monogâmico.

Católicos, protestantes e pentecostais entendem que se esta lei for aprovada, os seus padres, pastores, bispos, enfim, aqueles que fazem as homilias dentro das igrejas, não poderão mais falar a respeito do ensino bíblico contra estes “pecados sexuais”.

A postura das igrejas é de tolerância, amor e respeito em relação ao individuo sem ter que aceitar suas práticas por elas afrontarem as suas crenças.

5 Disponível em <http://www.ipb.org.br/noticias/noticia_inteligente.php3?id=808> abril de 2009.

Acessado em 13 de

75

Assim a Igreja Presbiteriana do Brasil através de seu presidente escreve:

Quanto à chamada Lei da Homofobia, que parte do princípio que toda manifestação contrária à homossexualidade é homofóbica e caracteriza como crime essas manifestações, a Igreja Presbiteriana do Brasil repudia a caracterização da expressão do ensino bíblico sobre a homossexualidade como sendo homofobia, ao mesmo tempo em que repudia qualquer forma de violência contra o ser humano criado à imagem de Deus, o que inclui homossexuais e quaisquer outros cidadãos.

Neste manifesto são usados principalmente dois argumentos: O primeiro dentro

de um aspecto legal e tendo como base a própria Constituição:

]a [

garantias individuais para todos os cidadãos brasileiros; [

liberdade religiosa assegura a todo cidadão brasileiro a exposição de

sua fé sem a interferência do Estado, sendo a este vedada a interferência nas formas de culto, na subvenção de quaisquer cultos e

a liberdade

de expressão, como direito individual e coletivo, corrobora com a mãe das liberdades, a liberdade de consciência, mantendo o Estado eqüidistante das manifestações cúlticas em todas as culturas e

expressões religiosas do nosso País[

ainda na própria opção pela inexistência de fé e culto; [

a

promulgação da nossa Carta Magna, em 1988, já previa direitos e

]

]

].

O segundo argumento está fundamentado nos dogmas, na constituição e no estatuto da igreja:

]as [

Brasil firma suas crenças e práticas, ensinam que Deus criou a humanidade com uma diferenciação sexual (homem e mulher) e com

Escrituras Sagradas, sobre as quais a Igreja Presbiteriana do

propósitos heterossexuais específicos que envolvem o casamento, a unidade sexual e a procriação; e que Jesus Cristo ratificou esse

entendimento ao dizer, “(

desde o princípio da criação, Deus os fez

homem e mulher” (Marcos 10.6); e que os apóstolos de Cristo entendiam que a prática homossexual era pecaminosa e contrária aos

planos originais de Deus (Romanos 1.24-27; 1 Coríntios 6.9-11).

)

As igrejas evangélicas tem como característica distintiva a adoção da Bíblia

como sua única regra de fé e pratica. Assim as direções que a igreja e seus membros

seguem tanto na esfera privada como na esfera pública provém do entendimento e

interpretação das Escrituras Sagradas.

76

Dentro desta avaliação da igreja a respeito desta Lei contra a Homofobia, o posicionamento da denominação é claro e revela uma unidade interna em relação ao tema, por ser uma Federação de Igrejas que tem do seu Supremo Concílio a diretriz para a relação entre Igreja e o Estado de acordo com a sua Constituição.

Na conclusão do manifesto está exposto:

Ante ao exposto, por sua doutrina, regra de fé e prática, a Igreja Presbiteriana do Brasil MANIFESTA-SE contra a aprovação da chamada Lei da Homofobia, por entender que ensinar e pregar contra a prática da homossexualidade não é homofobia, por entender que uma lei dessa natureza maximiza direitos a um determinado grupo de cidadãos, ao mesmo tempo em que minimiza, atrofia e falece direitos e princípios já determinados principalmente pela Carta Magna e pela Declaração Universal de Direitos Humanos; e por entender que tal lei interfere diretamente na liberdade e na missão das igrejas de todas as orientações de falarem, pregarem e ensinarem sobre a conduta e o comportamento ético de todos, inclusive dos homossexuais.Portanto, a Igreja Presbiteriana do Brasil não pode abrir mão do seu legítimo direito de expressar-se, em público e em privado, sobre todo e qualquer comportamento humano, no cumprimento de sua missão de anunciar o Evangelho, conclamando a todos ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo.

As igrejas tradicionais têm na Bíblia Sagrada e no pensamento de seus teólogos as grandes fontes da sua construção moral. A maneira como os teólogos descreveram no passado a sexualidade tem ainda hoje grande influência na cultura de muitos dos povos, especialmente os mais ligados as religiões.

A valorização do espírito em detrimento do corpo foi algo comum em muitas culturas. “Pode-se dizer que quase todas as grandes culturas da humanidade apresentaram traços de dualismo; e mais do que isto, quase todas as grandes culturas da humanidade privilegiaram o espírito. Conseqüentemente desprezaram a matéria, e com ela, o corpo humano” (MOSER, 2001, p. 52).

Santo Agostinho teve grande influência no pensamento em relação ao prazer e

o sexo, e na maneira de ensinar dentro de “[

sexualidade levou-o a encontrar na procriação o motivo justificador para a admissão desse prazer” (AZPITARTE, 1991, p. 12). Assim o sexo dentro do casamento cumpre

um enfoque pecaminoso e negativo da

]

77

sua função de procriação e esta é a justificativa para se entregar a tal “prazer pecaminoso”.

A tradição judaica cristã sempre colocou o sexo circunscrito apenas ao casamento. Restou aos não casados apenas a polução involuntária que seria uma válvula de escape do instinto sexual, pois a polução voluntária, ou masturbação, foi também condenada como pecado. “Embora o sexo esteja essencialmente atado ao pecado, todas as atividades sexuais que não tenham finalidade procriadora são consideradas ainda mais pecaminosas, colocadas sob a categoria da concupiscência e da luxuria e como pecados mortais” (CHAUI, 1991, p. 87).

Um dos argumentos mais utilizados contra as formas homossexuais de amor se funda no aspecto da não possibilidade de procriação entre duas pessoas do mesmo sexo, de acordo com este pensamento, se esta fosse a “norma” não existiria humanidade.

As relações homossexuais existem e tal fato é inegável pelos próprios registros históricos. O que Azpitarte (1991, p. 76) coloca como a questão a ser refletida é: “O fato de que a homossexualidade existe o mundo dos animais e dos povos primitivos ou que tenha florescido com um certo auge em algumas culturas não tem mais valor que o de provar que isso é possível, dentro da biologia e da psicologia humana [

Ninguém nega a possibilidade da homossexualidade, mas o fato de admitir sua existência como um fenômeno possível, não lhe dá status de comparação com a heterossexualidade. Neste aspecto a norma heterossexual como realidade constante e generalizada perdurou durante toda a história a despeito da homossexualidade não apenas como um produto da sociedade.

O pensamento de Tomás de Aquino foi um divisor de águas para o fim do pensamento bizantino que enfatizava apenas as realidades celestiais. Devemos a este momento histórico uma valorização da natureza e do corpo, em oposição a valorização apenas da alma.

Robinson Cavalcanti acrescenta que: “O corpo não é um trapo imundo, incômodo, fonte de pecado, a atrapalhar transitoriamente a vida do cristão, até que um

78

dia sua alma liberta possa viver com Deus” (1979, p.39). Não há, portanto esta divisão entre corpo e alma, isto está mais perto do platonismo que do cristianismo. Para os cristãos o corpo, a alma e o espírito são criação de Deus.

Antonio Moser (2001, p. 48) comenta: “Com efeito, é a partir do corpo que nos descobrimos seres sexuados e é a partir da nossa concepção de corpo que vamos tendo uma primeira compreensão de nossa sexualidade, de nós mesmos, do mundo que nos rodeia e da missão que nos é confiada”.

A visão religiosa tradicional em relação a sexualidade não mudou, e de acordo

com ela as pessoas podem vivenciar a sexualidade de forma correta que é a heterossexualidade, ou de forma incorreta que é qualquer forma que não seja a heterossexual.

A sexualidade está na área da ética e da moral e existe um certo consenso entre

os religiosos acerca dos desvios sexuais: necrofilia, zoofilia, estupro, prostituição,

pedofilia, fornicação, incesto, masturbação, aborto, sadismo, masoquismo, e a homossexualidade, todos estes tipos encontram reprovação na ética cristã.

Os desvios sexuais são vistos pelas religiões predominantes no Brasil, por pelo menos três prismas: o primeiro é o prisma da possessão demoníaca e se a questão é possessão de espíritos malignos, subentende-se que após o exorcismo a cura será imediata. O segundo é o prisma imoralidade e do desvio de caráter exigindo-se do pecador arrependimento e busca de santidade, e o terceiro é o prisma médico do desvio de personalidade e comportamento, neste caso orienta-se a procura de um profissional, geralmente um psicólogo cristão.

Posição defendida por psicólogos cristãos, que consideram o homossexualismo um comportamento aprendido, desviante e pecaminoso. Distinguem o homossexualismo latente, em que há a atração sem a prática, não sendo pecado, do homossexualismo manifesto, onde há a prática de atos. O foco da condenação, então, não é sobre a pessoa, mas sobre os seus atos, sobre os quais ela exerce domínio (CAVALCANTI, 1992, p.33).

79

Quanto a percepção do homossexualismo e dos demais desvios sexuais como sendo de origem demoníaca, Marcelo Natividade relata a resposta de um evangélico pentecostal sobre a relação entre desvios da sexualidade e o diabo:

O diabo é sexualmente transmissível. Quando você transa com uma pessoa que tem algum tipo de envolvimento com espíritos, esse espírito, entidade ou pombagira, demônios pequenos ou potestades [demônios mais altos na hierarquia infernal] podem estar entrando na sua vida”(HEILBORN, 2005, p. 257).

Outro fato marcante nestas experiências pentecostais é a batalha espiritual: “A representação da homossexualidade como fruto de agência demoníaca encontra suporte na teoria sobre a pessoa que se funda na noção de batalha espiritual” (HEILBORN, 2005, p. 262). Faz parte do tratamento, a freqüência aos cultos, participação nas correntes, sessões de queimas de objetos, e quebras de maldições.

A ética cristã se baseia no fato que Deus criou o homem e a mulher e estabeleceu o casamento e a relação heterossexual. O homem foi feito com um corpo sexuado e diferente, homem e mulher, para se relacionar cada qual com o sexo oposto. A atração sexual ou a relação entre pessoas do mesmo sexo fere este padrão, de acordo com o pensamento cristão.

80

4

REFLEXÕES

SOBRE

IGREJAS

CIDADE DE SÃO PAULO

4.1 Teologia Inclusiva

INCLUSIVAS

NA

Por “igreja inclusiva” nos referimos as igrejas que surgiram a partir da década de 90 trazendo uma proposta de inclusão para todos (as) os que estão excluídos (as) das outras vertentes religiosas presentes no Brasil. Muito embora o discurso seja o de inclusão a todos e todas, excluídos e excluídas, por discriminação racial, social, e religiosa, existe uma ênfase na exclusão das minorias sexuais e um direcionamento a comunidade LGBT.

O termo “inclusão” muito comum no nosso contexto nestes últimos anos ganhou uma nova conotação no cenário religioso. O que marca uma igreja inclusiva, entre outros fatores na definição corrente é ser uma igreja aberta para a comunidade LGBT.

No Brasil existem diversas igrejas inclusivas das mais diferentes tradições religiosas. Podemos citar apenas algumas destas igrejas: Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo (2005); Comunidade Cristã Nova Esperança – SP (2004); Igreja Contemporânea – RJ (2006); Comunidade Betel –RJ (2005); Igreja Para Todos –

81

SP (2004); Igreja Acalanto-S.P (1997); e até uma igreja virtual com o nome de Diversidade Católica – RJ (2007).

