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VISÃO E VISTAS George William Bravo de Oliveira – FAETEC Soraya Barcellos Izar – UERJ – FAETEC

O presente trabalho visa registrar uma experiência com alunos de Ensino Médio da disciplina Desenho Básico - Introdução ao Desenho Projetivo, que tem como objetivo apresentar as diversas maneiras de representação de objetos tridimensionais em superfícies planas. A utilização de objetos e de imagens de objetos que estivessem presentes no cotidiano desses alunos e que de alguma forma que lhes fossem significativos (HOFFMAN, ESTEBAN E SILVA, 2003) foi recurso escolhido para a proposta deste trabalho, que teve a preocupação de abordar o conteúdo de maneira leve e estimulante. Os alunos que chegam à Fundação de Apoio à Escola Técnica - FAETEC possuem uma formação, do ponto de vista dos conteúdos, muito heterogênea. Oriundos de escolas da rede municipal, estadual e particular de ensino do município do Rio de Janeiro e de outros municípios vizinhos necessitam de uma espécie de nivelamento de alguns conteúdos específicos de geometria ministrados em séries anteriores, visando um melhor desempenho dos conteúdos específicos da disciplina de Desenho no Ensino Médio. Este é o objetivo do módulo de Desenho Básico de uma das escolas da rede FAETEC, a Escola Técnica Estadual Visconde de Mauá: nivelar estes alunos para depois apresentar, conceituar e desenvolver os conteúdos de Desenho Projetivo. Neste contexto, alguns alunos, que chegam para aula de desenho, mostram muita resistência. Reclamam da obrigatoriedade da disciplina, pois relacionam o desenhar com aptidão, com “jeito” e aqueles que não possuem esta aptidão acabam cursando a disciplina apenas para obter um grau que os aprovem. Estão acostumados com a cobrança acompanhada pela censura de não “desenhar bem” sem estímulo para a descoberta. Chegam para a aula sem vontade, tornando mais difícil a tentativa dos docentes em aproveitar seus conhecimentos prévios. O esforço dos professores concentra-se em mostrar tal necessidade e motivá-los. Enfatizar que o desenho é uma forma de comunicação universal; uma das formas de interagir com o mundo. Por isso, é necessário aprender a identificar tais imagens e perceber seu significado dentro de cada contexto: artístico, técnico, publicitário. Em suma, necessitamos apreender seu significado em um sentido mais amplo: o da Linguagem Visual.

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Nossa dificuldade inicial é motivar estes alunos a enxergar o que eles sempre

vêem 1 .

Somos todos bombardeados por uma quantidade imensa de imagens de todos os tipos: impressas ou digitais 2 , mas nem sempre identificamos o processo de construção, a maneira como o objeto tridimensional foi representado em uma superfície plana (bidimensional). Assim, em nosso primeiro contato em sala de aula, apresentamos formas e objetos diferentes, seus contextos e representações em diferentes áreas do conhecimento e fazemos uma nova leitura deste mundo de formas e representações gráficas.

leitura deste mundo de formas e representações gráficas. Obrigar o aluno a desenhar, colocá-lo de frente
leitura deste mundo de formas e representações gráficas. Obrigar o aluno a desenhar, colocá-lo de frente
leitura deste mundo de formas e representações gráficas. Obrigar o aluno a desenhar, colocá-lo de frente

Obrigar o aluno a desenhar, colocá-lo de frente para objetos que ele nem imagina sua função, como as peças de madeira exemplificadas em PEREIRA (1981), impede a troca de experiência entre os professores e alunos. Eles perguntam: “Para que serve esta peça?”. E nós respondemos simplesmente: “Isto é uma peça de estudo”. Uma resposta que não atende as expectativas do aluno e, muitas vezes, nem a do professor. Alterar a ordem do conteúdo programático da disciplina na ETEVM deu início a uma abordagem mais contextualizada das atividades. Concluímos que não deveríamos começar as atividades, partindo dos conceitos iniciais de Desenho Projetivo e da Geometria Descritiva. Já havíamos experimentado iniciar a abordagem do conteúdo pela forma tradicional (projeção de pontos, retas, planos) e percebemos que tal forma “assustava” os alunos. Faltava algo que fizesse a conexão da vontade de desenhar com a necessidade de utilizar o desenho como linguagem para criar imagens de comunicação. A percepção de tal lacuna não foi descoberta tão facilmente. Foi o resultado da troca de experiências entre os professores de Desenho da Escola, do aprimoramento pedagógico e pesquisa de alguns colegas. Também fomos incentivados por