Para um melhor conhecimento destas igrejas vamos abordar quais são os aspectos teológicos que moldam o grupo. Por detrás da teologia está todo um pressuposto para a existência destas igrejas.

As igrejas inclusivas são caracterizadas por uma teologia que revela ser ela uma das filhas da Teologia da Libertação. Em décadas passadas a Teologia da Libertação foi amplamente divulgada e espalhou-se pela América Latina, reconhecida principalmente pela sua opção pelos pobres.

A Teologia Feminista e a Teologia Negra, em um contexto mais amplo, trazem

em suas propostas conceitos muito parecidos com a Teologia da Libertação, diferindo

no sentido em que a libertação que buscavam era na etnia e no gênero. Temos historicamente uma pluralidade de Teologias da Libertação, cada uma enfocando um tema diferente.

A Teologia Negra e a Teologia Feminina por um tempo foram consideradas os

novos sujeitos deste fazer teológico na perspectiva da libertação. Recentemente, a teologia inclusiva é a mais nova produção nesta linha teológica da libertação.

Gutiérrez (1979, p. 40) entende ser este processo uma revolução cultural:

Conceber a história como processo de libertação do homem é perceber a liberdade como conquista histórica, é compreender que a passagem de uma liberdade abstrata a uma liberdade real não se realiza sem luta - cheia de escolha, de possibilidades, de extravios e tentações de evasão – contra tudo o que oprime o homem.Este fato implica não apenas melhores condições de vida, radical mudança de estruturas, revolução social, mas muito mais a criação continua e sempre inacabada de nova maneira de ser do homem, uma permanente revolução cultural.

82

A Teologia Inclusiva também conhecida como Teologia Gay ou Teologia

Queer, ainda é pouco conhecida no Brasil, apesar da grande produção que a mesma tem

tido na América Latina, pode ser considerada também como uma Teologia da Libertação.

O questionamento da sociedade dualista faz brotar a partir dos movimentos

sociais dos anos 70 a teoria queer (GROSSI, 2007, ou indecente, ALTHAUS-REID,

] descreve

os gestos ou modelos que dramatizam incoerências nas relações alegadamente estáveis entre o sexo cromossômico, gênero e desejo sexual” (GROSSI, 2007, p.415). Os estudos da teoria queer encontram-se mais presentes nas áreas dos estudos seculares que na área teológica.

2001). Na definição de “Teoria Queer” podemos dizer que é a teoria que “[

Miriam Grossi coloca a década de 90 como sendo o momento de inicio da teoria queer, outros falam na década de 70 ou 80. O fato é que esta teoria estava diretamente ligada ao questionamento da identidade gay e lésbica. “Vem como conseqüência da elaboração pós-estruturalista sobre a visão dos libertadores gays e das feministas lésbicas em relação à identidade e formas como o poder funciona” (GROSSI, 2007, p.416).

A Teologia Inclusiva traz a proposta da libertação, e de acordo com Gutierrez

(1979, p.26), esta é a verdadeira proposta da teologia, ou seja, ser uma: “[

crítica da práxis histórica à luz da palavra”. Fazer teologia para estes teólogos é fazer

libertação. No caso dos teólogos da inclusão sua opção é pelas minorias sexuais, que neste contexto não está relacionado a números e sim a condição, e através da teologia procura-se a libertação destes que são, segundo este pensar, oprimidos pela maioria.

reflexão

]

A teologia, em especial nos últimos decênios, aprendeu a descer do

pedestal da abstração teológica para considerar com maior cuidado os

fatores de origem social e cultural que matizam a experiência de Deus

e da Igreja que as pessoas fazem na cultura a um só tempo

unidimensional e pluralista de hoje. Teólogos, moralistas, exegetas e

pastoralistas têm hoje uma consciência mais viva de que a teologia é fruto de situações e influências histórico-culturais bem concretas (VALLE, 1998, p. 55).

83

A teologia inclusiva desenvolve-se nos Estados Unidos a partir dos anos 70. O uso do termo “gay” no Brasil se dá em virtude da sua popularização na América Latina e todo o impacto que o mesmo causava. O uso deste termo não estava desprovido de limitações já que as relações homoafetivas não poderiam ser unificadas debaixo deste único conceito, assim a “inclusão” abrange todas as sexualidades existentes.

A respeito desta produção teológica, Musskopf (2005, p.01) destaca alguns trabalhos:

Destacam-se o livro de D. W. Oberholtzer, Is gay good? ethics, theology and homosexuality, de 1973. Ainda na década de 70, foi publicado Towards a theology of gay liberation, por M. MACOURT. Obras mais expressivas data da década de 90: J. M. CLARK (Defying the darkness: gay theology in the shadows – 1997, A defiant celebration: theological ethics and gay liberation theology – 1990, A place to start: toward an unapologetic gay liberation theology – 1989, Beyond our ghettos: gay theology in ecological perspective – 1993), G. D. COMSTOCK (Gay theology without apology – 1993). G. D. COMSTOCK (Gay theology without apology– 1993), R. CLEAVER, Know my name – A gay liberation theology – 1995), R. GOSS (Jesus acted up – A gay and lesbian manifesto – 1993).

Nesta teologia os temas elaborados, são aqueles que estão diretamente ligados a este grupo de indivíduos conhecidos popularmente como gays e lésbicas. As principais bandeiras são a luta contra o preconceito, a homofobia e o heterocentrismo, a igualdade de todos diante das leis dos homens e de Deus.

Richard Cleaver (1995), um dos proponentes desta teologia, em seu livro Know my name – A gay liberation theology coloca a questão da “graça” como sendo algo estendido a todos inclusive gays e lésbicas. Este é outro alicerce desta teologia, a doutrina da justificação por graça e fé. Nesta graça divina todos e todas têm acesso ao respeito, amor e aceitação.

A negação do ser homossexual é a negação do agir salvífico de Deus em Jesus Cristo, pois nega a sua existência como ser humano, criado à imagem de Deus. A doutrina da justificação por graça e fé é central para a teologia gay, pois aceita o ser – homossexual – por causa do amor incondicional de Deus e o liberta de tudo que o oprime para o serviço. Pela fé, homens gays são libertados para se colocarem a

serviço do próximo. Sua vida passa a estar orientada pela auto-entrega

e pela autodoação, inclusive pela forma como vivem sua sexualidade.

É o rompimento com o pecado da homofobia exterior e internalizada e

84

Os teólogos inclusivos trazem uma nova construção baseada em textos bíblicos que foram usados pelas igrejas tradicionais para combater qualquer forma de sexualidade diferente da heterossexual. Nesta mesma direção são destacados outros textos que de acordo com estes teólogos apontam para uma ética sexual bem diferente da aceita e imposta pelas igrejas até este século. Personagens como o rei Davi, Rute, entre outros são vistos pelo prisma da teologia inclusiva como pessoas com orientação sexual homossexual.

Observa-se a influência desta teologia nos comentários de diversos autores que

lutam pela causa inclusiva e LGBT. A este respeito Luis Mello (2005, p.41) comenta:

“[

Jônatas e entre Rute e Noemi, são apressadamente dessexualizadas, tornando-se exemplos do amor cristão fraternal que deve estruturar as relações entre todos os seres humanos”.

amizades apaixonadas, como as descritas no Velho Testamento entre Davi e

]

Outras

questões

teológicas

são

levantadas

dentro

destas

interpretações

libertadoras, chegando-se basicamente as seguintes conclusões:

1) O preconceito contra os homossexuais é o culpado pela interpretação que a maioria dos cristãos faz das referências bíblicas relacionadas a questão.

2) Os versículos que parecem proibir o homossexualismo na verdade foram tirados fora do seu contexto do seu sentido original.

3) As passagens que condenam o homossexualismo foram mal traduzidas.

4) O homossexualismo nunca foi condenado por Jesus.

5) A bíblia condena a prostituição homossexual e não a homossexualidade monogâmica.

6)Os

escritores

bíblicos

condicionados culturalmente.

que

condenaram

a

homossexualidade

estavam

85

Os argumentos usados são baseados nas descobertas cientificas e nos diversos estudos acerca da sexualidade, produzido nestes últimos séculos, assim algumas conclusões como o homossexualismo é inato; os homossexuais não podem ter a sua orientação sexual mudada; o homossexualismo não é doença e nem crime por isto a igreja não devia condená-lo.

Observa-se que a pluralidade é outra das marcas distintivas da Teologia Inclusiva, facilitada pela ligação com a vertente evangélica que permite uma maior flexibilidade e maior liberdade para a vivencia de diferentes formas de religiosidade pelo fato de não estarem ligadas a uma hierarquia religiosa centralizada como ocorre com a Igreja Católica (MACHEN, 2001).

Nehemias Marien afirmou a respeito da sua igreja que adotava teologia inclusiva:

A igreja tem uma mentalidade liberal, pluralista e ecumênica. Ela quer ser assim, uma comunidade aberta, com esta visão acolhedora, com as portas abertas, sem muros. Não tem um dogma fechado nas suas doutrinas, na sua crença, mas ela tem esse desejo de partilhar, hoje, a experiência nascida da sua caminhada (GIUMBELLI, 2005, p.79).

No campo da ética, novos paradigmas são construídos porque a teologia

inclusiva também propõe uma ética sexual nova “[

heterossexual de matrimônio cuja finalidade central é a procriação, mas na valorização

do ser humano na sua integralidade” (MUSSKOPF, p. 2005, p.18). O matrimonio é repensado não apenas na questão da união entre um homem e uma mulher, mas também em relação a função procriadora que sempre foi uma das marcas da moral tradicional.

não derivada da compreensão

]

A proposta teológica é de pensar no ser humano na dinâmica de todas as suas relações, não apenas a do ato sexual, mas no respeito, no amor, na amizade, enfim, na multiplicidade dos relacionamentos possíveis entre um casal seja ele homossexual ou heterossexual. Este pensamento parte do pressuposto que aquilo que não é permitido em nenhum relacionamento é o abuso, a exploração, a violência. Estes constituem o mal contra o qual todos devem lutar.

86

4.2 Principais Características da Fé Inclusiva

Se a sexualidade é construída socialmente, sendo um projeto tanto individual

como coletivo, o que chamaríamos de normal e de anormal? O anormal é aquele que sai fora dos padrões estabelecidos pela própria cultura.

Guacira Lopes Louro (1997, p.51) comenta: “Em nossa sociedade, devido è hegemonia branca, masculina, heterossexual e cristã, tem sido nomeados e nomeadas como diferentes aqueles e aquelas que não compartilham desses atributos”.

Estabelecido o normal aquilo que não se enquadra nele passa a ser considerado anormal, como afirmou Durkheim (1983, p. 110), este tipo de observação nos: “[ ] confina duas ordens de fatos bastante diferentes: aqueles que são o que devem ser e aqueles que deveriam ser diferentes daquilo que são, os fenômenos normais e os fenômenos patológicos”.Quando pensamos em sociedades diversas concluímos que nem todas tem os mesmos conceitos de normalidade e patologia.

O conceito de normalidade e anormalidade na religião ganhou status de

sagrado e profano. Esta é uma forma de trazer para o domínio do campo religioso todas as dimensões da vida que na visão da religião se resume nestas duas esferas. Aquilo que é sagrado é bom e desejável e aquilo que é profano é mau e deve ser evitado. De acordo com Berger, neste esquema ir contra a realidade legitimada pela religião é mergulhar na anomia, negá-la é ser considerado louco.

Durante a história, a religião fez com que os homens atribuíssem a objetos o poder e status de sagrado e de profano. Através da religião o homem criou objetos e mecanismos que o protege do misterioso e temeroso.

Estas hierofanias em objetos são interpretadas por Mircea Eliade (2008, p. 18)

da seguinte forma: “[

culto da árvore como árvore, mas justamente porque são hierofanias, porque revelam

não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de um

]

87

Rubem Alves (2001, p. 27) comenta a este respeito:

Uma pedra não é imaginária. É visível, concreta. Como tal, nada tem de religioso. Mas, no momento em que alguém lhe dá o nome de altar, ela passa ser circundada de uma aura misteriosa, e os olhos da fé podem vislumbrar conexões invisíveis que a ligam ao mundo da graça divina. E ali se fazem orações e se oferecem sacrifícios.

Esta concepção está presente em quase todas as religiões e vai receber diferentes interpretações em cada uma delas. Um objeto que tem status de sagrado continua com suas propriedades naturais, de forma que uma pedra sagrada continua sendo pedra. O espaço é dividido entre sagrado e profano de forma que os rituais religiosos precisam encontrar lugares próprios para realizar esta passagem.

A passagem de um lugar profano para um lugar sagrado tem os seus rituais, e

torna-se possível a comunicação com os deuses;

conseqüentemente, deve existir uma porta para o alto, por onde os deuses podem descer

à Terra e o homem pode subir simbolicamente ao Céu” (ELIADE, 2008, p.29). Os templos são estes lugares de conexão com o sagrado e não podem por esta razão ser abolidos.

dentro do lugar sagrado “[

]

Para que estas construções sócio-religiosas permaneçam o homem precisa ser constantemente lembrado das mesmas. É neste particular que podemos falar dos rituais

religiosos que são usados “[

no seio dos

como instrumento decisivo desse processo de

rememoramento” (BERGER, 1985, p.53), ou ainda que eles nascem “[

grupos reunidos e que são destinados a suscitar, a manter, ou refazer certos estados mentais desses grupos” (DURKHEIM, 1983, p. 212).

]

]

Diferente do que alguns poderiam pensar a religiosidade inclusiva não rompe com a noção de sagrado e do profano, característica essencial das religiões. Há, portanto uma re-interpretação destas noções que vão de encontro com a maneira como estes grupos vivenciam sua espiritualidade.

88

A este respeito Rubem Alves (2001, p. 25) afirma: “O Sagrado não é uma

eficácia inerente às coisas. Ao contrário, coisas e gestos se tornam religiosos quando os

homens os batizam como tais”.

A sexualidade inclusiva não é vista apenas como um ato apenas corporal, mas

como um ato espiritual, um sacramento. Assim como no catolicismo o casamento é

considerado um sacramento na visão inclusiva a sexualidade ganha este status.

A diferença é que na sexualidade cristã o sexo está restrito ao casamento entre

um homem e uma mulher enquanto na sexualidade inclusiva a sexualidade não está

restrita nem ao casamento e nem a forma heterossexual.

Não há também o tabu da virgindade ao contrário disto o que se aconselha é que o casal não seja virgem, denotando assim, união e adaptação na vida intima antes do registro civil e do rito de união.

Nas palavras da Reverenda Dra. Mona West (2008):

Um sacramento é um ato que media a graça e o mistério de Deus. Sair do armário é como um sacramento para os crentes gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, porque nos coloca em um caminho no qual manifestamos a graça de Deus em nossas vidas, pelo resto das mesmas. Sair do armário é crucial para nosso desenvolvimento espiritual, porque nos permite iniciar uma jornada de integrar nossa identidade LGBT em toda nossa vida. Ou para dizê-lo de outra forma, adotar nossa identidade LGBT é um convite a entrarmos em nossa jornada espiritual.

Na afirmação acima podemos perceber que a vivencia da identidade LGBT faz com que o sujeito entre na sua jornada espiritual. Para se viver completamente a espiritualidade se faz necessário assumir uma identidade. A própria expressão “sair do armário” deixa de ter uma conotação pejorativa e passa a ter uma força impulsionadora de uma nova postura diante da sexualidade.

Esta expressão é uma tradução da expressão coming out (of the closet), e se refere aos diferentes estágios de assumir-se como gay ou lésbica.

89

Existe dentro destes grupos uma visão condicionante da sociedade: Para a gente LGBT, parte desse falso eu é uma identidade que nos forçamos a encarnar, baseados em nosso condicionamento dentro de uma cultura heterossexista. Crescemos com fortes mensagens que são contrárias a nosso verdadeiro eu” (WEST, 2008).

O assumir-se faz parte do discurso da fé inclusiva como algo que liberta o

individuo. Esta identificação é reforçada pelo reconhecimento da benção divina que alcança a todos os seres criados, entre eles, os de diferentes orientações sexuais.

Quando assumimos que somos parte da comunidade LGBT, lésbico- gay, bissexual e transexual, e reconhecemos quem somos na realidade e para que temos sido criados, é um desses momentos “libertadores” em nossa vida espiritual. Os momentos em que assumimos, são momentos de convites que sucedem ao longo de nossa vida, e nos quais alcançamos a capturar chispas de nossa verdadeira natureza divina: o autêntico e verdadeiro ser que é a imagem de Deus em nós. (WEST, 2008)

Há um contraste entre a visão de “libertação” de grupos evangélicos pentecostais com a visão de “libertação” dos grupos inclusivos. A “libertação” inclusiva é uma forma de afirmação do sujeito enquanto em algumas religiões é uma luta contra os poderes das trevas, uma batalha espiritual.

Mas a luta travada continua sendo uma batalha espiritual, pois como já dissemos anteriormente a sexualidade é vista dentro da espiritualidade. Os demônios são a sociedade que oprime, as outras religiões que discriminam e tudo aquilo que vai contra esta maneira de ser e viver das igrejas inclusivas.

A religião sempre exerceu um papel regulador da moral nas sociedades: “A

verdadeira religião, desde os tempos mais remotos, está enraizada nos valores morais da comunidade” (DOUGLAS,1991, p. 29). Mais não podemos pensar na religião apenas pelos seus aspectos morais, pois a existência deles não era apenas para uma vivencia transcendental dentro da própria religião, ou seja, o objetivo não era apenas a salvação das almas, mas a preservação da ordem social e seu bem estar do povo.

Compreendemos então que: “A religião antiga não é mais que um aspecto da ordem social que regula tanto os deuses como os homens” (DOUGLAS,1991, p. 33).

90

No relacionamento homoafetivo a mesma moral sexual vivenciada por heterossexuais é assumida por casais homossexuais, assim: “A promiscuidade e o anonimato afetivo-sexual, o recurso à compra de serviços sexuais ou a opção celibatária tendem a ser visto, também entre gays e lésbicas, como sinais de desvio ou desajustamento social” (MELLO, 2005, p. 46).

As Igrejas Inclusivas acabam por tornar-se parte das Redes de homossocialidades, ou seja, lugares onde os homossexuais podem conviver com outros

homossexuais. Determinados espaços tornam-se territórios “[

relacionamentos podem se afirmar num regime de luz e palavra menos rareado, com

menos perda de expressividade” (GROSSI, 2007, p.38).

os

]

onde

“Muitos se referem aos lugares ´gays` como lugares de conquista, lugares para quem está solteiro, e portanto migram dos guetos para lugares menos saturados sexualmente” (GROSSI, 207, p. 39).

A igreja não é um lugar propriamente para este tipo de relações muito embora não estão isentas delas. Prova disto é que casais que receberam a benção de união permanecem vinculados às igrejas e alguns se conhecem e começam um relacionamento a partir deste convívio.

Na sua análise acerca dos rituais religiosos, Roger Bastide sustenta que a religião não começa com um sistema de crenças e sim com um conjunto de ritos. Ele fala ainda sobre vários tipos de ritos, como: ritos de separação, ritos de margem que regulam o período de transição e ritos de agregação.

Falando sobre a importância dos ritos de passagem Anthony Giddens (2002, p. 188) observa: “Ritos de passagens põem as pessoas envolvidas em contato com forças cósmicas mais amplas, que relacionam a vida individual e questões existenciais mais abrangentes”.

91

Durkheim (1983, p.208) entende que os ritos constituem parte importante para a compreensão das religiões e afirma:

Na base de todos os sistemas de crenças e de todos os cultos deve necessariamente haver um certo numero de representações fundamentais e de atitudes rituais que, malgrado a diversidade das formas que umas e outras puderam revestir, em todas as partes tem a mesma significação objetiva e em todas as partes preenchem as mesmas funções. São estes elementos permanentes que constituem o que há de eterno e de humano na religião; eles são todo o conteúdo objetivo da idéia que se exprime quando se fala da religião em geral.

Mary Douglas (1991, p.80) resume da seguinte forma: “Enquanto animal social, o homem é um animal ritual”.Um dos ritos presentes em praticamente todas as religiões, e fazem parte também das igrejas inclusivas, são os ritos de purificação entre eles o que se denomina “batismo”. A idéia que é passada é a de purificação de algo que era impuro, e que precisa então ser lavado. “A nossa idéia do impuro é fruto do cuidado com a higiene e do respeito pelas convenções que nos são próprios” (DOUGLAS,1991, p. 19).

Neste rito de purificação está presente a noção de eliminação do mal, que é considerado uma potência que entrou no individuo, independentemente de sua

“[

vontade, devendo ser, portanto, expulso” (BASTIDE, 1990,p 60). O meio mais conhecido de realização de tal ritual é o banho que pode ser feito por aspersão, imersão ou efusão, mas em todos os caso a água e seu simbolismo de limpeza está presente.

]

Esta limpeza, ou purificação está situada num plano muito maior que o material. A valorização da água na experiência religiosa vem de longa data, e está a ligada a crença segundo a qual o Universo e todas as coisas teriam nascido das águas.

Assim este símbolo se reveste de significados, explicados da seguinte forma

a imersão na água simboliza a regressão ao pré-

formal, a reintegração no modo indiferenciado da preexistência. A emersão repete o gesto cosmogônico da manifestação formal; a imersão equivale a uma dissolução das

por Mircea Eliade (2008, p.110): “[

]

formas”.

92

O rito do batismo simboliza a morte e o renascimento e percebe-se que para os adeptos das religiões inclusivas tais experiências são marcantes nas suas vidas, pois servem como referências para novos começos e novas realidades a partir do batismo. Há especialmente entre os pentecostais relatos até mesmo de experiências sobrenaturais, como visões, e curas milagrosas associadas ao ritual.

Um outro rito que pode ser encontrado na maioria das religiões é o rito de união, ou sacrifício. Bastide (1990, p. 62) define assim este rito:

O sacrifício é um ato ritual, envolve a destruição de um objeto sensível, dotado de vida ou que se julga conter vida capaz de influenciar as forças invisíveis, seja por se furtar ao seu alcance ou por procurar satisfação e homenagem, seja para entrar em comunicação e mesmo em comunhão com elas

Um dos aspectos do sacrifício presentes nas igrejas católicas e evangelicas e seguido pelas igrejas inclusivas é o ritual da Ceia, que traz a idéia de comunhão com a divindade e entre os fiéis, ao comerem todos a mesma refeição. Mas as funções dos ritos não são apenas religiosas, são também sociais, pois: “Os bens pedidos aos deuses, por seus intermediários são bens coletivos: O trigo, a vitória e a fecundidade dos rebanhos” (BASTIDE, 1990, p. 69).

As festas sagradas cumprem a mesma função e estão envoltas em uma série de

rituais. Por exemplo, o Natal e a Páscoa, são festas que tem como objetivo a “[ ]

reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico [

2008, p. 63). Os ritos e todo seu simbolismo permanecem e são transmitidos de geração a geração elaborando este rememoramento, fato fundamental na legitimação das construções religiosas.