1 Aqui usamos os dois verbos sinônimos em nossa linguagem com sentidos diferentes. Estamos entendendo que enxergar vai além do ver, isto é, enxergar é ver com significado, buscando elementos que aprofundem o ver.

2 Imagem digital do site: www.3donline.com.br; Cartaz da Bienal: www.3donline.com.br; Notebook:

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MONTENEGRO (1991), que aborda de forma muito leve e peculiar o conteúdo da Geometria Descritiva. O que antes dependia de uma introdução teórica para os conceitos básicos da Geometria Descritiva, foi trocado por experiências mais simples de observação e vivência dos conceitos. As peças de madeira foram trocadas por caixas, diversas embalagens de produtos e até brinquedos de montar do tipo LEGO que estão presentes em nosso dia a dia.

do tipo LEGO que estão presentes em nosso dia a dia. Peças em madeira existentes na
do tipo LEGO que estão presentes em nosso dia a dia. Peças em madeira existentes na

Peças em madeira existentes na escola reproduzidas de PEREIRA

em madeira existentes na escola reproduzidas de PEREIRA Peças de estudo montadas com LEGO ou com
em madeira existentes na escola reproduzidas de PEREIRA Peças de estudo montadas com LEGO ou com

Peças de estudo montadas com LEGO ou com caixas de embalagem diversas

Para uma aula inicial sobre os conteúdos Vistas Ortográficas, experimentamos usar objetos da própria sala de aula e dos alunos: caneta, caixinha de suco, garrafa de água mineral, lixeira da sala entre outros que estivessem ao alcance. Acreditamos que, ao utilizar objetos próximos ao cotidiano dos alunos, poderíamos aplicar os mesmos conteúdos, que eram anteriormente desenvolvidos com as peças de madeira, sem detrimento do processo ensino aprendizagem.

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Ilustrações da Projeção cilíndrica e projeção cônica, segundo MONTENEGRO
Ilustrações da Projeção cilíndrica e projeção cônica, segundo MONTENEGRO

Ilustrações da Projeção cilíndrica e projeção cônica, segundo MONTENEGRO

Através de esboços rudimentares iniciamos a representação com as “visões” (termo empregado por alguns alunos como sinônimo de vistas ortográficas), desta forma, trabalhamos o conceito de projeção através da observação dos objetos. Saímos de sala de aula e ao ar livre passamos a observar as sombras resultantes da luz do sol, depois voltamos para sala e analisamos as sombras projetadas por uma lanterna, conforme MONTENEGRO (1990) - conceitos de projeção cilíndrica ou paralela e projeção cônica.

de projeção cilíndrica ou paralela e projeção cônica. Rampa de acesso às salas de desenho da
de projeção cilíndrica ou paralela e projeção cônica. Rampa de acesso às salas de desenho da

Rampa de acesso às salas de desenho da ETEVM

cônica. Rampa de acesso às salas de desenho da ETEVM Fotos de exemplos de experiência co

Fotos de exemplos de experiência com a luz do sol e de uma lanterna

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A “visão” do caixa de suco resulta em um retângulo, a aresta da largura da caixa, que está de topo, vira um ponto; a sombra da lapiseira quando iluminada por cima é uma bolinha. Cada vista é uma imagem parcial do objeto. O mais importante é que aquele retângulo era o objeto que o aluno manuseou e a bolinha desenhada no caderno é a vista superior da lapiseira que está em sua mão. De maneira quase lúdica, porém significativa, os alunos conceituam as vistas ortográficas: frontal e superior de um objeto.

as vistas ortográficas: frontal e superior de um objeto. Caixa do suco que é distribuído como
as vistas ortográficas: frontal e superior de um objeto. Caixa do suco que é distribuído como

Caixa do suco que é distribuído como lanche

de um objeto. Caixa do suco que é distribuído como lanche Resultado da observação do objeto:
de um objeto. Caixa do suco que é distribuído como lanche Resultado da observação do objeto:

Resultado da observação do objeto: Vista frontal, lateral e superior.