]” ( ELIADE,

Acerca deste processo Rubem Alves (2001, p.40) afirma: De tanto serem repetidos e compartilhados, de tanto serem usados, com sucesso, à guisa de receitas, nós o reificamos, passamos a tratá-los como se fossem coisas. Todos os símbolos que são usados com sucesso experimentam esta metamorfose”

93

Mircea Eliade (2008, p. 64) conclui dizendo:

O homem religioso vive assim em duas espécies de Tempo, das quais

a mais importante, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto

paradoxal de um tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos.

O mito por sua vez tem significado especial para a esfera religiosa, pois através deles fatos passados são narrados e explicações acerca da origem de todas as coisas. “Cada mito mostra como uma realidade veio à existência, seja ela a realidade total, o Cosmos, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, uma instituição humana” (ELIADE, 2008, p. 86).

Assim nos mitos encontramos as respostas quanto à origem e função das coisas. Os mitos dão significados e sentidos as experiências humanas, Mircea Eliade (2008, p.86) sustenta: “A função mais importante do mito é, pois, fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas:

alimentação, sexualidade, trabalho, educação, etc”.

A fé inclusiva ao invés de romper com os mitos ou criar novos faz uma releitura dos existentes. Desta forma as igrejas inclusivas querem permanecer ligadas a fé cristã e toda uma série de construções históricas sem, contudo ter que aceitá-las plenamente, olhando para elas sempre com um olhar critico.

Antônio Moser (2001, p.18; HIGHWATER, 1992) observa que os mitos “[

]

não nos lançam propriamente para a origem dos tempos, mas nos convidam a mergulhar

na raiz mais profunda do humano e de suas questões mais fundamentais”.

Na mitologia das religiões se encontram presentes elementos que nos ajudam a compreender melhor as diferentes formas de se compreender a vida em todos os seus aspectos. “Nesta perspectiva, a rigor, na mitologia, a sexualidade não é propriedade dos seres humanos nem dos demais seres, mas é propriedade exclusiva dos deuses” (MOSER, 2001, p. 21)

94

Os símbolos fazem parte da história humana são formas de trazer o infinito para o finito. Mesmo reconhecendo suas limitações não podemos negar as funções extremamente benéficas por eles conferidas.

Rubem Alves (2001) disse que a religião é uma “teia de símbolos”, e acrescenta: “Símbolos assemelham-se a horizontes. Horizontes: onde se encontram eles? Quanto mais deles nos aproximamos, mais fogem de nós. E, no entanto, cercam- nos atrás, pelos lados, à frente. São o Referencial de nosso caminhar” (ALVES, 2001, p.

23).

95

4.3 Um Estudo de Caso de Igreja Inclusiva

IGREJA DA COMUNIDADE METROPOLITANA DE SÃO PAULO

O meu primeiro contato com a Igreja da Comunidade Metropolitana de São

Paulo (ICM) foi através do seu site na Internet. Como eu estava procurando informações sobre igrejas inclusivas na Cidade de São Paulo, surgiu então o interesse em conhecer mais um pouco desta comunidade.

Fiz meu primeiro contato no dia 27 de fevereiro de 2008, era uma quarta-feira, dia em que na igreja acontece o atendimento pastoral. Telefonei antes para a igreja e falei com o Reverendo Cristiano que me atendeu com toda a atenção e me convidou então para ir até o local onde a igreja se reunia para podermos conversar.

Em uma conversa de quase uma hora e meia apresentei meu projeto de mestrado que na época ainda estava sendo finalizado e por parte do Reverendo Cristiano houve uma atenção muito grande e toda a abertura para a realização da pesquisa junto a ICM.

O Reverendo fez um resumo da história da ICM explicando a forma como sua

igreja estava sendo filiada a FUICM (Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana). No inicio eles eram um grupo que se reunia e várias etapas foram sendo

cumpridas até o momento da filiação com a FUICM.

A ICM foi fundada em 1968, nos EUA, pelo Reverendo Troy Perry, esta em

mais de 29 paises do mundo e se estabelece agora no Brasil com igrejas e missões em várias cidades. Existe a compreensão que ela nasce antes no coração das pessoas que desejam ter um lugar saudável e seguro para adorar a Deus.

96

A Igreja está ligada a FUICM (Fraternidade Universal das Igrejas da

Comunidade Metropolitana) por meio da Região 6, que abrange toda a América Latina,

e Sul dos EUA, e é coordenada pela Reverenda Bispa Darlene Garner. 6

Entre os dias 5 e 9 de julho de 2008 a igreja recebeu a visita da Reverenda Darlene Garner e do Reverendo Hector Gutierrez, Diretor de Desenvolvimento Ministerial para a América Latina. Esta visita marcou o reconhecimento da Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo como membro da FUICM e o recebimento do Pastor Cristiano Valério como Clérigo da FUICM.

A Comunidade

preparou

uma

celebração

especial

que

foi

realizada

no

Auditório Azul do Edifício Martinelli, no Centro de São Paulo.

A ICMSP é formada hoje por cerca de 50 membros, um grupo heterogêneo de

homens e mulheres, nas diferentes orientações sexuais. Os membros se dividem entre negros e brancos, e na sua maioria jovens.

O TEMPLO

A Comunidade se reúne em seu templo localizado no 3º andar de um prédio na

Rua Conde de São Joaquim, 179 - Centro - São Paulo – SP, o local fica próximo a estação São Joaquim do Metrô.

O local é simples e ao mesmo tempo aconchegante. Antes de entrar no templo

existe uma sala que serve para a confraternização após o culto. Ao término dos cultos os membros partilham um lanche e aproveitam para um momento de maior socialização.

No local dos cultos, dispostas num espaço pequeno, várias cadeiras onde os membros se assentam, e na frente os instrumentos musicais, uma mesa que é o altar, com alguns objetos: Bíblia, Candelabro, Bandeja da Ceia, Pão, Taça de vinho, duas

6 Disponível em http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=12&Itemid=26 Acessado em 30 de setembro de 2008.

97

velas amarelas acesas. A frente um pequeno púlpito de onde o dirigente fala e depois o pregador anuncia a mensagem.

ATIVIDADES SEMANAIS

A comunidade se reúne aos domingos às 18h00 para Louvor e Adoração. Nestes cultos os fiéis cantam, fazem orações, ouvem a pregação da palavra, e participam da Santa Ceia. É um encontro semanal especial, pois muitos dos que não podem estar envolvidos nas atividades da semana encontram neste dia o momento de comunhão com Deus e com os irmãos.

Nas quartas-feiras acontece o Plantão de Atendimento Pastoral das 15h30 às 19h00. Neste espaço de tempo o Reverendo Cristiano se coloca a disposição para orientação, aconselhamento, enfim, atender espiritualmente os membros da igreja, e outros não membros que procuram este serviço.

A comunidade realiza ainda alguns encontros de oração durante a semana na casa de seus membros, uma oportunidade para aumentar os laços de fraternidade e crescer na fé que professam. Outras atividades sociais acontecem com o objetivo de criar um vinculo maior com os moradores ao redor da igreja, entre elas, Festa para as Crianças no Dia 12 de Outubro, Festa Junina, Bazar Beneficente, etc.

Há também exercício de misericórdia por membros que formam um grupo de visitação a pessoas enfermas, em especial, pacientes de HIV abandonados por seus familiares.

98

TEOLOGIA E DOUTRINAS

A comunidade se apresenta como uma Igreja Cristã Inclusiva que anuncia o

amor de Deus a todos.

“Somos uma comunidade de pessoas que compartilham do desejo de viver a mensagem de Jesus de forma a incluir, e não excluir; curar, e não ferir; pacificar, e não guerrear; encorajar, e não desanimar; libertar, e não aprisionar; incentivar a liberdade e criatividade de pensamento, e não exigir fé cega em credos religiosos. Buscamos amar o mundo como Deus o faz, seguindo o caminho de Jesus, sensíveis aos ventos do Espírito Santo, buscando discernir a Voz de Deus na tradição bíblica, e o mover do mesmo Deus no contexto de nossa cultura”. 7

A mensagem pregada é a de salvação da exclusão, apresentando Jesus como o

Salvador dos excluídos. Um dos pré-requisitos indispensáveis para ser aceita na Fraternidade Universal das ICM é ser uma igreja inclusiva, ou seja, não pode haver nenhum tipo de discriminação.

Uma igreja que aceita gays e lésbicas apenas, não é igreja inclusiva, pois pode praticar outros atos discriminatórios. A aceitação pela ICM na FUICM somente acontece se a igreja for inclusiva de fato.

A ICM afirma adotar como princípios de fé, os ensinamentos dos Apóstolos e

os Credos históricos: o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno 8 .

7 Disponível em

<http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=12&Itemid=26> Acessado em

10 de maio de 2009.

8 Disponível em <http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=13&Itemid=27> Acessado em

99

O credo apostólico é uma das mais antigas Confissões de fé dos cristãos, e

trazem um resumo histórico das verdades por eles professadas nos primeiros séculos da

igreja:

Creio em Deus, todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao inferno, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus-Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Cristã, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém. (COSTA, 2002, p. 39).

O Credo Niceno foi elaborado em 325 AD e também faz parte das confissões

de fé das igrejas tradicionais:

Cremos em um só Deus, o Pai Todo-poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado como o Unigênito do Pai, isto é, da Substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus Verdadeiro Deus Verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai; mediante o qual todas as coisas foram feitas; tanto as que estão nos céus, como as que estão na terra; o qual por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou, e se fez homem e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente virá para julgar os vivos e os mortos”(COSTA, 2002, p. 39).

Com esta afirmação a ICM se une as tradições cristãs na sua profissão de fé, e declara sua crença em um Deus pessoal e Trino. Eles crêem na divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Afirmam crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada divinamente. Crêem na justificação pela graça através da fé em Cristo Jesus.

A ICM afirma também crer que a Igreja serve para aproximar todas as pessoas

de Deus, por meio de Jesus Cristo. Com esta finalidade, a ICM organiza serviços regulares de adoração, oração, estudo das Escrituras e edificação, através do ensinamento e pregação da Palavra e ministração dos santos Sacramentos: Batismo e Santa Ceia.

100

O Batismo é considerado na ICM um sacramento, e pode ser ministrado de diferentes maneiras, por aspersão ou por imersão dependendo de cada igreja. Esta abertura litúrgica está baseada no fato de que todos tem direito ao batismo, e o fato de aceitar apenas o batismo por imersão nas águas, poderia excluir idosos, inválidos ou enfermos.

No projeto do Reino de Deus não há lugar para legalismos, acepção de pessoas, exclusões, etc. Nele (no Reino), todos têm acesso irrestrito à graça e amor de Deus, seja ele, homem, mulher ou criança. O batismo com água foi introduzido na comunidade cristã para que todos(as) tivessem pleno acesso ao Reino de Deus, especialmente os excluídos

Lc

da sociedade: o estrangeiro, a mulher, o gay, a lesbica e etc 18. 15-17; At 10. 45-47). 9

(cf.

MISSÃO, VISÃO, VALORES

Dentro do conceito comumente utilizado, Missão é a razão de existir da organização, enquanto Visão é a sua projeção futura. A declaração de missão é redigida junto com a declaração de visão. Os valores da organização são seu conjunto de doutrinas, padrões éticos e princípios (CARVALHO, 2002).

Podemos conhecer um pouco mais da estrutura organizacional da ICM através da sua declaração de missão, visão e valores 10 .

A ICM define sua razão de existir da seguinte forma:

9 Disponível em http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=14&Itemid=29 Acessado em 10 de maio de 2009. 10 Disponível em <http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=16&Itemid=28> Acessado em 10 de maio de 2009.

101

“Nossa missão é transformar corações, vidas e histórias. Somos um movimento que proclama fielmente o amor inclusivo de Deus para todas as pessoas e orgulhosamente anunciar que há vida Plena e Nova em Cristo Jesus para gays e lésbicas, sem distinção”. Assim como Jesus o fez, nós somos chamados a: Fazer justiça, mostrar bondade e viver humildemente com Deus (Mq 6,8); Explorar as perguntas e as respostas da vida; Elevar nossas vozes em um santo desafio contra a exclusão religiosa (e política ou econômica, ou social); Chegar até quem não tem esperança; Conformar novas gerações de extraordinários ativistas espirituais de longo alcance.

Sua projeção futura é estabelecida em alguns pontos dentro da declaração de

visão:

Reclamamos nossa santa identidade: Como ICM, cremos que inclusive em nossa humanidade, somos santos. Fomos libertados das definições que outras pessoas têm de quem somos. Fomos feitos tanto de corpo como de espírito. Cremos que nossa sexualidade é um santo dom de Deus para que não deixemos fora nossos corpos de nossa experiência com Deus. Somos pessoas que orgulhosamente participamos na comunhão do corpo e do espírito. Antecipamos nosso chamado à Justiça e Ação Social. Como ICM, cremos que Jesus esteve na vanguarda em atos de compaixão e de justiça. Como temos sido pessoas marginalizadas pela sociedade, compreendemos por inteiro a graça que Deus nos estendeu. Buscamos distanciarmo-nos da exclusão e aproximarmo-nos da inclusão de todos e todas que estão marginalizados de alguma forma. Decididamente, somos solidários com quem resiste às estruturas de exclusão, tal como fez Jesus, e trabalhamos para assegurar a liberdade para todas as pessoas. Revelamos a história da Graça Transformadora de Deus. Na ICM, chegamos tal e como somos ante Cristo e somos transformados pelo que encontramos. Experimentamos um Deus com braços abertos, que nos convida a todos e a todas a levar a santa jornada de fé e transformação. Crescemos em nossa fé e afirmamos que nosso lugar na sociedade tem aumentado nosso lugar na Família de Deus. Somos uma das muitas vozes de Deus que, até agora, se perdeu na exclusão! Cuidamos do valor da Comunidade. Na ICM, cremos que nosso máximo ministério está no mundo. Sabemos que para prepararmos para um serviço radical que mude vidas, devemos prepararmos na segurança de uma comunidade que nos apóie. Aspiramos viver uma mensagem que rejeite a idéia de que alguém esteja excluído ou excluída da família de Deus.Construímos pontes que Libertam e Unem. Na ICM, experimentamos a destruição da alma que resulta da retórica cheia de ódio. Ao reparar nossas almas, encontramos que nossas vozes verbalizarão a libertação que se transmite através da paz, do amor, do respeito e da graça. Como seguidores de Jesus, cremos no santo privilegio de cada pessoa, chamada a trabalhar por sua própria salvação. E ainda que sejamos uma igreja Cristã que segue a Jesus, respeitamos a quem têm outras tradições religiosas e trabalhamos junto com eles e elas para libertar àqueles e àquelas que estão oprimidos pelo ódio, o desprezo e a violência”.

102

Os princípios, as crenças nas quais a ICM se apóia para orientar suas ações são descritas assim:

Nossos Valores: Inclusão- O Amor é nosso maior valor moral e a resistência frente a exclusão é o enfoque básico de nosso ministério. Desejamos seguir sendo os conduto de uma fé onde cada pessoa esteja incluída na família de Deus, e onde todas as partes de nosso ser sejam bem vindas a mesa de Deus. Comunidade- O oferecer uma comunidade saudável e para que as pessoas adorem, aprendam e cresçam em sua fé, é nosso profundo desejo. Estamos comprometidos a prepararmos a si mesmos e reciprocamente para fazer o trabalho a que Deus nos chamou a fazer no mundo. Transformação Espiritual- Brindar uma mensagem de libertação do opressor ambiente religioso de nossa época, o a quem experimentam a Deus pela primeira vez, é o que guia nosso ministério. Cremos que quando as pessoas são convidadas a experimentar Deus através da vida e o ministério de Cristo, as vidas serão transformadas. Ação Social- Ao trabalhar e falar menos e fazer mais, estamos comprometidos em resistência frente as estruturas que oprimem as pessoas e em respaldo a quem sofre o peso dos sistemas opressivos, sempre guiados por nosso compromisso aos Diretos Humanos no Mundo”.

O conceito de santidade é importantíssimo nesta declaração e revela a crença da ICM na santidade de seus membros. Esta santidade não é dicotômica, está ligada ao corpo e ao espírito fazendo com que sexualidade e espiritualidade se unam numa dimensão de vida envolvida pela santidade divina. A teologia inclusiva tem como premissa básica a aceitação da sexualidade como uma ordenação divina.

A LITURGIA

A Liturgia é aberta e cada comunidade associada a FUICM poderá ter características diferentes ou mesmo diversas. No caso da ICM de São Paulo a Liturgia é eclética conforme sua própria definição: “Temos a riqueza do culto anglicano e a singeleza da liturgia presbiteriana tradicional. Temos a exuberância da assembléia pentecostal e o silêncio da reunião tradicional – ambas destacando, de um modo

103

contrastante, sua doutrina peculiar do Espírito Santo. Tanto umas quanto outras são legítimas formas de adoração”. 11

Em maio de 2009 participei de dois cultos na ICM e pude observar mais de perto seus aspectos litúrgicos. O culto começa às 18h00 com um período de louvor onde várias canções são entoadas, músicas conhecidas de Grupos Evangélicos e que comumente são cantadas nas outras igrejas evangélicas.

O louvor alegre e contagiante faz com que os participantes se envolvam numa esfera de transcendência que levam alguns a se emocionarem enquanto cantam. Este período é caracterizado como adoração não sendo apenas um momento de cantar mais de se relacionar com Deus. O louvor cumpre duas funções: adoração a Deus e receber benção de Deus através desta adoração.

Notamos claramente a subjetividade e objetividade que caracteriza estes momentos, em que anseios internos são satisfeitos e uma ação externa se revela na presença desta nova consciência tomada. Os cânticos trazem ao mesmo tempo conforto diante das experiências conflituosas vividas e força interna para reagir diante das mesmas.

Enquanto cantam o acompanhamento é feito por um membro tocando teclado e três membros que dirigem a igreja na adoração. A alegria e o envolvimento daqueles que dirigem os cânticos é passada para a igreja que acompanha no ritmo de palmas e algumas coreografias relacionadas as canções.

Dentro das experiências religiosas observadas, nota-se apenas a presença de

quando a pessoa percebe conscientemente a

experiências responsivas, ou seja, “[ presença e a relação com o divino”.

]

experiência de

comunhão e arrebatamento diretos com e em Deus, na qual o amor e a intimidade

Observa-se a ausência de experiências de êxtase, que é a “[

]

11 Disponível em <http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=14&Itemid=29> Acessado em 10 de maio de 2009.

104

tomam proporções que a destacam inteiramente do que se experimenta no dia a dia” e

em seu

coração, como a torna confidente direta de seu pensamento e afeto, revelando-lhes seus desígnios e seu amor” (VALLE, 1998, p. 68-69).

de experiências de revelação quando “[

]a divindade não só assume a pessoa

A musica contribui para preparar o ambiente para a recepção da palavra, dos

sacramentos, para oração, enfim, ela serve para desencadear tanto emoções como equilíbrio mental. Depois deste momento alguns irmãos que haviam se inscrito antecipadamente, são chamados a frente para dar testemunhos sobre algumas bênçãos recebidas. Aquilo que acontece nas suas vidas eles agradecem a Deus como algo que veio diretamente dele.

O culto é participativo e envolve vários membros da comunidade. Longe de ser

algo alienante a religião passa a ser vista como uma força de integração dos sujeitos na

comunidade em que estão inseridos. A fé não está limitada aos espaços de culto, transcendendo para as realidades da vida concreta. A concepção de fé do grupo os leva a ações na direção de justiça, igualdade, e fraternidade.

Na preparação para receber a pregação é feita a leitura do evangelho onde se lê uma passagem bíblica e depois de uma canção o Reverendo vai ao púlpito e anuncia a mensagem. De forma amável e ao mesmo tempo séria e contextualizada o pastor apos ler um texto bíblico, faz a pregação que dura cerca de 30 minutos.

O pastor enfatiza que todos os filhos de Deus devem ter uma vida constante de

oração e que isto é possível pela presença de Deus em todos os lugares. Após o sermão

é cantada mais uma canção e então o pastor ministra o sacramento da Santa Ceia.

A Santa Ceia é celebrada todos os domingos e é aberta a todos que quiserem

participar inclusive crianças e visitantes. Só não pode haver a imposição para a criança

participar, mas se ela estender a mão e quiser ela pode.

Em relação ao termo “sacramento”, ele é usado pela Igreja Católica, que “[ ] ensina que esses sacramentos em si mesmos realmente concedem graça ao povo (sem exigir fé dos que participam)”(GRUDEM, 1999, p. 814), e outras igrejas utilizam o

105

termo sem endossar esta posição, enquanto algumas igrejas protestantes preferem o uso da palavra ordenança.

Neste momento após dizer algumas palavras de orientação ele convida a todos que participem e enfatiza que ninguém deve ficar de fora, pois nas escrituras quando Jesus instituiu a Santa Ceia nem Judas que seria o traidor e nem Pedro que o negaria ficaram de fora, todos participaram, assim todos deveriam participar daquele momento.

Neste momento vão a frente além do pastor mais um diácono, e cinco membros, três homens e duas mulheres, eles auxiliam na distribuição da Ceia. Pão sem fermento e vinho são os elementos utilizados para esta cerimônia, o pão que foi partido anteriormente pelo Reverendo e o vinho dentro de uma taça.

Alguns membros participam deste momento, e ajudam segurando o pão e o vinho, enquanto os participantes fazem uma fila e na medida que passam pegam o pão, molham no vinho e comem, em seguida se dirigem a um dos irmãos que foram convidados para auxiliarem nas orações, e do pastor, onde recebem uma oração e voltam aos seus lugares. Tudo acontece com muita ordem, os que recebem a oração voltam aos seus lugares e aguardam, alguns se ajoelham e oram, enquanto o grupo de louvor canta canções de fundo.

Durante o culto são recolhidas ofertas e dízimos para a manutenção dos trabalhos da igreja. Envelopes dispostos nas cadeiras são utilizados para este momento. Antes de encerrar o culto acontece mais uma oração e em seguida os avisos e uma benção final.

Na sala ao lado é servido um lanche para os membros que aproveitam para conversar e se confraternizar. Dos presentes, cerca de 50 pessoas, havia homens, mulheres e crianças. Casais formados por homens e casais formados por mulheres sentam juntos e acompanham o culto. Os membros e participantes são na sua maioria jovens entre 20 e 50 anos.