Vista frontal Vista lateral esquerda Vista superior

Vista frontal

Vista lateral

esquerda

Vista superior

Vista frontal Vista lateral esquerda Vista superior

Paralelamente a esta atividade, aplicamos o conceito de escala natural, escala de redução e ampliação. A observação entre a relação entre as dimensões do desenho e do objeto. Usando uma régua simples podemos estruturar a relação (razão) entre as medidas do desenho e as do objeto desenhado e calcular o fator resultante desta relação, não queremos apenas instrumentalizar o aluno para usar o escalímetro. Nesta etapa incluímos o conteúdo sobre cotagem e suas regras elementares.

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6 Uma vez que os alunos possam trabalhar com objetos que estejam presentes na sala de
6 Uma vez que os alunos possam trabalhar com objetos que estejam presentes na sala de

Uma vez que os alunos possam trabalhar com objetos que estejam presentes na sala de aula, podem fazem relação direta entre objeto desenhado e desenho do objeto. Neste momento, podemos passar a outro nível de atividade e recorrer a objetos que não estão mais ao alcance dos olhos e sim de nossa memória. Objetos como móveis da casa dos alunos: geladeira, fogão, cama, armário e outros exemplos foram usados para exemplificar as vistas e escalas de representação, com o objetivo de preparar os alunos para desenvolver a tarefa de representar objetos.

Vista de copo descartável, introdução ao conceito de escala, cotagem e tipos de linha.

tarefa de representar objetos. Vista de copo descartável, introdução ao conceito de escala, cotagem e tipos
tarefa de representar objetos. Vista de copo descartável, introdução ao conceito de escala, cotagem e tipos

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A próxima tarefa teve como proposta medir um compartimento da casa e alguns móveis, dando continuidade à tarefa realizada em sala de aula e sendo enriquecida com outros tópicos do programa da disciplina. Solicitando aos alunos, que expressem as dimensões dos objetos em metros, centímetros e milímetros e calculassem o tamanho dos desenhos nas escalas de redução de 1:100 e 1:50. A representação em papel foi realizada feita com auxílio de uma régua graduada comum e os desenhos feitos à mão livre (sem o auxílio do par de esquadros), uma preparação para o próximo passo perceber a necessidade da precisão e do uso dos instrumentos.

Representação do quarto e da sala da casa em escala

Representação do quarto e da sala da casa em escala Na segunda fase desta expe riência,

Na segunda fase desta experiência, desenvolvemos o desenho definitivo com

os

esboços trazidos pelos alunos. Após a verificação dos resultados alcançados, ajustes

e

correções dos esboços são explicados a forma de manusear os instrumentos,

particularmente o traçado de retas paralelas, perpendiculares e oblíquas (com o par de esquadros), para desenvolvimento do desenho técnico, enquanto forma de comunicação entre o projetista e o executor do projeto. A atividade é enriquecida com a inclusão de outros modelos,como desenho de armários e arquivos, obtidos em folhetos de lojas de móveis, onde o aluno pode aplicar vários conceitos geométricos, tais como o da divisão de segmentos em partes iguais e proporcionais, conforme a ilustração abaixo. Com este tipo de exercício os alunos passam a enxergar a aplicação dos conceitos de geometria em objetos do seu

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cotidiano. A produção de imagens passa por um processo mais simplificado, tornando a abstração dos problemas algo mais próximo do universo do aluno.

Atividade Escalas e Traçado de Paralelas e Perpendiculares com esquadro: aluno de Desenho Básico 2007/1
Atividade Escalas e Traçado de Paralelas e Perpendiculares com esquadro: aluno de Desenho Básico 2007/1

Atividade Escalas e Traçado de Paralelas e Perpendiculares com esquadro: aluno de Desenho Básico 2007/1

com esquadro: aluno de Desenho Básico 2007/1 Atividades de instrumentação: Caligrafia Técnica,
com esquadro: aluno de Desenho Básico 2007/1 Atividades de instrumentação: Caligrafia Técnica,

Atividades de instrumentação: Caligrafia Técnica, Escalas e Divisão Gráfica de Segmentos: aluno de Desenho Básico

2007/1.

Atividades realizadas por alunos da ETEVM no 1º sem/2007
Atividades realizadas por alunos da ETEVM no 1º sem/2007

Atividades realizadas por alunos da ETEVM no 1º sem/2007

Este trabalho teve sua validade comprovada como introdução de um assunto que enfrenta vários problemas de aceitação para um público consumidor de imagens pré-fabricadas, que na maioria das vezes acredita que o computador resolveria todos os problemas e que o desenho feito à mão estaria condenado. Um público que não cogita a hipótese de que deve existir uma integração entre os ambos. Na realidade, nossa escola pública possui escassos recursos de equipamentos em todos os setores, inclusive no de Informática. E mesmo que tais recursos fossem eficazes, ainda é grande o numero de alunos ou de recém-formados que ainda não têm acesso aos recursos computacionais. Dessa forma, não podemos simplesmente deixar de desenvolver habilidades relacionadas com capacidade de raciocínio lógico, espacial e

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instrumental. Procuramos trabalhar atividades que objetivam desenvolver tais

habilidades e com os recursos que realmente possuímos: pranchetas, quadro de giz,

papel, régua, lápis, borracha. Os conceitos básicos são desenvolvidos para que em, um

segundo momento 3 , possam estar aptos a trabalharem com os recursos da computação

gráfica. Esta experiência quer demonstrar e ressaltar a qualidade de desenvolvimento de

habilidades em pessoas que não acreditavam ter capacidade para criar imagens gráficas.

Percebemos que, com essa abordagem, alguns resultados foram muito

positivos. Conseguimos nos aproximar mais dos alunos. Efetivamente a comunicação

fluiu. Apesar do índice de evasão de cada semestre letivo, podemos verificar que os

alunos que participaram dessa proposta e concluíram o módulo de Desenho Básico

ingressaram no módulo seguinte com menos lacunas de conteúdos e um pouco mais

seguros em relação ao uso dos instrumentos e aos conteúdos mínimos que precisariam

para um melhor subseqüente desempenho. Trabalhamos com o desenvolvimento de

atividades que sejam significativas aos alunos, com os recursos que nos são disponíveis.

Sabemos que a computação gráfica está evoluindo rapidamente, entretanto sem

conhecer os conteúdos mínimos para usufruir as facilidades que a tecnologia nos

proporciona, que tipo de cidadãos estaremos formando?

Esta é experiência cuja metodologia de trabalho busca de novos horizontes.

Acreditamos que é preciso pesquisar formas que viabilizem o processo ensino-

aprendizagem. Formas estas que nos aproximem dos alunos. Que mostre que o estudo,

particularmente de desenho, pode ser agradável e, também, ser útil a outras áreas de

conhecimento.

Referências:

HOFFMANN, J. ESTEBAM, M. T e SILVA. J. F. Práticas avaliativas e aprendizagens significativas. Porto Alegre: Mediação, 2003.

MONTENEGRO, A.G. Geometria Descritiva vol. 1. São Paulo: Ed.Edgard Blücher,

1991.192p.

A perspectiva dos profissionais. São Paulo: Ed.Edgard

Blücher, 1990. 155p

PEREIRA, A. Desenho Técnico Básico 6ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.

128p.

3 Na ETEVM, o modulo de Autocad® só pode ser feito após os módulos de Desenho Básico e Informática Básica.