106

EXEMPLO DE MODELO LITURGICO

Roteiro Celebrativo – Celebração do Natal do Senhor 12

Acolhida: Irmãos, Deus entra na história do ser humano, nasce para nós o Salvador. Hoje é dia de boas notícias, pois a história toma rumo novo, manifestando a

solidariedade do Deus fiel. “Glória a Deus no mais alto dos céus!” Sua glória é ação concreta repercutindo na terra, trazendo para todos a paz. Envolto em faixas e colocado na manjedoura; envolto em um lençol e colocado no sepulcro; feito pão e vinho e posto

a serviço dos que ele ama: assim é o nosso Salvador, o Messias e Senhor, aquele que

não reservou para si sua própria vida, mas a entregou a fim de nos resgatar e purificar, tornando-nos seu povo, dedicado a praticar a justiça. Portanto, Cheios de alegria natalina, cantemos:

Vinde, cristãos Vinde, cristãos, vinde à porfia, hinos cantemos de louvor, hinos de paz e de alegria, hinos dos anjos do Senhor:

Foi nesta noite venturosa do nascimento do Senhor, que anjos, de voz harmoniosa, deram a Deus o seu louvor:

Vinde juntar-vos aos pastores, vinde com eles a Belém! Vinde, correndo pressurosos; o salvador, enfim, nos vem!

Saudação (todos): “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu

o poder sobre seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro maravilhoso, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is. 9,5)

Momento penitencial:

Tudo que eu tenho a te ofertar

É um quebrantado coração

Eu queria ter muito, muito mais Mas tudo o que eu tenho

12 Disponivel em

<http://www.icmbrasil.com/portal/index.php?view=article&catid=35%3Aliturgia&id=59%3Anatal&opti

on=com_content&Itemid=82>

Acessado em 10 de maio de 2009.

107

É um quebrantado coração. Um quebrantado coração Move o coração de Deus Um quebrantado coração Traz o céu pra nós.

Momento de louvor: Glória Glória a Deus no mais alto dos céus, haja paz entre os homens no Seu amor. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Glória pela união do amor na Trindade Santa. (bis) Glória a Deus por Cristo Jesus. Que Seus anjos em coro Lhe rendam louvor. Ao Cordeiro que reina, com o Pai que é Senhor, adoramos Seu Nome, Rei dos reis.

1ª Leitura: Is. 9: 1-6 Salmo de meditação - do Sl. 98. (de preferência cantado) Todos: Toda a terra viu o Salvador, Cristo, nosso Deus! Cantai ao Senhor um cântico novo, pois ele fez maravilhas, sua direita nos salvou e seu braço santo nos levantou. O Senhor fez conhecer a salvação e as nações revelou sua justiça, lembrou-se do seu amor e fidelidade em favor da casa de Israel. Os confins da terra contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai ao Senhor, terra inteira, daí gritos de alegria! Tocai para o Senhor com a harpa e o som dos instrumentos, com trombetas e o som das cornetas, aclamai ao rei Senhor!

2ª Leitura: Hb. 1:1-6 Canto de aclamação: Aleluia, aleluia, aleluia. (2x) Quando estamos unidos, estás entre nós e nos falarás da tua vida. Este nosso mundo sentido terá Se tua palavra renovar.

Evangelho: Lc. 2,1-14 Meditação: Homilia Canto: Meu coração é para Ti, Senhor (3x) Meu coração é para Ti.

108

Porque Tu me deste a vida Porque Tu me deste o existir Porque Tu me deste o carinho Me deste o amor (2X)

Oração da Comunidade (Orações de súplica de forma livre entre os irmãos)

Pai-nosso Ceia do Senhor: Agradeçamos ao Pai por seu dom aos homens: Jesus Salvador, que traz paz e reconciliação. Interiormente renovados em seu Espírito, professamos nossa adesão a Jesus, primogênito da nova humanidade e da nova criação. Participando da ceia do Senhor, sabemos que cresce em nós a misteriosa comunhão de vida com Deus, pela qual somos chamados, e realmente somos, filhos de Deus. Assim sendo, oremos

juntos:

“Nós te aclamamos, ó Santo Senhor, glorioso em poder. Pois quando o vosso Filho se fez homem, nova luz da vossa glória brilhou para nós, para que, vendo a Deus com

nossos olhos, aprendêssemos a amar o que não vemos. Ele no mistério do Natal que celebramos, invisível em sua divindade, gerado antes dos tempos, entrou na história da humanidade e, erguendo em si o mundo decaído, restaurou a integridade do universo para chamar novamente ao reino celeste o homem que se perdera. E, para cumprir o teu propósito, Jesus a si mesmo se entregou à morte e renovou toda a criação.

E nós vos pedimos, ó Deus, que estas oferendas realizem em nós o mistério do Natal.

Como em Jesus, recém-nascido, resplandecem o homem e Deus, assim possam estes

frutos da terra trazer-nos o que é divino.

E na última ceia com seus apóstolos, após dar graças, tomou o pão e disse:

‘Tomai todos e comei. Isto é o meu corpo que será entregue por vós’

E tomou o cálice e disse:

‘Tomai e bebei vós: Este é o cálice da nova aliança em meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em minha memória’

(Oração retirada do Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana) Senhor Deus, celebrando de todo o coração o nascimento do vosso Filho, dai-nos a graça de aprofundar nossa fé em tão grande mistério e crescer cada vez mais em seu amor, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina,

109

nos conceda também sua imortalidade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém! Felizes somos nós os convidados para a ceia do Senhor! Irmãos, tomemos desta ceia com Amor e entrega a Jesus, que faz em nós sua morada.

Ceia do Senhor: Vim Para Adorar-Te Luz do mundo vieste à terra Pra que eu pudesse te ver Tua beleza me leva a adorar-te Quero contigo viver Vim para adorar-te Vim para prostrar-me Vim para dizer que és meu Deus És totalmente amável Totalmente digno Tão maravilhoso para mim Eterno rei exaltado nas alturas Glorioso nos céus Humilde vieste à terra que criaste E por amor pobre se fez

Momento de silêncio para interiorização Avisos Abraço da Paz!

110

ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO

A ICM está presente no Brasil com uma igreja em São Paulo e outra em Belo

Horizonte. Há também algumas missões nas cidades de Vitória/ES, Fortaleza/CE, Águas da Vida - Umuarama – PR e um Grupo em Divinópolis/MG. No Manual do Clero estão diversas orientações para a liderança da igreja.

A Igreja acredita no sacerdócio de todos os santos, o que significa que cada

membro é chamado para exercer o ministério de acordo com o seu dom. Assim distingue-se entre ministério leigo e ministério ordenado, para o qual o membro passará pelo Rito de Ordenação após cumprir todos os requisitos estabelecidos pela FUICM.

Neste caminho a igreja local deverá reconhecer no candidato à ordenação as condições necessárias, podendo inclusive não haver o reconhecimento da igreja e conseqüentemente a pessoa não ser ordenada.

Existe um Código de Conduta e Disciplina para os Clérigos da ICM. Nele esta uma noção de ética comportamental que está estabelecida no Manual do Clero da ICM. Em relação a disciplinas o Manual orienta: “Alguns comportamentos são implicitamente ilegais e/ou imorais, o que constitui violações éticas e resultarão num processo de julgamento cujo resultado final pode ser uma suspensão e/ou perda da licença. Alguns comportamentos e atitudes são antiéticos pelos nossos padrões e comprometem nossa capacidade de atuar e oferecer ministério”.

Na ética profissional dos ministros da ICM exige-se honestidade, confidencialidade, não violência, administração financeira responsável, responsabilidade sexual, uso responsável da autoridade pastoral, serviços profissionais, Exercício de Etiqueta Profissional nas Relações Colegiais, Comprometimento com a Recuperação de Dependentes (álcool, drogas, etc), Aliança com a ICM.

111

Quanto a responsabilidade Sexual, existe a Política de Má Conduta Sexual 13 :

Desde que a ICM foi fundada, ela oferece uma voz contrária à negatividade sexual da cultura judaico-cristã. Portanto, a Política de Má Conduta Sexual da FUICM deve, por outro lado, reconhecer o risco de má conduta sexual, enquanto evita o risco de descorporeizar os/as líderes que são chamados/as a ser modelos de saúde e plenitude, incluindo plenitude sexual. Que seja afirmado que o sexo é um presente de Deus. O valor divino do sexo inclui, mas não se limita ao prazer, procriação, comunicações íntimas, graça e amor. O dom divino da sexualidade deve ser abraçado de forma responsável por todas as pessoas, estejam elas solteiras ou casadas, sejam elas leigos/as ou clérigos/as. Uma ética sexual completa e responsável está além das respostas heterossexuais tradicionais e abraça a beleza dos relacionamentos entre pessoas das mais diversas orientações sexuais e identidades de gêneros.Uma ética sexual positiva equilibra o desejo dentro de um contexto corpóreo dos nossos seres emocional, físico, sexual e espiritual, enquanto preserva e honra a mutualidade e o consentimento.Seguem alguns exemplos de certos comportamentos que podem constituir má conduta sexual:1. Contado sexual com menor é má conduta sexual;2. Abuso sexual ou molestamento sexual a qualquer pessoa, incluindo, mas não limitando ao envolvimento ou contato sexual com pessoa legalmente incapaz; 3. Assédio sexual a qualquer pessoa, incluindo aquelas envolvidas num relacionamento empregatício, mentoria ou coleguismo, incluindo, mas não limitando a humor ou linguagem sexualmente orientada, perguntas ou comentários sobre o comportamento sexual ou preferências não relacionados à qualificações para o emprego, contado físico não desejado, comentários inapropriados sobre vestimenta ou aparência física ou convites repetitivos para atividade social; 4. Uso do cargo, seja clérigo/a seja leigo/a, para exploração sexual é má conduta sexual. Exploração sexual é o desenvolvimento ou tentativa de desenvolver uma relação sexual com alguém com quem a pessoa tenha uma relação pastoral ou de supervisão. Uma “relação pastoral” é definida como uma relação entre um/a clérigo/a, um/a empregado/a ou um/a voluntário/a e uma pessoa que recebe supervisão direta, aconselhamento pastoral e/ou espiritual individual e fornece informação privilegiada e/ou confidencial ao/à clérigo/a, ao/à empregado/a ou ao/à voluntário/a. Pode acontecer de um/a clérigo/a, ou empregado/a ou um líder pastoral desenvolver um relacionamento sexual apropriado dentro do contexto do ministério da FUICM, inclusive na congregação onde serve. Tais relacionamentos devem acontecer entre pessoas entre as quais não há supervisão direta ou aconselhamento espiritual individual. Esses relacionamentos devem ser levados com extremo cuidado e com um espírito de discernimento.

A sexualidade não é vivida de forma livre se sem regras pela igreja, há normas e padrões para serem seguidos.

13 Documentos. Disponível em < http://www.icmbrasil.com/portal/> acessado em 20 de abril de 2009.

112

CELEBRAÇÃO

DE

HOMOAFETIVOS

BENÇÃO

DE

UNIÃO

DE

CASAIS

A ICM celebra a União Homoafetiva (Casamento) através do Rito de Benção

de União. Para participar desta celebração é necessário que o casal tenha uma união estável. Não é necessário ser membro da igreja para participar desta celebração, pois a mesma não é vista como um sacramento. A Igreja faz um registro em livro próprio e dá aos noivos um certificado.

A celebração de Benção de União, segue um rito comum em celebrações cristãs tradicionais: Entrada dos padrinhos, das noivas (os), mensagem, votos, troca das alianças, benção e oração final.

Em 24 de maio de 2008 às vésperas da Parada Gay foi realizada a I Celebração Coletiva de Benção de União de Casais Homoafetivos. A ICM se fez presente através de seu pastor o Reverendo Cristiano que celebrou na oportunidade o casamento homoafetivos de dois casais de mulheres e um casal de homens.

A liturgia segue o padrão das igrejas tradicionais, o Reverendo Cristiano recebe

os noivos, após faz uma oração em seguida as alianças são conduzidas ao altar e o Reverendo traz uma mensagem aos noivos. Os noivos repetem as palavras tradicionais:

“Recebe esta aliança em sinal do meu amor por ti e da minha fidelidade em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, após trocam a aliança e um beijo.

No final da cerimônia após orar invocando a benção, o Reverendo declara:

“Como ministro do evangelho de Jesus Cristo declaro esta união abençoada em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Neste ano de 2009 aconteceu no dia 13 de junho, véspera da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, a II Celebração Coletiva de Benção de União de Casais Homoafetivos e novamente a ICM se fez presente através de seu Pastor que realizou as celebrações. Este evento já se tornou uma das partes oficias da Parada Gay. A celebração ocorreu no Auditório do Sindicato dos Quimicos de São Paulo, na Rua Tamandaré, 348, Liberdade, São Paulo.

113

O Diácono Dário Ferreira, membro da ICM descreveu a mensagem aos noivos ocorrida na celebração deste ano 14 :

Reunimo-nos aqui hoje para a celebração do amor que dentro de uma perspectiva contratual propõe uma relação marcada pela fidelidade, pelo companheirismo mútuo, pelo ato de compartilhar na conjugalidade a felicidade social. E fosse apenas isto, estaríamos em apenas um dos milhões de eventos definidos como casamento. Esta noite e este evento trazem algo que repete o ano anterior: a benção cristã sobre o casamento homoafetivo. Essa particularidade que chama para si o interesse do público presente deve-se ao caráter transgressor deste momento. Na sociedade brasileira, além de não haver o reconhecimento legal das uniões homoafetivas, há uma forte rejeição e condenação ao amor entre pessoas do mesmo sexo pelas instituições religiosas seculares. Duplamente negado: pela justiça e pela igreja, o amor contratual manifesto por MIQUELE e LÉIA, MARCELO e ROBERTO, IVETE E ROBERTA, ANA MARIA E MEIRE é marcado pela transgressão.E talvez, neste contexto do termo transgressão, faça-nos sentido as palavras do Cântico dos Cânticos que diz no capítulo 7 e versículo 6:“Põe-me como selo sobre o teu coração, Como selo sobre o teu braço, Porque o amor é forte como a morte”. Dado em sentido pejorativo em nossa cultura, o verbo transgredir possa não ser quisto por muitos presentes. Contudo, quero recuperar esse verbo em sua ação que dá o tom certo ao ato do amor. Originado do Latim – transgredire – tem como sentido primeiro ir além, quebrar regras, desobedecer. Moisés foi transgressor, quando, em nome de Deus, desafiou o poder de Faraó e a cultura escravista dos egípcios para libertar o povo de Israel. Cristo foi transgressor, quando, na Cruz, rasgou o véu do templo e ultrapassou a lei judaica para garantir a salvação de graça a toda humanidade.Martinho Lutero foi transgressor ao desafiar o poder da Instituição Católica e garantir o direito a fé a todas as pessoas sem ter de pagar indulgências. Mahatma Gandhi foi transgressor, quando desafiou o poder colonizador da Inglaterra para garantir o direito a vida digna dos indianos. Rosa Parks foi transgressora quando desafiou as normas racistas dos Estados Unidos para garantir direitos iguais entre brancos e negros. Marthin Luther King foi transgressor ao combater o racismo nos Estados Unidos em defesa da igualdade pelos direitos civis. Harvey Milk foi transgressor ao lutar pelos direitos LGBT’s na California e combater a homofobia nos Estados Unidos. Mãe Menininha do Cantua foi transgressora quando, contra uma cultura religiosa exclusivista e racista, defendeu o direito e lutou pela manutenção dos terreiros de Candomblé. Nelson Mandela foi transgressor ao desafiar o apartheid na África do Sul, combatendo o racismo e defendendo a igualdade racial. Irmã Dorothy foi transgressora ao desafiar fazendeiros e exploradores criminosos da Região Amazônica em defesa dos camponeses e da reforma agrária. Pois é exatamente isso que fazemos neste dia: vamos além do que nos permite a lei brasileira, vamos

14 Mensagem da Celebração de Casamento Coletivo. Dario Ferreira. Disponível em < http://icmsp.org/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=123&Itemid=63> Acessado em 18 de junho de 2009.

114

quebrar a regra heteronormativa de nossa cultura e vamos desobedecer, em nome de Deus, o que nos é imposto pelas instituições religiosas, abençoando e reconhecendo a legitimidade do amor desses casais. E fazemos isso não apenas como um ato militante ou um ato de protesto, mas pela força do amor que traz diante de nós cada um desses casais. Ao penhorar diante de Deus este amor, fazem-nos testemunhas desse ato transgressor que desafia a moral repressora, que desafia a própria história e que buscam para si a isonomia, legitimando o amor que já vivenciam entre si. É por amarem-se que se dispõem publicamente a transgredir e contribuir para uma virada na nossa história brasileira. É por amarem-se que vão além do que é determinado socialmente como casamento. É por amarem-se que quebram e enfrentam as regras sociais. É por amarem-se que desobedecem a imposição das instituições para legitimar e declarar este amor publicamente. É este amor tão forte como a morte e tão real quanto a vida que possibilita a felicidade e a dignidade de se constituírem como um casal diante de Deus e da sociedade. O Reverendo Cristiano Valério, como ministro instituído por Deus, abençoará a cada um destes casais. Mas que possamos nós juntos dispensar nossas bênçãos como forma de reconhecimento e de legitimação deste ato. Que MIQUELE e LÉIA, MARCELO e ROBERTO, IVETE E ROBERTA, ANA MARIA E MEIRE, possam dizer neste momento: “Põe-me como selo sobre o teu coração,Como selo sobre o teu braço,Porque o amor é forte como a morte”.E que as bençãos de Cristo que nos amou infinitamente dando sua vida para cada um de nós sejam manifestas na vida desses casais. AMÉM!

A XIII Parada do Orgulho LGBT - “Sem homofobia, mais cidadania – Pela

isonomia dos direitos”, ocorreu em junho de 2009. As lutas do grupo LGBT contra a homofobia é uma das temáticas da manifestação deste ano. No site da Coordenaria de assuntos da Diversidade Sexual existem algumas informações relativas ao evento, inclusive o investimento que está sendo feito pela Prefeitura de São Paulo, R$ 550.000,00. A expectativa dos organizadores era de 3,5 milhões de pessoas para prestigiarem o evento, parte destes vindo do exterior.

A cidade de São Paulo organiza a maior parada do Pais, e o poder público se

orgulha de ter um Centro de Referencia de Direitos Humanos e Combate a Homofobia. Nas palavras do Secretário de Participação e Parceria, Ricardo Montoro 15 , a Parada é

um evento que reflete o respeito paulistano pelas diferenças.Vários eventos são realizados durante o mês de junho, entre eles o 7º Ciclo de Debates “Construindo Políticas para LGBT”; 9º Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade; 9ª Feira

15 http://portal.prefeitura.sp.gov.br/noticias/coordenadorias/diversidade_sexual/2009/06/0006

115

Cultural LGBT; 9º Gay Day; 7ª Caminhada Lésbica “Não se Cale! Ser Lésbica é um direito!”.

A presença da ICM nestes eventos e em outros como a 1ª Conferência Nacional LGBT, entre outros, revela que a ação da igreja se faz conjuntamente com as ações do movimento LGBT.

Desta forma o movimento vai se difundindo cada vez mais e a tendência é que o numero de adeptos cresça juntamente com a história destas igrejas inclusivas.

116

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através desta pesquisa foi possível nos aproximar um pouco desta nova construção religiosa denominada movimento inclusivo que tem dado origem a igreja inclusiva. A nossa proposta inicial de responder algumas perguntas relativas ao fenômeno pode ter sido completada parcialmente pela complexidade do tema e das relações do mesmo: políticas, religiosas, morais, sociais, etc. Tenho certeza que outros continuarão nesta busca de compreensão e elucidação acerca deste tema.

Na nossa pesquisa revelou-se que alguns fatores contribuíram para o surgimento em São Paulo destas igrejas inclusivas, entre eles a própria diversidade da religião no nosso País, fato que pode ser notado pela criação de inúmeras igrejas a cada ano.

Nestes tempos pós-modernos a religião secularizou-se e hoje ela atende ao mercado da fé procurando satisfazer todos os clientes. Há igrejas de todos os tipos, para todas as classes sociais, com diferentes linhas de ação, especializadas nos mais diferentes grupos da sociedade.

As grandes capitais são lugares de grande diversidade possibilitando facilidades para o surgimento de novos movimentos religiosos. Igrejas com discurso de apoio e aprovação para as minorias sexuais podem encontrar especial lugar para

117

proliferação no cenário religioso brasileiro, e em especial na cidade de São Paulo por ser ela considerada a cidade que concentra a maior população L.G.B.T. do Brasil.

A organização destas igrejas inclusivas segue modelos já existentes, mas por outro lado é algo que podemos considerar novo, porque de certa forma aplicam-se alguns conceitos atuais de liderança, permitindo uma maior flexibilidade na construção de ideologias e regras de comportamento.

No caso da ICM ela está no Brasil e possui uma estrutura de ligação com uma Fraternidade Universal de Igrejas, com sede nos Estados Unidos, e divididas por regiões espalhadas pelo mundo. Este fato dá a ela uma estrutura organizacional maior, bem diferente de outras comunidades inclusivas que são totalmente independentes.

O fator determinante para a criação de uma igreja com teologia inclusiva em defesa dos excluídos, em especial, os excluídos sexualmente, é a própria necessidade que o ser humano tem de buscar o sagrado. A religião cumpre um papel importante na vida de seus participantes que optam por ela revelando anseios e necessidades que podem ser preenchidos com a busca do sagrado: “A aproximação do ambiente religioso é motivada por razões advindas de registros distintos, geralmente associada a uma situação limite que leva à busca da religião como possibilidade de superação e de encontro de felicidade” (HEILBORN, 2005, p. 254).

A religião tem grande importância na vida destas pessoas pelo que ela representa: acolhimento, libertação, paz interior, direção, participação, sociabilidade. A necessidade de interação social é suprida na convivência do grupo pelo sentido de pertencimento e individualização que o mesmo possibilita.

Daí a importância de ver este fenômeno como social, pois a participação em grupos sociais reforça comportamentos e identidades.

Na medida em que o homossexual consegue efetuar contatos e descobre que existem outras pessoas na sociedade semelhantes a ele, também excluídos do grupo majoritário, ele tende a encarar de outra forma suas experiências, e ressignifica sua afirmação pessoal como homossexual, atrelando-se cada vez mais a essa categoria. (GREEN;TRINDADE, 2005, p.33)

118

O grupo no qual o sujeito está inserido tem o poder de catalisar os processos de inclusão e exclusão frente aos demais grupos: “A descoberta do grupo religioso é significada como a aquisição de uma nova família, regida por um modelo de relação de interdependência entre os membros, na qual a reciprocidade é um dos valores estruturantes” (HEILBORN, 2005, p. 252).

Assim a religião cumpre o seu papel socializador e ao mesmo tempo faz com que este grupo que sofre com a discriminação, o preconceito e até mesmo a homofobia, sejam agentes sociais na construção de um mundo melhor, de entendimento, diálogo, e ações mais justas.

Estas igrejas ajudam a construir uma nova visão das pessoas que fazem parte do grupo LGBT, na medida em que proporciona a eles outros valores, um compromisso maior com a sociedade, uma relação saudável com a espiritualidade.

Durante as celebrações cultuais que as igrejas realizam, sentimentos de alegria, paz interior, entusiasmo, confiança, auto-estima, são transmitidos através de canções, orações, repetições de textos bíblicos e ainda de pregações que visam trazer a mensagem divina aos corações dos fiéis.

Durkheim (1983, p.223) afirma que: “O culto não é simplesmente um sistema de signos pelos quais a fé se traduz para o exterior, ele é a coleção dos meios pelos quais ela se cria e se recria periodicamente”.

Observamos que as construções teológicas e filosóficas ficam em segundo plano em sistemas mais simples de religiões, e que isto é uma característica que se adquire com o desenvolvimento de tais sistemas. No seu nascedouro, a fé tem como objetivo suprir as necessidades básicas do ser humano, e influenciar diretamente nas suas ações concretas.

a verdadeira função da

religião é não é fazer-nos pensar, enriquecer nosso conhecimento, acrescentar às

Na observação de Durkheim (1983, p.221): “[

]

119

representações que devemos à ciência representações de uma outra origem e de um outro caráter, mas a de fazer-nos agir, auxiliar-nos a viver”.

O movimento está se difundindo rapidamente e a julgar pelas ações em várias

áreas da sociedade em favor da livre orientação sexual, estas igrejas devem experimentar um grande crescimento nos próximos anos, provocando ao mesmo tempo profundas discussões nas igrejas tradicionais.

O grupo que forma estas igrejas é formado por pessoas na sua maioria jovens o

que possibilita uma força de ação mais engajada. As igrejas são heterogêneas contando

com a presença de homens, mulheres e crianças, brancos e negros.

Não observa-se a predominância de orientação sexual, nem de raça nestas igrejas o que as torna bastante ecléticas. A participação não se limita ao grupo L.G.B.T., o que faz com que estas igrejas possam ganhar ainda mais adeptos.

A relação entre o movimento inclusivo e o movimento LGBT é notada de

forma ampla, no envolvimento das igrejas nas causas uns dos outros. Um exemplo claro disto é a participação e apoio da ICM na Parada Gay, e do apoio dos Grupos LGBT ao

trabalho das igrejas inclusivas. Desta forma, elas são formadoras de opinião, e sua visibilidade e conseqüente proliferação tem contribuído para a formação de uma nova mentalidade.

Da parte das igrejas tradicionais existem duas reações mais observadas: Uns não conhecem o movimento inclusivo, outros não querem conhecer. Há, porém aquelas que tem se manifestado num trabalho apologético contra estas igrejas e devemos começar a ter materiais nesta área em breve, procurando contestar aquilo que as igrejas inclusivas estão defendendo.

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Durkheim (1983, p. 231) afirmou:

Não existem evangelhos que sejam imortais e não há razão para acreditar que a humanidade futuramente seja incapaz de conceber novos. Quanto a saber o que serão os símbolos que virão a exprimir a nova fé, se se assemelharão ou não aos do passado, se serão mais adequados à realidade que terão por objetivo traduzir, esta é uma questão que ultrapassa a faculdade humana de precisão e que, aliás, não concerne o fundamento das coisas.

A sociedade é formada e ao mesmo tempo forma o ser humano. O mundo dos homens está em constante construção, alterando suas leis, seus paradigmas, suas culturas. Mudam-se os conceitos, muda-se o ser humano, muda-se a sociedade. E como dizia Heráclito: “Nada é permanente senão a mudança”.

121

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Acessado em 12 de maio de 2009.

127

ANEXOS

128

LEGISLAÇÃO

PROJETO DE LEI Nº 1.151, DE 1995

Disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo e dá outras providências.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º - É assegurado a duas pessoas do mesmo sexo o reconhecimento de sua união civil, visando a proteção dos direitos à propriedade, à sucessão e dos demais assegurados nesta Lei.

Art. 2º - A união civil entre pessoas do mesmo sexo constitui-se mediante registro em livro próprio, nos Cartórios de Registro de Pessoas Naturais.

§ 1º - Os interessados e interessadas comparecerão perante os oficiais de Registro Civil exibindo:

I - prova de serem solteiros ou solteiras, viúvos ou viúvas, divorciados ou

divorciadas;

II - prova de capacidade civil plena;

III - instrumento público de contrato de união civil.

§ 2º - O estado civil dos contratantes não poderá ser alterado na vigência do contrato de união civil.

Art. 3º O contrato de união civil será lavrado em Ofício de Notas, sendo livremente pactuado. Deverá versar sobre disposições patrimoniais, deveres, impedimentos e obrigações mútuas.

Parágrafo único - Somente por disposição expressa no contrato, as regras nele estabelecidas também serão aplicadas retroativamente, caso tenha havido concorrência para formação do patrimônio comum.

Art. 4º - A extinção da união civil ocorrerá:

I - pela morte de um dos contratantes;

II - mediante decretação judicial.

Art. 5º - Qualquer das partes poderá requerer a extinção da união civil:

I - demonstrando a infração contratual em que se fundamenta o pedido;

129

II - alegando desinteresse na sua continuidade.

§ 1º - As partes poderão requerer consensualmente a homologação judicial da extinção da união civil.

§ 2º - O pedido judicial de extinção da união civil, de que tratam o inciso II e o § 1º deste artigo, só será admitido após decorridos 2 (dois) anos de sua constituição.

Art. 6º - A sentença que extinguir a união civil conterá a partilha dos bens dos interessados, de acordo com o disposto no instrumento público.

Art. 7º - O registro de constituição ou extinção da união civil será averbado nos assentos de nascimento e casamento das partes.

Art. 8º É crime, de ação penal pública condicionada à representação, manter o contrato de união civil a que se refere esta lei com mais de uma pessoa, ou infringir o § 2º do art. 2º

Pena - detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.

Art. 9º - Alteram-se os artigos da Lei 6.015, de 31 de dezembro de 1973, que passam a vigorar com as seguintes redações:

"Art. 33 - Haverá em cada cartório os seguintes livros, todos com trezentas folhas cada um:

) (

III - B - Auxiliar - de registro de casamento religioso para efeitos civis e contratos de união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Art. 167 - No Registro de Imóveis, além da matrícula, serão feitos:

I

- o registro:

(

)

35 - dos contratos de união civil entre pessoas do mesmo sexo que versarem sobre comunicação patrimonial, nos registros referentes a imóveis ou a direitos

reais pertencentes a qualquer das partes, inclusive os adquiridos posteriormente

à

celebração do contrato.

II

- a averbação:

130

14 - das sentenças de separação judicial, de divórcio, de nulidade ou anulação do casamento e de extinção de união civil entre pessoas do mesmo sexo, quando nas respectivas partilhas existirem imóveis ou direitos reais sujeitos a registro."

Art. 10 - O bem imóvel próprio e comum dos contratantes de união civil com pessoa do mesmo sexo é impenhorável, nos termos e condições regulados pela Lei 8.009, de 29 de março de 1990.

Art. 11 - Os artigos 16 e 17 da Lei 8.213, de 24 de julho de 1991, passam a vigorar com a seguinte redação:

"Art. 16 (

)

§ 3º. Considera-se companheiro ou companheira a pessoa que, sem ser casada,

mantém com o segurado ou com a segurada, união estável de acordo com o parágrafo 3º do art. 226 da Constituição Federal, ou união civil com pessoa do

mesmo sexo nos termos da lei.

Art. 17 (

)

§ 2º. O cancelamento da inscrição do cônjuge e do companheiro ou companheira do mesmo sexo se processa em face de separação judicial ou divórcio sem direito a alimentos, certidão de anulação de casamento, certidão de óbito ou sentença judicial, transitada em julgado".

Art. 12 Os artigos 217 e 241 da Lei 8.112, de 11 de dezembro de 1990, passam

a vigorar com a seguinte redação:

"Art. 217. (

)

c) a companheira ou companheiro designado que comprove a união estável como entidade familiar, ou união civil com pessoa do mesmo sexo, nos termos da lei.

(

)

Art. 241. (

)

Parágrafo único. Equipara-se ao cônjuge a companheira ou companheiro, que comprove a união estável como entidade familiar, ou união civil com pessoa do mesmo sexo, nos termos da lei."

Art. 13 - No âmbito da Administração Pública, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal disciplinarão, através de legislação própria, os benefícios previdenciários de seus servidores que mantenham a união civil com pessoa do mesmo sexo.

131

Art. 14 - São garantidos aos contratantes de união civil entre pessoas do mesmo sexo, desde a data de sua constituição, os direitos à sucessão regulados pela Lei nº 8.971, de 28 de novembro de 1994.

Art. 15 - Em havendo perda da capacidade civil de qualquer um dos contratantes de união civil ente pessoas do mesmo sexo, terá a outra parte a preferência para exercer a curatela.

Art. 16 - O inciso I do art. 113 da Lei 6.815, de 19 de agosto de 1980 passa a vigorar com a seguinte redação:

"Art. 113. (

)

I - ter filho, cônjuge, companheira ou companheiro de união civil ente pessoas do mesmo sexo, brasileiro ou brasileira".

Art. 17 - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 18 - Revogam-se as disposições em contrário.

132

PROJETO DE LEI Nº 5.003-B, DE 2001

Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, dá nova redação ao § 3º do art. 140 do Decreto- Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e ao art. 5° da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e dá outras providências.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º Esta Lei altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, e a Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, definindo os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.

Art. 2º A ementa da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”(NR)

Art. 3º O caput do art. 1º da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero.”(NR)

Art. 4º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 4º-A:

“Art. 4º-A Praticar o empregador ou seu preposto atos de dispensa direta ou indireta:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Art. 5º Os arts. 5º, 6º e 7° da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 5º Impedir, recusar ou proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público:

Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos.”(NR)

“Art. 6º Recusar, negar, impedir, preterir, prejudicar, retardar ou excluir, em qualquer sistema de seleção educacional, recrutamento ou promoção funcional ou profissional:

Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos. Parágrafo único. (Revogado).”(NR)

“Art. 7º Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a hospedagem em hotéis, motéis, pensões ou similares:

133

Pena – reclusão de 3 (três) a 5 (cinco) anos.”(NR)

Art. 6º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida do seguinte art. 7º-A:

“Art. 7º-A Sobretaxar, recusar, preterir ou impedir a locação, a compra, a aquisição, o arrendamento ou o empréstimo de bens móveis ou imóveis de qualquer finalidade:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Art. 7º A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passa a vigorar acrescida dos seguintes art. 8º-A e 8º-B:

“Art. 8º-A Impedir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade em locais públicos ou privados abertos ao público, em virtude das características previstas no art. 1º desta Lei:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.” “Art. 8º-B Proibir a livre expressão e manifestação de afetividade do cidadão homossexual, bissexual ou transgênero, sendo estas expressões e manifestações permitidas aos demais cidadãos ou cidadãs:

Pena: reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.”

Art. 8º Os arts. 16 e 20 da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, passam a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 16. Constituem efeito da condenação:

I – a perda do cargo ou função pública, para o servidor público; II – inabilitação para contratos com órgãos da administração pública direta, indireta ou fundacional;

III – proibição de acesso a créditos concedidos pelo poder

público e suas instituições financeiras ou a programas de incentivo ao

desenvolvimento por estes instituídos ou mantidos;

IV – vedação de isenções, remissões, anistias ou quaisquer

benefícios de natureza tributária;

V – multa de até 10.000 (dez mil) UFIRs, podendo ser

multiplicada em até 10 (dez) vezes em caso de reincidência, levando-se em

conta a capacidade financeira do infrator;

VI – suspensão do funcionamento dos estabelecimentos por

prazo não superior a 3 (três) meses.

134

§ 1º Os recursos provenientes das multas estabelecidas por esta

Lei serão destinados para campanhas educativas contra a discriminação.

§ 2º Quando o ato ilícito for praticado por contratado,

concessionário, permissionário da administr